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XI Congresso Internacional da ABRALIC 13 a 17 de julho de 2008

Tessituras, Interações, Convergências USP – São Paulo, Brasil

Iansã, Omolu e outros mitos construtores da história de


Tereza Batista Cansada de Guerra
Professor Ms. Gildeci de Oliveira Leite (UNEB)1

Resumo:
A partir de ‘orikis’ e de outras narrativas de religiões afro-brasileiras, especialmente
envolvendo os orixás Iansã, Omolu e Exu será feita uma leitura do romance Tereza
Batista Cansada de Guerra. Este exercício comparativo irá proporcionar o
reconhecimento de imagens, costumes e conceitos da cultura negro-brasileira
resguardados pelas religiões e escondidos no romance em questão. No primeiro
momento busca-se a relação do arquétipo de Exu com o episódio da Guerra do Balaio
Fechado e a resistência do povo do baixo meretrício, de forma complementar busca-se
referências à Ogum. Depois serão discutidos os arquétipos de Iansã em Tereza Batista
e sua associação às Padilhas e às Grandes Mãe Ancestrais. Por fim, têm-se a leitura
do arquétipo de Omolu.

Palavras-chave: Tereza Batista, Exu, Ogum, Iansã, Omolu.

Introdução

O que se defende aqui é a tese de que o romance Tereza Batista Cansada de


Guerra2 (1989) possui nas entrelinhas narrativas mitológicas3 que direcionam o enredo.
Estas narrativas podem vir como arquétipos dos orixás das personagens ou como
acontecimentos sagrados do candomblé e do viver baiano e da fé baiana. Como já
defendido em Jorge Amado: da ancestralidade à representação dos orixás (2008) há
personagens amadianos que agem de acordo com as características dos orixás que os
regem, portanto direcionam o enredo. Esta teoria diz que serão encontrados no agir das
personagens diversos elementos representativos dos orixás, fazendo, portanto que este
enredo seja uma espécie de conjunto de vontades dos orixás regentes das pessoas
ficcionais como na interpretação da vida real feita pelo povo-de-santo4 do Brasil.
Para comprovação da referida tese buscou-se em TB os arquétipos de Exu,
Iansã, Omolu dentre outros.

1 Exu Tiriri e Ogum Peixe Marinho

1
Professor Ms Gildeci de Oliveira Leite. Leciona Literatura Brasileira no Departamento de Ciências
Humanas Tecnologias, Campus XXII –Seabra – Bahia. E-mail [email protected] /
[email protected] .
2
A partir deste ponto poderá ser utilizada a sigla TB para designar o romance Tereza Batista Cansada de
Guerra.
3
A definição de mito utilizada aqui é de mito como narrativa primordial.
4
Expressão utilizada para designar os iniciados no candomblé.
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Ritualmente deve-se começar com o cavaleiro da encruzilhada, por isto este


texto inicia-se com os feitos de Exu 5 Tiriri6. Logo após Exu, seu Padê7 e seu despacho8,
Ogum9 é o orixá homenageado nos cânticos do xirê10 e em matéria de resolução de
difíceis problemas os irmãos Exu e Ogum são sempre invocados, conforme sucedidos
de Tereza Batista Cansa de Guerra. No episódio do balaio fechado, quem resolvera
tudo foram Exu Tiriri e Ogum Peixe Marinho 11. Dentro das mitologias Iorubá e afro-
brasileira Exu é ó grande senhor a quem tudo deve ser pedido e a quem primeiro devem
ser oferecidas as homenagens. Nada acontece sem o consentimento de Exu e aí daquele
que o desobedecer.
Em TB as traquinagens de Exu aparecem mais nitidamente. Exu é personagem
da obra com direito a feitos e desfeitos e ainda à maledicente crítica de um infiel
membro da polícia que destruiu o seu Peji12, quando durante a Guerra do Balaio
Fechado Vavá em obediência a Exu ordenou que as prostitutas mantivessem o balaio
fechado, não fizessem sexo e retirou-se de seus aposentos.

Recordando-se dos áureos tempos de repressão aos candomblés,


quando ainda simples secreta contratado em promissor começo de
brilhante carreira, o comissário Labão, valente a quem nada nos céus e
na terra amendronta, dirige-se ao peji e começa a destruí-lo. Nenhum
tira se atreve a ajudá-lo, cadê a coragem? Alírio, secreta dos mais
desassombrados, assassino frio, se apavora e grita:
― Comissário, não faça isso, não seja doido, não toque em Exu!
― Seus merdas! Cambada de pusilânimes! Estou cagando para Exu!
(TB, p.1004)

Evidente que Exu não se fez de rogado e o insolente teve as duas pernas
quebradas durante a Guerra do Balaio Fechado e um tremendo prejuízo financeiro. “O
investigador Alírio, apavorado, joga-se no chão, bate a cabeça nas pedras, bem ele
avisara: comissário não toque em Exu.” (TB, p. 1016). A partir deste ponto fazem-se
indispensáveis algumas explicações. A Delegacia de Costumes para atender ao desejo
de empreiteiros imobiliários resolveu transferir os bordéis do pelourinho e adjacências
para lugar ainda mais inóspito e com aluguéis caríssimos. Quando a primeira leva de
marafonas fora expulsa do bairro da Barroquinha, Tereza já se articulava com as demais

5
Exu é o orixá mensageiro, confundido pelo diabo judaico-cristão. O dia de Exu é a segunda-feira, suas
cores são o vermelho e preto.
6
Nome de um Exu.
7
É um ritual de Exu que antecede todas as cerimônias. Comumente vêem-se as farofas de azeite de dendê
e outros elementos como a cachaça que compõem o ritual do padê.
8
Despachar Exu tem sido confundido com o mandar ir embora, mas na verdade é atender Exu e pedir a
ele que tudo ocorra em paz.
9
Orixá ferreiro, deus do fogo artificial, patrono da guerra e da tecnologia do ferro.
10
Conjunto de cânticos aos orixás de Exu a Oxalá.
11
Não encontramos em Terreiros de Tradição Bantu na Bahia conhece-se a referência a Ogum Marinho e
não ao Ogum Peixe Marinho como um Ogum do mar.
12
O altar do orixá, inquice ou vodum.
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casas de prostituição para uma resistência. Contudo, o grito de guerra foi dado por Nília
Cabaré prostituta muito popular que proclamou aos quatro ventos:

― Fique sabendo todo mundo que enquanto elas não voltarem pra
Barroquinha, estou de balaio fechado, não recebo homem. Por
nenhum dinheiro. Quem for mulher direita que me siga, tranque o
xibiu, faça de conta que é Semana Santa! (TB, p. 983).

A referência à Semana Santa deve-se ao fato de na quinta-feira mesmo as


meretrizes ficarem sem atividade sexual, um costume da Bahia praticado por alguns
católicos. Jorge Amado aproveita-se de um hábito para criar a semana das marafonas
em ironia para com a Semana Santa pouco respeitada pelos católicos. Apesar de
quererem transferir as prostituas, a cidade precisava dos serviços delas, pois a marinha
estadunidense iria desembarcar e sérios problemas aconteceriam às moças direitas com
a falta das prostitutas, além de enormes prejuízos financeiros à equipe de policiais que
planejava distribuir camisa de Vênus, afrodisíacos “cacete rijo” e maconha aos
marinheiros. Então eis um elemento ao lado das menos favorecidas, e fechar o balaio
seria a melhor forma de reagir.
Para resolução de tantos e graves problemas a liturgia afro-baiana aconselharia a
intervenção através de Exu e de Ogum, em TB não foi diferente. Exu Tiriri ordenou a
todas que continuassem com o balaio fechado e quem desobedecesse se veria em sérios
apuros com ele. Ogum Peixe Marinho também garantia a vitória final. O amor e o temor
a Exu são reproduzidos na obra literária, mas o melhor de tudo isso é ver Exu sendo
chamado de “todo poderoso” e aclamado com um “Exu seja-louvado” expressões
típicas do cristianismo para com deidades cristãs, apresentando-se como uma velha
estratégia amadiana; a inversão de valores em favor do povo negro e ao mesmo tempo
colocando as culturas em um só patamar, pois se o deus judaico-cristão é louvado e
todo-poderoso Exu também é.
Mesmo porque Exu é o “[...] senhor-do-poder, Elegbará, ele é ao mesmo tempo
seu controlador e sua representação” (SANTOS, 1986, p. 134). É relevante salientar que
Exu Elegbará é o companheiro inseparável de Ogum, a ponto de serem confundidos
“[...] nos terreiros tradicionais Exu não se manifesta e sua força é representada através
da manifestação de Ogum” (SANTOS, 1986, p. 134). Em TB Exu Tiriri e Ogum Peixe
Marinho em momentos, locais e tradições diferentes profetizam a mesma sentença, não
obstante Ogum incorpora na mãe de santo e Exu responde através dos búzios de Pai
Nezinho, não incorpora semelhante aos candomblés tradicionais baianos.
De acordo com Marco Aurélio Luz (2000, p.50) “Exu é o responsável pela
articulação de axé que dinamiza o ciclo vital. Toda ação e movimento, portanto,
depende da atuação de Exu”. Ele é o patrono da relação sexual, desta forma entende-se,
por analogia ao texto literário, que Exu é o “[...] dono de todos os balaios, possuidor da
chave” (TB, p. 987) que autoriza ou desautoriza a relação sexual, um dos motivos pelos
quais Exu foi demonizado pelos “[...] primeiros europeus que tiveram contato com a
África” (PRANDI, 2003, p.01), ora associavam ao deus fálico greco-romano Príapo, ora
ao diabo cristão.
Em TB, Exu Tiriri aparece como o grande transportador e proporcionador de
movimento. Juana Elbein dos Santos (2001, 1986, p. 131) diz que segundo as “[...] as
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palavras de Ifá ‘cada um tem seu próprio Èsù13 [...] cada ser humano tem seu Èsù
individual, cada cidade, cada casa (linhagem)” tem seu próprio Exu. Exu Tiriri, protetor
de Vavá, fez-se também, Exu do povo da Zona da Cidade da Bahia. Ele é ouvido e
respeitado por todos dali, todos o obedecem a todos ele proporciona a vitória, pois Exu
“[...] deve resolver tudo o que possa aparecer e isso faz parte de seu trabalho e de suas
obrigações.” (SANTOS, 1986, p. 131).

2 Tereza de Iansã

Na quinta parte do romance Tereza Batista Cansada de Guerra (1989) a voz de


Mãe Senhora14 é a fala que narra os acontecimentos. O que centraliza a discussão nas
duas primeiras páginas é a busca da certeza do Eledá de Tereza, do orixá dono de sua
cabeça. Em diversos outros momentos do romance o narrador atribui a Tereza o orixá
Iansã, uma das esposas de Xangô, dona do rio Níger na África Iorubá. Para a análise
aqui proposta faz-se necessário identificar a dona do ori, cabeça, de Tereza Batista e
então em seguida adentrar nas características de Tereza como uma legítima filha de
Oiá15.
No Brasil os orixás femininos tiveram suas características de sexualidade
destituídas pelas amarras do preconceito cristão. Desta forma, as deidades femininas
tiveram o sexo amputado e comumente vê-se essa afirmação até mesmo do povo-de-
santo. Iansã foi a única a preservar essas características de mulher sem o sexo
amputado. Oiá Iansã é conhecida entre nós como a mais audaciosa e fogosa de todas, às
vezes divulgada com características que poderíamos chamar, numa leitura cristã, de
levianas.
Talvez para os esclarecidos em discussões de gênero uma personagem como
Tereza Batista, escrita por um homem terá sempre características masculinas, uma
espécie de mulher moldada em fôrma masculina, com um eu masculino por ser ela
escrita por um homem. Não se pretende aqui entrar nesta seara, até mesmo por total
inabilidade do autor deste texto nas questões de gênero, contudo com um razoável
conhecimento em questões de mitologia afro-brasileira. Primeiro é preciso dizer que
Tereza de fato tem características de homem. Ela age como um homem, pois conforme
o narrador aprendera nas brincadeiras com os moleques que guerreiro não chora,
guerreiro e não guerreira, aprendizado lembrado e que a ajudou a resistir por dois meses
às torturas do capitão Justiniano Duarte da Rosa, seu algoz. Portanto, atribui-se a
Tereza, neste momento, a valentia de um guerreiro em brincadeiras que somente Tereza
era do sexo feminino. Mas sendo Tereza de Iansã é perfeitamente normal que ela tenha
características masculinas, pois conta a mitologia que Iansã foi homem, por isso é tão
valente e audaciosa. Além de se transformar em um búfalo e utilizar a ferocidade do
animal para a guerra.

13
As grafias Exu e Èsù estão corretas, contudo a primeira é aportuguesada.
14
Mãe de Santo contemporânea de Jorge Amado, a terceira a governar o Ilê Axé Opô Afonjá, Mãe de
Santo de Mãe Stela de Oxóssi.
15
Um dos nomes de Iansã.
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Então se explicaria o porquê de Tereza ser tão valente e audaciosa, brigona,


ousada, enfrentando até o Capitão, quando todas as outras meninas antes defloradas já
teriam cedido. Iansã é a grande guerreira que empunha um alfanje. Ao lado de Xangô
forma uma dupla invencível. Na leitura do romance vê-se que a posse do corpo da
menina Tereza, ainda sem seios e sem quaisquer sinais de vida adulta, não foi fácil, o
Capitão Justiniano por pouco não ficara inválido por ter sido atingido nos testículos.
Foram dois meses de surra e a única forma de tortura que abrandou a valentia da menina
Tereza foi com um elemento representativo de seu orixá, o fogo. Tereza teve os pés
queimados pelo Capitão. Mesmo no tempo de submissão ao capitão, a personalidade de
Tereza condiz com a de uma filha de Iansã: impetuosa, destemida e as vezes autoritária.
Gilberto Freyre em seu livro Casa Grande e Senzala (2001) já alertava para a
vida das escravas escolhidas a dedo para servirem na cozinha e principalmente na cama.
Tereza fora uma escrava desse tipo: submissa, temerosa, obediente e condenada pela
sociedade hipócrita. Freyre (2001) diz que as negras escravas além de terem que servir
aos Senhores eram condenadas pelas damas por terem relações sexuais com os esposos
das Sinhazinhas. Tereza não vive em ambiente tão distinto, pois era mais uma
empregada da casa somente com direito à comida e trapos a lhe cobrirem o corpo.
Ainda em Casa Grande e Senzala (2001) o autor lembra-se de senhorzinhos que
ao casarem mantinham-se submissos aos leitos das escravas, levando-as até para as luas
de mel ou pelo menos a blusa com o cheiro da negra, assim teriam êxito em suas
investidas sexuais com suas esposas. O capitão Justiniano Duarte da Rosa jamais tivera
problemas de ereção como os senhorzinhos descritos por Freyre, não obstante após o
defloramento de uma nova vítima nos quartos do fundo, ainda sujo de sangue da moça
vitimada vinha possuir Tereza, que inerte cumpria as obrigações imposta pelo ferro
quente, a taca de couro cru e a palmatória, esta última de vez em quando relembrada
pelo capitão só para manter o medo e o respeito.
Se Tereza é de Iansã é também de Padilha. Como dito antes, no Brasil os orixás
femininos tiveram a sexualidade amputada e para compensar esta mutilação, o
imaginário atribuiu toda a sexualidade às brasileiríssimas Padilhas, Pombagiras e
Lebaras. Todas espíritos de mulheres que tiveram uma vida destoante dos padrões
judaico-cristãos de suas épocas. Essas características de audácia, atrevimento e de
exercício da sexualidade são oriundos das Iya Mi Oxorongá, as Grandes Mães
Ancestrais cujos nomes não devem ser pronunciados mais de uma vez. Na verdade
todos os orixás femininos têm características do arquétipo das temíveis Grandes Mães.
Em quase todas as representações das Padilhas e das outras citadas há um
punhal, arma inconteste de todas elas. O primeiro sinal desta representação em Tereza é
a morte do Capitão por um punhal cravado pela menina Tereza. Suponha-se que Tereza
tivesse tempo para cultivar o ideal ascético dos cristãos e morresse logo em seguida,
seria uma Padilha, principalmente por ser ela filha de Iansã. É preciso esclarecer que as
Padilhas são entidades que tiveram vida terrena e habitam principalmente a Umbanda
ou candomblés umbandizados, umbandoblé no dizer de Reginaldo Prandi (2003).
Em algumas vezes que a Padilha Sete Saias brindava seus amigos e consulentes
com conversas sobre sua vida terrena, ela se dizia Pernambucana, apesar de incorporar
em um baiano que residia na Cidade da Bahia pelos idos das décadas de 80 e 90 do
século XX. Como todo Exu feminino, entidade brasileira, cobrava por seus afazeres
mágicos, exceto por amizade ou em uma situação específica: mulheres maltratadas por
seus companheiros. Como Tereza Batista ela “[...] não tolerava ver homem bater em
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mulher” (TB, 683). Inversamente a Tereza, Maleina foi assassinada quando estava no
leito com seu amante, pois com o marido apenas servia de escrava, apanhava e satisfazia
às necessidades do consorte (LEITE, 2008). Com o capitão Tereza servia de escrava,
apanhava e satisfazia ao algoz.
Vê-se em Tereza a representação das Grandes Mães Ancestrais.

Tirana só em tratos de amor; como já disse e reafirmo, nasceu para


amar e no amor era estreita. Por que então a chamaram de Tereza Boa
de Briga? Pois, meu compadre, exatamente por ser boa de briga, igual
a ela não houve em valentia e altivez, nem coração tão de mel. Tinha
aversão a badernas, nunca promoveu arruaças, mas, decerto pelo
sucedido em menina, não tolerava ver homem bater em mulher. (TB,
p. 683)

Eis Tereza de Iansã que é tirana no amor e mestra na guerra. Iansã é aquela a
quem as mulheres recorrem nos momentos de aflição e quem subjuga os maridos que
maltratam as mulheres (LEITE, 2008). Tereza intrometia-se em quaisquer brigas para
defender uma mulher em apuros.
Pois dizia Tereza “― Homem que bate em mulher não é homem, é frouxo... / ―
... e em frouxo em não bato, cuspo na cara.” (TB, p. 686). Fala de Tereza que bem
poderia ser de Maleina Sete Saias uma Padilha de Iansã Igbalé. Especialmente na
umbanda, as Padilhas são ordenanças de Iansã que em vida foram filhas de Oiá. Tereza
também é uma espécie de ordenança da deusa guerreira, afinal caso Tereza viesse a
falecer seria um espírito de Oiá e na umbanda uma perfeita Padilha.
O que aproxima ainda mais a interpretação deste trecho da obra como
possibilidade de leitura válida é o fato de Januário Gereba, futuro grande amor de
Tereza, intrometer-se na briga que Tereza estava por ter tomado as dores da adúltera
mulher de Libório a “siá-puta” no dizer do próprio “corno”. Entrar em uma briga para
defesa de uma mulher nada há de extraordinário, sendo um homem com a formação e o
caráter de Januário Gereba, mas é preciso lembrar que Gereba era um ogã16 de Iansã do
Bogum17.

― Lá vou eu, Iansã! ― o caboclo lança seu grito de guerra e não se


soube o porquê de Iansã: se o disse na intenção de Tereza, de designá-
la com o nome do orixá sem temor, de todos o mais valente, ou se
apenas quis informar o encantado da entrada na briga de mestre
Januário Gereba, seu ogã no candomblé do Bogum. (TB, p. 687)

Seriam dois representantes de Iansã a guerrearem juntos na briga contra a


covardia de um homem, ainda que em favor de uma mulher que momentos depois

16
Cargo honorífico e sacerdotal ocupado por homens, que não manifestam orixás.
17
Terreiro de tradição Jêje.
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fizesse as pazes com o agressor como se nada tivesse acontecido? Com certeza não é a
primeira vez que uma obra de Jorge Amado une ogã e uma filha de Iansã através do
matrimônio. Em O sumiço da santa (1988) ocorre um incesto espiritual, Iansã suspende,
o mesmo que escolher, o marido de sua filha para ogã. Em TB percebe-se um traço mais
cuidadoso em seu enredo. Gereba é ogã de Iansã, Tereza é filha de Iansã, mas os dois
não possuem parentesco de santo. Tereza não é filha de santo da mesma mãe de santo
de Gereba e ele não possui cargo algum junto a sua Iansã. Ao mesmo tempo são ligados
espiritualmente por Iansã, ele pelo compromisso adquirido e Tereza por escolha da
rainha dos ventos ainda no ventre da mãe da menina, não se escolhe o orixá regente é-se
escolhido por ele (LEITE, 2007).
Gereba diz que

[...] Tereza deve ser filha de Iansã sendo as duas iguais na coragem, na
disposição: apesar de mulher, Iansã é santo valente, ao lado de seu
marido Xangô empunhou as armas de guerra, não teme sequer os
eguns, os mortos, é ela quem os espera e saúda com seu grito de
guerra: Eparrei! (TB, p. 703).

Se o arquétipo das filhas de Iansã é de mulheres audaciosas, destemidas e com


alto poder de sedução é também das mulheres com dificuldades de encontrarem o amor.
Diz-se na Bahia que as filhas de Iansã podem possuir todos os homens que desejar, mas
ao mesmo tempo dificilmente conquistam aquele que amam e/ou enfrentam muitas
dificuldades para se acertarem com aquele que ama. Por diversas vezes amam sem ser
correspondidas, o que não impedem, mesmo em meio ao sofrimento, de procurem
diversão e passa-tempo com outros que as queiram, até nisto Tereza Batista é filha de
Iansã. Gereba, o grande amor de sua vida é casado e mesmo a espera do amado Tereza
aceita diversão, uma delas a levou a Buquim, onde foi batizada Tereza de Omolu.

3 Tereza de Omolu e de Igbalé

Se o povo de Muricapeba dispusesse de dinheiro e de poder, ergueria


na praça de Buquim monumento a Tereza Batista a ás mulheres à-toa
ou bem a Omolu, orixá das doenças e em particular da bexiga,
havendo quem diga ter sido ele o verdadeiro responsável, encarnado
em Tereza, não passando ela de cavalo-de-santo na memorável peleja.
(TB, p. 830)

Omolu é o deus da varíola, das doenças da pele, também e principalmente o


onixegum ou nixegum médico, curandeiro, médico dos orixás no dizer dos candomblés
da Bahia. Em Salvador todo dia 16 de agosto em frente à igreja de São Lázaro no bairro
da Federação diversos devotos de São Lázaro; de Omolu e de Obaluaiê recebem os
populares banhos de pipoca ou da flor de Omolu / Obaluaiê no intuito de livra-se de
doenças e de evitá-las. Geralmente quando o assunto é doença as promessas são
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dirigidas a Obaluaiê o jovem médico ou a Omolu o velho médico. Por isso, Tereza
Batista ao comandar as marafonas na luta contra a varíola foi batizada como Tereza de
Omolu, a curandeira, a médica sem anel no dedo, que não fugiu da praga e mastigou-a
tal faria Omolu, em um claro enfrentamento da morte, “[...] Tereza de Omoulu, oferta e
confirmação dos macumbeiros de Muricapeba [...] Tereza comeu a bexiga por uma
perna, mastigou e cuspiu.” (TB, p. 728).
Se Tereza Batista é de Iansã nada impede de ter ela o orixá Omolu. Mesmo
possuindo um orixá principal, o eledá, o dono do ori, cabeça, o grande regente, as
pessoas sofrem influência e carregam características dos demais orixás que possuem
(LEITE, 2008). Conta a mitologia negro-brasileira que Iansã e Omolu são amigos e
parceiros que “[...] reinaram juntos sobre o mundo dos espíritos” (PRANDI, 2001,
p.207). Portanto se Omolu é o grande médico e conforme o narrador Tereza agiu com o
arquétipo deste orixá, age também com as características de Iansã Igbalé, aquela que
comanda os mortos, não teme as epidemias e age em parceria com Omolu.
No final o povo-de-santo agradeceu a Tereza com festa de candomblé quando
dois Omolus “[...] abraçaram Tereza, gente sua limparam-lhe o corpo e o fecharam toda
e qualquer peste para a vida inteira.” (TB, p. 860). Todavia, ainda sem fugir ao
arquétipo do velho Omolu Tereza foi renegada e injustiçada como ele. Pois as beatas do
átrio da igreja sentiam o fato dela não ter morrido com os outros: “― Vaso ruim não
quebra mesmo”.

Conclusão
Desta forma, ficam demonstradas e discutidas algumas narrativas sagradas e
costumes da baianidade nas entrelinhas do enredo de TB. Espera-se que esta
possibilidade de leitura leve outros pesquisadores da obra amadiana a vieses de pesquisa
que privilegiem a revelação de mitologias negras nas entrelinhas do enredo, evitando
abordagens equivocadas e por vezes preconceituosas.

Referências Bibliográficas
[1] AMADO, Jorge. O sumiço da santa. Rio de Janeiro: Record, 1988.

[2] AMADO, Jorge. Tereza Batista Cansada de Guerra. In: ____. Quatro Mulheres,
Quatro Romances. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1989, p. 675-1030.

[3] FREYRE, Gilberto. Casa Grande & Senzala. 45. ed. Rio de Janeiro: Record, 2001.
LEITE, Gildeci de Oliveira. “Ilê Ojuobá, casa de Pedro Archanjo”. In:
___________.Vertentes Culturais da Literatura na Bahia. Salvador: Quarteto Editora,
2006, p.117 a 130.

[3] LEITE, Gildeci de Oliveira. “Literatura e Mitologia afro-baiana: encantos e


percalços”. In: GODINHO, Luís Flávio Reis & SANTOS, Fábio Josué dos (Org.).
XI Congresso Internacional da ABRALIC 13 a 17 de julho de 2008
Tessituras, Interações, Convergências USP – São Paulo, Brasil

Recôncavo da Bahia: educação, cultura e sociedade. Amargosa, Bahia: Ed. CIAN,


2007.

[4] LEITE, Gildeci de Oliveira. Jorge Amado: ancestralidade à representação dos


orixás. Salvador: Quarteto Editora, 2008.

[5] LUZ, Marco Aurélio. Agadá: dinâmica da civilização africano-brasileira. 2. ed.


Salvador: EDUFBA, 2000.

[6] SANTOS, Juana Elbein dos. Os Nago e a morte. Petrópolis: Vozes, 1986.
SERRA, Ordep. Águas do Rei. Petrópolis: Vozes. 1995.

[7] PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos Orixás. Schwarcs: São Paulo, 2001.

[8] PRANDI, Reginaldo. Exu, de Mensageiro a Diabo. Disponível em


http://www.fflch.usp.br/sociologia/prandi/exu-dia.rtf. Acessado em 30 mar. 2003.

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