Sozinhas PDF
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Risos.
— Eu tô brincando, minha mãe. Viu. Eu sei já. Você num já explicou do negócio de William Bonner?
Eu vou comprar. Aqui deve ter, né, não é fim de mundo. Viu, eu vou te falando as coisas. Tá bom.
E todo mundo aí tá como? Comendo o que? Saudade de morar aí só por causa das comida. Oxente,
minha mãe. Eu também sei cozinhar, só não fica igual igual. Oxe.
Mais risos.
— Tá, eu vou desligar pra resolver as coisas aqui, porque eu tenho mais cinco dias nesse quarto de
rico, presa sem fazer nada. Vou aproveitar pra gravar podcast, postei até a ideia nos stories. Vou ver
no que as meninas vão votar. Oxente, minha mãe, já te expliquei isso trezentas vezes. Minha mãe é só
ir na enquete e clicar, que aí pronto, votou. Com o dedo, né, minha mãe e vai clicar com o que? O
podcast a senhora já sabe qual é. Oxente, minha mãe. Como assim que podcast? O único que eu
tenho. Podcast é aquele negócio que eu gravo aquelas fitas, daqueles áudios. Sim, isso. Que eu
começo falando assim: Você tá ouvindo…
PRISCILA
Isso é verdade.
— Desculpe se eu não tenho, tipo assim, uma voz de lésbica. É que eu não sou.
Isso é mentira.
Priscila Pólvora foi a primeira garota que visitei. Entrei flutuando pela sua janela cheia de adesivos da
Turma da Mônica grudados na vidraça. Envelhecendo com ela desde os oito anos. Algumas coisas
nunca mudam. Ela ainda dá uma risada muito acelerada e faz um som excêntrico de chaleira quando
puxa o fôlego. Seu quarto ainda é repleto de coisas da sua infância. Queria poder dizer que todos os
objetos guardam histórias bonitas sobre ela. Mas, embaixo da sua cama, dentro da caixa de sapatos
do seu primeiro All Star original, está a sua secreta coleção de diários dos “dias de biscoito
envelhecido”. Uma grande documentação de todos os seus piores dias, sejam eles por quaisquer
motivos. Raiva, tristeza, falta de coragem, ter cometido o mesmo erro várias e várias vezes. Seus relatos
sobre estar exausta de ser uma garota ruim, apenas para não voltar a se machucar com as pessoas.
Exausta de fones de ouvido que param de funcionar de um lado só. Exausta de se deixar influenciar
pelos outros apenas para, no fim de cada dia, ter a aprovação deles.
— Então, por que essa obsessão agora com um podcast sapatão? Saudade da convivência diária com
Édra Norr? — Tatiele girou uma mechinha do próprio cabelo no dedo indicador enquanto fazia a
pergunta.
A videochamada estava completamente chuviscada, a conexão wifi horrível ao ponto de ser registrada
no diário de dias de biscoito envelhecido. Consequência da chuva ininterrupta em São Patrique.
— Até você sente saudade da convivência com Édra Norr. — Priscila rebateu, ajeitando o corpo
completamente tenso na cama.
— Eu beijaria Édra Norr. — As palavras de Tatiele flutuaram para fora da boca com a expiração.
— Eu não. — (Mas, os tambores dos nossos corações são completamente inaudíveis aos outros) — Eu
não beijaria menina nenhuma não. Falo brincando.
Esse é o segredo para contar uma boa mentira. Ajeite o corpo, para não parecer que você nesse
momento é rígida como uma pedra. Encare algo qualquer (pode ser a porta quebrada do seu próprio
guarda-roupa). E diga como se fosse um soneto, uma frase memorizada para a apresentação da escola,
uma receita de macarronada derivada de miojo (sua especialidade). Mas, antes, treine. Para ser uma
boa mentirosa, é preciso construir uma sólida carreira no departamento da fofoca. Vire a maior
informante do seu colégio. Comece inventando pequenas mentiras, até que as pessoas comecem a te
contar fofocas verdadeiras. Misture as fofocas verdadeiras com as mentirosas. Sua reputação vai
crescer cada vez mais. As pessoas vão esperar, acumuladas num corredor, a sua chegada. Nada é uma
novidade até que você confirme antes da aula. Vá de criança completamente ignorada dentro e fora
de casa para jovem símbolo do jornalismo investigativo amador. Preencha a vida de todas as pessoas
com informações sobre a vida de outras pessoas. Faça com que estejam tão, mas tão ocupados uns
com os outros, que sequer percebam o que você realmente é.
(L)
Uma versão mais destemida de Priscila, que vive escondida sussurrando coisas de dentro do seu
diafragma, queria insistir no assunto. Pergunte. Pergunte. Pergunte.
Pergunte.
A porta do guarda-roupa, qual Priscila encarava, parecia querer gritar “por favor, saia de dentro de
mim”. Para fugir dele, ela inclina a cabeça de volta na direção da videochamada. Tentando olhar pra
qualquer coisa na tela que não fossem os olhos de Tatiele. Até para mentir existem regras. E
fraquezas. Não demorou nem meio segundo para que a tela completamente se apagasse. Não pelos
raios, nem pela internet horrível. Era ele.
— Calma, o Scott tá me ligando. Preciso ser hétero agora e mais tarde eu te ligo, tá? — Tatiele se
apressou em dizer assim que a câmera reconectou. — Me atende antes de dormir. Esqueci que ia
maratonar série de hétero com ele.
— O que é classificado como série de hétero, hein? Preciso saber pra não desviar do caminho. —
Priscila tentou fingir que não estava lentamente tomando a forma de um filhote de border collie
rejeitado. Levando, como de costume, a situação “Scott estragando tudo” na brincadeira.
(E)
Desejar? Hum, bom, deseja. Mas não é uma prioridade agora. Não tem ninguém com quem Priscila
Pólvora precise se reconectar, mais que com ela mesma. Achei que todas as coisas fossem melhorar
depois da formatura, mas a bola de neve de frustrações só aumentaram. Com a saída do colégio,
Priscila perdeu a única atenção que recebia. Ninguém se interessava em saber como ela estava, quem
ela era de verdade, do que gostava de fazer quando saía daquele universo compacto erguido sob uma
órbita de cimento que era o Colégio São Patrique. A hora de contar fofocas (ainda que a maioria das
coisas fossem uma série de minúsculas mentiras) era o único momento que essas pessoas a olhavam
atentas. Sendo assim, nada realmente mudou com o final do ano letivo. Priscila não “magicamente”
percebeu que não precisava dessas pessoas para se validar. Pelo contrário, agora, ela sentia falta dos
corredores e por isso passava boa parte do tempo — que poderia ser investido em qualquer outra
coisa em prol de si mesma — stalkeando os ex colegas de colégio.
Comparando sua vida com a vida de absolutamente qualquer ser vivo que respirasse. Literalmente.
Pensando coisas como “Eu seria plenamente feliz sendo o gato de Bárbara Melissa” ou “O Jorge cuida
tão bem das suculentas, queria aparecer na porta dele dentro de um cachepot”.
Perdia tanto tempo obsessivamente interessada na vida alheia. E, para suprir a falta que os corredores
do colégio faziam, tentava transformar as fofocas em diálogos tímidos com sua frígida e alheia mãe,
Srª Esmeralda Pólvora.
— Mãe? — perguntava, remexendo o miojo na panela, com uma série de temperos e coisas resgatadas
dos fundos da geladeira combinadas para virar uma macarronada perfeita (sua especialidade
gastronômica). — Você lembra da filha de Diana?
— Que Diana?
— Aquela moça que vendia trufas nas reuniões da escola.
— Eu nem ia nas reuniões. Mas o que tem?
— Casou ontem.
— Mesmo com isso de alerta de pandemia?
— Foi.
— E você não sabe da maior…
— Tô assistindo a novela agora, Priscila. Lave tudo o que você sujar. Não quero ver nada em cima
dessa pia.
(S)
A verdade é que Priscila Pólvora focava nas coisas completamente erradas. Não eram sobre os ex
alunos que se formaram com ela, sua mãe, os gatos ou as plantas dos outros. Era apenas sobre a
sensação de fazer uma macarronada derivada de miojo e subir a escada de madeira descalça com o
vapor do prato aquecendo o rosto. Sentar aninhada na cama, colocar o prato na mesa dobrável e dar
play em Grey´s Anatomy. Pensar em como deve ser massa trabalhar num hospital, seja lá em que
função for. Era sobre a risada acelerada com o som de chaleira quando algum personagem falava algo
muito engraçado. Era sobre comer a macarronada-de-miojo inteira, se orgulhando das escolhas
excêntricas dessa vez (tomates, calabresa e pimentão verde picados, queijo, alho refogado, salsinha e
resto de requeijão). Os preciosos momentos não testemunhados por um corredor de pessoas.
Quando ela se tratava como um gato ou uma suculenta num cachepot. Quando ela se dava completa
atenção.
Era imperceptível para a própria Priscila, como seu coração também tocava como uma orquestra de
tambores, quando ela se encontrava consigo mesma, para fazer das coisas mais idiotas, bestas e
genuinamente simples, motivos para dias de biscoitos novos.
Claro que, para Priscila, uma ligação de Tatiele equivalia a três pratos de macarronada de miojo. O
problema é quando as coisas valem mais para nós mesmos quando vem dos outros. Nossas atitudes
— as que tomamos em relação a nós mesmos — também são valiosas, mas passam por nós tão
transparentes, translúcidas, desapercebidas. Como raios ultravioletas de uma tempestade cortando o
quarto por milésimos de segundos e se desvanecendo completamente depois.
Quando precisamos encarar o desafio de sentar para conversar sobre essas coisas, uma troca do “eu
vs. eu”, para nos compreendermos melhor, evitamos o assunto. Como Srª Esmeralda, desviamos do
assunto com o pretexto de que estamos vendo novela. Ordenamos que o nosso diafragma cuide da
bagunça na cozinha. Mas, não lavamos o que sujamos. Os pratos se acumulam na nossa pia como
situações que não reagimos direito, ou sentimentos que não buscamos entender.
E a pia transborda.
— Pri?
— Foi? — Priscila enxugou as lágrimas que rolaram pela bochecha com a rapidez e o desespero de
quem está envergonhada de si mesma. Tentando ser o mais silenciosa possível. Ainda que estivessem
apenas em ligação e Tatiele não pudesse vê-la, ajeitou-se como se o dever de se recompor fosse simples
como montar legos. Como já estava acostumada a isso, de fato, era. Passou as mãos no cabelo,
esfregou a ponta do moletom no nariz, sorriu da forma mais larga que sua estrutura óssea podia
suportar. Voilà! Quase-perfeita para um corredor de colégio. — Isso é incrível, não? Você aceitou,
amiga? Me conta tudo.
(B)
— Ai, eu não sei. A gente tava assistindo velozes e furiosos. Foi do nada. Ele me pediu em namoro
com a delicadeza de quem pede ao delivery pra comida vir com talher descartável. Tipo, sério. Não
foi nem um pouco romântico. Foi completamente sem tato. Ele também não fez clima, né, eu nem
tava esperando, tomei um susto.
— Mas gringos tem fama de serem frios assim mesmo. Ele não é o Troy Bolton.
Tatiele não conseguiu evitar o gargalho. E, Priscila, mesmo partida em mil pedacinhos, permite que
um dos seus cacos dê uma curta (porém honesta) risadinha também. Por ter conseguido transformar
novamente o clima de “Scott estragando tudo” em brincadeira.
— Cara, ele não é mesmo o Troy Bolton, mas o pior é que eu gosto dele. Vou até assistir High School
Musical de novo pra passar o tempo. Falei a ele que de noite eu respondia.
Priscila engoliu o bololô de choro que se acumulou como um miojo (instantaneamente) em sua
garganta.
Quando ela abriu o instagram, eu já esperava que fosse para começar a sua série de tortura pessoal se
comparando com seres vivos expostos em mp4 e jpg na plataforma. Mas, não dessa vez. Abriu o perfil
da podcaster que ela acompanhava escondido (limpando sempre o histórico logo depois) e começou
a digitar. Sem. Parar.
“Talvez você nunca leia isso, mas você estragou a minha vida.
Sem esse papo de ‘uau nossa como me ajudou’ que eu vejo gente mandando pra você.
Você estragou a minha vida.
Eu sempre estive em paz com o fato de não fazer ideia de como eu me sentia de verdade sobre garotas,
até aparecer o seu podcast. Eu ouvi todas as fitas. Mas e agora? E aí? Eu sou o que? Porra, lança um
quizz. Faz alguma coisa. Eu preciso ter certeza. Eu não tenho como saber, sem nunca ter estado de
verdade com uma menina.
Mas Tatiele sempre foi a resposta pra perguntas que eu nem sabia que existiam. Ela não me olha, ela
me vê. Ela é a única que sabe as minhas coisas preferidas, todas as minhas alergias, minha data de
aniversário. A única que prova das minhas receitas de miojo. A única pessoa para quem eu contei
que eu acho que gosto demais de hospitais e queria trabalhar em qualquer cargo, contanto que eu
conseguisse ajudar no funcionamento de um lugar que literalmente conserta pessoas.
Depois de Tatiele, eu comecei a me reparar de uma forma diferente. Eu comecei a observar mais as
garotas. E eu comecei a me observar mais. Eu tentei beijar uma menina nos fundos da minha festa de
formatura, logo depois de ter quase beijado Tatiele enquanto estávamos muito bêbadas e alegres.
Mas foi estranho. Isso foi estranho. O quase beijo na outra garota foi estranho. Tudo foi estranho.
Estranho porque eu tive uma quase certeza sobre mim mesma e sobre esse lado meu que pode ser
gostado e receber atenção romântica de alguém. De uma garota.
Mas se eu não posso realizar isso com Tatiele, se eu não posso beijá-la pra ter certeza, se eu não posso
ser a pessoa que pede ela em namoro com se estivéssemos em High School Musical, então como vou
descobrir se sou ou não lésbica?
Sei lá, para de ficar usando boinas e vai montar um quizz. Meu deus eu odeio suas boinas demais. Vá
fazer algo de útil e monte um quizz, porque nem todo mundo beija quem gosta e vira um jacaré,
Elayne Baeta, a maioria de nós nem beija ninguém e fica assim, enlouquecendo um pouco a cada dia.
Com hormônios de estimação e raivas domesticadas.
Depois do enter, não tinha como voltar atrás. Um estrondo de trovão levou consigo a energia da casa,
durou tempo suficiente para que Priscila colocasse suas meias de pares completamente aleatórios pra
lavar, contasse a mãe que a filha do pastor Osmar da antiga cidade que elas moravam estava grávida
(história que, dessa vez, ela escutou toda, apenas porque era impossível ligar a tv sem energia), por
fim, tempo suficiente para assobiar músicas esquentando sua gororoba gastronômica —
macarronada de miojo.
Subiu a escada com o vapor soprando o rosto, como adorava fazer pelo prazer sensorial que lhe
completava. Antes que pudesse terminar de se aninhar na cama, a luz do quarto ligou, o ventilador
começou a girar, a novela começou a passar novamente no andar de baixo num volume absurdo e o
celular vibrava notificações incessantes.
Fez por etapa suas missões. Encostou a porta do quarto pra ofuscar o barulho da novela, desligou o
ventilador para não esfriar a macarronada de miojo tão rapidamente, se aninhou na cama e decidiu
comer sem conferir o celular.
Durou duas garfadas. Por ansiedade, desistiu, desbloqueou a tela e recebeu o lembrete para uma nova
fita de podcast. Maratona Querida Quarentena, fita um. Lembrou do texto horrível que fez e correu
o dedo entre abas abertas de aplicativos. Anda, anda, anda, eu preciso apagar isso. E, dessa vez, até
sua versão escondida no diafragma concordava.
“Oi, tudo bem? Vou ignorar todas as suas ofensas, pra te dizer algo que eu acho que você precisa ler.
Você não é lésbica quando está com alguém. Não é ficando com uma menina que você goste, que
você vai descobrir se você é ou não é lésbica. Não se descobre se é lésbica apenas beijando garotas. Se
você quer saber se você é lésbica, se pergunte. Se você for mesmo, você vai saber que é enquanto faz
qualquer coisa. Das mais estúpidas do dia a dia às mais divertidas. Porque quando se é lésbica, se é o
tempo todo. Muitas vezes as pessoas fazem parecer que você só tem uma sexualidade, quando está
com alguém que respalda isso. Mas e você fazendo todo o resto? Quantas coisas você pode ser além
de lésbica? Quantas coisas você já é além de lésbica? Sua dúvida e seus excessos de sentimentos já não
te dão respostas sobre isso? Se você precisa tanto estar com uma menina pra confirmar isso, por que
você desconfia que seja então? Não tem algo diferente na forma como você vê o mundo no seu dia a
dia? Independente da garota que você gosta. No dia a dia mesmo. Ser lésbica é o calafrio do banho, a
risada cozinhando, a impaciência com garotos até em séries românticas. Quando você dança sozinha?
Lésbica. Quando você olha pro céu da janela? Lésbica. Quando o céu te olha de volta? Adivinha?
Lésbica. Estará em tudo o que você é. Porque é quem você é. Beijos na boca de garotas que gostamos
é só um detalhe dentro disso. Pra sua sorte, hospedei hoje um episódio novo de podcast que fala um
pouquinho sobre esse rolê. Vá escutar. E, rapaz, investigue seu problema com boinas, achei muito
específico. Um abraço, Priscila. Independente do que, ou de quem, você seja.”
— Eu não vou ouvir seu podcast pela milésima vez pra me entender. — Priscila rolou os olhos,
brigando em voz alta com a tela do celular. — Se você acha que eu vou perder o meu tempo me
atualizando no seu podcast você tá muito enga…
(I)
— Agora ela ta terminando as fitas assim. — Priscila coçou a garganta, empolgada, pronta para deixar
a voz mais falhada e aguda para sua atuação. — Você acabou de ouvir Querida Quarentena, uma
maratona de um podcast original por mim, Elayne Baeta.
— Nossa, falou igualzinho dessa vez, hein. Com voz de lésbica e tudo. — Tatiele provocou, sorrindo
impressionada. Sabia o quanto beliscar a sexualidade de Priscila a deixava completamente
estressadinha. Como um palito de fósforo recém riscado, com a cabeça enfervecida.
— É que eu sou.
Isso é verdade.
Priscila começou a rir completamente acelerado, fazendo um som perfeito de chaleira, apenas para
pegar fôlego e rir ainda mais. Porque assim como os adesivos de Turma da Mônica na vidraça e a
caixa de tênis repleta de diários embaixo da cama algumas coisas nunca mudam.
— Eu sei, Pri.
Uma garota lésbica, fofoqueira, ótima cozinheira de macarronadas derivadas de miojo pronto e…
Apaixonada por ela. Tatiele. Desde o ensino médio.
— Pri?
— Boa noite, Tati.
— Boa noite, Pri.
(C)
— Ah, Pri!
— Oi.
— Eu disse não.
(A).
2
Sexo.
Para uma parcela das pessoas, a grande pergunta é: Tem como ficar muito tempo sem isso?
@notyourfriend
Eu deslizaria a minha língua pelo seu pescoço, até me esbarrar com o… nada. Já que você só existe do
pescoço pra baixo.
@comecloserandsayangel
Isso não é hora de me dar indireta sobre minha identidade secreta, só continue digitando. Por favor!!!
Eu te ajudei da última vez que vc precisou!
@notyourfriend
Beleza. O que você quer?
Essa, embaixo de uma cabana de lençóis prestes a desabar, com a mão direita enfiada dentro da
calcinha,
@comecloserandsayangel
O que você quer fazer comigo?
A conexão de @notyourfriend caiu. Tente novamente mais tarde. Falar com os amigos é bom, falar
com os amigos é DeltaChat.
é ninguém mais e ninguém menos que
IVANA
— Ivana! — o grito ecoou do outro lado da porta. O barulho das batidas na madeira foi ficando cada
vez mais alto conforme Ivana diminuía o volume da caixinha de som. No volume 2, Roupa Nova era
quase inaudível.
Ivana xingou todos os possíveis palavrões dentro de sua cabeça enquanto fazia todo o percurso até a
porta do quarto. Com pausas para ajeitar a calcinha, vestir um short cheio de sushi-rolls estampados,
enfiar um vibrador rosa dentro de uma gaveta cheia de pijamas, tirar um prato de cerâmica com uma
caneca suja de café do caminho e, finalmente, maçaneta com um sapinho segurando a bandeira
lésbica preso na chave.
— Ai meu Deus, que merda é essa? — Joyce torceu o rosto assim que Ivana abriu a porta, encarando
a imensa gambiarra de lençóis, cordas, pisca pisca colorido e pregadores de roupa.
— Bom, estamos em lockdown por precaução. Ainda não temos casos confirmados do vírus na
cidade. Mas, mesmo assim, a partir de terça-feira vai ser proibido visitar pessoas. So… enquanto ainda
estamos dentro da legalidade, eu vou fazer uma despedida do pijama. Com a Dara.
— Despedida do pijama? Que idiotice adolescente é essa? — Joyce se segurou pra não rir. — Você
não pode aguentar umas semanas sem ver a Dara?
— Eu já fiz dezoito anos. Então é uma idiotice de maior de idade. — Ivana sorriu, cínica e impaciente.
— Não tem nem um mês desde o seu aniversário. Você continua sendo um bebê prematuro pra mim.
— Joyce disse, sem nem olhar para a cara de Ivana. Não conseguia parar de encarar a estrutura caótica
da cabana. — Um bebê prematuro que faz “Despedidas do pijama”.
— Eu não espero que você entenda minhas motivações. Você não tem amigos.
Ouch.
— Não se xinga bebês prematuros. — Ivana não podia sequer conter a risada que queria dar e
escapava num barulho agudo e abafado, mesmo que ela estivesse fazendo o seu máximo
comprimindo a boca.
— Você é insuportável. Já pedi mil vezes pra você parar com essa história sobre a Lizandra. Mamãe e
papai levaram séculos pra aceitarem sua sexualidade, você não precisa empurrar “lésbica” pra mim
também. Você sabe que eu sou hétero.
As duas se encararam, de lados opostos no corredor onde seus quartos ficavam, frente a frente, um
do outro.
— Engraçado, toda vez que eu brinco com isso você fica toda nervosinha. — Ivana se encostou no
batente da porta, cruzando os braços embaixo dos peitos. — Tudo bem, eu entendo, Lizandra é uma
gostosa.
— Ela deixou. Ela disse que ainda é seguro. Não tem nenhum caso na cidade ainda. E, ao contrário
de você, ela já é médica.
— Eu nunca vou me formar se você ficar ouvindo música nessa altura no meu momento de estudar.
Da próxima vez arrombo sua porta e eu mesma abaixo o volume.
— Clima romântico pra Dara? Eu estava no meio de um sexting. Você prefere EAD com Roupa
Nova ou gemidos?
Foi a vez de Ivana abrir um sorriso perverso, a irmã preferia morrer, do que falar abertamente sobre
sexo e assuntos derivados. A aura celibatária de Joyce não combinava em nada com as calcinhas pretas
de renda que ela esquecia as vezes no box do banheiro que dividiam, porque era conectado com os
quartos de ambas. Era por isso que Ivana adorava provocar. Ela sabia que a irmã era uma farsa a ser
descoberta. Talvez também fosse uma farsa precisando se descobrir.
— Pois é, eu acabei de me formar e não estou nem um pouco afim de passar em medicina esse ano.
Então, por enquanto, só sobrou sexting pra mim. É a coisa do momento. Todo mundo cria um perfil
fake no DeltaChat e transa online. Eu tenho um problema. Esse é o meu desvio de caráter. — Ivana
riu, diabólica. — Talvez eu precise de um “viciados em sexting anônimos”. E hoje a Dara vem dormir
aqui. Eu só estou tentando ser educada e resolver as minhas pendências antes dela chegar.
— Que nojo. Você é terrível. — Joyce balançou negativamente com a cabeça. — Me poupe dos
detalhes.
— Ótimo. Porque eu preciso terminar de montar uma cabana. E transar online antes da minha
melhor amiga chegar.
— Ok, doctor. — Ivana disse para a porta do quarto de Joyce se fechando diante dos seus olhos. —
Diga a minha cunhadinha que mandei um Oi.
E Joyce reapareceu rapidamente com uma pantufa na mão, pronta para atacá-la. Ivana se trancou no
próprio quarto rindo. Enquanto repetia sem parar “Bebê prematuro, bebê prematuro”. Recebendo
as pancadas — acompanhadas de ameaças — vindas de Joyce na porta.
Assim que ficou completamente sozinha de novo, Ivana sorriu para a gaveta de pijamas e deu play na
sua caixinha de som. Tinha pouco tempo antes que Dara chegasse. Tinham combinado de maratonar
Lésbica & Ansiosa juntas e pedir comida japonesa por delivery. Seria uma noite perfeita de
despedidas. Mas nenhuma noite era perfeita sem um sexting antes. O tédio da pré-quarentena estava
consumindo Ivana viva. Ter se formado no ensino médio, igualmente. Não existiam mais banheiros
ou salas de aula abandonadas para transar escondido com meninas do Colégio São Patrique que ela
tivesse dado match escondido. Ivana definitivamente adorava uma coisa: sexo. E não havia nada de
errado nisso. O problema vinha acompanhado da total falta de amor próprio em acreditar que
qualquer menina fosse querê-la para qualquer coisa além disso. Ela nem — sequer — tentava se abrir
emocionalmente. O que tinha de autoestima sexual, tinha da total falta dela para assuntos
sentimentais. E é por isso que preferia fazer sexting com “@notyourfriend” — a misteriosa garota
que gostava de fazer essas coisas online e, para Ivana, fazia isso bem. Ao contrário de “@skynights03”
que sempre tentava converter o sexting em assuntos românticos.
O coração não se governa e não era @skynights03 que deixava Ivana nervosa quando o assunto se
tratava do genuíno interesse em saber quem ela era.
@comecloserandsayangel
Você sumiu.
“Droga”
Ok. Hora de recorrer a segunda opção.
Ivana estava sorrindo encarando o teto de sua cabana com o pisca pisca ligado. O vibrador fazia
barulho se rebatendo ligado em cima da cama, ao lado do corpo dela, que ainda dava pequenas
contorcidas. Aquilo definitivamente não era mérito único de @skynights03, o “pinky vibrator” era,
bom, mágico.
@comecloserandsayangel
Uau. Obrigada.
@skynights03
Eu converso com você faz tanto tempo, eu sei tanta coisa que não posso dizer, porque estou
esperando você ficar pronta e perceber que nós nos gostamos pra além de sexting, sabe?
@skynights03
Eu só queria saber o que uma pessoa precisa fazer pra você deixar ela entrar.
@skynights03
Você entendeu..
@skynights03
Só me diz, qual seria a declaração de amor perfeita pra você?
@comecloserandsayangel
Ok.
@comecloserandsayangel
A declaração de amor perfeita pra mim…
@comecloserandsayangel está digitando…
@comecloserandsayangel
A declaração de amor perfeita pra mim seria que, depois de uma transa, alguém me olhasse nos olhos,
segurasse o meu rosto e beijasse minha boca de maneira completamente não-sexual. Que depois do
sexo a pessoa ainda quisesse ficar ali, perto de mim, porque ela gosta de mim pra além disso. Porque
ela me entende. Porque ela me acha legal, divertida, engraçada e bonita quando minha boca está
aberta conversando e não só gemendo. Alguém que tivesse uma amizade comigo e o sexo fosse o
super-super-super-bonus e não a única coisa que nos interliga. Sabe?
@comecloserandsayangel
Mas eu também ia amar que alguém aparecesse na porta da minha casa com uma caixa de som
tocando roupa nova. Kkkkk eu definitivamente acharia isso romântico
@skynights03
Vc é tão linda, sabia? Eu podia paçar o dia todo olhando pros seus belos olhos…. ><’
@comecloserandsayangel
Posso te perguntar uma coisa?
— Vamos repassar as regras, antes que a Dara chegue, ok. — a mãe de Ivana, Sra Sarine, começou a
dizer inclinando-se no balcão da cozinha. Estava numa espécie de date caseiro com o pai de Ivana e
ambos cozinhavam algo juntos. Mas, agora era a hora da bronca. Sra Sarine costumava ser mais rígida
que Sr Sarine, então o mesmo continuou de costas para não se meter, enquanto a esposa virava uma
tempestade com uma inofensiva toalhinha de prato pendurada no ombro direito. — O que foi que
eu te disse?
— Não é porque eu sou lésbica, que a senhora vai tolerar tudo. — Ivana disse murmurando.
— E o que mais?
Sr Sarine se virou, balançando os braços e fazendo mímicas atrás da mulher. Sua boca sibilava
repetidas vezes “Pode beber!”
Joyce deixava os pratos dentro da lava louças, enquanto dava beijinhos no ombro do pai.
— Por Deus, é difícil Senhor ter uma filha lésbica. Daí-me paciência. — Sra Sarine respirou fundo.
— Pelo menos Joyce não vai me dar esse trabalho.
— Vou para o meu quarto destrancado, sem bebidas alcoólicas, antes que eu fale uma besteira. —
Ivana rolou os olhos, saindo da cozinha batendo os pés. — Se precisarem de mim, estou rezando. Na
minha nova igreja.
— Ivana Sarine! — a mãe gritou da cozinha, mas Ivana já tinha subido as escadas.
Com uma pitada de ansiedade e com a intuição dando sinais no estômago, Ivana fechou a porta do
quarto atrás das próprias costas mirando o celular em cima da cama. Respirou fundo. Caminhou
lentamente até o telefone, porque ainda que sua intuição gritasse que tinha recebido a mensagem de
quem queria, ela ainda duvidava um pouco disso. Uma mistura de não querer criar expectativas, já
criando. Uma doce mentira ensenada de que com “@notyourfriend” tudo se tratava exclusivamente
de sexo.
Assim que chegou perto do telefone e deslizou para digitar a senha de quatro dígitos, a porta do
quarto — que tinha fechado tão cuidadosamente — abriu.
— Meu Deus, eu levei uma vida pra chegar aqui. — Dara jogou a mochila no chão. O barulho de
garrafas de vidro colidindo na parte interna da sarja preta.
O sorriso de Ivana se desmanchou. Não por causa de Dara, mas porque @notyourfriend tinha sim
mandado uma mensagem. A notificação estava na tela, implorando para ser visualizada. Toda a
magia teria de esperar a noite inteira agora. Dara estava ali. Para a noite do pijama de despedida.
Dara ergueu as duas mãos e passou pela cabeça, que não tinha mais cabelo suficiente para o rabo de
cavalo ou coque que costumava usar.
— Que loucura tudo isso. Minha ficha ainda não caiu, acho que só quando tiver algum caso
confirmado pra eu assimilar.
— É, mas vá assimilando. As coisas estão ficando estranhas na rua. Os turistas nem podem sair dos
próprios hotéis, você acredita?
— Óbvio, né. A Elayne gravou stories sobre isso. Você tem escutado as fitas novas?
— Que merda ela ter vindo logo agora, achei que ia rolar encontro com as ouvintes. — Dara sorriu
sem graça, se aninhando na cama, ao lado de Ivana. — Qual foi a última fita que você ouviu?
— Sexting. — Ivana corou. — E você?
— Sexting.
— A gente pode maratonar as nossas fitas preferidas antes de capotar de sono.
— Sono? — Dara ergueu uma sobrancelha.
— Ah, me poupe. Você só dorme. — Ivana riu, arremessando um travesseiro na amiga. — Só que
hoje é a despedida. Fique acordada. Por favor.
O sorriso de Dara era cínico e charmoso, como galãs em filmes preto e branco, era assim que Ivana
via. Gostava de mentalmente imaginar que sua garota preferida (e secreta) teria um sorriso cínico
também, para sustentar o clima, as piadinhas infames que costumava fazer, as coisas ousadas que
costumava perguntar. “Já se masturbou hoje, Ivana?”
— Ivana?
— Ei, você se importa se eu for no banheiro rapidinho? — Ela perguntou a Dara, escondendo o
celular atrás das costas.
— Sim, me importo.
— Sério?
— Claro que não.
— Tente não dormir. — Ivana sorriu, sumindo para fora do quarto. Sacando o telefone, apressando
os passos para o único banheiro que não seria importunada: o de visitas.
O estômago revirando como se uma criação de borboletas morasse nele. O tecido da calcinha
incomodando um lugar que só queria ser encostado, de qualquer maneira, mesmo se fosse rápido e
independente de tudo e todos. Sua mente girando em torno do mesmo nome de usuário misterioso,
da mesma menina, a qual ela adorava ler e digitar para. A única que saciava suas vontades pervertidas
mais escondidas. E que, quando tudo acabava e ela mal podia respirar, nocauteava-a de novo, com
um “Boa noite, se cuida” que transformava todo abismo de atração sexual em um ciclone. Agitando
todas as suas borboletas.
Queria ela, precisava dela, precisava saber o que ela disse. Precisava saber o que ela queria fazer… com
ela.
Girou a chave na porta do banheiro, sentou na tampa do vaso sanitário fechado, soprou para fora
um ar completamente superaquecido e ansioso, girou o pescoço para que estalasse. E deslizou o dedo
pela notificação.
@notyourfriend
O que eu gostaria de fazer com você começa com um cheiro no seu pescoço, que vira um beijo, que
vira outro, que vira a minha língua escorregando pela sua pele, procurando o caminho mais vagaroso
até seu ombro. De onde eu vou descer uma alça do seu sutiã com a boca.
Seu peito foi feito para reluzir de saliva. Seu mamilo foi feito para que a minha língua circule ao redor
provocativamente, antes que eu chupe e solte e mordisque e largue.
O que eu gostaria de fazer com você desliza pela sua barriga, acho seus sinais de nascença bonitos,
por isso beijinhos por toda parte. — Que contrastem, delicados, com a minha mão no seu pescoço.
Quero chegar até a sua calcinha, mas não quero tirá-la de cara. Similarei o que eu gostaria de fazer
subindo a minha mão do seu pescoço para o seu queixo e empurrando vagarosamente dois dedos na
sua boca. Tirando e botando e tirando e botando. Sem deixar de te olhar no olho, sem parar de
respirar diante da sua calcinha. Que eu espero que molhe, que eu espero que encharque, antes mesmo
que eu chegue para conferir, arrastando a minha língua de baixo pra cima — e por cima — do tecido.
Pra que minha saliva umedeça ainda mais o pano, para que seu clítoris me queira perto sem
empecilhos.
E se você estiver usando aquela (daquela foto) é bonita demais pra ser tirada. Posso só arrastar pro
lado e tirar da sua boca os meus dedos babados por pra finalmente entrar em você.
Que comece devagar e acelere, exatamente do jeito que você gosta de se masturbar. E pirrace pra que
você não goze tão rápido quanto você quer. Porque o primeiro orgasmo é sempre o mais bonito e
escandaloso de todos, mesmo que depois venham sete. Quero que você olhe pra minha cara
chupando você enquanto eu te fodo, da mesma maneira que gosto de imaginar a sua entre as minhas
pernas enquanto te digito isso.
O que eu gostaria de fazer com você não cabe em caracteres nesse aplicativo. Eu te foderia como
ninguém nunca te fodeu em toda a sua vida.
@comecloserandsayangel
Estava tudo perfeito, até a parte da implicação com meu rosto. Eu também nunca vi o seu, sua
hipócrita.
@comecloserandsayangel
Estou de bom humor.
@notyourfriend
Graças a Deus estou de cabelo cortado.
@notyourfriend
1…
@comecloserandsayangel
2…
3.
Na selfie de Ivana, ela mesma com a cabeça inclinada sobre o próprio ombro, as duas mãos segurando
o celular, um nariz franzido e um sorrisinho gentil, de lado.
A conversa ficou visualizada por poucos segundos, até que Ivana corresse para o quarto com o
coração sambando no próprio peito, os lábios secaram, a garganta retorceu um nó interno, as mãos
gelaram suadas, a cabeça repassava tudo o que @notyourfriend vinha causando nela durante todos
os dias de conversa.
Abriu a porta do quarto, entrou atrapalhada pela adrenalina, parou perto da cama, onde a cabana
(que vai desabar) estava construída. Olhava ofegante para o rosto de Dara com o celular
desbloqueado na mão. A tela azulada sendo a única cor leve em contraste com as luzes coloridas do
pisca-pisca.
Dara a encarava de volta, também sem fôlego. Olhava para o celular na mão direita, olhava pra Ivana.
Celular, Ivana, celular, Ivana.
— Dara?
— Ivana?
Anjo…
— Ivana! — Joyce invadiu o quarto. A procura da caixa de som da irmã, para cumprir a promessa de
jogá-la pela janela.
— Joyce! Não!
Ops.
— Sky nights zero três! — gritou a garota da calçada — Você disse que essa era a declaração de amor
perfeita pra você. Eu descobri tudo, eu sei quem você é. Come closer and say angel, sou eu, estou
disposta!
Todos os olhos apontados para Ivana. Que sorria amarelada sem saber exatamente o que dizer.
— Filha, por que tem uma garota gritando na porta da nossa casa? Os vizinhos estão ligando.
Anjo…
— Eu não vou desistir de você, meu amor! Eu não te quero só para sexting. Apareça na janela!
Anjo.
Eu não estava suportando mais ser olhada daquela forma. Ela me encarava de volta como se algo
tivesse totalmente errado comigo. Eu conseguia sentir a apatia por trás dos supercilios. A impaciência
tentando calcular meu peso, assim, de relance. A pupila carregada de pena, julgando o caimento das
calças legging nas minhas pernas e como nem mesmo algo de caimento justo era capaz de acentuar a
minha cintura modesta. Podia sentir seu julgamento encarando o meu cabelo e a franja que eu tinha
decidido cortar sozinha. As críticas que sua boca mais torta pra um lado estavam fazendo com os
olhos fixados nas minhas unhas roídas de ansiedade. Na espinha que, também de ansiedade, tinha
criado vida no meu queixo. Passei a mão imediatamente por cima da espinha, como se quisesse
escondê-la. Depois passei a mão na franja, como se isso fosse fazer o cabelo magicamente crescer de
volta no lugar. Olha o que minutos do olhar crítico dela me faziam. Eu queria sair passando a minha
própria mão por toda parte, como se elas fossem mágicas. Mas tudo ainda estava lá. Ela gostando ou
não. Ainda estava lá. Comigo. Porque tudo aquilo era parte de mim. Eu estava cansada dela. Eu
estava cansada de ser olhada assim. Chega.
— Nada nunca está suficiente pra você. Tudo você critica e julga. Não dá pra ser mais gentil? Pegar
um pouco mais leve. Eu mereço ser olhada com mais carinho. O mesmo carinho que você tem
quando olha pra essas meninas famosas que você admira da tv. E daí que eu não sou como elas? Você
sabia que existem inúmeras formas de ser bonita? Pois é. Eu tô de saco cheio de ser olhada assim por
você. A partir de hoje, você vai ter que me respeitar. E não por ser bonita. Apesar de ser. Beleza não é
barganha pra respeito. Você vai ter que me respeitar, porque eu sou uma pessoa. Estou dando o
melhor de mim a todo momento. Ta vendo isso aqui? Isso aqui sou eu dando o meu máximo pra me
sentir bem no meio de uma pandemia. Eu to orgulhosa do que eu tenho feito. E você não vai estragar
isso. Agora se me der licença, eu vou me exercitar. Passar bem.
CINTHIA
Quando Cinthia arrastou a vidraça da porta para ir até a varanda com sua esteira de yoga guardada
como um rolinho, eu entrei para o quarto. Fazia tempo que não a visitava. Fazia tempo que ela não
abria uma brecha pra que eu flutuasse quarto a dentro. A quarentena lhe causava um duplo
sentimento, que se encaravam opostos. De um lado, queria acompanhar o ritmo dos — pela
aprovação dos — outros. Então se sobrecarregava de todas as atividades e exercícios possíveis.
Qualquer coisa que rendesse dois stories com uma mesa repleta de livros de curso a distância, ou uma
foto suada na frente do espelho. Ainda que preferisse (na grande maioria desses dias) ver em paz seus
desenhos animados e séries de streaming preferidas. Do outro lado, não queria fazer nada, nem
provar nada a ninguém. Porque também não queria conversar com ninguém. Tampouco ser vista
por alguém. Missão que se tornou cada vez mais difícil. Já que, com a quarentena obrigatória
instaurada em São Patrique, a mãe de Cinthia estava cada vez mais em casa. E de frente para sua
varanda, ficava a varanda de sua vizinha. Que ela nem sabia que existia. Jurava que Sr. e Srª Valinhos
tinham apenas um gato ranzinza chamado Castor e uma motocicleta preta barulhenta. Mas, assim
como a motocicleta preta, Castor também não pertencia a eles. O que Sr e Srª Valinhos tinham era
Lizandra.
A “vizinha de varanda de quarto” de Cinthia. Que além de ter uma motocicleta preta e um gato
chamado Castor, também possuía uma ótima audição.
— Briga ruim? — Lizandra perguntou de sua varanda, assim que Cinthia atravessou a porta de vidro
e jogou o rolinho (tapete de yoga) no chão. O rolinho foi se desmanchando sozinho no chão e
tomando uma forma ereta. A fumaça do cigarro de Lizandra dava voltas onduladas no ar.
— Que? — Cinthia se desconcertou, porque era sempre um susto enorme lembrar que Lizandra
existia. E esquecer-se de “falar sozinha” num volume mais baixo.
— Deu pra ouvir a briga daqui. — Lizandra puxou o cigarro de volta para a boca.
— Ah, sim. — “briga” pensou. Mas não disse nada.
— Se ajuda em alguma coisa, pelo que você falou, ela parece ser bem insuportável.
— Ela é. — Cinthia concordou, tentando se desvencilhar da ironia que aquele diálogo representava.
Se sentou na esteira de costas para a presença (quase, quase fantasmagórica) de Lizandra.
Ainda conseguia se ver no reflexo da vidraça da porta do quarto. Lizandra estava logo atrás, com um
rosto curioso soprando fumaça pelo ar.
— Sinto muito que você tenha que lidar com a instituição mãe chata.
— O que? — Cinthia olhou para trás rapidamente, antes de começar a alongar os braços. Não
entendeu a associação.
“Ah, sim” pensou, mudando o braço a ser alongado “Se eu estava supostamente brigando, é claro
que seria com mamãe. Com quem mais poderia ser?” Rolou os olhos, porque parecia idiota. Não
somente estar mentindo para manter intacta sua dignidade, mas também saber que aquele lamento
de Lizandra vilanizava ela mesma. Tinha acabado de gritar consigo mesma. Estava cansada de si
mesma. Queria se libertar da opinião mais pesada de se carregar: a própria — completamente
envenenada pela influência externa.
— Ah. Sim, moro. — Girou o pescoço lentamente. — Mas, né — Espiou Lizandra refletida na porta.
— Quarentena. Tá todo mundo com os nervos à flor da pele. Eu também não deveria ter gritado
assim com ela. Tenho que ter mais paciência.
— É, verdade. — Lizandra assoprou mais fumaça para o ar, o olhar curioso e desconfiado observando
Cinthia iniciar suas posições de yoga.
— Com ela, no caso, minha mãe. — Cinthia reafirmou a mentira como se ela fosse parte da posição
de yoga. — Não deveria ter gritado assim com minha mãe.
Um silêncio quase físico tomou conta da pequena atmosfera, do espaço vazio de um metro entre
uma varanda e a outra. Lizandra terminou o cigarro como se estivesse praticando yoga. Cinthia fez
seus exercícios como se fumasse um cigarro. E nas poucas vezes que seus olhares se cruzaram,
Lizandra parecia querer perguntar mais coisas e Cinthia parecia querer pensar em formas antecipadas
de fugir do assunto. Entre uma esticada de perna e outra, sua cabeça ainda girava em torno do fato
de que alguém além dela sabia sobre a discussão que tinha acontecido. Ainda que não soubesse da
história inteira — e que aquela discussão na verdade tinha sido dela com ela mesma.
Apesar de suas palavras terem sido cartazes de protestos que gritavam uma exaustão e imploravam
uma auto aceitação, Cinthia só conseguia focar na pequena parte, naquela sutil-sutil parte, em que
ela mesma acabou deixando escapar que não deveria ter falado daquela maneira.
O jeito como brigou consigo mesma fez com que uma outra pessoa falasse da situação inteira como
se ela tivesse batalhando contra um inimigo. E a pergunta é — Estava ou não estava? Quem era o
inimigo?
Castor começou a miar irritado, arranhando a calça de Lizandra na direção de seu calcanhar.
Nesse momento, ela — a ranzinza e envergada — insegurança de Cinthia voltou com tudo. Ah, não
pense que isso foi um flerte. Olhe só pra você. Com essa franja? Com essa franja idiota? Você acha
mesmo? Uma garota dessas com alguém como você? Essa pessoa quadrada, com uma franja assimétrica
que pratica yoga depois de falar sozinha na frente de espelho? Você acha que ela falou isso querendo
mesmo dar a entender que você teria alguma mínima chance? Ou que ela repara em você de um jeito
bom? Ninguém repara em você de um jeito bom, Cinth. Estão todos rindo da gente e não com a gente.
É claro que todos sabem que existimos, como não saberiam? Quem não notaria nossa existência
completamente caótica? Agora olhe só pra essa menina e olhe só pra nós. Sério. Não se permita sorrir
sem graça e transformar isso em algo que definitivamente não é. Tenha pelo menos pena de si mesma
o suficiente para não se enganar de que uma garota dessas teria olhos para a menina que faz yoga na
varanda e “briga com a mãe”.
— Ei, o que você vai fazer mais tarde daí do outro lado da sua varanda? — Lizandra perguntou entre
os miados de Castor.
— Não. — Cinthia respondeu rolando a esteira de volta, rapidamente. Queria sumir dali com a
velocidade de uma lâmpada acendendo ao encostar de um interruptor.
— Não? — Lizandra encolheu os ombros. — Não parece um ótimo plano. Espero que você se divirta
fazendo “não”.
— Não, eu não quis dizer isso. Eu só — Cinthia respirou fundo, passando a mão pela franja como se
ela fosse crescer de volta ali mesmo. — Eu só tô meio cansada da minha mãe. Acho que preciso ficar
sozinha. Vou estar sozinha.
— Saquei. — Lizandra assentiu com a cabeça. — Eu ia te chamar pra ver um filme, mas tudo bem.
Fica pra próxima.
O coração de Cinthia foi acelerando contra todos os impulsos inseguros que tentavam boicotar o
que estava acontecendo.
— Por que? — ela perguntou, genuinamente. A mão suando frio tentando freneticamente fazer algo
sobre a própria franja.
Lizandra inclinou a cabeça para o lado. Porque ela sente pena de você, apenas por isso. Não acredite que
alguém como ela jamais, sob hipótese alguma iria cogitar est…
As duas se encararam por milésimos de segundos. O suficiente para que o rosto inteiro de Cinthia se
aquecesse. Queria simplesmente sumir dali e abaixou a cabeça, desnorteada. Apertando a esteira
enroladinha contra o próprio corpo. Uma tentativa de descontar em algum lugar a descarga de
energia que estava sentindo crescer no estômago.
— Acho que ouvi a minha mãe me chamando. — Cinthia apressou-se em dizer, deslizando a porta
de vidro com avidez. — Tchau.
Não deu pra ver o rosto de Lizandra e suas feições no momento que ela deu um tchau cauteloso,
baixo e desanimado. A porta foi fechada tão rapidamente, que o “Tudo bem” e “se cuida” ficou atrás
da vidraça. A voz de Lizandra que adentrou o quarto logo se dissolveu. E o silêncio foi dando lugar
aos sons internos.
Mas antes que a insegurança e a ansiedade começassem a fazer ruídos, Cinthia decidiu ligar sua
caixinha de som com “Lésbica e Ansiosa” no último volume. Se distraiu fazendo exercícios,
organizando as apostilas de cursos on-line que tinha recebido pelo Correio, recolhendo os copos
sujos de suplementos esportivos. Conforme ia maratonando o podcast do zero e limpando o próprio
espaço, foi percebendo aos poucos no que seu quarto tinha se tornado. Uma espécie de palco onde
a protagonista da peça era ela mesma — mas o roteiro era dos outros.
O roteiro foi lentamente construído pela opinião que cada pessoa tinha para dar no seu estilo de vida,
na sua aparência física, nos seus estudos e futuro. E como essas opiniões aumentaram desde o alarme
da chegada de uma pandemia. Como todos tinham algo pronto na ponto da língua para falar. E
como sua mãe — a quem culpava como vilã apenas para esconder seu segredo de falar sozinha — era
a única pessoa que a mandava pegar leve consigo mesma e ela completamente ignorava-a.
O quarto não parecia mais seu e o reflexo no espelho mais se assemelhava a um troféu humano.
Vitória de sua insegurança. Inclinou-se completamente a ser tudo o que ela queria e ainda não estava
suficiente. Porque nunca é o suficiente. Não importa o que façamos para mascara-la, não é curvando-
se as nossas inseguranças que ganhamos dela. Não é ouvindo o que os outros tem a dizer a nosso
respeito, que faremos as pazes com eles. Para nossas inseguranças — resultado direto do que muitas
vezes nos dizem os outros — nada nunca bastará. Quando acharmos que algo foi resolvido, algo novo
surgirá em total desagrado.
Nunca seremos o suficiente para o outro, porque o outro precisa tirar pedaços de nós para se sentirem
completos sobre seus próprios buracos. Buracos esses feitos por outras pessoas. Num ciclo infinito e
tóxico de diminuir alguém porque alguém te diminuiu.
Se é impossível agradar as nossas inseguranças e aos outros? A quem então agradamos? Para quem
então nos esforçamos? Quem sobra no fim das contas?
O reflexo no espelho de Cinthia se mantinha intacto enquanto todas as questões turbinavam sua
cabeça. É assim como o podcast tinha sugerido, ela decidiu evoluir no nível de “falar e brigar sozinha”
para se dar um primeiro abraço. Cinthia se abraçou diante do espelho, no fim de uma tarde. Beijou
as partes do braço que alcançou. Alisou a própria franja com carinho. Sentou no chão para que
também alcançasse os joelhos. Deixou beijinhos por toda parte.
— Eu fiz o melhor que eu posso. Eu estou fazendo o melhor que eu posso. Eu estou dando o meu máximo,
o máximo que eu consigo. Essa versão é a que eu tenho pra oferecer agora. Eu não preciso virar uma
borboleta no fim disso tudo. Ta tudo bem. Eu respeito meu tempo dentro do meu casulo.
Quando o podcast acabou e o abraço também. Cinthia ainda tinha coisas bonitas pra dizer a si mesma
em voz alta.
— Estou cansada de brigar com você e estou cansada de não te entender. Eu quero te entender. Eu
não diminuo sua frustrações. Só acho que você pode pegar mais leve comigo e segurar a minha mão
pra saber que somos iguais, que somos a mesma e que o lado ruim e bom da gente ocupam o mesmo
espaço. E podemos lidar com os dois sem começar uma guerra. Juntas a gente consegue parar de dar
ouvidos ao que dizem sobre nós, sobre quem somos de verdade. Isso quem tem que saber é a gente.
E a gente vai obter essas respostas, juntas. Eu estou cansada de te odiar. Eu quero te conhecer melhor.
Eu quero te conhecer do zero. Como se eu nunca tivesse te visto antes. Eu quero que você cresça,
amadureça, brilhe, crie asas e vire uma borboleta linda. No seu tempo. E eu vou respeitar o seu tempo.
É um trabalho de equipe. Lados ruins e lados bons juntos pela boa convivência dessa estrutura aqui.
Para sermos melhores cada vez mais. E, antes que eu me esqueça, já gritei tanto com você tantas vezes,
acho que nunca falei isso em voz alta, então lá vai: EU TE AMO. Eu amo tudo sobre você. Todas as
partes que os outros cospem, chutam, repudiam, botam defeito. Eu realmente amo. Você é linda.
Você não precisa ser a próxima capa de revista, você não precisa seguir todas as tendências de moda
inventadas. Você é linda. Linda, linda, linda. Eu amo me parecer com você. Eu tenho orgulho de me
parecer com você. Sei que as vezes acabo escutando o que os outros tem a dizer e sei também que o
processo de parar de fazer isso não vai ser fácil e não é linear. Mas eu prometo a você que sempre
retornarei a esse ponto de partida, até que eu esteja completamente longe de todos eles. De tudo isso.
De todas as coisas que te machucam. Porque eu realmente te amo. E é bom viver com você. Obrigado
por aguentar tanta coisa. Obrigado por tudo.
E então, Cinthia se deu outro abraço longo de olhos fechados. E eu sorri de longe, sabendo que a
semente que eu havia plantado estava finalmente germinando e agora eu podia flutuar para a janela
de outra pessoa. Cinthia vai ficar bem. Ela finalmente vai ficar bem.
— Feliz que você fez as pazes com a sua mãe. — Lizandra disse da varanda, assim que Cinthia
ressurgiu com uma pilha de coisas ensacadas.
— É, — Cinthia sorriu. — Eu também. Posso te perguntar uma coisa?
— Se eu puder te perguntar outra.
— É só se você sabe onde eu posso doar essas coisas que eu achei espalhadas no meu quarto. — O
olhar de Cinthia pousou sereno e orgulho em cima do saco recheado de objetos que ela havia
comprado para impressionar os outros na quarentena. — Nada disso me serve mais, não sei se um dia
serviu.
— Eu posso examinar esse saco de longe depois e te ajudar a se livrar disso. — Lizandra assentiu com
a cabeça, corando para a próxima coisa que iria dizer. — Minha vez de perguntar.
— Hum, ok? — o coração de Cinthia acelerou no peito.
— O convite pra ver filme ainda tá de pé?
— O convite pra ver filme tá praticando yoga numa esteira.
— Isso é um sim?
— É.
— Quando?
— Pode ser amanhã? Hoje eu já combinei de ver com a minha mãe.
— Combinado. — Os olhos de Lizandra brilhavam. — Ah, antes que eu esqueça e o elogio se perca
pra sempre na minha cabeça… Gosto da sua franja.
— Ah. — Cinthia passou discretamente a mão pelo cabelo. — Obrigada, descobri que também gosto
muito dela.
— Amanhã então?
— Amanhã então.
Cinthia voltou para o quarto, se aninhou entre os travesseiros da cama, sorriu para si mesma e viu
um filme sozinha.
Joyce acordou completamente de mau humor, mas isso não estava previsto para durar muito tempo.
No celular, uma mensagem já a aguardava faziam algumas horas. Desbloqueou a tela e lá estava.
“Preciso conversar com você uma coisa. Te contar na verdade. Papo sério, me liga”. Era Lizandra.
Sua colega de turma. Atual melhor amiga de faculdade. É, você sabe, aquela única menina que a gente
conhece num semestre e por sorte ou reza não desgruda nunca mais enquanto vai acumulando
pequenas inimizades e ranços por todo campus.
Mas, para Joyce, Lizandra era mais que uma amiga. Só que isso ainda era um segredo de estado. A
descoberta da sexualidade de Joyce foi um pouco incomum (pra não ser brutalmente honesta e falar
logo muito, extremamente). Geralmente as pessoas se descobrem sem muito contexto ou apoio de
backup. Sem ter muito em quem se espelhar pra isso. Dentro do armário, passam boa parte do tempo
solitários. Esperando o temido momento de sair. E contar ao mundo que “Sim, eu amo em outras
cores”.
Com Joyce o processo foi completamente atropelado. Existia uma dúvida sutil, estava lá desde que
usava aparelho e ainda não entendia muito bem como beijos de língua funcionavam nas rodinhas de
Eu Nunca. Sabia que existiam meninas que beijaria, mas sabia também que não tinha coragem para
isso. Sabia que Alana ficava com mulheres, mas sabia que apenas com as assumidas. Sabia que as
“assumidas” geralmente eram muito bonitas e não usavam aparelho. Sabia que Lucas queria tirar o
seu bv. Sabia que Alana também ficava com Lucas. Sabia que Lucas tinha sugerido que Alana
participasse do beijo. Não sabia o que dizer a isso. Enrolou por semanas até que dissesse sim. Sabia
que o beijo de Lucas tinha sido ruim. Sabia que o de Alana tinha sido o oposto. Sabia que agora Lucas
e Alana estavam namorando e Alana só podia ficar com meninas se Lucas deixasse. Sabia que Lucas
não curtia suas fotos à toa. Sabia que Alana entendia de anatomia humana e só estava dando
desculpas para que elas ficassem cada vez mais à sós. Sabia que nenhuma das duas tinha coragem de
concretizar o ato escondido. Sabia que quando Lucas apareceu na biblioteca, entenderia tudo como
traição. E sabia que para amenizar as fofocas, teria que finalmente aceitar o convite pra sair com
Moisés. Que depois viraria ficar sério. Sabia que Ivana gostava de Moisés porque ele era gentil, levava
as duas para tomarem sorvete no fim de semana e tinha carro. Sabia que Alana tinha cortado o cabelo
na altura do queixo e colocado um piercing na sobrancelha. Sabia que tinha terminado com Lucas.
Sabia que trair Moisés não era uma opção, porque ele era um bom garoto. Sabia que a mãe de Moisés
estava doente. Então, quando Alana apareceu nas notificações do Instagram, sabia que precisava
ignorar. Sabia que Moisés iria se mudar de cidade, depois da morte da mãe por câncer de útero. Sabia
tudo sobre câncer de útero, porque sabia que queria ser médica. Sabia que Fernanda beijava bem,
porque foi a primeira coisa que fez na primeira festa clandestina de vestibulandos que foi depois que
Moisés foi morar do outro lado do estado, deixando o namoro pra trás. Sabia que Alana ficaria com
ciúmes. Sabia que a discussão traria de volta as memórias da biblioteca. Sabia que Alana estava se
aproximando para beija-lá de novo. Sabia que tinha gente por perto. Sabia que ninguém sabia sobre
ela. Sabia que precisava sair do armário primeiro, para que as coisas com Alana dessem certo.
Não sabia como sair do armário. Ensaiou por muito tempo. E quando finalmente sabia o que dizer,
quem saiu do armário foi Ivana. Dando a ela o título de “única filha hétero a quem podemos contar
para sermos legitimamente avós” e conversas desse tipo. Foi criando sobre ela uma expectativa
completamente heterossexual e perfeccionista. A filha hétero e médica, no extremo oposto da nova
lésbica do pedaço — que nas horas vagas era apenas sua irmã caçula.
Sabia que Alana não iria esperar mais. E sabia que ela estava feliz quando viu suas fotos novas com
ninguém mais e ninguém menos que a Fernanda, daquela festa. Sorriu sem graça, mas chorou logo
depois. Não era culpa de Ivana, mas teve seu momento completamente roubado pelo medo
paralisante de ter dos seus pais a mesma reação horrível que Ivana teve quando reuniu todos na sala
e contou sobre ser lésbica.
Agora vivia de pequenas mentiras. Sim, sou hétero. Não, não acho sua escritora favorita bonita. Não
sei de que podcast você está falando. Não sou apaixonada pela minha melhor amiga de faculdade.
Sabia que era. Sabia que Lizandra era ainda mais bonita que Alana. E que representava todas as
qualidades que ela admirava em alguém. E que também era bacana como Fernanda, charmosa como
Alana e gentil como Moisés. Quando Lizandra aparecia para levar ela e Ivana para tomar sorvete,
sempre ficava faltando o momento do beijo. Que nunca quis de verdade vindo de Moisés, mas que
sempre quis dela. Da boca dela.
Decidiu assistir sua previsão do tarot antes de responder àquela mensagem. E tudo o que o tarot dizia
era que ela chamaria a atenção e despertaria interesse sentimental de alguém que ela muito admirava.
Lizandra passava como um trailer de filme em sua cabeça durante toda a previsão da taróloga do
YouTube. Quis muito acreditar, mas teve medo de acreditar. Preferiu encarar logo, antes que fosse
tarde demais.
O coração acelerando.
— Parece que meu coração vai sair pela boca. — Lizandra continuou falando ao telefone, tentando
segurar uma risada desconcertante. — Nunca mais tinha me sentido assim por uma menina na minha
vida e eu acho que você precisa finalmente saber disso. Eu acho que já passou da hora de te contar.
Joyce acordou completamente de mau humor, mas isso não estava previsto para durar muito tempo.
No celular, uma mensagem já a aguardava faziam algumas horas. Desbloqueou a tela e lá estava.
“Preciso conversar com você uma coisa. Te contar na verdade. Papo sério, me liga”. Era Lizandra.
Sua colega de turma. Atual melhor amiga de faculdade. É, você sabe, aquela única menina que a gente
conhece num semestre e por sorte ou reza não desgruda nunca mais enquanto vai acumulando
pequenas inimizades e ranços por todo campus.
Decidiu assistir sua previsão do tarot antes de responder àquela mensagem. E tudo o que o tarot dizia
era que ela chamaria a atenção e despertaria interesse sentimental de alguém que ela muito admirava.
Lizandra passava como um trailer de filme em sua cabeça durante toda a previsão da taróloga do
YouTube. Quis muito acreditar, mas teve medo de acreditar. Preferiu encarar logo, antes que fosse
tarde demais.
— Joy? — A voz de Lizandra parecia trêmula e embargada no telefone. — Preciso te contar algo que
eu não sei exatamente como começar.
— Parece que meu coração vai sair pela boca. — Lizandra continuou falando ao telefone, tentando
segurar uma risada desconcertante. — Nunca mais tinha me sentido assim por uma menina na minha
vida e eu acho que você precisa finalmente saber disso. Eu acho que já passou da hora de te contar.
Joyce estava prestes a ter um piripaque enquanto vivia o maior dejavu de todos os tempos. Não podia
acreditar no que estava acontecendo. Nenhum livro de medicina havia a preparado para aquilo. Ou
explicado como o cérebro e o mundo podiam estar conectados a ponto de reproduzir um sonho na
vida real.
Ou não.
Os olhos começaram a se encher de lágrima.
— O nome dela é Cinthia. Ela é a minha vizinha de varanda. Eu finjo que não sei que ela fala sozinha,
mas eu sempre soube. Finjo pra deixar ela mais confortável. Sei que ela não se sente pronta pra contar
sobre isso pra ninguém, mas Joy!
— Hum?
— Quanto mais eu escuto ela conversando com ela mesma, mais eu percebo o quanto ela é uma
pessoa incrível e apaixonante. Eu acho que ela nunca reparou em mim antes e essa quarentena
finalmente veio pra isso. Tipo, essa é a minha chance.
E correu para o quarto de Ivana como uma reação completamente inesperada até de si mesma. Não
sabia que iria fazer isso, nem o que estava sentindo exatamente.
— Meu Deus, Joy, — Ivana arregalou os olhos quando Joyce apareceu em pedaços na porta do
quarto. — Desculpa ter pego seu carregador.
Mas, quando Joyce se jogou na cama da irmã chorando em silêncio, Ivana entendeu que não se
tratava exatamente disso. Não demorou muito pra que ligasse os pontos na cabeça. Lizandra tinha
postado um story vendo um filme por projetor na parede de um prédio com uma menina misteriosa.
Ivana abraçou a cabeça de Joyce com cuidado e deixou que ela chorasse até que pegasse no sono.
Quando Joyce acordou, o quarto de Ivana parecia um mundo completamente diferente. Vários
lençóis amarrados com pisca-pisca acima de sua cabeça na cama.
— Viu? — Ivana ergueu as sobrancelhas, com seu olhar serelepe. — Você também merece uma
cabana.
— Ivana… — Joyce tentou se levantar para começar a explicar. Não sabia (pela milésima vez em sua
vida) necessariamente o que dizer.
— Eu sou sua irmã. Eu sei. — foi o que Ivana disse. — Agora vamos maratonar lésbica e ansiosa, o
podcast da minha autora preferida que você nem acha bonita. Ela lançou uma fita que talvez você
precise ouvir.
— Ta, mas — Joyce olhou ao redor antes de falar baixinho. — Eu acho ela bonita. Bonita não.
Bonitinha.
E Ivana deu play na quarta fita do podcast. Escutaram juntas até perto do final, quando o celular de
Joyce vibrou. “Você acabou de dar um match”.
Pause.
— O que é isso?
— Baixei um aplicativo de relacionamento só pra você dar risada rolando pelas garotas. Sei la, fazer
algumas amigas que te entendam e que não te troquem por vizinhas de varanda. — Ivana usou um
tom debochado, se afastando numa distância segura de Joyce. — Você esqueceu seu celular
desbloqueado.
— Você leu minha conversa?
— E baixei… um aplicativo… pra você ser feliz?
— Ivana…
— Vamos voltar pra fita. Depois você pode me assassinar e enterrar sua carreira como médica.
— Você é ridícula.
— Deixa eu ver com quem você deu match. — Ivana capturou o celular da irmã da cama sem
permissão. E já foi logo se enchendo de risadinha. — Eita, norr1. Essa daqui leu o amor não é óbvio.
— Tanto faz, dá de novo play na fita, eu tava gostando.
— Você que manda, chefia.
Play.
— “Norr1”… — Ivana sorriu olhando para a irmã que encarava fixamente a caixinha de som
balançando a cabeça positivamente, deixando sorrisos sutis escaparem. — Que engraçado.
ELAYNE
Existe uma coisa que não te contam sobre a internet e se te contam, acredite, ainda é pior do que
parece — ela acaba com sua autoestima. E junto a isso, com a sua saúde mental. Rumores, fofocas,
piadinhas de mal gosto, saber que pessoas dedicam tempo apenas para ir até as suas coisas escrever
algo ruim, tudo isso pode ser bastante sugativo. E, se você não tiver uma cabeça “boa”, “no lugar” é
ainda pior. Muitas vezes as pessoas na internet acreditam que podem e devem descontar suas
frustrações pessoais nos outros. Acham que quanto mais seguidores alguém tem, mais aquela pessoa
se torna de aço. A responsabilidade que é dada para alguém que cresce dentro do contexto da internet,
é sobre-humana. A depender do seu número de seguidores, você não pode errar. Nem pode tirar
férias (e isso não é ditado exclusivamente pelo público — o algoritmo não vai te deixar tirar férias).
Quando você descansa, seus números despencam. E as pessoas que te acompanham, as vezes
acanhadas, acham que o comentário delas não vai ter tanta relevância se já tem outros sendo feitos.
Nessa lógica coletiva, se perde o triplo do engajamento que se teria. Números continuam
despencando. A ansiedade bate. As comparações começam. As marcas somem. Os trabalhos
diminuem. E a pergunta sempre sobrevoa a cabeça: Não seria melhor desistir disso? Tentar um
emprego mais convencional? Trabalhar com outra coisa.
Quanto mais o tempo passa, mais a internet nos mostra que sempre será impossível de agradar a todo
mundo. Guerras são iniciadas por opiniões que se colidem. As pessoas se dividem no que pensam e
em como demonstram isso. Em um deslize, você vira meme nacional ou a nova piada da vez. Às vezes
as pessoas cavam os próprios buracos na internet, se colocam em situações complicadas. Quem vê de
fora sempre justifica com um “daqui a pouco passa e tá tudo bem”. Mas cada ferida causada por
situações vividas nesses não sei quantos “K” contra um demora muito para sarar e às vezes não sara
nunca. Vira um trauma. Vira pauta na terapia. Vira motivo para aumentar dosagem de remédio. Vira
não conseguir aparecer ou postar nada. Vira querer que tudo se exploda, arrumar as malas e passar
um tempo numa cidade interiorana e praiana.
Só que é impossível se desligar completamente quando tem tanta gente que precisa e está com
(independente de precisar de) você. Para Elayne, no início, o podcast Lésbica e Ansiosa era só uma
forma de distração. A ansiedade — atingindo seu pico máximo na pandemia, com o acúmulo de
tantos problemas pessoais — precisava ser descontada em alguma coisa. E quando o Feedback de
retorno era “ouvir suas fitas acalmaram minha ansiedade” tudo parecia fazer sentido. Estava tudo
conectado e perfeitamente encaixado. Como peças num quebra cabeça.
Mas, ainda que houvesse uma imensa satisfação e sensação de dever cumprido com a entrega de
conteúdos que mirabolava, faltava algo. Sua ansiedade ainda pinicava o travesseiro antes de dormir.
A depressão nunca apareceu nas selfies bem tiradas. E a sensação de impotência e de querer coisas
que não podia ter preenchia várias lacunas internas. Tornava tudo cansativo nos bastidores. Era
sempre pelos outros, porque para si mesma fazia cada vez menos sentido.
Pensava em como seria um mundo que ela não existisse. E se faria mesmo falta. Lembrava de traumas
que não conseguia esquecer. Torcia pela próxima sessão de terapia (quando podia pagar). Colocava
os fones no ouvido e imaginava uma vida ideal, num canto ideal, onde pudesse ter uma paz esquisita.
De quem canta as músicas que mais gosta muito, muito alto. Onde pudesse ser quem sempre foi,
longe de amarras e travas internas.
Queria saber como seria trocar de lugar. Ser a pessoa que tem um podcast como lésbica & ansiosa
para escutar, um romance como o amor não é óbvio para ler e alguém que cria conteúdo com as
ideias dela para se segurar. Desde nova, nunca tinha encontrado algo que realmente a tivesse
abraçado e que ela genuinamente tivesse se identificado. Saber que outras pessoas podiam perder o
que produzia a agoniava de uma maneira, que diminua os seus próprios problemas para aparecer no
dia seguinte nos stories. Um sorriso, uma boina, uma música. Uma fita nova, um livro novo.
Tudo sobre os outros. Para os outros. Para que meninas se vissem, se enxergassem, se percebessem
em tudo e qualquer coisa que criasse. Que saísse de sua cabeça para as telas dos celulares e
computadores. Dentro da casa e do peito das pessoas.
Até chegar Sozinhas e a Querida Quarentena. Que ainda que falasse coletivamente sobre a
necessidade de aprender a ser sozinha...
Era finalmente,
A primeira coisa sobre ela.
Para ela.
Que ela conseguisse algo.
Que fosse apenas seu.
E foi a primeira vez que todos os outros que observavam viraram sua autora, sua podcaster, sua mão
para se segurar. Viraram a base e a estrutura. Ela esteve lá por todas as outras quando não conseguia
nem estar por si mesma. Mas, agora? Todas as outras também estavam lá de volta. A postos. Prontas
para segurá-la.
Antes de se mudar de estado, Elayne decidiu uma última coisa em cima da hora: chutar o pau da
barraca, jogar tudo pro alto e ir passar férias em São Patrique. Não esperava que os planos fossem por
água abaixo. Não esperava a quarentena. Não esperava que fosse ficar presa num hotel, dissolvendo
de tanto tédio. Não esperava que fosse sorrir tanto conversando com uma misteriosa — estranha.
Joyce e Elayne conversaram por horas sem saber quem eram e sem se importarem com isso. Gostavam
de coisas muito parecidas, mas uma também odiava coisas que a outra idolatrava. Tinham visto a
mesma novela na mesma época. Ambas achavam comida japonesa boa demais, com exceção de
qualquer prato com lulas e como isso era desrespeitoso com Bob Esponja e a infância de ambas
acompanhando tv globinho e outras coisas. Se flertavam nas entrelinhas. Ainda que o assunto sempre
voltasse para Lizandra e ainda que Elayne fugisse de responder qualquer coisa sobre seu lado afetivo
— completamente trancado e indisposto.
Ouviram músicas juntas. Dividiram playlists de YouTube. Trocaram indicações de série. Joyce disse
que sempre quis ser beijada como se estivesse num filme. Elayne digitou coisas que preferiu não
enviar. Joyce sentiu frio na barriga todas as vezes que teve que ler sobre sonhos com roteiro, porque
admirava em qualquer pessoa a vontade de tentar — que ela também tinha com medicina. Elayne a
lembrava Alana, Fernanda, Moisés, Lizandra, mas era só Elayne. Joyce para Elayne era um leve “ainda
bem que baixei essa porcaria, a internet as vezes é massa demais”.
Quis passar seu WhatsApp para Joyce pelo menos cinco vezes naquela conversa.
Joyce digitou o próprio número, enviou, mas Elayne apagou para ela mesma a mensagem.
Certificando-se de não procurá-la depois num impulso.
Estavam ali apenas para gastar um tempo. Ou ganhar um tempo. Depende da forma que se interprete
um encontro desencontrado. Eu já havia visitado as duas mais vezes do que podia contar e foi
crescendo uma empolgação na atmosfera de saber que quanto mais se falavam, mais gostavam de se
falar, — porém, ainda assim, tinha a certeza segura de que não necessariamente precisavam daquilo.
Aquilo, o encontro colidido das duas, numa longa tarde de conversa, era uma sorte ocasional. Dessas
de uma vez na vida. Quando se apaixona num ônibus e desce no ponto. Quando se tem nas mãos o
bilhete premiado da rifa. Quando se troca olhares com alguém bonito em lados opostos da festa sem
a necessidade de saber o nome. Voltando para casa com nada além da pequena e curta memória — e
da sorte. Sobretudo, da sorte.
A melhor parte é — quando depois disso tudo — a vida não para. Tudo continua no seu percurso.
É como se a sorte ocasional fosse quase imperceptível. Porque ela é minúscula perto do calor do dia
a dia. Da nossa própria companhia. E da maior sorte de termos a nós mesmos, quando tudo passa.
Até as pequenas sortes.
justagirl: Obrigada, norr1, eu amei falar com você. Mas preciso apagar essa porcaria agora e me virar
sozinha.
norr1: tudo bem, vá em frente, apague o aplicativo e seja feliz.
justagirl: Se essa conversa tivesse sido numa festa, eu beijaria você antes de entrar no uber.
norr1: eu não ia te deixar entrar num uber e ir embora antes de me beijar.
justagirl: Você podia me passar seu Instagram.
norr1: você não precisa de um flerte agora, lembra? Você precisa aprender a ficar sozinha e superar
seu coração partido.
justagirl: Bom ponto.
justagirl: Obrigada.
justagirl: De verdade.
justagirl: (Meu obrigada foi o beijo na boca antes do uber).
norr1: de nada.
norr1: (Meu de nada foi o beijo na boca antes do uber).
justagirl: Ok, então, como acontecem nas festas… Adeus! até a próxima calourada universitária.
norr1: até.
justagirl: Até.
justagirl: O tarot podia ter me dito algo sobre você.
norr1: ??
justagirl: O tarot tinha me dito que alguém que eu
justagirl: Nada Kkkkk esquece. Doideira minha. Se cuida.
norr1: tu também!
Hora de arrumar tudo para ir embora. São Patrique havia liberado o percurso inteiro rodoviário e as
estradas para o aeroporto — com o intuito de que seus turistas pudessem voltar pra casa em segurança
depois de cumprirem suas quarentenas no hotel. Quinze dias ou um mês desde isso tudo? Difícil
contar o tempo. Por isso ele passa torto em cada história. Na quarentena, perde-se a noção das horas.
Mas há quem diga que ganha-se tempo consigo mesmo. O que pode ser mais valioso que isso? —
Que o estar consigo mesmo? Nascemos dentro de nós. Estaremos dentro de nós até o fim dos tempos.
Talvez esteja na hora de nos conhecermos cada vez melhor, por dentro. É que todo tempo que tiver
que ser gasto, seja gasto consigo. Porque deixa de ser um gastar. Vira um ganho. Vira um mundo.
Vira um lugar seguro. Você nunca está sozinho, se está consigo — dentro de si. O que pode ser mais
importante do que aprender a morar na primeira, na última, na única casa que temos?
/\
Nós.
Nas solicitações de mensagem, perdida entre respostas em stories, estava um “Obrigada, de verdade.
Passando para agradecer, porque desde que minha irmã me mostrou seu podcast tudo mudou. Estou
finalmente me conhecendo melhor enquanto lésbica e disposta a aprender a ser sozinha. Valeu
mesmo! Um abração de São Patrique! ” — @joycesarine_
Ao que Elayne respondeu com um “Ei, xuxu que coisa bonita de ler. Muito obrigado! Boa sorte
por aí”
Ah, a internet tem sim seu lado não-bonito. Mas tanta troca bonita sai dela, não é mesmo? Elayne
sorriu para mensagem novamente e bloqueou o celular. Guardou no bolso, entrou no uber sem beijo
nenhum. Não fazia ideia de — com quem havia acabado de falar.
Cada uma seguiu o seu caminho completamente oposto sem fazer ideia do que havia acabado de
acontecer naquela janela de conversa. Eu sei que um romance incrível sairia disso, mas não era
necessário agora. Elayne foi cantarolando “Harry” da cantora Kelsy Karter para o aeroporto, Joyce
foi para o banheiro hidratar o cabelo ao som de uma fita do podcast Lésbica e Ansiosa.
Estavam bem.
Sozinhas.