Turma: Online 2023
Aluno: Camila Rodrigues Arantes de Souza
Módulo: Arte e Cultura
Tema norteador: Sublimação
Sublimação de Freud a Lacan e a sua relação com a arte
O conceito de sublimação é um conceito muito discutido até os dias de
hoje.Os limites, impasses, a possibilidade existentes ou não de sublimação em
qualquer indivíduo, são aspectos relevantes para a área clínica.
Freud inicia o seu pensamento acerca do tema em suas trocas de cartas com
Flies, desde os primórdios da psicanálise. Ernest Jones(1970) sobre vida e obra de
Sigmund Freud, relata que o texto específico e mais elaborado sobre sublimação, foi
perdido junto a outros textos. O conceito de sublimação é abordado, em diversos
momentos ao longo das obras freudianas, porém uma posição em termos
metapsicológicos foi supostamente. Freud afirma em um dos seus textos mais
maduros “a sublimação dos instintos é um traço bastante saliente da evolução
cultural, ela torna possível que atividades psíquicas mais elevadas ... tenham papel
tão significativo na vida civilizatória.(FREUD, 1930, p. 60). Desta forma atribui um
papel importante da sublimação para tal evolução visto que os instintos que
alcançariam níveis de satisfação mais primitivos e inviabilizariam a ordem social são
desviados da sua meta ao mesmo tempo que não perdem o seu carácter sexual
mas são dessexualizados a partir do momento que esta encontra uma via na qual
atinja um nível de satisfação mais elevados, como a arte, as
intelectuais e o esporte. Desta forma a sublimação se diferenciaria do recalque pois
mesmo com a transformação do componente sexual de origem encontraria um lugar
na cultura, um alvo socialmente aceito.
Alguns anos antes Freud (1914-1916) constrói a sua primeira teoria dos
instintos, define-o como, estímulos que surge no interior do organismo sendo este
a energia que impulsiona o aparelho psíquico, atribui quatro elementos
provenientes: uma meta, que visa sempre a satisfação, um impulso, elemento motor
que dirige uma porção de atividade, um objeto, que pode variar e é o meio pelo qual
atingi a meta e fonte do instinto de origem que estabelece uma relação entre o
somático e o psíquico. Essa atividade, portanto, pode ser ativa ou passiva, causar
prazer ou desprazer e estar direcionada ao eu, sendo esta um instinto de
autoconservação ou um instinto sexual a partir do momento que escolhe um objeto
externo, podendo variar o objeto para a realização da satisfação e que. “.devido a
esses atributos são capazes de realizações que se acham bem afastadas de suas
originais ações dotadas de objetivo (sublimação) (FREUD, 1915 p.64 e p.65 ).
Desta forma os instintos que circundaria o aparelho psíquico e cria nele graus
elevados de tensão, visaria sempre uma descarga,à medida que o aumento da
atividade psíquica gera desprazer e a sua descarga um alívio imediato e a sensação
de prazer devido a diminuição de tensão (FREUD, 1920, p. 163)
Para o autor há quatro destinos possíveis, quatro vias pela qual os instintos
podem usar como via de condução: “ A reversão no contrário, o voltar-se contra a
própria pessoa, a repressão e a sublimação” (FREUD,1915,p.64).
Os dois primeiros destinos trata-se de uma volta da libido para o próprio eu,
enquanto a repressão causaria sintomas e a sublimação seria portanto a via mais
“saudável” para essa descarga pulsional.
Em 1920 retoma a sua teoria das pulsões no seu texto “além do princípio do
prazer”, e lá inclui outras problemáticas como por exemplo a compulsão à repetição.
Além das pulsões de autoconservação direcionadas ao eu, e as pulsões sexuais
direcionadas a um objeto, introduz também o conceito de pulsão de vida e pulsão
morte. Uma que visa a preservação da vida e a outra uma volta ao inorgânico, pela
tendência de querer levar o psiquismo a uma tensão equivalente a zero. Embora
Freud tenha elaborado duas teorias da pulsão/ instintos, uma não exclui a outra
mas, alguns pontos de convergências são encontrados. Aponta Gomes em seu
trabalho:
O surgimento da segunda teoria das pulsões, que, como
vimos, baseia-se num novo conceito de pulsão, não implica, no
entanto, numa rejeição ou abandono da teoria anterior. Em
alguns pontos, sem dúvida, especialmente em relação às
pulsões agressivas, esta é significativamente transformada.
Mas o quadro geral da pulsão sexual como uma exigência de
trabalho feita ao aparelho psíquico, a partir da estimulação
proveniente de fontes somáticas, provocando uma pressão que
busca descarga, envolvendo objetos, em sua busca de atingir o
alvo da satisfação, e dando origem, portanto, ao desejo, todo
esse quadro se mantém após a introdução da nova teoria.
(Gomes, 20001 P.2)
Aqui vale ressaltar que há uma discussão em relação a tradução da palavra
tribe que corresponderia tanto a ideia de pulsão como de instinto, resultando em
algumas confusões de interpretação até os dias de hoje. Porém Lacan ao seu
retorno a Freud estabelece a diferenciação conceitual e utiliza da palavra pulsão
quando afirma que não há nada de natural sendo esta portanto uma montagem
“uma montagem que, de saída, se apresenta como não tendo nem pé nem cabeça
[...] numa colagem surrealista” (LACAN, 1988, p. 161).
Lacan, aborda o conceito de sublimação não apenas como uma canalização
da pulsão sexual onde passaria por uma transformação para a realização de
atividades socialmente aceita pela cultura, mas elabora em sua teoria a relação da
sublimação com objeto perdido. Dando lugar a falta como caminho desejante . Em
seu texto de (1998 [1960]) subversão do sujeito e a dialética do desejo, constrói um
esquema e o denomina de grafo do desejo a fim de demonstrar a oposição entre
necessidade-demanda- desejo, situando nesse esquema a pulsão.
Mas, se nosso grafo completo nos permite situar a pulsão
como tesouro dos significantes, sua notação como ( $<>D)
mantém sua estrutura, ligando-a à diacronia. Ela é o que
advém da demanda quando o sujeito aí desvanece. Que a
demanda também desaparece é evidente, exceto que resta o
corte, pois este continua presente no que distingue a pulsão da
função orgânica que ela habita: ou seja, seu artifício
gramatical, muito patente nas reversões de sua articulação
com a fonte e com o objeto (Freud, quanto a isso, é
inesgotável). (LACAN, 1998, p. 831)
Desta forma Lacan aponta a pulsão como tesouro dos significantes e articula
a teoria freudiana da pulsão a linguagem, cria um ponto de diferenciação da teoria
freudiana onde a pulsão estaria ligada ao psíquico e ao somático.
Desta forma a pulsão ligada a linguagem se apresenta em forma de demanda
direcionada ao Outro como uma necessidade. “ E a fórmula mais geral que lhes dou
da sublimação é esta - ela eleva um objeto - e aqui não o fugirei às ressonâncias de
trocadilho que pode haver no emprego do termo que vou introduzir - à dignidade da
Coisa” ( LACAN, 1959-60/2011, p.140-141).
A coisa para Lacan trata-se da das ding freudiana ou seja o objeto perdido
mas que para Lacan, nunca existiu. Por isso o que encontra-se atrás do objeto é
nada a menos que o vazio. Para retratar isso, Lacan utiliza-se da metáfora do vaso
sendo este um significante, modelado pelo vaso, que em seu interior encontra-se o
vazio.
“Ora, se vocês considerarem o vaso, na perspectiva que
inicialmente promovi, como um objeto feito para representar a
existência do vazio no centro do real que se chama a Coisa,
esse vazio, tal como ele se apresenta na representação,
apresenta-se, efetivamente, como um nihil, como nada.
( LACAN, 1959-60/2011, p pag 153)
Desta forma assim como o vaso que representa o significante do significante
pode estar pleno e vazio mas só estará pleno se antes estiver vazio. Dessa forma é
através desse vazio, que cria-se a possibilidade de um novo sentido a partir do
contato com o real. Portanto na sublimação" o objeto é instaurado numa certa
relação com a Coisa que é feita simultaneamente para cingir, para presentificar e
para identificar" (LACAN, 1959-60/1997, p.176). Ou seja, ela não anula o desejo
mas produz um objeto não especular que sustenta a falta estrutural. Diz Lacan que o
objeto contorna a coisa (LACAN, 1959-60/2011 p.148).
Referências:
Freud, S. O mal-estar na civilização (1929). Rio de Janeiro: Imago, 1976. (Edição
standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, vol.
Freud, Sigmund, 1856-1939. História de uma neurose infantil : (“O homem dos
lobos”) : além do princípio do prazer e outros textos (1917-1920) / Sigmund
Freud; tradução e notas Paulo César de Souza — São Paulo: Com panhia das
Letras, 2010.
JONES, E. La vie et l’œuvre de Sigmund Freud. 3 v. Paris: PUF-Quadridge reed.
2006.
Lacan, J. (1960/1998) “Subversão do Sujeito e dialética do desejo no
inconsciente freudiano” In Escritos, Rio de Janeiro, Zahar, p. 831.
LACAN, J. Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise (1964). Livro 11,
Rio de Janeiro: Zahar, 1985. Referências Bibliográficas Adicionais.
Gomes,Gilberto Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro, Brazil
https://doi.org/10.1590/S0102-37722001000300007
LACAN. J. O seminário, livro 7: a ética da psicanálise (1959-1960). Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 1988.