Brás, Bexiga e Barra Funda — A
Sociedade
Alcântara Machado
Conteúdo exportado da Wikisource em 30 de março de 2021
1
- Filha minha não casa com filho de carcamano!
A esposa do Conselheiro José Bonifácio de Matos e Arruda
disse isso e foi brigar com o italiano das batatas. Teresa Rita
misturou lágrimas com gemidos e entrou no seu quarto
batendo a porta. O Conselheiro José Bonifácio limpou as
unhas com o palito, suspirou e saiu de casa abotoando o
fraque.
O esperado grito do cláxon fechou o livro de Henri Ardel e
trouxe Teresa Rita do escritório para o terraço.
O Lancia passou como quem não quer. Quase parando. A
mão enluvada cumprimentou com o chapéu Borsalino.
Uiiiiia - uiiiia! Adriano MeIli calcou o acelerador. Na
primeira esquina fez a curva. Veio voltando. Passou de
novo. Continuou. Mais duzentos metros. Outra curva.
Sempre na mesma rua. Gostava dela. Era a Rua da
Liberdade. Pouco antes do número 259-C já sabe: uiiiiia-
uiiiiia!
- O que você está fazendo aí no terraço, menina.
- Então nem tomar um pouco de ar eu posso mais?
Lancia Lambda, vermelhinho, resplendente, pompeando na
rua. Vestido do Camilo, verde, grudado à pele, serpejando
no terraço.
2
- Entre já para dentro ou eu falo com seu pai quando ele
chegar!
- Ah meu Deus, meu Deus, que vida, meu Deus!
Adriano Melli passou outras vezes ainda. Estranhou.
Desapontou. Tocou para a Avenida Paulista.
Na orquestra o negro de casaco vermelho afastava o
saxofone da beiçorra para gritar:
Dizem que Cristo nasceu em Belém...
Porque os pais não a haviam acompanhado (abençoado
furúnculo inflamou o pescoço do Conselheiro José
Bonifácio) ela estava achando um suco aquela vesperal do
Paulistano. O namorado ainda mais.
Os pares dançarmos maxixavam colados. No meio do salão
eram um bolo tremelicante. Dentro do círculo palerma de
mamãs, moças feias e moços enjoados. A orquestra preta
tonitroava. Alegria de vozes e sons. Palmas contentes
prolongaram o maxixe. O banjo é que ritmava os passos.
- Sua mãe me fez ontem uma desfeita na cidade.
- Não!
- Como não? Sim senhora. Virou a cara quando me viu.
3
... mas a história se enganou!
As meninas de ancas salientes riam porque os rapazes
contavam episódios de farra muito engraçados. O professor
da Faculdade de Direito citava Rui Barbosa para um
sujeitinho de óculos. Sob a vaia do saxofone: turururu-
turururum!
- Meu pai quer fazer um negocio com o seu.
- Ah sim?
Cristo nasceu na Bahia, meu bem...
O sujeitinho de óculos começou a recitar Gustave Le Bon
mas a destra espalmada do catedrático o engasgou. Alegria
de vozes e sons.
... e o baiano criou!
- Olhe aqui, Bonifácio: se esse carcamano vem pedir a mão
de Teresa para o filho, você aponte o olho da rua para ele,
compreendeu?
- Já sei, mulher, já sei.
Mas era cousa muito diversa.
4
O Cav. Uff. Salvatore Melli alinhou algarismos torcendo a
bigodeira. Falou como homem de negócios que enxerga
longe. Demonstrou cabalmcnte as vantagens econômicas de
sua proposta.
- O doutor...
- Eu não sou doutor, Senhor Melli.
- Parlo assim para facilitar. Non é para ofender. Primo o
doutor pense bem. E poi me dê a sua resposta. Domani,
dopo domani, na outra semana, quando quiser. lo resto à sua
disposição. Ma pense bem!
Renovou a proposta e repetiu os argumentos pró. O
conselheiro possuía uns terrenos em São Caetano. Cousas
de herança. Não lhe davam renda alguma. O Cav. Uff. tinha
a sua fábrica ao lado. 1.200 teares. 36.000 fusos.
Constituíam uma sociedade. O conselheiro entrava com os
terrenos. O Cav. Uff. com o capital. Armavam os trinta
alqueires e vendiam logo grande parte para os operários da
fábrica. Lucro certo, mais que certo, garantidíssimo.
- É. Eu já pensei nisso. Mas sem capital e senhor
compreende é impossível...
- Per Bacco, doutor! Mas io tenho o capital. O capital sono
io. O doutor entra com o terreno, mais nada. E o lucro se
divide no meio.
5
O capital acendeu um charuto. O conselheiro coçou os
joelhos disfarçando a emoção. A negra de broche serviu o
café.
- Dopo o doutor me dá a resposta. lo só digo isto: pense
bem.
O capital levantou-se. Deu dois passos. Parou. Meio
embaraçado. Apontou para um quadro.
- Bonita pintura.
Pensou que fosse obra de italiano. Mas era de francês.
- Francese? Não é feio non. Serve.
Embatucou. Tinha qualquer cousa. Tirou o charuto da boca,
ficou olhando para a ponta acesa. Deu um balanço no
corpo. Decidiu-se.
- Ia dimenticando de dizer. O meu filho fará o gerente da
sociedade... Sob a minha direção, si capisce.
- Sei, sei... O seu filho?
- Si. O Adriano. O doutor... mi pare... mi pare que conhece
ele?
O silêncio do Conselheiro desviou os olhos do Cav. Uff. na
direção da porta.
6
- Repito un'altra vez: O doutor pense bem.
O Isotta Fraschini esperava-o todo iluminado.
- E então? O que devo responder ao homem?
- Faça como entender, Bonifácio...
- Eu acho que devo aceitar.
- Pois aceite.
E puxou o lençol.
A outra proposta foi feita de fraque e veio seis meses
depois.
O Conselheiro José Bonifácio.........O Cav. Uff. Salvatore
Melli
de Matos e Arruda....................e
e....................................senhora
senhora
têm a honra de participar ...........têm a honra de participar
a V. Ex.a e Ex.ma família o .........a V. Ex.a e Ex.ma família
o
contrato de casamento de sua.........contrato de casamento de
seu
filha Teresa Rita com o Sr...........filho Adriano com a
7
Senhorinha
Adriano Melli........................Teresa Rita de Matos Arruda.
Rua da Liberdade, n.0 259-C..........Rua da Barra Funda, n.0
427.
S. Paulo 19 de fevereiro de 1927.
No chá do noivado o Cav. Uff. Adriano Melli na frente de
toda a gente recordou à mãe de sua futura nora os bons
tempinhos em que lhe vendia cebolas e batatas, Olio di
Lucca e bacalhau português, quase sempre fiado e até sem
caderneta.
8
Sobre esta edição digital
Este eBook foi gerado a partir do Wikisource,[1] biblioteca
online multilíngue, feita por voluntários, comprometida em
desenvolver uma coleção de publicações em copyleft de
todos os gêneros: (romances, poemas, revistas e periódicos,
cartas, livros técnicos etc)
Nossos livros são distribuídos gratuitamente, a partir de
materiais que tenham caído em domínio público ou que
tenham sido disponibilizados em licenças livres. Você pode
utilizar nossos materiais para quaisquer fins, inclusive
comercialmente, dentro dos termos ou da Creative
Commons BY-SA 3.0 [2] ou da GNU FDL,[3] à sua escolha.
O Wikisource está sempre à procura de novos membros:
sinta-se à vontade em participar. Apesar de nossos
cuidados, é possível que este livro contenha um ou mais
erros que nos passaram despercebidos. Seja por um ou por
outro motivo, você pode nos contatar no nosso fórum.[4]
Este livro em particular lhe foi disponibilizado a partir das
pessoas por detrás destes nicknames:
Ozymandias
9
1. ↑ http://pt.wikisource.org
2. ↑ http://creativecommons.org/licenses/by-
sa/3.0/deed.pt_BR
3. ↑ http://www.gnu.org/copyleft/fdl.html
4. ↑ https://pt.wikisource.org/wiki/Wikisource:Esplanada
10