Tradução Poética: Dickinson e Virgillito
Tradução Poética: Dickinson e Virgillito
INSTITUTO DE LETRAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS E LINGÜÍSTICA
SERGIO ROMANELLI
SALVADOR
2003
1
SERGIO ROMANELLI
SALVADOR
2003
2
A
Rina Sara Virgillito e Sonia Giorgi, pela Revelação.
3
Emily Dickinson
4
RESUMO
ABSTRACT
This project deals with the thoroughly examined issue of translatability of poetical texts not
only in different languages but also from different cultures. The approach specially concerns
the challenges that a particular form of translation implies – that of poetical texts. Roman
Jakobson sustained the argument of intranslatability of literary texts due to difficulties in
shifting over to another language the semantic load they bear; some other authors –
Laranjeira, Meschonnic, Eco, Pound, the Campos Brothers among them – stated the opposite.
The first one based on the benjaminian concept of significance to defend translatability and
considered that translation should be ‘rewriting the other way round’ from the departure text,
aiming to the reproduction of its significance, that is, its way of meaning, of shaping poetical
meanings. In this research this concept of significance, together with the descriptive theories
of Gideon Toury and José Lambert constituted the theoretical reference that guided the
analysis of the translation of the American writer Emily Dickinson’s poems as made by a
‘canon poet’ – the Italian Rina Sara Virgillito – and by seven ‘non canon’ poets. By means of
the Descriptive Studies of methodology there was an attempt at referring back from the
translations (considered as originals) to several strategies and norms not only linguistics (also
editorial, poetical) that conditioned the various translators.
SUMÁRIO
LISTA DE TABELAS 08
1. INTRODUÇÃO 09
5. CONCLUSÃO 107
APÊNDICE 115
8
LISTA DE TABELAS
1. INTRODUÇÃO
Para Benjamin (1923), a “tarefa do tradutor” não é, como a teoria ortodoxa da tradução
sustentava, de restituir o sentido do original, mas, ao contrário, de redoar a forma do original.
Já que a obra de arte não é comunicação, não cabe ao tradutor transmitir o mero sentido
referencial, mas concentrar-se na sua missão principal, que é a de perseguir a significância do
texto, o seu “modo de tencionar”, o “modo de significar“ ou como afirma Umberto Eco
(1995), o “modo de formar”. Essa despreocupação com a reprodução do sentido do original
liberta também o tradutor da ameaça da não-fidelidade ao texto de partida. Já que o texto não
deve comunicar nada, os conceitos de “fidelidade” e “liberdade” revelam-se abstrações dos
teóricos.
Nesta pesquisa, esse conceito benjaminiano de significância e as teorias descritivas de
Gideon Toury e José Lambert constituirão a fundamentação teórica que norteará a análise das
traduções das poesias da americana Emily Dickinson feitas por um poeta reconhecido pelo
cânone – a italiana Rina Sara Virgillito – e por sete tradutores não reconhecidos pelo cânone.
Por poeta “potencial” ou poeta não reconhecido pelo cânone se entende um tradutor que lida
com poesia, mas pode não ter publicado coletâneas de versos na língua materna ou tê-las
publicado e, contudo, não ser reconhecido socialmente como poeta.
Utilizando a metodologia dos Estudos Descritivos procurar-se-á retornar das traduções
(consideradas à maneira de originais) às estratégias e às normas não somente lingüísticas
(mas, por exemplo, editoriais e poéticas) que condicionaram os vários tradutores.
Pretende-se então, abordar a questão da traduzibilidade de textos poéticos não do
ponto de vista normativo – para estabelecer presumidos graus de “fidelidade” ao texto original
-, mas do ponto de vista descritivo.
Os Estudos da Tradução excluem os limites de abordagens meramente lingüísticas da
tradução e propõem um novo esquema de análise das mesmas, que se fundamenta sobre uma
diferente definição de conceitos cardeais da teoria da tradução: muda, assim, abruptamente a
perspectiva de análise que não é mais a do texto de partida (source text), o presumido original,
mas a do texto de chegada (target text).
Além disso, a visão não fica mais limitada aos textos, mas, sobretudo, às culturas de
chegada e de partida, ganhando específica relevância a cultura do pólo receptor, assim como
os fatores sociais, políticos e culturais, que por intermédio de normas especificas influenciam
as estratégias dos tradutores. Os textos traduzidos e a literatura alcançam um status próprio e
específico, o de textos originais que possuem uma vida própria dentro do sistema, ou
polissistema de chegada.
12
O objetivo dos Estudos Descritivos e, portanto, desta pesquisa, é de, mediante uma
análise dos textos traduzidos considerados como originais, destacar as recorrências que
podem revelar determinadas estratégias tradutórias para remontar às normas ou restrições que
as originaram, as que Toury chama de translation norms.
No caso em questão, analisar-se-ão textos poéticos visando a ilustrar se realmente
existe uma diferença muito grande entre as estratégias adotadas por poetas reconhecidos pelo
cânone e as dos não reconhecidos pelo cânone, e se é possível remontar às razões que
originaram esses diferentes comportamentos.
Levantar-se-ão as hipóteses de que o poeta e os tradutores optam por diferentes
procedimentos. O primeiro - contestando a asserção um tanto quanto radical e totalmente
target oriented de Toury, que, mesmo assim, constituirá a fundamentação metodológica de
referência desta pesquisa - não seria influenciado no ato tradutório somente pelo sistema de
chegada, que inclui, como disse Lafevere (1992), editoras, padrões poéticos, etc. - mas,
segundo Benjamin, estaria mais preocupado com a realização de uma certa poeticidade do
texto de chegada (e por isso estaria mais influenciado pela própria poética que resultaria no
texto a ser traduzido) e não com a comunicação de algo que como poeta não lhe cabe.
Ao contrário – mediante a análise dos textos e das suas ocorrências – quer se mostrar
como os tradutores não reconhecidos pelo cânone sofrem as restrições dos polissistemas de
chegada (sobretudo das editoras), e das normas poéticas, e como estão direta e forçosamente
preocupados, pelas devidas razões, de tornar o texto o mais comunicável possível - sobretudo
em se tratando de textos de um poeta, como no caso desta pesquisa, isto é, de Emily
Dickinson – que tanto se afastam dos padrões lingüísticos e culturais, quer do próprio sistema
de partida, quer do sistema de chegada.
Outro fator que se considerará como causa de diferentes comportamentos é a
motivação: de fato, o poeta reconhecido pelo cânone geralmente escolhe traduzir outro por
razões de mera afinidade poético-lingüístico-cultural, enquanto os poetas não reconhecidos
pelo cânone, por sua vez, raramente têm esse privilégio, já que devem sujeitar-se aos ditames
do mercado.
A tradução de textos, e conseqüentemente o tradutor, encontrar-se-iam, assim, no meio
de dois processos conflitantes: um originário (a motivação) e um de chegada (as normas do
sistema receptor), que dariam origem a diferentes produtos conflitantes entre si, com o próprio
sistema de chegada e, enfim, com os textos de partida.
A metodologia que se adotará para averiguar essas hipóteses será, como já foi dito, a
teorizada por Toury e Lambert com o seu esquema hipotético de análise de textos traduzidos.
13
1
Para um histórico mais aprofundado do termo Lingüística Aplicada, veja-se BOHN, H. I.;VANDRESEN, P.
Tópicos de Lingüística Aplicada. O Ensino de línguas estrangeiras. Florianópolis: Editora da UFSC, 1988, p.
11-35.
16
2
O termo estruturalismo se aplicou e se aplica a escolas lingüísticas bastantes diferentes. Elas têm em comum
concepções e métodos que implicam a definição de estrutura em lingüística. As diversas escolas
(Distribucionalismo, funcionalismo e glossemática) fundamentam a lingüística sobre o estudo dos enunciados
realizados. Assim, a lingüística tem por escopo elaborar uma teoria do texto considerado como acabado
(fechado) e utilizar para esse fim um método de análise formal. Desse modo, o estruturalismo coloca de início o
princípio da imanência, limitando-se o lingüista ao estudo dos enunciados realizados, tentando definir sua
estrutura. Em contrapartida, tudo o que diz respeito à enunciação (principalmente o sujeito e a situação
considerados de um certo modo como invariantes) é deixado de lado pela pesquisa. [...] Foi-se, assim, conduzido
ao estudo do sistema tal como ele funciona, num momento dado, em equilíbrio (estudo sincrônico) na medida em
que o estudo histórico (diacrônico) parece a própria negação do sistema. Assim, o estruturalismo baseia a
economia lingüística no funcionamento sincrônico do código. Coloca-se a priori, pra um conjunto de enunciados,
a existência de uma estrutura que se deve em seguida segmentar, baseando-se numa análise imanente; os códigos
são considerados irredutíveis uns aos outros; pergunta-se, então, como a tradução de uma língua para outra é
possível, e se sustenta, com Y. Bar-Hillel, que ela jamais é total. Por pouco que se preserve, as micro-estruturas
de uma mesma língua (um campo léxico em relação a outro) são irredutíveis, também elas, umas em relação à
outra. Essa independência de uma estrutura em relação a outra acompanha certo número de postulados
concernentes ao plano dos significados e ao plano dos significantes. A relação entre significado e significante é
considerada arbitrária e, salvo exceções (motivação), não há relação ente forma do signo e objeto designado.
(Para outras informações sobre o estruturalismo ver J. DUBOIS et alii. Dicionário de Lingüística. São Paulo:
Cultrix, 2001, p. 248-50).
3
Do grego logos, que significa discurso, lógico, razão, palavra de Deus.
4
Famosa a classificação da interpretação de um signo verbal de Jakobson em: tradução intralingual ou
reformulação que consiste na interpretação dos signos verbais por meio de outros signos verbais da mesma
língua; tradução interlingual ou tradução propriamente dita que consiste na interpretação dos signos verbais por
meio de alguma outra língua e tradução intersemiótica ou transmutação que consiste na interpretação dos signos
verbais por meio de sistemas de signos não–verbais.
17
divergências estruturais de uma língua com a ajuda das estruturas lexicais, por empréstimos,
calcos, neologismos, transferências semânticas etc. Em suma, para Jakobson é possível
traduzir literalmente a totalidade da informação conceitual contida no original.
Essa concepção cartesiana de linguagem5 é o pano de fundo de quase todas as teorias
da tradução que consideram e descrevem o processo tradutório como uma substituição ou
transferência de significados fixos de um texto para outro.
Já em 1965, Noam Chomsky chamava a atenção para considerar com uma certa
cautela as implicações da gramática gerativa6 sobre a teoria da tradução:
The existence of deep-seated formal universals [...] implies that all languages are cut
to the same pattern, but does not imply that there is any point by point
correspondence between particular languages. It does not imply, for example, that
there must be some reasonable procedure for translating between languages (1965,
p. 30).
5
Faz-se geralmente remontar aos cartesianos o projeto de gramática universal: os termos gramática geral,
gramática filosófica e gramática universal, com esse emprego, são sinônimos A gramática universal formula
“observações que convêm a todas as línguas” (DU MARSAIS). A gramática universal não tem então como
objeto de estudo mecanismos necessários e comuns a todas as línguas, isto é, os universais lingüísticos. Todavia
o projeto dos cartesianos fica limitado por sua concepção da relação entre língua e pensamento. O ineísmo
cartesiano conduz à crença numa “ordem natural dos pensamentos”; as regras universais do discurso, então, já
não pertenceriam à lingüística, mas à lógica. [...] Já no século XX, observa-se que as gramáticas descritivas não
propõem o problema da universalidade. Foi com a gramática gerativa que o problema se formulou novamente.
As gramáticas gerativas das línguas naturais devem decorrer de uma teoria lingüística. A teoria lingüística
estabelece como objeto a elaboração de um tratamento dos universais lingüísticos. Ora, tais universais são de
duas naturezas, e só a primeira categoria foi suficientemente estudada até aqui. Qualquer língua contém
universais de substancia: a gramática universal, por exemplo, afirma que categorias sintáticas, como o verbo, o
substantivo, etc., fornecem a estrutura subjacente geral de todas as línguas. Mas qualquer língua contém também
universais formais: os objetos manufaturados, por exemplo, são definidos a partir da atividade humana e não de
suas qualidades físicas. A existência dessa segunda categoria de universais deve ser levada em conta pela teoria
lingüística geral, “gramática universal”, que vem a coroar as gramáticas gerativas das línguas; o que está
implícito em tais constatações é que todas as línguas são construídas a partir do mesmo modelo, embora a
correspondência assim estabelecida não postule o isomorfismo das línguas, que jamais coincidem ponto a ponto.
(Para maiores informações sobre a gramática universal ver J. DUBOIS et alii. Dicionário de Lingüística. São
Paulo: Cultrix, 2001, p. 316-8).
6
A gramática gerativa é uma teoria lingüística elaborada por N. Chomsky e pelos lingüistas do Massachusetts
Institute of Technology entre 1960 e 1965. Critica-se o modelo distribucional e o modelo dos constituintes
imediatos da lingüística estrutural, que, segundo eles, descrevem somente as frases realizadas e não podem
explicar um grande número de dados lingüísticos. N. Chomsky define uma teoria capaz de dar conta da
criatividade do falante, de sua capacidade de emitir e de compreender frases inéditas. Ele formula hipóteses
sobre a natureza e o funcionamento da linguagem: esta última, específica à espécie humana, repousa sobre a
existência de estruturas universais inatas que tornam possível a aquisição (a aprendizagem) pela criança dos
sistemas particulares que são as línguas: o contexto lingüístico ativa essas estruturas inerentes à espécie, que
subtendem o funcionamento da linguagem. Nessa perspectiva, a gramática é um mecanismo finito que permite
gerar (engendrar) o conjunto infinito das frases gramaticais (bem formadas, corretas) de uma língua, e somente
delas. Formada de regras que definem as seqüências de palavras ou de sons permitidos, essa gramática constitui
o saber lingüístico dos indivíduos que falam uma língua, isto é, a sua competência lingüística; a utilização
particular que cada locutor faz da língua em uma situação particular de comunicação depende da performance.
(Para maior informações sobre o gerativismo ver J. DUBOIS et alii. Dicionário de Lingüística. São Paulo:
Cultrix, 2001, p. 314-6).
18
7
È o caso, por exemplo, de como traduzir um texto escrito em algum dialeto para uma língua que não permite o
uso do dialeto na língua escrita. Nesse caso o tradutor poderia optar, conforme a teoria sociolingüística, para o
uso de um socioleto, ou seja, de um dialeto que é característico de um determinado grupo social.
8
Distingue-se aqui entre lingüistas e teóricos da tradução, entendendo-se por teóricos da tradução os estudiosos
pertencentes ao domínio da disciplina denominada Estudos da Tradução (Translation Studies), termo cunhado pr
James Holmes (1972-5). Os estudos desenvolvidos por esse grupo, que abrange teóricos de vários países
(Gentzler, Lefevere, Toury, Lambert, Even-Zohar etc.), rejeitam a noção de equivalência enquanto construto
definido em base ao texto de partida e caracterizam-se por uma abordagem descritiva e não prescritiva dos textos
traduzidos.
19
9
Neste caso, segundo Catford, o texto inteiro sofre o processo tradutório e “cada parte do source text é
recolocada por material textual do target text”.
10
Neste caso algumas partes do source text não são traduzidas.
11
Nesse caso todos os níveis lingüísticos do source text (fonológico, gráfico, gramatical e lexical) são
substituídos por elementos da língua do target text. Nesse tipo de tradução e equivalência só se atingiria ao nível
da gramática e do léxico. Catford define esse tipo de tradução como a reposição da gramática e do léxico da SL
por equivalentes gramaticais e lexicais da TL com a conseqüente substituição da fonologia, gráfica da SL por
uma não equivalente fonologia/grafia da TL.
12
Na tradução restrita, há a substituição do “material textual” da SL por equivalente “material textual” do TL só
em um único nível: o fonológico/gráfico.
13
Esse tipo de tradução envolve uma equivalência dos níveis fonológico e gramatical e prevê a seleção do
mesmo tipo de unidade gramatical e, sobretudo da mesma posição na hierarquia da gramática de cada língua, por
exemplo, ao nível do morfema, da palavra, da sentença etc. da língua de chegada.
14
Neste caso a equivalência se estabelece aos graus maiores da hierarquia gramatical, por exemplo, com
unidades maiores do que a sentença.
15
Para L. Bloomfield e o estruturalismo norte-americano é impossível definir o sentido e a relação do locutor
com o mundo real. Segundo eles fatores demasiados entram em jogo e somos incapazes de ordenar de maneira
explícita os traços pertinentes da situação.
20
para descrever esses níveis que foram aprontadas as várias taxonomias que deveriam servir só
para dar conta da equivalência. O problema é que essas taxonomias, mesmo quando eram
contextuais, se revelaram inadequadas para resolver todos os problemas enfrentados pelos
tradutores.
A lingüística então não deve ser excluída dos estudos da tradução, segundo a maioria
dos teóricos, mas deveria ser considerada como um dos modos, e não o único, para se analisar
a tradução, como afirma Umberto Eco: “in tal senso una traduzione non è mai soltanto un
affare linguistico...”16.
16
“Em tal sentido uma tradução nunca é somente um fato lingüístico”. (Tradução nossa) ECO, Umberto. Sulla
traduzione. In: NERGAARD, Siri (Org.). Teorie contemporanee della traduzione. Testi di Jakobson, Levý,
Lotman, Toury, Eco, Nida, Zohar, Holmes, Meschonnic, Paz, Quine, Gadamer, Derrida. Milano: Bompiani,
1995, p. 123.
21
elementos de um polissistema sócio-cultural maior, que por sua vez inclui outros
polissistemas além do literário, como o artístico, o religioso ou o político. Nessa perspectiva,
a literatura passa e ser considerada não somente uma simples coletânea de textos, mas como
um conjunto de fatores que governam a produção, a promoção e a recepção dos textos.
A noção essencial da teoria dos polissistemas é a de que os vários extratos e
subdivisões que caracterizam um polissistema estão em constante competição uma com o
outro para alcançar a posição dominante. Especificamente no caso do sistema literário existe
um contínuo estado de tensão entre o centro e a periferia, no qual os diferentes gêneros
literários visam a dominar a posição central. O termo gênero é usado aqui no sentido mais
amplo, e não é restrito às formas “altas” ou “canônicas”, mas inclui também gêneros “baixos”
ou “não canônicos”20. Essa nova, não elitista e não prescritiva abordagem com a sua rejeição
de julgamentos de valor, teve conseqüências importantes que se refletiram no campo dos
estudos da tradução.
Não obstante as formas assim chamadas de baixa tenderem a ficar na periferia, elas
dão um estímulo às formas canônicas para tomarem posse determinando assim um dos modos
principais através dos quais o polissistema evolui. Por conseguinte, para Even-Zohar a
evolução literária não é guiada por um objetivo específico, mas é uma conseqüência da
inevitável competição gerada pelo estado de heterogeneidade.
Grande parte da obra de Even-Zohar é voltada para a discussão quer do papel que a
literatura traduzida desenvolve num específico polissistema literário, quer para as implicações
teóricas mais amplas que a teoria dos polissistemas tem sobre os estudos da tradução em
geral. É importante, segundo ele, reconhecer relações sistemáticas limitadas entre os
semelhantes textos traduzidos isolados que existem em um singular dado polissistema
literário. Essas relações seriam, por exemplo, as dos princípios de seleção imposta pela
poética dominante e também as causadas pela conformidade do texto traduzido às normas do
sistema de partida. Qual é então a posição da literatura traduzida dentro do polissistema
literário? Com certeza uma posição periférica é a que parece, à primeira vista, mais normal,
mas ele identifica três casos nos quais a literatura traduzida pode ocupar uma posição mais
central. A primeira dessas acontece quando uma literatura “jovem” no seu processo de
estabelecimento ainda não se cristalizou em um polissistema. O segundo caso acontece
quando a literatura original do sistema é periférica ou “fraca”, ou seja, quando a literatura de
uma nação pequena é obscurecida por uma de uma grande nação. A terceira circunstância
20
Consideram-se gêneros “baixos” ou “não canônicos” a literatura infantil, a ficção popular e obras traduzidas,
nenhuma das quais foi jamais incluída no âmbito dos estudos literários.
23
21
Vários teóricos desenvolveram e aprofundaram as concepções da teoria dos polissistemas: Gentzler (1993),
por exemplo, sustentou que a influencia do formalismo russo foi muito forte e que a teoria dos polissistemas
precisava libertar-se de algumas concepções rígidas.
24
22
“Inside the literary system the professionals are the critics, reviewers, teachers, translators. They will
occasionally repress certain works of literature that are too blatantly opposed to the dominant concept of what
literature should (be allowed to) be – its poetics – and of what society should (allowed to) be –ideology. But they
will much more frequently rewrite works of literature until they are deemed acceptable to the poetics and the
ideology of a certain time and place […] The writer chose to oppose the constraints; the rewriter to adapt to
them” (LEFEVERE, 1992, p. 14-5).
23
“Patronage can be exerted by persons, such as the Médici, Mecenas, or Louis XIV, and also by groups of
persons, a religious body, a political party, a social class, a royal court, publishers, and, last but not least, the
media, both newspapers and magazines and larger television corporations. Patrons try to regulate the
relationships between the literary system and the others systems, which together, make up a society, a culture. As
a rule they operate by means of institutions set up to regulate, if not the writing of literature, at least its
distribution: academies, censorship bureaus, critical journals, and, by far the most important, the educational
establishment. Professionals who represent the ‘reigning orthodoxy’ at any given time in the development of a
literary system are close to the ideology of patrons dominating that phase in the history of the social system in
which the literary system is embedded” (LEFEVERE, 1992, p. 15).
25
se sobre os métodos mais proveitosos para descrever a tradução literária e para determinar
comportamentos normativos no âmbito tradutório, voltando só numa segunda fase ao aspecto
teórico.
Theo Hermans teve o mérito de coletar os estudos dos principais teóricos desta fase no
seu livro The Manipulation of Literature (1985). No livro Hermans define a filosofia do grupo
da seguinte forma:
[...] a view of literature as a complex and dynamic system; a conviction that there
should be a continual interplay between theoretical models and practical case
studies; an approach to literary translation that is descriptive, target oriented,
functional, and systemic; and an interest in the norms and constraints that govern the
production and reception of translation (HERMANS, 1985, p. 10-1)
Um dos principais teóricos do grupo, José Lambert (1985), sugere que todos os
aspectos funcionalmente relevantes da atividade tradutória devem ser observados
cuidadosamente no contexto histórico. Assim o autor, o texto e as normas literárias em um
dado sistema literário são justapostos a um autor, um leitor e outras normas literárias de outro
sistema. Dever-se-ão procurar, segundo Lambert, as regularidades nos fenômenos tradutórios
em uma situação cultural real. Isso levará a uma evolução da teoria da tradução e à
redefinição de algumas concepções e do próprio conceito de texto traduzido. Partindo dos
posicionamentos da teoria dos polissistema, Lambert desenvolve uma nova metodologia para
descrever melhor traduções: ele focaliza mais a observação dos dados sem considerá-los à luz
de pressuposições a priori24.
Cabe nesta altura lembrar que a raiz do debate abordado nestes parágrafos encontra-se
muito bem argumentada pela primeira vez num texto fundamental da hermenêutica da
tradução: A tarefa do tradutor de Walter Benjamin. Nessa obra Benjamim muda a forma de se
teorizar sobre tradução, reformula concepções como a de original, a de fidelidade e introduz
concepções quais a de significância, ou modo de significar, que os teóricos antinormativos
(Da Skopos Theory, da teoria dos Polissistemas, etc.) usarão sistematicamente. Esse texto
24
Outros teóricos dos Estudos da Tradução na Inglaterra e na América como Susan Bassnet e Maria Tymoczko,
distanciaram-se ainda mais da teoria dos polissistemas que consideram muito formalista e restritiva.
Fundamentando-se mais nos estudos culturais, consideraram como elementos básicos da análise descritiva a
influência das instituições mais conceituadas e potentes em uma dada cultura e os padrões na tradução literária.
26
25
BENJAMIN, Walter. A tarefa do tradutor. UERJ: Rio de Janeiro, 1992.
27
Se nenhuma obra de arte nasce para o receptor, por que deveria, então, a tradução
servir a um leitor? Eis a questão fundamental com a qual se abre o ensaio de Benjamin. De
modo abrupto e peremptório, o autor coloca logo suas definições de má tradução, à luz dessa
teoria da linguagem e dessa metafísica da obra de arte: a tradução não deve comunicar, já que
o original não o faz, e a tradução não deve servir ao leitor. Para servir ao leitor, segundo ele, a
tradução tende a comunicar algo que não há no original.
Tradução, afirma Benjamin, é forma e a traduzibilidade é inerente e essencial para
alguns textos. O autor estabelece uma nova conexão entre original e tradução, ou como mais
tarde será definido, entre source text e target text, afirmando que uma tradução não significa
nada para o original, a não ser que seja devido à sua traduzibilidade (ou melhor, possibilidade
tradutória) se o significado que nela está oculto se exprime.
É justamente essa relação entre texto de origem e texto de chegada que Benjamin
reformula de modo original afirmando existir um “vinculo de vida” entre os dois: “assim
como as manifestações de vida estão no mais intimo vínculo com o vital, sem que nada
signifique para ele, assim também a tradução emerge/emana do original” (1992, p.11). E
continua sustentando que como as manifestações de vida têm como objetivo a expressão da
essência da vida, do seu significado, assim a tradução tem como finalidade exprimir a relação
mais intima entre as línguas. Chega-se assim ao conceito básico da teoria da tradução de
Benjamin: Die Reine Sprache, a “língua pura”.
Uma vez postulada a existência de uma convergência entre todas as línguas, uma
relação íntima entre o que querem dizer, Benjamin define a “língua pura” como o todo dessas
intenções de todas as línguas. De fato, cada língua significa a mesma coisa, mas com
intenções diferentes; caberia, então, à tradução libertar a língua pura do original revelando a
sua intenção, ou melhor, o seu “modo de significar”. O significado emergiria, então, de todos
os modos de significar aquela palavra por todas as línguas através da tradução. “A ‘língua
pura’ – afirma Haroldo de Campos - como ‘língua verdadeira’ ou ‘língua de verdade’ absorve
e absolve todas as intenções das línguas individuais desocultadas dos originais, e nesse
sentido arruína a tradução como um processo que contribui fragmentariamente para esse
desvelamento”26.
À tradução, então, caberia facilitar o crescimento “sagrado” das línguas, para que o
significado do original consiga emergir da harmonia de todos os “modos de significar”.
Mas como aconteceria praticamente esse desvelamento da intenção de todas as intenções da
26
CAMPOS, Haroldo de. O que é mais importante: a escrita ou o escrito? Teoria da linguagem em Walter
Benjamin. [S.l], [S.n], [S.d.].
28
A tradução não pode ser fiel, pois a língua da tradução é inadequada ao próprio
conteúdo, já que o significado está ligado ao modo de significar na palavra determinada. Não
cabe à tradução ser fiel ao texto de partida, mas, por assim dizer, elevá-lo a um estádio mais
definitivo da língua, para aproximá-lo daquele modo de intencionar de todas as línguas que é
a “língua pura”.
Nas páginas finais do seu texto, Benjamin explicita mais esse conceito de língua pura
e da relação entre texto original e texto traduzido. Ambos seriam fragmentos de uma língua
maior; a tarefa da tradução não seria a de ser o máximo possível semelhante ao original, mas a
de trazer o máximo possível para a forma da língua de chegada o “modo de significar” (ou
melhor, de “formar”) do original. O elemento do tradutor nessa busca não seria a frase, mas a
palavra, é só na transposição da literalidade da palavra que se revela a língua pura. A “língua
pura” seria a palavra privada de expressão, que nada expressa e nada simboliza se não um
significado em todas as línguas. “Resgatar em sua própria língua a língua pura, ligada à língua
estrangeira, liberar, pela transcriação, a língua pura, cativa na obra, é a tarefa do tradutor”
(BENJAMIN, 1992, p. 29).
29
27
O início da prática da desconstrução remonta ao texto Sein und Zeit de Heidegger. No texto o autor postula a
possibilidade de um retorno ao momento pré-originário e à experiência do pensamento pré-ontológico. A própria
tradução teria o papel de voltar a essa experiência originária da linguagem. Para se falar essa palavra originária
deve se traduzir: a tradução é considerada como uma ação, uma operação de pensamento, e não uma
transferência lingüístico-científica de algo para o presente. Heiddeger destaca a importância da linguagem em
destruturar o sujeito, e em conseqüência disso o homem tornar-se-ia o sujeito da linguagem. Para um maior
aprofundamento (ver GENTZLER, E. Contemporary Transaltion Theories. London/New York: Rothledge,
1993, p. 153-8).
30
Derrida baseia sua teoria na não-identidade, no não representável, no que não está
presente ou visível. Só existem diferentes cadeias de significados – inclusive o original e as
suas traduções em uma união simbiótica – integrando-se mutuamente e definindo e redefinido
sempre aquela noção de equivalência que não existe como uma coisa fixa, conhecida e
conhecível ou compreensível.
Os desconstrucionistas, sobretudo Foucalt, introduziram também o importante
conceito segundo o qual seriam os tradutores a criarem o original. Polemicamente esses
teóricos sustentam a tese de que os textos originais são constantemente reescritos no presente
e que cada leitura/tradução reconstrói o texto de partida. Segundo Foucalt (1973), em lugar de
uma identidade fixa existe uma relação entre o texto e outros textos e deve-se considerar o
discurso de um texto dentro do seu contexto histórico particular. Foucalt desconstrói o papel
canônico do autor, considerando-o não um individuo só, mas uma série de posicionamentos
subjetivos, determinados não somente por uma harmonia de efeitos, mas, sobretudo, por faltas
e descontinuidades.
Na base da teoria desses estudiosos está a convicção de que a linguagem não é vista
mais como o elemento capaz de explicar os universais, mas como um sistema em si que se
desprendeu da representação das coisas continuando, porém, sendo o único médium através
do qual conhecê-las: a língua está dentro do sujeito criador e rompeu os seus vínculos com a
coisa representada28.
Desconstruir a idéia de autor, reduzir o seu papel, desprender a língua da coisa
representada, construir o invisível, a falha, a omissão atrás da obra de arte, cuidar da
sobrevivência – em termos benjaminianos29 – da língua através das traduções, esses os
posicionamentos principais do programa “revolucionário” dos desconstrucionistas.
Segundo Derrida (1985) é questionável toda definição de tradução em termos de
reprodução, representação ou comunicação do pressuposto significado do original. Tradução
é, ao contrário, um processo lingüístico que modifica o texto original, deferindo para sempre a
possibilidade de agarrar o que o texto original queria nomear.
28
Convém lembrar que a desconstrução foi introduzida e desenvolvida no Brasil por Rosemary Arrojo. Para
maiores aprofundamentos ver ARROJO, R. O signo desconstruido. São Paulo: Pontes, Campinas, 1992.
29
O próprio Derrida, a confirmação dessa referência dos descontrucionistas à teoria de Benjamin, no seu livro
(1985, p. 189-90) cita o seguinte trecho da Tarefa do tradutor: “...so instead of rendering itself similar to the
meaning of the original, the translation should rather, in a movement of love and in full detail, pass into its own
language the mode of intention of the original [...] original and translations become recognizable as fragments of
a larger language”.
31
30
Como afirma Umberto Eco, dentre outros, no seu ensaio “Sulla Traduzione” o texto deve ser o critério e não
a língua: “Uma teoria da tradução deve levar em conta uma serie de elementos que, quando não são lingüísticos,
são porém semióticos em latu sensu, na medida em que uma semiótica leva em conta a enciclopedia geral de
uma época e de um autor, tal como é postulada por um texto, como critério para a sua compreensão (ECO, 1995,
p. 124), (Trad. nossa).
31
Um exemplo destas novas posições é o texto de Roger Bell (1989) publicado na série Applied Linguistic and
Language Studies pela editora Longman. No prefácio o editor sustenta que a “sistemic linguistics” é o
instrumento melhor para resolver as questões da tradução, não só porque focaliza a proposição, mas também
porque atribui importância aos aspectos sociais e psicológicos. Outro posicionamento é o de Hatim & Mason
(1990), que consideram que a tarefa de descrever o processo particularmente complexo da tradução pode ser
alcançada através da reintegração do estudo da tradução dentro das ciências humanas, (em modo especifico)
especificamente da psicologia e da lingüística, como um âmbito altamente significativo da lingüística aplicada.
32
Being reciprocal in nature, the relations between the theoretical and descriptive
branches of a discipline also make it possible to produce more refined and hence
more significant studies, thus facilitating an ever better understanding of that section
of reality to which that science refers. They also make possible the elaboration of
applications of the discipline, in a way which is closer to what is inherent to the
object itself32.
O que deveria constituir o sujeito principal próprio de uma disciplina dos Estudos da
Tradução, são - segundo Toury – fatos da vida real e não entidades meramente especulativas
resultado de hipóteses pré-constituídas e de padrões teóricos.
No seu texto, ele lembra como foi Holmes, indiscutível ponto de referência para o
desenvolvimento da sua teoria, quem primeiro introduziu a noção de Translation Studies em
1972. O mérito principal de Holmes, segundo ele, foi o de ter sustentado e defendido a teoria
segundo a qual os estudos da tradução deveriam emergir como uma verdadeira ciência
empírica. Os Estudos Descritivos da Tradução seriam uma parte importante e definida desta
nova ciência empírica.
Uma ciência empírica, lembra ainda Toury, se refere ao próprio sujeito com base em
uma teoria formulada especificamente para essa finalidade; de fato um estudo descritivo além
de fornecer uma descrição do que ele chama de “nível-objeto”, é ao mesmo tempo a melhor
forma para se testar, recusar ou modificar a teoria que fundamenta toda a pesquisa. Essa
32
Descriptive Translation Studies and Beyond. Amsterdam/Philadelphia: John Benjamins Publishing Company,
1995.
33
relação fundamental e recíproca entre os níveis teórico e descritivo possibilita a produção, por
parte da disciplina, de análises descritivas.
O “nível-objeto” dessa teoria da tradução deve ser, portanto, constituído por realidades
efetivas e dados da vida real, também no caso de textos, de ralações intertextuais ou padrões e
normas de comportamento. Nesse tipo de abordagem, as deduções meramente especulativas
decorrentes de hipóteses ou de padrões pré-constituídos são recusadas.
Não obstante, porém, os grandes esforços atuados nos últimos anos para que a teoria
da tradução assuma o papel de uma verdadeira disciplina empírica, ainda se pode considerá-la
uma ciência in fieri.
Lambert e van Gorp juntam-se a Toury para constatar que a importância dos Estudos
Descritivos para a teoria da tradução não foi ainda suficientemente reconhecida. Uma
conseqüência dessa atitude é, segundo os autores, o isolamento que os estudos concretos de
traduções e do comportamento tradutório num preciso contexto sócio-cultural sofreram em
relação às pesquisas teóricas atuais. É por essas razões que ainda existiria um gap muito
grande entre abordagem teórica e abordagem descritiva. É necessário, segundo Lambert,
perguntar-se como devem ser analisadas as traduções “[…] in order to make our research
relevant both from an historical and from a theoretical point of view. Indeed, our
methodology in this respect too often remains purely intuitive” (LAMBERT, J.; GORP, H.
Von, 1985, p. 42). É muito sintomático, continua Lambert, que muitas pesquisas até mesmo
recentes destacam a urgência de estudos descritivos, mas não fornecem nenhuma indicação de
como isso deveria ser feito.
Umas das principais razões da falta de pesquisas de tipo descritivo sobre a tradução
foi, segundo Toury, a principal orientação entre as disciplinas para com as suas aplicações
práticas. As aplicações das pesquisas sobre a tradução - a tradução didática, o ensino de
línguas estrangeiras, etc. – se tornam o obstáculo principal para a formulação correta de uma
teoria que as fundamente. É forçosamente evidente e não surpreendente segundo Toury, que
tal tipo de abordagem teórica prefira utilizar normas de tipo prescritivo.
Por todas essa razões fez-se necessária a instituição de uma disciplina cientifica
sistemática, considerada como parte essencial de uma teoria geral da tradução, baseada em
posicionamentos claros e coadjuvada por metodologias e técnicas de pesquisa explícitas. Essa
disciplina seria a Teoria Descritiva da Tradução da qual Toury e Lambert tentaram,
primeiramente e com mais sucesso, oferecer os princípios e as linhas mestras necessárias.
34
A primeira distinção a ser feita segundo o modelo de Toury é aquela entre os textos
traduzidos, que são realidades diretamente observáveis, e o processo tradutório que é
observável só indiretamente. Essa diferença deveria definir e guiar então qualquer tipo de
pesquisa no campo da tradução. Parece razoável que se deva sempre partir das entidades reais
observáveis, isto é, dos enunciados traduzidos e dos seus vários elementos constitutivos,
procedendo dessa forma para com a reconstituição das realidades não observáveis
diretamente, excluindo a priori qualquer outro tipo de percurso.
Segundo Toury, o axioma fundamental de uma teoria descritiva seria considerar a
cultura de chegada como principal fator de “desencadeamento” (initiator) para iniciar o
processo tradutório. O ato tradutório, sendo uma atividade teleológica por antonomásia, fica
amplamente condicionado pelos seus próprios fins e estes do mesmo jeito estão determinados
partindo da perspectiva do sistema receptor. Conseqüentemente, segundo Toury, os tradutores
operariam sempre e, sobretudo no interesse da cultura para a qual estão traduzindo, pondo de
lado a cultura da qual estão traduzindo33.
A noção básica, segundo ele, que deveria fundamentar também os Estudos Descritivos
da Tradução é que as traduções são fatos pertencentes a um sistema só: o sistema de chegada
(target system)34.
Mas como distinguir as traduções das não traduções dentro da cultura de chegada? Por
tradução deve-se entender, segundo Toury, todo enunciado na língua de chegada que naquela
mesma cultura seja apresentado ou considerado como uma tradução baseada em qualquer
elemento plausível. Por definição, ao se apresentar um enunciado na língua de chegada como
uma tradução, ou considerando-o como tal, fica implícito que exista outro enunciado, um fato
lingüístico-textual que pertence a um outro sistema, que possui uma prioridade lógica e
cronológica sobre a tradução em questão. O texto de partida, segundo Toury, simplesmente
precede a própria tradução no tempo e constitui a base para a criação dessa última. O texto de
33
Isso nos parece totalmente aceitável no caso de tradutores não reconhecidos pelo cânone, mas no caso de
tradutores poetas reconhecidos pelo cânone, como veremos mais adiante na nossa pesquisa, o sistema de chegada
não parece ser o critério principal que guia seu processo tradutório.
34
Essa admissão target-oriented da polysystem theory é criticada por Umberto Eco. Segundo ele, de fato, não
sempre a tradução de um texto pode ser guiada pelo texto de chegada - e cita o exemplo da tradução francesa de
“Guerra e Paz” de Tolstoi. Dever-se-ia usar os dois critérios alternativamente conforme os casos: “ Di fronte alla
domanda se una traduzione debba essere source o target oriented, ritengo che non si possa elaborare una regola,
ma usare i due criteri alternativamente, in modo molto flessibile, a seconda dei problemi posti dal testo a cui ci si
trova di fronte” [Diante da pergunta se uma tradução deva ser source ou target oriented, considero que não se
possa elaborar uma regra, mas usar os dois critérios alternativamente, de modo flexível, de acordo com os
problemas colocados pelo texto que se está trabalhando (Eco, 1995, p. 125)], (Trad. nossa).
35
35
Poder-se-ia com uma tradução não completamente satisfatória traduzi-los dos que fazem a função de tal.
36
Segundo Toury é possível definir um texto na língua de chegada como uma possível tradução de várias
formas: partindo, por exemplo, da consideração de uma sua explicita apresentação enquanto tal; ou levando em
conta no seu bojo interno a presença de características lingüístico-textuais que, na cultura em questão, estejam
associadas naturalmente ao fenômeno “tradução” ou, ainda, considerar o enunciado uma tradução graças ao
conhecimento de um determinado texto, em outra língua/cultura, que possa ser considerado como fonte daquele
texto especifico em uma língua de chegada.
36
The kind of problems which are relevant for a retrospective study are therefore
reconstructed rather than given: like the appropriateness of the source text itself,
they have to be established in the course of a comparative analysis rather than on the
basis of the source text alone, let alone its initial translatability into the target
language in question39.
42
Lembram-se os nomes de Catford, Nida e Taber, Pym, Koller entre os que consideram a tradução uma relação
de equivalências; Snell-Hornby entre os que recusam a noção teórica de equivalência e Gentzler entre os que a
consideram danosa para os estudos da tradução. Geralmente define-se a equivalência como a relação entre
source text e target text que permite considerar o texto de chegada como uma tradução fiel do texto de partida.
Existem várias tipologias de equivalência: referencial ou denotativa (Koller), conotativa (Koller), texto-
normativa (Koller), pragmática (Koller), dinâmica (Nida) ou formal (Nida), textual (Newman), funcional
(Neubert), one-to-one equivalence, one-to-many equivalence, one-to-part-of-one equivalence, nil-equivalence
(Kade). Logo se tornou comum, dentro da teoria da tradução, considerar a equivalência como a relação existente
entre textos em duas diferentes línguas e não só entre duas línguas. Para informações adicionais ver BAKER,
Mona (ed). Routledge Encyclopedia of Translation. London/New York: Routledge, 1998, p. 77-80.
38
O conceito chave para se definir as relações de tradução e para se chegar a uma noção
de equivalência de tradução é o da individuação de uma constante na transformação. Essa
constante, o núcleo comum ao “par” problema-solução, pode ser determinado quer em um
nível substancial, quer em um nível funcional lingüístico ou textual. O conjunto desses pares
relacionados um ao outro, produzirão uma hierarquia de relações de traduções pertencentes ao
inteiro corpus textual, objeto da pesquisa, revelando a equivalência de tradução do corpus. Em
outras palavras, essas relações funcionais-relacionais dos “pares” problema-solução que
permitem distinguir entre tradução e não tradução (ou seja, entre texto de partida e texto de
chegada), permitirão também distinguir entre uma performance lingüística adequada ou
aceitável em relação aos padrões e às normas dominantes no sistema de chegada. A noção de
equivalência assim obtida poderá ser também utilizada para se tentar chegar ao conceito
global de tradução que está norteando o corpus textual em análise.
No modelo descritivo de Lambert e van Gorp, por sua vez, os autores consideram a
equivalência o fator central da pesquisa. É necessário observar que tipo de equivalência existe
entre os termos da comparação: uma equivalência target-oriented (isto é, aceitável) ou
source-oriented (adequada). Essa questão deverá ser abordada do ponto de vista das normas
dominantes: ou seja, desde que a tradução seja essencialmente o resultado da seleção de
estratégias dentro de um determinado sistema comunicativo, a principal tarefa do pesquisador
será a de estudar as prioridades – as normas e os padrões dominantes - que determinam essas
estratégias.
Como o próprio Lambert afirma, essa pesquisa se baseia em um esquema que contém
os parâmetros básicos dos fenômenos tradutórios como são apresentados por Even-Zohar e
Gideon Toury no âmbito do polissistema. Nesse esquema a ligação comunicativa entre source
e target text não se pode predizer, mas é uma relação aberta cuja natureza dependerá das
prioridades estabelecidas pelo tradutor, que devem ser consideradas em função das normas do
sistema de chegada. A vantagem desse esquema, destaca Lambert, é o de superar
definitivamente concepções radicadas e antigas no âmbito da tradução como a de “fidelidade”
e a de “qualidade”, que são mais source oriented e inevitavelmente normativas.
O esquema que o próprio Lambert define teorético e hipotético, apresenta mais ou
menos os mesmos pontos abordados por Toury. Pretende superar uma visão binária da análise
39
da tradução e alcançar uma visão mais complexa para avaliar as relações entre target text e
source text:
formais (metro, rima), formas de reprodução do discurso (direto, indireto, etc.), registro da
língua etc. Esses dados das estratégias micro-estruturais levarão a uma nova comparação com
as estratégias macro-estruturais e a uma suposição da concepção geral de tradução que
permeia o texto.
A última etapa prevê a análise das oposições entre micro e macro-níveis e entre texto e
teoria (normas e padrões); relações intertextuais (com outras traduções ou com escritos
criativos); relações intersistêmicas (estruturas de gênero, códigos estilísticos, etc.). O objetivo
desse esquema é, então, o de superar uma abordagem atomística na análise de textos
traduzidos, optando por uma abordagem sistemática que permita distinguir entre normas
individuais e coletivas de tradução: é absurdo, segundo Lambert, que numa pesquisa não se
considere que uma tradução possui ligações (positivas ou negativas) com outras traduções ou
tradutores. A visão do pesquisador e da pesquisa no âmbito da tradução deve ser, pois, mais
ampla: considerando todas as questões levantadas pelos estudos descritivos e seus teóricos
não se pode mais continuar falando - afirma Lambert - simplesmente de análise de textos
traduzidos, pois, como diz “Our object is translated literature, that is to say, translational
norms, models, behaviour and systems. The specific T1 and T2 analysis should be part of a
larger research programe focusing on all aspects of translation” (LAMBERT,1985, p. 51).
Conforme se viu no parágrafo anterior (1.2.3), o alvo dos estudos descritivos são
especificamente os textos literários. No caso desta pesquisa, analisar-se-ão poemas visando a
buscar elementos que confirmem ou não as hipóteses elaboradas por Toury e Lambert.
A tradução de poesias foi sempre considerada pelos teóricos e pelos autores a tarefa
mais difícil, se não impossível. Um dos defensores da impossibilidade da tradução poética foi
Roman Jakobson. Segundo Jakobson (1969) a poesia é intraduzível por definição porque é
uma união não-reproduzível de som e sentido. O autor russo faz, então, parte de uma longa
lista de nomes, de Dante a Bellay e Montaigne, de Voltaire e Diderot a Rilke, que consideram
a tradução de poemas não praticável devido à peculiar natureza de um texto poético.
No lado oposto se colocam teóricos como Paz, Laranjeira, da Costa, Milton, Eco,
Holmes e Pound, os quais, de formas diferentes, acreditam na possibilidade de uma tradução
dos textos poéticos considerando a sua recusa como uma concepção errônea de tradução.
41
Mas voltando a Jakobson, segundo ele a tradução poética é complexa por causa do
elevado teor semântico que as categorias gramaticais assumem no texto poético. Em outras
palavras, todos os traços distintivos e os constituintes do código verbal são colocados num
poema segundo os princípios da similaridade e do contraste dando origem a uma significação
própria, ou seja, a uma união peculiar de significante e significado: “A semelhança fonológica
é sentida como um parentesco semântico [...] a paranomásia, reina na arte poética; quer esta
dominação seja absoluta ou limitada, a poesia, por definição, é intraduzível [...], só é possível
a transposição criativa [...]” (JAKOBSON, 1969, p. 72).
Lotman (1995) também sustenta a impossibilidade de uma tradução exata de um
poema devido à semantização do nível gramatical: “[...] i legami semantici che emergono in
virtù del cambiamento nel testo poetico del rapporto tra l’involucro sonoro della parola e la
sua semântica, al pari della semantizzazione del livello grammaticale, sembrano negarsi a una
traduzione esatta”43.
Segundo Lotman, as dificuldades da tradução poética dizem respeito a dois tipos de
problemas: a transmissão da originalidade ideológica (e psicológica) nacional e a particular
intraduzibilidade dos meios lingüísticos. A intraduzibilidade abrangeria então tanto o nível
cultural quanto o lingüístico. Essa intraduzibilidade adquire o seu ponto máximo num texto
literário, e, sobretudo na poesia, porque nela o plano lingüístico geral do conteúdo e o plano
da expressão se fundem na estrutura complexa do signo artístico. Essa tarefa impossível seria
facilitada quando entre as literaturas do original e da tradução existe uma precisa tradição de
ligações culturais, de integração em processos ideológico-artísticos comuns, que leva
espontaneamente ao estabelecimento de estilos equivalentes.
Luiz Angélico da Costa compartilha essa mesma opinião, pois segundo ele, ao
contrário do que diz Roman Jakobson, é possível, mesmo não sendo tão categórico, afirmar
que no caso da poesia só uma transposição criativa teria sentido: “Depende do texto fonte, em
alguns casos encontram-se traduções de rara felicidade, devido também à proximidade das
duas línguas. Em outros casos, só uma recriação é possível” (ROMANELLI, 2002).
Segundo Lotman, são sobretudo as diferenças entre os níveis fonológicos e
gramaticais das duas línguas a constituírem a dificuldade maior no caminho para com aquela
que ele chama de adequação da tradução ao original. Essa adequação consistiria na tentativa
43
“As relações semânticas que surgem por causa da mudança no texto poético da ligação entre o traço sonoro da
palavra e a sua semântica, assim como a semantização do nível gramatical, parecem negar-se a uma tradução
exata” (Tradução nossa). LOTMAN, Jurij M. Il problema della traduzione poetica. In: NERGAARD, Siri (Org.).
Teorie contemporanee della traduzione. Testi di Jakobson, Levý, Lotman, Toury, Eco, Nida, Zohar, Holmes,
Meschonnic, Paz, Quine, Gadamer, Derrida. Milano: Bompiani, 1995, p. 260.
42
de reproduzir de forma geral o grau de densidade das ligações semânticas, do texto de partida,
ao texto de chegada.
Uma crítica bem argumentada a essa teoria da impossibilidade de Lotman encontra-se
nas proposições de Henri Meschonnic por uma poética da tradução44. Segundo ele, a poesia
não é absolutamente mais difícil de se traduzir do que a prosa. Argumenta essa sua tese
sustentando como não fundamentada a concepção segundo a qual a poesia violaria as normas
da língua e a concepção, proposta por Nida45, da separabilidade precisa entre nível de
conteúdo e nível de expressão, entre estilo e significado.
O texto, diz Meschonnic, não se compõe de duas entidades heterogêneas dissociáveis,
mas é uma entidade única que enquanto tal deve ser traduzida. Deve-se, segundo ele, superar
essa dualidade forma/conteúdo e texto original/texto de chegada considerando a tradução
como a escrita subjetiva de uma leitura-escrita46. De fato, em tradução, nunca se traduz uma
fonologia ou uma língua para um texto, mas se constrói e se teoriza uma relação entre texto e
texto. Por isso, segundo Meschonnic, a relação poética entre texto e tradução implica um
trabalho ideológico concreto contra aquela idéia preconceituosa da literatura que leva a uma
prevalência estetizante ou a uma idéia de “elegância” literária que caracteriza a produção dos
tradutores como uma produção ideológica enquanto a produção textual é sempre
antiideológica. Em outras palavras, os tradutores se conformariam com uma “poetização” da
tradução que implica na escolha de elementos estéticos prevalentes em uma dada época, em
uma dada sociedade. Esse tipo de tradução, que ele chama de tradução não-texto, acaba
44
MESCHONNIC, Henri. Proposizioni per una poetica della traduzione. In: NERGAARD, Siri (Org.). Teorie
contemporanee della traduzione. Testi di Jakobson, Levý, Lotman, Toury, Eco, Nida, Zohar, Holmes,
Meschonnic, Paz, Quine, Gadamer, Derrida. Milano: Bompiani, 1995, p. 265-81.
45
Nida no seu texto Principles of Transaltion as exemplified by Bible Transalting (1964) tinha sustentado a tese
segundo a qual o tradutor não deveria ser um hermeneuta, mas um exegeta. Deveria-se privilegiar numa tradução
a mensagem e não a sua forma, que é de alguma forma separável do conteúdo. Ele critica explicitamente a ênfase
nos fatores estilísticos e literários da tradução, sustentando que tal ênfase provocou a idéia errônea que considera
a tradução seja um a arte e não uma ciência. Para um melhor aprofundamento se veja o texto de Nida “Principi di
Traduzione esemplificati dalla traduzione della Bibbia”, contido in: NERGAARD, Siri (Org.). Teorie
contemporanee della traduzione. Testi di Jakobson, Levý, Lotman, Toury, Eco, Nida, Zohar, Holmes,
Meschonnic, Paz, Quine, Gadamer, Derrida. Milano: Bompiani, 1995, p. 149-79.
46
Siri Nergaard na introdução ao seu livro (1995) considera justamente Meschonnic um precursor da teoria dos
polissistemas e dos estudos descritivos: “Meschonnic anticipa appunto sia la prospettiva (target-oriented) che
mette in primo piano il contesto culturale-letterario di arrivo per la definizione della traduzione, sia
l’integrazione dell’aspetto culturale e storico. Inoltre si avvicina al concetto di polisistema – sempre della scuola
di Tel Aviv – nel sostenere che le traduzioni possono essere causa di trasformazioni nella lingua e letteratura del
sistema di arrivo”. [Meschonnic antecipa de fato tanto a perspectiva (target oriented) que coloca em primeiro
plano o contexto cultural-literário de chegada para a definição da tradução, quanto a integração do aspecto
cultural e histórico. Além disso, se aproxima do conceito de polissistema – sempre da escola de Tel Aviv –
sustentando que as traduções podem ser causa de transformações na língua e na literatura do sistema de chegada.
Tradução nossa, p. 32].
43
quando acabar a ideologia que a produziu, enquanto o texto não-ideológico não acaba, mas se
transforma.
Essa concepção da tradução-texto é compartilhada também por Octavio Paz, que no
seu ensaio47 sustenta ser toda tradução um original, um texto único. A tradução é um texto
único porque implica de alguma forma uma transformação do original; essa transformação,
segundo ele, é sobretudo de tipo literário do momento que parafraseando Jakobson, toda
tradução utiliza duas formas de expressão tipicamente literárias: a metonímia e a metáfora.
Mas justamente a forma literária que mais se serve dessas figuras de expressão, a poesia, é
que foi marcada pela intraduzibilidade. Essa condenação sem apelação da poesia é inaceitável
segundo Paz. É suficiente, segundo ele, lembrar que muitos dos melhores poemas do Ocidente
são traduções e que muitas dessas traduções foram feitas por grandes poetas.
Paz lembra como muitos dos preconceitos acerca das traduções poéticas decorrem da
opinião quase unânime que julga possível reproduzir os significados denotativos, mas quase
impossível fazer a mesma coisa com os conotativos; sobretudo quando esses se constituem de
ecos, correspondências, relações entre som e sentido:
Confesso che quest’idea mi ripugna, non solo perché contrasta con l’immagine che
mi sono fatto dell’universalità della poesia, ma anche perché si fonda su una
concezione erronea di ciò che è la traduzione. Non tutti condividono le mie idee, e
molti poeti moderni affermano che la poesia è intraducibile48.
Paz não aceita a teoria da impossibilidade porque fundamentada sobre uma errônea
idéia de tradução. Traduzir é difícil quanto escrever um texto original, mas não é impossível;
pode-se conservar os significados conotativos se o poeta-tradutor consegue reproduzir a
situação verbal e o contexto poético no qual estão inseridos. Um bom tradutor, segundo Paz, é
o que se movimenta em direção contrária àquela do autor: isto é, ele deve alcançar um poema
análogo ao poema original49. Segundo Paz, a tradução poética é uma operação similar à
criação poética, mas que se desenvolve em sentido oposto. De fato, na prosa o significado é
geralmente unívoco, enquanto, a poesia guarda uma pluralidade de significados. A poesia,
47
PAZ, Octavio. Traduzione: Letteratura e letterarietà. In: NERGAARD, Siri (Org.). Teorie contemporanee
della traduzione. Testi di Jakobson, Levý, Lotman, Toury, Eco, Nida, Zohar, Holmes, Meschonnic, Paz, Quine,
Gadamer, Derrida. Milano: Bompiani, 1995, p. 283-97.
48
“Confesso que essa idéia me repugna, não somente porque contrasta com a imagem que eu tenho da
universalidade da poesia, mas também porque se fundamenta numa concepção errônea do que é a tradução. Nem
todos compartilham as minhas idéias, e muitos poetas modernos afirmam ser a poesia intraduzível” (Tradução
nossa). Paz, Octavio. Op. cit., p. 288.
49
Por isso segundo ele o tradutor deveria ser um poeta e vice–versa, mas desse assunto tratar-se-á mais
detalhadamente em outro parágrafo desta dissertação.
44
além disso, transforma radicalmente a linguagem, mas os signos dessa transformação são
imóveis, imutáveis, enquanto na prosa os signos são móveis e visam a afirmar um único
significado. A peculiaridade da poesia é justamente essa: ao se mudarem as palavras, que são
únicas e insubstituíveis, muda-se e destrói-se a obra, despedaçando-se a sua multiplicidade.
A poesia é algo que vai além da linguagem. Ao tradutor, como afirmou também
Benjamin, cabe desmontar essa estrutura fixa, redispor os signos e devolvê-los novamente a
uma nova linguagem. Partindo do pressuposto que, segundo Benjamin, no original existe um
“núcleo essencial” que “não é retraduzível”, “[...] ainda que se extraia o máximo de
comunicável e se o traduza, mesmo assim na tradução permanece sempre o intocável, para o
qual se orientava o trabalho verdadeiro do tradutor” (1992, p.19-20). O “intocável” não é
então transmissível, já que a relação do conteúdo com a língua difere no original e na tradução
e, conseqüentemente, não pode haver transposição. Para melhor explicitar essa noção de
intocável, pode-se dizer que a essência da obra de arte consistiria no indizível, no misterioso,
no poético e que esse poético, não sendo comunicação, só pode ser reproduzido pelo tradutor,
poetizando, ou seja, “transcriando” através de uma nova seleção e uma nova combinação dos
elementos extra e intratextuais do original, concretizando o imaginário do original.
Em outras palavras, segundo Paz, o tradutor deve, em outra língua e com signos
diferentes, reconstruir um poema análogo ao original. A tradução seria, assim, uma operação
paralela à da criação poética, mas que corre em sentido oposto. O resultado é uma
“transmutação”, ou seja, uma produção com meios diferentes de efeitos análogos.
Um último e forte posicionamento teórico contra a pressuposta intraduzibilidade dos
textos poéticos encontra-se na “poética da tradução” de Mario Laranjeira (1993). O teórico
brasileiro levanta, no seu livro, a questão e se professa contrário ao preconceito que autores e
tradutores possuem no que diz respeito à tradução poética. Partindo das afirmações de
Jakobson, o autor desenvolve uma teoria que visa a mostrar o que é tradução poética, o que é
poesia e qual as estratégias que os tradutores poderiam adotar.
Central na teoria poética de Laranjeira é o conceito, já mencionado antes, de
significância. A significância de um poema, segundo essa definição, seria a sua “maneira
específica de produzir sentidos” (1993, p.12). Na tradução poética, no entanto, lidar-se-ia com
a significância do texto ou com aquela que Walter Benjamin chamou de significação poética:
“[...] não se trata, então, da mera reprodução do sentido, não visa ao significado enquanto tal,
mas à vinculação do significado com o modo de significar, com uma forma significante”50. É
50
CAMPOS, Haroldo de. (1996). Paul Valéry e a poética da tradução. In: COSTA, Luiz Angélico da (org.).
Limites da traduzibilidade. Salvador: EDUFBA, 1996, p. 207.
45
Para mostrar a falácia desse posicionamento, Laranjeira cita o autor que é mormente
apontado como defensor da impossibilidade da tradução revertendo essa crença e má
interpretação da sua palavra. Quando Jakobson afirma que a poesia é por natureza
intraduzível, argumenta Laranjeira, só quer destacar que se trata de uma tradução sui generis e
chega até a atribuir-lhe uma denominação específica: “transposição criativa”. Testemunho
dessa interpretação da teoria da tradução poética de Jakobson é, segundo o teórico brasileiro,
o fato de que o mesmo Jakobson teria feito traduções de textos poéticos. Uma leitura mais
aprofundada do texto de Jakobson levaria também a um superamento ou esclarecimento da
relação entre o signas e o signatum: “[...] Jakobson deixa claro ser apenas aparente o
dualismo forma/conteúdo que desponta aqui e ali em sua exposição. Nunca é uma posição
irredutível. È antes uma atitude didática, um passo analítico que melhor conduz à síntese
definitiva e viva que é o texto, o poema [...]” (LARANJEIRA, 1993, p. 24).
É, justamente nessa tensão, e não oposição, entre forma e conteúdo entre signas e
signatum entre som e sentido que reside a possibilidade dos traços distintivos da poesia de
“significar imediatamente”.
Enfim, partindo-se da concepção da impossibilidade de se considerar traduzível só o
conteúdo e não a forma de um poema e destacando-se a importância de se perceber o processo
de criação de sentidos existentes no texto de partida, os teóricos acima mencionados,
partidários da traduzibilidade, afirmam ser tarefa do tradutor a de reproduzir a significância
do poema originário: ou seja, deve-se obter na língua de chegada a mesma interação entre os
significantes. Essa relação não deve ser, porém, uma simplória paráfrase do poema de partida,
mas a produção de um texto que acarreta uma significância correlata àquela do primeiro texto:
“[...] a tradução é uma reescritura, noutra língua, de uma leitura do texto. É imprescindível
que o sujeito da leitura seja o mesmo da reescritura [...]” (LARANJEIRA, 1993, p. 31).
46
Falou-se até agora da pregnância de uma tradução poética, das suas peculiaridades e
dificuldades. Alguns teóricos, como se viu no parágrafo anterior, sustentam a impossibilidade
da tradução de textos poéticos devido à pressuposta dualidade e distância entre forma e
conteúdo que torna improvável a reprodução da primeira por causa da sua carga semântica;
outros – como Laranjeira, Paz, etc. – propugnam uma “transpoetização” ou reescritura da
significância do texto de partida. Todos se serviram nas suas ilustrações de noções
fundamentais como poética, poesia, poeta; faz-se necessário então para uma melhor
compreensão da tarefa do tradutor poético, esclarecer essas noções para desvendar, se for
possível, os processos do ato criativo, as isotopias da criação poética, já que a tradução
deveria ser uma recriação paralela desse processo num outro código: ou seja, deveria ser, com
uma definição que nos parece mais apropriada, um “equivalente poético”.
Segundo Octávio Paz, o poeta é um tradutor, um decifrador do idioma enigmático do
universo. Já que “[...] cada poema é uma leitura da realidade; essa leitura é uma tradução; essa
tradução é uma escrita: um voltar a cifrar a realidade decifrada” (PAZ, 1984, p. 98).
Mas a definição mais precisa desse trabalho oculto do poeta vem das estrofes de Emily
Dickinson: a essência da voz poética, a personificação do processo criativo. Em algumas das
suas 1775 poesias, a autora americana aborda o tema da criação artística e do seu “autor”;
duas, especificamente, conseguem mais eficazmente descrever esse processo: a numero 448 e
a numero 112651. Na primeira ela define muito nitidamente o papel de intérprete coletivo
51
Em outras duas ocasiões Dickinson define o poeta: na número 544 e na 883. Na primeira, define os poetas
como mártires da palavra: The Martyr Poets – did not tell -/ But wrought their Pang in syllable -/ That when
their mortal name be numb -/ Their mortal fate – encourage Some -/ The Martyr Painters – never spoke -/
Bequeathing – rather – to their Work -/ That when their conscious fingers cease -/ Some seek in Art – the Art of
Peace -. Na outra poetiza a duração da palavra do poeta que sobrevive, como uma luz revelada, à sua esistência:
The Poets light but Lamps -/Themselves – go out -/ The Wicks they stimulate -/ If vital Light/ Inhere as do the
Suns -/ Each Age a Lens/ Disseminating their/ Circumference -. (DICKINSON, Emily. Tutte le poesie,
organizado por M. Bulgheroni. Milano: Mondadori, 1997, p. 609 e p. 963).
47
448
Of Portion – so unconscious –
The Robbing – could not harm –
Himself – to Him – a Fortune –
Exterior – to Time –
(DICKINSON, 1997, p. 494)
52
Marisa Bulgheroni, a maior especialista italiana de literatura americana, principalmente de Emily Dickinson,
faz a seguinte análise da poesia em questão: “In questa sua prima definizione di poeta [...] Emily oscilla tra
identificazione ed estraneità. Nelle prime due strofe il lavoro poetico è associato alla distillazione di un
senso/essenza connesso alla sfera del femminile. Chi lo compie sfugge a un’identità di genere: il That del v. 1
sembra indicare sia il creatore che il prodotto. Nelle due ultime strofe il poeta, ‘rivelatore d’immagini’, partecipa
piuttosto dell’onnipotenza e della ricchezza di Dio o dell’amante, ladri inconsapevoli. La sintassi franta
dell’originale esprime, più che non la traduzione, l’ambiguità; ma, comunque lo si interpreti, il poeta ha qui il
ruolo di trasformare il familiare in stupefacente, sottraendo la lingua che lo nomina all’usura del tempo”. (Nessa
sua primeira definição de poeta [...] Emily oscila entre identificação e estranhamento. Nas primeiras duas
estrofes o trabalho poético é associado à destilação de um sentido/essência ligado à esfera da feminilidade. Quem
o cumpre foge a uma identificação de gênero: o That do v. 1 parece indicar quer o criador quer o produto. Nas
ultimas duas estrofes o poeta, ‘revelador de imagens’, participa da onipotência e da riqueza de Deus ou do
amante, ladros inconscientes. A sintaxe fragmentada do original expressa, mais do que a tradução, a
ambigüidade: mas, de qualquer forma o interpretamos, o poeta tem aqui o papel de transformar o familiar em
vislumbrante, subtraindo a língua que o pronuncia à usura do tempo. ( Tradução nossa). Para outras informações
ver DICKINSON, Emily. Tutte le poesie, organizado por M. Bulgheroni. Milano: Mondadori, 1997, p. 1702.
48
Nessa poesia, que se poderia intitular The creation, Dickinson ilustra com muita
eficácia o processo de busca da palavra “certa” entre as muitas que se candidatam. O poeta,
esse estranho pesquisador de sílabas significantes, confia mais na filologia de um dicionário
enquanto deixa em suspenso a decisão final, medindo, descartando, testando os efeitos das
palavras até quando abruptamente a palavra recusada se torna a mais adequada. O trabalho do
poeta, nos sugere Dickinson, não é somente infatigável experimentação, mas há também uma
parte indizível, invisível que pertence ao poeta desde sempre, um dom poético gratuito cujas
razões e cujos caminhos são ignotos ao próprio poeta.
Poesia seria então a realização concreta de uma inspiração, e poética é a organização
criativa dessa inspiração. Mas poesia é, sobretudo, subversão do signo lingüístico do qual
nega a arbitrariedade: na poesia é o significante que comanda o significado. E aqui se volta ao
conceito expressado por Dickinson: a linguagem criada pelo poeta é uma linguagem que
nenhum ser ordinário poderia criar e nenhuma outra forma de discurso literário de caráter
mimético. Para existir poeticidade devem se estourar os limites do estereotipo literário: “[...] a
língua da poesia não é a língua comum enfeitada com este ou aquele recurso da retórica; ela
explode os quadros da gramática para, através da agramaticalidade, criar um sistema ‘outro’
de geração de sentido” (LARANJEIRA, 1993, p. 53). Certamente, como afirma Laranjeira, o
tradutor não pode se situar perante um texto poético come faria com um texto qualquer, “[...]
se a língua do poema é, sob muitos aspectos, uma antilíngua, a atitude operante do tradutor de
49
poemas pouco terá a ver com a do tradutor comum” (1993, p. 54). Ele também, como o poeta
de Dickinson, deveria ser metade filólogo e metade visionário.
O que, lembrando Jakobson e a sua função poética, deveria se destacar num processo
tradutório que lida com poesias é que essa função específica da poesia se fundamenta num
principio de equivalência com a qual se selecionam os elementos constitutivos. Os princípios
da similaridade e da dissimilaridade, da sinonímia e da antinomia constituem essa
equivalência que envolve todos os elementos de uma seqüência. Através dessa equivalência
entre plano métrico-rítmico e gramático-semântico, o poeta constrói o sentido global do
poema. Essa geração de sentido envolve o poema enquanto texto e não somente frases ou
partes dele.
A poesia não é somente um fenômeno lingüístico, mas também semiótico; a tradução e
os tradutores não são chamados a um mero trabalho de reprodução lingüística dos signos –
isso cabe a um dicionário, como Dickinson nos lembrou - mas também à reconstituição dessa
ligação única entre signos e significados que cabe a uma mente criativa e criadora! Não se
trata então de ser fiel ao texto de partida, já que a poesia é, em si, uma infidelidade, uma
traição da linguagem. Deve-se, ao contrário, considerar e captar as combinatórias que
caracterizam o texto poético e que constituem a sua significância e então restituir, gerar numa
língua de chegada uma estrutura que mantenha a mesma equivalência poética do original. Não
interessa então, posto que seja possível, ser fiel a um sentido, mas recriar uma significância
equivalente. A marca do poético, do original e da tradução, de conseqüência, deve ser a
predominância do trabalho no significante sobre a referencialidade. A poesia não gera sentido,
mas um significado obliquo. A “fidelidade” então – termo ambíguo e que não se quer retomar
aqui no seu sentido mais prescritivo53 - estaria no cuidado de preservar ou transpor no texto de
chegada em todos os níveis (fonético, prosódico, etc.) o jogo de significantes da estrutura
original, porque nesses jogos de significantes se fundamenta a significância do texto.
Partilhando a asserção de Laranjeira, parece possível se falar de “infidelidade” no caso em
que a tradução de um poema resulta em um não-poema, ou seja, em um não equivalente
poético, em um texto que não consegue ultrapassar os limites da referencialidade e da
mimese.
53
Compartilhamos com Eco (1995) a idéia de uma semiótica da fidelidade. Todo texto implica em uma
exigência de fidelidade. Por fidelidade não se entende aqui o termo não usual e já bastante criticado pelas teorias
da tradução que enfatizam a importância do target text e da cultura de chegada, mas o conceito de fidelidade
ligado à concepção que considera qualquer tradução como uma interpretação. Essa interpretação, como todas as
interpretações deve alcançar, mesmo partindo da sensibilidade e cultura do leitor, para recuperar a intenção do
texto, ou o seu modo de intencionar ou significar –em termos benjaminianos - . Deve-se remontar ao que o texto
fala em relação à língua e ao contexto cultural no qual nasceu.
50
Lembra-se que outro elemento importante, mas não fundamental54, que contribui em
criar a significância de um texto é a sua visigibilidade, ou seja, a sua estruturação visível, a
sua disposição na folha. J
ohn Milton, no seu texto55, lembra o quanto tenha sido importante para os tradutores
contemporâneos a forma do poema a ser traduzido. Criticando um uso indiscriminado da
tradução em verso livre, esses tradutores56 afirmam uma lei básica da poeticidade: a harmonia
formal.
Em suma, a tradução de um texto poético é certamente complexa, mas não impossível.
É possível quando se consegue superar os limites de uma recriação livre alcançando a
reescritura de um texto que ganha, devido à equivalência da significância acima mencionada,
o status de um texto homogêneo, coerente e autônomo também na língua, cultura e poética de
chegada. Como afirma Laranjeira, no caso da poesia “não se trata, pois, para o tradutor, de
‘conseguir dizer’ aquilo que o autor ‘quis dizer’, mas sim de ‘fazer’ algo semelhante ao que o
autor ‘quis fazer’” (1993, p. 35). Essa seria então a tarefa do tradutor poético seja ele
recriador, ou transpoetizador, ou mesmo desconstrutor ou leitor-recriador:
“A tradução como transcriação é o pôr em poesia da poesia” afirma Haroldo de
Campos (1987, p.13). A tal afirmação, poder-se-ia acrescentar argumentando que se a
especificidade do poeta, conforme assevera Benjamin, é trazer as idéias às formas, enquanto
que o tradutor, emancipado dessa tarefa, lidaria diretamente com essas formas da
significância, será que somente o poeta poderá trazer as formas-significantes de um outro
poeta às novas formas?
54
Não seria fundamental no sentido que a disposição métrica de uma poesia (em quartetos, tercetos, etc.) não é
suficiente para garantir poeticidade do texto. Um texto em prosa sem uma estrutura fixa poderia muito bem
conter um grau de poeticidade muito alto, não é a mera reprodução da estruturação métrica de uma poesia
original que faz da sua tradução um equivalente poético.
55
MILTON, John. O poder da tradução. São Paulo: Ars Poética, 1993, p. 116.
56
George L. Kline, Brodsky, dentre os outros citados por John Milton.
51
O poeta e escritor italiano do século XIX, Giacomo Leopardi, afirma ser indispensável
a condição de poeta para se traduzir outro “verdadeiro” poeta. Ele, também tradutor, declara
ter sido indispensável, durante a tradução de textos gregos, penetrar no processo criativo do
autor do original para conseguir assimilar e reescrever as características do texto visando a
fornecer uma tradução que não obrigasse o leitor constantemente a remontar ao texto de
partida. Subjacente a essa definição é a crença, já vasculhada acima, segundo a qual uma boa
tradução é aquela que consegue criar um texto autônomo que passa a valer por si na língua de
chegada.
Certamente, poder-se-ia concordar com o poeta italiano pensando em quanto a poesia
e a tradução de poesia exige uma sensibilidade peculiar, um domínio das características
expressivas de uma língua e, sobretudo, um conhecimento técnico e retórico profundo.
Levando em consideração esses, e outros elementos já discutidos acima, pareceria lógico se
concluir que só um poeta, ou pelo menos um “poeta potencial” - como afirma Laranjeira –
poderia traduzir outro poeta. Por poeta potencial - o que nesta pesquisa chamar-se-á de poeta
não reconhecido pelo cânone – se entende um tradutor que lida com poesia, mas pode não ter
publicado coletâneas de versos na língua materna ou tê-las publicado e, não obstante isso, não
ser reconhecido socialmente como poeta.
Meschonnic (1995, p. 279) reforça essa concepção afirmando que os melhores
tradutores de poesias foram os escritores, pois somente eles conseguiriam integrar as
traduções à própria obra anulando através da própria linguagem poética uma distância que
pareceria insuperável, “só um escritor é um tradutor”.
Da mesma opinião, como lembra John Milton (1993, p. 70), é Ezra Pound, segundo o
qual seria fundamental acrescentar a própria voz do tradutor-poeta à voz do poeta traduzido.
Com Pound, segundo Milton, muda a concepção de tradução e sobretudo o papel do tradutor:
“Pound acrescenta seu elemento especial [...] – a importância do tradutor. O tradutor não
segue os passos do original, aspirando a ser seu amigo; em vez disso, ele domina a tradução,
colocando seu próprio ser dentro dela” (MILTON, 1993, p. 97).
52
Paz (1995, p. 291), por sua vez, afirma que só teoricamente os poetas deveriam
traduzir melhor outros poetas, porque, ao contrário, na prática poucas vezes isso encontra uma
confirmação. Segundo ele, isso é devido ao fato de que os poetas geralmente se serviriam do
poema alheio como de um ponto de partida para escrever um próprio poema. Ao contrário,
um “bom tradutor’ seria o que escreve um poema análogo, mas não idêntico ao original. O
bom tradutor de poesia é um tradutor que é também um poeta, ou um poeta que também é um
bom tradutor57. Em outras palavras, uma coisa não inclui a outra, simplesmente complementa
a outra. Segundo Paz, a incapacidade dos poetas em traduzir poesia seria de ordem
psicológica: a tradução poética segue um caminho inverso ao do da criação poética, por isso o
poeta acostumado a lidar com palavras móveis escolhe um certo número delas para combiná-
las numa estrutura significante que denominamos de poema, enquanto o tradutor lida com o
processo contrário, parte da imobilidade de um poema para desmontá-lo e torná-lo novamente
móvel numa estrutura composta de diferentes signos significantes. A tarefa do tradutor, neste
caso, é paralela à do poeta mas em sentido inverso: a diferença fundamental é que quando
escreve o seu poema o poeta não imagina como será o seu produto final, enquanto o tradutor
já possui um produto final que deverá reescrever numa outra língua. O poeta, então segundo
Paz, não possuiria por natureza essa capacidade de lidar com elementos fixos.
Objetivo desta pesquisa é exatamente o de captar as diferentes estratégias e
abordagens adotadas por tradutores – poetas reconhecidos pelo cânone e não reconhecidos
pelo cânone – para traduzir textos poéticos. Existem, sem dúvida, atitudes diferentes ditadas
por várias razões que influenciam a forma de se traduzir e que deixam marcas no produto
final.
A princípio, segundo da Costa, a diferença principal entre tradutor poeta e o não poeta
é que o primeiro, ao chegar à significância das palavras, por incompetência ou por medo de
fazer as escolhas necessárias da tradução livre, se prende ao literal, ao significante, à forma58.
Por sua vez, o poeta conhece o processo criativo que está atrás de uma frase; sabe que
antes de traduzir um poema, tem que traduzir e compreender o sentir poético do outro autor. É
esse sentir poético do autor que o leva a escolher aquela e não uma outra combinação
específica de palavras. Como da Costa afirma, numa tradução poética deve-se captar o
processo criativo, o pensamento que está atrás da palavra. A posição de da Costa é clara: o
57
Acerca dessa relação poeta/tradutor na história da Literatura ver John Milton. Op. cit., p. 114 e seguintes.
Destaca-se a importância levantada por alguns autores da influência que a tradução operaria sobre a produção
poética do poeta oferecendo-lhe novos estímulos.
58
Seria relevante sublinhar aqui que o medo do qual fala da Costa se compõe de vários elementos: como, por
exemplo, as restrições de tipo editorial ou político e a autoridade do original.
53
trabalho do tradutor é um trabalho consciente porque ele opera escolhas precisas, atrás de
cada palavra há sempre um pensamento, atrás de cada metodologia ou método, há uma
teoria59. O tradutor não pode fugir daquilo que ele é, da sua estética, da sua ideologia, da sua
nacionalidade. Da Costa não se cansa de relevar que quando o tradutor escolhe a tradução
livre, como poeta, ele trabalha numa idéia; logo, o seu, é um trabalho consciente. Essa
concepção, como lembra da Costa, já está contida na palavra “poeta”, que vem do latim e
significa “aquele que faz”, “o fazedor”. Por isso o “poeta é um refazedor, inclusive do seu
texto, da sua própria criação” (ROMANELLI, 2002)60.
O exemplo de Manuel Bandeira, tradutor de Emily Dickinson, contextualiza bem essa
teoria. No seu artigo, da Costa lembra como o poeta brasileiro recriou e não traduziu cinco
poemas da poetisa americana e enfatiza a importância da escolha do poeta:
Muito mais os une, todavia, do que a mera circunstância de ser ele um de seus
tradutores para a nossa língua, vez que a simples escolha do poeta e/ou do poema
que se traduz de logo denota alguma forma de afinidade entre o autor e o tradutor. A
questão aqui, entretanto, é muito mais do que de forma. É uma questão de essência
(COSTA, 1989, p. 173).
59
Essa questão da tradução consciente, já foi abordada por da Costa no artigo “Os conceitos de ‘tradução literal’
e ‘tradução livre’ no processo de ensino-aprendizagem”, no livro por ele organizado Limites da traduzibilidade
(1996). Naquela ocasião, falando das técnicas úteis aos neófitos da tradução (dentre as quais a da tradução da
gravação oral de um texto), o entrevistado lembrava o perigo da “Tirania do texto” do qual os tradutores devem-
se afastar: se for verdade que o texto constitui o ponto inquestionável de partida de uma tradução, os tradutores
não devem, porém, prender-se às palavras, à letra da palavra, à palavra no seu plano físico, na qualidade, como
diria Saussure, de significantes, senão “corremos o risco de ficar sem um pensamento” (COSTA, 1996, p. 85). A
palavra, como nos lembra Luiz Angélico da Costa, não existe, só tem um certo número de conexões com
referentes externos (que como tais aparecem no dicionário) e é somente no contexto que passam a ter sentido, a
ter significado. Segundo ele, é essa falta de visão geral de um texto que leva os neófitos a cair na tradução ipsis
litteris ou verbum pro verbo (da qual já falava Cícero). A pretensa fidelidade da tradução ipsis litteris “não passa
de uma compreensão errônea do conceito de ‘tradução literal’ simplória e equivocadamente tomada sempre
como uma transposição ipsis litteris...”. (COSTA, 1996, p. 84). Não obstante tenham sido bastante analisadas as
diferenças entre a tradução ipsis litteris, a tradução literal e a tradução livre, ainda permanecem confusões e más
interpretações. Segundo da Costa, a diferença entre tradução ipsis litteris e tradução literal é que esta acompanha
mais de perto o texto como produto final (e não como uma mera seqüência linear de palavras). A tradução literal
respeita ao máximo (conscientemente) e segundo concepções definidas por cada tradutor, o texto impresso. A
tradução livre, a seu ver, é uma tradução por opção: o tradutor encontra possibilidades de ser fiel à letra do texto
mas ele prefere fazer modificações a seu gosto, obedecendo uma série de fatores, que estão moldando o seu
trabalho. O tradutor justifica, ou deveria justificar a sua escolha, a sua “nítida opção”.
60
A tradução livre, então, deve permitir ao tradutor superar as dificuldades que a diferença das duas línguas (a de
origem e a de chegada) implica. É a própria língua de chegada que impõe uma tradução diferente. O tradutor
resolve essas dificuldades através do que da Costa chama de probabilidade tradutória existente entre as duas
línguas. Em suma, a tradução livre seria uma tradução opcional, criativa, poética. Livre não porque não tem
parâmetros ou tem os parâmetros que cada tradutor escolhe, mas porque o tradutor escolhe uma opção dentre
opções, mas sempre, lembra o entrevistado, em um plano estético: “Em breves palavras, o que pretendemos é
(talvez um tanto apologeticamente) lembrar ao leitor que toda tradução representa uma dentre várias possíveis
opções de transposição de um texto da língua onde ele se formou e informou para uma outra língua onde ele
surge dependente e originário de n fatores – a começar pela indispensável consideração da identidade cultural
dos prováveis consumidores desse texto de chegada”. IN: COSTA, Luiz Angélico da. Tradução ou traduções?
Exu. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, n. 16-17, p. 12-13.
54
É essa afinidade, ou o fato de ser uma escolha do poeta, que faz da tradução poética
uma recriação paralela do texto original, uma recriação da emoção, e é justamente a forma, a
realização dessa emoção. Outra vantagem da tradução feita por um poeta é a de evitar o
perigo do assim chamado “tradutor-traidor”, que se prende à forma com medo de não ser fiel
ao texto, como afirma da Costa, no citado artigo, ainda falando das traduções de Bandeira.
Nesse mesmo artigo, ele define a tradução de poeta a poeta como uma:
Antes de abordar a análise descritiva do corpus poético que constitui o alvo de estudo
desta pesquisa, e após a contextualização teórica dos parágrafos anteriores, faz-se necessário
esclarecer quais os objetivos deste estudo, quais as hipóteses adotadas e a metodologia que
utilizar-se-á no exame do corpus em questão.
Pretende-se abordar a questão da traduzibilidade de textos poéticos não do ponto de
vista normativo – para estabelecer presumidos graus de fidelidade ao texto original - , mas do
ponto de vista descritivo. Como se viu nos parágrafos acima (v. 1.1.3 e 1.1.4), os Estudos da
Tradução levantam os limites de abordagens meramente lingüísticas da tradução e propõem
um novo esquema de análise das traduções que se fundamenta sobre uma diferente definição
de conceitos cardeais da teoria da tradução: muda abruptamente a perspectiva de análise que
não é mais a do texto de partida, o presumido original, mas a do texto de chegada.
55
Além disso, a visão não fica mais limitada aos textos, mas, sobretudo, às culturas de
chegada e de partida; especificamente ganhando relevância a cultura do pólo receptor assim
como os fatores sócio-políticos e culturais que através de normas especificas influenciam as
estratégias dos tradutores. Os textos e a literatura traduzidos, alcançam um próprio e
especifico status, o de textos originais que possuem uma vida própria dentro do sistema, ou
polissistema de chegada.
O objetivo dos estudos descritivos, e, portanto, desta pesquisa, é o de, através de uma
análise dos textos traduzidos, considerados como originais, destacar as recorrências que
podem revelar determinadas estratégias tradutórias para remontar às normas ou restrições que
as originaram, as que Toury chama de translation norms (v. 1.2.2).
No caso em questão, analisar-se-ão textos poéticos visando a ilustrar se realmente
existe uma diferença muito grande entre as estratégias adotadas por poetas reconhecidos pelo
cânone e as dos não reconhecidos pelo cânone (conforme definição dada acima, cf. 1.3.2) e se
é possível remontar às razões que originaram esses diferentes comportamentos.
56
Objeto de estudo deste trabalho serão, como já foi mencionado antes (v. 2.3.3), as
traduções para o italiano dos poemas da poeta americana Emily Dickinson (o poeta) feitas por um
poeta reconhecido pelo cânone (o transpoetizador) – a italiana Rina Sara Virgillito – e por sete
tradutores-poetas não reconhecidos pelo cânone (os tradutores) – Margherita Guidacci, Barbara
Lanati, Silvio Raffo, Massimo Bagicalupo, Bianca Tarozzi, Nadia Campana e Gabriella Sobrino.
Adiante nesta dissertação (v. 4.1) se exporá de forma mais detalhada a metodologia adotada bem
como o corpus selecionado.
No primeiro capítulo, já se tratou amplamente da abordagem descritiva que será utilizada
na análise das traduções, assim como da distinção entre tradutor-poeta reconhecido pelo cânone e
tradutor-poeta não reconhecido pelo cânone. Mas cabe aqui retomar os conceitos e a definição de
poeta e, sobretudo, de poética que acompanharão a busca do grau de poeticidade das traduções
em questão.
Conforme a definição canônica do verbete em um dicionário de literatura: a poética
[...] é, do ponto de vista do agir artístico, o conjunto das escolhas, dos gostos, das
tendências estéticas, dos programas poético-literários de um dado autor ou de um grupo
de autores (uma corrente, uma escola). A poética diz respeito não só aos fins quanto aos
meios, ou seja, tanto aos objetivos finais (estéticos ou ideológicos) quanto aos
instrumentos técnicos, lingüísticos, formais com os quais realizá-los (trad. Nossa)
(BERTONE, 1989, p. 722).
Segundo a definição de um crítico literário, a poética seria “[...] a consciência ativa que o
poeta possui, e que conquista, da sua força poética [...] e do seu uso construtivo nas prefigurações
e na realização das obras às quais visa, um ato de consciência ativo e operacional do agir poético,
da sua peculiaridade e das implicações gerais [...]” (trad. nossa) (BINNI apud BERTONE, 1989,
p. 723).
Enfim, diria um Poeta, e com muito mais autoridade, que a poética é um trabalho
consciente e preciso de busca das palavras significantes que se revelam ao poeta, embora por
caminhos e razões nem sempre explicáveis: “The Poet searched Philology/ And when about to
ring/ For the suspended Candidate/ There came unsummoned in –/ That portion of the Vision/
The Word applied to fill/ Not unto nomination/ The Cherubim reveal –/” (DICKINSON, 1997, p.
1163).
58
De fato, segundo Emily Dickinson a poesia é algo devastador, uma revelação que atua por
intermédio do poder avassalador das palavras: “Se ao ler um livro sinto todo o meu corpo gelar a
ponto de nenhuma outra chama ser capaz de me aquecer, então sei que aquilo é poesia. Se tiver a
sensação que a minha cabeça está sendo despedaçada, os miolos arrancados, então sei que aquilo
é poesia” (Trad. nossa) (DICKINSON, 1997, p. LI).
Concorda-se então com a concepção de Dickinson acerca do poder revolucionário e
herético da palavra poética; revolucionário não só no aspecto do significado, mas, sobretudo, no
da forma significante. A poesia – diz ainda Dickinson - é como um trovão que se concentra na
palavra eruptando polissemias: “To pile like Thunder to its close/ Then crumble grand away/
While Everything created hid/ This – would be Poetry -/” (DICKINSON, 1997, p. 1256).
A mesma concepção de poeta encontra-se em Laranjeira, quando afirma que os poetas
exercem um papel subversivo e que “[...] a palavra do poeta é nova, estranha, profética,
explosiva, revolucionária, íntima e coletiva. E não só: contraria os fundamentos mesmos da
comunicação, subvertendo o próprio ato da elocução” (1993, p. 51). Não é suficiente escrever um
poema para se fazer Poética: o respeito de padrões retóricos e da estrutura métrica não é garantia
de poeticidade se o significante não se torna um produtor de significados transgressores.
Por tudo isso se faz necessário, ao analisarem-se as traduções “poéticas” de Emily
Dickinson, cuidar da apresentação da poética conforme os autores em questão, e da atenção que
deram a essa significância subversiva da linguagem poética.
Inicialmente, começar-se-á com a própria Emily Dickinson, ressaltando-se a peculiar
relevância que assume a palavra poética nos seus textos e as potencialidades métricas e lexicais
que a poeta rebeldemente desenvolve. Continuar-se-á apresentando a poeta e tradutora italiana
Rina Sara Virgillito e a sua poesia visionária completamente voltada à epifanização do irreal
mediante o poder desvendador da dicção poética. Enfim, serão apresentados os sete tradutores
não reconhecidos pelo cânone que nos últimos vinte anos traduziram e escreveram na Itália sobre
Emily Dickinson.
59
Muito já foi escrito sobre Emily Dickinson, o Mito, come era chamada ainda durante sua
vida61. Não cabe aqui, pois, fornecer um quadro exaustivo da sua biografia62, visto que
amplamente analisada por vários autores, assim como da sua vasta produção poética, mas faz-se
necessário ilustrar as coordenadas principais de uma Poética “inalcançável”, que até hoje
constitui o desafio principal dos inúmeros tradutores que se aproximam dessa complexa tarefa.
Nas 1775 poesias que escreveu e que foram encontradas após a sua morte, Emily
Dickinson se define sempre por metáforas que possuem um único denominador: o desvio63.
Todas as máscaras que a autora escolhe expressam a recusa dos papéis sociais que cabiam a uma
mulher da sua época: a bruxa, a freira rebelde, a rainha, a cigana e a mulher de branco (que
celebra com um vestido cândido a sua escolha de solidão consagrada à poesia e ao poder da
palavra). Todos esses alter-egos se entregam à força da poesia, nela explodem e despedaçam a
identidade social em uma multiplicidade de vozes. Todas as máscaras se revelam, porém, como
instrumentos de destruição lingüística, mais do que biográfica: cada uma delas traz consigo um
diferente universo lexical. Foi justamente nesse multifacetado mundo semântico e simbólico que
muitos dos intérpretes, e a maioria dos tradutores, se confundiram.
Escolhe, entretanto, um caminho sem saída quem quiser buscar nas escassas etapas da
biografia precária de Emily Dickinson, o fio de Ariadne da sua labiríntica poética. A poesia de
Emily Dickinson se concentra na palavra, como um ponto dentro de uma circunferência: e é essa
61
Mabel, a amante do irmão, assim a descreve em uma carta de 1881: “Amherst possui uma personagem da qual
devo falar-lhes. É uma senhora que as pessoas chamam de o Mito. É a irmã do senhor Dickinson e parece trazer em
si a quintessência da excentricidade da família. Há quinze anos não sai de casa [...] Veste roupa branca e o seu
intelecto é prodigioso. Escreve com grande elegância, mas ninguém a vê, nunca [...]” (trad. Nossa) (BULGHERONI,
2001, p. 260-1).
62
Emily Dickinson nasceu em Amherst, uma cidade do Massachussets nos Estados Unidos, em 1830 e em Amherst,
na casa paterna e, aliás, quase sempre no mesmo quarto, passou a vida toda, com a única exceção de uma viagem a
Washington e de duas breves viagens a outras duas cidades. Em uma solidão quase total, começou a escrever versos,
sobretudo a partir de 1860, intensificando a sua produção. Faleceu em Amherst em 1866. Para um aprofundamento
maior da parte biográfica, ver em inglês MITCHELL, Domhall. Emily Dickinson: Monarch of Perception. Amherst:
University of Massachussets Press, 2000; e em italiano BULGHERONI, Marisa. Nei sobborghi di un segreto. Vita di
Emily Dickinson. Milano: Mondadori, 2001.
63
“Tanto os nomes-faces que a situam no âmbito semântico do poder secular (rainha que veste diademas e jóias),
quanto os que a colocam no âmbito semântico dos poderes heréticos (bruxa capaz de transformar a matéria bruta do
dicionário em “jóias” e “flores” poéticas, freira rebelde), quanto ainda os nomes que a colocam em uma posição
nômade e carente (cigana, mendiga), todas dizem respeito a uma distância do papel social que a época impunha às
mulheres da sua classe social [...] Bruxa alude às capacidades de transformação, traz em si a idéia de um saber
alternativo ao oficial, de um conhecimento misterioso, partilhado com outras mulheres “excêntricas” em relação ao
saber-poder vigente [...]” (trad. Nossa) (ZACCARIA, 2002, p. XII).
60
palavra a única concretização da escuta privilegiada da língua originária. Essa poética, como ela
expressa em uma das suas poesias, não deve possuir verdade nenhuma, senão o privilégio de
trazer em si mesma o eco daquela verdade: “Circumference thou Bride of Awe/ Possessing thou
salt be/ Possesed by every hallowed Knight/ That dares to covet thee/”(DICKINSON, 1997, p.
1526).
Com o intuito de aperfeiçoar mais essa sua escuta é que Dickinson escolheu
gradativamente a solidão, a clausura de um quarto e, para respeitar a originalidade desse precioso
ditado, resolveu não publicar de forma alguma os seus poemas e de não adaptar a sua dicção
desviante aos padrões poéticos da América Vitoriana. Preferiu o risco de uma ininterrupta,
solitária experimentação poética e de uma fama póstuma e incerta, à certeza da mutilação que a
sua palavra teria sofrido - como de fato aconteceu com as poucas poesias que aceitou publicar em
vida, anônimas, que foram corrigidas por críticos obtusos justamente nas “anomalias” nas quais
ela se reconhecia: o famoso travessão substituído por vírgulas, as inusitadas iterações fônicas das
palavras consideradas como desarmonias.
Atrás dessa atitude intransigente de Dickinson, escondia-se uma altíssima consideração
pela palavra escrita e uma conseqüente, incansável busca da perfeição expressiva, pela palavra
certa, pela frase memorável: “No caso de Emily Dickinson, um autor alcança pela primeira vez
uma transposição completa de si na escritura [...]” (trad. Nossa), (ZACCARIA, 2002, p. XV).
A partir do momento em que, após sua morte, foram encontrados em um baú os
manuscritos que ela, elegante e pacientemente transcrevera, recolhendo-os em vários fascículos,
inicia-se um processo de leves, mas inexoráveis alterações. A sua linguagem oracular, densa,
elíptica é moldada conforme o cânone sentimental da época e começam as estereotipadas
identificações do seu “eu” lírico com a imagem da reclusa vestida de branco, da virgem triste,
que por muito tempo obscurecerão a violência dos seus versos.
Somente após 1955 – ano da primeira edição crítica de Thomas H. Johnson64, que
transfere integralmente para o papel impresso os manuscritos de Dickinson e as muitas variantes
– começou um sério trabalho de decodificação da poética dickinsoniana. Uma poética que tinha
como autores e textos de referência: a Bíblia, William Shakespeare, os metafísicos ingleses,
Blake, Keats, Emily Brönte, Emerson e os Browning; com uma língua caracterizada por uma
64
JOHNSON, H. Thomas (org.). The Poems of Emily Dickinson. Cambridge: The Belknap Press of Harvard U. P.,
1955.
61
65
Os tipos de estrofes jâmbicos e trocaicos usados por Emily Dickinson são os seguintes: Common Meter (quartetos
de tetrâmetros jâmbicos alternados com tetrapodes jâmbicos rimados – esquema silábico 8, 6, 8, 6); Common
Particular Meter (sextetos de tetrapodes jâmbicos alternados com trímetros jâmbicos – 8, 8, 6, 8, 8, 6); Eights and
Fives (quartetos de tetrâmetros trocaicos alternados com trímetros cataléticos, isto é, privados da última silaba não
acentuada – 8, 5, 8, 5); Eight and Sevens (quartetos de tetrâmetros trocaicos com conclusão feminina alternados com
tetrâmetros cataléticos – 8, 7, 8, 7); Long Meter (quartetos de tetrâmetros jâmbicos – 8, 8, 8, 8, 8); Sixes and Fives
(quartetos de trímetros trocaicos alternados com trímetros trocaicos cataléticos – 6, 5, 6, 5); Seven and Sixies
(trímetros jâmbicos com conclusão plana alternados com trímetros jâmbicos truncados – 7, 6, 7, 6); Short Meter
(quartetos de trímetros jâmbicos, com um tetrâmetro no terceiro verso – 6, 6, 8, 6).
66
Mesma vogal procedida da mesma consoante: anew – renew, mine – mine, ground – ground.
67
Rimas de vogais diferentes: so – lie.
68
Mesma vogal seguida por diferente consoante: recollect – west.
69
Vogais diferentes, seguidas pela mesma consoante: meet – nut.
62
muito presente nos seus poemas: o vulcão. Ela cita nas suas poesias o Vesúvio, o Etna, o
Popocatepetel como elementos distantes do seu horizonte físico, mas familiares à sua geografia
emocional.
Como escreve em uma maravilhosa poesia (1750), ela tem um Vesúvio em casa e subir
seus degraus de lava é sua tarefa quotidiana70. Um oxímoro - A still – volcano – Life71 –, a vida
de Dickinson é tranqüila e vulcânica e assim será também a dicção de sua poesia. Assim como
ninguém poderia imaginar os desmoronamentos emocionais de uma vida aparentemente tão
pobre de acontecimentos, da mesma forma ninguém esperaria que o monossilabismo de sua
versificação contivesse tamanha concentração de força lingüística e um fluxo ininterrupto de
lavas polissêmicas72. A falta de subordinação dos seus versos, a concentração e o travessão
sugerem a calma que antecede a erupção de um vulcão. O vulcão torna-se para Dickinson - como
afirma Marisa Bulgheroni (1997, p. XXI) -, não só uma metáfora da agressividade reprimida,
mas, sobretudo, um modelo de língua: a língua poética possui o mesmo violento poder de
transformação e, como todo grande fenômeno sísmico, provoca o desmoronamento de qualquer
ponto de referência73. Assim, o leitor é projetado em um lugar, não perceptível à consciência, sem
espaço e sem tempo – que Dickinson define de Illocality74 -, onde o único testemunho da
existência é a palavra; e o tradutor, por sua vez, deverá lidar com as significâncias que estabelece
essa nova e terrível cosmogonia. A sílaba constituirá o eixo principal dessa nova (des)-ordem do
mundo: é nela – medida métrica da língua - que está, de fato, guardada a energia originária com o
seu potencial explosivo. O travessão dickinsoniano é a concretização dessa pausa que antecede a
erupção da linguagem, uma pausa que obriga a fazer uma parada, como quem contempla sem
70
Volcanoes be in Sicily/ And South America/ I judge from my Geography/ Volcanoes nearer here/ A Lava step at
any time/ Am I inclined to climb/ A Crater I may contemplate/ Vesuvius at Home (DICKINSON, 1997, p. 1586).
71
A still – Volcano – Life -/ That flickered in the night -/ When it was dark enough to shaw/ Without erasing sight -/
A quiet – Earthquake Style -/ Too smouldering to suspect/ By natures this side Naples -/ The North cannot detect/
The Solemn – Torrid – Symbol -/ The lips that never lie -/ Whose hissing Corals part – and shut -/ And Cities – ooze
away – (DICKINSON, 1997, p. 678-9).
72
Mas há uma poesia na qual Dickinson acena ao segredo da sua vida interior (o seu Vulcão) e a impossibilidade de
revelá-lo aos outros já que apavora ela mesma: On my volcano grows the Grass/ A meditative spot -/ An acre for a
Bird to choose/ Would be the General thought -/ How red the Fire rocks below/ How insecure the sod/ Did I
disclose/ Would populate with awe my solitude (DICKINSON, 1997, p. 1568-9).
73
Paola Zaccaria, na sua introdução ao livro de Dickinson (2002), avança a hipótese que a presença na biblioteca de
família do livro Os últimos dias de Pompéia (trad. Nossa) possa tê-la influenciado e possa ser uma plausível
explicação de terem ocorrido tantas referências a vulcões. Segundo Zaccaria a imagem do Vulcão serve para
Dickinson expressar uma força destrutiva, mas também para simbolizar a potência erótica feminina, The lips that
never lie – (601).
74
A nearness to Tremendousness -/ An Agony procures -/ Affliction ranges Boundlessness -/ Vicinity to Laws/
Contentment’s quiet Suburb -/ Affliction cannot stay/ In Acres – It’s Location/ Is Illocality – (DICKINSON, 1997, p.
1034).
63
justamente a da poeta italiana Rina Sara Virgillito, editada por Garzanti em 2002, objeto desta
pesquisa.
Rina Sara Virgillito costumava sempre levar consigo livrinhos, agendas coloridas, lápis e
canetas quando passeava pelas ruas da cidade alta de Bergamo, onde morava, ou quando sentava
nos pequenos cafés da cidade baixa ou de outros lugares que escolhia: Florença e Roma, por
exemplo. Lia, traduzia e desenhava, sem se importar com o que estava acontecendo ao seu redor,
ou pelo menos não detendo o seu olhar indagador e sensível às aparências, mas concentrando-se
para conseguir penetrar além do véu da mera realidade: a cada instante podia manifestar-se a
revelação do divino que tanto perseguia!
Por ocasião de sua morte, no verão de 1996, na casa-sacrário - na qual ninguém podia
entrar -, havia dois livros em cima da mesa do seu escritório: um de cartas e outro de poesias,
ambos de Emily Dickinson. Numa gaveta, estava um grupo de cinco pequenas agendas (agora
guardadas junto ao Arquivo Histórico de Florença75) nas quais, escritas com uma grafia muito
peculiar - quase um caligrama - havia 114 poesias de Emily Dickinson por ela traduzidas. O seu
trabalho (o qual poucos íntimos conheciam) tinha-se desenvolvido, em um silêncio quase total,
entre outubro de 1995 e janeiro de 1996.
Assim, a partir do momento da descoberta, iniciou-se um processo de transcrição, análise
filológica e organização da edição crítica, que teve como critério para a escolha da versão
definitiva as próprias indicações manuscritas deixadas pela autora.
A análise dos manuscritos de Virgillito – como lembra Sonia Giorgi (2002) - revelou não
somente aspectos interessantes do seu trabalho de tradutora, mas tornou-se fundamental para se
estudarem as interferências entre a atividade tradutória e a composição poética, além de fornecer
um testemunho importantíssimo acerca da gênese do processo tradutório por ela percorrido. As
75
As cartas editadas e inéditas, os livros (cerca de três mil volumes apostilados por ela mesma), os desenhos, os
discos e qualquer outro testemunho de Rina Sara Virgillito, foram cedidos ao Arquivo Histórico de Florença pela
herdeira universal Profª Sonia Giorgi com a convenzione 9 luglio 1997 e constituem o Fondo Virgillito, primeiro
núcleo do projeto da Universidade de Florença para um Arquivo para a memória e a escrita das mulheres. As cinco
agendas das traduções de Dickinson constituem o no 210 do Inventário do Fundo organizado por Beatrice Biagioli.
Eles trazem os seguintes cabeçalhos: Prime stesure. Testi di E. D. , dal 9/10/1995 al 9/11/1995, per Emily Dickinson
[cc. 52]; Dickinson prime stesure, dal 10/11/1995 al 15/1/1996 [cc. 50 + 2 cc. Soltas]; Poesie di Emily Dickinson
(1995) – Revisioni 1996 [cc. 2]; Dickinson, trascrizioni [31/10/1995; cc. 37]; Secondo quaderno di trascrizioni
provvisorie [gennaio 1996; cc. 21]. Para outras informações cf. PELLEGRINI-BIAGIOLI (2001).
65
agendas, que foram estudadas durante cinco anos76, demonstraram uma enorme e complexa obra
de elaboração: todas as traduções têm o lugar, o dia e a hora de tradução anotados, além de
algumas siglas para lembrar, rever (R) ou manter (T) o trabalho77. Um dado interessante que
emerge dessa análise é que, em muitos casos, encontram-se nas agendas junto às traduções novos
poemas da poeta. Esse dado confirmaria um traço peculiar do trabalho intelectual e poético de
Virgillito, o procedimento sinótico da vocação para a poesia e para a tradução, e confirmaria a
tese segundo a qual as duas atividades percorreram um caminho paralelo e se influenciaram
reciprocamente. Essa tese encontra, por sinal, confirmação nas palavras de Ernestina Pellegrini :
76
Acompanhou-se de perto o trabalho e colaborou-se ativamente para a realização da edição definitiva, como lembra
Giorgi na introdução do livro (DICKINSON, 2002, p. XXI): “As páginas das cinco preciosas agendas de traduções
dickinsonianas necessitavam de um trabalho duro e cuidadoso para serem editadas. Agradeço nesta ocasião a Sergio
Romanelli, jovem e talentoso pesquisador, que transcreveu com perícia rabdomântica as páginas das agendas – com
todas as variantes e as anotações autógrafas de Virgillito – e com uma paciência devota ordenou os textos,
colaborando comigo na escolha da lição definitiva; sem a sua preciosa disponibilidade [...] a tarefa teria sido
terrivelmente impossível” (trad. Nossa). (DICKINSON, 2002, p. XXI).
77
Uma revisão cuidadosa e lúcida levou Virgillito, às vezes após inúmeras tentativas, às versões definitivas. A
poesia 1247, por exemplo, apresenta oito versões: o problema fundamental é a tradução do verbo inglês to pile; qual
será a opção melhor? Ammonticchiarsi (apinhar-se), accumularsi (acumular-se), dilatarsi (dilatar-se), comprimersi
(Comprimir-se), concentrarsi (Concentrar-se), addensarsi (Condensar-se), restringersi (restringir-se) ou costringersi
(reprimir-se)? Cada palavra é sopesada, testada, descartada e depois, magicamente reabilitada. O resultado final é
uma versão, em geral a última, menos duvidosa nas variantes, mais respeitosa da estrutura do original.
66
Ela que no seu traduzir tinha sempre almejado uma equilibrada elegância, parece neste
caso contagiada pelo dinamismo do texto dickinsoniano – elíptico, concentrado, vibrante
– e pronta para perseguir cada palavra além da folha escrita, na margem, no branco, para
devolvê-la intacta como uma pérola roubada das profundezas (trad. Nossa)
(BULGHERONI, 2002, p. XXII).
78
Locatelli (2001) no seu estudo sobre as traduções dos Sonetos shakespearianos cita Alessandro Serpieri – crítico
conceituado e tradutor – como um dos maiores apreciadores das traduções de Rina Sara Virgillito. A própria
Locatelli, na conclusão do seu ensaio, define as traduções de Virgillito como “[...] esplêndidas no que diz respeito à
riqueza e à harmonia; muito refinadas quanto à sintaxe e ao ritmo. A sua precisão não é nunca exclusivamente, ou
propriamente lexical, isto é, não depende da tradução de cada vocábulo, mas tem precisão absoluta no plano
conceitual [...] As sua traduções do inglês nos dão [...] a imagem de uma leitora finíssima, concentrada, cuidadosa e
cultíssima [...]” (2001, p. 19-20), (Trad. nossa).
79
“Algumas palavras acerca dos critérios e das escolhas da presente versão. Pareceu necessário, para não trair, na
medida do possível, a força da escansão originária, retomar a estrutura métrica do soneto elisabetano [...]. O
hendecassílabo não será igual ao pentâmetro jâmbico inglês, mas muito lhe assemelha; e, no fim das contas, foi no
soneto italiano que o inglês se moldou [...], na verdade um texto poético, sem dúvida, vive essencialmente da
mistura fônico/timbrico/rítmica, e somente nela o “significado” torna-se sedutor e potente. “A poesia, escreve R.
Jakobson, é intraduzível por definição, é possível só a transposição criativa”. Tentou-se então este caminho:
buscando equivalências conforme os modos e a tradição de nossa língua, questionando as estruturas profundas para
retomar pelo menos as imagens-chave, os jogos de analogias, de remessas intra e intertextuais, dentre de um
concordante jogo de harmônicas e de timbres. Operações desse tipo comportam, claramente, um altíssimo arrisco de
simplificação: não somente por causa da diferente, aliás divergente, estrutura das duas línguas, mas porque o texto
original – além das naturais armadilhas da linguagem elisabetana para o leitor moderno – é excepcionalmente
complexo e semanticamente polivalente, como várias vezes se disse. O leitor verá os resultados”. (Trad. nossa),
(VIRGILLITO, 1988, p. 22).
67
Essa busca é ameaçada, porém, por um duplo perigo: a destruição da originária voz
poética de Dickinson e a morte (literária) da própria poeta subjugada pela forte capacidade de
compor da outra. Para evitar essa “tragédia”, Virgillito se esforça para alcançar uma certa
proximidade da voz da outra, na busca da transcriação da mesma mistura de coloquial, oracular e
culto que caracteriza a dissonância do original. Virgillito tem como preocupação principal ir
pinçar nas cadências do italiano a carga explosiva do léxico da americana para salvar a potência
vulcânica e subvertedora da sua poesia. Ela persegue esse objetivo, ou “miragem” como o define
Bulgheroni (2002, p. XXIII), por um lado confiando na estratégia do rigor literal80 que lhe
permite reproduzir os sons e os ritmos da outra língua e, por outro, transpondo livremente as
inflexões altas e oraculares do original, semeando arcaísmos que criam o mesmo efeito estridente
e por último, mas não menos importante, conservando quase que totalmente a pontuação
inovadora de Dickinson com o famoso travessão.
Além das estratégias formais, o que caracteriza essas traduções de Virgillito é a tendência
a uma escuta atenta da voz da poeta americana, assim como aconteceu com Shakespeare,
mostrando-nos uma “tradutora que é sobretudo uma leitora seduzida pela literatura”
(LOCATELLI, 2001, p. 20).
Virgillito se abandona então às invenções fulgurantes de Dickinson, ao seu imaginário
desestabilizante, tornando-as próprias e transcriando-as:
80
Virgillito nunca toma liberdades de qualquer tipo. Durante o trabalho de tradução, ciente do perfeccionismo de
Dickinson, descarta sempre as escolhas mais óbvias e de efeito mais surpreendente: na poesia 1315, por exemplo, em
uma primeira versão traduz, Che è meglio - luna o mezzaluna?/ disse la luna né l’una né l’altra (O que é melhor –
lua ou meia lua?/ disse a lua, nem uma nem outra) - brincando com a homofonia no italiano entre a palavra luna
(lua) e l’una (a primeira) -, optando, porém, em seguida por uma versão menos original, mas mais próxima ao
padrão inglês: disse la luna: né questa né quella (disse a lua nenhuma das duas). Virgillito respeita, além disso, o
registro do original: alto quando é alto, baixo onde é tal. Duas poesias bem exemplificam a afirmação: a 1247 e a
1755. A primeira de conteúdo elevado e conceitual, Come tuono comprimersi nel limite -/ poi con fragore romper
via -/ ogni creatura si nasconde - questo/ sarebbe Poesia (Como trovão comprimir-se no limite -/depois com fragor
estourar longe -/ toda criatura se esconde – isso/ seria Poesia); a segunda, irônica e leve, Per fare una prateria ci
vogliono/ un’ape e una gaggia,/ un’ape, e una gaggia,/ e fantasia./ La fantasia da sola basterà/ se scarseggiano le
api (Para se fazer uma campina/ só precisa/ uma abelha e um trevo, /uma abelha e um trevo/ e fantasia./ A fantasia
será suficiente/ se as abelhas faltarem). Por meio da crítica genética das variantes contidas nos manuscritos, foi,
enfim, possível acompanhar e entender não só o processo de tradução, mas, sobretudo, o de invenção artística de
Virgillito. De fato, nos casos de poesias com mais de três variantes, a atitude constante da tradutora parece ser a de
seguir inicialmente uma tradução literal bastante instintiva, que refina progressivamente mediante aproximações
lexicais e morfológicas, para finalmente aderir ao padrão do original inglês.
68
prolongar, na fervida disputa com a palavra, a sua luta com o Anjo. Estáticas e
torturadas, essas traduções póstumas parecem traçar, paralelamente, um percurso de
faíscas que acompanham a autora nas trevas, transformando-as na ardente “luz/treva” de
uma das suas últimas poesias (BULGHERONI, 2002, p. XXIV, trad. Nossa).
São justamente as semelhanças entre as duas autoras, como sugere Bulgheroni nas
entrelinhas da afirmação anterior, a verdadeira chave de leitura dessas transpoetizações de
Virgillito e da enigmaticidade do seu caminho. Essas semelhanças não se limitam ao estilo
poético, mas abrangem também e, sobretudo, a idéia de poética e de poeta que as duas
compartilham e os fins que a poesia deve perseguir.
Virgillito, como se verá mais adiante, escreve uma poesia também caracterizada pela
concentração dos conceitos numa palavra só. Elíptica e marcada pela parataxe, a sua poesia
persegue aquela explosão polissêmica que só se encontra nas sílabas e nos seus ritmos que devem
concretizar com aliterações e assonâncias ásperas a coisa significada, quase sempre versificando
o irreal e o invisível.
Elementos biográficos precisos contribuem também para estabelecer uma proximidade
maior entre as duas: a solidão quase que total acompanhada, ao mesmo tempo, pela busca de
interlocutores excepcionais que tivessem a mesma devoção pela palavra. Enfim, para ambas, a
poesia tem um papel subversor e ao poeta cabe violar a estrutura da língua para que as palavras
expressem novamente e com a mesma violência, como num parto, o significado primordial; isto
é, que sejam, significância e não mera referencialidade: como disse Dickinson, fazer poesia não é
“fazer literatura”81.
Um último e importantíssimo elemento comum, que terá como veremos efeitos precisos
na tradução, é que as duas autoras entregaram a sua obra - a primeira - e as suas traduções - a
segunda - ao destino. Não estavam escrevendo para um leitor ou para uma edição impressa, mas
por um desafio pessoal, ou talvez por uma necessidade vital: não sucumbir à luta contra a própria
encarnação poética, superar o dualismo maniqueísta entre vida real e imaginária. Comunicar algo
não era sua finalidade principal, como todos os artistas simplesmente traduziram a sua
81
Com uma metáfora muito eficaz, Dickinson descreve o seu receio pela prosa e pelos padrões poéticos da época. Na
poesia 613 diz: They shut me up in Prose -/ As when a little Girl/ They put me in the Closet -/ Because they liked me
“still” – […] (DICKINSON, 1997, p. 692). Mas se a prosa é o espaço metafórico da constrição às regras e aos
códigos, a mente, rápida como um pássaro, decreta a própria liberdade. E ainda na poesia 657 contrapõe prosa e
poesia, comparando esta última a uma casa aberta para o céu, para acolher “hóspedes invisíveis”: I dwell in
Possibility -/ A fairer House than Prose -/ More numerous of Windows -/ Superior – for Doors – [...]. (DICKINSON,
1997, p. 750). A “possibilidade”, ao contrário da rigidez da prosa, é a condição da poesia.
69
esmagador82.
A carreira da escritora Virgillito começou com alguns artigos de crítica literária, mas ela
sempre se considerou mais poeta do que crítico, e as suas leituras, assim como as suas traduções,
foram, sobretudo, de poeta a poeta. Apesar de ter começado por escrever ensaios, Virgillito desde
aí se dedicou, cada vez com mais paixão, à poesia e nos anos Cinqüenta mandou uma coletânea
de versos a Montale, que lhe respondeu:
Gentile Signorina, non so ancora, oggi, che cosa mi sarà possibile di fare ma posso dirle
che tutto quello che ho letto di Lei in prosa o in verso (poche pagine in tutto) mi ha
scosso e convinto come raramente mi accade. Non scrivo mai a nessuno e Lei può quindi
credere alla sincerità delle mie parole. Perché non viene un giorno a trovarmi in
redazione? (PELLEGRINI, 2001, p. 11)83.
Com o aval do grande poeta começa a atividade poética de Rina Sara Virgillito, por seu
intermédio, na verdade, entra em contato com o crítico literário Carlo Bo, que assina a
apresentação da sua primeira coletânea I giorni del sole (1954) e a descreve como um poeta
difícil, quase cerebral. Quem a conheceu, sabe o quanto era complexa e, ao mesmo tempo,
fascinante a sua alma de poeta, sempre balançando entre o real e o irreal e totalmente dedicada à
escuta, e, mais tarde, à transcrição daquela palavra essencial e tremenda que pudesse revelar o
Absoluto. A solidão e o rigor eram elementos fundamentais dessa busca que só a poucas pessoas
ela tinha confiado. Dessa forma, sempre em surdina e com a ajuda de poucos amigos, tinha
publicado as outras coletâneas: em 1962 La conchiglia, em 1976 I Fiori Del cardo e em 1984 Nel
grembo dell’attimo.
Nas últimas duas obras publicadas em vida, Incarnazioni del fuoco (1991) e L’albero di
luce (1994) se intensifica a tendência à elipticidade e encontram-se as maiores semelhanças entre
a sua poética e a de Dickinson. Nesses livros transcreve ainda uma vez a experiência da busca do
absoluto, sempre perseguido, percebido por um instante e logo perdido. É a união com o “esposo
místico” – afirma Giorgi (2002) - o coração da “visionariedade” da última Virgillito. A espera, a
82
Essa amizade nasceu em 1946, quando a jovem professora manda ao grande poeta - prêmio Nobel de literatura em
1975 - um pequeno ensaio crítico sobre a sua poesia, dando início a uma relação que durará decênios. O ensaio, que
fica escondido numa gaveta por quarenta anos, será publicado somente em 1991 com o título La luce di Montale. O
próprio poeta afirmou ter-se revelado a si mesmo ao ler as palavras agudas e sensíveis de Virgillito. A jovem
escritora pretendia destacar o modo particular com que o poeta lígure expressava o divino, contestando dessa forma
as interpretações canônicas do pessimismo montaliano.
83
Querida Senhorita, não sei ainda, hoje, o que poderei fazer, mas posso dizer-lhe que o que eu li das suas prosas e
versos (de fato poucas páginas) me surpreendeu e agradou como raramente me acontece. Nunca escrevo para
ninguém e a senhora pode então acreditar na sinceridade das minhas palavras. Por que não vem um dia me encontrar
no meu escritório? (Trad. nossa).
71
84
Porque me consome, porque me abate? (Trad. nossa).
85
Dessela os meus sete e sete lábios.
86
Liberta-me de ti.
87
Revela-te alma.
88
Levanta a treva dos olhos.
72
alla/ fiorita spera”89. O lugar do instante eterno, quando a encarnação se torna incorporação do
Outro. Na fusão andrógina que não tem um rosto, até a palavra é demais, sobra:
La parola è
troppo
il gesto non vale
nell’assenza
ma tu hai rotto
termini e distanze,
nella rapina dell’oltretempo mi
rivolgi
Tutto
il tuo amore sepolto
In te con te per te
nell’occhio della luce
siamo
l’unica Essenza
che non ha nome
né disegnabile
volto 90
A poeta sobreviverá na sua nova metamorfose, no seu novo corpo de hermafrodita, como
parte do Princípio criador, da inteligência de Deus que contém no seu ventre onde jaz,
atravessado, sem possibilidade de saída:
89
Não acreditavas/ que a porta estreitíssima/ deixasse-te esgueirar -/ ferida, torta -/ da ceia das larvas à/ florida
esfera (VIRGILLITO, 1991, p. 211).
90
A palavra é/ muito/ o gesto não vale/ na ausência/ mas / tu quebraste/ limites e distâncias,/ na rapina do além-
tempo me/ diriges/ Todo/ o teu amor sepultado/ em ti com ti para ti / no olho da luz/ somos/ a única Essência/ que
não tem nome/ nem um rosto/ desenhável . (VIRGILLITO, 1991, p. 235). (trad. Nossa).
91
Se tudo está escrito e nós/ desempenhamos partes/ só/ no grande mistério, como/ amar-te, como/ descartar o pior?
Não/ faltar-me, eu/ não renegar-te-ei -/ até quando no regaço/ atravessado/ jazer-me-ás/ sem outra pedra (trad.
Nossa), (VIRGILLITO, 1991, p. 234).
73
O segundo livro, L’albero di luce, é uma continuação, talvez uma dilatação do outro.
Nesse texto, a matéria e a realidade, já são parte integrante da forma do sacro. Em um movimento
espiral continua a história dos dois amantes celestiais entre cristais e árvores de ouro, em uma
paisagem em perene metamorfose. A metamorfose envolve até a pontuação, que se torna
elemento fundamental do ritmo poético: as vírgulas, os travessões, os pontos de interrogação
tornam-se palavras em meio a palavras e expressam um espaço físico indefinido, vazio. Por isso
Virgillito subverte (assim como Dickinson) a ordem canônica da pontuação, colocando, por
exemplo, a vírgula muito distante da palavra, como se tivesse que expressar fisicamente a
construção desse seu novo espaço poético, da sua nova cosmogonia literária, como se vê bem na
poesia I Gemelli (Os Gêmeos):
Esse livro conclui a temporada poética de Rina Sara Virgillito, uma mística sem convento,
uma devota da Palavra, do seu poder plasmante, na qual acreditava tanto que lhe sacrificou a vida
toda. Virgillito não acreditava que se pudesse viver com a mesma intensidade a vida real e a
poética, imaginária. Segundo ela, quem vive demasiadamente em uma, deve irremediavelmente
sacrificar grande parte da outra. Ela escolheu viver na “rua dos Espíritos” e dessa sua viagem nos
resta um testemunho extraordinário.
92
Antes do parto/ ao contrário/ levante os braços/ altos/ ( se conseguir! ) estamos/ quase chegando ,/ ainda pouco
e/ se precipitará para fora -/ e agora?/ Aperte-me forte ,/ é a hora -/ logo/ a morte -/ ou a vida que/ estoura (trad.
Nossa) (VIRGILLITO, 1994, p. 15).
74
93
Marisa Bulgheroni é a organizadora da primeira edição completa das poesias de Emily Dickinson, publicada na
Itália pela editora Mondadori, em 1997. Docente de Literatura Americana nas universidades de Milão, Pavia,
Catânia, Gênova dedicou numerosos estudos aos mitos e às imagens do feminino. Dentre os seus livros Il nuovo
romanzo americano (1960) ilustra formas e fervores da narrativa contemporânea, ainda hoje atuais. La tentazione
della chimera (1965) encontra e recupera a figura do romancista nos Estados Unidos. A coletânea de contos
Apprendista del sogno (1996) confirmou seu originário talento de escritora. Em 2001 publicou a mais completa
biografia de Emily Dickinson Nei sobborghi di un segreto.
75
NO CORPUS
100
exercem a mesma influência sobre um poeta reconhecido pelo cânone e sobre os não-
reconhecidos pelo cânone.
Não se partiu, então, do pressuposto de quem traduziu melhor ou se o poeta traduz
melhor, mas, ao contrário, se analisou se o poeta reconhecido pelo cânone sofre as mesmas
constrições dos não-reconhecidos pelo cânone, e se há marca dessa influência nos textos.
organizadora/tradutora. Encontram-se ainda notas explicativas dos textos no final do livro e uma
bibliografia por itens. No verso do livro encontra-se uma sucinta biografia da
tradutora/organizadora e um breve texto explicativo no qual se justifica a escolha temática das
poesias traduzidas. O livro foi publicado por uma pequena editora, a Marsilio.
Segundo texto: Emily Dickinson, Poesie, organizado por Massimo Bagicalupo. Neste
segundo livro só na folha de rosto aparece o nome do organizador, mas em momento algum se
avisa o leitor que se trata de traduções e por quem foram feitas. Massimo Bagicalupo aparece
como organizador e é também autor da introdução, de uma cronologia da vida da autora
americana e de uma nota bibliográfica bastante aprofundada dividida em 4 itens: edições,
traduções italianas, biografias e crítica. No final do livro há um aparato muito detalhado de
anotações explicativas das poesias. Só no verso do livro se especifica que essa ampla coletânea
das poesias da Dickinson foi organizada e traduzida por Massimo Bagicalupo. Não há biografia
do organizador. O livro foi publicado por uma grande editora, a Mondadori.
Terceiro texto: Emily Dickinson, Silenzi, organizado por Barbara Lanati. Repete-se neste
caso a mesma estratégia editorial dos outros; de fato, não existe referência alguma à tradução e ao
tradutor na capa e na folha de rosto, somente na folha sucessiva é que se especifica que as poesias
foram traduzidas integralmente pela organizadora Barbara Lanati, que é também autora do
prefácio, da nota biográfica e da nota bibliográfica dividida em cinco itens: obras de Emily
Dickinson, biografias, traduções italianas, críticas e outros textos. Não há biografia da tradutora.
No verso do livro se explicam brevemente os critérios que levaram à seleção das poesias
traduzidas. O livro foi publicado por uma grande editora, a Feltrinelli.
Quarto texto: Dickinson, Poesie, organizado por Gabriella Sobrino. Na capa e na folha de
rosto se informa o leitor que o texto inglês se encontra ao lado, mas em lugar algum se menciona
quem traduziu os poemas. O texto apresenta uma introdução da organizadora e uma breve nota
biográfica de Dickinson. As poesias são acompanhadas por desenhos. No verso do livro há uma
sucinta biografia da organizadora, na qual se fala pela primeira e única vez a respeito da sua
atividade de tradutora. Trata-se de uma edição de bolso econômica, a Editora é a Newton.
Quinto texto: Emily Dickinson, Le stanze d’alabastro, organizado por Nadia Campana.
Só na folha de rosto se avisa sobre a existência ao lado do texto das 140 poesias e do nome da
organizadora, mas não de quem as traduziu. Nadia Campana é autora da introdução e também da
nota biográfica que aparece no livro. Não há bibliografia, nem biografia da
100
tradutora/organizadora. Somente no verso se informa o leitor que as traduções foram feitas por
Nadia Campana, uma tradutora que há muito tempo estuda E. Dickinson. O livro è publicado por
uma grande editora, a Feltrinelli, e a edição é econômica.
Sexto texto: Emily Dickinson, Tutte le poesie, organizado por Marisa Bulgheroni. Neste
caso, também, na capa não há referência alguma ao tradutor nem ao organizador, somente na
folha de rosto há menção da organizadora. Só na folha sucessiva detalham-se os nomes dos
vários tradutores e a quantidade de poesias que cada um traduziu. É o texto mais completo dos
sete, sendo também a edição integral das poesias de Dickinson. Contém uma introdução da
organizadora Marisa Bulgheroni e uma cronologia, ambas muito detalhadas; uma nota sobre os
textos, notas explicativas de boa parte das poesias, uma bibliografia muito aprofundada, dois
índices bilíngües dos parágrafos e um índice com data de composição, publicação e autoria das
traduções. Não há biografia de nenhum dos tradutores. O livro é publicado por uma grande
editora, a Mondadori, em uma edição de luxo.
Sétimo texto: Dickinson, [Link] por Rina Sara Virgillito. Na capa só se avisa
o leitor que existe o texto inglês ao lado, não há nome nem de organizador nem de tradutor. Já na
folha de rosto, informa-se o leitor do nome da tradutora: Rina Sara Virgillito; do organizador,
Sonia Giorgi, e dos outros colaboradores. O livro contém uma biografia escrita por Paola
Zaccaria, uma bibliografia essencial de autoria da mesma, uma nota explicativa de Sonia Giorgi e
anotações de Marisa Bulgheroni. Não há biografia nem da tradutora nem das outras
organizadoras. O livro foi publicado por uma grande editora, a Garzanti.
5o x x x x
6o x x x x x x
7o x x x x x
Resumindo os primeiros dados mostrados, pode-se afirmar que em nenhum desses sete
livros comparece na capa a indicação explicita que se trate de uma tradução, só em quatro se
avisa o leitor que existe texto ao lado (no de B. Tarrozzi, no de N. Campana, no de R. S.
Virgillito e no de G. Sobrino) e só em um, que se trata de texto inglês (no de G. Sobrino). No de
B. Lanati não há indicação alguma na capa de que se trata de tradução, só aparecem o nome da
autora Emily Dickinson e o título Silenzi.
Em todos os sete textos sempre há o nome da autora Emily Dickinson, enquanto o título
varia: em três casos é simplesmente Poesie, em um caso Tutte le poesie, Le stanze d’alabastro no
de N. Campana, Silenzi no de B. Lanati e La bambina cattiva no de B. Tarozzi. É importante
destacar que só em um caso (o de Virgillito) o nome do tradutor aparece na folha de rosto, em
quatro casos, em folhas sucessivas a de rosto, e em dois casos não aparece em lugar nenhum
referência ao nome do tradutor.
Essa primeira e superficial leitura confirmaria a tese segundo a qual o papel do tradutor
ainda não ocupa um lugar central nos polissistemas literários ou, pelo menos, nas políticas
editoriais das grandes editoras.
Na maioria dos textos analisados se viu que o tradutor é também organizador dos textos e
autor da introdução crítica, da bibliografia e da biografia da autora traduzida. Em quase todos os
textos se destaca o fato de eles serem organizadores da coletânea e autores dos aparatos críticos,
mas se coloca em segundo plano o fato de serem também tradutores. Isso leva a suspeitar que os
autores em questão sejam considerados, sobretudo, por serem grandes especialistas do escritor e
da literatura de chegada, mais do que pelo seu trabalho de tradutores.
A pouca relevância dada ao papel do tradutor seria confirmada, também, pelo fato de que,
na maioria dos casos, não há notícias biográficas dos organizadores/tradutores, e se houver, são
mínimas, enquanto as biografias da autora -- Dickinson no nosso caso -- são detalhadas e
especificamente tratadas.
100
praticamente exata da métrica dos originais e os acenos ao aspecto do conteúdo levam a supor
uma preocupação da tradutora ou, talvez, da editora em comunicar o conteúdo dos textos, sem
uma grande preocupação com a transpoetização formal.
O segundo texto, Emily Dickinson, Poesie, organizado por Massimo Bagicalupo, contém
358 poesias da autora americana distribuídas em oito secções cronológicas (conforme a data de
composição). Como o próprio tradutor/organizador afirma na página XXXII da sua nota
bibliográfica, o texto italiano segue exatamente a numeração dada aos originais no inglês por
Thomas Johnson, na primeira edição de 1955. Além da numeração, a edição italiana retoma a as
datas da composição e da primeira publicação das poesias, sempre conforme a edição de Johnson.
O tradutor dá uma justificativa das suas escolhas, tanto das poesias, quanto das estratégias
tradutórias. Ele afirma, de fato, na nota bibliográfica (p. XXXIII) que a escolha das poesias foi
eminentemente subjetiva e que ao lado de poesias já conhecidas pelo público, existem poesias
menos conhecidas, mas que representam aspectos menos divulgados da poética da autora
americana. No que concerne às escolhas meramente lingüísticas, o tradutor afirma que seu
objetivo foi permanecer o máximo possível próximo ao original inglês, tendo esta coletânea
como finalidade principal tornar-se um instrumento de leitura. Mais adiante, na nota lingüística,
o tradutor especifica ainda mais os critérios que orientaram a sua tradução: ele preferiu abrandar
o texto traduzido, reduzindo o uso de maiúsculas que faz Dickinson, usando-as só no inicio do
parágrafo e com os nomes próprios.
Um outro traço marcante das poesias de Dickinson é o uso de travessões como quase
único signo de pontuação. Bagicalupo, afirma que manteve o travessão quase em todos os casos,
com algumas exceções para maior clareza. Na verdade, analisando as poesias traduzidas por
Bagicalupo, observou-se uma falta de critérios precisos: em alguns casos, como ser verá mais
adiante, mantém a pontuação, em outros, muda, até adicionando travessões onde não existiam no
original. A divisão em estrofes permanece a mesma do original.
No terceiro texto em questão, Emily Dickinson, Silenzi, organizado por Barbara Lanati, as
137 poesias traduzidas seguem a numeração da edição Johnson e trazem em baixo a data de
composição. Não existe menção aos critérios adotados ao longo do processo tradutório. A
tradutora mantém a divisão em estrofes do original inglês. Acerca da pontuação e do famoso
travessão, aqui o comportamento revelado é mais variável, não parece existir um critério único
por ela adotado: às vezes mantém as maiúsculas, às vezes não, às vezes mantém o travessão, às
100
vezes muda a pontuação. No verso do livro há uma justificativa pouco exaustiva das escolhas da
tradutora, feita pelos editores. Nessa justificativa, afirma-se que o objetivo da tradução de Lanati
foi desmentir uma imagem de Dickinson muito estereotipada - a de virgem triste, fechada e
reservada do New England - e visa a restituir por meio da tradução a escrita inquieta, e
inquietante, abstrata e sensual, tentando superar as tentativas de domesticação, até da parte
formal, que foram feitas até aquele momento. Isso, porém, parece não encontrar confirmação nos
textos analisados, come se verá melhor na análise da microestrutura dos poemas.
No quarto texto, Emily Dickinson, Poesie, organizado por Gabriella Sobrino, as 55
poesias traduzidas são distribuídas em 11 secções segundo a data de composição. Não mantém a
numeração da edição Johnson e as poesias somente trazem o ano de composição embaixo. Não
sabemos a qual edição do original inglês a autora faz referência no seu processo tradutório e
também não há menção dos critérios adotados ao longo do trabalho. A tradutora mantém a
divisão em estrofes do original, mas muda a pontuação sem um critério aparente (colocando o
famoso e tão debatido travessão também onde não está presente no original) e o uso das
maiúsculas. As várias secções são acompanhadas por desenhos que não têm, aparentemente,
nenhuma ligação com o texto.
No quinto texto, Emily Dickinson, Le stanze d’alabastro, organizado por Nadia Campana,
as 140 poesias traduzidas levam uma numeração diferente da de Johnson. Campana usa uma
numeração crescente de um até 140 estabelecida aleatoriamente, não se sabe se pela
organizadora ou pela editora. A edição retoma o texto original inglês da edição de Johnson de
1955. Não existe biografia da tradutora e também não há explicação dos critérios adotados
durante o processo de tradução. No verso do livro, porém, informa-se o leitor que a coletânea é
organizada por uma tradutora que há muito tempo se ocupa do texto dickinsoniano e que o
objetivo principal daquelas traduções é reproduzir exatamente a poética excessiva da autora
americana. Por isso, continua a breve justificativa, decidiu-se manter a mesma métrica
subvertedora que somente pode ser plenamente compreendida com o texto inglês ao lado. Dessa
pequena apresentação conclui-se que as traduções estão mais preocupadas com o aspecto
lingüístico do que com o conteúdo cultural. Essa concisa nota explicativa termina, enfim, com a
confirmação de um estereótipo tradutório ao dizendo que essas traduções, pelas razões citadas
anteriormente, foram “fiéis” à palavra poética da autora.
100
O sexto texto, Emily Dickinson, Tutte le poesie, organizado por Marisa Bulgheroni, é um
caso único, sendo a primeira edição completa das poesias traduzidas para o italiano. As 1775
poesias foram traduzidas por diferentes tradutores: Nadia Campana, Margherita Guidacci, Silvio
Raffo e Massimo Bagicalupo. Na coletânea há também uma secção de traduções feitas por poetas
muito conhecidos (E. Montale, A Rosselli, C. Campo, M. Luzi, etc.). Há uma nota explicativa
das escolhas editoriais feitas, mas nada acerca dos critérios adotados pelos tradutores. O texto
opta pela edição original de Johnson de 1955. As poesias mantêm a mesma numeração do
original. Não há notas biográficas dos tradutores e da organizadora. Por ser uma coletânea de
traduções de vários tradutores, torna-se extremamente difícil, se não impossível, destacar um
único critério de trabalho: mas no geral os tradutores mantiveram a divisão em estrofes do
original inglês, sem, no entanto, fazerem a mesma coisa com a pontuação, que sofre mudanças
próprias em cada um dos tradutores. Já as versões dos poetas oferecem um exemplo, em alguns
casos, de transpoetização total, tanto lingüística quanto metricamente, das poesias (Cristina
Campo), em outros são muito próximas ao original (Amelia Rosselli)94.
No sétimo texto, E. Dickinson, Poesie, traduzidas por Rina Sara Virgillito, as 114 poesias
mantêm a numeração do original de Johnson de 1955. No prefácio de Sonia Giorgi (2002, p.
XX-XXII), há um pequeno elenco das escolhas que levaram à edição definitiva dessas traduções
póstumas de Virgillito. Giorgi lembra como o critério adotado foi o de confrontar as diferentes
versões existentes de cada tradução, privilegiando quase sempre a final, ou de respeitar as
indicações de Virgillito, quando presentes, favoráveis a uma ou a outra versão. A própria Giorgi
oferece, também, uma pequena biografia da autora.
Virgillito não conserva totalmente a métrica e a pontuação do original, várias vezes muda
a divisão das estrofes de uma forma mais pessoal e recria a pontuação, ainda que utilizando
abundantemente o travessão.
94
Para um aprofundamento maior, ver a edição completa das poesias de Emily Dickinson organizada por Marisa
Bulgheroni (1997), paginas 1641-67.
100
Texto Numeração Edição Justifica Justifica Divisão Uso do Uso das Divisão
Johnson original critérios critérios em travessão maiúsculas cronológica
(1955) tradução seleção estrofes
1o x x x I I I
2o x x x x I P P x
3o x x x I P P x
4o I P P x
o
5 x P P P x
6o x x I P P x
7o x x P I P
I = Integral
P = Parcial
95
Separar-se é quanto do Céu sabe-se,/ e quanto basta do Inferno (trad. nossa).
96
A separação é tudo aquilo que sabemos/ do Céu, e tudo aquilo que nos é necessário do Inferno.
97
A separação é tudo aquilo que sabemos do Céu,/ e é tudo aquilo que vos é necessário saber do Inferno.
98
O separar-se é tudo aquilo que sabemos do Céu,/ e tudo aquilo que precisa saber do inferno.
100
Ao se compararem esses versos com os originais, vê-se que Dickinson tinha usado 13
palavras para expressar o ritmo que se encontra também em Virgillito:
Pàrting is àll we knòw of hèaven,
And àll we nèed of hèll (Dickinson);
Separàrsi è quànto del cièlo si sà,
E quànto bàsta dell’infèrno (Virgillito).
Além dessa falta de síntese, os poemas dos sete tradutores parecem conter um grau muito
baixo de poeticidade: ausência de ritmo, ausência de rimas, ausência de figuras retóricas e
métrico-prosódicas (enjambements, inversões sintáticas e aliterações), ao contrário, muito
presentes nos textos de Virgillito, como se pode observar nos exemplos a seguir:
Poesia 1695:
a) [...] dinnanzi a quel luogo profondo
quella polare intimità
un’anima di fronte a se stessa –
finita infinità (Virgillito)99;
b)[...] In confronto a quel più profondo punto
quell’isolamento polare di un’anima
ammessa alla presenza di se stessa –
infinito finito (Lanati)100;
c)[...] A quel luogo più profondo
quella segretezza polare
a cui l’anima introduce se stessa –
finita infinità (Tarozzi)101;
d) [...] a confronto di quel luogo più profondo
quella polare segretezza,
un’anima amessa alla propria presenza –
finita infinità (Bagicalupo)102;
99
[...] perante aquele lugar profundo/ àquela intimidade polar/ uma alma diante si mesma -/ finita infintude (trad.
Nossa).
100
[...] Em comparação àquele ponto mais profundo/ aquele isolamento polar de uma alma/ admitida à presença de si
mesma -/ infinito finito.
101
[...] Aquele lugar mais profundo/ aquele segredo polar/ ao qual a alma introduz a si mesma -/ finita infinitude.
100
b) Rima
Poesia 1251:
a) [...] ma il Silenzio è infinità.
Volto per se non ha (Virgillito)104;
b) [...] ma il silenzio è l’infinito.
Per sé non ha volto. (Campana)105;
c) [...] ma il silenzio è l’infinito.
Per sé non ha volto. (Raffo)106;
d) [...] Ma il Silenzio è l’Infinito.
Lui stesso non ha volto. (Tarozzi)107.
Poesia 1247:
a) Come tuono comprimersi nel limite
poi con fragore romper via
ogni creatura si nasconde
questo – sarebbe Poesia – (Virgillito)108;
b)Concentrarsi come il tuono al proprio limite
e poi sgretolare con sfarzo e fragore
mentre ogni cosa creata cerca rifugio
questo – sarebbe poesia – (Lanati)109;
102
[...] em comparação àquele lugar mais profundo/ aquele segredo polar,/ uma alma admitida à própria presença -/
finita finitude.
103
[...] em comparação àquele ponto mais profundo/ segredo polar/ que é uma alma à presença de si mesma -
/infinitude finita.
104
[...] mas o silencio é infinitude, um rosto para si não tem.
105
[...] mas o silencio é o infinito,/ por si não tem rosto.
106
[...] mas o silencio é o infinito./ Por si não tem rosto.
107
[...] Mas o Silencio é o Infinito./ Ele mesmo não tem rosto.
108
Como trovão comprimir-se no limite -/depois com fragor estourar longe -/ toda criatura se esconde – isso/ seria
Poesia.
100
d) Enjambements
Poesia 1129:
109
Concentrar-se como o trovão no seu limite/ e depois se desfazer com fasto e fragor/ enquanto toda coisa criada
procura um abrigo/ isto – seria poesia -.
110
Somar-se como o trovão ao terminar/ depois desabar grandiosamente/ enquanto toda coisa criada se esconde/ esta
– seria poesia -.
111
Amontoar-se como o trovão no fim/ para depois passar em um rombo solene/ enquanto todo o criado se esconde:/
isto seria poesia.
112
[...] o Sucesso é andar em círculo/ para o prazer nosso enfermo/ resplandece demais/ a verdade, soberba surpresa.
113
[...] a via indireta é melhor -/ deslumbra o nosso prazer mal firme/ a gande surpresa do verdadeiro -/.
114
[...] o Sucesso está no círculo/ demasiadamente brilhante para o nosso prazer mal firme/ a soberba surpresa da
Verdade.
100
Deste breve excursus se deduz como, mesmo sem compará-las com o original inglês, as
poesias dos tradutores revelam-se pouco poéticas na língua de chegada, enquanto as de Virgillito
apresentam-se ao leitor com um alto grau de significância. Esta última, de fato assume um
comportamento contrário ao dos outros tradutores: se por um lado, quase na maioria dos casos,
não mantém a divisão em estrofes do original, por outro, conserva quase que totalmente o uso do
travessão feito por Dickinson e, por conseguinte, o tom elíptico de sua poesia. Um exemplo
gritante disso é a poesia 469:
Tu –
ora –
muovi gli scacchi .
Nella pece dei tuoi
smeraldi
tutte le corse
stramazzano
di libellule pazze –
nel tuo sole
nero
s’accapigliano
gioia e orrore : il passato –
115
[...] o sucesso está em contornar/ demasiadamente brilhante para o nosso prazer enfermo/ a soberba surpresa do
verdadeiro.
116
O vermelho – ardente – é a manhã -/ Violeta – o meiodia -/ Amarelo – o Dia – que cede -/ e depois – nada [...].
100
Pareceu necessário, para não trair, o quanto se podia, a força da escansão originária,
retomar a estrutura métrica do soneto elizabetiano [...] na verdade um texto poético, sem
dúvida, vive essencialmente da mistura fônico/timbrico/rítmica, e somente nela o
“significado” torna-se sedutor e potente. [...] Tentou-se, então, esse caminho: buscando
equivalências conforme os modos e a tradição de nossa língua, questionando as
estruturas profundas para retomar pelo menos as imagens-chave, os jogos de analogias,
de remessas intra e intertextuais, dentro de um concordante jogo de harmônicas e de
timbres (VIRGILLITO, 1988, p. 22) (trad. Nossa).
Além do mais, o poeta reconhecido pelo cânone estaria mais influenciado pela sua própria
poética do que pela do sistema de chegada e, enfim, não sofreria, come se viu, a influência direta
das editoras, que os outros tradutores sofrem.
No caso de Virgillito, as escolhas feitas pela poeta ao longo do processo tradutório, como
testemunha a organizadora Sonia Giorgi (2002, p. XXI), foram entregues à editora que assim as
publicou.
Não se quer aqui sustentar que este caso tenha um valor universal, mas só destacar um
comportamento que leva a produzir traduções diferentes. Lembra-se, porém, como a própria
organizadora Marisa Bulgheroni, apresentando a edição integral das poesias de Dickinson na
Itália, lembrava que a secção especial assim chamada de “Versões de Autor”, ou seja, feitas por
poetas consagrados pelo cânone (Montale, Luzi, Rossetti, Campo, etc.) evidenciava uma
personalização muito forte das poesias de Dickinson, tanto no que diz respeito ao estilo, quanto
no que diz respeito ao léxico e à métrica. O fato de serem poetas consagrados pelo cânone e não
especialistas, até conceituados, pelo autor e pela literatura traduzidos, parece conferir aos
tradutores-poetas maior liberdade de experimentação ou licença poética.
117
VIRGILLITO, R. S. L’albero di luce. Bergamo: El Bagatt, 1991, p. 34 (Tu -/ agora -/ movimentas o xadrez ./ na
pez das tuas/ esmeraldas/ todas as corridas/ estatelam/ de libélulas loucas -/ no teu sol/ negro/ pegam-se/ felicidade e
horror : o passado -/ milênios talvez -/ [...], trad. nossa ).
100
Acredita-se que se os sete tradutores não reconhecidos pelo cânone tivessem tido o
mesmo prestigio literário de Virgillito, não traduzissem em vista de uma publicação e
selecionassem as poesias seguindo o próprio critério e não o “imposto” por uma editora,
haveriam de ter conseguido resultados diferentes dos que se mostraram nesta pesquisa.
Querendo ser um pouco polêmicos, poder-se-ia afirmar que se os tradutores-poetas não
reconhecidos pelo cânone tivessem traduzido essas poesias sem sofrer as constrições das editoras,
as traduções, por um lado, teriam conseguido evitar, como sustenta Benjamin, ser “uma
transmissão inexata de um conteúdo inessencial” (BENJAMIN, 2001, p. 189), por outro,
poderiam ser textos literários válidos também pela cultura e língua de chegada.
De fato, a tendência target oriented dessas traduções com sua preocupação em tornar os
textos o mais compreensíveis possível, tornou, ao contrário e paradoxalmente, as traduções
menos significantes pela cultura e língua de chegada.
Quer-se mais uma vez ressaltar que os resultados, não exaustivos, desta pesquisa, parecem
contradizer a tese de Toury. Mostrou-se, de fato, como a hipótese target oriented do teórico
israelense possua limites não somente práticos, mas também ideológicos: se, como diz Benjamin,
o leitor não é o objetivo pelo qual nasce uma obra literária, por que deveria sê-lo no caso da
tradução?: “E assim é, sempre que a tradução se compromete a servir o leitor. Mas se ela fosse
destinada ao leitor, o original também o deveria ser. Se o original não existe em função do leitor,
come poderíamos compreender a tradução a partir de uma relação dessa espécie?” (BENJAMIN,
2001, p. 191).
Se a perspectiva dos polissistemas de chegada torna-se, de fato, fundamental nas políticas
das editoras, não se pode dizer, porém, a mesma coisa a respeito das escolhas dos poetas.
Essas posturas encontram maior consolidação nos dados obtidos com a análise da
microestrutura dos poemas, como se verá em seguida.
A etapa sucessiva prevê a análise da microestrutura dos poemas traduzidos que visa a
destacar os deslocamentos nos níveis fônico, gráfico, sintático, léxico-semântico, estilístico,
locutório, etc. Analisam-se, assim, a seleção das palavras, os padrões gramaticais dominantes e as
100
estruturas literárias formais (metro, rima), formas de reprodução do discurso (direto, indireto,
etc.), registro da língua etc.
Apresentar-se-ão aqui em primeiro lugar os resultados gerais decorrentes da observação
das 125 poesias em questão. Segue uma tabela em que se especifica o número das poesias e os
nomes dos tradutores que as traduziram:
211 x x x x
249 x x x x x x
298 x x x x
435 x x x x x
469 x x x x
470 x x x x x
494 x x x x
511 x x x x x
640 x x x x x
675 x x x x
769 x x x x
850 x x x x x
860 x x x x
870 x x x x
1052 x x x x x
1129 x x x x
1247 x x x x
1251 x x x x
1551 x x x x x
1583 x x x x x
100
1601 x x x x x
1640 x x x x
1695 x x x x x
1732 x x x x x x
1741 x x x x x
1755 x x x x x x
1760 x x x x
Parciais 27 13 9 19 22 11 16 8
Totais
125
expressões idiomáticas bastante prosaicas e pouco líricas. Enquanto em Virgillito, além de haver
uma tendência mais à omissão do que ao preenchimento de categorias gramaticais, destaca-se o
uso até de neologismos (muito freqüente também na sua produção poética) como, por exemplo, il
Senzafine (O Semfim, escrito todo junto) da poesia no 769. Virgillito mostra, além disso, uma
preferência pela sentencialidade e pelos aforismos nas suas poesias, que não se encontra nos
outros textos; muitos versos são orações que em si mesmas formam sentidos poéticos.
A seguir serão apresentados alguns breves exemplos de casos específicos encontrados em
algumas poesias do corpus. Foram escolhidas quatro poesias representativas de três tipologias
poético-estilísticas diferentes: uma, a nº 211, que representa o padrão métrico e estilístico de
Dickinson com divisão em dois quartetos; uma, e mais provavelmente, a mais comprida de
Dickinson, a nº 640, que foge à norma, e as de no 860 e no 1583, que representam dois exemplos
de estilo elíptico, aforístico e sentencioso.
l’ape che tardi il proprio fiore raggiunse Raggiunge il suo fiore – tardi –
sussurra intorno al suo talamo, e s’aggira ronzando intorno alla sua stanza –
conta il nettare – entra, ne passa in rassegna i nettari –
ed è perduta nei balsami. entra – e infine nei profumi si perde.
(Guidacci) (Lanati)
100
Nessas poesias, a primeira coisa que chama a atenção é a divisão em estrofes: enquanto os
três tradutores usam dois quartetos, Virgillito usa duas estrofes de cinco versos. Outra
característica que se destaca é a brevidade dos versos de Virgillito, geralmente compostos por
uma média de três palavras, que chegam no máximo a cinco, enquanto os dos outros chegam até
a oito palavras. Muitas vezes Virgillito, por meio do uso hábil do enjambement, quebra os versos
mais longos, obtendo além de uma maior elipticidade, um ritmo diferenciado. Acerca do ritmo,
destaca-se a acentuação dada por Virgillito que, na maioria dos casos, prefere palavras com
acento tônico na primeira sílaba ou de qualquer forma proparoxítonas: Viénimi Lènto Èden [...]
làbbra, ignòrano, sùcchiano, lànguida, l’àpe [...]. O poema de Virgillito mostra também uma
maior riqueza e variedade prosódica e estilística: por exemplo, o uso das rimas internas e da
paranomásia totalmente ausente nos outros três, /giunta/ s’arrotonda/ perduta/ conta/ e
nettari/balsami.
No plano lexical, as diferenças tornam-se mais estridentes: destaca-se o uso de termos
não usuais como tálamo (tálamo) - em oposição a camera (quarto) usado por Virgillito -,
delibano (delibam) - em oposição a succhiano (sugar/chupar) de Virgillito -; e expressões
coloquiais e pouco poéticas, vinta d’ebbrezza (derrotada pela ebridade), ormai sul punto di venire
meno (já quase prestes a desmaiar) sintetizadas por Virgillito com um único adjetivo – languida
(lânguida) - e ainda ne passa in rassegna (passa em revista), em oposição ao simples conta
(conta) de Virgillito.
Essa breve análise das poesias confirma, então, as teses acima discutidas:
a) em primeiro lugar, as versões dos tradutores não reconhecidos pelo cânone são marcadas por
maior prolixidade e adicionam elementos que não se encontram nas de Virgillito;
b) as versões daqueles tradutores parecem ser caracterizadas pela literalidade e narratividade e
assumem uma equivalência geral target oriented, isto é, são organizadas pensando, sobretudo, no
leitor de chegada, enquanto que as de Virgillito parecem mais se inserir entre as duas
perspectivas: source oriented, no que diz respeito à influência da poética da poeta italiana, e da
target language, no que diz respeito à sua preocupação com a língua de chegada. Apesar de não
serem target oriented as poesias de Virgillito revelam-se, porém, e paradoxalmente, mais
compreensíveis que as dos tradutores.
Retoma-se, a seguir, o original de Dickinson:
211
Come slowly – Eden!
100
Essa poesia é uma das poucas do corpus que vai além das duas ou três estrofes canônicas
de Dickinson. As seis versões aqui analisadas apresentam todas, além da de Virgillito, uma
divisão em onze estrofes de quartetos ou tercetos. Só Virgillito, mais uma vez, apresenta uma
diferente disposição métrica, dividindo a sua poesia em 12 estrofes com quatro, cinco ou mais
versos. Mais uma vez, após uma leitura comparada das várias versões, as dos tradutores-poetas
não reconhecidos pelo cânone apresentam-se muito narrativas, com um léxico obsoleto e sem
uma precisa marca estilística. Torna-se, na verdade, difícil encontrar recorrências métrico-
textuais que levem a supor qualquer tipo de critério poético que orientou os tradutores em sua
escrita. O que chama ainda uma vez a atenção é a capacidade que Virgillito tem de isolar as
palavras, abolindo qualquer tipo de coordenação sintática, visando a reproduzir na folha branca,
por intermédio do isolamento dos significantes, o mesmo isolamento dos significados, como se
pode bem observar no seguinte trecho:
118
Devido à anômala extensão dos poemas se remete, para a consulta integral dos textos, ao apêndice p. 130 -134.
100
A distância e a falta de ligação entre os lexemas desta estrofe são as mesmas que existem
entre os dois amantes protagonistas da poesia.
Um outro elemento marcante da poesia de Virgillito é a grande variedade de registros, não
somente métricos e prosódicos (Enjambements, etc.), mas, sobretudo, lexicais: convivem no texto
da poeta italiana uma linguagem coloquial e ao mesmo tempo erudita, os arcaísmos e os
neologismos se fundem, assim se pode encontrar o vanno in pezzi (se fazem em pedaços) da
terceira estrofe, quase uma expressão idiomática sintética e eficaz, que contrasta com as
descritivas e pouco eficazes dos outros tradutores: i vecchi s’incrinano (os antigos se racham)
(Sobrino); si coprono di crepe (se cobrem de fendas) (Lanati); il vecchio s’incrina (o antigo se
racha) (Bagicalupo) e quelli vecchi si incrinano (aqueles antigos se racham) (Raffo).
Mais adiante no texto, se encontra a arcaizante locução ammenoché (a menos que)
totalmente fora de uso no italiano moderno e que é utilizada, mas com diferente ortografia - a
meno che -, como acontece nas versões dos outros tradutores. A riqueza das versões de Virgillito
é a mesma que caracteriza o seu estilo poético marcado, como já se disse, pela capacidade
peculiar de concentrar em poucas palavras o sentido inteiro de uma estrofe, é uma poética que se
aproxima do aforismo e da sentença, como bem se pode observar na seguinte estrofe, sobretudo
quando comparada às dos outros autores:
119
Assim devemos nos encontrar/ separados -/ tu lá – Eu – aqui -/ com os batentes apenas entreabertos – e/ oceanos -
/ oração -/ e aquele branco sustento são -/ desespero -.
120
Esgotaste-me os olhos/ tu, e não precisei mais/ para uma perfeição pálida como/ o Paraíso.
100
Inflexível e direta na sua dicção poética, Virgillito resume em um ritmo cruel o sentido da
estrofe e assim estréia: mi hai saturato gli occhi,/ tu e non mi sono più serviti (esgotaste-me os
olhos/ tu, e não precisei mais); enquanto as outras versões soam ritmicamente lentas e
lexicalmente arcaicas: Tu hai colmato il mio sguardo/ E non ho avuto più occhi (Tu preenchestes
o meu olhar/ E não tive mais olhos), tu mi hai saturato la vista -/ e io non ho più avuto occhi (tu
me enchestes a visão -/ e eu nunca mais tive olhos).
Segue o original de Dickinson:
640
I cannot live with You –
It would be Life –
And Life is over there –
Behind the Shelf
121
Tu colmastes o meu olhar/ e não tive mais olhos/ para uma perfeição mesquinha/ Quanto o Paraíso.
122
Porque tu me enchestes a visão/ - e eu nunca mais tive olhos/ para perfeições miseráveis, como o Paraíso.
123
tu me enchias a visão/ e não havia outros olhos/ para uma excelência sórdida/ como o paraíso.
124
pois tu encheste a minha visão/ e eu não tive mais olhos/ Para uma perfeição tão mesquinha/ como é o paraíso.
100
Pelas recorrências levantadas acima e após a análise do original, pode-se concluir mais
uma vez, que as versões dos poetas não recnhecidos pelo cânone apresentam-se mais literais e
descritivas, relativamente “simples”, no que diz respeito ao uso dos artifícios poéticos
amplamente utilizados, ao invés, por Virgillito.
Concluir-se-á a análise da microestrutura dos textos escolhidos, com duas poesias que
bem representam o estilo aforístico e elíptico tão característico de Dickinson, a poesia número
860 e a número 1583.
No caso das poesias mais breves, a diferença entre as versões de Virgillito e as dos não
reconhecidos pelo cânone revela-se gritante. Se, de fato, perante os poucos textos mais narrativos
de Dickinson o comportamento dos tradutores, ainda que diferente, não se revelava tão
contrastante, no caso de poesias do tipo em questão, as escolhas levaram a resultados um tanto
quanto conflitantes.
Veja-se a primeira:
L’assenza annienta i corpi – come morte L’Assenza rende incorporei - e così fa la Morte
che alla terra nasconde le persone – che nasconde al mondo gli individui.
Superstizione ed amore ci aiutano - La superstizione li assiste, e così pure l’Amore –
la tenerezza, alla prova, si attenua – E mentre la dimostriamo, la Tenerezza viene meno.
(Raffo) (Lanati)
100
Em primeiro lugar, no que diz respeito à elipticidade, o que Virgillito consegue dizer com
21 palavras os outros conseguem só com um número de palavras muito maior, e até exagerado,
como é o caso de Lanati, 30 palavras! Os versos de Virgillito são breves (no máximo cinco
palavras), apresentam rimas internas (giova/ prova; persone, Superstizione), paronomásias
(Morte/amore) e enjambements que quebram o ritmo da estrofe e ampliam o quarteto fixo dos
outros até uma estrofe de cinco versos irregular e vibrante.
É suficiente comparar o incipit das quatro versões para se destacar o andamento
explicativo e muito prosástico das poesias dos não reconhecidos pelo cânone:
A falta total de ritmo e as escolhas lexicais pouco poéticas dos tradutores-poetas não
reconhecidos pelo cânone encontram-se muito bem exemplificadas no verso final das várias
versões:
125
A Ausência desencarna.
126
A ausência liberta do corpo.
127
A ausência aniquila os corpos.
128
A ausência torna incorpóreos.
129
[...] a ternura cede na prova.
130
[...] a ternura se amortece enquanto a experimentas.
131
[...] a ternura, na prova, se atenua.
132
[...] e enquanto a demonstramos, a Ternura vem a faltar.
100
Além disso, se observa mais uma vez, nesses textos, uma tendência à descrição. Falta nas
versões dos poetas não reconhecidos pelo canone a seqüencialidade forte e insistente de
100
Virgillito, que quebra a divisão do limitado quarteto para doar - mediante a falta de subordinação
e de coordenação e o uso hábil de rimas internas (intorno/ giorno) e quase paronomásias
(Stregoneria/ la Storia e io) e aliterações (st), além do seu característico uso do enjambement -
um ritmo muito pessoal que dá a cada palavra o peso e a importância que reveste no plano geral
da poesia. Novamente, Virgillito impõe às palavras e à estrutura de Dickinson a da própria
poética.
É interessante comparar pelo menos o incipit das várias versões para notar a diferença
gritante não só entre a qualidade poética das muitas versões, mas, sobretudo, entre a importáncia
dada por cada autor ao aspecto da brevidade e ao da eficácia da comunicacão da dicção
dickinsoniana:
A poesia é breve e elíptica e o termo usado por Dickinson é Witchcraft e sempre vem
usado da mesma forma, não existe explicação dos conceitos nas poesias de Emily Dickinson,
tudo è preciso e singular, nada se repete.
Ainda uma vez se nota uma grande semelhança entre as poesias de Dickinson e as
traduções de Virgillito, mas não se trata de uma semelhança formal, mas, sobretudo,
consubstancial. As duas parecem movidas pela mesma exigência da escritura; isto é, não se trata
133
Bruxaria: na história a enforcaram.
134
Na história a bruxaria inforcaram-na.
135
Fora para o baraço a bruxaria, na história.
136
A bruxa foi enforcada na história.
137
Na história, as bruxas enforcaram-nas.
100
da comunicação de algo, mas, mais precisamente, da necessidade de escrever algo, ainda que não
compreensível aos demais ou não conforme, ou conformado, ao cânone literário-editorial
contemporâneo.
Em conclusão deste capítulo dedicado à analise e apresentação dos dados relevados, faz-
se necessária uma pequena reflexão sobre as razões que conduziram aos diferentes
comportamentos tradutórios.
Os autores estudados, os sete tradutores assim chamados de poetas não reconhecidos pelo
cânone, e a tradutora poeta cânone, tinham em princípio um conhecimento muito amplo do autor
de partida e de sua literatura, além da cultura e da literatura do polissistema de partida e,
obviamente, dos de chegada. Esses pressupostos, junto a uma conceituada atividade como
tradutores e intelectuais, deveriam ter assegurado o bom êxito de seu trabalho e, sobretudo, uma
certa semelhança nas estratégias textuais e culturais adotadas ao longo do processo tradutório.
A análise descritiva do corpus detalhado acima revelou, porém, uma realidade diferente
da que se poderia ter suposto. As versões dos sete tradutores-poetas potenciais revelavam uma
certa tendência à narratividade, à falta de poética e uma marcada tendência à comunicação. Ao
contrário, as versões de Virgillito mostravam uma forte elipticidade, concentração gráfica e
variedade polissêmica e de artefícios métrico-prosódicos, além de lexicais.
A análise das coletâneas revelou ainda uma escassa definição e especificação do papel do
tradutor, em contrapartida destacava-se sempre o papel do organizador. Isso era acompanhado de
uma grande omissão no que dizia respeito ao trabalho do tradutor, às suas características e, mais
grave ainda, ao próprio papel do tradutor (falta de notícias biográficas e de justificativas das
escolhas atuadas).
Todos esses elementos levaram a supor a existência de constrições externas que poderiam
influenciar o comportamento de cada tradutor e, sobretudo, dos sete não reconhecidos pelo
cânone: as políticas das editoras, por exemplo, o público-alvo, os padrões literários da cultura de
chegada e também da língua. Contudo, deveriam existir, também, constrições internas, isto é, a
motivação do trabalho, a poética dos tradutores, o prestigio do poeta-tradutor, a intenção ou não
de publicar as traduções.
100
A suspeita foi, enfim, de que especialistas conceituados e poetas - ainda que não
reconhecidos pelo cânone, mas com várias publicações - não deveriam, em princípio, produzir
versões tão destituídas de qualquer valor poético mesmo na língua de chegada, uma vez
considerandos como originais. Não se trataria então de falta de competência, nem da antiga e
superada questão do poeta que traduz melhor o poeta, mas, e sobretudo, de ausência ou presença
de influências de tipo diverso por parte dos vários polissistemas envolvidos num processo
tradutório. As suspeitas foram confirmadas pela análise dos vários níveis estruturais: preliminar,
macro e micro-estrutural.
O método utilizado, o dos Estudos Descritivos, confirmou, porém, uma fraqueza e
incongruência do próprio método, isto è, a tese, segundo a qual uma tradução sempre devereia ser
ou é (cf. Toury) target oriented. Mostrou-se que no caso em questão, a poeta cânone Virgillito
não teria seguido, ao contrário dos outros, como critério principal, pelos motivos já amplamente
debatidos acima, o do sistema de chegada, mas com mais freqüência o do source text (a poética
de Dickinson) e o da target language (a estrutura do italiano), e sobretudo teria “sofrido” a
influência da própria poética.
Assim, a questão do poeta que traduz poeta, de quem traduz melhor ou pior, seria na
realidade muito mais complexa, revelaria a intervenção de muitos além do tradutor, que nessa
intromissão se encontra desorientado (como confirmariam as estratégias confusas por ele
adotadas), e sempre mais esquecido perante o “poder” e a “autoridade” do original e das editoras.
100
5. CONCLUSÃO
Como primeira conclusão deste estudo, é oportuno retomar e destacar algumas temáticas
importantes para reconsiderá-las de forma crítica.
O objetivo desta pesquisa era o de abordar de forma não prescritiva a questão da
traduzibilidade de textos poéticos.
Partiu-se do pressuposto que, à luz da evolução, por um certo ângulo até revolucionária,
dos estudos sobre tradução, não se justificaria mais uma concepção da análise do processo
tradutório somente do ponto de vista lingüístico. Desse modo se “trairia” verdadeiramente, a
natureza de qualquer texto literário. De fato, um texto não se constitui somente de signos
lingüísticos, por sinal nem facilmente transferíveis de um código para o outro, mas também de
signos literários, ou com valor literário, cultural, social etc. Seria, pois, impossível não considerar
esses aspectos na análise de qualquer texto, sobretudo de um texto traduzido. Além disso,
compartilhou-se a exigência, questionada pelos teóricos dos estudos descritivos, de dar uma
fundamentação empírica, e não somente ideológica, aos estudos sobre tradução. Isso levou a
considerar como ponto de partida desta pesquisa, o corpus e os dados reais e não as teses e os
postulados estabelecidos a priori.
Em outras palavras, tentou-se entrar na tão polêmica e delicada questão da traduziblidade
de textos poéticos e, especificamente, do poeta que traduz outro poeta, partindo não de
concepções radicadas, e às vezes privadas, de qualquer fundamentação factual, mas de um corpus
definido, afim de se destacarem a partir deste corpus, se for o caso, recorrências que levem a
supor que existam normas e padrões de comportamento no processo tradutório de cada tradutor.
Buscou-se, sobretudo, demonstrar a falsidade da convicção segundo a qual só um poeta
poderia traduzir outro poeta, afirmando-se que, ao contrário, um poeta poderia até traduzir
outrpoeta melhor do que qualquer outro tradutor, mas que esta presumível “melhor” qualidade,
quando existe, não depende só de um dom e de uma competência implícita, mas das várias
influências que o processo e as escolhas do tradutor-poeta sofreriam por parte dos padrões
literários e sócio-políticos do polissistema de chegada.
De fato, tentou-se mostrar, mediante a análise do corpus escolhido, que existe uma
diferença muito grande entre as traduções de poetas reconhecidos pelo cânone e as dos não
reconhecidos pelo cânone. Essa diferença, porém, não seria só um resultado da competência
100
“poética” de cada um dos autores, mas também, e, sobretudo, conseqüente das constrições de tipo
literário, estilístico, econômico e temporal que os tradutores por várias razões, dentre as quais o
escasso prestígio literário e social, sofreriam por parte das editoras.
Isso foi feito mediante a análise das poesias da autora americana Emily Dickinson (125)
traduzidas por oito tradutores, um que se definiu como reconhecido pelo cânone, e sete que se
definiram como não reconhecidos pelo cânone.
Após a contextualização, a apresentação dos autores e de sua poética, passou-se à
definição e à analise do corpus, conforme o método prático dos estudos descritivos desenvolvido
por Gideon Toury e José Lambert.
As várias etapas da análise descritiva do corpus (preliminar, macro e micro-estrutural)
mostraram a recorrência de algumas marcas de natureza métrica, lingüística, prosódica, lexical,
que levaram a formular hipóteses acerca dos processos tradutórios seguidos por cada tradutor e
acerca das razões que deveriam e poderiam tê-los originado.
As recorrências encontradas, que se resumiram em tabelas, destacaram os seguintes
traços: os textos dos tradutores não reconhecidos pelo cânone revelavam uma forte tendência, por
exemplo, à narratividade, o que soava um tanto quanto estranho em se tratando de poemas, pouco
líricos, com um léxico às vezes pouco moderno e com uma forte tendência à descrição e à
explicação dos conceitos expressados pela poesia.
No que diz respeito ao aspecto métrico-prosódico, notava-se uma tendência a uma divisão
regular em estrofes e a um uso confuso e variável da pontuação e das maiúsculas. O
estranhamento tornava-se ainda mais estridente quando se comparavam essas versões às de
Virgillito, o tradutor reconhecido pelo cânone, que revelavam pelo contrário, uma forte tendência
à concisão gráfica e lexical.
Uma comparação entre a “poética” e o estilo dos tradutores e a poética e o estilo do
original revelou uma semelhança muito forte entre o universo poético de Virgillito e o de
Dickinson e uma divergência entre o estilo desta última e o dos tradutores. O comportamento
encontrado, porém, tornou-se mais suspeito quando se levou em consideração o fato de que a
maioria dos tradutores não reconhecidos pelo cânone eram conceituados especialistas de
literatura americana e da obra de Emily Dickinson e que já tinham publicado vários livros sobre o
tema em questão e alguns, várias coletâneas de poesias. A principio todos deveriam ter a
competência, se assim se pode chamar, de produzir textos válidos na língua de chegada e com
100
significância poética na cultura de chegada. Isso, porém, não era o que os dados mostravam. Se
as traduções dos não reconhecidos pelo cânone assumiam uma conotação target (language e text)
oriented, as de Virgillito, ao contrário, mostravam-se source (text e language) oriented. Os dados
contestavam, portanto, a asserção de Gideon Toury segundo a qual uma tradução sempre é, ou
deveria ser, target oriented.
Na verdade, no caso em questão, isso não se poderia afirmar com tanta certeza: se de fato
esse postulado revelava-se verdadeiro no caso das traduções dos sete tradutores não reconhecidos
pelo cânone, não era da mesma forma admissível no que dizia respeito às de Virgillito. Se os
padrões poético-políticos do polissistema de chegada tinham levado os tradutores a uma tradução,
como os teóricos dos estudos descritivos a definem, “aceitável”, não tinham conseguido o mesmo
efeito com as de Virgillito, que se revelavam (pela maior influência do estilo poético e do
prestigio do poeta) “adequadas”.
Claramente, os dados encontrados e as conclusões às quais se chegou não pretendem ser
exaustivas e universalmente aceitáveis, mas consideram-se, de qualquer forma, relevantes para
fins da pesquisa sobre tradução. Espera-se dessa forma ter dado uma contribuição para uma maior
clareza acerca dos processos tradutórios e uma maior visibilidade do papel do tradutor, que mais
uma vez se revelou “limitado”, não no que diz respeito à sua competência, mas no que diz
respeito à sua liberdade de ser um profissional reconhecido e livre de assumir as escolhas
necessárias ao trabalho que, ele só, melhor conhece.
Almeja-se, enfim, que o caminho traçado por esta pesquisa seja seguido e desenvolvido
por outros pesquisadores e em outros trabalhos no âmbito dos estudos da tradução.
100
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APÊNDICE
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Notti folli – notti folli! Notti selvagge – Notti selvagge! Notti selvage, notti selvagge!
Se io fossi con te Fossi io con te Fossi con te
notti folli sarebbero notti selavgge sarebbero le notti selvagge sarebbero
nostra voluttà! la nostra passione. il nostro lusso!
Con sopra segnato il mio nome da ragazza - segnata col mio neme di ragazza –
così che chi viene a trovarmi riconosca così che i visitatori possano sapere-
senza sbagliare – provando una chiave diversa – quale porta è la mia – e non si sbaglino -
qual è esattamente la mia porta – e tentino un’altra chiave –
Digli – non era uno scrittore bravo – Digli – che era uno scrittore inesperto –
si capiva allo stento delle frasi – e della sua fática con le parole:
potevi udire dal corsetto i battiti, che avvertivi il corsetto ansimare
dietro a te – senza forza come un bambino.
appena avesse d’un bimbo la forza – Avevi pietà del suo affanno
quasi ne avevi pena – tu – di un tale e non osasti indagare:
travaglio -] per non far soccombere il cuore
Digli – ma no – qui puoi essere e lasciare me e te – mute.
ambigua –
gli spaccheresti il cuore se sapesse – La notte era finita prima di noi,
e io e te, in silenzio più di prima. il vecchio orologio nitriva “giorno!”
Tu eri così assonnata –
Digli – finì la notte – e noi lì ancora – ma lo imploravi che concludesse.
e il vecchio orologio stava a nitrire Chi gli impedì di parlare?
“giorno”!] Digli solo che ti sigillò con cura –
e tu piena di sonno “Conchiudimi” ma dove ti nascose fino al giorno dopo?
pregavi -] lettera beata, fai la ritrosa –
cosa mai le bloccava le parole così? e scrolla la testa.
Diglielo – come lei ti sigillò – attenta! (Campana)
ma se ti chiede dove t’ha nascosta
fino al domani – lettera beata!
una mossetta – e scuoti la testa!
(Virgillito)
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Fosse certo, che in là da questa vita – E se fossi certa che finita questa vita
La tua e la mia resteranno la mia e la tua continueranno a vivere
come buccia la butterei, getterei la mia come una buccia
mi prenderei l’Eternità – e sceglierei con te l’eternità.
Ma ora, sul durare – incerta Ma ora – incerta sulla durata del tempo –
di questa che frammezzo sta, che ci separa, la cosa m’inquieta, come l’ape folletto,
mi pungola, come ape folletto – che non avverte quando pungerà.
che – quando stocchi – non si sa. (Sobrino)
(Virgillito)
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Se fossi certa che oltre questa vita , Se sicura che quando questa vita fosse finita
la mia e la tua saranno – la tua e la mia, sarebbero
la butterei lontana, come una buccia, la mia – la getterei da parte, come una buccia,
e sceglierei l’eternità – e prenderei l ‘eterno –
Se tu venissi in autunno,
io scaccerei l’estate
un po’con un sorriso ed un po’con dispetto,
come scaccia una mosca la massaia.
Con te non posso vivere - sarebbe Non posso vivere con te.
Vita - Questa sarebbe vita,
e la Vita è lassù - ma la vita è laggiù – dietro lo scaffale.
dietro il ripiano
Il becchino ha la chiave – e vi ripone
ne ha la chiave il becchino - la nostra vita – porcellana –
mette via come una tazza rotta - aniquata
la nostra vita - il suo
servizio - come che la massaia ha scartato.
una tazzina - Un pezzo nuovo fiammante di Sèvres
piace di più – i vecchi s’incrinano.
che la massaia scarta - rotta o
fuori moda - Non potrei morire con te
meglio un Sèvres più nuovo, i vecchi perché uno dei due deve aspettare
vanno in pezzi - per chiudere gli occhi dell’altro –
e tu non potresti.
E non potrei morire -
con te - E poi, come potrei starti accanto,
uno dei due deve restare e chiudere vederti raggelare
gli occhi dell’altro - tu senza a mia volta il diritto al gelo –
non saresti capace - privilegio dei morti?
E io come potrei
starti vicino e vederti ghiacciare –
senza, a mia volta, il diritto
al gelo, privilegio dei morti?
Ci giudicherebbero – Ma come?
tu hai servito il cielo – lo sai,
o avresti voluto –
Io non ho potuto.
e io – potrei io star lì
e vederti – gelare –
senza il mio diritto di brina –
il privilegio della morte?
Ci giudicherebbero – come –
tu – servisti il cielo – sai,
o ci provasti –
io non ce l’ho fatta –
tu mi saturavi la vista
e non avevo altri occhi
per un‘eccellenza sordida
come il paradiso
E fossi tu dannato,
io pure lo sarei –
anche se risuonasse più forte il nome mio
nella gloria dei Cieli –
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finché non s’avvicina il passo fin quando, all’avvicinarsi del suo passo finale
di Lui viaggeremo verso il Giorno
viaggiamo verso il giorno raccontandoci di come abbiamo ca ntato
l’uno all’altro contando come s’è per tenere lontana la Notte.
cantato (Lanati)
per tener fuori il buio.
(Virgillito)
fin quando viaggeremo verso il giorno finché risuoni vicino il suo passo,
in cui s’avvicina il passo fatale – e insieme camminiamo verso il giorno,
e ci racconteremo come abbiamo cantato l’uno all’altro narrando di come cantammo
per tenere lontana la Notte. per scacciare la tenebra.
(Sobrino) (Guidacci)
L’assenza annienta i corpi – come morte L’Assenza rende incorporei - e così fa la Morte
che alla terra nasconde le persone – che nasconde al mondo gli individui.
Superstizione ed amore ci aiutano - La superstizione li assiste, e così pure l’Amore –
la tenerezza, alla prova, si attenua – E mentre la dimostriamo, la Tenerezza viene meno.
(Raffo) (Lanati)
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Non ho mai visto una Brughiera – Non ho mai visto una brughiera –
Non ho mai visto il Mare – non ho mai visto il mare –
Eppure so com’è fatta l‘Erica eppure so che aspetto ha l’erica
E cosa sia un’Onda. e cosa sia un’ondata.
Non ho mai parlato con Dio Non ho mai parlato con Dio
Né l’ho mai visitato in Cielo – né visitato il cielo –
Ma sono certa del luogo eppure sono certa del luogo
Come se ne avessi lo Scontrino – come se avessi in mano il biglietto –
(Tarozzi) (Bagicalupo)
Tutta la verità dilla, ma dilla obliqua - Di’ tutta la verità, ma dilla obliqua –
il Successo sta nel fare il giro il successo sta nell’aggirare
al piacere nostro infermo Troppo luminosa per il nostro piacere infermo
troppo splende la sorpresa superba del vero
la verità, sorpresa superba. Come il fulmine reso familiare ai bambini
Come il fulmine ai bimbi s’addolcisce con spiegazione affettuosa
con spiegazione tenera la verità deve abbagliare gradualmente
la verità deve abbagliare per gradi o tutti saremmo ciechi –
o farà tutti ciechi – (Bagicalupo)
(Virgillito)
Come tuono comprimersi nel limite Concentrarsi come il tuono al proprio limite
poi con fragore romper via e poi sgretolare con sfarzo e fragore
ogni creatura si nasconde mentre ogni cosa creata cerca rifugio
questo - sarebbe Poesia - questo – sarebbe poesia –
Sommarsi come il tuono sul finire Accumularsi come il tuono alla fine
poi grandiosamente crollare e poi passare in un rombo solenne
mentre ogni cosa creata si nasconde mentre tutto il creato si nasconde:
questa – sarebbe poesia – questo sarebbe poesia
Due volte si è chiusa la mia vita Finì due volte prima di finire
prima di chiudersi. Ora non mi resta che attendere La mia vita; ora resta da vedere
se l’immortalità mi sveli Se l’Immortalità disveli
un terzo evento, Per me un terzo evento,
immenso, inimmaginabile, impossibile Così immenso, così impossibile da concepire
come questi, due volte accaduti. Quanto questi accaduti due volte.
La separazione è tutto ciò che sappiamo del Cielo, Il separarsi è tutto quel che sappiamo del cielo,
e tutto ciò che vi basta sapere dell’Inferno. E tutto quel che occorre sapere dell’inferno.
(Lanati) (Tarozzi)
La mia vita finì due volte prima della fine – Finì due volte prima della fine
resta da vedere ancora la mia vita: rimane da vedere
se a me l’immortalità se a me riveli l’immortalità
rivelerà un terzo evento ancora un terzo evento
Che il prima mai più tornerà, Il pensiero che mai più tornerà
questo fa così dolce la vita. è ciò che rende la vita più dolce.
Credere quel che non crediamo, Credere in ciò in cui non si crede
non esilara. non è certo motivo di gioia.
Il fatto che non tornerà mai più Il fatto che non tornerà più
È quel che rende così dolce la vita. è ciò che fa dolce la vita.
Credere quel che non crediamo Credere quel che non crediamo
Non è esilarante. non esilara.
Credere che se essa è, è tutt’al più Il fatto che se sarà, nel miglior caso sarà
Un possedimento temporaneo – una condizione ablativa –
Istiga un appetito è ciò che istiga un appetito
Esattamente opposto. precisamente opposto.
(Tarozzi) (Bagicalupo)