Tribunal de Justiça
Gabinete Des. João Luiz Azevedo Lessa
Recurso em Sentido Estrito n. 0700235-07.2022.8.02.0071
Tráfico de Drogas e Condutas Afins
Câmara Criminal
Relator:Des. João Luiz Azevedo Lessa
Revisor: Revisor do processo ''não informado''
Recorrente : Ministério Público.
Recorrido : Weverton da Silva.
Advogado : Larissa Alécio Silva (OAB: 14530/AL).
Recorrido : Kawã Bezerra do Nascimento.
Advogada : Joyce Sombra dos Santos (OAB: 13478/AL).
Advogado : André Freire Lustosa (OAB: 14209/AL).
PENAL. PROCESSO PENAL. RECURSO EM SENTIDO ESTRITO.
TRÁFICO DE DROGAS. IRRESIGNAÇÃO DO ÓRGÃO
MINISTERIAL CONTRA DECISÃO QUE CONCEDEU A
LIBERDADE PROVISÓRIA AOS ACUSADOS. ALEGAÇÃO DE
QUE ESTARIAM PRESENTES OS REQUISITOS DA MEDIDA
EXTREMA. INEXISTINDO FATOS NOVOS APTOS A ENSEJAR
A MEDIDA CONSTRITIVA, NÃO SE JUSTIFICA A EXPEDIÇÃO
DE DECRETO PREVENTIVO. DECISÃO UNÂNIME.
I – Na hipótese, o Ministério Público interpôs recurso em face da
decisão que deixou de decretar a prisão preventiva dos réus,
concedendo-lhes a liberdade provisória, por entender que não se
encontravam preenchidos os seus requisitos autorizadores.
II – A prisão preventiva mostra-se cabível quando decretada nos
moldes do art. 312 do CPP, somando-se à demonstração do fumus
commissi delicti e do periculum libertatis. Não obstante a gravidade
do delito imputado aos recorridos, não havendo fatos novos que
ensejem a aplicação da medida extrema e excepcional, não há como
acolher o pleito recursal.
IV – Recurso improvido. Decisão unânime.
Vistos, relatados e discutidos estes autos de recurso em sentido estrito de
nº 0700235-07.2022.8.02.0071, em que figuram, como recorrente, o Ministério Público
Estadual e, como recorridos, Weverton da Silva e Kawã Bezerra do Nascimento.
Pelo exposto, ACORDAM os desembargadores integrantes da Câmara
Criminal do Tribunal de Justiça do Estado de Alagoas, à unanimidade de votos, em
conhecer do recurso em sentido estrito para negar-lhe provimento. Participaram
deste julgamento os excelentíssimos senhores desembargadores constantes na certidão
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de julgamento.
Maceió, 08 de novembro de 2023.
Des. João Luiz Azevedo Lessa
Relator
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RELATÓRIO
Trata-se de recurso em sentido estrito interposto pelo Ministério Público,
em que Weverton da Silva e Kawã Bezerra do Nascimento, figuram como recorridos,
contra decisão proferida pelo MM Juízo de Direito da Vara do Único Ofício do São
Sebastião (fls. 01/03 dos autos), ocasião na qual foi concedida a liberdade provisória
aos recorridos.
Irresignado, o Ministério Público interpôs o presente recurso. Em suas
razões (fls. 68/75), asseverou a necessidade de garantir a ordem pública para a
manutenção da prisão preventiva dos acusados, tendo em vista que estes já praticaram
outros crimes.
Em sede de contrarrazões (fls. 14/22), a Defesa se manifestou pelo
improvimento do recurso.
Quando do juízo de retratação (fl. 29/30), o julgador a quo optou por manter
a decisão vergastada.
A Procuradoria Geral de Justiça, no parecer de fls. 35/41, opinou pelo
conhecimento e negado provimento do recurso, devendo ser mantida a liberdade
provisória dos recorridos.
É o relatório, no seu essencial.
VOTO
Feito o juízo de prelibação do presente recurso, verifico a existência dos
seus requisitos intrínsecos e extrínsecos de admissibilidade.
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Como anotado no relatório, o presente recurso foi interposto em face da
decisão que concedeu liberdade provisória aos réus.
Em suas razões, o Órgão Ministerial narrou que os recorridos foram
presos pela suposta prática do crime de tráfico de drogas, destacando que a Decisão que
concedeu a liberdade provisória aos réus considerou inexistir o fundamento da garantia
da ordem pública para manutenção da prisão provisória e, assim não haveriam motivos
concretos para a segregação cautelar.
O pleito de decretação da prisão cautelar dá-se com base na circunstância
de que , é necessária prisão preventiva com base na ordem pública.
Pois bem.
Acerca da matéria, convém salientar que a prisão de natureza cautelar
revela-se cabível somente quando, a par de indícios do cometimento do delito (fumus
commissi delicti), estiver concretamente comprovada a existência do risco da soltura
(periculum libertatis), nos termos do art. 312 do Código de Processo Penal.
Observa-se, na decisão que concedeu a liberdade provisória dos réus (fls.
01/03), que o magistrado de primeiro grau destacou:
[...]No presente caso, os depoimentos das testemunhas policiais
prestados quando da lavratura do flagrante não deixam claro de quem
seriam as drogas apreendidas (fls. 02-04), sendo certo que na
residência, local da apreensão, havia mais duas pessoas, além dos
flagranteados. Desse modo, a autoria delitiva deve ser melhor
analisada no decorrer da instrução processual.
Em realidade, ainda que por ocasião do flagrante tenha se
vislumbrado assegurar a garantia da ordem pública, inexiste qualquer
indício que dê amparo à contemporaneidade desse risco, ou de outra
hipótese de decretação da custódia preventiva, que, pois, aplicada,
equivaleria a incabível antecipação do cumprimento da pena,
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restringindo a liberdade de locomoção dos agentes antes mesmo de
exercido o juízo condenatório definitivo.
Assim, não vislumbro indícios robustos que possibilitem supor de
que soltos, os requerentes, possam causar óbices à instrução criminal,
à aplicação da lei penal ou tornar instável a ordem pública.
Nesse particular, em circunstâncias que se assemelham à hipótese em
apreço, é tranquilo o entendimento jurisprudencial no sentido de que
“[n]ão é idônea a fundamentação que decreta o encarceramento
provisório do acusado com base tão somente na gravidade abstrata do
delito de tráfico ilícito de entorpecentes, bem como em argumentos
genéricos, sem indicar nenhum elemento concreto a demonstrar que,
efetivamente, o recorrente, solto, pudesse colocar em risco a ordem
pública, a instrução criminal, ou mesmo se furtar à aplicação da lei
penal (RHC n. 118.360/RS, Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta
Turma, DJe 19/12/2019)” (STJ, HC 616.996/MG, Sexta Turma, Rel.
Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 04/05/2021, DJe 10/05/2021).
Do compulsar dos autos, verifico que o Kawã Bezerra do
Nascimento, nos autos do processo n. 0700026-43.2022.8.02.0037,
teve medidas protetivas de urgência deferidas em seu desfavor, ao
passo que Weverton da Silva figura como réu no processo n.
0701002-84.2021.8.02.0037, em trâmite nesta comarca, aguardando a
apresentação de defesa prévia. No entanto, tais fatos, isolados, não
são capazes de impedir a revogação da custódia preventiva, com a
concessão de medidas cautelares diversas da prisão, mormente
quando estas se mostrarem mais pertinentes à hipótese, o que é o caso
dos autos.
Portanto, não estando demonstrado qualquer risco causado pela
liberdade dos agentes mais adequada se revela a aplicação de
medidas cautelares diversas da prisão, menos danosas aos
investigados, com mecanismos capazes de resguardar o devido
trâmite processual, advertindo-se que seu descumprimento pode
ensejar a decretação da prisão preventiva.
Na hipótese, entendo como suficiente a aplicação das seguintes
medidas cautelares aos flagranteados: (1) obrigatoriedade de
comparecimento bimestral em o juízo para informar e justificar suas
atividades, com o objetivo de evitar a reiteração delitiva e permitir
fiscalização estatal de suas localizações e condutas; (2) proibição de
se ausentar da Comarca por mais de 07 (sete) dias, sem autorização
judicial, a fim de que o processo tenha tramitação dentro de uma
perspectiva razoável, facilitando a designação de atos processuais e
eventual citação e/ou intimação dos acusados e assegurando a
aplicação da lei penal; e (3) manter o endereço atualizado nos autos,
para facilitar sua localização para o que necessário a eventual ação
penal.[...]
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Não se pode perder de vista, ademais, que o sistema processual brasileiro
prevê que a prisão cautelar deve ser utilizada como medida excepcional, apenas sendo
justificado o seu uso nos casos previstos no art. 312 do CPP. É imprescindível, ainda,
que a constrição cautelar seja utilizada como ultima ratio, ou seja, quando não couber
nenhuma outra medida cautelar diversa da segregação.
Assim, não obstante a gravidade do delito a ele imputado, não há notícias
ou fatos novos que apontem para a necessidade de decretação de sua prisão preventiva.
Logo, ao menos neste momento, não há como acolher o pleito ministerial.
Nesse diapasão, confira-se julgado desta Corte de Justiça:
PENAL. PROCESSO PENAL. HOMICÍDIO QUALIFICADO.
RECURSO EM SENTIDO CONTRA O RELAXAMENTO DA
PENAL. PROCESSO PENAL. HOMICÍDIO QUALIFICADO.
RECURSO EM SENTIDO CONTRA O RELAXAMENTO DA
PRISÃO PREVENTIVA. IRRESIGNAÇÃO DO ÓRGÃO
ACUSADOR. PLEITO DE RESTAURAÇÃO DA MEDIDA
CONSTRITIVA DA LIBERDADE. LAPSO TEMPORAL
PROLONGADO PARA DESIGNAÇÃO DA CONTINUAÇÃO DA
AUDIÊNCIA DE INSTRUÇÃO. RECORRIDO NÃO CONTRIBUIU
COM A MOROSIDADE DA JUSTIÇA. ILEGALIDADE
EVIDENCIADA. DECISÃO MANTIDA. RECURSO
IMPROVIDO. DECISÃO UNÂNIME. [...] 2 - [...] Não obstante a
gravidade do delito imputado ao recorrido, bem como o fato de o
mesmo possuir outro processo criminal em andamento - a prisão
preventiva foi relaxada desde de 12/11/2020, sem que haja, desde
então, notícias ou fatos novos que ensejem sua nova aplicação. 3 –
Recurso conhecido e negado provimento. Unânime. (Número do
Processo: 0700086-42.2020.8.02.0051; Relator (a): Des. Washington
Luiz D. Freitas; Comarca: Foro de Rio Largo; Órgão julgador:
Câmara Criminal; Data do julgamento: 07/04/2021; Data de registro:
08/04/2021 - Destacado)
Diante do exposto, tomo conhecimento do presente recurso para, no
mérito, negar-lhe provimento, mantendo incólume a decisão que concedeu a liberdade
aos recorridos.
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É como voto.
Maceió, 08 de novembro de 2023.
Des. João Luiz Azevedo Lessa
Relator