Impacto dos Alertas de Desmatamento na Amazônia
Impacto dos Alertas de Desmatamento na Amazônia
Resumo
Este estudo investiga o impacto dos alertas de desmatamento sobre a aplicação de embargos
na Amazônia Legal entre 2015 e 2022. A análise empírica revela que um aumento nos
alertas de desmatamento está associado a um aumento nos embargos. Além disso, o estudo
destaca que a efetividade dos embargos varia conforme a capacidade de monitoramento e as
políticas governamentais, reforçando a importância do contexto ambiental e institucional
do país, sobretudo durante o governo Bolsonaro. Os resultados mostram que a interação
entre os alertas de desmatamento e o governo Bolsonaro foi negativa e significativa. Isso
sugere que, apesar do aumento nos alertas, outros fatores associados ao governo ou suas
políticas podem estar contrabalançando esse efeito, levando a uma redução no número de
embargos por desmatamento. A análise também considera outras variáveis como área de
cultivo de soja, PIB estadual e despesa ambiental, concluindo que o PIB estadual está
positivamente associado à aplicação de embargos, enquanto maiores áreas destinadas ao
cultivo de soja estão negativamente associadas. Esta pesquisa fornece evidências sobre
a importância de um monitoramento ambiental e políticas eficazes na preservação da
Amazônia, contribuindo para a literatura ao focar diretamente na relação causal entre
alertas de desmatamento e embargos, até então pouco explorada.
Palavras-chave: Alertas de desmatamento, Amazônia Legal, Embargos, Monitoramento
Remoto.
Abstract
This study investigates the impact of deforestation alerts on the application of embargoes in
the Legal Amazon between 2015 and 2022. The empirical analysis reveals that an increase
in deforestation alerts is associated with an increase in embargoes. Additionally, the study
shows that the effectiveness of embargoes varies with monitoring capacity and government
policies, emphasizing the significance of the country’s environmental and institutional
context, particularly during the Bolsonaro administration. The results indicate that the
interaction between deforestation alerts and the Bolsonaro government was negative and
significant. This suggests that despite the increase in alerts, other factors associated with
the government or its policies may counterbalance this effect, leading to a reduction in the
number of deforestation embargoes. The analysis also considers other variables such as
soybean cultivation area, state GDP, and environmental expenditures, concluding that
state GDP is positively associated with the application of embargoes, while larger areas
allocated to soybean cultivation are negatively associated. This research provides evidence
on the importance of environmental monitoring and effective policies in preserving the
∗
Doutorando em Economia Aplicada pelo PPGEA/UFV. E-mail: [email protected].
†
Professora adjunta no Departamento de Economia Rural (DER/UFV). E-mail: [email protected].
1
Amazon, contributing to the literature by directly focusing on the causal relationship
between deforestation alerts and embargoes, which has previously been little explored.
Keywords: Deforestation alerts, Legal Amazon, Embargoes, Remote monitoring.
Área 11: Economia Agrícola e do Meio Ambiente.
Classificação JEL: Q28, Q57, Q51.
1 Introdução
Figura 1: Área total (em km2 ) desmatada na Amazônia Legal entre 1988 e 2023.
Fonte: Elaboração própria a partir de dados do PRODES/INPE.
Contudo, a área total representada na Figura 1 é composta pela soma das áreas desmatadas
individualmente pelos estados que compõem a Amazônia Legal. Nesse sentido, alguns estados
contribuem de forma mais expressiva para essa área total desmatada em comparação a outros.
1
Essa proporção equivale a uma área de aproximadamente 5.015.146,008 km2 . Disponível
em: https://www.ibge.gov.br/geociencias/cartas-e-mapas/mapas-regionais/15819-amazonia-legal.
html?=&t=o-que-e
2
A Figura 2 ilustra a área total (em km2 ) de desmatamento por estado na Amazônia Legal2 .
Nota-se que estados como Mato Grosso, Pará e Rondônia, por exemplo, são notáveis por sua
contribuição significativa para o desmatamento em diversos anos. Essa constatação reforça
a importância de dedicar atenção a esses estados nas estratégias de conservação e políticas
ambientais.
Figura 2: Área total (em km2 ) desmatada por estado na Amazônia Legal entre 1988 e 2023.
Fonte: Elaboração própria a partir de dados do PRODES/INPE.
Além disso, a Figura 2 reforça que o período entre 2004 e 2012 se configura como uma fase
bem-sucedida nas ações voltadas para a contenção do desmatamento. Nesse intervalo, há uma
redução marcante em todos os estados que integram a Amazônia Legal.
Nas últimas duas décadas, o uso de monitoramento remoto para focalizar a aplicação da lei
ambiental se tornou uma das principais ferramentas de políticas públicas ambientais estabelecidas
no Brasil. Com a criação do Sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real (DETER),
em 2004, o suporte à fiscalização e controle do desmatamento e da degradação ambiental na
Amazônia foram aprimorados. Entretanto, em resposta às alterações dos padrões das áreas
desmatadas, foi criado o DETER-B, com o intuito de identificar e mapear modificações na
cobertura florestal e desmatamentos com área mínima próxima a 3 hectares (Diniz et al., 2015;
INPE, 2024a). Os alertas georreferenciados de desmatamento emitidos pelo DETER-B sinalizam
as áreas que precisam de atenção imediata, auxiliando no direcionamento para aplicação de
sanções e multas ambientais.
Em um cenário no qual predominava o desmatamento ilegal em larga escala, o uso de
tecnologias de monitoramento remoto oferece um levantamento em tempo quase real de evidências
de alterações na cobertura florestal. Assunção et al. (2023) afirmam que o uso de tecnologias
de sensoriamento remoto foi fundamental para o Brasil superar as limitações impostas pelo
ambiente institucional fraco do país. Ademais, tais ferramentas junto a fiscalização são capazes
de inibir e conter o avanço do desmatamento em maiores proporções (Tyukavina et al., 2017;
Gandour, 2021).
Diante disso, neste artigo investiga-se se os alertas de desmatamento, ao identificarem
potenciais anomalias ou alterações na cobertura vegetal, têm desempenhado um papel relevante
nas ações de fiscalização. Essas ações envolvem intervenções destinadas a interromper ou reduzir
2
Os estados que compreendem a Amazônia Legal são: Acre, Amazonas, Amapá, Maranhão, Mato Grosso,
Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins.
3
o dano ambiental, por meio da implementação de medidas cautelares e orientativas, como o
embargo de áreas desmatadas. Assim, questiona-se: os alertas de desmatamento têm efeito sobre
o número de áreas embargadas nos estados da Amazônia Legal entre 2015 e 2022? Tendo em
vista que o monitoramento via satélite é apenas uma parte do processo, este estudo busca avaliar
como a disponibilidade de alertas de desmatamento influencia o cumprimento das políticas
ambientais e a capacidade das autoridades de detectar e, principalmente, sancionar os infratores
através do embargo das áreas desmatadas.
Parte-se da premissa de que o monitoramento possa ser utilizado como ferramenta de apoio
eficaz para a fiscalização e, consequentemente, na aplicação autos de infração que são convertidos
em áreas embargadas para os infratores. Ao analisar essa relação, o estudo pretende não apenas
contribuir para uma melhor compreensão do papel dos alertas de desmatamento, mas também
identificar os fatores complexos que envolvem a designação de áreas embargadas em um contexto
ambiental desafiador como o da Amazônia.
Este artigo está organizado da seguinte forma: a Seção 2 aborda a aplicação da lei ambiental
e as medidas implementadas para conter o desmatamento, proporcionando uma visão geral do
contexto normativo e das estratégias adotadas. A Seção 3 descreve a metodologia utilizada,
detalhando a estratégia de identificação e a abordagem empírica empregada na análise, além
de apresentar a fonte de dados e a descrição das variáveis. Em seguida, a Seção 4 descreve os
resultados da pesquisa, com estatísticas descritivas e estimativas do modelo. Por fim, a Seção
5 apresenta as considerações finais, discutindo as implicações dos resultados, as limitações do
estudo e sugestões para pesquisas futuras.
4
2008).
O sistema DETER-B funciona por meio de alertas georreferenciados de desmatamento,
indicando áreas que necessitem atenção imediata por parte das autoridades (Diniz et al., 2015).
Desse modo, é necessário que a capacidade de resposta das autoridades seja eficaz para inibir,
de fato, o desmatamento ilegal. Portanto, o monitoramento da cobertura florestal baseado
no georreferenciamento é especialmente relevante no Brasil, uma vez que há uma janela de
oportunidade capaz de atingir níveis satisfatórios de atuação do estado na aplicação de autos
de infração ambiental e, consequentemente, na redução dos níveis de desmatamento, em um
contexto de desafios ambientais e institucionais historicamente conflituosos.
Ferreira (2024) denota que a qualidade dos alertas de desmatamento melhorou substancial-
mente de 2011 a 2020, atingindo níveis relativamente baixos de alertas falsos positivos. Contudo,
apesar dos avanços decorrentes da tecnologia de georreferenciamento via satélite, observa-se
que há fatores que sugerem a existência de uma lacuna na fiscalização das áreas que perderam
cobertura florestal e foram detectadas pelo satélite. Essa falha é especialmente notória quando
se observa a ocorrência de polígonos de desmatamento que excedem 100 hectares, uma escala
que os satélites são capazes de captar facilmente (INPE, 2024b).
Trancoso (2021) denota que há um comportamento dos agentes desmatadores associado à
expectativa de impunidade no Brasil, à medida que se observa políticas ambientais passivas nos
últimos anos. Silva et al. (2022) afirmam que os proprietários de terras continuam desrespeitando
a legislação ambiental na maioria das áreas penalizadas. Eles atribuem esse comportamento
à fiscalização insuficiente, já que os agentes ambientais raramente retornam para verificar a
situação das terras após a imposição das sanções.
Schmitt (2015) afirma que um fator que potencializa a sensação de descaso e impunidade
quanto aos atos lesivos ao meio ambiente se refere ao uso contínuo das áreas que foram embargadas
por desmatamento ilegal e que continuam a executar atividades. Destaca-se também que houve
um aumento no número de alertas de desmatamento emitidos pelo DETER-B, que se associam
a fatores como o enfraquecimento dos órgãos ambientais e redução de áreas protegidas (Valdes
et al., 2020; Vale et al., 2021).
Esse contexto demonstra a necessidade de cumprir as políticas ambientais de modo efetivo e
utilizar os instrumentos disponíveis de maneira mais eficaz, uma vez que os infratores sabem
que estão sendo observados e, mesmo assim, não exaurem as práticas ilegais de desmatamento.
Isso pode ser atribuído a vários fatores, incluindo recursos financeiros limitados, falta de pessoal
para fiscalização, falta de punição direta para os infratores e institucionalidade fraca (Rajão
et al., 2021; Coelho-Junior et al., 2022). Portanto, tendo em vista que as regiões desmatadas
ilegalmente na Amazônia Legal não são rapidamente abandonadas, os agentes fiscalizadores têm
uma oportunidade não negligenciável de identificar os infratores responsáveis pelo desmatamento
ilegal (Assunção et al., 2023).
Os estudos tradicionais sobre desmatamento e seus fatores determinantes têm começado a
incorporar, em análises mais recentes, os alertas de desmatamento. Estes são vistos como um
mecanismo que facilita o direcionamento mais eficaz da fiscalização pelas autoridades, resultando
na aplicação de sanções aos infratores. No entanto, essas análises geralmente tratam os alertas
apenas como uma variável de controle, sem dar a devida atenção a eles como uma variável de
interesse ou investigar seus próprios determinantes.
Assunção et al. (2023) inovam ao realizar uma análise empírica do monitoramento ambiental
e da aplicação da lei, examinando a endogeneidade entre o desmatamento ilegal e a fiscalização
na Amazônia. Para explorar as implicações da fiscalização sobre as taxas de desmatamento,
os autores utilizam uma abordagem de variáveis instrumentais para determinar essa relação
causal, com a cobertura de nuvens sendo usada como instrumento para a aplicação da lei
ambiental. Por sua vez, Leite (2022) avalia os efeitos das multas e embargos ambientais no
aumento anual do desmatamento nos municípios da região da Amazônia Legal. Os resultados
5
das estimativas mostram que o embargo foi mais efetivo no controle do desmatamento nos
municípios da Amazônia Legal do que a aplicação de multas ambientais entre 2008 e 2019.
O presente estudo contribui para a literatura ao examinar a relação causal entre os alertas
de desmatamento e a ocorrência de embargos, algo ainda pouco explorado na pesquisa empírica
sobre a Amazônia Legal. Diferente de análises anteriores, que tratam os alertas de desmatamento
apenas como variável de controle, este trabalho foca diretamente em compreender seu impacto
sobre a aplicação de embargos, oferecendo uma perspectiva relevante sobre a eficácia das políticas
de monitoramento e fiscalização ambiental.
3 Metodologia
6
3.2 Estratégia empírica
Desse modo, este estudo parte da seguinte equação de interesse:
7
Tabela 1: Variáveis utilizadas no modelo
Variável Descrição Unidade
embargos Embargos por desmatamento no estado Unitário
alertas Área total sob alertas de desmatamento no estado km2
área de pastagem Logaritmo natural da área destinada à pastagem no estado Hectares
pib por estado Logaritmo natural do pib do estado R$
despesa ambiental Logaritmo natural das despesas do estado destinada a políticas R$
ambientais
área de soja Logaritmo natural da área destinada à plantação de soja no estado Hectares
bolsonaro Dummy indicando governo Bolsonaro 1 ou 0
ano Dummy de tempo indicando cada ano 1 ou 0
alertas Bolsonaro Interação entre alertas de desmatamento e governo Bolsonaro km2
Fonte: Elaboração própria.
4 Resultados
8
Tabela 2: Variáveis utilizadas no modelo
Alertas Embargos
Desvio Desvio
Estado Média Mínimo Máximo Média Mínimo Máximo
Padrão Padrão
Acre 27.97 38.48 0 152 13.90 17.25 0 75
Amazonas 111.85 116.52 0 5 26.40 22.15 0 107
Amapá 0.53 1.06 0 5 2.20 3.62 0 16
Maranhão 8.62 8.68 0 43 3.09 6.12 0 48
Mato Grosso 122.26 78.74 10 426 24.01 22.17 0 135
Pará 218.81 199.32 2 890 49.55 30.56 3 174
Rondônia 90.13 77.09 1 385 26.36 22.98 0 88
Roraima 14.21 16.94 0 81 5.03 6.45 0 30
Fonte: Resultados da pesquisa.
O Pará é o estado com maior número de embargos por desmatamento, seguido do Amazonas,
Rondônia e Mato Grosso, que apresentaram valores similares. Por outro lado, Amapá, Maranhão
e Roraima têm as médias mais baixas de embargos, sugerindo uma aplicação menos frequente
dessas medidas. Há uma variabilidade significativa nos dados dos estados, refletida nos desvios
padrão relativamente altos, exceto nos estados com médias baixas de embargos. Nota-se que os
estados com médias mais altas de alertas tendem a ter também médias mais altas de embargos,
o que indica uma resposta proporcional às ocorrências de desmatamento.
A variabilidade nos alertas é geralmente maior do que nos números de embargos, indicando
que nem todos os alertas resultam em ações de embargo. Estados com atividade econômica
agrícola intensiva, como Mato Grosso e Pará4 , tendem a apresentar tanto altas médias nos
alertas quanto nos embargos, refletindo os desafios e esforços associados ao manejo sustentável
da cobertura florestal.
Os valores mínimos iguais a 0 de ambas as variáveis indicam que houve períodos em que
não foram registrados alertas de desmatamento e não houve embargos aplicados. Existem
diversas razões para a existência desses valores. Períodos sem alertas emitidos podem refletir a
efetividade das políticas de conservação e fiscalização em determinadas épocas, no entanto, a
realidade institucional recente do país em termos de políticas ambientais, sugere que pode ter
ocorrido uma inoperabilidade institucional dos órgãos que realizam tais medidas durante esse
período, resultando em meses sem detecção de desmatamento, mesmo que ele possa ter ocorrido.
Ainda, vale destacar que os alertas de desmatamento apresentam sazonalidade, de modo
que em cada ano é possível observar picos nos valores em determinados meses. Em um período
de chuvas, por exemplo, o desmatamento pode diminuir significativamente, resultando em
registros nulo de alertas. Para fins ilustrativos, a Figura 3 mostra os alertas de desmatamento
do estado do Pará entre 2015 e 2022, estado com maior número de alertas emitidos desde 2015,
correspondendo a aproximadamente 20.676 km2 .
4
Para mais detalhes ver: https://www.embrapa.br/soja/cultivos/soja1/dados-economicos.
9
Figura 3: Área total (em km2 ) sob alerta de desmatamento no estado do Pará entre 2015 e 2022.
Fonte: Elaboração própria a partir dos dados do TerraBrasilis.
Nota-se que, a partir de 2019 ocorreu uma mudança no padrão dos alertas de desmatamento,
fazendo com que o número de alertas mensais crescesse em comparação aos mesmos meses dos
anos anteriores, sobretudo nos meses com maiores índices de alertas. A partir da mudança de
padrão sazonal observada no gráfico da série, foi realizado o teste de raiz unitária Zivot-Andrews,
com o intuito de identificar uma quebra estrutural na série. A data de ocorrência da quebra
estrutural fornecida pelo teste foi maio de 2019, portanto, uma mudança estrutural ocorreu em
2019 e um novo padrão sazonal persistiu nos períodos subsequentes, causada por algum fator
exógeno5 .
Esse resultado fortalece, a princípio, a hipótese de que o governo Bolsonaro está associado a
um aumento notável nos alertas de desmatamento na região da Amazônia Legal. No entanto, a
relação causal entre as políticas do governo e os aumentos dos alertas de desmatamento deve ser
abordada com cautela, mesmo que os dados observacionais apresentem alterações explícitas nos
padrões de alertas a partir de 2019.
Nesse sentido, a variável alertas bolsonaro revela um aumento considerável nos alertas
de desmatamento a partir de 2019, coincidindo com o início do mandato do presidente Jair
Bolsonaro. Entre 2016 e 2018, os números permaneceram relativamente estáveis, mas a partir
de 2019 houve uma aceleração nos alertas de desmatamento, alcançando picos mais elevados em
2019 e 2020. Esse aumento significativo pode ser associado à retórica de flexibilização ambiental,
que contribui para a ação de agentes desmatadores. Apesar do recuo observado em 2021, os
números ainda permanecem elevados em comparação aos anos anteriores a 2019. Por outro lado,
nota-se que há uma queda no número de embargos realizados nos estados em diversos meses
após 2019.
10
coluna (EF) estão os resultados do modelo de efeitos fixos que permite a correlação entre a
heterogeneidade não observada em nível de estado e as variáveis incluídas.
11
As magnitudes e significância dos coeficientes foram muito próximas, de modo que a escolha
entre eles pode não ser crítica6 . Este resultado pode indicar que os alertas são exógenos, ou
seja, não se correlacionam com os fatores não observáveis, reforçando a robustez das estimativas
obtidas.
Ao comparar as estimativas por efeitos fixos e efeitos aleatórios, todos os coeficientes foram
estatisticamente significativos a 1% de significância e mantiveram os mesmos sinais em ambos
os modelos. A variável bolsonaro não aparece no modelo de efeitos fixos por se tratar de
uma dummy fixa no tempo para todos os estados, mas considerando efeitos aleatórios não foi
estatisticamente significativa. As dummies para cada ano também não estão no modelo de
efeitos fixos, mas para os anos 2016 e 2017 foram estatisticamente significativas considerando
efeitos aleatórios. A respeito dos erros padrões, ambos os modelos apresentaram magnitudes
similares.
Em geral, todos os coeficientes foram estatisticamente significativos e todos os sinais obtidos
foram esperados, exceto para a variável referente à área de plantio da soja. O coeficiente para os
alertas de desmatamento sugere que um aumento de 1 km2 na área sob alertas de desmatamento,
está associado a um aumento médio significativo de 0.197 embargos. Portanto, é possível afirmar
que os resultados apoiam a hipótese de que os alertas de desmatamento têm efeito positivo
sobre o número de embargos por desmatamento nos estados da Amazônia Legal.
Nesse aspecto, é possível dialogar com a literatura em relação ao papel dos embargos no
combate a práticas ilegais de desmatamento, bem como o papel do monitoramento remoto.
Leite (2022) estima que os embargos ambientais são mais eficientes do que as multas no combate
ao desmatamento, contribuindo para uma redução de até 6.6% no próximo período. Por sua vez,
Assunção, Gandour e Rocha (2023) indicam que a abordagem de monitoramento e aplicação da
lei foi um método econômico para reduzir o desmatamento na Amazônia.
Merkus (2024) analisa o efeito dos alertas de satélite e ações de aplicação da lei na probabili-
dade de que uma área de floresta seja convertida em terra agrícola na Amazônia. Os resultados
sugerem que o monitoramento via satélite e a fiscalização local foi eficaz na prevenção de que
florestas fossem convertidas em terras agrícolas. Tanto os alertas via satélite quanto as ações
fiscais locais reduziram a probabilidade de que lotes de terra se tornassem terras agrícolas no
ano seguinte.
Para a área de pastagem, em média, cada variação relativa de 1% na área de pastagem
está associada a um aumento médio de 0.031 embargos. O mesmo ocorre para o pib, em que
cada variação de 1% no pib dos estados está associada a um aumento de 0.044 embargos por
desmatamento. Já para a despesa ambiental e área de plantio da soja, um aumento de 1% nas
despesas ambientais para preservação ambiental nos estados e na área de cultivo de soja estão
associados a uma redução de 0.017 e 0.019 no número de embargos.
As dummies de ano capturam os efeitos específicos de cada ano sobre a variável embargos.
Para os anos 2016 e 2017, os coeficientes foram positivos e significativos, indicando que esses
anos tiveram um aumento significativo nos embargos. Já para 2020 e 2021, os coeficientes
foram negativos, porém não significativos, sugerindo uma reversão de efeitos dos anos sobre os
embargos. Isso pode estar relacionado a mudanças políticas ou a mera sinalização destas na
administração Bolsonaro, conforme discutido na seção 2.
A variável alertas bolsonaro produz um resultado bastante interessante, à medida que ela
captura o efeito conjunto do número de alertas de desmatamento e o período do governo
Bolsonaro. O coeficiente negativo igual a -0.136 indica que essa combinação está associada a
uma diminuição nos embargos por desmatamento, o que era esperado. Isso sugere que, há uma
redução adicional nos embargos em comparação com o que seria esperado apenas considerando
6
O valor p de 0.8683 para o Teste de Hausman indica que não há evidências suficientes para concluir que os
coeficientes dos modelos de efeitos fixos e aleatórios diferem significativamente, portanto, o modelo de efeitos
aleatórios também é consistente.
12
os efeitos isolados de alertas e bolsonaro.
Em termos práticos, essa interação pode indicar que, durante o governo Bolsonaro, apesar
do aumento nos alertas, o que normalmente poderia resultar em mais embargos conforme
estimativas deste estudo, outros fatores associados ao governo ou suas políticas podem estar
contrabalançando esse efeito, levando a uma redução no número de embargos por desmatamento.
5 Considerações finais
Este estudo buscou avaliar se os alertas de desmatamento têm efeitos sobre o número de
áreas embargadas nos estados da Amazônia Legal. Os resultados indicam que os alertas de
desmatamento foram significativos e exercem um efeito positivo sobre o número de embargos
de terras ilegalmente desmatadas a nível estadual. Nesse sentido, o monitoramento realizado
pelo DETER-B se mostra efetivo para a aplicação de autos de infração que são convertidos em
embargos por desmatamento.
Apenas a variável referente a área de cultivo de soja não alcançou o resultado esperado,
enquanto as demais variáveis apresentaram padrões consistentes com as expectativas. A interação
entre os alertas de desmatamento e o período do governo Bolsonaro se mostrou associada a
uma redução nos embargos, atingindo também o efeito esperado. Assim, as análises realizadas
geram novas evidências de avaliação dos instrumentos de política pública ambiental, vinculada,
sobretudo ao desmatamento. Ademais, há possibilidade de inclusão de mais controles, como o
número de agentes de fiscalização em cada estado, que possa tornar o modelo mais robusto e
preciso.
A pesquisa contribui para a literatura existente sobre a avaliação dos impactos das polí-
ticas ambientais no desmatamento. Especificamente, preenche uma lacuna de avaliação das
ferramentas de monitoramento e como elas são, de fato, efetivas para a aplicação de autos de
infração, sobretudo embargos ambientais. Portanto, o artigo enfatiza a necessidade de manter
um monitoramento contínuo e esforços de fiscalização para sustentar os avanços alcançados na
redução do desmatamento na Amazônia brasileira.
A principal conclusão deste estudo é que os alertas de desmatamento são efetivos para a
aplicação de embargos ambientais de terras desmatadas ilegalmente e como forma de prevenção
de crimes ambientais futuros. Assim, os resultados apontam para a necessidade de a legislação
ambiental estabelecer novos mecanismos e aprimorar os existentes, visando ampliar a extensão
das áreas sujeitas a embargos em regiões onde as pressões para o desmatamento são mais
intensas, para que, os embargos sejam eficientes no combate ao desmatamento, ao inibir o
comportamento ilegal dos agentes.
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