Sac Prof Gualandi - Mãe Assunta
Sac Prof Gualandi - Mãe Assunta
br
Sac. Prof. Gualandl
da Pia Sociedade de São Paulo
Mãe Assunta
Mãe de Santa Maria Goretti
I edição
Edições Paulinas
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Imprimatur
t Edmundo Luiz Kunz
Bispo Auxiliar e Vigãrio Geral do Arcebispado
Pôrto Alegre, 13 - 11 1956
-
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Quem será esta mulher que
-teve o privilégio único até então, de
ver uma filha Santa?
-que foi recebida pelo Santo Padre co
mo rainha?
-que foi ao túmulo acompanhada por
sete Bispos e, em relação à aldeazinha, nu
meroso clero e imensa multidão?
Era uma princesa?
Um lumiar de ciência?
Uma mulher poderosa?
Uma estrêla de beleza?
- Mas então, quem era?
-Que fez?
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para escrever a biografia da sua Mariazinha.
Naturalmente, falava então da filha, mas a
meu pedido, narrou-me também a sua pró
pria história, história que eu agora comple
tei sôbre documentos existentes e com teste
munhas diretas, porque Assunta, por uma
modéstia natural, pelas vicissitudes da vida
e também pela idade, nem sempre foi exata e
completa.
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« Senigallia, dia 16 de agôsto de 1866
foi entregue à esta Pia Casa uma criança de
sexo feminino, envolta em pobres panos que
parecia ter nascido no dia anterior.
Ontem às 8 horas e 45 minutos da tar
de por pessoa incógnita esta menina foi dei
xada na roda desta Pia Casa, com uma car
tinha onde se lê:« foi batizada em casa-de
ve ser chamada Assunta Angiolina Ida».
1!:ste pequeno papel ainda se conserva
e eu o vi: é retangular, branco, dobrado em
quatro; a caligrafia é grossa e forçada como
a de wn semi-analfabeto e as palavras or
togràficamente estão escritas assim:
« estata Batizada in chasa
Si deve chiamare
Sunta angiolina ida».
nada mais.
A certidão de Batismo diz:
« Casa dos Engeitados em Senigallia
Senigallia, 16 de agôsto de 1866 -quin-
ta-feira.
Assunta Angiolina Ida Carlini, filha En
geitada, encontrada na roda desta Casa,
ontem às onze horas da tarde, por necessida
de foi batizada pela Parteira Rosa Musehini
e por mim, abaixo assinado, foram-lhe con
feridas as cerimônias habituais. Serviu de
madrinha a ama Albina Fuviani.
Frei Bartolomeu Capp»!
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As cerimônias completivas foram-me
conferidas na igreja de São Pedro, catedral
da Senigallia. Portanto, o sobrenome« Ca.rli
ni » foi-me dado no Orfanato, não é o meu: e
é por não tê-lo que, em diversos documentos
sou chamada com diferentes sobrenomes:
Esposta, Casagrande, Ca.rlini, Esposito, etc.
todos se equivalem e que então significavam
«ilegítima » ou filha de N. N., como atual
mente se diz.
No mesmo dia 16 de agôsto fui confiada
à ama do« Conservatório », mas quatro dias
depois, dia 20, fui entregue à senhora Rosa
Riccardi de Montuado« com a recomendação
de criá-la, nutri-la, educá-la, mediante a re
muneração de L. 10 » diz o escrito.
Não sei por que motivo, talvez por doen
ça, da casa de Montuado fui novamente leva
da para Senigallia, dia 8 de novembro e logo
no dia seguinte, consignada à senhora Vit
tória Bacchini di Tomba, com a qual fiquei a
té aos 9 de julho do ano seguinte 1867, quan
do fui entregue à senhora Santa Pacenti di
Montalbordo (atualmente Ostra) com a qual
permaneci até a idade de cinco anos, precisa
mente até 17 de junho de 1872. Depois disso
fui terminar em Corinaldo.
Aí viviam dois bons aldeões « Aguzzi
Vincenzo » com quase 50 anos (nascera dia
4 de janeiro de 1823) e sua espôsa « Segoni
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Maria» que contava mais de 63 anos (nasce
ra dia 10 de março de 1809), cognominados
« Gatarelli ».
Não tendo filhos, o casal resolveu ado
tar wna menina do « Conservatório » tam
bém porque a saúde de dona Maria tornava
se cada vez mais fraca.
Desejavam praticar uma bôa obra e ao
mesmo tempo garantir-se um auxílio para a
velhice.
Provàvelmente foram também aconse
lhados, e o fato é que vieram para Senigallia
e fizeram o pedido.
O « Conservatório » porém, antes de en
tregar a enjeitada à uma família, toma tô
das as informações para certificar-se da ga
rantia da manutenção e da educação da pe
quena. . . Tais informações deu-as o Vigário
de Corinaldo Pe. Domingos Coltorti, depondo
por escrito, dia 27 de abril de 1872, ser a fa
mília Aguzzi « colonos de bôa conduta, que
vivem bem com o produto de suas terras ».
A partir desta data minhas reminicên
cias são mais claras e precisas.
Tenho presente a viagem que fiz de Seni
gallia a Corinaldo, com um cavalo do Trans
porte público.
A casa dos Gatarelli, situada no bairro
S. Bartolo, era a de um colono de então: par
te de tijolos e parte de madeira, atualmente
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classificá-la-íamos de miserável, com poucas
comodidades. Conúamos como qualquer ou
tro pobre da época: pão de ervilhaça e bolo
tas, muita polenta, legumes, leite, queijo, al
guns ovos, raras vêzes carne.
Meus pais adotivos queriam-me muito
bem e tratavam-me como se fôsse realmen
te sua filha, tanto assim que, por muito tem
po, nem siquer suspeitei não o ser.
Sobretudo os Aguzzi eram bons cris
tãos: rezavam tôdas as manhãs e tôdas as
noites; faziam o sinal da cruz antes e depois
das refeições, e à noite, antes de deitar, re
zavam o terço. Aos domingos e dias santos
não faltavam a missa e à tarde assistiam
às Vésperas e ao sermão do Pe. Vigário.
Quando havia Missões ou alguma outra fun
ção particular, nunca faltavam.
Era costume em Corinaldo: todos fa
ziam assim.
Quando maiorzinha, mandaram-me às
aulas de catecismo e aprendi tão bem que o
ensinei aos meus filhinhos e me lembro dele
ainda agora. Além disso, o Vigário era rigo
roso: êle mesmo fazia questão de examinar
nos tôdas as vêzes e ensinar aos maiores; ai
de quem faltasse!
Lembro-me que aos sete anos recebí a
Crjsma, na igreja paroquial: foi uma festa
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maravilhosa! A primeira. Meus pais, para a
ocasião, fizeram-me um vestido novo e rece
bi alguns presentinhos: sei que aquêle dia
passei-o muito contente. Não é necessârio
grandes coisas para fazer feliz uma criança !
Até então tudo ia muito bem, não obs
tante a pobreza, mas depois adoeceu a ma
drinha (assim me haviam ensinado a chamá
la) e então fui obrigada a fazer tudo: ir ao
campo com as ovelhas e também com as va
cas (tinham seis ovelhas e quatro vacas) ,
devia tratá-las e mungi-las, cuidar da casa
e da doente. A senhora Maria não era dessas
melindrosas enjoadas, mas pode-se imaginar
como se vai, quando se está doente ! ... Natu
ralmente a doença da madrinha nos levou
ao empobrecimento: gastos com médicos
e remédios, uma alimentação um pouco me
lhor, alguma comodidade a mais, etc. Foi as
sim que, mais tarde, fui constrangida a ca
var a terra.
- A escola? Em frequentar a escola
não se falava e muito menos para gente das
nossas condições. Naquêle tempo iam so
mente os filhos dos Senhores ; o povo, como
nós, pobrezinhos, não conhecia as salas de
aula e os que aprendiam algo era porque lhes
ensinava, à noite, algum sacerdote (em Co
rinaldo havia vários) e geralmente o fazia
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em vista do serviço militar ou da imigra
ção.
Com onze anos fiz a primeira comunhão,
mas como (segundo jâ disse) jâ haviamos
decaido da nossa condição, fui obrigada a
fazê-la com um vestido emprestado; só os
sapatos eram meus e a vela que ma deu a
madrinha.
Não tenho lembrança de haver recebi
do presentes.
Como é para se imaginar, desde que a
doença entrou em nossa casa, as coisas fo
ram de mal a pior: fomos constrangidos a
morar na colônia em uma espécie de chou
pana de palha e barro.
Para dar uma idéia de nossa pobreza,
contarei o fato seguinte: Jâ hâ tempo alimen
tava eu grande desejo de possuir um avental
zinho novo para os domingos: vira-o em
uma amiga e devorava-me o desejo de man
dar fazer um igual.
Pedi aos pais e êles não mo negaram,
contanto que o comprasse com o meu dinhei
ro. Puz-me então de corpo e alma a traba
lhar.
Fui trabalhar por dia, fazia algum ser
viço extraordinârio à tarde e à noite e tam
bém alguma coisa aos domingos, depois da
reza, no tempo que me restava; tinha-o jâ
adquirido. . . Quando o demônio ...
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Uma tarde, como sempre, fui com um
cântaro buscar água para tomar, (perto da
casa havia somente um poço com água de
chuva que servia para os animais e para
lavar, mas não para tomar) escorreguei, caí
e... quebrei o cântaro ! As lágrimas que der
ramei, quem as poderá contar ?
E no entanto tive que gastar o que com
tanto sacrifício ganhara, para comprar o
cântaro e. . . adeus aventalzinho !
Maraquelas ? Não lembro nenhuma em
particular: queriamo-nos realmente bem e
então tinha-se para com os pais o máximo
respeito. Lembro-me porém, de uma vez,
que desobedeci para ir dançar. Eu já era
v ma mocinha, do tamanho de agora; uma
nmiga convidou-me: eu também não deseja
va ir porque meus pais não queriam abso
lutamente, mas naquela vez deixei-me ven
cer. Dancei um só « tango » como se fazia
naquele tempo e logo depois regressei. Meus
pais ficaram sabendo: abra-te céu ! e depois
de tudo o sermão de Pe. Vigário. Não sei
quanto chorei ! O fato é que aquêle foi o pri
meiro e o último baile da minha vida.
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li
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ou de divagação ; nem siquer o podia ; mas
êles o faziam para si, e eu para quem?
Contudo esta vida sacrificada teve tam
bém suas vantagens: aprendi a fazer de tu
do: cuidar de crianças ; trabalhar de manhã
à noite ; lavar roupa ; remendar ; costurar ;
fazer pão ; preparar os alimentos e também
lavrar os campos. Aqui as senhoras costu
mam ajudar os homens nos trabalhos agrí
colas, embora pesados, e, se necessário, co
mo foi durante a guerra, os substituiam-.
Foi-me providencial uma juventude sa
crificada, pois se não tivesse habituada a fa
zer um pouco de tudo, como teria podido sus
tentar a família, quando enviuvei?
Como já disse, nunca pude estudar: na
época, as escolas eram raras e frequentadas
por poucos privilegiados, mas o catecismo
aprendi-o de cor e o sei ainda. Assim aprendi
as orações que mais tarde ensinei a meus fi
lhos, e também a fazer algumas contas.
Quanto aos princípios morais, antes
mesmo que o Vigário e o Catecismo mos en
sinassem, já a educação os imprimira em
minha alma: eu era filha de uma mãe «quei
mada,. e todos sabem que o gato, uma vez
escaldado com água quente teme até a água
fria. Mesmo como noiva ter-me-ia deixado
matar antes que pecar! E esta educação foi a
que dei as minhas filhas, como demonstrou
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Maria. Os últimos anos antes de casar-me
foram os piores que passamos: parecia que
tôd�s as desgraças caíssem sôbre nós.
Devo dizer que encontramos dificulda
des até para nos manter, a ponto de sermos a
judados pela Prefeitura e pela caridade pú
blica. Lembro-me ainda de um inverno,
quando aquêle bom homem, presidente das
obras caritativas de Corinaldo (do qual não
recordo o nome) , foi ter à nossa moradia,
transpondo a muita neve daquele ano excep
cionalmente frio. Levava êle às costas uma
grande mo�hila com mantimentos.
Lembro-me também que outras muitas
vêzes nos ajudaram o Pe. Vigârio, as Irmãs
e também a Administração Pública.
Transcorria assim minha juventude: os
moços, de boa vontade, espreitavam-me mas
éramos tão pobres ! até que um, da nossa
mesma condição, Luiz Goretti, decidiu-se e
veio a minha casa.
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a vida ! Depois é muito tarde. Digo-o sempre
às jovens que vêm visitar-me.
Depois que começamos o namôro e Luis
soube que meus pais consentiam, visitava-me
todos os domingos de tarde e conversávamos
eni casa, na presença de todos.
Nunca saí só, com êle : também porque
naquele tempo não era costume e mesmo
não mo permitiriam. Além disso, naquela
época o namôro durava pouco: namoramos
só quatro mêses, tempo que passei preparan
do um pequeno enxoval, conforme permitia
minha pobr� condição.
Estudei também o catecismo, porque
antes de casar o Vigário exigia um exame e
era necessário sabê-lo.
Casamo-nos dia 25 de janeiro de 1886 na
Paróquia de S. Pedro : o celebrante foi Pe.
Emanuel Marcucci.
Foram núpcias de pobres: assistimos
à santa Missa; ambos comungamos e rece
bemos a bênção nupcial. Naquele tempo da
va-se muita importância a certas coisas . .
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me até à casa de Luis, que, como jã disse, mo
rava perto, na vila de S. Vicente.
Dei-me bem com a madrinha de Luis
e o irmão e prosseguíamos discretamente.
Trabalhãvamos como sócios de um certo se
nhor Nicolau Cicerone; possuíamos quatro
hectares de terra, quatro vacas e um redu
zido número de animais domésticos. Dava
para viver e eu continuava ajudando meus
velhos pais Gattarelli. Além disso o « Conser
vatório» enviou-me o subsídio dado aos «en
jeitados» que o merecessem : eu recebi L. 106,
40, no dia 24 de março de 1886, com a ordem
de pagamento N. 19. Era uma quantia bas
tante discreta e nos favoreceu muito.
Onze mêses após o nosso matrimônio,
veio à luz o primeiro filho, Antoninho : Lem
bro-me daquela data como se fôsse agora 30
de janeiro de 1887 ».
Imensa foi a nossa felicidade : era ho
mem bonito, robusto. Logo foi batizado com
o nome de Antônio (familiarmente nós o cha
mãvamos « Antoninho »; amamentei-o e sob
os meus olhares crescia e fortificava-se.
Mas, na terra, ninguém deve ser feliz :
com oito mêses veio a falecer e ainda não sei
de que doença! ...
Talvez Deus o tenha levado para dar
nos um protetor no céu, conforme me disse
o Pe. Vigário, quando veio para o entêrro,
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mas a dor foi dilacerante. Foi sepultado no
cemitério de Corinaldo.
Dia Z7 de agôsto de 1888, nasceu Ân
gelo, aquêle que está na América; dia 16 de
outubro de 1890, Maria Teresa que apelida
mos « Mariazinha », a mártir; dia 27 de ja
neiro de 1893, Mariano e dia 30 de julho de
1895 Alexandre que foi também para a A
mérica, onde morreu. Os demais não nasce
ram aqui.
Antes do naf)cimento de Mariazinha já
tínhamos mudado residência e Patrão; pas
samos a morar na Vila Pregiagnia e conosco
foi também o irmão de Luis cujo nome era
Santino e que logo depois se casou com Ma
riazinha Mazzola e constituiu família.
·
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nar-se num Asilo. De nossa parte, com mui
to prazer queríamos tê-lo em nossa compa
nhia, meu marido também mostrava-se sa
tisfeito, mas pobres como éramos e com cri
anças pequenas, pode-se imaginar que com
a mellior bôa vontade faríamos o possível,
mas não era suficiente.
- Sim, morreu no Asilo.
IV
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=Cêrca de meio ano mais tarde, o nosso
Patrão nos disse que providenciássemos um
outro lugar porque tencionava sistematizar
diferentemente sua terra e não nos seria pos
sível parciar no próximo ano, (1897).
Na verdade, parece-me ter sido em 1896
e que tínhamos feito crismar Ângelo e Maria
zinha em vista de nossa mudança que deve
ter sido dia 28 de outubro, mas o Bispo Ale
xandre Marinelli�ncontrou escrito em seus
livros, 1897. Talvez seja mais exato porque
pode falhar-me a memória, todavia eu per
sist9 na minha opinião que tenha sido em
1896. (1) entretanto o fato é que, quando o
Patrão nos licenciou, fomos constrangidos a
procurar uma sistematização.
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isso pensamos em emigrar. Naturalmente,
antes de decidir tratamos dos prós e con
tras e filnal.mente pendemos .para o sim.
Pedimos diversos pareceres e a coisa
mostrou-se conveniente mais para os filhos
do que para nós.
Muitos habitantes de Corinaldo emígra
ram para a América onde encontraram a sor
te ; para nós, atravessar o Oceano com quatro
filhos e sem um dinheirinho, era impossí
vel. Sobrecarregar-nos-íamos de dívidas· e
quem nos daria fiança? Também as dívidas
é necessário podê-las fazer.
Na América, portanto, não ; podia-se
ir para a Campanha Romana ; freqüente
mente apareciam engajadores: asseguravam
viagem, hospedagem, as primeiras despesas
e faziam bôas propostas. Naturalmente o la
do feio da coisa (a malária) não o mostra
vam, mas nós também não éramos tão atra
sados para não pensar que emigrar é sempre
dar um pulo no escuro. Todavia quando con
seguimos alistar-nos para uma quinta do
Senador Scelsi, e os pactos nos agradavam,
aceitamos.
Antes de partir, fomos cumprimentar o
Vigário, Pe. Alexandre Marenelli, que nos
abençoou, apresentou-nos seus augúrios e o
fereceu-nos um presente « para que não nos
esquecêssemos de Corinaldo », disse. Num
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domingo, fizemos uma peregrinação ao San
tuário de Incancellata, a fim de que Nossa
Senhora nos tomasse sob sua proteção.
Partimos dia 28 de outubro de 1897 ( se
gundo atestam os livros do Vigârio, embora
me pareça ter sido no ano anterior, 1896,
como já disse).
Viajamos com a diligência até Senigal�
lia, depois com o trem até Roma e novamente
a cavalo de Roma a Paliano.
4
Era a nossa primeira viagem de trem.
Não nos emocionamos milito: nós ' (eu
e meu espôso) tínhamos preocupações, mas
os filhos, ansiosos, se colavam à janela e di
vertiam-se a valer vendo o rápido escapar
das árvores. Falávamos também com os de
mais viajantes: procurávamos informações
acêrca do que nos aguardaria a nova vida,
mas tôdas as notícias eram bôas; talvez o fi
zessem para animar-nos ou porque êles mes
mos, como nós, nada soubessem. Comíamos
do que levávamos; para tomar, tiramos á
gua das fontes nas estações; o trem parava
freqüentemente e dava muito tempo para is
so, quando estava para partir dava o sinal
e. . . uma corrida.
- Não, ninguém sentiu-se mal na Via
gem. A bagagem era pouquíssima, primeira
mente porque éramos pobres, muito pobres,
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e porque alguma coisa tínhamos vendido pa
ra lucrar algum dinheiro para qualquer e
ventualidade.
O que não pudemos vender entregamos
aos parentes, principalmente a um meu cu
nhado, Santino. Combináramos também que,
se as coisas nos corressem bem, chamaría
mos Santino para trabalharmos juntos.
Chegados em Roma, não distávamos da
estação: aonde iríamos naquelas condições,
com crianças, bagagem, sem prática e sem
dinheiro?
Quando chegou a carroça da quinta do
Senador, partimos logo e fomos diretamen
te à «cascina di Colle Gianturco».
Aqui, as angústias e os desenganos já
nos esperavam, a hospedagem era miserá
vel, mas sofrível, porém, longe de todo o con
fôrto, devíamos comprar tudo, até a salsa e
a salada porque não possuíamos nem siquer
um palmo de terra onde cultivar algo para
a família.
O pagamento era conforme ao que ha
viam prometido e não teria sido mau, mas
quem trabalhava era só Luis e o dinheiro
nunca chegava e, creia-me, era um problema
chegar ao sábado de tarde!
Conosco havia também outras famílias
das Marcas, gente bôa e trabalhadeira, e cu
jas condições de- vida eram semelhantes às
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n<>Ssas. Atualmente nem podemos fazer idé
ia da míséria na qual viviam os pobres daque
le. tempo. Todos, porém, nos queríam bem e
o:Senador nos estimava; quando quis alugar
a qufuta fê-lo às famílias das Marcas.
A terra que nos tocou era uma colina
muito fért;l, embora um tanto pedregosa;
os contratos eram muito humanos; o Patrão,
o melhor que se pudesse imaginar. Era, po
rém, necessário muita coragem para assumir
tais compromissos, diante do Patrão: nós
não ousamos. Quem realmente acertou o a
luguel foi João Serenelli 'e foi êle quem nos
convidou para sermos sócios.
Que fazer? �les também eram da pro
víncia das Marcas, ali habitavam há mais
tempo do que nós e muitas outras famílias
da mesma província trabalhavam em socie
dade com bom êxito. João era homem esti
mado por todos e saía-se bem com tudo e
com todos. Por êste motivo Luis e eu, coagi
dos pela necessidade, aceitamos de olhos fe
chados e como uma graça, o poder partilhar
com êle: casa, trabalho, interêsses. De outra
forma estaríamos na rua.
O Senador, logicamente, reconhecia a
Serenelli e tratava com êle com o qual con
cluíra o contrato e não se importava com os
sócios.
Finalmente, quatro mêses após o con-
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trato, João desistiu sob o pretexto de rigi
dez demasiada.
A realidade porém era que, sendo o Se
nador muito bom e morando longe, muitos
comiam à sua custa com prejuízo dos inqui
linos. Foi então que João desgostoso com a
administração do Senador, protestou e de fa
to tinha razão. Mas a administração comu
nicou logo ao Senador em Roma e só Deus
sabe o que lhe disse: o resultado foi que, de
pois, o Senador não quis ouvir as nossas ra
zões e, sem mais nem menos, despediu Sere
nelli e nós, seus sócios.
-Sim, julgo que se João tivesse falado
pessoalmente com o Senador, tudo se teria
resolvido bem.
Devo também acrescentar que, enfren
tamos o primeiro aluguel sem nenhum cen
tavo; éramos pobres de meter dó, também
sem meios para o trabalho, por isso nos en
contramos em dificuldades espantosas e na
queles primeiros mêses não nos sobrava nem
sequer para uma miserável fatia de polenta.
Como base do litígio com a administração
estava o interêsse e todos sabem que com a
fome pouco se raciocina.
Era fevereiro quando fomos despacha
dos; quem nos contrataria agora que a se
menteira estava concluída? e tanto mais que
tínhamos sido despedidos por culpa nossa! ! !
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Era dificílimo arranjar ocupação; düicili
mo encontrar uma casa, 11m terreno, urgia u
ma combinação, isto é, algo que ninguém
tivesse aceitado, uma terra para desespera
dos.
Esta foi precisamente a que João Sere
nelli encontrou, propriedade do Conde Ottilio
Mazzoleni, no centro da Campanha Romana,
naquele tempo assolada pela malária.
Voltar para Corinaldo, nem era conve
niente pensar, por isso achamos providen
cial o contrato de Mazzoleni e assim segui
mos os Serenelli nas mesmas condições de
Paliano.
Aqui as coisas eram melhores : Mazzole
ni encarregava o meu Ângelo de algumas
encomendas, dava-me trabalho e nos retri
buía com pão de trigo para que, enrobuste
cendo-nos, resistíssemos à malária e nos an
tecipava também alguns pagamentos. Além
disso nos dava, grátis, os remédios (que lhe
mandava o govêrno) antes, obrigava-nos a
tomá-los.
Sofremos muito em Paliano, mas, ter
que acabar na Campanha era uma tortura;
eu não conseguia conter o pranto; foi então
que Luiz, aparentando alegria, consolou-me
dizendo.
- « Não tenha mêdo ! Recomeçaremos !
Nada falta quando há saúde, paz na família,
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vontade de trabalhar e a graça de ·Deus; >>
Lembro-me ter-lhe respondido:
-. «Tens razão, Luiz: haverá sempre
Deus para êstes inocentes », inas um nó,nà
garganta sufocava-me.
Quanto à casa, chamada «La caserna an
tica», não tínhamos queixa. Era de tijo
los, raridade para aquêles lugares, naquêle
tempo!
Possuia dois andares: em baixo havia o
estábulo, o depósito, a adega, o celeiro; em
cima a moradia. Subíamos por uma escada
zinha externa, protegida por um pequeno cor
rimão de tijolos e terminava na varanda co
mo atualmente ainda se vê; uma única porta
central que se abria para a grande cozinha,
única para nós e os Serenem; também o cor
redor era comum; à direita estavam os quar
tos dos Serenelli, à esquerda os nossos; um
telhado enegrecido e sem fôrro. Uma casa de
pobres, mas ampla, arejada, bem conservada
e cômoda para aquêles tempos.
- Naturalmente, nas janelas e na porta
havia um mosquiteiro de rêde metálica mui
to fina, devido à malária.
A arrumação foi rápida: dois sacos com
palhas de milho para nós e as crianças, o ve
lho caixão, trazido de Corinaldo contendo
alguns· trapos, foi colocado na cozinha para
servir de assento, dois� rústicos banquinhos
�o
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colocados ao lado do fogão, e nada mais. A
única preciosidade era um quadro de Nossa
Senhora das Dôres, lembrança do nosso casa
mento, que já foi colocado em lugar de hon
ra na cozinha, a fim de que a Mãe de tôdas as
dôres nos ajudasse e protejesse.
Não sei porque, mas desde os primeiros
dias senti necessidade dEla.
Aquela planície interminável, aquelas
vastas regiões lívidas, azuladas, selvagens,
sobretudo aquêle silêncio e aquela imobili
dade, petrificavam-me o coração. Parecia
me ouvir o sôpro da morte. Luiz sofria mais
do que eu: a solidão mata e se não chega a
tanto esmorece-nos o ânimo e embrutece.
Confortava-nos o tratamento amigável
do Conde, o saboroso pão de trigo que Maz
zoleni sempre nos dava e a esperança de um
porvir mais farto para os nossos filhos.
Infelizmente, alí fomos mais mal ser
vidos do que em Colle Gianturco, quanto à
Igreja, Jardim da Infância, Escola, Médicos,
Farmácia, meios de transportes, etc . . resu
miam-se ao mínimo as exigências da vida hu
mana.
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v
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porém, trabalhava como os demais; dera-lhe
também a chave do celeiro e da adega, a fim
de que fôsse o dispensador. Devo porém, sin
ceramente dizer que, enquanto vivia meu ma
rido, o falecido Luis, não tínhamos queixas
de João. A vida que levávamos era modesta
porém igual para todos, e nos dávamos bem.
-Sim, o Conde visitava-nos frequentes
vêzes, senão diàriamente, conforme o tem
po e o trabalho (porém quando ia a Roma au
sentava-se até uma semana) vinham também
seus filhos durante as férias, mas êles não se
intrometiam nos trabalhos, íam caçar.
O sr. Mazzoleni .era um homem às direi
tas, falava sem cerimônias e sempre que de
sejávamos falar-lhe ouvia-nos, mas era in
transigente no trabalho e tinha tais excessos
de cólera (quando as coisas não iam como de
sejava, ou não via cumpridas suas ordens)
que fazia a gente estremecer, e em tais mo
mentos era melhor sumir-se.
- Sim, o Conde andava sempre armado
e acompanhado por dois guardas pessoais,
também armados, por mêdo dos salteadores,
diziam, mas eu nunca os vi e os fatos que se
contavam eram sempre dos tempos passa
dos.
Certamente, aconteciam em tempos pas
sados, e também o sr. Mazzoleni, no começo,
foi assaltado por dois dêles, conseguiu po-
3 Ml.e Assunta
-
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rém, fazê-los prender, mas naquele tempo
nós não estávamos aí. Assim o ouvi dizer.
Durante o inverno o Conde efetuava o
mesmo pagamento, mas os homens tinham
mais tempo livre, principalmente quando
chovia; então Serenelli, meu marido e outras
famílias fabricavam vassouras, cestas de vi
me, escadas de madeira e com junco do pân
tono empalhavam cadeiras, faziam cestas e
até conseguiam fazer esteiras para os viajan
tes; tôdas essas coisas eram vendidas no
mercado de Anzio que era melhor do que o de
Netuno.
Em Anzio havia também duas« feiras»
por ano, na primavera e no outono e em am
bas comprava-se e vendia-se bem.
Acontecia também que, as vêzes êsses
pequenos trabalhos manuais eram dados aos
pastôres em troca de leite, queijo ou requei
jão. De modo que de mãos dadas lutávamos
para arranjar a vida. Frequentemente eu fa
zia algo para vender aos pastôres e assim
conseguia alguma coisa para a família.
Naquela solidão onde faltavam todos os
recursos para a educação, meu espôso e eu
educamos nossos filhos. Educação sim
ples e clara que ministrávamos a todos
igualmente, a fim de que as crianças chegas
sem a ser verdadeiros cristãos. Eu mesma
ensinava-lhes ás noções mais essenciais que
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sabia, as orações: o Pai Nosso, a Ave Maria,
o Creio; e os primeiros elementos da Doutri
na Cristã. Meu espôso me ajudava em tudo.
Nas noites de inverno rezava-se o terço, aos
domingos e dias santos todos íamos à Missa
e cuidávamos que os filhos não adquirissem
vícios e crescessem de acôrdo com a vonta
de de Deus.
Certamente, Mariazinha e Angelo, que
sendo maiorzinhos, partiram de Corinaldo
já instruídos na Doutrina Cristã e educados
na Religião, foram muito felizes em com
paração com os que nasceram e cresce
ram aqui!
Alimentavamos a doce esperança de
melhorar quando, um dia, uma nova cruz,
a mais pesada de tôdas até então, caiu-me
sôbre os ombros.
Luiz, que sempre gozara ótima saúde
e que sempre fôra corajoso e de bom humor,
começou a sentir o pêso daquela solidão; a
quêle silêncio entristecia-o e o ar do campo
já lhe era insuportável e lhe atacava a cabe
ça.
Isto o entristecia tanto que, como me di
zia, se não fôsse por nós, teria desejado a
morte. E muitas vêzes saía-se com frases
que pareciam de desespêro e expressava-se
de modo que parecia pressentir que, não obs-
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tante a bôa vontade e o amor à família, não
viveria muito naquele deserto.
Certa tarde, descarregando caixões fú
nebres, adquiridos pelo Conde, disse: -
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VI
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mudar. Ocupei logo o lugar de meu es
pôso junto aos Serenelli; graças a Deus,
desde a mocidade estava habituada aos tra
balhos pesados! Enquanto isso, Mariazinha,
em casa ocupava-se com os serviços domés
ticos e tomava conta dos irmãozinhos. Os
filhos menores deixava-os em casa com ela;
na roça quem os seguraria?
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duzissem como os adultos, mas de que manei
ra poderiam fazê-lo? Pobres filhos,!
Chegou a negar-nos o pão e o sal; media
os bocados e muitas noites os meus filho:s
foram deitar com fome! Tínhamos também
as galinhas em comum; O Serenelli começou
então a manter o galinheiro fechado à chave,
e ir pessoalmente, à tarde, recolher os ovos
que depois vendia para si no mercado de Ne
tuno ou Anzio, « para compensar-se » dizia.
Com Alexandre - o filho de Serenelli
- sempre nos dávamos; era bom trabalha
dor, respeitoso para comigo, ía à missa aos
domingos e, à noite, rezava o terço conos
co.
Ângelo e Mariano trabalhavam de bôa
vontade com êle e até nos defendeu ante às
exigências de seu pai. Era, porém, um fecha
do que falava pouco e lia de tudo, até as pio
res revistas ilustradas que, infelizmente o
pai lhe procurava no mercado.
Sabia ler, escrever e fazer contas; aos do
mingos e feriados e quando tinha tempo, não
costumava sair, mas permanecia no quarto
lendo e escrevendo. Pensei então em aprovei
tar dessa paixão, já que escolas não havia,
e certa vez disse-lhe: «Faze alguma coisa,
Alexandre, ensina um pouco também aos
meus filhos» e êle me atendeu e ensinava
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de bôa vontade embora perdesse logo a pa
ciência. Assim íamos melhor: mas, podeis
imaginar a minha inquietude e as minhas an
gústias acêrca do futuro dos filhos e do meu.
Nem podia pensar, e certas noites, devido a
isso, nem conseguia consiliar o sono.
Mariazinha, pelo contrário, era mais co
rajosa e possuía grande fé!
Quando eu me desabafava com ela, di
zia-me: «Mamãe, que medo a senhora tem!
Já somos grandes, basta que Deus nos
dê saúde; a Providência nos ajudará ».
E a saúde Deus nô-la dava realmente;
durante o tempo que ai moramos, os meus
filhos nunca tiveram nem siquer uma dor de
cabeça e teriam digerido até pedras!
Já havia chegado o tempo dos filhos
mais velhos fazerem a Primeira Comunhão.
Eu não tinha coragem de pensar nisto e tan
to menos de falar; não saberia por onde co
meçar. Foi Mariazinha que um dia, franca
mente me disse:
-Mamãe, e quando farei eu a Primeira
Comunhão? Eu quero Jesus!
- Meu amor, como pretendes fazê-la,
se não sabes o catecismo. Vês, que não sa
bes ler, não há dinheiro para o vestido, sa
patos, véu; não dispões de um minuto, tens
tanto para fazer.
E era mesmo verdade. No ano em que
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morreu meu espôso, não obstante tivésse
mos recolhido 300 quintais de milho e 96 de
feijão, fechadas as contas com o Patrão,
fiquei com 15 liras de dívidas!
- Mas a pequena respondeu-me:
- Mamãe querida, dêste modo nunca
farei a Primeira Comunhão! Eu não quero
ficar sem Jesus!
- Mas, meu bem, o que pode fazer tua
pobre mãe? Deverei ver-vos crescer como a
nirnaizinhos ...
- Está bem, mamãe, Deus proveráj! Em
Conca mora Elvira que sabe ler; eu lhe pro
meto de aprontar antes tôdas as lidas da ca
sa e no tempo livre deixa-me ir a Conca para
aprender o Catecismo. Também o Pe. Alfre
do que vem todos os domingos de Cisterna,
ensinar-me-á com os outros. E a minha Ma
riazinha ía então todos os domingos ao Ca
tecismo, durante onze meses, e à casa de El
vira tôdas as vêzes que esta dispunha de um
tempinho livre. E finalmente estava bem pre
parada. Eu mesma a acompanhei a Netuno,
no dia antes, para a Confissão, e como não
estivesse ainda tranquila, pedí ao Pe. Vigá
rio que a submetesse a um exame. O Pe. Te
mistocles Signori interrogou-a e depois
afirmou-me:
- « Fique tranquila, ela está bem pre
parada. » -
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Todavia, para maior segurança, co�iai
a Nossa Senhora, colocai-a sob o seu manto
e não receieis! »
E assim fiz.
No dia seguinte, 16 de junho de 1901,
fez a Priineira Comunhão, junto com o ir
mão Ângelo, na bela igreja de Conca e co
mungou como uma Santa.
Ao regressar lia-se no rosto e nos mo
dos o quanto era feliz pela Comunhão fei
ta, tanto que disse a Teresa (Cimarelli) ,
que tinha mais tempo que eu:
- « Teresa, quando voltaremos a co
mungar?
E quando perguntei a ela e ao irmão:
- Agora que recebestes Jesus, se
reis melhores? - Mariazinha respondeu
me:
- Sim, mamãe, serei sempre melhor! .'
A nossa vida transcorrida regular;
levantávamos muito cedo pela manhã por
que João Serenelli, trabalhador enérgico, era
muito exigente também com os outros. An
tes de sair para a roça, recomendava à Maria
o que devia fazer em casa, para o almôço,
para as compras e aos irmãos.
E depois disto eu passava o dia todo
sob o pêso do trabalho.
Pelo meio dia voltava para casa, ou
mesmo um pouco antes, para dar uma mão
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a minha filha. Almôço, uma hora de descan
so, para depois recomeçar a lida até a noite.
Para o jantar fazia o mesmo. À noite os ho
mens se entretinham alegremente em ani
madas conversas ou jogavam com os ami
gos.
Eu ajudava Mariazinha na lida domés
tica e já preparava o necessário para o dia
seguinte. Quantas vêzes soava meia noite
e nós ainda estávamos arrumando e limpan
do.
Antes de deitar rezavamos o terço, dá
vamos uma volta em redor da casa para cer
tificar-nos de que tudo estava em ordem e
depois iamos todos para a cama.
- Sim, o terço também os homens o
rezavam e frequentemente vinham os Cima
relU em nossa casa e assim o recitávamos
todos juntos (ou então nós íamos na casa
dêles) . Aos domingos, ao invés, dormíamos
um pouco mais; eu, geralmente, assistia à
primeira Missa em Conca, onde havia um
mercado, e assim fazia depois as compras;
regressava apressadamente para preparar
os pequenos e mandá-los com Mariazinha ou
com alguma boa senhora, a Missa das onze
em Campomorto, e durante a sua ausência
preparava o almôço e tudo o mais.
A tarde não havia nenhuma « função»
mas aproveitava do tempo livre para ir ao
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cemitério com meus filhos e fazê-los rezar
sôbre o túmulo de seu pai.
Aproveitava a ocasião para contar-lhes
as belas histórias dos Santos e da Igreja,
que eu aprendera quando pequena, em Cori
naldo, porque onde morâvamos agora não
havia meios para instruí-los na Religião.
Foi nessa época, que eu também ensinei o
Catecismo; as orações aprenderam-nas de
tanto ouvi-las repetir; foi tudo assim por
que, no mais, os meus filhos eram analfabe-
·
tos.
Depois de os homens sairem (geralmen
te reuniam-se no bar onde tomavam um tra
go), nós, senhoras, nos reuníamos na âria
ou na frente da casa e enquanto fazíamos
trabalhos manuais, trocâvamos conversas e
as novidades que em nenhum lugar faltam.,.
Quando ía confessar-me levava também
os filhos comigo e todos o faziam com gôs
to, mas isso era raro, devido à falta de co
modidade, e também, porque removido o Pe.
Alfredo Paliani, os outros padres, talvez
porque jovens, não tinham a licença de con
fessar e, sendo auxiliares, faziam tudo de
pressa, como para desembaraçar-se de um
dever.
Dia da festa., se eu ficava em casa,
(muitas vêzes ía a Netuno para compras
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ou por motivo de documentos) Mariazinha
estava livre e então corria à casa de Teresa
(Cimarelli) , sua comadre, que sempre lhe
fez tanto bem e muitas vêzes a acompanha
va à igreja para as funções sagradas e para
receber os Sacramentos. Ela gozava de
maior liberdade que eu e podia acompanhá
la.
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chechas cheias e rosadas. Parecia-se a uma
flor!
E talvez mesmo porque fôsse uma flor,
Alexandre pensou em profaná-la.
E no entanto ouvi a resposta de minha
filha, quando certa vez lhe disse que não
imitasse uma sua companheira leviana e mal
educada, da qual se havia escandalizado.
Respondeu-me:
- Eu falar assim? Antes me deixaria
matar!
E ví também que desde que êle pregara
na parede de seu quarto certas figuras de
revistas más que o pai lhe havia trazido, e
não obstante as minhas observações obsti
nou-se em retê-las, Mariazinha deixou de
arrumar-lhe o quarto.
Eu ainda não consigo compreender co
mo chegou ao crime, porque Alexandre não
parecia ser mau, e na verdade não o era: res
peitava-me, e dava-se bem com os meus fi
lhos, era bom trabalhador e dificilmente se
afastava da propriedade; aos domingos ía
à igreja como nós, rezava o terço conosco,
recebia os Sacramentos como nós, não blas
femava como fazia alguma vez seu pai, (só
raras vêzes porque eu não sofro blasfêmias),
não dizia palavrões, auxiliava os pobres o
quanto podia, passava o tempo livre no quar
to, lendo e escrevendo.
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(Era apaixonado pela leitura e não per
dia tempo) .
Vê-se que a solidão o havia animaliza-
do.
Aquela vida de isolamento, de silêncio,
de eremita, a qual estávamos condenados alí
na Campanha, feriu-lhe o espírito, esvasia
ra-lhe o coração e agia também sôbre o corpo
em forma de vício.
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quê daquelas lágrimas, consolava-a dizen
do-lhe :
« Tenha ainda um pouco de paciência,
pois logo irá para o exército » .
Somente depois soube que a havia ten
tado! Eu, conforme afirmo, não teria nem
mesmo suspeitado; não compreendi o peri
go que cercava o meu anjo, nem mesmo
quando me disse: « Mamãe, nunca me deixe
sozinha em casa! . . . tenho mêdo! », e cho
rava quando obrigava-a a ficar, afirmando
lhe que seu mêdo era só capricho. E quando
percebí que desde então trazia constante
mente o terço na mão e rezava sempre, pen
sei tratar-se de uma mania religiosa, passa
geira, ou uma impressão que logo passaria.
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lho de 1902, que devia depois terminar tão
t:rà.gicamente, Mariazinha durante o café,
dissera à Teresa Cimarelli:
- Teresa, amanhã iremos a Campo
morto, não é? não aguardo mais a h ora de
comungar!
E Teresa prometeu acompanhá-la; de
pois tudo correu regularmente até à hora
do abnôço. De tarde, João deitava-se sôbre,
um monte de feno, aos pés da escada da ca
sa ; estava atacado de malária.
Eu, depois de ter ajudado Mariazinha
na lida da casa, fui nivelar um assoalho ; no
momento de recomeçar o trabalho, Alexan
dre passou pela cozinha e disse à Mariazi
nha, na minha presença:
- Mariazinha, saiba que tenho uma ca
misa para remendar.
Vendo que minha filha não respondia
eu lhe disse:
Mariazinha, ouves o que te está dizen-
do Alexandre?
E ela :
- Onde está esta camisa?
- Está sôbre a cama e lá estão também
os remendos.
- Está bem.
Depois descemos: Alexandre com meus
filhos cangou os bois nas carroças para con
tinuar a trilhadura. O primeiro carro era
4 - Mãe Assunta 49
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guiado por êle, o segundo por meu filho Ân
gelo que levava consigo Mariano e Ersilia,
muito satisfeitos por estarem no carro. Eu
procurava ajeitar debaixo das rodas as es
pigas, que na passagem dos carros e dos ani
mais, se espalhavam.
Momentos depois, vi Mariazinha senta
da sôbre o nosso banquinho, colocado por ela
mesma no patamar da casa, à vista de nós
todos, pois não distávamos mais de 40 me
tros, em linha reta. Já estava com a camisa
a remendar na mão e, perto dela, dormindo
sôbre o velho acolchoado, dobrado em qua
tro, a outra minha filha Teresinha, de dois
anos, coberta com uma ponta do mesmo.
Instantes depois Alexandre disse-me:
- Assunta, quer dirigir um pouco em
meu lugar até que eu suba por um momen
to?
Aceitei e, muito socegada, subi no carro
e comigo veio também Mariano.
Pensei que Alexandre tivesse que satis
fazer uma necessidade natural ou que se es
tivesse esquecido de algo. Após algumas vol
tas, os bois que eram tão mansos e já acostu
mados com a minha mão, desviaram de mo
do estranho, tanto que eu exclamei:
- ó meu querido Santo Antônio, o que
está acontecendo? e peguei logo a vara. Na
quele mesmo instante ouví que a minha pe-
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quena Teresinha começava a chorar deses
peradamente; quando levantei os olhos não
vi mais Maria no patamar e temendo que a
pequena rolasse escada abaixo disse a Ma
riano :
- Mariano, vai ver porque Teresinha
está chorando e onde foi Maria.
Enquanto Mariano ía, vi que João Se
renelli levantou-se do lugar onde estava des
cansando e, apressadamente, subia a esca
da; Mariano então diminuiu o passo, na cer
teza de que alguém socorreria a pequena
Teresa.
Logo que o velho Serenelli chegou em
cima, ví-o abrir a porta e depois voltar-se
para chamar-me: « Assunta, venha logo cá »
e chamar também Mário Cimarelli, que batia
o feijão no pátio, dizendo:
- Mário, venha também você.
Quando ouvi chamar também Mario Ci
marelli, assustei-me e disse:
- Minha Nossa Senhora, o que terá a
contecido em minha casa ?
Deixei tudo e corri para lá. Mario Ci
merelli precedia-me; depois de mim vinha
Teresa, sua espôsa, com uma garrafa: o ma
rido havia-a chamado e lhe pedira vinagre;
logo atrás dela chegaram também, corren
do, os outros irmãos de Mario, Antônio e Do
mingos.
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Ao chegar, vi que Antônio segurava nos
braços, com a cabeça apoiada sôbre um om
bro, a minha Maria.
Vendo minha filha como morta nos bra
ços de Cimarelli, dei um grito e êle procurou
animar-me dizendo : « Comadre, acalme-se,
Mariazinha machucou-se», pois êle tam
bém não estava ao par do sucedido.
Da cozinha levou-a para o quarto à ca
ma. Agarrei-a e logo suspeitei do que lhe
poderia ter acontecido.
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- Foi Alexandre.
- Por que motivo?
- Queria que eu fizesse coisas feias e
eu não quís ; é pecado ; não, não !
E não conseguiu ; por isso matou-me.
Dei então um outro grito e desmaiei
novamente. Levaram-me à casa dos Cima
relli para onde, nêsse espaço de tempo, já
haviam levado todos os outros filhos, antes
que soubessem e vissem o que sucedera à sua
irmã.
VIII
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um pôsto sanitário, chegou um médico e um
enfermeiro da Cruz Vermelha com uma am
bulância puxada por dois cavalos. Os Cima
relli ajudaram a colocar e acomodar minha
filha e depois vieram buscar-me, porque o
Mazzoleni disse que eu devia acompanhar a
Mariazinha ao hospital; tomei lugar entre
Mario e Teresa, enquanto ouvia as vozes
dos meus filhos que aparecendo nas ja
nelas, choravam desesperadamente.
Quando partimos, todos os homens ti
raram o chapéu, as mulheres choravam e
gritavam entre lágrimas que as afogavam :
« Mariazinha! Volta Mariazinha! Volta lo
go! ». Uma cena de despedaçar o coração.
Durante a viagem, eu procedia como uma so
nâmbula, não tinha mais lágrimas nem fôle
go e a cabeça como que esvasiara completa
mente. Maria mantinha-se calada e com os
olhos fechados. - Minha filha, sentes-te
mal? - perguntei-lhe.
- Não .. . Não!
Somente uma vez perguntou-me :
- Mamãe, falta muito para chegar?
Também diante do hospital havia muita
gente e quando Mariazinha passou vi mui
tas pessoas chorar enquanto me sussurra
vam :
- Coragem! Coragem, bôa senhora!
Os médicos, cientes de que tentavam
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o impossível aconselharam que a pequena se
eonfessasse. O capelão, Pe. Martinho Guaya
ro, perguntou-me:
- Senhora, somos cristãos, não é ver
dade ? (Era só o que faltava! )
Então, antes de operar sua filha é me
lhor confessá-la.
- Por favor, sim, minha Nossa Senho
ra, já que a tendes feito chegar viva até aqui,
antes de tudo confessai-a. Foi questão de
poucos minutos.
Logo após começou a operação.
Passei duas longas horas em espectati
va, no corredor. Concluída a operação, o
médico permitiu-me vê-la, proibindo-me po
rém de fazê-la falar. Mas ela logo que me viu,
com um fio de voz chamou-me: «Mamãe! »
e eu perguntei-lhe como passava. Tinham
na transportado para o quarto das senho
ras; paracia-me mais morta que viva: tôda
lívida, com os cabelos soltos como Santa Fi
lomena. Foi ainda ela que rompeu o silêncio
para dizer-me:
-
· Mamãe . . . estou bem, sabe ? Como
vão os irmãozinhos e as irmãs ?
Mais tarde disse-me:
- Mamãe, dê-me uma gota d'água ?
Infelizmente, tive que responder:
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- Minha filha, não é possível! O médi
co proibiu terminantemente.
Respondeu-me resignada, mas admira-
da :
- Será possível que não me pode dar
uma gota d'água?
E por mais de 20 horas sofreu aquela
terrível sêde em pleno mês de julho.
Imaginem o meu pesar: nem poder dar
um pequeno alívio à minha filha!
Ainda não posso encontrar confôrto se
não recordo o fato de que também a Jesus
foi negado uma gôta d'água, e que em troca
deram-lhe vinagre e fél.
Mais tarde, ainda uma vez, percebendo
talvez meus lábios tremerem, repetiu-me :
- Estou muito bem, sabe mamãe?
- Sim, amor, respondí-lhe, estás bem,
porém não te esforces para falar porque o
médico to proibiu.
- �, sim, estou muito bem.
Enquanto estava aí à sua cabeceira,
veio o chefe da Polícia, Lorenço Fantini e
quis que interrogasse minha filha para sa
ber se fôra tentada outras vêzes.
- Sim, mamãe, respondeu-me, outras
duas vêzes, um mês atrás, Alexandre me a
borreceu.
- Mas, minha filha, por que não disses-
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te à tua mãe e então ao menos não terias
morte semelhante?
....... Mamãe querida, tinha vergonha por
que não sabia como dizê-lo. E, além disso,
Alexandre jurou-me que me mataria, caso
eu referisse; e tanto é que me matou mes
mo !
- Mas tu não gritavas enquanto êle te
feria?
- Sim, mamãe, mas êle continuava a
ferir-me enquanto eu gritava; quando não
pôde mais, deixou-me. Enquanto isso as ho
ras passavam em lenta agonia e chegamos
quase à meia noite. Então aproximou-se
uma Irmã e disse-me ao ouvido que o médi
co não permitia que passasse o resto da noi
te ao lado de minha filha e que só Teresa Ci
marelli tinha licença de ficar; sussurrou-me
ao ouvido, mas Mariazinha que compreendia
tudo disse-me:
- Mamãe, a senhora não pode ficar ao
meu lado esta noite?
- Não, minha filha, porque não mo per
mitem; não me dão licença, dão-na para Te
resa, ela ficará contigo.
- E a senhora onde irá dormir?
- Deus proverá, minha filha.
E .. . está !
E assim tive que me retirar. Sei que du ..
rante a noite, foi assistida pelo Pe. Capelão,
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pelo Arcipreste, pelas Irmãs, por uma con
dessa, e por Teresa. Sei que a inscreve
ram entre as filhas de Maria e, pela manhã,
vi a medalha ao pescôço. Sei que perdoou ao
seu assassino ; que recebeu o Viático, a Ex
trema Unção e a Bênção Especial para os a
gonizantes. Sei que beijou muitas vêzes o
Crucifixo e que respondera as jaculatórias
que lhe foram sugeridas, mas a tudo isso eu
não estava presente. Soube de outros, pela
manhã, quando voltei à cabeceira de minha
filha.
Passei a noite na ambulância chorando
e pensando naquele anjo que definhava e
nos meus outros filhos, que quem sabe quan
to sofriam naquelas horas, esperando por
nós. Pela manhã, a primeira pessoa que ví
foi o ajudante do hospital que logo ao sair,
parou para conversar com algumas pessoas
que chegavam; pensando que dissesse que
minha filha tinha morrido, corri-lhe ao en
contro e depois para a porta do hospital.
Embora ainda não fôsse hora, deixaram-me
entrar, por compaixão; naquele momento, á
cabeceira de Maria estavam duas Irmãs de
Caridade.
Minha filha reconheceu-me logo, mas
era evidente que definhava momento por
momento. Mais tarde veio o Pe. Capelão e
seguidamente sugeria-lhe jàculatórias e ela
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respondia. Logo mais tarde veio o médico :
Insistiu para que não a fizessemos mais falar
acrescentando, porém, que era necessário
resignar .:;e porque não havia mais motivo
para esperar e era só questão de horas. Isso
l�1ssc ·me paternalmente, chamando-me à
parte ; para Maria ao invés, dirigiu palavras
animadoras quase brincando.
Quando percebi que minha filha estava
mesmo no fim, beijei-a e ela beijou-me ; dei
lhe também o Crucifixo para beijar e a me
dalha de Nossa Senhora que trazia ao pes
coço. Pouco antes de espirar, com um fio de
voz, perguntou-me : «Mamãe, papai ?» abai
xei os olhos e ela vendo-me triste, disse :
« Perdoe-me, mamãe ! » Depois não esteve
mais consciente de si. Mais tarde chamou
«Teresa» ! não obstante eu estivesse a seu
lado ; vê-se que não me conhecia mais.
Chegou-se-lhe uma enfermeira, tomou-lhe
a mão e Maria expirou plàcidamente aper
tando-lha com fôrça. Eram 15 horas 45m,
do dia 6 de julho de 1902. Maria contava 11
anos, nove meses e vinte dias.
IX
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Foi-me concedido somente dar-lhe o úl
timo adeus. Beijei o cadaver antes de sair . . .
e « minha pobre filha » exclamei. Depois não
a vi mais. Os presentes, participando da mi
nha dor, faziam, como achavam, a carida
de de afastar-me. Fui levada para uma ca
sa de Netuno e à noite voltei para Ferriere,
junto aos meus filhos.
Mário e Teresa Cimarelli permanece
ram porém, em Netuno e pensaram em tudo.
Soube assim por meio dêles, que o funeral foi
um verdadeiro triunfo ; que havia tomado
parte todo o clero e os Institutos Religiosos
de Anzio e Netuno ; que o caixão fôra acom
panhado por uma multidão de _povo ; que
quase todos choravam e que todos diziam
que minha filha era uma verdadeira martir
da pureza. Disseram-me até que a Prefeitu
ra dera gratuitamente o terreno para a se
pultura e que o Arcipreste, durante os fune
rais, fizera um belíssimo panegírico ; que o
ato de minha filha ter perdoado o assassi
no tornara-se público e era tido como
heróico, próprio de uma Santa. Conforme já
atestei porém, não presenciei tais fatos. Con
gratulações por ter uma filha martir, rece
bí-as também diretamente. Uma senhora dis
se-me :
- « Coragem, pois vossa filha está cer-
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tamente no Paraíso, perdoou ao seu assas
sino ! »
E uma estranha me disse :
- « Coragem, vossa filha é outra San
ta Inês, bem-aventurada menina que soube
morrer como Santa para não macular-se !»
E outras frases destas, mas que não
lembro com precisão.
Chegando em Ferriere, abracei meus fi
lhos, mas não quis mais saber de pôr pé na
nossa velha casa, tanto mais que alí morava
ainda João Serenelli.
Parei com os Cimarelli e morei com ê-
les.
Na manhã seguinte passou o patrão,
segundo o costume quase diário, dando a ca
valo uma volta pela campanha. Encorajou
me, dirigiu-me palavras de consôlo, disse
me que se necessitasse de algo fôsse retirar
do depósito, que depois ajustaríamos as
contas e perguntou-me o que pretendia fa
zer agora. Respondi-lhe que por enquanto
a minha única intenção era não pôr mais
pé na velha casa. Depois veríamos.
Vendo-me chorar, repreendeu-me di
zendo : « Por que choras ? Não vês que tua
filha já estava morta (tinha também ferido
uma aurícula no coração) e ainda falava ? »
Não queria que eu chorasse, mas Ma2zoleni
compreendia muito bem o meu estado de â-
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nimo, a minha dor e a respeitou. Nada profe
riu, nem pró nem contra e concluiu dizendo :
« Enquanto isto, pensa e eu também pensa
rei ». Certamente êle não me teria aconse
lhado a trabalhar em sociedade com o Se
renelli.
Nos dias consecutivos recomecei a tra
balhar e foram os Cimarelli que me ajuda
ram em tudo, sacrificando-se por minha cau
sa. Também os meus filhos esforçavam-se
além do possível para não se atrasarem nos
trabalhos.
Após alguns dias, quando o patrão vol
tou, ficou contente e perguntou-me nova
mente qual era a minha intenção.
Eu não sabia como fazer : em tais ca
sos, parecia-me essencial para o momento,
conservar a propriedade que era o nosso ga
nha-pão, mas não podia demorar-me mui
to em casa dos Cimarelli que embora
bons, possuiam também a sua família . . .
Seríamos para êles um pêso insuportável
e eu também não podia afastar-me da re
gião até que não se fizesse o processo.
« Como fazer ? » perguntava-me dia e
noite. Lembro-me das grandes dôres de
cabeça. Alexandre fôra preso logo após o
crime, no mesmo dia 5 de julho e levado
para a Caserna de Netuno onde havia con
fessado tudo ; o dia seguinte, 6 de julho,
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fôra conduzido a Roma para a Regina Coeli ;
dia 8 e 9 fôra interrogado pelo Juiz Instrutor
e o processo se concluiria dentro de três a
quatro mêses, não antes. Era necessário
permanecer até lá.
Chegaríamos a setembro, se as coi
sas continuassem assim, dissolveria então o
contrato, fecharia as contas e partiria,
pois estava decididíssima a regressar para
Corinaldo.
Disse portanto ao patrão que tenciona
va ficar até setembro.
O conde respondeu-me que para êle
estava bem e até insistiu para que, se de
alguma coisa eu precisasse, além da admi
nistração ordinária, sem receio lha pedis
se e êle ma teria concedido. Eu porém na
da pedí, não queria que, encontrando-me
prestes a fechar as contas, o patrão achas
se motivo para adiar a minha saída, como
diziam ter feito em outra ocasião. Enquanto
isso eu procurava não ser de muito pêso aos
Cimarelli e assim comecei as tentativas pa
ra estabelecer-me em Netuno, mas era di
fícil encontrar um lugarzinho, devido o nú
mero de veranistas. Recorri um pouco a to
dos, até a um jovem sacerdote, muito pres
tativo, que estudava em Roma e que mais
tarde veio a ser Arcipreste, o qual muito se
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interessou e apresentou-nos bons contratos.
Mas éramos tão miseráveis que até as con
dições mais favoráveis nos eram impossí
veis e por isso nada concluíamos.
Fui constrangida, portanto, a perma
necer, com o consentimento do Conde e sem
pre em contato com êle. Os seus conselhos
e o seu auxílio, na ocasião e depois, foram
me preciosos. Imaginem a minha situação :
analfabeta como sou, lá naquêle deserto,
sem meios de transportes, sem o apôio de um
homem, sem dinheiro, tratar com soldados,
policias, juizes, testemunhas, advogados,
tribunais. Várias vêzes fui interrogada,
houve visitas judiciárias, fui constrangida
a fazer a denúncia e constituir-me parte
civil ; tive que citar os que presenciaram,
os que nos conheciam e que podiam afirmar
o desenrolamento dos fatos ; tive que ir a Ro
ma quando chamada pelo juiz, responder
a infinitas perguntas e defender-me também
das insinuações dos malignos pricipal
mente da parte de um advogado que inven
tava mil coisas desfavoráveis, para alterar
os fatos e a verdade ; tive que presenciar ao
processo, etc. etc. Em conclusão, uma cala
midade.
Se não enlouqueci naquela ocasião foi
por causa dos filhos e pelo auxílio· que cer-
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tamente a minha.! Mariazihlía: me obteve de
Deus;
Como :óeus quis, concluiu-se tudo e até
depressa ; dia 11 de outubro deu-se o proces
so da Côrte de Assis, em Roma. Alexandre
era réu confessado, o crime evidentíssimo,
e eu, após tantas preocupações, não fiz ou.;.
tra coisa senão relatar os fatos como se de
ram.
Concluídas as coisas, fechei· as contas
com o , Mazzoleni e foi por bondade sua que
escapei da' dívida� Estava porém, completa
mente desprevenida, não dispunha de um
centavo, nem mesmo se êste fôsse necessário
para· salvar um moribundo. Teria direito à
indenização dos danos de Serenelli, mas o
próprio João onde iria buscar o dinheiro ?
O processo e os advogados o haviam despo
Jado e encontrava-se em condições talvez
piores que as nossas, com o filho na cadeia
c com a · desonra na família. Compreende-se
a situação ao dizer-se que, lhe foi possível
visitar urna única vez o filho na cadeia. e que
a única coisa que lhe pôde oferecer foi um
pão caseiro, um queijo, algumas nozes e que,
para economizar dos sêlos, escrevia-lhe so
mente uma vez cada dois ou três meses.
Bea•para êle que, sendo bom trabalha;,;.
11 - Mle Assunta
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dor, não obstante tudo, pôde permanecer
nas dependências do Conde e assim ganhar
para viver ; de outra forma só Jhe restaria
pedir esmola, coisa que não teria feito mes
mo que tivesse que morrer de - fome.
- Oh ! sim, viveu ainda muito! Morreu
com 82 anos, mas depois que regressei a
Corinaldo, não mais me interessei por êle.
Eu não possuia um centavo e foi por não po
der pagar a passagem que recorri à polícia
para viajar.
Imaginem que durante a viagem, nem
tínhamos o que comer ! Terminado o pão que
levávamos, nada poderíamos saborear se wn
viajante, por compaixão, não nos oferecesse
algo de esmola. Lembro-me dos três dias que
passamos em Roma, à espera de trem para
Ancorta (ah ! então viajávamos assim, bem
düerente de agora) , permanecemos sempre
na. estação e dorminos no chão, sôbre tijo
los frios, sem uma coberta. Eu e Mariano fa
zíamos. a Ersília dormir seJllpre .em nossos
braços a :fim de que o frio dos tijol_os não lhe
fôsse causa de doença. Foi o chefe da esta�
çãa que nos deu,. por esmola, um pouco de co
mida.
Eu não me teria preocupado com nada,
teria resistido, mas as crianças !
- Bagagem ? A pouca roupa que nos
fôra posSível vender pua obter algtUJl di-
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nheiro, já a tinhamos vendido e agora co
nosco não trazíamos senão alguns trapos
no corpo e, creiam-me, que eram insuficien
tes até para cobrir-nos, não digo para ampa
rar-nos do frio. Chegamos éM Corinaldo pelo
Natal, à mercê de Deus, sém saber onde dor
mir e o que comer. Todos rtos olhavam com
imensa compaixão; sabiam o que tinha feito
Mariazinha e todos nos auxiliavam. A maio
ria também el'a pobre e nós estávamos
nús, descalços e famintos; córtforit1e disse,
não dispúnhamos nem daquele pouco que tra
zíamos conosco como emigrantes. Agora fal
tavàm também os bráçôs de um matido pa
ra trabalhar e para ter 1.im baluarte de espê-
rança para o futuro, faltava também qual
quer possibilidade de pagar qualquer ahi
guel, por insigrttlicante que- fôSSé !
Por isso nos pri..rneiros tempos comemos
do que nos oferecia aquela bõa gente, prin
clpaln1énte o Pe. Vigário, e aceitamos como
um dêo pr(i!sente a estrebaria que nos ofe
réêeu, provisõriamente, o bo'Di Antõnio :Mon
tesi e sua senhora cha.:rn:ada. « A Dototéia » ,
Tiraram o burro da estrébária: e . . trocada
.
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Nos primeiros tempos vivemos graças
à caridade pública. Depois empreguei-me em
casa do sr. Vicente Gradoni, que precisava
de uma senhora, pois morrera-lhe a espôsa
deixando filhos para criar. Quando contraio
segundo matrimônio fui para a casa de Vi
cente Sandreani.
Enquanto isso, procurava colocar os fi
lhos. Ângelo e Mariano, coloquei-os provisó
riamente em casa de bons colonos ; tinham
dêste modo um pedaço de pão para comer,
alguma . gorgeta e a estrebaria para dormir.
Para as meninas julgamos melhor interná
las num colégio que as ·mantivesse gratuita
mente e foi o Pe. Vigário que muito se esfor
çou, escrevendo para diversas pessoas, prin
ci:galmente dentre as que se mostraram inte
ressadas pelo fato da minh� Mariazinha. E
eram muitas, porq\}e quando foi assassina
da, operada e d�pois triunfalmente sepulta
da, Netuno e Anzio estavam repletas de
veranistas de tôdas a� partes, mas principal
m�nte de Roma e foram êstes mesmos que,
em poucos meses, levaram a fama do martí
rio de Mariazinha para. todos- os. -lugares, a
té para ambientes distintíssimos porque a
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praia de Anzio de então era principalmente
a da nobreza de Roma.
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disso foram os p:romovedores de um monu,..
mento em Netuno que imortalizasse o fato
heróico : êste m.onurne;nto foi solenemente
inaugurado dia 10 de jul.bo de 1904, dois a
nos após a morte de minha filha. A Prefei
tura também não quis ficar atrás e, no ce
miterio de Netuno, sôbre o tumulo de Ma.
riazinha, .eri.giu outro monu.mento �< à es
pera (conforme estava gravado na bela cruz
de mármore) da legal autor�ção para ser
sepultada no Santuário de No.sso Senhora
daJ; Graças onde se ergue o mom.un�nto >>.
Tanto o primeh'o como o segundo mo
numento foram confiados aos cuidados dos
Revmos. Pes. PaJ$ionistas que eram os di
rigentes e os guardas do Santuário e man
tinham-se indiferentes e estranhQs às obs
tinadíssimas rivalidades que já haviam sur
gido para a posse do corpo da « nova Inês »
como jâ chamavam minha filha.
Eu não presenciei, mas fui informada
que, em ambas as inauguratões, participou
uma multidão imensa, também de forastei..
ros e que foram feitos discursos de circuns,.
tância em louvor da minha Mariazinha.
Quem mo contou foi o nosso Arcipreste
a quem lhe escrevera Mons. Temistocle Sig
nori, pároco de Netuno, que nos conhecera
bem e que também assistira Maria na hora da
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morte, e que, naquela circunstância, fôra um
dos oradores.
Colocadas as duas filhas Ersilia e Tere
sa, restavam-me os meninos. Angelo sobretu
do, não queria continuar empregado em casa
de colonos ; pretendia melhorar a sua condi
ção a tôda custa e levantar o nível da família.
Insistia sempre que o ajudasse tentar a sor
te na América, como haviam feito muitos ou
tros do lugar. Mas, como seria possível aju
dá-lo se eram necessárias trezentas liras só
para a passagem em terceira classe, de Gêno
va a Nova Yorque, se eu não dispunha senão
de um dinheirinho ganho com meu serviço,
e sempre gasto antes de o receber ?
A idéia parecia irrealizável, mas êle con
tinuava insistindo, tanto que uma noite so
nhou que seu falecido pai lhe disse :
- Vai pois à América. Há dinheiro.
Pela manhã contou-me o sonho, mas eu
inquieta repliquei :
- Disse-te que há dinheiro ? e onde es
tá ? sabes me dizer ? poderia bem dizer-te
um número para tirares na loteria que seria
melhor.
Mas depois, refletindo, tive uma inspira
ção, creio que fôsse inspirações, porque es
tou convencidíssima e sempre o provei em
minha vida, que os mortos ajudam os vivos.
Fui ter com o sr. Vicente Gradoni, onde tra-
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bal:Qei ; narre,i.-�e _o .sonho .e :a .�rsistência de
meu filho ; comoveu-se e deu-me a importân
cia. Corno garantia deixei-lhe wna carta de
G�mbio com a data .em branco. O .contrato .e
r.a que Angelo teria que env.iar de lá o dinhei
ro necessário para saldar a dívida ; penso,
porém, que o sr. Vicente considerasse perdi
da a quantia emprestada mas, pelo contrário,
isso não sucedeu. Angelo partiu para a Amé
rica em 1906 e lá fez .wn pm,tco de tudo : ser
vente de pedreiro, rebocador, pintor, caixei
ro, etc.
Com suas primeiras ecol).om.i,as saldou
logo a dívida, localizou�:se :b.ern .e dEWois aju
dou também a nós. .Cont).nUQU aWC;iliando-nos
sempre.
Enquanto isso, eu continuav;,;t como e;m
pregada, ora numa, ora noutra tamil_ia, se
gundo os pedidos e lllinba conven,iêp.cia. Qua
se nunca, porém, me atastei de Corinaldo,
com exceção de três anos (mais ou menO$)
que passei em Ripe, a poucos quilômetros da
qui.
Foi um período muito triste pa;ra mim,
em que sofrí muito e derramei lágrima,s a
margas. Mas desde 1008, gr�s ao interês
se da ótima família do Conde :arononi, en
contrei sempre trabalho em alguma qas suas
propriedades junto às ftunjlias dos seus de
pendentes.
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- Não, nWlca trabalhei em casa do sr.
Brononi.
Em 1908 :fui constrangida a tirar Ersí
Ua do Instituto no qual estava, porque ali não
gozava de bôa saúde. Teve abcessos, furún
culos a mais não poder, e algumas linhas de
febre não a queriam abandonar. O médico
aconselhou a mudança de ar, mas como fa
zer ? Levá-la para Corinaldo era impossível.
Sempre por meio de benfeitoras, pensou
se em colocá-la com a irmã Teresa, que es
tava muito bem em Gr.ottaferrata.
Mas as regras do Instituto não o permi
tiam e as Irmãs não fariam uma exceção.
Para superar a dificuldade, recorremos
ao novo Papa Pio X ,que jâ indiltetamente ha
via-se interessado conosco e que admirava
muito Maria, desde que dela ouvh'a falar. E .
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quanto viveu, dos restos mortais de Maria,
da sua fama de mártir e ao mesmo tempo não
se esquecia de nós. Nas visitas que costuma
va fazer às minhas filhas Ersilia e Teresa,
nunca se apresentou de mãos vazias.
- Sim, tanto as minhas filhas como An
gelo me escreviam e eu lhes respondia por
meio do Pe. Vigãrio.
XI
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que. pessoalmente, pôs-se ao par de tudo
quanto se fazia para Mariazinha e insistiu
várias vêzes, até importunar..se, para que
os interessados se apressassem em glorifi
cá-la. Costwnava denominá-la « um magní
fico mod.êlo para a juventude feminina ».
Com a oferta, Pio X mandou também
o seu ecômio e a sua Bênção. O monumento
foi erigido na igreja paroquial de S. Francis
co onde está atualmente. O Pároco, Pe. Ale
xandre Marinelli pretendia também os des
pojos de Mariazinha e fez quanto pôde pa
ra tê-los em Corinaldo.
Dizia-me :
- Aqui nasceu, aqui foi educada e ins
truída aqui passou a maior parte de sua vi
da, aqui está a sra. e sua família. A sra. tem
direito ao corpo da filha e é justo pois que
aqui Mariazinha descanse.
Tal raciocínio parecia muito justo e eu
também pretendia a isto, mas nada conse
guimos, mesmo quando o sucesso da inicia
tiva pareeia patente. Vê-se que Deus queria
diversamente, isto é, assim como aconteceu.
A inauguração do monumento em Cori
naldo deu..se a 25 de setembro de 1910.
Acorreu a juventude em pêso das ci
dades visinhas, da redondeza e dos casebres
A s ombra das bandeiras e dos estandartes
das respectivas associB.ções religiosas. Um
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cortejo interminâvele festivo como nunca se
viu em Corinaldo, desfilou :triunfalmente,
cantando pelas ruas do lugarejo, não obstan
te a raiva dos poucos anticlericais.
Na ponta vinha o advogado Marini e sua
espôsa, em seguida eu e minhas fill:tas Ersí
lia -e Teresa que traziam uma graciosa corôa
de flôres, e atrâs todo o clero e o .povo.
O discurso de ocasião foi pronunciado
pelo próprio Bispo ·( naquêle -dia ,falou três vê
zes: na Comunhão geral da :manhã, na Cris
ma e na Procissão) no qual glorificou Maria
zinha como « mârtir da pureza », elagiou a
população pela Comunhão Geral da manhã e
conferiu a Crisma a setenta meninos e meni
nas.
Eu, porém, naquêle dia, tive um grande
pesar : um ladrão talvez por desafôro, apro
veitou a ocasião para entrar em minha casa
e, infelizmente, entre os objetos roubados es
tava também o colar de coral do meu casa
mento que eu tinha dependurado no pescoço
de Mariazinha no dia de sua Primeira Comu
nhão e em outras festas especiais.
Mas, coisa roubada não traz fortuna e,
de fato, o ladrão, pouco tempo depois, foi én
contrado morto, não sei nem porque nem por
quem.
Depois . . . , depois, quem poderá lem
brar-se de tudo? A minha vida foi muito lon-
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ga e angustiosa� Sofri sempre da memória...
Mas agradeço a Deus por ter chegado a· essa
idade ! Lembro-me porém, que em 1914
experimentei a· alegria de abraçar meu filho
Ângelo que regressava da América para ca
sar-se. Tomou por espôsa Rosa Storoni, mo
ça de bem, que lhe deu oito filhos sãos e ro
bustos. Sentia..se bem na América. Trabalha
va, ganhava e nutria a esperança de um futu
ro mais feliz, também para nós, tanto assim
que levou consigo o irmão Alexandre. Infeliz
mente, porém, rebentou a guerra e eu fui
constrangida a trabalhar mais. e viver em
maiores angústias. Em 1915, também por mo
tivo da guerra, minhas ·filhas Ersília• e Tere
sa, foram transferidas de Grottaferrata pa
ra Monteverde, sempre porém junto · com· as
mesmas Irmãs. Depois Mariano foi mandado
para a guerra e foi convocado para a classe
dos mais jovens : 22 anos. Imaginem o esta
do de uma pobre mãe ! Menos mal que Maria
zinha pensou , em proteje-lo. O fato êle mes
mo poderâ contá-lo, mas, em todo o caso,
narrar-lhe-ei.
Mariano estava na primeira linha de
batalha e todos · os ·dias combatia; Certa vez
receberam ordem de estarem preparados
para um assalto a baioneta. Lutara tantas:
vêzes que já sabia como comportar-se. Com
outros .quatro companbeiros1 acocorados em
7':r
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um buraco da trincheira, esperava Mariano
o sinal para começar o bombardeamento. Na
queles instantes decisivos, recomendava a
alma a Deus e à Maria. Quando foi dada a
ordena para o assalto fez UY.n esfôrço para
saltar fora mas, precisamente naquêle mo
mento ouviu chamã-lo em voz alta : << Maria
no! » virou-se e, naquele momento, uma bom
ba do inimigo explodiu mesmo ali, cobrin
do-o de terra, mas deixando-o incólume, en
quanto os outros quatro companheiros, dis
tantes dêle a dois passos apenas, morreram,
ficando em pedaços.
Tudo tinha sido questão de um minuto.
Em 1917, \1via-se na doce esperança de
que a guerra terminaria de um dia para o ou
tro. Eu estava convencidíssima de poder rea
braçar todos os meus filhos, porém . .
Da América chegou-me a terrível noticia
da morte de Alexandre. Estava na flor da
idade: 22 anos.
O ano 1918" foi decisivo para a: escolba de
estad() de minhas filhas : Ersília tinha 20 e
Tereza 18 anos. Sairam do colégio e vieram
para casa. Nove meses mais tarde, porém,
Tereza, sentindo o chamado- de Deus, enti'ml:
novamente para o mesmo Instituto a fim de
abraçar a vida religiosa e tomou--se irmã
Franciscana Missionária de Maria com o no
me de Irmã Maria .Aléxandra de S.. Alfredo.
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Ersilia, pelo contrário, quis seguir o ca
minho comum no mundo. Quanto a mim,
sempre deixei liberdade aos filhos na esco
lha do estado. Quando me perguntavam o
que deviam fazer, eu dizia :
- Refleti bem e rezai, depois escolhei o
caminho que Deus Nosso Senhor vos inspi
rar e que vos parecer mais conveniente. Sa
crifícios e desilusões todos encontrareis e
em todo o lugar, porque qualquer que seja o
estado escolhido, deve ter por finalidade ga
nhar o Paraiso. Ao céu não se vai de carro
ça, mas como Jesus carregando a própria
cruz, que ninguém nô-la poderá carregar
e que em todo lugar é pesada.
Mariano que sempre trabalhava na roça,
logo após o regresso da guerra, pensou em,
constituir família. Quando participou-me
ientí-me feliz em dar o meu consentimento
e assim em 1920 desposou Júlia Morbidelli
de Filetto, da 8enigaüa, e Deus abe:ncôou seu
matrimônio dando-lhe 8 filhos. Isotina, uma
de suas filhas tornou-se Oblata de Jesus e
Maria, em Albano; com o nome de limã Au
rea e que· atualmente encontra-se na Sa�
nha.
Agora Mariano possui um sítiO da O. N.
C. em Lícula, fração de Pozzuoli e logo mais
tornar-se-á proprietário da quinta, graças à
« Lei Especial » das terras der bonificação..
79
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Embora êle fosse·pobre, sempre me aju
dou; vinha frequêntemente visitar-me e
sempre me quis muito bem. Creio que fôsse
o mais afeiçoado.
Ersília casou-se com Euliano Porfiri,
pedreiro aqui de Corinaldo, dia 29 de junho
de 1822, festa de S. Pedro e S. Paulo. Teve
três filhos : Maria Enrica· que habita conos
co, Carlos que faz parte da guarda Pontifí
cia e Pedro que frequenta a escola dos Pe
quenos Operârios dos Salesianos, em Roma.
Esta casa é dêles e eu, dêsde que fratu
rei o fêmur, em 1944, passei a residir aqui
com êles�
XII
80
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Todoiú�cnicordavam em diiêt<·que�os res;:
tos de ,minhà: 'filha não deviam ser dispérsa
dós. Muitos,· com o Arcipreste Pé; 'Â'lexàndre
Màrmelli, queriam- levã�Ios para Cõrlnaldb;
onde nascera, outros ao· invés,- corri os- Pes:
Passionistas, opinavam para ·Netuno, :onde
padecera o martírio e qUe:riam-nos no
monumento que lhe fôrq. �r�tq;,J>ara êste ' fim
e_m 1904, no- Santuário de N�sa Senpor,'a_ das.
Graças.. Estes últinw� c�.:r;t!,avaw..com o .ap9lo
do Cardeal de Elbano, -.f??rque Netuno_ é Di9-
cese de .Elbano. Recorriam a . miml mas eu
rião sabia' o que fazer� -aconselhei�Ij1e ·b:j.mb�m
com miriha filha Teresinha (I:rínã Ma,ria de
S. Alfredo) , mas ela respondeu-me·. quê. << dei
ias��- -Nosso Senhor_ Çtgir :»: ·
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ria ser a vontade de Deus e conforme todos
previam e desejavam, era muito mais fácil
que os grandes trabalhos e as graves despe
sas fôssem sustentadas pelos Pes. Passionis
tas do que pelo Arcipreste.
Deus serve-se também dos meios huma
nos para seus fins, não é ?
E , além de tudo isto, quando Mariazi
nha morreu, pediu para ser levada « mais
perto de Nossa Senhora », e onde poderia
estar mais perto do que no seu Santuário ?
Contudo, eu nada queria decidir e dei
xava que Deus conduzisse as coisas.
Dia 26 de janeiro foi feita. a exumação
do cadáver. O esqueleto de ·Maria estava
intacto, mas somente os ossos e um pouco
de terra molhada. Ao ver como estava redu
zido o corpo de minha filha, linda como um
anjo, sofri um calapso cardíaco tão forte que
quase morri. Fui amparada e consolada,
mas se as minhas lágrimas tivessem a vir
tude de reanimar aquêles ossos, certamente
se teria realizado um milagre.
Os restos mortais foram amorosamen
te recolhidos e encerrados em lUil cofre de
zinco, dentro de um pequeno sarcófago de
madeira e provisoriamente colocados na ca
pela das Irmãs da Cruz, em Netuno, à espe
ra de obter, quanto antes, licença de deposi-
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tâ-los no seu monumento no Santuário de
Nossa Senhora das Graças.
O Arcipreste de Netuno, Mons. Nicolau
de Franceschi e o Superior dos Passionistas,
que muito já se haviam interessados por Ma
ria, asseguraram-me que a devoção em pou
co tempo começaria e com bom êxito.
Devo porém acentuar que o Santuário
de Nossa Senhora das Graças não é o mes
mo que frequentávamos quando lá moráva
mos. Aquêle também era lindo, querido, mas
muito pequeno, pouco maior do que um quar
to, construído à beira-mar e fôra demolido
pouco depois da nossa saída, porque a ação
destruidora das águas o haviam tornado pe
rigoso. O atual está construído mais para
dentro, é maior e mais bonito.
Soube que fôra possível concluí-lo so
mente graças à grande contribuição do San
to Padre Pio X, que quase o custeou sozi
nho. Ouvi dizer também que custava avulta
da soma, que o Papa havia dado para que os
Passionistas se encarregassem, não de cui
dar e de oficiar apenas no Santuário como
antes, mas para que zelassem espiritualmen
te por tôda aquela zona inclusive Conca, Fer
rieri, Campomorto, Foce Verde, etc., região
quase totalmente abandonada. Sobretudo,
porém, Pio X queria que os Passionistas não
deixassem morrer a lembrança de Mariazi-
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nha e insistia para que propagassem o exem
plo dela entre a juventude.
Pessoalmente o Papa estava convencido
de que minha filha era mártir e por isso ur
gia que ela fôsse conhecida. O monumento à
minha filha, construído pelo Semanário «Ve
ra Roma», fôra também demolido com a ve
lha igrejinha, mas alguns pedaços foram
guardados no Convento pelos padres. Ter
minada a nona construção, o Pe. Luiz Lau
ri Calocci, por sua conta, fê-lo reconstruir
na nova Igrejinha, no fundo, à esquerda, on
de está atualmente. Soube que o Pe. Reitor
e outros falavam de minha filha a todos os
que indagavam o porquê daquele monumen
to e que a introduziam nas conversas, du
rante as peregrinações. Mas, disseram-me
que Pio X queria bem mais : desejava o iní
cio solicitado da Causa da Beatificação e vá
rias vêzes disse : «Fazei algo para Maria Go
retti, fazei-o logo, nós o desejamos. Saibais
que nos interessa muito». E uma vez chegou
até a dizer, em tom bem enérgico : «Vamos,
vamos, mexei-vos, mexei-vos ! está na hora !
está na hora !»
Soube que o Pe. Superior, Capelão do
hospital, que assistiu Maria na hora da mor
te, persuadido do martírio de minha filha,
pediu e guardou como relíquia preciosa o
lençol sôbre o qual se efetuara a autópsia e
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quê agora o havia doado ao Santuário, a
fim de que todos os objetos pertencentes à
Mariazinha fôssem conservados em um lu
gar único e « mais perto de Nossa Senho
ra» como êle mesmo a ouvia dizer. É o len
çol que se vê atualmente na sacristia do San
tuário.
*
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filha, a fim de que o pudessem guardar no
seu Santuãrio.
:f!:les então, prometeram-me novamen
te que trabalhariam pela sua glorificação,
se tal fôsse a vontade de Deus. A translada
ção foi um triunfo inesperado, nunca visto-! A
urna foi carregada por seis filhas de Maria,
vestidas de branco e atrás, na frente e nos
lados uma multidão de pessoas, tôdas as au
toridades Religiosas e Civís, tôda a juven
tude do lugar, de Anzio e Netuno, incluídos
os veranistas, grandes cartazes e estandar
tes, enfeites e arcos em todo o trajeto : flô
res, luzes e toálhas pendiam de tôdas as jane
las. Uma festa nunca vista ! Naquêle dia fez
também a sua Primeira Comtmhão minha
neta Isolina, Filha de Mariano, que mais
tarde se fez Religiosa.
Discursou na ocasião Mons. Carlos Sa
lotti, então Promotor Geral da Fé e grande
orador ( mais tarde foi Cardeal e agora já
faleceu) e falou de Marlazinha como de uma
santa. Longe estava de um discurso fúne
bre !
Eu, porém, não consegui assistí-lo to
do, comecei a sentir-me mal e quando já per
dia os sentidos, levaram-me embora. Todos
choravam, também depois, e diziam-me que
eu era a ditosa mãe de uma santa. Recebi
tantos apertos de mão que à noite doiam-me
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os braços mais do que se tivesse capinado o
dia todo e muitos as beijavam como se fôs
se eu a santa e não minha filha. Todos qui
seram desfilar diante de sua uma exposta,
mas um dia não foi suficiente para tôda a
quela multidão. Foi necessário esperar dois
dias antes de encerrá-la no monumento.
Naquela ocasião narrei detalhadamen
te aos Passionistas e a outros, tudo o que
me lembrava sôbre minha filha, como aliás
fê-lo também Teresa Cimarelli e assim foi
possível a publicação de uma biografia mais
completa e documentada, como era por to
dos solicitada. Encontrei também naqueles
dias, diversos conhecidos de Conca, entre os
quais o sr. Massaro e sua espôsa, e soube as
sim que naquela zona a lembrança de minha
filha continuava sempre mais viva, que o seu
martírio era enaltecido pelos cantores po
pulares nos mercados e nas feiras, e que a
voz dp povo continuava chamá-la «santa».
Antes de partir fomos visitar « Cascina
Antica » e rever os lugares que me haviam
custado tantos suores, tantas lágrimas, a
vida de meu marido e também o sangue de
minha filha. Novamente derramei lágri
mas, já agora consolada, mas eram sempre
lágrimas. Oh! pobre da minha filhinha !
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.-,;X_III
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_pr�scritas pelo Direito_ Ggnônico. Imaginai
a minha confus�p,, s��do analfabeta, diante
daquele tribunal Eclesiástico ! M.as · · éerta
rr:tente era MC!-rüp:ii').pa quem me dava fôrças,
pois do contrário o que �u-:f>Oderia ·ter feito ?
Sim, t:ambém antes Ji:iv:era notícias de
Ale;xandrer Sabia .que fôra sôlto. cta prisão
desde 1929, quatrq, ,anos antes do tempo es
tabelecido, devido · ao seu bom · comporta
mento. EJabia: que .e�t(:l.ya, . ;muito arrependi.,.
do do crlme feito, que ;habitava com seu ir.,.
mão casado, em T()�refte de Ancona.
Sabia também que, interrogado pe�o
Processâ Iriformativo de . minha filha, dis
sera tôda a verdade :' ·cúmo' Mariaiinlia sem
pre fôra bôa; · · inocente e simples, pura co
mo a água, que sempre lhe havia ·resistidQ
e como � culpa recaía tôda sôbre êle.
�
,-
\ • l
I
89
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- Perdoou-te ela, respondí-lhe, como
não deverei perdoar-te eu?
Quando o Arcipreste soube da sua che
gada, veio cumprimentá-lo também, tra
tou-o amigàvelmente e alegrou-se ao saber
que passaria conosco as Festas de Natal.
Era mais infeliz do que eu. Encontrou
se em família, como tempos antes, e na noi
te de Natal, juntos, fizemos a Santa Comu
nhão. A população de Corinaldo, principal
mente mulheres e crianças muito simples,
de princípio o olhavam com horror, mas de
pois, visto que se comportava com tanta hu
mildade, ficou edificada e ficaria bem con
tente se êle ali permanecesse. Em 1938 fui
chamada à Roma para o Processo Apostóli
co. Pouco depois tive que apresentar-me às
Irmãs Missionárias Franciscanas de Maria
para a fotografia de Mariazinha. Fotogra
fia ela não possuia e o Postulador, o bom
Pe. Mauro, queria pintá-la mas de um modo
realmente semelhante. Dei às Irmãs (que
possuem uma escola de pintura e são ver
dadeiras artistas) tôdas as indicações con
forme estavam gravadas em mim e dês
te modo, fez-se um quadro que atualm� nte
está na Escada Santa « é uma verdadeira
fotografia » de minha filha. Até então tudo
correra bem e assim se esperava que conti
nuasse no futuro. Mas eis que o demônio
90
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por intermédio de certos homens, que lhe
fazem as vêzes, meteu seu rabo também.
Certo dia chega inesperadamente, em Cori
naldo, o Postulador e disse-me muito triste
e preocupado : « Assunta, é necessário rezar
e pedir muito a Deus. O demônio está com
inveja do nosso trabalho e tenta distruí-lo ».
Não me disse do que se tratava. Certamente
de coisas graves e o fato é que rezei tanto,
tanto, ou melhor, rezamos tanto e a nuvem
preta que ameaçava demolir a causa de mi
nha filha desapareceu.
Pouco depois passei a trabalhar em ca
sa do Vigário de Corinaldo, Pe. Francisco
Bernacchia, onde fiquei mais ou menos três
anos, e foi neste tempo que conheci taml·érr.
o sr., Padre, quando aqui veio para a propa
ganda da Bôa Imprensa. Lembra-se ainda
Padre., das longas conversas que tivemos
sôbre Mariazinha ? Dei-lhe também os nomes
dos nossos conhecidos de Conca, de Campo
morto, de Foce Verde e de Casa Carano, até
de uma família de pastôres de lenne, que por
ocasião da morte de minha filha, tinha o re
banho em nosso terreno, pouco distante de
nossa casa.
E o sr., Padre, foi visitar aquêles luga
res, falar com aquelas pessoas, embora mui
tas coisas já estivessem mudadas. Lembro
me que, no seu regresso, fez-me uma longa
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descrição que eu �oinpletei com as::-• lfi!nhas
recordações'. � -<
Perfeitamente.
Na -easa Canônica, .C-Ofil aquêle santo
homem, qual - era · o ·.Arcipreste, como eu me
sentia feliz ! Como sentia prazer em servir
quatro sacerdotês ! O trabalho não , faltava
e o meu sonho· era morrer ·sob o teto da ca
sa de um sacerdote, ·mas, Deus dispôs diver
samente. Seja feita a sua vontade.
A três de outubro de 194I fui novamen
te a Roma e a Netuno, -·depois ,conduziram
nos a Ferriere para a 'inauguração da lá
pide sôbre a fachada da « Casciria Antica »
onde fôra martirizada a minhà Mariazinha
e foi aqui que· o Postuiador proferiu o pri
meiro discurso oficial sôbre minha filha.
Não obstante a Ghuva, o mau tempo ·e a es
cassês de meios · de transportes devido à
guerra, éramos mais de cem pessoas. Eu
contava então 75 anos, gozava bôa saúde,
mas a idàde era avançada· e além de tudo,
havia perigos · - de · bombardeamentos, e
portanto, esvaía-se a esperança de ver a fi
lha sôbre os altares. Deus seja bendito, por
que me concedeu tamanha graça !
Em 1944 recebi de Deus a Cruz que de
verei carregar até o túmulo : caí da escada
e fraturei o fêmur direito ! Transportaram
me imediatamente para o hospital, mas da-
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va-me a impressão que me leva�am - morta !
Foi feito todo o possível, maS- com 78 anos
de idade . r:· . As máquinas y�lha..s nãq:sofrem
consêrtos. Não houve remédio. Após o tra
tamento no hospital, quando- todos os meios
tinham sid.ó usados, foi-me dado:ªlta e então
retirei-me ;aqui com minha filhà . Ersília e
. .
me quiseram bem.
· ·
93
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sília, Teresa (a religiosa) e Mariano esta
vam a meu lado.
Assisti as funções a poucos metros de
distância dos Cardeais.
Quando pelas onze horas foi entoado o
« TE DEUM » e a imagem de minha filha
Mariazinha apareceu na glória de Bernini,
tive a impressão de que meu coração ex
plodisse. Num primeiro instante parecia-me
ter-se tornado pequeno, pequeno e logo de
pois . já não cabia mais no peito e as pul
sações eram tão fortes que pareciam subir
à garganta. Tremia tôda, suava e até caiu
me das mãos o bouquet de lírios. As lágri
mas afluíram sem poder estancâ-las.
O Cardeal Granito Pignatelli de Bel
monte, que muito bem me conhecia e conta
va 96 anos, vendo-me chorar, pérguntou-me :
- Como, Mãe, não terminou tudo bern ?
Respondi-lhe : « sim, estou contente, po
rém coitadinho do meu anjo » !
Da mesma forma o Cardeal Salotti, Pre
feito da S. Congregação dos Ritos, foi muitís
simo cordeal para comigo.
Sair da Basilica de S. Pedro é que foi
um problema. Não foi suficiente a resistên
cia dos meus filhos e das pessoas de Corinal
do para defender-me ; os guardas foram
constrangidos a intervir, porque aquela mui-
94
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tidão parecia enlouquecida e perseguia-me
em tôda a parte, até no Vaticano.
A tarde quando sua Santidade o Papa,
desceu à Basilica S. Pedro, mandou-me cha
mar, deu-me sua bênção e a mão para bei
jar.
Até hoje ainda não sei o que disse, sei
só que não consegui responder-lhe uma sí
laba devido as lágrimas que me afogavam.
Ouvia as palavras do Santo Padre, mas ao
mesmo tempo não podia esquecer o aconte
cido e chorava. Estava ciente de que era al
go de grandioso. Sua Santidade apertou en
tre as suas as minhas mãos, a mim que sou
uma pecadora. Que pesar senti por não sa
ber escrever e de não ter podido manifestar
ao Papa tôda a minha gratidão.
Embora pobre e analfabeta, posso, po
rém, rezar pelo Santo Padre rezo sempre e
assim procuro ser-lhe grata.
A noite obrigaram-me a falar na Rádio,
mas não entendi nada. Nada disse do que
realmente sentia. SOmente depois comecei
a compreender a graça extraordinâria que
Deus me concedeu. Consegui, porém, repe
tir as palavras que me foram sugeridas pe
lo locutor : « envio a minha bênção a tôdas
as jovens da Itália para que sejam puras co
mo a minha Maria. Senhoras, sêde bôas
mães ». Nos dias sucessivos houve o « Trí-
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https://alexandriacatolica.blogspot.com.br
duo da Postnlação » diante' 'iilàs relíquias de
minha filha�·-�p(1)stasn ná" igré;Ya -·de -S.-''JÜão e
S. . Paulo. Compareci todos os dias- embora
às -�scondidas ;e . bem� liêompanhad�, mas Jtu
do foi inútil, pois na última noite quase nie
arrancaram um braço. Já estava no carro
- ·
quando fui reconhecida�
Esperava que o motorista conseguisse
abrir caminho, eis- que sint6 afenarem-se
me a mão e puchá...la·. para fora. Vóltei-me,
era uma senhora que a todo .Cüsto queria
beijar-me a mão. Bastou um instante para
que tôdas .as senhoras me� cercassem. Uma
gritava uma coisa� :Outra gritava ;ôütra. Só
entendi : «· Abençoai-néS,, mãe Assttfita » Mes
mo assim, comá se a santa fôsse eu e não mi
nha filha ou pudesse abenÇoá-las por elà.
Em todo caso respondi-lhes :· «-:sêde bôas
mães e Deus vos abençoará ».
Antes de deixar Rorri:â · confirmei ·em
cartório a oferta -feita etn 1929, do corpo de
minhá :filha aos Revmos. Padres ·-Passionis
tas.
Depois- regressamos para Corínaldo.
Certamente,- se- dependesse- -- de mim;
quem se teria - afastado de Rmna e do Vati-
cano ?
Também em Corinaldo fizemos gran
des festas pela beatificação · de Mariazinha.
Era a primeira - santa do- lugar. Hou-
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ve missas cantadas, discursos, proc1ssoes,
com intervenção das Autoridades Eclesiás
ticas e Civís. Promoveu-se também uma reu
nião de tôda a juventude Católica Feminina
da região, em Senigallia e quando estas jo-
vens vieram em Corinaldo para homenage
ar sua padroeira, quiseram que eu lhe fa
lasse ; repeti então a tôdas o que sempre digo
às jovens : « sêde sempre boas e obedientes,
sêde puras como a minha Mariazinha ». Não
sou capaz de fazer discursos. Desde então
começaram as peregrinações a Corinaldo.
Transportaram para o povoado uma relíquia
que foi colocada na Cripta da Igreja de Nos
sa Senhora das Dôres, num lugar bem pre
parado e a ela dedicado. Afluíam devotos i
solados e também em grupos, primeiramen
te das Paróquias vizinhas, depois da Dioce
se e finalmente de tôda a parte, e após as
funções na Cripta, todos vinham ter comi
go.
Queriam ver-me, falar-me, beijar-me as
mãos, buscar uma lembrancinha de Maria,
ou ao menos ouvir algo de novo dos lábios
de sua própria mãe. Nenhuma novidade ti
nha a contar, porque já relatara tudo nos
processos, e fôra também impresso várias
vêzes, mas vinham para ouvir-me e para ou
vir falar de minha filha. Recebi-as sempre
em casa de Ersília ou no pátio, como fa-
7 Mle Assunta
-
97
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ço também atualmente. E não pense que se
ja um divertimento. A noite não aguento
mais.
A minha vida resumiu-se nisso : rezar,
andar com as muletas, sentar num cadeirão
e receber todos os que vem, recontar sem
pre a história de minha filha, ouví-los e di
rigir a todos uma boa palavra._
98
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Roma, dissera-me : « Rezai, Mãe Assuntà,
para que possamos vê-la logo santa ! Dizei
à Mariazinha que faça quanto antes os mi
lagres. Quero que estejais presente à sua
Canonização. Sereis a primeira mãe que as
siste à Canonização de um filho. A beatifi
cação chegou também a mãe de São Luiz
Gonzaga, mas à Canonização nenhuma. Se
reis a primeira. Rezai portanto para sê-lo ».
Era dizer muito ! Contando já 81 anos, com
tantos achaques e o fêmur fraturado, a es
perança quase se esvaía. No entanto, rezei
conforme me havia dito. E a minha filha que
rida não quis mesmo perder tempo ! Vê-se
que era certamente da vontade de Deus, por
que os Santos fazem o que :B:le quer.
Soube então que durante o Tríduo da
Postulação, Mariazinha concedera nada me
nos ae vmte graças extraordínãrias. Mas
também não perdeu tempo com os milagres.
Os dois necessários, fê-los imediatamente,
no mês de maio, e foram tão grandes e evi
dentes que logo puderam ser cientificamen
te provados pela Comissão encarregada.
Mas para concluir êste trabalho, a Comissão
que é muito rigorosa, levou dois anos, e as
sim a Canonização foi marcada para o dia
25 de junho do Ano-Santo 1950.
99
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XV
100
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estandarte e eu contentei-me em ver tôda a
cerimônia e aquêle mar ' de cabeças de uma
janela do palácio Vaticano. Naqueles dias as
fôrças não me permitiam fazer mais e já e
ra bastante ! Devo agradecer esta graça. a
Nosso Senhor com a face em terra durante
tôda vida. Outras duas exceções fêz o Santo
Padre para a canonização de minha filha :
em lugar do costumado discurso em latim,
à tarde, na Praça S. Pedro, fêz uma magnífi
ca homelia em italiano, falando com os fiéis
que lhe respondiam com entusiasmo.
A cerimônia, pela primeira vez, foi
transmitida pela televisão a todo o mundo.
Quando me retirei da janela, todos os
sinos de Roma faziam eco festivo àqueles de
S. Pedro, badalando por quinze minutos em
honra de Mariazinha. É lógico que a pobre
da minha filha nunca teria imaginado isso !
Enquanto me reconduziam, no carrinho,
parE:J. o abrigo Santa Marta, onde eu estava
hospedada, atravessando um dos corredores,
quase por acaso, encontramo-nos com o San
to Padre que acabava de subir com o eleva
dor. Parou todo sorridente, deu-me a mão
para beijar, abençoou-me e depois seguiu
seu caminho. Eu estava tão emocionada e
cansada que não consegui dizer-lhe nem mes
mo um « obrigada ».
Durante a noite senti-me mal, foi cha-
101
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rnado um médico que me aplicou urna inje
ção, e graças a isso, pude repousar algu
mas horas, lá pela madrugada.
As onze horas o Santo Padre celebrou
a primeira Missa Pontificai solene,. em
honra de santa Mariazinha. Também meus
filhos, junto com os parentes e as autorida
des de Corinaldo a assistiram de um lugar
que lhes fôra reservado.
Dia 26, segunda feira, fui recebida em
audiência particular pelo Santo Padre, em
forma oficial, solene, com o cerimonial re
servado às Soberanas. Eu, pobrezinha, fui
assim tratada porque era a primeira vez na
história da Igreja que um Papa recebia a
mãe de urna santa. O merecimento era todo
de Mariazinha, não meu:
Fui introduzida na sua biblioteca priva
da ; o Santo Padre veio-me ao encontro até
à porta, apresentou-me a mão para beijar
e entretive-me com êle cêrca de vinte minu
tos. Assim como um bom pai, perguntou
me acêrca de minha saúde, depois fêz-me fa
lar de Mariazinha e denominou minha filha
« jovenzinha, pérola do povo », finalmente
ofereceu-me uma preciosa e finíssima estam
pa de Nossa Senhora do Perpétuo Socôrro,
depois levantou-se e acompanhou-me à sa
Ia contígua onde abençoou os meus, e os de
Corinaldo, dizendo que entendia abençoar
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�mbém os de nossa família e os devotos da
n�va Santa. Antes de retirar-se deixou-se
fotografar entre nós, e é aquela fotografia
que 'saiu no « Osservatore Romano », em
todos os jornais e deu a volta ao mundo.
No mesmo ano de 1950, depois do re
gresso a. Corinaldo, meu filho Angelo par
tiu novamente para a América. Sua família,
seus interêsses, sua Pâtria lã se achavam
mas para mim foi um pesar. Abraçando
nos dissemos « adeus » com a certeza de que
sôbre esta terra não nos veriamos mais. A
braçando-o disse-lhe : « sauda em meu nome
todos os da tua família : filhos, cunhados
e sobrinhos e dizei-lhes que Vó Assunta os
abençôa e quer vê-los todos no céu, junto
à Mariazinha, para serem felizes por tôda
a eternidade e que para isso sejam bons,
bons cristãos ! »
- Certamente, êle chorava, e eu não ?
Em Corinaldo, por ocasião da Canoni
zação, fizemos grandes festas : eu participei
como podia, fazendo o que me mandavam
fazer, mas sobretudo recebendo com paciên
cia os visitantes, também quando estava
cançada, dirigindo a todos uma bôa palavra,
como se fôssem todos meus filhos, e rezan
do sempre.
Sofria muito de insônia. Nas horas lon
gas em que não conseguia fechar os olhos,
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que faria ? Todos os meus pensamE:ntos
viam-se concentrado num só : tornar-me se1 -
�
XVI
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médio do nosso Bispo. Chorei de comoção.
Quanto o Santo Padre é bom ! Conservo-a
ainda como um tesouro. Quantas conver·sas
do povo e dos jornais sôbre esta carta ; Até
que certos americanos a queriam con\pr&.r,
assim como se eu a pudesse vender ! Nes1 a
carta ninguém mete a mão.
No entanto, a verdade é que, até agora
nenhuma proposta dêsse gênero me foi feita.
Por ocasião do cinquentenário também
aqui, como era justo, fizera-se grandes fes
tas em honra de Mariazinha. Lembro-me que
estiveram presentes S. Emcia. o Cardeal
Lercaro, Arcebispo de Bolonha, o Núncio A
postólico da Bélgica, S. Emcia. Mons. F.
Cento e o nosso Bispo Mons. Bignamini.
Quando durante a procissão, o Sr. Car
deal passou diante da janela em que et• es
tava, parou para abençoar-me de modo par
ticular. Naquêle dia eu não me sentia muito
bem e não conseguia nem mesmo rezar, di
zia somente : « minha filha, meu amor » e
chorava. E todos vinham visitar-me para ou
vir-me falar de minha filha Santa e recomen
davam-se às minhas orações. Claro que pro
meti e rezo por todos. Que outra coisa posso
eu fazer ? Assim cumpre-se a Vontade de
Deus.
Durante as festas foi também inaugu
rada a esplêndida estâtua de mármore que
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estâ diante do Oratório. Quiseram que eu
fôsse descobri-la, mas não podendo ir e assim
puxei a fita da sacada. Assisti também à bên
ção da primeira pedra do Templo Internacio
nal, construído à Mariazinha, aqui em Cori
naldo, como centro de sua devoção. Certa
mente não o verei concluído, talvez nem mes
mo começado, contudo, se minha filha o quer,
pensará também nisso. Tem tantos devotos
no mundo todo.
Contanto que seja da vontade de Delll!l .
Nada se faz sem que Deus o queira.
Em 1952 assaltaram-me novos encômo
dos devidos à idade, doia-me também uma
costela. Não era uma dor característica que
se pudesse curar, eram os achaques pró
prios da velhice. Alexandre veio visitar-me
novamente e constatando meu definhamen
to, disse-me : « Oh ! Assunta, envelhecemoc;,
não é » ?
Respondi-lhe : « agradeçamos a Deus
por termos chegado até câ. Quantos, mes
mo dentre os nossos conhecidos, não podem
dizer o mesmo? »
Falamos de muitas coisas : dos meus
filhos, das ·pessoas do nosso conhecimento,
quase tôdas já falecidas, das visitas conti
nuas que me eram feitas, das graças que
Maria obtinha e das peregrinações que che
gavam de tôdas as partes, até de údine �
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Procuro dizer uma palavra de ânima
ção a todos, mesmo que o cansaço me su
foque.
Espero assim descontar algo do meu
purgatório. O Paraíso ninguém o recebe de
presente, é mister merecê-lo, carregando a
nossa Cruz, aquela Cruz que o Bom Deus
dâ a cada um de nós em particular, pro
porcionada às nossas fôrças. Atualmente
carrego com esta. Assim concluo os meus
últimos anos. Sei que jâ estou no fim, mas
faço tudo o que me é possível até deixar
esta terra. Estou sempre pronta a morrer
para rever a minha Mariazinha, mas não
peço a morte, porque é melhor fazer sempre
a vontade de Deus, mesmo quando se tratar
de ir gozar no céu.
Vê a que estou rezumida? Em condições
de ser reformada, e no entanto, diàriamente
arrasto-me sôbre as muletas, prpcurando
ser útil nos limites do possível, dependendo
do auxilio alheio apenas nas necessidades
mais urgentes.
Sento-me aqui nêste cadeirão de braços
e rezo muitos terços. Rezo quando não tenho
visitas, agora porém, tenho-as de contínuo
e teria-as também fora de hora que não
me permitiriam descanso, se meus fami
liares não cuidassem.
Antes ou depois do descanso atendo a
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todos, respondo às infindas perguntas, qua
se sempre repetidas, algumas vêzes novas,
geralmente sérias e discretas, às vêzes po·
rém curiosas até à indiscreção ( certos jor
nalistas) , petulantes e confrangedoras, e
quantas vêzes dolorosas)! A maioria das vê
zes em língua italiana, ou num italiano apro
ximado ao meu, e também em dialeto. Posso
afirmar ter ouvido todos os dialetos da Itá
lia, contudo sempre nos entendemos.
Mais problemático é quando chegam os
estrangeiros. Se há quem sirva de intér
prete, muito bem, se não, entendemo-no�
por sinais e nos contentamos. A meu ver to
dos partem satisfeitos por terem visitado o
torrão natal de Mariazinha e sua velha mãe.
A todos digo : « Deus vos abençoe e vos con
serve puros e bons, vos dê a graça de fazer
sempre a sua vontade ». As crianças reco
mendo-lhes sejam obedientes às suas mães.
xvn
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�»ela filha Ersilia, via-a chegar (para onde
costumava ir) à sombra de uma figueira, no
quintal atrás da casa. Das mãos pendia-lhe
um grande terço.
Entrei pela cancela que dá para a estra
da, em frente à casa Paroquial de São Fran
cisco. A vista já se lhe havia enfraquecido
muito. No momento não me reconheceu, mas
quando me aproximei e lhe disse quem era,
exclamou : « sim, filho, lembro-me de ti ! Oh !
sim, sim, mas que se há de fazer ? Envelhe
ce-se, envelhece-se !
- Como vai, Mamãe Assunta ?
- Como Deus quer. Sinto agora dor nas
costas e o médico julga necessária uma ope
ração. Mas por que operar ? Os trens velhos
não se concertam mais.
E depois, o que estou eu ainda fazendo
aqui ? Não aguardo mais a hora de ir-me
com minha Mariazinha.
Parecia serena e o rosto parecia ilumi
nar-se ao pensamento que logo poderia re
ver o « seu amor ». Mas era apenas pele e os
so, o seu sorriso forçado, amargurado . . . e
seu olhar fugia do meu.
Notando que eu a observava mesmo pa
ra isso, acrescentou : « certamente, uma coi
sa é morrer e outra é falar de morrer. De
pois vem o « Juizo ». Oh ! eu não me acho dig-
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na, mas sem dúvida Mariazinha preparará
um lugar no céu para sua mãe!
E após alguns instantes : « discursos
eu não sei fazer, mas quando ela me vier ao
encontro dir-lhe-ei : eis aqui tua mãe. » e
apertava entre as suas, as minhas mãos.
Aquelas suas mãos grandes e agorJl
manchadas, sulcadas por veias grossas e
nodosas, cobertas por uma pele rugosa e sal
picada, que tanto labutaram, que tantas vê
zes se elevaram ao céu em humilde prece.
Aquelas mãos que foram apertadas por
inúmeras pessoas humildes e ilustres e até
devotamente beijadas, mas não eram porém
êstes os motivos de que se orgulhava tanto
Mãe Assunta, mas porque « estas mãos
-
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vem, bela e amável, como alguém a descre
veu sem conhecê-la.
Quem julgasse encontrar nela uma :mãe
tipo « bolinho recheado » ou uma mulher
de « flor de farinha com mel », enganar-se-ia
redondamente. Mãe Assunta era uma se
nhora pertinaz, autoritária, impulsiva, de
olhar severo, olhos cinzentos, penetrantes
e com ares de soldado em guarda.
A uma senhora muito cerimoniosa, que
se apresentou levando pela mão a filhinha,
e que era todo doçura nos modos e na voz,
lhe dizia : - Oh ! feliz de ti mãe Assunta, que
tens uma filha santa,! Quem sabe o que fizes
te ! Como a educaste?
Assim não, assim não, respondeu brus
camente Assunta, sacudindo a cabeça, e ace
nando para a menina quase semi-nua.
Certos peregrinos afirmam ter tido a
impressão de que fôsse « pouco cortês, pou
co gentil, insincera, perturbada pelas visi
tas concedidas como dignação de uma gran
de incompreendida, insuficientemente apre
ciada, mais preocupada em salvaguardar
seus interêsses do que de dizer a verdade ».
Impressões, mesmo que de pessoas au
torizadas.
Mãe Assunta era naturalmente simples
e de bom coração, rudemente (às vêzes até
demasiadamente) perspicaz para a sua o-
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rigem humilde ; esforçava-se, porém, para
ser gentil com todos, traindo a rudeza nativa,
a educação primitiva e a cultura de analfa
beta.
Na verdade, sôbre certas questões não
permitia que a interrogassem e quando in
sistiam, respondia mal ; de fato sentia-se
uma sobrevivente.
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e que enxergava pouco também com o di
reito. Acrescentei que se cegasse comple
tamente, tornando-me incapaz de cumprir
com minha missão de porteiro e varredor
do Convento, estava decidido de retirar-me
para ·uma casa de saúde e de repouso que
os padres Capuchinhos possuiam em Mace
reta, pois a isso também me aconselhava o
Pe. Guardião".
Disse-me ela : « Devo refazer-me. Já não
aguento mais, mas seja feita a vontade de
Deus ». Via-se que estava para findar. Já
não atinava com as palavras e « não estava
sempre com o completo contrôle de si ». No
entanto, graças a dias melhores e ao calor,
retomou alento. Ainda recebia peregrinos,
mas a sua voz dia a dia tornava-se mais fra-
ca.
No dia 25 de junho de 1954 recebeu a
visita de Sua Eminência Revma. o Sr. Car
deal da Colômbia D. Crisanto Loque, Arce
bispo de Bogotá que, ao vê-la tão doente,
ficou profundamente comovido.
Mãe Assunta já passava a maior parte
dos seus dias na cama, raras vêzes levanta
va-se, tornava-se evidente o desenlace. Tal
vez. o golpe fatal lhe foi causado pela morte
do velho Arcipreste Pe. Francisco Bernac
chia, que fôra por miutos anos seu pai, con-
8 Mie Assunta
-
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selheiro, benfeitor, o auxílio de tôda famí
lia e com o qual trabalhara comq emprega
da, mas fôra sempre tratada como « mãe de
uma mártir ».
As festas de Mariazinha em Corinaldo,
a devoção a Santa Maria Goretti e outras
muitas iniciativas deveram-se à atividade
do bom Padre.
Mãe Assunta estava ao par de seus so
frimentos, acompanhava-o com o coração e
com as suas orações. Diàriamente o recomen
dav� a Mariazinha e de todos inquiria notí
cias dêle.
Quando soube a notícia do seu faleci
mento, profundamente triste exclamou :
- « Certamente foi para o céu. Com o
sofrimento descontou o seu Purgatório aqui
na terra e Mariazinha também terá pensado
nêle. Devia-lhe tanta gratidão ».
XVIII
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temente. Sim, ainda conseguia arrastar-se,
ajudada pela filha Ersilia ou por alguém da
familia, até ao cadeirão da dor. Ainda rece
bia e dizia uma ou outra palavra aos que,
recorriam a ela com cada vez maior frequên
cia, todos contavam porém, que assemelha
va-se a uma vela que ia se apagando.
Chegou-se até afirmar que, neste último
ano, tôda a Romagna prostrara-se aos pés
daquele leito. Exagêro, sem dúvida, todavia
é verdade que muitos vieram, e não só da
Romagna, mas também de outras partes da
Itália e até do Exterior.
Vinham por causa de Mariazinha, mas
também por causa da mãe e, vendo-a tão en
ferma, regressavam com o coração cheio de
dolorosa admiração, todavia satisfeitos por
terem-na encontrado ainda viva.
Quando faliram tôdas as esperanças dé
restabelecimento, avisaram Mariano, que
veio e ficou com ela um mês e quinze dias. O
estado da enferma era sempre grave, não a
meaçava porém, morte iminente, mas os fi
lhos e sobrinhos estavam de sobreaviso.
Que fazer ? O médico disse-lhes que a
mãe se encaminhava para a morte, porque
estava cansada e muito adiantada em anos,
que o organismo já não reagia mais, que per
dera a possibilidade de restabelecer-se, mas
115'
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uma semana como um mês. Mariano então
decidiu partir prometendo-lhe voltar. A ve
lha mãe jã quase totalmente cega, havia-o
beijado, acariciando-lhe o rosto como, para
imprimi-lo ainda uma vez na alma, e apal
pando-o havia-lhe dito : « Vai, meu filho, não
nos veremos mais sôbre esta terra ! » E entre
lãgrimas beijaram-se. Mas como o coração
de um filho poderia acreditá-lo ? Infelizmen
te, estava ainda em Roma, a caminho de
volta para casa, quando recebeu o telegra
ma.
Os acontecimentos precipitaram-se : Dia
16 de outubro pelas 17 horas, o primeiro si
nal de agravamento. As 24 horas a doente
piora. Mãe Assunta mantinha os olhos cer
rados e respirava afadigamente. E' um su
ceder-se de visitantes, conhecidos, paisanos,
parentes. Telegramas mais telegramas ansi
oso chegam, partem e cruzam-se. Os sacer
dotes que a assistem, julgam não ser ainda
o momento oportuno para administrar-lhe
os últimos Sacramentos. Passou a noite nu
ma sonolência semelhante à agonia. Na ma
nhã do dia seguinte, 7 de outubro, ainda es
tava neste estado e então o seu diretor espi
ritual julgou bem administrar-lhe a Extre
ma Unção. A velhinha acompanhou a ceri
mônia com os olhos semi fechados,. movendo
apenas imperceptivelmente os lãbios, em res-
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posta às orações e às jaculatórias sugeri
das.
Aos chamados da filha Ersilia, abria
ainda por um instante os apagados olhos.
Aí pelas 14 horas, disse distintamente :
« Quero ir pertinho de Mariazinha ».
O sacerdote que a assistia renovava-lhe
a absolvição enquanto a moribunda, com
voz velada, repetia com êle a jaculatória :
« Santa Maria Goretti, rogai por mim ».
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pesado sono e gemendo. Os lábios violáceos
murmuravam os nomes dos filhos.
As duas horas, pronunciou as últimas
palavras : « Ersilia, ajuda-me ! » e depois en
trou em estado de coma. As 4,20 exalou o úl
timo suspiro.
Tinha 88 anos, 1 mês e 23 dias.
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