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Os paratextos no século XXI: novos olhares, novas realidades
Paratexts in the 21st century: new perspectives, new realities
Fernanda Moro Cechinel
RESUMO: O presente artigo tem como objetivo apresentar a evolução dos prefácios, a partir da análise
desses nas edições brasileiras da Divina Comédia, publicadas entre os séculos XX e XXI, baseando-se no
formato, na autoria e no conteúdo dos elementos paratextuais.
Palavras-chave: Prefácios. Edições brasileiras. Divina Comédia.
ABSTRACT: The aim of the present article is to present the evolution of prefaces, through their analysis in
Brazilian editions of the Divine Comedy, published between the twentieth and the twenty-first centuries.
The research is based on format, authorship, and in the content of the paratextual elements.
Key words: Preface. Brazilian editions. Divine Comedy.
No ano de 1968, a editora Oscar Mondadori, lançou L’avventura d’un povero
cristiano, do escritor abrucês Ignazio Silone. No livro, além do desenrolar da trama, o
leitor se depara com uma série de elementos paratextuais, dos quais, destacamos o que
se intitula “Quel che rimane”. Nesse paratexto introdutório à obra, o escritor remonta sua
trajetória de pesquisas e deslocamentos em busca de reunir materiais para a escrita de
seu texto, que torna fluído o limite entre realidade e ficção. Dificilmente, poderia se
pensar nesse livro sem esse aparato, cuja existência contribui e muito para a
inteligibilidade da trama.
L’avventura d’un povero cristiano narra o percurso vivido pelo eremita Fra Pietro
Angelerio, seguida da sua eleição para ser papa, tornando-se Celestino V, seu breve e
conturbado papado, cerca de três meses, posterior renúncia, prisão e morte. Tudo isso
compreendido no espaço de tempo que vai de 1294 a 1295.
Alguns anos depois de ocorridos esses fatos, no início do século XIV, o escritor
Dante Alighieri, devido a divergências políticas, era exilado de sua amada Florença. Logo,
começou o seu vagar por várias cidades, cujo percurso certo é até hoje desconhecido,
bem como, acredita-se, iniciou a escrita da obra que o colocaria no hall da literatura
mundial, Comédia, que anos depois veio a ser Divina, tornando-se, Divina Comédia.
Diferentemente de Silone com L’avventura d’un povero cristiano, Dante, na sua
Divina Comédia, não nos deixou um prefácio, o leitor teria então diante de si, “apenas” o
texto dantesco.
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Contudo, os séculos se passaram e o aparato paratextual que cerca a obra
dantesca foi sendo criado e transformado. Eis que chegamos as edições brasileiras dessa
obra. O leitor mudou, o contexto mudou, a língua mudou, o livro mudou, mas e os
paratextos? Eles foram sensíveis a essas mudanças? Esse é o objetivo do presente artigo,
tratar das mudanças paratextuais, ocorridas entre os séculos XX e XXI, tendo como base
as edições brasileiras da Divina Comédia.
Esse artigo é fruto da disciplina “Os paratextos no século XXI: novos olhares,
novas realidades”, ocorrida no segundo semestre de 2023, junto ao programa de
Pós-Graduação em Literatura (PPGLit), da Universidade Federal de Santa Catarina
(UFSC), ministrada, em parceria, pela autora desse artigo e a professora Silvana de
Gaspari, responsável pela disciplina. A disciplina, por sua vez, foi fruto da tese
Commedia: paratextos das edições brasileiras do século XX (2023)1, cuja continuidade se
deu por meio do Projeto Conectando Culturas (CNPq 407739/2022-0).
O Projeto Conectando Culturas, proveniente do Núcleo de Estudos
Contemporâneos de Língua e Literatura Italiana (NECLIT), vinculado a UFSC, visa, por
meio de diversas ações, colocar em debate questões relacionadas ao ensino de línguas,
tradução, circulação de obras literárias e outras temáticas relevantes na
contemporaneidade da área das Letras.
E um dos terrenos profícuos para essas reflexões foi a disciplina “Os paratextos no
século XXI: novos olhares, novas realidades”, desenvolvida nas seguintes etapas:
panorama sobre aspectos centrais dos paratextos segundo Gérard Genette (2009);
reflexões sobre as transformações ocorridas com tais elementos ao longo dos anos;
relação desses elementos com o livro, especialmente a partir das obras literárias
traduzidas, cujo foco recaiu nos paratextos no século XXI e sua relação com o digital.
O ponto de partida da disciplina foi a ambientação dos presentes acerca dos
paratextos, por meio de um breve panorama histórico e características desses
elementos. E nesse momento, uma das primeiras constatações foi que, apesar dos
paratextos serem um termo desenvolvido pelo francês Gérard Genette, nos anos de 1980
e o considerável número de pesquisas nessa área, dentro da academia, ao menos no
grupo participante dessa disciplina, era um termo pouco explorado.
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Link de acesso a tese: https://tede.ufsc.br/teses/PLIT0925-T.pdf
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Ultrapassada essa primeira etapa, num segundo momento, mostrou-se desafiador
sair da perspectiva do paratexto pela tradução e trabalhá-lo pela perspectiva da
literatura.
Nossa proposta não é romper com a tradução, até porque acreditamos que os
paratextos, ao pensarmos na literatura traduzida, estão situados no limiar entre
tradução e literatura, mas sim, propor um novo olhar, um novo viés para os estudos
paratextuais, ou seja, um olhar que tenha como ponto de partida e base, a literatura.
Se pensarmos, em breves linhas, no caso brasileiro, partimos do fato de que a
atividade editorial no país é recente, data de pouco mais de 200 anos. Quando a
produção livreira começou no país, o público e as publicações eram exíguos, por isso
lançou-se mão da tradução. E o que deveria constar nessas edições de traduções?
Possivelmente, das obras traduzidas no começo do século XX, alguns títulos eram
conhecidos do público letrado. Todavia, para uma parcela de leitores, aquele poderia ser
o primeiro contato com aquela obra literária, que provinha do exterior. Sendo assim, os
paratextos aqui cumpriam o papel de, além de apresentar a obra literária ao seu leitor,
localizá-la dentro da literatura mundial. Um exemplo disso, encontramos no prefácio de
Antonio Piccarolo, no qual há a contextualização da obra no tempo e no espaço: “[...]
achamos indispensável iniciar este breve estudo sôbre Dante e sua obra, com um quadro
geral das condições históricas em que o poeta viveu e escreveu o seu poema imortal”
(PICCAROLO, 1946, p. XII).
Podemos pensar, também, que os paratextos de obras traduzidas tinham e têm
como função fisgar o leitor para a leitura de uma obra estrangeira em detrimento de uma
nacional, para tanto, reitera-se a importância da obra.
Por sua vez, após o mercado de obras literárias traduzidas já estar consolidado,
chega a hora das reedições, que poderiam se apresentar com paratextos de edições
anteriores, até pensando numa recuperação histórica ou até mesmo, novos paratextos,
substituindo os anteriores, indicando uma nova inserção da obra no tempo. Um estudo
da obra, mostrando sua maturidade ou refletindo aspectos ligados à tradução, também
pode ser uma opção desse tipo de paratexto.
E é esse pensar a evolução dos paratextos a partir da literatura que conduzirá
esse artigo. Nosso recorte aqui serão os prefácios, cuja análise dar-se-á a partir de três
aspectos: formato, autoria e conteúdo.
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Como indicado anteriormente, não há dados bibliográficos que indiquem a
existência de um prefácio original da Divina Comédia feito por Dante Alighieri. Há uma
corrente de pesquisadores, dentre os quais Giorgio Petrocchi, que tem o primeiro canto
do Inferno, como sendo uma introdução à obra.
Ao lermos algumas introduções presentes nas edições da Divina Comédia,
encontramos alguns prefaciadores que ratificam esse pensamento. Como exemplos,
podemos citar a edição de 1907, na qual, o editor, H. Garnier, indica que a obra “[...]
consta de três partes: Inferno, Purgatório e Paraíso [...]. Cada uma dessas partes consta
de 33 cantos, tendo a primeira mais um como introducção” (GARNIER, H., 1907, p.
VI-VII). Bem como, a edição bilíngue da Editora 34, cuja “Nota biográfica de Dante
Alighieri”, também indica esse primeiro canto do Inferno como introdução ao texto
dantesco:
O poema é dividido em três livros, cada um formado por 33 cantos (com
exceção do Inferno, com 34, já que o primeiro canto serve de introdução ao
conjunto do poema), escritos em terceto de decassílabos rimados de modo
alternado e encadeado [...]. (Alighieri, 2004, p. 238).
Contudo, em outros prefácios, como o escrito por J.A. Xavier Pinheiro, para a
edição de 1918, considera o canto I como integrante do Inferno, perfazendo 34 cantos,
“[...] que traduziu os 34 cantos do << Inferno >>, os 33 do << Purgatório >> e os 33 do <<
Paraíso >>” (1918, s.p.).
De acordo com Genette, o prefácio original, quando junto a sua obra – recurso
utilizado nos primórdios dos prefácios devido a uma questão de economia - deveria
conter: “invocação à musa, anúncio do assunto [...] determinação do ponto de partida [...]
justificativas da dedicatória” (GENETTE, 2009, p. 147).
Ao lermos o primeiro canto do Inferno e cotejarmos com as características
apresentadas por Genette (2009), não observamos diretamente uma “invocação à musa”,
mas algo similar, uma espécie de pedido de Dante a Virgilio para que esse o deixasse
segui-lo. Virgilio responde que o guiará até determinado ponto e que, depois, uma alma
mais nobre - Beatriz - o conduzirá:
- “Vate, rogo-te” – eu disse – “me concede,
Por esse Deus, que nunca hás conhecido,
Porque este e maior mal de mim se arrede.
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Que, até onde disseste conduzido,
À porta de São Pedro eu vá contigo
E veja os maus que houveste referido”
(Alighieri, 1995, Inferno, Canto I, vv 131-135)
Sobre o “anúncio do assunto”, ou seja, a viagem pelo mundo dos mortos, temos:
Na morte há pouco mais de acerbidade;
Mas para o bem narrar lá deparado
De outras cousas que vi, direi verdade.
(Alighieri, 1995, Inferno, Canto I, vv 7-9)
Por sua vez, a “determinação do ponto de partida” são os célebres versos que
iniciam o canto I:
DA nossa vida, em meio da jornada,
Achei-me numa selva tenebrosa,
Tendo perdido a verdadeira estrada.
(Alighieri, 1995, Inferno, Canto I, vv 1-3)
E, por fim, as “justificativas da dedicatória” não as vemos explicitamente, contudo
acredita-se que Dante tenha escrito a sua Divina Comédia para que o homem medieval
pudesse ter consciência de que é a sua trajetória em vida que o conduzirá, após a morte,
a ocupar o inferno, o purgatório ou o paraíso.
Ao total, selecionamos 222 edições da obra dantesca, publicadas no Brasil entre os
séculos XX e XXI. Essa seleção teve, basicamente, três critérios. Primeiramente, partimos
da lista de edições cadastradas no Dicionário Bibliográfico de Literatura Italiana
Traduzida (DBLIT)3, dessa, fomos reunindo as edições que conseguimos ter acesso e, de
acordo com a disponibilidade de tempo, foram possíveis de serem analisadas.
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Contudo, para efeitos de cálculos utilizaremos 21 edições, já que, no ano de 1946, duas edições idênticas
foram lançadas, uma pela Edigraf e outra pela Leia. Apesar de, na edição da Edigraf constar o indicativo
“Copyright da Livraria Editôra Importadora Americana (1946) – gentilmente cedido à GRÁFICA E
EDITÔRA “EDIGRAF” LTDA. para esta edição especial” e, acreditarmos que Leia significa Livraria Editôra
Importadora Americana, não encontramos outros documentos que respaldem tal pensamento.
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Link de acesso ao Dicionário: https://www.dblit.ufsc.br/
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Das edições selecionadas, 3 não possuíam prefácios, 1 edição do século XX e 2
edições do século XXI. As três edições sem textos introdutórios são dos anos de 1931,
2002 e 2020.
A edição de 1931 pertence à editora João do Rio, contendo o Purgatório. Vale
ressaltar que, essa edição foi publicada originalmente em fascículos e a edição do ano
anterior, contendo os cantos do Inferno, possuía prefácios, logo, isso pode nos indicar
que, originalmente, esses materiais pretextuais possam ter existido, mas com o passar
do tempo, na edição analisada, foram extraviados.
A edição de 2002 publicada pela Editora Nova Cultural, trata-se, segundo dados
indicados na própria edição, de uma publicação patrocinada pela empresa Suzano, as
indicações paratextuais que circundam o texto dantescos são, na verdade, publicidades
relacionadas a empresa patrocinadora, não se caracterizando como prefácios ou
posfácios. Todavia, essa edição se destaca por um episódio ocorrido fora das páginas do
livro. Quem assina a tradução é Fábio M. Alberti, contudo, descobriu-se que, na verdade,
a tradução ali contida é de Hernani Donato, causando problemas jurídicos na época da
publicação4. Curioso notar que não se tem informações sobre quem seria Fábio M.
Alberti, se se trata de um pseudônimo ou mesmo se foi uma criação da editora.
Semelhante fato ocorre com o tradutor da edição da João do Rio, mencionada
anteriormente, Dr. Cézar Augusto Falcão, cujos dados também não se encontram.
A outra edição sem prefácio foi lançada em 2020, pela editora Principis, em três
volumes – Inferno, Purgatório e Paraíso – contendo a tradução de José Pedro Xavier
Pinheiro. Do tradutor também analisamos outras edições: 1907, 1918, 1946 e 2002,
todas elas constando de, ao menos, um prefácio com autoria diferente para cada edição.
As editoras responsáveis pelas publicações também mudaram no decorrer dos anos,
Garnier, editor Jacintho Ribeiro dos Santos, Leia/Edigraf e Martin Claret,
respectivamente.
Desse dado, podemos refletir e nos questionar sobre a continuidade da existência
dos prefácios na atualidade, sobretudo em edições de textos que pertencem,
originalmente, a tempos longínquos, como é o caso da Divina Comédia e que já possuem
grande quantidade de edições.
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Mais informações sobre o ocorrido: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2606200907.htm e
https://www.lpm-editores.com.br/site/default.asp?TroncoID=805136&SecaoID=816261&SubsecaoID=0
&Template=../artigosnoticias/user_exibir.asp&ID=638229
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Se pensarmos na pré-história dos prefácios, segundo as indicações de Genette
(2009), eles integravam o texto, com o passar dos anos e as mudanças ocorridas
editorialmente, o prefácio foi se descolando do texto e assumindo características
próprias, ocupando seu espaço no livro e tendo como uma de suas funções principais
apresentar o texto ao leitor. Temos também que, aqui no Brasil, a introdução do texto
dantesco, em português, ocorreu ainda no século XIX, com a tradução de alguns cantos,
feita por Luiz Vicente de Simone, em seu Ramalhete poético do parnaso italiano (1843),
seguidas de inúmeras publicações ao longo do século XX, sendo assim, o texto dantesco
já teria sido mais do que apresentado. E ainda, se acrescentarmos também que, o leitor
atual tem a facilidade da internet para buscar informações, talvez, possamos sim pensar
que o prefácio em edições com essas características, estaria ameaçado.
Todavia, se pensarmos que os prefácios da Divina Comédia abarcam muito mais
do que uma apresentação do poema dantesco, mas contribuem, por exemplo, para
tornar a leitura desse texto mais inteligível ao leitor dos novos tempos, acreditamos que
esse elemento paratextual introdutório continua sendo necessário. Logo, esse pensar ou
não a existência do prefácio em uma obra literária estaria atrelada ao objetivo da
publicação e ao conteúdo que se deseja expor. Adiante, ao tratarmos do conteúdo dos
prefácios analisados, retornaremos a essa discussão.
Ainda sobre os prefácios para as edições de José Pedro Xavier Pinheiro podemos
pensar na sua perenidade. Quanto dura um prefácio? Nesse caso, cada edição contou
com ao menos um diferente. Na edição de 1907 era o filho do tradutor quem escreveu.
Na edição de 1918, encontramos o editor, Jacintho Ribeiro dos Santos, e mais dois
prefácios do filho do tradutor. Um lembra muito o prefácio da edição de 1907, mas com
diversos acréscimos e ajustes textuais, o outro um novo texto. Em 1946 é Piccarolo, que
apresenta a obra de dantesca, por meio de um estudo que perpassa política, vida e obra
do autor.
Aqui, podemos inferir que as mudanças ocorreram porque se trata de editoras
diferentes, mas ampliando nosso olhar, podemos dizer que os prefácios têm a sua razão
de ser, muitas das vezes querem transmitir uma mensagem para além da obra a ser lida e
refletem o momento histórico.
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A exemplo, o prefácio para a edição da tradução José Pedro Xavier Pinheiro de
1907, menciona políticos que podendo ajudar na publicação da obra, não a fizeram.
Talvez, continuar sob essa perspectiva, não caberia mais aos leitores dos anos vindouros.
O primeiro aspecto analisado, como mencionado anteriormente, foi quanto ao
formato dos prefácios: majoritariamente, eles se apresentam com textos em prosa e
distribuídos ao longo de toda página. As exceções ficam por conta da edição da Livraria
Americana, de 1920, na qual há também um soneto de autoria do próprio tradutor,
Eduardo Guimaraens. Tal soneto possui relação com a tradução que virá na sequência,
nesse caso, o canto V do Inferno. E as edições da Leia/Edigraf de 1946, cujo texto é
apresentado sempre em duas colunas.
Alguns prefácios são precedidos ou encerrados com ilustrações, geralmente são
imagens de perfil de Dante, do tradutor ou do editor. A edição de 1930, da João do Rio,
destaca-se, pois, como foi publicada originalmente em fascículos, cada fascículo é
precedido de uma imagem relacionada ao canto que o compõe. Outra edição que contém
nos seus elementos pretextuais uma gama de representações artísticas é a edição de
2020 da Kotter Editorial. Aqui, possivelmente, a atuação do prefaciador, Alessandro
Ubertazzi, e do tradutor, que também escreveu textos introdutórios para a edição, Milton
de Andrade, possam ter influenciado a existência de imagens. Ubertazzi, segundo consta
em nota, é arquiteto, já o tradutor tem sua formação e atuação na área das artes cênicas.
Nas edições do século XX, as páginas prefaciais ou não eram numeradas ou
tinham numeração em algarismos romanos ou arábicos, já naquelas pertencentes ao
século atual, todas são numeradas em arábico. O estilo da letra também se altera, entre
itálico e normal. As notas de rodapé também são uma constante ao longo dos dois
séculos, desde algumas poucas que indicam a formação e atuação profissional do autor
do prefácio, até outras que listam bibliografias ou citações de textos dantescos.
Dentre os materiais paratextuais analisados, alguns possuem títulos e subtítulos,
outros apenas vem com a indicação de prefácio, introdução, advertência ou nota do
editor. Há também aqueles não intitulados. Epígrafes também não são raras, assim como,
a indicação de localização e ano de escrita do paratexto, ao seu final.
Percebemos também que, boa parte do material analisado, são textos que foram
feitos para a edição. Exceção válida para a edição de 1976, das editoras Itatiaia e Edusp,
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cujo texto introdutório, de autoria do tradutor, Cristiano Martins, trata-se, como indicado
em nota de rodapé, de texto utilizado por ele em evento sobre Dante Alighieri.
Sobre os números de páginas desses textos introdutórios, não percebemos que há
uma constante, isso varia bastante, independente do século. Logo, percebemos que, ao
menos em relação ao formato, não se nota grandes diferenças.
E quem são as pessoas que assinam esses peritextos? Do montante total das
edições, 11 delas possuem, ao menos, um dos textos introdutórios escritos pelos
respectivos tradutores. Sendo que, no século XXI, apenas uma edição não possui um
prefácio escrito pelo seu tradutor, trata-se da edição da Martin Claret, de 2002, cuja
tradução é de José Pedro Xavier Pinheiro. Isso pode nos indicar que dar preferência a
escrita do prefácio a quem foi responsável pela tradução é privilegiar alguém que
conhece o texto que será lido pelo leitor. Espera-se que quem traduz poderá falar com
mais propriedade do texto traduzido.
No século XX, três edições possuem peritextos escritos pelos seus editores, 1907,
H. Garnier, 1918, Jacintho Ribeiro dos Santos e 1947, os Editores da editora Aurora,
apesar de não sabermos quais os seus nomes. Já no século XXI, temos apenas a já
referida edição da Martin Claret, cujo paratexto por ele escrito, não possui ligação com o
texto dantesco, o que nos leva a acreditar que se trata de material que integra todos os
volumes pertencentes à coleção Série Ouro. Por outro viés, ter o editor como escritor dos
prefácios pode ir ao encontro do objetivo daquela edição, privilegiando a publicização da
publicação em detrimento do texto dantesco.
Por outro lado, verificamos ainda, algumas edições cujos prefácios foram escritos
por parentes dos tradutores. A edição de 1907 da Typografia do Instituto Profissional
Masculino, escrita por J.A. Xavier Pinheiro, filho do tradutor José Pedro Xavier Pinheiro,
trata-se de uma edição póstuma, ou seja, publicada após a morte do tradutor.
Novamente, o filho de Xavier Pinheiro acrescenta novas informações ao prefácio anterior
e escreve um outro para a edição de 1918 do Editor Jacintho Ribeiro dos Santos. No ano
de 1947, a Editora Aurora publica a edição com tradução de Malba Tahan e prefácio, de
seu irmão, João Batista de Mello e Souza. E, em 2011, editado pela Ateliê Editorial, Zilmar
Ziller Marcos escreve um dos prefácios, para a edição que contém a tradução da Divina
Comédia feita pelo seu avô, João Trentino Ziller. O que pode ter motivado essa escolha?
Com exceção da edição de 1947, as demais foram publicadas após a morte de seus
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tradutores. Edições que funcionaram também como uma homenagem àqueles que
contribuíram para a inserção do texto dantesco no Brasil.
Além dos prefácios de autoria não identificada, somados aos escritos pelos
tradutores, pelos editores ou pelos parentes dos tradutores, temos um outro grupo, que
denominamos prefácios escritos por terceiros, ou seja, pessoas que não se encaixam nos
grupos anteriormente mencionados. Esses terceiros aparecem nas edições de: 1942 pela
Edições Cultura, 1946 pela Leia/Edigraf, 1998 pela Editora 34, 2011 pela Ateliê Editorial
e 2021, uma edição da Fundação Antonio Meneghetti e outra pela Kotter Editorial.
Em 1942, temos como escritor do prefácio, José Pérez, advogado cujo nome é
associado aos estudos da obra de Miguel de Cervantes (FONSECA, 2017). Pela Edições
Cultura, Pérez foi o responsável, pelo menos, por duas coleções: Os mestres do
pensamento e Os mestres da língua. Na primeira coleção, a princípio toda publicada em
1942, além da Divina Comédia, de Dante Alighieri; há Dom Quixote de la Mancha, de
Cervantes; Lírica, de Safo e Obra, de Heine. Já da outra coleção, encontramos Óperas, de
Antônio José da Silva.
Em 1946, o prefácio ficou a cargo de Piccarolo, italiano, que viveu e morreu no
Brasil, foi professor e pensador socialista e um dos idealizadores da Faculdade Paulista
de Letras e Filosofia, em 1931 (HEISE, 2011). De Dante, Piccarolo também prefaciou Vida
Nova (1937), da Athena Editora, com tradução de Paulo M. Oliveira e Blasio Demetrio,
pseudônimo adotado por Fúlvio Abramo. E traduziu, junto com Leonor Aguiar, a obra Da
Monarquia (1950), publicada pela W.M. Jackson (ARRIGONI, 2011).
Carmelo Distante, responsável por um dos textos introdutórios da edição de 1998
pela Editora 34, assim como Piccarolo, era italiano e foi professor no Brasil, entre as
décadas de 1980 e 1990 na Universidade de São Paulo (USP). Um outro professor, com
atuação na USP é João Adolfo Hansen, responsável por um dos prefácios para edição de
2011 da Ateliê Editorial.
Em 2021, pela Fundação Antonio Meneghetti temos elementos paratextuais
escritos por Clarissa Mazon Miranda e Rafael Padilha dos Santos, que também possuem
atuação como professores universitários. Além de Alessando Ubertazzi, responsável por
um dos prefácios da edição da Kotter Editorial, que como dito anteriormente é arquiteto,
mas também foi professor na Universidade de Florença.
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Essa ligação com a Itália, seja por nascimento, seja por descendência ou por
estudos desenvolvidos na área de italianística, somados ao perfil acadêmico, são
características que unem, boa parte dos prefaciadores das edições brasileiras da Divina
Comédia, ao longo dos séculos XX e XXI. Nos levando a pensar também que, o gérmen
dessas diversas traduções da obra de Dante no Brasil, possa estar situado nas
instituições de ensino superior, proveniente, provavelmente, de projetos de pesquisa
desenvolvidos nesses locais.
E esse perfil acadêmico dos prefaciadores está em estreita ligação com o
conteúdo desses pretextos por eles produzidos. Os prefácios analisados somam quase
500 páginas de conteúdo que atravessam dois séculos e que, se fossem detalhados aqui,
extrapolariam as páginas de um artigo. Por isso, vamos pontuar os elementos que mais
nos chamaram a atenção em todo esse material.
Em 1907, ano de duas publicações de traduções diferentes da Divina Comédia,
temos, de um lado o prefácio escrito por J.A. Xavier Pinheiro, cujo teor é voltado para
manifestar sua insatisfação quanto à demora, cerca de 20 anos, na publicação da
tradução feita pelo seu pai, bem como, render homenagem ao seu pai por meio de uma
pequena biografia. Logo, Dante e a sua Divina Comédia são negligenciados. Já no prefácio
da outra edição, esse escrito pelo editor, o leitor deparar-se-á com informações sobre as
traduções da obra que circulavam na época, comentários elogiosos sobre a tradução que
estava sendo publicada e, ao final, uma longa citação, que ocupa boa parte das 12
páginas do texto introdutório, cujo conteúdo é um resumo da obra dantesca que será lida
na sequência.
Destacamos também o prefácio de Cristiano Martins, para a edição de 1976, no
qual parece haver uma maior preocupação em mesclar fatos da vida do autor com o seu
texto e, privilegiando a obra Vida Nova, ao invés da Divina Comédia.
Dos primeiros prefácios até agora, no século XXI, percebemos semelhanças
quanto aos elementos que constituem esses paratextos, como o resumo da Divina
Comédia, outros, trazem também informações quanto a vida de Dante Alighieri, com
enfoque a política de Florença na época que viveu o escritor e consequentemente o seu
exílio. Outros apresentam as hipóteses entorno da relação entre Dante e Beatriz, outros
mais trazem dados das demais obras escritas pelo autor.
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Destacamos, em particular, o prefácio escrito pelas tradutoras, Maria Teresa
Arrigoni e Silvana de Gaspari, publicado pela Editora da UFSC, em 2023. Ambas
professoras universitárias, descendentes de italianos, estudiosas de Dante Alighieri. Na
apresentação da obra, “Dante e seu tempo, Dante e nosso tempo: perspectiva e caminhos
de uma tradução”, elas elucidam as reverberações do texto dantesco ao longo dos seus
sete séculos de existência, desde outras obras literárias, pesquisas acadêmicas, filmes,
até samba enredo e games. Além disso, as tradutoras-prefaciadoras mostram as suas
preocupações, que também se tornam umas das justificativas da edição, “a legibilidade
do texto” (ARRIGONI; GASPARI, 2023, p. 6) dantesco. Como aproximar a Divina Comédia
do leitor do século XXI? E além de aproximar, como torná-la legível a esse leitor? Foi esse
o desafio que as tradutoras tentaram sanar ou ao menos reduzir, ao optarem por
atualizarem a tradução do Barão da Villa da Barra, feita no século XIX, sendo publicada
pela primeira vez em 1888, novamente publicada em 1907, retomada em 1942 e
adormecida até essa nova edição de 2023.
E esse não apenas ler, mas entender a Divina Comédia, parece ser um norte não só
para as diversas traduções e edições que não param de ser lançadas, mas também para
as pesquisas entorno da obra. Olhar a Comédia de Dante através dos seus paratextos é
apenas uma dessas possibilidades. Revelando que o texto de Dante atravessou e
atravessará séculos, devido não só a genialidade do seu autor, mas também a sua
constante capacidade de se reinventar. Reinvenção essa que ocorre a cada novo olhar
lançado, seja por meio de novas traduções, edições ou pesquisas. Dante Alighieri e a sua
Divina Comédia são um terreno frutífero, no qual ainda há espaço para muitos outros
frutos.
Referências
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Paulo: Atena Editora, 1995. Disponível em:
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ALIGHIERI, Dante. A Divina Comédia. 3.v., Tradução de Italo Eugênio Mauro. São Paulo:
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ALIGHIERI, Dante. A divina comédia. Tradução de Eugênio Vinci de Moraes. Porto
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ALIGHIERI, Dante. A divina comédia. Tradução de Xavier Pinheiro. Jandira: Principis,
2020.
ALIGHIERI, Dante. Divina comédia. Tradução de João Trentino Ziller. Cotia: Ateliê
Editorial, 2021.
ALIGHIERI, Dante. Divina Comédia: Inferno. Tradução de José Clemente Pozenato. São
João do Pôlesine: Fundação Antonio Meneghetti, 2021.
ALIGHIERI, Dante. Inferno: Comédia. Tradução de Emanuel França de Brito; Maurício
Santana Dias; Pedro Falleiros Heise. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.
ALIGHIERI, Dante. Inferno. Tradução de Milton de Andrade. Curitiba: Kotter, 2021.
ALIGHIERI, Dante. Divina comédia: Inferno. Tradução de Maria Teresa Arrigoni; Silvana
de Gaspari. Florianópolis: Editora da UFSC, 2023.
Data de submissão: 24/05/2024
Data de aceite: 01/10/2024
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