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A Essência e Necessidade das Boas Obras

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Jean J. Hartmann
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Tradução: Murylo D. Chaussê.

Email: [email protected].
Autor: Abraham Calovius.

DA ESSÊNCIA E NECESSIDADE DAS


BOAS OBRAS.

Prólogo.

É lamentável constatar que, nestes tempos decadentes, a


doutrina das Boas Obras está sendo minada de duas maneiras
igualmente perniciosas. De um lado, há aqueles que,
enredados nas armadilhas do Diabo, inimigo amargo e
malévolo das Boas Obras, não apenas negligenciam seu
estudo (convencidos de que elas não fazem parte do ato de
justificação), considerando-as indiferentes, mas também não
se envergonham de afirmar que os regenerados podem cair
audaciosamente em qualquer tipo de vício sem perder a fé.
Chegam até mesmo a crer que isso seja mais pernicioso do
que necessário para a salvação, ficando assim mais inclinados
a se entregarem à obscena lama dos prazeres do que ao estudo
das Boas Obras. De outro lado, há aqueles que, pecando por
excesso, exaltam as Boas Obras além de seu mérito,
acreditando que, por meio delas, podem arrancar o céu das
mãos de Deus e confiando que podem merecer a vida
celestial. Assim, colocam-nas acima ou, no mínimo,
equiparam-nas ao único ouro de Cristo. Inflados por um
espírito farisaico, vangloriam-se de suas próprias obras e as

1
apregoam, não diferentemente das galinhas que, ao porem
ovos, cacarejam de imediato, mas cujo clamor faz com que os
ovos sejam levados. É mais correto pensar como aqueles que
são considerados genuínos seguidores da Confissão de
Augsburgo inalterada, pois estes insistem nas Boas Obras e as
consideram conforme ensina o Livro Sagrado — o infalível
índice de dogmas e único juiz de controvérsias —, sem nada
acrescentar ou subtrair. Portanto, é minha intenção
compreender brevemente a essência e a necessidade das Boas
Obras em uma tríade de teoremas, guiando-me pelas Sagradas
Escrituras e pela ortodoxia dos teólogos luteranos genuínos, e
submetê-las a exame público. Assim, ó Venerável Trindade,
que exiges rigorosamente o estudo das Boas Obras e desejas
que sejam diligentemente cultivadas, concede, suplico, que
este meu propósito alcance o objetivo que nossas obras devem
ter diante de si: que sirva apenas para a glória do Teu Santo
Nome e para nosso benefício.

2
TEOREMA I.
As Boas Obras são ações ordenadas por Deus, tanto
internas quanto externas, que procedem da fé e são
realizadas por uma pessoa regenerada para a honra de
Deus e o bem do próximo e de si mesma.

§ 1. Diversas opiniões sempre surgiram sobre a natureza das


Boas Obras. Entre todas, mantemos esta definição como a
mais fiel às Escrituras. Primeiramente, consideremos o
próprio Nome ou Termo Definido, “Boa Obra”, onde
afirmamos, com o consenso dos filólogos, que “Obra” deriva
de “operar” ou “operando”, como se fosse o fim da operação.
Aqui, tomamos o termo em sentido amplo, de modo a
englobar não apenas ἔργα (ações), mas também os próprios
νοήματα (pensamentos), conforme afirma Mentzer na
Confissão de Augsburgo, p. 258. Por ele, entendemos tudo o
que tem como norma a lei moral divina e a ela se conforma,
como ensina o Excelentíssimo Sr. Presidente, meu Venerável
Preceptor, na Disp. 20 sobre a Confissão de Augsburgo,
posição 1. A obra é chamada “boa”, principalmente pela causa
Formal, que é a Fé, de onde procede; daí, com razão, o Sr. Dr.
Himmelius, na Disp. 25 do Sintagma, diz que as obras são
chamadas boas não pela forma legal, mas evangélica. Em
parte pela causa Eficiente Principal, o Espírito Santo; e, de
maneira secundária, pela Pessoa regenerada. Em parte
também pela causa final Primária, que é a Glória de Deus; e,
secundariamente, o bem da Igreja e do próximo.

3
§ 2. Possui vários sinônimos, conforme o Bem-aventurado Sr.
Chemnitz enumera em Loci Communes, parte 2: alguns
referem-se à causa Eficiente, como Santificação (Rm 5:15) e
Nova Criatura em Cristo (2 Co 5:17); outros, à causa Formal,
como Novidade (Ef 4:32), Nova Obediência (Rm 9:1), Justiça
(2 Co 9:2), ἐργαλεῖα (instrumentos) (2 Co 9:7), Regeneração e
Vivificação; alguns dizem respeito aos objetos, como Obra da
Lei (Rm 3:28); outros, aos efeitos, como culto a Deus, frutos
do Espírito, frutos do arrependimento, mortificação da carne,
amor a Deus e ao próximo; e alguns à causa final, sobre os
quais Rm 12:1; At 23:1; Rm 1:9; Fl 4:8.

§ 3. De fato, tais expressões unidas aparecem em diversas


passagens das Escrituras, empregadas pelo próprio Espírito da
verdade. Assim, em At 9:36, Tabita é elogiada como πλήρης
ἀγαθῶν ἔργων (cheia de boas obras). Em 2 Co 9:8, somos
ordenados a abundar em toda boa obra. Da mesma forma, em
Ef 1:10, afirma-se que fomos criados em Cristo Jesus para as
boas obras. Similarmente, encontramos essas expressões em
conjunto em 1 Tm 5:10; 6:18; Tt 1:16; 1 Pe 2:12. Vale notar
que, nesses textos, o Espírito Santo designa as ἔργα (obras)
ora como καλὰ (belas), ora como ἀγαθὰ (boas); embora
alguns busquem uma distinção, entendendo que “belas” se
refira às obras internas e “boas” às externas, o mui Reverendo
Sr. Chemnitz, na obra citada, testemunha que, nas Escrituras,
essa distinção frequentemente não é observada.

§ 4. Após apresentar a Onomatologia, passamos agora à


Pragmatologia, que consiste na elucidação das causas.

4
Começamos pela causa Eficiente: I.) Principal, que é o
Espírito Santo, pois são conduzidos por ele aqueles que
realizam boas obras (Rm 8:14). A caridade é fruto do Espírito
(Gl 5:12), sem excluir, entretanto, a Pessoa do Pai ou do
Filho, uma vez que ambos ainda operam (Jo 5:17). II.) Menos
Principal, a Pessoa regenerada e reconciliada com Deus, pois
verdadeiras Boas Obras não são feitas por forças naturais
próprias, mas apenas quando a pessoa está reconciliada com
Deus pela fé e renovada pelo Espírito, conforme a Confissão
de Augsburgo, artigo 4. Somente uma boa árvore pode
produzir bons frutos (Mt 7:18) e somente os renascidos são
συνεργοὶ Θεοῦ (cooperadores de Deus), segundo o Apóstolo
dos Gentios em 1 Co 3:9. Contudo, é preciso cuidado para não
atribuir méritos às forças humanas, pois, sem a graça, o
homem não consegue realizar obras boas e agradáveis a Deus.
Afirmamos que apenas os regenerados são a causa Eficiente
das Boas Obras, pois nos não-regenerados, assim como não há
vida espiritual, também não há ação, como afirma Mentzer na
Confissão de Augsburgo, p. 259.

§ 5. Após a Eficiente, vem a causa Formal, que é a fé em


Cristo. A fé confere alma e Espírito às obras, de modo que as
obras sem fé não podem ser chamadas de boas diante de Deus,
assim como um corpo não pode viver sem alma, conforme Dr.
Hutter em Exegese da Fórmula de Concórdia, p. 429. Assim
como o homem é santificado pela fé para ser agradável a
Deus, também tudo que nele depende das leis divinas é
santificado e aceito por Deus (D. Himmel. Syntagm., disp.
25). Daí o princípio Ortodoxo: as Boas Obras não devem ser

5
julgadas pelos nomes, mas pelos advérbios. É impossível que
obras sem fé possam ser chamadas de boas, o que contraria o
princípio de Paulo: “Tudo o que não provém da fé é pecado”
(Rm 14, último versículo). Abel ofereceu um sacrifício
melhor que o de Caim (Hb 11:4). Evágrio, Bispo de
Antioquia, diz: “As boas obras agradam a Deus quando a fé
está misturada.” Agostinho também afirma: “Sem fé, até as
obras aparentemente boas se tornam pecado” (L. 3 a
Bonifácio, c. 15). E a fé, repousando no mérito de Cristo,
torna as obras agradáveis a Deus, que as considera no Filho
(D. Hutter, Exegese da Fórmula de Concórdia, art. 4, p. 431).
Assim, a fé é a forma das obras, mas as obras não são a forma
da fé.

§ 6. A forma impropriamente dita, ou melhor, a norma das


Boas Obras é a lei divina. Assim como o pecado é ἀνομία
(iniquidade), a boa obra pode ser chamada de εὐνομία
(conformidade à lei). O próprio Jeová ordena que nossas
ações sejam guiadas pela lei, como em Nm 15:39: “Não
sigamos nossos próprios pensamentos, mas lembremo-nos dos
preceitos do Senhor e os cumpramos.” Dt 12:8: “Não faças o
que parece correto aos teus olhos, mas faze somente o que eu
te ordeno.” A obra que está de acordo com a Lei divina é
chamada de boa; mas aquela que vai além ou contra ela é
chamada de menos boa. Isso nos esclarece sobre os inúmeros
ἐθελοθρησκείαις (cultos voluntários) dos Papistas, que se
assemelham à μοσχοποιΐᾳ (fabricação do bezerro) de Arão em
Êx 32:4. Cristo julga: “Em vão me adoram, ensinando

6
doutrinas que são preceitos de homens” (Mt 14:9). Veja o Sr.
Dr. Gerhard, Tomo 4, loc. sobre as Boas Obras, § 16 e § 17.

§ 7. Os Ortodoxos confessam, segundo o código sagrado, que


as Boas Obras devem ser realizadas com determinados fins.
Há um triplo fim: o primeiro é para a glória de Deus, pois
devemos fazer tudo para honrá-lo (1 Co 10:31), tanto com
obras internas, para vivermos cheios dos frutos da justiça (Fl
1:11), quanto com obras externas, para que nossa luz brilhe
diante dos homens e eles glorifiquem a Deus. O segundo fim é
o bem do próximo: para que os infiéis sejam incentivados à fé
e os fiéis confirmados nela (1 Pe 3:16; 1 Co 10:32). Veja o Sr.
Dr. Brochmand, Sistema de Teologia, Tomo 2, art. 25. O
terceiro fim é para nós mesmos; segundo D. Mentzer, Artigo 6
da Confissão de Augsburgo, as Boas Obras devem ser feitas:
I.) porque somos nova criatura em Cristo (2 Co 5:17); II.)
para adornarmos nossa profissão como filhos da luz; III.) para
darmos frutos de fé; IV.) para diferenciar cristãos verdadeiros
de hipócritas; V.) para evitar penas; VI.) para não
entristecermos o Espírito Santo, ferirmos a consciência ou
rejeitarmos a graça; VII.) para recebermos recompensas
prometidas. Com essa tripla finalidade das obras dos
regenerados, D. Meisner, Conc. na Confissão de Augsburgo,
divide as Boas Obras em três classes: para com Deus, para
com o próximo e para conosco mesmos. Quanto às Virtudes
dos Gentios, devemos distinguir entre a visão Filosófica e
Teológica. Filosoficamente, o título de Boas Obras não é
negado às virtudes dos Gentios, se considerado em sentido
amplo; mas teologicamente, levando em conta a condição de

7
não-regenerados e a falta de fé e da intenção de glorificar a
Deus, de forma alguma merecem ser chamadas de Boas Obras
(em nosso sentido).

8
TEOREMA II.
As boas obras são necessárias aos renascidos, mas não
para merecer ou alcançar a salvação.

§ 1. Examinamos brevemente a essência das boas obras nas


seções anteriores; agora, a sequência do propósito exige que
exploremos sua necessidade. No teorema, surgem dois
problemas: primeiro, se as boas obras são necessárias aos
renascidos; segundo, se são necessárias para alcançar a
salvação. O primeiro, que deve ser elucidado antes, é
afirmado pelas Sagradas Escrituras, assegurado pela
Confissão de Augsburgo e sua Apologia, e aprovado pelo
consenso de todos os ortodoxos; a estes, merecidamente,
acrescentamos nossa opinião, apoiados por razões numerosas
e sólidas. Aqui apresentaremos as principais. Antes disso, é
necessário esclarecer os termos, pois, se não forem
corretamente compreendidos, é fácil enganar e ser enganado.
Portanto, primeiro eliminamos a ambiguidade das palavras,
distinguindo entre necessidade absoluta ou consequente —
chamada na escola teológica de necessidade de simples
coação — e necessidade condicional ou da consequência,
conhecida como necessidade da ordem, do mandamento e da
vontade divina. Além disso, o Sr. D. Chemnitz, em seu livro
sobre as Boas Obras, identifica quatro acepções de
“necessário” nas Escrituras: I.) O que é necessário para justiça
e salvação, como em Atos 15:5 e Gálatas 2:4. II.) Coação,
como em 2 Coríntios 9. III.) O que não é indiferente ou
arbitrário, mas obrigatório em razão do mandamento divino,
como em Atos 14:46. IV.) O que é imutável, como em

9
Hebreus 7:12 e 9:16. Também é útil esclarecer a ambiguidade
da palavra “liberdade”. Esta palavra é usada de duas maneiras:
I.) Como oposta à necessidade servil ou coação. II.) Como
oposta à ordem, mandamento e governo da lei, embora esta
última acepção tenha uso notoriamente impróprio, pois a
necessidade de ordem e mandamento não se opõe
contraditoriamente à liberdade, mas antes se subordina a ela.
Posto isso, devemos entender em que sentido é adequado
dizer que as boas obras são necessárias e não livres para os
regenerados. Torna-se evidente que são necessárias, não por
necessidade absoluta ou de simples coação — pois os
renascidos não receberam o espírito de escravidão para temer
(Romanos 8:15) — mas por necessidade condicional, ou seja,
de ordem e mandamento divino: “somos devedores, não à
carne, para viver segundo a carne” (Romanos 8), e “a
ninguém devais coisa alguma, senão o amor mútuo”
(Romanos 13:8). Negamos às obras dos renascidos uma
liberdade posterior, ou seja, que sejam indiferentes ou
totalmente adiáforas. Não negamos, porém, a liberdade
anterior, pois esta pode perfeitamente coexistir com a
necessidade do mandamento, e não é proibido por nenhuma
piedade chamar as boas obras dos renascidos de livres nesta
liberdade; pelo contrário, somos ordenados a assim chamá-las,
como a Escritura as denomina no Salmo 110:3: “Teu povo se
oferece voluntariamente”, ou seja, oferece sacrifícios
espontaneamente, sem coação. Pois a palavra no hebraico não
denota cultos eletivos, mas sim a obediência espontânea dos
renascidos, pela qual obedecem a Deus voluntariamente. Em 2
Coríntios 9:7: “Deus ama ao que dá com alegria”, isto é,

10
voluntariamente. Não citaremos mais passagens. Assim, não
há contradição em dizer que as boas obras dos renascidos são
livres e necessárias, desde que se entenda a distinção de
sentido.

§ 2. Portanto, afirmamos que as boas obras são necessárias e


não livres para os renascidos por várias razões. A primeira é o
severo mandamento de Deus, que exige de nós boas obras:
“Sede santos, porque eu sou santo” (Levítico 11:44); “Cessai
de fazer o mal, aprendei a fazer o bem” (Isaías 1:16); “Assim
brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as
vossas boas obras” (Mateus 5:16). A segunda é a obediência
que devemos a Deus: devemos obediência a Deus como
Criador e Pai (Malaquias 1:6; Mateus 5:16; Efésios 1), como
Redentor (Lucas 17:4; 2 Coríntios 5:15; Efésios 5:4) e como
Santificador (1 Coríntios 6:1; Gálatas 5:25; Efésios 4:1).
Terceiro, os deveres para com o próximo (Lucas 22:32; 1
Pedro 2:21; 2 Coríntios 1:4). A quarta se refere aos próprios
renascidos, pois pelas boas obras confirmamos nossa vocação,
eleição e fé (2 Pedro 1:10). Veja Brochmand, System. Theol.,
artic. 25, c. 1. Urbano Régio enumera as causas para realizar
boas obras nesta ordem: I.) Como obediência devida e
ordenada por Deus e como ação de graças pelos benefícios
divinos. II.) O Pai celestial é glorificado em nós. III.) Nossa
fé é exercitada e promovida. IV.) Testemunho de fé para com
o próximo, edificando-o e ajudando-o em suas necessidades.
V.) Nossa vocação se torna certa. VI.) Embora não mereçam
justificação, obtêm recompensas corporais e espirituais pela
promessa divina gratuita. E o Sr. D. Hülsemann: “As boas

11
obras são necessárias aos regenerados por mandamento
divino; pela natureza do homem regenerado; pela necessidade
do efeito consequente à fé viva; para que o renovado
aperfeiçoe o hábito das virtudes; para o próximo, para
ajudá-lo; para Deus, para glorificá-lo; e para nós mesmos,
para confirmar nossa verdadeira fé” (Breviário Teológico, c.
2, sobre a renovação do justificado). Por essas razões,
dizemos que as boas obras são necessárias e não livres, e a
própria Escritura as considera assim. Atos 15:28: “Pareceu
bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor mais encargo
algum, senão estas coisas necessárias”; 1 Coríntios 9:16:
“Pois necessidade me é imposta; e ai de mim se não anunciar
o evangelho!”.

§ 3. A segunda parte do teorema proposto constitui a seguinte


questão: As boas obras são necessárias para merecer ou
alcançar a salvação? Adotamos a negativa, guiados e
persuadidos por razões firmíssimas, cuja essência nosso
propósito exige ao menos que apresentemos aqui. E, de fato:
I.) Porque a afirmativa, a saber, que as boas obras são
necessárias para a salvação, não está contida nas Escrituras
(sem as quais, aliás, é ímpio tratar de assuntos divinos) nem
κατὰ ῥητὸν nem κατὰ διάνοιαν; antes, lê-se que foi
introduzida de forma heterodoxa pelos pseudo-apóstolos em
Atos 15:1. Nos Gálatas, esta vã persuasão é amaldiçoada pelo
Apóstolo com justo e divino zelo (Gálatas 3). Veja
Brochmand, System. Theol., artigo 25; D. Egídio Hunn.
Comentário ao capítulo 3 de Gálatas. Embora haja aqueles
que se esforçam ao máximo para deduzir esta proposição –

12
“As boas obras são necessárias para a salvação” – senão
quanto à letra, ao menos quanto ao sentido, dos livros da
Escritura, e fortificá-la com sua autoridade, quão
candidamente procedem nisso pode-se ver, entre outros, na
Instrução aos Estudantes de Leipzig do Sr. D. Hülsemann,
assim como na Repetição do Artigo 4 do Livro da Concórdia,
editada sob sua presidência por M. Lautenschläger.

§ 4. O segundo argumento que nos move à negativa da


questão proposta é: Porque esta proposição – “As boas obras
são necessárias para a salvação” – não só é ἄγραφος, mas
também se opõe διαῤῥήδην τοῖς θεοπνεύστοις λόγοις; o que é
muito fácil de demonstrar, considerando mais profundamente
os ditos do Espírito Santo sobre nossa justificação diante de
Deus. De muitos, basta trazer três neste lugar. Acaso esta
asserção não contradiz manifestamente e frontalmente a
Paulo, que diz: “λογιζόμεθα” – “arbitramos”, diz ele – “que o
homem é justificado pela fé, sem as obras da lei” (Romanos
3:28)? Quem não vê que implica contradição afirmar que a
bem-aventurança é do homem a quem Deus imputa justiça
sem obras – a asserção do Espírito Santo em Romanos 4:6 – e,
ao mesmo tempo, dizer que as boas obras são necessárias para
a salvação? O que mais claramente se opõe a esta proposição
do que aquela da Epístola a Tito 3:5: “Não pelas obras de
justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua
misericórdia, nos salvou”? Certamente, opõem-se de tal modo
que uma necessariamente cai, e ambas não podem subsistir,
sendo testemunha o próprio Apóstolo em Romanos 11:6: “Se
é por graça, já não é pelas obras; de outra maneira, a graça já

13
não é graça”. Nem é lícito aos defensores desta proposição
buscar refúgio na distinção entre causa meritória ou mérito, e
condição ou causa sine qua non; pois afirmamos que tanto a
razão de condição ativa, quanto de meio ou instrumento,
quanto também de mérito, são excluídas das obras no ato da
justificação. Pois as obras, se forem ditas necessárias para a
salvação, não podem concorrer de outro modo senão sob a
razão de mérito. O Apóstolo demonstra no capítulo citado:
“Se é pelas obras, já não é pela graça; de outra maneira, a obra
já não é obra”. E corretamente assevera o célebre Sr. D.
Dannhauer: “As boas obras são o caminho no reino para o
reino, não condição sine qua non; do contrário, a Lei seria
condição do Evangelho, e as promessas do Evangelho seriam
condicionais.”

§ 5. Porque, em terceiro lugar, esta frase, não sem notável


blasfêmia, derroga o louvor da Perfeição ao mérito de Cristo e
o acusa impiamente de imperfeição, uma vez que a salvação
nos ocorre somente em Cristo e em nenhum outro (não na
obra operada), como se lê em Atos 4:12. Se, porém, as boas
obras também são necessárias para a salvação, então o mérito
de Cristo certamente não é suficiente, como corretamente
infere D. Hutter em Exegese do Art. 4 da Fórmula de
Concórdia, p. 446. Os defensores dessa frase, no entanto,
argumentam que se deve distinguir aqui entre salvação e
justificação, afirmando que nossas obras são necessárias para
a salvação dos já justificados pela fé, não para a justificação
em si. Mas que juízo se deve fazer sobre esta distinção, o Sr.
D. Chemnitz mostra claramente com estas palavras: “Se

14
estabelecermos que somos justificados sem obras, mas não
salvos sem obras, necessariamente se seguirá uma de duas
coisas: ou que Cristo, por sua obediência, nos mereceu a
justiça diante de Deus, mas não a salvação; ou que a promessa
da justiça é recebida sem obras, mas a promessa da salvação e
da vida eterna não é recebida sem obras, mas pela fé e pelas
obras simultaneamente” (Loci Theologici, parte 3, de Bona
Opera, questão 4).

§ 6. Que esta locução é não apenas ímpia e contrária à


Escritura, mas também extremamente nociva, até mesmo a
consciência de qualquer um testemunhará. Pois quem é capaz
de extrair verdadeira consolação nas diversas tentações a
partir das obras realizadas, escapando assim da miserável
ocasião de duvidar da Graça de Deus? Talvez o faria se
realizasse obras perfeitas em todos os aspectos e totalmente
conformes ao rigor da lei. Mas, “se dissermos que não temos
pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em
nós” (1 João 1:8); e “em muitas coisas tropeçamos todos”
(Tiago 3:2). Isto é evidente pelo exemplo do probo Jó, que
temia todas as suas obras (Jó 9:28), e de Davi, que gemia: “Se
observares as iniquidades, Senhor, quem subsistirá?” (Salmo
130:3), além de muitos outros que nos superam muito em
piedade. É muito verdadeiro que as consciências temerosas e
atormentadas pelo senso da ira divina são forçadas a duvidar
perpetuamente se têm boas obras suficientes pelas quais
possam agradar a Deus e alcançar a salvação, como diz o Sr.
D. Gerhard em Loci Theologici, Tomo 4, de Bona Opera. Daí
os próprios Apóstolos declararem: “Alguns que saíram dentre

15
nós vos perturbaram com palavras, transtornando
(ἀνασκευάζοντες) as vossas almas” (Atos 15:24). Portanto,
uma proposição que priva as consciências aflitas da
verdadeira consolação e dá ocasião para a dúvida é
merecidamente proclamada ímpia e falsa.

§ 7. Por esta frase majorística, a notável distinção entre Lei e


Evangelho é vergonhosamente removida. Sabe-se que a Lei se
distingue do Evangelho principalmente pelo fato de que a
salvação e a vida eterna nos advêm não pela Lei, mas pelo
Evangelho. Acaso aqueles que prometem a si mesmos a
salvação a partir das obras da Lei não fazem da Lei o
Evangelho, trocando-a assim por este? Que julguem isso
aqueles que não têm o cérebro nos calcanhares. Certamente,
se as boas obras são necessárias para a salvação, as promessas
do Evangelho deixam de ser gratuitas e passam a ser
condicionais. Por esta razão, Lei e Evangelho são confundidos
(D. Gerhard, Loci Theologici, Tomo 4, de Bona Opera, p. 83).

§ 8. E como, pergunto, poderiam nossas obras entrar no ato da


justificação — ou, se preferir, da salvação — e merecer a vida
eterna, quando entre estas nossas obras e a vida eterna não se
encontra a mínima igualdade ou proporção, o que, no entanto,
seria necessário? Pois todos têm o que confessar com o
Patriarca Jacó: “Sou menor que todas as misericórdias e que
toda a fidelidade que tens usado para com teu servo” (Gênesis
32:10). E a razão daquele que confia em suas obras e se
orgulha delas diante de Deus é a de um mendigo vestido com
um manto sujíssimo, que se apresentaria diante do Rei,

16
pensando estar esplendidamente vestido, uma comparação
utilizada pelo Sr. L. Müller, Pastor de Hamburgo, em Conc.
no Artigo 6. da A.C., p. 398. Além disso, nossas obras têm
apenas a natureza de dívida; e onde há dívida e não benefício,
não há lugar para mérito (D. Brochmand, Systema
Theologicum, Tomo 2, artigo 25, c. 1, sect. 5).

§ 9. Finalmente, esta fórmula de falar foi rejeitada por Lutero


(Megalandro), e por todos os doutores ortodoxos da Igreja
como perniciosa e blasfema, e, assim, proscrita do seio da
Igreja. Incumbe, portanto, aos doutores, por direito divino,
falarem na Igreja com frases às quais não só se possa atribuir
um sentido conveniente, mas às quais se costuma atribuir pelo
uso comum do povo, nenhum outro senão o verdadeiro
sentido ortodoxo (Sr. D. Hülsemann, Instructio Stud. Lips.,
sobre esta frase, Aphorismus 5, p. 31). Essa frase, atestando a
Fórmula de Concórdia, surgiu da fórmula interina da religião
e, assim, tem como autores inimigos manifestos da verdade,
entre os quais se destacam Julius Pflug, Bispo de Naumburg,
Michael Helding, Bispo de Merseburg, e Johannes Agricola,
cuja heterodoxia é conhecida por poucos. Acrescento que ela
é também uma frase dos Interimistas, Papistas, Socinianos,
Anabatistas e Schwenckfeldianos, sobre os quais trataremos
nos teoremas seguintes.

§ 10. A partir do que foi apresentado e trazido à discussão,


fica claro quanta impiedade, blasfêmia e absurdo carrega a
sentença afirmativa da questão. Nós, melhor instruídos
(θεοδίδακτοι), dizemos e confessamos constantemente: nossas

17
boas obras, quaisquer que sejam as denominações que
recebam, no ato da justificação não podem sustentar nem a
razão de causa, seja ela eficiente, meritória, aplicante ou
adjuvante da salvação, como diz o Sr. D. Höpfner; nem de
mérito, nem de meio, nem de condição, nem de causa sine qua
non. Aceitamos estas frases como ortodoxas e conformes à
norma da fé: “As boas obras são necessárias”, “As boas obras
são necessárias como coisas ordenadas por Deus”, “As boas
obras são necessárias para declarar a fé”. Por outro lado,
rejeitamos estas como pleníssimas de ofensa, conforme nossa
F. C.: “As boas obras são necessárias para alcançar ou
merecer a salvação”, “É impossível ser salvo sem boas obras”,
“Ninguém jamais foi salvo sem boas obras”. Contudo, deve-se
tomar cuidado para que, ao fugir de Caríbdis, não caiamos em
Cila, e não nos deixemos persuadir por esta falsa ilação: “As
boas obras não são necessárias para a salvação. Logo,
simplesmente não são necessárias”. Pois se infere mais no
consequente do que havia no antecedente. Nem se deve
aceitar a seguinte: “Nossas boas obras são imperfeitas. Logo,
não se deve estudá-las”. Essa imperfeição deve ser
reconhecida antes que o estudo das boas obras seja
interrompido. Que estejam ausentes essas inépcias de
conclusões, pois é evidente, a partir do que foi exposto acima,
que aos renascidos incumbe maximamente o estudo das boas
obras, por causa do mandamento do Deus Triuno, para
exercitar a fé, para a confissão e para a ação de graças. E este
estudo das boas obras também é enfatizado por nossas Igrejas
de forma diligente e séria; onde não damos atenção às
calúnias dos Papistas e Socinianos, que nos acusam

18
falsamente de remover a doutrina das boas obras. Pois está
suficientemente documentado, de maneira abundante, nos
escritos de nossos teólogos e nas confissões públicas, quanto
valorizamos as boas obras e com que astúcia eles trazem
certos ditos de Lutero em apoio a essa sua calúnia.

19
TEOREMA III.
Afirmamos que os erros que subvertem a doutrina das
Boas Obras são extremamente perigosos e perniciosos
para a própria salvação.

§ 1. Se em algum artigo de fé diversos doutores se desviam


para caminhos errôneos, é certamente neste presente que
muitos se afastam. D. Chemnitz apresenta uma longa série
deles na parte 3 de L.C. Brochm. System. Theol. artic. 25.
Tentaremos aqui expor os principais, dividindo-os em duas
classes. A primeira classe compreende aqueles que, adotando
um estilo de vida extremamente livre, consideraram indigna
para os que devem ser salvos a lei que exige o estudo das
B.O., eliminando completamente a necessidade das Boas
Obras, e chegaram a tal impiedade que afirmaram serem as
Boas Obras mais perniciosas do que necessárias para a
salvação. A segunda classe inclui aqueles que não apenas
admitem a necessidade das Obras, mas também lhes atribuem
caráter de mérito, elevando-as ao próprio ato de Justificação,
além e contra o testemunho da Sagrada Escritura.

§ 2. Examinando a primeira classe dos que se afastam da


verdade, começamos pelos primeiros anos do Novo
Testamento. A crueldade do Diabo atacou esta doutrina das
B.O., tentando convertê-la em uma horrenda licenciosidade da
carne já no primeiro século, na própria era dos Apóstolos,
através do infeliz, mas, ai de mim, fecundo heresiarca Simão
Mago. Sobre ele, Irineu relata no L.1. c. 35 que impiamente
ensinou que a Salvação e a vida eterna consistem em um

20
estilo de vida extremamente livre, que não teme nenhuma
ameaça da lei, não se preocupa com considerações de
honestidade ou virtude, mas empreende o que lhe apraz. No
segundo século, apareceram sucessores a esse dogma
venenoso, como os Basilidianos, Carpocracianos e Gnósticos,
que, ao abrirem as portas para vários crimes, permitiram a
mais imunda licença para os pecados (Irineu, L.1. c. 23 e 32).
Aécio e Eunômio (no terceiro século) foram ferrenhos
inimigos das Boas Obras, conforme atesta Agostinho no
tratado sobre as heresias. Entre os Anabatistas, os Libertinos
interpretaram a escritura — “Os renascidos são guiados pelo
Espírito de Deus” — como uma permissão para considerar
Boa Obra qualquer coisa que sua alma sugerisse, ainda que
fosse contra a palavra divina. Os Antinomianos, que ainda na
vida de Lutero haviam declarado guerra à proposição de que
as Boas Obras são necessárias, reprimidos pela autoridade de
Lutero, mais tarde reacenderam essa disputa, atacando
vergonhosamente essa proposição, a ponto de proscreverem
nossa doutrina com ultrajantes insultos, chamando-a, segundo
o testemunho de D. Hütter (Exeg. F.C. Artic. 4), de “dogma
absurdo, pernicioso, torpíssimo, tortura das consciências,
proposição imprópria, espúria, adulterina, perigosa,
escandalosa, perniciosa para as consciências dos piedosos,
ímpia e blasfema contra o mérito da morte e paixão do FILHO
de Deus.”

§ 3. Dizemos que estes, e quaisquer outros ἀνόμους (sem lei),


colidem com a própria norma da fé e erram gravemente contra
a sã doutrina. A eles opomos: I.) O severíssimo mandamento

21
de Deus, que exige rigorosamente as Boas Obras; II.) Nosso
dever, pelo qual somos obrigados a nos dedicar às B. Obras
em todo tempo e lugar; III.) O bem do próximo, que os
cristãos têm o dever de buscar, pois convém ganhar o Próximo
com palavras, atos e exemplos; IV.) O vínculo indissolúvel
das B. Obras com a fé; V.) Os justos castigos de Deus, com os
quais Ele perseguiu e ainda hoje persegue os contumazes que
negligenciam as B.O.; VI.) As vastas recompensas que os
diligentes cultores das B.O. devem esperar para si; VII.) E,
particularmente aos Libertinos que abusam de sua liberdade,
contrapomos o versículo único de Deuteronômio 12, versículo
8 e 32: “Não faça cada um o que parece reto aos seus olhos.
Mas tudo o que eu vos ordenar, isso observareis para fazer:
não acrescentareis nada a isso, nem diminuireis nada disso.”

§ 4. A segunda classe inclui aqueles que, conforme o dito do


Poeta: “Enquanto os tolos fogem dos vícios, correm para os
opostos.” Buscando o extremo oposto do caminho da verdade
e, assim, passando do condenável Epicurismo ao abominável
Farisaísmo, admitem que as Boas Obras são necessárias, mas
acrescentam: para a salvação. Esta opinião, por sua aparente
semelhança com a verdade em comparação com a outra,
conquistou muitos defensores. Pois, mal havia saído da boca
de Cristo e dos Apóstolos o som do dulcíssimo Evangelho
sobre a justificação gratuita, já os orgulhosos fariseus,
vangloriando-se das Boas Obras, e os rígidos
pseudo-apóstolos, exigindo-as, atacavam esta doutrina
salvífica, clamando que o Céu devia ser merecido por meio
das obras. Este dogma perverso é amplamente refutado tanto

22
pelo próprio Mestre da Sabedoria quanto por seus Discípulos
Apóstolos em muitas passagens do Novo Testamento. No
tempo de Agostinho, o augusto Doutor da Igreja, os
Pelagianos propunham uma doutrina semelhante, uma
verdadeira tortura, cujas palavras (como as de seus
antagonistas) Agostinho cita em Do Espírito e da Letra, c. 2:
“Deus criou o homem com livre arbítrio da vontade; em
seguida, dando preceitos, ensina como se deve viver, para que
o homem saiba, por suas obras, o que evitar e o que buscar, a
fim de que, vivendo continentemente, justa e piedosamente,
mereça a vida eterna e bem-aventurada.” Este erro foi
vigorosamente combatido pelo louvado Pai da Igreja. Não é
necessário retomar aqui discussões tão antigas; basta observar
que não foi o Beato Lutero o primeiro, pois antes dele, outros
Doutores da Igreja já tratavam desta questão. Entre os
Calvinistas, alguns defendiam a necessidade das Boas Obras
para a salvação, como as palavras do próprio Calvino
testemunham claramente no L. 3. Instit. c. 14. §. 11: “Aqueles
que o Senhor, por sua misericórdia, destinou à herança da vida
eterna, ele os conduz à sua posse, por sua dispensação
ordinária, através das B. Obras.” Beza, seguindo Calvino
também neste ponto, concorda: “O Apóstolo diz que o zelo
pela Justiça e santidade é a vida eterna, ou seja, traz consigo a
vida eterna.” Nesta matéria, os Socinianos ou Fotinianos
(seguidores de Fotino) também não pensam de modo mais
sóbrio, incluindo as Boas Obras entre as causas da
Justificação e estabelecendo a obediência aos preceitos de
Cristo como causa sine qua non de nossa Justificação. Assim,
seu líder, Socino, afirma impiamente na p. 17 sobre a

23
Justificação: “Nossas Obras, isto é, a Obediência que
prestamos a Cristo, embora não sejam nem eficientes nem
meritórias, são, todavia, causa sine qua non.” Além disso,
dizem que a fé formada pelas Obras salva e, assim, fazem
destas a forma da fé. Socino, sobre a Justificação, p. 124: “A
fé em Cristo, que as obras seguem, nada mais é do que confiar
no próprio Cristo, o que, sem dúvida, tem força justificadora;
consequentemente, as próprias Obras justificam, na medida
em que são a execução, perfeição e como que a forma da
própria fé.” Respondemos brevemente ao primeiro, negando
que as Boas Obras sejam causa sine qua non da Justificação,
baseando-nos no fato de que a Justificação do homem não se
relaciona com as promessas da lei, mas com as do Evangelho,
que são verdadeira e meramente gratuitas, e de modo algum
condicionais. Dizer que as Obras são causa sine qua non da
Justificação é afirmar que as promessas Evangélicas são
condicionais, o que é contraditório. Quanto ao segundo, que
os seguidores de Socino ouçam Paulo respondendo-lhes em
Romanos 3:24: “Sendo justificados gratuitamente pela sua
graça, pela redenção que há em Cristo Jesus.” A partícula
δωρεὰν (gratuitamente) exclui todo mérito das obras, como é
evidente. E, no versículo 28: “Concluímos, pois, que o
homem é justificado pela fé (Lutero: “somente pela fé”), sem
as obras da lei.” Conf. D. Nic. Hunnius, Exame dos Erros
Fotinianos, c. 4 sobre a Justif. num. 2. Descobre-se que
também os Anabatistas e Schwenckfeldianos defendem essa
posição, se seus escritos forem examinados. Contudo, devem
ser mencionados principalmente os Papistas, conhecidos por
este erro, que há um século lutam pela necessidade das Obras

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na Justificação, como se fosse pelos próprios altares e lares,
tentando defendê-la e fortificá-la com cinco argumentos. D.
Gerhard os enumera a partir do Cardeal Belarmino em Tomo
4. c. sobre as B.O. §48 e seguintes. A primeira razão, extraída
da distinção entre lei e Evangelho, é formulada: “Se a
promessa da vida eterna é condicional, então é necessário
cumprir a condição para a salvação.” Este argumento é
facilmente refutado se distinguirmos a promessa legal da vida
eterna, que é condicional, da Evangélica, que é gratuita. A
segunda razão vem da Liberdade Cristã: “Se o justo não está
livre da obrigação da lei divina, então, sem cumpri-la, não
será salvo.” Novamente, a resposta é distinguir entre a
libertação da coação e maldição da lei e a libertação da
obediência à lei; os justos são livres desta, mas não daquela
liberdade. O terceiro argumento, tirado da Escritura mal
interpretada, baseia-se em passagens como Hebreus 10:36; 1
Timóteo 2:15; Filipenses 2:12; entre outras, refutadas
vigorosamente por Nossos Doutores (confira D. Gerhard e D.
Chemnitz). Em quarto lugar, apoiam-se nos Testemunhos dos
Padres, conforme Belarmino, Sobre a Justificação, L. 4. cap.
5. Replicamos com o que diz D. Gerhard: I.) Quando os
Padres negam que a fé sem Obras seja suficiente, referem-se à
fé herética e falsa, ou morta e vã, ou à mera profissão de fé.
II.) É diferente afirmar que as Boas Obras são necessárias e
afirmar que são necessárias para a salvação. III.) Quando os
antigos exortam as Boas Obras em homilias, o fazem de modo
a combater o zelo esfriado de muitos, exaltando a necessidade
das Boas Obras com retórica vigorosa. Por fim, os defensores
desta doutrina fazem uma inferência obscura: “Se só a fé

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salvasse e as obras não fossem necessárias exceto como
presença, então a fé salvaria por si só, mesmo sem qualquer
Boa Obra, ou mesmo unida a vícios.” Esse argumento falha,
pois supõe que a verdadeira fé possa existir sem Boas Obras e
unida aos males; sendo falsa a hipótese, caem também suas
conclusões. Por toda a Europa, tornou-se notória a contumácia
com que, no século passado, em 1551 e anos seguintes, o Sr.
Georg Major, Professor de Teologia nesta Leucorea, defendeu
esse dogma pseudo-apostólico. A blasfema insanidade de suas
palavras nos escritos, como o Livro Contra Amsdorf e o
Sermão sobre a Conversão de Paulo, é amplamente conhecida.
Suas palavras — dificilmente dignas de um Cristão, quanto
mais de um Professor de Teologia —, onde diz: “Confesso
isto, que outrora ensinei, e ainda ensino, e por toda a minha
vida ensinarei, que as boas Obras são necessárias para a
Salvação…”, são execradas por todos os que não negam a
misericórdia gratuita de Deus e reconhecem as falhas de
nossas Obras.

§ 5. Além disso, não podemos concordar com aqueles que,


seja por desejo de novidade, seja por um anseio de
sincretismo, julgam que a frase “As Boas Obras são
necessárias para a salvação” deve ser mantida na Igreja. Mais
ainda, tentam preservá-la e se esforçam para atribuir-lhe um
sentido aceitável. Pois, por mais que tentem embelezá-la,
digam que se entende apenas como necessidade de presença,
ensinem que as Boas Obras são necessárias como causa sine
qua non, condição ou caminho, façam distinções entre
condição de sujeito e de predicado, ou até tentem trazer o

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apoio de alguns Padres, a frase permanece imprópria. Ela
continua sendo uma afronta ao artigo da Justificação, um
enigma nascido da “Esfinge Interimística”, repleto de
escândalo e definitivamente condenado pelo consenso
unânime dos Ortodoxos. Assim, permanecemos firmes nessa
posição, exceto por acrescentarmos, para concluir, a
admoestação fiel do Bem-aventurado Lutero, purificador da fé
sincera, sobre essa fórmula, no Prefácio à Epístola aos
Gálatas: “Admoesto-vos, especialmente vós, que sereis
mestres das consciências, e a cada um em particular, que vos
exerciteis estudando, lendo, meditando e orando, para que na
tentação possais instruir e consolar as consciências, tanto as
vossas quanto as dos outros, reconduzindo-as da lei para a
graça, da justiça ativa para a passiva. Em suma: de Moisés
para Cristo. Pois o Diabo costuma, na aflição e luta da
consciência, aterrorizar-nos pela lei e opor a consciência do
pecado, nossa vida pessimamente vivida, e também o juízo de
Deus, o inferno e a morte eterna, para assim nos conduzir ao
desespero, nos submeter a si e nos afastar de Cristo. Costuma,
enfim, opor passagens do Evangelho, nas quais o próprio
Cristo exige de nós obras e ameaça com palavras claras a
ruína àqueles que não as fizerem. Se aqui ignorarmos
discernir entre estas duas justiças, se aqui não apreendermos
pela fé Cristo sentado à direita de Deus, que é nossa vida e
justiça, e que intercede por nós, míseros pecadores, junto ao
Pai, então estamos sob a lei, não sob a graça, e Cristo não é
mais salvador, mas legislador.” Que o JEOVÁ triuno conceda
que, fugindo de toda segurança Epicureia, realizemos boas
obras; evitando todo orgulho Farisaico, não nos exaltemos

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com as obras realizadas; e, repudiando toda impiedade
heterodoxa, pensemos corretamente sobre as Boas Obras.
Assim, que, por meio de nossas boas obras, Deus seja
glorificado eternamente.

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