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Sac Prof Gualandi - Mãe Assunta

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Filipe Rossatti
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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br
Sac. Prof. Gualandl
da Pia Sociedade de São Paulo

Mãe Assunta
Mãe de Santa Maria Goretti

I edição

Edições Paulinas

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Imprimatur
t Edmundo Luiz Kunz
Bispo Auxiliar e Vigãrio Geral do Arcebispado
Pôrto Alegre, 13 - 11 1956
-

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Quem será esta mulher que
-teve o privilégio único até então, de
ver uma filha Santa?
-que foi recebida pelo Santo Padre co­
mo rainha?
-que foi ao túmulo acompanhada por
sete Bispos e, em relação à aldeazinha, nu­
meroso clero e imensa multidão?
Era uma princesa?
Um lumiar de ciência?
Uma mulher poderosa?
Uma estrêla de beleza?
- Mas então, quem era?
-Que fez?

Mãe Assunta era também um pouco mi­


nha mãe: tínhamo-nos familiarizado desde
que comecei a tratar pessoalmente com ela

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para escrever a biografia da sua Mariazinha.
Naturalmente, falava então da filha, mas a
meu pedido, narrou-me também a sua pró­
pria história, história que eu agora comple­
tei sôbre documentos existentes e com teste­
munhas diretas, porque Assunta, por uma
modéstia natural, pelas vicissitudes da vida
e também pela idade, nem sempre foi exata e
completa.

:É uma história « humana » da qual


veio à luz « Mariazinha », verdadeira « bor­
boleta angélica ».

Embora Mãe Assunta me recomendasse,


principalmente nos últimos tempos, « não
fale de mim, mas só de Mariazinha, porque
ela é santa enquanto eu sou uma pobre peca­
dora », desobedeço às suas amorosas reco­
mendações e eis quanto me narrou acêrca
de si mesma.

6
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I

Nasci na Senigallia, província de Ancona,


dia 15 de agôsto de 1866 e fui batizada ime­
diatamente pela parteira com os nomes de
Assunta Angiolina Ida.
Mas, entre as desventuras que podem a­
cometer uma criatura, eu deveria ter a ma­
ior: não conheci mãe e nunca pude saber
quem fossem meus pais. Nem mesmo minha
mãe, quem sabe por que oculta tragédia
e talvez entre quantas lágrimas, não pode ou
não quis reconhecer-me por filha.
Fui, portanto, levada, não sei por quem,
ao« Conservatório», isto é, ao Orfanato.
Quando estava para me casar, fui o­
brigada a procurar os papéis, e foi assim
que encontrei os primeiros documentos cer­
tos a meu respeito, pois que conversas já
ouvira muitas, também antes.
Meu documento do « Conservatório»
(ou Orfanato) traz o n9 3.520 e reza o se­
guinte:

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« Senigallia, dia 16 de agôsto de 1866
foi entregue à esta Pia Casa uma criança de
sexo feminino, envolta em pobres panos que
parecia ter nascido no dia anterior.
Ontem às 8 horas e 45 minutos da tar­
de por pessoa incógnita esta menina foi dei­
xada na roda desta Pia Casa, com uma car­
tinha onde se lê:« foi batizada em casa-de­
ve ser chamada Assunta Angiolina Ida».
1!:ste pequeno papel ainda se conserva
e eu o vi: é retangular, branco, dobrado em
quatro; a caligrafia é grossa e forçada como
a de wn semi-analfabeto e as palavras or­
togràficamente estão escritas assim:
« estata Batizada in chasa
Si deve chiamare
Sunta angiolina ida».
nada mais.
A certidão de Batismo diz:
« Casa dos Engeitados em Senigallia
Senigallia, 16 de agôsto de 1866 -quin-
ta-feira.
Assunta Angiolina Ida Carlini, filha En­
geitada, encontrada na roda desta Casa,
ontem às onze horas da tarde, por necessida­
de foi batizada pela Parteira Rosa Musehini
e por mim, abaixo assinado, foram-lhe con­
feridas as cerimônias habituais. Serviu de
madrinha a ama Albina Fuviani.
Frei Bartolomeu Capp»!

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As cerimônias completivas foram-me
conferidas na igreja de São Pedro, catedral
da Senigallia. Portanto, o sobrenome« Ca.rli­
ni » foi-me dado no Orfanato, não é o meu: e
é por não tê-lo que, em diversos documentos
sou chamada com diferentes sobrenomes:
Esposta, Casagrande, Ca.rlini, Esposito, etc.
todos se equivalem e que então significavam
«ilegítima » ou filha de N. N., como atual­
mente se diz.
No mesmo dia 16 de agôsto fui confiada
à ama do« Conservatório », mas quatro dias
depois, dia 20, fui entregue à senhora Rosa
Riccardi de Montuado« com a recomendação
de criá-la, nutri-la, educá-la, mediante a re­
muneração de L. 10 » diz o escrito.
Não sei por que motivo, talvez por doen­
ça, da casa de Montuado fui novamente leva­
da para Senigallia, dia 8 de novembro e logo
no dia seguinte, consignada à senhora Vit­
tória Bacchini di Tomba, com a qual fiquei a­
té aos 9 de julho do ano seguinte 1867, quan­
do fui entregue à senhora Santa Pacenti di
Montalbordo (atualmente Ostra) com a qual
permaneci até a idade de cinco anos, precisa­
mente até 17 de junho de 1872. Depois disso
fui terminar em Corinaldo.
Aí viviam dois bons aldeões « Aguzzi
Vincenzo » com quase 50 anos (nascera dia
4 de janeiro de 1823) e sua espôsa « Segoni

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Maria» que contava mais de 63 anos (nasce­
ra dia 10 de março de 1809), cognominados
« Gatarelli ».
Não tendo filhos, o casal resolveu ado­
tar wna menina do « Conservatório » tam­
bém porque a saúde de dona Maria tornava­
se cada vez mais fraca.
Desejavam praticar uma bôa obra e ao
mesmo tempo garantir-se um auxílio para a
velhice.
Provàvelmente foram também aconse­
lhados, e o fato é que vieram para Senigallia
e fizeram o pedido.
O « Conservatório » porém, antes de en­
tregar a enjeitada à uma família, toma tô­
das as informações para certificar-se da ga­
rantia da manutenção e da educação da pe­
quena. . . Tais informações deu-as o Vigário
de Corinaldo Pe. Domingos Coltorti, depondo
por escrito, dia 27 de abril de 1872, ser a fa­
mília Aguzzi « colonos de bôa conduta, que
vivem bem com o produto de suas terras ».
A partir desta data minhas reminicên­
cias são mais claras e precisas.
Tenho presente a viagem que fiz de Seni­
gallia a Corinaldo, com um cavalo do Trans­
porte público.
A casa dos Gatarelli, situada no bairro
S. Bartolo, era a de um colono de então: par­
te de tijolos e parte de madeira, atualmente

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classificá-la-íamos de miserável, com poucas
comodidades. Conúamos como qualquer ou­
tro pobre da época: pão de ervilhaça e bolo­
tas, muita polenta, legumes, leite, queijo, al­
guns ovos, raras vêzes carne.
Meus pais adotivos queriam-me muito
bem e tratavam-me como se fôsse realmen­
te sua filha, tanto assim que, por muito tem­
po, nem siquer suspeitei não o ser.
Sobretudo os Aguzzi eram bons cris­
tãos: rezavam tôdas as manhãs e tôdas as
noites; faziam o sinal da cruz antes e depois
das refeições, e à noite, antes de deitar, re­
zavam o terço. Aos domingos e dias santos
não faltavam a missa e à tarde assistiam
às Vésperas e ao sermão do Pe. Vigário.
Quando havia Missões ou alguma outra fun­
ção particular, nunca faltavam.
Era costume em Corinaldo: todos fa­
ziam assim.
Quando maiorzinha, mandaram-me às
aulas de catecismo e aprendi tão bem que o
ensinei aos meus filhinhos e me lembro dele
ainda agora. Além disso, o Vigário era rigo­
roso: êle mesmo fazia questão de examinar­
nos tôdas as vêzes e ensinar aos maiores; ai
de quem faltasse!
Lembro-me que aos sete anos recebí a
Crjsma, na igreja paroquial: foi uma festa

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maravilhosa! A primeira. Meus pais, para a
ocasião, fizeram-me um vestido novo e rece­
bi alguns presentinhos: sei que aquêle dia
passei-o muito contente. Não é necessârio
grandes coisas para fazer feliz uma criança !
Até então tudo ia muito bem, não obs­
tante a pobreza, mas depois adoeceu a ma­
drinha (assim me haviam ensinado a chamá­
la) e então fui obrigada a fazer tudo: ir ao
campo com as ovelhas e também com as va­
cas (tinham seis ovelhas e quatro vacas) ,
devia tratá-las e mungi-las, cuidar da casa
e da doente. A senhora Maria não era dessas
melindrosas enjoadas, mas pode-se imaginar
como se vai, quando se está doente ! ... Natu­
ralmente a doença da madrinha nos levou
ao empobrecimento: gastos com médicos
e remédios, uma alimentação um pouco me­
lhor, alguma comodidade a mais, etc. Foi as­
sim que, mais tarde, fui constrangida a ca­
var a terra.
- A escola? Em frequentar a escola
não se falava e muito menos para gente das
nossas condições. Naquêle tempo iam so­
mente os filhos dos Senhores ; o povo, como
nós, pobrezinhos, não conhecia as salas de
aula e os que aprendiam algo era porque lhes
ensinava, à noite, algum sacerdote (em Co­
rinaldo havia vários) e geralmente o fazia

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em vista do serviço militar ou da imigra­
ção.
Com onze anos fiz a primeira comunhão,
mas como (segundo jâ disse) jâ haviamos
decaido da nossa condição, fui obrigada a
fazê-la com um vestido emprestado; só os
sapatos eram meus e a vela que ma deu a
madrinha.
Não tenho lembrança de haver recebi­
do presentes.
Como é para se imaginar, desde que a
doença entrou em nossa casa, as coisas fo­
ram de mal a pior: fomos constrangidos a
morar na colônia em uma espécie de chou­
pana de palha e barro.
Para dar uma idéia de nossa pobreza,
contarei o fato seguinte: Jâ hâ tempo alimen­
tava eu grande desejo de possuir um avental­
zinho novo para os domingos: vira-o em
uma amiga e devorava-me o desejo de man­
dar fazer um igual.
Pedi aos pais e êles não mo negaram,
contanto que o comprasse com o meu dinhei­
ro. Puz-me então de corpo e alma a traba­
lhar.
Fui trabalhar por dia, fazia algum ser­
viço extraordinârio à tarde e à noite e tam­
bém alguma coisa aos domingos, depois da
reza, no tempo que me restava; tinha-o jâ
adquirido. . . Quando o demônio ...

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Uma tarde, como sempre, fui com um
cântaro buscar água para tomar, (perto da
casa havia somente um poço com água de
chuva que servia para os animais e para
lavar, mas não para tomar) escorreguei, caí
e... quebrei o cântaro ! As lágrimas que der­
ramei, quem as poderá contar ?
E no entanto tive que gastar o que com
tanto sacrifício ganhara, para comprar o
cântaro e. . . adeus aventalzinho !
Maraquelas ? Não lembro nenhuma em
particular: queriamo-nos realmente bem e
então tinha-se para com os pais o máximo
respeito. Lembro-me porém, de uma vez,
que desobedeci para ir dançar. Eu já era
v ma mocinha, do tamanho de agora; uma
nmiga convidou-me: eu também não deseja­
va ir porque meus pais não queriam abso­
lutamente, mas naquela vez deixei-me ven­
cer. Dancei um só « tango » como se fazia
naquele tempo e logo depois regressei. Meus
pais ficaram sabendo: abra-te céu ! e depois
de tudo o sermão de Pe. Vigário. Não sei
quanto chorei ! O fato é que aquêle foi o pri­
meiro e o último baile da minha vida.

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li

A minha juventude foi muito dura e pe­


nosa, devido em parte à estrema sensibili­
dade do meu coração, em que repousava um
grande sofrimento, um vasio incalculável,
doloroso:
não conhecer pai;
não conhecer mãe;
viver sempre em casa alheia.
Nunca uma carícia, um beijo, um pre­
sente!. ..
Não me tratavam mal, antes queriam­
me muito bem, mas era sempre considera­
da como estranha « a enjeitada », mantida
por caridade, pouco mais do que uma empre­
gada. � sempre pesado ser empregada e tan­
to mais na colônia!
Devia adaptar-me ao alimento, ao ves­
tuário, ao horário; pertenciam-me os tra­
balhos mais pesados e ingratos; devia ser
a primeira a se levantar e a última a deitar­
se, se havia algo repugnante, tocava a mim.
certamente.
Nunca pude pedir uma tarde livre, al­
guma hora a mais de descanso, ou algum di­
vertimento.
Devo porém confessar que a família
Gattarelli trabalhava seriamente; não lo­
grava nem sequer um momento de descanso

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ou de divagação ; nem siquer o podia ; mas
êles o faziam para si, e eu para quem?
Contudo esta vida sacrificada teve tam­
bém suas vantagens: aprendi a fazer de tu­
do: cuidar de crianças ; trabalhar de manhã
à noite ; lavar roupa ; remendar ; costurar ;
fazer pão ; preparar os alimentos e também
lavrar os campos. Aqui as senhoras costu­
mam ajudar os homens nos trabalhos agrí­
colas, embora pesados, e, se necessário, co­
mo foi durante a guerra, os substituiam-.
Foi-me providencial uma juventude sa­
crificada, pois se não tivesse habituada a fa­
zer um pouco de tudo, como teria podido sus­
tentar a família, quando enviuvei?
Como já disse, nunca pude estudar: na
época, as escolas eram raras e frequentadas
por poucos privilegiados, mas o catecismo
aprendi-o de cor e o sei ainda. Assim aprendi
as orações que mais tarde ensinei a meus fi­
lhos, e também a fazer algumas contas.
Quanto aos princípios morais, antes
mesmo que o Vigário e o Catecismo mos en­
sinassem, já a educação os imprimira em
minha alma: eu era filha de uma mãe «quei­
mada,. e todos sabem que o gato, uma vez
escaldado com água quente teme até a água
fria. Mesmo como noiva ter-me-ia deixado
matar antes que pecar! E esta educação foi a
que dei as minhas filhas, como demonstrou

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Maria. Os últimos anos antes de casar-me
foram os piores que passamos: parecia que
tôd�s as desgraças caíssem sôbre nós.
Devo dizer que encontramos dificulda­
des até para nos manter, a ponto de sermos a­
judados pela Prefeitura e pela caridade pú­
blica. Lembro-me ainda de um inverno,
quando aquêle bom homem, presidente das
obras caritativas de Corinaldo (do qual não
recordo o nome) , foi ter à nossa moradia,
transpondo a muita neve daquele ano excep­
cionalmente frio. Levava êle às costas uma
grande mo�hila com mantimentos.
Lembro-me também que outras muitas
vêzes nos ajudaram o Pe. Vigârio, as Irmãs
e também a Administração Pública.
Transcorria assim minha juventude: os
moços, de boa vontade, espreitavam-me mas
éramos tão pobres ! até que um, da nossa
mesma condição, Luiz Goretti, decidiu-se e
veio a minha casa.

Luiz era natural de Corinaldo, mora­


va com os pais em S. Vicente e contava sete
anos mais que eu ( nascera a 26 de dezem-
:.1 Mil.e Assunta
-
17
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bro de 1859). Era êle muito conhecido, assiin
como os seus.
Nada possuia, com excepção de dois bra.:.
ços para trabalhar e quando começamos a
namorar êle trabalhava como empregado no
campo de um colono, seu vizinho.
Era um jovem sério, analfabeta êle tam­
bém, de poucas palavras mas bom e pacífico :
nunca se zangava.·Todos falavam bem dêle.
Não blasfemava, não possuia vícios, não vi­
via no bar, era cavalheiro, ía à Missa aos do­
mingos e recebia os Santos Sacramentos vá­
rias vêzes durante o ano, como é costume
ainda agora em nossa terra. Tôdas as ma­
nhãs rezava as suas orações, mesmo indo
para a lavoura ; à noite, com a família reza­
va o terço e, antes e depois das refeições,
benzia-se. Na sua casa todos procediam as­
sim porque a mãe era uma mãe às direitas.
Como trabalhador era «Um pé de boi »;
em caso de trabalho urgente os patrões dis­
putavam-no.
De resto, se não fôsse um verdadeiro
cristão e um bom trabalhador, certamente
não me teria casado : quem queria quebrar
a espinha dorsal e pôr em perigo o corpo e
a alma ? O matrimônio é uma coisa séria,
muito séria!
E, atualmente tomam-no. quase como um
espor-te, mas é um. esporte no, qual se joga.

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a vida ! Depois é muito tarde. Digo-o sempre
às jovens que vêm visitar-me.
Depois que começamos o namôro e Luis
soube que meus pais consentiam, visitava-me
todos os domingos de tarde e conversávamos
eni casa, na presença de todos.
Nunca saí só, com êle : também porque
naquele tempo não era costume e mesmo
não mo permitiriam. Além disso, naquela
época o namôro durava pouco: namoramos
só quatro mêses, tempo que passei preparan­
do um pequeno enxoval, conforme permitia
minha pobr� condição.
Estudei também o catecismo, porque
antes de casar o Vigário exigia um exame e
era necessário sabê-lo.
Casamo-nos dia 25 de janeiro de 1886 na
Paróquia de S. Pedro : o celebrante foi Pe.
Emanuel Marcucci.
Foram núpcias de pobres: assistimos
à santa Missa; ambos comungamos e rece­
bemos a bênção nupcial. Naquele tempo da­
va-se muita importância a certas coisas . .

e para os filhos « enjeitados » não havia ser­


mão . . .
Regressamos também a pé, jogando os
« confeitos » às crianças e aos curiosos ; o
almôço das bodas foi na minha casa, na fa­
mflia dos Aguzzi e à tarde acompnharain-

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me até à casa de Luis, que, como jã disse, mo­
rava perto, na vila de S. Vicente.
Dei-me bem com a madrinha de Luis
e o irmão e prosseguíamos discretamente.
Trabalhãvamos como sócios de um certo se­
nhor Nicolau Cicerone; possuíamos quatro
hectares de terra, quatro vacas e um redu­
zido número de animais domésticos. Dava
para viver e eu continuava ajudando meus
velhos pais Gattarelli. Além disso o « Conser­
vatório» enviou-me o subsídio dado aos «en­
jeitados» que o merecessem : eu recebi L. 106,
40, no dia 24 de março de 1886, com a ordem
de pagamento N. 19. Era uma quantia bas­
tante discreta e nos favoreceu muito.
Onze mêses após o nosso matrimônio,
veio à luz o primeiro filho, Antoninho : Lem­
bro-me daquela data como se fôsse agora 30
de janeiro de 1887 ».
Imensa foi a nossa felicidade : era ho­
mem bonito, robusto. Logo foi batizado com
o nome de Antônio (familiarmente nós o cha­
mãvamos « Antoninho »; amamentei-o e sob
os meus olhares crescia e fortificava-se.
Mas, na terra, ninguém deve ser feliz :
com oito mêses veio a falecer e ainda não sei
de que doença! ...
Talvez Deus o tenha levado para dar­
nos um protetor no céu, conforme me disse
o Pe. Vigário, quando veio para o entêrro,

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mas a dor foi dilacerante. Foi sepultado no
cemitério de Corinaldo.
Dia Z7 de agôsto de 1888, nasceu Ân­
gelo, aquêle que está na América; dia 16 de
outubro de 1890, Maria Teresa que apelida­
mos « Mariazinha », a mártir; dia 27 de ja­
neiro de 1893, Mariano e dia 30 de julho de
1895 Alexandre que foi também para a A­
mérica, onde morreu. Os demais não nasce­
ram aqui.
Antes do naf)cimento de Mariazinha já
tínhamos mudado residência e Patrão; pas­
samos a morar na Vila Pregiagnia e conosco
foi também o irmão de Luis cujo nome era
Santino e que logo depois se casou com Ma­
riazinha Mazzola e constituiu família.
·

O sítio de Pregiagnia era menor: três


hectares; também aqui tínhamos vacas, ani­
mais domésticos e duas ovelhas. A casa era
como se a vê agora: de pobres mas, sofrí­
vel. Não possuíamos poço, somente um açu­
de com água da chuva; água potável ía­
mos buscar em casa de um vizinho.
O primeiro dono dêste sítio foi um cer­
to Ricci e depois a família Sabbatini Mon­
tenovo, atualmente chamada Ostra Vetere.
Nesse tempo a madrinha já havia fale­
cido e seu marido Luis já se sentia muito
acabado: para não nos ser de pêso e para ga­
rantir-se melhor a.�sistência, resolveu inter-

21
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nar-se num Asilo. De nossa parte, com mui­
to prazer queríamos tê-lo em nossa compa­
nhia, meu marido também mostrava-se sa­
tisfeito, mas pobres como éramos e com cri­
anças pequenas, pode-se imaginar que com
a mellior bôa vontade faríamos o possível,
mas não era suficiente.
- Sim, morreu no Asilo.

IV

Em 1896 viria a Corinaldo o nosso Bispo


( aquêle de Senigallia), em visita Pastoral
e então o Vigário quis que fizéssemos cris­
mar os nossos dois filhos maiores. De muita
bôa vontade consentimos. Começaram a fre­
qüentar diàriamente o Catecismo e eu mes­
ma, à tarde, tomava a lição decorada.
Para Mariazinha, porém, como era ainda
muito pequena, foi pedida a dispensa. Assim,
dia 4 de outubro de 1896, quando S. Excia.
Mons. Júlio Boschi chegou, tôda a pequena
Vila entrou em festa: houve Primeiras Co­
munhões, concurso de Catecismo, procissão
e Crismas, e entre os crismados, Angelo e
Mariazinha. Na mesma ocasião fizeram tam­
bém a primeira Confissão.

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=Cêrca de meio ano mais tarde, o nosso
Patrão nos disse que providenciássemos um
outro lugar porque tencionava sistematizar
diferentemente sua terra e não nos seria pos­
sível parciar no próximo ano, (1897).
Na verdade, parece-me ter sido em 1896
e que tínhamos feito crismar Ângelo e Maria­
zinha em vista de nossa mudança que deve
ter sido dia 28 de outubro, mas o Bispo Ale­
xandre Marinelli�ncontrou escrito em seus
livros, 1897. Talvez seja mais exato porque
pode falhar-me a memória, todavia eu per­
sist9 na minha opinião que tenha sido em
1896. (1) entretanto o fato é que, quando o
Patrão nos licenciou, fomos constrangidos a
procurar uma sistematização.

Não posso falar da nossa preocupação!


Eu e Luis sempre nos quisemos bem e tôdas
as nossas decisões eram formuladas de co­
mum acôrdo.
Luis pensava em trabalhar e ganhar
para a família; (levar a casa para frente e­
ra meu pensamento e dever) assim a nos­
sa combinação para o futuro foi mútua.
Na vila não havia modo de melhorar, por

. (1)- No Estado d'almas encontrei escrito 1897 e


sôbre esta data concordam três testemunhas videntes in-
·

terrogadas por mim pessoalmente. N. D. R.

23
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isso pensamos em emigrar. Naturalmente,
antes de decidir tratamos dos prós e con­
tras e filnal.mente pendemos .para o sim.
Pedimos diversos pareceres e a coisa
mostrou-se conveniente mais para os filhos
do que para nós.
Muitos habitantes de Corinaldo emígra­
ram para a América onde encontraram a sor­
te ; para nós, atravessar o Oceano com quatro
filhos e sem um dinheirinho, era impossí­
vel. Sobrecarregar-nos-íamos de dívidas· e
quem nos daria fiança? Também as dívidas
é necessário podê-las fazer.
Na América, portanto, não ; podia-se
ir para a Campanha Romana ; freqüente­
mente apareciam engajadores: asseguravam
viagem, hospedagem, as primeiras despesas
e faziam bôas propostas. Naturalmente o la­
do feio da coisa (a malária) não o mostra­
vam, mas nós também não éramos tão atra­
sados para não pensar que emigrar é sempre
dar um pulo no escuro. Todavia quando con­
seguimos alistar-nos para uma quinta do
Senador Scelsi, e os pactos nos agradavam,
aceitamos.
Antes de partir, fomos cumprimentar o
Vigário, Pe. Alexandre Marenelli, que nos
abençoou, apresentou-nos seus augúrios e o­
fereceu-nos um presente « para que não nos
esquecêssemos de Corinaldo », disse. Num

24
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domingo, fizemos uma peregrinação ao San­
tuário de Incancellata, a fim de que Nossa
Senhora nos tomasse sob sua proteção.
Partimos dia 28 de outubro de 1897 ( se­
gundo atestam os livros do Vigârio, embora
me pareça ter sido no ano anterior, 1896,
como já disse).
Viajamos com a diligência até Senigal�
lia, depois com o trem até Roma e novamente
a cavalo de Roma a Paliano.
4
Era a nossa primeira viagem de trem.
Não nos emocionamos milito: nós ' (eu
e meu espôso) tínhamos preocupações, mas
os filhos, ansiosos, se colavam à janela e di­
vertiam-se a valer vendo o rápido escapar
das árvores. Falávamos também com os de­
mais viajantes: procurávamos informações
acêrca do que nos aguardaria a nova vida,
mas tôdas as notícias eram bôas; talvez o fi­
zessem para animar-nos ou porque êles mes­
mos, como nós, nada soubessem. Comíamos
do que levávamos; para tomar, tiramos á­
gua das fontes nas estações; o trem parava
freqüentemente e dava muito tempo para is­
so, quando estava para partir dava o sinal
e. . . uma corrida.
- Não, ninguém sentiu-se mal na Via­
gem. A bagagem era pouquíssima, primeira­
mente porque éramos pobres, muito pobres,

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e porque alguma coisa tínhamos vendido pa­
ra lucrar algum dinheiro para qualquer e­
ventualidade.
O que não pudemos vender entregamos
aos parentes, principalmente a um meu cu­
nhado, Santino. Combináramos também que,
se as coisas nos corressem bem, chamaría­
mos Santino para trabalharmos juntos.
Chegados em Roma, não distávamos da
estação: aonde iríamos naquelas condições,
com crianças, bagagem, sem prática e sem
dinheiro?
Quando chegou a carroça da quinta do
Senador, partimos logo e fomos diretamen­
te à «cascina di Colle Gianturco».
Aqui, as angústias e os desenganos já
nos esperavam, a hospedagem era miserá­
vel, mas sofrível, porém, longe de todo o con­
fôrto, devíamos comprar tudo, até a salsa e
a salada porque não possuíamos nem siquer
um palmo de terra onde cultivar algo para
a família.
O pagamento era conforme ao que ha­
viam prometido e não teria sido mau, mas
quem trabalhava era só Luis e o dinheiro
nunca chegava e, creia-me, era um problema
chegar ao sábado de tarde!
Conosco havia também outras famílias
das Marcas, gente bôa e trabalhadeira, e cu­
jas condições de- vida eram semelhantes às

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n<>Ssas. Atualmente nem podemos fazer idé­
ia da míséria na qual viviam os pobres daque­
le. tempo. Todos, porém, nos queríam bem e
o:Senador nos estimava; quando quis alugar
a qufuta fê-lo às famílias das Marcas.
A terra que nos tocou era uma colina
muito fért;l, embora um tanto pedregosa;
os contratos eram muito humanos; o Patrão,
o melhor que se pudesse imaginar. Era, po­
rém, necessário muita coragem para assumir
tais compromissos, diante do Patrão: nós
não ousamos. Quem realmente acertou o a­
luguel foi João Serenelli 'e foi êle quem nos
convidou para sermos sócios.
Que fazer? �les também eram da pro­
víncia das Marcas, ali habitavam há mais
tempo do que nós e muitas outras famílias
da mesma província trabalhavam em socie­
dade com bom êxito. João era homem esti­
mado por todos e saía-se bem com tudo e
com todos. Por êste motivo Luis e eu, coagi­
dos pela necessidade, aceitamos de olhos fe­
chados e como uma graça, o poder partilhar
com êle: casa, trabalho, interêsses. De outra
forma estaríamos na rua.
O Senador, logicamente, reconhecia a
Serenelli e tratava com êle com o qual con­
cluíra o contrato e não se importava com os
sócios.
Finalmente, quatro mêses após o con-

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trato, João desistiu sob o pretexto de rigi­
dez demasiada.
A realidade porém era que, sendo o Se­
nador muito bom e morando longe, muitos
comiam à sua custa com prejuízo dos inqui­
linos. Foi então que João desgostoso com a
administração do Senador, protestou e de fa­
to tinha razão. Mas a administração comu­
nicou logo ao Senador em Roma e só Deus
sabe o que lhe disse: o resultado foi que, de­
pois, o Senador não quis ouvir as nossas ra­
zões e, sem mais nem menos, despediu Sere­
nelli e nós, seus sócios.
-Sim, julgo que se João tivesse falado
pessoalmente com o Senador, tudo se teria
resolvido bem.
Devo também acrescentar que, enfren­
tamos o primeiro aluguel sem nenhum cen­
tavo; éramos pobres de meter dó, também
sem meios para o trabalho, por isso nos en­
contramos em dificuldades espantosas e na­
queles primeiros mêses não nos sobrava nem
sequer para uma miserável fatia de polenta.
Como base do litígio com a administração
estava o interêsse e todos sabem que com a
fome pouco se raciocina.
Era fevereiro quando fomos despacha­
dos; quem nos contrataria agora que a se­
menteira estava concluída? e tanto mais que
tínhamos sido despedidos por culpa nossa! ! !

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Era dificílimo arranjar ocupação; düicili­
mo encontrar uma casa, 11m terreno, urgia u­
ma combinação, isto é, algo que ninguém
tivesse aceitado, uma terra para desespera­
dos.
Esta foi precisamente a que João Sere­
nelli encontrou, propriedade do Conde Ottilio
Mazzoleni, no centro da Campanha Romana,
naquele tempo assolada pela malária.
Voltar para Corinaldo, nem era conve­
niente pensar, por isso achamos providen­
cial o contrato de Mazzoleni e assim segui­
mos os Serenelli nas mesmas condições de
Paliano.
Aqui as coisas eram melhores : Mazzole­
ni encarregava o meu Ângelo de algumas
encomendas, dava-me trabalho e nos retri­
buía com pão de trigo para que, enrobuste­
cendo-nos, resistíssemos à malária e nos an­
tecipava também alguns pagamentos. Além
disso nos dava, grátis, os remédios (que lhe
mandava o govêrno) antes, obrigava-nos a
tomá-los.
Sofremos muito em Paliano, mas, ter
que acabar na Campanha era uma tortura;
eu não conseguia conter o pranto; foi então
que Luiz, aparentando alegria, consolou-me
dizendo.
- « Não tenha mêdo ! Recomeçaremos !
Nada falta quando há saúde, paz na família,

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vontade de trabalhar e a graça de ·Deus; >>
Lembro-me ter-lhe respondido:
-. «Tens razão, Luiz: haverá sempre
Deus para êstes inocentes », inas um nó,nà
garganta sufocava-me.
Quanto à casa, chamada «La caserna an­
tica», não tínhamos queixa. Era de tijo­
los, raridade para aquêles lugares, naquêle
tempo!
Possuia dois andares: em baixo havia o
estábulo, o depósito, a adega, o celeiro; em
cima a moradia. Subíamos por uma escada­
zinha externa, protegida por um pequeno cor­
rimão de tijolos e terminava na varanda co­
mo atualmente ainda se vê; uma única porta­
central que se abria para a grande cozinha,
única para nós e os Serenem; também o cor­
redor era comum; à direita estavam os quar­
tos dos Serenelli, à esquerda os nossos; um
telhado enegrecido e sem fôrro. Uma casa de
pobres, mas ampla, arejada, bem conservada
e cômoda para aquêles tempos.
- Naturalmente, nas janelas e na porta
havia um mosquiteiro de rêde metálica mui­
to fina, devido à malária.
A arrumação foi rápida: dois sacos com
palhas de milho para nós e as crianças, o ve­
lho caixão, trazido de Corinaldo contendo
alguns· trapos, foi colocado na cozinha para
servir de assento, dois� rústicos banquinhos

�o
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colocados ao lado do fogão, e nada mais. A
única preciosidade era um quadro de Nossa
Senhora das Dôres, lembrança do nosso casa­
mento, que já foi colocado em lugar de hon­
ra na cozinha, a fim de que a Mãe de tôdas as
dôres nos ajudasse e protejesse.
Não sei porque, mas desde os primeiros
dias senti necessidade dEla.
Aquela planície interminável, aquelas
vastas regiões lívidas, azuladas, selvagens,
sobretudo aquêle silêncio e aquela imobili­
dade, petrificavam-me o coração. Parecia­
me ouvir o sôpro da morte. Luiz sofria mais
do que eu: a solidão mata e se não chega a
tanto esmorece-nos o ânimo e embrutece.
Confortava-nos o tratamento amigável
do Conde, o saboroso pão de trigo que Maz­
zoleni sempre nos dava e a esperança de um
porvir mais farto para os nossos filhos.
Infelizmente, alí fomos mais mal ser­
vidos do que em Colle Gianturco, quanto à
Igreja, Jardim da Infância, Escola, Médicos,
Farmácia, meios de transportes, etc . . resu­
miam-se ao mínimo as exigências da vida hu­
mana.

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v

Vizinha à nossa, havia uma casa habi­


tada por duas famílias também das Marcas.
Mário Cimarelli, com sua espôsa Teresa e na
outra seus irmãos Antônio e Domingos Ci­
marelli, com suas respectivas famílias.
A dois quilômetros e meio de distância,
em Conca (atualmente Borgo Montellb),
erguia-se o Castelo de Mazzoleni, a igreja,
a casa dos Mansari, as estrebarias, o depó­
sito e depois, desabitado até Netuno, onze
quilômetros e meio e outro tanto até Cister­
na, na Via Appia. Durante o inverno os pas­
tores vinham com seus rebanhos, de AbTIIZ­
zo: pobres como nós mas ao menos mais fe­
lizardos, pois na primavera, iam-se embora.
Desolação, solidão, miséria, depois da bene­
ficiação, como se pode imaginar. As crian­
ças eram, porém, as que nos permitiam tole­
rar aquela vida, amar também os sofrimen­
tos e, bendizer todo o sacrifício. « Quem não
tem filhos tem um caminho a menos para su­
bir ao céu», diz um provérbio.
O Conde nos tratava bem e estimava
muito a João Serenelli, nosso « Chefe », que,

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porém, trabalhava como os demais; dera-lhe
também a chave do celeiro e da adega, a fim
de que fôsse o dispensador. Devo porém, sin­
ceramente dizer que, enquanto vivia meu ma­
rido, o falecido Luis, não tínhamos queixas
de João. A vida que levávamos era modesta
porém igual para todos, e nos dávamos bem.
-Sim, o Conde visitava-nos frequentes
vêzes, senão diàriamente, conforme o tem­
po e o trabalho (porém quando ia a Roma au­
sentava-se até uma semana) vinham também
seus filhos durante as férias, mas êles não se
intrometiam nos trabalhos, íam caçar.
O sr. Mazzoleni .era um homem às direi­
tas, falava sem cerimônias e sempre que de­
sejávamos falar-lhe ouvia-nos, mas era in­
transigente no trabalho e tinha tais excessos
de cólera (quando as coisas não iam como de­
sejava, ou não via cumpridas suas ordens)
que fazia a gente estremecer, e em tais mo­
mentos era melhor sumir-se.
- Sim, o Conde andava sempre armado
e acompanhado por dois guardas pessoais,
também armados, por mêdo dos salteadores,
diziam, mas eu nunca os vi e os fatos que se
contavam eram sempre dos tempos passa­
dos.
Certamente, aconteciam em tempos pas­
sados, e também o sr. Mazzoleni, no começo,
foi assaltado por dois dêles, conseguiu po-

3 Ml.e Assunta
-
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rém, fazê-los prender, mas naquele tempo
nós não estávamos aí. Assim o ouvi dizer.
Durante o inverno o Conde efetuava o
mesmo pagamento, mas os homens tinham
mais tempo livre, principalmente quando
chovia; então Serenelli, meu marido e outras
famílias fabricavam vassouras, cestas de vi­
me, escadas de madeira e com junco do pân­
tono empalhavam cadeiras, faziam cestas e
até conseguiam fazer esteiras para os viajan­
tes; tôdas essas coisas eram vendidas no
mercado de Anzio que era melhor do que o de
Netuno.
Em Anzio havia também duas« feiras»
por ano, na primavera e no outono e em am­
bas comprava-se e vendia-se bem.
Acontecia também que, as vêzes êsses
pequenos trabalhos manuais eram dados aos
pastôres em troca de leite, queijo ou requei­
jão. De modo que de mãos dadas lutávamos
para arranjar a vida. Frequentemente eu fa­
zia algo para vender aos pastôres e assim
conseguia alguma coisa para a família.
Naquela solidão onde faltavam todos os
recursos para a educação, meu espôso e eu
educamos nossos filhos. Educação sim­
ples e clara que ministrávamos a todos
igualmente, a fim de que as crianças chegas­
sem a ser verdadeiros cristãos. Eu mesma
ensinava-lhes ás noções mais essenciais que

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sabia, as orações: o Pai Nosso, a Ave Maria,
o Creio; e os primeiros elementos da Doutri­
na Cristã. Meu espôso me ajudava em tudo.
Nas noites de inverno rezava-se o terço, aos
domingos e dias santos todos íamos à Missa
e cuidávamos que os filhos não adquirissem
vícios e crescessem de acôrdo com a vonta­
de de Deus.
Certamente, Mariazinha e Angelo, que
sendo maiorzinhos, partiram de Corinaldo
já instruídos na Doutrina Cristã e educados
na Religião, foram muito felizes em com­
paração com os que nasceram e cresce­
ram aqui!
Alimentavamos a doce esperança de
melhorar quando, um dia, uma nova cruz,
a mais pesada de tôdas até então, caiu-me
sôbre os ombros.
Luiz, que sempre gozara ótima saúde
e que sempre fôra corajoso e de bom humor,
começou a sentir o pêso daquela solidão; a­
quêle silêncio entristecia-o e o ar do campo
já lhe era insuportável e lhe atacava a cabe­
ça.
Isto o entristecia tanto que, como me di­
zia, se não fôsse por nós, teria desejado a
morte. E muitas vêzes saía-se com frases
que pareciam de desespêro e expressava-se
de modo que parecia pressentir que, não obs-

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tante a bôa vontade e o amor à família, não
viveria muito naquele deserto.
Certa tarde, descarregando caixões fú­
nebres, adquiridos pelo Conde, disse: -

« Dêstes, um será para mim: eu serei o pri­


meiro a usá-lo. »
Infelizmente, devia ser mesmo assim:
dia 26 de abril de 1900, Luiz caía de cama
com malária e poucos dias depois manifes­
tou-se também o tifo e a meningite. O médi­
co não teve o que fazer e entregamos tudo
nas mãos de Deus. O Pe. Alfredo Paliani, Ca­
pelão do Conde, administrou-lhe todos os Sa­
cramentos e assistiu-o até o dia 6 de maio,
quando expirou.
Desgraçadamente rião era êste o últi­
mo infortúnio.
Foi interrado no pequeno cemitério si­
tuado entre Conca e Ferriere, sôbre uma coli­
na onde faltava tudo, até os ciprestes e on­
de o muro, para impedir que os animais en­
trassem, era de canas, e o portão de madeira
muito rústica.
Parece-me ver ainda agora minha Maria­
zinha, pobre menina, juntamente com os ir­
mãozinhas, abrir aquêle portão e depositar
sôbre o túmulo do pai, as flôres recolhidas
nos campos; parecia uma borboleta.

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VI

Que situação a minha! viúva com 33 a­


nos e meio, com seis filhos, tendo o maior
12 anos e o último 4 meses, sem dinhei­
ro, sem um apôio, sem uma esperança para
o futuro. Se não me desesperei foi pela fé que
tive em Deus e pelo amor aos meus filhos,
mas podeis acreditar-me que estive perto do
desespêro.

Devia viver para êles, e além do mais,


todos me encorajavam, inclusive o Conde
que, em vez de me despedir, prometeu ficar
comigo até que os meus filhos cre�eessem.

Assim tínhamos casa, um pedaço de pão,


embora escasso, e terra para trabalhar; de
qualquer forma tínhamos para viver.

Antes de morrer, Luiz dissera-me que


voltasse a Corinaldo, e eu de momento quase
prometi, mas, depois pensei, como pode­
ríamos viver quando lá estivéssemos?
Lá não tínhamos casa, nem trabalho, nem a­
pôio, nada, nada. É melhor viver mal aqui do
que morrer lá; e além disso, que cena depois
de termos partido com tantas esperanças?
A conclusão foi que achei melhor não

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mudar. Ocupei logo o lugar de meu es­
pôso junto aos Serenelli; graças a Deus,
desde a mocidade estava habituada aos tra­
balhos pesados! Enquanto isso, Mariazinha,
em casa ocupava-se com os serviços domés­
ticos e tomava conta dos irmãozinhos. Os
filhos menores deixava-os em casa com ela;
na roça quem os seguraria?

E como era viva! Para as refeições e


os trabalhos mais pesados eu chegava na
última hora para dar-lhe uma mão, de modo
que, quando os homens chegavam, encontra­
vam tudo pronto. Porém Mariazinha era tão
bôa e trabalhadeira que dava conta quase de
tudo. Também os outros filhos eram bons e
obedientes, embora bastante vivazes, como
são todos os jovens; quem não sabe que aqui­
lo é da sua idade? Mas, todos ajudavam, fa­
zendo o que podiam.

Algum tempo após a morte de meu es­


pôso, talvez pela desilusão de um seu projeto
fracassado, (queria que eu casasse com êle)
ou pela minha decidida negação a certas pro­
postas (infames) , .João tornou-se prevale­
cido e ruim para conosco; repreendia, gri­
tava por qualquer nadinha, dizia que não
queria que os filhos trabalhassem, que êle
devia manter-nos, que comíamos do que era
seu etc, etc. pretendia que os jovens pro-

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duzissem como os adultos, mas de que manei­
ra poderiam fazê-lo? Pobres filhos,!
Chegou a negar-nos o pão e o sal; media
os bocados e muitas noites os meus filho:s
foram deitar com fome! Tínhamos também
as galinhas em comum; O Serenelli começou
então a manter o galinheiro fechado à chave,
e ir pessoalmente, à tarde, recolher os ovos
que depois vendia para si no mercado de Ne­
tuno ou Anzio, « para compensar-se » dizia.
Com Alexandre - o filho de Serenelli
- sempre nos dávamos; era bom trabalha­
dor, respeitoso para comigo, ía à missa aos
domingos e, à noite, rezava o terço conos­
co.
Ângelo e Mariano trabalhavam de bôa
vontade com êle e até nos defendeu ante às
exigências de seu pai. Era, porém, um fecha­
do que falava pouco e lia de tudo, até as pio­
res revistas ilustradas que, infelizmente o
pai lhe procurava no mercado.
Sabia ler, escrever e fazer contas; aos do­
mingos e feriados e quando tinha tempo, não
costumava sair, mas permanecia no quarto
lendo e escrevendo. Pensei então em aprovei­
tar dessa paixão, já que escolas não havia,
e certa vez disse-lhe: «Faze alguma coisa,
Alexandre, ensina um pouco também aos
meus filhos» e êle me atendeu e ensinava

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de bôa vontade embora perdesse logo a pa­
ciência. Assim íamos melhor: mas, podeis
imaginar a minha inquietude e as minhas an­
gústias acêrca do futuro dos filhos e do meu.
Nem podia pensar, e certas noites, devido a
isso, nem conseguia consiliar o sono.
Mariazinha, pelo contrário, era mais co­
rajosa e possuía grande fé!
Quando eu me desabafava com ela, di­
zia-me: «Mamãe, que medo a senhora tem!
Já somos grandes, basta que Deus nos
dê saúde; a Providência nos ajudará ».
E a saúde Deus nô-la dava realmente;
durante o tempo que ai moramos, os meus
filhos nunca tiveram nem siquer uma dor de
cabeça e teriam digerido até pedras!
Já havia chegado o tempo dos filhos
mais velhos fazerem a Primeira Comunhão.
Eu não tinha coragem de pensar nisto e tan­
to menos de falar; não saberia por onde co­
meçar. Foi Mariazinha que um dia, franca­
mente me disse:
-Mamãe, e quando farei eu a Primeira
Comunhão? Eu quero Jesus!
- Meu amor, como pretendes fazê-la,
se não sabes o catecismo. Vês, que não sa­
bes ler, não há dinheiro para o vestido, sa­
patos, véu; não dispões de um minuto, tens
tanto para fazer.
E era mesmo verdade. No ano em que

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morreu meu espôso, não obstante tivésse­
mos recolhido 300 quintais de milho e 96 de
feijão, fechadas as contas com o Patrão,
fiquei com 15 liras de dívidas!
- Mas a pequena respondeu-me:
- Mamãe querida, dêste modo nunca
farei a Primeira Comunhão! Eu não quero
ficar sem Jesus!
- Mas, meu bem, o que pode fazer tua
pobre mãe? Deverei ver-vos crescer como a­
nirnaizinhos ...
- Está bem, mamãe, Deus proveráj! Em
Conca mora Elvira que sabe ler; eu lhe pro­
meto de aprontar antes tôdas as lidas da ca­
sa e no tempo livre deixa-me ir a Conca para
aprender o Catecismo. Também o Pe. Alfre­
do que vem todos os domingos de Cisterna,
ensinar-me-á com os outros. E a minha Ma­
riazinha ía então todos os domingos ao Ca­
tecismo, durante onze meses, e à casa de El­
vira tôdas as vêzes que esta dispunha de um
tempinho livre. E finalmente estava bem pre­
parada. Eu mesma a acompanhei a Netuno,
no dia antes, para a Confissão, e como não
estivesse ainda tranquila, pedí ao Pe. Vigá­
rio que a submetesse a um exame. O Pe. Te­
mistocles Signori interrogou-a e depois
afirmou-me:
- « Fique tranquila, ela está bem pre­
parada. » -

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Todavia, para maior segurança, co�iai­
a Nossa Senhora, colocai-a sob o seu manto
e não receieis! »
E assim fiz.
No dia seguinte, 16 de junho de 1901,
fez a Priineira Comunhão, junto com o ir­
mão Ângelo, na bela igreja de Conca e co­
mungou como uma Santa.
Ao regressar lia-se no rosto e nos mo­
dos o quanto era feliz pela Comunhão fei­
ta, tanto que disse a Teresa (Cimarelli) ,
que tinha mais tempo que eu:
- « Teresa, quando voltaremos a co­
mungar?
E quando perguntei a ela e ao irmão:
- Agora que recebestes Jesus, se­
reis melhores? - Mariazinha respondeu­
me:
- Sim, mamãe, serei sempre melhor! .'
A nossa vida transcorrida regular;
levantávamos muito cedo pela manhã por­
que João Serenelli, trabalhador enérgico, era
muito exigente também com os outros. An­
tes de sair para a roça, recomendava à Maria
o que devia fazer em casa, para o almôço,
para as compras e aos irmãos.
E depois disto eu passava o dia todo
sob o pêso do trabalho.
Pelo meio dia voltava para casa, ou
mesmo um pouco antes, para dar uma mão

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a minha filha. Almôço, uma hora de descan­
so, para depois recomeçar a lida até a noite.
Para o jantar fazia o mesmo. À noite os ho­
mens se entretinham alegremente em ani­
madas conversas ou jogavam com os ami­
gos.
Eu ajudava Mariazinha na lida domés­
tica e já preparava o necessário para o dia
seguinte. Quantas vêzes soava meia noite
e nós ainda estávamos arrumando e limpan­
do.
Antes de deitar rezavamos o terço, dá­
vamos uma volta em redor da casa para cer­
tificar-nos de que tudo estava em ordem e
depois iamos todos para a cama.
- Sim, o terço também os homens o
rezavam e frequentemente vinham os Cima­
relU em nossa casa e assim o recitávamos
todos juntos (ou então nós íamos na casa
dêles) . Aos domingos, ao invés, dormíamos
um pouco mais; eu, geralmente, assistia à
primeira Missa em Conca, onde havia um
mercado, e assim fazia depois as compras;
regressava apressadamente para preparar
os pequenos e mandá-los com Mariazinha ou
com alguma boa senhora, a Missa das onze
em Campomorto, e durante a sua ausência
preparava o almôço e tudo o mais.
A tarde não havia nenhuma « função»
mas aproveitava do tempo livre para ir ao

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cemitério com meus filhos e fazê-los rezar
sôbre o túmulo de seu pai.
Aproveitava a ocasião para contar-lhes
as belas histórias dos Santos e da Igreja,
que eu aprendera quando pequena, em Cori­
naldo, porque onde morâvamos agora não
havia meios para instruí-los na Religião.
Foi nessa época, que eu também ensinei o
Catecismo; as orações aprenderam-nas de
tanto ouvi-las repetir; foi tudo assim por­
que, no mais, os meus filhos eram analfabe-
·

tos.
Depois de os homens sairem (geralmen­
te reuniam-se no bar onde tomavam um tra­
go), nós, senhoras, nos reuníamos na âria
ou na frente da casa e enquanto fazíamos
trabalhos manuais, trocâvamos conversas e
as novidades que em nenhum lugar faltam.,.
Quando ía confessar-me levava também
os filhos comigo e todos o faziam com gôs­
to, mas isso era raro, devido à falta de co­
modidade, e também, porque removido o Pe.
Alfredo Paliani, os outros padres, talvez
porque jovens, não tinham a licença de con­
fessar e, sendo auxiliares, faziam tudo de­
pressa, como para desembaraçar-se de um
dever.
Dia da festa., se eu ficava em casa,
(muitas vêzes ía a Netuno para compras

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ou por motivo de documentos) Mariazinha
estava livre e então corria à casa de Teresa
(Cimarelli) , sua comadre, que sempre lhe
fez tanto bem e muitas vêzes a acompanha­
va à igreja para as funções sagradas e para
receber os Sacramentos. Ela gozava de
maior liberdade que eu e podia acompanhá­
la.

Em 1902, quando se deu a tragédia, a


situação de minha família era a seguinte: eu
trabalhava com os Serenelli, dos quais conti­
nuava sendo sócia; Angelo e Mariano tra­
balhavam por conta própria; o Patrão sen­
tia-se satisfeito, e dava-lhes sempre regalias
e a mim algum dinheiro; Mariazinha crescia
debaixo dos meus olhares, não era manhosa
como tantas suas companheiras, mas dia a
dia mais ajuizada e trabalhadeira, tanto as­
sim que, quem governava a casa era quase
ela sozinha; os outros três filhos eram ainda
pequenos, mas afinal podia-se esperar num
futuro melhor. . . quando o demônio ..! .

Mariazinha já era uma moça; eu não


notava muita transformação, porque a ti­
nha sempre sob os olhos, mas os vizinhos
e conhecidos diziam ser ela uma moça lin­
da, tão boa a ativa que todos a estimavam
e louvavam. Sem dúvida, pela sua idade era
bem desenvolvida e graciosa, com duas bo-

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chechas cheias e rosadas. Parecia-se a uma
flor!
E talvez mesmo porque fôsse uma flor,
Alexandre pensou em profaná-la.
E no entanto ouvi a resposta de minha
filha, quando certa vez lhe disse que não
imitasse uma sua companheira leviana e mal
educada, da qual se havia escandalizado.
Respondeu-me:
- Eu falar assim? Antes me deixaria
matar!
E ví também que desde que êle pregara
na parede de seu quarto certas figuras de
revistas más que o pai lhe havia trazido, e
não obstante as minhas observações obsti­
nou-se em retê-las, Mariazinha deixou de
arrumar-lhe o quarto.
Eu ainda não consigo compreender co­
mo chegou ao crime, porque Alexandre não
parecia ser mau, e na verdade não o era: res­
peitava-me, e dava-se bem com os meus fi­
lhos, era bom trabalhador e dificilmente se
afastava da propriedade; aos domingos ía
à igreja como nós, rezava o terço conosco,
recebia os Sacramentos como nós, não blas­
femava como fazia alguma vez seu pai, (só
raras vêzes porque eu não sofro blasfêmias),
não dizia palavrões, auxiliava os pobres o
quanto podia, passava o tempo livre no quar­
to, lendo e escrevendo.

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(Era apaixonado pela leitura e não per­
dia tempo) .
Vê-se que a solidão o havia animaliza-
do.
Aquela vida de isolamento, de silêncio,
de eremita, a qual estávamos condenados alí
na Campanha, feriu-lhe o espírito, esvasia­
ra-lhe o coração e agia também sôbre o corpo
em forma de vício.

Meu espôso falecera vítima mais da so­


lidão do que da malária; e tinha família!
Alexandre que não tinha família e era jo­
vem, não morreu, mas afastou-se de tudo
e de todos. Já não mantinha relações com
ninguém, falava pouquíssimo, não tinha a­
migos, mas tornara-se mn misântropo tí­
mido e, por reação, algumas vêzes prevale­
cido. A solidão matava-lhe a alma; embora
contasse apenas 20 primaveras, essas eram
vazias de esperanças. É terrível! É o fim de
um homem que se sente sepultado vivo. O ví­
cio por primeiro e depois o crime formam
a reação fatal.
Tratava Maria como todos os da famí­
lia ; notei, porém, que mn mês antes do cri­
me, começou a tratá-la mal como para fazer­
lhe desafôros. Naquele período particular­
mente, mais de uma vez minha filha até cho­
rou, mas eu, que nem sonhava com o por-

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quê daquelas lágrimas, consolava-a dizen­
do-lhe :
« Tenha ainda um pouco de paciência,
pois logo irá para o exército » .
Somente depois soube que a havia ten­
tado! Eu, conforme afirmo, não teria nem
mesmo suspeitado; não compreendi o peri­
go que cercava o meu anjo, nem mesmo
quando me disse: « Mamãe, nunca me deixe
sozinha em casa! . . . tenho mêdo! », e cho­
rava quando obrigava-a a ficar, afirmando­
lhe que seu mêdo era só capricho. E quando
percebí que desde então trazia constante­
mente o terço na mão e rezava sempre, pen­
sei tratar-se de uma mania religiosa, passa­
geira, ou uma impressão que logo passaria.

Quando penso que, no dia antes do


assassínio, vendo a obstinação de minha fi­
lha em não querer ficar sozinha em casa, e
julgando que fôsse maldade sua, dei-lhe um
ponta-pé, não posso encontrar paz. Infeliz­
mente a repreendi e a bati também, imere­
cidamente_-! Morreu com uma pequena ferida
na sobrancelha esquerda da qual eu mesma
fui a causa, tendo-lhe jogado, alguns dias
antes, um tamanco, para puní-la de tama­
nha obstinação, inconcebível para mim , de
não querer permanecer sozinha em casa.
Naquela manhã de sábado, dia 5 de ju-

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lho de 1902, que devia depois terminar tão
t:rà.gicamente, Mariazinha durante o café,
dissera à Teresa Cimarelli:
- Teresa, amanhã iremos a Campo­
morto, não é? não aguardo mais a h ora de
comungar!
E Teresa prometeu acompanhá-la; de­
pois tudo correu regularmente até à hora
do abnôço. De tarde, João deitava-se sôbre,
um monte de feno, aos pés da escada da ca­
sa ; estava atacado de malária.
Eu, depois de ter ajudado Mariazinha
na lida da casa, fui nivelar um assoalho ; no
momento de recomeçar o trabalho, Alexan­
dre passou pela cozinha e disse à Mariazi­
nha, na minha presença:
- Mariazinha, saiba que tenho uma ca­
misa para remendar.
Vendo que minha filha não respondia
eu lhe disse:
Mariazinha, ouves o que te está dizen-
do Alexandre?
E ela :
- Onde está esta camisa?
- Está sôbre a cama e lá estão também
os remendos.
- Está bem.
Depois descemos: Alexandre com meus
filhos cangou os bois nas carroças para con­
tinuar a trilhadura. O primeiro carro era

4 - Mãe Assunta 49
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guiado por êle, o segundo por meu filho Ân­
gelo que levava consigo Mariano e Ersilia,
muito satisfeitos por estarem no carro. Eu
procurava ajeitar debaixo das rodas as es­
pigas, que na passagem dos carros e dos ani­
mais, se espalhavam.
Momentos depois, vi Mariazinha senta­
da sôbre o nosso banquinho, colocado por ela
mesma no patamar da casa, à vista de nós
todos, pois não distávamos mais de 40 me­
tros, em linha reta. Já estava com a camisa
a remendar na mão e, perto dela, dormindo
sôbre o velho acolchoado, dobrado em qua­
tro, a outra minha filha Teresinha, de dois
anos, coberta com uma ponta do mesmo.
Instantes depois Alexandre disse-me:
- Assunta, quer dirigir um pouco em
meu lugar até que eu suba por um momen­
to?
Aceitei e, muito socegada, subi no carro
e comigo veio também Mariano.
Pensei que Alexandre tivesse que satis­
fazer uma necessidade natural ou que se es­
tivesse esquecido de algo. Após algumas vol­
tas, os bois que eram tão mansos e já acostu­
mados com a minha mão, desviaram de mo­
do estranho, tanto que eu exclamei:
- ó meu querido Santo Antônio, o que
está acontecendo? e peguei logo a vara. Na­
quele mesmo instante ouví que a minha pe-

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quena Teresinha começava a chorar deses­
peradamente; quando levantei os olhos não
vi mais Maria no patamar e temendo que a
pequena rolasse escada abaixo disse a Ma­
riano :
- Mariano, vai ver porque Teresinha
está chorando e onde foi Maria.
Enquanto Mariano ía, vi que João Se­
renelli levantou-se do lugar onde estava des­
cansando e, apressadamente, subia a esca­
da; Mariano então diminuiu o passo, na cer­
teza de que alguém socorreria a pequena
Teresa.
Logo que o velho Serenelli chegou em
cima, ví-o abrir a porta e depois voltar-se
para chamar-me: « Assunta, venha logo cá »
e chamar também Mário Cimarelli, que batia
o feijão no pátio, dizendo:
- Mário, venha também você.
Quando ouvi chamar também Mario Ci­
marelli, assustei-me e disse:
- Minha Nossa Senhora, o que terá a­
contecido em minha casa ?
Deixei tudo e corri para lá. Mario Ci­
merelli precedia-me; depois de mim vinha
Teresa, sua espôsa, com uma garrafa: o ma­
rido havia-a chamado e lhe pedira vinagre;
logo atrás dela chegaram também, corren­
do, os outros irmãos de Mario, Antônio e Do­
mingos.

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Ao chegar, vi que Antônio segurava nos
braços, com a cabeça apoiada sôbre um om­
bro, a minha Maria.
Vendo minha filha como morta nos bra­
ços de Cimarelli, dei um grito e êle procurou
animar-me dizendo : « Comadre, acalme-se,
Mariazinha machucou-se», pois êle tam­
bém não estava ao par do sucedido.
Da cozinha levou-a para o quarto à ca­
ma. Agarrei-a e logo suspeitei do que lhe
poderia ter acontecido.

Naquele momento Maria estava des­


maiada. Observei e vi que, pelo contrário, es­
tava esfaqueada no abdômen e os intestinos
lhe saiam do ventre. Horrorizada, soltei um
grito, caí de joelhos e exclamei :
- Oh, Deus de misericórdia, salvai a
minha filha!
Foi então que me levaram para o pata­
mar. De lá chamava ansiosamente minha fi­
lha que, à fôrça de vinagre e de borrifos de
água, começava a dar sinal de vida. Instan­
tes depois, do patamar, ouvi que Maria me
chamava: « niamãe! » e desembaraçando-me
com grande esfôrço dos que me seguravam,
entrei no quarto. Perguntei-lhe então :

- Minha Mariazinha, o que aconteceu?


quem foi? como foi?
Respondeu-me :

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- Foi Alexandre.
- Por que motivo?
- Queria que eu fizesse coisas feias e
eu não quís ; é pecado ; não, não !
E não conseguiu ; por isso matou-me.
Dei então um outro grito e desmaiei
novamente. Levaram-me à casa dos Cima­
relli para onde, nêsse espaço de tempo, já
haviam levado todos os outros filhos, antes
que soubessem e vissem o que sucedera à sua
irmã.

VIII

Enquanto isso, Mário e os irmãos corre­


ram a chamar o médico, o patrão, a polícia
e a Liteira porque o médico de Netuno, cha­
mado com urgência, dissera que era neces­
sário transportar imediatamente Maria ao
hospital. Tentariam salvá-la com uma ope­
ração, embora as esperanças fôssem huma­
namente nulas ou quase nulas.

Não posso enumerar as pessoas que a­


correram ! Os gritos que queriam Alexan­
dre morto a todo o custo !
Finalmente da Casa Carano, onde havia

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um pôsto sanitário, chegou um médico e um
enfermeiro da Cruz Vermelha com uma am­
bulância puxada por dois cavalos. Os Cima­
relli ajudaram a colocar e acomodar minha
filha e depois vieram buscar-me, porque o
Mazzoleni disse que eu devia acompanhar a
Mariazinha ao hospital; tomei lugar entre
Mario e Teresa, enquanto ouvia as vozes
dos meus filhos que aparecendo nas ja­
nelas, choravam desesperadamente.
Quando partimos, todos os homens ti­
raram o chapéu, as mulheres choravam e
gritavam entre lágrimas que as afogavam :
« Mariazinha! Volta Mariazinha! Volta lo­
go! ». Uma cena de despedaçar o coração.
Durante a viagem, eu procedia como uma so­
nâmbula, não tinha mais lágrimas nem fôle­
go e a cabeça como que esvasiara completa­
mente. Maria mantinha-se calada e com os
olhos fechados. - Minha filha, sentes-te
mal? - perguntei-lhe.
- Não .. . Não!
Somente uma vez perguntou-me :
- Mamãe, falta muito para chegar?
Também diante do hospital havia muita
gente e quando Mariazinha passou vi mui­
tas pessoas chorar enquanto me sussurra­
vam :
- Coragem! Coragem, bôa senhora!
Os médicos, cientes de que tentavam

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o impossível aconselharam que a pequena se
eonfessasse. O capelão, Pe. Martinho Guaya­
ro, perguntou-me:
- Senhora, somos cristãos, não é ver­
dade ? (Era só o que faltava! )
Então, antes de operar sua filha é me­
lhor confessá-la.
- Por favor, sim, minha Nossa Senho­
ra, já que a tendes feito chegar viva até aqui,
antes de tudo confessai-a. Foi questão de
poucos minutos.
Logo após começou a operação.
Passei duas longas horas em espectati­
va, no corredor. Concluída a operação, o
médico permitiu-me vê-la, proibindo-me po­
rém de fazê-la falar. Mas ela logo que me viu,
com um fio de voz chamou-me: «Mamãe! »
e eu perguntei-lhe como passava. Tinham­
na transportado para o quarto das senho­
ras; paracia-me mais morta que viva: tôda
lívida, com os cabelos soltos como Santa Fi­
lomena. Foi ainda ela que rompeu o silêncio
para dizer-me:
-
· Mamãe . . . estou bem, sabe ? Como
vão os irmãozinhos e as irmãs ?
Mais tarde disse-me:
- Mamãe, dê-me uma gota d'água ?
Infelizmente, tive que responder:

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- Minha filha, não é possível! O médi­
co proibiu terminantemente.
Respondeu-me resignada, mas admira-
da :
- Será possível que não me pode dar
uma gota d'água?
E por mais de 20 horas sofreu aquela
terrível sêde em pleno mês de julho.
Imaginem o meu pesar: nem poder dar
um pequeno alívio à minha filha!
Ainda não posso encontrar confôrto se
não recordo o fato de que também a Jesus
foi negado uma gôta d'água, e que em troca
deram-lhe vinagre e fél.
Mais tarde, ainda uma vez, percebendo
talvez meus lábios tremerem, repetiu-me :
- Estou muito bem, sabe mamãe?
- Sim, amor, respondí-lhe, estás bem,
porém não te esforces para falar porque o
médico to proibiu.
- �, sim, estou muito bem.
Enquanto estava aí à sua cabeceira,
veio o chefe da Polícia, Lorenço Fantini e
quis que interrogasse minha filha para sa­
ber se fôra tentada outras vêzes.
- Sim, mamãe, respondeu-me, outras
duas vêzes, um mês atrás, Alexandre me a­
borreceu.
- Mas, minha filha, por que não disses-

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te à tua mãe e então ao menos não terias
morte semelhante?
....... Mamãe querida, tinha vergonha por­
que não sabia como dizê-lo. E, além disso,
Alexandre jurou-me que me mataria, caso
eu referisse; e tanto é que me matou mes­
mo !
- Mas tu não gritavas enquanto êle te
feria?
- Sim, mamãe, mas êle continuava a
ferir-me enquanto eu gritava; quando não
pôde mais, deixou-me. Enquanto isso as ho­
ras passavam em lenta agonia e chegamos
quase à meia noite. Então aproximou-se
uma Irmã e disse-me ao ouvido que o médi­
co não permitia que passasse o resto da noi­
te ao lado de minha filha e que só Teresa Ci­
marelli tinha licença de ficar; sussurrou-me
ao ouvido, mas Mariazinha que compreendia
tudo disse-me:
- Mamãe, a senhora não pode ficar ao
meu lado esta noite?
- Não, minha filha, porque não mo per­
mitem; não me dão licença, dão-na para Te­
resa, ela ficará contigo.
- E a senhora onde irá dormir?
- Deus proverá, minha filha.
E .. . está !
E assim tive que me retirar. Sei que du ..
rante a noite, foi assistida pelo Pe. Capelão,

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pelo Arcipreste, pelas Irmãs, por uma con­
dessa, e por Teresa. Sei que a inscreve­
ram entre as filhas de Maria e, pela manhã,
vi a medalha ao pescôço. Sei que perdoou ao
seu assassino ; que recebeu o Viático, a Ex­
trema Unção e a Bênção Especial para os a­
gonizantes. Sei que beijou muitas vêzes o
Crucifixo e que respondera as jaculatórias
que lhe foram sugeridas, mas a tudo isso eu
não estava presente. Soube de outros, pela
manhã, quando voltei à cabeceira de minha
filha.
Passei a noite na ambulância chorando
e pensando naquele anjo que definhava e
nos meus outros filhos, que quem sabe quan­
to sofriam naquelas horas, esperando por
nós. Pela manhã, a primeira pessoa que ví
foi o ajudante do hospital que logo ao sair,
parou para conversar com algumas pessoas
que chegavam; pensando que dissesse que
minha filha tinha morrido, corri-lhe ao en­
contro e depois para a porta do hospital.
Embora ainda não fôsse hora, deixaram-me
entrar, por compaixão; naquele momento, á
cabeceira de Maria estavam duas Irmãs de
Caridade.
Minha filha reconheceu-me logo, mas
era evidente que definhava momento por
momento. Mais tarde veio o Pe. Capelão e
seguidamente sugeria-lhe jàculatórias e ela

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respondia. Logo mais tarde veio o médico :
Insistiu para que não a fizessemos mais falar
acrescentando, porém, que era necessário
resignar .:;e porque não havia mais motivo
para esperar e era só questão de horas. Isso
l�1ssc ·me paternalmente, chamando-me à
parte ; para Maria ao invés, dirigiu palavras
animadoras quase brincando.
Quando percebi que minha filha estava
mesmo no fim, beijei-a e ela beijou-me ; dei­
lhe também o Crucifixo para beijar e a me­
dalha de Nossa Senhora que trazia ao pes­
coço. Pouco antes de espirar, com um fio de
voz, perguntou-me : «Mamãe, papai ?» abai­
xei os olhos e ela vendo-me triste, disse :
« Perdoe-me, mamãe ! » Depois não esteve
mais consciente de si. Mais tarde chamou
«Teresa» ! não obstante eu estivesse a seu
lado ; vê-se que não me conhecia mais.
Chegou-se-lhe uma enfermeira, tomou-lhe
a mão e Maria expirou plàcidamente aper­
tando-lha com fôrça. Eram 15 horas 45m,
do dia 6 de julho de 1902. Maria contava 11
anos, nove meses e vinte dias.

IX

Fui logo afastada não só do quarto de


Mariazinha, mas até do hospital.

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Foi-me concedido somente dar-lhe o úl­
timo adeus. Beijei o cadaver antes de sair . . .
e « minha pobre filha » exclamei. Depois não
a vi mais. Os presentes, participando da mi­
nha dor, faziam, como achavam, a carida­
de de afastar-me. Fui levada para uma ca­
sa de Netuno e à noite voltei para Ferriere,
junto aos meus filhos.
Mário e Teresa Cimarelli permanece­
ram porém, em Netuno e pensaram em tudo.
Soube assim por meio dêles, que o funeral foi
um verdadeiro triunfo ; que havia tomado
parte todo o clero e os Institutos Religiosos
de Anzio e Netuno ; que o caixão fôra acom­
panhado por uma multidão de _povo ; que
quase todos choravam e que todos diziam
que minha filha era uma verdadeira martir
da pureza. Disseram-me até que a Prefeitu­
ra dera gratuitamente o terreno para a se­
pultura e que o Arcipreste, durante os fune­
rais, fizera um belíssimo panegírico ; que o
ato de minha filha ter perdoado o assassi­
no tornara-se público e era tido como
heróico, próprio de uma Santa. Conforme já
atestei porém, não presenciei tais fatos. Con­
gratulações por ter uma filha martir, rece­
bí-as também diretamente. Uma senhora dis­
se-me :
- « Coragem, pois vossa filha está cer-

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tamente no Paraíso, perdoou ao seu assas­
sino ! »
E uma estranha me disse :
- « Coragem, vossa filha é outra San­
ta Inês, bem-aventurada menina que soube
morrer como Santa para não macular-se !»
E outras frases destas, mas que não
lembro com precisão.
Chegando em Ferriere, abracei meus fi­
lhos, mas não quis mais saber de pôr pé na
nossa velha casa, tanto mais que alí morava
ainda João Serenelli.
Parei com os Cimarelli e morei com ê-
les.
Na manhã seguinte passou o patrão,
segundo o costume quase diário, dando a ca­
valo uma volta pela campanha. Encorajou­
me, dirigiu-me palavras de consôlo, disse­
me que se necessitasse de algo fôsse retirar
do depósito, que depois ajustaríamos as
contas e perguntou-me o que pretendia fa­
zer agora. Respondi-lhe que por enquanto
a minha única intenção era não pôr mais
pé na velha casa. Depois veríamos.
Vendo-me chorar, repreendeu-me di­
zendo : « Por que choras ? Não vês que tua
filha já estava morta (tinha também ferido
uma aurícula no coração) e ainda falava ? »
Não queria que eu chorasse, mas Ma2zoleni
compreendia muito bem o meu estado de â-

61
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nimo, a minha dor e a respeitou. Nada profe­
riu, nem pró nem contra e concluiu dizendo :
« Enquanto isto, pensa e eu também pensa­
rei ». Certamente êle não me teria aconse­
lhado a trabalhar em sociedade com o Se­
renelli.
Nos dias consecutivos recomecei a tra­
balhar e foram os Cimarelli que me ajuda­
ram em tudo, sacrificando-se por minha cau­
sa. Também os meus filhos esforçavam-se
além do possível para não se atrasarem nos
trabalhos.
Após alguns dias, quando o patrão vol­
tou, ficou contente e perguntou-me nova­
mente qual era a minha intenção.
Eu não sabia como fazer : em tais ca­
sos, parecia-me essencial para o momento,
conservar a propriedade que era o nosso ga­
nha-pão, mas não podia demorar-me mui­
to em casa dos Cimarelli que embora
bons, possuiam também a sua família . . .
Seríamos para êles um pêso insuportável
e eu também não podia afastar-me da re­
gião até que não se fizesse o processo.
« Como fazer ? » perguntava-me dia e
noite. Lembro-me das grandes dôres de
cabeça. Alexandre fôra preso logo após o
crime, no mesmo dia 5 de julho e levado
para a Caserna de Netuno onde havia con­
fessado tudo ; o dia seguinte, 6 de julho,

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fôra conduzido a Roma para a Regina Coeli ;
dia 8 e 9 fôra interrogado pelo Juiz Instrutor
e o processo se concluiria dentro de três a
quatro mêses, não antes. Era necessário
permanecer até lá.
Chegaríamos a setembro, se as coi­
sas continuassem assim, dissolveria então o
contrato, fecharia as contas e partiria,
pois estava decididíssima a regressar para
Corinaldo.
Disse portanto ao patrão que tenciona­
va ficar até setembro.
O conde respondeu-me que para êle
estava bem e até insistiu para que, se de
alguma coisa eu precisasse, além da admi­
nistração ordinária, sem receio lha pedis­
se e êle ma teria concedido. Eu porém na­
da pedí, não queria que, encontrando-me
prestes a fechar as contas, o patrão achas­
se motivo para adiar a minha saída, como
diziam ter feito em outra ocasião. Enquanto
isso eu procurava não ser de muito pêso aos
Cimarelli e assim comecei as tentativas pa­
ra estabelecer-me em Netuno, mas era di­
fícil encontrar um lugarzinho, devido o nú­
mero de veranistas. Recorri um pouco a to­
dos, até a um jovem sacerdote, muito pres­
tativo, que estudava em Roma e que mais
tarde veio a ser Arcipreste, o qual muito se

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interessou e apresentou-nos bons contratos.
Mas éramos tão miseráveis que até as con­
dições mais favoráveis nos eram impossí­
veis e por isso nada concluíamos.
Fui constrangida, portanto, a perma­
necer, com o consentimento do Conde e sem­
pre em contato com êle. Os seus conselhos
e o seu auxílio, na ocasião e depois, foram­
me preciosos. Imaginem a minha situação :
analfabeta como sou, lá naquêle deserto,
sem meios de transportes, sem o apôio de um
homem, sem dinheiro, tratar com soldados,
policias, juizes, testemunhas, advogados,
tribunais. Várias vêzes fui interrogada,
houve visitas judiciárias, fui constrangida
a fazer a denúncia e constituir-me parte
civil ; tive que citar os que presenciaram,
os que nos conheciam e que podiam afirmar
o desenrolamento dos fatos ; tive que ir a Ro­
ma quando chamada pelo juiz, responder
a infinitas perguntas e defender-me também
das insinuações dos malignos pricipal­
mente da parte de um advogado que inven­
tava mil coisas desfavoráveis, para alterar
os fatos e a verdade ; tive que presenciar ao
processo, etc. etc. Em conclusão, uma cala­
midade.
Se não enlouqueci naquela ocasião foi
por causa dos filhos e pelo auxílio· que cer-

64
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tamente a minha.! Mariazihlía: me obteve de
Deus;
Como :óeus quis, concluiu-se tudo e até
depressa ; dia 11 de outubro deu-se o proces­
so da Côrte de Assis, em Roma. Alexandre
era réu confessado, o crime evidentíssimo,
e eu, após tantas preocupações, não fiz ou.;.
tra coisa senão relatar os fatos como se de­
ram.
Concluídas as coisas, fechei· as contas
com o , Mazzoleni e foi por bondade sua que
escapei da' dívida� Estava porém, completa­
mente desprevenida, não dispunha de um
centavo, nem mesmo se êste fôsse necessário
para· salvar um moribundo. Teria direito à
indenização dos danos de Serenelli, mas o
próprio João onde iria buscar o dinheiro ?
O processo e os advogados o haviam despo­
Jado e encontrava-se em condições talvez
piores que as nossas, com o filho na cadeia
c com a · desonra na família. Compreende-se
a situação ao dizer-se que, lhe foi possível
visitar urna única vez o filho na cadeia. e que
a única coisa que lhe pôde oferecer foi um
pão caseiro, um queijo, algumas nozes e que,
para economizar dos sêlos, escrevia-lhe so­
mente uma vez cada dois ou três meses.
Bea•para êle que, sendo bom trabalha;,;.
11 - Mle Assunta
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dor, não obstante tudo, pôde permanecer
nas dependências do Conde e assim ganhar
para viver ; de outra forma só Jhe restaria
pedir esmola, coisa que não teria feito mes­
mo que tivesse que morrer de - fome.
- Oh ! sim, viveu ainda muito! Morreu
com 82 anos, mas depois que regressei a
Corinaldo, não mais me interessei por êle.
Eu não possuia um centavo e foi por não po­
der pagar a passagem que recorri à polícia
para viajar.
Imaginem que durante a viagem, nem
tínhamos o que comer ! Terminado o pão que
levávamos, nada poderíamos saborear se wn
viajante, por compaixão, não nos oferecesse
algo de esmola. Lembro-me dos três dias que
passamos em Roma, à espera de trem para
Ancorta (ah ! então viajávamos assim, bem
düerente de agora) , permanecemos sempre
na. estação e dorminos no chão, sôbre tijo­
los frios, sem uma coberta. Eu e Mariano fa­
zíamos. a Ersília dormir seJllpre .em nossos
braços a :fim de que o frio dos tijol_os não lhe
fôsse causa de doença. Foi o chefe da esta�
çãa que nos deu,. por esmola, um pouco de co­
mida.
Eu não me teria preocupado com nada,
teria resistido, mas as crianças !
- Bagagem ? A pouca roupa que nos
fôra posSível vender pua obter algtUJl di-

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nheiro, já a tinhamos vendido e agora co­
nosco não trazíamos senão alguns trapos
no corpo e, creiam-me, que eram insuficien­
tes até para cobrir-nos, não digo para ampa­
rar-nos do frio. Chegamos éM Corinaldo pelo
Natal, à mercê de Deus, sém saber onde dor­
mir e o que comer. Todos rtos olhavam com
imensa compaixão; sabiam o que tinha feito
Mariazinha e todos nos auxiliavam. A maio­
ria também el'a pobre e nós estávamos
nús, descalços e famintos; córtforit1e disse,
não dispúnhamos nem daquele pouco que tra­
zíamos conosco como emigrantes. Agora fal­
tavàm também os bráçôs de um matido pa­
ra trabalhar e para ter 1.im baluarte de espê-­
rança para o futuro, faltava também qual­
quer possibilidade de pagar qualquer ahi­
guel, por insigrttlicante que- fôSSé !
Por isso nos pri..rneiros tempos comemos
do que nos oferecia aquela bõa gente, prin­
clpaln1énte o Pe. Vigário, e aceitamos como
um dêo pr(i!sente a estrebaria que nos ofe­
réêeu, provisõriamente, o bo'Di Antõnio :Mon­
tesi e sua senhora cha.:rn:ada. « A Dototéia » ,
Tiraram o burro da estrébária: e . . trocada
.

a palha, ali nos instalamos, e foi para nós


uma sorte não fí<!ar Dá rua debaixo da neve !

O ct.i1ne � :reduzira àcítnela pobreza


desumana �

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Nos primeiros tempos vivemos graças
à caridade pública. Depois empreguei-me em
casa do sr. Vicente Gradoni, que precisava
de uma senhora, pois morrera-lhe a espôsa
deixando filhos para criar. Quando contraio
segundo matrimônio fui para a casa de Vi­
cente Sandreani.
Enquanto isso, procurava colocar os fi­
lhos. Ângelo e Mariano, coloquei-os provisó­
riamente em casa de bons colonos ; tinham
dêste modo um pedaço de pão para comer,
alguma . gorgeta e a estrebaria para dormir.
Para as meninas julgamos melhor interná­
las num colégio que as ·mantivesse gratuita­
mente e foi o Pe. Vigário que muito se esfor­
çou, escrevendo para diversas pessoas, prin­
ci:galmente dentre as que se mostraram inte­
ressadas pelo fato da minh� Mariazinha. E
eram muitas, porq\}e quando foi assassina­
da, operada e d�pois triunfalmente sepulta­
da, Netuno e Anzio estavam repletas de
veranistas de tôdas a� partes, mas principal­
m�nte de Roma e foram êstes mesmos que,
em poucos meses, levaram a fama do martí­
rio de Mariazinha para. todos- os. -lugares, a­
té para ambientes distintíssimos porque a

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praia de Anzio de então era principalmente
a da nobreza de Roma.

O mais fervoroso e o mais pronto para


aj udar foi o 'Pe. Rômdlo Allegrini, 'Pároco
de S. Rocco, que chegou a interessar · pelo
caso o próprio Santo Padre Leão m. :l!! s te
santo sacerdote interessou-se de tal forma
pela minha famfiia, que me chamou a Roma,
dando-me hospedagem por uns quinze dias ;
conseguiu colocar no « Instituto delle Zoc­
colette » minha filha Ersília e depois de um
ano, mais ou menos, colocou também Te­
resa com as Irmãs Missionárias de Maria
em Grottaferrata e por três vêzes encaTre­
gou-se das despesas da viagem. O Pe. Alle ­
grini foi-nos realmente um .pai. Fez tudo o
que lhe era possível.

Subsidiou também minha farrúlia por


diversos anos e o seu sonho mais acariciado
era transportar os despojos mortais qe mi­
nha filha para o seu cemitério, no « Vera­
no ». Em Roma. cercàram� militas pes­
soas desejosas de saber- a hiStória de ttrlflha
filha e assim fui obrigada a descrevê-la
muitas vêzes. Contemporâneamente, o Cav.
Henrique Feliziani, Diretor do seminário
«Vera Roma » e o seu Redator Adv. Car­
los Marini, fizeram uma Càmpanha na im­
prensa sôbre o fato de Mariazinha, e além

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disso foram os p:romovedores de um monu,..
mento em Netuno que imortalizasse o fato
heróico : êste m.onurne;nto foi solenemente
inaugurado dia 10 de jul.bo de 1904, dois a­
nos após a morte de minha filha. A Prefei­
tura também não quis ficar atrás e, no ce­
miterio de Netuno, sôbre o tumulo de Ma.­
riazinha, .eri.giu outro monu.mento �< à es­
pera (conforme estava gravado na bela cruz
de mármore) da legal autor�ção para ser
sepultada no Santuário de No.sso Senhora
daJ; Graças onde se ergue o mom.un�nto >>.
Tanto o primeh'o como o segundo mo­
numento foram confiados aos cuidados dos
Revmos. Pes. PaJ$ionistas que eram os di­
rigentes e os guardas do Santuário e man­
tinham-se indiferentes e estranhQs às obs­
tinadíssimas rivalidades que já haviam sur­
gido para a posse do corpo da « nova Inês »
como jâ chamavam minha filha.
Eu não presenciei, mas fui informada
que, em ambas as inauguratões, participou
uma multidão imensa, também de forastei..
ros e que foram feitos discursos de circuns,.
tância em louvor da minha Mariazinha.
Quem mo contou foi o nosso Arcipreste
a quem lhe escrevera Mons. Temistocle Sig­
nori, pároco de Netuno, que nos conhecera
bem e que também assistira Maria na hora da

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morte, e que, naquela circunstância, fôra um
dos oradores.
Colocadas as duas filhas Ersilia e Tere­
sa, restavam-me os meninos. Angelo sobretu­
do, não queria continuar empregado em casa
de colonos ; pretendia melhorar a sua condi­
ção a tôda custa e levantar o nível da família.
Insistia sempre que o ajudasse tentar a sor­
te na América, como haviam feito muitos ou­
tros do lugar. Mas, como seria possível aju­
dá-lo se eram necessárias trezentas liras só
para a passagem em terceira classe, de Gêno­
va a Nova Yorque, se eu não dispunha senão
de um dinheirinho ganho com meu serviço,
e sempre gasto antes de o receber ?
A idéia parecia irrealizável, mas êle con­
tinuava insistindo, tanto que uma noite so­
nhou que seu falecido pai lhe disse :
- Vai pois à América. Há dinheiro.
Pela manhã contou-me o sonho, mas eu
inquieta repliquei :
- Disse-te que há dinheiro ? e onde es­
tá ? sabes me dizer ? poderia bem dizer-te
um número para tirares na loteria que seria
melhor.
Mas depois, refletindo, tive uma inspira­
ção, creio que fôsse inspirações, porque es­
tou convencidíssima e sempre o provei em
minha vida, que os mortos ajudam os vivos.
Fui ter com o sr. Vicente Gradoni, onde tra-

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bal:Qei ; narre,i.-�e _o .sonho .e :a .�rsistência de
meu filho ; comoveu-se e deu-me a importân­
cia. Corno garantia deixei-lhe wna carta de
G�mbio com a data .em branco. O .contrato .e­
r.a que Angelo teria que env.iar de lá o dinhei­
ro necessário para saldar a dívida ; penso,
porém, que o sr. Vicente considerasse perdi­
da a quantia emprestada mas, pelo contrário,
isso não sucedeu. Angelo partiu para a Amé­
rica em 1906 e lá fez .wn pm,tco de tudo : ser­
vente de pedreiro, rebocador, pintor, caixei­
ro, etc.
Com suas primeiras ecol).om.i,as saldou
logo a dívida, localizou�:se :b.ern .e dEWois aju­
dou também a nós. .Cont).nUQU aWC;iliando-nos
sempre.
Enquanto isso, eu continuav;,;t como e;m­
pregada, ora numa, ora noutra tamil_ia, se­
gundo os pedidos e lllinba conven,iêp.cia. Qua­
se nunca, porém, me atastei de Corinaldo,
com exceção de três anos (mais ou menO$)
que passei em Ripe, a poucos quilômetros da­
qui.
Foi um período muito triste pa;ra mim,
em que sofrí muito e derramei lágrima,s a­
margas. Mas desde 1008, gr�s ao interês­
se da ótima família do Conde :arononi, en­
contrei sempre trabalho em alguma qas suas
propriedades junto às ftunjlias dos seus de­
pendentes.

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- Não, nWlca trabalhei em casa do sr.
Brononi.
Em 1908 :fui constrangida a tirar Ersí­
Ua do Instituto no qual estava, porque ali não
gozava de bôa saúde. Teve abcessos, furún­
culos a mais não poder, e algumas linhas de
febre não a queriam abandonar. O médico
aconselhou a mudança de ar, mas como fa­
zer ? Levá-la para Corinaldo era impossível.
Sempre por meio de benfeitoras, pensou­
se em colocá-la com a irmã Teresa, que es­
tava muito bem em Gr.ottaferrata.
Mas as regras do Instituto não o permi­
tiam e as Irmãs não fariam uma exceção.
Para superar a dificuldade, recorremos
ao novo Papa Pio X ,que jâ indiltetamente ha­
via-se interessado conosco e que admirava
muito Maria, desde que dela ouvh'a falar. E .

assim, por especial indulto .do Santo Padre,


Ersília foi para Grottaferrata com Ter.esa,
onde gozou sempre de bôa saúde.
- Sim, .eu ía visitá-las quando tinha o­
casião, mas essas foram tão poucas, prin­
cipalmente no começo. .Como aguentaria com
as despesas ? Sei porém que eram visitadas
por admiradores da irmã Maria, e também
por curiosos. No verão, o próprio conde Ma­
riano Brononi, que passava as férias em
Grottaferrata, ia visitá-las.
�ste bom sr. interessou-se sempre, en-

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quanto viveu, dos restos mortais de Maria,
da sua fama de mártir e ao mesmo tempo não
se esquecia de nós. Nas visitas que costuma­
va fazer às minhas filhas Ersilia e Teresa,
nunca se apresentou de mãos vazias.
- Sim, tanto as minhas filhas como An­
gelo me escreviam e eu lhes respondia por
meio do Pe. Vigãrio.

XI

Ultimamente, todos se interessavam


por minha filha. A maioria para exaltá-la
mas, um ou outro também para contradizê­
la. O advogado Marini, que fôra um dos pro­
motores do monumento de Netuno (que ob­
tivera tanta aprovação) , escreveu que seria
uma vergonha se Corinaldo, terra natal de
Maria, não tivesse feito o mesmo.
A idéia difundiu-se, foi aceita e o pró­
prio Bispo da Diocese, S. Excia. Mons. Cuchi
e o Arcipreste Pe. Alexandre Marinelli fo­
ram os realizadores.
As ofertas, além das do lugar, vieram,
embora modestas, de tôda a Diocese, ou
melhor de tôda a Itália. A mais rica além,
de ser a mais desejada, foi aquela de Pio X

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que. pessoalmente, pôs-se ao par de tudo
quanto se fazia para Mariazinha e insistiu
várias vêzes, até importunar..se, para que
os interessados se apressassem em glorifi­
cá-la. Costwnava denominá-la « um magní­
fico mod.êlo para a juventude feminina ».
Com a oferta, Pio X mandou também
o seu ecômio e a sua Bênção. O monumento
foi erigido na igreja paroquial de S. Francis­
co onde está atualmente. O Pároco, Pe. Ale­
xandre Marinelli pretendia também os des­
pojos de Mariazinha e fez quanto pôde pa­
ra tê-los em Corinaldo.
Dizia-me :
- Aqui nasceu, aqui foi educada e ins­
truída aqui passou a maior parte de sua vi­
da, aqui está a sra. e sua família. A sra. tem
direito ao corpo da filha e é justo pois que
aqui Mariazinha descanse.
Tal raciocínio parecia muito justo e eu
também pretendia a isto, mas nada conse­
guimos, mesmo quando o sucesso da inicia­
tiva pareeia patente. Vê-se que Deus queria
diversamente, isto é, assim como aconteceu.
A inauguração do monumento em Cori­
naldo deu..se a 25 de setembro de 1910.
Acorreu a juventude em pêso das ci­
dades visinhas, da redondeza e dos casebres
A s ombra das bandeiras e dos estandartes
das respectivas associB.ções religiosas. Um

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cortejo interminâvele festivo como nunca se
viu em Corinaldo, desfilou :triunfalmente,
cantando pelas ruas do lugarejo, não obstan­
te a raiva dos poucos anticlericais.
Na ponta vinha o advogado Marini e sua
espôsa, em seguida eu e minhas fill:tas Ersí­
lia -e Teresa que traziam uma graciosa corôa
de flôres, e atrâs todo o clero e o .povo.
O discurso de ocasião foi pronunciado
pelo próprio Bispo ·( naquêle -dia ,falou três vê­
zes: na Comunhão geral da :manhã, na Cris­
ma e na Procissão) no qual glorificou Maria­
zinha como « mârtir da pureza », elagiou a
população pela Comunhão Geral da manhã e
conferiu a Crisma a setenta meninos e meni­
nas.
Eu, porém, naquêle dia, tive um grande
pesar : um ladrão talvez por desafôro, apro­
veitou a ocasião para entrar em minha casa
e, infelizmente, entre os objetos roubados es­
tava também o colar de coral do meu casa­
mento que eu tinha dependurado no pescoço
de Mariazinha no dia de sua Primeira Comu­
nhão e em outras festas especiais.
Mas, coisa roubada não traz fortuna e,
de fato, o ladrão, pouco tempo depois, foi én­
contrado morto, não sei nem porque nem por
quem.
Depois . . . , depois, quem poderá lem­
brar-se de tudo? A minha vida foi muito lon-
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ga e angustiosa� Sofri sempre da memória...
Mas agradeço a Deus por ter chegado a· essa
idade ! Lembro-me porém, que em 1914
experimentei a· alegria de abraçar meu filho
Ângelo que regressava da América para ca­
sar-se. Tomou por espôsa Rosa Storoni, mo­
ça de bem, que lhe deu oito filhos sãos e ro­
bustos. Sentia..se bem na América. Trabalha­
va, ganhava e nutria a esperança de um futu­
ro mais feliz, também para nós, tanto assim
que levou consigo o irmão Alexandre. Infeliz­
mente, porém, rebentou a guerra e eu fui
constrangida a trabalhar mais. e viver em
maiores angústias. Em 1915, também por mo­
tivo da guerra, minhas ·filhas Ersília• e Tere­
sa, foram transferidas de Grottaferrata pa­
ra Monteverde, sempre porém junto · com· as
mesmas Irmãs. Depois Mariano foi mandado
para a guerra e foi convocado para a classe
dos mais jovens : 22 anos. Imaginem o esta­
do de uma pobre mãe ! Menos mal que Maria­
zinha pensou , em proteje-lo. O fato êle mes­
mo poderâ contá-lo, mas, em todo o caso,
narrar-lhe-ei.
Mariano estava na primeira linha de
batalha e todos · os ·dias combatia; Certa vez
receberam ordem de estarem preparados
para um assalto a baioneta. Lutara tantas:
vêzes que já sabia como comportar-se. Com
outros .quatro companbeiros1 acocorados em
7':r
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um buraco da trincheira, esperava Mariano
o sinal para começar o bombardeamento. Na­
queles instantes decisivos, recomendava a
alma a Deus e à Maria. Quando foi dada a
ordena para o assalto fez UY.n esfôrço para
saltar fora mas, precisamente naquêle mo­
mento ouviu chamã-lo em voz alta : << Maria­
no! » virou-se e, naquele momento, uma bom­
ba do inimigo explodiu mesmo ali, cobrin­
do-o de terra, mas deixando-o incólume, en­
quanto os outros quatro companheiros, dis­
tantes dêle a dois passos apenas, morreram,
ficando em pedaços.
Tudo tinha sido questão de um minuto.
Em 1917, \1via-se na doce esperança de
que a guerra terminaria de um dia para o ou­
tro. Eu estava convencidíssima de poder rea­
braçar todos os meus filhos, porém . .
Da América chegou-me a terrível noticia
da morte de Alexandre. Estava na flor da
idade: 22 anos.
O ano 1918" foi decisivo para a: escolba de
estad() de minhas filhas : Ersília tinha 20 e
Tereza 18 anos. Sairam do colégio e vieram
para casa. Nove meses mais tarde, porém,
Tereza, sentindo o chamado- de Deus, enti'ml:
novamente para o mesmo Instituto a fim de
abraçar a vida religiosa e tomou--se irmã
Franciscana Missionária de Maria com o no­
me de Irmã Maria .Aléxandra de S.. Alfredo.

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Ersilia, pelo contrário, quis seguir o ca­
minho comum no mundo. Quanto a mim,
sempre deixei liberdade aos filhos na esco­
lha do estado. Quando me perguntavam o
que deviam fazer, eu dizia :
- Refleti bem e rezai, depois escolhei o
caminho que Deus Nosso Senhor vos inspi­
rar e que vos parecer mais conveniente. Sa­
crifícios e desilusões todos encontrareis e
em todo o lugar, porque qualquer que seja o
estado escolhido, deve ter por finalidade ga­
nhar o Paraiso. Ao céu não se vai de carro­
ça, mas como Jesus carregando a própria
cruz, que ninguém nô-la poderá carregar
e que em todo lugar é pesada.
Mariano que sempre trabalhava na roça,
logo após o regresso da guerra, pensou em,
constituir família. Quando participou-me
ientí-me feliz em dar o meu consentimento
e assim em 1920 desposou Júlia Morbidelli
de Filetto, da 8enigaüa, e Deus abe:ncôou seu
matrimônio dando-lhe 8 filhos. Isotina, uma
de suas filhas tornou-se Oblata de Jesus e­
Maria, em Albano; com o nome de limã Au­
rea e que· atualmente encontra-se na Sa�
nha.
Agora Mariano possui um sítiO da O. N.
C. em Lícula, fração de Pozzuoli e logo mais
tornar-se-á proprietário da quinta, graças à
« Lei Especial » das terras der bonificação..

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Embora êle fosse·pobre, sempre me aju­
dou; vinha frequêntemente visitar-me e
sempre me quis muito bem. Creio que fôsse
o mais afeiçoado.
Ersília casou-se com Euliano Porfiri,
pedreiro aqui de Corinaldo, dia 29 de junho
de 1822, festa de S. Pedro e S. Paulo. Teve
três filhos : Maria Enrica· que habita conos­
co, Carlos que faz parte da guarda Pontifí­
cia e Pedro que frequenta a escola dos Pe­
quenos Operârios dos Salesianos, em Roma.
Esta casa é dêles e eu, dêsde que fratu­
rei o fêmur, em 1944, passei a residir aqui
com êles�

XII

Pelos fins de 1928 fui informada de que


os falecidos de 1902, enterrados no cemi­
tério de Netuno, seriam exumados e coloca­
dos numa sepultura comum, caso as famí"
lias não tomassem outras medidas.
Para não acontecer com Mariazinha o
que acontecera com meu falecido marido
Luiz, fui pessoalmente a Netuno com meu fi­
lho Mariano, Teresa Cimarelli, o Arcipreste
e outros. Ao todo dez pessoas de Corinaldo

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Todoiú�cnicordavam em diiêt<·que�os res;:
tos de ,minhà: 'filha não deviam ser dispérsa­
dós. Muitos,· com o Arcipreste Pé; 'Â'lexàndre
Màrmelli, queriam- levã�Ios para Cõrlnaldb;­
onde nascera, outros ao· invés,- corri os- Pes:
Passionistas, opinavam para ·Netuno, :onde
padecera o martírio e qUe:riam-nos no
monumento que lhe fôrq. �r�tq;,J>ara êste ' fim
e_m 1904, no- Santuário de N�sa Senpor,'a_ das.
Graças.. Estes últinw� c�.:r;t!,avaw..com o .ap9lo
do Cardeal de Elbano, -.f??rque Netuno_ é Di9-
cese de .Elbano. Recorriam a . miml mas eu
rião sabia' o que fazer� -aconselhei�Ij1e ·b:j.mb�m
com miriha filha Teresinha (I:rínã Ma,ria de
S. Alfredo) , mas ela respondeu-me·. quê. << dei­
ias��- -Nosso Senhor_ Çtgir :»: ·

Indo para Netuno, nada ·ainda ti:.


-· ·

nha decidido, pbrém refletjç(tiô 'qtle mé fôra


dito : Em Netuno Mariazihha foi marti:d­
zada, aqui teve o primeifó monumento, aq'Ui
.

e · mais · conhecido o . seu sacrifício; crêein


.

ria sua Santid�de, recorrem a: e,Ia ; · de Cori:.


naldo ela saiu ·muito pequena. O'.Arcipreste
entusiasmado fez e faria todo! o póksíVel,
mas pôde contar imicaménté ·com suas · fôr­
ças. Em Netimo estão ós Pàssionistas que
·

eonstituem Uinà Ordem, uin exército põ�e�


roso com infinitas possibilidades de divUl­
gar a sua fama todo o mundo. Ení se tra­
tando da--Call;sa da beatificação,. como' pode-
11 - Mãe Assunta

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ria ser a vontade de Deus e conforme todos
previam e desejavam, era muito mais fácil
que os grandes trabalhos e as graves despe­
sas fôssem sustentadas pelos Pes. Passionis­
tas do que pelo Arcipreste.
Deus serve-se também dos meios huma­
nos para seus fins, não é ?
E , além de tudo isto, quando Mariazi­
nha morreu, pediu para ser levada « mais
perto de Nossa Senhora », e onde poderia
estar mais perto do que no seu Santuário ?
Contudo, eu nada queria decidir e dei­
xava que Deus conduzisse as coisas.
Dia 26 de janeiro foi feita. a exumação
do cadáver. O esqueleto de ·Maria estava
intacto, mas somente os ossos e um pouco
de terra molhada. Ao ver como estava redu­
zido o corpo de minha filha, linda como um
anjo, sofri um calapso cardíaco tão forte que
quase morri. Fui amparada e consolada,
mas se as minhas lágrimas tivessem a vir­
tude de reanimar aquêles ossos, certamente
se teria realizado um milagre.
Os restos mortais foram amorosamen­
te recolhidos e encerrados em lUil cofre de
zinco, dentro de um pequeno sarcófago de
madeira e provisoriamente colocados na ca­
pela das Irmãs da Cruz, em Netuno, à espe­
ra de obter, quanto antes, licença de deposi-

82
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tâ-los no seu monumento no Santuário de
Nossa Senhora das Graças.
O Arcipreste de Netuno, Mons. Nicolau
de Franceschi e o Superior dos Passionistas,
que muito já se haviam interessados por Ma­
ria, asseguraram-me que a devoção em pou­
co tempo começaria e com bom êxito.
Devo porém acentuar que o Santuário
de Nossa Senhora das Graças não é o mes­
mo que frequentávamos quando lá moráva­
mos. Aquêle também era lindo, querido, mas
muito pequeno, pouco maior do que um quar­
to, construído à beira-mar e fôra demolido
pouco depois da nossa saída, porque a ação
destruidora das águas o haviam tornado pe­
rigoso. O atual está construído mais para
dentro, é maior e mais bonito.
Soube que fôra possível concluí-lo so­
mente graças à grande contribuição do San­
to Padre Pio X, que quase o custeou sozi­
nho. Ouvi dizer também que custava avulta­
da soma, que o Papa havia dado para que os
Passionistas se encarregassem, não de cui­
dar e de oficiar apenas no Santuário como
antes, mas para que zelassem espiritualmen­
te por tôda aquela zona inclusive Conca, Fer­
rieri, Campomorto, Foce Verde, etc., região
quase totalmente abandonada. Sobretudo,
porém, Pio X queria que os Passionistas não
deixassem morrer a lembrança de Mariazi-

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nha e insistia para que propagassem o exem­
plo dela entre a juventude.
Pessoalmente o Papa estava convencido
de que minha filha era mártir e por isso ur­
gia que ela fôsse conhecida. O monumento à
minha filha, construído pelo Semanário «Ve­
ra Roma», fôra também demolido com a ve­
lha igrejinha, mas alguns pedaços foram
guardados no Convento pelos padres. Ter­
minada a nona construção, o Pe. Luiz Lau­
ri Calocci, por sua conta, fê-lo reconstruir
na nova Igrejinha, no fundo, à esquerda, on­
de está atualmente. Soube que o Pe. Reitor
e outros falavam de minha filha a todos os
que indagavam o porquê daquele monumen­
to e que a introduziam nas conversas, du­
rante as peregrinações. Mas, disseram-me
que Pio X queria bem mais : desejava o iní­
cio solicitado da Causa da Beatificação e vá­
rias vêzes disse : «Fazei algo para Maria Go­
retti, fazei-o logo, nós o desejamos. Saibais
que nos interessa muito». E uma vez chegou
até a dizer, em tom bem enérgico : «Vamos,
vamos, mexei-vos, mexei-vos ! está na hora !
está na hora !»
Soube que o Pe. Superior, Capelão do
hospital, que assistiu Maria na hora da mor­
te, persuadido do martírio de minha filha,
pediu e guardou como relíquia preciosa o
lençol sôbre o qual se efetuara a autópsia e

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quê agora o havia doado ao Santuário, a
fim de que todos os objetos pertencentes à
Mariazinha fôssem conservados em um lu­
gar único e « mais perto de Nossa Senho­
ra» como êle mesmo a ouvia dizer. É o len­
çol que se vê atualmente na sacristia do San­
tuário.
*

Regressamos ao nosso lugarejo, mas


os Pes. Passionistas e o Arcipreste Mons.
Nicolau de Franceschi mantiveram as pro­
messas feitas. Começaram sem demora a so­
licitar as autoridades Eclesiásticas e Ci­
vis a licença para transladar os ossos de
minha filha ao Santuário, no seu monumen­
to e, graças ao seu grande esfôrço, consegui­
ram-no. Chegada a autorização, decidiram
transportar os santos despojos com soleni­
dade, no dia 28 de julho de 1929. Desta vez,
convidada pelos Pes. Passionistas, que cus­
tearam as despesas da viagem, vim nova­
mente para Netuno com meu filho Mariano,
sua espôsa, minha neta lsolina e Teresa
Cimarelli. Foi nesta ocasião que, a pedido
dos Padres acima citados, e em reconheci­
mento pelo muito que haviam feito, e tam­
bém para evitar-lhes qualquer contestação,
de bôa vontade doei-lhes o corpo de minha

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filha, a fim de que o pudessem guardar no
seu Santuãrio.
:f!:les então, prometeram-me novamen­
te que trabalhariam pela sua glorificação,
se tal fôsse a vontade de Deus. A translada­
ção foi um triunfo inesperado, nunca visto-! A
urna foi carregada por seis filhas de Maria,
vestidas de branco e atrás, na frente e nos
lados uma multidão de pessoas, tôdas as au­
toridades Religiosas e Civís, tôda a juven­
tude do lugar, de Anzio e Netuno, incluídos
os veranistas, grandes cartazes e estandar­
tes, enfeites e arcos em todo o trajeto : flô­
res, luzes e toálhas pendiam de tôdas as jane­
las. Uma festa nunca vista ! Naquêle dia fez
também a sua Primeira Comtmhão minha
neta Isolina, Filha de Mariano, que mais
tarde se fez Religiosa.
Discursou na ocasião Mons. Carlos Sa­
lotti, então Promotor Geral da Fé e grande
orador ( mais tarde foi Cardeal e agora já
faleceu) e falou de Marlazinha como de uma
santa. Longe estava de um discurso fúne­
bre !
Eu, porém, não consegui assistí-lo to­
do, comecei a sentir-me mal e quando já per­
dia os sentidos, levaram-me embora. Todos
choravam, também depois, e diziam-me que
eu era a ditosa mãe de uma santa. Recebi
tantos apertos de mão que à noite doiam-me

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os braços mais do que se tivesse capinado o
dia todo e muitos as beijavam como se fôs­
se eu a santa e não minha filha. Todos qui­
seram desfilar diante de sua uma exposta,
mas um dia não foi suficiente para tôda a­
quela multidão. Foi necessário esperar dois
dias antes de encerrá-la no monumento.
Naquela ocasião narrei detalhadamen­
te aos Passionistas e a outros, tudo o que
me lembrava sôbre minha filha, como aliás
fê-lo também Teresa Cimarelli e assim foi
possível a publicação de uma biografia mais
completa e documentada, como era por to­
dos solicitada. Encontrei também naqueles
dias, diversos conhecidos de Conca, entre os
quais o sr. Massaro e sua espôsa, e soube as­
sim que naquela zona a lembrança de minha
filha continuava sempre mais viva, que o seu
martírio era enaltecido pelos cantores po­
pulares nos mercados e nas feiras, e que a
voz dp povo continuava chamá-la «santa».
Antes de partir fomos visitar « Cascina
Antica » e rever os lugares que me haviam
custado tantos suores, tantas lágrimas, a
vida de meu marido e também o sangue de
minha filha. Novamente derramei lágri­
mas, já agora consolada, mas eram sempre
lágrimas. Oh! pobre da minha filhinha !

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.-,;X_III

De regresso .a Corinaido retomamos a


vida ordi.ríãria de tôdos os dias.
Q. Arcipreste porém; continuava sem:­
pre informado e contou-me que a biografi9-
de minha filha, logo ao ser publicada, se es­
gotou a: edição, qué os seus santinhos, im­
pressos pelos Pássionistas, erani· pedido�
continuárne�te,- e afirmou-me també:ril que
obtinham « graças », e estas estavam sendo
registradas e do�umentadas desde que o fa�
·vçrecídó desse relações. Soube também que
no·.:monumento que continha o corpo de mi'­
rihà filha, rio Santuário de Netuno, nunca
faltavam flôres frescas, visitadores e devo­
tos éril oração. E o Padre insistia : «Reze As­
sunta·, rezemos todos. Parece que Deus quer
mesiho glorificar à. nossa Mariazinha ! Pena
sé:n.a: honra · que .terá também o nosso luga­
:rej{f!J�Ao berrl.' qt'fe poderá fazer ! »
Em 1935 derarp. início aos interroga­
t6ríos para o processo informativo. Depu-s
tudo,·o ·que sabia a respeito de minha fílha,
seguncl:o · me era solicitado. Foram também
int�rrogadas .umas vinte pessoas! 'CJUe a: ha-­
viam··conhecido ·e ainda viviam; entre essa3
tamtiém Alexartdre - ( Serenelli) •-'-'- o seu,

assassino. Tudo foi feito segundo as regras

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_pr�scritas pelo Direito_ Ggnônico. Imaginai
a minha confus�p,, s��do analfabeta, diante
daquele tribunal Eclesiástico ! M.as · · éerta­
rr:tente era MC!-rüp:ii').pa quem me dava fôrças,
pois do contrário o que �u-:f>Oderia ·ter feito ?
Sim, t:ambém antes Ji:iv:era notícias de
Ale;xandrer Sabia .que fôra sôlto. cta prisão
desde 1929, quatrq, ,anos antes do tempo es­
tabelecido, devido · ao seu bom · comporta­
mento. EJabia: que .e�t(:l.ya, . ;muito arrependi.,.
do do crlme feito, que ;habitava com seu ir.,.
mão casado, em T()�refte de Ancona.
Sabia também que, interrogado pe�o ­
Processâ Iriformativo de . minha filha, dis­
sera tôda a verdade :' ·cúmo' Mariaiinlia sem­
pre fôra bôa; · · inocente e simples, pura co­
mo a água, que sempre lhe havia ·resistidQ
e como � culpa recaía tôda sôbre êle.

,-
\ • l
I

Eu sabia t1-1,do isso, mas nunca teria


imaginado que àquêle coitélQ.o . tives�e a co:­
ragem ;de pedir.:.me perdão. Êle sabia qu�
an,tes eu lhe queria bem, .agora _porém não
podia susp�ita;r q;ual fôsse a niüiha disposi­
ção e alétn disso, humilhar-se. tanto assim . .
Foi no �ata1 d� l9;3,7. Vinll� 4e -9�imp, pnde
trabalhavá cômó' e mpregado de - campo. A­
presentoq-se. ;à, ��n� port� , SfiWI fazer:"se ,a.,
mmciar e iogó- aô ver-me-âisse : « Assunt�..
perdpfl��e ? » --�

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- Perdoou-te ela, respondí-lhe, como
não deverei perdoar-te eu?
Quando o Arcipreste soube da sua che­
gada, veio cumprimentá-lo também, tra­
tou-o amigàvelmente e alegrou-se ao saber
que passaria conosco as Festas de Natal.
Era mais infeliz do que eu. Encontrou­
se em família, como tempos antes, e na noi­
te de Natal, juntos, fizemos a Santa Comu­
nhão. A população de Corinaldo, principal­
mente mulheres e crianças muito simples,
de princípio o olhavam com horror, mas de­
pois, visto que se comportava com tanta hu­
mildade, ficou edificada e ficaria bem con­
tente se êle ali permanecesse. Em 1938 fui
chamada à Roma para o Processo Apostóli­
co. Pouco depois tive que apresentar-me às
Irmãs Missionárias Franciscanas de Maria
para a fotografia de Mariazinha. Fotogra­
fia ela não possuia e o Postulador, o bom
Pe. Mauro, queria pintá-la mas de um modo
realmente semelhante. Dei às Irmãs (que
possuem uma escola de pintura e são ver­
dadeiras artistas) tôdas as indicações con­
forme estavam gravadas em mim e dês­
te modo, fez-se um quadro que atualm� nte
está na Escada Santa « é uma verdadeira
fotografia » de minha filha. Até então tudo
correra bem e assim se esperava que conti­
nuasse no futuro. Mas eis que o demônio

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por intermédio de certos homens, que lhe
fazem as vêzes, meteu seu rabo também.
Certo dia chega inesperadamente, em Cori­
naldo, o Postulador e disse-me muito triste
e preocupado : « Assunta, é necessário rezar
e pedir muito a Deus. O demônio está com
inveja do nosso trabalho e tenta distruí-lo ».
Não me disse do que se tratava. Certamente
de coisas graves e o fato é que rezei tanto,
tanto, ou melhor, rezamos tanto e a nuvem
preta que ameaçava demolir a causa de mi­
nha filha desapareceu.
Pouco depois passei a trabalhar em ca­
sa do Vigário de Corinaldo, Pe. Francisco
Bernacchia, onde fiquei mais ou menos três
anos, e foi neste tempo que conheci taml·érr.
o sr., Padre, quando aqui veio para a propa­
ganda da Bôa Imprensa. Lembra-se ainda
Padre., das longas conversas que tivemos
sôbre Mariazinha ? Dei-lhe também os nomes
dos nossos conhecidos de Conca, de Campo­
morto, de Foce Verde e de Casa Carano, até
de uma família de pastôres de lenne, que por
ocasião da morte de minha filha, tinha o re­
banho em nosso terreno, pouco distante de
nossa casa.
E o sr., Padre, foi visitar aquêles luga­
res, falar com aquelas pessoas, embora mui­
tas coisas já estivessem mudadas. Lembro­
me que, no seu regresso, fez-me uma longa

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descrição que eu �oinpletei com as::-• lfi!nhas
recordações'. � -<
Perfeitamente.
Na -easa Canônica, .C-Ofil aquêle santo
homem, qual - era · o ·.Arcipreste, como eu me
sentia feliz ! Como sentia prazer em servir
quatro sacerdotês ! O trabalho não , faltava
e o meu sonho· era morrer ·sob o teto da ca­
sa de um sacerdote, ·mas, Deus dispôs diver­
samente. Seja feita a sua vontade.
A três de outubro de 194I fui novamen­
te a Roma e a Netuno, -·depois ,conduziram­
nos a Ferriere para a 'inauguração da lá­
pide sôbre a fachada da « Casciria Antica »
onde fôra martirizada a minhà Mariazinha
e foi aqui que· o Postuiador proferiu o pri­
meiro discurso oficial sôbre minha filha.
Não obstante a Ghuva, o mau tempo ·e a es­
cassês de meios · de transportes devido à
guerra, éramos mais de cem pessoas. Eu
contava então 75 anos, gozava bôa saúde,
mas a idàde era avançada· e além de tudo,
havia perigos · - de · bombardeamentos, e
portanto, esvaía-se a esperança de ver a fi­
lha sôbre os altares. Deus seja bendito, por­
que me concedeu tamanha graça !
Em 1944 recebi de Deus a Cruz que de­
verei carregar até o túmulo : caí da escada
e fraturei o fêmur direito ! Transportaram­
me imediatamente para o hospital, mas da-

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va-me a impressão que me leva�am - morta !
Foi feito todo o possível, maS- com 78 anos
de idade . r:· . As máquinas y�lha..s nãq:sofrem
consêrtos. Não houve remédio. Após o tra­
tamento no hospital, quando- todos os meios
tinham sid.ó usados, foi-me dado:ªlta e então
retirei-me ;aqui com minha filhà . Ersília e
. .

meu genro, que sempre me ampararam e


)

me quiseram bem.
· ·

Em 194i fui a Roma para-a Beatificação


de Mariazinha. Fui acompanhada por Maria­
no, sua espôsa e três filhos ; Ersília com seu
espôso e dois filhos e Teres,a (Irmã Maria
de S. Alfredo ) . Compareceram também as
autoridades de Corinaldo _e a peregrinação
de tôda a Diocese, dirigida por Su.a
· · ·· ·
Eminên-
çia, o Sr. Bispo.
·

E assim, dia 27 de abril, eu estava em


S. Pedro: levada pelo carrinho, devido ao
fêmur fraturado, mas quanto ao resto es­
tava tudo muito bem. Via tôda aquela multi­
dão sem nada compreender. �ddos batiam
palmas também para mim. ·Minha filha Er-

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sília, Teresa (a religiosa) e Mariano esta­
vam a meu lado.
Assisti as funções a poucos metros de
distância dos Cardeais.
Quando pelas onze horas foi entoado o
« TE DEUM » e a imagem de minha filha
Mariazinha apareceu na glória de Bernini,
tive a impressão de que meu coração ex­
plodisse. Num primeiro instante parecia-me
ter-se tornado pequeno, pequeno e logo de­
pois . já não cabia mais no peito e as pul­
sações eram tão fortes que pareciam subir
à garganta. Tremia tôda, suava e até caiu­
me das mãos o bouquet de lírios. As lágri­
mas afluíram sem poder estancâ-las.
O Cardeal Granito Pignatelli de Bel­
monte, que muito bem me conhecia e conta­
va 96 anos, vendo-me chorar, pérguntou-me :
- Como, Mãe, não terminou tudo bern ?
Respondi-lhe : « sim, estou contente, po­
rém coitadinho do meu anjo » !
Da mesma forma o Cardeal Salotti, Pre­
feito da S. Congregação dos Ritos, foi muitís­
simo cordeal para comigo.
Sair da Basilica de S. Pedro é que foi
um problema. Não foi suficiente a resistên­
cia dos meus filhos e das pessoas de Corinal­
do para defender-me ; os guardas foram
constrangidos a intervir, porque aquela mui-

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tidão parecia enlouquecida e perseguia-me
em tôda a parte, até no Vaticano.
A tarde quando sua Santidade o Papa,
desceu à Basilica S. Pedro, mandou-me cha­
mar, deu-me sua bênção e a mão para bei­
jar.
Até hoje ainda não sei o que disse, sei
só que não consegui responder-lhe uma sí­
laba devido as lágrimas que me afogavam.
Ouvia as palavras do Santo Padre, mas ao
mesmo tempo não podia esquecer o aconte­
cido e chorava. Estava ciente de que era al­
go de grandioso. Sua Santidade apertou en­
tre as suas as minhas mãos, a mim que sou
uma pecadora. Que pesar senti por não sa­
ber escrever e de não ter podido manifestar
ao Papa tôda a minha gratidão.
Embora pobre e analfabeta, posso, po­
rém, rezar pelo Santo Padre rezo sempre e
assim procuro ser-lhe grata.
A noite obrigaram-me a falar na Rádio,
mas não entendi nada. Nada disse do que
realmente sentia. SOmente depois comecei
a compreender a graça extraordinâria que
Deus me concedeu. Consegui, porém, repe­
tir as palavras que me foram sugeridas pe­
lo locutor : « envio a minha bênção a tôdas
as jovens da Itália para que sejam puras co­
mo a minha Maria. Senhoras, sêde bôas
mães ». Nos dias sucessivos houve o « Trí-

95
https://alexandriacatolica.blogspot.com.br
duo da Postnlação » diante' 'iilàs relíquias de
minha filha�·-�p(1)stasn ná" igré;Ya -·de -S.-''JÜão e
S. . Paulo. Compareci todos os dias- embora
às -�scondidas ;e . bem� liêompanhad�, mas Jtu­
do foi inútil, pois na última noite quase nie
arrancaram um braço. Já estava no carro
- ·
quando fui reconhecida�
Esperava que o motorista conseguisse
abrir caminho, eis- que sint6 afenarem-se­
me a mão e puchá...la·. para fora. Vóltei-me,
era uma senhora que a todo .Cüsto queria
beijar-me a mão. Bastou um instante para
que tôdas .as senhoras me� cercassem. Uma
gritava uma coisa� :Outra gritava ;ôütra. Só
entendi : «· Abençoai-néS,, mãe Assttfita » Mes­
mo assim, comá se a santa fôsse eu e não mi­
nha filha ou pudesse abenÇoá-las por elà.
Em todo caso respondi-lhes :· «-:sêde bôas
mães e Deus vos abençoará ».
Antes de deixar Rorri:â · confirmei ·em
cartório a oferta -feita etn 1929, do corpo de
minhá :filha aos Revmos. Padres ·-Passionis­
tas.
Depois- regressamos para Corínaldo.
Certamente,- se- dependesse- -- de mim;
quem se teria - afastado de Rmna e do Vati-
cano ?
Também em Corinaldo fizemos gran­
des festas pela beatificação · de Mariazinha.
Era a primeira - santa do- lugar. Hou-

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ve missas cantadas, discursos, proc1ssoes,
com intervenção das Autoridades Eclesiás­
ticas e Civís. Promoveu-se também uma reu­
nião de tôda a juventude Católica Feminina
da região, em Senigallia e quando estas jo-
vens vieram em Corinaldo para homenage­
ar sua padroeira, quiseram que eu lhe fa­
lasse ; repeti então a tôdas o que sempre digo
às jovens : « sêde sempre boas e obedientes,
sêde puras como a minha Mariazinha ». Não
sou capaz de fazer discursos. Desde então
começaram as peregrinações a Corinaldo.
Transportaram para o povoado uma relíquia
que foi colocada na Cripta da Igreja de Nos­
sa Senhora das Dôres, num lugar bem pre­
parado e a ela dedicado. Afluíam devotos i­
solados e também em grupos, primeiramen­
te das Paróquias vizinhas, depois da Dioce­
se e finalmente de tôda a parte, e após as
funções na Cripta, todos vinham ter comi­
go.
Queriam ver-me, falar-me, beijar-me as
mãos, buscar uma lembrancinha de Maria,
ou ao menos ouvir algo de novo dos lábios
de sua própria mãe. Nenhuma novidade ti­
nha a contar, porque já relatara tudo nos
processos, e fôra também impresso várias
vêzes, mas vinham para ouvir-me e para ou­
vir falar de minha filha. Recebi-as sempre
em casa de Ersília ou no pátio, como fa-
7 Mle Assunta
-
97
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ço também atualmente. E não pense que se­
ja um divertimento. A noite não aguento
mais.
A minha vida resumiu-se nisso : rezar,
andar com as muletas, sentar num cadeirão
e receber todos os que vem, recontar sem­
pre a história de minha filha, ouví-los e di­
rigir a todos uma boa palavra._

Depois das Festas da Beatificação, Ale­


xandre veio novamente visitar-me. Desejava
que eu lhe renovasse meu perdão. Já o fize­
ra uma vez, como não deveria confirmá-lo
agora ? Está tão arrependido ! Cometeu um
pecado grave, é verdade, mas do qual Deus
soube tirar o bem.

Recebí-o de braços aber-tos, pobre fi­


lho ! Ficou contente e comovido. Falamos de
muitas coisas, principalmente das coisas
« antigas », porque nós velhos gostamos de
falar das coisas passadas. Rezamos juntos,
e contou-me que não se deixara ver durante
as festas para evitar a curiosidade importu­
na dos estranhos, que eram muitos (os com­
patriotas já o conheciam) e também porque
na solenidade de minha filha êle fizera o pa­
pel de Herodes na festa dos Santos Inocen­
tes.
O Postulador, antes que eu saísse de

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Roma, dissera-me : « Rezai, Mãe Assuntà,
para que possamos vê-la logo santa ! Dizei
à Mariazinha que faça quanto antes os mi­
lagres. Quero que estejais presente à sua
Canonização. Sereis a primeira mãe que as­
siste à Canonização de um filho. A beatifi­
cação chegou também a mãe de São Luiz
Gonzaga, mas à Canonização nenhuma. Se­
reis a primeira. Rezai portanto para sê-lo ».
Era dizer muito ! Contando já 81 anos, com
tantos achaques e o fêmur fraturado, a es­
perança quase se esvaía. No entanto, rezei
conforme me havia dito. E a minha filha que­
rida não quis mesmo perder tempo ! Vê-se
que era certamente da vontade de Deus, por­
que os Santos fazem o que :B:le quer.
Soube então que durante o Tríduo da
Postulação, Mariazinha concedera nada me­
nos ae vmte graças extraordínãrias. Mas
também não perdeu tempo com os milagres.
Os dois necessários, fê-los imediatamente,
no mês de maio, e foram tão grandes e evi­
dentes que logo puderam ser cientificamen­
te provados pela Comissão encarregada.
Mas para concluir êste trabalho, a Comissão
que é muito rigorosa, levou dois anos, e as­
sim a Canonização foi marcada para o dia
25 de junho do Ano-Santo 1950.

99
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XV

Na ocasião, minha saúde estava um tan­


to abalada : o médico receava que eu não a­
guentasse a viagem e as emoções. Propuse­
ram-me ir a Roma em uma ambulância, mas
finalmente fui de automóvel e não passei
tão mal.
Da América veio também meu filho An­
gelo e assim à alegria da Canonização de
Mariazinha, juntou-se a de abraçá-lo pela
última vez.
A festa da Canonização fôra estabeleci­
da para o dia 25 de junho como disse, mas o
pedido das entradas e · a multidão provinda
de tôdas as partes já era tanta que foi dito
ao Papa que apenas uma gotinha daquele
mar de peregrinos teria podido entrar na
Basílica de S. Pedro, e então o Santo Padre
fez uma exceção nunca feita até então para
nenhum Santo : fêz a Proclamação na Praça
S. Pedro, na tarde anterior, dia 24, e no dia
25, celebrou o Pontificai solene em honra
de minha ·filha na Basílica.
No cortejo pontifício, meus filhos An­
gelo e Mariano seguravam os pendões do

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estandarte e eu contentei-me em ver tôda a
cerimônia e aquêle mar ' de cabeças de uma
janela do palácio Vaticano. Naqueles dias as
fôrças não me permitiam fazer mais e já e­
ra bastante ! Devo agradecer esta graça. a
Nosso Senhor com a face em terra durante
tôda vida. Outras duas exceções fêz o Santo
Padre para a canonização de minha filha :
em lugar do costumado discurso em latim,
à tarde, na Praça S. Pedro, fêz uma magnífi­
ca homelia em italiano, falando com os fiéis
que lhe respondiam com entusiasmo.
A cerimônia, pela primeira vez, foi
transmitida pela televisão a todo o mundo.
Quando me retirei da janela, todos os
sinos de Roma faziam eco festivo àqueles de
S. Pedro, badalando por quinze minutos em
honra de Mariazinha. É lógico que a pobre
da minha filha nunca teria imaginado isso !
Enquanto me reconduziam, no carrinho,
parE:J. o abrigo Santa Marta, onde eu estava
hospedada, atravessando um dos corredores,
quase por acaso, encontramo-nos com o San­
to Padre que acabava de subir com o eleva­
dor. Parou todo sorridente, deu-me a mão
para beijar, abençoou-me e depois seguiu
seu caminho. Eu estava tão emocionada e
cansada que não consegui dizer-lhe nem mes­
mo um « obrigada ».
Durante a noite senti-me mal, foi cha-

101
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rnado um médico que me aplicou urna inje­
ção, e graças a isso, pude repousar algu­
mas horas, lá pela madrugada.
As onze horas o Santo Padre celebrou
a primeira Missa Pontificai solene,. em
honra de santa Mariazinha. Também meus
filhos, junto com os parentes e as autorida­
des de Corinaldo a assistiram de um lugar
que lhes fôra reservado.
Dia 26, segunda feira, fui recebida em
audiência particular pelo Santo Padre, em
forma oficial, solene, com o cerimonial re­
servado às Soberanas. Eu, pobrezinha, fui
assim tratada porque era a primeira vez na
história da Igreja que um Papa recebia a
mãe de urna santa. O merecimento era todo
de Mariazinha, não meu:
Fui introduzida na sua biblioteca priva­
da ; o Santo Padre veio-me ao encontro até
à porta, apresentou-me a mão para beijar
e entretive-me com êle cêrca de vinte minu­
tos. Assim como um bom pai, perguntou­
me acêrca de minha saúde, depois fêz-me fa­
lar de Mariazinha e denominou minha filha
« jovenzinha, pérola do povo », finalmente
ofereceu-me uma preciosa e finíssima estam­
pa de Nossa Senhora do Perpétuo Socôrro,
depois levantou-se e acompanhou-me à sa­
Ia contígua onde abençoou os meus, e os de
Corinaldo, dizendo que entendia abençoar

102
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�mbém os de nossa família e os devotos da
n�va Santa. Antes de retirar-se deixou-se
fotografar entre nós, e é aquela fotografia
que 'saiu no « Osservatore Romano », em
todos os jornais e deu a volta ao mundo.
No mesmo ano de 1950, depois do re­
gresso a. Corinaldo, meu filho Angelo par­
tiu novamente para a América. Sua família,
seus interêsses, sua Pâtria lã se achavam
mas para mim foi um pesar. Abraçando­
nos dissemos « adeus » com a certeza de que
sôbre esta terra não nos veriamos mais. A­
braçando-o disse-lhe : « sauda em meu nome
todos os da tua família : filhos, cunhados
e sobrinhos e dizei-lhes que Vó Assunta os
abençôa e quer vê-los todos no céu, junto
à Mariazinha, para serem felizes por tôda
a eternidade e que para isso sejam bons,
bons cristãos ! »
- Certamente, êle chorava, e eu não ?
Em Corinaldo, por ocasião da Canoni­
zação, fizemos grandes festas : eu participei
como podia, fazendo o que me mandavam
fazer, mas sobretudo recebendo com paciên­
cia os visitantes, também quando estava
cançada, dirigindo a todos uma bôa palavra,
como se fôssem todos meus filhos, e rezan­
do sempre.
Sofria muito de insônia. Nas horas lon­
gas em que não conseguia fechar os olhos,

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que faria ? Todos os meus pensamE:ntos
viam-se concentrado num só : tornar-me se1 -

­

pre menos indigna de ter uma filha �n ,


rezar e ter paciência para merecer ir pl�t1:o
dela g.o céu.
Alexandre Serenelli veio novamente vi­
sitar-me. Nada tratamos de especial, mas
ambos nos sentimos comovidos. Jâ éramos
dois velhinhos, que poderíamos esperar ain­
da ? Quase todos os nossos contemporâneos
haviam falecido e o próprio Alexandre só po­
dia contar com alguns poucos anos.
Despedindo-nos, eu lhe disse : « rever­
nos-emas » ?
Aqui talvez não, mas lembra-te que ao
céu, ambos devemos estar perto de Maria­
zinha. Reze por mim que eu rezarei por ti.
E Alexandre garantiu-me que jâ não espe­
rava outra coisa, e que tudo o que fazia, fa­
zia-o para merecer a graça de estar um dia
junto dela.

XVI

No cinquentenário do martírio de mi­


nha filha, 6 de julho de 1952, recebi uma r-ar­
ta autografada pelo Santo Padre por intrr-

104
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médio do nosso Bispo. Chorei de comoção.
Quanto o Santo Padre é bom ! Conservo-a
ainda como um tesouro. Quantas conver·sas
do povo e dos jornais sôbre esta carta ; Até
que certos americanos a queriam con\pr&.r,
assim como se eu a pudesse vender ! Nes1 a
carta ninguém mete a mão.
No entanto, a verdade é que, até agora
nenhuma proposta dêsse gênero me foi feita.
Por ocasião do cinquentenário também
aqui, como era justo, fizera-se grandes fes­
tas em honra de Mariazinha. Lembro-me que
estiveram presentes S. Emcia. o Cardeal
Lercaro, Arcebispo de Bolonha, o Núncio A­
postólico da Bélgica, S. Emcia. Mons. F.
Cento e o nosso Bispo Mons. Bignamini.
Quando durante a procissão, o Sr. Car­
deal passou diante da janela em que et• es­
tava, parou para abençoar-me de modo par­
ticular. Naquêle dia eu não me sentia muito
bem e não conseguia nem mesmo rezar, di­
zia somente : « minha filha, meu amor » e
chorava. E todos vinham visitar-me para ou­
vir-me falar de minha filha Santa e recomen­
davam-se às minhas orações. Claro que pro­
meti e rezo por todos. Que outra coisa posso
eu fazer ? Assim cumpre-se a Vontade de
Deus.
Durante as festas foi também inaugu­
rada a esplêndida estâtua de mármore que

105
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estâ diante do Oratório. Quiseram que eu
fôsse descobri-la, mas não podendo ir e assim
puxei a fita da sacada. Assisti também à bên­
ção da primeira pedra do Templo Internacio­
nal, construído à Mariazinha, aqui em Cori­
naldo, como centro de sua devoção. Certa­
mente não o verei concluído, talvez nem mes­
mo começado, contudo, se minha filha o quer,
pensará também nisso. Tem tantos devotos
no mundo todo.
Contanto que seja da vontade de Delll!l .
Nada se faz sem que Deus o queira.
Em 1952 assaltaram-me novos encômo­
dos devidos à idade, doia-me também uma
costela. Não era uma dor característica que
se pudesse curar, eram os achaques pró­
prios da velhice. Alexandre veio visitar-me
novamente e constatando meu definhamen­
to, disse-me : « Oh ! Assunta, envelhecemoc;,
não é » ?
Respondi-lhe : « agradeçamos a Deus
por termos chegado até câ. Quantos, mes­
mo dentre os nossos conhecidos, não podem
dizer o mesmo? »
Falamos de muitas coisas : dos meus
filhos, das ·pessoas do nosso conhecimento,
quase tôdas já falecidas, das visitas conti­
nuas que me eram feitas, das graças que
Maria obtinha e das peregrinações que che­
gavam de tôdas as partes, até de údine �

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Procuro dizer uma palavra de ânima­
ção a todos, mesmo que o cansaço me su­
foque.
Espero assim descontar algo do meu
purgatório. O Paraíso ninguém o recebe de
presente, é mister merecê-lo, carregando a
nossa Cruz, aquela Cruz que o Bom Deus
dâ a cada um de nós em particular, pro­
porcionada às nossas fôrças. Atualmente
carrego com esta. Assim concluo os meus
últimos anos. Sei que jâ estou no fim, mas
faço tudo o que me é possível até deixar
esta terra. Estou sempre pronta a morrer
para rever a minha Mariazinha, mas não
peço a morte, porque é melhor fazer sempre
a vontade de Deus, mesmo quando se tratar
de ir gozar no céu.
Vê a que estou rezumida? Em condições
de ser reformada, e no entanto, diàriamente
arrasto-me sôbre as muletas, prpcurando
ser útil nos limites do possível, dependendo
do auxilio alheio apenas nas necessidades
mais urgentes.
Sento-me aqui nêste cadeirão de braços
e rezo muitos terços. Rezo quando não tenho
visitas, agora porém, tenho-as de contínuo
e teria-as também fora de hora que não
me permitiriam descanso, se meus fami­
liares não cuidassem.
Antes ou depois do descanso atendo a

107
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todos, respondo às infindas perguntas, qua­
se sempre repetidas, algumas vêzes novas,
geralmente sérias e discretas, às vêzes po·
rém curiosas até à indiscreção ( certos jor­
nalistas) , petulantes e confrangedoras, e
quantas vêzes dolorosas)! A maioria das vê­
zes em língua italiana, ou num italiano apro­
ximado ao meu, e também em dialeto. Posso
afirmar ter ouvido todos os dialetos da Itá­
lia, contudo sempre nos entendemos.
Mais problemático é quando chegam os
estrangeiros. Se há quem sirva de intér­
prete, muito bem, se não, entendemo-no�
por sinais e nos contentamos. A meu ver to­
dos partem satisfeitos por terem visitado o
torrão natal de Mariazinha e sua velha mãe.
A todos digo : « Deus vos abençoe e vos con­
serve puros e bons, vos dê a graça de fazer
sempre a sua vontade ». As crianças reco­
mendo-lhes sejam obedientes às suas mães.

xvn

A última vez que falei com Mãe Assunta


foi· numa tarde do verão de 1953.
Depois do costumado descanso, arrastan­
do-se com o auxílio das muletas, e ajudada

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�»ela filha Ersilia, via-a chegar (para onde
costumava ir) à sombra de uma figueira, no
quintal atrás da casa. Das mãos pendia-lhe
um grande terço.
Entrei pela cancela que dá para a estra­
da, em frente à casa Paroquial de São Fran­
cisco. A vista já se lhe havia enfraquecido
muito. No momento não me reconheceu, mas
quando me aproximei e lhe disse quem era,
exclamou : « sim, filho, lembro-me de ti ! Oh !
sim, sim, mas que se há de fazer ? Envelhe­
ce-se, envelhece-se !
- Como vai, Mamãe Assunta ?
- Como Deus quer. Sinto agora dor nas
costas e o médico julga necessária uma ope­
ração. Mas por que operar ? Os trens velhos
não se concertam mais.
E depois, o que estou eu ainda fazendo
aqui ? Não aguardo mais a hora de ir-me
com minha Mariazinha.
Parecia serena e o rosto parecia ilumi­
nar-se ao pensamento que logo poderia re­
ver o « seu amor ». Mas era apenas pele e os­
so, o seu sorriso forçado, amargurado . . . e
seu olhar fugia do meu.
Notando que eu a observava mesmo pa­
ra isso, acrescentou : « certamente, uma coi­
sa é morrer e outra é falar de morrer. De­
pois vem o « Juizo ». Oh ! eu não me acho dig-

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na, mas sem dúvida Mariazinha preparará
um lugar no céu para sua mãe!
E após alguns instantes : « discursos
eu não sei fazer, mas quando ela me vier ao
encontro dir-lhe-ei : eis aqui tua mãe. » e
apertava entre as suas, as minhas mãos.
Aquelas suas mãos grandes e agorJl
manchadas, sulcadas por veias grossas e
nodosas, cobertas por uma pele rugosa e sal­
picada, que tanto labutaram, que tantas vê­
zes se elevaram ao céu em humilde prece.
Aquelas mãos que foram apertadas por
inúmeras pessoas humildes e ilustres e até
devotamente beijadas, mas não eram porém
êstes os motivos de que se orgulhava tanto
Mãe Assunta, mas porque « estas mãos
-

sustentaram a minha santa e foram aper­


tadas pelo Santo Padre ! »

Mãe Assunta era de estatura mediana,


espáduas largas, pescoço curto e cabeça re­
gular, um pouco encaixada nos ombros, pou­
cos e curtos os cabelos, grisalhados, rebel­
des ao pente e ao grande lenço que trazia
sempre à cabeça, face rugosa, um tanto alon­
gada, com um véu de pelugem, bôca ampla,
com poucos dentes amarelentos e balou­
çantes. Foi-me sempre difícil imaginá-la jo-

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vem, bela e amável, como alguém a descre­
veu sem conhecê-la.
Quem julgasse encontrar nela uma :mãe
tipo « bolinho recheado » ou uma mulher
de « flor de farinha com mel », enganar-se-ia
redondamente. Mãe Assunta era uma se­
nhora pertinaz, autoritária, impulsiva, de
olhar severo, olhos cinzentos, penetrantes
e com ares de soldado em guarda.
A uma senhora muito cerimoniosa, que
se apresentou levando pela mão a filhinha,
e que era todo doçura nos modos e na voz,
lhe dizia : - Oh ! feliz de ti mãe Assunta, que
tens uma filha santa,! Quem sabe o que fizes­
te ! Como a educaste?
Assim não, assim não, respondeu brus­
camente Assunta, sacudindo a cabeça, e ace­
nando para a menina quase semi-nua.
Certos peregrinos afirmam ter tido a
impressão de que fôsse « pouco cortês, pou­
co gentil, insincera, perturbada pelas visi­
tas concedidas como dignação de uma gran­
de incompreendida, insuficientemente apre­
ciada, mais preocupada em salvaguardar
seus interêsses do que de dizer a verdade ».
Impressões, mesmo que de pessoas au­
torizadas.
Mãe Assunta era naturalmente simples
e de bom coração, rudemente (às vêzes até
demasiadamente) perspicaz para a sua o-

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rigem humilde ; esforçava-se, porém, para
ser gentil com todos, traindo a rudeza nativa,
a educação primitiva e a cultura de analfa­
beta.
Na verdade, sôbre certas questões não
permitia que a interrogassem e quando in­
sistiam, respondia mal ; de fato sentia-se
uma sobrevivente.

Nos últimos mêses, rpãe Assunta defi­


nhava dia a dia e podia prever-se o desenla­
ce. Estava consumida pela idade e pelos so­
frimentos. No seu rosto, cheio de rugas,
liam-se os muitos anos, e a cabeça, às vê­
zes já não atinava com o que desejava fazer.
Alexandre Serenelli soube e veio de As­
coli Piceno para dar-lhe talvez um último a­
deus.
« Não se sabe, disse-me quantos serão
os anos e quantos os males »:
Contudo veio a Corinaldo acompanha­
do por um bom Pe. Capuchinho.
« Mãe Assunta reconheceu-me e até fa­
lamos um bom bocado. É coisa sabida que
os velhos falam sempre dos seus achaques
e nós falamos dos nossos. Ela contou-me os
seus e eu lhe falei dos meus. Disse-lhe que
eu sofria de uma catarata no ôlho esquerdo

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e que enxergava pouco também com o di­
reito. Acrescentei que se cegasse comple­
tamente, tornando-me incapaz de cumprir
com minha missão de porteiro e varredor
do Convento, estava decidido de retirar-me
para ·uma casa de saúde e de repouso que
os padres Capuchinhos possuiam em Mace­
reta, pois a isso também me aconselhava o
Pe. Guardião".
Disse-me ela : « Devo refazer-me. Já não
aguento mais, mas seja feita a vontade de
Deus ». Via-se que estava para findar. Já
não atinava com as palavras e « não estava
sempre com o completo contrôle de si ». No
entanto, graças a dias melhores e ao calor,
retomou alento. Ainda recebia peregrinos,
mas a sua voz dia a dia tornava-se mais fra-
ca.
No dia 25 de junho de 1954 recebeu a
visita de Sua Eminência Revma. o Sr. Car­
deal da Colômbia D. Crisanto Loque, Arce­
bispo de Bogotá que, ao vê-la tão doente,
ficou profundamente comovido.
Mãe Assunta já passava a maior parte
dos seus dias na cama, raras vêzes levanta­
va-se, tornava-se evidente o desenlace. Tal­
vez. o golpe fatal lhe foi causado pela morte
do velho Arcipreste Pe. Francisco Bernac­
chia, que fôra por miutos anos seu pai, con-

8 Mie Assunta
-
113
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selheiro, benfeitor, o auxílio de tôda famí­
lia e com o qual trabalhara comq emprega­
da, mas fôra sempre tratada como « mãe de
uma mártir ».
As festas de Mariazinha em Corinaldo,
a devoção a Santa Maria Goretti e outras
muitas iniciativas deveram-se à atividade
do bom Padre.
Mãe Assunta estava ao par de seus so­
frimentos, acompanhava-o com o coração e
com as suas orações. Diàriamente o recomen­
dav� a Mariazinha e de todos inquiria notí­
cias dêle.
Quando soube a notícia do seu faleci­
mento, profundamente triste exclamou :
- « Certamente foi para o céu. Com o
sofrimento descontou o seu Purgatório aqui
na terra e Mariazinha também terá pensado
nêle. Devia-lhe tanta gratidão ».

XVIII

�ste era o presentimento : devia seguir­


se a realidade. Durante os três últimos mê­
ses que precederam a sua morte serena, Mãe
Assunta levantou-se sempre menos frequen-

114
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temente. Sim, ainda conseguia arrastar-se,
ajudada pela filha Ersilia ou por alguém da
familia, até ao cadeirão da dor. Ainda rece­
bia e dizia uma ou outra palavra aos que,
recorriam a ela com cada vez maior frequên­
cia, todos contavam porém, que assemelha­
va-se a uma vela que ia se apagando.
Chegou-se até afirmar que, neste último
ano, tôda a Romagna prostrara-se aos pés
daquele leito. Exagêro, sem dúvida, todavia
é verdade que muitos vieram, e não só da
Romagna, mas também de outras partes da
Itália e até do Exterior.
Vinham por causa de Mariazinha, mas
também por causa da mãe e, vendo-a tão en­
ferma, regressavam com o coração cheio de
dolorosa admiração, todavia satisfeitos por
terem-na encontrado ainda viva.
Quando faliram tôdas as esperanças dé
restabelecimento, avisaram Mariano, que
veio e ficou com ela um mês e quinze dias. O
estado da enferma era sempre grave, não a­
meaçava porém, morte iminente, mas os fi­
lhos e sobrinhos estavam de sobreaviso.
Que fazer ? O médico disse-lhes que a
mãe se encaminhava para a morte, porque
estava cansada e muito adiantada em anos,
que o organismo já não reagia mais, que per­
dera a possibilidade de restabelecer-se, mas

115'
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uma semana como um mês. Mariano então
decidiu partir prometendo-lhe voltar. A ve­
lha mãe jã quase totalmente cega, havia-o
beijado, acariciando-lhe o rosto como, para
imprimi-lo ainda uma vez na alma, e apal­
pando-o havia-lhe dito : « Vai, meu filho, não
nos veremos mais sôbre esta terra ! » E entre
lãgrimas beijaram-se. Mas como o coração
de um filho poderia acreditá-lo ? Infelizmen­
te, estava ainda em Roma, a caminho de
volta para casa, quando recebeu o telegra­
ma.
Os acontecimentos precipitaram-se : Dia
16 de outubro pelas 17 horas, o primeiro si­
nal de agravamento. As 24 horas a doente
piora. Mãe Assunta mantinha os olhos cer­
rados e respirava afadigamente. E' um su­
ceder-se de visitantes, conhecidos, paisanos,
parentes. Telegramas mais telegramas ansi­
oso chegam, partem e cruzam-se. Os sacer­
dotes que a assistem, julgam não ser ainda
o momento oportuno para administrar-lhe
os últimos Sacramentos. Passou a noite nu­
ma sonolência semelhante à agonia. Na ma­
nhã do dia seguinte, 7 de outubro, ainda es­
tava neste estado e então o seu diretor espi­
ritual julgou bem administrar-lhe a Extre­
ma Unção. A velhinha acompanhou a ceri­
mônia com os olhos semi fechados,. movendo
apenas imperceptivelmente os lãbios, em res-

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posta às orações e às jaculatórias sugeri­
das.
Aos chamados da filha Ersilia, abria
ainda por um instante os apagados olhos.
Aí pelas 14 horas, disse distintamente :
« Quero ir pertinho de Mariazinha ».
O sacerdote que a assistia renovava-lhe
a absolvição enquanto a moribunda, com
voz velada, repetia com êle a jaculatória :
« Santa Maria Goretti, rogai por mim ».

Naquele instante resolveram fazê-la


trançar a sua cruz de analfabeta sôbre al­
guns santinhos da filha Santa, para depois
distribuí-los aos seus devotos. A agonizante
ajudada pela filha Ersília e pelo sacerdo­
te assistente, deixou guiar passivamente a
mão inerte, pela vontade alheia.
Sem dúvida as dôres eram atrozes, por­
que, várias vêzes, a pobrezinha dizia :
- « Ersüia, ajuda-me », e mais tarde :
« Ajudai-me, ajudai-me ». As 22 horas che­
gava o Arcipreste de Corinaldo com o tele­
grama do Santo Padre, com a bênção apostó­
lica para a piedosa enferma. Mãe Assunta
pareceu consentir. Abriu os olhos por um ins­
tante para depois fechá-los imediatamente.
No dia 8 de outubro, o último dia de sua
vida, amanheceu como que tomada por um

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pesado sono e gemendo. Os lábios violáceos
murmuravam os nomes dos filhos.
As duas horas, pronunciou as últimas
palavras : « Ersilia, ajuda-me ! » e depois en­
trou em estado de coma. As 4,20 exalou o úl­
timo suspiro.
Tinha 88 anos, 1 mês e 23 dias.

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