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Confiança Máxima

Enviado por

dalha silva
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
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Tópicos abordados

  • caminho da misericórdia,
  • chamado divino,
  • caminho da salvação,
  • amor ao próximo,
  • resiliência,
  • caminho da luz,
  • trabalho em equipe,
  • exército de Deus,
  • sacrifício,
  • caminho da justiça
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Confiança Máxima

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Tópicos abordados

  • caminho da misericórdia,
  • chamado divino,
  • caminho da salvação,
  • amor ao próximo,
  • resiliência,
  • caminho da luz,
  • trabalho em equipe,
  • exército de Deus,
  • sacrifício,
  • caminho da justiça

Apresentação

Em todas as épocas, Deus tem escolhido pessoas para representá-Lo. São homens e mulheres de
confiança de Deus. Você mesmo certamente conhece pessoas que merecem total confiança. Isso é
ótimo. Mas melhor ainda é ser uma pessoa de confiança máxima. Afinal, a sociedade atual busca
modelos nos quais possa se inspirar.
Neste livro, utilizando a expressão “homem de Deus” como fio condutor, o autor sintetiza as
qualidades das pessoas a quem Deus chamou para trabalhar com Ele nos tempos bíblicos e que se
tornaram modelos de comprometimento e sucesso espiritual. E mostra que você também pode ser
uma mulher ou um homem de Deus.

Um homem de Deus não é qualquer pessoa e qualquer pessoa não é um homem de Deus. Então,
como atingir esse objetivo? No livro que você tem em mãos, de forma clara, o autor apresenta as
facetas de um ser humano que pode ser chamado de “homem de Deus”. Espero que a leitura deste
livro seja para você uma experiência tão agradável e enriquecedora quanto foi para mim.
MOISÉS MATOS
Pastor e mestre em Teologia

As histórias deste livro me cativaram o interesse desde o início até o final. As lições extraídas da
vida de Eliseu me ajudaram a entender que, pelo poder que vem de Deus, posso também mudar o
destino de pessoas, da igreja e do mundo. O livro me desafiou a sair da zona de conforto e fazer a
diferença.
MÁRIO MARTINELLI
Doutor em Ministério e mestre
em Administração
Direitos de tradução e publicação
em língua portuguesa reservados à
CASA P UBLICADORA BRASILEIRA
Rodovia SP 127 – km 106
Caixa Postal 34 – 18270-970 – Tatuí, SP
Tel.: (15) 3205-8800 – Fax: (15) 3205-8900 Atendimento ao cliente: (15) 3205-8888
[Link]

1ª edição neste formato


Versão 1.1
2013

Editoração: Lícius Lindquist e Odiléia Lindquist


Design Developers: Fernando Lima e Fábio Fernandes
Projeto Gráfico do Livro Original: Fábio Fernandes
Capa: Enio Scheffel
Imagens: Montagem sobre fotos de Enio Scheffel e © Demian | Fotolia
Ilustrações Internas: Sara Campos

IMPRESSO NO BRASIL / Printed in Brazil

Os textos bíblicos citados neste livro são da versão Almeida Revista e Atualizada.

Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial, por qualquer meio, sem prévia autorização
escrita do autor e da Editora.

14076/28188 – ISBN 978-85-345-1906-9


Por que Confiança Máxima

Para executar Seu plano perfeito, Deus depositou em seres humanos imperfeitos o maior
nível de confiança que um mortal pode receber: Céus e Terra confiam neles!
Essas pessoas são conhecidas como homens de Deus.
Agradecimentos

Ao Senhor Deus por permitir que eu escrevesse a respeito deste assunto tão importante para nossos
dias.
Aos homens e mulheres que serviram de inspiração para este livro.
À minha esposa, Isaura, e aos meus filhos, João e Matheus.
Aos leitores de Milagres não Ocorrem por Acaso, que enviaram muitas cartas de incentivo para
que eu continuasse escrevendo.
Ao pastor David Deana, que leu o original e fez boas sugestões.
Ao pastor Marcos De Benedicto por suas ótimas dicas, que ajudaram a estruturar o livro.
Ao pastor Lícius Lindquist e sua esposa, Odiléia, pela paciência e habilidade em editorar o texto e,
sem dúvida, facilitar a vida de meus leitores.
Ao amigo e designer Enio Scheffel, que, usando uma foto de sua própria autoria e outra imagem,
criou uma obra de arte para a capa deste livro.
Finalmente, agradeço à Casa Publicadora Brasileira por emprestar a esta obra seu selo de
aprovação com mais de um século de história.
Opiniões

Deus tem chamado muitas pessoas para serem Seus representantes na Terra. Aceitar esse chamado
e dedicar a vida para cumprir um propósito é, sem dúvida, uma das mais gratificantes e importantes
decisões que o ser humano pode tomar.
Utilizando como base a experiência do profeta Eliseu e seu servo, relatada em 2 Reis 6:8-17, o
pastor João Vicente desenvolve o texto de maneira curiosa, alegre e muito envolvente. Seu modo de
escrever motiva o leitor a tomar decisões que contribuirão para torná-lo verdadeiro servo de Deus.
Ao compartilhar suas experiências desde a infância, seu chamado e a decisão de ser pastor, suas
experiências como estudante de Teologia e colportor, ele faz com que este livro seja uma leitura
obrigatória para nossos jovens.
Recomendo esta leitura especialmente aos estudantes universitários, pois o mundo e a igreja
precisam de pessoas que estejam dispostas a fazer a diferença, de levantar a bandeira de Cristo e ser
reconhecidas como homens e mulheres de Deus.

Tércio Marques
Diretor de Publicações da Divisão Sul-Americana

Ler os livros do pastor João Vicente é uma aventura emocionante. Quando começamos a leitura,
não queremos parar. Ele escreve de forma envolvente, fazendo com que o leitor viva as histórias ali
contadas. As lições aprendidas com as situações e experiências relatadas valem ouro. Tenho prazer
em ler os livros desse autor e espero repeti-lo por muitas vezes, pois sei que outros ainda virão. Que
Deus continue usando o pastor João a fim de que muitas pessoas ainda tenham o privilégio de ler
seus escritos, que certamente foram preparados com amor, carinho e dedicação.
Marco Aurélio de Pinho
Diretor de Publicações da União Central Brasileira
Prefácio

Uma questão de grande interesse e preocupação para a igreja de Deus hoje é encontrar homens e
mulheres preparados e comprometidos para responder a Seu convite para o serviço.
A aurora desse período da história confronta a igreja com enormes desafios. O maior deles foi
ordenado por Jesus há quase 2 mil anos: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações” (Mt
28:19).
Todos os dias, o conflito entre o bem e o mal está sendo travado em nossa sociedade, nos governos
e em diversas organizações. As pessoas estão procurando esperança e segurança, mas a maioria não
sabe que a verdadeira esperança é encontrada somente em Cristo Jesus.
Deus está chamando Seu povo para se juntar a Ele, com os recursos de tempo, energia, talentos
naturais e dons espirituais para levar esperança a todos os habitantes de nosso planeta. Esse é o
escopo em que este livro é escrito.
Por mais de vinte anos, juntamente com sua esposa e filhos, o pastor João Vicente tem dedicado sua
vida ao ministério de Publicações da igreja. Serviu em muitas Associações, Uniões e, atualmente, é o
gerente de Vendas e Marketing da maior editora adventista no mundo. Por meio de sua rica
experiência pessoal, ele desenvolveu o senso de urgência e paixão pela missão. Sua maior alegria é
motivar os membros da igreja a proclamar o evangelho.
A cada momento difícil na história, Deus tem escolhido pessoas para representá-Lo. Isso ainda é
verdade hoje. Neste livro, João consegue captar as qualidades das pessoas a quem Deus chamou para
trabalhar com Ele nos tempos bíblicos e que se tornaram modelos dos embaixadores celestiais de
hoje – os homens e mulheres de Deus.
Deus não escolhe para servir aqueles que estão capacitados, apenas, mas capacita aqueles a quem
chama – as pessoas comuns, de aprendizado comum, mas imbuídas pelo Espírito Santo. As histórias
e testemunhos retratados neste livro, muitas delas protagonizadas por colportores, são a janela de
Deus para mostrar Seus milagres de graça.
Ao ler este livro, você saberá que há um grupo de pessoas comuns que, no silêncio, discretamente,
sem alarde ou aclamação, permitem que o Espírito Santo atue em sua vida. São homens e mulheres
que vivem com Deus e saem para fazer discípulos para Ele. Porém, o mais importante é que você
também pode ser um deles.
Foi o Senhor quem declarou: “Porque o Filho do homem veio salvar o que estava perdido” (Mt
18:11). Que essa seja a sua abençoada experiência!

Howard F. Faigao
Diretor mundial do Ministério de Publicações
da Igreja Adventista do Sétimo Dia
Introdução

Ao terminar de escrever o livro Milagres não Ocorrem por Acaso, pensei que havia encerrado a
carreira de escritor. Você não imagina o trabalho que foi escrever, reescrever, ler e reler cada
parágrafo. Ao fim, quase havia memorizado palavra por palavra e em que página poderia encontrá-
las. Demorei quatro anos para concluir. Depois de todo esse esforço, algumas pessoas me
encontravam e diziam: “Li seu livro em pouco mais de três dias!” Sentia-me como aquela dona de
casa que passa a manhã inteira na cozinha preparando um prato especial e, na hora do almoço, em
poucos minutos, a comida é devorada, sobrando apenas louças para lavar!
Além do mais, investi horas e horas em estudos exaustivos sobre o tema e, quando cheguei ao fim,
pensei não haver muito mais o que explorar naquela direção. Não queria seguir escrevendo apenas
por escrever. Para começar um novo projeto, precisaria estar tão motivado quanto estive no
primeiro, teria que me “apaixonar” por um assunto da mesma forma que me apaixonei pelos
“milagres”. Tentei começar outro livro, mas as ideias não vinham. O que fazer? Parar de escrever?
Talvez fosse melhor. Porém, não me conformava, algo dentro de mim dizia que deveria continuar;
afinal de contas, ainda que o segundo livro não fosse publicado, na pior das hipóteses, se
transformaria em vários novos sermões, e o maior beneficiado seria eu mesmo.
Decidi dar mais uma olhada em meu livro anterior, agora, não mais como escritor e, sim, como
leitor. Depois de algumas páginas, descobri que necessitava tomar o próprio remédio! Precisaria de
um “milagre” para continuar escrevendo. Orei a Deus pedindo inspiração sobre qual assunto abordar
e também o desejo de seguir adiante; isso, é claro, se estivesse de acordo com Sua vontade.
Mais uma vez, o Senhor dos impossíveis atuou: pouco a pouco, foram chegando cartinhas de vários
leitores de Milagres não Ocorrem por Acaso e, em diversas delas, era possível encontrar frases
como: “siga escrevendo”, “este livro me ajudou”, “você foi usado por Deus”. Uma das cartas foi a
1
de Francisca. Tenho certeza de que Deus me usou para ajudá-la a crer em milagres, mas ela
também foi usada para me animar na nova jornada que deveria trilhar.
Veja só o que ela escreveu:

Boa-noite, pastor João!


Gosto muito de ler e, olhando o site da CPB para escolher um livro, deparei-me com o seu,
e o título me chamou a atenção. Comprei e logo comecei a leitura. Em minha mente, pensava:
Deus operava milagres no passado, mas, hoje em dia, é bem raro. Conforme ia lendo o livro,
ficava maravilhada com a mensagem e, com isso, meu coração sentia o desejo de orar; então,
lia e orava. Tenho uma loja e estou passando por uma crise financeira; justo neste mês de
janeiro, não tinha o dinheiro para pagar meu aluguel, que venceria no dia 20; faltavam apenas
dois dias e, claro, eu estava muito tensa, nervosa e sem esperança. Foi aí que me interessei
pelo livro e dei prioridade a ele. Continuava encantada com o que estava aprendendo, e meu
coração me pedia para orar. Ali mesmo, na loja, eu fechava os olhos e orava a Deus,
agradecendo e, ao mesmo tempo, entregando aquela loja nas mãos dEle. Pastor, um milagre
começou a acontecer. Enquanto estava lendo, fiz a lista do que tinha para receber dos clientes,
e quanto ainda faltaria para pagar. Orei novamente e disse: “Senhor, aqui estão as duas listas.
Tu sabes que sou criticada por meus amigos porque fecho a loja aos sábados, que, para eles, é
o dia em que mais se vende. Por favor, permite que Teu nome continue sendo glorificado neste
lugar e ajuda-me a vender para pagar meu aluguel. Amém!”
Quando abri os olhos, começaram a entrar muitos clientes na loja, e as amigas da loja ao
lado ficavam olhando para dentro da minha, pois, no mês de janeiro, o comércio é fraco. Elas
não estavam com tanto movimento. Resumindo, pastor, consegui o valor que pedi a Deus
naquele dia. Mas, como Deus faz o melhor para nós, obtive mais do que precisava e consegui
pagar o aluguel. Estou muito feliz e muito grata a Deus. Mediante tudo isso, aprendi que Deus
ainda faz milagres. Basta apenas confiar. Obrigada! Que Deus continue abençoando muito
você e sua família!
Francisca Morais

Como essa, muitas outras cartas chegaram, e senti que Deus tinha um plano para que eu continuasse
ajudando pessoas a crescerem espiritualmente.
“Tudo bem! Vou seguir escrevendo! Mas sobre quê, Senhor?”
Depois de algum tempo, cheguei à conclusão de que esse não era um problema meu, mas de Deus.
Se Ele me motivava a continuar, poderia também enviar o assunto. A partir daquele momento, confiei
que o Senhor mostraria o caminho a seguir. Demorou um pouco, talvez dois meses após o lançamento
de Milagres não Ocorrem por Acaso e, quando menos esperava, ocorreu mais um milagre! Ao fazer
o culto pela manhã, algo me induziu a dar um pouco mais de atenção ao texto que segue
imediatamente a 2 Reis 6:1-8, que fala sobre o milagre do machado que flutuou, o qual tomei como
base para o primeiro livro. O texto a seguir é 2 Reis 6:8-17:

O rei da Síria fez guerra a Israel e, em conselho com os seus oficiais, disse: Em tal e tal
lugar, estará o meu acampamento. Mas o homem de Deus mandou dizer ao rei de Israel:
Guarda-te de passares por tal lugar, porque os sírios estão descendo para ali. O rei de Israel
enviou tropas ao lugar de que o homem de Deus lhe falara e de que o tinha avisado e, assim,
se salvou, não uma nem duas vezes.
Então, tendo-se turbado com esse incidente o coração do rei da Síria, chamou ele os seus
servos e lhes disse: Não me fareis saber quem dos nossos é pelo rei de Israel? Respondeu um
dos seus servos: Ninguém, ó rei, meu senhor; mas o profeta Eliseu, que está em Israel, faz
saber ao rei de Israel as palavras que falas na tua câmara de dormir. Ele disse: Ide e vede
onde ele está, para que eu mande prendê-lo. Foi-lhe dito: Eis que está em Dotã.
Então, enviou para lá cavalos, carros e fortes tropas; chegaram de noite e cercaram a
cidade. Tendo-se levantado muito cedo o moço do homem de Deus e saído, eis que tropas,
cavalos e carros haviam cercado a cidade; então, o seu moço lhe disse: Ai! Meu senhor! Que
faremos? Ele respondeu: Não temas, porque mais são os que estão conosco do que os que
estão com eles. Orou Eliseu e disse: Senhor, peço-Te que lhe abras os olhos para que veja. O
Senhor abriu os olhos do moço, e ele viu que o monte estava cheio de cavalos e carros de
fogo, em redor de Eliseu.

Comecei fazendo um sermão, mas ficou tão grande que não conseguia falar menos de uma hora.
Pobres membros de minha igreja, que foram as primeiras cobaias! Decidi fazer uma apostila, quem
sabe uma semana de oração, mas, afinal, percebi que, indiscutivelmente, estava diante do assunto que
buscava, ou seja: o livro que agora está em suas mãos.
Fiquei impressionado com a atuação de pessoas que recebem a confiança do Céu e passam a ser
chamadas de homens e mulheres de Deus. Decidi, então, usar a expressão “homem de Deus” como
introdução de cada capítulo, fazendo o papel de um fio condutor ou como uma “bússola” indicando a
direção a ser tomada. Em momento algum tive a pretensão de que este livro fosse uma biografia de
Eliseu, até porque o relato apenas informa que o profeta possuía essa ou aquela característica, porém
não explica como a desenvolveu.
Na realidade, me detive muito mais no tema “homem de Deus” do que no texto em si. Tal é a
importância desse assunto que a expressão aparece três vezes em dez versículos.
A fórmula utilizada para escrever a maioria dos capítulos foi esta:
1. Identificar no relato bíblico alguma característica que tornava Eliseu apto a ser chamado
“homem de Deus”, digno de confiança no Céu e na Terra.
2. Uma vez encontrada determinada característica, buscar outros personagens que colocaram em
prática esses princípios em sua vida e mostrar como eles conseguiram fazer isso.
3. Revelar os resultados obtidos por essa experiência.
O livro está dividido em duas partes:
I. Quem são os homens de Deus?
II. A atuação e recompensa do homem de Deus.
Espero que, ao ler estas páginas, você sinta as mesmas emoções que os personagens bíblicos
sentiram, sabendo que sua vida fazia parte de um plano de Deus para salvar a humanidade.
Que o Senhor o abençoe! Sucesso!
1
Nome fictício.
PARTE I
Quem São os Homens de
Deus?
“Deus criou o homem um pouco menor do que
os anjos e lhe conferiu os atributos que,
convenientemente usados, o tornariam uma
bênção ao mundo e o levariam a refletir a
glória do Doador” (Conselhos Sobre Saúde, p.
105).
1 O Moço do
Homem de Deus

Tendo-se levantado muito cedo o moço do homem de Deus... (2 Reis 6:15).

T emos poucas informações a respeito da identidade do moço do homem de Deus. É certo que
não era Geazi, o servo anterior, que havia ficado leproso por não haver seguido as ordens do mestre.
O que sabemos é que esse jovem, cujo nome não é mencionado na Bíblia, estava em uma grande
enrascada. Seu professor de teologia era perseguido por Ben-Hadade II, rei da Síria, que várias
vezes havia tentado invadir Israel, mas sem sucesso, por causa da interferência de Eliseu. O profeta
antevia seus planos e informava ao seu rei. Ben-Hadade II estava furioso com Eliseu e havia enviado
um exército inteiro para capturá-lo. O exército sírio era o mais temido da região. Naquela época, ser
capturado significava tortura e morte.
Vamos deixar para mais adiante as lições que podemos aprender da atuação de Eliseu na solução
desse problema. No momento, quero falar um pouco daquele jovem, o “moço”. A Palavra de Deus
diz que ele se levantou bem cedo, possivelmente para buscar água ou cortar lenha, atividade rotineira
para um aprendiz de profeta. Penso que, antes dessa dificuldade, o rapaz tinha a vida que pediu a
Deus! Acompanhava seu senhor em todas as atividades, via os milagres que ele operava, ouvia
atentamente aos pés do mestre as aulas práticas de teologia que mais pareciam histórias
emocionantes. Conhecia os segredos do homem de Deus, pois sempre estava por perto quando ele
orava. Ao crescer, queria ser igual a Eliseu.
Mas quando iria crescer? Quando deixaria de ser apenas um moço para ser igual ao mestre?
Conseguiria passar pelas mesmas experiências de seu senhor? Poderia Deus agir por meio de um ser
limitado como ele, da mesma forma como atuava na vida de Eliseu? Teria condições de operar
milagres? Essas perguntas seguramente ressoavam em sua mente e ecoam em nossos pensamentos
ainda hoje.
Ao ler este livro, você chegará a uma conclusão: “Todos os que pertencem a Cristo recebem
automaticamente a máxima confiança por parte do Senhor e precisam tornar-se homens e mulheres de
Deus.” Olhando para nosso “grau de santidade” e nossas imperfeições, certamente nos parecemos
mais com “moços do homem de Deus” do que propriamente com “homens de Deus”! Mas quero
tranquilizá-lo, dizendo que esse processo é natural. Uma criança não pede e nem se esforça para
crescer; ela simplesmente cresce e, quando menos espera, já é adulta. Durante muito tempo, andei
preocupado achando que era impossível ser um homem de Deus, mas o Senhor, por Sua misericórdia,
me permitiu viver uma linda experiência com um de Seus servos que mudou completamente minha
forma de pensar.
Quando era pequeno, me fascinavam as histórias bíblicas envolvendo milagres realizados por
homens de Deus. Inúmeras vezes, meu pai lia durante os cultos familiares as histórias de Moisés,
Elias, Eliseu, Davi, José e tantos outros. Até que, um dia, um deles foi nos visitar em casa! Não esses
dos tempos bíblicos, mas um de carne e osso, do nosso tempo. Seu nome era Pedro, Pedro Rojo, um
argentino que dedicava a vida ao ministério de Publicações como colportor-evangelista (atividade
relacionada à venda de literatura evangélica; normalmente, os colportores atuam como missionários
que vão de porta em porta oferecendo a Palavra de Deus por intermédio de publicações e, por esse
meio, conseguem seu sustento).
Pedro já estava próximo dos cinquenta anos, mas ainda não havia se casado. Dizia que não poderia
ter uma companheira precisando viajar tanto. E como ele viajava! Andou pelo Uruguai, Argentina,
várias regiões do Brasil, Estados Unidos, Canadá e muitos outros lugares. Até pouco tempo atrás,
minha esposa e eu guardamos com carinho um abridor de latas que nos trouxe de presente após uma
de suas viagens pela América do Norte. Na base do souvenir, havia uma fotografia das Cataratas do
Niágara.
O Pedro andava sempre bem-vestido e com as roupas combinando perfeitamente. Camisas bem
passadas de boa marca e “pantalones”, como ele chamava as calças superfrisadas e de cores sóbrias.
Normalmente, usava um lindo terno escuro que se ajustava à sua personalidade. Os sapatos
brilhavam como um espelho. No entanto, o que mais chamava a atenção naquele homem era o seu
relacionamento com Deus. Estar perto dele parecia estar perto do Céu. Que paz, segurança e fé ele
transmitia! Pedro nunca ficava menos que um mês lá em casa e, quando chegava, tudo mudava em
nosso lar. Meu pai acordava toda a família mais cedo para fazer o culto, que era muito animado com
as histórias do servo de Deus. Passávamos pelo menos uma hora em estudos e oração. Ele contava de
suas aventuras pelos lugares que havia visitado. Falava dos milagres que o Senhor havia feito por
meio dele, e nós ficávamos fascinados! Eu queria ser igual àquele homem quando crescesse.
O irmão Rojo era um exemplo a ser seguido. Naqueles momentos, sentíamos a presença do Espírito
Santo. Depois do culto familiar, Pedro tomava um bom desjejum. E quando digo que era bom, era
“bom” mesmo! Ele comia por duas ou três pessoas! Essa característica dos “homens de Deus” parece
ser bem fácil de imitar, mas, enquanto estava conosco, nunca nos faltou o pão. Meu pai, com muito
sacrifício, havia acabado de construir nossa casa, e enfrentávamos alguns problemas financeiros.
Porém, enquanto Pedro se hospedava com a gente, o alimento era farto, parecia a casa da viúva de
Naim!
Pedro já era considerado membro da nossa família e se tornou o melhor amigo de meu pai. Era
naturalmente nosso conselheiro, um tipo de personal pastor, e sua presença fortalecia a nossa fé. Foi
ele quem me deu de presente, em um Natal, a mais linda bicicleta que ganhei em toda a vida, uma
“tigrão” amarela! Ei, não fique rindo! Se você tem mais de cinquenta anos aposto que já sonhou em
ter uma “tigrão”! Como andei com aquela bicicleta, cujos pneus eram de borracha maciça! Não sabia
se andava ou pulava, mas o certo é que me divertia muito, e como me sentia importante!
Além de ser um líder religioso, aquele colportor era um modelo para a comunidade. Fazia jus ao
nome que ostentava. Vivia ajudando as pessoas e fazia amizade rapidamente com todo mundo.
Chamava a atenção, pois o seu sotaque o tornava diferente. Ele, então, aproveitava para pregar o
evangelho sempre que tinha oportunidade; e quando ela não aparecia, ele a criava! Nunca o vi
desanimado; ao contrário, falava o tempo todo das bênçãos de Deus em sua vida. Mesmo querendo
ser igual a ele, pensava que jamais conseguiria, pois Pedro, a meu ver se encontrava em um estágio
muito avançado de santidade.
Depois de algum tempo, meu pai faleceu, minha família se mudou e nunca mais vi o irmão Rojo,
mas, em minha mente, ficou a imagem do homem de Deus. Consciente ou inconscientemente, sua
figura permanecia viva para mim.
Passados vinte anos, tornei-me pastor da Igreja Adventista do Sétimo Dia e, pouco tempo depois,
fui chamado para ocupar o cargo de diretor de Publicações na cidade de Curitiba. Nessa função,
liderava pessoas semelhantes ao Pedro, colportores evangelistas.
“Como pode? Eu, um pecador tão cheio de defeitos, liderar pessoas como aquele homem de
Deus! Não é possível”, pensava comigo mesmo. Ao mesmo tempo, lembrava que já não era mais um
menino. Provavelmente, havia exagerado um pouco ao superdotar a imagem daquele servo de Deus.
Quem sabe, ele era alguém normal como qualquer mortal e eu, como criança, lhe dava superpoderes
imaginários.
Mas estava equivocado. Certo dia, no
escritório, ouvi uma voz com um sotaque
Não precisamos ter receio do título inconfundível perguntando à secretária quem
era o novo diretor. Logo reconheci o Pedro,
“homem de Deus”, pensando que sob que já estava com quase setenta anos. Senti-
esse manto teremos que fingir ser o me como José do Egito, pois, tal como seus
irmãos, Pedro não me reconheceu. Foi
que de fato não somos. preciso uma longa conversa para ele
acreditar que eu era aquele garoto que
sentava a seus pés para ouvir suas histórias
e que voava na “tigrão” amarela! Que
encontro maravilhoso! Por isso, anseio ir logo para o Céu, onde encontraremos novamente nossos
queridos. Que alegria será encontrar o irmão Pedro!
Tudo o que sempre imaginei a respeito daquele homem era real. A atmosfera ao seu redor irradiava
santidade e paz celestial. Pedro ainda estava solteiro, mas se casou depois de alguns meses e, pouco
mais tarde, realizou o sonho de ter um filho, o “Nenito”, como passou a chamá-lo carinhosamente. O
homem de Deus já não podia colportar como antes, mas todos os dias fazia algumas visitas e
continuava sendo uma referência. Não perdia uma reunião do departamento. Sempre falava bem da
igreja e, onde quer que eu estivesse pregando, lá estava o Pedro! Agora, era ele quem se assentava à
minha frente! “Como isso pôde acontecer?”, eu pensava! Preparei vários sermões diferentes, já que
não podia decepcionar meu amigo. Quando eu era pequeno, ele sempre tinha uma nova história para
mim; agora, era a minha vez de motivá-lo.
Em uma ocasião, depois de ver meus esforços sobre-humanos para agradá-lo, abraçou-me forte e
disse:
– Filho, você hoje é meu diretor, o homem que Deus escolheu para motivar meus últimos anos de
ministério! Não se preocupe com sua idade nem com seus possíveis defeitos, todos somos humanos e
pecadores. Agora, Deus precisa de você para dirigir homens cansados como eu. Quando pequeno,
você dizia que queria ser igual a mim, lembra-se? Mas esse não deve ser o seu sonho agora, uma vez
que estou idoso e cansado. Na realidade, hoje eu é que gostaria de ser igual a você, jovem e com a
vida inteira para servir ao Senhor. Seu modelo deve ser Jesus, Ele o tornará uma pessoa muito
melhor do que eu. Assim como Deus me usou no passado, vai hoje usá-lo também. Acredite!
Essas foram as últimas palavras que me lembro de meu amigo Pedro. Naquele momento, percebi
que eu havia crescido! Já não podia mais ser apenas o “moço do servo de Deus”. Mesmo sentindo
uma enorme responsabilidade sobre os ombros, descobri que todos podemos ser homens ou mulheres
de Deus! Pedro era tão santo e, ao mesmo tempo, tão simples, tão mortal, e eu poderia ser igual a ele,
ou melhor, poderia ser semelhante a Jesus!
Não precisamos ter receio desse título, pensando que, sob esse manto, teremos que fingir ser o que
de fato não somos. Na realidade, homens de Deus continuam sendo pecadores e, infelizmente,
também cometem erros. Se você ainda tem dúvidas, leia a história de Davi, o maior rei de Israel, um
dos homens mais respeitados de todos os tempos por andar nos caminhos do Senhor. Ao que parece,
sua vida foi imaculada, mas não é bem isso que a Bíblia relata! Basta ler sua história e veremos que
ele adulterou, mentiu e matou pessoas inocentes! Esse fato ocasionou uma série de problemas
familiares e o levou a uma profunda depressão. Seus pecados caíram na boca do povo. Em seu
governo, houve corrupção, abuso de poder, roubo, traição, suborno, tentativas de homicídio, estupro
e até mesmo uma guerra civil, que mais tarde dividiu o país em Israel e Judá. Apesar de tudo,
recebeu o perdão de Deus e hoje desfila na galeria dos heróis da fé. É lógico que ele não está ali por
ter cometido tantos pecados, mas a despeito deles. Tenho certeza de que você e eu não cometemos
barbaridades maiores do que essas, e se Davi pode ser chamado servo de Deus, você e eu também
podemos.
Talvez você pense que o exemplo de Davi é muito radical, porém, existem muitos outros pecadores
que foram considerados homens de Deus. Veja o que Paulo disse de si mesmo: “Fiel é a palavra e
digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou
o principal” (1Tm 1:15). Em outro texto, o fiel apóstolo confessa diante da igreja que a natureza
pecaminosa ainda está dentro dele, obrigando-o a eventualmente fazer o mal: “Porque não faço o bem
que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço” (Rm 7:19).
Acredito que esses exemplos são suficientes para mostrar que homens de Deus foram e são tão
humanos quanto eu e você.
Com este livro, quero desmistificar parcialmente essa figura imaginária e inatingível que se forma
em nossa mente sobre o que significa ser um homem de Deus. Para o Pai celestial, não importa se
somos simples como Pedro ou letrados como Lucas, ricos como Salomão ou pobres como a viúva de
Sarepta, fortes como Sansão ou débeis fisicamente como Paulo, persuasivos como os discípulos no
dia do Pentecostes ou pesados de língua como Moisés. O Mestre nos chama com as virtudes e
defeitos que temos, prometendo potencializar nossos pontos fortes, positivos, e transformar as
debilidades em fortalezas.
Fique tranquilo ao aceitar esse chamado, pois é possível continuar usando mochila, jeans, iPod,
internet, tablet, enfim, ser “normal” e, ainda assim, ser um “homem de Deus”. Você e eu, do jeitinho
que somos, onde quer que estejamos, podemos ser o homem ou a mulher que Deus deseja usar para a
conclusão da história. Que privilégio!

Enfim, seremos iguais


Há alguns anos, fui a Curitiba para participar de um grande evento de publicações chamado Casa
Aberta. Depois de andar entre as mesas cheias de livros, alguém me disse que uma pessoa estava me
procurando. Era um jovem simpático e muito educado. Quando o encontrei, não consegui reconhecê-
lo, mas ele logo se identificou:
– Eu sou o Nenito, filho do Pedro! O “moço do homem de Deus”!
Foi marcante encontrar aquele menino que teve o privilégio de ser filho de um homem de Deus.
Pude contemplar nele as marcas de uma educação cristã e da espiritualidade de um mestre dedicado
à obra do Senhor. Conversamos bastante. Fiquei emocionado quando ele disse que seu pai jamais se
havia esquecido de mim. Contou-me que, nos últimos anos de vida, seu herói, e também meu,
continuava colportando todos os dias.
Pedro já não vive mais. Sua sepultura simples em Curitiba pode ser facilmente confundida com
tantas outras, pois não ostenta nenhuma beleza. Todavia, virtualmente, nesse lugar existe um marco
em homenagem a um verdadeiro homem de Deus. Seus amigos, os anjos, devem andar por ali
ansiosos, esperando para abraçá-lo novamente no dia da ressurreição. Por pouco tempo, os ossos
deste valoroso e fiel servo estarão guardados sob a terra, pois desde agora sua coroa de glória já
está preparada. Jesus seguramente está organizando uma recepção especial para ele e tantos outros
que já se foram.

Porquanto o Senhor mesmo, dada a Sua palavra de ordem, ouvida a voz do arcanjo, e
ressoada a trombeta de Deus, descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro;
depois, nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles, entre
nuvens, para o encontro do Senhor nos ares, e, assim, estaremos para sempre com o Senhor.
Consolai-vos, pois, uns aos outros com estas palavras (1Ts 4:16-18).

Não vejo a hora de vê-lo de novo, ao som da orquestra celestial que dará início à maior festa de
todos os tempos, reunindo os homens e mulheres de Deus de todas as épocas, incluindo Eliseu, seu
moço, você e eu. Nesse dia, pela graça de Jesus, finalmente seremos iguais!
Em resumo
• Um dia, precisamos deixar de ser “moços do homem de Deus” para nos tornar “homens de
Deus”.
• O processo que nos torna homens e mulheres de Deus é natural. Basta andar nos caminhos
do Senhor, e Ele se encarregará de nos transformar.
• Histórias de homens de Deus fascinam, porém, de nada servirão se não dermos
continuidade ao ministério ao qual eles se entregaram.
• É possível que, em nossa imaginação, esses homens tenham sido “santos demais”, mas, se
atendermos ao chamado de Deus, poderemos ser não apenas iguais a eles, mas semelhantes a
Jesus.
2 Um Cargo de
Confiança

O rei de Israel enviou tropas ao lugar de que o homem de Deus lhe falara e de que o
tinha avisado e, assim, se salvou, não uma nem duas vezes (2 Reis 6:10).

evantem, tomem suas armas e corram, pois o inimigo está chegando! – grita o moço,
–L parecendo naquele momento até um “general”, porém nada mais era que um garoto de recados.
Ele adorava mandar, e essa era a sua oportunidade! De peito erguido e a plenos pulmões, continuava
importunando.
– Não temos muito tempo! Despertem! Arrumem-se!
– Lá vem você de novo! – exclamam alguns soldados. – Não estamos vendo ou ouvindo nada, nem
sinal de alguém por aqui. Você está delirando, vá embora, não nos perturbe, menino!
Sem dar a mínima importância para o que os soldados pensavam a seu respeito, continuava a gritar
ainda mais animado com sua voz fina e irritante.
– É bom se apressarem, pois eles estão vindo por outro lado, e vocês precisam defender o nosso
país!
– Ei, quem você pensa que é para nos dar ordens? Identifique-se!
– Sou o “moço do homem de Deus” – responde orgulhosamente o menino.
Imediatamente, um silêncio sepulcral invade o acampamento dos soldados do rei de Israel.
– Foi Eliseu que o mandou aqui com essa mensagem? – pergunta o comandante do exército, agora
demonstrando sinais de preocupação no olhar.
– Sim – respondeu ele.
– E por que você não disse antes?
– Porque vocês não perguntaram, ora!
– Atenção, soldados! – ordena impacientemente o comandante. – Todos a postos e vamos para a
entrada leste. Precisamos defender nossa pátria. Corram! Obedeçam ao garoto, pois foi o “homem de
Deus” quem o enviou, e temos plena confiança nele.
O general e todos os seus homens saem rapidamente em direção ao lugar indicado. Não sem antes
se curvar diante do menino e enviar seus agradecimentos ao profeta. Mais uma vez, o povo estaria a
salvo graças às orientações do homem Deus.
É evidente que esse é um diálogo hipotético entre o moço do profeta e os soldados do rei de Israel,
porém, a ênfase está em que, nos tempos bíblicos, os homens de Deus exerciam um papel
fundamental na sociedade. Seu valor era inestimável! Eles eram os embaixadores do Deus altíssimo
e O representavam nas mais diversas situações. O texto que escolhemos para este estudo nos diz que
Eliseu salvou seu país “não uma nem duas vezes”. Sob a orientação do Senhor, ele conseguia prever
o que poderia acontecer no futuro e, assim, recomendar ações preventivas em benefício de seu povo.
Suas ordens, portanto, naquele momento, eram obedecidas sem questionamentos, e os milagres que
fazia regularmente justificavam a seriedade com que sua vontade era cumprida. Homens como Eliseu
eram temidos e respeitados por todo mundo e, mais do que “conselheiros reais”, eram verdadeiros
“salvadores da pátria”.
Ao escrever sobre esse assunto, é preciso ter muito cuidado para não banalizar histórias de homens
como Eliseu e tantos outros, deixando transparecer que qualquer um pode, sem muito esforço, fazer o
que eles faziam. Não obstante, é necessário deixar claro que, mesmo sendo pessoas a quem a
humanidade se curvava e reis obedeciam, ao contrário do que muitos pensam, ser homem ou mulher
de Deus não é algo reservado a pessoas especiais que viveram em ambientes místicos nos tempos
remotos. Mesmo parecendo difícil ou até mesmo quase impossível, hoje, eu e você também podemos
ser esse tipo de homens e mulheres.
Defendo essa tese por crer que não nos resta muito tempo antes da volta de Jesus e há um trabalho
imensamente grande a ser feito. Hoje, mais do que em qualquer outra época, são necessários
mensageiros que, tendo recebido a revelação sobre os últimos acontecimentos da história, levem
esperança ao mundo.

Estamos perdidos! Vamos todos morrer!

Esse é o grito de bilhões de pessoas que


Ser homem ou mulher de Deus não é perderam a esperança. Andam de um lado
para outro tentando preencher o vazio
algo reservado a pessoas especiais que interior. Buscam riquezas, fama,
viveram em ambientes místicos nos reconhecimento, segurança e status, porém,
nunca encontram a felicidade. Isso porque,
tempos remotos. quando olham à frente, conseguem ver
apenas a morte que as espera. Pergunte a
alguém que tenha completado setenta anos
quais são seus planos para os próximos trinta, e verá um semblante decaído. Poucos são os que
sabem realmente o que ocorrerá no futuro. E, por falta desse conhecimento, permanecem pálidos,
apavorados e indefesos diante dos exércitos de Satanás, acampados ao seu redor.
Vou lhe propor um pequeno exercício: esqueça tudo o que já estudou na Palavra de Deus e pense a
respeito do futuro de nosso planeta! OK, talvez isso seja muito genérico e, consequentemente, difícil
de imaginar. Vamos fazer algo mais fácil: pense no futuro das pessoas que vivem próximas de você,
mas desconhecem o plano da redenção. Infelizmente há bastante gente nessa situação.
Há algum tempo, estava conversando com um barbeiro sobre esse assunto. Gosto de cortar o cabelo
com ele, não apenas por sua habilidade, mas também pelo “papo” descontraído que levamos. Sempre
falamos acerca de vários assuntos e, mesmo sendo ele uma pessoa de origem humilde, Paulo 1 é um
filosofo. Tenho aprendido muito com nossos diálogos informais. Na última conversa que tivemos, ele
me contou um pouco de sua história.
Ele nasceu no Nordeste, oriundo de uma família pobre. Infelizmente, antes dos dez anos de idade,
tornou-se órfão e, sem saber o que fazer, foi para São Paulo. Trabalhou duro em duas alfaiatarias e,
finalmente, fez um curso técnico em corte de cabelos, aprendendo assim a profissão à qual se
dedicaria pelo resto da vida. Mesmo passando por muitas dificuldades no início da carreira, hoje,
Paulo se considera um vencedor. Aos cinquenta e poucos anos, vive tranquilo em sua casa própria, é
dono de uma barbearia, possui duas filhas já casadas e um filho estudando. Tudo isso, segundo ele,
está “de bom tamanho”. Porém, notei um pequeno traço de tristeza em sua face quando começamos a
falar do futuro.
– Já estou no fim da vida – afirmou.
– Que é isso amigo, você ainda é novo! – repliquei
– Pois é, mas já consegui tudo o que queria. De agora em diante tudo o que vier será lucro!
A partir desse momento, ele não falou mais. Por meio do espelho, pude ver uma pequena lágrima
rolando em sua face. Essa lágrima pode representar muitas coisas. Provavelmente, uma delas seja o
reconhecimento de que, mesmo alcançando todos os objetivos, nosso futuro é “não ter futuro”! A
menos que algo sobrenatural aconteça, mais cedo ou mais tarde, perderemos tudo o que
conquistamos! As coisas perecem, o dinheiro acaba, os bens se deterioram, os filhos crescem e se
vão, a saúde se complica, as rugas destroem a beleza, enfim, “éramos pó e ao pó voltaremos”.
Confirmando essa situação, nosso lar, o planeta Terra, já emite sinais de cansaço, dando os últimos
suspiros. Naturalmente, caminhamos para o fim. Ainda que a ciência descubra alguma forma de
prolongar a vida, não teríamos mais onde morar. Ou seja: somos um grupo de condenados à morte
prestes a cumprir a sentença.
A partir dessa premissa, a sociedade pode até alcançar avanços tecnológicos e científicos, pode
evoluir em conhecimento e comemorar seus grandes feitos, mas continua sem rumo, pois sabe que
tudo é passageiro. Mesmo as grandes invenções e conquistas se tornam rapidamente obsoletas e
irrelevantes para a preservação da espécie humana.
“O que fazer?”, todos perguntam.
“Nada, apenas esperar a morte!”, é a resposta nua e crua.
Essa agonia invade não apenas os pensamentos de meu amigo, mas também a mente de pessoas em
qualquer nível cultural e social. Pensar dessa forma leva ao desânimo, desespero e à morte
prematura. Basta ver o expressivo aumento do número de pessoas que sofrem de depressão nos
últimos anos. Na década de 70, Hermes de Aquino compôs uma música secular, cujos versos
traduzem ainda hoje essa realidade:

Eu sou nuvem passageira (primeira parte) 2

Eu sou nuvem passageira


Que com o vento se vai;
Eu sou como um cristal bonito
Que se quebra quando cai.

Não adianta escrever meu nome numa pedra,


Pois esta pedra em pó vai se transformar.
Você não vê que a vida corre contra o tempo?
Sou um castelo de areia na beira do mar.

Agora, é possível compreender um pouco melhor os sentimentos daqueles que nos cercam. Esse é o
“futuro” que eles pensam que os espera. Já pensou que tristeza, acordar todas as manhãs
contabilizando um dia a menos para viver?

Mudando o foco
E se tudo isso pudesse ser revertido? E se nossa saúde melhorasse a cada dia? E se nos
tornássemos cada vez mais ricos? E se nós e nossa família fôssemos imortais? E se o planeta em que
vivemos recebesse a garantia de existir para sempre, e cada vez com mais qualidade de vida? É bom
demais para ser verdade? Mas é verdade! Veja o que a Bíblia diz em um dos mais lindos textos que
já li:

Vi novo céu e nova Terra, pois o primeiro céu e a primeira Terra passaram, e o mar já não
existe. Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do Céu, da parte de Deus,
ataviada como noiva adornada para o seu esposo. Então, ouvi grande voz vinda do trono,
dizendo: Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos
de Deus, e Deus mesmo estará com eles. E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já
não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram. E
Aquele que está assentado no trono disse: Eis que faço novas todas as coisas. E acrescentou:
Escreve, porque estas palavras são fiéis e verdadeiras. Disse-me ainda: Tudo está feito. Eu
sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim. Eu, a quem tem sede, darei de graça da fonte da
água da vida. O vencedor herdará estas coisas, e Eu lhe serei Deus, e ele Me será filho” ( Ap
21:1-7).

Uma tarefa especial para pessoas especiais


Hum! Não sei se você deveria ter lido esse trecho da Bíblia! Sabe por quê? Porque agora você se
tornou responsável por compartilhar essa notícia! Estamos só no segundo capítulo deste livro, e você
acaba de ser nomeado “homem ou mulher de Deus”! Verdade! Ao ler o texto acima, hoje, exatamente
como nos tempos de Eliseu, Deus lhe concedeu uma “revelação” sobre o que acontecerá no futuro!
Essa informação o transforma em um “super-herói”. Não daqueles imaginários que só aparecem nas
revistas em quadrinhos e nos filmes, mas heróis de verdade, com “superpoderes” e tudo o mais! No
entanto, lembre-se de que, como todo “super-herói” que se preze, sua tarefa agora é ajudar a “salvar
o planeta”! Gostou da ideia? O Senhor também! Por isso, o escolheu e confia em você.
O mundo inteiro precisa saber que Jesus em breve voltará. Essa esperança pode transformar vidas,
restaurar o ânimo, trazer de volta a alegria, recobrar a paz e mudar completamente a sociedade,
preparando um povo para se encontrar com o Salvador. Segundo a Palavra de Deus, essa mensagem
deve ser proclamada com urgência. Porém, a Terra nunca foi tão repleta de pessoas como hoje. A
tarefa de transmitir as boas novas é gigantesca, e apenas eu e você, mesmo com “superpoderes”, não
conseguiríamos cumprir sozinhos a missão. Precisamos de ajuda! Como em nenhum outro tempo,
Deus precisa de uma quantidade imensamente maior de porta-vozes celestiais para terminar Sua
obra. Se há uma geração com um trabalho mais importante a realizar, com certeza é a nossa. Deus
confiou essa grandiosa tarefa a você e a mim!

No pódio com os vencedores


Infelizmente, muitos ainda insistem em olhar para trás e dizer que a missão dos pioneiros era mais
relevante que a nossa e, por isso, a presença de homens de Deus se fazia mais necessária no passado.
Mas isso não é verdade! Como já disse antes, precisamos tomar o devido cuidado para não banalizar
biografias de homens e mulheres que serviram a Deus em tempos remotos mas, também, não podemos
pensar que hoje não precisamos mais de pessoas assim.
O capítulo 11 do livro de Hebreus apresenta com equilíbrio uma galeria, um desfile de campeões
da fé, todos eles valorosos e corajosos cristãos que ocupam um lugar no pódio dos vencedores.
Quando tentamos nos comparar a esses “mitos”, nos sentimos pequenos. Aparentemente, é impossível
sequer chegar perto deles. Note que fiz questão de dizer “aparentemente”, e quando digo
“aparentemente”, não estou apenas insinuando que NÃO é impossível ser igual a eles, estou
afirmando, mesmo! E acrescento: eu e você podemos ter uma experiência ainda mais profunda com
Deus. Verdade! Sabe por quê? Porque no mesmo capítulo (Hebreus 11) que relata as façanhas dos
heróis que já morreram, encontramos uma promessa para o presente, para hoje, agora!
“Ora, todos estes que obtiveram bom testemunho por sua fé não obtiveram, contudo, a
concretização da promessa, por haver Deus provido coisa superior a nosso respeito, para que eles,
sem nós, não fossem aperfeiçoados” (Hb 11:39, 40).
Também podemos estar no pódio dos vencedores e em uma posição ainda mais elevada. Deus
proveu “alguma coisa melhor” para nós! Isso não quer dizer que seremos mais honrados que eles,
mas temos uma responsabilidade muito maior: concluir a tarefa que eles começaram. Apesar de toda
a tecnologia, conforto e facilidades do mundo atual, nossa missão é mais desafiadora e emocionante
que a dos pais da fé. Cabe à nossa geração concluir a obra do Senhor e cruzar a linha de chegada.
Estamos diante do maior desafio de todos os tempos: evangelizar mais de 7 bilhões de habitantes do
planeta Terra. Para isso, Deus precisa de pessoas com as quais Ele possa contar para transmitir Sua
mensagem de esperança. Deus precisa de você tanto quanto precisou dos patriarcas, profetas,
discípulos e dos pioneiros. Que privilégio é desfrutar essa confiança!

Em resumo
• Ser um homem ou mulher de Deus não foi um privilégio de poucas pessoas do passado.
• Hoje, somos portadores de boas-novas de salvação, e esse fato nos transforma em um tipo
de “super-heróis” a fim de salvar os perdidos.
• Dado o momento histórico em que vivemos, hoje, mais do que em qualquer época, o
Senhor precisa de um grande exército de homens e mulheres para representá-Lo perante o
mundo, finalizando assim a pregação do evangelho.
• Ao aceitar esse convite, recebemos o direito de desfilar na galeria dos campeões da fé
como qualquer outro homem ou mulher de Deus dos tempos bíblicos.
• O Senhor não está preocupado com nossas limitações pessoais mas, a despeito delas, pode
nos usar para realizar Sua obra.

1
Nome fictício.
2
[Link]
3 Questão de
Responsabilidade

Mas o homem de Deus mandou dizer ao rei de Israel: Guarda-te de passares por tal
lugar, porque os siros estão descendo para ali. O rei de Israel enviou tropas ao
lugar de que o homem de Deus lhe falara e de que o tinha avisado e, assim, se
salvou, não uma nem duas vezes (2 Reis 6:9,10).

T anto Eliseu quanto o rei de Israel tinham a responsabilidade de defender o país. Essa era uma
tarefa ao mesmo tempo individual e corporativa. Eliseu, individualmente, recebia informações
“classificadas” e as repassava ao rei que, corporativamente, organizava a estratégia de defesa
militar. Assim, cada um cumpria seu papel, e a nação permanecia em segurança. Acontece que, um
belo dia, os papéis se inverteram. O cerco veio para cima do próprio Eliseu, que não pôde esperar
uma solução corporativa para defender sua pátria. Ele mesmo precisou agir e, por um milagre, salvou
a si mesmo, o moço e também o povo.
Assim como Eliseu era israelita, é natural que os homens e mulheres de Deus da atualidade
pertençam a um povo específico e façam parte de uma denominação religiosa que se levante
corporativamente para pregar o evangelho. Não obstante, precisamos nos recordar de que esse
processo somente terminará quando cada um, individualmente, fizer a sua parte.
Pertencer à igreja de Deus é uma condição que pode nos deixar na zona de conforto. Por ser uma
instituição jurídica, deduzimos que a igreja é um tipo de “empresa” cuja missão é proclamar o
evangelho ao mundo. Diferentemente do tempo dos profetas, hoje, nossa igreja possui lindas
instalações, templos cuidadosamente projetados, editoras, fábricas de alimentos, canais de televisão,
escolas, colégios e hospitais. Com tantas facilidades à disposição, aparentemente, nosso fardo se
torna mais leve, pois a corporação “alivia” a carga individual.
Mas quero lembrá-lo de que a estrutura pode “pertencer” à igreja, mas não é a igreja. Basicamente,
a “igreja” é composta por pessoas com responsabilidades individuais trabalhando unidas em forma
corporativa. Podemos facilmente identificar três grupos que compõem a igreja:
• Obreiros de tempo integral
• Líderes locais (anciãos, diáconos, diretores de departamentos, etc.)
• Membros em geral
Olhando por esse prisma, parece haver uma hierarquia, mas esse organograma serve apenas para
que o processo de evangelização avance de maneira organizada. Definitivamente, não são os dois
primeiros grupos que arcam com a tarefa de ser homens e mulheres de Deus e que devem terminar
sozinhos a obra do Senhor . Tampouco se pode afirmar que os membros voluntários, a grande
maioria, simplesmente são liderados pelos primeiros e nada mais precisam fazer do que assistir às
reuniões, devolver o dízimo e ajudar na manutenção. Existem funções diferentes, mas todos têm a
responsabilidade de proclamar o evangelho.
No capítulo anterior, vimos que o privilégio de ser um homem ou mulher de Deus não é algo
reservado para umas poucas pessoas do passado. Neste capítulo, vamos ver que esse título também
não é atribuído apenas a um pequeno grupo escolhido de dentro de uma denominação religiosa. Nos
últimos dias, todos os homens e mulheres que pertencem à igreja verdadeira serão individualmente
usados pelo Senhor para proclamar a última mensagem de advertência ao mundo. Não querendo ser
radical, mas, ao mesmo tempo, sendo (só um pouquinho), poderia afirmar que ou somos homens e
mulheres de Deus, ou sequer pertencemos à igreja de Cristo.
O apóstolo Pedro ampliou o conceito de homem de Deus esclarecendo que todos os indivíduos que
fazem parte da igreja devem receber esse título. Note o que ele afirma no texto a seguir: “Vós,
porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim
de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a Sua maravilhosa luz” (1Pe
2:9).
Ao estudar esse texto, a primeira conclusão a que chegamos é que Deus escolheu um povo, uma
raça, uma nação e os separou. Dentro desse grupo, todos recebem a mesma missão. Não existem
pessoas mais ou menos importantes. Todos têm o mesmo dever. Que privilégio para pessoas como
você e eu! Somos a igreja que Deus escolheu.
É ótimo ler essa parte do verso, em que recebemos elogios e somos reconhecidos como “raça
eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus”. Mas, ao nos
aprofundarmos um pouco nesse estudo, veremos que, por conta de cada privilégio existe também uma
responsabilidade. Nesse caso específico, a responsabilidade é uma condição para recebermos o
privilégio. Para exemplificar melhor o que estou tentando dizer, deixe-me evocar mais uma história
do passado.
Desde pequenos, apreciamos ser escolhidos para algo. Lembro-me quando, nos primeiros anos
escolares, durante as aulas de educação física, por não ter tanta intimidade com a bola, normalmente
era o último a ser escolhido no time para jogar futebol. Aquilo era terrível. Essa realidade mudou
anos mais tarde quando já adulto, ao morar no Chile, por eles pensarem que todos os brasileiros são
iguais ao Pelé, quase sempre eu era o primeiro a ser chamado. De uma hora para outra, precisava
jogar melhor do que todos os meus companheiros de time. Que responsabilidade! Como não evoluí
muito desde o primário até hoje, para não envergonhar meu país, deixava que eles me escolhessem e,
depois, concedia o lugar a outra pessoa... Espertinho, hein?! Mas existem algumas profundas
verdades nessa história, das quais destaco apenas uma: quando somos escolhidos, além de
privilégios, recebemos responsabilidades.
Pedro afirma que você e eu somos “raça eleita” e acrescenta: “sacerdócio real, nação santa, povo
de propriedade exclusiva de Deus”. Para receber um privilégio tão grande, a responsabilidade
provavelmente deve ser também imensa, e de fato é. Esse capítulo da Bíblia mostra que Deus precisa
de uma igreja composta 100% de homens e mulheres comprometidos com a missão.

Três expressões esclarecedoras


Continuando nosso estudo, quero convidá-lo a analisar três expressões de Pedro que, se bem
compreendidas, mostram nossos privilégios e responsabilidades. Essas expressões estão grifadas no
texto. Todas as demais palavras giram em torno delas: “Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real,
nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que
vos chamou das trevas para a Sua maravilhosa luz”
Em uma explicação simplista, vemos nessas expressões dois grupos e uma condição que os
identifica. Um dos grupos é composto por homens e mulheres de Deus. O outro, por falsos homens e
mulheres de Deus. O que os distingue é a reação de cada um deles diante da missão.

Vós – Esse é o grupo dos homens e mulheres de Deus. Quem são esses VÓS? Resposta: Não há
dúvida de que é a igreja, ou a casa espiritual. O contexto imediato nos fornece essa certeza:
“Também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual, para serdes
sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de
Jesus Cristo” (v. 5).
A expressão vós é também aplicada a pedras que vivem, ou pedras vivas e casa espiritual. Isso
mostra que a igreja é composta de pessoas vivas que, juntas, compõem uma casa espiritual ou uma
congregação. A igreja é viva e, segundo o autor, isso acontece porque é formada por pessoas cheias
do espírito de Deus.
Além de pedras vivas, elas também são edificadas. A palavra em grego usada aí é dicodomeo e o
significado é que elas literalmente se deixam construir de acordo com os padrões do Arquiteto
celestial e cumprem literalmente sua missão.
A igreja, representada pelas pedras vivas e pelo vós do texto, é qualificada como raça eleita,
sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus.

Porém – Esse é o grupo dos falsos homens e mulheres de Deus. Porém é uma conjunção
coordenativa sindética adversativa. Sua função é dar ao texto o sentido inverso à ideia que até o
momento vinha sendo desenvolvida. Usamos muito essa expressão quando queremos elogiar uma
pessoa antes de repreendê-la. Por exemplo: João, você é um ótimo pensador, mas, porém, todavia,
contudo, entretanto... quando tenta colocar suas ideias no papel, é uma tragédia!
Ao usar essa conjunção, Pedro deixa claro que existem falsos homens de Deus reivindicando fazer
parte da igreja verdadeira. Entretanto, essas pessoas têm algumas características peculiares que as
diferenciam dos verdadeiros homens de Deus. São elas:
Descrentes: “Para vós outros, portanto, os que credes, é a preciosidade; mas, para os descrentes, a
pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra, angular” (v. 7).
Por ser o evangelho algo tão simples e, ao mesmo tempo, tão complexo, muitos encontram
dificuldade de acreditar em tantas bênçãos que o Senhor preparou para Seu povo. Porém, todas as
promessas são reais e verdadeiras. Nosso Deus é um Deus de milagres e reserva para os que nEle
creem, além da salvação, uma vida eterna desfrutando as maiores riquezas do Universo.

Há, todavia, pessoas que, motivadas pelo


Existem funções diferentes, mas todos inimigo, não apenas deixam de aceitar o
convite do Senhor como levam outros a
têm a responsabilidade de proclamar o rejeitá-Lo também. Penso que, por esse
evangelho. motivo, toda essa gente estará no mesmo
nível dos piores bandidos da Terra quando
sua sentença final for proferida pelo Juiz
celestial. “Quanto, porém, aos covardes, aos
incrédulos, aos abomináveis, aos assassinos, aos impuros, aos feiticeiros, aos idólatras e a todos os
mentirosos, a parte que lhes cabe será no lago que arde com fogo e enxofre, a saber, a segunda
morte” (Ap 21:8).
Podemos concluir que não crer no evangelho, ou no chamado para pregá-lo, é um pecado
gravíssimo e nos afasta do Céu.
Construtores que rejeitaram a Pedra Angular. “Para vós outros, portanto, os que credes, é a
preciosidade; mas, para os descrentes, a pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a
principal pedra, angular” (1Pe 2:7).
A palavra rejeitar usada nesse texto (gr. apodokimazo) significa desprezar após ter sido
experimentada. Isso significa que a Pedra, que é Jesus, foi rejeitada não por ignorância, mas por não
atender às normas da construção e, portanto, não se encaixar.
Os construtores ergueram uma parede torta e, agora, a principal pedra não se encaixa. Esse fato me
faz recordar do tempo em que estava construindo minha casa. Depois de o pedreiro passar dois dias
colocando os azulejos do banheiro, percebi que a base estava em desnível, e algumas peças, como
frisos laterais, não se encaixavam. O problema é que ele estava alcoolizado e, por isso, não
conseguia acertar o prumo nem o nível. Depois de várias tentativas para corrigir o problema, tivemos
que arrancar todos os azulejos, quebrando muitos deles, e fazer todo o serviço de novo. Por ter que
comprar novamente diversas peças, o banheiro ficou em tonalidades diferentes, formando um
“degradê”! Que desperdício de tempo e dinheiro!
Jesus não era o “friso lateral” de um cômodo da casa! Jesus era o Alicerce de um novo reino! Ele
era a Fundação, a Pedra que falou a Pedro: “Sobre esta pedra edificarei a Minha igreja” (Mt
16:18). 1 Ao construir sobre essa Rocha, a casa espiritual de Israel estaria segura e permaneceria
firme ante as tribulações futuras. Infelizmente, o povo primitivo de Deus, tal como meu pedreiro
embriagado, já havia começado a construir desviando-se do projeto original. Quando olharam para
Jesus, não conseguiram visualizar o Messias que aguardavam. O Mestre estava fora dos seus
padrões, portanto, não Se encaixava em sua obra! A lógica dizia que deveriam ter derrubado as
paredes tortas, readaptando-as à fundação, mas preferiram seguir construindo conforme sua própria
maneira de pensar e, com isso, edificaram uma igreja torta, sem base e sem propósito.
Pessoas que tropeçam na Palavra. Pedro segue identificando os falsos homens e mulheres de
Deus. “São estes os que tropeçam na palavra, sendo desobedientes, para o que também foram
postos” (1Pe 2:8).
Se só existe um Deus, como hoje em dia podemos encontrar tantas religiões? E cada uma delas se
qualifica como verdadeira! Verdadeiros são os absurdos que ouvimos por aí! Um dia desses,
encontrei algo na internet que parecia ser uma brincadeira de mau gosto. Em determinado lugar, havia
uma igreja com uma placa que dizia o seguinte: “Venha para nossa congregação e receba um
desconto no dízimo. Aqui você só paga nove por cento”! Em outro momento, vi na televisão um
homem que fazia propaganda de uma “toalhinha mágica”. Ele afirmava que onde aquela toalha fosse
passada, milagres aconteceriam. Culminando a pregação, levou um “discípulo” para dar testemunho.
O incauto e iludido membro começou sua história dizendo que tinha uma grande dívida. Porém, um
belo dia, comprou a tal toalhinha e, à noite, furtivamente, foi ao banco em que se encontrava seu
débito e esfregou o pedaço de pano na maçaneta da porta. Para sua surpresa, no outro dia, ao acessar
seu extrato, a dívida estava quitada!
A Bíblia não afirma que eles não conhecem a Palavra, mas que tropeçam nela. Ou seja: deturpam-
na, tentando adaptá-la a seus próprios interesses. Ao contrário de toda essa gente, os verdadeiros
homens de Deus precisam estar “sempre preparados para responder a todo aquele que lhes pedir
razão da esperança que neles há” (1Pe 3:15).
Desobedientes. Nesse momento, Pedro estava se referindo às pessoas que se diziam cristãs, mas
eram falsas e viviam em aberta desobediência às ordens do Senhor. “São estes os que tropeçam na
palavra, sendo desobedientes, para o que também foram postos” (1Pe 2:8).
A desobediência é resultado da falta de fé (descrentes), da ausência de Cristo (Pedra rejeitada) e
da deturpação da Palavra (aqueles tropeçam na Palavra). É interessante notar que as três primeiras
características se desenvolvem na mente, fornecendo o combustível para que a quarta se exteriorize
em forma de revolta. Uma coisa leva à outra. A desobediência é a consequência de uma vida cristã
superficial e, obviamente, sem comprometimento.

A fim de... – Essa é uma expressão de propósito. “Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real,
nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que
vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz (1Pe 2:9).
Essa expressão é uma condição e afirma que a igreja (você e eu) existe especificamente para
cumprir uma missão: “proclamar”. Se não cumpre seu propósito, perde a razão de existir. Além
disso, deixa de figurar como verdadeira, pois rejeita a Cristo, tropeça na Palavra e lhe desobedece
abertamente.
Tenho lido algumas histórias sobre a falta de propósito. É incrível e hilariante ver o resultado de
atitudes sem sentido. Em 1898, W. Reginald Bray trabalhava na área de contabilidade na cidade de
Londres. Provavelmente, cansado da atividade rotineira, desenvolveu um passatempo interessante:
testar os limites do correio inglês. Despachava objetos como esqueletos de coelhos para outros
continentes, ou cartas para “qualquer morador de Londres” ou, então, colocava a foto de uma casa
estampada no envelope no lugar do endereço. Chegou a despachar a si mesmo por três vezes.
Curiosamente, o correio cumpriu cabalmente todas as tarefas.
Em uma história de almanaque, li que certa vez dois homens estavam trabalhando arduamente
durante todo o dia ao longo de uma rua. De longe, uma senhora os observava, intrigada com o que
acontecia. Um deles abria um grande buraco; em seguida, o outro colocava toda a terra de volta
fechando o mesmo buraco. E assim fizeram o dia todo: um abria buracos e o outro os fechava!
– Em que vocês trabalham? – perguntou a senhora no final do dia.
– Nós plantamos árvores! – responderam. – Eu abro buracos e meu colega fecha; porém, nosso
colega, aquele que coloca as árvores nos buracos, não veio.
Quando o Senhor disse que a igreja existe “para proclamar”, Ele estava bondosamente colocando
um propósito em nossa vida. Todos precisamos de motivação. Não é possível viver apenas por
viver! Certa vez, em uma das tantas mudanças que fiz, atendendo aos diversos chamados da igreja, ao
passar a primeira agenda com o administrador local, percebi que teria dificuldades naquele lugar.
Gosto muito de criar grandes projetos e inovar sempre; além disso, sou movido a “desafios”. Ao
perceber meu perfil, o presidente disse:
– Não se preocupe em fazer coisas novas, apenas mantenha e controle o que já existe!
Confesso que quase tive um ataque cardíaco, pois, no meu entender, havia sido chamado exatamente
para mudar a realidade. Não havia sentido em permanecer ali apenas esperando o tempo passar.
Graças a Deus, depois de algum tempo, tive grandes alegrias e pude lançar diversos projetos
sustentáveis naquele lugar.
O apóstolo Pedro deixa claro que a igreja existe “a fim de...”! “Para quê?”, você pergunta. “Para
proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz.”
A expressão para demonstra que a igreja não pode subsistir sem missão. E, sem missão, não há
motivos para a sua existência. Ela tão somente foi estabelecida para terminar a obra de Deus.
Proclamar é sua tarefa. Enquanto proclama, vive!

Concluindo
Antes de finalizar este capítulo, quero lembrá-lo novamente de que a igreja não é apenas uma
instituição, mas somos eu e você, pedras vivas, nação santa, sacerdócio real, povo de propriedade
exclusiva de Deus, e evidenciamos essa condição proclamando a mensagem; assumindo assim a
responsabilidade que acompanha tamanho privilégio.
Até agora, venho afirmando que, para fazer jus à confiança que o Senhor depositou em cada um de
nós, devemos ser homens e mulheres de Deus. Também faço questão de dizer que esse é um processo
natural na vida daqueles que pertencem à verdadeira igreja. Mas gostaria, na prática, de poder ajudá-
lo a reconhecer algumas características presentes na vida dessas pessoas. Evidentemente, apenas um
livro não é suficiente para descrever todas elas, mas, nos próximos capítulos, veremos algumas das
mais importantes para o processo de formação de homens de Deus.

Em resumo
• A igreja não é apenas uma instituição jurídica, mas, sim, o conjunto de “pedras vivas” que
se colocam nas mãos do Arquiteto celestial para cumprir um propósito definido. Sendo assim,
não podemos esperar que a mensagem do evangelho seja proclamada apenas por intermédio
de uma corporação e, sim, da soma de esforços individuais.
• A “instituição igreja” deve existir para que os planos evangelísticos sejam organizados.
• Deus escolheu um povo para representá-Lo. Você e eu não apenas fazemos parte, mas
somos esse povo.
• Representar o Senhor é um privilégio que envolve a grande responsabilidade de pregar o
evangelho a todo o mundo.
• Ser cristão é o mesmo que ser um “homem de Deus”, e a maior evidência de que
pertencemos a essa classe privilegiada é estar envolvidos na missão de proclamar o
evangelho.

1
O texto diz: “Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão
contra ela.” A palavra pedra, quando aplicada a Jesus, é usada na forma petra e pode ser traduzida como rocha.
PARTE II
A Atuação e Recompensa do
Homem de Deus
“A maior necessidade do mundo é a de homens
– homens que se não comprem nem se vendam;
homens que no seu íntimo sejam verdadeiros e
honestos; homens que não temam chamar o
pecado pelo seu nome exato; homens, cuja
consciência seja tão fiel ao dever como a
bússola o é ao polo; homens que permaneçam
firmes pelo que é reto, ainda que caiam os
céus” (Educação, p. 56, 57).
4 O Desafio de
Mudar Destinos

Tendo-se levantado muito cedo o moço do homem de Deus e saído, eis que tropas,
cavalos e carros haviam cercado a cidade (2 Reis 6:15).

A s palavras que quero salientar mais uma vez são “o moço do homem de Deus”, porém, vou
enfatizar outro aspecto que não explorei no primeiro capítulo deste livro.
O jovem havia recebido a maior oportunidade que um ser humano poderia ter na época: ser o
“moço do homem de Deus”. Provavelmente, algum tempo antes, o profeta não tinha ninguém a quem
ensinar e, enquanto isso, o moço não tinha nenhum destino promissor. Mas Eliseu fez o que homens
de Deus devem fazer: mudar destinos. Andando pelos caminhos da antiga Palestina, o profeta
encontrou seu futuro aprendiz e demonstrou interesse por ele.
– Ei garoto! Você quer mudar de vida? Quer crescer na carreira profissional e ser reconhecido pela
sociedade como alguém importante? Quer viver intensamente cada momento, presenciando muitos
milagres e, inclusive, aprender a fazê-los? Quer saber como falar com o Todo-poderoso e ser ouvido
por Ele?
– Bem, Sr. Eliseu, é claro que quero, mas como consigo tudo isso?
– Não é fácil, meu jovem! Será preciso acordar cedo, trabalhar muito e, de vez em quando,
encontrar-se com exércitos furiosos querendo matá-lo. Meu servo anterior chegou a contrair lepra
“tentando” me ajudar. Mas não se preocupe: analisando seu perfil, existe uma grande probabilidade
de você se dar bem.
É evidente que o Senhor lhe confiou a mais sublime tarefa de mudar para melhor o destino de seu
aluno e, assim, foi concedido ao jovem estagiário de profeta um título maior que seu próprio nome: a
partir daquele encontro, tornou-se conhecido como “o moço do homem de Deus”!
Essa história ainda acontece nos dias de hoje. Muitos jovens têm sido encontrados pelos caminhos
e, por meio da graça do Senhor, são transformados. Acredito nisso porque um dia também fui achado
por um desses homens, e esse encontro mudou completamente meu destino.
Foi há muito tempo, mas recordo-me como se fosse hoje. Era uma tarde fria de inverno em Porto
Alegre. Ficar doente não era nada bom. Mesmo com um ótimo preparo físico, contraí pneumonia e
estava no hospital. O peito doía, a febre não passava, e a tosse era insuportável. A cada duas horas,
fazia nebulização com um medicamento que tinha um cheiro horrível. Cada vez que precisava colocar
aquela máscara, o estômago reagia! Estava no lugar em que sempre sonhei estar. Não no hospital,
mas no exército! Agora que teria uma carreira brilhante pela frente, por que precisava passar por
aquela difícil provação? Menos de cinco anos antes, minha mãe havia perdido o marido, e eu, o pai.
Será que agora era a minha vez de partir?
“Marcha soldado cabeça de papel...”. Os mais antigos certamente lembram-se bem dessa cantiga de
roda. Eu me recordo perfeitamente, pois só conhecia essa e gostava de cantá-la o tempo todo na
escola primária. Ao crescer um pouco, ficava fascinado com os desfiles da semana da pátria. Não
perdia um, sequer! Toquei na fanfarra da escola desde a quinta até a oitava série e, depois, na banda
marcial do IACS (Instituto Adventista Cruzeiro do Sul) no Ensino Médio. Tudo isso para usar
aqueles uniformes bonitos e poder marchar como um soldado. A vontade de meu pai era que eu fosse
pastor, mas a minha era ser militar.
Finalmente, meu sonho se concretizou. Pouco tempo antes, havia completado dezoito anos e, para
minha alegria, fui aceito no quartel. Ali, poderia conquistar a carreira que sempre desejara, ser
independente, servir ao país, ser promovido (como de fato fui), ganhar um bom salário e também o
respeito da sociedade.
A unidade de comando para a qual fui designado ficava no final da Rua da Praia, no centro de Porto
Alegre. Para chegar lá, precisava cruzar semanalmente as principais ruas do centro da capital.
Sentia-me o maioral, desfilando com o uniforme de passeio. Orgulhava-me de poder servir ao País e
desfrutar de certo tipo de “autoridade”.
Entretanto, não foi fácil adaptar-me à rotina de um recruta. Todos queriam mandar em mim. E
quando digo todos, eram todos mesmo. Logo na apresentação o sargento encarregado de meu pelotão
foi logo dizendo:
“Nossos princípios são: hierarquia e disciplina” e “antiguidade é posto”! Ou seja: todos os mais
antigos mandam em você e, na dúvida, é melhor obedecer a todo mundo, sabe lá se alguém entrou
cinco minutos antes? Não estou exagerando. Era assim mesmo, e era uma bênção! Aprendi a respeitar
o que chamavam de meritocracia, em que o melhor era sempre reconhecido, e se houvesse duas
pessoas com as mesmas qualidades, o mais antigo levava a melhor.
Apreciava todos os tipos de treinamentos, mas, sem dúvida, o que mais me impressionava eram os
exercícios com armas. Aprendi a montar e a desmontar um FAL (fuzil automático leve) em menos de
dez segundos. Adorava praticar tiro ao alvo, e consegui destaque como um dos melhores atiradores
da época. Inúmeras vezes, saíamos à noite para o campo e ali praticávamos estratégias de combate
com tiros de festim e balas traçantes. Eles pareciam fogos de artifício.
Certa vez, durante um acampamento no mês de julho, enquanto a chuva fria caía do lado de fora de
nossa barraca de selva, os instrutores nos acordaram às duas horas da madrugada com gás
lacrimogêneo. Era uma sensação terrível de sufocamento e irritação nos olhos, nariz e garganta. Não
conseguíamos respirar. Somente mais tarde descobri o segredo de que a única maneira de não sofrer
tanto os efeitos desse gás é “enterrando” o rosto no chão, pois a tendência do gás é subir. Saímos
desesperadamente da barraca com os olhos esbugalhados e visão embaçada, mas o pior ainda estava
para acontecer. Recebemos ordens de rastejar por um percurso de quase cem metros dentro de um
lamaçal terrível, parecia um pântano. Claro que não podíamos soltar e nem sequer sujar de barro o
fuzil que, com o passar das horas parecia pesar uma tonelada. Ao chegar ao outro lado, ensopados e
enlameados, ainda tivemos que praticar ordem unida durante uma hora. Finalmente, nos deixaram em
posição de sentido por mais de cinquenta minutos. Sentíamos o vento minuano, característico do Sul,
congelando as orelhas, cabeça, costas e pés, que já estavam paralisados dentro dos coturnos.
Pensava que poderia passar por tudo isso; afinal de contas, outros haviam conseguido com sucesso
e, se servir o exército é um preparo para futuras batalhas, eu tinha que aguentar, pois em uma guerra a
gente vai para matar ou morrer, e um bom soldado precisa estar preparado para todas as situações.
Minha mente racionalizava dessa forma, mas meu corpo não respondia da mesma maneira. Comecei a
tossir e não parei mais. No princípio, achei que era uma simples gripe, mas, depois de algumas
horas, meu peito doía como se tivesse levado uma grande pancada. Não podia permanecer em pé e a
respiração ficava cada vez mais difícil. Com muita vergonha, chamei o sargento, que, ao me ver, não
teve dúvidas: “Esse moço vai morrer”, pensou ele. Não era para menos, eu tremia muito, tossia e
soltava sangue pela boca!
E assim, depois de dois meses de instrução, fui parar no hospital. Fiquei ali por quarenta longos
dias. Inicialmente, não via a hora de sair, pois queria estar logo com meu pelotão recebendo
instruções. Depois de duas semanas hospitalizado, as esperanças foram se debilitando, juntamente
com a saúde. Cheguei a ser colocado na UTI em duas oportunidades e, em desespero, já não me
importava mais em voltar ou não para as atividades da caserna. Queria apenas sair do hospital, só
não esperava sair em um caixão, o que se configurava uma possibilidade bem real, uma vez que meu
quadro de saúde piorava. A pneumonia estava evoluindo, a dor no peito estava mais forte, o sangue
fluía em maior quantidade e eu estava cada vez mais prostrado diante da doença. Que agonia!
Como se não bastasse o sofrimento físico, a mente borbulhava em uma “crise existencial”. Não
podia fazer nada além de pensar e, por isso, tomei muito tempo considerando os valores que havia
cultivado ao longo da vida. Será que eu estava no caminho certo? Se eu morresse naquele momento,
estaria salvo? A que tipo de atividades havia dedicado meus talentos até aquele momento? Valeria a
pena aprender e seguir aprendendo técnicas e estratégias de guerra? Quantos palavrões havia
escutado de meus colegas e superiores? E as humilhações por que passei quando descobriram que eu
era “crente”! Estava eu de fato engajado em uma atividade que me realizaria?
Eram quase nove horas do sábado e meu quadro se agravou. Perdi totalmente as forças, tudo ficou
branco. Levaram-me às pressas para fazer nebulização, soro e uma porção de outros procedimentos.
Pensei comigo mesmo que não passaria daquele dia. Perto do horário do almoço, fui estabilizando,
mas permaneci as horas seguintes alternando momentos de consciência e inconsciência. Às 15 horas,
o milagre aconteceu! Vi um vulto entrar na enfermaria. Pensei que estava delirando, mas, à medida
que se aproximava, ia tomando a forma de um ser celestial, pelo menos, em minha mente. Parecia um
anjo que suavemente tocou minhas mãos frias e me disse: “Você vai ficar bom! Mas precisa mudar de
exército! Você precisa ir para o exército de Deus e deve se tornar um pastor.”
Enquanto isso, perto dali...
– Quem é esse moço, João Vicente Pereyra? – perguntou o recém-chegado pastor Natanael aos
líderes da igreja que eu frequentava.
– É um de nossos jovens que se tornou soldado. Ore por ele, pastor, pois está em estado grave no
hospital. Depois que entrou para o quartel, ficou diferente. Antes, usava cabelos desalinhados e
compridos. Agora, além de ter o cabelo exemplarmente cortado, anda com a barba e as roupas em
perfeitas condições. Seus hábitos também mudaram, tornou-se muito mais responsável e organizado.
Participa com ânimo como instrutor no clube de desbravadores Cisne Branco. Aparentemente, mudou
para melhor. Tomara que ele fique bem, mas as notícias não são as melhores. Estamos torcendo muito
para que ele se recupere, principalmente agora que tem um excelente futuro como militar.
– Vocês estão certos – disse o pastor. – É importante que a igreja apoie os jovens naquilo que é
bom, mas precisamos ensinar-lhes outros valores. Eles precisam entender que servir a Deus é mais
importante que qualquer outra coisa, e eu preciso dizer isso a esse rapaz antes que seja tarde. Vou
visitá-lo imediatamente.
Deus usa circunstâncias inesperadas para Se comunicar conosco. Se o pastor fosse me visitar em
qualquer outro momento, provavelmente eu não daria tanta importância às suas palavras. Mas,
naquela hora de desespero, ele literalmente parecia um enviado do Céu para me salvar! Exatamente
às 15:00 horas daquele sábado de inverno, o homem de Deus entrou em meu quarto. O “anjo” que eu
via era o pastor Natanael Morais, que tomou minhas mãos trêmulas e geladas e orou por mim. Quem
o conhece sabe que ele é muito espiritual. Não tenho dúvidas de que foi usado por Deus para me
trazer ânimo, esperança e mostrar-me um novo caminho a seguir!
– Você vai ficar bom – repetia ele, – mas precisa mudar de exército! Você pode ser um pastor,
assim como eu.
Com as poucas forças que me restavam consegui perguntar:
– Como?
– Deus proverá os meios e os recursos. Você pode colportar (vender livros cristãos de casa em
casa). Enquanto isso, permita-me orar por seu restabelecimento. O que os médicos não podem fazer,
Deus certamente fará!
Essa foi a primeira vez que ouvi a palavra
“colportagem”! No leito de um hospital, à
Você pode ser o homem ou mulher de beira da morte. Aquele homem de Deus não
precisou de mais palavras para me
Deus que muitos “moços” estão convencer. A partir daquele momento, sabia
precisando conhecer e ouvir. que Deus tinha um plano para mim, e isso
não incluía permanecer no exército. É bem
verdade que, por meio de meu sofrimento, o
Senhor preparou o caminho para que as
palavras do pastor fossem aceitas (e esse é um privilégio com que contam os servos de Deus). Tinha
certeza de que se fosse curado deveria mudar de exército. E fiz assim!
Depois de alguns dias, milagrosamente, fui melhorando até que recebi alta do hospital, mas não via
a hora de dar baixa do quartel! A fascinação já não era a mesma e, depois de oito meses e muito mais
de oito entrevistas com meu pastor, finalmente, deixei a segurança do exército, mesmo com
desaprovação de colegas que, a essa altura, me chamavam de louco, visto que acabava de ser
promovido a cabo, e logo seria sargento. No meu entender, porém, era a loucura mais segura de toda
a minha vida. Sabia que estava fazendo a vontade de Deus, pois seguia o conselho de Seu servo. Essa
foi uma das primeiras sementes plantadas em meu coração. Ela germinou, e hoje sou um pastor
plenamente realizado e feliz.
Muitos anos depois desse incidente, eu estava pregando em uma das maiores igrejas do Brasil.
Contava como um homem de Deus havia mudado meu futuro. Porém, o mais emocionante era ver o
pastor Natanael, que na época era professor de Teologia, e ainda o é hoje, enquanto escrevo este
livro, sentado no auditório com o sorriso de orelha a orelha. Ao terminar o culto, mais uma vez, lhe
agradeci e, depois de um longo abraço, perguntei-lhe qual era a sensação de ser um “homem de
Deus”. Ele respondeu emocionadamente: “É fazer o melhor trabalho do mundo, mudando a vida de
pessoas como você. Mas lembre-se: agora, você também tem essa responsabilidade!”
É verdade! Ainda não tinha parado para pensar na profundidade dessas palavras! Não posso me
contentar em apenas receber bênçãos de homens que Deus usa para levar avante Sua obra. Preciso
ser também um homem da máxima confiança de Deus, e uma das mais importantes tarefas desses
homens é mudar destinos. Não podia fugir a essa responsabilidade.
Tal como o pastor de minha igreja fez comigo, sempre que tenho oportunidade, procuro convidar
pessoas para que se tornem homens e mulheres de Deus. Na maioria das vezes, faço isso de maneira
inconsciente. Não poucos jovens já me procuraram para agradecer por tê-los exortado a se entregar
ao trabalho de Deus e, assim, conseguiram mudar o destino de sua vida. Quem me conhece
pessoalmente sabe que dificilmente perco uma chance de fazer isso. Porém, como esse procedimento
já se transformou em uma prática habitual no meu ministério, às vezes, depois de alguns anos, não me
recordo de muitos desses moços e moças. Hoje mesmo, enquanto terminava de escrever este capítulo
na cidade de Manaus, um jovem pastor por nome Shaw me abraçou e agradeceu por eu tê-lo
recrutado para o projeto “Sonhando Alto”, aproximadamente dez anos atrás, na cidade de
Manacapuru, AM.
– Muito obrigado pastor – disse ele. – Graças a você, comecei a colportar, fui estudar Teologia e
acabo de receber um chamado para atuar como pastor aqui nesta cidade.
Confesso que não conseguia me recordar dele, mas, depois, lembrei-me perfeitamente do dia em
que nos encontramos pela primeira vez. Ele era um jovenzinho aparentemente sem futuro que vivia no
interior do estado do Amazonas. Ao participar do curso de treinamento, sentiu-se motivado a servir a
Deus e, mesmo com alguma dificuldade, aceitou o desafio e saiu para colportar. Conseguiu não só a
bolsa, como também foi o aluno que mais distribuiu literatura naquelas férias. Logo após, foi estudar
na Venezuela, e hoje é meu “colega de trabalho”.
O pior sermão de toda a vida
Outro fato interessante ocorreu quatro anos após minha formatura em Teologia. Morava em
Curitiba, atuava como diretor de Publicações e estava escalado para pregar na igreja central da
cidade de Ponta Grossa no sábado seguinte. Depois de dar uma boa revisada no sermão, fui dormir.
Infelizmente, a ceia do pôr do sol, que havia saboreado poucas horas antes, não me fez bem. Comecei
a sonhar com a profecia apocalíptica do livrinho que era doce na boca e amargo no estômago. Não
adiantou tomar chá de boldo, sal de fruta, essência de Olina (um remédio natural superamargo), nada
me fazia melhorar da indigestão.
Sofri bastante, consegui dormir um pouco, mas logo o despertador tocou. Teria que dirigir
aproximadamente cento e vinte quilômetros até a igreja. Mesmo não me sentindo bem, tomei um
banho, coloquei o terno e a gravata e fui para o carro. No caminho, quase desmaiei e voltei para
casa. Estava indignado comigo mesmo! Precisava pregar, a igreja estava esperando. Tive então a
ideia de convidar um amigo para me acompanhar, o irmão Enoque de Oliveira, grande homem de
Deus. Como trabalhávamos juntos no Ministério de Publicações, ele prontamente aceitou o convite, e
fomos a Ponta Grossa.
Deveria tê-lo deixado dirigir, pois, passados alguns quilômetros, senti novamente tontura, derrapei
o carro e fomos parar na outra pista, na contramão. Graças ao cuidado de Deus, não vinha nenhum
automóvel no sentido oposto. Logo que nos recobramos do susto, passei a direção para o Enoque,
que nos levou em segurança até a igreja. No entanto, as dores abdominais eram fortes, e eu não
conseguia me concentrar no assunto que deveria pregar. Cheguei a pensar em desistir. Uma das irmãs
percebeu minha dificuldade e preparou um chá especial que me fez melhorar um pouco, o suficiente
para subir ao púlpito. Mesmo com sacrifício, entrei à plataforma, não sem antes orar pedindo ao
Senhor que me acompanhasse e ajudasse.
Mesmo sendo sobre o assunto do qual mais gosto de falar (colportagem) foi o pior sermão que já
preguei em toda a minha vida. Meu rosto pálido não conseguia transmitir o ânimo necessário para
conquistar o auditório. Sabia o que precisava fazer, mas, simplesmente, não conseguia. O estômago
ardia e eu mal conseguia ficar em pé. Com muito custo, terminei a mensagem. Estava com vergonha
de ir até a porta para despedir os ouvintes, mas, a fim de não quebrar o protocolo, fui. É
impressionante ver como algumas pessoas fazem tudo para nos agradar. Eu sabia que, em termos de
oratória, havia sido uma tragédia, no entanto, várias pessoas me abraçavam e diziam: “Obrigado pela
mensagem”. Eu simplesmente não podia acreditar!
Depois que a maioria deles foi embora, um jovem se aproximou e disse:
– Pastor, nunca tinha ouvido alguém falar sobre esse tema, o senhor realmente me convenceu. Eu
quero colportar. Quando posso começar?
Em um primeiro momento, pensei que ele estava brincando ou havia falado aquilo apenas para me
agradar. No entanto, deixei um cartão com ele e lhe disse que entrasse em contato comigo na
segunda-feira seguinte. Não imaginei que ele fosse fazê-lo.
Para minha surpresa, segunda-feira cedinho, aquele jovem telefonou. Seu nome era Élcio e
trabalhava como gerente em um banco. Ganhava um bom salário, mas estava realmente convencido
de que deveria mudar de atividade, dedicando a vida a partir daquele momento para fazer a obra de
Deus. Pensei comigo mesmo:
“Como consegui convencê-lo, tendo pregado o pior sermão de minha vida?”
Acontece que, mesmo com nossas debilidades, Deus nos usa para fazer milagres. Tenho certeza de
que o Senhor fez aquele jovem ouvir exatamente o que precisava e o impressionou a confiar em
minhas palavras.
E a história não terminou por aí. O Élcio, que era solteiro, começou a colportar. Não demorou
muito, encontrou uma moça que também colportava, a Roselaine. Mais tarde, começaram a namorar e
se casaram. Ele foi estudar Teologia e hoje é pastor. Não faz muito tempo, nos encontramos e, depois
de um grande abraço, agradeceu-me por eu não ter faltado àquele compromisso.
É lógico que foi Deus que me proporcionou forças para ir, falar e também colocou as palavras
certas em meus lábios, porém, é muito bom saber que, tal como o pastor Natanael foi o homem que
Deus enviou para mudar meu destino, naquela visita que me fez lá na enfermaria, eu também havia
sido o homem de Deus para mudar o destino da vida do Élcio.
Quantos destinos você pode ajudar a mudar? Lembre-se: você pode ser o homem ou mulher de
Deus que muitos “moços” estão precisando conhecer e ouvir. Aceite esse desafio, e verá como é bom
receber no futuro um abraço de alguém que foi transformado graças à sua ajuda!
Quando dedicamos a vida para ajudar outros a encontrar o caminho da felicidade, que é servir a
Deus, somos grandemente abençoados, e não há maior recompensa que receber cartas como esta:

Era um sábado do mês de junho, eu estava em minha igreja (Igreja do Atalaia) quando
percebi que não conhecia o pregador daquela manhã. Era o pastor João Vicente que falava a
respeito de se ter um sonho e como conseguir realizá-lo.
Eu sempre tive o sonho de estudar em uma faculdade, mas, por trabalhar durante o dia e
estudar no período da noite, tornava as minhas chances de passar no vestibular quase remotas.
Além do mais, o que ganhava em meu emprego não era suficiente para pagar uma faculdade.
No entanto, o sermão que o pastor pregou naquela manhã me despertou novamente para esse
sonho. No fim do culto, ele deixou um telefone para contato. Não liguei logo de imediato, pois
não consegui acreditar no que ouvira. Na semana seguinte, um novo pastor foi pregar em
minha igreja. Era o pastor Enoque Félix (o pastor Enoque era diretor de Publicações da
Associação Baixo Amazonas, PA)
E, novamente, ele falou sobre o projeto Sonhando Alto. Eu não poderia mais deixar de
reconhecer o chamado de Deus para minha vida. Era a chance de ver o sonho se realizar.
Então, liguei e procurei saber tudo sobre o projeto, assisti a uma palestra e fui a uma reunião.
Acabei descobrindo que, por meio do projeto, poderia custear todos os meus estudos em uma
instituição adventista.
Tomei a decisão, pedi demissão do meu emprego e fui colportar. Larguei tudo e fui para a
campanha em Macapá. Passei ali momentos maravilhosos, aprendi a colportar e a fazer uma
boa apresentação. Durante cinco meses, convivi com outros jovens que alimentavam o mesmo
sonho que eu.
E foi por meio da colportagem, que conheci lugares em que nunca imaginaria estar, como,
por exemplo, a cidade do Oiapoque, que fica no extremo norte do Brasil, bem na divisa com a
Guiana Francesa. Cheguei até mesmo a assistir a um sermão em francês quando atravessei
para a Guiana. Foi uma experiência incrível, da qual nunca vou me esquecer.
Prestei o vestibular e passei no curso de Pedagogia na Faculdade Adventista da Bahia.
Através do Projeto Sonhando Alto, consegui uma bolsa que equivale a um semestre na
faculdade.
Hoje, estou muito feliz, pois posso dizer que realizei meu sonho, porque estou fazendo o que
sempre almejei. Estou estudando em uma instituição de qualidade. E posso garantir que vale a
pena sonhar e deixar tudo para tentar alcançar esse sonho.
A Deus seja toda honra e glória!’
Márcia Silva 1

Em resumo
• Atualmente, existem muitas pessoas “pelos caminhos e valados” que, sem saber o que
fazer, precisam de homens que lhes indiquem a direção a seguir.
• Eu e você podemos ser instrumentos do Senhor para dar um novo sentido à vida dessas
pessoas.
• Consciente ou inconscientemente, a influência de um homem de Deus é tão poderosa que
pode marcar uma vida para sempre, mudando completamente seu destino.

1
Nome fictício.
5 O Desafio de
Formar Discípulos

Tendo-se levantado muito cedo o moço do homem de Deus e saído, eis que tropas,
cavalos e carros haviam cercado a cidade; então, o seu moço lhe disse: Ai! Meu
senhor! Que faremos? (2 Reis 6:15).

E liseu conhecia de antemão tudo a respeito das investidas de Ben-Hadade II sobre Israel e, com
certeza, sabia que, naquela manhã, os exércitos inimigos o cercariam para tentar prendê-lo. Naquela
época, ninguém se preocupava com direitos humanos. Prisioneiros de guerra eram por vezes
torturados e mortos a sangue frio. Normalmente, apenas por levar notícias negativas aos governantes,
mensageiros eram sentenciados à morte sem justificativa. A vida tinha pouco valor e, com muita
facilidade, inocentes eram assassinados. Mesmo sabendo de tudo isso, Eliseu deixou seu servo sair
de casa!
Por que expor um jovenzinho a uma situação tão dramática como aquela? A experiência poderia
traumatizá-lo para o resto da vida, se é que teria vida depois disso! Mas o homem de Deus precisava
formar discípulos e não apenas alunos. Aquele garoto necessitava passar por uma experiência
pessoal com Deus. Enquanto isso não acontecesse, continuaria sendo apenas “office boy de profeta”.
Tal como seu predecessor, Eliseu priorizava a formação. Outros aprendizes viviam com ele e
assistiam diariamente às suas lições. Já havia tentado ensinar a Geazi, mas ele não dera valor às suas
orientações. Agora era a vez do moço. O profeta precisava formar alguém para assumir seu lugar no
futuro, e esses aprendizes tinham que ser lapidados para que recebessem de Deus o mesmo grau de
confiança que ele. Precisavam passar por dificuldades e saber como resolvê-las. Desse relato,
podemos extrair várias lições, das quais quero destacar duas:
Primeira – Se você já se encontra no nível de formar discípulos, não construa um escudo de
proteção o tempo todo para defendê-los dos problemas da vida. É necessário deixá-los enfrentar
situações difíceis, mesmo sabendo que tomarão decisões equivocadas. Eles precisam aprender a
nadar! Superproteger alguém é limitar seu crescimento. Ao mesmo tempo, é preciso estar por perto
quando erram e chamá-los à responsabilidade. Às vezes, vejo pais que acham que seus filhos são os
mais perfeitos pimpolhos da face da Terra. Se surgem problemas na escola, o culpado é sempre o
professor. Pobres pais! Não sabem que dessa maneira estão formando criaturinhas soberbas,
orgulhosas e desobedientes.
Segunda – Se você ainda está no processo de desenvolvimento, e acredito que a maioria de nós
está, procure entender que as dificuldades que enfrentamos servem para aprimorar nosso caráter. Em
algum momento, precisamos entender quem realmente somos ou o que queremos nos tornar. Às vezes,
é necessária uma crise para que nossos olhos sejam abertos. Elas fazem parte do currículo de um
verdadeiro discípulo. A esperança é que, tal como na história daquele moço, Deus envie alguém no
momento certo para nos ajudar.
Existem dois aspectos muito importantes na educação, que são a informação e a formação. A
maioria fica com o primeiro, achando que é suficiente. Porém, a formação deve ser a base do
aprendizado. Mais do que encher a cabeça dos alunos com conteúdo pedagógico, o mestre precisa
ajudar a formar o caráter deles, mostrando as diretrizes morais e espirituais que devem seguir. Para
essa tarefa, não podemos poupar esforços.
Note que, antes de resolver o problema com o exército inimigo, o homem de Deus orou por um
milagre em favor do menino. Até aquele momento, seu ajudante era apenas coadjuvante na história,
mas, de repente, passou a ocupar o centro das atenções. Quando lemos essa passagem bíblica, parece
que todo o relato gira em torno daquele servo. Antes de providenciar o livramento tão almejado,
Eliseu se preocupou com o moço. O garoto precisava participar do milagre!
Que lição extraordinária! Em meio ao estresse e à adrenalina, Eliseu deu atenção ao seu servo.
Isso, além de mostrar que os grandes problemas se solucionam quando valorizamos as pessoas,
também indica que o profeta estava disposto a ensinar e a formar.

O processo às vezes é doloroso, mas rende frutos


Lembro-me como se fosse hoje. Estava iniciando meu ministério e fui transferido para a
Associação Sul-Paranaense de nossa igreja. Com meu novo líder, fiz a primeira viagem para Pato
Branco, a fim de visitar um de nossos colportores que enfrentava algumas dificuldades. A expectativa
era grande, pois trabalhar na região sul do país era um privilégio de poucos líderes de Publicações, e
eu estava muito feliz por ter essa oportunidade. Viajar mais de mil quilômetros ao lado daquele
homem experiente seguramente me ajudaria a aprender muito. Pensei que faríamos uma viagem sem
preocupações e tranquila. A euforia era grande, pelo menos para mim. Mas o que, em minha
imaginação, seria um “parque de diversões” logo se transformou em uma “sala de torturas”.
Comecei a despejar ideias, uma atrás da outra. Foram cerca de cem quilômetros de monólogo.
Queria impressionar o chefe com a quantidade de fatos novos que fervilhavam na mente de um jovem
motivado. Falava sem parar sobre tudo o que achava que deveria mudar. Até que meu chefe pediu a
palavra e começou a destruir cada uma de minhas “ótimas” ideias, e tive que ouvi-lo nos seguintes
900 quilômetros. Lembro-me muito pouco de tudo o que ele falou, mas algumas palavras jamais irei
esquecer:
– Antes de querer mudar as coisas, você precisa aprender!
Fiquei um tanto revoltado com aquele líder! Ora essa! Eu havia estudado por quatro anos e já
trabalhava havia mais de um ano como diretor de Publicações, e ele achava que eu ainda tinha que
aprender? Por favor! Esse homem está “louco”!

Mas suas palavras refletiam a mais pura


Superproteger alguém é limitar seu verdade! Eu precisava aprender muito, e o
processo era doloroso. Cada vez que me
crescimento. encontrava com ele, eu “apanhava”. O pior
para mim é que ele sempre tinha razão. Por
haver sido criado praticamente sem um pai,
em minha mente o adotei como um tipo de tutor e procurei disciplinar-me para entender que ele
queria o meu melhor. Mas não foi fácil. Durante os três anos seguintes, pensei várias vezes em
desistir. “Para que sofrer tanto?”, pensava.
Como eu, havia mais quatro colegas que trabalhavam em outras Associações, todos jovens e
liderados pelo mesmo diretor. A gente se encontrava a cada três meses. Era um alívio saber que
todos “apanhavam”. É certo que uns, mais, outros, menos. Eu merecia disparadamente mais que os
outros. No entanto, quando contávamos os porquês das “surras”, ao final, sempre tínhamos que
admitir que nosso chefe estava certo!
Certa vez, depois de uma longa repreensão, ele me disse:
– João, não se preocupe enquanto eu estou dando sugestões. Comece a se preocupar quando eu
parar de falar.
Em minha inexperiência, não podia visualizar o que ele quase sempre antevia. Achava que, do meu
jeito, as coisas sairiam melhores, mais rápidas e com mais criatividade. Esquecia-me, porém, que
ele já havia passado pelo mesmo caminho e sabia perfeitamente que direção eu deveria tomar, o que
na maioria das vezes era o oposto do que eu queria fazer. Sua frase preferida depois da correção era
“Eu falei...” e, sempre que a ouvia, sabia que ao fim deveria dar a mão à palmatória!
Esses dias, ouvi um belo sermão e retirei um pensamento que ilustra bem o que estou tentando dizer
agora: “A ira de Deus é algo bom. Mostra que Ele nos leva a sério, que Ele Se preocupa com o que
fazemos. O pior que pode acontecer a um ser humano é ser ignorado.” 1
Passados muitos anos, reconheço que foi ótimo trabalhar com o pastor David (esse é o seu nome).
Ele não nos culpava por maus resultados, desde que tivéssemos feito a coisa certa. Não poucas
vezes, nos defendeu como um leão a seus filhotes em perigo. Nunca nos tratou como subordinados e,
sim, como parceiros. Trabalhava sempre nos bastidores, fazendo-nos aparecer mais do que ele.
Jogava-nos na fogueira, mas vivia por perto quando apertávamos o botão do alarme de incêndio.
Hoje, está aposentado, mas os discípulos foram formados. Um deles é o vice-presidente de nossa
igreja para toda a América do Sul; outro é líder de publicações na mesma instituição, outro,
presidente de uma grande editora na Espanha, outro, diretor de uma Universidade, outro ainda é
presidente de um campo, e o que lhe deu mais trabalho é o autor deste livro que, curiosamente, ocupa
nesse momento o mesmo cargo que ele ocupou como gerente de Vendas e Marketing na Casa
Publicadora Brasileira.
Para o bem de nossa formação, Deus, por intermédio de Seus servos, fará o milagre de que
precisamos, e não o que necessariamente queremos! Essa é uma verdade que precisamos aprender.

Orou para perder o emprego


Durante o almoço de sábado, após um abençoado culto em um curso de colportagem na cidade de
Guarapari, ES, duas senhoras se aproximaram da mesa em que eu estava assentado, tendo ao meu
lado o pastor Marco Aurélio de Pinho. Uma delas apontou para meu colega e disse para a outra:
– Aquele foi o pastor que orou para que meu esposo perdesse o emprego!
Fiquei preocupado com o que poderia acontecer a partir daquele momento, porém, o desfecho da
história foi surpreendente.
Tudo começou quando ao final do ano 2000, Genival, um fiel membro da Igreja Adventista de
Mauá, SP, procurou o pastor Marco Aurélio, então diretor de Publicações da Associação Paulistana,
para pedir conselhos acerca do que deveria fazer. Genival tinha o sonho de estudar Teologia; porém,
não via como realizá-lo, uma vez que era casado, tinha dois filhos, trabalhava como técnico de
segurança em uma boa empresa e recebia um ótimo salário, mas não o suficiente para custear seus
estudos.
O pastor Aurélio percebeu que à sua frente estava um futuro discípulo, mas que precisava ser
“formado”. Assim, não teve dúvidas e disse enfaticamente:
– Vou orar por você!
– Obrigado, pastor! – responde o jovem.
– Mas vou orar para que você perca o emprego!
– Que é isso, pastor! Você está ficando louco?
Quando alguém procura um pastor para pedir conselhos ou orações, jamais imagina que o “ungido
do Senhor” responda dessa forma. Porém, o diretor de Publicações ainda complementou.
– Seu emprego está atrapalhando seus sonhos. Pode ter certeza de que eu vou orar, sim! Deus tem
um plano especial para sua vida, acredite! Já estou vendo o que poderá acontecer com você no
futuro!
– Pedir esmolas – completou de forma inaudível o jovem, que saiu daquela entrevista aborrecido e
cabisbaixo.
“Esse pastor não sabe o que está falando!”, pensava, enquanto um turbilhão de sentimentos
fervilhava em sua mente.
Mesmo tentando esquecer aquela conversa, a “oração do pastor” permaneceu em seus pensamentos,
incomodando-o durante os dois meses seguintes.
“E se aquela prece for realmente respondida? Como é que vou sustentar minha família? Sempre
pensei que pastores oravam para a gente progredir, mas acho que dessa vez fui amaldiçoado!”
Ao chegar à sua casa, compartilhou o ocorrido com a esposa, que, por sua vez, também condenou a
atitude do pastor.
Exatamente dois meses se passaram, e o Genival voltou à Associação. Estava nervoso e queria
“acertar as contas” com o líder do Departamento de Publicações que havia orado para que ele
perdesse o emprego. Infelizmente, as orações haviam sido atendidas, e nosso irmão havia sido
demitido da empresa em que trabalhava.
O mais curioso é que o pastor Marco Aurélio nem sequer pediu desculpas ao Genival. Ao
contrário, se alegrou pois antevia o que era melhor para aquele rapaz!
– Que bom, Genival, vejo que agora você está livre para realizar seus sonhos! Vamos conversar –
acrescentou.
Depois de algum tempo de entrevista, além de calmo, Genival já estava com todo o material de que
precisava para começar a colportar.
– Espere, amigo – disse o pastor, antes que o novo discípulo saísse da sala. – Quero orar por você
de novo.
Durante a oração, pediu para que Deus abençoasse aquele moço e que, por Sua graça, lhe desse a
vitória. Dessa vez, Genival saiu radiante de alegria e também muito confiante. Afinal, ele sabia que a
oração daquele homem de Deus era poderosa!
O rapaz trabalhou muito naquelas férias e, durante o período, vendeu 1.112 coleções dos livros O
Grande Conflito e Recursos Para uma Vida Natural. Essa quantidade de livros era o equivalente a
cinco bolsas de estudos. Genival tornou-se um colportor bem-sucedido e, em pouco tempo, já era
dono de sua própria casa, que construiu nas proximidades do Unasp-EC, tornando-se aluno da
Faculdade de Teologia na cidade de Engenheiro Coelho, onde foi estudar.
A partir daquele momento, Genival colportou todas as férias, com muito sucesso. Depois de quatro
anos, formou-se, realizando assim o grande sonho, e atualmente é pastor.
Anteriormente, eu já havia ouvido o próprio pastor Marco Aurélio contar essa história, mas tive
oportunidade de vivê-la um pouquinho e constatar sua veracidade ao ver aquelas duas senhoras se
aproximarem de nossa mesa, naquele sábado.
– Pastor – dizia a esposa do Genival, – muito obrigada por sua oração para que meu marido
perdesse o emprego. Graças a ela, nossa vida mudou completamente, e hoje somos muito felizes
servindo ao Senhor como obreiros de tempo integral.
Nem mesmo o pastor Aurélio poderia imaginar o resultado daquela oração. Porém, uma coisa ele
sabia: nem sempre devemos orar pelo que as pessoas querem, mas sim por aquilo que elas realmente
precisam. Homens de Deus têm esse discernimento.
O moço de Eliseu achava que precisava de um livramento espetacular, quem sabe, raios caindo do
céu, fulminando o exército inimigo, transformando-o em cinzas, ou um tornado poderia passar
justamente à sua frente, colocando aqueles homens para correr!
Mas não era exatamente isso o que ele realmente necessitava. Tudo o que o jovem precisava era se
tornar um discípulo de verdade. Quando Eliseu orou para que os olhos do rapaz fossem abertos, é
possível que ele não tenha entendido nada. “Como pode o ‘chefe’ achar que eu não estou vendo?
Ele é quem está cego! Posso ver perfeitamente essa cavalaria e homens raivosos montados vindo
em nossa direção. Estamos fritos! Acho que meu senhor esqueceu de colocar os óculos.”
– Ei, alguém aí do século 21 pode enviar umas lentes para nosso profeta a fim de que ele veja o
perigo que estamos correndo?
– Meu senhor, você não compreende! Posso ver tudo o que está acontecendo. Quem precisa abrir os
olhos é você! Por favor, pense em algo rapidamente. O que faremos?
A Bíblia não relata o que Eliseu pensou nesse momento, mas uma boa resposta a essa pergunta
seria: “Hoje vamos formar um discípulo”!

Em resumo
• Não basta mostrar o caminho, provocando uma mudança de direção. Uma das prioridades
do ministério de homens de Deus é a formação de discípulos.
• Apenas resolver problemas não é suficiente. Para o mestre, é importante que os discípulos
aprendam e participem do processo.
• Nem sempre a solução apresentada é a que os discípulos querem, porém, sempre será a
que eles realmente necessitam. Se prestarmos a atenção à história de Eliseu e seu servo,
veremos que o moço queria livramento; porém, Eliseu orou para que seus olhos fossem
abertos!
• O processo de formação de discípulos é demorado, exige paciência e, por vezes, leva anos
para ser concluído. No entanto, seus frutos perdurarão por toda a vida.

1
Ángel Manuel Rodríguez (Concílio Ministerial em Foz do Iguaçu, maio de 2011).
6 O Desafio da
Visão de Futuro

Orou Eliseu e disse: Senhor, peço-Te que lhe abras os olhos para que veja. O Senhor
abriu os olhos do moço, e ele viu que o monte estava cheio de cavalos e carros de
fogo, em redor de Eliseu (2 Reis 6:17).

ocê pode ver o futuro? – pergunta Eliseu a seu servo.


–V – Ver não, meu senhor, mas acho que posso sentir! Inclusive, já tem gente apontando
espadas e flechas para nós, e vai doer muito quando eles começarem a usar essas armas!
– Você não entendeu. Estou perguntando se você sabe o que vai acontecer dentro de alguns minutos!
– Ah, isso é claro que eu sei, respeitado mestre! Se começarmos a correr agora, pode ser que
consigamos fugir, mas, se ficarmos conversando aqui sobre o que estou vendo, acho que em pouco
tempo não veremos mais nada. Só não entendo como você está tão tranquilo, senhor!
Esse diálogo que acabo de imaginar representa os sentimentos de duas pessoas que viveram a
mesma situação, porém, com visões completamente diferentes.
Como Eliseu conseguia manter a calma, estando à mercê de um bando de assassinos? Por que esse
homem estava tão preocupado com o que o moço via ou deixava de ver naquele momento? Afinal de
contas, aparentemente, esse não era o maior problema. O mais intrigante é que ambos passavam por
uma situação de extremo risco de vida. Porém, um dizia: “Ai meu senhor que faremos?” e o outro
respondia: “Não temas”.
Quer saber a resposta para reações tão diferentes? Iremos estudar algumas razões no capítulo 10,
mas uma delas, veremos agora:
Eliseu via o que o garoto não podia ver! Eliseu tinha “visão de futuro”, e isso mudava totalmente
sua maneira de encarar os fatos.
O que você realmente vê quando abre os olhos? Responder francamente a essa pergunta é
fundamental para tomar as decisões mais importantes de sua vida. Não estou falando de apenas usar
o globo ocular para distinguir formas e cores ao redor, isso é fácil, e qualquer um faz. Estou falando
a respeito daquele olhar mais profundo, que apenas a fé pode produzir. A grande diferença entre
Eliseu e seu servo era a “visão de futuro”. Eliseu possuía esse dom, por isso se mantinha calmo e
motivado. Sua visão de futuro o levou a exclamar: “mais são os que estão conosco do que os que
estão com eles” (2Rs 6:16).
Eliseu tinha esse dom, mas, e daí? Essa informação não nos ajuda em nada! Apenas comprova que
um homem da confiança de Deus possui talentos especiais que o tornam diferente de outros mortais.
Por esse motivo, a partir de agora, vamos ver algumas dicas de como obter esse tipo de visão, pois,
mais importante que falar sobre ela é consegui-la.
O processo para desenvolver essa capacidade varia de pessoa para pessoa. Uma vez que não
estamos comprometidos em escrever a biografia de Eliseu, nem tampouco fazer um estudo exegético
do texto escolhido para nortear este livro, vamos nos despedir temporariamente de Eliseu e, viajando
pelas páginas sagradas da Bíblia, descobrir como o Pai da Fé fazia para olhar o que todos viam e ver
no mesmo lugar o que ninguém mais enxergava! Escolhi esse personagem porque há uma diversidade
de relatos a respeito dele em que é possível visualizar claramente os segredos para obter a
verdadeira visão de futuro. Além de Abraão, tomaremos alguns outros “coadjuvantes” como sua nora
Rebeca, seu sobrinho Ló e também algumas histórias da atualidade para ilustrar os princípios que
serão expostos.

Disse o Senhor a Abrão, depois que Ló se separou dele: Ergue os olhos e olha desde onde
estás para o Norte, para o Sul, para o Oriente e para o Ocidente; porque toda essa terra que
vês, Eu ta darei, a ti e à tua descendência, para sempre. Farei a tua descendência como o pó
da terra; de maneira que, se alguém puder contar o pó da terra, então se contará também a tua
descendência. Levanta-te, percorre essa terra no seu comprimento e na sua largura; porque eu
ta darei (Gn 13:14-17).

Nesse ponto da história, Abraão já havia enfrentado a morte do pai, a fome em Canaã, o risco de
perder a esposa no Egito e, agora, se deparava com um grave desentendimento entre seus empregados
e os de Ló, provocando assim uma rixa na família. No processo da divisão territorial, Abraão ficou
com a pior parte. Nosso herói poderia pensar que Deus fora injusto com ele, deixando-o no lugar
menos promissor. Além disso, havia recebido a promessa de que seria pai de uma grande nação, mas
não tinha sequer um filho, até aquele momento.
Toda essa situação poderia levá-lo a pensar que fora abandonado, mas a visão de futuro que Deus
lhe havia concedido o mantinha motivado. No texto em que se encontra esta história, vemos o
processo que leva o ser humano a ter “visão de futuro”. No caso de Abraão, isso ocorreu em cinco
etapas:

1a etapa: Abraão levantou os olhos


Quem tem visão de futuro sempre olha para cima.
– Erga os olhos, Abraão! – disse o Senhor.
Somente erguendo os olhos é possível enxergar as bênçãos de Deus. Homens e mulheres de Deus,
que servem ao Senhor, devem ser pessoas otimistas. Seu olhar deve estar sempre mirando as estrelas.
Mesmo em situações difíceis, não devem desanimar.
No entanto, paradoxalmente, existem pessoas que só estão felizes quando estão infelizes! Passam a
vida esperando que uma tragédia aconteça. Quando tudo vai bem, não conseguem desfrutar e, muito
menos, comemorar o êxito, pois têm medo de que algo de mal ocorra. Quando, finalmente, o
problema aparece, torna-se assunto obrigatório em todas as conversas com amigos e familiares.
Deleitam-se na desgraça!
Uma frase do professor Daniel Godri
define perfeitamente o pessimista:
A visão imediata nos mostra o “O pessimista é um otimista convicto de
caminho. A visão de futuro nos mostra que seu fracasso dará certo.”

o destino. Ao contrário dos pessimistas, Deus


precisa de homens e mulheres que olhem
para cima. Deus sempre está no alto. Moisés
passou seu último e mais importante dia no
alto de uma montanha. A Nova Jerusalém descerá sobre o Monte Sião. Jesus morreu no alto de um
monte e, depois, subiu ao Céu, para onde nos levará. Davi afirma que seu socorro só pode vir de um
lugar: “Elevo os olhos para os montes” (Sl 121:1).
Além do mais, somente um otimista poderia ser uma bênção para todas as famílias da Terra. “E
abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas
todas as famílias da terra” (Gn 12:3).

2a etapa: Abraão olhou


Os olhos do patriarca já estavam cansados e não podiam enxergar muito longe; todavia, o olhar
limitado de Abraão não deveria ser o limite para visualizar as bênçãos que o Senhor estava disposto
a lhe conceder! Seu limite deveria ser sua fé, não sua visão! Não bastava apenas erguer os olhos; era
necessário enxergar o que o Senhor queria que Abraão visse: o futuro de uma nação próspera e
abençoada. Seus filhos e netos seriam precursores de um novo reino.
Abraão nos dá o exemplo de como deveria ser o diálogo entre Criador e criatura:
– O que você está vendo Abraão? – pergunta o Senhor.
– O que queres que eu veja? – responde Abraão.
Hoje, mesmo no mundo secular, pessoas que pensam com otimismo enxergando oportunidades
onde a maioria vê dificuldades acabam tendo êxito na vida, pois vencem os desafios com dinamismo
e visão de futuro. Veja, por exemplo, o caso a seguir:
Em Orlando, na Flórida, quando o castelo da Cinderela foi inaugurado, o seu idealizador, Walt
Disney, já havia falecido. Naquele dia, um repórter se aproximou do seu irmão, Roy Disney, e
afirmou:
– Que pena, Roy, agora que o castelo está pronto, o seu irmão não viu.
– Você está enganado – disse ele, – o meu irmão foi o primeiro a ver este castelo, antes de mim, de
você, de todos nós!

Visão desfocada
Quase ao mesmo tempo que seu tio, Ló teve a chance de erguer os olhos; porém… “Levantou Ló os
seus olhos, e viu toda a campina do Jordão, que era toda bem regada, antes do Senhor ter destruído
Sodoma e Gomorra, e era como o jardim do Senhor, como a terra do Egito, quando se entra em Zoar”
(Gn 19:20).
Note que Ló também levantou os olhos, porém, viu apenas o que queria ver! O que era mais fácil: o
prazer imediato, mesmo com o risco de sacrificar os princípios morais e religiosos de sua família.
Tal como o sobrinho de Abraão, os planos daqueles que não têm visão de futuro terminam em vidas
vazias, sem sentido e cheias de projetos insignificantes, pois são contrários aos planos do Senhor.
“Então, Ló escolheu para si toda a campina do Jordão e partiu para o Oriente; separaram-se um do
outro. Habitou Abrão na terra de Canaã; e Ló, nas cidades da campina e ia armando as suas tendas
até Sodoma. Ora, os homens de Sodoma eram maus e grandes pecadores contra o Senhor” (Gn 13:11-
13).
Mais tarde, teve uma segunda chance e, apesar de receber a ordem de fugir para o monte quando
Sodoma foi destruída (Gn 19:17, 18), refugiou-se em Zoar (cidade pequena).
Desde que esses fatos ocorreram, já se passaram quase cinco mil anos, mas uma pergunta
permanece: o que os nossos olhos estão contemplando? Toda a Terra, como Abraão? Ou a cidade
pequena (Zoar), como Ló?
A visão imediata nos mostra o caminho. A visão de futuro nos mostra o destino. Por falta de visão
de futuro, muitos permanecem no caminho pensando que já chegaram ao destino!

3a etapa: Abraão confiou


Deus estava fazendo uma promessa aparentemente “absurda”, mas Abraão precisava confiar; afinal,
era tudo o que tinha de concreto a que se apegar naquele momento. Os olhos da fé confiam em todas
as promessas de Deus, não importando quão “exageradas” elas sejam.
Fui convidado para participar de um encontro de diretores de Publicações na cidade de Rogaska
Slatina, na Eslovênia. A viagem foi muito agradável, pois, antes de chegar ao local, pude conhecer
um pouco de minhas origens na Espanha. Depois de passar pela Croácia, finalmente, cheguei ao local
das reuniões. Estava super animado, pois teria a oportunidade de receber informações de como seria
o programa de Publicações da igreja em países como França, Itália, Inglaterra, Portugal, Espanha,
Romênia, Iugoslávia, Israel, Egito e tantos outros. Porém, minha euforia durou apenas até ouvir o
primeiro relatório. Infelizmente, vários servidores daqueles países estavam completamente
desanimados, pois não viam meios de pregar o evangelho em lugares tão secularizados como
aqueles.
Com a devida autorização dos líderes da Associação Geral, em minha palestra, abordei um assunto
totalmente diferente do que haviam solicitado. Como o material que usaria estava pronto, procurei
adaptar o que iria apresentar e, posteriormente, traduzir ao inglês, tudo isso em poucas horas.
Naquele momento, não me preocupava a beleza da apresentação, mas sim o seu conteúdo.
Orei a Deus para que me desse as palavras adequadas, de modo que pudesse realmente ajudar
nossos irmãos a compreender que o mesmo Deus que opera milagres na América do Sul também o
faz em qualquer lugar do mundo.
Lembrei-me então de minha experiência no Chile, por quase cinco anos, e decidi compartilhar com
eles, pois era uma situação muito semelhante. Quando cheguei ao Chile, encontrei somente sete
colportores evangelistas (quatro de tempo completo e três estudantes). Havia uma tendência muito
forte de encerrar o Departamento de Publicações, pois não se via sentido em continuar com um
programa que não apresentava resultados positivos. Além do mais, o Chile é um país muito parecido
com alguns países europeus, em termos de secularização. Tudo naquele tempo conspirava para o fim
do Ministério de Publicações e, aparentemente, eu estava ali apenas para oficiar a cerimônia
fúnebre.
Porém, o milagre aconteceu; depois de muito trabalho e cinco anos de persistência, chegamos a ter
mais de cem colportores de tempo integral, duzentos e cinquenta colportores estudantes e cento e
cinquenta jovens participando regularmente do projeto Sonhando Alto. 1 Para coordenar esses
grupos, a União Chilena contava com cinco diretores de Publicações, dois diretores associados e
alguns assistentes.
Como isso ocorreu? Pode ter certeza de que não foi por acaso, e esse foi o tema de minha palestra
no Concílio!
Comecei falando a respeito da confiança e dividi esse tópico em três partes:
Não podemos confiar em tudo o que os outros dizem. A aparente lógica diz que a maioria dos
projetos missionários não dará certo. É por isso que é considerada lógica, pois não conta com
milagres para a consumação das metas. Portanto, se acreditarmos nos argumentos daqueles que usam
a lógica para dizer que as coisas não funcionarão, também estamos fadados ao fracasso. Outro
problema é que a maioria das pessoas que dizem que não é possível, ou já tentaram com métodos
equivocados e não tiveram sucesso, ou sequer tentaram e, obviamente, fracassaram. Lembre-se de
que um fracassado não suporta ver o sucesso dos outros. Por esse motivo, usará todos os métodos
possíveis para destruir sonhos. O homem de Deus não pensa e nem age assim.
Não podemos confiar em tudo o que vemos. Hoje, as pessoas estão preocupadas com tantas
coisas que não sobra tempo para a comunhão. Todos correm em busca do sucesso profissional e
emocional. Correm de um lado para outro em busca de prazeres. Gastam dinheiro que não possuem
adquirindo roupas, imóveis, automóveis, bens e, posteriormente, passam a vida inteira trabalhando
para conseguir pagar as dívidas. Além disso, vivemos em uma sociedade secular em que qualquer
manifestação de moralidade é confundida com conservadorismo. Hoje, é preciso aceitar que
casamento entre pessoas do mesmo sexo é algo perfeitamente normal, e “anormal” é quem condena
essa prática! As propagandas de TV não dizem que a bebida alcoolizada faz mal à saúde, destrói
famílias e escraviza o ser humano. A única preocupação que existe é: “se beber não dirija”. Para uma
jovem solteira, a virgindade passou a ser motivo de chacota entre colegas. “Pratique o sexo à
vontade antes do casamento, mas use preservativos”, é a mensagem que vemos por aí. Realmente,
parece que, de fato, não há como pregar o evangelho, uma vez que ninguém está preocupado com esse
assunto. Lamentavelmente, se confiarmos em tudo o que nossos olhos estão vendo, não teremos
disposição para fazer o trabalho do Senhor.
Devemos confiar em todas as promessas de Deus. Podemos confiar no Senhor por vários
motivos. O primeiro deles é porque Ele é Deus. Sendo onipotente, onisciente e onipresente, Ele tem
todo o poder, está em todo lugar e conhece todas as coisas; portanto, é o único que pode falar em
valores absolutos. Note que Deus não economiza esse tipo de expressões. Em apenas dois
versículos, usa esse argumento por três vezes.

Porque toda essa terra que vês, eu ta darei, a ti e à tua descendência, para sempre. Farei a
tua descendência como o pó da terra; [aqui o Senhor está dizendo que a descendência de
Abraão seria infinita]; de maneira que, se alguém puder contar o pó da terra, então se contará
também a tua descendência (Gn 13:15, 16).

Aparentemente o Senhor estava exagerando um pouco. Para nós, humanos, é bom evitar usar
algumas expressões como: sempre, nunca mais, tudo, etc. Mas Deus não precisa Se preocupar com
isso. Ele pode dizer “toda a Terra” e “para sempre” com a mesma tranquilidade com que um
namorado faz juras de amor à sua escolhida, com a única diferença de que o Senhor sempre diz a
verdade.
Além disso, por meio de Sua onisciência, podia ver o futuro e dizer para Abraão: “Farei a tua
descendência como o pó da terra”. Abraão ainda não tinha filho, e o Senhor, numa aparente ironia, o
abençoava dizendo que sua descendência seria incontável.
Quando fazemos a vontade de Deus, Ele abençoa nossos planos mesmo antes de que os cumpramos.
Você já parou para pensar sobre o que significa isso? Deus pode ver seus sonhos se concretizarem
muito antes de você imaginar! Pense em uma situação real: você é solteiro e deseja se casar. Pode ter
certeza de que Ele já está preparando a pessoa certa, e você a conhecerá no momento certo. Talvez
não seja a princesa ou o príncipe que coloriram suas expectativas de infância, adolescência ou dos
seus sonhos, porém, sem dúvida, será a melhor pessoa para estar ao seu lado para o restante da vida.
Vejamos outra situação: você precisa comprar sua casa própria. O Senhor já sabe qual é a melhor
opção e o melhor plano. Ele proverá os recursos necessários e sabe, inclusive, a cor que mais
combina com seu jeito! Pensar assim é simplesmente o máximo! Como é bom ter um Deus com tantas
bênçãos preparadas para nós! É bem verdade que temos que fazer nossa parte. Não adianta só pensar
“preciso de uma casa” e não trabalhar para isso, achando que o Senhor fará tudo de graça! Ter atitude
é necessário.

4a etapa: Abraão trabalhou


Outra característica das pessoas que possuem “visão de futuro” é que elas trabalham. No texto a
seguir, vemos o Senhor dando uma ordem a Seu servo que envolveria muito trabalho: “Levanta-te,
percorre essa terra, no seu comprimento e na sua largura; porque Eu ta darei” (Gn.13:17).
A terra que Abraão pudesse percorrer seria sua! Normalmente, nós limitamos as bênçãos de Deus.
Muitas vezes, apenas um período de férias a mais colportando, uma apresentação a mais, um dia a
mais, enfim, um esforço extra em qualquer atividade em nossa vida, pode definir nosso futuro.
Nenhuma bênção de Deus vem desacompanhada de trabalho, de muito esforço e de muita dedicação.
Como exemplo de recompensa pelo esforço, vou usar outro relato bíblico que ocorreu anos mais
tarde, quando Isaque, filho de Abraão estava em idade de se casar. O patriarca enviou o servo
Eliezer para buscar uma esposa para seu filho. Uma vez que todos os parentes de Abraão eram
tementes a Deus, seria muito difícil escolher uma donzela para se tornar nora de seu senhor, pois,
aparentemente, todas eram iguais. No entanto, uma característica destacou Rebeca de todas as outras:
o trabalho. Leia a história:

Era Abraão já idoso, bem avançado em anos; e o Senhor em tudo o havia abençoado. Disse
Abraão ao seu mais antigo servo da casa, que governava tudo o que possuía: Põe a mão por
baixo da minha coxa, para que eu te faça jurar pelo Senhor, Deus do céu e da terra, que não
tomarás esposa para meu filho das filhas dos cananeus, entre os quais habito; mas irás à minha
parentela e daí tomarás esposa para Isaque, meu filho. Disse-lhe o servo: Talvez não queira a
mulher seguir-me para esta terra; nesse caso, levarei teu filho à terra donde saíste?
Respondeu-lhe Abraão: Cautela! Não faças voltar para lá meu filho. O Senhor, Deus do céu,
que me tirou da casa de meu pai e de minha terra natal, e que me falou, e jurou, dizendo: À tua
descendência darei esta terra, ele enviará o seu anjo, que te há de preceder, e tomarás de lá
esposa para meu filho. Caso a mulher não queira seguir-te, ficarás desobrigado do teu
juramento; entretanto, não levarás para lá meu filho. Com isso, pôs o servo a mão por baixo
da coxa de Abraão, seu senhor, e jurou fazer segundo o resolvido.
Tomou o servo dez dos camelos do seu senhor e, levando consigo de todos os bens dele,
levantou-se e partiu, rumo da Mesopotâmia, para a cidade de Naor. Fora da cidade, fez
ajoelhar os camelos junto a um poço de água, à tarde, hora em que as moças saem a tirar água.
E disse consigo: Ó Senhor, Deus de meu senhor Abraão, rogo-te que me acudas hoje e uses de
bondade para com o meu senhor Abraão! Eis que estou ao pé da fonte de água, e as filhas dos
homens desta cidade saem para tirar água; dá-me, pois, que a moça a quem eu disser: inclina o
cântaro para que eu beba; e ela me responder: Bebe, e darei ainda de beber aos teus camelos,
seja a que designaste para o Teu servo Isaque; e nisso verei que usaste de bondade para com o
meu senhor.
Considerava ele ainda, quando saiu Rebeca, filha de Betuel, filho de Milca, mulher de Naor,
irmão de Abraão, trazendo um cântaro ao ombro. A moça era mui formosa de aparência,
virgem, a quem nenhum homem havia possuído; ela desceu à fonte, encheu o seu cântaro e
subiu. Então, o servo saiu-lhe ao encontro e disse: Dá-me de beber um pouco da água do teu
cântaro. Ela respondeu: Bebe, meu senhor. E, prontamente, baixando o cântaro para a mão, lhe
deu de beber. Acabando ela de dar a beber, disse: Tirarei água também para os teus camelos,
até que todos bebam. E, apressando-se em despejar o cântaro no bebedouro, correu outra vez
ao poço para tirar mais água; tirou-a e deu-a a todos os camelos. O homem a observava, em
silêncio, atentamente, para saber se teria o Senhor levado a bom termo a sua jornada ou não
(Gn 24:1-21).

Entre tantas lições que podemos extrair dessa história, quero destacar apenas uma: o trabalho. Ao
ver o homem e os camelos com sede, Rebeca lhes ofereceu água, uma vez que Eliezer não tinha como
tirá-la do poço. “Grande coisa!”, alguns poderão dizer! Porém, deixe-me lembrá-lo de alguns
detalhes.
• Eliezer viajou com dez camelos carregados. “Tomou o servo dez dos camelos do seu senhor e,
levando consigo de todos os bens dele” (Gn 24:10).
• A viagem foi longa. Obviamente, os camelos estavam com sede.
• Cada camelo é capaz de tomar cinquenta litros de água.
• Em um cântaro, cabem aproximadamente 37 litros de água.
Rebeca precisou de uns quinhentos litros de água para atender os camelos, e isso significa que tirou
cerca de quatorze cântaros pesados e cheios para cumprir a tarefa.
Quem não gostaria de se casar com uma jovem assim? Cristã, bonita, virgem, simpática e que
gostasse de trabalhar! Lembre-se: depois das bênçãos de Deus, o segundo maior ingrediente para o
sucesso é o trabalho! O desgaste físico, a entrega, a vontade e a garra podem fazer toda a diferença
entre o vitorioso e o fracassado.

5a etapa: Abraão viu a cruz


Invariavelmente, quem tem a verdadeira visão de futuro enxerga a cruz em todos os lugares. “Disse
o Senhor a Abrão, depois que Ló se separou dele: Ergue os olhos e olha desde onde estás para o
Norte, para o Sul, para o Oriente e para o Ocidente (Gn 13:14).
Ei João! Onde você está vendo uma cruz nesse versículo? Acho que você está exagerando!
Pode ser, respondo. Mas
No rte convido-o a se colocar no
lugar de Abraão. Imagine-
se em pé em um local em
que seja possível ver o
horizonte em qualquer
direção. Isso mostra que,
ao olhar para o Norte,
Sul, Oriente e Ocidente,
Ocidente Abraão O riente necessariamente Abraão
teria que virtualmente
fazer uma cruz e
permanecer no centro
dela.
Naquele momento, estar
no centro da cruz
significava a
Sul possibilidade de ver em
todas as direções as
bênçãos que o Senhor havia preparado para ele. Nem sempre tomar a cruz significa sacrifício; na
maioria das vezes é privilégio.
A cruz ultrapassa os limites do tempo e do espaço. Para Abraão, a cruz ocorreria muitos séculos à
frente, mas era a garantia de que sua nação seria eterna. Para nós, ela ocorreu muitos séculos atrás,
mas contemplá-la garante nosso futuro glorioso ao lado de Jesus e do próprio Abraão. A verdadeira
visão de futuro ajusta seu foco na cruz, ela é o único passado para o qual devemos olhar para termos
visão de futuro.

Voltando a Eliseu
Agora que descobrimos e estudamos como homens e mulheres conseguem alcançar a visão de
futuro, voltemos ao profeta Eliseu. Evidências textuais comprovam que ele possuía as mesmas
características de Abraão e também dos outros personagens utilizados nesse capítulo em que vimos,
ainda que parcialmente, o processo para desenvolver esse tipo de visão.
Desde que recebeu o chamado para trabalhar para o Senhor, seu ministério foi pautado por
entusiasmo, disposição de ver com os olhos do Criador, confiança, muito trabalho e consagração
total a Deus, colocando a cruz como o centro de sua vida.
Convido-o a fazer um pequeno exercício neste momento: releia nosso texto-base (2 Reis 6:8-17) e
coloque nos espaços entre parênteses o(s) número(s) correspondente(s) às características
encontradas na vida do profeta Eliseu, apresentadas neste capítulo e descritas abaixo:
1. Levantar os olhos (entusiasmo)
2. Olhar (ver aquilo que o Senhor nos mostra)
3. Confiar
4. Trabalhar
5. Colocar a cruz e as atividades espirituais como prioridade 2

O rei da Síria fez guerra a Israel e, em conselho com os seus oficiais, disse: Em tal e tal
lugar, estará o meu acampamento. Mas o homem de Deus mandou dizer ao rei de Israel ( )
Guarda-te de passares por tal lugar, porque os sírios estão descendo para ali ( ). O rei de
Israel enviou tropas ao lugar de que o homem de Deus lhe falara e de que o tinha avisado, e,
assim, se salvou, não uma nem duas vezes. Então, tendo-se turbado com esse incidente, o
coração do rei da Síria, chamou ele os seus servos e lhes disse: Não me fareis saber quem
dos nossos é pelo rei de Israel? Respondeu um dos seus servos: Ninguém, ó rei, meu senhor;
mas o profeta Eliseu, que está em Israel, faz saber ao rei de Israel as palavras que falas na tua
câmara de dormir ( ). Ele disse: Ide e vede onde ele está, para que eu mande prendê-lo. Foi-
lhe dito: Eis que está em Dotã. Então, enviou para lá cavalos, carros e fortes tropas; chegaram
de noite e cercaram a cidade. Tendo-se levantado muito cedo o moço do homem de Deus e
saído, eis que tropas, cavalos e carros haviam cercado a cidade; então, o seu moço lhe disse:
Ai! Meu senhor!
Que faremos? Ele respondeu: Não temas ( ), porque mais são os que estão conosco do que
os que estão com eles ( ). Orou Eliseu ( ) e disse: Senhor, peço-te que lhe abras os olhos para
que veja. O Senhor abriu os olhos do moço, e ele viu que o monte estava cheio de cavalos e
carros de fogo, em redor de Eliseu.

Em resumo
• Eliseu podia ver o que ninguém mais enxergava e, como resultado, todos o respeitavam,
mesmo seus inimigos gratuitos.
• Visão de futuro é uma das características mais ambicionadas pelos profissionais de hoje
em qualquer área do mercado, e está presente nos homens de Deus.
• A verdadeira “visão de futuro” é baseada na fé. No entanto, essa premissa é ignorada pela
maioria das pessoas em nossos dias.
• Quem tem visão de futuro jamais desanima, pois conhece de antemão tudo o que pode
acontecer ao colocar a vida nas mãos de Deus. Além disso, dispõe-se a trabalhar muito a fim
de realizar seus sonhos e confia plenamente no poder do Senhor para vencer os desafios.
• O mais importante, porém, é que a verdadeira visão de futuro está estabelecida sobre um
firme fundamento do passado, a cruz, que, ao tornar-se nossa prioridade, traz a certeza de um
futuro glorioso!
1
O Projeto Sonhando Alto é um programa missionário que visa oferecer condições financeiras para que jovens possam estudar em
alguma universidade. O programa já levou centenas de estudantes a completar a carreira universitária. Para participar, é necessário
passar por uma campanha de evangelismo com publicações por cerca de seis meses. Por meio da venda de livros cristãos, é
possível conseguir uma bolsa de estudos e pregar a Palavra de Deus ao mesmo tempo. Todos os participantes recebem treinamento
adequado, bem como a infraestrutura e motivação por parte dos líderes. Para mais informações acesse o site
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2
Respostas sugestivas: 4, 2, 2, 1, 3, 5, 1
7 O Desafio de
Trabalhar em Equipe

Ele respondeu: Não temas, porque mais são os que estão conosco do que os que
estão com eles (2 Reis 6:16).

E liseu tinha um grande desafio à frente. Aliás, à frente, atrás e dos lados! Estava cercado por
um exército de bárbaros que vinha em sua direção a fim de capturá-lo e entregá-lo ao rei Ben-
Hadade II, que pretendia matá-lo. Ao olhar para sua “equipe” viu um jovenzinho com as pernas
trêmulas dizendo: “Ai, meu senhor! Que faremos”? Até parece que o menino poderia fazer alguma
coisa! Essa situação me faz lembrar a história da formiga que atravessava uma ponte nas costas do
elefante. Ao findar a travessia ela exclamou:
– Companheiro, você viu como nós balançamos aquela ponte?
Mesmo fazendo parte da equipe do profeta, a verdade é que o moço pouco poderia contribuir.
Aparentemente, Eliseu estava sozinho. Mas, além de um garoto apavorado, o servo de Deus contava
com uma “equipe” superpoderosa! Uma equipe sob medida para superar o desafio em que se
encontrava. Em resposta ao pedido de socorro de seu aprendiz, o mestre disse calmamente: “Não
temas, porque mais são os que estão conosco do que os que estão com eles” (2Rs 6:16).
Logo, uma imensa legião de anjos começou a aparecer no alto das montanhas, cercando o exército
inimigo. Posso imaginar quão apavorados ficaram os “homens valentes” naquela hora. Também
imagino quão valente se tornou o jovem apavorado! Sua visão mudou radicalmente e, agora, podia
ver o que seu senhor via. Milhares de anjos, com aproximadamente três metros de altura cada um,
mais poderosos que qualquer super-homem, reluzindo um brilho tão forte que eram capazes de
aniquilar os malfeitores simplesmente se aproximando deles. Era “o time dos sonhos” provocando
um pesadelo nas linhas inimigas!
Mas não pense que é sempre assim. Às vezes, é mais fácil encontrar um ajudante medroso do que
uma equipe de anjos para resolver certos tipos de problemas. Eliseu contou com as duas coisas.
Conosco pode ser diferente, mas o importante é a lição de trabalho em equipe: tudo fica mais fácil
quando existe união de forças. Os fracos se tornam fortes, os medrosos se transformam em valentes, e
as formigas “balançam as pontes”.
Pessoalmente, sempre gostei de trabalhar em equipe. A primeira de que participei foi aos doze
anos. Ao enfrentar um dos maiores desafios da minha vida até o momento. Tudo começou quando,
certo dia, confidenciei a meu pai que admirava o “trabalho” de um pastor e talvez quisesse ser um no
futuro. Para mim, era apenas uma possibilidade remota, mas, para meu pai, a realização de um sonho.
Arrependi-me profundamente de lhe ter dito isso, pois, após essa conversa, sempre que me
apresentava a seus amigos ia logo dizendo:
– Este é meu filho que será o pastor da família!
Hoje, vejo que aquela situação incômoda não tinha motivos para ser assim tão assustadora, mas,
para um adolescente, era o que se poderia dizer “pagar um mico”! Sentia-me envergonhado, e o pior
é que não podia esconder, pois minhas orelhas ficavam vermelhas como um tomate maduro. Certa
feita, após o culto, seu Vicente, como era conhecido meu pai, tomou-me pelo braço e, juntos, fomos
procurar o primeiro ancião. Ao encontrá-lo, meu pai disse o mesmo que dizia a todos, e logo minhas
orelhas ficaram enrubescidas. O irmão Abner, já falecido, deu-me os parabéns e disse:
– Precisamos conversar.
Esse “precisamos conversar” não significou muito tempo, pois, no sábado seguinte, quando nos
encontramos novamente, ele repetiu:
– Podemos conversar agora?
– Sim – respondi.
– Seu pai me disse que você quer ser pastor quando crescer. Como sou o responsável pela escala
de pregadores para o próximo mês, gostaria de vê-lo pregando. Posso contar com você?
Do jeito que estava, permaneci! Não conseguia mexer os braços nem as pernas. Queria sair
correndo, mas não deu. “Travei” de tal maneira que nem podia tremer! Depois de algum tempo,
voltei à consciência. Respirei fundo, pensei, repensei e concluí que poderia aceitar, pois meu pai
também era ancião, havia feito muitos sermões e, certamente, pregaria em meu lugar. Assim, eu não
teria que dizer “não” ao primeiro ancião e me livraria daquela situação difícil.
Voltei para casa caminhando doze quadras, como sempre fazia a cada sábado. No caminho, tentava
desenvolver uma argumentação convincente para levar meu pai a aceitar o convite no meu lugar. Ao
chegar, nos assentamos à mesa, tomei fôlego e disparei:
– Pai, tenho algo para lhe falar, e é sério.
– O que foi filho?
– Fui convidado para pregar, mas...
Antes que eu terminasse de falar, meu pai esboçou um sorriso de orelha a orelha. Quando ficava
muito alegre, ninguém entendia bem o que falava pois, sendo uruguaio, misturava o castelhano com o
português, usando uma nova língua: o “castiguês”.
– Que bueno, filho, vamos escolher logo o assunto, vou ajudá-lo!
Fiquei tão comovido com a euforia de meu “velho” que não tive coragem de dizer para ele que não
pregaria. Porém, meu grande argumento, que naturalmente me impediria de pregar ainda estava por
vir.
– Pai – disse a ele. – Ainda não tenho um terno, como é que eu vou subir ao púlpito desse jeito?
– Não se preocupe, filho. Vamos comprar um ótimo terno para você. Além disso, vou falar com
todos os nossos amigos e parentes. Garanto que a igreja estará totalmente lotada nesse dia!
Quase morri do coração! Sem muito esforço, meu pai “detonou” o melhor argumento que eu tinha.
Agora, não havia mais o que fazer, eu precisava pregar! O pior era imaginar a igreja cheia de
parentes e amigos. O que poderia acontecer? Nas semanas seguintes, cheguei a sonhar que estava
pregando e usava um capacete para que ninguém visse minhas orelhas vermelhas! O terno que meu
pai comprou era “lindo”: paletó azul claro, calça verde limão (a calça era dele, mas, como ficava um
pouco apertada, mandou reformar para ficar do meu tamanho), gravata alaranjada e botas de bico
fino marrons. Uma ótima combinação!
Procurei alguns pregadores, pois nunca dantes havia sequer feito uma oração em público, e recebi
vários conselhos. Disseram-me que um bom sermão deveria ter um conteúdo atraente, seguir um
raciocínio lógico, com introdução, meio e conclusão, sempre levando o ouvinte a tomar uma decisão.
Evidentemente, a Bíblia precisaria ser o centro da pregação. Um pastor experiente disse que era
melhor evitar “borboletear” entre muitos assuntos diferentes. O melhor seria tomar um texto, estudá-
lo exaustivamente e procurar saber o que Deus quer nos ensinar com aquele relato. Sempre que
possível, deveria usar boas e desconhecidas ilustrações. Tudo isso em um tempo não inferior a vinte
minutos, e não superior a quarenta; o ideal seriam trinta minutos. Na teoria, tudo parecia muito fácil,
mas, na prática, não foi bem assim! Um último conselho que recebi, mas não menos importante, foi
que, uma vez pronto o sermão, eu deveria repeti-lo na frente do espelho para corrigir a postura.
Depois de muito tempo de preparo, chegou o dia de pregar para mim mesmo em frente ao espelho.
Você não pode imaginar quão nervoso fiquei! Era apenas eu a ouvir, mas me envergonhava de mim
mesmo. Tremia tanto que não conseguia segurar a Bíblia, e muito menos os papéis, que caíram ao
chão misturando todas as folhas. Imagine se isso acontecesse no dia do sermão! Juntei as anotações
novamente e recomecei a falar, porém, o nervosismo era tão grande que o assunto preparado para
trinta minutos se esgotou em menos de cinco.
Percebi que não conseguiria falar em público, a menos que recebesse ajuda. Foi então que me
lembrei de um amigo, o Giovanni. Fui até a sua casa, contei-lhe o problema e pedi que, por favor, me
ajudasse. A ideia era dividir o sermão em dois, e cada um falaria quinze minutos. No início, ele não
estava muito animado; porém, quando lhe disse que talvez fosse uma forma de ganhar seu primeiro
terno, ele se motivou a participar. Logo estávamos os dois na frente do espelho. A companhia do
amigo me ajudou apenas a tremer mais, pois agora éramos dois nervosos e, juntos, não conseguimos
falar mais do que dez minutos!
Depois de alguns cálculos, percebemos que para falar trinta minutos precisaríamos de pelo menos
mais quatro amigos. Logo, éramos seis colegas em frente ao espelho, cada um mais nervoso que o
outro, mas conseguimos, no “ensaio”, falar os trinta minutos.
Chegou o grande dia. Estávamos todos na plataforma, o Giovanni, o Mauro, o Josimar, o Nelsinho,
o Juliano e eu. Parecia que vestíamos fantasias, tais eram as cores dos ternos que nossos pais
escolheram para nós. Um dos colegas usava uma gravata de crochê, com linhas brilhantes, que
refletia a luz que vinha sobre ela. Outro usava sapatos bem maiores que seus próprios pés. Outro
colega vestia calça e sapatos brancos com meias amarelas. Por um lado, era bom, assim, minhas
orelhas vermelhas estariam protegidas dos olhares das pessoas que se distraíam com os demais
integrantes da plataforma. O ancião Abner não entendeu bem o que toda aquela “equipe” estava
fazendo lá, porém, não interferiu. Até hoje, tenho grande estima e saudades do ancião de minha
igreja. Muitos anos depois, quando já estava formado em Teologia, sempre que ia de férias para o
Rio Grande do Sul, aquele amigo me telefonava e marcava uma pregação em sua igreja. Como era
bom revê-lo! Hoje, ele descansa no Senhor, mas conto os dias para reencontrá-lo no Céu e, juntos,
ouvirmos um belo sermão proferido por nosso Salvador Jesus Cristo.
Depois da liturgia de costume, chegou o grande momento. Ficou combinado que eu faria a
introdução e a conclusão. E fiz direitinho, porém, tudo junto. Emendei tudo de uma vez e, em menos
de dois minutos, havia terminado “toda” a minha participação. Meus colegas também se confundiram
e trocaram a ordem de cada um. Como estávamos todos apavorados, juntando os seis, não
conseguimos falar mais do que dez minutos. Sem contar a confusão que criamos na mente do
auditório! Acho que nossos pais se arrependeram de ter comprado os “lindos ternos” para a gente.
Pelo que me recordo, essa foi a primeira e única vez que meu pai me viu pregar. Depois de algum
tempo, veio a falecer, e hoje aguarda a ressurreição, quando, certamente, vou encontrá-lo e lhe dizer
que o sonho de ter um filho pastor se realizou, não apenas comigo, mas também com seu neto que, no
momento em que escrevo este livro, formou-se em Teologia e hoje também é pastor.
Daquele momento hilariante, em que seis rapazotes tentaram pregar, porém mal conseguiram falar,
surgiu um grupo superunido. Depois de passar por aquela experiência, sentíamos que era possível
enfrentar novos desafios. Nos divertimos muito em nosso tempo de desbravadores e jovens. Saíamos
em grupo para vender chaveiros em frente ao supermercado a fim de conseguir verbas para custear
acampamentos do clube. Jogávamos vôlei três vezes por semana, almoçávamos juntos aos domingos,
íamos a todos os cultos da igreja, viajávamos nas férias, enfim, formamos um grupo sensacional, e
essa parceria nos ajudou a enfrentar os problemas característicos da juventude. Descobrimos que em
equipe podíamos superar qualquer problema.

Algumas vantagens do trabalho em equipe


1. Cada um faz o melhor. Quando aprendemos a trabalhar em equipe, tudo fica muito mais fácil,
pois não existe apenas a soma de talentos nem mesmo a multiplicação e, sim, a potenciação! Isso
acontece porque é possível aproveitar o melhor de cada elemento e completá-los mutuamente. Dessa
forma, todos crescem mais do que o fariam separadamente. Na situação em que Eliseu se encontrava
para solucionar o problema, as tarefas foram divididas: o moço “tremia”, o profeta orava e os anjos
realizavam milagres! Cada um fez o que podia fazer melhor, e tudo foi resolvido! Para que uma
equipe funcione perfeitamente, o papel do líder é estimular cada um a fazer o que está ao alcance de
sua especialidade. Para tanto, é preciso que delegue responsabilidades e confie.
2. As estrelas desaparecem. Note que a maior parte da operação foi realizada por anjos. Eles eram
especialistas em milagres, fizeram algo realmente maravilhoso, porém, a Bíblia não cita o nome de
nenhum deles. É assim que uma equipe funciona. Ainda que sejam anjos, ninguém precisa ser
“estrela”. Essa verdade pode ser aplicada em qualquer atividade. Que o diga Lionel Messi, melhor
jogador do mundo em 2011. Quando joga por seu time, atua dentro de uma constelação e tem
resultados brilhantes. Quando joga por sua seleção (Argentina), normalmente, o tratam como estrela.
Resultado: suas participações por seu país, na maioria das vezes, deixam a desejar e não têm o
brilho esperado.
3. A resiliência se manifesta. É evidente que, quando trabalhamos em grandes projetos,
enfrentamos grandes desafios e até situações inesperadas. Porém, é justamente nesse momento que a
resiliência aparece. Essa palavra é pouco conhecida, mas seu significado faz toda a diferença para
alcançar bons resultados. Segundo o dicionário Aurélio, resiliência é a “propriedade de um corpo de
recuperar a sua forma original após sofrer choque ou deformação”. 1 Já o dicionário Michaelis
afirma que, entre outros significados, resiliência é o “trabalho necessário para deformar um corpo até
seu limite elástico”. 2 Ou seja: resiliência é o poder de recuperação de um corpo ao seu estado
original.
Quando trabalhamos em equipe, as cargas negativas que recebemos são divididas e mais facilmente
absorvidas. Como um elástico, podem ser devolvidas em forma de soluções criativas e inovadoras.
Ao trabalhar em equipe, nunca estamos desamparados, e essa sensação traz a motivação necessária
para a conclusão das tarefas, mesmo diante dos obstáculos e decepções decorrentes do processo. É
por isso que, sozinhos, podemos até andar mais rápido, mas em equipe certamente vamos mais longe!
Nada melhor do que relembrar o lema dos três mosqueteiros (que eram quatro) para encerrar este
tópico: “Um por todos e todos por um!”
4. As ideias “ganham corpo”. Não existe
uma ideia tão boa que não possa ser
Às vezes é mais fácil encontrar um melhorada. Enquanto escrevo este capítulo,
estamos às vésperas do lançamento do
ajudante medroso do que uma equipe projeto “Descubra Como Funciona”, 3 para
de anjos para resolver certos tipos de a revista Nosso Amiguinho. Tudo começou
há dois anos, quando nos reunimos com
problemas. alguns diretores de Publicações para discutir
uma ação de marketing a fim de aumentar a
circulação mensal da revista. Durante a
reunião, surgiu a ideia de presentear os novos clientes, e também os antigos que renovassem a
assinatura, com um brinde especial. “Boa ideia!”, todos exclamaram. A partir desse ponto, o desafio
caiu em minhas mãos. Achei que facilmente poderia “criar” um brinde e logo começar a campanha.
Porém, antes de seguir adiante, me reuni com a equipe de marketing da Casa Publicadora. Fiz isso
apenas para “burilar” a campanha e até melhorar um pouco. Qual foi minha surpresa quando
começaram a chover ideias! Percebemos que o projeto poderia melhorar muito, transformando-se em
uma das maiores ações publicitárias já desenvolvidas para a revista em toda a sua história. Após a
primeira reunião, houve mais de trinta outras reuniões, envolvendo diversas áreas de nossa editora e
fora dela. Inclusive, tivemos que ir à China para a confecção de miniaturas da turma do Nosso
Amiguinho a ser distribuídas com as assinaturas. No total, foram desenvolvidas mais de quarenta
peças, tais como álbum de figurinhas, comerciais para rádio e TV, outdoor, busdoor, flyers,
palestras, músicas, filmes, etc. Com certeza, essa campanha teria ficado extremamente “pobre” se eu
a tivesse levado avante sozinho. Para você ter uma ideia das proporções que o projeto tomou, basta
ver a mensagem que escrevi e apresentei no dia do lançamento, em que estavam presentes todos os
diretores de Publicações do Brasil:

Sonho, realidade, desafios, conquista


Depois de muitas reuniões administrativas, reuniões de criação, pesquisas e estudos, definição de
orçamentos, registro do regulamento, negociações com o INMETRO, desenvolvimento de peças
publicitárias, viagens, contatos com a China, fabricação dos personagens em miniatura, cartas,
invoices, e-mails, produção de vídeos e músicas, ensaios com a turma do Nosso amiguinho,
traduções, diagramação de imagens e textos, confecção de um site, avaliações, elaboração do
programa de lançamento, preparo de aulas, palestras, banners, totens, PowerPoints e muito mais,
finalmente chegamos ao grande dia apenas com um detalhe por finalizar: a expectativa de muitos
milagres que Deus certamente fará por meio da colportagem nos próximos dias!
Hoje é o lançamento de um dos maiores projetos de marketing já registrados na história da revista
Nosso Amiguinho.
“Descubra Como Funciona” era apenas sonho e, para tornar-se realidade, precisou de um
investimento diretamente proporcional à nossa expectativa de crescimento!
O que nos motiva e, ao mesmo tempo, traz segurança é saber que você e sua equipe são os
principais envolvidos nessa grandiosa campanha. Com uma equipe dessa categoria venceremos todos
os desafios à nossa frente.
Louvado seja o Senhor por mais essa conquista!

Outro exemplo de como as ideias ganham força quando trabalhamos em equipe ocorreu
recentemente, e penso que você também esteve envolvido. Tudo começou no ano 2006, em uma
reunião na sede administrativa da igreja mundial. Estávamos o pastor Lima, diretor da Casa
Publicadora Brasileira, o pastor Almir, na época diretor de Publicações, atualmente vice-presidente
da Divisão Sul-Americana, e eu sentados um ao lado do outro ouvindo uma apresentação de nosso
amigo e pastor Wilmar Hirle, vice-diretor de Publicações para a igreja mundial. Em determinado
momento, vi os olhos do pastor Almir brilharem quando os textos a seguir foram lidos durante o
programa:

Tenho uma mensagem para você. Você deve começar a publicar um pequeno jornal e mandá-
lo ao povo. Que seja pequeno a princípio; mas, lendo-o, o povo mandará meios com que
imprimi-lo, e alcançará bom êxito desde o princípio. Desde esse pequeno começo, foi-me
mostrado que se assemelhará a torrentes de luz que circundarão o mundo. 4
Membros de igreja, despertem para a importância da distribuição de nossa literatura, e
dediquem mais tempo a esse trabalho. Coloquem nos lares das pessoas periódicos, folhetos e
livros que falem do evangelho em seus diversos aspectos. Não há tempo a perder. Que muitos
se dediquem voluntária e desinteressadamente à obra da colportagem e ajudem, assim, a fazer
soar a grandemente necessária advertência. Se a igreja assumir o trabalho que lhe é apontado,
ela sairá “formosa como a Lua, brilhante como o Sol, formidável como um exército com
bandeiras” (Ct 6:10). 5

Emocionado como estava, o pastor Almir perguntou:


– Que tal produzirmos um livro com custo baixo para que nossos irmãos distribuam? Podemos
chamá-lo de “O Livro Missionário do Ano”.
Senti que estávamos diante de um grande projeto. Afinal, se o Senhor havia orientado por
intermédio dos escritos inspirados, eu não tinha motivos para duvidar. É claro que fiquei um pouco
preocupado, pois a igreja não estava acostumada a pagar para fazer trabalho missionário. Até então,
sempre distribuía folhetos que não lhe custavam nada. Mas, ainda assim, não só apoiei a ideia como
também a coloquei no coração. De volta ao Brasil, tínhamos a difícil tarefa de “convencer” nossos
colegas da área de Publicações de que esse era um grande projeto. Na realidade, não sabíamos a
proporção que ele tomaria desde então.
O livro escolhido foi Os Dez Mandamentos, de autoria de Loron Wade. Na melhor das hipóteses,
achávamos que conseguiríamos distribuir em torno de trezentos a quatrocentos mil exemplares. No
início, esse era um programa divulgado apenas pela área de Publicações. No entanto, os resultados
começaram a aparecer de forma rápida e inédita. Para se ter ideia, uma das grandes igrejas no sul do
país, a Igreja Central de Curitiba, comprou trinta mil livros! “Não pode ser verdade”, pensamos!
Mas era! O projeto começou a tomar corpo e, logo, não eram apenas os diretores de Publicações a
falar sobre o livro missionário, mas a maioria dos departamentos da igreja, com apoio irrestrito dos
administradores, que, de pronto, passaram a ser os coordenadores do programa. Resultado: mais de
dois milhões de livros foram distribuídos nessa campanha.
Depois disso, foram lançados outros livros missionários: Esperança Para Viver, Sinais de
Esperança, Tempo de Esperança e Ainda Existe Esperança. Cada um deles cresceu em quantidade.
Para incrementar a ideia, foram elaborados programas para entregar um livro em cada casa em
cidades estratégicas. A primeira experiência foi em Campinas, SP. Logo seguiu-se Brasília e tantas
outras. Até que, no ano 2011, chegamos à marca de 8,5 milhões de exemplares do livro Ainda Existe
Esperança. Esse era um recorde absoluto. Achávamos que havíamos chegado ao limite. Porém, Deus
ainda reservava mais um milagre.
Agora, já não eram apenas os pastores e líderes que falavam em livros missionários, mas a igreja
toda se levantou como uma grande equipe, focalizada no mesmo projeto. Foi decidido que, em 2012,
o livro missionário seria A Grande Esperança (uma seleção de capítulos do livro O Grande
Conflito). O objetivo inicial era duplicar a tiragem anterior, porém, o Senhor tinha um alvo muito
maior em mente! Os pedidos foram se multiplicando, caminhões e carretas saíam diariamente da
Casa Publicadora, levando toneladas de livros missionários para as diversas regiões do país. Onde
quer que chegavam, havia uma grande festa e também uma imensa carreata do bem, marcando a
chegada da esperança àquele lugar. Para culminar, em um programa organizado pela Divisão Sul-
Americana de nossa igreja, em apenas um ano, foram distribuídos aproximadamente trinta milhões de
livros. Nossos irmãos se empenharam de tal forma nessa tarefa missionária que temos um exemplar
desse livro em grande parte dos lares do Brasil. Em minha opinião, esse foi até agora, o maior
projeto evangelístico da igreja e também a maior distribuição de um título, exceto a Bíblia, em todo
mundo.
Neste momento, enquanto escrevo este parágrafo, durante o voo de Belém a Brasília, para minha
surpresa, está um distinto senhor, concentradíssimo lendo um desses livros justamente a meu lado.
Não resisti e lhe perguntei como havia conseguido o livro A Grande Esperança.
– Estava em uma balsa indo para a ilha de Marajó e uma senhora me entregou – respondeu.
– E o que você está achando da leitura? – perguntei.
– Maravilhosa.
Depois desse pequeno diálogo, me apresentei, dizendo que trabalho na editora que imprimiu o
livro. O nome dele é David e seu irmão é pastor de uma igreja evangélica.
– Como faço para adquirir este livro em quantidade? – perguntou. – Quero dar um para cada amigo
e também para os membros da igreja de meu irmão!
Percebi que nossa equipe, a essa altura já composta por mais de um milhão e quatrocentas mil
pessoas, aumentou ainda mais, pois agora pessoas de outras congregações religiosas juntam-se a nós
para levar A Grande Esperança!
Milagres? Sim!
Trabalho em equipe? Também!
Homens de Deus acreditam em milagres e trabalham em equipe!

Em resumo
• Homens de Deus sabem que não precisam fazer tudo sozinhos.
• Em grupo, temos mais força e resiliência, pois os impactos negativos que poderiam
prejudicar os projetos são absorvidos mais facilmente, uma vez que podem ser divididos entre
os componentes da equipe.
• Ao trabalhar em equipe, todos crescem e chegam mais longe.
• Aproveitando o melhor de cada um, ganhamos “potenciação” e não apenas multiplicação.
• Caso haja necessidade, o Senhor está disposto a colocar anjos em nossa equipe para fazer
aquilo em que eles são especialistas: milagres!
• Em equipe, as ideias ganham força e podem chegar a proporções gigantescas e
inimagináveis.

1
[Link]
2
[Link]
3
Para saber mais sobre a campanha, visite o site: [Link]
4
Vida e Ensinos, p 128.
5
Review and Herald, 23 de junho de 1903.
8 O Desafio de Vestir
a “Camiseta Listrada”

Então, o seu moço lhe disse... (2 Reis 6:15)

A penas um detalhe no texto faz toda a diferença: “O seu moço lhe disse”!
O que o moço poderia dizer que Eliseu já não soubesse? Afinal de contas, profeta que é profeta de
verdade sabe as coisas antes que alguém lhe conte. Por que, então, o autor faz tanta questão de
registrar que o moço falou? Aliás, é a única vez que esse moço fala em toda a Bíblia, e se lermos o
que ele disse (“ai meu senhor, que faremos?”) podemos pensar que suas palavras não tiveram
qualquer valor para resolver o problema.
Não faz muito tempo, dirigia tranquilamente ao lado de minha esposa na rodovia Castello Branco,
quando retornávamos de São Paulo para Tatuí. Já era noite, a viagem estava superagradável.
Mantinha a velocidade permitida e quase não precisei usar o freio por mais de uma hora. Não havia
muitos veículos na rodovia, e isso me tornava mais seguro do que o normal. É exatamente nessas
horas que o motorista precisa ficar atento, pois o sono começa a chegar.
De repente, percebi algo se movimentando vagarosamente à minha frente. Inicialmente, parecia uma
sombra, mas, à medida que me aproximava, notei que era um automóvel com algum tempo de uso,
com as lanternas apagadas. Só consegui perceber que estava em perigo a poucos metros de distância.
Afundei o pé no freio e, imediatamente, constatei que o manual do proprietário estava certo quando
dizia que freios com ABS e EDB realmente “param” o carro! Fiz uma manobra arriscada, porém,
consegui desviar a tempo e evitar um grave acidente. No exato momento do quase acidente, minha
esposa ficou paralisada, mas logo que terminei a manobra, ela começou a gritar! Assustei-me mais
com os gritos dela do que com o que acabara de acontecer. É claro que isso ocorreu instintivamente.
Qualquer um naquele momento poderia ter a mesma reação, mas aproveitei para descontrair um
pouco e assim trazer uma dose de humor ao ambiente carregado. Quando a minha esposa se acalmou,
fiz a pergunta que me inquietava:
– Mãe (assim eu a chamo, às vezes), não entendi! Gritar ajudaria a desviar o carro?
Sei perfeitamente que não, inclusive ao me assustar duplamente, o acidente poderia ser pior, mas
compreendo que ela precisava se expressar. Ela realmente tinha que falar, ou gritar naquele
momento!
A comunicação é uma necessidade básica da natureza humana. As pessoas precisam falar,
expressar seus sentimentos. Atualmente, no Brasil, existem mais de duzentos e quinze milhões de
celulares. Namorados passam horas e horas dependurados ao telefone fazendo declarações de amor
um ao outro. Pais, filhos e amigos conversam por meio de voz sobre IP ou mesmo pela simplicidade
de um e-mail. Nunca se investiu tanto em comunicações como agora. Hoje, ninguém mais se imagina
longe de um modem! Os sites de relacionamentos se multiplicam e ganham milhares de adeptos todos
os dias. Com isso, as empresas de telecomunicações aproveitam para rechear seus cofres
transformando palavras em bytes e transportando-as ao destino final. Porém, mais do que palavras,
as pessoas têm sentimentos e necessitam expressá-los.
Recentemente, conversei com um amigo psicólogo que confirmou aquilo que eu já desconfiava: nas
terapias, quem mais fala são os pacientes. Em alguns casos, os profissionais apenas conduzem a
conversa usando poucas palavras e em forma de perguntas. Como vivemos em um mundo em que
todos querem falar, existem poucos que estão dispostos a ouvir e, com isso, as filas nos consultórios
aumentam. Os psicólogos passaram a ser mestres nessa arte e são remunerados para isso.
Incrivelmente, as pessoas estão dispostas a pagar e pagam para ser ouvidas.
Quando o texto afirma que o moço falou, o autor quis dizer que, mesmo em meio ao grave problema
que estava enfrentando, mesmo diante da falta de tempo, e mesmo sabendo que as ideias do jovem
não contribuiriam para trazer soluções, o homem de Deus valorizou a opinião do rapaz. Eliseu
compreendia perfeitamente que seu moço precisava falar. Sabia que ouvi-lo significava valorizá-lo.
Homens de Deus valorizam seus liderados, e a forma mais simples de demonstrar isso é ouvindo o
que eles têm a dizer. É muito provável que suas ideias não contribuam muito, mas eles precisam se
expressar, e essa é a melhor forma de ganhar sua confiança.

Pessoas não são máquinas


Escrevo este capítulo do livro enquanto faço uma viagem de negócios na China. Foram 27 horas de
voo, mas valeu a pena. Sempre havia ouvido falar desse país que, sem dúvida, está em franco
desenvolvimento. Eu estava curioso para conhecer as muitas histórias sobre esse lugar místico em
nosso Planeta. O povo é pacífico, respeitoso e amigo. Aqui é possível se alimentar bem, pois, além
da diversidade de alimentos, a culinária é muito saborosa e há abundância de frutas e verduras na
região. Estou na cidade de Chenzen, um grande polo industrial, próxima a Hong Kong, onde vivem
mais de trinta milhões de pessoas. As ruas são superlindas, arborizadas, e as construções, bastante
modernas. Bons carros desfilam por aqui.

Como na China se fabrica boa parte do que se consome no resto do mundo, é natural a expectativa
de encontrar um país industrializado. Fábricas brotam por todos os lados e são cercadas por
condomínios em que vivem milhares de trabalhadores. Neste momento, estamos em contato com uma
indústria de brinquedos para tentar desenvolver algo com os personagens da revista Nosso
Amiguinho. Antes de fechar as negociações fizemos questão (meu companheiro de viagem, o pastor
Edson, tesoureiro de nossa editora, e eu) de conhecer “in loco” a empresa que produziria os
brinquedos, pois não queríamos correr riscos desnecessários, já que era a primeira vez que
negociávamos dessa forma.
Decidimos também visitar outras empresas
para abrir possibilidades de negócios
Líderes cujo principal sermão vem de futuros. Ao entrar em uma delas, notei que
havia poucas máquinas. Ali, o ser humano
suas ações em favor dos liderados era explorado ao máximo em suas
podem alcançar metas em menos capacidades. Olhando sob o ponto de vista
social, eles consideram que isso é bom,
tempo. pois, como se conseguiriam empregos para
mais de 1,5 bilhão de pessoas?
No entanto, ao andar pelos corredores da
empresa, percebi nos funcionários um olhar de tristeza e desilusão, pois não há nesse sistema muito
espaço para o desenvolvimento pessoal. Não existem planos de carreira, e poucos conseguem chegar
a cargos de chefia. Os demais fazem a mesma coisa todos os dias, a vida toda. A impressão é a de
que seus sonhos foram completamente destruídos, e que o indivíduo passou a ser apenas um número
na multidão. Talvez se sintam tão somente como as engrenagens das máquinas que eles substituem!
Ao ver uma senhora olhando para os milhares de bonecos de pelúcia que deveria costurar naquele
dia, pensei quão dura é a vida de alguém cujos sonhos foram massacrados.
Cada povo tem o direito de viver como deseja, e não é minha intenção questionar se os chineses
estão certos ou não, até porque, quando eles olham para nós, brasileiros, não conseguem entender por
que trocamos homens por máquinas enquanto tanta gente ainda vive na miséria em nosso país.
Para ilustrar melhor o que estou tentando dizer, quero ficar apenas com a imagem daquela senhora e
a pilha de bonecos. Para ela, aqueles brinquedos que fariam a alegria de milhares de crianças em
outros países simbolizavam um dia tedioso de trabalho. Um dia a mais que, como tantos outros, seria
esquecido, talvez para ela, jamais para mim!
Essa mulher vivia em um pequeno quarto dividido com outras três pessoas perto da fábrica.
Quando digo pequeno, é pequeno mesmo. As minúsculas sacadas são usadas como guarda-roupas e
“guarda tudo” ao mesmo tempo. Todos os dias, ela se levanta cedo, prepara e come algo bem
simples. Rapidamente, se dirige ao trabalho a pé, pois os carros são privilégio de poucos; além do
mais, as mulheres receberam permissão do governo para dirigir há pouquíssimo tempo.
Durante doze horas, não fala com ninguém. Não é permitido e, mesmo que fosse, talvez não tivesse
nada a dizer. Afinal, sua vida é apenas trabalho, como a de todos ali. Talvez pense em seus familiares
distantes, mas sabe que só poderá vê-los durante as festas de fim de ano. Após costurar milhares de
bonecos, repetindo sem parar o mesmo movimento, o sinal de saída toca, e ela pode voltar para o seu
“lar”. A única certeza que tem é a de que, no outro dia, encontrará uma pilha de brinquedos à sua
frente. Seu trabalho significa apenas sobrevivência e não a possibilidade de sonhar, pois, com o
insignificante salário que recebe mensalmente, é quase impossível custear mesmo as necessidades
básicas.
Vi nos olhos dessa trabalhadora a desilusão de alguém que a vida inteira foi tratada como máquina.
Ninguém lhe dizia bom-dia quando começava a trabalhar, nem boa-noite ao se despedir. Ninguém a
elogiava se estava bem vestida ou se havia mudado o penteado. Não ouvia um “muito obrigado” ou
“com licença”. E o pior de tudo: naquele ambiente, sua opinião simplesmente era ignorada; de nada
valia. Não tinha o direito de se manifestar. Servia apenas para costurar a lateral de bonecos de
pelúcia com camisetas listradas.

Vista a “camiseta listrada” e ganhe a confiança


Curiosamente, ao retornar ao Brasil, li uma notícia ocorrida justamente na China que também
envolve camisetas listradas.

Para alimentar uma zebra recém-nascida, o funcionário do zoológico de Wuhan, na China,


precisa substituir o tradicional uniforme por uma camisa listrada preta e branca, semelhante à
de uma zebra. A exigência não é da direção, mas sim do animal, que faz greve de fome quando
o chinês Chen Nong resolve mudar o traje.
Nong conta que, em um dia comum de trabalho, coincidentemente, usou uma camiseta
listrada, e o bebê zebra ficava muito animado cada vez que o via. E mais, “recusava-se a
beber o leite, a menos que o alimentador vestisse a camiseta listrada. 1

Ao ler a notícia, imediatamente pensei em como as pessoas se sentem felizes quando as


valorizamos. Às vezes, precisamos colocar a “camiseta listrada” a fim de nos tornarmos parecidos
com elas. Ao colocarmos a “camiseta listrada”, elas passam a confiar em nós e começam a falar,
emitem opinião, se desenvolvem, expressam seus sentimentos. Quando isso acontece em uma
empresa, igreja, equipe ou qualquer que seja o grupo, todos crescem juntos, e os resultados positivos
começam a aparecer.
Líderes cujo principal sermão vem de suas ações em favor dos liderados podem alcançar metas em
menos tempo, com menos atritos e, assim, proporcionar crescimento e satisfação de todos.
Jesus fez isso com maestria. Valorizou tanto nossa opinião que trocou as riquezas do Céu pela
“camiseta listrada” da humanidade, viveu humildemente entre nós e:
• Sentou-se junto ao poço para falar com a samaritana.
• Teve paciência com Nicodemos, ministrando uma aula individual nas horas avançadas da noite.
• Abaixou-Se para resgatar Maria do apedrejamento.
• Molhou os pés para transformar pescadores em discípulos.
• Tocou leprosos para aliviar-lhes o sofrimento.
• Deixou-Se tocar pela mulher que supostamente estava imunda por causa de uma hemorragia.
• E, como derradeiro ato de amor, tomou a cruz que era nossa, carregando-a em Seus próprios
ombros.
Com esse tipo de atitude, nos deu o direito de falar!
Mas, a exemplo do moço de Eliseu, o que podemos falar que Jesus já não saiba? Não importa! O
fato é que podemos nos expressar, e isso significa que temos valor para Ele! É surpreendente ver os
resultados obtidos quando líderes, verdadeiros homens de Deus, seguem o exemplo do Mestre,
valorizando as pessoas e recebendo delas a máxima confiança.
Pense nisso!

Em resumo
• As pessoas necessitam se comunicar. Precisam compartilhar suas aflições ainda que
pareçam insignificantes como o moço de Eliseu.
• Não importa quão longe chegamos na carreira profissional nem a que classe social
pertencemos. Como homens de Deus, somos convidados a humildemente vestir a “camiseta
listrada”, colocando-nos ao lado dos que sofrem, ajudando-os assim a solucionar seus
problemas.
• O homem de Deus conquista a confiança das pessoas por meio de sua dedicação a elas.
• Jesus levou esse conceito ao extremo: o criador do Universo deixou Seu trono de poder e
viveu com humildade na Terra a fim de nos escutar. Vestiu-Se com a cruz para que
ganhássemos roupas de glória.

1
[Link] [Link]
9 O Desafio de
Solucionar Problemas

Ai! Meu senhor! Que faremos? (2 Reis 6:15).

O menino não estava realmente convicto de que seu senhor pudesse de fato fazer alguma coisa
naquela hora. Ele queria mesmo era se livrar do problema o mais rápido possível. Seu desespero
demonstrava que estava sob forte angústia, e tudo o que lhe ocorria no momento era gritar: “Ai, meu
senhor! Que faremos?” O problema era maior que sua capacidade para solucioná-lo, e não lhe
restava alternativa a não ser pedir por socorro para alguém de alta confiança.
Isso acontece ainda hoje. Ao entrar em apuros, as pessoas gritam a todos os pulmões: “Ai meu
senhor! Que faremos?” Há poucos dias, tive uma experiência tragicômica em minha congregação. Na
realidade, mais trágica do que cômica! Estávamos participando de um musical em que nosso coral
cantaria seis músicas. A programação estava para começar, e percebi um grande alvoroço na entrada
da igreja. Permaneci sentado onde estava, pois não queria criar mais tumulto. Contudo, a confusão foi
aumentando, e logo um diácono veio me chamar. Como era o único pastor presente, acharam que eu
poderia resolver a situação, uma vez que estava ficando fora de controle.
O problema era uma senhora que havia entrado na igreja e, aos gritos, pedia por socorro. Seus
cabelos desgrenhados, roupas rasgadas e o mau cheiro que exalava faziam com que todos se
afastassem dela. Mas continuava insistentemente a gritar por socorro, pedindo libertação! Sua voz
oscilava entre agudos e graves. Claramente, percebíamos o poder das trevas dominando aquele
corpo deteriorado pelo pecado. Ao vê-la, lembrei-me imediatamente do quadro que Jesus viu ao
chegar a Gadara e Se encontrar com o homem que habitava junto a uma legião de demônios (Lc 8:27-
30).
Alguém tinha que fazer alguma coisa e, ao ouvir a pergunta: “Ai, meu pastor! Que faremos?”,
concluí: “Pelo jeito, tenho que ser eu!” Orei ao Senhor pedindo forças e me dirigi àquela senhora.
Por alguns instantes, que para mim pareceram horas, apenas olhei dentro de seus olhos. Pude ver uma
pessoa amargurada, cheia de dor e sofrimento, que por anos viveu à margem da sociedade. Digamos
que seu nome era Eduarda. 1 Devia ter em torno de trinta anos, mas aparentava bem mais. Os dentes
estavam quase todos estragados, malcuidados e ela exalava um hálito terrível. Era quase impossível
aproximar-me dela e não ser atingido por tamanha falta de higiene. Durante aqueles poucos instantes,
pude refletir até onde o ser humano chega quando se afasta de Deus. Depois de algum tempo, ela
começou a se acalmar. Com muita tranquilidade, que não me é peculiar, disse a ela que deveria
assentar-se e assistir à programação. Por incrível que pareça, ela entrou e se assentou. Como o
programa estava por começar, e eu teria que cantar com o coral, pedi para que os diáconos
cuidassem dela.
Após vinte minutos, o alvoroço recomeçou. De novo, vieram me chamar. Dessa vez, a situação era
pior. Todos podíamos ver que aquela senhora estava completamente dominada pelas forças do mal.
Um dos diáconos mais fortes sugeriu que a levássemos a uma das salas existentes na igreja para orar
por ela. Como meu companheiro era forte, aceitei a ideia, pois ele garantiu que estaria comigo. Mais
uma vez, me aproximei dessa senhora que, curiosamente, obedeceu prontamente ao pedido. Ninguém
precisou segurá-la para que fosse à pequena sala. Até parecia conhecer o caminho!
E é aí que vem a parte cômica da tragédia. Ela entrou primeiro e, em seguida, eu entrei; porém, meu
colega “corajoso” ficou do lado de fora da sala e fechou a porta. Só faltou chaveá-la. O momento não
permitia que eu perdesse o controle com a atitude dele. Não foi fácil permanecer sozinho frente a
frente por vários minutos com o inimigo, mas o Senhor Se manifestou poderosamente naquele lugar.
Logo, pude ver lágrimas rolando sobre uma face suja e deformada por anos de completo desleixo.
Lentamente, ela voltou ao normal. Oramos, e senti que, mais uma vez, Jesus operou o milagre da
libertação, e ela pôde voltar aliviada para casa. Quando girei a maçaneta para sairmos, meu amigo
ainda estava ali, fielmente “vigiando” a porta e muito apreensivo com a situação! Ao final, tentando
se justificar, ele me disse:
– Confiei que o senhor saberia “se virar” sozinho aí dentro!
“Ai, meu senhor! Que faremos?” Essa é a pergunta que permanece inquietando não apenas alguns
irmãos de minha igreja, mas a humanidade de modo geral. Normalmente, essa expressão é proferida
quando já não há mais nenhuma esperança para resolver determinada situação e, quase
instintivamente, nos últimos segundos, apelamos para Deus. Definitivamente, não gostaria de ver um
piloto de avião reagindo dessa forma, principalmente se eu estivesse viajando sob o seu comando!
De certa forma, hoje todos estamos dentro de uma “aeronave” em queda livre, que é o planeta
Terra. Nosso GPS não consegue mais visualizar um destino certo, pois o caminho está repleto de
perigos que apontam para o fim iminente. Os mapas que usávamos anteriormente já estão
desatualizados, e nenhuma rota é confiável. Nada, nem ninguém, humanamente, pode salvar a espécie
humana da destruição. A pergunta: “Ai, meu senhor! Que faremos?” ecoa por todos os cantos.
Desesperadamente, os povos da Terra buscam soluções para seus problemas. Homens e mulheres de
todas as nações se reúnem em cúpulas de negociações, gastam milhões de dólares e, finalmente,
admitem não saber o que fazer, pois os tratados de paz são feitos, mas as guerras continuam. Alguns
levantam a cabeça em direção ao Céu e, já sem esperanças, repassam a mesma pergunta para um
Deus que na maioria das vezes é desconhecido para eles. Seus cursos de especialização,
treinamentos, MBAs, mestrados e doutorados de nada servem. Em meio à crise, todos querem e
precisam de soluções imediatas e milagrosas.
É nesse momento que a figura do homem
ou da mulher de Deus pode e deve aparecer.
O Senhor tem sido glorificado por
As pessoas usadas pelo Espírito Santo intermédio da atuação de Seus servos no
gozam da máxima confiança de Deus. decorrer da história, trazendo soluções
inimagináveis para os problemas humanos.
São pessoas que, usadas pelo Espírito Santo,
gozam da máxima confiança de Deus e dos
homens.
No incidente ocorrido em Dotã, a companhia do homem de Deus junto ao desolado servo fez toda a
diferença. O problema não apenas foi resolvido, mas também ficou claro que o profeta tinha todas as
qualificações necessárias para enfrentar aquele tipo de situação e vencê-la.
Em todos os tempos, Deus tem homens e mulheres em lugares estratégicos para solucionar
problemas que, aparentemente, não têm solução. Tenho certeza de que você e eu também podemos ser
usados pelo Senhor para ser uma bênção aos que nos rodeiam. Para que isso aconteça, é necessário
desenvolver algumas características que nos tornem aptos e preparados para enfrentar momentos de
crise. Uma boa sugestão é aprender com os heróis do passado: como fizeram e atuaram nas
dificuldades pelas quais passaram.
Tomemos apenas um exemplo dos tantos personagens bíblicos que poderíamos usar para ilustrar
esse conceito: José. Aprecio muito a forma de esse moço lidar com as adversidades que o cercaram.
Não apenas solucionou seus próprios problemas, mas também encontrou saída para a crise
econômica mundial daqueles dias. Esse jovem, que foi vendido como escravo para os egípcios,
finalmente se tornou o homem mais influente do Planeta, a ponto de o Faraó humildemente lhe
perguntar: “E agora, José, o que faremos?”
Não pense, porém, que foi por acaso. A Bíblia revela como José teve sabedoria para lidar com
situações difíceis. Veja, a seguir, alguns textos que mostram a capacidade desse jovem para
solucionar problemas, e que estratégias foram usadas para isso.

Preparo
“Potifar tudo o que tinha confiou às mãos de José, de maneira que, tendo-o por mordomo...” (Gn
39:6).
O texto afirma que José foi colocado como mordomo na casa de Potifar.
“Isso eu já sabia!”, você pode dizer.
OK, mas deixe-me tentar contar-lhe a história por outro ângulo. Essa citação mostra mais do que
apenas um jovem recebendo uma ótima oportunidade de trabalho. É possível perceber
subliminarmente que José era a pessoa mais preparada para assumir tais funções. Mais preparado
inclusive que seu senhor. Mas como podemos chegar a essa conclusão? Pequenos detalhes, às vezes
imperceptíveis no texto bíblico, e certa lógica podem confirmar o que estou dizendo. Um deles é o
cargo e a nacionalidade de Potifar. Alguns versículos antes, o autor enfatiza que o senhor de José era
egípcio: “José foi levado ao Egito, e Potifar, oficial de Faraó, comandante da guarda, egípcio,
comprou-o dos ismaelitas que o tinham levado para lá” (Gn 39:1).
O que isso tem a ver com o preparo de José? Estamos falando de José ou de Potifar? E qual a
importância de esse homem ser egípcio? E, de mais a mais, você pode concluir: Se a história se
passa no Egito, era muito natural que Potifar fosse egípcio!
Não necessariamente. Penso que as Sagradas Escrituras fazem questão de salientar que esse homem
era egípcio porque, naquela época, o Egito não era governado por seu próprio povo e, sim, pelos
hicsos, que dominaram a região por cerca de duzentos anos. O faraó daquele tempo também pertencia
à dinastia do povo invasor. Isso significa que o fato de manter Potifar, um egípcio, como assessor nos
altos escalões, durante o governo dos hicsos, atestava que Potifar deveria ser um ótimo
administrador, plenamente preparado e indispensável para o crescimento da nação. No entanto,
mesmo com todas as virtudes que o acompanhavam, o comandante da guarda do faraó se rendeu ao
talento de seu servo, que, aparentemente, estava mais preparado que ele mesmo. As palavras de
Gênesis 39:6 afirmam que, em sua própria casa, Potifar “de nada sabia, além do pão com que se
alimentava”. O patrão entregou tudo o que tinha nas mãos de José, e o Senhor o fez prosperar. O
escravo era mais inteligente que seu senhor e administrava todos os seus bens. Sem dúvida, o
preparo qualifica e facilita o trabalho dos homens de Deus. Infelizmente, Potifar acreditou em uma
mentira da esposa e, injustamente, enviou José para a prisão, perdendo assim um servo prodígio.
Outra prova contundente sobre o preparo de José é que, mais tarde, o próprio faraó percebeu que
esse jovem era a pessoa mais inteligente do Egito (Gn 41:39-44) e que, além de não merecer estar na
prisão, poderia ajudar todo o país. Portanto, o empossou como primeiro ministro, tornando-o assim
muito mais importante que seu primeiro senhor, Potifar, que o havia encarcerado. Note que José
poderia ter clamado por vingança contra o homem que o fizera sofrer como prisioneiro, mas, ao
contrário, nem sequer se lembrou dele. Além do mais, José foi colocado nessa função para
solucionar problemas e não para criá-los! Seus objetivos eram mais nobres, mais elevados, e o
Senhor o recompensou.

Confiança
Você já ouviu a expressão: “Não amarre cachorro com linguiça” ou “Não deixe o lobo cuidar das
ovelhas”? Parece que essa máxima popular é relativamente nova, pois o administrador da prisão do
Egito nunca ouviu falar nisso! Veja a loucura que ele fez! “E nenhum cuidado tinha o carcereiro de
todas as coisas que estavam nas mãos de José, porquanto o Senhor era com ele” (Gn 39:23).
José era um detento como outro qualquer, mas conquistou tão plenamente a confiança do
carcereiro-chefe a ponto de receber dele as chaves da prisão. O encarcerado poderia inclusive ter
fugido, se quisesse. Afinal, estava ali por conta de uma injusta acusação. Mas, ao invés disso, foi
digno da confiança que o carcereiro havia depositado nele e se tornou praticamente o “dono da
prisão”. Dá para imaginar o que significa isso? Homens de Deus precisam ser dignos de confiança, a
fim de que as pessoas creiam plenamente em sua capacidade para ajudá-las na resolução de
problemas.
Se algum dia você visitar Santiago, a capital do Chile, não se assuste ao despertar à noite estando
tudo balançando ao seu redor. São os tremores de terra, comuns na região. Quando moramos lá,
lembro-me de que, nos primeiros dias, minha família e eu sentimos um tremor de escala 6,2. Foi
muito forte, e nos assustou bastante. Morávamos no quarto pavimento de um prédio e, certamente, se
ele desabasse, não teríamos tempo de sair. Como não sabíamos o que fazer, nos abrigamos embaixo
de uma viga próxima ao banheiro. Chegamos quase ao pânico, mas confiamos que o Senhor cuidaria
de nós.
Assim que o tremor passou, saímos para a rua e encontramos muita gente preocupada com o que
havia ocorrido. No outro dia, decidi comprar um “kit de sobrevivência” composto de lanterna,
aspirinas, esparadrapo, garrafas de água, bolachas e álcool gel. Durante várias noites, dormimos com
aquele “kit” ao lado da cama. Depois desse incidente, decidi conhecer um pouco mais sobre a
estrutura das construções no Chile e descobri que poderia dormir tranquilo. Para que uma edificação
comece a ser levantada, os projetos são rigorosamente avaliados e, caso não sejam aprovados nas
rígidas normas da construção civil, são imediatamente embargados.
Uma diferença marcante entre as casas e edifícios chilenos e brasileiros é que, lá, as construtoras
investem em algo importantíssimo: o abundante uso do ferro, tanto na composição do alicerce, que é
quatro ou cinco vezes mais profundo do que em nossas construções no Brasil, como nas vigas,
colunas e paredes. Nas estruturas em que se usam quatro barras de ferro, em nosso país, lá se usam
doze. Literalmente, durante um tremor, ou mesmo um terremoto, os prédios construídos sob essas
normas “balançam mas não caem”. Podem até sofrer avarias, como vidros quebrados ou pequenas
rachaduras, mas não desabam.
Só para termos uma ideia, o terremoto que devastou o Haiti em janeiro de 2010 foi de 7 graus na
escala Richter e, no Chile, em fevereiro de 2010 foi de 8.8. Teoricamente, os estragos no Chile
deveriam ser muito piores, pois, tecnicamente, no Chile, o tremor de terra foi 900 2 vezes mais
intenso que no Haiti, mas veja o que aconteceu:

O terremoto que atingiu o Chile matou cerca de 120 pessoas 3 e destruiu vários prédios e
pontes. Já o terremoto que atingiu o Haiti no dia 12 de janeiro causou 217 mil mortes e deixou
1,2 milhão de pessoas sem casas, segundo estimativas provisórias. Entretanto, o presidente do
Haiti, René Préval, disse no domingo que o número de vítimas poderia chegar a 300 mil
quando terminarem as tarefas de retirada de escombros. 4

O terremoto no Chile foi muito maior, mas os danos causados no Haiti nem se comparam. Podemos
dizer que as mais adequadas normas de construção amenizaram os resultados de uma tragédia que
poderia ter sido gigantesca. Os chilenos vivem tranquilos em suas casas porque confiam em suas
construções. Como é bom poder confiar em algo ou alguém!
Assim também acontece com os homens de Deus. Seu caráter inspira confiança em alto nível a
todos os que os rodeiam. Sendo assim, suas palavras têm muito mais “peso” na resolução de
problemas. Mas preste muita atenção no que vou dizer agora: José nunca precisou dizer para o
carcereiro-chefe: “Confie em mim!” Ele simplesmente alcançou esse privilégio porque homens e
mulheres de Deus são naturalmente pessoas de confiança máxima. Céus e Terra confiam neles.

Recebe e compartilha autoridade


O relato continua: “Administrarás a minha casa, e à tua palavra obedecerá todo o meu povo;
somente no trono eu serei maior do que tu” (Gn 41:40).
José se tornou um profissional na área de logística e recebeu todo o apoio por parte do faraó para
fazer o que fosse necessário. Sua capacidade para resolver problemas foi reconhecida e premiada
publicamente. Deus começava ali a expandir a influência de Seu servo e, com isso, Seu poder logo
seria demonstrado a todas as nações.
O verdadeiro líder precisa exercer autoridade e ter autonomia para tomar decisões, pois, uma vez
que, por seu preparo e experiência, pode trazer as soluções adequadas, deve ser respeitado e ouvido.
O faraó certamente sabia que José tinha algo diferente, um poder especial e inigualável para a
resolução de problemas. Por isso, confiou nele e lhe deu poder para decidir em seu nome. Resultado:
José sustentou o país durante a pior crise que assolou o Planeta na época.
É bem verdade que José levou a fama por salvar o Egito, mas, para que isso acontecesse, ele
também precisou confiar em outros profissionais. Ou você acha que ele fez tudo sozinho? Na
realidade, foi preciso muita gente para construir os celeiros, armazenar os grãos, receber e
contabilizar os pagamentos, cuidar dos cavalos, do gado e tantos outros serviços que José delegou
autoridade. Ele mesmo aconselhou o faraó a montar uma equipe de trabalho: “Faça isso Faraó, e
ponha administradores sobre a terra, e tome a quinta parte dos frutos da terra do Egito nos sete anos
de fartura. Ajuntem os administradores toda a colheita dos bons anos que virão, recolham cereal
debaixo do poder de Faraó, para mantimento nas cidades, e o guardem” (Gn 41:34, 35).
A maior demonstração de autoridade é conceder autoridade! Não é preciso temer quando você
divide o poder, pois só dá autoridade quem tem autoridade. Da mesma forma que homens de Deus
recebem responsabilidades, também precisam delegá-las a outros que poderão ajudar na solução de
problemas.

Acessibilidade
A história relata que “sentindo toda a terra do Egito a fome, clamou o povo a Faraó por pão; e
Faraó dizia a todos os egípcios: Ide a José; o que ele vos disser fazei” (Gn 41:55).
Mais uma vez, a maior autoridade da época reconheceu a superioridade de um servo de Deus. Por
importante que fosse um faraó egípcio, José era mais útil do que ele, naquele momento. No período
da crise, o faraó era apenas um tipo de “garoto de recados sentado no trono”, pois, de fato, era José
quem decidia tudo. Posso imaginar o povo procurando seu governante supremo em busca de
orientações, e humildemente ele dizia:
“Encontrem o ex-escravo, ele saberá o que fazer!” Com isso, a popularidade de José aumentava a
cada dia.
Ao que parece, o faraó não tinha tempo e nem sabia o que fazer, portanto, se limitava a mandar que
o povo procurasse José. Além disso, ele se distanciava dos súditos por meio da pompa e dos
processos burocráticos que, naturalmente, formavam uma barreira entre ele e a sociedade.
Essa situação me faz pensar que o homem de Deus deve ser popular. As pessoas precisam ter
contato pessoal e direto com ele. Infelizmente, muitas vezes, por causa de uma agenda cheia de
atividades, homens e mulheres que se dizem “de Deus” fazem o papel de faraó e se distanciam de
seus semelhantes. Às vezes, tentam delegar a atividade de ouvir e aconselhar, dizendo:
– Busquem José, ele saberá o que fazer!
Esse “José” pode ser um assessor ou qualquer intermediário, como e-mail, telefone, redes sociais,
uma secretária, etc. Por mais que vivamos na era das comunicações virtuais, nada substitui um
abraço, um aperto de mão, um sorriso, um ombro amigo e um ouvido atento. Homens de Deus não
criam barreiras para estar com “o povo” e, quanto mais estão entre eles, mais os problemas se
resolvem.

Especialização
Diz o nosso texto: “E todas as terras vinham ao Egito, para comprar de José, porque a fome
prevaleceu em todo o mundo” (Gn 41:57).
José se tornou o personagem mais famoso do mundo conhecido. O homem de Deus detinha força
política suficiente para fazer o que bem entendesse. Era possuidor de um poder extraordinário, que
extrapolava as fronteiras do Egito, e de todas as nações as pessoas iam até ele em busca de soluções.
Muitos, ingenuamente, afirmam que José era protegido de Deus e seu sucesso se devia apenas aos
milagres que o Senhor operava por meio dele. Isso é parcialmente verdade. Veja o que a autora cristã
Ellen White escreve a respeito: “A assinalada prosperidade que acompanhava todas as coisas postas
aos cuidados de José não era resultado de um milagre direto; mas, sim, sua operosidade, zelo e
energia eram coroados pela bênção divina [...]. Entretanto, sem um esforço perseverante e bem
dirigido, jamais poderia haver conseguido o êxito.” 5 Deus sempre esteve ao lado de José,
orientando-o e protegendo-o. Porém, José também teve seus méritos, fazendo sua parte para que os
milagres ocorressem. Neste caso específico, notamos que José se especializou em várias áreas,
sendo uma delas a administração.
Na infância, ele permanecia com o pai, ajudando-o a administrar sua própria casa, enquanto os
irmãos trabalhavam no campo. Mais tarde, foi mordomo no lar de Potifar; em seguida, cuidou da
prisão e, finalmente, recebeu o cargo de primeiro-ministro do Egito. Com certeza José conhecia
muito a respeito de economia, principalmente sobre o “mercado de ativos”. Não foi simplesmente um
“especulador”, mas um ótimo estrategista e grande investidor. Após receber informações confiáveis,
não teve dúvidas de que deveria investir em commodities. Comprava na baixa e vendia na alta,
sempre mirando o longo prazo. Suas teorias logo puderam ser comprovadas na prática, pois as ações
valorizaram tanto que nem todo o dinheiro do país era suficiente para pagá-las. “Assim, comprou
José toda a terra do Egito para Faraó, porque os egípcios venderam cada um o seu campo, porquanto
a fome era extrema sobre eles; e a terra passou a ser de Faraó” (Gn 47:20). Entretanto, sem um
esforço perseverante e bem dirigido, ele jamais poderia haver conseguido o êxito. Possivelmente,
esse foi o maior lucro já registrado na história da humanidade, o que lhe conferiu respeito, admiração
e temor por parte das autoridades mundiais.
Homens de Deus também precisam de conhecimento! Devem ter alguma formação que os capacite e
os torne dignos de confiança e respeito em alguma ou várias áreas. Como todos os outros “mortais”,
necessitam se preparar para assumir responsabilidades na sociedade. Estou tentando dizer que
homens de Deus prestam vestibular ou ENEM, participam de seminários, estudam idiomas, fazem
mestrado, MBA, doutorado, desenvolvem teses, escrevem livros. Enfim, especializam-se em alguma
área. Além disso, tais como José, procuram a excelência, e isso os destaca dos demais. Esse
conceito é muito importante para nossos dias. Com referência a certas pessoas, somente a
espiritualidade não é suficiente para convertê-las em excelentes profissionais.
Quando Isaura, minha esposa, estava sendo preparada para dar à luz o nosso segundo filho, fiquei
impressionado com o atendimento das enfermeiras e médicos que dela cuidavam. Como pai
“corajoso”, pedi para assistir ao parto e recebi esse privilégio. Depois de vestir aquelas roupas
especiais, que me fizeram parecer um astronauta, entrei na sala de cirurgia do Hospital Silvestre, no
Rio de Janeiro. A princípio, estava um pouco tenso, mas logo percebi que podia permanecer
tranquilo quanto à estrutura para os procedimentos que logo aconteceriam. Fiquei profundamente
comovido quando, antes de começar a cirurgia, mesmo estando presentes os melhores especialistas
em obstetrícia, anestesia e pediatria, o grupo orou pedindo as bênçãos e a proteção de Deus. Uma
coisa é você orar “superficialmente” quando acorda, ou antes das refeições; outra é estar diante de
uma situação que envolve a vida de sua esposa e filho. Lembro-me de cada palavra daquela pequena
prece. O momento foi marcante, lindo! Matheus, meu filho, nasceu em perfeitas condições, graças às
bênçãos de Deus e ao preparo da equipe médica. Mas o que teria acontecido se as palavras daquela
oração fossem:
– Senhor, estamos todos aqui para tentar fazer este parto. Por favor, nos ajude, pois nós,
estagiários, nunca fizemos isso antes. Caso tenhamos algum problema, por favor, faça um milagre.
Amém!
Por mais que confie no poder da oração, jamais entregaria minha esposa àquela equipe médica,
caso entre eles não se encontrassem profissionais competentes e especialistas em suas respectivas
áreas. Portanto, o homem de Deus deve ser um especialista em determinadas áreas, inclusive a
espiritual!

Preocupação com as pessoas


Quero agora mencionar o que está em Gênesis 47:23-25:

Então, disse José ao povo: Eis que hoje vos comprei a vós outros e a vossa terra para
Faraó; aí tendes sementes, semeai a terra. Das colheitas dareis o quinto a Faraó, e as quatro
partes serão vossas, para semente do campo, e para o vosso mantimento e dos que estão em
vossas casas, e para que comam as vossas crianças. Responderam eles: “A vida nos tens
dado! Achemos mercê perante meu senhor e seremos escravos de Faraó.”

Como o homem de Deus era a única saída para a solução da crise internacional, todos estavam
dispostos a pagar o que fosse necessário para saciar a fome que assolava o mundo conhecido.
Aparentemente, o preço foi alto demais, pois os egípcios perderam tudo o que tinham, até mesmo a
liberdade. Você pode pensar que José foi um verdadeiro carrasco, aproveitando-se do povo tal qual
alguns políticos de hoje. No entanto, lembre-se de que eles (os egípcios daquela época, e não os
políticos atuais!) eram pagãos e gastavam suas posses em orgias e diversões pervertidas. Grande
parte do que possuíam era roubado de outros povos que eles haviam subjugado, tornando-os
escravos. Dedicavam os bens para adorar divindades satânicas e, muitas vezes, sacrificavam os
próprios filhos a deuses, em busca de “bênçãos”.
Assim sendo, a única forma de fazê-los mudar era escravizando-os “voluntariamente”. Perder os
bens e a liberdade poderia levá-los a meditar acerca do poder do Deus verdadeiro. Parte da solução
de seus problemas estava em uma mudança radical de atitude. Essa provavelmente era a única
maneira de pararem para escutar a respeito do Deus de José! Conhecendo isso, José chegou a
administrar a vida de cada indivíduo! O ex-escravo não apenas salvou uma nação, mas também
recuperou pessoas, uma a uma, devolvendo-lhes a dignidade perdida. Assim age o homem de Deus.

Priorizar o mais importante


Agora, leia Gênesis 50:5-7:

Meu pai me fez jurar, declarando: Eis que eu morro; no meu sepulcro que abri para mim na
terra de Canaã, ali me sepultarás. Agora, pois, desejo subir e sepultar meu pai, depois
voltarei. Respondeu Faraó: Sobe e sepulta o teu pai como ele te fez jurar. José subiu para
sepultar o seu pai; e subiram com ele todos os oficiais de Faraó, os principais da sua casa e
todos os principais da terra do Egito.

Era muito fácil para um administrador da envergadura de José, com tantas responsabilidades que
tinha, esquecer-se dos familiares mais próximos. Quantas vezes, estamos tão preocupados em
resolver problemas oriundos de nossas atividades profissionais que deixamos de atender aos pais,
esposa, filhos e amigos. Porém, aquele homem de Deus conhecia perfeitamente suas prioridades e
também resolvia os problemas que envolviam a sua família. Ele poderia, sem nenhuma dificuldade,
pedir a um de seus irmãos que tratasse dos detalhes do enterro de seu progenitor, pois ele tinha todo
o planeta para cuidar. Ele nem mesmo era o primogênito! Porém, como bom filho, administrou com
carinho o funeral de seu pai, e foi um evento grandioso. Leia os versos 7 a 13 do capítulo 50 de
Gênesis.
Influência a longo prazo
“Disse José a seus irmãos: Eu morro; porém Deus certamente vos visitará e vos fará subir desta
terra para a terra que jurou dar a Abraão, a Isaque e a Jacó. José fez jurar os filhos de Israel,
dizendo: Certamente Deus vos visitará, e fareis transportar os meus ossos daqui” (Gn 50:24, 25).
Esse de fato era um homem que pensava em todos os detalhes, mesmo que fossem ocorrer
quatrocentos anos depois de sua morte. Quando resolvia problemas, o fazia pensando a longo prazo
também. José sabia que o Egito não era o destino final de seu povo. Sabia também que
provavelmente muitos se acomodariam e talvez não quisessem sair da zona de conforto quando a
oportunidade viesse. Tinha plena certeza de que Deus cumpriria a promessa dada a Abraão, Isaque e
Jacó, levando-os para uma terra que seria só deles. Portanto, decidiu usar sua influência, ainda que
no futuro já estivesse sepultado, para motivar os israelitas a olhar para a frente e esperar grandes
milagres do Senhor. Seus ossos, sendo levantados à frente do povo, seriam como um troféu dos
vencedores (Êx 13:19). Portanto, José os fez jurar que os levariam junto para Canaã. Por mais de
quatrocentos anos, continuou influenciando e motivando seu povo! Ao chegar a data prevista para a
saída do Egito, ninguém precisou mandar Moisés levar os ossos de José. Ele simplesmente sabia que
devia fazer isso. E foi exatamente o que ocorreu!
A influência de um verdadeiro líder, de um homem de Deus, não termina quando ele se aposenta,
mas permanece de geração em geração. Em contrapartida, a força de um cargo não é suficiente para
mudar a mente das pessoas. Ela muda apenas procedimentos momentâneos. Quando o cargo deixa de
existir, tudo volta a ser como antes, e o pseudolíder logo é esquecido. O verdadeiro poder é aquele
que não depende de cargo para existir. Homens de Deus influenciam pessoas e não simplesmente
“mandam” nelas. Seus discípulos os seguem porque eles os motivam, os amam e isso faz toda a
diferença. Finalmente, quando saem de cena, suas ideias permanecem vivas, iluminando o caminho
daqueles que vêm atrás deles e fazendo-os ir mais longe do que eles mesmos.

Humildade
“Depois, vieram também seus irmãos, prostraram-se diante dele e disseram: Eis-nos aqui por teus
servos. Respondeu-lhes José: Não temais; acaso, estou eu em lugar de Deus?” (Gn 50:18,19).
Um grande problema se havia instalado na família. José era o irmão mais novo, mas, ao mesmo
tempo, era o governante todo-poderoso.
– Como vamos nos relacionar com ele? – perguntavam entre si os irmãos.
– Poderemos chamá-lo simplesmente de “mano” ou devemos nos curvar, como todo o povo faz?
Então, veio a resposta de um grande homem de Deus, que se tornou ainda maior graças à humildade
de suas palavras: “Acaso estou em lugar de Deus”? Com essa nobre atitude, resolveu um problema
que poderia se alastrar e destruir o relacionamento familiar que acabara de ser restabelecido e
reconquistou a confiança de seus irmãos.
Você conhece pessoas que parecem ser ótimos colegas de trabalho enquanto não são promovidas,
mas, quando se tornam chefes, mudam completamente? Não precisa responder! Mas lembre-se de que
nenhum de nós está livre dessa tentação. Infelizmente, esse falso senso de poder invade corações e
mentes, levando homens e mulheres a pensar que são os “donos do mundo”. Quando chegam a esse
ponto, não querem mais ouvir conselhos de companheiros e nem de amigos com os quais
trabalharam, nem tampouco valorizam os que estão em níveis inferiores hierarquicamente! Acham-se
o máximo. Coitados desses mortais! Mal sabem eles que se Jesus não voltar antes, todos seremos pó.
Os que ressuscitarem e, pela graça de Jesus, forem salvos, não terão nenhuma ascendência uns sobre
os outros.
Além de demonstrar humildade com seus irmãos, impedindo que eles o adorassem, José
anteriormente também foi humilde com o faraó. José soube ser um vice de luxo. Sua fama e poder não
lhe subiram à cabeça. Não faz muito tempo, alguém me perguntou: qual é o violino mais importante
de uma orquestra? Pensei equivocadamente que seria o primeiro, mas a resposta correta é “o
segundo”, pois ele precisa deixar o primeiro em evidência.
Uma característica presente nos grandes líderes é a humildade. Se não é humilde, não é líder, muito
menos grande, é tão somente arrogante! O próprio Salvador nos deu a maior lição de humildade,
deixando todo o Seu poder e glória, vindo habitar entre nós. Jesus trocou a mais bela cidade por uma
simples comunidade. Um trono de ouro por uma manjedoura de palha. Uma coroa reluzente por
espinhos afiados. Um cetro por um cajado. Roupas glamourosas por um manto sem forma. Anjos
poderosos por discípulos pusilânimes. O pão do Céu por fome na Terra. Preferiu descer a subir, e
quando subiu, foi para dar a vida por mim e por você.

De volta a Dotã
Em boa parte deste capítulo, usamos o exemplo de José, pois os relatos bíblicos a respeito de sua
atuação na resolução de problemas são abundantes e esclarecedores. Porém, Eliseu, personagem
central deste livro, também possuía todas as qualidades que acabamos de estudar e as usou nas horas
de crise. Conforme vimos, para a resolução de problemas é necessário ter preparo, desfrutar
confiança, ter autoridade e compartilhá-la quando necessário, ser acessível, especializar-se,
preocupar-se com pessoas, focar o mais importante, influenciar mais do que “mandar” e manter a
humildade.
Vejamos como esses princípios estavam presentes no ministério de Eliseu:
Preparo. Para provar que Eliseu estava plenamente preparado para exercer suas funções, vamos
buscar a ajuda da escritora cristã Ellen White: “Pela fidelidade em pequenas coisas, Eliseu estava se
preparando para encargos mais pesados. Dia a dia, mediante experiência prática, capacitava-se para
uma obra mais ampla e mais alta.” 6 Penso que essa citação dispensa qualquer comentário adicional!
Confiança. “E o rei da Síria fazia guerra a Israel; e consultou com os seus servos, dizendo: Em tal
e tal lugar estará o meu acampamento. Mas o homem de Deus enviou ao rei de Israel, dizendo:
Guarda-te de passares por tal lugar; porque os siros desceram ali. Por isso o rei de Israel enviou
àquele lugar, de que o homem de Deus lhe dissera, e de que o tinha avisado, e se guardou ali, não
uma nem duas vezes” (2Rs 6:8-10). Você acha que o rei de Israel estaria disposto a ter todo o
trabalho de logística para deslocar um exército inteiro de um lado para outro se não confiasse no
homem de Deus?
Recebe e compartilha autoridade. “Mas o homem de Deus mandou dizer ao rei de Israel: Guarda-
te de passares por tal lugar, porque os siros estão descendo para ali” (2Rs 6:9). Um detalhe nesse
texto mostra que o profeta não tinha problema algum em delegar autoridade: “Mas o homem de Deus
mandou dizer...” Eliseu sabia que não precisava fazer tudo sozinho. Sabia também que não
necessitava centralizar todas as informações. Mais importante do que “aparecer” diante das luzes e
ser aplaudido publicamente, sua prioridade era resolver os problemas. Delegou, e nem por isso
perdeu poder.
Acessibilidade. “Respondeu um dos seus servos: Ninguém, ó rei, meu senhor; mas o profeta Eliseu,
que está em Israel, faz saber ao rei de Israel as palavras que falas na tua câmara de dormir. Ele disse:
Ide e vede onde ele está, para que eu mande prendê-lo. Foi-lhe dito: Eis que está em Dotã” (2Rs
6:12, 13). Note que mesmo os inimigos de Israel sabiam onde encontrar Eliseu. Ele estava em Israel,
mais especificamente, na região de Dotã, e qualquer pessoa poderia falar com o homem de Deus. O
profeta era sempre acessível. Pouco depois, quando seu aprendiz entrou em apuros e gritou “Ai meu
senhor! Que faremos?”, o mestre apareceu justamente a seu lado com a resposta “na ponta da língua”!
Especialização. Além de outras especialidades, sem dúvida, uma das que se destacaram no
ministério de Eliseu foi a formação e o ensino de seus discípulos. Ele era um professor nato. Não
apenas ensinara teoria na escola de profetas, mas tornara-se exemplo vivo para seus alunos.
Tomando apenas o relato que estamos estudando (2Rs 6:9-17), podemos encontrá-lo ao lado do
moço, ministrando uma das melhores “aulas” a respeito de fé e confiança. Além disso, Eliseu era um
especialista em milagres!
Preocupação com as pessoas. “Mas o homem de Deus mandou dizer ao rei de Israel: Guarda-te de
passares por tal lugar, porque os sírios estão descendo para ali. O rei de Israel enviou tropas ao
lugar de que o homem de Deus lhe falara e de que o tinha avisado, e, assim, se salvou, não uma nem
duas vezes” (2Rs 6:9-10). De acordo com esse relato, vemos que a maior preocupação de Eliseu era
com a segurança de seu povo. Por esse motivo, estava sempre vigilante em relação aos ataques do
inimigo e informava ao rei de Israel, salvando assim toda a população do ataque dos sírios “não uma
nem duas vezes”.
Priorizar o mais importante. Em face do perigo que o profeta corria, em teoria, a melhor hipótese
seria resolver logo a situação, realizando um milagre para dizimar o exército inimigo à frente. Mas,
antes de tudo, o mestre se preocupou com o aluno, e orou para que o primeiro milagre fosse realizado
em favor do garoto.
Influência a longo prazo. Caso a influência desse servo de Deus não fosse por longo prazo,
seguramente sua história não figuraria nas páginas sagradas da Bíblia. É questão de lógica. Além
disso, podemos deduzir que jamais o menino se esqueceria daquele incidente em que viu anjos de
Deus ao redor dele e de seu mestre. Você conseguiria se esquecer de algo assim? Se eu já tivesse
visto apenas um anjo, sairia contando para todo mundo, quanto mais um exército deles!
Humildade. Mais uma vez, vamos buscar a ajuda da escritora Ellen White para esclarecer esse
tema:

Ele recebeu a educação em hábitos de simplicidade e de obediência a seus pais e a Deus,


educação que o ajudou a preparar-se para a alta posição que mais tarde deveria ocupar. [...]
Na humilde rotina da labuta diária, ganhava força de propósito e nobreza de caráter,
crescendo constantemente em graça e conhecimento. 7

Essa humildade que aprendeu nos primeiros anos de vida o ajudou a reconhecer que, no momento
de crise, os verdadeiros protagonistas foram os anjos de Deus e, sem constrangimento, o servo de
Deus afirmou que “mais são os que estão conosco” e, em seguida, orou a Deus, demonstrando
publicamente que ele mesmo não poderia fazer nada sozinho. Sua atitude evidencia que, após a
conclusão do milagre, o crédito seria do Senhor.

Em resumo
• O mundo vive atualmente sua pior crise. Todos buscam respostas, porém, poucos as
encontram.
• Como homens de Deus, precisamos estar plenamente preparados e capacitados para
oferecer as soluções de que o mundo necessita.
• Quanto maior a crise, maior a possibilidade de que homens usados por Deus demonstrem
Seu poder e logo comecem a se destacar, como ocorreu com José no Egito e também com
Eliseu.
• Além do preparo, outras características, tais como confiança, acessibilidade,
discernimento, influência pessoal por meio do exemplo, preocupação com as pessoas e,
sobretudo, a humildade devem fazer parte do “DNA” de um homem de Deus.

1
Nome fictício.
2
Fonte: [Link] - O terremoto de 8,8 graus de magnitude na escala Richter, que atingiu
o Chile na madrugada desse sábado, liberou energia 900 vezes maior do que o ocorrido no Haiti, em janeiro, que atingiu 7 graus na
mesma escala. A informação é do sismólogo na UnB (Universidade de Brasília), Jorge Sands, que explica o sistema de medição de
potência da escala Richter. Segundo ele, cada grau da escala corresponde a ondas dez vezes mais fortes e uma potência 30 vezes
superior, onde esse valor é multiplicado de um ponto a outro. Dessa forma, um terremoto de grau 9 na escala Richter é 900 vezes
mais potente que um tremor de grau sete. Segundo especialistas, um terremoto entre 7,0 e 7,9 pode causar sérios danos numa
grande superfície. Aqueles acima de oito, como o do Chile, podem provocar danos até mesmo em regiões localizadas a várias
centenas de quilômetros do epicentro.”
3
Na realidade, esse terremoto matou mais de 800 pessoas. Quando esta notícia foi publicada, o governo ainda não havia informado o
número oficial de mortos.
4
[Link]
5
Patriarcas e Profetas p. 214, 215.
6
Profetas e Reis, p. 218.
7
Profetas e Reis, p. 218.
10 O Desafio de
Vencer o Medo

Ele respondeu: Não temas, porque mais são os que estão conosco do que os que
estão com eles (2Reis 6:16).

A té aquele momento, o jovenzinho não conseguia parar de tremer. Não entendia como o mestre
mantinha a calma em uma situação tão difícil.
– Por que não fiquei com minha família no apartamento que papai financiou junto ao Banco de
Investimentos “Terra da Promessa”? Morar ali, mesmo sem janelas e fechaduras nas portas, era muito
mais seguro do que viver em barracas com um homem que afirma contar com anjos para protegê-lo!
Era melhor seguir o @profetaEliseu apenas pelo Twitter ou curtir seus feeds no Facebook! Assim,
os perigos seriam apenas virtuais!
Quantas interrogações devem ter passado pela mente daquele rapaz enquanto o suor frio lhe
escorria pela face! Não sabendo mais o que fazer ou pensar, exclamou: “Ai meu Senhor. Que
faremos?”
Há algo muito interessante na resposta de Eliseu. O moço queria saber “o que fazer”, mas o profeta
lhe disse “o que não fazer”! “Não temas”, foi a resposta. Pensando nessas palavras, chego à
conclusão de que homens de Deus não precisam temer ao enfrentar desafios, mesmo quando correm
perigo de vida. Legal! Na teoria, isso pode funcionar, mas, na prática, é um pouco diferente. Comigo,
esse negócio de não ter medo nunca deu muito certo, e acho que com você também, verdade? Tenho
falado com homens e mulheres que acredito serem consagrados ao Senhor, e nenhum deles me
afirmou que jamais teve medo. Ao contrário, todos admitiram que, mesmo sendo especialistas no que
fazem, quase sempre sentem aquele friozinho na barriga. Mas como entender a ordem de Eliseu? Será
que ele mesmo também não se espantou um pouco ao ver todo aquele exército ao seu redor? Penso
que sim. Afinal, aquilo não era normal.
Abraão, conhecido como pai da fé, teve medo quando chegou ao Egito com sua linda esposa
“Quando se aproximava do Egito, quase ao entrar, disse a Sarai, sua mulher: Ora, bem sei que és
mulher de formosa aparência; os egípcios, quando te virem, vão dizer: É a mulher dele e me matarão,
deixando-te com vida. Dize, pois, que és minha irmã, para que me considerem por amor de ti e, por
tua causa, me conservem a vida” (Gn 12:11-13). Dos diversos personagens bíblicos que passaram
por situações difíceis, um dos que mais se amedrontaram foi Jonas. Ele se apavorou com a
possibilidade de ir a Nínive. Fugiu o mais rápido possível para a cidade de Tarsis, mas foi parar no
fundo do mar. E, por falar em mar, sem dúvida, Pedro ficou amedrontado ao andar sobre as águas!
Em todo os casos, o medo, o temor ou receio se manifestaram, mas, de uma forma ou de outra, os
personagens das histórias se saíram bem. Abraão não perdeu a esposa e se tornou pai de uma grande
nação. Jonas pregou aos ninivitas um poderoso sermão, que converteu a cidade inteira, e Pedro
entrou para o Guinness Book, sendo o primeiro homem, depois de Jesus, a andar sobre as águas!
Todos eles tiveram medo, mas foram adiante, apesar desse sentimento.

Um pouco de medo faz bem


Era o ano 2000, a seleção brasileira de futebol lutava para se classificar nas eliminatórias para o
mundial que ocorreria em 2002, na França. Naquela época, eu morava no Chile. No dia 13 de agosto,
os jogadores do Brasil desembarcaram em Santiago, onde enfrentariam a seleção chilena, dois dias
depois. No dia anterior ao grande jogo, eu estava passando de carro pelo Estádio Monumental,
quando avistei um ônibus verde e amarelo sendo conduzido por policiais e batedores. Não tive
dúvidas que era a seleção “canarinha”.
Parei um pouco para ver os jogadores entrarem no estádio. Era um desfile de estrelas: Ronaldo,
Rivaldo, Gilberto Silva, Roberto Carlos e tantos outros famosos que faziam parte do “time dos
sonhos”. Ao descerem do ônibus, eram ovacionados pela torcida adversária. Alguns gritavam para
os jogadores: “Tenham piedade de nós”! Tenho que confessar que, naquele momento, me senti bem
por ser brasileiro. Ao voltar para o escritório, comentei o fato com alguns amigos que, tal e qual os
demais chilenos, diziam:
– Sabemos que o Brasil irá ganhar, mas não nos humilhem, por favor!
Esse pedido generalizado de misericórdia se tornou comentário em quase todos os canais de
televisão e, obviamente, chegou aos ouvidos dos jogadores chilenos, e também da comissão técnica.
O medo e o respeito pelo futebol brasileiro os levou a estudar cuidadosamente cada jogador
brasileiro. Houve, então, uma mudança na estratégia. Os jogadores chilenos ficaram focados, bem
como os treinamentos foram intensificados. Como resultado, ao final do jogo uma surpresa: o grande
e imbatível time brasileiro foi derrotado e também humilhado por um placar de 3 X 0 para o Chile!
No dia seguinte, recebi inúmeras e intermináveis ligações. Eram meus “amigos chilenos” fazendo
brincadeiras e rindo da nossa seleção!
O problema não é sentir medo, mas ser dominado por ele. Todos temos o direito de temer algo.
Porém, não podemos deixar que o temor nos impeça de encarar os grandes desafios. De certa forma,
o medo é saudável, pois, por intermédio dele, evitamos situações desnecessariamente perigosas. Ele
também nos ajuda a entender que precisamos nos preparar melhor e, além disso, nos ajuda a exercitar
a fé.
Não estou fazendo apologia ao medo. Apenas afirmo que um pouquinho desse sentimento é algo
perfeitamente normal em qualquer ser humano. Está bem, está bem, na realidade, não só um
pouquinho, mas até um “montão” de medo é algo normal em pessoas como nós! A verdade é que
somos medrosos, mesmo! Uns têm medo de baratas, outros, de ratos, outros, de ladrões, outros, de
escuro, enfim, a lista é imensa. Vivemos em busca de segurança, então, temos o quê? Medo! Ah! Você
acha que eu estou exagerando e que você não tem medo? Então, por que fecha as portas e os vidros
do carro quando o deixa estacionado?

O medo que não devemos ter


Como já disse antes, todos tememos algo, mas não é a esse tipo de medo que estou me referindo.
Quero tratar do tipo de medo que não devemos ter. Eliseu não estava preocupado se seu servo tinha
medo de roda gigante. Até porque as rodas gigantes foram inventadas séculos mais tarde e, portanto,
não representavam nenhuma ameaça real no momento. Ainda que existisse uma no parquinho de
diversões da Palestina, bastava que ele não andasse nela e poderia conviver perfeitamente com esse
temor. Esse tipo de medo jamais atrapalharia sua vida.
Você pode ter medo de sapo, de cachorro, de altura, de velocidade e até de roda gigante! Isso faz
de você uma pessoa normal. Basta evitar essas situações, e tudo estará resolvido. Porém, você não
pode ter medo de fazer a vontade de Deus. Esse é o pior tipo de medo, pois fazer a vontade de Deus
sempre é a melhor opção de sua vida, e se você ignorar isso, nunca será uma pessoa completamente
realizada e feliz. A real preocupação de Eliseu era que o moço temesse permanecer em pé frente a
frente com o exército inimigo! Naquele momento, essa era a melhor opção, pois o Senhor queria que
ele estivesse ali para testemunhar o grande milagre que logo seria realizado naquele lugar.
Ao longo do ministério, infelizmente, tenho visto muitas pessoas fracassarem porque tiveram medo
de enfrentar desafios. Se tivessem confiado no poder daquele que os chamou, sem dúvida, teriam
vencido as batalhas. Recordo-me de, há muitos anos, ter convidado um jovem talentoso de nossa
igreja para ir colportar comigo e, posteriormente, cursar Teologia, mas na época, por medo de deixar
os familiares e ir ao colégio, desistiu de seu sonho. Há poucos dias, o encontrei, completamente
desiludido e triste por não ter aceito o convite de fazer a obra de Deus. Que pena, agora já estava um
pouco tarde!
Na história que estamos estudando, vemos que o profeta teve domínio total sobre o medo. É
possível que tenha até sentido um “friozinho na barriga”, mas não fugiu diante daquela situação. Se
existisse um “Manual do Homem de Confiança de Deus”, Eliseu seria um profundo conhecedor do
capítulo “Como Superar o Medo”. Tenho certeza de que você também gostaria de conhecer alguns
tópicos desse “Manual”, certo? Então, vamos lá!
Para vencer o medo, o homem de Deus:
1. Recorda o passado. Eliseu já havia tido outras experiências com Deus. Foi “auxiliar de profeta”
quando esteve ao lado de seu antecessor. Viu com os próprios olhos Elias ser levado para o Céu. Ao
receber o manto que o mestre lhe deixou, milagres começaram a ocorrer em seu ministério. Poucos
dias antes, havia feito um machado flutuar nas águas de um riacho. Eliseu conhecia o poder de Deus e
sabia que Ele jamais o desampararia.
Você já parou para pensar em quantos milagres Deus já fez em sua vida? Somente o fato de existir
já é um deles. Caso seus pais não se tivessem conhecido, você jamais estaria aqui hoje. Ainda era
adolescente quando minha mãe me contou como conheceu meu pai. Ele era uruguaio e veio morar no
Brasil. Sendo dez anos mais velho do que ela, ninguém da família aprovava o namoro. Achavam que
seria muito arriscado casar com um estrangeiro desempregado. Porém, ela foi em frente. Até aquele
momento, minha existência estava em risco!
– Vai, mãe! Namora esse rapaz! É o que eu estaria gritando desesperadamente aos seus ouvidos, se
pudesse! Até porque havia bilhões de outros homens no planeta e, se ela tivesse escolhido qualquer
outro, ou mesmo se não tivesse escolhido ninguém, sabe o que eu seria? Apenas um pequeno óvulo
em seu útero. É! Não foi fácil nascer! Todas as possibilidades eram contrárias à minha existência. As
chances eram de um para cem milhões ou mais. No entanto, eu tinha um Ajudante celestial que
conduziu todo o processo para que eu viesse à existência, um Ser que me ama, que sabe o meu nome
e que me manda bilhetes como este:
“Ouvi-me, [...] vós, a quem desde o nascimento carrego e levo nos braços desde o ventre materno.
Até à vossa velhice, Eu serei o mesmo e, ainda até às cãs, Eu vos carregarei; já o tenho feito; levar-
vos-ei, pois, carregar-vos-ei e vos salvarei” (Is 46:3, 4).
Evidentemente, eu também posso dizer: “Ouvi-me, terras do mar, e vós, povos de longe, escutai! O
Senhor me chamou desde o meu nascimento, desde o ventre de minha mãe fez menção do meu nome”
(Is 49:1).
Além disso, pude ver a mão poderosa do Senhor guiando cada passo de minha vida. Jamais me
arrependi de enfrentar os desafios, pois, por meio deles, pude ver o poder do Criador. Mesmo sendo
um garoto pobre que perdeu o pai aos quatorze anos, consegui estudar e tornar-me pastor. Para
custear os estudos, vendia livros da Casa Publicadora Brasileira de porta em porta. Não pense que
nunca pensei em desistir! Na verdade, quase o fiz por várias vezes, mas sabia que estava fazendo a
vontade de Deus e precisava seguir em frente. Hoje, olhando para trás, vejo que Deus me sustentou e,
às vezes, até me carregou nos braços durante aqueles dias difíceis. Estou seguro de que com você
não foi diferente. O Senhor sempre esteve e sempre estará ao seu lado. Além do mais, você acha que
esse Deus que já operou tantos milagres em sua vida no passado irá abandoná-lo, justamente agora
que você é um representante dEle? Duvido!
2. Tem “linha direta” com o Pai. É interessante notar que, logo após a ordem de não temer, Eliseu
investiu tempo orando. Essa era uma das prioridades em sua vida, e o texto bíblico faz questão de
deixar claro. O autor poderia ter economizado algumas linhas do texto sagrado e apenas falar sobre o
grande livramento que o Senhor proporcionou para Seu servo; porém, afirma que, antes de fazer o
milagre, Eliseu orou. Estamos acostumados a ouvir que devemos colocar Deus em primeiro lugar, e
que, ao enfrentarmos problemas, podemos contar com Ele. Porém, na prática, agimos de maneira
completamente diferente: tentamos de tudo, e quando nada mais dá certo, nos lembramos de falar com
Deus. Poucos têm a coragem de, em uma situação de emergência, fazer o que, em teoria, deveria ser a
prioridade: orar! Ao inverter o processo, deixamos de fazer o óbvio e, assim, não temos as respostas
de que precisamos.
Veja o que a Bíblia fala sobre o poder da oração proferida por um homem de Deus:
Está alguém entre vós sofrendo? Faça oração. Está alguém alegre? Cante louvores. Está
alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e estes façam oração sobre ele,
ungindo-o com óleo, em nome do Senhor. E a oração da fé salvará o enfermo, e o Senhor o
levantará; e, se houver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados. Confessai, pois, os vossos
pecados uns aos outros e orai uns pelos outros, para serdes curados. Muito pode, por sua
eficácia, a súplica do justo (Tg 5:13-16).

Não posso falar em homens e mulheres de Deus sem dizer que essas pessoas possuem um sistema
de comunicação diferenciado com o Céu. Quando digo diferenciado, não quero dizer sofisticado. A
comunicação segue um parâmetro muito simples, porém eficiente, que é aperfeiçoado dia a dia por
meio do tempo em que Criador e criatura passam juntos. Ao estudarmos o contexto da história,
vemos que Eliseu comunicou ao rei de Israel os planos do inimigo e, por isso, as tropas cercaram a
cidade. Essa revelação foi recebida provavelmente dentro de uma simples barraca, durante as horas
da noite. Bastava que Ben-Hadade II, rei da Síria, elaborasse um plano para atacar o povo de Israel
que, imediatamente, Eliseu já ficava sabendo.
Eliseu se comunicava naturalmente com o
Senhor e, como resultado, naturalmente,
Homens de Deus não se surpreendem fazia milagres! Pode ser um pouco difícil de
entender, mas homens de Deus não se
com milagres, pois eles são comuns surpreendem com milagres, pois eles são
em seu ministério. comuns em seu ministério. Esses homens
conversam com o Senhor da mesma forma
que falam com seus amigos. Compartilham
suas dificuldades, se alegram juntos, fazem
planos para o futuro, encontram-se regularmente em qualquer lugar e sabem que são ouvidos. Como
resultado, esses homens recebem informações privilegiadas e, por esse motivo, podem sem receio
dizer: não temas!
3. Sabe que pode contar com milagres. Para que Eliseu continuasse atuando como homem de
Deus, era necessário que, de alguma forma, o Senhor resolvesse o problema que ele estava
enfrentando naquele momento. A única saída seria um milagre, e foi exatamente isso que tranquilizou
o profeta. Ele sabia que seu Pai era especialista nesse assunto!
Deus resolve nossos problemas, pode acreditar! Certa vez, minha esposa e eu tivemos uma
experiência muito clara dessa verdade. Morávamos no Chile, havíamos recentemente vendido nosso
automóvel para atender a uma emergência financeira. Com o que sobrou, não daria para comprar um
carro muito novo, mas, fazer o quê? Preferimos nos sacrificar um pouco a ficar devendo.
Passei quase uma semana procurando nos classificados algo com rodas, motor e que não custasse
mais de quatro mil dólares! Tarefa quase impossível. No entanto, colocamos nossa preocupação nas
mãos do Senhor. Depois de orar a respeito do assunto na noite anterior, fiz várias chamadas
telefônicas no dia seguinte. Já estava quase por desistir quando um anúncio me chamou a atenção.
Estava escrito: “Vende-se um automóvel Monza, pouco rodado, completo, original de fábrica, único
dono, aceito proposta”. Estávamos no ano 1999, e esse automóvel, além de ser “top”, era do ano
1996. Seu preço normal seria em torno de dez mil dólares.
Sabia que não teria condições de comprá-lo, mas, ainda assim, algo me dizia que deveria pedir
informações. Tomei o telefone para fazer aquela que seria a última chamada do dia. Depois de tocar
duas vezes, ouvi um cordial “boa-tarde” do outro lado da linha. “Isso é normal”, você pode pensar,
todo mundo fala a mesma coisa quando atende ao telefone! No Brasil, sim, não no Chile. Lá, eles
falam “buenas tardes” ou “buenos dias”. Na verdade, sem saber, estava ligando para a embaixada do
Brasil. Pedi desculpas achando que era engano, e já ia desligando quando a moça que me atendeu,
perguntou se eu estava ligando para saber informações do carro anunciado.
– Sim – respondi, um tanto desconcertado.
– Esse automóvel pertence à embaixada e é de uso exclusivo do Coronel responsável pela
segurança do embaixador. Neste momento, o carro está com 15 mil quilômetros rodados, e todas as
manutenções foram feitas rigorosamente em dia. Estamos trocando somente porque é nosso costume a
cada três anos.
– Qual é o preço? – perguntei.
– Na realidade – responde educadamente minha simpática conterrânea, – ainda não sabemos. Esse
carro irá a leilão, e a melhor proposta acima de dois mil dólares será aceita.
– Qual é a melhor proposta até agora? – indaguei.
– Ainda não temos essa informação, pois todas as propostas devem ser encaminhadas em envelopes
lacrados à embaixada até o final da próxima semana, e dentro de dez dias, serão abertos em
audiência pública com a participação de todos os que as fizeram.
Mais que depressa fui ver o automóvel. De fato, ele era tudo o que foi descrito e, tinha vários
opcionais que não haviam sido colocados no anúncio. Pensei comigo mesmo que jamais poderia
comprá-lo, porém, a mesma voz interior que me convenceu a fazer a chamada telefônica cochichou-
me ao ouvido dizendo: “Não custa tentar, deixe o resto comigo!”
Voltei para casa, contei à esposa o ocorrido e decidimos orar mais uma vez a respeito do assunto.
“Que fazer”, pensava, “para que minha oferta fosse a maior?” Tínhamos apenas quatro mil dólares
e almejávamos comprar um carro que valia pelo menos dez! Depois de algum tempo, tivemos uma
ideia. “Se ninguém sabe o que está dentro dos envelopes que foram deixados na embaixada, nós
também não precisamos saber”. Como a menor proposta teria que ser ao menos dois mil dólares e,
no meu caso, a maior não poderia ser mais do que quatro mil, tive o cuidado de preparar vinte
envelopes contendo propostas diferentes, a começar com US$ 2.000, US$ 2.100, US$ 2.200, US$
2.300, etc., até chegar a US$ 4.000. Logo que colocamos cada proposta em seu respectivo envelope,
fechamos um por um e, em seguida, os embaralhei. Consequentemente não tinha a menor ideia de qual
valor cada um deles continha. Oramos mais uma vez, pedindo que o Senhor nos ajudasse na seleção
e, finalmente, escolhemos aleatoriamente um envelope contendo uma das propostas. No outro dia,
cedinho, eu estava em frente à embaixada com a oferta em mãos.
“Isso é jeito de fazer negócio?”, pensava comigo mesmo. “Onde já se viu alguém agir desta
maneira?” A despeito das interrogações, entreguei o envelope na recepção. Os outros, guardei sem
abri-los, e os tenho até hoje. No dia marcado, retornei à embaixada para acompanhar a abertura dos
envelopes. Obviamente, estava apreensivo, e fiquei ainda mais preocupado quando vi a quantidade
de pessoas que haviam feito ofertas também! Minha única vantagem até aquele momento é que todo o
diálogo era em português. Mal sabia que a vantagem que tinha era muito maior, pois Deus estava
conduzindo todo aquele processo sem que eu soubesse.
Depois de algum tempo, o encarregado pela licitação começou a abrir os envelopes um a um,
inclusive o meu. Foram mais de cinquenta interessados, e as propostas foram sendo abertas e lidas.
Como não sabia qual envelope havia entregue, tinha que esperar até que o nome fosse lido e, então,
descartado.
Os primeiros vinte envelopes ficaram em torno dos dois mil dólares. Cada importância que era
superada automaticamente deixava de competir, e o dono da proposta saía da sala que, pouco a
pouco, se esvaziava. Muitos saíam tristes por ter perdido aquele ótimo negócio. Em vários
momentos, me condenei por não ter oferecido logo os quatro mil dólares, e não teria que passar por
aquele estresse, pois a melhor proposta até o momento era de US$ 2.100. Finalmente, sobraram duas
propostas. A minha e a de um distinto cavalheiro. Eu não sabia o conteúdo de meu envelope,
portanto, precisaria ouvir até o final antes, de abandonar o recinto. Logo, ouvi um alvoroço entre os
organizadores da licitação, que buscavam um jornal com informações sobre a cotação de moedas
estrangeiras. Todas as propostas, até aquele momento, haviam sido feitas em moeda local (peso),
menos a minha, que havia sido feita em dólares e, até aquele momento, eu mesmo não sabia quanto
era.
Após um longo silêncio, acompanhado de uma grande exclamação foi apresentado o resultado.
– Senhores – disse o leiloeiro, – tivemos um impasse, mas já foi resolvido. Nos restam duas
propostas, uma do senhor “fulano” e outra do senhor João Vicente. A do senhor “fulano” é de $
1.440.000 (um milhão quatrocentos e quarenta mil pesos chilenos, e a do Sr. João é de US$ 2.400
(dois mil e quatrocentos dólares). Após fazermos a conversão [cada dólar naquele dia custava 602
pesos], a proposta do Sr. João foi de $ 1.444.800 (um milhão quatrocentos e quarenta e quatro mil e
oitocentos pesos chilenos).
Parecia inacreditável, mas meu envelope continha uma proposta com exatamente oito dólares a
mais que a do outro senhor. Apenas oito dólares! Você pode até dizer que foi coincidência, mas eu
tenho certeza de que foi um milagre. Conseguimos comprar um ótimo automóvel por um preço
incrivelmente baixo. Deus fez com que eu entregasse o envelope correto e exatamente com o mínimo
necessário para que minha proposta fosse a vencedora.
Após a assinatura dos documentos que me transferiram a posse, o próprio coronel procurou-me
perguntando se eu tinha informações privilegiadas. Tive que confessar que sim, pois Deus sabia e me
informou! Logo contei-lhe rapidamente o que havia de fato acontecido e ele, meio incrédulo, deu um
largo sorriso e disse:
– Seu Deus é bom mesmo!
– E altamente confiável! – repliquei, e não falei mais nada. Nem precisava!

4. Vive cercado por anjos. Eliseu estava cercado por dois exércitos ao mesmo tempo.

Eis que tropas, cavalos e carros haviam cercado a cidade; então, o seu moço lhe disse: Ai!
Meu senhor! Que faremos (2Rs 6:15).
Orou Eliseu e disse: Senhor, peço-Te que lhe abras os olhos, para que veja. E o Senhor
abriu os olhos do moço, e viu; e eis que o monte estava cheio de cavalos e carros de fogo, em
redor de Eliseu (v. 17).

O primeiro era a força mais poderosa da Terra! Possuía carros e cavalos e era praticamente
invencível. Seus guerreiros eram altamente treinados e estavam acostumados a matar. Brandiam suas
espadas e lanças em direção ao profeta e seu moço.
O segundo era a força mais poderosa do Céu! Também tinha carros e cavalos, mas a diferença é
que eram carros e cavalos de fogo! O fogo simboliza poder e glória. O segundo exército era
composto de uma legião de anjos celestiais que, imponentes, reluziam a majestade daquele que os
enviara.
O exército do Senhor sempre será maior e mais poderoso que o exército inimigo. A Bíblia diz que
Ben-Hadade II tinha soldados suficientes para cercar a cidade. Isso quer dizer que eram milhares de
homens. Pelas características dos anjos, sabemos que se apenas um deles viesse do Céu, teria poder
suficiente para aniquilar todos aqueles homens. Porém, o Senhor enviou um “exército de anjos” para
socorrer Seu servo! Parecia até um exagero, mas Deus queria mostrar a Eliseu e ao moço que Ele tem
poder de sobra para resolver todo e qualquer problema.
Homens e mulheres que dedicam a vida ao Senhor constantemente estarão cercados pelo exército
inimigo. Pedro afirma que o diabo vive ao nosso redor bramando como um leão (1Pe 5:8). Contudo,
tal como nos tempos dos profetas, o Senhor enviará Seus poderosos anjos para os guardarem de todo
mal e perigo.
Laila era uma colportora estudante na cidade de Marabá. Era modesta e simples, mas chamava a
atenção por onde passava, pois era uma moça cristã e muito simpática. Estava muito contente pela
oportunidade de fazer o trabalho do Senhor, e seu rosto irradiava felicidade. Todos os dias, saía para
vender livros cristãos e, quando tinha oportunidade, orava com os clientes, oferecendo
posteriormente estudos bíblicos a eles. Certa noite, fui visitar sua equipe, e todos ali estavam
comentando o que havia ocorrido com ela naquele dia. Naquela tarde, Laila havia feito as últimas
entregas daquele período de férias. Tomou o ônibus que atravessaria diversos bairros da cidade até
deixá-la perto da casa em que estava alojada. Depois de quatro paradas, subiram seis homens mal
encarados e se assentaram próximos a ela. A jovem colportora ficou preocupada, pois quase todo o
dinheiro de sua bolsa de estudos estava na sacola que levava nos braços.
Infelizmente, suas suspeitas se confirmaram. Aqueles homens eram assaltantes, e logo que o ônibus
passou por algumas ruas desertas, eles renderam o motorista e desviaram o veículo do trajeto com o
objetivo de roubar os passageiros. Ameaçavam a todos com suas armas e diziam que iriam matar
aqueles que tentassem enganá-los escondendo algum dinheiro ou joias. Laila estava com muito
dinheiro e, não podendo esconder o nervosismo, começou a chorar. Enquanto isso, os assaltantes iam
esvaziando os bolsos e sacolas de todos os passageiros. Curiosamente, foram deixando-a por último,
mesmo estando muito próximos a ela. Laila clamava silenciosamente ao Senhor pedindo que Seus
anjos a protegessem uma vez mais. Enquanto orava, um dos bandidos tomou-lhe a sacola das mãos.
Tentou abrir, mas o zíper enguiçou, e a bolsa simplesmente não abriu. Laila, então, tomou coragem e
disse a ele:
– Moço, eu estou nesta cidade fazendo o trabalho de Deus e, neste momento, Ele está enviando um
anjo para me socorrer!
Aquele homem olhou rapidamente para o lado e, aparentemente, viu mesmo o anjo de Deus, pois se
assustou, deu um grito e jogou a bolsa com todo o dinheiro de volta para Laila. Em seguida, saiu
correndo. Seus companheiros, vendo aquela situação, também saíram “voando” do ônibus e
desapareceram no matagal, não sem antes tropeçar, caindo duas ou três vezes! Laila foi a única
passageira a não ser assaltada. Provavelmente, ela portava mais dinheiro que todos os que estavam
ali juntos, mas o anjo do Senhor a protegeu.
À noite, durante a reunião, todos nos alegramos com o testemunho da colportora estudante e, mais
uma vez, tivemos a certeza de que “o anjo do Senhor acampa-se ao redor dos que O temem, e os
livra” (Sl 34:7).
Podemos concluir que, quando Eliseu disse a seu moço: “não temas”, ele sabia perfeitamente o que
estava falando. Mesmo que, aos olhos humanos, estivessem em apuros, podia antever o que ninguém
mais sequer imaginava. Enquanto o moço via tragédia, Eliseu via livramento.

Em resumo
• O medo é um sentimento natural nos seres humanos, e não devemos nos recriminar porque
o sentimos. Ele nos ajuda a estar melhor preparados para enfrentar situações difíceis, e é
também uma proteção contra riscos desnecessários.
• Existe um tipo de medo que não devemos ter: o medo de fazer a vontade do Senhor.
• Ao decidir aceitar o chamado de Deus, enfrentaremos muitos desafios, porém, não
precisamos temer, uma vez que Ele nos assegura que, se necessário, fará milagres para nos
proteger.
• Para vencer o medo, precisamos relembrar o que Deus já fez por nós no passado,
desenvolver uma vida de oração, ter a certeza de que Ele tem poder para resolver qualquer
problema e confiar que os anjos se acampam ao nosso redor e nos protegem.
11 A Máxima
Recompensa

Quando os redimidos estiverem perante Deus, responderão ao chamado preciosos


corações que ali estão por causa dos fervorosos e perseverantes esforços feitos em
seu benefício, e das súplicas e intensa persuasão para que fujam para a Fortaleza.
Dessa forma, os que neste mundo têm estado a cooperar com Deus, receberão a sua
recompensa (O Colportor Evangelista, p. 156).

O moço “viu que o monte estava cheio de cavalos e carros de fogo, em redor de Eliseu”.
– Olhe, mestre! – exclama o moço. – Nosso exército é muito maior e mais forte que o deles! Agora
estamos salvos! – grita efusivamente o rapaz.
– Nem parece que você estava morrendo de medo agora há pouco! – responde o profeta.
– E como não poderia estar assustado, Sr. Eliseu? É a primeira vez que tenho que enfrentar sozinho
um exército, e ainda não aprendi a fazer milagres. Ainda bem que você está aqui com seus guarda-
costas particulares. Por algum tempo, pensei que iria morrer, mas, graças a você, agora tenho
esperança.
Nesse momento, uma grande fileira de anjos se posiciona entre Eliseu, seu moço e os inimigos. Os
enviados do Céu brilham tanto que ofuscam a visão do inimigo, cegando-os por algum tempo; porém,
emanam raios suaves que ampliam a visão de Eliseu e seu aprendiz. O moral, que estava em
frangalhos, logo se recupera e ganha forças. O homem de Deus protagoniza mais um milagre, e a
esperança volta a reinar.
Quantas pessoas, em nossos dias, vivem cercadas de exércitos de demônios que as assombram dia
e noite, destruindo qualquer possibilidade de uma vida feliz! Desgraças assolam pobres e ricos,
jovens e idosos, homens e mulheres. Vidas são destruídas em um piscar de olhos. Não é preciso
enumerar a quantidade de tragédias naturais, acidentes, assassinatos, traições, guerras, fome,
problemas familiares, problemas financeiros e tantos outros que configuram um cerco intransponível
para a espécie humana. Esteja onde estiver, o ser humano vive rodeado de aflições.
O mundo precisa de esperança, e é justamente aí que aparece a figura do homem de Deus. Tal como
Eliseu abriu os olhos de um garoto condenado à morte, restaurando-lhe a possibilidade de viver,
Deus envia hoje Seus representantes para dar nova visão aos oprimidos pela dor. Como tenho tentado
mostrar ao longo deste livro, todos os cristãos são chamados para essa tarefa. É incrível o poder que
está à nossa disposição para fazer o bem. Basta que aceitemos o convite, e milagres começarão a
acontecer. O Senhor pode usar todos, independentemente de idade, sexo ou condição social, para Seu
serviço em favor da espécie humana caída. E pode ter certeza: não existe melhor recompensa do que
ver pessoas sendo salvas para o reino de Deus por seu intermédio!
Ao longo da vida, tive muitas confirmações dessa verdade. Algumas ocorreram no ano de 1988,
quando, ainda cursando Teologia, fui convidado a participar de uma série evangelística na cidade de
Santo Antônio de Jesus, interior do estado da Bahia. Fazia o terceiro ano e, dentro de
aproximadamente um ano, seria pastor. Muitos eram os sonhos para o futuro, mas as
responsabilidades de ser um ministro do Evangelho me assustavam um pouco.
Uma nuvenzinha de medo sempre ocupava um lugar especial em minha mente. O tempo ia passando,
a formatura tão almejada se aproximava, e eu ainda não conseguia me sentir um “homem de Deus”.
Como é que um jovem, com tantos pecados e com tantas limitações, poderia assumir o lugar do
apóstolo Paulo na conclusão da obra? “Impossível”, pensava eu! Orava muito para que, durante
aquele período de evangelismo, o Senhor me enviasse uma resposta.

O cacto que floresce


As conferências começaram no mês de agosto e se estenderam até o final de novembro. Comigo
estavam mais dez colegas de classe, ávidos para aprender com o pastor Jefte Carvalho, um dos
grandes conferencistas da época. Todos apostavam que eu seria o campeão de batismos, pois sempre
tive muito sucesso na colportagem. Porém, definitivamente, dar estudos bíblicos não é o mesmo que
colportar. Apesar de se parecerem muito, essas atividades são totalmente diferentes.
Quinze dias antes de começar a programação às noites, tínhamos que espalhar convites pela cidade
e também visitar pessoas em seus lares. O sol era muito quente e, mesmo assim, tínhamos que usar
gravata e camisa de manga longa. Não era fácil caminhar grandes distâncias naquele calor. Parecia
que estávamos no deserto sem um oásis para refrescar. Em nossa equipe havia um estudante africano
que sempre levava consigo uma bolsa que mais parecia uma mala.
Depois de algum tempo, descobrimos que, além da Bíblia e dos formulários para estudos, o
Euclides colocava ali uma enorme garrafa de água e muitas frutas. Nos intervalos entre uma visita e
outra, deliciava-se com o mini banquete. Até que um dia nós substituímos as frutas por pesadas
pedras. Foi “divertido”, mas não sensato, ver nosso amigo sair de casa carregando aquele peso
inútil. Depois de ter feito essa traquinagem própria de companheiros de classe, todos nos
arrependemos, mas já era tarde e não havia celular para avisá-lo; assim, tivemos que conviver com
aquele mal-estar durante dias. Hoje nos recordamos com alegria daqueles momentos, pois
continuamos sendo bons amigos.
Faltando três dias para começarem as conferências, o pastor Jefte fez uma reunião conosco,
perguntando quantos inscritos nos cursos bíblicos cada um de nós havia conseguido. Em seguida,
cada um foi falando a quantidade de matrículas. Uns conseguiram trinta, outros, quarenta, outros,
vinte, porém eu, apenas cinco. Que decepção! Quase morri de vergonha ao apresentar o meu
relatório. Como podia ser? Colportar era tão fácil! Como não conseguia me adaptar àquela tarefa?
Hoje, sei que Deus precisa de pessoas em todas as áreas, e Ele tornou a colportagem uma paixão em
minha vida, exatamente porque, tanto naquela época quanto em nossos dias, em uma turma de
formandos, mais de noventa por cento preferem atuar como pastores distritais, uns poucos como
professores de Bíblia e raros são os que almejam a colportagem. Creio que, por isso, o Senhor
colocou essa paixão em meu coração e não permitiu que me desviasse dela.
Mas, ainda assim, era questão de honra participar daquele programa, e procurei fazê-lo, mesmo
imaginando que não me dedicaria a essa área no futuro. Decidi trabalhar arduamente para evangelizar
aquelas cinco pessoas, e o fiz. Todos os dias, visitava cada um deles e tentava inscrever novas
pessoas, sem muito sucesso. Depois de algum tempo, consegui aumentar para quinze o número de
alunos estudando a Bíblia. As noites de reuniões eram uma festa. Eu era o responsável pelo projetor
(uma grande e pesada máquina de passar filmes em rolos de 16 milímetros) e também pelo louvor.
Essa era a parte de que mais gostava de participar.
Certa vez, para ajudar no louvor, formamos um quarteto. Éramos muito desafinados. Nosso chefe
nos deu o apelido de “foem”, pois dizia que fazíamos muito barulho, mas cantar, que era bom, nada!
Para falar a verdade, o dom da música não era nosso principal talento. Não havia primeiro e segundo
tenor, barítono e baixo, e sim os que cantavam “mais grosso” e os que cantavam “mais fino”. Para
não deixar meus amigos em maus lençóis, vou omitir seus nomes, mas, hoje, todos são pastores, e
somos muito amigos. Certa noite, um senhor que nos visitava assistia ao quarteto como se fosse a
oitava maravilha do mundo. Emocionava-se e vibrava a cada música. Ao fim da programação, ele e
alguns amigos nos cercaram pedindo autógrafos.
– Sempre os ouvi pelo rádio, mas nunca imaginei que um dia viriam à minha cidade! – disse ele,
efusivamente.
Isso aconteceu porque, durante o dia, meu colega André e eu saímos nas ruas da cidade com um
grande alto-falante em cima do carro anunciando: “Venha participar da série de palestras que estão
sendo patrocinadas pela Voz da Profecia”. Como naquele tempo não havia a TV Novo Tempo, o
Quarteto Arautos do Rei era conhecido através das ondas do rádio, e o Sr. Antônio 1 achou que nós
éramos os tais Arautos. Sinceramente, penso que Deus operou um milagre. Em alguns casos, como o
jovem de Eliseu, Ele “abre os olhos”; em outros, Ele “fecha os ouvidos”.
Não tivemos coragem de desiludir nosso visitante logo na primeira noite, e prometemos uma visita
do “quarteto” em sua casa. No dia marcado, lá estavam ele e muitos vizinhos para assistir ao quarteto
que não era lá tão afinado. Cantamos vários hinos e, ao final, de cada apresentação, ouvíamos
“glória”, “aleluia” e uma vibrante salva de palmas. Mais uma vez, tive a certeza de que o Senhor
fechou os ouvidos dos participantes. Como resultado desse “concerto”, muitos ali decidiram estudar
a Bíblia, inclusive o seu Antônio. Somente depois de alguns dias, tivemos a coragem de dizer para
nossos alunos que não éramos os Arautos do Rei; na realidade, nem chegávamos perto deles. Mas,
para nossa surpresa, o Sr. Antônio disse:
– Para mim, vocês são ótimos, tão bons quanto eles! – O Sr. Antônio era de um coração generoso,
alma pura. Como era agradável conversar com ele!
Mas nossa alegria maior veio quando ele e alguns dos seus familiares decidiram entregar-se a
Jesus. Com essa experiência, Deus começava a me mostrar que não eram as aptidões naturais que me
habilitavam a me tornar Seu servo, mas a disposição de servi-Lo. Em meu “deserto”, um cacto
começava a florescer. Descobri que, mesmo com minhas limitações, poderia servir a Deus e comecei
a ver as orações respondidas.
A melhor certeza ainda estava por vir. Uma de minhas alunas era a Dona Maria. 2 Uma senhora
com aproximadamente sessenta anos que vivia em companhia dos filhos numa situação de extrema
pobreza. Sua pequena casa não tinha piso e nem forro. As paredes internas eram lençóis estendidos,
dividindo os ambientes em quarto, sala e cozinha. O banheiro ficava nos fundos, em uma casinha de
madeira, sem as mínimas condições sanitárias. Para conseguir algum dinheiro, Dona Maria fabricava
espoletas, um tipo de bomba inofensiva usada nas festas juninas, bem tradicionais naquela região.
Sua vida sempre foi muito difícil. Logo nos primeiros anos de casada, ficou viúva e, embora com
poucos recursos, criou os cinco filhos.
Todavia, nossos estudos mudaram sua vida. O olhar triste e o rosto decaído foram ganhando
vitalidade e, a cada semana, a Dona Maria, se tornava mais feliz. Sua condição social não a impedia
de colocar seu melhor (único) vestido de festas para assistir à nossa programação. Pouco a pouco,
pude ver o que o evangelho faz na vida de uma pessoa. Do pouco dinheirinho que ganhava, começou
a separar o dízimo e, mesmo criticada pelos filhos, devolvia com alegria. Eu também estava muito
feliz, pois sentia que Deus estava me usando para ajudar na transformação dessa mulher que, agora,
tinha esperança de trocar um barraco por uma mansão celestial! Finalmente, marcamos o dia de seu
batismo. Seria realizado dentro de duas semanas, ao final das conferências.
Infelizmente, o sofrimento daquela mulher ainda não havia chegado ao fim. Mesmo tendo levado
uma vida difícil até ali, o pior ainda estava para acontecer. Eram quatro da manhã de uma quinta-
feira, e alguém bateu palmas desesperadamente em frente à casa em que estávamos hospedados.
– Queremos falar com o João Vicente! – gritou um dos que estavam lá fora.
Saí um pouco assustado, mas logo reconheci um dos filhos da dona Maria.
– Mamãe precisa ir ao hospital, ela está muito mal, mas não temos carro para levá-la. Por favor,
nos ajude!
– Claro! – respondi.
Rapidamente, me arrumei, entrei no carro e fui para a casa daquela senhora. Ela se retorcia de dor
em cima da cama. Com a ajuda de um de seus filhos, tomei-a nos braços e a coloquei cuidadosamente
no banco de trás do automóvel. Dona Maria parecia muito leve e frágil. Tal qual um tesouro, procurei
protegê-la e, ao mesmo tempo em que corria em direção ao hospital, tentava desviar de todos os
buracos possíveis. Ao chegar ao centro médico, conseguimos interná-la, e ali ela permaneceu por
quase uma semana.
Todos os dias, eu a visitava, e mesmo estando sob rigorosos cuidados médicos, ela permanecia
consciente e incrivelmente feliz! Depois de muitos exames e um quadro de doença gravíssimo, fui
chamado novamente para buscá-la no hospital. Pensei que ela havia se recuperado e então poderia ir
para casa. Mas, ao contrário, sua saúde piorou e os médicos detectaram que ela estava com câncer
em fase terminal. Eles nos haviam chamado para levá-la para casa a fim de morrer em paz nos dias
seguintes. Infelizmente, não havia nada mais a fazer.
Tomei-a novamente nos braços. Em poucos dias, ela havia perdido cerca de doze quilos. Seu
corpo, que já era franzino, agora estava em pele e ossos. Qualquer um naquela situação não teria
motivos para estar feliz, porém, Dona Maria estava serena e tranquila. Sua única preocupação era
com o batismo, nos próximos dias, e me fez prometer que seria batizada, independentemente de seu
estado de saúde.
É claro que era um risco proceder à cerimônia na situação delicada em que se encontrava, mas esse
era praticamente seu último desejo. Sabíamos que seria muito difícil imergi-la, pois seu corpo
debilitado dependia de todo o oxigênio possível para seguir em atividade. Conversei com seus
familiares e também com o pastor Jefte e, juntos, tomamos a decisão de realizar seu desejo.
Durante os dias que antecederam seu batismo, o quadro se agravou ainda mais, porém, diariamente,
a visitava e orava com ela. No sábado, todos estávamos apreensivos com o que poderia acontecer,
menos a Dona Maria. Naquele dia, ela acordou bem melhor, e seus olhos esbugalhados irradiavam
alegria. Ainda inspirando cuidados, a levamos para o auditório. Ela foi a última a ser batizada.
Cuidadosamente, a colocamos em uma cadeira de plástico, que para ela simbolizava um trono de
ouro, e a descemos nas águas batismais. Pude ver sua felicidade ao ser submergida naquele tanque.
Ao sair dali, parecia até que não estava mais doente, mas todos sabíamos que o câncer ainda a
corroía por dentro. A cerimônia foi emocionante. Ao final do batismo, muitos estavam com lágrimas
escorrendo pela face.
No dia seguinte, fiz a última visita antes de voltar ao Colégio, uma vez que o período de
conferências havia terminado. Ao chegar, fui muito bem recebido por seus familiares, que se sentiram
tocados pelo Espírito Santo no dia anterior. A Dona Maria estava na cama, novamente com muitas
dores. Mesmo assim, fez um grande esforço para sentar-se e me abraçar. Com muita dificuldade,
balbuciou algumas palavras:
– Filha! Traga o presente para o pastor!
– Presente? – Interroguei eu em voz inaudível! – Essa senhora não tem dinheiro e nem tampouco
bens. Como pode querer me dar um presente?
Mas o fato é que tinha, sim, um presente! Um dos melhores que já ganhei! Rapidamente, uma de
suas filhas trouxe um pequeno vaso com um cacto e colocou em minhas mãos. Dona Maria, então, me
disse:
– Pastor João Vicente, guarde esse presente com você. Essa planta representa minha vida. Árida,
sofrida, cheia de espinhos, vivendo em um deserto de solidão. Porém, dentro de alguns dias, dessa
planta brotará uma linda flor. Essa flor simboliza o que sou agora, graças a você! Os muitos espinhos
ainda me incomodam, mas tenho a esperança de que, em breve, estarei com Jesus. Muito obrigada,
pastor!
Nosso último encontro foi emocionante.
Tinha certeza de que não a veria novamente,
O Mestre precisa de sua disposição como de fato não a vi, pois logo veio a
falecer. Vivia um misto de tristeza por saber
para ser um homem ou mulher de Sua que a Dona Maria estava no fim dos dias
inteira confiança. mas, também, uma radiante alegria por ter-
lhe dado o privilégio de viver uma nova
vida com Cristo. Além disso, mesmo com
todas as limitações que tinha, obtive a
certeza de que estava sendo usado pelo Senhor em Seu ministério. Saí daquela choupana com o cacto
nas mãos como se fosse uma barra de ouro! Durante o caminho de volta, recitei várias vezes o Salmo
26:6 que, de forma maravilhosa, havia se cumprido naquele momento: “Quem sai andando e
chorando, enquanto semeia, voltará com júbilo, trazendo os seus feixes”. Quando Jesus voltar para
buscar os salvos, quero ver de novo aquela humilde, mas simpática senhora. É claro que ela estará
completamente livre do câncer, e a única semelhança desde que nos encontramos pela última vez
naquele minúsculo e incômodo aposento serão as lágrimas de alegria! Penso que, no início, ela terá
um pouco de dificuldades de se adaptar à nova casa, que será completamente diferente daquela em
que vivia lá em Santo Antônio de Jesus, mas terá uma eternidade para se acostumar!
Por muito tempo, aquele pequeno cacto ocupou um lugar de destaque na estante do escritório em
minha casa. Certo dia, sem que esperasse, uma pequena e linda flor começou a desabrochar daquela
planta cheia de espinhos. Parecia mais uma confirmação de Deus para o meu ministério. Tive a nítida
impressão de que o Senhor me falou suavemente naquela hora. Senti que meus esforços foram
recompensados, e o trabalho havia frutificado. Toda a história da Dona Maria voltou à mente como
um filme, e logo pensei em quantas pessoas poderiam ser alcançadas se eu continuasse disposto a
trabalhar para o Senhor em uma área em que tivesse ainda mais afinidade, como o Ministério de
Publicações! Isso porque a palavra escrita tem poder, permanece por muito tempo e, quando chega ao
leitor, o faz com clareza inquestionável.
Obviamente, a frágil flor murchou, mas, de tempos em tempos, aparecia novamente, como um
lembrete do Céu dizendo: “Você é um homem da confiança de Deus”! Infelizmente, após tantas
mudanças, perdemos a pequena planta, porém, hoje, no jardim da casa em que moro, está plantado
um grande cacto que diariamente me faz recordar o dever de resgatar pessoas que vivem oprimidas
pelos espinhos do pecado e a recompensa de vê-las um dia no Céu.

Finalmente
A Bíblia descreve com detalhes impressionantes fatos que logo ocorrerão. Estamos prestes a
contemplar mudanças estruturais, culturais e políticas no mundo. “E, certamente, ouvireis falar de
guerras e rumores de guerras; vede, não vos assusteis, porque é necessário assim acontecer, mas
ainda não é o fim. Porquanto se levantará nação contra nação, reino contra reino, e haverá fomes e
terremotos em vários lugares; porém tudo isto é o princípio das dores” (Mt 24:6-8). Essas profecias
que apontam para o fim já estão se cumprindo em nossos dias.
Mesmo achando que é capaz de resolver seus próprios problemas, guerras, fome, violência,
traição, miséria e falsas esperanças alimentadas e disseminadas por oráculos do inimigo são o único
futuro que uma sociedade sem Deus pode esperar. Veja como a autora Ellen White descreve os
últimos momentos de nossa história:

As pragas que sobrevieram ao Egito quando Deus estava prestes a libertar Israel eram de
caráter semelhante aos juízos mais terríveis e extensos que devem cair sobre o mundo
precisamente antes da libertação final do povo de Deus. Diz o autor do Apocalipse,
descrevendo esses tremendos flagelos: “Fez-se uma chaga má e maligna nos homens que
tinham o sinal da besta e que adoravam a sua imagem.” O mar “se tornou em sangue como de
um morto, e morreu no mar todo ser vivente”. E os rios e fontes das águas “se tornaram em
sangue”. [...]
Na praga que se segue, foi dado poder ao Sol para que “abrasasse os homens com fogo. E os
homens foram abrasados com grandes calores”. Os profetas assim descrevem a condição da
Terra naquele tempo terrível: “E a Terra [está] triste; porque a colheita do campo pereceu.”
“Todas as árvores do campo se secaram, e a alegria se secou entre os filhos dos homens.” “A
semente apodreceu debaixo dos seus torrões, os celeiros foram assolados.” “Como geme o
gado! As manadas de vacas estão confusas porque não têm pasto. [...] Os rios se secaram, e o
fogo consumiu os pastos do deserto.” “Os cânticos do templo serão gritos de dor naquele dia,
diz o Senhor Jeová; muitos serão os cadáveres; em todos os lugares serão lançados fora em
silêncio” (Jl 1:10-12, 17-20; Am 8:3). 3

Brevemente, a sobrevivência em nosso planeta será simplesmente inviável. Além das tragédias
ocasionadas pelas forças da natureza, logo veremos os poderes das trevas se manifestando em toda a
sua plenitude. Anjos caídos andarão visivelmente entre os homens, tentando seduzi-los para depois
destruí-los.

Terríveis cenas de caráter sobrenatural logo se manifestarão nos céus, como indício do
poder dos demônios, operadores de prodígios. Os espíritos diabólicos sairão aos reis da
Terra e ao mundo inteiro, para segurá-los no engano e forçá-los a se unirem a Satanás em sua
última luta contra o governo do Céu. Mediante esses agentes, serão enganados tanto
governantes como súditos. Pessoas se levantarão pretendendo ser o próprio Cristo e
reclamando o título e culto que pertencem ao Redentor do mundo. 4

Como vemos, o mundo caminha em direção ao caos, e não há nada que possa fazer para se salvar a
não ser acreditar na ilusão de que tudo terminará bem!
Em um cenário assim, homens e mulheres de Deus serão a única fonte segura em que a humanidade
encontrará a verdadeira esperança. Eles fazem parte do “projeto resgate” do Céu. São a prova real
de que o bem pode triunfar sobre o mal. Sua presença é imprescindível para mostrar o caminho da
salvação. Precisam brilhar como estrelas em todos os lugares. Sua mensagem deve ser proclamada
aos quatro cantos da Terra. Aqueles que conseguirem salvar os reconhecerão como mensageiros
celestiais e desempenharão o papel que anjos gostariam de protagonizar.
Ao contrário do que a nomenclatura venha a sugerir, mesmo parecendo especiais, essas pessoas são
tão normais como qualquer ser humano. Não nasceram com superpoderes nem tampouco com
modificações genéticas que as colocam acima das leis naturais. A única diferença entre elas e os
outros é a reação diante do chamado. Ao se colocarem nas mãos do Criador, entregando-se a Ele sem
restrições, desenvolvem, naturalmente com a ajuda do Espírito Santo, as características mencionadas
neste livro, além de muitas outras que as habilitam a se tornar homens e mulheres de Deus. Isso
permite que sejam usadas para efetuar o maior projeto de resgate na história da humanidade,
estabelecido pelo próprio Jesus há quase dois mil anos: Pregar o evangelho a todos os habitantes da
Terra enquanto há tempo (Mt 24:14).

Agora é com você!


Neste exato momento, o Senhor está formando um grupo com milhares, senão milhões de pessoas,
que se disponham a resgatar das garras do inimigo a humanidade pecadora. Ainda é possível
participar desse “pelotão de elite”! A Bíblia diz que anjos do Céu estão segurando os ventos que
abalarão a Terra, esperando a conclusão da tarefa que Seu exército levará a cabo.

Depois disto, vi quatro anjos em pé nos quatro cantos da Terra, conservando seguros os
quatro ventos da terra, para que nenhum vento soprasse sobre a terra, nem sobre o mar, nem
sobre árvore alguma. Vi outro anjo que subia do nascente do sol, tendo o selo do Deus vivo, e
clamou em grande voz aos quatro anjos, aqueles aos quais fora dado fazer dano à terra e ao
mar, dizendo: Não danifiqueis nem a terra, nem o mar, nem as árvores, até selarmos na fronte
os servos do nosso Deus (Ap 7:1-3).

Dada a urgência e grandiosidade da missão, não importa sua profissão, preparo intelectual, raça,
cor, estado civil, status social, condição financeira, idade, origem ou qualquer outra particularidade
que o qualifique ou mesmo desqualifique aos olhos humanos. O Mestre precisa de sua disposição
para ser um homem ou mulher de Sua inteira confiança.
Homem de Deus ou mulher de Deus! Acostume-se com esse título, pois é assim que você será
conhecido ao aceitar o desafio que o grande Comandante lhe faz agora: “Depois disto, ouvi a voz do
Senhor, que dizia: A quem enviarei, e quem há de ir por Nós? (Is 6:8). Acredite! Ele faz essa
pergunta porque confia em você, e responder “eis-me aqui, envia-me a mim” é muito mais que aceitar
um trabalho; é integrar-se à missão de salvar. O pagamento também é infinitamente maior que um
salário; é a antecipação da recompensa, que será eterna. Portanto, aceite agora mesmo esse grande
desafio e seja homem ou mulher de Deus, mantendo sempre a “confiança máxima” em suas
promessas, até que Ele venha nos levar para o lar.

1
Nome fictício.
2
Nome fictício.
3
O Grande Conflito, p. 628.
4
ibid., p. 624.
Dê a sua opinião
Prezado leitor, para expressar sua opinião sobre esta obra,
você pode entrar em contato com o autor utilizando o e-mail:
[Link]@[Link], seguir o twitter: @joaovpereyra
([Link]/joaovpereyra) ou visitar a página no Facebook:
“João Pereyra”.
Se gostou deste livro, leia também Milagres não Ocorrem por
Acaso, uma obra do mesmo autor que relata de maneira prática e
emocionante lições extraídas da primeira parte do texto que
você acaba de estudar. Além disso, você encontrará muitas
histórias reais de milagres que Deus opera em nossos dias para
nos ajudar a vencer os maiores desafios.

Conheça o autor
João Vicente Pereyra é natural de Porto Alegre, RS. Casado
com Isaura Marli K. Pereyra, tem dois filhos: João Vicente
Pereyra Jr. e Matheus Guilherme Pereyra. Estudou no Instituto
Adventista Cruzeiro do Sul (Iacs), no Educandário Nordestino
Adventista (ENA) e no Instituto Adventista de Ensino do
Nordeste (Iaene). Bacharel em Teologia, formado em 1989,
trabalhou como diretor de Publicações nas Associações Rio de
Janeiro, Sul-Paranaense, Norte-Paranaense, Sul-Rio-Grandense
e na União Norte Brasileira da Igreja Adventista do Sétimo Dia.
Na União Chilena, atuou como diretor de Publicações e
Comunicação, durante cinco anos. Participou de inúmeros
cursos de complementação na área de marketing e vendas.
Atualmente, é gerente de Vendas e Marketing da Casa
Publicadora Brasileira. O Ministério de Publicações é sua
motivação principal. Como hobby, aprecia a boa leitura, música
e comunicação.

Common questions

Com tecnologia de IA

The theme of "vision of the future," exemplified by figures like Elisha and Joseph, correlates with modern leadership in emphasizing the ability to foresee potential outcomes and prepare strategically. In biblical narratives, this foresight is often attributed to divine insight, while in contemporary contexts, it relates to strategic planning and future readiness, highlighting the universal value placed on vision and anticipation as critical leadership qualities .

A 'man of God' should exhibit trustworthiness, integrity, humility, and accessibility. These individuals are expected to demonstrate a steadfast commitment to truth and responsibility, allowing others to confide in their judgment and leadership. These traits enable them to resolve problems efficiently, as illustrated by Joseph, whose reliability and divine insight gained him people’s trust and positioned him for effective leadership and crisis management .

Elisha demonstrated qualities such as faith, vision, the ability to provide guidance and protection, and performing miracles. His actions, like warning the king of Israel about enemy movements and his prayer to open his servant's eyes to see divine protection, illustrate his deep faith and insight which were key in being recognized as a 'man of God' .

The concept of 'influence over time' in the context of a 'man of God' involves not just immediate impact but enduring legacy. Biblical characters like Elisha and Joseph left lasting influences that extended beyond their lifetimes, through teaching disciples and transforming societies. Their legacies were shaped by their adherence to divine purpose, showing that the essential impact of a 'man of God' lies in their enduring contributions to future generations .

Faith is a central pillar shaping both the actions and decisions of 'men of God.' It informs their confidence and vision, as seen in Elisha's prayer to reveal divine protection to his servant or Joseph's strategic planning during crises. Faith guides them in trusting divine wisdom over their understanding, enabling them to undertake actions greater than themselves and to inspire others with trust in divine providence .

Joseph's story is a profound example of divine providence working hand-in-hand with personal preparation and capability. Despite being wrongfully imprisoned, his intelligence and administrative skills gained him trust and eventually led to his rise as Egypt's savior during famine. His success was attributed to both divine blessing and his diligent and effective management, demonstrating that successful leadership in a spiritual context depends as much on personal development as it does on divine intervention .

The Syrian king's actions against Elisha underscore his recognition of Elisha's influence and capability as a prophetic figure. Elisha's ability to relay seemingly secret plans to the king of Israel showed his divine insight, elevating his status and influence to a threat in the eyes of his enemies. The king's attempt to capture him indicates the substantial spiritual power attributed to 'men of God,' seen as vital figures capable of altering political and military outcomes .

Joseph's leadership in Egypt is marked by strategic delegation, where he assigned administrative responsibilities to others, such as managing food storage and distribution during the famine. This allowed him to maximize efficiency and focus on larger strategic goals, reflecting the Biblical principle that true leaders empower others to share in their responsibilities .

Pedro exemplified the qualities of a 'man of God' through his generosity and unwavering faith despite difficult circumstances, such as financial hardships in the host family. He inspired and fortified the faith of those around him by being a personal counselor and living a life that exhibited kindness and empathy, ultimately contributing to an enriched spiritual environment .

The author used the expression "man of God" as a thematic thread throughout the chapters, serving both as a methodological guideline and a conceptual compass to explore spiritual characteristics. This involved identifying traits in biblical narratives attributed to figures like Elisha that justified the designation "man of God," examining their lives for practical application, and discussing outcomes of these experiences .

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