05/12/2024, 15:34 contracampo :: revista de cinema
O NECROMANTE
Escrever é um ato de violência. É preencher um vazio – o da
página e o da alma. É como um micro Big Bang, em que o
nada, ou a folha em branco, começa a ser rompido pela
matéria que se expande e explode, em descontrole. As
letras, sozinhas, são pequenas partículas que se atraem até
formar corpos celestes, planetas, estrelas e, finalmente,
galáxias (o quanto haverá de vida habitando estas galáxias,
depende da qualidade do texto). A escrita tem muito pouco
de harmonioso e pacífico.
Escrever para tentar prolongar a sensação experimentada
durante um filme tem algo de desesperado, de perturbador.
É como o amante que, depois de a amada atravessar a porta
e ir embora pela manhã, vasculha o travesseiro, em busca
de fios de cabelo e de perfumes da madrugada. Toda peça
de crítica escrita é um pouco Kim Novak/Madeleine, e todo
crítico tem a essência de Scottie. Vertigo, além de ser uma
obra sobre a representação e o próprio cinema, poderia ser
também sobre a crítica. Assim como o personagem de
James Stewart, somos assombrados por uma imagem que já
não existe, que caiu no vão cheio de armadilhas da
memória. Queremos transar com a imagem da morta e, para
isso, tentamos reconstruí-la. O vestido era dessa cor, o
cabelo era desenhado daquela maneira. Blasfemos como os
praticantes da necromancia, revivemos o cadáver para lhe
tomarmos segredos, recitando em sussurro palavras
secretas, tal um personagem de H.P Lovecraft, e não
notamos que a luz esverdeada que emana do ser renascido
e reflete em nossos rostos cheios de deleite nos deixa com
um aspecto doentio de Dr. Victor Frankenstein, de desafiador
das leis da natureza. O objeto de nossa criação não é o
filme, e nunca será. Aquilo que está diante de nós são
apenas palavras arranjadas da maneira correta, querendo se
passar por alguém e algo que não é. Nunca, de fato,
possuímos o filme. Chafurdamos na Vontade, esse
sentimento que nos leva a querer irracionalmente e que, de
maneira inevitável, nos impele à dor, amenizada apenas pela
contemplação artística, segundo os pensamentos de
Schopenhauer – e alguns de nós escolheram o cinema para
anestesiar essa dor no membro fantasma.
A crítica é uma violação. Da página em branco, da ordem, da
harmonia, da relação entre a obra e o espectador, da obra e
o mundo (há relativa semelhança entre nós e o maníaco que
invade o cemitério para violar caixões). Nenhum objeto
artístico pede para ser revivido, desmembrado, explicado,
desmontado. Se levarmos em conta o que disse Éric Rohmer
sobre as grandes obras e o seu caráter intocável, cuja
unidade ninguém pode separar, nos resta imaginar o quanto
mais nefasta é a violação promovida por aquele que se
atreve a adentrar a escuridão do cinema – ou do cemitério –
e de lá sair com um membro roubado. Essa intervenção
perversa que aplicamos no corpo alheio – a caneta é o
bisturi, ou o teclado a mesa de operação -, esse delírio febril
que nos faz querer descrever/dissecar imagens que muitas
vezes nos assombram – Carlito Brigante, baleado, fechando
os olhos lentamente até que o painel publicitário com a
inscrição “escape to paradise” ganhe vida e mostre o
desfecho feliz que Brigante poderia ter tido e não teve – sem
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que isso se configure em um processo de exorcismo ou cura,
parece não ter qualquer propósito saudável. Para aquele que
escreve, ao menos. Aliás, pouquíssimas atividades
relacionadas direta ou indiretamente à criação são de todo
saudável. A maioria delas lhe toma algo, seja o tempo, ou
mesmo um pedaço da alma, o que é análogo a afirmar que o
crítico expõe muito do seu ser em cada texto feito. Ao
menos os textos motivados por todos aqueles motivos
desligados de questões financeiras ou obrigações
profissionais. Ter a obrigação de escrever sobre este ou
aquele filme em cartaz é o mesmo que ter a obrigação de
arranjar uma namorada. A única obrigação do coração é
bater.
Por outro lado, sem a crítica – e essa é uma ideia
largamente perpetuada – muitos filmes, diretores, atores e o
que mais obcecar o necromante, estariam apodrecidos para
sempre no fundo da terra. Há, portanto, algo de positivo
nessa necromancia toda – mesmo que inúmeras criações da
crítica não resistam ao tempo e retornem às cinzas
rapidamente.
Note-se, nos parágrafos acima se desenhou a ideia de
positivo e negativo. Não há diferença entre um e outro. Uma
crítica positiva não é mais nobre do que uma negativa. Nas
duas está presente o gene da violência. Ambas dividem o
mesmo cromossomo. “A negação da violência em uma obra
de paz compromete esta obra nas dimensões mais secretas
de seu ser (...)”, escreveu Michel Mourlet. O equivalente se
dá com a crítica: negar-lhe o princípio da desarmonia e
violência é ser tragado de volta ao nada, ou, produzir um
simples pedregulho espacial, sem força de provocar qualquer
impacto na superfície do filme. Toda crítica, positiva ou não,
procura furar crateras nos solos dos filmes - o que haverá no
magma interior? É preciso, repito, querer furar a obra, violá-
la. Deixá-la, mesmo que apenas para si próprio, com
aspecto diferente do inicial. A crítica não é um exercício
acadêmico, que pode entrar e sair livremente de objetos
artísticos sem sujar os pés. Um filme, depois de visto pelo
necromante, deve ficar repleto de marcas de dedos – entre
outras coisas.
Espero que isso seja considerado redundante, mas há
sempre aqueles que ao invés de perfurar as ideias preferem
achar buracos na argumentação. Para estes, é necessário
fazer um adendo: a verdadeira crítica negativa a que me
refiro é aquela que expõe um posicionamento e não apenas
age como um mecânico de automóveis a apontar as peças
que não estão funcionando. É Daney acerca de Tubarão,
Rivette em “Da objeção”, Mourlet em “Sobre uma arte
ignorada”, Sganzerla em “Persistência da retina”, e tantos
outros. De alguma maneira, existe um ideal, mais do que
um modelo, a guiar o pensamento daquele que escreve: o
modernismo para Rivette e Sganzerla, o
Maoísmo/estruturalismo para (esta fase de) Daney, o
classicismo para Mourlet. Não é plausível imaginar aqui outra
manifestação da síndrome de Madeleine/Scotty?
Talvez percorra nos subterrâneos desse texto a lava
incandescente da nostalgia e do romantismo. Pouco
surpreenderia se alguém lesse, por baixo das frases, um
cântico mórbido de ode ao passado, à poeira, à ferrugem, ao
verme que corrói o defunto (uns, exaltados, gritarão:
CLASSISISTA!). É preciso olhar para o legado do cinema ao
se querer entender o seu presente e o seu futuro, como
escreveu, com brilhante obviedade, Michel Ciment. Em
outras palavras, uma das capacidades do necromante é falar
com os mortos para adivinhar o futuro.
Wellington Sari
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Abril de 2013
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