ISSN 0103.
07 44
Grîphos Psicanálise/Belo Horizonte
N.26/p 234 /Dezembro / 2022
DIRETORIA ADMINISTRATIVA
Yáskara Sotero Natividade Veado
DIRETORIA DE INTERLOCUÇÃO E BIBLIOTECA
Yolanda Mourão Meira
DIRETORIA DE PUBLICAÇÃO E DIVULGAÇÃO:
Andrea Chagas Libanio de Freitas
DIRETORIA DE PRODUÇÃO E TRANSMISSÃO
Maria Barcelos de Carvalho Coelho
COMISSÃO EDITORIAL
Andrea Chagas Libanio de Freitas
Regina Beatriz Silva Simões
Rosely Gazire Melgaço
Suzana Márcia Dumont Braga
Vanessa Gama Pozzato
PROJETO GRÁFICO DA REVISTA
Fernanda Monte-Mor e Fred Fita
DIAGRAMAÇÃO
Junior Sena – Fotografia e Designer Gráfico
CAPA
Andrea Silveira – Bakanas Digital
ESCULTURAS DA CAPA E DAS SEÇÕES
Velma Vaz
FOTOGRAFIAS DAS ESCULTURAS
Bernardo Vaz
REVISÃO DE LINGUAGEM
Rogério Lucas de Carvalho
GRÎPHOS PSICANÁLISE. Belo Horizonte.
Escola Freudiana de Belo Horizonte/iepsi, n.26,dez 2022. 234p.
Bianual. ISSN 0103.07 44 - 23,5 x 16cm
[Link]á[Link]ódicos [Link]ínica
Escola Freudiana de Belo Horizonte/iepsi
SUMÁRIO
O corpo, o feminino: Tessituras
EDITORIAL
TRADUÇÃO
Formulierungen über die zwei prinzipien des psychi-
schen geschehens
(1911)............................................................................10
Ana Maria Portugal Maia Saliba
Formulações sobre os dois princípios do acontecer
psíquico (1911) .............................................................11
Ana Maria Portugal Maia Saliba
ABERTURA
Da ‘criança viada’ à criança trans-formada...................32
Natalia Pereira Travassos
Marco Antonio Coutinho Jorge
O psicanalista e o corpo institucional............................42
Nara França Chagas
CORPO E SEXUALIDADE
O tempo de se tornar mulher........................................48
Adriana Vieira Ferreira
A pulsão que dança no interior do Kintsugi...................53
Daniela Martins Laubé
Um corpo devastado: o que pode uma análise frente à
devastação feminina?...................................................59
Diana Lídia da Silva
Da holófrase ao sintoma: um caminho possível para o
tratamento dos fenômenos psicossomáticos?..............65
Lívia de Melo Galdino
Da sutil sonoridade do corpo.........................................71
Maria Barcelos de Carvalho Coelho
O mínimo para viver: do sintoma ao sujeito na
anorexia.........................................................................76
Maria Clara Carneiro Santiago
Disciplina e desempenho nas escolas: tentativa de
controle dos corpos.......................................................82
Marina Simões
Meu corpo em tuas mãos..............................................89
Regina Beatriz Silva Simões
Corpo/sintoma e suas costuras.....................................95
Sandra Regina Brum da Mata
Frida Kahlo - Um corpo atravessado pelo mal-estar...100
Yáskara Sotero N. Veado
A anatomia é o destino?..............................................107
Yolanda Mourão Meira
FEMININO E A MULHER
O Pathos e o pato selvagem.......................................114
Ana Maria Portugal Maia Saliba
Deus, o inconsciente, o analista, o feminino e a poesia -
aproximações...............................................................126
Gilda Vaz Rodrigues
A sutil arte de se fazer mulher: a mascarada..............134
Heloísa Mamede Silva Gonzaga
Fluxos do feminino em Virgínia Woolf.........................139
Maria Barcelos de Carvalho Coelho
A mulher move o homem? O feminino modifica
o fálico?.......................................................................145
Mariel Cançado
Miolo de pote e o feminino..........................................152
Regina Pachêco
ESTRUTURAS CLÍNICAS
O corpo modificado na neurose obsessiva.................160
Alessandra Alvarenga Spadinger
Vertumnus em Seul: uma psicose kafkiana................169
Gustavo Rodrigues Borges de Araújo
Da certeza na psicose à convicção da existência do
inconsciente................................................................175
Suzana Márcia Dumont Braga
De vegetariana a vegetal: sonho, cena, lembrança e o
objeto entalado............................................................181
Thereza Christina Bruzzi Curi
Um caminho obsessivo e suas dualidades.................189
Vivian Vallory
RODA DE PROSA
Anatomia de um escândalo.........................................198
Rosely Gazire Melgaço
Versões do corpo........................................................203
Rosely Gazire Melgaço
Suzana Márcia Dumont Braga
Pedaços de mulher.....................................................211
Celeste Semião
Suzana Márcia Dumont Braga
Mucize.........................................................................218
Yolanda Mourão Meira
RESENHAS
Textos reunidos
Resenha dos livro de Fábio Borges............................224
Regina Beatriz Silva Simões
As cartas e seus destinos
Resenha do livro A carta roubada: Lacan para curiosos,
de Thaïs Gontijo e José Marcos Resende Oliveira.....227
Suzana Márcia Dumont Braga
EDITORIAL
A Griphos 26 nasce trazendo a bagagem de dois anos
de estudos na Escola Freudiana de Belo Horizonte/
iepsi. As interlocuções, as jornadas, as Rodas de Prosa
e, as seções clínicas, dentre outros eventos , em torno
do feminino e do corpo, foram o ponto de partida para a
elaboração do presente número desta revista, que tem
como autores os participantes do Centro de Estudos,
membros e convidados.
Mais uma vez pudemos contar com o cuidadoso traba-
lho de tradução feito direto do texto original de Freud:
Formulações sobre os dois princípios do acontecer psí-
quico(1911).
A Abertura é um generoso convite para a leitura, trazendo
preciosos escritos. O leitor irá encontrar uma importante
reflexão sobre um tema tão atual: a transexualidade, o
infantil e os seus impactos na cultura. Um artigo sobre a
formação do analista e o corpo simbólico da instituição
completa essa seção.
A seção Corpo e Sexualidade é composta por 11 tex-
tos, que caminham em torno da da pulsão, da arte, da
anatomia, do cinema e da literatura, indo da devastação
à invenção. Se “O corpo fala com sua pulsão”, essa é a
trilha que os autores percorrem, nos brindando com uma
tessitura particular.
Os artigos da seção O Feminino e A mulher trazem à luz
questões acerca do feminino a partir da vida e da literatura
de Lou Andreas Salomé, além da escrita potente e mis-
teriosa de Virginia Woolf. Aproximações do feminino com
Deus, o inconsciente, o analista , a poesia e com o final
de análise , além lugar do analista pela via do feminino,
são esses os diversos ângulos, cortes, suturas e olhares
sobre o” continente negro da psicanálise”.
Qual é a conexão entre a certeza psicótica e a convicção
da existência do inconsciente ao fim de uma análise? Essa
provocação se presentifica em um dos textos da seção
Estruturas clínicas. Ainda nessa seção, dois trabalhos
provenientes de um cartel partem de leituras, ou melhor,
de desleituras do livro A Vegetariana, trazendo recortes
sobre o objeto, sua queda e a constituição do sujeito. O
que pode a análise no tratamento da neurose obsessiva?
Dois recortes clínicos trabalham essa questão, a partir da
escuta do analista: uma construção da fantasia e o outro,
o horror do corpo mortificado.
Em Roda de Prosa, o leitor poderá encontrar uma peque-
na mostra de nossos encontros para a discussão de filmes
relacionados ao tema em estudo, sempre nas primeiras
quartas de cada mês. Esses textos dão abertura para
a conversa, que vem a seguir. Filmes, documentários e
séries como Mucize, Anatomia de um escândalo, Laer-
te-se, Girl e, Uma mulher em pedaços nos instigaram e
nos colocaram a trabalho.
Finalizando, contamos com as resenhas de dois livros:
A carta roubada: Lacan para curiosos, de Thais Gontijo e
José Marcos Resende Oliveira , e o recém- lançado livro
de Fábio Borges, Textos reunidos.
Nossos agradecimentos a todos que tornaram possíveis
a criação e a publicação da revista:, ao revisor Rogério
Lucas de Carvalho; à Andrea Silveira, responsável pela
arte; ao José Junior Sena, pela diagramação; e à Patrícia
Resende Araújo, secretária da EFBH/iepsi. A nossa capa
e o recheio da revista trazem esculturas da artista Velma
Vaz, imagens gentilmente cedidas por Gilda Vaz.
Agradecemos, especialmente, aos autores, que, genero-
samente, cederam seus escritos no intuito de fazer circular
e trazer algo de novo à psicanálise.
Boa leitura!
FORMULIERUNGEN
ÜBER DIE ZWEI
PRINZIPIEN DES
PSYCHISCHEN
GESCHEHENS
(1911)*
Wir haben seit langem gemerkt, daß jede Neurose die Folge, also wahrs-
cheinlich die Tendenz habe, den Kranken aus dem realen Leben herauszu-
drängen, ihn der Wirklichkeit zu entfremden. Eine derartige Tatsache konnte
auch der Beobachtung P. Janets nicht entgehen; er sprach von einem
Verluste »de la jonction du réel« als von einem besonderen Charakter
der Neurotiker, ohne aber den Zusammenhang dieser Störung mit den
Grundbedingungen der Neurose aufzudecken.1)
Die Einführung des Verdrängungsprozesses in die Genese der Neurose hat
uns gestattet, in diesen Zusammenhang Einsicht zu nehmen. Der Neurotiker
wendet sich von der Wirklichkeit ab, weil er sie — ihr Ganzes oder Stücke
derselben — unerträglich findet. Den extremsten Typus dieser Abwendung
von der Realität zeigen uns gewisse Fälle von halluzinatorischer Psychose,
10 Griphos psicanálise n. 26
FORMULAÇÕES
SOBRE OS DOIS
PRINCÍPIOS DO
ACONTECER
PSÍQUICO
(1911)*
Tradução Ana Maria Portugal Maia Saliba
Psicanalista. Membro da Escola Letra Freudiana
Doutora em Literatura Comparada
E-mail: anamportugal@[Link]
Observamos, já há muito tempo, que cada neurose tem a consequência,
provavelmente, pois, a tendência de impelir o doente para fora da vida
real, desviá-lo da realidade efetiva [Wirklichkeit]*a. Um fato do mesmo tipo,
também, não escapou à observação de P. Janet. Ele falou de uma perda
“de la fonction du réel” como uma característica especial do neurótico, no
entanto sem descobrir a conexão desse distúrbio com as condições gerais
da neurose.1
N.T. Os grifos em itálico e as notas de final são do original de Freud. Nossas observa-
ções de tradução estão marcadas, no decorrer do texto, por * seguido de letras: a,
b, c, d, e, f e constituem o adendo: Notas na letra de Freud. Alguns termos freudia-
nos especiais foram mantidos em alemão, entre colchetes.
Formulações sobre os dois princípios do acontecer psíquico (1911) TRADUÇÃO 11
in denen jenes Ereignis verleugnet werden soll, welches den Wahnsinn her-
vorgerufen hat (Griesinger). Eigentlich tut aber jeder Neurotiker mit einem
Stückchen der Realität das gleiche.2) Es erwächst uns nun die Aufgabe,
die Beziehung des Neurotikers und des Menschen überhaupt zur Realität
auf ihre Entwicklung zu untersuchen und so die psychologische Bedeutung
der realen Außenwelt in das Gefüge unserer Lehren aufzunehmen. Wir
haben uns in der auf Psychoanalyse begründeten Psychologie gewohnt,
die unbewußten seelischen Vorgänge zum Ausgange zu nehmen, deren
Eigentümlichkeiten uns durch die Analyse bekannt worden sind. Wir halten
diese für die älteren, primären, für Überreste aus einer Entwicklungsphase,
in welcher sie die einzige Art von seelischen Vorgängen waren. Die oberste
Tendenz, welcher diese primären Vorgänge gehorchen, ist leicht zu erken-
nen; sie wird als das Lust-Unlust-Prinzip (oder kürzer als das Lustprinzip)
bezeichnet. Diese Vorgänge streben danach, Lust zu gewinnen; von solchen
Akten, welche Unlust erregen können, zieht sich die psychische Tätigkeit
zurück (Verdrängung). Unser nächtliches Träumen, unsere Wachtendenz,
uns von peinlichen Eindrücken loszureißen, sind Reste von der Herrschaft
dieses Prinzips und Beweise für dessen Mächtigkeit.
Ich greife auf Gedankengänge zurück, die ich an anderer Stelle (im allge-
meinen Abschnitt der Traumdeutung) entwickelt habe, wenn ich supponiere,
daß der psychische Ruhezustand anfänglich durch die gebieterischen
Forderungen der inneren Bedürfnisse gestört wurde. In diesem Falle
wurde das Gedachte (Gewünschte) einfach halluzinatorisch gesetzt, wie
es heute noch allnächtlich mit unseren Traumgedanken geschieht.3) Erst
das Ausbleiben der erwarteten Befriedigung, die Enttäuschung, hatte zur
Folge, daß dieser Versuch der Befriedigung auf halluzinatorischem Wege
aufgegeben wurde. Anstatt seiner mußte sich der psychische Apparat
entschließen, die realen Verhältnisse der Außenwelt vorzustellen und die
reale Veränderung anzustreben. Damit war ein neues Prinzip der seelis-
chen Tätigkeit eingeführt; es wurde nicht mehr vorgestellt, was angenehm,
sondern was real war, auch wenn es unangenehm sein sollte.4) Diese
Einsetzung des Realitätsprinzips erwies sich als ein folgenschwerer Schritt.
12 Griphos psicanálise n. 26
A introdução do processo de recalque na gênese da neurose nos permitiu
examinar essa conexão. O neurótico se afasta da realidade efetiva [Wi-
rklichkeit], porque ele – no todo ou em parte – a considera insuportável
[unerträglich].*b O tipo mais extremo desse afastamento da realidade
[Realität] nos mostra certos casos de psicose alucinatória, nos quais um
acontecimento deve ter sido desmentido [verleugnet], aquele que causou
o delírio (Griesinger). Mas, provavelmente, cada neurótico faz o mesmo
com uma peça [Stück] da realidade [Realität].2 Desperta-se em nós, então,
a tarefa de pesquisar a relação do neurótico e, especialmente, do homem
com a realidade, no seu desenvolvimento, e assim acolher o significado
psicológico do mundo externo real na estrutura de nossas teorias. Na
psicologia fundamentada na psicanálise, acostumamo-nos a tomar como
partida os processos anímicos inconscientes, cujas particularidades nos
são conhecidas através da análise. Nós os tomamos como os mais antigos,
primários, ultrarrestos de uma fase de desenvolvimento, na qual eram a
única forma de processos anímicos. A máxima tendência a que pertencem
esses processos primários é fácil de reconhecer: é indicada pelo Princípio
Prazer-Desprazer (ou simplesmente Princípio de Prazer). Esses proces-
sos se esforçam por obter prazer; daqueles atos, que poderiam despertar
desprazer, a atividade psíquica se retira (Recalque) [Verdrängung]. Nossos
sonhos noturnos, nossa tendência de vigília de fugir de impressões penosas
são restos do domínio desse princípio e atestam seu poder.
Retomo linhas de pensamento, que desenvolvi em outro lugar (no capítu-
lo geral da Interpretação de sonhos), ao supor que o estado de repouso
psíquico orginalmente teria sido perturbado por exigências imperiosas das
necessidades internas. Nesse caso, o pensado (desejado) foi simplesmen-
te situado alucinatoriamente, como hoje ainda acontece geralmente com
nossos pensamentos do sonho.3 Somente com a ausência da satisfação
esperada, a decepção teve como consequência que essa tentativa de sa-
tisfação pelo caminho alucinatório deveria ser renunciada. Em vez disso,
o aparelho psíquico precisava decidir, representar a relação real do mundo
externo e aspirar por modificações reais. Com isso, introduziu-se um novo
Formulações sobre os dois princípios do acontecer psíquico (1911) TRADUÇÃO 13
1) Zunächst machten die neuen Anforderungen eine Reihe von Adaptierun-
gen des psychischen Apparats nötig, die wir infolge von ungenügender
oder unsicherer Einsicht nur ganz beiläufig aufführen können.
Die erhöhte Bedeutung der äußeren Realität hob auch die Bedeutung der
jener Außenwelt zugewendeten Sinnesorgane und des an sie geknüpften
Bewußtseins, welches außer den bisher allein interessanten Lust- und Un-
lustqualitäten die Sinnesqualitäten auffassen lernte. Es wurde eine beson-
dere Funktion eingerichtet, welche die Außenwelt periodisch abzusuchen
hatte, damit die Daten derselben im vorhinein bekannt wären, wenn sich ein
unaufschiebbares inneres Bedürfnis einstellte, die Aufmerksamkeit. Diese
Tätigkeit geht den Sinneseindrücken entgegen, anstatt ihr Auftreten abzu-
warten. Wahrscheinlich wurde gleichzeitig damit ein System von Merken
eingesetzt, welches die Ergebnisse dieser periodischen Bewußtseinstäti-
gkeit zu deponieren hatte, ein Teil von dem, was wir Gedächtnis heißen.
An Stelle der Verdrängung, welche einen Teil der auftauchenden Vors-
tellungen als unlusterzeugend von der Besetzung ausschloß, trat die
unparteiische Urteilsfällung, welche entscheiden sollte, ob eine bestimmte
Vorstellung wahr oder falsch, das heißt im Einklang mit der Realität sei
oder nicht, und durch Vergleichung mit den Erinnerungsspuren der Realität
darüber entschied.
Die motorische Abfuhr, die während der Herrschaft des Lustprinzips zur
Entlastung des seelischen Apparats von Reizzuwächsen gedient hatte
und dieser Aufgabe durch ins Innere des Körpers gesandte Innervationen
(Mimik, Affektäußerungen) nachgekommen war, erhielt jetzt eine neue
Funktion, indem sie zur zweckmäßigen Veränderung der Realität verwendet
wurde. Sie wandelte sich zum Handeln.
Die notwendig gewordene Aufhaltung der motorischen Abfuhr (des Handel-
ns) wurde durch den Denkprozeß besorgt, welcher sich aus dem Vorstellen
herausbildete. Das Denken wurde mit Eigenschaften ausgestattet, welche
dem seelischen Apparat das Ertragen der erhöhten Reizspannung
14 Griphos psicanálise n. 26
princípio da atividade anímica; não era mais representado o agradável,
mas o que era real, mesmo se fosse desagradável.4 Essa introdução do
Princípio de Realidade provou ser um passo de graves consequências.
1) Primeiro, as novas exigências fizeram necessária uma série de adap-
tações do aparelho psíquico, que nós, devido a conhecimentos insufi-
cientes ou incertos, podemos construir apenas bem acidentalmente.
A alta significação da realidade externa elevou, também, a significação
daquele mundo externo correspondente aos órgãos dos sentidos, e da
consciência ligada a eles, que aprendeu a conceber, além das tão inte-
ressantes qualidades de prazer-desprazer, as qualidades sensoriais. Foi
instituída uma função especial, que, periodicamente, tinha que buscar no
mundo exterior, com os dados da mesma conhecidos interiormente, se uma
necessidade interna inadiável se colocava: a atenção. Essa atividade vinha
de encontro às impressões dos sentidos em vez de esperar sua entrada.
Provavelmente, ao mesmo tempo, institui-se um sistema de notações
[Merken], que tinha que depositar os acontecimentos dessa periódica ati-
vidade da consciência, uma parte da qual denominamos memória.
Em lugar do recalque, que expulsava da ocupação de carga [Besetzung]*c
uma parte das representações afloradas como indicativas de desprazer,
surgiu um juízo imparcial [Urteilsfällung], que deveria decidir se uma
determinada representação era verdadeira ou falsa, o que significa uma
concordância ou não com a realidade [Realität], e o decidia através da com-
paração com os vestígios de lembrança [Erinnerungsspüren] da realidade.
A descarga motora, que, durante o domínio do princípio de prazer, havia
servido ao alívio do aparelho psíquico quanto ao aumento das excitações,
e essa tarefa seria feita através das inervações do corpo enviadas ao
interior (mímica, expressões de afeto), adquiriu, agora, uma nova função
ao ser utilizada na modificação adequada da realidade. Transformou-se
no “agir/atuar” [Handeln]*d.
Formulações sobre os dois princípios do acontecer psíquico (1911) TRADUÇÃO 15
während des Aufschubs der Abfuhr ermöglichten. Es ist im wesentlichen
ein Probehandeln mit Verschiebung kleinerer Besetzungsquantitäten, unter
geringer Verausgabung (Abfuhr) derselben. Dazu war eine Überführung
der frei verschiebbaren Besetzungen in gebundene erforderlich, und eine
solche wurde mittels einer Niveauerhöhung des ganzen Besetzungsvor-
ganges erreicht. Das Denken war wahrscheinlich ursprünglich unbewußt,
insoweit es sich über das bloße Vorstellen erhob und sich den Relationen
der Objekteindrücke zuwendete, und erhielt weitere für das Bewußtsein
wahrnehmbare Qualitäten erst durch die Bindung an die Wortreste.3)
2) Eine allgemeine Tendenz unseres seelischen Apparats, die man auf
das ökonomische Prinzip der Aufwandersparnis 4)
zurückführen kann,
scheint sich in der Zähigkeit des Festhaltens an den zur Verfügung
stehenden Lustquellen und in der Schwierigkeit des Verzichts auf die-
selben zu äußern. Mit der Einsetzung des Realitätsprinzips wurde eine
Art Denktätigkeit abgespalten, die von der Realitätsprüfung frei gehalten
und allein dem Lustprinzip unterworfen blieb.5) Es ist dies das Phanta-
sieren, welches bereits mit dem Spielen der Kinder beginnt und später
als Tagträumen fortgesetzt die Anlehnung an reale Objekte aufgibt.
3) Die Ablösung des Lustprinzips durch das Realitätsprinzip mit den aus
ihr hervorgehenden psychischen Folgen, die hier in einer schematisie-
renden Darstellung in einen einzigen Satz gebannt ist, vollzieht sich
in Wirklichkeit nicht auf einmal und nicht gleichzeitig auf der ganzen
Linie. Während aber diese Entwicklung an den Ichtrieben vor sich geht,
lösen sich die Sexualtriebe in sehr bedeutsamer Weise von ihnen ab.
Die Sexualtriebe benehmen sich zunächst autoerotisch, sie finden ihre
Befriedigung am eigenen Leib und gelangen daher nicht in die Situation
der Versagung, welche die Einsetzung des Realitätsprinzips erzwungen
hat. Wenn dann später bei ihnen der Prozeß der Objektfindung beginnt,
erfährt er alsbald eine lange Unterbrechung durch die Latenzzeit, wel-
che die Sexualentwicklung bis zur Pubertät verzögert. Diese beiden
Momente — Autoerotismus und Latenzperiode — haben zur Folge, daß
der Sexualtrieb in seiner psychischen Ausbildung aufgehalten wird und
16 Griphos psicanálise n. 26
A suspensão da descarga motora, tornada necessária (o agir, o atuar), foi
cuidada pelo ‘processo do pensar’, que se formou a partir do representar.
O pensar foi equipado com propriedades, que possibilitavam ao aparelho
anímico suportar altas tensões de excitação durante a suspensão da
descarga. Trata-se, essencialmente, de um agir experimental [Probehan-
deln], através do deslocamento de pequenas quantidades de ocupação
de carga [Besetzung], com menos dispêndio (descarga) delas. Com isso,
exigia-se uma conversão das ocupações [Besetzungen] livremente des-
locadas e ligadas. Isso seria alcançado mediante uma elevação do nível
de todo o processo de ocupação [Besetzung]. É provável que o pensar
fosse originalmente inconsciente, na medida em que se elevou acima do
mero representar e se voltou para as relações das impressões de objeto,
e depois para as qualidades perceptíveis da consciência, apenas através
da ligação aos restos de palavra [Wortreste].3
2) Uma tendência do nosso aparelho psíquico, que se pode reconduzir
ao princípio econômico de poupar despesas, parece expressar-se na
contabilidade da manutenção à disposição das permanentes fontes
de prazer e na dificuldade de renúncia a elas. Com a introdução do
Princípio de Realidade, dissociou-se um tipo de atividade do pensar,
que se manteve livre do teste de realidade e permaneceu submetida
ao Princípio de Prazer.5 É a do ‘fantasiar’ [Phantasieren], que se inicia
com o brincar das crianças e, mais tarde, prosseguindo como ‘sonhos
diurnos’ [Tagträumer], renuncia ao apoio em objetos reais.
3) A substituição do Princípio de Prazer pelo Princípio de Realidade, com as
consequências psíquicas daí provenientes, que aqui numa apresentação
esquemática é resumida numa única frase, não se completa efetivamen-
te [in Wirklichkeit] de uma só vez e nem simultaneamente em todos os
pontos. Pois, enquanto esse desenvolvimento se antecede nas pulsões
do Eu [Ichtriebe], as pulsões sexuais [Sexualtriebe] se destacam delas
de modo muito significativo. As pulsões sexuais, que se comportam, de
início, autoeroticamente, encontram sua satisfação no próprio corpo.
Com isso, não chegam à situação de frustração [Versagung], que a
Formulações sobre os dois princípios do acontecer psíquico (1911) TRADUÇÃO 17
weit länger unter der Herrschaft des Lustprinzips verbleibt, welcher er
sich bei vielen Personen überhaupt niemals zu entziehen vermag.
Infolge dieser Verhältnisse stellt sich eine nähere Beziehung her zwischen
dem Sexualtrieb und der Phantasie einerseits, den Ichtrieben und den Be-
wußtseinstätigkeiten anderseits. Diese Beziehung tritt uns bei Gesunden
wie Neurotikern als eine sehr innige entgegen, wenngleich sie durch diese
Erwägungen aus der genetischen Psychologie als eine sekundäre erkannt
wird. Der fortwirkende Autoerotismus macht es möglich, daß die leichtere
momentane und phantastische Befriedigung am Sexualobjekte so lange
an Stelle der realen, aber Mühe und Aufschub erfordernden festgehalten
wird. Die Verdrängung bleibt im Reiche des Phantasierens allmächtig; sie
bringt es zustande, Vorstellungen in statu nascendi, ehe sie dem Bewußtsein
auffallen können, zu hemmen, wenn deren Besetzung zur Unlustentbindung
Anlaß geben kann. Dies ist die schwache Stelle unserer psychischen Or-
ganisation, die dazu benutzt werden kann, um bereits rationell gewordene
Denkvorgänge wieder unter die Herrschaft des Lustprinzips zu bringen. Ein
wesentliches Stück der psychischen Disposition zur Neurose ist demnach
durch die verspätete Erziehung des Sexualtriebs zur Beachtung der Rea-
lität und des weiteren durch die Bedingungen, welche diese Verspätung
ermöglichen, gegeben.
4) Wie das Lust-Ich nichts anderes kann als wünschen, nach Lustgewinn
arbeiten und der Unlust ausweichen, so braucht das Real-Ich nichts
anderes zu tun, als nach Nutzen zu streben und sich gegen Schaden zu
sichern.6) In Wirklichkeit bedeutet die Ersetzung des Lustprinzips durch
das Realitätsprinzip keine Absetzung des Lustprinzips, sondern nur eine
Sicherung desselben. Eine momentane, in ihren Folgen unsichere Lust
wird aufgegeben, aber nur darum, um auf dem neuen Wege eine später
kommende, gesicherte zu gewinnen. Doch ist der endopsychische Ein-
druck dieser Ersetzung ein so mächtiger gewesen, daß er sich in einem
besonderen religiösen Mythus spiegelt. Die Lehre von der Belohnung
im Jenseits für den — freiwilligen oder aufgezwungenen — Verzicht
auf irdische Lüste ist nichts anderes als die mythische Projektion die-
18 Griphos psicanálise n. 26
introdução do Princípio de Realidade havia exigido. Quando mais tarde
inicia-se nelas o processo do encontro com o objeto [Objektfindung], este
experimenta uma longa interrupção através do tempo de latência, que
retarda o desenvolvimento sexual até a puberdade. Ambos os fatores
– autoerotismo e período de latência – têm como consequência que a
pulsão sexual será detida em sua formação psíquica e permanece bem
longamente sob o domínio do Princípio do Prazer, do qual, em muitas
pessoas, nunca pode se privar absolutamente.
Devido a essas condições, instala-se uma estreita relação entre a pulsão
sexual e a fantasia, por um lado, e as pulsões do Eu e as atividades da
consciência, por outro. Essa relação, tanto nos sadios quanto nos neuró-
ticos, faz frente a uma muito íntima, embora pelas considerações a partir
da psicologia genética será reconhecida como ‘secundária’. O contínuo
autoerotismo torna possível que a satisfação mais fácil, momentânea e
fantasiosa com o objeto sexual seja mantida por longo tempo em lugar da
real, mas com a exigência de esforço e adiamento. O recalque permanece
onipotente no reino do fantasiar. Ele consegue inibir as representações in
statu nascendi antes que caiam na consciência se essa ocupação de carga
[Besetzung] possa dar ensejo à liberação do desprazer. Esse é o ponto fraco
de nossa organização psíquica, que pode ser usada para trazer de volta
processos já racionais do pensar ao domínio do Princípio de Prazer. Uma
peça [Stück] especial da disposição psíquica à neurose acontece devido à
educação tardia da pulsão sexual em consideração à realidade [Realität]
e, também, por meio das condições que esse adiamento possibilita.
4) Como o Eu-Prazer nada mais pode que ‘desejar’ [wünschen], trabalhar
pelo ganho de prazer [Lustgewinn]*e e evitar o desprazer, o Eu-Real não
precisa fazer mais nada que esforçar-se pelo ‘útil’ e proteger-se contra
os danos.6 Efetivamente [in der Wirklichkeit], a substituição do Princípio
de Prazer pelo Princípio de Realidade não consiste numa destituição
do Princípio de Prazer, mas apenas sua certeza. Uma satisfação mo-
mentânea, com consequências de um prazer incerto, será abandonada,
mas apenas para ganhar, por um novo caminho, uma posterior, que virá,
Formulações sobre os dois princípios do acontecer psíquico (1911) TRADUÇÃO 19
ser psychischen Umwälzung. Die Religionen haben in konsequenter
Verfolgung dieses Vorbildes den absoluten Lustverzicht im Leben
gegen Versprechen einer Entschädigung in einem künftigen Dasein
durchsetzen können; eine Überwindung des Lustprinzips haben sie auf
diesem Wege nicht erreicht. Am ehesten gelingt diese Überwindung
der Wissenschaft, die aber auch intellektuelle Lust während der Arbeit
bietet und endlichen praktischen Gewinn verspricht.
5) Die Erziehung kann ohne weitere Bedenken als Anregung zur
Überwindung des Lustprinzips, zur Ersetzung desselben durch das
Realitätsprinzip beschrieben werden; sie will also jenem das Ich betref-
fenden Entwicklungsprozeß eine Nachhilfe bieten, bedient sich zu diesem
Zwecke der Liebesprämien von Seiten der Erzieher und schlägt darum
fehl, wenn das verwöhnte Kind glaubt, daß es diese Liebe ohnedies
besitzt und ihrer unter keinen Umständen verlustig werden kann.
6) Die Kunst bringt auf einem eigentümlichen Weg eine Versöhnung der
beiden Prinzipien zustande. Der Künstler ist ursprünglich ein Mensch,
welcher sich von der Realität abwendet, weil er sich mit dem von ihr
zunächst geforderten Verzicht auf Triebbefriedigung nicht befreunden
kann und seine erotischen und ehrgeizigen Wünsche im Phantasieleben
gewähren läßt. Er findet aber den Rückweg aus dieser Phantasiewelt zur
Realität, indem er dank besonderer Begabungen seine Phantasien zu
einer neuen Art von Wirklichkeiten gestaltet, die von den Menschen als
wertvolle Abbilder der Realität zur Geltung zugelassen werden. Er wird
so auf eine gewisse Weise wirklich der Held, König, Schöpfer, Liebling,
der er werden wollte, ohne den gewaltigen Umweg über die wirkliche
Veränderung der Außenwelt einzuschlagen. Er kann dies aber nur darum
erreichen, weil die anderen Menschen die nämliche Unzufriedenheit mit
dem real erforderlichen Verzicht verspüren wie er selbst, weil diese bei
der Ersetzung des Lustprinzips durch das Realitätsprinzip resultierende
Unzufriedenheit selbst ein Stück der Realität ist.7)
20 Griphos psicanálise n. 26
mais segura. Então, a impressão, sendo psíquica dessa substituição, se
tornou tão poderosa, que se desempenha num mito religioso especial. A
teoria da recompensa no além [Jenseits] pela renúncia – voluntária ou
forçada – ao prazer mundano nada mais é que a proteção mítica dessa
reviravolta psíquica. As religiões, em consequência de perseguir esse
modelo, podem conseguir a renúncia absoluta ao prazer na vida em
troca da promessa de uma indenização numa existência futura. Toda-
via, uma superação do Princípio de Prazer por esse caminho elas não
conseguiram. Mais próxima está a superação pela Ciência, na qual, no
entanto, o prazer intelectual que o trabalho oferece finalmente promete
um ganho prático.
5) A ‘educação’ pode, sem hesitação, ser descrita como estímulo para a
superação do Princípio de Prazer, pela substituição deste pelo Princípio
de Realidade. Ela quer, portanto, oferecer àquele processo de desen-
volvimento relativo ao Eu um auxílio, servindo-se para essa finalidade
de prêmios de amor por parte dos educadores. Com isso, fracassa se
a criança mimada acredita que de todo modo possui esse amor e em
nenhuma circunstância pode tornar-se perdida.
6) A ‘Arte’ consegue, por um caminho próprio, uma conciliação de ambos
os princípios. O artista, originalmente, é um homem que se afasta da
realidade [Realität], por não poder aceitar a renúncia da satisfação pul-
sional inicialmente exigida por ela, e concede aos seus desejos eróticos
e ambiciosos a vida de fantasia. Mas, encontra o retorno desse mundo
de fantasia à realidade, à medida que, graças a especiais talentos, trans-
forma suas fantasias num novo tipo de efetividades [Wirklichkeiten], que
são consideradas pelos homens como preciosas imagens da realidade
[Realität]. Ele se torna, de certa maneira, o verdadeiro herói, rei, criador,
o favorito que queria ser, sem tomar o poderoso desvio pelas efetivas
alterações do mundo externo. No entanto, só pode alcançar isso, porque
os outros homens experimentam assim como ele a mesma insatisfação
com a renúncia real exigida, pois essa insatisfação resultante da substi-
Formulações sobre os dois princípios do acontecer psíquico (1911) TRADUÇÃO 21
7) Während das Ich die Umwandlung vom Lust-Ich zum Real-I-
ch durchmacht, erfahren die Sexualtriebe jene Veränderungen, die sie
vom anfänglichen Autoerotismus durch verschiedene Zwischenphasen
zur Objektliebe im Dienste der Fortpflanzungsfunktion führen. Wenn es
richtig ist, daß jede Stufe dieser beiden Entwicklungsgänge zum Sitz
einer Disposition für spätere neurotische Erkrankung werden kann,
liegt es nahe, die Entscheidung über die Form der späteren Erkrankung
(die Neurosenwahl) davon abhängig zu machen, in welcher Phase der
Ich- und der Libidoentwicklung die disponierende Entwicklungshemmung
eingetroffen ist. Die noch nicht studierten zeitlichen Charaktere der beiden
Entwicklungen, deren mögliche Verschiebung gegeneinander, kommen
so zu unvermuteter Bedeutung.
8) Der befremdendste Charakter der unbewußten (verdrängten) Vorgänge,
an den sich jeder Untersucher nur mit großer Selbstüberwindung ge-
wöhnt, ergibt sich daraus, daß bei ihnen die Realitätsprüfung nichts gilt,
die Denkrealität gleichgesetzt wird der äußeren Wirklichkeit, der Wunsch
der Erfüllung, dem Ereignis, wie es sich aus der Herrschaft des alten
Lustprinzips ohneweiters ableitet. Darum wird es auch so schwer, unbe-
wußte Phantasien von unbewußt gewordenen Erinnerungen zu unters-
cheiden. Man lasse sich aber nie dazu verleiten, die Realitätswertung in
die verdrängten psychischen Bildungen einzutragen und etwa Phantasien
darum für die Symptombildung geringzuschätzen, weil sie eben keine
Wirklichkeiten sind, oder ein neurotisches Schuldgefühl anderswoher
abzuleiten, weil sich kein wirklich ausgeführtes Verbrechen nachweisen
läßt. Man hat die Verpflichtung, sich jener Währung zu bedienen, die in
dem Lande, das man durchforscht, eben die herrschende ist, in unserem
Falle der neurotischen Wahrung. Man versuche z. B., einen Traum wie
den folgenden zu lösen. Ein Mann, der einst seinen Vater während seiner
langen und qualvollen Todeskrankheit gepflegt, berichtet, daß er in den
nächsten Monaten nach dessen Ableben wiederholt geträumt habe: der
Vater sei wieder am Leben und er spreche mit ihm wie sonst. Dabei habe
er es aber äußerst schmerzlich empfunden, daß der Vater doch schon
22 Griphos psicanálise n. 26
tuição do Princípio de Prazer pelo Princípio de Realidade é propriamente
uma peça [Stück] da realidade [Realität].7
7) Enquanto o Eu passa pela transformação do ‘Eu-Prazer’ [Lust-Ich] em
‘Eu-Real’ [Real-Ich], as pulsões sexuais experimentam modificações,
que conduzem desde o autoerotismo inicial através de várias fases
intermediárias em direção ao amor de objeto a serviço da função de
reprodução. Se é correto que cada etapa de ambas as passagens de
desenvolvimento pode tornar-se sede para uma disposição posterior à
doença neurótica, pode-se supor que tomar a decisão sobre a forma da
doença posterior (a ‘escolha da neurose’) depende da fase de desenvol-
vimento do Eu e da libido, em que ocorreu a inibição do desenvolvimento.
As características temporais, ainda não estudadas dos dois desenvol-
vimentos em seus possíveis deslocamentos um pelo outro, adquirem
insuspeitada significação [Bedeutung].
8) A característica mais estranha dos processos inconscientes (recalcados),
à qual cada pesquisador se habitua apenas com grande autossupera-
ção, consiste em que, neles, a prova de realidade não vale, a realidade
do pensamento logo será comparada à realidade [Wirklichkeit] externa,
o desejo à realização, ao acontecimento, como se conduzia, mesmo
assim, pelo domínio do antigo Princípio de Prazer. Com isso, torna-
-se tão difícil diferenciar uma fantasia inconsciente de uma lembrança
tornada inconsciente. Mas, não se deve cair em tentação de transferir
o valor de realidade às construções psíquicas recalcadas e até mesmo
desvalorizar as fantasias na formação do sintoma, porque elas não são
efetividades [Wirklichkeiten]; ou derivar de outra fonte um sentimento
de culpa neurótico, porque não se pode evidenciar nenhum crime real
cometido. Temos o dever de considerar o aviso de que na terra em que
pesquisamos, a dominante é, em nosso caso, a ‘moeda neurótica’. Ten-
temos, por exemplo, solucionar o seguinte sonho. Um homem, cuidando
de seu pai durante uma longa e penosa doença mortal, conta que no
mês seguinte de sua morte sonhou repetidamente que ‘o pai estava
vivo novamente e falava com ele como de costume. Mas, percebeu
Formulações sobre os dois princípios do acontecer psíquico (1911) TRADUÇÃO 23
gestorben war und es nur nicht wußte. Kein anderer Weg führt zum
Verständnis des widersinnig klingenden Traumes als die Anfügung »nach
seinem Wunsch« oder »infolge seines Wunsches« nach den Worten »daß
der Vater doch gestorben war« und der Zusatz »daß er [der Träumer] es
wünschte« zu den letzten Worten. Der Traumgedanke lautet dann: Es
sei eine schmerzliche Erinnerung für ihn, daß er dem Vater den Tod (als
Erlösung) wünschen mußte, als er noch lebte, und wie schrecklich, wenn
der Vater dies geahnt hätte. Es handelt sich dann um den bekannten
Fall der Selbstvorwürfe nach dem Verlust einer geliebten Person, und
der Vorwurf greift in diesem Beispiel auf die infantile Bedeutung des
Todeswunsches gegen den Vater zurück.
Die Mängel dieses kleinen, mehr vorbereitenden als ausführenden Aufsa-
tzes sind vielleicht nur zum geringen Anteil entschuldigt, wenn ich sie für
unvermeidlich ausgebe. In den wenigen Sätzen über die psychischen Folgen
der Adaptierung an das Realitätsprinzip mußte ich Meinungen andeuten,
die ich lieber noch zurückgehalten hätte und deren Rechtfertigung gewiß
keine kleine Mühe kosten wird. Doch will ich hoffen, daß es wohlwollenden
Lesern nicht entgehen wird, wo auch in dieser Arbeit die Herrschaft des
Realitätsprinzips beginnt.
*)
[Erstveröffentlichung: Jahrbuch für psychoanalytische und psychopathologische
Forschungen, Bd. 3 (1), Wien 1910, S. 1-8. — Gesammelte Werke, Bd. 8, S. 230-8.]
1)
Janet (1909).
2)
Eine merkwürdig klare Ahnung dieser Verursachung hat kürzlich Otto Rank in einer
Stelle Schopenhauers aufgezeigt. (Die Welt als Wille und Vorstellung, Bd. 2. S.
Rank, 1910.)
3)
Der Schlafzustand kann das Ebenbild des Seelenlebens vor der Anerkennung
der Realität wiederbringen, weil er die absichtliche Verleugnung derselben
(Schlafwunsch) zur Voraussetzung nimmt.
4)
Ich will versuchen, die obige schematische Darstellung durch einige Ausführungen
zu ergänzen: Es wird mit Recht eingewendet werden, daß eine solche Organisation,
die dem Lustprinzip frönt und die Realität der Außenwelt vernachlässigt, sich nicht
die kürzeste Zeit am Leben erhalten könnte, so daß sie überhaupt nicht hätte ent-
stehen können. Die Verwendung einer derartigen Fiktion rechtfertigt sich aber durch
24 Griphos psicanálise n. 26
dolorosamente que o pai estava morto, só que não sabia’. Nenhum
caminho leva à compreensão desse sonho aparentemente absurdo se
não acrescentamos ‘de acordo com seu desejo’ após as palavras ‘que
o pai estava mesmo morto’ e complementando ‘que ele (o que sonha)
o desejava’ às últimas palavras. O pensamento do sonho diz então:
era-lhe uma lembrança dolorosa que tivesse desejado (como uma so-
lução) a morte do pai enquanto ele ainda vivia. E como seria terrível se
o pai tivesse suspeitado disso. Trata-se, então, do conhecido caso de
autorrecriminação pela perda de uma pessoa amada e a recriminação
provém do significado infantil do desejo de morte em relação ao pai.
As falhas deste pequeno ensaio, mais preparatório que conclusivo, talvez
possam ser desculpadas em alguma medida se eu afirmar que são inevitá-
veis. Precisei indicar, em poucas frases sobre as consequências psíquicas
da adaptação ao Princípio de Realidade, opiniões que ainda teria preferido
reter, cuja legitimação, certamente, exigiria esforço nada pequeno. Quero
esperar que aos leitores benevolentes não escapará onde, nesse trabalho,
começa o domínio do Princípio de Realidade.
* Primeira publicação: Jahrbuch für psychoanalytische und psychopathologische
Forschungen, Bd. 3 (1), Wien 1910, S. 1-8. Gesammelte Werke, Bd. 8, S. 230-8.]
1 Janet (1909).
2 Um notável e claro pressentimento dessa relação causal, Otto Rank apontou bre-
vemente num texto de Schopenhauer (O mundo como vontade e representação, v.
2. Cf. Rank, 1910).
3 O estado de sono pode trazer de volta o modelo da vida anímica antes do reconhe-
cimento da realidade, porque ele toma como pressuposto o desmentido intencional
desta (desejo do sonho).
4 Tentarei complementar a apresentação esquemática acima por meio de uma ex-
posição: será objetado com razão que uma tal organização que se entrega ao
Princípio de Prazer e despreza a realidade do mundo externo em curto tempo não
poderia se manter na vida de modo que nem sequer chegaria a nascer. O emprego
de tal ficção se certifica através de uma observação de que o lactente, se apenas
recebe os cuidados da mãe, realiza tal sistema psíquico. Ele, provavelmente, alu-
cina a satisfação de suas necessidades internas, denuncia seu desprazer pelo au-
Formulações sobre os dois princípios do acontecer psíquico (1911) TRADUÇÃO 25
die Bemerkung, daß der Säugling, wenn man nur die Mutterpflege hinzunimmt, ein
solches psychisches System nahezu realisiert. Er halluziniert wahrscheinlich die
Erfüllung seiner inneren Bedürfnisse, verrät seine Unlust bei steigendem Reiz und
ausbleibender Befriedigung durch die motorische Abfuhr des Schreiens und Zap-
peins und erlebt darauf die halluzinierte Befriedigung. Er erlernt es später als Kind,
diese Abfuhräußerungen absichtlich als Ausdrucksmittel zu gebrauchen. Da die
Säuglingspflege das Vorbild der späteren Kinderfürsorge ist, kann die Herrschaft
des Lustprinzips eigentlich erst mit der vollen psychischen Ablösung von den Eltern
ein Ende nehmen. — Ein schönes Beispiel eines von den Reizen der Außenwelt
abgeschlossenen psychischen Systems, welches selbst seine Ernährungsbedürf-
nisse autistisch (nach einem Worte Bleulers) befriedigen kann, gibt das mit seinem
Nahrungsvorrat in die Eischale eingeschlossene Vogelei, für das sich die Mutterp-
flege auf die Wärmezufuhr einschränkt. — Ich werde es nicht als Korrektur, sondern
nur als Erweiterung des in Rede stehenden Schemas ansehen, wenn man für das
nach dem Lustprinzip lebende System Einrichtungen fordert, mittels deren es sich
den Reizen der Realität entziehen kann. Diese Einrichtungen sind nur das Kor-
relat der »Verdrängung«, welche innere Unlustreize so behandelt, als ob sie äußere
wären, sie also zur Außenwelt schlägt.
5)
Ähnlich wie eine Nation, deren Reichtum auf der Ausbeutung ihrer Bodenschätze
beruht, doch ein bestimmtes Gebiet reserviert, das im Urzustände belassen und
von den Veränderungen der Kultur verschont werden soll (Yellowstonepark).
6)
Den Vorzug des Real-Ichs vor dem Lust-Ich drückt Bernard Shaw treffend in den
Worten aus: »To be able to choose the litte of greatest advantage instead of yield-
ing in the direction of least resistance.« (Man and Superman; A Comedy and a
Philosophy.)
7)
Vgl. Ähnliches bei O. Rank (1907).
26 Griphos psicanálise n. 26
mento do estímulo e demora da satisfação, por meio da descarga motora do grito e
agitação, e vivencia, com isso, a satisfação alucinada. Mais tarde, quando criança,
aprende a usar essa expressão de descarga intencionalmente como meio de des-
carga. Como os cuidados ao bebê constituem o modelo do cuidado posterior com a
criança, o domínio do Princípio de Prazer propriamente só chega ao fim com o total
desligamento psíquico dos pais. Um belo exemplo de um sistema psíquico fechado
em relação ao estímulo do mundo externo, que pode satisfazer, de modo autístico,
suas necessidades alimentares (de acordo com uma expressão de Bleuler) nos
dão os pássaros, que têm sua provisão alimentar fechada na casca do ovo, onde o
cuidado da mãe limita-se a fornecer calor. Não como correção, mas apenas como
ampliação do esquema exposto, verei se é requerido um dispositivo para o sistema
orientado pelo Princípio de Prazer por meio do qual pode se afastar dos estímulos
da realidade. Esse dispositivo será apenas o correlato do ‘recalque’, que trata, des-
sa maneira, os estímulos internos de desprazer como se fossem externos; liga-os*f,
portanto ao mundo exterior.
5 Semelhante a uma nação, que protege seu reino da exploração de suas riquezas
do solo, reservando, assim, uma determinada área, que permanece em estado
primitivo e deverá ser preservada das modificações da cultura (Yellowstonepark).
6 Bernard Shaw expressou a preferência do Eu-Real [Real-Ich] diante do Eu-Prazer
[Lust-Ich] nas palavras: »To be able to choose the little of greatest advantage in-
stead of yielding in the direction of least resistance.« (Man and Superman; A Come-
dy and a Philosophy.) (“Ser capaz de escolher o mínimo de maior vantagem em vez
de ceder na direção da menor resistência.”)
7 Algo semelhante em Otto Rank (1907)
Notas na letra de Freud
Antes de iniciar propriamente nossas Notas, trago uma breve indicação
a respeito da leitura deste ensaio, sobre a qual vale a pena retomar as
palavras de James Strachey, desenvolvidas ao introduzir sua tradução.
Strachey comenta que, segundo Ernest Jones, Freud já trabalhava nele
junto com o caso de Schreber desde junho de 1910, e só veio a ser publi-
Formulações sobre os dois princípios do acontecer psíquico (1911) TRADUÇÃO 27
cado em janeiro de 1911. Após um intervalo de mais de dez anos, Freud
faz um exame de suas hipóteses teóricas, que se achavam implícitas em
suas descobertas clínicas. Temos a impressão de um “levantamento de
estoque”, como se estivesse trazendo à sua própria inspeção as hipóte-
ses de um período anterior, para prossegui-las no futuro, vindo a surgir os
artigos da metapsicologia. Sua primeira aparição foi recebida pela assis-
tência da Sociedade Psicanalítica de Viena com certo desconcerto e indi-
ferença. Freud, também, não estava satisfeito, mas insistiu em publicá-lo.
No entanto, hoje é um dos clássicos da psicanálise (Cf. Strachey apud
Freud, 1911. v. XII, p. 273-275)
As Notas:
*a) Os dois termos – Wirklichkeit e Realität – são empregados neste en-
saio, ora como sinônimos, ora especificando um determinado sentido.
Wirklichkeit, de origem germânica, indica a qualidade de algo efetivo,
de fato. Etimologicamente ligado a Werk, obra, Realität, realidade, de
origem latina, é um termo geral, inclusive empregado quando se refere
à realidade psíquica. Preferimos manter entre colchetes quando um
e outro são usados. Em certos trechos, utilizamos “realidade efetiva”,
expressão um tanto redundante para traduzir Wirklichkeit.
*b) Unerträglich / unverträglich – Intolerável / incompatível, respectiva-
mente. No primeiro artigo sobre as Neuropsicoses de Defesa (1894),
na tradução da Standard, J. Strachey acrescenta em nota de rodapé
sobre a impressão errada do termo unverträglich (incompatível), que
aparece apenas na primeira edição, e, nas seguintes, impresso como
unerträglich (intolerável, insuportável). A diferença é apenas de uma
letra, o v em unverträglich.
Aqui, neste ensaio de 1911, não há dúvida: o neurótico acha insuportável,
é uma questão de desagrado, de desprazer. Mas, lá no artigo de 1894, o
incompatível faz mais sentido. É quando uma representação rechaçada
(unerträglich) não encontra um substituto na conversão e, então, é
separada de seu afeto, que permanece na esfera psíquica, e se liga a
outras representações, que não lhe sejam incompatíveis (unverträgliche).
Isso indicaria uma “falsa conexão”. Para Strachey, é uma distinção que
merece ser preservada. O próprio Freud traduziu o termo para o francês
28 Griphos psicanálise n. 26
por inconciliable. A edição inglesa propõe unbearable (Cf. FREUD, 1894,
nota 4 de Strachey).
*c) Besetzung. Literalmente, o termo significa ‘ocupação’. As traduções
em espanhol propõem ‘carga psíquica’ (Editorial Biblioteca Nueva. Ma-
drid, v. II); a Standard, ‘catexia’; outras traduções, ‘investimento’. Opta-
mos por ‘ocupação de carga”; às vezes, apenas ‘ocupação’. A ideia é
que uma determinada representação é ‘ocupada’ por uma carga, uma
energia pulsional, sem a intenção do sujeito. O termo ‘investimento’
sugere algo intencional.
*d) zum Handeln. Freud emprega o verbo handeln como substantivo: der
Handeln. As traduções desse ensaio de Freud propõem sempre ‘ação’.
Entretanto, seria melhor substantivar o verbo, talvez ‘o agir’, ‘o atuar’,
não um agir qualquer, de impulso, mas implicando negociação, ajus-
tes. O termo, em sua polissemia, em geral, indica comerciar, negociar,
ajustar. Em certas passagens, cabe traduzir por ‘manejo’ (Handlung,
que provém de Hand = mão), e também ‘tratar-se de algo’, como em es
handelt sich. Aqui, no ensaio de 1911, esse ‘agir/atuar’ conclui a nova
função, que provém do processo de pensamento (Denkprozess), mais
econômico que a descarga motora, e passa por testes desse manejo
(Probehandeln). Na literatura, cinema e teatro, cabe o termo ‘enredo’.
*e) Lustgewinn, ganho de prazer. Para Lacan, essa expressão refere-se
ao gozo no sentido de mais a gozar.
*f) sie also zur Außenwelt schlägt – liga-os, portanto, ao mundo exterior.
O verbo schlagen permite várias direções, conforme a preposição que
o acompanha.
Schlagen – verbo t. ou int. Dar um golpe em alguém ou algo; vencer,
derrotar.
Schlag – substantivo: golpe, pancada, palpitação, choque.
schlagen zu – eine Brücke zu jemanden oder etwas schlagen: eine
Verbindung herstellen: estabelecer uma ligação a alguém ou algo; je-
manden sum Boden schlagen – lançar alguém ao chão.
Formulações sobre os dois princípios do acontecer psíquico (1911) TRADUÇÃO 29
A tradução da Standard propõe o verbo “empurrar para o mundo exterior”.
Mas, como o “recalque” é uma operação, que, por meio de um desloca-
mento, cria um “fora”, que, ao mesmo tempo, é “dentro”, numa superfície
moebiana. Achamos interessante aproveitar a polissemia e optar pelo ter-
mo “ligar ao mundo exterior”. O recalcado é tomado como algo exterior
ao sujeito.
30 Griphos psicanálise n. 26
DA ‘CRIANÇA VIADA’
À CRIANÇA TRANS-
FORMADA
Natalia Pereira Travassos*
Marco Antonio Coutinho Jorge**
RESUMO * Psicóloga/ Psicanalista
Analista membro do Corpo Freudiano
O artigo questiona a transexualidade em crianças e adoles-
– Escola de Psicanálise – Seção Rio
centes, tendo como ponto de partida a noção do conceito de
de Janeiro.
estranho em Freud e sua relação com a homofobia.
Mestre e doutoranda pelo Programa
PALAVRAS-CHAVE de Pós-graduação em Psicanálise/
Psicanálise; Transexualidade; Infância; Estranho; Homofobia. UERJ (bolsista CAPES)
E-mail:
RESUME
<[Link]@[Link]>
Le text interroge la transsexualité chez les enfants et les
adolescents en prenant comme point de départ la notion ** Psiquiatra/Psicanalista
Diretor do Corpo Freudiano – Escola
freudienne de l’inquiétante étrangeté et son lien avec
de Psicanálise – Seção Rio de
l’homophobie.
Janeiro
MOTS-CLES
Professor Associado do Instituto de
Psychanalyse, transsexualité, enfance, étrange, homophobie. Psicologia da UERJ e membro da
Association Insistance (Paris) e da
Introdução Sociedade Internacional de História
da Psiquiatria e da Psicanálise
E-mail:
A exposição Queermuseu: Cartografias da Diferença
<macjorge@[Link]>
na Arte Brasileira (2017) reuniu produções artísticas
transgressoras da norma canônica, promovendo,
segundo seu curador Gaudêncio Fidelis, o descen-
32 Griphos psicanálise n. 26
tramento das regras heteronormativas. Considerada por ele um marco do
debate sobre gênero e sexualidade no Brasil em escala antes inimaginá-
vel, a mostra de arte foi violentamente criticada. Acusada de apologia à
pedofilia, pornografia e zoofilia, os ataques promovidos, principalmente
pelo Movimento Brasil Livre – movimento político conservador sustentado,
segundo os membros, em valores e princípios –, culminaram na censura e
no encerramento precoce da exposição, desencadeados pela forte pressão
exercida sobre o patrocinador. O Ministério Público Federal desmentiu as
acusações, afirmou não haver crime de qualquer espécie e, contrariando
o autoritarismo dessa atitude, recomendou sua imediata reabertura.
Mesmo coibida pelo prefeito do Rio de Janeiro na época, a Queermuseu
foi reaberta um ano depois (2018), na Escola de Artes Visuais do Parque
Lage, após um financiamento coletivo. O show beneficente, que contou com
as participações de Caetano Veloso, Maria Gadú e Marisa Monte, ocor-
reu um dia após os assassinatos da ativista política e vereadora Marielle
Franco e de seu motorista Anderson Gomes. A força-tarefa para impor a
reabertura mostrava-se imprescindível na reafirmação da luta necessária
e urgente, especialmente diante do cenário político de barbárie, injustiça
social e desigualdade crescentes.
Dentre as obras mais polêmicas, estavam as da série “Criança viada”, cria-
das pela artista Bia Leite. Inspirada em uma página criada pelo jornalista e
ativista LGBT Iran Giusti – que incentivou a postagem de fotos de diversos
amigos e amigas ‘pintosos’ na infância e acabou se tornando um momento
de celebração da comunidade LGBT –, a artista quis celebrar os traços
dessas crianças, que, durante a vida, foram motivo de violência. Bia Leite
foi uma dessas crianças ‘desviantes’, cuja vivência foge aos padrões hete-
ronormativos da cultura e que a sociedade sempre tentou tornar invisíveis.
Bia declara: “Nós, LGBT, já fomos crianças. Esse assunto incomoda”1.
1 Disponível em: <[Link]
-tras-da-obra-que-gerou-revolta/. Acesso em: 10 out. 2021.
Da ‘criança viada’ à criança trans-formada ABERTURA 33
A denúncia queer
Na língua inglesa, o termo queer significa estranho, esquisito, excêntrico, e
foi usado, durante décadas, de forma pejorativa, na referência às pessoas
que desviam da heteronormatividade. No entanto, depois de ter sido ado-
tado pela comunidade LGBT e graças ao caráter vivo da linguagem e da
potência subversiva da reversibilidade simbólica, o termo queer ganhou uma
nova conotação, perdendo a acepção meramente negativa. Atualmente,
ao denominarem-se queer, aqueles que quebram as normas de gênero
ganham um lugar social, fazendo com que os indivíduos se reconheçam
e agreguem em grupo pela diferença.
Escrito por Freud em 1919, Das Unheimliche foi traduzido para o inglês
como The Uncanny, e é na língua inglesa que queer e uncanny se encon-
tram como sinônimos. A palavra alemã unheimliche, traduzida para o por-
tuguês como ‘O estranho’, ‘O inquietante’, ‘O infamiliar’ e ‘O incômodo’2 diz
respeito a “tudo o que deveria permanecer em segredo, oculto, mas que veio
à tona” (FREUD, 1919, p. 45) e é, assim, que “infamiliar é, de certa forma,
um tipo de familiar” (p. 49). Se todo afeto é, segundo Freud (1919, p. 85),
transformado em angústia pela ação do recalque, o angustiante nada mais
é que o retorno do recalcado, assim como a natureza secreta do infamiliar
não tem nada de novo ou estranho, mas “é algo íntimo à vida anímica desde
muito tempo, que foi afastado pelo processo de recalcamento”.
O recalque é um processo intrapsíquico pelo qual os representantes psí-
quicos de uma determinada moção pulsional se tornam inconscientes e,
desse modo, devem permanecer. Já a repressão é o efeito do recalque
(LACAN, 1993, p. 52)3 e acontece na relação do sujeito com o outro; por-
tanto, é interpsíquica. Sendo assim, o índice de violência de uma cultura
2 É possível encontrar diferentes traduções para unheimliche. Nesse sentido, Gilson
Iannini e Pedro Heliodoro Tavares destacam que estamos diante de um ‘intradu-
zível’, que, segundo Barbara Cassin, “não é o que não pode ser traduzido, mas o
que não cessa de (não) traduzir” (FREUD, 1919, p. 8).
3 Cf. Jorge (2000, p. 22).
34 Griphos psicanálise n. 26
está diretamente relacionado ao seu nível de repressão. Tanto os elevados
índices de violência contra pessoas não heteronormativas quanto a censura
que incidiu sobre a Queermuseu revelam, claramente, que o significativo
avanço no campo da liberação sexual sofre uma força repressiva, contrária
e de mesma intensidade, em nome da moral e dos bons costumes.
Até mesmo a biologia, ou seja, aquilo que poderia ser entendido como
dado natural e constituinte do ser vivo, é capaz de estabelecer diferenças
regulares entre os sexos. A história demonstra que as teorias se modifi-
cam de acordo com o avanço científico. Daquilo que se verificava a olho
nu – os órgãos reprodutores – até os marcadores bioquímicos, passando
pela constatação microscópica da existência de células reprodutoras dis-
tintas, o que se apresenta é sempre a ausência de qualquer evidência, que
confirme a diferença biológica, mantendo o enigma imposto pelo sexo, ao
qual a linguagem tenta responder. Assim como o gênero, o sexo também
é uma ficção. Se nem os determinantes naturais são capazes de satisfazer
o desejo de uma marca que se inscreva como a diferença, não é possível
estabelecer qualquer relação entre os sexos: não há mulher em relação
ao homem nem homem em relação à mulher ou, como postulou Lacan,
“não há relação sexual” (LACAN, 2008, p. 40).
A partir da investigação relativa às pessoas intersexuais, Anne Fausto-
-Sterling (1993), bióloga de referência nos estudos sobre o desenvolvimento
do gênero, afirma que o sexo é um vasto continuum infinitamente maleável,
que desafia as restrições de até mesmo cinco categorias. Segundo ela,
o sexo não é binário e, mesmo antes do avanço nos estudos da biologia,
as regras sociais eram estabelecidas para dar conta da diversidade se-
xual. Foi nesse mesmo sentido que, na tentativa fracassada de regular os
comportamentos sexuais no Brasil, nos deparamos com uma esparrela,
que, inacreditavelmente, se tornou um violento lema governamental contra
a diversidade; portanto, contra a humanidade: “meninas vestem rosa e
meninos vestem azul”.4
4 Declaração de Damares Alves, Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos no
Da ‘criança viada’ à criança trans-formada ABERTURA 35
Evidentemente, tal adequação aos estereótipos de gênero visa à manuten-
ção da norma heterossexual, na qual as meninas vestidas de rosa e os me-
ninos de azul se uniriam na vida adulta para perpetuar a ‘família tradicional
brasileira’ pregada pelo mesmo movimento, que censurou a Queermuseu.
A criança viada – seja ela Deusa das águas, Travesti da lambada, Bafôni-
ca ou She-ra5 – deve ser proibida. Mas, curiosamente, em 2020, a idade
mínima para início da hormonização de adolescentes caiu de 18 para 16
anos. Isso sem contar o uso de bloqueadores hormonais em pré-púberes
para evitar o desenvolvimento dos caracteres sexuais secundários, ou seja,
aumento de pilosidade e engrossamento da voz nos meninos, assim como
a menarca, aparecimento das mamas e arredondamento do corpo nas
meninas. A criança viada deve ser proibida, mas a criança trans-formada
deve ser rapidamente assistida para o apaziguamento do mal-estar – dela
própria ou da cultura?
Quando a brincadeira vira realidade
Há diferentes justificativas alegadas para a introdução dos bloqueadores
hormonais, que incluem a prevenção ao suicídio e o bullying contra as
crianças com não conformidade de gênero, até como cura para a angústia.
Autora de dois livros sobre o assunto, considerada atualmente uma das
principais referências na área da psicologia norte-americana voltada para
a transição pediátrica e o tratamento de afirmação do gênero e psicóloga
clínica da Universidade da Califórnia, Diane Ehrensaft (2016) afirma que
o gênero pode ser a proteção contra traumas. Ela o exemplifica com as
meninas, que, no Afeganistão, teriam encontrado segurança e liberdade
ao assumirem uma identidade masculina. Nesse caso, o gênero – induzido
socialmente, mas internalizado – seria a cura para a opressão da mulher.
As explicações do gênero como cura não param por aí. Ehrensaft (2016)
chega ao cúmulo de incentivar que um jovem, vítima de abuso sexual em
sua família biológica e posteriormente adotado por outra família, teça um
Brasil, em 03 de janeiro de 2019.
5 Nome das obras de Bia Leite expostas no Queermuseu.
36 Griphos psicanálise n. 26
gênero autêntico ou um self transgênero para curar o trauma, evitando a
repetição de sua história na família adotiva. Não há qualquer dúvida sobre
o fato de que cada sujeito encontra uma saída para lidar com situações
traumáticas. Contudo, ela é sempre singular e contingencial, e qualquer
terapia afirmativa de gênero apenas corrobora a ideia tola de que o gênero
é uma verdade última, inquestionável e imutável. Todavia, já sabemos que
tanto o sexo quanto o gênero têm estruturas de ficção.
Ehrensaft (2016) postula que, já aos seis anos de idade, uma criança seria
capaz de definir com precisão e sem hesitação o seu gênero. No entanto, a
psicanálise demonstra que, nesse período crucial de seu desenvolvimento,
ela está imersa na construção de seu mundo próprio através da brincadei-
ra. Freud (1908/2017) destaca a seriedade dessa atividade infantil, que,
sendo inicialmente uma saída encontrada pela criança para lidar com seus
afetos, é substituída pela fantasia no adulto. Mesmo que ambas tenham
como finalidade a satisfação do prazer, o fantasiar vem carregado de ver-
gonha e culpa pela ação do recalque. Desse modo, tomar como certeza
qualquer enunciado de um sujeito nessa etapa da constituição é encarcerá-
-lo perversamente de forma nua e crua numa suposta realidade – aliás,
segundo Freud, o oposto da brincadeira. A criança pode ser a pequena
sereia, o homem-aranha, menina, menino, astronauta, dinossauro, mas,
quando um adulto toma como pura realidade o brincar infantil, o que está
em jogo não é a realidade psíquica dela, mas o recalque daquele adulto
nela projetado. Se nem mesmo um adulto é capaz, a rigor, de ter certeza
sobre seu próprio sexo devido à bissexualidade estrutural, como pode fazer
isso em relação à criança?
Fantasia, cultura e trans-formação
O sintoma é uma formação de compromisso entre o recalque e a exigência
de satisfação, mas é a fantasia que mantém a promessa de realização
do prazer, alinhando presente, passado e futuro: uma impressão do pre-
sente evoca uma vivência anterior – desejo não realizado – e prefigura a
possibilidade futura de realização. Principal aliada da dinâmica pulsional,
Da ‘criança viada’ à criança trans-formada ABERTURA 37
a fantasia permite que o quantum de libido não satisfeito seja reinvestido
incessantemente. Se sujeito e cultura encontram-se em continuidade
moebiana, se a fantasia é o núcleo da clínica da histeria e a única via de
acesso ao inconsciente, o que se revela no divã não deixa de denunciar
como seu pano de fundo a cultura de uma época.
Quando fez seus principais escritos sobre a fantasia, Freud (1908/2018)
dedicou-se à escrita de um texto para tratar, exclusivamente, das fanta-
sias sexuais infantis, chegando a chamá-las de teorias – tamanha a sua
importância – e afirmando, com agudeza, que elas têm influência decisiva
na configuração dos sintomas. Desde pequenas, as crianças se veem cap-
turadas pelo enigma do sexo e se colocam a serviço de sua curiosidade.
A investigação sobre o tema é tão séria que Freud chegou a considerá-las
como verdadeiras teóricas.
As crianças se voltam para os adultos contando com o fato de serem a
fonte do saber e formulam sua primeira pergunta sobre a origem dos bebês.
Porém, recebem uma resposta evasiva, têm sua curiosidade reprimida ou
recebem uma resposta mítica como a da cegonha que traz o bebê. Não
sem motivos e insatisfeitas com a resposta, elas percebem que ali há algo
proibido, que denuncia a informação negada, fazendo com que mantenha
em segredo as investigações posteriores. Freud (1908/2018) descreve que
ali se anuncia a brecha para um conflito psíquico, pois aquilo que move
sua curiosidade encontra oposição nos adultos. Naquele momento, pode
instaurar-se uma cisão psíquica, que funcionará como o núcleo da neurose
e manterá inconsciente a ideia que deve permanecer recalcada, mas o
afeto, motor da curiosidade, permanece livre.
A teoria mais importante construída pelas crianças, a universalidade do
pênis, vai ao cerne da nossa questão. A pequena diferença verificável pelo
olhar não é passível de ser articulada no nível da palavra e opera como um
real traumático, impossível de ser simbolizado: os meninos se deparam
com a ameaça da perda do pênis e as meninas com a certeza de que falta
alguma coisa. Muito antes de Lacan se utilizar da teoria de Ferdinand de
38 Griphos psicanálise n. 26
Saussure para promover seu retorno à obra freudiana e explicar através
da lei da segregação urinária a precipitação de sentido que o signo evoca,
Freud (1908/2018) descreveu que a presença ou ausência do órgão peniano
não basta para que uma criança relacione essas duas formas ao fato de
alguém ser, respectivamente, homem ou mulher.
Foi exatamente a castração buscada no real do corpo que levou Lacan e
outros psicanalistas a situarem os transexuais, exclusivamente, no cam-
po da psicose, entendendo que o pênis é tomado pelo transexual como
significado numa operação metonímica e sem recurso metafórico. A im-
possibilidade que o transexual psicótico tem de dialetizar, ou seja, lidar
simbolicamente com a castração, o levaria a confundir o falo com o pênis.
Diante da foraclusão do significante Nome-do-Pai – “isto é, do significante
que, no Outro como lugar do significante, é o significante do Outro como
lugar da lei” (LACAN, 1998, p. 590) –, o sujeito sofreria as consequências
do retorno da castração no real do corpo: sem a localização de gozo pro-
porcionada pela fantasia, comparece o gozo invasivo da pulsão de morte.
Entretanto, a escuta clínica revela que a experiência transexual não pode
ser subsumida a uma estrutura, podendo se apresentar como uma saída
neurótica ao recalque da homossexualidade. Portanto, a transexualidade –
entendida em parte como adequação do corpo ao gênero – acena, muitas
vezes, como uma possível resposta ao mal-estar, que nunca é deixado de
ser produzido pela sexualidade e pelo corpo.
Não se sabe exatamente como e quando, na evolução das espécies, se deu
a aquisição da linguagem, mas é fato que ela subverteu a ordem biológica
no caso do parlêtre. Sendo assim, para o ser linguageiro, o registro biológico
do seu corpo é insuficiente para orientar tanto sua almejada identidade
sexual quanto sua escolha de objeto; ou seja, a parceria na intenção do
encontro sexual. Resta-lhe a encenação no jogo dos sexos – ou a comédia
dos sexos, como diz Lacan –, na qual cada sujeito encena ‘fazendo ares’
de homem ou mulher no encontro com o objeto. Nenhum encontro sexual
está predestinado, nem muito menos se reduz à genitalidade.
Da ‘criança viada’ à criança trans-formada ABERTURA 39
Desde 1920, Freud demonstra, com clareza, que não há no psiquismo
qualquer relação indissociável, que, no entanto, se faz comumente entre
três elementos heterogêneos, que dizem respeito à diferença sexual: ser
homem ou mulher, feminino ou masculino, homossexual ou heterossexual.
Conjugando todos esses elementos, temos a desestabilização do imagi-
nário, que tende a amarrar o sentido, concluindo que, para a psicanálise,
identidade sexual e escolha de objeto são aspectos que não se superpõem,
muito menos se excluem. Porém, o discurso em torno da fantasia de com-
plementaridade entre os sexos – mítica por excelência – permanece forte
na cultura e reforça a ideia do ‘feitos um para o outro’. Nesse contexto, a
homossexualidade ameaça o imaginário, unívoco e consistente, que tende
a fazer correspondência entre duas pessoas em uma relação amorosa
sexual. Por isso, mesmo diante de um casal homossexual, é muito co-
mum que se pergunte quem é o ‘ativo’ e quem é o ‘passivo’; isto é, quem
é o ‘homem’ e a ‘mulher’ naquela relação. O mito da complementaridade
sexual está fadado ao fracasso, mas o sujeito insiste incansavelmente
no objetivo de dois se fazerem um. Como ressaltou Lacan (2008, p. 52):
“Todo mundo sabe, com certeza, que jamais aconteceu, entre dois, que
eles sejam só um”.
Interrogações
Retomando a questão da transição pediátrica, na maioria das vezes
justificada pela prevenção ao bullying e ao suicídio, restam perguntas: a
serviço de quem estaria o alinhamento do sexo ao gênero? De quem é o
apaziguamento, da criança ou dos adultos, que não suportam o que há
de estranho na sexualidade – sempre infantil – de seu semelhante, que,
nesse caso, é a criança?
Sobre a criança viada, a censura que recaiu sobre a obra não deixa dúvidas
de que a expressão da sexualidade desviante da norma heterossexual atin-
giu o que havia de mais íntimo e que deveria permanecer oculto naqueles
que acusaram a artista por apologia à pedofilia. Entretanto, ao mesmo
tempo em que se condena de forma tão feroz uma obra que exibe a não
40 Griphos psicanálise n. 26
conformidade de gênero – e que, provavelmente, aponta para a homosse-
xualidade –, crianças com tal característica são levadas aos profissionais
de saúde visando ao diagnóstico precoce e a uma intervenção, caso seja
pertinente. Estaria a transição pediátrica a serviço da saúde mental da
criança ou do recrudescimento do recalque, especialmente no que diz
respeito à homossexualidade e ao feminino?
REFERÊNCIAS
EHRENSAFT, D. The gender creative child: pathways for nurturing and
supporting children who live outside gender box. New York: Experiment,
2016.
FREUD, S. O poeta e o fantasiar (1908). In: ______. Arte, literatura e os
artistas. Belo Horizonte: Autêntica, 2017. p. 53-66.
FREUD, S. Sobre as teorias sexuais infantis (1908). In: ______. Amor,
sexualidade, feminilidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2018. p. 95-115.
FREUD, S. O infamiliar (1919). In: ______. O infamiliar / Das unheimliche.
Belo Horizonte: Autêntica, 2019. p. 97-125.
FREUD, S. Sobre a psicogênese de um caso de homossexualidade
feminina (1920). In: JORGE, M. Fundamentos da Psicanálise de Freud a
Lacan, vol. 1: as bases conceituais. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.
LACAN, J. Televisão. Rio de Janeiro: Zahar, 1993.
LACAN, J. De uma questão preliminar a todo tratamento possível da
psicose. In: ______. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. p. 537-590.
LACAN, J. Seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
STERLING, A. F. The five sexes. The sciences, New York: Academy of
Sciences, v. 43, p. 20-24, Mar./Apr. 1993.
STERLING, A. F. Sexing the body: gender politics and the construction of
sexuality. New York: Basic Books, 2020.
Da ‘criança viada’ à criança trans-formada ABERTURA 41
O PSICANALISTA
E O CORPO
INSTITUCIONAL
Nara França Chagas*
RESUMO * Psicanalista.
E-mail:
Este trabalho aborda a questão da transmissão da psicanálise
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a partir do texto freudiano e da proposta de Lacan com a
fundação da Escola Francesa de Psicanálise. Está colocado
o impasse quanto à formação dos analistas ao final de análise
e à função da Escola nesse processo de formação.
PALAVRAS-CHAVE
Formação do psicanalista; Escola; Real; Cartel; Passe.
SOMMAIRE
Ce travail aborde la question de la transmission de la
psychanalyse à partir du texte freudien et de la proposition
de Lacan, avec la fondation de l’École Française de
Psychanalyse. Il y a une impasse concernant la formation
des analystes, à la fin de l’analyse et le rôle de l’École dans
ce processus de formation.
MOTS CLÉS
Formation du psychanalyste; Ecole; Réel; Cartel; Pass.
Em janeiro de 1969, no Pronunciamento na Escola,
Lacan começa seu discurso dizendo: “Existe a psi-
canálise e existe a Escola. A serem distinguidas no
que a Escola se apresenta como uma pessoa moral,
42 Griphos psicanálise n. 26
isto é, como um corpo totalmente diverso, que se apoia em pessoas, estas
físicas e um tanto presentes”.
Pensar sobre a formação de analistas nos remete aos finais de análise e
à questão das instituições psicanalíticas. Desde as reuniões das quartas-
-feiras, Freud e os primeiros analistas se debruçaram sobre o tema. Em
1926, no extenso trabalho A questão da análise leiga, Freud defende a psi-
canálise, com vários argumentos, desvinculada da medicina. Preocupado
com a possibilidade de se incluir a psicanálise como uma especialidade
médica, ele insiste nas condições particulares da formação e da prática
analítica. Esse texto, escrito em defesa de Theodor Reik, acusado de exer-
cício ilegal da medicina pelo Tribunal vienense, tornou-se um documento
fundamental para se pensar a questão da transmissão da psicanálise.
Apesar do fracasso na defesa do discípulo acusado, encontramos, aqui,
argumentos importantes colocados como condições para a habilitação
prática do psicanalista.
Um aspecto primordial é a distinção do ensino acadêmico-universitário.
Ensinar a psicanálise não significa formar o analista. Aliás, quanto a isso,
em Análise terminável e interminável, Freud (1937) aponta a psicanálise
como uma das profissões impossíveisao lado de educar e governar. Estão,
então, colocados os impasses quanto à formação dos analistas, ao final
de análise e à função das instituições psicanalíticas nesse processo de
formação. Como equacionar essas três profissões impossíveis dentro de
um projeto institucional de transmissão da psicanálise?
Nas instituições ligadas à IPA, existe uma hierarquia, um ensino preesta-
belecido e cursos ministrados supondo um saber transmissível e o famoso
tripé: análise pessoal com um analista didata, supervisão e cursos ministra-
dos na instituição. Após determinado progresso, o candidato é autorizado
a exercer a psicanálise. É um modelo bem próximo do ensino universitário
e bem distante do ensinamento de Freud.
Isso nos faz pensar que essa estrutura, advinda dos discípulos de Freud,
passou por uma distorção, provavelmente resultante de fatores pessoais,
O psicanalista e o corpo institucional ABERTURA 43
de análises malconduzidas e de restos não analisados, que se fizeram
presentes na instituição.
Retomando a frase de Lacan (1969), “Existe a psicanálise e existe a Escola”,
qual a novidade que a Escola nos traz? É sobre isso e sobre a questão da
presença do real em todas as associações, inclusive psicanalíticas, que
queremos refletir aqui.
Em 1964, Lacan apresentou a Escola como uma organização, que se
propõe a restaurar a obra de Freud num campo destinado ao trabalho
no cumprimento da missão de fazer a psicanálise se distanciar da homo-
geneidade. A Escola, ao invés de escamotear o real com uma estrutura
hierárquica e um discurso universitário, propõe tratar esse real como o
cerne da experiência analítica.
No Ato de fundação, de 1954, Lacan inicia seu discurso dizendo: “Eu
fundo – tão sozinho quanto sempre estive em minha relação com a causa
psicanalítica – a Escola Francesa de Psicanálise...” É da posição do
analista que Lacan funda a EFP, uma solução contra as distorções, o
ecletismo e as estruturas hierárquicas vigentes. As análises didáticas e
as supervisões, até então, eram conduzidas pelos analistas da instituição
eleitos como didatas. A Escola inverte essa norma: uma análise é didática
quando, ao final, produz o analista. Essa solidão do analista remete ao
distanciamento do Outro à medida que o psicanalisante assume seu próprio
desejo sem que esteja submetido ao Outro.
Na Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola,
Lacan é claro:
Antes de mais nada um princípio: o psicanalista só se autoriza de si
mesmo. Esse princípio está inserido nos textos originais da Escola e
decide sua posição. Isso não impede que a Escola garanta que um
analista depende de sua formação. Ele pode fazê-lo por sua própria
iniciativa.
44 Griphos psicanálise n. 26
Aqui, fica clara a distinção entre autorização e garantia. Enquanto
nas instituições ligadas à IPA o candidato faz um percurso predetermina-
do tendo um analista e dois supervisores autorizados pelo conselho de
didatas e um currículo de estudos uniformizado, na Escola ocorre um outro
procedimento: o analista não obtém essa autorização de um outro desde
que ele se autoriza de si mesmo. Torna-se necessário que essa autoriza-
ção seja verificada através do dispositivo que a Escola oferece: o passe.
Ninguém impede que o analista exerça sua função de forma independente,
mas a garantia só poderá vir a partir do dispositivo do passe. A Escola é
onde esse dispositivo deverá ocorrer através de um cartel ou um júri de
recepção e confirmação. A garantia resultante desse procedimento deve
ser regulada pela ética da psicanálise, testemunhando a função do desejo
do analista.
Voltando ao Pronunciamento na Escola, citado no início, “a Escola se
apresenta como uma pessoa moral, isto é, como um corpo totalmente
diverso, que se apoia em pessoas, estas físicas e um tanto presentes”
(LACAN, 1969).
Na Proposição de 9 de outubro de 1967, Lacan substitui a hierarquia vigente
nas instituições da IPA pelo conceito de gradus.
Dentro dessa proposta, são consideradas duas categorias de membros:
os AME, analistas membros da Escola, reconhecidos como tal pela com-
provação de sua capacidade; e os AE, analistas da Escola, pessoas que
se dispuseram a fazer o passe, testemunhando que estão investidos na
tarefa de serem analistas e trazendo o testemunho de seus trajetos e o
compromisso com o desejo de analista. Podemos afirmar que a autoriza-
ção, o sujeito a obtém na análise. A Escola, através do passe, momento
de escansão, faz a verificação.
Mas, continua Lacan, “existe um real em jogo na própria formação do
analista”. E ele acrescenta: “as sociedades existentes fundam-se nesse
real”. Isso significa uma relação contingente com o outro sob a função da
castração.
O psicanalista e o corpo institucional ABERTURA 45
A coletividade se diferencia do grupo das sociedades ligadas à IPA pela
natureza do enlace com os outros e com a sua própria afirmação. O laço
social não pressupõe um ou mais líderes, nem uma medida universal. O
cartel é o modelo paradigmático, unidade básica da Escola.
Podemos relativizar a autonomia do sujeito quanto à autoautorização. Não
significa que qualquer um possa se afirmar analista. A comunidade analí-
tica é necessária, pois essa autoafirmação traz exigências para o sujeito.
Há uma exigência de verificação e de compromisso com uma formação
permanente numa postura ética quanto ao saber. Isso significa a exclusão
de uma verdade absoluta e a prevalência do discurso do analista numa
aceitação de um saber sempre incompleto, permitindo uma busca do novo,
da invenção e do progresso da psicanálise em intensão e extensão.
REFERÊNCIAS
FREUD, S. A questão da análise leiga (1926). In: _ _ _ _ _ _. Obras
Completas, 20. Rio de Janeiro: Imago, 1980.
FREUD, S. Análise terminável e interminável (1937). In: ______. Obras
Completas, 23. Rio de Janeiro: Imago, 1980.
LACAN, J. Proposição de 9 de outubro de 1967. In: ______. Outros
Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.
LACAN, J. Pronunciamento na Escola (1969). In: ______. Outros Escritos.
Rio de Janeiro: Zahar, 2003.
LACAN, J. Nota italiana (1973). In: ______. Outros Escritos. Rio de Janeiro:
Zahar, 2003.
46 Griphos psicanálise n. 26
O TEMPO DE SE
TORNAR MULHER
Adriana Vieira Ferreira
RESUMO Economista Rural e Comporta-
mental, em formação em Psicaná-
A partir de uma entrevista com uma mulher transexual, este
lise junto à Escola Freudiana de
relato busca trazer à tona questões sobre a diferença sexual,
Belo Horizonte/IEPSI
muito além da diferença anatômica, fundamentadas nos
E-mail:
conceitos freudianos postos no artigo de François Ansermet:
<[Link]@[Link]>
“Eleger o próprio sexo: usos contemporâneos da diferença
sexual”.
PALAVRAS-CHAVE
Transexual; Identidade; Sexualidade; Reprodução; Origem.
ABSTRACT
From an interview with a transsexual woman, this article seeks
to bring up questions about sexual difference, far beyond
the anatomical difference, based on the Freudian concepts
put in François Ansermet’s article: “Electing one’s own sex:
contemporary uses of sexual difference”.
KEYWORDS
Transsexual; Identity; Sexuality; Reproduction; Origin.
Abri a câmera do celular e me deparei com cabelos
bem penteados, até os ombros, moldando um rosto
de pele muito branca. Não abriu um sorriso de forma
imediata. Ela me olhou fixamente por alguns segun-
dos e disse na sequência: “Estou à sua disposição”.
Essa frase, que antecedeu à minha apresentação,
confesso que soou pouco receptiva e me pus a achar
48 Griphos psicanálise n. 26
vínculos com Rebeca1. Conto a ela que conheço bem a capital europeia,
onde reside há 30 anos (e que, por puro acaso, foi a casa de Freud), e
revelo que temos a mesma idade. Só assim, Rebeca abriu um sorriso e
confiou no meu sotaque, parecido com o dela, pondo-se prontamente a
falar a partir dos pontos que destaquei do artigo de François Ansermet:
“Eleger o próprio sexo: usos contemporâneos da diferença sexual”.
Começo indagando sobre o verbo ‘eleger’, escolhido pelo autor para no-
mear seu artigo, publicado em 2018. O tom da conversa foi se mostrando a
partir da primeira e certeira resposta obtida: “Se eleger significa ter certeza,
concordo com a escolha do autor”.
Interessante notar que Ansermet (2018, p. 1) pontua que “todo o enigma
clínico da transexualidade gira, de fato, ao redor da certeza em jogo”. Indago
quando ela percebeu que era uma menina e, confesso, me arrependi de
ter feito a pergunta quando as palavras ainda estavam na minha boca. Se
me perguntassem o mesmo, eu não saberia dimensionar no tempo. Des-
cobri, no entanto, que o tempo de Rebeca expressa a estranheza com o
próprio corpo: “Eu sempre soube que era uma menina. Quando criança,
só não entendia por que não era igual às outras”. E completou: “A minha
preocupação, quando estava na escola e sempre cercada de meninas, era:
‘Se eu brincasse de casinha, algum dos meninos iria querer ser o pai?’”
Nesse ponto, há uma provável tessitura com o afirmado por Maria Homem
e Contardo Calligaris (2019, p. 14), no livro Coisa de Menina?: “As catego-
rias ‘homem’ e ‘mulher’ só conseguem existir no âmbito das palavras, do
simbólico, e não na realidade vasta e complexa da natureza e muito menos
na realidade mais vasta e mais complexa das relações humanas concretas”.
O estranhamento com o próprio corpo ganhou uma dimensão diferente com
a chegada da puberdade de Rebeca. Se, por um lado, sentiu-se perturba-
da com as mudanças da adolescência, como o aparecimento dos pelos
e a falta de entendimento do sexo; por outro, o encontro com o universo
transexual aconteceu nesse período da vida. Ela revelou que conheceu
1 Rebeca é um nome fictício.
O tempo de se tornar mulher CORPO E SEXUALIDADE 49
uma mulher transexual (11 anos mais velha), que a apresentou à aceitação
completa do seu corpo e aos caminhos para o alcance do prazer sexual.
“Onde mora o prazer?” – essa era a pergunta que, na época, dava norte
às suas buscas internas.
“O que caracteriza o transexual é a certeza de ter nascido com uma falsa
anatomia. E essa certeza é absoluta”, afirmou Ansermet (2018, p. 2). A tran-
sexualidade é um fenômeno centrado na identidade sexual e, nesse ponto,
me coloco a pensar se a identidade transexual passa a ser tão ilusória
quanto a masculina e a feminina. Basta entender a identidade como uma
construção, que objetiva organizar, de forma subjetiva, o gênero. Sendo
assim, não existe uma referência essencialista da identidade masculina
ou feminina (ou de qualquer outra?).
Na conversa que se desenrolou, Rebeca revela que, aos 18 anos, junto
com essa amiga, deixou o interior de Minas Gerais para ganhar a vida em
uma capital europeia. Sua transição, com o uso de hormônios, foi iniciada
e sua carreira, como cabeleira, ganhou força capaz de sustentar financei-
ramente tanto a si mesma quanto a família no Brasil.
“Saí do Brasil e, quando voltei pela primeira vez para visitar a família, já
estava totalmente transformada. Nesse processo, entendi que eu era igual
a todas as pessoas, que eu conseguia ser feliz, que poderia ser mulher e
ser tocada por um homem”. Com essas palavras, Rebeca me descreveu
o processo de mudança do corpo. “É verdadeiramente o corpo que está
em jogo, ou, pelo contrário, um mais além das restrições que o corpo
sexuado impõe?”, questiona Ansermet (2108, p. 3). Parece claro que o
processo implica na mudança do “envoltório que não corresponde à sua
identidade sexual”.
O travestismo e/ou a mudança de nome pode(m) ser fundamental(is) para
o alcance do equilíbrio com o significante. No entanto, “os transexuais não
querem se limitar a incidir no significante”, destaca Ansermet (2018, p. 10).
No caso de Rebeca, a decisão foi a de não mudar o sexo por meio cirúr-
gico: “Mudei minha identidade para um nome feminino, mas não o sexo.
50 Griphos psicanálise n. 26
Imagina eu, morta, com nome de mulher, corpo de mulher e uma genitália
feminina? Como pagariam o seguro de vida para pessoas que amo?” Acho
interessante, nessa fala, que a origem de Rebeca tenha sido preservada.
Mesmo geograficamente longe, com outra identidade e outra sexualidade,
ela remete ao encontro com os seus, com o cuidado com aqueles que não
a entendiam, mas que eram sua gênese. A mudança de sexo por meio
cirúrgico implica no abandono da origem, escolha que ela refutou. Ainda,
completou que essa decisão também estava relacionada com a busca
do prazer. Nesse sentido, ela afirma: “Quando eu era adolescente, vivia
cheia de tesão, mas não me conhecia, sequer me masturbava. Não sabia
realizar o meu tesão. Não abandono o prazer que aprendi a ter com o
corpo que eu tenho”.
As percepções de Rebeca me fizeram encarar a força da palavra. Como
seria para Rebeca ser chamada pelo pronome masculino, pelo nome de
batismo? Seriam as palavras erradas, se ela mesma não entendeu, por
muito tempo, quais eram as certas? E qual seria o papel da psicanálise no
terreno nebuloso do sujeito capturado por um sexo, que não corresponde à
sua identidade? Se a maior descoberta de Freud está na força curativa da
palavra posta com afeto, em especial a palavra proferida por alguém que
sofre, como a certeza pode ser analisada? A psicanálise é, nesse aspecto,
um privilégio de ler na escuta de outro o seu próprio sofrimento. Será a
psicanálise uma ferramenta importante para a escuta dos transexuais?
Uma nota para o final
No momento em que encerro a entrevista, peço que Rebeca olhe para a
criança que ela foi. O único momento de demonstração de emoção surgiu
nas seguintes palavras: “Para a criança que eu fui.... eu a aplaudiria. Diria
que ela foi machucada, mas que não machucou ninguém”.
Eu a agradeci e finalizei a entrevista. Neste momento, acredito (apenas
acredito) que tenha acontecido alguma transferência, embora não inten-
cional, já que o ambiente era completamente distante do consultório. Por
algum motivo, Rebeca me deu detalhes mais íntimos de sua vida, como a
O tempo de se tornar mulher CORPO E SEXUALIDADE 51
relação com os pais, o primeiro e marcante emprego da sua vida, quando
tinha apenas 13 anos.
Foi quando conseguiu falar sem amarras e indicou os conflitos familiares
e a sua decisão de mudar de país: “Eu saí de casa para que a minha mãe
pudesse ser esposa. As brigas entre os dois, por minha causa, estavam
tomando uma proporção grande e sei que minha mãe, por mais que não
me compreendesse na época, optaria por ficar comigo. Saí do Brasil por
esse motivo”.
Fora do roteiro, ela não se furtou a usar uma metáfora. Ela disse que, onde
mora, os ônibus não se atrasam. Não adianta fazer sinal e nem questionar
os segundos pelos quais se perde o horário. “O mundo para o transexual
é assim. Estruturalmente excludente”. Contou-me que estava fazendo um
curso de aperfeiçoamento em sua área. Quando chegou à sala de aula, ela
sentiu alguns segundos de hesitação das pessoas – segundos esses com
os quais ela diz estar acostumada a lidar (e que me ofereceu, logo no início
da nossa conversa!). De acordo com ela, as pessoas não entendem seu
timbre de voz, algo com que ela se irrita. Disse não ter conseguido mudar
assim como o sexo, mantido como masculino no documento de identidade,
que fez com que a professora dissesse, para a turma toda, que teria que
ser modificado, que havia um erro (erro, que não se justifica dizer, porque
foi uma decisão intencional).
Por fim, Rebeca disse: “Quero viver o mundo que sou eu”. Despedimo-nos
com essa frase e com o delicado convite para ter meus cabelos arrumados
por ela, em qualquer visita, a qualquer tempo.
Referências
ANSERMET, F. Eleger o próprio sexo: usos contemporâneos da diferença
sexual. Opção Lacaniana online nova série, Ano 9, n. 25, p. 1-17, mar./jul.
2018.
HOMEM, M.; CALLIGARIS, C. Coisa de Menina? Uma conversa sobre
gênero, sexualidade, maternidade e feminismo. Campinas, SP: Coleção
Papirus Debates, 2019.
52 Griphos psicanálise n. 26
A PULSÃO QUE
DANÇA NO INTERIOR
DO KINTSUGI
Daniela Martins Laubé*
* Advogada e Mediadora de
Conflitos no percurso de formação
permanente em psicanálise junto
à Escola Freudiana de Belo
Horizonte/IEPSI
E-mail:
<[Link]@[Link]>
Foto1
RESUMO
Trata-se de breve abordagem da epistemologia freudiana e
do uso que faz da arte, explicitada a partir de considerações
sobre o desenvolvimento do conceito de pulsão.
1 Kintsugi: técnica centenária japonesa de reparar
cerâmicas quebradas com ouro, uma filosofia que
valoriza as aparentes imperfeições ou cicatrizes.
Essa peça feita em raku (cozedura de cerâmica
sucedida por sua queima) foi fotografada por Marco
Montalti. Disponível no banco de imagens Foto De
Stock.
A pulsão que dança no interior do Kintsugi CORPO E SEXUALIDADE 53
PALAVRAS-CHAVE
Epistemologia; Freud; Pulsão; Arte.
ABSTRACT
This is a brief approach to Freudian epistemology and the use it makes of art, explained
from considerations about the development of the concept of drive.
KEYWORDS
Epistemology; Freud; Drive; Art.
No meio do caminho havia a pulsão.
Havia pulsão antes mesmo do caminho...
Assim, ponho a pulsão no lugar do inevitável como fez o poeta caminhante
com a pedra indesviável.
Comecemos o caminho, a partir do final do mês de abril do ano de 1915,
quando Freud informa a Ferenczi que teria concluído capítulos sobre as
pulsões, sobre o inconsciente e sobre o recalque nos escritos em que
tinha investido.
Antes mesmo, desde 1914, no período da primeira grande guerra, num con-
texto de cegueira lógica, Freud havia decidido escrever sua Metapsicologia
para consolidar suas duas décadas de atividade clínica e prática teórica,
além de evitar que sua psicanálise se diluísse numa psicologia geral, a
saber, entre os desvios de Adler e os arquétipos de Jung, por exemplo.
Sua atitude lembra-me a simplicidade de Carolina Maria de Jesus com sua
máxima: “quando eu não tinha nada o que comer, em vez de xingar, eu
escrevia” (JESUS, 2104, p. 194). Ela, mineira que migrou para a primeira
grande favela de São Paulo, no Canindé, catadora de papel, teve seus
diários publicados: “uns vinte cadernos encardidos” (JESUS, 2014)2 e
traduzidos para 13 línguas. Escreveu sobre a fome e a favela da década de
1950 na perspectiva de dentro, como jornalista algum conseguiria, posto
que o fez morando imersa na pobreza do cenário que descrevia.
2 Prefácio de Audálio Dantas (1993).
54 Griphos psicanálise n. 26
Era tempo de guerra, de fome, de fraturas sociais, e Freud, também, se
alimentou da escrita. Em carta a Lou Salomé, informa que o livro da tal
Metapsicologia consistiria em 12 ensaios, introduzidos por ‘pulsões e seus
destinos’. Estava imerso nela, vivendo com o que descrevia. Do arcabouço
teórico que construía, pulsão era o que havia no meio do caminho.
E foi ela, a pulsão, que, de fato, do pulso de Freud, se apresentou primeiro.
Ela, que é anterior ao próprio aparelho psíquico, que é mola que o move,
exigência de trabalho, e que seria elemento de ligação entre o corpo e
a psiquê. Tão relevante (ou até mais) quanto o desvelo do inconsciente
como maestro da livre associação e depositário do conteúdo recalcado:
ela, que, desde antes desse momento, já havia se inscrito nos escritos
psicanalíticos de Freud.
Isso se pode afirmar, porque foi redigido, em 1895, o artigo “Projeto para
uma Psicologia científica”, endereçado a Fliess, no qual a primeira formu-
lação da pulsão, como excitação interna diante da qual o aparelho psíquico
é sem defesa, fica marcada. A pulsão surge descrita como um estímulo
inescapável nesse trabalho, que foi publicado apenas postumamente. É tão
inevitável como a certeza da fragmentação da cerâmica, que é empurrada
em queda livre.
Enquanto em vida, a primeira apresentação do conceito de pulsão por Freud
se deu em 1905, nos “Três ensaios sobre sexualidade”, sob o cenário do
estudo da sexualidade infantil e das perversões. Três elementos a com-
poriam: fonte, meta e objeto. Apenas em 1915, foi introduzido o quarto: a
pressão (drang).
A posteriori, em 1920, o dualismo pulsional foi reformulado pela introdução
do conceito de pulsão de morte. Essa mola pulsional vem se consolidando
como atuante em regiões obscuras, limítrofes da sexualidade, fronteiriças,
de hiato entre o biológico e o psíquico. Ainda em 1932, em carta trocada
com Einstein refletindo o porquê da guerra, Freud fala da “dificuldade de
isolar ambas as pulsões nas suas manifestações” (FREUD; EINSTEN,
A pulsão que dança no interior do Kintsugi CORPO E SEXUALIDADE 55
2017, p. 70), dizendo que isso dificultou por muito tempo o reconhecimento
de sua existência.
Noutras palavras: aquela, perante a qual o aparelho psíquico é sem defesa,
é tanto inegável quanto movediça diante dos ímpetos de explicação cien-
tífica. Mais fácil, Carolina Maria de Jesus descrever a fome, frente a qual
usava o pouco que tinha para se defender. Em comum com a pobreza da
favelada, Freud, quando diante da dificuldade, também escrevia.
Não à toa que, encarando com rigor a falta de sentido que rasura a subsun-
ção a uma metodologia científica tradicional, Freud recorre aos olhos dos
poetas e mitólogos, ouro da arte, para quem essa mesma falta de sentido
se faz trivial: “A doutrina dos Triebes é, por assim dizer, nossa mitologia. Os
Triebes são entes míticos, grandiosos em sua indeterminação” (IANNINI,
2021, p. 121-122), afirma Freud.
Na formulação da psicanálise, Freud avança, porque tolera uma parcial
indeterminação no conceito da pulsão, algo para além do biológico abar-
cado pelas ciências naturais, algo que se emaranha na fantasia, valoriza
as ranhuras e as sustenta com veios de arte.
No enredo entre a teoria do conhecimento (cunhada epistemologia) e o
método científico, Freud mostra seu rigor apartado da rigidez, que poderia
barrar o avanço da psicanálise. Aceita trabalhar com ideias ditas abstratas,
com a importância do fato clínico, linguístico e discursivo, ocorrido intramu-
ros do consultório, na trilha entre a fala do paciente e a escuta do analista.
Eis o ponto de partida e de chegada da teorização psicanalítica, em muito
distinto do empirismo clássico e de análises estatísticas laboratoriais, que
eram palco de metodologias científicas formais.
A pulsão não dança para ser vista, contemplada e desvendada, em am-
biente controlado e replicável, passível de extração de dados quantificá-
veis. Trocando em miúdos: não se pode colocá-la em um tubo de ensaio e
anotar números acerca de seu comportamento diante de experimentações
protocolares.
56 Griphos psicanálise n. 26
Mas, se os recursos usados por Freud são pouco recomendados do ponto
de vista formal, também se deve afirmar que ciência não se confunde com
metodologia científica; tampouco, nesta se resume. Para adiante: não se
descaracteriza a afeição científica da psicanálise pelo apelo a um algo além
da própria ciência positiva, algo que Freud busca na poesia e na mitologia.
Proponho uma pequena digressão, que nos faz voltar a Carolina Maria de
Jesus: a autora apropriou-se da linguagem de modo realista muitas vezes
contrário à gramática, com grafias e acentuações tidas por erradas perante
a norma formal da língua. Isso se deu pela pouca oportunidade de acesso
à cultura e pela peculiaridade de um processo de letramento que escapa e
se mostra, sem ser explicitado por qualquer explicação, na simples ‘escu-
ta’ de (para além) das palavras que escreveu: “[...] Nas prisões os negros
eram os bodes espiatorios. Mas os brancos agora são mais cultos. E não
nos trata com despreso. Que Deus ilumine os brancos para que os pretos
sejam feliz (sic)” (JESUS, 2014, p. 30).
Não resta dúvida de que o discurso vem de sujeito inserido no ambiente
da favela de onde exsurge o texto (inteiramente entendido, apesar das
rachaduras ante a norma culta).
A teoria das pulsões é marcada por esse caráter híbrido (ciência-arte).
Por ontológica que se mostra, tanto mais desobediente aos cânones me-
todológicos será. A imagem é a da cerâmica trivial, que recorre ao metal
precioso, a fim de parar em pé, estruturar-se, de modo que o resultado é
de beleza ímpar (kintsugi).
É da própria natureza daquilo que Freud propõe teorizar que surge a
demanda por uma epistemologia, que acomode as fendas. Na verdade, a
existência destas tem muito a dizer.
O objeto da psicanálise não é o comportamento passível de observação
empírica. Para lidar com o ‘umbigo do sonho’, com das Ding, com o ‘furo’,
Freud recorre à arte (sublimando sua própria pulsão numa metamensagem
do que seria sua Metapsicologia... quem sabe?).
A pulsão que dança no interior do Kintsugi CORPO E SEXUALIDADE 57
Finalizo esta reflexão (apenas na instância do escrito) em posição solidária
à de Freud: tolerando uma certa dose de indeterminações, que lanço no
caldeirão da bruxa Metapsicologia, conforme ele mesmo a apelidou.
E, seguindo o mapa que tenta determinar esta intersecção entre a racio-
nalidade da Psicanálise (com fendas preenchidas pela arte como o ouro
que restaura rachaduras em kintsugis) e a racionalidade científica, recorro
ao poeta Paul Auster. Estando diante de um espetáculo de dança e da
ausência de palavras, sua matéria-prima, contemplando gestos rítmicos
que se faziam significantes estruturando linguagem corporal, afirmou:
No reino do olho nu nada acontece que não tenha seu começo e seu
fim. E, no entanto, em lugar nenhum podemos encontrar o lugar ou o
momento em que podemos dizer, sem sombra de dúvida, que é aqui
que começa, ou é aqui que acaba. Para alguns de nós, começou antes
do começo, e para outros de nós vai continuar acontecendo depois do
fim. Onde encontrar? Não procure. Ou está ou não está ali (AUSTER,
2013, p. 323).
Referências
AUSTER, Paul. Espaços em branco. In: ______. Paul Auster [todos os
poemas]. Tradução de Caetano W. Galindo. São Paulo: Companhia das
Letras, 2013.
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do mundo. Tradução de Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 2017.
IANNINI, Gilson. Epistemologia da pulsão: fantasia, ciência, mito. In:
FREUD, S. Obras Incompletas de Sigmund Freud: As pulsões e seus
destinos. Tradução de Pedro Heliodoro Tavares. Belo Horizonte: Autêntica,
2021. p. 91-133.
JESUS, C. M. de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. 10. ed. São
Paulo: Ática, 2014.
58 Griphos psicanálise n. 26
UM CORPO
DEVASTADO: O
QUE PODE UMA
ANÁLISE FRENTE
À DEVASTAÇÃO
FEMININA?
Diana Lídia da Silva*
RESUMO * Psicanalista
Mestre em Psicologia
O presente artigo pretende abordar a questão da devasta-
E-mail:
ção feminina, suas implicações e efeitos no corpo. A clínica
<diana_lidiasilva@[Link]>
nos traz exemplos de mulheres, cujos corpos são marcados
por sintomas persistentes, fonte de sofrimento. São sujeitos
que se veem impossibilitados de colocar o corpo nas trocas
simbólicas, seja nas relações amorosas, profissionais ou na
maternidade. A partir desse real trazido pela clínica, propõe-
-se a seguinte questão: o que pode uma análise diante da
devastação feminina?
PALAVRAS-CHAVE
Devastação; Feminino; Corpo.
ABSTRACT
The present article intends to discuss the theme of feminine
devastation, its implications and effects on the body. The
psychoanalytical clinic brings us examples of women whose
Um corpo devastado CORPO E SEXUALIDADE 59
bodies are marked by persistent symptoms, source of suffering. These subjects find
themselves prevented from putting themselves in symbolic exchanges, be it in romantic
or professional relationships, or in maternity. Based on this real brought by the clinic, the
present work poses a question: what can an analysis do in face of feminine devastation?
KEYWORDS
Devastation; Feminine; Body.
Introdução
A prática clínica nos convoca ao confronto com o real, que insiste, que retor-
na. Nas análises de mulheres, a devastação é um elemento que se repete,
fazendo sua aparição enlaçada à transferência e podendo ser obstáculo
ao tratamento. São mulheres que trazem no corpo sintomas persistentes
e nas relações uma impossibilidade; como nos diz Brousse (2004), uma
dificuldade de consentir em colocar o corpo nas trocas simbólicas. O que
pode uma análise diante disso? É esta a questão norteadora do presente
trabalho. Nossa aposta é de que o amor transferencial ofereça um recurso
através da linguagem, que possibilite construir uma barreira frente ao gozo
materno, que, como vemos na clínica, pode assumir caráter mortífero para
a mulher. Apostamos na escuta como meio que possa permitir ao sujeito
alojar seu desejo, dar-lhe um lugar digno, fazendo frente ao não lugar
marcante nas relações de devastação.
A devastação enquanto traço constitutivo da mulher
O termo devastação nos remete à terra que não dá frutos; depredada,
resta deserta, desvitalizada. Em psicanálise, o termo aparece em Lacan
(1973, p. 465), em seu texto “O aturdito”, como constitutiva da relação entre
a menina e a mãe, “de quem, como mulher, ela realmente parece esperar
mais substância que do pai”. Para Lacan, o complexo de Édipo, tal como
Freud o desenvolve, apresenta a mulher como ‘peixe na água’ por não
estar submetida à ameaça de castração. Lacan (1973, p. 465) observa,
no entanto, que a elaboração freudiana “contrasta dolorosamente com a
realidade de devastação que constitui, na mulher, em sua maioria, a relação
60 Griphos psicanálise n. 26
com a mãe”. Aqui, Lacan já nos adverte de que a devastação é um traço
da constituição da mulher, o que terá implicações para ela e para a clínica.
Freud, também, aborda a relação entre a menina e a mãe e seus desdo-
bramentos. Ao final de sua obra, nos artigos “Sexualidade feminina” (1931)
e “Feminilidade” (1933), ele reconhece a importância da fase pré-edipiana
e do vínculo com a mãe que aí predomina; questão que, segundo ele, havia
sido negligenciada até então. A leitura empreendida por Freud acerca des-
sa relação culmina na inveja do pênis. A menina atribui à mãe a ausência
do pênis e não a perdoa por tê-la trazido ao mundo tão precariamente
equipada. Segundo Drummond (2011), Freud faz a sexualidade feminina
derivar da inveja do pênis. Uma das consequências disso é a devastação,
que situa a mãe como responsável pela falta da filha e como aquela que
supostamente goza disso.
Lacan retoma os elementos destacados por Freud, mas avança para além
da questão da relação mãe-criança enquanto dual. A mãe é tomada, por
Lacan, como Outro primordial; portanto, a relação de que se trata em seu
ensino é aquela da menina com o que ela identifica enquanto desejo do
Outro; ou seja, desejo da mãe. O lugar encontrado pelo sujeito no desejo da
mãe será a medida do lugar que ele ocupará diante do Outro. É a entrada
do pai – isto é, daquele que opera a função paterna – como terceiro nessa
relação, que permite à criança significar o desejo materno e se separar do
lugar de objeto. Para que haja essa separação, no entanto, a mãe precisa
se reconhecer castrada. É preciso que ela tenha uma relação com sua
falta enquanto mulher, com algo que aponte para sua condição de sujeito
dividido, desejante. Quando isso não ocorre, a mãe aparece como Outro
completo, restando à criança o lugar de objeto fetiche ou dejeto.
Segundo Brousse (2004), a devastação está, em todos os casos, ligada
a uma troca fálica impossível na medida em que a mãe permanece como
Outro real. O sujeito devastado é despossuído de lugar, reduzido ao silêncio,
provido de um corpo desfalicizado, do qual pode ser privado, tendo em
vista o estatuto do Outro materno, já que, como nos diz a autora, “a mãe é
mesmo uma grande ladra de corpos” (BROUSSE, 2000, online). A clínica
Um corpo devastado CORPO E SEXUALIDADE 61
nos traz exemplos de mulheres que se veem impedidas de se colocar na
relação com o outro, seja nas relações amorosas, na maternidade ou nas
relações profissionais. São relações nas quais o outro encarna em deter-
minado momento a figura que devasta, relançando o sujeito a uma falta de
lugar. Há, nesse momento, um vacilo dos semblantes e o sujeito devastado
pode experimentar no corpo esse ‘roubo’. São sintomas como dores que
acometem o corpo todo, sensações de despersonalização e desvitalização.
Um corpo devastado
Para a psicanálise, o corpo é uma construção que não se limita às funções
fisiológicas e não coincide com o organismo. Trata-se de uma construção
atravessada pela linguagem, marcada pelas impressões deixadas pelo
Outro através dos ditos, olhares e toques. Uma das hipóteses de Brousse
(2004) é de que a devastação tenha relação com a maneira singular com
que a linguagem despontou em um sujeito; ou seja, ela toca os confins da
marcação simbólica. Trata-se da marcação do corpo por um significante –
um insulto, uma crítica, um gesto –, algo que se fixa e que rebaixa o sujeito
ao lugar de objeto do Outro, tendo como consequência a crença em um
Outro não castrado, onipotente.
Brousse (2004) articula, ainda, a devastação à ausência do significante da
mulher como um dos efeitos da estrutura do feminino, qual seja, de que
resta sempre um quantum de gozo não tratado pela linguagem, apontan-
do para um sem-limite. Essa ausência é vislumbrada pelo sujeito ao ter
contato com o que, da mãe, não se deixava reduzir ao desejo (BROUSSE,
2004). Constata-se, dessa forma, que esse é mais um agravante para a
relação entre a menina e a mãe, uma vez que a mãe, também, está às
voltas com esse outro gozo, que pode assumir caráter nefasto em deter-
minadas condições, nas quais não há limite para o que ela pode oferecer
ao Outro, podendo, inclusive, oferecer o próprio corpo sob pena de cair
como objeto abandonado.
É possível perceber que o corpo está em questão na devastação em todas
as suas vertentes. Apoiados na fala das analisantes, constatamos que o
62 Griphos psicanálise n. 26
corpo desses sujeitos devastados parece pertencer a esse Outro onipoten-
te. Seus discursos trazem a queixa diante da impossibilidade de sustentar
uma relação amorosa ou de emprestar o corpo à maternidade; mostram-
-se enredados nos imperativos maternos e na lógica de tudo fazer, a fim
de atender ao outro materno. De acordo com Fuentes (2012), o estrago
da devastação se faz presente na recusa de parcerias, manifestando-se
como impossibilidade de sustentar a posição de objeto desejado e, acres-
centamos, de sujeito desejante.
Conclusão
A fim de concluir, retomamos nossa questão inicial: o que pode uma
análise frente à devastação feminina? O ato analítico, sustentado pela
transferência, permite o questionamento do Outro, possibilitando que este
apareça como barrado. Ao questionar o Outro, o sujeito pode, também,
se descolar dele, pode se separar de seu gozo. A escuta de mulheres em
análise nos mostra que falar possibilita localizar o ponto que devasta na
mãe, para, então, buscar meios de separar-se dele. Quanto ao analista,
Lacan (1967-1968) nos adverte de que ele opera como objeto a, fazendo um
semblante, que ele sabe que, em um dado momento, deve cair. Ao operar
do lugar de objeto a, lugar vazio, o analista permite que os elementos do
discurso girem. Esse é o trabalho da transferência (RODRIGUES, 2017).
É nesse ponto que apostamos no amor de transferência como aquele que
faz exceção a essa outra face do amor que a devastação escancara. Se
a devastação é o não-ter-um-lugar e o não-ter-um-corpo frente ao Outro,
o amor de transferência é aquele que, suportado pelo analista, oferece a
possibilidade de um confronto com a falta – a falta no Outro e, consequen-
temente, a própria.
No seminário intitulado “A lógica do fantasma”, Lacan (1966-1967) afirma
que o Outro é o corpo, uma vez que é o Outro que imprime o corpo do sujeito
com as marcas que o subjetivam. São impressões que ficam e que podem
se tornar pontos de fixação, de sintoma e de sofrimento. O trabalho de uma
análise consiste em mobilizar tais fixações, descobrindo-as, fazendo vacilar
os semblantes, para que o analisante possa construir outros nomes para
Um corpo devastado CORPO E SEXUALIDADE 63
si. Dessa forma, a análise mobiliza o desejo e, consequentemente, o corpo
do sujeito, vivificando-o. Em se tratando deste outro gozo, gozo feminino,
acreditamos que a análise pode permitir ao sujeito fazer um uso desse
vazio de significante, que aponte para a criação, e não necessariamente
para o vazio como abismo.
Referências
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FREUD, S. A feminilidade. In: ______. Obras psicológicas completas de
Sigmund Freud, 22 (1933). Rio de Janeiro: Imago, 1996b. p. 113-134.
FUENTES, M. J. S. As mulheres e seus nomes, Lacan e o feminino. Belo
Horizonte: Editora Scriptum, 2012.
LACAN, J. O Seminário, livro 14: A lógica do fantasma. Recife: Centro de
Estudos Freudianos, 1966-1967.
LACAN, J. O Seminário, livro 15: O ato analítico (versão brasileira não
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LACAN, J. O aturdito. In: ______. Outros Escritos (1973). Rio de Janeiro:
J. Zahar, 2003. p. 448-497.
RODRIGUES, G. V. No começo era o ato. Uma leitura do seminário O Ato
Psicanalítico, livro 15, de Jacques Lacan. Belo Horizonte: Artesã, 2017.
64 Griphos psicanálise n. 26
DA HOLÓFRASE
AO SINTOMA:
UM CAMINHO
POSSÍVEL PARA
O TRATAMENTO
DOS FENÔMENOS
PSICOSSOMÁTICOS?
Lívia de Melo Galdino*
RESUMO Psicóloga, psicanalista.
Especialista em psicanálise com
O presente artigo propõe pensar e discutir um caminho
crianças e adolescentes pelo IEC-
possível para a direção do tratamento dos fenômenos psi-
PUC/Minas. Frequentadora dos
cossomáticos na clínica psicanalítica.
espaços de transmissão da EFBH/
PALAVRAS-CHAVE Iepsi
Fenômeno psicossomático; Sintoma; Clínica; Psicanálise. E-mail:
<liviamgaldino@[Link] >
ABSTRACT
Telefone: (31) 99123-8140
This article provides a reflection and it opens to think
and discuss a possible way for the treatment direction of
psychosomatic phenomenon in the psychoanalytic clinic.
KEYWORDS
Psychosomatic phenomenon; Symptom; Clinic; Psychoanalysis.
Da holófrase ao sintoma CORPO E SEXUALIDADE 65
Quando falamos do corpo em psicanálise, o que se coloca em questão
não é aquilo que podemos observar sobre esse corpo, mas sim aquilo que
o sujeito nos diz sobre ele. Se o sujeito em psicanálise é um sujeito de
linguagem, é ao falar que ele se presentifica; é a partir dessa fala que ele
adquire forma e vida. O corpo é do sujeito que d’Isso fala. E o que o sujeito
fala implica o que ele fala – os significantes que usa e as associações que
faz – e, também, os efeitos dessa fala, aquilo que dela deixa marcas no
corpo. Toda fala é produtiva e o que ela produz, como todo discurso, é gozo.
Lacan, em seu Lituraterra (1971/2003), nos traz a noção de corpo como
litoral em oposição à noção de fronteira. Nessa metáfora, ele nos oferece
a imagem das diferentes paisagens que veremos ao sobrevoar uma re-
gião litorânea: em determinados momentos, veremos praias; em outros,
falésias, rochas, o mar. Há uma diferença, uma descontinuidade radical.
Nesse contexto, podemos pensar também o que há de litoral entre o que
o sujeito fala e aquilo que é da ordem do impossível de se dizer, uma vez
que significante e gozo se distinguem ao mesmo tempo em que dialetizam
como em uma banda de Moebius.
Portanto, se o corpo do ser falante é interesse da psicanálise, o seu adoeci-
mento também o é. Aqui, irei tratar de um tipo específico de adoecer, que é
tratado como um fenômeno – o chamado FPS (fenômeno psicossomático).
Em primeiro lugar, é importante fazer uma diferença entre os fenômenos
dessa ordem e o sintoma. Diferentes desse último, as manifestações psicos-
somáticas não revelam o desejo inconsciente. Elas são manifestações do
real, ponto de angústia sobre o qual o indivíduo não possui nenhum saber.
Enquanto o sintoma se inscreve na dimensão de metáfora, dentro da
cadeia de significantes que desliza de acordo com a significação fálica
e se endereça a alguém, o FPS inscreve-se na dimensão de holófrase,
fora de qualquer significação, sem nenhum endereçamento. [...] ele
acarreta lesões com as quais o sujeito não se vê implicado e às quais
não atribui sentido ou qualquer tipo de interpretação. Ocorre, assim, um
66 Griphos psicanálise n. 26
contornamento do simbólico e algo do real faz incidência direta sobre
o corpo (FONSECA, 2007, p. 231).
A dimensão da holófrase, termo introduzido por Lacan (1964/1998a) em
seu Seminário, livro 11, se refere à petrificação do primeiro par da cadeia
significante (S1-S2). Esse congelamento, diferentemente do que acontece
nas psicoses e debilidades, nos FPS ocorre de forma pontual, impossibi-
litando não todo o deslizamento da cadeia, mas fazendo um ponto duro
em determinados momentos do discurso do sujeito.
A holófrase é, portanto, algo informulável para o sujeito, que deixa não
interrogável o desejo do Outro, Outro que se apresenta como não barra-
do, não desejante. O ser do sujeito fica submetido ao discurso do Outro,
sentindo sobre si a imposição das significações confusas desse discurso.
A impossibilidade de capturar o desejo do Outro implica a impossibili-
dade de surgir como sujeito desejante. Assim, o sujeito não se afaniza,
não se separa, ficando alienado a esse Outro não barrado. É através
das operações lógicas de alienação e separação que se faz possível a
instauração do sujeito do inconsciente. Elas se repetem ao longo da vida
do indivíduo, em suas relações, como uma pulsação contínua entre os
campos do sujeito e do Outro.
Nos fenômenos psicossomáticos, a divisão do sujeito não é aciona-
da. A razão é que a petrificação (de um ponto da cadeia significante)
não deixa intervalo entre os significantes, nem entre S1 e S2, como
na holófrase. O Outro não é barrado. Não somente o sujeito não está
representado por um significante para outro significante, mas, desde
que não há abertura dialética do desejo do Outro, a operação separação
também não pode produzir-se. O ser do sujeito fica então submetido
ao discurso do outro, do qual ele não pode se esquivar esvaecendo-se
como sujeito dividido pelo significante (VALLAS, 1990, p. 81).
Na impossibilidade de ser representado pelos intervalos da cadeia signi-
ficante e de compreender o desejo do Outro, o sujeito faz, no corpo, uma
Da holófrase ao sintoma CORPO E SEXUALIDADE 67
marca. A lesão do FPS aponta para aquilo que tem uma marca do Outro,
esse Outro que invade. Aquilo que não pôde advir como uma elaboração
simbólica retorna no real na forma de uma escrita no corpo, escrita de
real, que produz condensação de gozo: uma saída possível diante da
desorganização psíquica que esta invasão do Outro traz ao ser do sujeito.
Qual é a espécie de gozo que encontramos no psicossomático? Se eu
evoquei uma metáfora como a do congelado, é porque existe efetiva-
mente essa espécie de fixação. [...] é por esse viés, pela revelação do
gozo específico que há na sua fixação que é preciso sempre abordar
o psicossomático. (LACAN, 1975/1988b).
Aqui, irei abordar um fragmento clínico, no qual, a partir do olhar do analista,
o sujeito pode formular algo sobre essa marca que traz no corpo.
A., 22 anos, busca análise por se sentir muito perdida em relação à sua vida
profissional. O interessante desse caso é pontuar que, já nesse momento
inicial, a queixa trazida por ela é bem diferente do resto do seu discurso:
uma jovem determinada, dedicada a dar conta daquilo que quer, empenha-
da no trabalho e já com sonhos e projetos para a sua carreira profissional.
Fica evidente, em seu discurso, certa submissão ao discurso imperativo
dos pais em relação àquilo que ela deve ser: uma filha dedicada a cuidar
dos dois. Trabalhar, então, para eles, com tanto afinco e dedicação, é
inconcebível. Vinda de uma família muito rica, A. deve passar seus dias
em companhia da mãe, passeando em shoppings, ou à disposição do pai,
para realizar qualquer tipo de demanda dele (ir ao banco, marcar consultas,
resolver pendências da casa).
Certo dia, ela chega ao consultório com uma blusa sem manga e é aí que
observo as marcas em seu corpo: grandes manchas brancas nos ombros
e braços. Quando questiono o que é, ela diz do diagnóstico de dermatite
atópica recente. Perguntada sobre isso, ela diz que a dermatite surge no
início do seu percurso profissional, quando, ao falar com o pai que tinha
sido aceita no curso escolhido em uma universidade privada, ele disse
68 Griphos psicanálise n. 26
que não iria pagar o curso, que ela teria que fazer o vestibular para a uni-
versidade pública. Surpreendida por essa fala do pai, que a impossibilita,
nesse momento, de trilhar o caminho desejado, vem a primeira crise. As
que se seguem vêm sempre acompanhadas desse mesmo traço: quando
consegue avançar profissionalmente há algo na fala do pai que interrompe
a continuidade das suas realizações, ao que ela responde com o silêncio
e com as lesões em seu corpo.
É imprescindível pontuar que essa construção de uma associação entre os
arroubos do pai e o aparecimento da dermatite foi feita em seu trabalho de
análise. Ao trazer para a transferência a inscrição desse gozo no corpo, o
olhar do analista convoca o sujeito a fazer um deslizamento desse ponto
duro, abrindo, dessa forma, a possibilidade do sujeito de falar e elaborar
algo sobre o seu adoecimento.
Vallas (2004, p. 124) nos propõe que a saída desse ponto de fixação é
“deixar o sujeito dizer, deixar ir de maneira refletida o livre jogo de sua an-
gústia, de modo que possa se produzir um distanciamento, uma flutuação
[...]. Pouco a pouco ele vai ganhar sentido para ele”.
Portanto, faz-se uma aposta de que os FPS sejam permeáveis à ação das
palavras, em que uma construção de um sentido a esse gozo específico
possa abrir espaço operando uma escansão. A partir daí, esses fenômenos
poderiam se converter em sintomas, sobre os quais se poderia intervir na
transferência, abrindo caminho àquilo que uma análise visa: o sujeito do
inconsciente.
Bibliografia
DUNKER, C. (Org.). A pele como litoral: fenômeno psicossomático e
psicanálise. São Paulo: Zagodoni, 2021.
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Edição standard das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 7.
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Outro e a criança, Rio de Janeiro: Escola da Letra Freudiana, Ano 23, n.
33, 2004.
70 Griphos psicanálise n. 26
DA SUTIL
SONORIDADE DO
CORPO
Maria Barcelos de Carvalho Coelho*
RESUMO * Psicanalista e membro da
Escola Freudiana de Belo
Este trabalho procura pensar a dimensão sonora do corpo em
Horizonte/iepsi
uma escuta analítica, o que seria o corpo para a psicanálise,
E-mail:
onde se articulam – no organismo vivo – a inscrição sintomá-
<mariabarcelosc@[Link]>
tica e a atividade pulsional. A questão se estende às reviradas
da demanda quando o sujeito entra no circuito do desejo.
PALAVRAS-CHAVE
Corpo; Sintoma; Pulsão; Ressonância; Restos; Substância.
ABSTRACT
This work seeks to think about the sound dimension of
the body in an analytical listening, what would the body
be for psychoanalysis, where – in the living organism –
the symptomatic inscription and the pulsional activity are
articulated. The question extends to the reversals of demand
when the subject enters the circuit of desire.
KEYWORDS
Body; Symptom; Drive; Resonance; Remains; Substance.
Bem atrás do pensamento tenho um fundo
musical. Mas ainda bem atrás há um coração
batendo (LISPECTOR, 1998, p. 42).
Da sutil sonoridade do corpo CORPO E SEXUALIDADE 71
“O corpo fala com sua pulsão” (SOLER, 2019, p. 83). Esse axioma transcrito
de Lacan por Colette Soler nos interroga: o que seria falar com o corpo
além do sintoma? Considerando que o sintoma é decifrável, que nele há
uma estrutura de mensagem, a dimensão corporal que se quer apreender
se estende a esses dois campos. Cadenciada pelo ritmo do organismo vivo,
ela refletiria, em ato, a atividade pulsional. Força constante, a pulsão, ao
se repetir, restaura, pelas bordas do corpo, os objetos que se perderam –
olhar, voz, seio e excremento. Esses restos, cifras de gozo transcritas em
a – objetos mais-de-gozar –, fazem ressoar no corpo as perdas originais.
Recorta-se, neste trabalho, o objeto voz replicado na potência de uma fala.
“Meu corpo, se antes gritava, agora sussurra”. É por essa vibração de
sons articulados que ouço, pela voz de uma jovem analisante, o gozo que
transparece em seu dizer. Referia-se ela às suas dores, que, aos poucos,
iam cedendo, livrando-a de uma endometriose. O sintoma, que trazia os
signos de seu sofrimento, ia encontrando outras formas de satisfação, onde
a palavra era tomada por uma sonoridade até então inaudita. O corpo, que
se libertava da dor, passava a sussurrar das profundezas do ser – útero
(hístero freudiano), abrigo da vida, onde também o desejo pulsa.
Mas, se os restos pulsionais se apresentaram na voz da jovem, fizeram-se,
também, ecoar nos dizeres de uma demanda ‘adormecida’, estrutural, onde
o Outro deixara suas marcas: “É pela demanda que um dizer faz eco no
corpo, não efeito, mas eco, reenvio de som. [...] O reenvio do dizer da de-
manda não é nada mais que a atividade pulsional [...] (SOLER, 2019, p. 87).
Tesouro do significante, o Outro pulsa no mesmo ritmo das reviradas his-
tóricas do sujeito. No percurso da análise em questão, na dialética entre
o Outro e o surgimento do sujeito, parece ter havido, nesse percurso, um
ponto de basta. O sujeito diz não ao determinismo da estrutura e dá um
passo a mais. É onde o desejo se mostra e circunscreve um procedimento
ético. Nesse sentido, podemos pensar que, nessas reviradas, retornos
e cortes, a analisante pagou um preço. Ela cede de seu ser corpóreo o
gozo do sintoma. Vale lembrar que, para Lacan (1959-1960/1997), entrar
72 Griphos psicanálise n. 26
na dialética do desejo pressupõe uma Outra incorporação. É quando o
sujeito é lançado na cadeia significante, no deslizamento metonímico de
seu ser e de seu não ser.
Não há outro bem senão o que pode servir para pagar o preço ao acesso
ao desejo, na medida em que esse desejo, nós o definimos alhures
como a metonímia de nosso ser. O arroio onde se situa o desejo não é
apenas a modulação da cadeia significante, mas o que corre por baixo,
que é, propriamente falando, o que somos e também o que não somos,
nosso ser e nosso não ser [...] (LACAN, 1959-1960/1997, p. 385).
Ao se reconstituir como sujeito de seu próprio desejo, a jovem parece en-
contrar seu tom, sua música, onde o corpo se fez ouvir: do grito ao sussurro.
Não podemos deixar de ver nesse processo a ressonância de uma língua
mais primitiva – Alíngua –, irrepresentável, mas que, com seus rastros sono-
ros, também habita o corpo. Isso significa que ter um corpo é apreendê-lo
em sua organicidade viva, sulcada de afetos. Atravessado pela gramática
pulsional, o sujeito do inconsciente se escreve no corpo arrastando com ele
as ‘ranhuras’ de lalangue. É ainda Soler (2019, p. 261-262) quem nos diz:
[...] É alíngua conjugada, casada com o corpo enquanto substância. [...]
é o corpo enquanto substância gozante, marcável de algum modo, que
permite ao significante de alíngua, significante como pura diferença,
passar a signo de um sujeito. [...].
Sobre a substância gozante e seu rastro no discurso religioso
No Seminário Encore, Lacan interpela o corpo pelo efeito da linguagem
interrogando até que ponto o ser falante é tomado pela noção de uma
substância, que fundamenta o que fala e o que diz: “[...] Um corpo só goza
dele mesmo, ele goza bem ou mal. [...] e ele só goza por corporificá-lo
de modo significante” (VIDAL, 2019, p. 158). Decorre que a incorporação
pelo significante faz o corpo desvanecer, pois supõe a dessubstanciação
simbólica para inscrevê-lo numa nova lógica de onde, mais tarde, Lacan
Da sutil sonoridade do corpo CORPO E SEXUALIDADE 73
formalizaria a escrita do nó borromeano. Sustentado através de uma tripli-
cidade, o nó consiste no trançamento entre Real, Simbólico e Imaginário,
no qual se lê a sutileza do corpo da psicanálise, tornando-o passível de ser
abordado numa escuta analítica. Por essa dimensão topológica, o corpo
se mostra “[...] de uma consistência própria do imaginário, do buraco em
que o simbólico se sustenta e da ex-sistência do real [...]” (VIDAL, 2019,
p. 157-158).
A proposta de Lacan, de alguma forma, promove uma subversão da lógica
sustentada pelo pensamento filosófico religioso, em que o simbólico se
impõe e sustenta o dogma da fé. É por onde Eduardo Vidal (2019, p. 141)
lê o que ele chamará “uma heresia” – discurso em que a psicanálise se
apresenta em oposição ao discurso religioso – pela força e pelo trabalho
da pulsão sobre o recalque, onde outra verdade pulsa velada. A escrita bor-
romeana vem, nesse sentido, ‘desarrumar’ essa cosmovisão impregnada
pela ideia de uma substância, que obtura o real e fundamenta a crença em
uma instância superior – o Ser Supremo – com seus ‘mistérios gozosos’.
O discurso religioso, que se sustenta também pela palavra escrita – sagra-
das escrituras –, vivifica-se através de um rastro herdado do pensamento
estoico em que o corpo, como ‘acontecimento’, ressoa na mescla corpo e
alma, tal como se dá no ritual da eucaristia. Símbolo da incorporação de
Deus/Cristo, a ‘passagem ritualística’ se dá pela interpenetração de ele-
mentos, ato que sacraliza o dogma: Deus, o logos ordenador do mundo,
se inscreve como a razão humana e se faz o logos encarnado. Tornam-se
corpo, o pão, e vinho, o sangue, anunciando o mistério da transubstan-
ciação: vinho – sangue; carne – logos; pneuma – alma. Herança estoica,
o pneuma – sopro divino – estende-se como rastro de gozo animando a
palavra em algumas escritas poéticas, tais como observamos em Água
viva, de Clarice Lispector (1998). No fulgor de capturar um instante, parece
ecoar nas palavras da escritora o mesmo sopro de vida.
É interessante observarmos que a psicanálise, ao questionar a fé religiosa,
não abandona completamente um certo mistério transcendente. Ela lê, no
74 Griphos psicanálise n. 26
lugar da alma, a ex-sistência do inconsciente. A partir deste não todo lugar,
um gozo Outro, muito próximo ao gozo feminino, se escreve transubstan-
ciado em corpo/letra-escritura. E a própria Clarice Lispector (1998, p. 21)
o incorpora quando diz: “Transfiguro a realidade e então outra realidade,
sonhadora e sonâmbula, me cria”.
Referências
LACAN, J. O Seminário, livro 7: a ética da psicanálise (1959-1960). Rio de
Janeiro: Zahar, 1997.
LISPECTOR, C. Água Viva. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
SOLER, C. O-em corpo do sujeito: 2001/2002. Salvador: Ágalma, 2019.
VIDAL, E. Substância gozante, uma heresia de Lacan. Revista da Escola
Letra Freudiana, Rio de Janeiro, Ano 37, n. 51, p. 141-160, 2019.
Da sutil sonoridade do corpo CORPO E SEXUALIDADE 75
O MÍNIMO PARA
VIVER: DO SINTOMA
AO SUJEITO NA
ANOREXIA*
Maria Clara Carneiro Santiago1
RESUMO 1 Psicóloga e psicanalista.
Participante do Espaço de
A ênfase na posição subjetiva, imanente à psicanálise,
Transmissão da EFBH/iepsi
reatualiza, a partir da condição anoréxica, um esforço de
Mestre em psicologia pela PUC
contextualização do sintoma dentro da história particular
Minas
do sujeito, o qual passa a ser o centro da ‘doença’, fazendo
E-mail:
dela seu enigma. Essa ótica marca profunda diferença com
<maclaracs@[Link]>
relação à tendência do discurso social contemporâneo – que
opera na linha da universalidade patológica desincorporada
da singularidade do um a um. Assim, por meio da análise
do filme O mínimo para viver (título original: To the Bone), o
presente trabalho pensa o percurso da personagem Ellen e
sua recusa anoréxica obstinada, situados no campo de um
gozo pleno difícil de ser renunciado, pela via do advento do
sujeito do inconsciente, apostando que este pode fazer de
sua verdade algo diferente e inventivo.
PALAVRAS-CHAVE
Anorexia; Sintoma; Família; Gozo; Desejo.
* Artigo fruto das discussões do grupo Atos e Laços (Escola
Freudiana de Belo Horizonte/iepsi), realizadas durante o
ano de 2020. Trabalho apresentado na Jornada EFBH/
iepsi em dezembro do mesmo ano.
76 Griphos psicanálise n. 26
ABSTRACT
The emphasis on the subjective position, immanent to psychoanalysis, re-updates,
based on the anorexic condition, an effort to contextualize the symptom within the
particular history of the subject, which becomes the center of the ‘disease’, making it
its enigma. This perspective marks a profound difference in relation to the tendency of
contemporary social discourse – which operates in the line of disembodied pathological
universality of the singularity of the one to one. Thus, through the analysis of the movie
To the bone, this article thinks about the path of the character Ellen and her obstinate
anorexic refusal, situated in the field of a full jouissance difficult to be renounced, through
the advent of the subject of the unconscious, betting that it can make its truth something
different and inventive.
KEYWORDS
Anorexia; Symptom; Family; Jouissance; Desire.
Família: um não-lugar para o sujeito
Ellen é uma jovem anoréxica de 20 anos, que acabara de desistir de mais
um tratamento. Ao sair da clínica onde esteve internada e regressar à casa
de seu pai e de sua madrasta, logo se depara com uma realidade diferente
da qual existia naquele lugar antes de sua partida: a casa está mudada, e
o seu quarto, agora, é um espaço improvisado na garagem. Ellen, mistura-
da a um amontoado de objetos e caixas, se instala no ambiente para, em
seguida, começar sua série habitual de abdominais, executados, quase
sempre, na clandestinidade de alguém que vive no limiar do desapareci-
mento de seu corpo físico. Susan, a madrasta de Ellen, diz a ela que seu
pai ficou chateado pelo fato de a filha ter interrompido o tratamento mais
uma vez e por ter voltado sem demonstrar grandes avanços em direção a
alguma melhora (melhora essa, para a família, sempre articulada à ideia de
ganho de peso). Ellen, então, questiona: “Por que ele próprio [o pai] não me
diz isso?”. A madrasta apresenta, ao seu modo, alguma implicação com o
estado da enteada, mas, com reatividade, também faz alusão ao abandono
sofrido pela garota por parte de sua mãe, que a despachou para a casa do
pai ao assumir que não tem preparo para lidar com as questões da filha.
A circunstância familiar retratada nas cenas iniciais do filme denota a dis-
tância e a fragilidade dos vínculos afetivos. O pai de Ellen, sempre muito
O mínimo para viver: do sintoma ao sujeito na anorexia CORPO E SEXUALIDADE 77
ocupado com o trabalho, sob a justificativa de ter que prover materialmente
a família, nunca comparece efetivamente junto a ela. A mãe, por sua vez,
parece igualmente frágil e vulnerável ao outro, voltada, essencialmente,
para suas questões particulares, para seus próprios conflitos psíquicos.
Paralelamente a isso, Ellen está preocupada em manter o controle de si e
de seu corpo ao afirmar: “Nada de ruim vai acontecer”. É justamente por
meio da recusa de Ellen e pela cadaverização de sua imagem corporal que
consegue colocar o Outro vigilante em relação a ela. Como nos diz Sílvia
Amigo (2007), para todo sujeito, é vital encontrar onde alojar-se no campo
do Outro. Claro que, para encontrar alojamento, há que haver identificado
um lugar vazio nesse campo. Se não se localiza a falta no Outro, o sujeito,
para fazer falta ao Outro, fantasia sua própria desaparição. Em outra cena,
Ellen alega: “Não sou uma pessoa, sou um problema”, indicando, mais uma
vez, seu não-lugar frente ao Outro, à família não-desejante.
Ellen aceita iniciar um novo tratamento, dessa vez sob os cuidados do
renomado psiquiatra Dr. Beckham. É por meio dessa nova experiência
que a jovem adentra um processo de implicação e, posteriormente, de
separação de seu gozo sintomático absolutista e onipotente. Logo nos
primeiros encontros, o médico arrisca dizer que conhece todos os truques
e comportamentos praticados por jovens que portam sintomas como os de
Ellen. Mais tarde, já durante a internação, reconhece, junto à paciente, o
caos familiar do qual ela advém, mas sugere que faça movimentos autôno-
mos, como, por exemplo, mudar seu nome para Eli – o que ela estranha,
mas, depois, acolhe. As intervenções do Dr. Beckham colocam em cena
o saber do sujeito. Ellen/Eli pode, assim, inventar, a partir de seu sintoma
– sua verdade – um nome próprio para si. Indo além da anorexia como
um rótulo social, o tratamento interroga a história do sujeito, marcando a
impossibilidade de redução de sua singularidade à organização do sistema
familiar dentro do qual se constituiu.
O paradoxo da recusa alimentar
O filme nos surpreende pela riqueza de seus diálogos, os quais são car-
regados de conteúdos que nos aproximam do universo psíquico da per-
78 Griphos psicanálise n. 26
sonagem central. Em uma dessas falas, a madrasta expressa: “Ellen tem
notoriedade por passar fome”. Em outra cena, Ellen indaga Luke, seu novo
amigo da internação, o qual também se encontra em tratamento: “Como
você consegue comer? Quando penso nisso, é como se o mundo fosse
cair”. O medo de perder o controle e a sustentação da recusa na anorexia
é um modo radical de dar a entender que receber o que o Outro tem não
a satisfaz. Sua demanda é, ao contrário, que o Outro lhe dê a sua falta,
algo não disponível no mercado, conforme aponta Greco (2012). Ao mesmo
tempo, a recusa anoréxica é uma manobra inconsciente, essencial dentro
de sua rede precária de recursos, que exerce sobre o Outro – particular-
mente seus pais –, para retificar a posição insuportável que eles ocupam
em relação ao sujeito (COSENZA, 2018, p. 171).
Lançamos luz, assim, sobre uma necessária distinção no campo da ano-
rexia apresentada pela personagem Ellen: o nível simbólico do desejo e
o nível da satisfação. Retomando o que Silvia Amigo (2007) coloca como
“complexo materno alimentar”, vemos que a comida, para além da necessi-
dade vital e, portanto, da sobrevivência do ser bebê, é marcada pelo modo
de intrincamento das pulsões. Isto é, a experiência do leite, frequentemente
pela via do peito materno, vetorializa a palavra, o olhar, o toque. Nunca se
trata de uma pulsão (a oral) sozinha: “[...] tratar-se-á de experiências que
fundam o ato de comer. Já a mãe passa a lei da palavra e a lei da cena
no modo como alimenta seu bebê recém-nascido” (AMIGO, 2007, p. 127).
Tudo isso é sustentado pela fantasia de completude da mãe, que significa
a criança, buscando nela um pedaço de gozo do qual ela mesma carece,
um traço fálico, o que funda a entrada do sujeito nas relações com o Outro.
Desse modo, o título traduzido do filme, O mínimo para viver (2007), nos
permite traçar uma articulação com a relação do sujeito com o Outro de
tal modo que a recusa do alimento é, também, a recusa do objeto oral,
vindo de quem representa uma referência simbólica para o sujeito. Ter o
mínimo para viver, e apenas o mínimo, seria, então, o nível da satisfação e
da necessidade, um limiar fisiológico, que garante, a princípio, que aquele
sujeito sobreviva. A comida, no entanto, é sem sabor, sem sentido, não é
mais comida, é reduzida ao mínimo. Quando ela existe, existe para ape-
O mínimo para viver: do sintoma ao sujeito na anorexia CORPO E SEXUALIDADE 79
nas tapar-lhe a boca. O que, então, Ellen demanda ao Outro? Demanda o
signo de amor que o Outro não consegue dar. Em uma cena marcante da
trama, a mãe de Ellen, após contar-lhe que sofreu de depressão pós-parto,
a alimenta com uma mamadeira de leite de arroz, remontando a cena da
amamentação de um bebê, que é acariciado, ninado, confortado pelos
braços, pela voz e pelo olhar materno. A condição de gozo da mãe em
relação à sua filha é o que se busca ressignificar. Todavia, ao que parece,
é no nível da elaboração/aceitação da inconstância do desejo materno que
Ellen deverá caminhar.
As recusas de Ellen, também, estão no campo de seus relacionamentos
afetivos para além do círculo familiar. Os vínculos parecem sempre dificul-
tados pelo jeito arredio da jovem, a qual não permite muitas aproximações.
A impossibilidade de ter o outro como interlocutor, já que ela sempre exibe
segurança quanto a seus posicionamentos, fixada na posição de mestre,
revela, em contrapartida, seu medo de sofrer a perda do outro e de ser
novamente abandonada. Para não ter que se confrontar com uma realidade
dolorosa – a da castração de si própria e a do Outro –, Ellen prefere não se
entregar às relações. Contudo, paradoxalmente, o que faz por meio de seu
sintoma anoréxico é instituir uma simbiose com o outro – demanda de amor
e cuidado –, algo que a coloca em relações de duplo-vínculo, transmitindo,
simultaneamente, duas mensagens de sentidos opostos: “Cuide de mim!
Mas, não posso deixar que se aproxime muito de mim”.
Uma outra posição possível frente ao desejo
Em uma das conversas mais importantes com o Dr. Beckham, já nas cenas
finais, Ellen escuta que “a ideia de que pode se sentir segura é infantil e
covarde” em resposta ao apelo da jovem por consolo e proteção. Esperar
garantias no campo do Outro é uma tarefa em vão. Ellen, que está sempre
a questionar o amor do Outro, constantemente assombrada pela ausên-
cia de um lugar verdadeiro de falta no Outro para ali se alojar, acaba por
negar, com a regressão a um corpo infantil, a possibilidade de acesso à
autonomia e, em última instância, a de tornar-se mulher. Por fim, é justa-
80 Griphos psicanálise n. 26
mente pelo reconhecimento de sua condição de não-toda (por exemplo,
com o início de seu interesse amoroso por Luke) que Ellen pôde passar a
fazer vista ao caráter malsucedido de sua saída sintomática na anorexia.
É ao enxergar, num sonho, sua própria morte através da imagem de seu
corpo completamente esquálido – objeto-dejeto – que ela, talvez, tenha
notado que ser a causa do desejo do Outro às custas de sua própria morte
a condena a um gozo desmedido e sem limites.
Para concluir: o encontro com o pai, figura que, não por acaso, não aparece
fisicamente em cena alguma do filme, deverá se dar, para Ellen, no campo
do simbólico. Este não encontro, que impossibilita uma amarração razoável
do desejo da jovem a uma lei que imponha regulação ao gozo infreável,
requer um manejo inventivo por parte de Ellen. Vale lembrar a recomen-
dação de Freud (1913-1914): ir além do pai, fazendo de sua inconsistência
um caminho para lidar com o inerente desamparo do sujeito.
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Oliveira Lopes. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2007.
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de uma vida entre a anorexia e a bulimia. Tradução de Andréa Aguiar e
Musso Greco. Belo Horizonte: Scriptum, 2012.
O mínimo para viver. Estados Unidos: Netflix, 2017. (107 min).
O mínimo para viver: do sintoma ao sujeito na anorexia CORPO E SEXUALIDADE 81
DISCIPLINA E
DESEMPENHO
NAS ESCOLAS:
TENTATIVA DE
CONTROLE DOS
CORPOS
Marina Simões*
RESUMO * Psicóloga e psicanalista. Mestra
em Psicologia (UFSJ)
A partir da pesquisa de mestrado, faz-se um recorte, com
E-mail:
enfoque nos corpos agitados dos adolescentes, que insistem
<[Link]@[Link]>
em ser silenciados pela escola, na tentativa de manter a fun-
cionalidade da instituição. Na atualidade, prioritariamente, os
corpos tendem a ser disciplinados em prol de desempenho, o
que garante, de forma ilusória e questionável, um lugar social
para o sujeito. Sob o olhar da psicanálise, o corpo se agita,
adoece e faz sintoma colocando em evidência o mal-estar
nas relações. Neste texto, debate-se o que pode a psicanálise
diante do aprisionamento dos corpos e a força da pulsão.
PALAVRAS-CHAVE
Corpos agitados; Escola; Disciplina; Desempenho; Psica-
nalista.
82 Griphos psicanálise n. 26
ABSTRACT
From the master’s research, a cut is made, focusing on the agitated bodies of
adolescents, who insist on being silenced by the school, in an attempt to maintain the
functionality of the institution. At present, primarily, bodies tend to be disciplined in
favor of performance, which guarantees, in an illusory and questionable way, a social
place for the subject. Under the gaze of psychoanalysis, the body becomes agitated,
gets sick and makes a symptom, highlighting the malaise in relationships. In this text,
we discuss what psychoanalysis can do in the face of the imprisonment of bodies and
the force of the drive.
KEYWORDS
Agitated bodies; School; Discipline; Performance; Psychoanalyst.
Vivenciamos, na atualidade, mudanças significativas de comportamentos
em função da pandemia, que, obrigatoriamente, recolheu os sujeitos em
suas casas por um período impensável até então. Faremos um recorte de
uma pesquisa de mestrado, na Universidade Federal de São João del-Rei
(UFSJ), com destaque nos corpos agitados dos adolescentes, que tentam
ser silenciados pela escola, independentemente de se posicionarem hoje
presencialmente ou on-line, na tentativa de manter a funcionalidade da ins-
tituição. Os corpos tenderam, ao longo da história e ainda na atualidade, a
ser disciplinados em prol de desempenho, o que garante, de forma ilusória
e questionável, um lugar social para o sujeito. Sob o olhar da psicanálise,
o corpo se agita, adoece e faz sintoma colocando em evidência o mal-
-estar nas relações. O que pode a psicanálise diante do aprisionamento
dos corpos e da força da pulsão? O que a psicanálise tem a nos dizer da
experiência de aprisionamento dos adolescentes, antes controlados numa
sala de aula, hoje recém-saídos de um enclausuramento impensável, mas
não sem marcas? Como vivem esses corpos plenos de vigor e ao mesmo
tempo limitados pelas leis da instituição e pela fatalidade da pandemia?
A questão que impulsionou a pesquisa surgiu anteriormente à pandemia
a partir do cotidiano da minha prática psi em uma escola particular. Foi
possível evidenciar um mal-estar no campo escolar diante das diferenças
de cada sujeito, presentes nas situações do dia a dia e, principalmente,
Disciplina e desempnho nas escolas CORPO E SEXUALIDADE 83
diante daquilo que insiste em escapar ao controle, à rotina escolar e, em
destaque, à disciplina e ao desempenho dos alunos.
A exigência da escola era que a psicóloga ajudasse o aluno a solucionar
os “problemas psíquicos” – ansiedade, agitação etc. – prejudiciais para a
aprendizagem, o que ameaçava o não ingresso do aluno na universidade.
Contrariamente a essa demanda, compreendemos que a posição do psi-
canalista na instituição é de não responder à demanda institucional, mas
sim a de promover e valorizar a singularidade do sujeito escutando aquilo
que insiste em pulsar.
A partir de um recorte na construção histórica da escola, compreende-
mos que a ela é reservado o lugar de educar para a vida em sociedade
e para a inserção na vida profissional. Percebemos que a educação se
deu através de mecanismos disciplinares: controle do tempo, dos corpos
e das relações pessoais, visando a enquadrar o aluno no molde ideal de
cada época. No sistema escolar atual, não muito divergente, verificamos
que disciplina implica a aquisição de comportamentos, a fim de alcançar
o desempenho adequado para a inserção no mercado de trabalho. Desse
modo, acompanhamos a tentativa de silenciar e controlar os corpos agita-
dos, que insistiam em desafiar o funcionamento ideal da instituição escolar.
Ressaltamos que o discurso da instituição escolar condiz com a ideologia
social vigente, ancorada no mercado capitalista, o que pressupõe a pro-
dução constante como forma de obter um lugar de destaque no mercado
de trabalho bem como no âmbito social. Assim, submetidos à ideologia1
dominante, o sistema de ensino, a escola e, também, os alunos neces-
sitam de destaque social para garantirem um lugar de reconhecimento e
de pertencimento.
Althusser (2010) entende a ideologia como aquilo que representa o modo
como o sujeito retrata as suas vivências em relação à sociedade. A ideolo-
gia é, pois, uma organização de práticas que constituem as pessoas como
1 Trabalhamos o conceito de ideologia a partir de Marx (1867).
84 Griphos psicanálise n. 26
seres sociais vinculados à produção dominante em uma sociedade. Além
disso, Althusser propõe como uma das funções da ideologia o reconhe-
cimento; ou seja, o sujeito se reconhece, reconhece o outro e reconhece
verdades como evidências que foram impostas pela ideologia
Diante disso, acreditamos que, para a Psicanálise, a ideologia sustenta
segurança para o desamparo do sujeito e sua necessidade de ser amado
à medida que ele fica ancorado em verdades já existentes sem questio-
ná-las. Dessa maneira, proibir o pensamento e a interrogação assegura a
autopreservação da ideologia presente na instituição escolar. Então, alunos
questionadores e que não cumprem as regras impostas pela escola são,
muitas vezes, punidos.
Sobre isso, em “A questão de uma Weltanschauung”, Freud (1932-
1936/2006) nos ensina a respeito da visão de mundo – verdades universais
–, que proporciona certa segurança ao sujeito. Nas palavras do psicanalista:
Em minha opinião, a Weltanschauung é uma construção intelectual que
soluciona todos os problemas de nossa existência, uniformemente, com
base em uma hipótese superior dominante, a qual, por conseguinte,
não deixa nenhuma pergunta sem resposta e na qual tudo o que nos
interessa encontra seu lugar fixo (FREUD, 1932-1936/2006, p. 155).
Destacamos: aquilo que encontra um lugar fixo não se movimenta. Sem
questionamento, o sujeito se aliena do seu desejo. A submissão à ordem
social, qualquer que seja ela, implica a presença de mal-estar: tributo
inevitável do sujeito.
O mal-estar do aluno, advindo da inadequação ao ideal da instituição esco-
lar, o leva à produção de sintomas como resposta à exigência institucional.
Os conceitos da teoria psicanalítica – mal-estar, sofrimento e sintoma – nos
permitira compreender que a impossibilidade de corresponder ao ideal
pode levar à aparição do sintoma do sujeito, o que acarreta o mal-estar
nas suas relações (DUNKER, 2015).
Disciplina e desempnho nas escolas CORPO E SEXUALIDADE 85
O sintoma do aluno é nomeado de forma universalizante pelos profissionais
da escola sem reconhecer as particularidades de cada um. Verificamos, ao
longo da pesquisa, que os alunos se reconhecem frente a essas nomeações
provenientes da instituição escolar, o que demarca uma identificação ao
sintoma nomeado pelo Outro – educadores, médicos e família. Os corpos
agitados recebem um carimbo (médico); como exemplo: TDAH, nomeando
de forma universal aquilo que de singular pulsa em cada um. O nome rece-
bido enquadra o aluno, conferindo um lugar de pertencimento à instituição
escolar. O sujeito encontra-se, assim, num processo de alienação, o que
dificulta, de certo modo, sua responsabilização como sujeito de desejo.
Sabemos que, ao psicanalista, interessa o furo no discurso, e não a fun-
cionalidade do método de ensino, tampouco as nomeações provenientes
de outros saberes, que não sejam do próprio sujeito. Ao psicanalista,
interessa o que marca a diferença, a maneira como cada um dos alunos
lida com seus significantes e, mais ainda, o que insiste em pulsar em seus
‘corpos agitados’.
Ao final da pesquisa, podemos considerar as possibilidades do fazer do
psicanalista frente à exigência de disciplina e desempenho na instituição
escolar ancoradas na escuta daquilo que há de singular. Enfatizamos que
o psicanalista está inserido na instituição. Portanto, atua nela toda – coor-
denadores, professores e demais funcionários – valorizando a circulação
dos discursos, para que possam ser transformados em algo inédito, como
nos ensina Kupfer (2005).
Ao final do processo do mestrado, outras questões pulsaram em mim. Os
corpos adolescentes se modificam e se agitam; são indisciplináveis e não
são estátuas nem máquinas de aprendizagem. Os corpos agitados se
estranham e carregam marcas e histórias singulares. Os corpos falam, se
mostram e, também, se escondem. Os corpos pulsantes se presentificam
na escola.
Recentemente, a Netflix lançou a terceira temporada da série Sex Educa-
tion. Nela, Otis (Asa Butterfield) é um adolescente com certa dificuldade
86 Griphos psicanálise n. 26
no âmbito social. Ele vive com sua mãe, uma terapeuta sexual renomada.
Aproveitando-se do material de trabalho e convivência diária com a mãe,
Otis representa uma espécie de especialista em sexo perante os colegas.
Junto à Maeve (Emma Mackey), uma colega de classe, montam uma clínica
sigilosa de saúde sexual no banheiro inativo nos fundos da escola com
o intuito de ajudar outros estudantes em suas “vergonhosas dúvidas” a
respeito do sexo e do próprio corpo. A terceira temporada é marcada pela
chegada de uma nova diretora, que impõe um controle rigoroso dos corpos,
o apagamento daquilo que diferencia cada um: os piercings são proibidos
e retirados, as tatuagens precisam ser cobertas assim como as pernas, o
decote etc. Há marcação no chão para os alunos caminharem ‘na linha’.
Os banheiros são definidos entre: feminino e masculino, sendo necessário
reconhecer-se como pertencente a um único universo. Não há espaço
para questões. A princípio, mesmo com indignação, os alunos procuram
seguir as ‘novas’ regras, pois há ameaças de punição, como a expulsão
da escola e o consequente não ingresso na universidade. Mas, os alunos
se movimentam com seus corpos, que insistem em não silenciar: dançam,
cantam, mostram-se presentes e agitados, um campo inalcançável para
a ordem disciplinar. O desejo sexual se evidencia repleto de descobertas,
dúvidas e medos. Os amassos escondidos, as conversas nos corredores e
as saias dobradas mostram como cada um inventa e se reinventa perante
a regra marcando a diferença. A partir daí, ressalta-se a impossibilidade
de domar e silenciar o que de singular insiste em se fazer presente.
Ao mesmo tempo, a nova diretora vive um drama particular, pois tenta
de todas as maneiras engravidar, o que ressalta a impossibilidade de
seu controle sobre o seu próprio corpo. A personagem tenta controlar os
corpos dos adolescentes quando não há controle do próprio corpo. Algo
escapa à medicina, à ciência, ao querer consciente, aos exames e ao
‘carimbo médico’.
A partir da pesquisa mencionada e das reflexões que a série citada promo-
veu em mim como também nas evidências atuais dos corpos ainda apri-
sionados, insisto em questionar a disciplina nas escolas. Acredito que ela
Disciplina e desempnho nas escolas CORPO E SEXUALIDADE 87
seja necessária se vista como possibilidade de organização e cumprimento
às regras civilizatórias – tributos essenciais para o estudo e convivência
social. O desempenho pode vir como consequência, e não como objetivo
final. Aposto em uma educação com espaço para a singularidade, em que
seja possível acolher e lidar com os ‘agitos’ do corpo, promovendo um
espaço para a escuta e o cuidado com cada um.
REFERÊNCIAS
ALTHUSSER, L. Ideologia e aparelhos ideológicos do Estado. In: ZIZEK,
S. (Org.). Um mapa da ideologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 2010. p.
105-142.
DUNKER, C. Mal-estar, sofrimento e sintoma. In: ______. Mal-estar,
sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros. São Paulo:
Boitempo, 2015. p. 185-272.
FREUD, S. Conferência XXXV: A questão de uma Weltanschauung. In:
______. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de
Sigmund Freud, 22. “Novas conferências introdutórias sobre Psicanálise
e outros trabalhos (1932-1936)”. Rio de Janeiro: Imago, 2006. p. 155-177.
KUPFER, M. Psicanálise e instituições. In: ANDRADE, F.; VITA, I. (Org.).
(Des)fiando a trama: a psicanálise nas teias da educação. São Paulo: Casa
do Psicólogo, 2005. p. 27-35.
SEX Education [Seriado]. Direção: Bem Taylor. Produção: Laurie Nunn.
Reino Unido: Netflix, 2019. 3 temporadas (24 episódios).
88 Griphos psicanálise n. 26
MEU CORPO EM
TUAS MÃOS
Regina Beatriz Silva Simões*
RESUMO * Psicóloga e psicanalista,
membro da EFBH/Iepsi,
O presente artigo apresenta reflexões sobre a questão enig-
mestre em Psicologia – linha
mática do corpo. Ilustrado por um filme americano – Meu
de pesquisa: Psicanálise, pela
corpo em suas mãos – este artigo possibilita indagações
Universidade Federal de São
sobre o feminino, com base na obra de Freud e no ensino de
João del-Rei (UFSJ), autora
Lacan, ressaltando conceitos caros à psicanálise.
e coautora de vários livros,
PALAVRAS-CHAVE entre eles: Final de análise:
Corpo; Feminino; Narcisismo; Castração; Devastação. possibilidades, impossibilidades e
articulações (editora Letramento),
ABSTRACT
Psicanálise em nosso tempo
This article presents reflections on the enigmatic question of (editora Letramento), Da solidão
the body. Illustrated by an American film – Ash Wednesday – (editora Quixote +Do), Texturas
this article allows for inquiries about the feminine, based on do vazio em psicanálise (editora
Freud’s work and Lacan’s teaching, highlighting concepts dear Letramento), Que não se
to psychoanalysis. esmaguem com palavras as
entrelinhas (editora Quixote+Do)
KEYWORDS
e Da diferença (editora Quixote +
Body; Female; Narcissism Castration; Devastation.
Do).
E-mail:
O filme escolhido para ilustrar este artigo – Meu corpo <reginabeatrizmg@[Link]>
em tuas mãos – foi estrelado por Elizabeth Taylor e
Henry Fonda e dirigido por Larry Peerce. É um drama
americano, contém roteiro do escritor belga Jean-
-Claude Tramont e foi lançado em 1973.
A obra se destacou não apenas pelo enredo como
também pela atuação de E. Taylor, que, na época,
Meu corpo em tuas mãos CORPO E SEXUALIDADE 89
quando protagonizou o filme, tinha menos de 40 anos. Elizabeth interpretava
uma mulher de meia idade, marcando seu talento e destaque no mundo
cinematográfico muito além de sua beleza já consagrada. Ganhador do
prêmio Globo de Ouro, o filme traz a questão enigmática do corpo e as
reflexões sobre o feminino.
A história gira em torno de Barbara Sawyer (E. Taylor), uma dona de casa
de 55 anos, que, numa tentativa desesperada de salvar seu casamento – já
em crise e fracassado –, submeteu-se, na Suíça, a uma cirurgia plástica
secreta de rosto e corpo inteiros mesmo sendo advertida pela filha Kate
(Maggie Blye) que, talvez, ‘fosse tarde demais’. Após a internação em uma
estação de esqui na Suíça, em recuperação e à espera de que o marido
fosse encontrá-la e pudessem resgatar o casamento, ela encontra um
jovem playboy, Erich (Helmut Berger), que se encantou por sua beleza.
Barbara se diverte com a possibilidade de seduzir um homem mais jovem
enquanto alimenta a esperança de resgatar seu casamento. Ela brilha na
beleza e frescor, 22 kg mais leve, aparentando jovialidade e usando rou-
pas lindas e elegantes, penteado simples e uma maquiagem, que valoriza
ainda mais sua beleza.
O reencontro com o marido acontece em um baile de Carnaval, numa
Quarta-feira de Cinzas (daí o nome original em inglês, do filme), e causa
um impacto inesperado na personagem em destaque. Ele lhe propõe a
separação e revela a existência de uma outra mulher com a qual já com-
partilhava a vida. A fantasia de recuperar o interesse do marido se desfaz
com esse diálogo definitivo.
Temos, a partir dessa ilustração cinematográfica, prioritariamente, algumas
questões em pauta: o narcisismo, a devastação e a castração.
Lembramos que não temos elemento algum da vida pregressa da per-
sonagem em cena. Portanto, neste recorte, vamos levantar hipóteses e
buscar provocações.
90 Griphos psicanálise n. 26
Partindo desse enredo fictício e, às vezes, comum no imaginário das mu-
lheres – a solução da cirurgia plástica como sustentação de um padrão de
beleza e juventude –, buscaremos ressaltar aquilo que nos parece mais
enigmático, pois essa história nos leva a perguntas sobre o lugar do desejo,
que vem envolto em uma insatisfação: o corpo envelhecido. Quem sou
eu? O que desejo? Quem é o Outro e o que ele espera de mim? Sigamos
essa trilha.
Iniciaremos lembrando que o corpo é o que permite a cada sujeito transi-
tar pelo universo. A relação com o espelho (estádio do espelho) é básica
na constituição do sujeito e é a partir dela que fazemos laços familiares,
afetivos e sociais. Se se dá ao corpo uma dimensão e valorização dimen-
sionadas, a subjetividade fica camuflada. O estádio do espelho, para Lacan
(1949/1998, p. 97), “pode ser compreendido como uma identificação [...],
ou seja, a transformação produzida no sujeito quando ele assume uma
imagem”. A função do estádio do espelho, estabelece, portanto, a relação
do organismo com sua realidade.
A personagem do filme atribui ao Outro o rumo da sua vida. No imaginário,
seu corpo, jovem e sedutor, traria o marido de volta. Ao se submeter ao
agressivo ato cirúrgico, valoriza sua performance (narcisismo), credibiliza
seu poder de sedução, cola-se no semblante da juventude (negação da
castração) e vive a devastação. Barbara dá ao homem seu corpo e sua
beleza em troca de seu amor. O limite do corpo, na história da mulher em
foco, esclarece a dificuldade de confronto com a castração: envelhecimento,
perdas e lutos. O corpo da personagem, surge, na história, como o lugar
do infortúnio e, também, da possível salvação. Neste ponto, destacamos
a força do imaginário e o real que o corpo porta.
Busquemos Freud (1914/1969, p. 90), num importante texto de sua obra,
“Sobre o narcisismo”, onde ele ressalta: “O narcisismo, [...] complemento
libidinal do egoísmo, do instinto de autopreservação, que, em certa medi-
da, pode justificadamente ser atribuído a toda criatura viva”. É o amor que
cada sujeito experimenta por si próprio.
Meu corpo em tuas mãos CORPO E SEXUALIDADE 91
“O que quer uma mulher?”, perguntou-se Freud (1915/1969, p. 304), diante
de Marie Bonaparte, apontando o enigma do feminino.
A mulher não existe, ela é não toda, proferiu Lacan (1972-1973/1985, p.
98), no “Seminário XX”, avançando na trilha freudiana: “Não há A mulher,
pois [...] por sua essência ela não é toda”. Lacan enfatizou que ninguém
está no paraíso, muito menos as mulheres, uma vez que estas se acham
aprisionadas em si mesmas. Podemos interpretar que elas se esforçam
para sair de um gozo que as envolve, pois ele não se localiza em uma
parte do corpo, mas o toma inteiramente.
Lacan (1975-1976/2007, p. 98) empregou o termo ‘devastação’ em dois mo-
mentos de seu ensino, para se referir seja à relação da filha com sua mãe,
seja à relação de uma mulher com um homem, que é o que nos interessa
nesta mesa: “Este que é para ela uma aflição pior que um sintoma, a saber,
uma devastação”. A devastação é o retorno da demanda de amor para uma
mulher. A mulher se entrega à relação em que não há limites ofertando ao
homem o que possui e, também, o que não tem. Lacan (1973/1993, p. 538),
em “Televisão”, sublinha: “Não há limites às concessões que as mulheres
podem fazer por um homem. Elas concedem seu corpo, sua alma e seus
bens”. Podemos enfatizar que elas se emprestam à perversão do homem.
A personagem Barbara parece corresponder a essa explanação.
Examinemos o conceito de castração, que dará seguimento às nossas
indagações. Segundo Simões (2015, p. 82), Freud, em sua obra, aborda
a castração em três momentos distintos:
No primeiro momento, ele nos fala sobre a castração biológica e psíqui-
ca da mulher e a sua consequência para a feminilidade. Num segundo
momento, ele nos apresenta a relevância e o destino da castração
(simbólica), na forma como o psiquismo se estrutura e fez um questio-
namento sobre o ‘tornar-se mulher’. Num terceiro momento, ele trou-
xe-nos o rochedo da castração como barreira impossível de transpor.
A castração é “o nome que damos à experiência do confronto com a falta
no Outro, conforme a premissa lacaniana. O sujeito castrado é aquele
92 Griphos psicanálise n. 26
que se rende diante da falta no Outro, perdendo a ilusão de garantia e
completude” (SIMÕES, 2015, p. 83).
Para Lacan (1960/1998, p. 741), “a castração não pode ser deduzida ape-
nas do desenvolvimento, uma vez que pressupõe a subjetividade do Outro
como lugar de sua lei”.
Lacan (1957-1958/1999) estabelece, ainda, uma lógica, na qual busca
construir relações entre as figuras do pai, da mãe e da criança, apoiando-se
no texto de Freud. A partir dessa lógica, chegaremos à invenção lacaniana
do objeto a, que passou por várias transformações em seu ensino e que
seria um trabalho à parte do qual este nos convém. Porém, é importante
ressaltamos:
Diante da falta, chega-se ao objeto, pois o que é perdido (irremediavel-
mente perdido), passa a ser causa do desejo. Se há um objeto que é
causa de desejo, existe um movimento do sujeito que se relança diante
da castração. A castração, dessa maneira, pode ser compreendida
como algo estruturante, e não como algo destrutivo ou fatal (SIMÕES,
2015, p. 105).
Todas essas reflexões nos permitem deixar em aberto as questões enig-
máticas provocadas no início desta explanação: onde se situaria o desejo
de Barbara? O confronto com a castração possibilitaria esse encontro
com o objeto a, causa de desejo, abrindo outras vias para a personagem?
O confronto com a castração seria a saída possível para a convivência
com o narcisismo, para um caminho outro que não o enveredamento pela
devastação? Seria o encontro com o desejo, a retirada do corpo “de mãos
alheias” para o corpo abraçado por suas próprias mãos?
REFERÊNCIAS
FREUD, S. Sobre o narcisismo: uma introdução. In: ______. Edição
Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, 14 (1914).
São Paulo: Companhia das Letras, 1969. p. 90.
Meu corpo em tuas mãos CORPO E SEXUALIDADE 93
FREUD, S. Algumas consequências psíquicas da distinção anatômica entre
os sexos. In: ______. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de
Sigmund Freud, 19 (1915). São Paulo: Companhia das Letras, 1969. p. 304.
LACAN, J. O estádio do espelho como formador da função do eu. In:
______. Escritos (1949). Rio de Janeiro: J. Zahar, 1998. p. 96-103.
LACAN, J. Livro 5: As formações do inconsciente (1957-1958). Rio de
Janeiro: J. Zahar, 1999.
LACAN, J. Livro 20: Mais, ainda (1972-1973). Rio de Janeiro: J. Zahar, 1985.
LACAN, J. Televisão. In: ______. Outros Escritos (1993). Rio de Janeiro:
J. Zahar, 1993.
LACAN, J. Livro 23: O sinthoma (1975-1976). Rio de Janeiro: J. Zahar, 2007.
LACAN, J. Diretrizes para um Congresso sobre a sexualidade feminina.
In: ______. Escritos (1960). Rio de Janeiro: J. Zahar, 1998.
SIMÕES, R. B. S. Final de análise: possibilidades, impossibilidades e
articulações. Belo Horizonte: Letramento e Quixote, 2015.
94 Griphos psicanálise n. 26
CORPO/SINTOMA E
SUAS COSTURAS
Sandra Regina Brum da Mata*
Aquilo que herdastes de teus pais conquista-o * Psicanalista, membro da Escola
para fazê-lo teu. Freudiana de Belo Horizonte/iepsi
Psicóloga clínica hospitalar
(Goethe)
E-mail:
RESUMO <sandrabrum@[Link]>
O artigo em questão objetiva, por um recorte da história
de uma paciente, dar relevo à relação entre identificação
e produção de sintomas. A partir de seu laço afetivo com o
pai, Maria apresenta traços de personalidade semelhantes
ao dele. No entanto, após a morte de seu genitor, os afetos
da paciente se deslocam para o corpo, como efeito de uma
transcrição em pele, que não pôde ser elaborada. Após dez
anos em análise, porém, a analisanda consegue ter suas
dores atenuadas, deslocando a fixidez de seu trauma para
a escrita, buscando, assim, reconstruir sua imagem antes
despedaçada em resquícios de fantasias.
PALAVRAS-CHAVE
Identificação; Sintoma; Corpo; Trauma.
SUMMARY
This article aims to discuss the relationship between
identification and production of symptoms. Through her
affective bond with her father the patient shows personality
traits similar to him. However, after her parent’s death her
affections shift symptomatically to her own body. After years of
analysis, the analysand manages to have her pains attenuated,
Corpo/sintoma e suas costuras CORPO E SEXUALIDADE 95
shifting the fixity of her trauma to an authorial writing seeking to reconstruct her imagetic
integrity.
KEYWORDS
Identification; Symptom; Body; Trauma.
1 Corpo: reminiscências e identificações
Lembro-me de como Maria se apresentou em sua primeira sessão dez
anos atrás. Vestia-se como um rapaz, à militar, com o cabelo bem curto.
Sua imagem representava tudo o que ela dizia de seu pai, também, militar
– autoritário, controlador e agressivo. Quando ele adoece e morre de um
câncer, os sentimentos agressivos, que até então Maria nutria por seu pai,
se transformam. Os afetos se deslocam e ela passa a sentir dores em seu
próprio corpo. Esse seria o primeiro tempo de sua análise.
Hoje, mulher inteligente e bem-sucedida, dedica-se à sua carreira como
professora universitária, cujos trabalhos são reconhecidos internacional-
mente. Entretanto, em contraste ao seu sucesso profissional, Maria ainda
convive com suas dores, mesmo que sejam menos intensas e agora se
espacem.
Lembremos que Freud (1969), em “Psicologia das massas e análise do
eu”, adverte-nos:
[...] a identificação é a primeiríssima e mais originária forma de laço
de sentimento. Sob as condições da formação de sintoma, isto é, do
recalque e do domínio e mecanismos do inconsciente, acontece, fre-
quentemente, que a escolha do objeto retorne à identificação. Assim o
eu toma para si as características do objeto. É notável que o eu, atra-
vés dessas identificações [...] tome um único traço da pessoa – objeto
(VIDAL, 2017, p. 15).
Podemos dizer que essa identificação norteia a produção de sintomas. O
sujeito se apropria de qualidades, traços do objeto de forma regressiva,
96 Griphos psicanálise n. 26
quando a libido fixada no sintoma tem dificuldade de se deslocar para
encontrar novas formas de satisfação pulsional. Freud (1969) cita vários
exemplos de identificação com o pai em sua clínica com as histéricas, sendo
o mais emblemático o caso Dora, que desenvolveu a mesma tosse paterna.
Ao lado da identificação com o traço, tomemos o sintoma como símbolo
de uma memória que não foi traduzida, na qual o corpo responde fazendo
uma inscrição. Siqueira (2007), em seu texto O golpe da letra no corpo,
aproxima-nos do que ele define como um sintoma tipo para dizer da particu-
laridade do sintoma em cada sujeito em oposição à padronização da clínica
estrutural típica. O corpo, neste caso, seria tomado por um golpe, marca,
símbolo do que não pôde ser assimilado. O autor faz aqui uma analogia à
letra tipográfica. Segundo ele:
É necessário lembrar que tipo [...], além de molde, é letra impressa.
Deve-se acrescentar que tipo significa originalmente golpe; daí ser a
marca deixada pelo golpe ou, ainda, marcar batendo. Assim, um tipo
não se marca senão pelo golpe. O histérico – esse que, como sabemos,
sofre de lembranças – não carregaria nos traços mnêmicos a marca
única do golpe sofrido e não assimilado? (SIQUEIRA, 2007, p. 148)
O enigma traumático que Siqueira (2007) nos apresenta conecta-se com o
que Colette Soler (2001) recupera do sintoma em Freud. Segundo ela, “O
sintoma é uma mensagem amordaçada, é uma fala cativa que é preciso
liberar, que espera seu leitor ou seu intérprete” (SOLER, 2001, p. 80).
2 Corpo/texto: a escrita como signo de um recomeço
Há alguns meses, recebo de Maria um texto, cujo título – A dor – traz um
extrato do que foi possível processar de seu luto e deslocar a fixidez trau-
mática de seu sintoma. A escrita de seu próprio punho testemunha a suti-
leza do corpo na psicanálise ao mesmo tempo em que evoca o que Lacan
(1998) propõe quando diz: “O corpo é antes de tudo efeito de linguagem”.
Passo a ler alguns fragmentos de A dor:
Corpo/sintoma e suas costuras CORPO E SEXUALIDADE 97
[...] A partir de um tratamento mal direcionado, passei a sentir dores
no quadril, na virilha e não me lembro de elas cederem de vez. [...]
Abandonei a corrida por recomendação médica, os saltos altos... deixei
tantas coisas para traz. [...] Hoje tento costurar cada um desses retalhos
soltos em busca de uma colcha colorida que me aqueça o coração e
abrande minhas dores. Cada minucioso quadrado representa um mo-
mento, sentimento ou percepção que poderá me ajudar. E como diz Cora
Coralina, ‘O coração rasgado vira retalho. Recomenda-se nesse caso
costurá-lo com uma linha chamada recomeço’.
Impossível não ver nessa escrita um desejo de reconstrução da própria
imagem. Simbolicamente, Maria representa, através da colcha de retalhos,
seu corpo até então cortado e disperso nos restos de suas fantasias. Como
Lacan (1998) demonstra em “O estádio de espelho”, recuperar o Um da
imagem tem um efeito ortopédico. Segundo ele, “[...] o estádio de espelho
fabrica para o sujeito [...] as fantasias que se sucedem desde a imagem
despedaçada do corpo até uma forma de sua totalidade que chamaremos
de ortopédica. [...]” (LACAN, 1998, p. 100).
Podemos perceber que a escrita vai possibilitando à Maria um rearranjo de
seu mundo interno fantasmático. Abrem-se espaços para a ressignificação
de seus afetos quando novos caminhos se apresentam para sua libido então
aprisionada na dor. A construção de um texto/corpo é, de fato, um recomeço,
traçado, segundo ela mesma, linha por linha, no desejo de ir costurando seus
projetos: escrever poesias... e até mesmo um livro. Torna-se claro como
seu próprio traço, o brincar com as palavras, a apropriação da linguagem,
delineando um estilo em um tecido singular. É uma metáfora sustentada
inquestionavelmente, enfim, pelas releituras da estória de Maria.
REFERÊNCIAS
FREUD, S. Psicologia das Massas e análise do eu: Identificação. In:
______. Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund
Freud, 18. Tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1969. p.
133-139.
98 Griphos psicanálise n. 26
LACAN. O estádio do Espelho como formador da função do eu. In: ______.
Escritos. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1998. p. 96-103.
SIQUEIRA. O golpe da Letra no corpo. Revista Transfinitos – Colóquio:
a escrita na psicanálise, Aleph, Belo Horizonte: Autêntica; v. 2, n. 6, p.
145-151, 2007.
SOLER. O em-corpo sujeito: seminário 2001-2002. Tradução de Graça
Pamplona, Sonia Magalhães, Cícero Oliveira e Elisabeth Saporiti. Salvador:
Álmaga, 2001.
VIDAL, E. Identificação. Revista da Escola Letra Freudiana, Rio de Janeiro:
7 Letras, Ano 26, n. 49, p. 13-21, 2017.
Corpo/sintoma e suas costuras CORPO E SEXUALIDADE 99
FRIDA KAHLO
– UM CORPO
ATRAVESSADO PELO
MAL-ESTAR
Yáskara Sotero N. Veado*
RESUMO * Psicanalista
Membro da EFBH/iepsi
O objetivo deste texto é trabalhar com a questão de como um
E-mail:
corpo sofre com o efeito da linguagem de maneira traumá-
< [Link]@[Link]>
tica. Para trabalhar esse assunto, utilizei-me da vida e obra
de Frida Kahlo. Frida teve o seu corpo atravessado por uma
barra de ferro em um acidente de bonde. Ela nunca mais se
livrou dessa dor. Mas, é essa mesma dor e outras mais que
orientaram a construção da obra dessa mulher mexicana
revolucionária.
PALAVRAS-CHAVE
Corpo; Sintoma; Pulsão de morte; Sublimação.
Abstract
My proposal in this text is to work with the question of how a
body suffers from the effect of language in traumatic way. To
work on this subject, I used the live and work ok Frida Kahlo.
Frida Kahlo had her body crossed by an iron rod in a tram
accident. She never got rid of that pain, but it is very pain
and others that guided the construction of the work of this
revolutionary Mexican woman.
100 Griphos psicanálise n. 26
Keywords
Body; Symptom; Death drive; Sublimation.
Minha proposta neste texto é trabalhar com a questão que o corpo re-
miniscência é um corpo afetado pela linguagem de maneira traumática.
Abordarei a criação de Frida Kahlo na sua relação com seu corpo, usado
na expressão de sua arte.
Interrogar o enigma do corpo falante encontra um ponto de inflexão quando
nos deparamos com o significante SUBSTÂNCIA GOZANTE, termo lançado
por Lacan. O que significa gozar de um corpo? O corpo não é somente um
corpo vivo, é um corpo que goza sem sabê-lo.
A distinção de um corpo puro organismo daquele marcado pelo significante,
com o qual opera o discurso analítico, foi a descoberta de Freud a partir
dos sintomas que, no corpo, se produzem. O passo de Freud foi situar o
corpo em sua implicação com o sintoma, efeito do inconsciente.
Freud sempre propôs um corpo psíquico; um corpo que é afetado per-
manentemente pelo pensamento, pela linguagem; enfim, pela angústia.
Nesse espaço físico, origina-se a pulsão, representando as exigências
somáticas, as quais são feitas ao psíquico, que passa, então, a ser sen-
sível aos movimentos pulsionais, movimentos esses que deixam restos,
ligados às vivências traumáticas, que produzem marcas de linguagem no
corpo, pontos de gozo.
Lacan nos convida a uma participação ativa diante da obra freudiana e
questiona os pontos de condensação de gozo... de que gozo se trata?
Colette Soler (2019), no seu livro O em-corpo do sujeito, na lição 11, pro-
põe retomar o ‘corpo-sintoma’, o corpo habitado de alguma maneira pela
substância gozante. Ela propõe pensarmos “que o corpo possa ser dito
sintomático, ou o corpo da patologia, suscetível às formações do incons-
ciente” (SOLER, 2019, p. 257). Freud pensava em um corpo que sofria
com os fenômenos da memória.
Frida Kahlo - Um corpo atravessado pelo mal-estar CORPO E SEXUALIDADE 101
Soler (2019, p. 257), também, diz: “Lacan começara retomando essa tese,
pois, em algum momento, aliás, ele fala do sintoma como um memorial. O
que isso quer dizer, senão que o significante primordial inscreve o rastro
de uma experiência, de uma história que deixa sua marca corporal”.
Frida Kahlo, seu corpo e sua obra
Inicio com um pequeno resumo da bibliografia de Frida Kahlo (1907-1954).
Foi uma pintora conhecida por seus autorretratos de inspiração surrealista
e, também, por suas fotografias.
Com seis anos, contraiu poliomielite, que lhe deixou uma sequela no pé.
Com 18 anos, sofreu um acidente de bonde, que a deixou por um longo
período no hospital.
Apesar de deprimida e incapacitada de andar, Frida passou a pintar sua
imagem com um espelho pendurado na sua frente e um cavalete adaptado
para que pudesse pintar deitada. Dizia: “Para que preciso de pés quando
tenho asas para voar”.
Recuperada, ela passou a estudar desenho e modelagem na Escola
Nacional Preparatória do Distrito Federal do México. Em 1928, conheceu
Diego Riviera, um importante pintor do ‘Muralismo Mexicano’. Em 1929,
casou-se com Diego Riviera e, em 1930 engravidou, mas sofreu um
aborto espontâneo. Dedicou-se à pintura, realizando um grande número
de autorretratos: “Nunca pintei sonhos, e sim minha própria realidade”.
Em 1934, Frida sofreu mais um aborto. Nessa época, teve os dedos do
pé direito amputados. Em 1935, Frida e Riviera se separaram. Em 1936,
Frida passou por uma nova cirurgia no pé e sofreu com fortes dores na
coluna. Mesmo debilitada, continuou pintando.
Em 1939, Frida e Riviera se separaram definitivamente. Frida declarou:
“Diego, houve dois grandes acidentes em minha vida: o bonde e você.
Você, sem dúvida, foi o pior deles”. Nesse mesmo ano, já separada do
102 Griphos psicanálise n. 26
marido, Frida expôs em Nova York e em Paris. Foi a primeira mulher me-
xicana a expor no Museu do Louvre.
Deprimida, viveu os últimos anos da sua vida na Casa Azul, no México.
Frida faleceu em Coyoacàn, no México, no dia 13 de julho de 1954.
Compartilho a ideia de Lacan de que toda arte se caracteriza por um
determinado modo de organização em torno do vazio. A obra de Frida
nos faz ver que sua produção artística é mais um veículo que denuncia e
desconcerta do que algo que acalma. Sua obra revela a angústia e seus
excessos. Percebemos que seu modo de gozo está exposto, como na tela
da coluna partida, um corpo atravessado por uma barra de ferro.
Frida deixou registradas em seu diário suas frustações; dentre elas, sua
infelicidade pela fragilidade de seu corpo não poder ter lhe dado um filho.
Aos seis anos de idade, sofreu sua primeira tragédia: uma poliomielite,
que a deixou com sequela em um dos pés atrofiados e uma perna mais
fina que a outra. Não foi só o corpo que ficou marcado pela poliomielite.
As sequelas, além de atingirem o corpo, também, afetaram seu narcisis-
mo: “[...] Quando a dor física entrou pela primeira vez em meu corpo, veio
acompanhada de outra dor: Frida-perna de pau [...]”.
Há marcas que riscam a superfície do corpo, um corpo como forma, não
sendo nada mais que uma superfície. Algumas marcas acidentais deixam
cicatrizes que o corpo sofreu durante seu curso de vida e acrescentam
particularidades, que caracterizaram o corpo: Frida-perna de pau. Fica
claro que o corpo é um lugar de rastros de gozo.
Lacan (1959-1960/2005) trata da importância dos pontos de fixação das
zonas erógenas marcando o problema que nos leva à mais severa servidão.
São desses pontos que Eros terá de extrair sua fonte. Isso é essencial,
uma vez que a luta pela vida não é distante da morte. Estamos diante do
ponto de atrito, e Freud marca que há um ponto limite, irredutível no nível
da fonte das pulsões. As formas arcaicas da vida infantil darão a direção
Frida Kahlo - Um corpo atravessado pelo mal-estar CORPO E SEXUALIDADE 103
da vida numa relação com a primazia genital. Esse ponto fixo, irredutível e
móvel, nunca inteiramente resolvido, dará a direção da vida do indivíduo.
Aos 18 anos, Frida sofreu um acidente em um bonde. Com o impacto da
batida, uma barra de ferro perfurou e atravessou seu corpo. Com o trá-
gico destino do acidente, Frida teve, novamente, seu corpo violentado e
ameaçado pela morte. Essa proximidade com a morte e o trágico nunca a
abandonou. Em função disso, algo ficou fixado, mas não o bastante para
impedir essa mulher de continuar tentando, movida pela força da vida que
pulsava em seu sangue, unificar o seu eu, unificar as Fridas por meio da
construção de seu nome próprio. Ela foi batizada como Frieda e dizia:
“Sou filha da paz”. ‘Paz’, do alemão ‘Friede’, e como Frida ela se batizou.
Contrapondo a ‘Frida-Paz’, temos a ‘Frida-demônio’, forma pela qual ela
era chamada por seu pai. Sobre isso, diz a pintora: “Eu me pergunto se até
mesmo um demônio mereceria este corpo partido, torturado, desintegrado.
Quem diria que as manchas vivem e ajudam a viver?” É por meio desse
corpo partido e torturado que eros – paz – extrai sua força se opondo a
tanatos – demônio – e coloca a pintora a sublimar sua dor. Sua obra revela
vida, e ela consegue colocar leveza pelo seu traçado.
Acho essencial pensarmos quais seriam as condições para separar o su-
jeito do acontecimento traumático, permitindo facilitações de gozo, usando
um termo freudiano, facilitação, e um termo lacaniano, gozo, do que lhe
causa dor?
Frida retira sua força de trabalho das manchas, que, como ela diz, a ajudam
a viver. Desse modo, ela se distanciou da dor transformando-a em cor.
Considerando que há marcas que não são visíveis, que surgem a partir do
encontro com o real do corpo erogenizado, podemos pensar que, de fato,
os ‘histéricos sofrem de reminiscências’. Esses fenômenos de aconteci-
mento do corpo sofrem um outro destino diferente da sublimação, como
Frida faz com a produção de sua obra. As lembranças são esquecidas e
104 Griphos psicanálise n. 26
são vividas como somatizações e conversões histéricas, produzindo algo
como uma marcação escrita na substância gozante. Temos, aqui, um corpo
patológico de um sujeito, que deseja esquecer intencionalmente e recalca.
Essas marcas são rastros de gozo e o sintoma, segundo Lacan, é um
“acontecimento de corpo, o que faz que, no fundo, o sintoma seja gozo de
uma maneira redobrada. É o gozo de um rastro de gozo” (SOLER, 2019,
p. 259).
A produção de uma obra é um material pelo qual o artista pode se satis-
fazer. Via obra, ele é capaz de abordar sua angústia, dando lugar ao que
tem de mais singular: seu modo de gozo. Lacan (1959-1960/2005) afirma
que a criação seria a borda que contorna o vazio e poderia dar ao outro a
possibilidade de reconhecer algo do seu próprio corpo. Frida necessitou
reconstruir um corpo vazio, perfurado e marcado pelo acidente, que serviu
de ponto de partida para o trabalho de construção artística que se inicia em
sua vida, como se, com a construção de uma obra, ela pudesse recobrir
as perfurações do seu corpo. Em sua tela intitulada A coluna partida, está
o colete de gesso amarrando e dando sustentação a seu corpo.
À que se propõe a arte de Frida exibindo para o espectador um corpo
atravessado por uma barra de ferro que lhe dá sustentação? Qual função
estaria cumprindo? De fazer algo retornar do real, agora dando colorido
à cena traumática?
Re-velar. Fazer ser visto o resto. Aquilo que está velado é imposto à visão:
a arte força o objeto ao olhar. Frida faz do resto trabalho/faz trabalhar o
resto – o objeto – na sua função de causa do desejo.
Na noite de 13 de julho de 1954, Frida Kahlo foi encontrada morta em seu
leito. Foi dito que a causa da morte seria embolia pulmonar, mas suas
últimas palavras em seu diário foram: “Espero a partida com alegria... e
espero nunca mais voltar... Frida”.
Frida Kahlo - Um corpo atravessado pelo mal-estar CORPO E SEXUALIDADE 105
REFERÊNCIAS
CARVALHO, K. B. O conceito de sublimação: metas assexuais e valor
cultural. Reverso, Belo Horizonte, Ano 35, n. 66, p. 55-64, dez. 2013.
(Publicação do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais).
ESCOLA DA LETRA FREUDIANA. Corpo substância gozante? Revista
nº 51, 2019.
ESCOLA DA LETRA FREUDIANA. O Corpo da Psicanálise. Revista nº
27, 2002.
KAHLO, F. O diário de Frida Kahlo: um autorretrato íntimo. Rio de Janeiro.
J. Olympio, 1995.
LACAN, J. O seminário, livro 7: a ética da psicanálise (1959-1960). Rio de
Janeiro: Zahar, 2005.
SOLER, C. O em-corpo do sujeito, seminário 2001/2002. Salvador: Ágalma,
2019.
106 Griphos psicanálise n. 26
A ANATOMIA É O
DESTINO?
Yolanda Mourão Meira*
RESUMO * Psicanalista
Membro da EFBH/iepsi
Em “Algumas consequências psíquicas da distinção anatô-
E-mail:
mica sobre os sexos”, Freud (1925) parte da anatomia para
<yolandamouraomeira@gmail.
chegar à diferenciação entre os sexos. Usa a célebre frase
com>
de Napoleão, ‘a geografia é o destino’, trocando ‘geografia’
por ‘anatomia’, a qual interrogo. Para ele, a diferença entre o
desenvolvimento sexual dos indivíduos dos sexos masculino
e feminino no estádio fálico é consequência da distinção ana-
tômica entre seus órgãos genitais e da situação psíquica aí
envolvida. Neste texto, cito alguns autores com relação a esse
tema tão controverso. O artigo questiona que estatuto dar à
materialidade do corpo no processo de identificação a uma
posição sexuada. Não podemos desconsiderar que existe
um real sexual, que, inicialmente, está ligado à diferença nos
corpos. Portanto, a anatomia não é propriamente o destino,
o que haveria de mais real, mas o fundamento da sexuação.
PALAVRAS-CHAVE
Anatomia; Destino; Diferença do desenvolvimento sexual;
Materialidade do corpo; Posição sexuada; Real sexual;
Sexuação.
RESUME
En “Quelques Conséquences Psychiques de la distinction
anatomique sur les sexes”, Freud (1925) part de l’anatomie
pour arriver à la manière dont s’opère la différenciation entre les
sexes. Il reprend la phrase célèbre de Napoléon: ‘la géographie
A anatomia é o destino? CORPO E SEXUALIDADE 107
est le destin’, en échangeant ‘géographie’ pour ‘anatomie’ (je m’interroge ce que me fais
question). Pour lui, la différence entre le développement sexuel des individus mâles et
femelles à ce stade (phallique) est une conséquence de la distinction anatomique entre
leurs organes génitaux et la situation psychique qui y est impliquée. Dans ce texte, je
cite quelques auteurs en relation avec ce sujet controversé. L’article s’interroge sur le
statut à donner à la matérialité du corps dans le processus d’identification d’une position
sexué[Link] ne peut ignorer qu’il existe un réel sexuel qui est d’abord lié à la différence
des corps. Dès lors, l’anatomie n’est pas exactement le destin, quoi de plus réel, mais
le fondement de la sexuation.
MOTS-CLES
Anatomie; Destin; Différence de développement sexuel; Matérialité du corps; Position
sexuelle; Réel sexuel; Sexuation.
Em “Algumas consequências psíquicas da distinção anatômica sobre
os sexos”, Freud (1925) parte da anatomia para chegar a como se dá a
diferenciação entre os sexos. Em seu texto, faz alusão à célebre frase de
Napoleão, ‘a geografia é o destino’ (o estadista referia-se ao inverno rus-
so), trocando a ‘geografia’ pela ‘anatomia’ ao refletir e se debruçar sobre
a diferenciação sexual. Se, antes, Freud supunha que, com as meninas,
os acontecimentos da vida sexual seriam semelhantes ao que se passava
com os meninos, nesse texto, ele enuncia a diferença entre eles.
Segundo as elaborações de Freud (1925), quando o menino chega a ver
a região genital de uma menina, ele começa a demonstrar irresolução ou
falta de interesse: não vê nada ou desmente o que viu; abranda o que foi
visto ou provoca expedientes para colocar a cena de acordo com suas
expectativas. Somente mais tarde, quando possuído de alguma ameaça
de castração, é que a observação se torna importante para ele.
Já a menina, quando percebe que algumas pessoas têm pênis e outras
não, se comporta diferentemente do menino. Faz seu juízo, toma sua
decisão num instante. Ela o viu, sabe que não o tem e quer tê-lo. Instaura-
-se a chamada ‘inveja do pênis’. A menina pode desmentir o fato de ser
castrada, enrijecer-se na convicção de que realmente possui um pênis. O
reconhecimento da distinção anatômica entre os sexos força a menina a
108 Griphos psicanálise n. 26
se afastar da masculinidade e a se dirigir a novas linhas, que a conduzem
ao desenvolvimento da feminilidade.
Freud (1925) continua: a diferença entre o desenvolvimento sexual dos
indivíduos dos sexos masculino e feminino, nesse estádio, é consequência
da distinção anatômica entre seus órgãos genitais e da situação psíquica aí
envolvida. Corresponde à diferença entre uma castração que foi executada
e outra que simplesmente foi ameaçada. Isso traz consequências quanto
ao declínio do Édipo nas meninas e nos meninos. Para Lacan (2006), em
“De um discurso que não fosse semblante”, não se espera a fase fálica
para distinguir uma menina de um menino. Eles não são, de modo algum,
semelhantes.
No que diz respeito à identidade de gênero, isto é, o homem e a mulher, a
questão do que surge precocemente só se coloca a partir do fato de que,
na idade adulta, é o próprio destino dos seres falantes, que se distribui
entre homens e mulheres.
Para o menino, na idade adulta, trata-se de ‘parecer-homem’. Tudo que
é interrogado no comportamento da criança pode ser interpretado como
orientado para esse ‘parecer-homem’. Desse ‘parecer-homem’, um dos
correlatos essenciais é dar sinal à menina de que se o é.
Citando Lacan (2006, p. 33), sobre a crise da fase fálica: os jovens seres
falantes têm de se confrontar com a existência de quem não tenha falo: “A
identificação sexual não consiste em alguém se acreditar homem ou mulher,
mas em levar em conta que existem mulheres para o menino e existem
homens para a menina”. Trata-se de uma ‘situação real’, em que, para os
homens, a menina é o falo. E é isso que os castra. Para as mulheres, o
menino é a mesma coisa, o falo, e é também o que as castra, porque elas
somente ‘adquirem’ um pênis, e isso é falho. O menino e a menina são o
falo durante um momento. Aqui, está o real. O real do gozo sexual é o falo;
em outras palavras, o Nome-do-Pai.
A anatomia é o destino? CORPO E SEXUALIDADE 109
Nessa operação do semblante, no nível da relação homem e mulher, “qual
é o lugar do semblante arcaico, qual é seu papel fundador?” (LACAN, 2006,
p. 33) Para pensar sobre isso, devemos reter o que a mulher representa.
Para o homem, a mulher é a hora da verdade. O que define o homem é sua
relação com a mulher, e vice-versa. Nada nos permite, nessas definições do
homem e da mulher, abstraí-los da completa experiência falante. Chercher
la femme: para se ter a verdade de um homem, seria bom saber quem é
sua mulher. Para pesar uma pessoa, não há nada como pesar sua mulher.
Segundo Marcia Aparecida Zucchi e Tania Coelho dos Santos (2006), a
psicanálise toma a diferença sexual como um dado da estrutura da ex-
periência do ser falante. Desde o nascimento, algo se difere a depender
do fato de ser menino ou menina. Esse destino está escrito no corpo; é
nomeado na linguagem. O ser falante não escolhe livremente entre ser
homem ou mulher.
O real impossível – a inexistência da relação sexual – não se manifesta do
mesmo modo para homens e mulheres, o que exige reconsiderar o valor
das consequências psíquicas da diferença anatômica entre os sexos. A
diferença sexual é o que há de mais real no processo de subjetivação.
As fórmulas da sexuação propostas por Lacan (1985), em O seminário, livro
20: mais, ainda, indicam uma diferença quanto ao tratamento da castração.
Lacan reformula a diferença entre os sexos pela oposição de duas lógicas
– a do todo fálico nos homens e a do não todo fálico nas mulheres – e de
dois tipos de gozo, um fálico e outro chamado de suplementar.
Colette Soler (2006) se esforça para não tomar a anatomia como fundamento
essencial do masculino e do feminino. Considera, entretanto, que a ‘es-
colha’ sexual não é arbitrária, já que o significante, em última instância,
está ligado à anatomia. É um órgão do corpo que dá sua representação
ao significante falo; por isso, diz-se que um indivíduo é menino ou menina
antes de qualquer posição de sujeito. “Em todo caso, é certo que, como os
significantes ‘homem’ e ‘mulher’ não deixam de se relacionar com a anato-
110 Griphos psicanálise n. 26
mia, o sujeito é representado a priori por um ou outro desses significantes,
e não tem opção de não se pautar por eles” (SOLER, 2006, p. 529-530).
Segundo Maria Cristina da Cunha Antunes (2016), o que sustenta os enun-
ciados de alguns psicanalistas é o argumento de que, no campo do sexual,
há uma disjunção entre falo e pênis. Há uma ideia de que a psicanálise,
sobretudo a lacaniana, revelaria que a diferença sexual não tem relação
com a diferença anatômica na medida em que a organização da sexuali-
dade humana é presidida pela linguagem. Então, tanto a virilidade como a
feminilidade dependem muito mais da função fálica do que do órgão que
a representa, e a relação dos sujeitos com o falo independe da relação
anatômica entre os sexos.
Alguns autores discordam que a anatomia tenha influência na sexuação.
Podemos ver essa posição em escritos, que tratam da transexualidade e
da intersexualidade. Miriam Chnaiderman (2019), por exemplo, considera
que a frase de Napoleão, reformulada por Freud, tem levado a posições,
que negam a possibilidade de construção do corpo erógeno.
Questiono: que estatuto dar à materialidade do corpo no processo de
identificação a uma posição sexuada? A sexuação é uma exigência feita
ao aparelho psíquico em consequência de suas relações com o corpo?
Concluo: a anatomia não é propriamente o destino, o que haveria de mais
real, mas o fundamento da sexuação. Não podemos desconsiderar que
existe um real sexual, que, inicialmente, está ligado à diferença nos corpos.
Não é banal que se tenha pênis ou vagina, pois se trata de um órgão do
corpo, que dá sua representação ao significante falo. Por isso, diz-se que
um indivíduo é menino ou menina antes de qualquer posição de sujeito.
A partir dessa situação real, o sujeito caminha de forma diferente: há
uma posição homem, uma posição mulher, o que não implica que sejam
ocupadas por mulheres e homens com seu sexo biológico. Lembro que
há uma oposição de duas lógicas – a do todo fálico nos homens e a do
não todo fálico nas mulheres – e de dois tipos de gozo, um fálico e outro
chamado de suplementar.
A anatomia é o destino? CORPO E SEXUALIDADE 111
REFERÊNCIAS
ANTUNES, M. C. da C. A anatomia é o destino: a psicanálise e o sintoma
transexual. Revista aSEPHallus de Orientação Lacaniana, Rio de Janeiro,
v. 11, n. 22, p. 42-67, out. 2016.
CHNAIDERMAN, M. Anatomia e destino: o mundo de pernas pro ar... e não
só pernas: uma reflexão a partir do filme Bixa Travesty. IDE, São Paulo, v.
41, n. 67-68, dez. 2019. Disponível em: <[Link]
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jul. 2022.
FREUD, S. A dissolução do Complexo de Édipo. In: ______. Edição
standard das obras psicológicas de Sigmund Freud, 19 (1924). Rio de
Janeiro: Imago, 1976. p. 215-224.
FREUD, S. Algumas consequências psíquicas da distinção anatômica
entre os sexos. In: ______. S. Edição standard das obras psicológicas
de Sigmund Freud, 19 (1925). Rio de Janeiro: Imago, 1976. p. 309-320.
LACAN, J. O seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
LACAN, J. O seminário, livro 18: de um discurso que não fosse semblante.
Rio de Janeiro: Zahar, 2006.
SOLER, C. O que Lacan dizia das mulheres. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.
ZUCCHI, M. A.; SANTOS, T. C. dos. O fantasma e o real: sobre a
desigualdade entre os sexos. Psic. Clin., Rio de Janeiro, v. 18, n.
2, p. 109-123, 2006. Disponível em: <[Link]
hCsNJVnnKK7DBBpX5Rvbc6Q/?lang=pt>. Acesso em: 22 jul. 2022.
112 Griphos psicanálise n. 26
O PATHOS E O PATO
SELVAGEM
Ana Maria Portugal Maia Saliba*
RESUMO * Psicanalista. Membro da
Escola Letra Freudiana
O texto expõe o tema do feminino sob o viés do enigma e de
Doutora em Literatura
certa errância. Apoiado na vida e na literatura de Lou Andreas
Comparada
Salomé sobre Ibsen, escritor norueguês, questiona sobre o
E-mail:
desejo de Lou em torno da figura da ‘madona’, que surge aqui
<anamportugal@[Link]>
como mãe, erotismo e impossibilidade.
PALAVRAS-CHAVE
Feminino; Lou Andreas Salome; Ibsen; Madona.
RESUME
L’essai expose le thème du féminin sous l’accent de l’énigme
et de certaine errance. Il se fonde sur la vie et la littérature de
Lou Andreas Salome concernant Ibsen, écrivain norvégien,
en questionant le désir de Lou autour de la figure de la
‘madone’. Cette figure se montre ici comme mère, l’érotisme
et l’impossibilité.
MOTS-CLEF
Féminin; Lou Andreas Salome; Ibsen; Madone.
114 Griphos psicanálise n. 26
Uma epígrafe me chama a atenção: “Primeiro encontre, depois procure”
(COCTEAU apud MANGUEL, 2001, p. 312).
O encontro de um texto de Freud e uma citação de Lacan me orientam para
iniciar um certo tecer sobre o feminino: ponto de enigma, para Freud, e, em
Lacan, a asfixia dos psicanalistas quanto aos problemas da sexualidade
no que diz respeito ao feminino, denunciada por ele no Congresso sobre
a Sexualidade Feminina (1960).
Em sua conferência sobre a Feminilidade, Freud (1933[1932]/1976) traz
o tema do enigma, citando um trecho de Heine sobre cabeças do mundo
inteiro enlouquecidas quanto à questão.
Lacan (1959-1960/1986, p. 18), no Seminário da Ética, ao mencionar tal con-
gresso, traz uma referência a Ibsen, o dramaturgo norueguês (1828-1906):
O contexto ibseniano do fim do século XIX no qual amadureceu o pen-
samento de Freud não poderia ser negligenciado aqui. E, em suma, é
muito estranho que a experiência analítica tenha asfixiado, amortecido,
eludido as zonas do problema da sexualidade visto na perspectiva da
sexualidade feminina.
Mas, foram propriamente as palavras de Freud (1937/1975) dedicadas a
Lou Andreas Salome no obituário, acentuando sua personalidade discreta,
obscura e misteriosa, que me fizeram aproximar da vida dessa mulher,
não tanto por ter participado das fileiras da psicanálise, e sim pelas con-
dições exóticas de seu modo de viver. Desde jovem, dedicou-se à escrita
de artigos e comentários sobre textos literários, sendo um dos primeiros
sobre as personagens femininas de Ibsen. Com sua aguda inteligência,
aproximou-se de pensadores de relevo e vanguarda, tendo acompanhado
e incentivado dois homens ilustres da filosofia e das letras (Nietzsche e
Rilke). Sua busca constante e itinerante por vários países da Europa pa-
rece indicar, nas palavras de Freud (1937/1975), que ela “sabia claramente
onde procurar os verdadeiros valores da vida”. Apesar de sua dedicação
à escrita, nunca considerou a literatura seu modo principal de expressão.
O Pathos e o pato selvagem O FEMININO E A MULHER 115
Queria “descobrir a força íntima que domina o universo e dirige seu curso”
(PETERS, 1986, p. 14), queria conhecê-la, experimentá-la, vivê-la.
Sua biografia, escrita por H. F. Peters (1986), segue detalhadamente suas
idas e vindas, sempre em companhias masculinas ilustres. Porém, o que
nos intriga é sua expressão sobre o que mais almejava na vida: esperava
um amor, não apenas físico, mas etéreo, “esperava um amante que pu-
desse satisfazer seu tríplice desejo feminino: ser amante, mãe e madona”
(PETERS, 1986, p. 165).
O que quer dizer isso? Madona, minha senhora? Virgem e ao mesmo tempo
mãe? Figura encantadora e eterna, admirada por toda parte? De acordo
com o grego: o título de Maria se escreve Teótoco, tradução literal: portadora
de Deus. Seria esse o sentido no qual pensava Lou? Na verdade, apesar
de ter tido grandes decepções com Deus na infância, manteve sempre seu
interesse pela religiosidade. Todavia, parece que nessa ‘madona’ persiste
o mistério de seu desejo feminino.
Curiosamente, a personagem Lou reuniu para mim os apelos que me
orientavam: o enigma (ou mistério) do feminino, as peças de Ibsen e esse
elemento ‘madona’.
Sobre os detalhes dessas imagens Manguel (2001, p. 57-83) faz uma
leitura dos enigmas do tema da Madona, figura presente em várias telas
no decorrer dos séculos.
116 Griphos psicanálise n. 26
O tema da madona
Figura 1
A Virgem e o menino à frente de um porta-fogo
Robert Campin (século XV)
Uma tela de um pintor de Flandres, em meados do século XV, provavel-
mente Roger van der Weyden ou seu mestre Robert Campin, retrata uma
cena doméstica e íntima. A tela é conhecida como A Virgem e o Menino à
frente de um guarda-fogo. A Virgem Maria, Mãe de Deus, amamenta seu
rebento. Mas, também, pertence a este mundo. Uma jovem, que dá o seio
a um bebê irrequieto e desinteressado. Preciosos detalhes foram sendo
revelados: efeitos de luz, um anel de metal acima da cabeça da Virgem, a
moldura da lareira, tudo demonstrando tratar-se de uma realidade comum.
Alguns elementos imitam a iconografia cristã; por exemplo, o guarda-fogo
O Pathos e o pato selvagem O FEMININO E A MULHER 117
trançado imita a auréola da virgem. Com isso, o pintor elevou uma mãe
humana em circunstâncias comuns a uma posição sagrada e, ao mesmo
tempo, humanizou o divino ao reduzir ou comparar os atributos sagrados
da Virgem a objetos de um lar mortal.
Sem dúvida, a Mãe é o tema da pintura. O Filho olha para nós com olhos
coniventes numa pose langorosa. A Mãe olha para baixo oferecendo o
seio direito, menos para o Filho que para o espectador.
O seio exposto, a auréola de guarda-fogo, o assento de três pés (a Trinda-
de), o livro que está lendo, o pico da chama por detrás do anteparo, o anel
no dedo direito (esposa de Deus e de São José), as joias coloridas na barra
do vestido, o misterioso par de ladrilhos octogonais (circuncisão no oitavo
dia) semiocultos pelo vestido, a cena do lado de fora da janela (miniatura
da cidade com sua vida diária), o sexo do menino é ocultado/revelado no
triângulo composto pela mão esquerda da mãe e a coxa da criança, cada
um desses elementos vem revelar algo sobre essa mulher, no mundo de
Deus e no mundo humano, e a tela parece um livro de enigmas.
A Mãe interrompeu sua leitura para cuidar do Menino, porque a palavra
feita carne – verba – tem procedência sobre a palavra escrita – scripta.
Entretanto, a palavra escrita permanece e precisamos das palavras para
nomearmos as experiências mais sagradas mesmo que aparentem estar
fora de seu alcance.
São pelo menos duas pinturas: uma cena doméstica comum e um interior
confortável, e a história de um deus nascido de uma mulher mortal, que
assume na sua feição humana a sexualidade da carne. As leituras poderão
variar no decorrer dos séculos, mas o enigma continua o mesmo: quem
é essa mulher?
O seio que amamenta tem uma multiplicidade de significações contraditó-
rias: é o vínculo com a mãe. No entanto, há a conotação negativa usada
pelas amazonas: amputam o seio direito, para que possam melhor puxar
o arco como guerreiras.
118 Griphos psicanálise n. 26
Há ainda outro aspecto: o erótico.
Figura 2
Madona e a Criança
Jean Fouquet (1450)
É o que vemos na obra de um artista francês, Jean Fouquet, Madona e a
Criança, por volta de 1450, na qual retrata uma Nossa Senhora espantosa-
mente sensual, tendo como modelo a amante do rei Carlos VII. A virgem é
atrevida, segura de si, ferina e presta pouca atenção ao filho ao seu lado.
O seio à mostra traz uma maternidade erótica.
Outra obra – agora literária –, que também nos traz um enigma, é o conto
de Henry James A Madona do futuro (1873/1997). Sua inspiração é uma
O Pathos e o pato selvagem O FEMININO E A MULHER 119
temporada do narrador em Florença, onde se expõe a Madonna della
Seggiola de Rafael.
O tema do conto de James (1873/1997) se tece na companhia de um artista,
morador de Florença, que passa a vida observando os mínimos detalhes
das telas dos clássicos, especialmente Rafael, para retratar a mais bela
Madona. Desse modo, volta inúmeras vezes à Madonna della Seggiola.
Figura 3
Madonna della Seggiola
Raffaello Sanzio
O narrador turista descreve suas impressões diante da tela:
A mais ternamente bela de todas as Virgens de Rafael, a Madonna della
Seggiola. [...] Graciosa, humana, tão próxima a nós [...] floresce ali, numa
120 Griphos psicanálise n. 26
suavidade completa, tão imbuída de harmonia [...] A imagem dissolve
a mente do espectador numa espécie de apaixonada ternura, que ele
mesmo não sabe se é dirigida à pureza celestial ou ao encantamento
terreno. Fica intoxicado pela fragrância da mais terna flor de materni-
dade que jamais floresceu sobre a terra (JAMES, 1873/1997, p. 18).
Nos incansáveis e intermináveis passeios junto ao exigente artista, cuja
obra seria a síntese de todas as madonas, o narrador lhe sugere que, já
que se trata de uma obra-prima em andamento, mas cujo término não pode
ser previsto, dado seu preciosismo, pode referir-se a ela como Madona do
futuro, nome que, pela ironia, não agrada absolutamente ao seu pretenso
autor. Este se defende dizendo:
Uma grande obra requer silêncio, privacidade, até um certo mistério.
[...] As pessoas são cruéis e frívolas, incapazes de imaginar que alguém
ainda queira pintar uma Madona. [...] Talvez não tenha talento, mas sou
um homem honesto. Não há nada de grotesco numa ambição pura, ou
numa vida inteira dedicada a ela! (JAMES, 1873/1997, p. 24)
E o obscuro artista prossegue sua pesquisa de traços, detalhes e luzes,
sempre com certa relutância em levar o turista amigo ao seu ateliê. Quando
isso fortuitamente acontece, o que se encontra é um ser humano decaído,
doente, à beira da morte. E o cavalete que está voltado para o outro canto
do quarto, o que mostra é uma tela vazia: “um pedaço de tela, um retângulo
em branco, descolorido e rachado pelo tempo. Esta era sua obra imortal!”
(JAMES, 1873/1997, p. 64)
Madona do futuro ou Madona impossível? Poderíamos perguntar: a qual
dessas madonas, Lou estaria se referindo: o enigma da mãe real e sagrada,
o erotismo feminino ou o impossível da mulher?
As personagens femininas de Ibsen: Lou e o pato selvagem
O pato selvagem (1884), assim se intitula uma das peças de Ibsen. Mas,
o pato é apenas um pretexto, uma metáfora, pois está num sótão, meio
ferido, junto a animais de toda espécie, que servem de caça ao ancião
O Pathos e o pato selvagem O FEMININO E A MULHER 121
da família, já um tanto decrépito. Ao mesmo tempo, revela-se que o pato
selvagem é símbolo da paternidade clandestina da neta da família, Hedwig,
que termina por se matar numa decisão grandiosa.
Todavia, para Lou, em seu artigo Personagens femininas de Ibsen (IBSEN,
s.d., p. 145-215 apud PETERS, 1986), o pato selvagem, como um animal
no cativeiro, passa a ser metáfora de análise de várias personagens femi-
ninas de Ibsen; aliás, sempre diversas e curiosas. A principal é a da Casa
de bonecas (1879). Nora, uma mulher superacomodada como boa dona de
casa, esposa mimada e mãe, e que, por se sentir injustiçada pelo marido,
cansa-se dessa ‘casa de bonecas’, abandona tudo e vai embora, largando
marido, casa e filhos.
Da peça Os espectros (1881), a escolhida é a Sra. Alving, que, resigna-
da à sua sorte de cativeiro, morre lentamente. Para ela, não há futuro,
apenas um olhar triste para trás, para uma vida de esperanças cruelmente
desenganadas.
Da peça Romersholm (1886), surge Rebeca, personagem autoritária e
selvagem, que desconhece as leis e prefere morrer, porque não tem mais
vida em si.
Em A dama do mar (1888), a história de Ellida é destacada por Lou. O
pato selvagem poderia ser libertado com a ajuda dos outros animais, mas
prefere ficar. Ellida não pode esquecer um misterioso estranho de além-
mar, que a amou certa vez. Por isso, o mar exerce sobre ela uma atração
demoníaca. Como o marido não a impede de seguir esse antigo amor, a
renúncia voluntária dele lhe traz paz de espírito e ela resolve ficar.
Hedda Gabler (1890), outra peça de Ibsen, é abordada por Lou, para
destacar a personagem-título como uma figura totalmente insatisfeita e
superficial, de aspecto enganoso, uma máscara. Cheia de inveja, com uma
alegria malvada em fazer mal aos outros, é a única personagem desse rol
que não se modifica. Diferente da emancipação de Nora e da submissão
de Ellida, Hedda não consegue abrir mão da máscara e se suicida.
122 Griphos psicanálise n. 26
De certa maneira, essas personagens e os problemas levantados pelas
peças de Ibsen mostram que o interesse de Lou não era só literário, mas
também pessoal. O casamento problemático e voluntariamente não con-
sumado, mas também não rompido, situava-a sem saber como terminaria
sua luta pela liberdade na vida. No entanto, seu interesse por essas peças
de Ibsen, interpretadas e traduzidas pelo marido (poliglota) antes de exis-
tirem traduções alemãs, bem como a publicação de seus livros e artigos
a colocaram em contato com um grupo de escritores de vanguarda de
Berlim. Pouco tempo depois, começou seriamente sua carreira literária.
As rendas obtidas com seus artigos e livros ajudavam-na a minorar o fra-
casso amargo de seu casamento, proporcionando-lhe viagens distantes e
constantes. Essas evasões periódicas tinham um efeito benéfico, e Ibsen
lhe deu condições de uma solução para o pato selvagem, que, no verão,
voava para terras distantes (PETERS, 1986).
Para concluir, retornemos à questão do enigma.
O enigma a que se refere o poema de Heine – citado por Freud
(1933[1932]/1976) – não é o enigma do feminino, e sim da raça humana,
do homem, de onde ele veio, para onde vai, quem está acima de tudo nas
estrelas. É isso que, numa noite, um jovem pergunta ao mar, às ondas, ao
vento, às nuvens, às estrelas; e diante dos simples murmúrios ouvidos: “O
louco espera, sem resposta”. Freud recorta o poema no que lhe interessa,
e continua sem resposta, tanto que, ao final da conferência sobre a Femi-
nilidade, apela aos poetas.
Talvez, o enigma esteja em como Lacan (1958/1998) descreve a posição do
feminino em “A significação do falo”: privação e nostalgia. Privação pela falta
de significante para o feminino no inconsciente. Nostalgia em substituição
à inveja, presente no texto freudiano, como inveja do pênis (Penisneid).
O que quer dizer nostalgia? A palavra vem do grego nostos, volta, retorno.
No dizer popular, nostalgia expressa uma saudade de algo que nunca se
teve. Se falta algo no simbólico (um significante para o feminino), há aqui
O Pathos e o pato selvagem O FEMININO E A MULHER 123
uma captura imaginária. A isso, Lacan (1960/1998, p. 737) chama atenção
em suas Diretrizes para um congresso sobre a sexualidade feminina: “Pro-
vavelmente, as imagens já foram sujeitadas a um simbolismo inconsciente,
ou seja, a um complexo – que torna oportuno lembrar que os símbolos na
mulher não podem ser isolados dos símbolos da mulher”.
Conclusão enigmática, mas que aponta um caminho: acompanhar os
símbolos ‘na’ mulher é uma forma de se aproximar do feminino.
Tão longe, tão perto... Assim, diz a mensagem dos anjos de Wim Wenders.
REFERÊNCIAS
COCTEAU, J. Journal d’un inconnu. In: MANGUEL, A. Lendo imagens:
uma história de amor e ódio. Tradução de Rubens Figueiredo et al. São
Paulo: Companhia das Letras, 2001. p. 312.
FREUD, S. Feminilidade (1933[1932]). In: ______. Obras Completas, 22.
Rio de Janeiro: Imago, 1976.
FREUD, S. Lou Andreas-Salome (1937). In: ______. Obras Completas,
23. Rio de Janeiro: Imago, 1975. p. 333.
IBSEN, H. O pato selvagem. In: ______. Seis dramas. Tradução de Vidal
de Oliveira. São Paulo: Ediouro, s.d. p. 145-215.
JAMES, H. A madona do futuro (1873). Tradução de Arthur Nestrovski. Rio
de Janeiro: Imago, 1997.
LACAN, J. Diretrizes para um congresso sobre a sexualidade feminina
(1960). In: ______. Escritos. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1998. p. 734-745.
LACAN, J. Le Séminaire, livre VII. L’éthique de la psychanalyse (1959-1960).
Paris: Seuil, 1986.
LACAN, J. A significação do falo (1958). In: ______. Escritos. Rio de
Janeiro: J. Zahar, 1998. p. 692-703.
124 Griphos psicanálise n. 26
MANGUEL, A. Lendo imagens: uma história de amor e ódio. Tradução de
Rubens Figueiredo et al. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
PETERS, H, F. Lou, minha irmã, minha esposa. Tradução de Waltensir
Dutra. Rio de Janeiro: Zahar, 1986.
Imagens (Wikipedia – Google):
-A Virgem e o menino à frente de um porta-fogo. Robert Campin. Galeria
Nacional – Londres
-Madona e a criança. Jean Fouquet. Museu Real de Belas Artes – Antuérpia
-Madonna dela Seggiolla. Raffaello Sanzio. Palacio Pitti – Galeria Palatina
– Florença
O Pathos e o pato selvagem O FEMININO E A MULHER 125
DEUS, O INCONS-
CIENTE, O ANALISTA,
O FEMININO E A POE-
SIA – APROXIMAÇÕES
Gilda Vaz Rodrigues*
RESUMO * Psicanalista.
E-mail:
Falarei de um campo além, que não se escreve, que resta
<gildavaz@[Link]>
inominável, irrepresentável e, por isso mesmo, aberto ao
novo e à criação. É nesse campo que habitam - e, por isso
mesmo, se aproximam - Deus, o inconsciente, o analista, o
feminino e a poesia.
PALAVRAS-CHAVE
Feminino; Não todo fálico; Real; Inominável; Ex-sistência.
RÉSUMÉ
Je parlerai d’un champ au-delà, qui ne s’écrit pas, qui reste
sans nom, non représentable, et ouvert au nouveau et à la
création. Dieu, l’inconscient, l’analyste, le féminin et la poésie
habitent et se rapprochent dans ce champ.
MOTS CLÉS
Féminin; Pas tout phallique; Réel; Sans nom; Ex-sistence.
Pretendo abordar o feminino e suas aproximações
pelo viés que a psicanálise nos conduz a partir do
conhecido aforismo lacaniano: ‘O inconsciente é es-
truturado como uma linguagem’. Ora, uma linguagem
é estruturada não só por palavras como por pontua-
126 Griphos psicanálise n. 26
ções, intervalos, entrelinhas, que podem mudar o sentido de uma palavra
com uma simples mudança na pontuação. Para abreviar esta introdução,
remeto-me ao ano de 1972, quando Lacan trabalha o Seminário 20 e es-
creve “O aturdito”. Às voltas com a questão do ser, ele deixará por conta
dos ‘ditos’ qualquer consistência que se queira dar ao Ser e abordará o
campo dos intervalos, da falta, do vazio de sentido, da pausa, seja lá que
nomes dermos aos furos da linguagem e ao que permanece inominável e
irrepresentável, pelo termo ‘dizer’.
É pelo dizer que encontro uma porta de entrada para abordar as aproxi-
mações do feminino com Deus, o inconsciente, o analista e a poesia.
O que isso quer dizer? Isso pode ser escutado, também, pela perspectiva
do reservatório das pulsões.
Se, por um lado, o inconsciente toma formas que dão a cada ser falante
uma configuração subjetiva, por outro, estamos todos afetados pelo real
da pulsão. Resta-nos reconhecer que somos produtos da intersecção de
um corpo com a palavra e que, disso, decorre uma divisão estrutural com
a qual temos de lidar para não enlouquecer ou ficar à deriva.
Trata-se de um saber-fazer com as palavras reescrevendo o inconsciente
não só em torno dos significantes que nos representam, mas também indo
além, em direção ao sem sentido, em que falta um significante no campo
do Outro da linguagem, que sustente nosso ser de falta.
Trata-se de chegar a uma posição subjetiva fundada no esvaziamento da
consistência do ser do Outro, ou seja, ancorada num vazio operador que
se escreve como letra de gozo e nos oferece uma outra escrita que se
alinha nesse campo do dizer – um dizer poético.
Esse campo de falta evoca a ânsia por uma Outra Coisa e se manifesta
pela busca obstinada por um Ser capaz de responder ao obscurantismo
que envolve o campo atormentado da alma humana. Insere-se, aí, a
questão da existência como condição fálica de inscrição na linguagem e
de subjetivação do nosso ser.
Deus, o inconsciente, o analista, o feminino e a poesia... O FEMININO E A MULHER 127
Todavia, não é do campo fálico que estou falando, mas de um campo
além, que não se escreve, que resta inominável, irrepresentável e, por
isso mesmo, aberto ao novo e à criação. “Pois, o próprio do dito é o ser,
como eu dizia há pouco. Mas o próprio do dizer, é de ex-sistir em relação
a qualquer dito que seja” (LACAN, 1972, p. 139).
É nesse campo que habitam – e, por isso mesmo, se aproximam – Deus,
o inconsciente, o analista, o feminino e a poesia.
Falo rapidamente dessas aproximações para destacar que o feminino não
está sozinho, perdido nesse campo do não todo fálico, mas muito bem
acompanhado.
Nesse mesmo lugar opaco, do gozo do Outro, está situado esse Ser Su-
premo, manifestamente místico, do qual procedem os movimentos que
movem o mundo. Deus não é apenas “esse lugar onde a verdade balbucia”
(LACAN, 1972, p. 108). Sua face simbólica, mas ausente de representação,
torna-se fonte de inspiração, espiritualidade, mistério e gozo.
“Deus é propriamente o lugar onde, se vocês me permitem o jogo, se pro-
duz o deus-ser – o deuzer – o dizer. Por um nada, o dizer faz Deus ser”
(LACAN, 1972, p. 62).
Depois dessa citação de Lacan, passo, então, ao analista. Lacan assinala
sua existência lógica: existe um psicanalista – ( ∋ x ). Não se trata da pessoa
do analista, mas de uma existência a ser abordada em termos de discurso,
ato e causa do desejo, como operadores de algo, que, também, não tem
outra existência senão a que se pode formular pela teoria matemática dos
conjuntos, como um conjunto vazio: {} – o inconsciente, em sua dimensão
do real, sendo o vazio interior o objeto causa que agencia seu discurso.
Deixando o campo do inconsciente aberto, pela sua própria dimensão do
real que se enlaça ao simbólico e imaginário, passo do que se lê ao que se
escreve, aproximando-me do campo da literatura e da poesia, confiando
que falar do feminino, desse Outro sexo tanto para homens como para
mulheres, é sempre uma questão aberta. Afinal, o feminino sempre se
renova e é essa sua peculiaridade que pretendo destacar, sem deixar, no
entanto, de trazer algum ponto em que o feminino encontra-se na escrita,
128 Griphos psicanálise n. 26
uma suplência desse não todo sobre o qual repousa seu gozo (LACAN,
1972, p. 49).
Como encontrar nomes que façam pausa e descanso à busca incessante
por uma Outra coisa, a qual se estende ao infinito de um gozo, que deságua
em águas em que se poderia afogar?
A resposta já se insinua pelo viés de um escoamento, que pode ser dre-
nado em letras. Lacan (1971, p. 117) fala da escrita como ravinamento,
em que as águas da linguagem vão varrendo os semblantes e sentidos,
deixando depositados os “destroços do significante que correm no rio do
significado”. Assim, é das entrelinhas, dos intervalos e das fendas que a
escrita é tecida em cadeia e trama.
Estou falando de dois campos da escrita que se entrelaçam como rede
– um, que se apoia nos significantes que o campo do Outro oferece e dá
suporte ao pensamento (simbólico); e uma outra dimensão (real), que não
vem do pensamento, e, sim, de um lugar. Digo lugar no sentido topológico,
onde não há pensamento, mas ‘apensamento’, neologismo que Lacan faz
ao inserir o pequeno a à palavra pensamento (LACAN, 2007). Foco nessa
outra dimensão, que não é descritiva, figurativa ou representativa, mas que
é, em si mesma, uma expressão do ser de gozo e de desejo. Trata-se de
uma escrita que não representa, e, sim, que é o próprio habitat do objeto,
que se define pela letra a minúscula.
Penso a literatura por esse viés que Lacan chamará de “Lituraterra”, para
fundamentar sua proposição: “o escrito é o gozo” (LACAN, 1971, p. 120).
Quando digo gozo, estou destacando o gozo do Outro, e seu efeito femini-
lizante que Lacan fala em A Carta Roubada, texto escrito a partir do conto
de Edgar Alan Poe, destacando que nenhum daqueles implicados no conto
tinha um saber sobre o conteúdo da carta, o que não a impede de deslizar
e exercer seu poder até o final, sem saber. Ora, na carta roubada, o con-
teúdo diz respeito a algo endereçado à mulher, não uma mulher qualquer,
mas à Rainha, a mulher (LACAN, 1971).
A carta segue seu curso e faz sua escrita. Tomemos essa escrita pela
Deus, o inconsciente, o analista, o feminino e a poesia... O FEMININO E A MULHER 129
via de seu lugar de ‘origem’, como uma ‘geo-grafia’: ou seja, assim como
a fala carrega o sotaque que denuncia uma origem (made in), essa es-
crita se identifica pelo talho da letra. Quando digo geo-grafia, estou me
referindo à posição de onde essa escrita se opera, de um lugar de exílio,
digamos, assim – fora do significante, de um significante excluído ou de um
significante que falta – S(A). Na verdade, trata-se de uma origem lógica, a
lógica do significante, em que um significante nunca significa a si mesmo,
instaurando uma estrutura de fenda.
Ao abordar a escrita a partir da noção de lugar, sigo o caminho de Freud
e Lacan, fazendo uso de ‘construções auxiliares’ para demarcar o campo
onde operamos com a psicanálise; daí as referências lógicas e topológicas
para dizer de uma escrita do irrepresentável, em que o feminino se alinha
e se insinua ao atravessar ou ser atravessado pela linguagem.
Para expressar a relação entre a linguagem e a coisa, Lacan recorreu
à topologia – que se refere às relações entre o topos (lugar) e o logos
(linguagem).
Foi neste lugar de conjunção-disjunção entre corpo e linguagem que Freud
formulou o conceito de pulsão, entre o somático e o psíquico, litoral onde
se inscrevem as letras de gozo, como rasuras do que se apresenta como
ravinamento das águas; isto é, do que choveu dos semblantes, dos seus
significados, referindo-me à descrição que Lacan faz da experiência do
real na queda dos semblantes (LACAN, 1971).
Encontro no texto que Lacan (1971) brilhantemente chamou de “Lituraterra”
uma passagem, digo isso ao pé da letra, em que essa outra escrita se faz
pelo apagamento do traço pelo qual o sujeito é designado. Só que esse
traço só se torna apreensível ao se apagar.
Tentarei explicar.
Em alguns momentos da vida, por algum motivo, temos a sensação de um
apagamento do nosso eu – chamo de eu não a pessoa, mas algo que me
dá um certo balizamento em relação a um traço, que reconheço e identi-
fico como ‘eu’. O Eu aqui costuma ser usado com letra maíucula por estar
130 Griphos psicanálise n. 26
aqui como conceito e não como pronome, mas que, paradoxalmente, só
o percebo quando ele se apaga.
Essa vivência tanto pode me levar a uma devastação, a um desamparo
absoluto, à loucura e até à morte, como ser apenas uma pausa, um respiro.
E, como um pingo é letra para quem sabe ler, pode-se retomar a partir daí
o movimento da vida, como o das ondas do mar quando beijam a areia
retomando a infinita repetição do novo. Esse fio que vai se traçando é o
que eu chamo aqui de uma Outra escrita, que se faz pelo real da vida,
que vai traçando o caminho que cada um de nós faz e que nunca é igual,
nunca é o mesmo.
Assim, no vai e vem das ondas, os sulcos anteriores se apagam e tudo
recomeça, deixando para trás o que está escrito e seguindo em frente
sulcando a terra ou a areia, desenhando o litoral, literalmente. Na escrita,
a letra está no real e o significante, no simbólico.
Dizendo de outra forma, pela via da mulher, mais vulnerável a esse apaga-
mento, pela sua relação com o falo, semblantes vão caindo pelo caminho,
deixando rastros, que vão sulcando e criando outros nomes. Digo nomes,
no plural, porque não existe um nome que abarque toda a mulher. Nomear
o feminino e suas aproximações reúne nomes, que se aplicam a cada gota
que faz sulco no real, uma a uma, traçando bordas, que vão contendo
nosso ser de falta. Digo nosso, porque falo de uma falta que é de todos
nós, seres falantes, independentemente do gênero.
Não interessa o que está escrito, mas o movimento da própria escrita: “[...]
rasura de nenhum traço que lhe seja anterior” (LACAN, 1971, p. 113). A
letra se escreve no momento em que cai, cavando sulcos que se oferecem
para acolher o gozo, como rota lavrada por onde o gozo escorre e se aloja,
como letra que escreve a via das possibilidades do gozo de cada um, como
a chuva da linguagem que nos permite ler nos riachos e como a trama que
se faz como efeito da erosão da linguagem.
O real como dejeto é aquilo que escapa à ordem simbólica, criando marca,
rastro, sulco.
Deus, o inconsciente, o analista, o feminino e a poesia... O FEMININO E A MULHER 131
Qualquer tentativa de apreender esse real já é um semblante. O foco se
dirige para o equívoco, nome que Lacan (1976-1977) dará ao inconsciente
no seu seminário L’Insu...
Nesta conversa entre o feminino e a literatura, busco auxílio numa refe-
rência a Kierkegaard (1845), em Vino Veritas – O moderno e romântico
banquete de Kierkegaard:
Ser-se mulher é algo de tão peculiar, de tão misto, de tão compósito,
que nenhum predicado pode por si só exprimi-lo, e os muitos predica-
dos, caso os quiséssemos utilizar, contradir-se-iam mutuamente de tal
forma que só uma mulher seria capaz de suportar tal coisa; aliás, pior
ainda, seria capaz de encontrar prazer nisso.
Depois de ter encontrado essa referência a Kierkegaard, sinto-me como
se tivesse encontrado mais um nome para o feminino, caminhando pelo
litoral, onde gozo e saber se encontram, mas não se misturam.
Kierkegaard (1845) ressalta com exatidão aquilo que a psicanálise veio
formular como uma outra lógica, além da predicativa.
Sem entrar na distinção psicanalítica entre prazer e gozo, Kierkegaard
(1845) já prenunciava algo do gozo feminino, que não é privilégio das mu-
lheres, e, sim, um gozo real indizível que afeta os seres falantes e exige
um saber fazer com a falta de um significante que lhe dê suporte.
Isso não significa que as mulheres sejam equivalentes ao real, mas que
são as mais afetadas por esse real que elas mesmas encarnam. O irrepre-
sentável da pulsão se alinha ao que há de inominável no feminino.
Pode-se cernir algo do gozo feminino por meio de uma outra escrita, de
outras nomeações por meio da letra, limitando ou dando algum enquadra-
mento aos efeitos de devastação que o vazio poderia evocar.
Cada mulher, uma a uma, pode, assim, inventar um nome para o feminino,
ali, onde ele não existe no real. Ser mulher é assim, uma invenção, o que
não significa que seja qualquer invenção. Para se inventar e se reinventar
132 Griphos psicanálise n. 26
é preciso estar alinhada com seu sintoma, e não é qualquer um que faz
essa função, há um que se faz exceção. No lugar em que o significante
lhe faltou, ser mulher pode ser devastação ou criação.
Assim como Tirésias, dizer que uma mulher é não toda indica que ela é
ultrapassada por um gozo além do gozo fálico. Ela quer ser reconhecida
por essa outra metade, habitada por um gozo inominável que a faz parceira
de sua solidão.
REFERÊNCIAS
FUENTES, M. J. S. As mulheres e seus nomes – Lacan e o Feminino. Belo
Horizonte: Scriptum, 2012.
KIERKEGAARD, Sören. In vino veritas (1845). Tradução de Jose Miranda
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Zahar, 2003. p. 532.
LACAN, J. O Sinthoma. In: ______. O Seminário, livro 23. Tradução de
Sergio Laia. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2007.
PORGE, É. Transmitir a clínica psicanalítica. Campinas: Ed. da Unicamp,
2009.
RODRIGUES, G. V. No princípio era o ato. Belo Horizonte: Artesã, 2017.
Gilda Vaz ou Gilda Vaz Rodrigues. Não assino Gilda Rodrigues – Texto
de um livro meu que serviu de base para este escrito.
Deus, o inconsciente, o analista, o feminino e a poesia... O FEMININO E A MULHER 133
A SUTIL ARTE DE SE
FAZER MULHER: A
MASCARADA
Heloísa Mamede Silva Gonzaga*
RESUMO * Psicanalista. Membro da
Escola Freudiana BH/iepsi
A imagem corporal em uma mulher, isto é, a sua identificação
E-mail:
feminina, não ocorre pela erotização em relação ao real do
<hsgonzaga23@[Link]>
corpo a não ser que a falta fálica seja convertida na vantagem
de ser o falo; ou seja, no que falta ao Outro. O homem, por
sua vez, acredita que a mulher possa completá-lo, sendo a
causa de seu desejo. Em torno dessa dualidade, a mulher
se reveste de uma máscara amorosa, fazendo-se desejar
por seu parceiro. Algumas reflexões psicanalíticas sobre a
complicada divergência de sexos referente ao semblante
fálico serão propostas no presente trabalho.
PALAVRAS-CHAVE
Semblante; Gozo fálico; Gozo Outro; Fantasia edipiana;
Máscara amorosa.
RESUME
L’image corporelle chez une femme, c’est-à-dire son
identification féminine, ne se produit pas par l’érotisation par
rapport au corps réel, à moins que le manque phallique ne
soit converti en l’avantage d’être le phallus, c’est-à-dire ce qui
manque à l’Autre. L’homme, à son tour, croit que la femme
peut le compléter, étant la cause de son désir. Autour de cette
dualité, la femme porte un masquée d’amour, faisant désirer
134 Griphos psicanálise n. 26
son partenaire. Certaines réflexions psychanalytiques sur la divergence complexe entre
les sexes liée au visage phallique seront proposées dans la présente étude.
MOTS-CLES
Semblant; Jouissance phallique; Jouissance d’un Outre; Masquée d’amour.
A feminilidade só pode ser atingida ou designada pelo viés de um
semblante (ANDRÉ, 1986, p. 269).
Que a mulher seja eventualmente o objeto pequeno a do homem, isso
não quer dizer de modo algum que ela goste de sê-lo (OLIVER, 1981,
p. 11).
O fragmento de um caso em que a analisanda, aqui denominada ‘A’,
apresenta-se em um site de namoro usando dois perfis: a ‘Virtuosa’ e, em
outro, a ‘Mascarada’, ilustra as relações entre a feminilidade e o semblante.
A ‘Virtuosa’, com inúmeras qualidades, a torna ideal para um casamento
perfeito. Ao encontrar o seu parceiro, ela recusa intimidades a não ser que
seja em um lugar escuro, que lhe traga segurança. O sexo não é prazeroso
e, após alguns encontros, ‘A’, sentindo-se insatisfeita, sai de cena, criando
um novo perfil nomeado a ‘Mascarada’. Nesse perfil, apresenta-se sem
compromisso algum, permissiva, em uma linguagem completamente livre,
tornando-se objeto da fantasia de homens, que a desejam. ‘A’ se sente
traída, pois o perfil da ‘Virtuosa’ é menos visitado, mas espera que, com
o tempo, a ‘Mascarada’ desapareça completamente.
O que essa máscara feminina encobre nesse engodo de sedução traz
sempre a marca da impossibilidade do gozo completo. ‘A’ oscila entre
duas vertentes do semblante, mostrando a divisão da sua subjetividade.
Serge André (1986, p. 279) nos relata que entre esses dois tempos tem
lugar um momento da angústia:
Entre esses dois tempos tem lugar o momento da angústia durante o
qual seu medo não é tanto o de perder o falo quanto de, ao contrário,
ser capturada por seu verdadeiro detentor. Assim, o objetivo visado por
essa mulher consiste, finalmente, em se fazer reconhecer como não
A sutil arte de se fazer mulher: a mascarada O FEMININO E A MULHER 135
tendo o falo. Mas ela só pode chegar até ele de modo indireto. Para
fazer reconhecer que não o tem, deve passar por um momento em que
finge tê-lo. Este primeiro momento, no fim das contas, não é menos
enganador que o segundo, pois, fundamentalmente, é o falo que é a
máscara por excelência, o véu lançado sobre este furo inominável.
No seu texto sobre “O Homem e a Mulher”, Lacan (1971, p. 33) indica que
o semblante vem a ser a função primária da verdade:
Na verdade, que o semblante seja aqui o gozo para o homem é uma
indicação suficiente de que o gozo é semblante. É por estar na inter-
seção desses dois gozos que o homem sofre ao máximo o mal-estar
da relação que designamos como sexual. Como diria o outro, desses
chamados prazeres físicos.
Inversamente, ninguém, senão a mulher – porque é nisso que ela é
o Outro – sabe melhor o que é disjuntivo no gozo e no semblante.
Porque ela é a presença desse algo que ela sabe, ou seja, que, se
gozo e semblante se equivalem numa dimensão do discurso, nem por
isso deixam de ser distintos no teste que a mulher representa para o
homem, teste da verdade, pura e simplesmente, a única que pode dar
lugar ao semblante como tal.
Na complicada divergência de sexos, isto é, nesse teste da verdade citado
por Lacan (1971), está sempre implicada a fantasia edipiana de ter o falo;
ou seja, a falta simbolizada por parecer ter do lado do homem e parecer
ser do lado da mulher. Como consequência, podemos dizer que, assim
como existe uma ‘mascarada feminina’, existe, também, o ‘mascarado’
viril, apresentando-se, então, o feminino e o masculino como semblantes.
Para se falar em gozo feminino, é necessário dizer do ‘gozo Outro’ se-
gundo Lacan (1972-1973). O fato que o falo tem o efeito de cindir mais do
que unificar a posição feminina pode ser dito, também, para o gozo fálico.
Nessa posição, uma parte da mulher está presa ao gozo fálico, situando-
-se a outra parte ao gozo do Outro, ou gozo do corpo.
136 Griphos psicanálise n. 26
Desse pressuposto, podemos dizer que o homem tem acesso ao gozo
fálico e que esse gozo é preso ao significante. Por outro lado, a mulher
assume dois tipos de gozos: o fálico e o gozo Outro, como Lacan (1971),
assim, o nomeia. Dessa forma, observamos que, do ponto de vista dos
posicionamentos sexuais: masculino e feminino, o significante faz uma
cisão entre dois gozos e, mais especificamente na mulher, uma bipartição
de gozos. Em consequência, ela tem o gozo fálico, isto é, o acesso ao
gozo do parceiro, e, também, ao gozo Outro exclusivamente seu, ao qual
o parceiro não terá acesso.
Servimo-nos de algumas figuras clássicas de contos da literatura infantil
para exemplificar esse jogo feminino disjuntivo de gozo e semblante.
Encontramos a madrasta malvada da Branca de Neve, que, diante do es-
pelho, supostamente sabedor de sua verdade, pergunta: ‘Haverá alguém
mais bonita do que eu?’, apresentando-se, assim, no narcisismo fálico do
corpo belo e perfeito, mas que, diante da possibilidade da Outra (rival de
si mesmo), determina sua morte. Branca de Neve é salva, mas, no enga-
no da sedução da madrasta, adormece. O feitiço será quebrado por um
príncipe encantado, que vai lhe dar o amor desejado, o qual a assegure
como sujeito de sua sustentação fálica.
Cinderela é a princesa mascarada no reino da fantasia, a mais bela do
baile, não que ela quisesse ali estar, pois foi a fada que assim o quis; não
que estivesse em jogo a questão do seu desejo, mas sim de ser desejada
pelo príncipe. Mas, Cinderela, por acaso, deixa para trás seu sapatinho,
que se perdeu nas escadas do palácio, ‘acidentalmente’, fazendo com que
o príncipe, em busca da verdade, entre nesse jogo de gozo e semblante.
No engodo do jogo amoroso homem/mulher, os limites entre os direitos do
homem e os direitos da mulher se fragmentam e se confundem, o que leva
a uma interrogação constante sobre o saber de cada um. A mulher trouxe
uma nova escrita além do falo, mostrando a questão feminino/masculino.
Assim, é a pulsão, e não propriamente o desejo que encontra ou não um
A sutil arte de se fazer mulher: a mascarada O FEMININO E A MULHER 137
possível objeto de satisfação no real. Ou seja, nesse jogo, acredita-se haver
encontrado no real o objeto de seus sonhos através da escolha amorosa.
Por ser a satisfação do desejo do campo do impossível, produzindo um
vazio que não se preenche, a mulher apresenta-se ao homem através do
artifício da mascarada fálica.
REFERÊNCIAS
ANDRÉ, S. Da Mascarada à Poesia. In: ______. O Que Quer Uma Mulher?
(1986). 1. ed. Tradução de Dulce Duque Estrada. Rio de Janeiro: Zahar,
1998. p. 269-279.
LACAN, J. O Seminário, livro 18: De um Discurso que não fosse Semblante
(1971). Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2009. p. 23-35.
OLIVER, É. V. Tradução da Terceira (Lacan). São Paulo: Escola Freudiana
de São Paulo, 1981. p. 1-16.
138 Griphos psicanálise n. 26
FLUXOS DO
FEMININO EM
VIRGINIA WOOLF
Maria Barcelos de Carvalho Coelho*
RESUMO * Psicanalista e membro da
Escola Freudiana de Belo
Este trabalho, na interface entre Psicanálise e Literatura,
Horizonte/iepsi
propõe uma reflexão sobre alguns fragmentos da escrita
E-mail:
de Virginia Woolf. Vida e obra da autora cruzam-se e tecem
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uma subjetividade singular em que a posição feminina, não –
toda – fálica revela-se nas múltiplas dobras de um feminismo
engajado e de uma feminilidade fluida.
PALAVRAS-CHAVE
Texto/Corpo; Teia; Feminino; Dor; Desastre; Morte.
ABSTRACT
Considering the interface between psicoanalysis and literature,
this work proposes an reflexion on same fragments of Virginia
Woolf’s writings. The life and work of the author intercross and
weave a singular feminine posisition, not completely phallic
reveals itself on the multiple folds of engaged feminism and
fluid feminility.
KEYWORDS
Text/Body; Web; Feminine; Pain; Disaster; Death.
Impossível dissociar da experiência literária de Virgi-
nia Wolf seu tempo histórico e a densidade criadora
de seu mundo interior. Nascida no fim do século XIX,
Fluxos do feminino em Virgínia Woolf O FEMININO E A MULHER 139
na efervescência da Segunda Revolução Industrial na Inglaterra, sua vida é
também atravessada pelas duas grandes guerras, que muito contribuíram
para moldar sua sensível permeabilidade ao sofrimento. Seu olhar registra,
desde muito cedo, a opressão exercida nos corpos femininos em seus
ambientes de trabalho. A eles, deu voz e escuta, mas sabia muito bem que
não era possível viver na pele de uma operária, já que seu corpo “nunca
se dobrara numa tina de lavar” (WOOLF, 2017, p. 70-72). Seria, então, por
esse fluxo de acontecimentos filtrados por uma lírica incomum que nasce
a escrita de Virginia Woolf, em que o singular feminino enfeixa tanto seu
feminismo combativo quanto a sua feminilidade andrógena.
Em seu livro Um teto todo seu, a atenção de Virginia (2014) se volta para
as escritoras. O mesmo apelo às condições mínimas de trabalho perpassa
por sua escrita quando ela coloca, lado a lado, a ficcionista e a operária.
A invisibilidade das tarefas femininas é representada por Woolf nesse livro
pela imagem de uma teia de aranha, em que a delicadeza da trama oculta
o sofrimento nela contido – negação do valor simbólico do ofício feminino,
a mais valia de cada uma. Para Virginia,
[...] a ficção não cai como uma pedra no chão, como a ciência; a ficção
é como uma teia de aranha presa por muito pouco, mas ainda presa
à vida. Muitas vezes estar preso é quase imperceptível [...] quando a
teia é rasgada na metade é que se lembra que as teias não são tecidas
em pleno ar por criaturas incorpóreas; essas teias são o resultado do
sofrimento de seres humanos e estão inteiramente presas às coisas
materiais, como saúde, dinheiro e a casa onde mora (WOOLF, 2014,
p. 64).
A escrita é a teia de Virginia, e seu corpo/aranha secreta, a matéria fluida,
feminina, de onde cada fio é lançado – mulher em seu ato de criação, in-
transferível. Em reverso, o corpo toma, na escritora, uma outra dimensão,
não somente a carnalidade visceral, quando a escrita rouba do corpo sua
libra, mas o corpo afetado pela linguagem – erógeno, onde a letra faz
litoral e abrigo. O corpo/texto em Virginia Woolf, nesse caso, seria a ma-
140 Griphos psicanálise n. 26
terialização de sua luta feminista/feminina, território onde outras mulheres,
independentemente de classe social, puderam tomar existência.
Lembremos Mrs. Dalloway – uma de suas personagens. Virginia (1972)
penetra com sutileza a nebulosa natureza psíquica dessa aristocrata
londrina, que, em poucas horas, mergulhada em seu universo de dona
de casa, depara-se com a fronteira entre a sanidade e a loucura. Outra
personagem, Orlando, em sua ambiguidade andrógena, trouxe à luz a pos-
sibilidade de inscrever nos gêneros, masculino e feminino, a miragem de
diferentes destinos. Ao trazer para a cena literária a anatomia transfigurada
de Orlando, ela parece avançar, junto com Freud, sobre a bissexualidade
constitutiva de cada sexo.
No entanto, sintonizada com sua verdade ficcional, é possível também con-
ceber a escritora inglesa como próxima a Lacan quando este aproxima os
gêneros pelo gozo da língua. Para o psicanalista francês, os significantes
homem e mulher são fatos de discurso, mas além dos corpos sexuados.
Ao dizer que “a mulher tem uma enorme liberdade com o semblante”,
Lacan (1971/2009, p. 34) nos permite perceber a fluidez do corpo/texto da
escritora, onde a posição feminina, não toda fálica, se re(vela). A ficção
– semblante – em que uma Outra verdade fulgura romperia a rigidez dos
cânones e códigos linguísticos, para trazer aos corpos, antes aprisionados
nos ditames da civilização, um sopro de liberdade (LACAN, 1972-19731985,
p. 86).
Vivendo por um triz – o ‘des-astre’
“Nas águas onde Virginia Woolf se afogou nós podemos nadar”.1 Esse
enunciado nos permite (re)significar o episódio sombrio da morte da
escritora e incluí-lo, sem medo, nos limites dos acontecimentos de seu
conturbado ato final.
1 Dizer pronunciado pela psicanalista Gilda Vaz em 2020, no lançamento de seu
livro Que não se esmague com palavras as entrelinhas. Este trabalho tem como
coautora Regina Beatriz, também psicanalista e escritora.
Fluxos do feminino em Virgínia Woolf O FEMININO E A MULHER 141
O filósofo Maurice Blanchot (1987, p. 100), ao meditar sobre o suicídio,
aproxima-o de uma experiência mística: “[...] a hora escolhida seria uma
apoteose do instante; o instante, nela, seria a própria centelha dos místicos
[...] é um evento que não se pode dizer que é voluntário, ele extravasa os
limites da premeditação”.
Ainda em Blanchot, encontramos outro tema precioso para pensar o sen-
tido da morte no fluxo da vida e obra de Virginia Woolf: ‘A experiência do
desastre’. Por desastre, não se deve entendê-lo em sua negatividade, mas
o ‘des- astre’ – “[...] a ruptura com o astro, o desligamento da estrela. [...]
A obra é fruto do desastre, do des-astre, da queda do astro, da despos-
sessão e do des-ser” (BRANCO, 2003, p. 15). Lúcia Castello Branco, ao
escrever sobre a ‘solidão essencial’ que permeia a obra de Emily Dickinson,
aproxima a subjetividade da escritora americana do fio tênue, que enlaça a
obra da escritora inglesa. Nas pegadas de Blanchot, Lúcia Castelo Branco
nos apresenta a escrita em sua exterioridade radical – quando o des-astre
desenha-se naquele que vive sob a exigência da obra. Em Virginia Woolf,
podemos indagar se o des-astre seria afigurado tanto na premência interna
por uma escritura – aquela que dá contorno ao vazio da angústia – como
naquela que se concede aos apelos do Outro, pela urgência de publica-
ção, na medida em que se vive sob a égide de um acontecimento, no qual
não há escolha; quando o desejo vacila na iminência do apagamento do
sujeito. Ainda sobre as circunstâncias do des-astre e da dor de escrever,
Lucia Castello Branco (2003) prossegue:
O que significaria, para aqueles que vivem sob a exigência da obra,
escrever sob a ordem do desastre? Significa, a princípio, o sofrimento
de esperar, esperar pelo apagamento, pela extenuação do sujeito. [...]
Pois o desastre não se reduz ao fracasso nem à pura perda, é antes
da ordem da mais absoluta passividade, do mais além do perigo e da
paixão.
Diante do espaço literário, que abre ao extremo a fenda do sujeito, pode-
mos indagar se a obra, no que a escrita resiste para além do autor, teria
concedido à Virginia Woolf extrair sentido de uma dupla morte. Uma seria
142 Griphos psicanálise n. 26
quando o sujeito tomba sob o peso da vida, e a outra, aquela que se produz
pelo ‘exercício do símbolo’, numa espécie de perene ressurreição, como
tão bem expressou Ana Maria Portugal (2006) em seu livro, O vidro da
palavra, ao citar Roland Barthes. Para o filósofo francês, a escritura começa
quando o autor entra em sua própria morte: “[...] A escritura é esse neutro,
esse composto, esse oblíquo aonde foge o nosso sujeito, o branco e preto
onde vem se perder toda identidade a começar pelo corpo do sujeito que
escreve [...]” (PORTUGAL, 2006, p. 138).
Para encerrar nossa reflexão, lembremos os acontecimentos que se suce-
diam na Inglaterra na primavera de 1941, ano da morte de Virginia Woolf.
Bombas alemãs caíam sobre Londres, destruindo seu apartamento e a
gráfica que ela possuía junto com seu marido. De sua casa de campo, em
Sussex, ela ouvia os ruídos dos bombardeios, enquanto sua frágil estru-
tura psíquica se desmoronava. É quando Virginia se encaminhava para
seu mergulho final. Tendo escolhido as águas como destino, ela entraria
em sua própria essência – líquida, permeável, feminina –, puro mistério e
linguagem...
REFERÊNCIAS
BLANCHOT, M. A morte impossível. In: _ _ _ _ _ _. O espaço literário.
Tradução de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.
BRANCO, L. C. A branca dor da escrita: três tempos com Emile Dickinson.
Rio de Janeiro: 7 Letras; Belo Horizonte, MG: UFMG, Programa de Pós-
graduação em Letras, 2003.
LACAN, J. O seminário livro 18: de um discurso que não fosse semblante
(1971). Rio de Janeiro: Zahar, 2009.
LACAN, J. O seminário livro 20: mais ainda (1972-1973). Rio de Janeiro:
Zahar, 1985.
PORTUGAL, A. M. O vidro da palavra: estranho/escritura. In: ______.
O vidro da palavra: o estranho, literatura e psicanálise. Belo Horizonte:
Autêntica, 2006.
Fluxos do feminino em Virgínia Woolf O FEMININO E A MULHER 143
WOOLF, V. Mrs. Dalloway – Orlando. Tradução de Mario Quintana (Mrs.
Dalloway), Cecilia Meireles (Orlando). Rio de Janeiro: Brugrera, 1972.
WOOLF, V. Um teto todo seu. Tradução de Bia nunes de Souza e Glauco
Mattoso. São Paulo: Tordesilhas, 2014.
WOOLF, V. Profissões para mulheres e outros artigos feministas. Tradução
de Denise Bottmann. Porto Alegre, RS: L&PM, 2017.
144 Griphos psicanálise n. 26
A MULHER MOVE
O HOMEM? O
FEMININO MODIFICA
O FÁLICO?
Mariel Cançado*
RESUMO * Psicóloga
Participante dos seminários
Este texto propõe uma aproximação com o conceito de femini-
do iepsi
no a partir da abordagem de algumas questões da linguagem
E-mail:
e das correlações com o sujeito, o psiquismo e a análise. Para
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tangenciar essas questões, o artigo O piropo: psicanálise e lin-
guagem, de Jacques-Alain Miller (1998), foi a referência para
discorrer sobre os enigmas da comunicação, da linguagem
e da relação entre os sexos. Ressalta-se o potencial criativo
do gozo feminino numa lógica diferente da fálica.
PALAVRAS-CHAVE
Feminino; Linguagem; Psiquismo; Piropo.
ABSTRACT
This article proposes an analysis of the concept of feminine
based on some questions of language and correlations with
the subject, the psyche and the psychoanalysis. To address
these issues, the article The compliment: Psychanalysis and
language by Jacques-Alain Miller (1998) was the reference
to discuss the enigmas of communication, language and
the relationship between the sexes. The creative potential of
female jouissance is highlighted in a different logic from the
phallic one.
A mulher move o homem? O feminino modifica o fálico? O FEMININO E A MULHER 145
KEYWORDS
Feminine; Language; Psychism; Piropo (a compliment or a flattering comment).
No início da psicanálise, as histéricas, as mulheres... na sua invenção,
Freud seguiu o dizer de uma delas, Frau Emmy von N., que, na sua posição
histérica, expôs seu desejo insatisfeito, barrando o mestre ao queixar-se
que parasse de perguntar, mas que a deixasse falar! Além de Frau Emmy,
também Anna O. apontou outro caminho para Freud:
Algo distingue Freud de todos os analistas que vieram depois dele: não
repetia uma teoria, elaborava-a de forma autêntica a partir do próprio
discurso de seus pacientes. Não há teórica maior da psicanálise que
Anna O., a histérica que inventou o termo ‘talking cure’, a cura pela
palavra. Freud apenas o recolheu de sua boca. Foi ela quem o guiou
à entrada da psicanálise (MILLER, 1998, p. 57).
Já não há, aí, uma aproximação com o feminino? A questão da mulher,
presente desde os primórdios da psicanálise, manteve-se nela como seu
limite.
O sexo chamado feminino é que é fundamentalmente Outro. Seu misté-
rio não cessou de deter os homens, inclusive os homens psicanalistas,
e Freud foi, efetivamente, o primeiro a dizer que esse mistério ele não
havia decifrado, o mistério de saber o que quer uma mulher (MILLER,
1998, p. 28).
Ainda que o feminino nos conduza para além da questão da mulher, ela,
mesmo no seu falicismo histérico, denuncia que algo aí não se completa,
não se encaixa, não corresponde.
As mulheres, as histéricas, moveram o homem Freud a uma nova inven-
ção, a uma reinvenção de si mesmo, um destituir subjetivo, que fez cair o
mestre. E não é nessa capacidade criativa de buscar outra explicação, de
não se contentar com o aparente e o instituído, que Freud se aproxima do
feminino, o continente negro? Na análise, quando passamos da condição
de seres falados para seres falantes, da condição de assujeitados para
146 Griphos psicanálise n. 26
sujeitos de seu dizer, quando abrimos mão da lógica fálica, não sem ela,
não estamos no vislumbre do feminino? O sujeito, em sua demanda de
amor, no endereçamento que faz ao outro, no desamparo de sua condição,
busca reconhecimento e um significante, que o defina. Mas, o sujeito é um
significante para outro significante e o que vem do Outro não é exatamente
aquilo que o sujeito espera. Na alienação constituinte e inicial, o sujeito se
rende à resposta do Outro. Todavia, basta uma brecha, um descolamento,
um terceiro, que se insira nesta relação imaginária entre o eu e o outro,
para que algo se quebre, se perca e avente a possibilidade de significações
outras que não a única vislumbrada pelo Outro.
Para me aproximar do feminino, tomei por referência o texto O piropo: psi-
canálise e linguagem, em que Jacques-Alain Miller (1998) aborda a questão
da linguagem a partir do piropo, que se trata de um gracejo, um galanteio
que um homem dirige a uma mulher nas ruas da cidade de Caracas, na
Venezuela (o autor se refere a essa atividade própria da cultura local, onde
estava ministrando conferências, para falar da questão da linguagem). Na
emissão da mensagem espirituosa do piropo assim como no chiste, há
um enigma próprio da comunicação e da linguagem. O galanteio é feito
pelo piropeador e será bem ou mal interpretado pela mulher a quem é
dirigido. Ao passar por uma bela mulher, o homem poderá exclamar: “Ole,
tu madre!” [Olé, tua mãe!], e essa mensagem endereçada estará sujeita
ao aval do outro; aqui, a mulher.
Logo no início do texto, Miller (1998, p. 28) já demarca o caráter emblemático
do piropo, uma vez que a mensagem endereçada não pressupõe o desejo
de ficar com essa mulher, denotando até mesmo desinteresse por ela, e
marcando a incongruência da linguagem, a diferença, a não concordância
entre o dizer e o fazer: “O piropo me parece exemplar não só da função
da linguagem, mas também da relação entre os sexos, mesmo que fosse
apenas pela dissimetria que mostra entre eles”.
E quem foi que disseMETRIA, que há a medida exata entre dizer/fazer,
entre homem/mulher? Não há encaixe, não há correspondência, não há
complementação, não há relação sexual.
A mulher move o homem? O feminino modifica o fálico? O FEMININO E A MULHER 147
A mulher, a quem se pede o aval na situação do piropo, está no lugar do
grande Outro da linguagem, do código fundamental. No piropo assim como
no processo de linguagem, há uma alusão ao que se quer dizer, mas não
uma correspondência exata entre o que se quer e o que se fala. Essa incon-
gruência da mensagem caracteriza o processo mesmo da comunicação,
que é sempre um mal-entendido, e a própria beleza desse processo do falar,
pois é justamente da não correspondência entre significante e significado,
da não fixidez da linguagem e das possibilidades de representação, que a
linguagem em psicanálise nos fornece seu efeito curador. Pode-se sempre
dizer outra coisa: “As invenções significantes são a única coisa capaz de
curar” (MILLER, 1998, p. 32).
No piropo assim como no sintoma, há um endereçamento ao outro, na
busca de seu aval e de sua concordância, mas o que se encontra é a não
correspondência, a hiância, a suspensão entre o que se diz e o efeito dis-
so no Outro. O resultado não é a produção de um sentido lógico, coeso,
sem equivocação. Aquilo que falamos nos ultrapassa, nos revela e nos
apresenta uma variabilidade de significações, que, mesmo sem sentido,
nos permite novas formas de existir.
Essa alusão, essa subversão da linguagem, essa não correspondência
exata ao código, já que o dizer se limita a uma reprodução exata da reali-
dade, expõe a essência do pensamento freudiano, a questão da realidade
psíquica e do inconsciente.
Penso que o feminino se tangencia na capacidade de equivocação, do
sem sentido, da não completude, da abertura para o que não se sabe. É
no deslizar significante que o sujeito há de vir e o sem sentido há de fazer
efeito por seu potencial criativo e transformador. “O sem sentido é preci-
samente criador de significação” (MILLER, 1998, p. 29).
A separação entre locutor e ouvinte denunciada pelo piropo, também, nos
remete à nossa condição de desamparo, de alienação/separação, de su-
jeito/objeto. Quanto mais estamos agarrados a isso, menos possibilidades
148 Griphos psicanálise n. 26
inventivas nos permitimos, pois estamos atrelados ao que o Outro nos diz.
Somos seres falantes e falados, imersos no banho da linguagem, marcados
por significantes vários, que nos definem, mas não dizem tudo de nós.
Assim como as histéricas, queremos ser ouvidos para além do que estamos
dizendo. E é nessa demanda de amor, nessa transferência de um para o
outro, que a análise se processa, mas não se esgota na reciprocidade, pois
o valor da escuta está em fazer vacilar as significações mais estabelecidas.
O que se chama de transferência na experiência analítica é uma espé-
cie de piropo do analisante ao analista e é muito importante que esse
amor, sem dúvida autêntico, fique suspenso para ressuscitar todo o
discurso de amor que um ser humano nunca cessa de dirigir ao Outro
(MILLER, 1998, p. 36).
Há, pois, dois modos de gozo: o fálico e o feminino. Pode-se perseguir o
gozo fálico, a objetividade (ou será objetiVAIDADE?), a correspondência
exata entre o dito e o dizer, como pleiteiam a ciência e o positivismo, que
tudo querem saber. “Deve-se estar tão distante da mulher quanto um po-
sitivista lógico para imaginar que a linguagem tem por função essencial a
descrição exata da realidade” (MILLER, 1998, p. 29).
O conflito entre o todo sentido e o sem sentido desbanca o positivismo, o
cientificismo, a ordem perfeita e exata, a metria (mestria). É da desordem,
da incoerência, do caos que brota o gozo outro – o feminino. Contrariando
a lógica fálica que persegue a norma, a lei, o invariável, a linguagem e
a comunicação apontam para a variabilidade de significantes, de signi-
ficados, de significações. É no excesso dessa errância linguística com
suas possibilidades de equivocação, como no piropo e nas formações do
inconsciente, que o feminino apresenta seu poder subversivo e transforma-
dor. É no intervalo, na brecha, na descolagem do Outro, que se produzem
significações várias, num agito de possibilidades, que, por mais tortuoso
que seja, permite saídas mais criativas e flexíveis.
Concluindo, faço minhas as palavras de Miller (1998, p. 38):
A mulher move o homem? O feminino modifica o fálico? O FEMININO E A MULHER 149
Se me arrisquei a lhes falar um pouco do piropo, é porque essa situação
me parece exemplar pela separação que o sujeito que fala mantém com
o Outro, o Outro que está aí fundamentalmente fora de alcance, que está
aí perdido. Destaca essa separação dos sexos que nenhuma relação
sexual pode jamais preencher; destaca que a linguagem vem ocupar,
em sua função de criação espontânea ou poética, o lugar mesmo em
que essa separação surge.
Se, no início da análise, trata-se de histericizar o discurso, no final, apon-
ta-se para o feminino, a criação espontânea, o improviso, a poesia. O
movimento da cadeia significante, do deslizamento simbólico, segue em
direção ao feminino, vai se aproximando dele. Pode-se chegar lá ou não,
mas é no vislumbre da possibilidade de que o feminino modifique o fálico
que a análise aposta. “Precisamos de uma psicanálise para notarmos
esses limites tão estreitos em que estamos capturados por um número
extremamente limitado de significantes” (MILLER, 1998, p. 67).
Se o feminino é uma contingência, e não uma garantia, ainda nos restam
os poetas.
Um dia
vivi a ilusão de que ser homem bastaria
que o mundo masculino tudo me daria,
do que eu quisesse ter […]
Quem sabe
o super-homem venha nos restituir a glória
mudando como um deus o curso da história
por causa da Mulher
(GIL, 1979).
150 Griphos psicanálise n. 26
REFERÊNCIAS
GIL, G. Super-homem, a canção. 1979.
MILLER, J.-A. Percurso de Lacan – uma introdução. Rio de Janeiro: Zahar,
1998.
A mulher move o homem? O feminino modifica o fálico? O FEMININO E A MULHER 151
MIOLO DE POTE E O
FEMININO
Regina Pachêco*
Lacan, o analista, abre buracos, mina o fun- * Psicóloga, psicanalista
damento, desconstrói para reunir em outras e membro da EFBH/iepsi,
bases. O prazer está nos buracos, nas falhas coautora, entre outros, do livro
Rastros de amor: psicanálise,
(SCHÜLER, 2009, p. 7-8).
conto e poesia (2016)
E-mail:
RESUMO <reginapacheco@[Link]>
Trata-se da escrita de um testemunho que marca a elaboração
de um saber singular sobre o lugar de analista, recolhidos em
enunciados poéticos no divã sobre o Feminino.
PALAVRAS-CHAVE
Feminino; Miolo de Pote; Discurso de Analista.
ABSTRACT
It is the writing of a testimony that marks the elaboration of a
singular knowledge about the place of the analyst, collected in
poetic statements on the divan about the Feminine.
KEYWORDS
Feminine; Pot Brain; Analyst Discourse.
Este texto é uma construção de uma analisanda, a
partir da imagem de um pote e do miolo, resgatada da
sua infância. A elaboração passa por uma perspec-
tiva do que fazer com o que é interminável em uma
psicanálise. Portanto, trata-se não mais de simples
queda do objeto a, e sim do que fazer com isso: uma
saída singular!
152 Griphos psicanálise n. 26
Que manejo é possível como saída de algo que não se explica, que é in-
visível e opaco à palavra? Freud nomeia como pulsão, indicando que sua
satisfação está no constante esvaziamento da tensão no nível mais baixo
possível. Segundo Lacan, o gozo se define como inerente ao próprio ser;
um resto inassimilável e constante, que faz o corpo vibrar (VAZ; PACHÊ-
CO; SETTE, 2016).
A metáfora “miolo de pote”1 é rica de significados esclarecedores para o
trabalho sobre o gozo, por vezes desmedido, que transborda em angústia.
Por falar em gozo, no caso o gozo fálico ou sexual, às duas fontes de
excitação sexual da mulher, o clitóris e a vagina, que contribuem para o
orgasmo feminino, acrescenta-se outra – a conversa. É nessa fronteira,
curta e ao mesmo tempo longa, que o devir há de vir, num vaivém. É nesse
intervalo entre o biológico e o psíquico que se encontram os fundamentos
do tornar-se mulher, apontando para um Outro gozo – o feminino – além
do gozo fálico.
O que quer o feminino na mulher?
O feminino aqui é um não todo fálico e, ao mesmo tempo, um não todo
vazio – miolo de pote. Portanto, restam ritmo, energia e pulsações pró-
prias, presentes nas conversas infinitas, que envolvem as mulheres. Que
outros destinos pode ter uma mulher para além da sublimação? Vicissitude
possível para o excesso pulsional, que não se consegue realizar no sexo,
independentemente da maior ou menor permissividade de cada cultura
(FREUD, 1915/1974; KEHL, 2018).
Quão difícil é considerar o feminino a partir da clínica psicanalítica e na
contemporaneidade como categoria descolada da figura da mulher e da
feminilidade?!
1 Expressão do nordeste brasileiro. Nas casas, era comum ter pote para armazenar
a água a ser retirada, tipicamente, com uma cuia – uma espécie de colher grande.
No fundo do pote, acumulava-se o que se chama de miolo de pote; ou seja, as
sujeiras que ficavam decantadas. No manejo ou balanço, os restos turvavam a
água, que não ficava boa para beber.
Miolo de pote e o feminino O FEMININO E A MULHER 153
Essa imagem vívida traz “um fazer sempre com cuidado para não turvar
minhas águas”. É sempre um risco não deixar que venha de fora ou de
dentro. Também, faz-se possível escolher um ou outro elemento a ser
utilizado, que não turvasse tanto a vida nem a escrita.
Uma contenção foi concebida: miolo de pote, que coloca a verdade de que
a água que mata a sede se decanta num fundo, que se deposita como
outra coisa; torna-se miolo de pote.
Um confinamento do gozo, que aponta para uma saída, porque, como
demarca Lacan (1972-1973/2008), nesse espaço do gozo, tomar algo de
circundado, de fechado, é um lugar. Falar dele é uma topologia, que guarda
equivalência com a estrutura.
Solicita-se, na análise, uma saída. Em nome de quê? De fazer girarem os
outros discursos. O discurso do analista. Troca de discurso? Uma muda:
um alto lá para o gozo na sua entranha de sofrimento. No Seminário 20:
Mais, ainda, Lacan (1972-1973/2008, p. 24) diz: “Isso mexe, isso os, isso
nos, isso se atravessa, ninguém marca a batida”.
Pelo discurso do analista, o sujeito se manifesta em sua hiância; ou seja,
naquilo que causa o seu desejo.
Como verbetes de miolo de pote, um leque de significados se abre: besteira;
ficar à deriva (ao acaso, sem rumo); ficar à divina (sobrenatural, encantado,
endeusado); ficar pasmado (espantado, impressionado, assombrado) e
ficar no tinteiro (não ser dito ou escrito). Todos eles, a meu ver, guardam
correlações e associações com o que está sendo tratado – o feminino.
Vou me ater a dois deles: a besteira e o ficar no tinteiro.
O primeiro verbete: besteira, que é falar besteira, papo furado, coisa in-
significante, falar água.
Deparo-me, no Seminário Mais, ainda, com a referência de Lacan (1972-
1973/2008, p. 13) quando ele articula sobre a besteira, que passo a recor-
154 Griphos psicanálise n. 26
tar. Ele diz que “a análise demonstra e denuncia [...] que a substância do
pretenso objetal – papo furado – é de fato o que, no desejo, é resto, isto
é, sua causa e esteio de sua insatisfação, se não de sua impossibilidade”.
É da besteira que a gente se alimenta. É preciso alimentar a besteira: “A
dimensão imaginativa, é disto justamente que a gente se alimenta” (LA-
CAN, 1972-1973/2008, p. 21). Então, mais adiante, Lacan menciona outras
locuções extravagantes. Portanto, elas não querem dizer outra coisa senão
isso – a subversão do desejo.
Não é de interpretar que se trata tanto a função do analista, e sim de sus-
tentar: o desamparo, a incerteza e o sentimento de morte. O desejo só nos
conduz à visada da falha quando se demonstra que o Um só se aguenta
pela essência do significante. O que faz aguentar a imagem é um resto!
Uma coisa é se ancorar no significado e outra, na marca (significante).
Freud (1896/1977), na Carta 52, chama de marca uma primeira impressão,
que é o que Lacan chama de significante. Essa marca é da ordem de uma
letra, que o torna sujeito humano.
O que é essa significância? Lacan (1972-1973/2008) responde que, nesse
nível em que se está, é aquilo que tem efeito de valor. Fala do sério real.
E acrescenta que isso só se obtém depois de um tempo muito longo de
extração, de extração para fora da linguagem, de algo que lá está preso.
Só que, se eles têm o ar de nada terem a ver com o que os causa, é por
que a gente espera que aquilo que os causa tenha certa relação se eles
têm o ar de nada terem a ver com o que os causa, é por que a gente espera
que aquilo que os causa tenha certa relação com o real.
Quando se trata da dimensão do real, o verbete ‘deixar no tinteiro’ guarda
relação com o que não pode ser dito ou escrito, mas que, mesmo assim,
se faz necessário reconhecermos pelo manancial que pode representar.
Na continuidade do trabalho analítico, surge som de canção com a qual a
analisanda se ocupa a cantarolar repetidamente:
Miolo de pote e o feminino O FEMININO E A MULHER 155
Por favor
Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d’água
(BUARQUE, 1975).
Intervém o analista encerrando a seção: é de cantar que se trata.
Depois, uma segunda associação musical lhe volta à memória:
Atiraste uma pedra/ No peito de quem/ Só te fez tanto bem/ E quebraste
um telhado/ Perdeste um abrigo/ Feriste um amigo.
Conseguiste magoar
Quem das mágoas te livrou.
[...]
Mas acima de tudo
Atiraste uma pedra
Turvando esta água
Esta água que um dia
Por estranha ironia
Tua sede matou
(MARTINS; NASSER, 1958).
Enunciados poéticos são recolhidos no divã aos borbulhões oriundos do
Feminino como uma pulsão espetacular. A um só tempo, num só golpe, é
separação e junção:
Eros Erosão Irisão
Decantação desencanto decantar.
Numa vertigem: do representante psíquico mágoa,
um quantum de afeto; Má água! Má água!
Na discussão empreendida por Freud (1937/1976) sobre o término possível
de uma análise, o que se encontra como uma das possibilidades, a saída
mais favorável (próspera) é quando o analista exerce uma influência de
tão grande consequência sobre o analisante que não se pode esperar que
156 Griphos psicanálise n. 26
nenhuma mudança posterior se realize nele caso sua análise venha a ser
continuada (FREUD, 1937/1976). Não se trata de chegar a uma normalidade
psíquica absoluta, um permanecer estável.
Como saídas motivadas por uma dramaturgia, que cerca o tornar-se a si
mulher, que envolve o complexo jogo entre a passividade e a atividade, as
reviravoltas das mudanças de objetos de amor e de lugar de investimento
no corpo, Paul-Laurent Assoun (1993) faz uma reflexão original e rigorosa
da teoria freudiana fundamentada no querer-feminino, que, muito mais que
uma junção, torna-se um princípio.
No querer-feminino, pode-se entrever um dos estádios pelos quais a menina
atravessa, nos três tempos do Édipo, no passo a passo, um determinante
rumo ao feminino. Feminino, que num terceiro tempo, nem sempre alcan-
çado, mas que, quando acontece, cada uma se aproxima mais ou menos.
Do querer feminino ao desejo, é desejo de ser um abrigo – inominável do
ventre materno.
Faço minhas a palavra de Donald Schüler (2009) de que o que resta é o
corpo da mulher, prazeroso lugar de passagem, luminosa fonte de saber.
Portanto, resta-nos o dom que não temos e que nos elegeu como lugar
para se doar.
Termino por meditar sobre a famosa afirmação de Freud (1933) de que é
preciso uma grande dose de atividade para que uma meta passiva se esta-
beleça. Eros origina o desejo de falar. Assim, num mais ainda, empenho-me
em entrelaçar o fio desta escrita formalizando com Lacan (1977-1978, p.
41): “Aí está. É o que eu chamo também ‘o que faz buraco’, pois um toro
faz buraco. Um toro, isto passa, com razão, por esburacado”.
Ao final, no tempo de concluir a análise, o inédito... Em vez do pote de
ouro, o miolo de pote!
Miolo de pote e o feminino O FEMININO E A MULHER 157
REFERÊNCIAS
ASSOUN, P.-L. Freud e a mulher. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro:
Zahar, 1993.
BUARQUE, C. Gota d’água. 1975.
FREUD, S. Análise Terminável e Interminável (1937). Tradução sob direção
de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1976. (Edição standard brasileira
das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 23).
FREUD, S. Carta 52 (06 dez. 1896). Tradução sob direção de Jayme
Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1977. (Edição standard brasileira das
obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 1).
FREUD, S. Conferência XXXIII: Feminilidade. Tradução sob direção de
Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1933 (Edição standard brasileira
das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 22).
FREUD, S. Os instintos e suas vicissitudes (1915). Tradução sob direção de
Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1974 (Edição standard brasileira
das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 14).
KHEL, M. R. Posfácio: Freud e as mulheres. In: _ _ _ _ _ _ _. Amor,
sexualidade, feminilidade. Tradução de Maria Rita Salzano Moraes. Belo
Horizonte: Autêntica, 2018. p. 353-368. (Obras incompletas de Sigmund
Freud, v. 7).
LACAN, J. O seminário, livro 20: Mais, ainda (1972-1973). Texto estabelecido
por Jacques-Alain Miller. Tradução de M. D. Magno. 3. ed. Rio de Janeiro:
Zahar, 2008. (Campo Freudiano no Brasil).
LACAN, J. O Seminário 25: Momento de concluir (1977-1978). Tradução de
seminário inédito. Publicação fora do comércio. Edição heReSla.
MARTINS, H.; NASSER, D. Atiraste uma pedra. 1958.
SCHÜLER, D. O Banquete/Platão. Tradução, notas e comentários. Porto
Alegre, RS: Coleção L&PM Pocket, 2009.
VAZ, G.; PACHÊCO, R.; SETTE, T. Rastros de Amor – Psicanálise, Conto
e Poesia. Belo Horizonte, MG: Letramento, 2016.
158 Griphos psicanálise n. 26
O CORPO
MORTIFICADO
NA NEUROSE
OBSESSIVA
Alessandra Alvarenga Spadinger*
RESUMO * Formada em Direito,
funcionária pública, mediadora
Este artigo detalha o caso clínico de um paciente com estrutu-
de conflitos e psicanalista
ra obsessiva grave, com depressão e ideação suicida, no qual
membro da Escola Freudiana
a questão da morte esteve presente em todas as sessões;
de Belo Horizonte/iepsi
notadamente, a aniquilação completa do corpo.
E-mail:
PALAVRAS-CHAVE <alespadinger@[Link]>
Psicanálise; Corpo; Sexualidade; Inibição; neurose obses-
siva; Morte.
ABSTRACT
This article details the clinical case of a patient with a severe
obsessive structure, with depression and suicidal ideation, in
which the issue of death was present in all sessions, notably,
the complete annihilation of the body.
KEYWORDS
Psychoanalysis; Body; Sexuality; Inhibition; Obsessive
neurosis; Death.
160 Griphos psicanálise n. 26
Epígrafe
Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa
miséria (ASSIS, 1881, p. 99).
Não é possível deixar o corpo de fora da dinâmica da neurose obsessiva. Ao
contrário da histeria, na qual o indivíduo entrega seu corpo ao outro como
um representante do seu inconsciente, através da conversão histérica,
evidenciando todas as suas questões e impasses, o indivíduo obsessivo
despende enorme esforço para manter seu corpo inibido, silenciado e
praticamente mortificado, principalmente no tocante a qualquer coisa que
faça referência ao campo sexual. Para tanto, utiliza-se de três caminhos
possíveis: inibir-se, recalcar a manifestação do desejo e produzir um sin-
toma ou angustiar-se a ponto de se aproximar perigosamente da morte,
sendo esse último o caso descrito neste artigo.
Freud (1895/1996) descreve, na neurose obsessiva, um estado típico
muito ligado à autorrecriminação. O indivíduo tem receio constante de ter
cometido uma falta. Sabemos que, no processo de constituição psíquica
do sujeito, os mais conflitivos impulsos hostis parecem vir da infância,
esta como origem de diversas derivações psicopatológicas, e que teriam
sua fonte nas figuras parentais, conforme trecho de uma carta de Freud
a Wilhelm Fliess:
Os impulsos hostis contra os pais (o desejo que morram) são também
elementos integrantes das neuroses. Eles vêm à luz, conscientemente,
como ideias obsessivas. Na paranoia, o pior aspecto dos delírios de
perseguição (desconfiança patológica dos governantes e monarcas)
corresponde a esses impulsos hostis contra os pais. Esses impulsos
são recalcados nos períodos em que desperta a compaixão pelos
pais - nas épocas de doença ou morte deles. Nessas ocasiões, cons-
titui manifestação de luto recriminar-se pela morte deles (a chamada
melancolia) ou punir-se histericamente por meio da ideia da retaliação,
com os mesmos estados de doença que eles tiveram (MASSON, (1887-
1904/1986, p. 251).
O corpo modificado na neurose obsessiva ESTRUTURAS CLÍNICAS 161
Com efeito, o corpo materializa o posicionamento do sujeito frente ao
desejo e, ao mesmo tempo, serve para demonstrar a forma de gozo na
clínica através da inibição, do sintoma e da angústia. São estratégias
que, na neurose obsessiva, permitem ao sujeito manter o desejo como
impossível. Segundo definição de Freud (1901/1996), a neurose obsessiva
difere da histeria justamente por ter seus sintomas expressos na esfera do
pensamento, e não na esfera somática.
Ora, o corpo é o espaço onde a sexualidade é vivida, onde o desejo se
expressa e, sobretudo, é para onde a angústia é dirigida. Assim, as ques-
tões acerca da sexualidade e as dificuldades que o sujeito tem em relação
a essa esfera de sua vida, necessariamente, se expressam ali.
Outra característica marcante do tipo clínico obsessivo: a morte. Preso
em seu embaralhamento, onde o desejo se esconde, o indivíduo trabalha,
incessantemente, para a morte. Isto é, faz de sua neurose um modo de
lidar com o desejo, colocando em jogo a sua finitude, a contingência e um
viver permeado por um eterno risco.
Freud (1923/1996) já falava que os receios de viver ou de morrer são ex-
pressões do supereu. Desses medos, nasce o temor da neurose obsessiva
diante da vida e, notadamente, diante da sexualidade. As obsessões e
os rituais obsessivos são justamente modalidades de proteção contra as
tentações sexuais, que impulsionam a vida.
As exigências desse supereu aparecem de diversas maneiras no obses-
sivo: nas tarefas repetitivas e desgastantes, nas compulsões em busca
do gozo, no sentimento de culpa, nos fracassos mantidos e reiterados,
nos adoecimentos, nas submissões e nos rituais. O perigo pulsional leva
o supereu a ir em direção à destruição, o que torna muito particular a re-
lação do sujeito obsessivo com seu desejo. Ele se submete a um supereu
tirânico para sustentar uma fantasia: a da existência de um grande Outro
ou de que a falta pode ser tamponada.
162 Griphos psicanálise n. 26
A neurose obsessiva coloca o masoquismo e o sacrifício em cena: priva-
ções, cortes, dores e penitências são exemplos da ação do supereu e,
geralmente, tais punições e sacrifícios envolvem o corpo, tudo na busca
por um ideal. Nas palavras de Lacan (2008, p. 359), abordando o corpo
na neurose obsessiva: “O corpo, o corpo idealizado, reclama um sacrifício
corporal”.
Sobre o lugar do corpo na neurose obsessiva, Freud (1896/1996) veio
afirmar que, em todos os seus casos de neurose obsessiva, ele descobriu
um substrato de sintomas histéricos. Essa mesma ideia se repetiu anos
depois ao afirmar que toda neurose obsessiva parece ter um substrato
de sintomas histéricos, os quais se formam em uma fase bem primitiva.
Pois bem. Como dito, diante do desejo, o sujeito tem algumas opções:
inibir-se, recalcá-lo e produzir sintoma ou se angustiar. A inibição, o sinto-
ma e a angústia são, portanto, respostas do sujeito ao desejo do outro e
podem gerar um efeito de localização do gozo na neurose. É o que se vê
no sujeito obsessivo, que nos mostra um corpo fixado, um corpo que fica
“na intenção de continuar preservado, fica intacto, à espera do julgamento
final” (GAZZOLA, 2002, p. 155). É um corpo que deve ser, principalmente,
dominado. Para isso, o sujeito busca, simplesmente, um corpo esvaziado
de gozo.
Outro ponto bastante comum na clínica do obsessivo é a mortificação.
Freud (1916/1996), analisando aqueles que se arruínam pelo êxito, retoma
a formulação dos que adoecem ao se depararem com a realização de um
desejo. Fala-se mesmo em flagelação, que nada mais é que uma prática
erótica, em que o corpo é tomado como objeto de gozo. Ao se deparar
com o desejo, o neurótico obsessivo pode experimentar a angústia de
forma avassaladora. Enquanto não faz um sintoma, nomeando e dando
um formato a ela, o sujeito dá corpo à angústia no aperto na garganta, na
falta de ar, nas autolesões, na agitação, na diarreia, no vômito, nas crises
de suor, na insônia.
O corpo modificado na neurose obsessiva ESTRUTURAS CLÍNICAS 163
Como tratar alguém que anula qualquer risco? Porque a análise em si
implica em grandes riscos. A entrada em análise do obsessivo é muito
difícil, morosa, encontra extrema resistência. Em regra, o analista encontra
grande dificuldade em tirar o obsessivo de seu refúgio.
Então, quando um obsessivo procura a análise? Em momentos em que o
sofrimento e a angústia atingem níveis insuportáveis, que o levam a assumir
o ‘risco’ do jogo analítico. Mesmo assim, ele fica preso em suas defesas,
dando voltas e voltas, como que preso dentro de uma armadura, para evitar
o horror de seu desejo, preferindo até mesmo a morte.
Caso clínico: Érico (nome fictício), 47 anos, casado, mecânico, chegou para
análise depressivo, chorando, completamente acabado, pesadamente me-
dicado há anos, com fala pastosa. Relata sentir um medo de tudo, angústia
grande, dor, vergonha dos amigos, estava de licença médica do trabalho
e não sabia se conseguiria voltar. Sofre com pensamentos negativos re-
correntes. Vive agoniado, com tremores, calafrios, insônia, pensamentos
descontrolados, sente-se “como se estivesse no fundo do oceano com
uma pressão grande no peito”. Não se acha digno de nada, pensamento
de que não serve para nada, “tenho tanto medo de errar”, “quero acabar
logo com esse sofrimento”.
Relatou que teve uma primeira crise depressiva aos 21 anos, mas, desde
os 17, já falara com seu pai desses sentimentos. Seu pai faleceu de infarto
quando ele tinha 21 anos, tentaram socorrê-lo, mas chegou ao hospital
morto. Exatamente 21 dias após, ele teve uma crise de água na pleura,
desmaiou, estava com 75% dos pulmões comprometidos, risco de morte,
ficou internado duas semanas, perdeu muito peso, chegou a pesar 50
kg. Médicos falaram de causa psicológica. Depois, ficou completamente
recuperado, sem sequelas.
Com o tempo, revelou carregar a absoluta certeza de sua culpa no infarto
do pai. Disse que, antes de o pai morrer, falara com ele que não queria
ter filhos. O pai lhe perguntou o porquê, e ele respondeu que não queria
164 Griphos psicanálise n. 26
dar para seus filhos a mesma ‘herança maldita’ que o pai passara para
ele. Essa ‘herança maldita’ seria ser muito correto, honesto, certinho, ter
palavra, ser perfeitinho, intransigente, o que ele acha que o prejudicou na
vida. Ele gostaria de ser mais ‘malandro’. Disse que o pai o abraçou cho-
rando, e ele reafirmou que não queria ser como ele e muito menos dar a
um filho essa ‘maldição’. Afirmou que não gosta de si mesmo, não gosta
da vida e tem a certeza de que matou o pai de desgosto.
Sobre a infância, narrou que sua mãe o comparava muito com outras
crianças. Dizia que ele era o pior neto. Havia uma marca de abandono
por parte da mãe, que esquecia de buscar ele e a irmã na escola. Tinha
muita competição com essa irmã pelo amor da mãe, rivalidade em diver-
sas fases da vida. Atualmente, não se falam. Sente que a mãe protege a
irmã mais que ele embora ele seja o filho ‘perfeito’, que não bebe, não sai
e nunca aprontou.
É muito reprimido sexualmente. Relatou da vergonha sobre seu corpo, que
não tem coragem de tirar a camisa na frente de uma médica, que não fica
nu com a esposa, que, desde pequeno, não sabe lidar com o olhar feminino.
Disse que, na família, sexo era um tabu, que Deus castigava e, por isso, não
tinha muitas informações a respeito. Não se olhava nu, porque era pecado.
O pai falava para ele tomar cuidado pelo fato de ter uma irmã e que, por
isso, tinha medo até de beijar na boca. Relatou que, aos 12 anos, viu um
tarado correndo pelado na rua e começou a ter curiosidade. Narrou, com
muito pudor, que, então, propôs à irmã que ficassem nus na frente de um
espelho, o que não se lembra se ocorreu, mas que sentiu muita vergonha
de ter proposto aquilo. Não se lembrava, com certeza, se tiraram a roupa
afinal ou se houve algum toque. Havia um branco na memória.
Toda sessão estava permeada pelas ideias de morte e pelo desejo suicida,
que o acompanhava desde a juventude. Sempre, relatava pesquisas, que
fazia na internet sobre maneiras de morrer. Relatou, várias vezes, que não
queria velório, que já estava pesquisando preços de funerárias, que ia
deixar tudo arranjado, crematório pago e instruções para que suas cinzas
O corpo modificado na neurose obsessiva ESTRUTURAS CLÍNICAS 165
fossem jogadas no vaso sanitário. Questionado sobre isso, explicou que
era uma ‘bosta’, que não valia nada e que ‘nem de adubo servia’, que não
ia ter nada de plantar uma árvore com suas cinzas. Foi bem específico
nisso: queria deixar garantido que seus restos mortais fossem jogados na
privada, pois não queria deixar nenhuma ‘semente’.
Falou, várias vezes, sobre essa repulsa em ter filhos e que sempre avisava
às namoradas que não queria ser pai. Afirmou que seu casamento estava
no fim e pensava em maneiras de ‘compensar’ a esposa, deixando todos
seus bens para ela. Disse que estava planejando voltar para a casa da
mãe, onde também mora a irmã, mas, para morar num porão e fazer a
mãe escolher entre ele e a irmã. Disse que ia “tomar o seu lugar de filho”.
Tinha outras características obsessivas: uso de mantras para se proteger,
consubstanciado numa frase, que tinha que ser repetida um determinado
número de vezes. Era perfeccionista e sofria de transtorno obsessivo com-
pulsivo, pois conferia repetidamente se tinha realmente fechado a tampa do
óleo ou se tinha fechado as portas. Disse que, quando fazia sexo, mesmo
com a esposa, sempre usava camisinha e tinha que conferir mil vezes se
não tinha vazado.
Posteriormente, nos seus planos para se matar, revelou que estava pla-
nejando pedir demissão para antes fazer algumas coisas que queria fazer
há muito tempo, duas despedidas antes de morrer: uma viagem de moto
e fazer sexo sem compromisso com uma puta!
Joël Dor (1991), falando sobre o neurótico obsessivo, descreve seu es-
crupuloso cuidado com a honestidade em qualquer assunto, o que dá,
também, a plena medida da comovente ingenuidade, que demonstra em
certas circunstâncias, e que o obsessivo prefere “antes morrer do que
ceder uma polegada de terreno”. Segundo o autor, “fica claro que esta
posição legalista, através da qual o obsessivo pactua com o grandioso e
o martiriológico, é tomada na medida inversa do desejo inconsciente de
transgredi-la” (DOR, 1991, p. 107-108).
166 Griphos psicanálise n. 26
Fato é que o paciente preferia morrer do que deixar aflorar nele seus desejos
‘repelentes’, como transar com uma prostituta, por exemplo. A palavra dele
é ‘dívida’. Ele, provavelmente, deve ter querido a morte do pai e sentia uma
culpa avassaladora por isso. E o paciente não vai conseguir nunca pagar
essa dívida, pois o pai morreu antes. Então, ele teve que morrer também,
o que lhe gerou aquele colapso aos 21 anos. Apesar da herança maldita,
ele queria ser como o pai e, quando se aproxima do divórcio da esposa,
em verdade, quer tomar o lugar do pai ao lado da mãe na casa dela. Quis
exterminar o pai. Então, merece morrer. Neste esteio, não ter filhos, não
deixar nenhuma semente nem para adubo, ter seu corpo completamente
eliminado, com suas cinzas jogadas privada abaixo.
REFERÊNCIAS
ASSIS, M. de. Memória Póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro:
Typografia Nacional, 1881.
DOR, J. Estruturas e clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Taurus-Timbre,
1991.
FREUD, S. Estudos sobre a histeria. In: ______. Edição standard brasileira
das obras completas de Sigmund Freud, 6 (1895). Rio de Janeiro: Imago.
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FREUD, S. Observações adicionais sobre as neuropsicoses de defesa.
In: ______. Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund
Freud (1896). Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, S. Psicopatologia da vida cotidiana. In: ______. Edição standard
brasileira das obras completas de Sigmund Freud, 8 (1901). Rio de Janeiro:
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FREUD, S. O eu e o isso. In: ______. Edição standard brasileira das obras
completas de Sigmund Freud (1923). Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, S. Arruinados pelo êxito (1916). Rio de Janeiro: Imago, 1996.
O corpo modificado na neurose obsessiva ESTRUTURAS CLÍNICAS 167
GAZZOLA, L. R. Estratégias na neurose obsessiva. Rio de Janeiro: J.
Zahar, 2005.
LACAN, J. O seminário, Livro 16: de um Outro ao outro. Rio de Janeiro:
J. Zahar, 2008.
MASSON, J. M. A Correspondência Completa de Sigmund Freud para
Wilhelm Fliess (1887-1904). Rio de Janeiro: Imago, 1986.
RIBEIRO, M. A. C. Um certo tipo de mulher – mulheres obsessivas e seus
rituais. Rio de Janeiro: Rios Ambiciosos, 2001.
168 Griphos psicanálise n. 26
VERTUMNUS EM
SEUL: UMA PSICOSE
KAFKIANA
Gustavo Rodrigues Borges de Araújo*
Resumo * Psicanalista
Mestre pela Universidade
O texto aborda a psicose através da personagem Yeonghye,
Federal de Minas Gerais
protagonista do livro ‘A Vegetariana’, de Han Kang. Destaca-
(UFMG)
-se uma passagem de Jacques Lacan na qual se aponta a
E-mail:
importância da autenticação do imaginário na psicose, algo
<[Link]@[Link]>
do qual carece a personagem em questão. Na ausência de
algo que possa fazer essa autenticação, Yeonghye se vê
destinada a uma transformação no real do corpo, o que lhe
confere um trágico fim.
Palavras-Chaves
Psicose; Imaginário; Literatura.
Abstract:
This text addresses psychosis through the character of
Yeonghye, protagonist of the book “A Vegetarian”, by Han Kang.
The author highligths an idea from Jacques Lacan in which
he indicates the importance of authenticating the imaginary
in psychosis, something that the character in question lacks.
In the absence of something that can do this authentication,
Yeonghye finds herself destined for a transformation in the
real of the body, which leads her to a tragic end.
Keywords
Psychosis; Imaginary; Literature.
Vertumnus em Seul: uma psicose kafkiana ESTRUTURAS CLÍNICAS 169
Iniciamos nosso cartel por meio de um breve estudo sobre o processo de
leitura na psicanálise, mas logo caímos num outro conceito: ‘desleitura’ –
termo que se refere a uma leitura muito séria, aquela que, ao se realizar, se
faz por meio da inclusão do leitor, em sua singularidade, no texto. É claro
que, quando falamos em singularidade, evocamos, aqui, o inconsciente,
que, num processo de leitura, aproveita a letra escrita para se fazer ouvir.
Tendo aprofundado essa ideia, aventuramo-nos em uma leitura. Esco-
lhemos o livro A vegetariana, da escritora sul-coreana Han Kang (2018).
Se Freud diz que um pensamento tem valor de ato no psiquismo, ler um
romance pode ser uma grande bofetada. Nesse sentido, a leitura desse livro
me caiu como uma espécie de advertência. Não pude deixar de pensar em
como a personagem principal, Yeonghye, carece de algo que um psicanalis-
ta poderia oferecer, isto é, uma postura ética capaz de preservar, em alguns
casos, as soluções que os sujeitos encontram para seu sofrimento. Creio
que esse pensamento só pode vir à tona por uma habilidade da escritora.
Kang (2018) escreve de forma especialmente cristalina, permitindo que a
história da personagem principal tenha os elementos necessários para a
construção de um caso clínico. Algo de que, talvez, só mesmo a ficção
literária pudesse dar conta.
Obviamente, Kang (2018) somente nos relata a história de Yeonghye. É
minha leitura singular que me fez sentir convocado enquanto analista. O
que, para mim, é cristalino nesse livro é a carência circunstancial de algo
que Lacan (1955-1956), em seu seminário “As psicoses”, chamou de ‘au-
tenticação do imaginário’ no contexto da clínica da psicose. A história de
Yeonghye é dividida em três partes, nas quais podemos ver três fracassos
dessa autenticação, que se seguem da seguinte forma: primeiramente, o
fracasso da vegetariana; em segundo lugar, o fracasso da pintura corpo-
ral; e, por último, o derradeiro destino da personagem, o engodo de se
transformar num vegetal.
A história de Yeonghye é marcada por uma vivência bastante significativa,
que ocorre quando a personagem contava seus nove anos de idade. O
cachorro da família, mais especificamente do pai, a morde, arrancando-lhe
170 Griphos psicanálise n. 26
um naco da perna. O pai, em uma espécie de vingança, mata o cachorro
de maneira cruel: amarra-o numa moto e o faz correr até a morte. Essa
crueldade tem um propósito alimentício. Segundo a cultura popular local,
a carne do cachorro que morre correndo é mais macia. Desse modo, intuí-
mos que esse cachorro virará banquete. Novamente, seguindo a sabedoria
popular, é prescrito a Yeonghye comer a carne desse cachorro como forma
de tratamento de sua ferida. Ela o faz e diz até que ‘comeu bastante de sua
carne’, mas logo percebemos que algo não saiu bem. Ela vê refletidos, na
comida em seu prato, os olhos do cachorro – olhos esses que já a haviam
‘invadido’ quando ela avistara a moto com o animal amarrado.
Mais tarde em sua vida, esse pedaço de carne retorna com todo o índice de
forclusão, retorna no real. Ela diz: “Tenho alguma coisa entalada na boca
do estômago. Não sei o que é. Mas está sempre aqui [...] É por causa da
carne. Comi carne demais. Todas essas vidas estão entaladas aqui. Tenho
certeza” (KANG, 2018, p. 50). Podemos dizer que essa carne entalada é
o objeto não extraído, é seu objeto a no bolso, o qual lhe traz angústia.
Yeonghye passa a ter sonhos de fragmentação. São pedaços de carne...
Tudo isso a deixa psicoticamente perplexa.
A partir daí, vemos tentativas de cura, como diria Freud (1914-1916). A
primeira delas, como mencionei anteriormente, é tratar essa carne, esse
objeto, através de um vegetarianismo; mais precisamente, de um veganis-
mo, pois a personagem tende a evitar qualquer alimento de origem animal.
A impossibilidade de não poder evitar a carne causa-lhe uma perturbação
radical. Essa poderia ser pensada como uma primeira necessidade de
autenticação do imaginário. Quando Lacan (1955-1956) apresenta essa
ideia, o imaginário ainda não tem a expressão que terá mais tarde como
um dos registros do nó borromiano apesar de a tríade ‘simbólico, imaginá-
rio e real’ estar presente desde o início de seu ensino. Nesse momento, o
imaginário é a significação, que contrasta com o simbólico como o campo
do significante, e com o real enquanto o que Lacan (1955-1956) chama
de discurso efetuado. De qual significação, portanto, estamos falando? De
uma significação que não diz, mas está lá.
Vertumnus em Seul: uma psicose kafkiana ESTRUTURAS CLÍNICAS 171
Numa neurose, poderíamos dizer que o vegetal vem no lugar da carne,
como um S2 (vegetarianismo/carne: a carne estaria abaixo da barra, sob o
efeito do recalque). Na psicose, não há essa barra, e o efeito da ausência
da metáfora implica a fixidez do S1. Como a própria palavra Verwerfung
indica, esse é um processo que ocorre nas ideias. Somente, são rejeitadas,
ou verworfen (uma boa tradução aqui seria ‘descartadas’), as coisas no
nível do simbólico. Algo da carne não foi simbolizado e retorna no real. Ou
seja, a ideia da carne não serve como significante, não representa nada
para outro significante, mas, por outro lado, fica presa num signo. Ela, a
carne, surge, para Yeonghye, como um bloco, que não desce nem sobe.
O vegetarianismo da personagem tem valor de ‘encenação do complexo de
castração’, diríamos em sentido freudiano. Ao dizer que, na esquizofrenia,
as palavras são submetidas ao processo psíquico primário, o mesmo que
forma as imagens oníricas, Freud (1914-1916) conclui que, em particular
na esquizofrenia, há uma predominância da referência à palavra sobre a
referência à coisa. Para exemplificar, ele utiliza o caso do paciente que
extraía grande satisfação ao espremer seus cravos, mas que, também por
isso, se recriminava por haver estragado sua pele. O que o incomodava era
o buraco que surgia em sua pele. Tomando esse ato como um substituto da
masturbação, Freud (1914-1916) se apressa em vincular o buraco gerado
pelo ato de espremer ao genital feminino e conclui que tal ato é o cumpri-
mento de uma fantasia, que representa a ameaça de castração, algo que,
também, pode ser chamado de formação substitutiva. Freud (1914-1916)
insiste que um histérico não tomaria os buracos como representantes do
genital feminino de modo que fica evidente essa particularidade da palavra
na esquizofrenia. Não há representante na psicose, pois não há metáfora
possível. Em relação ao paciente citado anteriormente e ao cumprimento
de sua fantasia, Freud (1914-1916, p. 143) diz: “A análise demonstra que
ele encena [abspielt/abspielen] seu complexo da castração em sua pele”.
Acho importante essa ideia de encenação. Freud (1914-1916) falava sobre
a castração efetuada nas mulheres, a castração ameaçada nos homens
e, podemos dizer, ainda sobre uma terceira via: a da castração encenada
– nem efetuada, nem ameaçada – na psicose como forma de tratamento.
172 Griphos psicanálise n. 26
Voltando a Yeonghye, vemos que sua encenação de vegetariana poderia
autenticar um certo imaginário, capaz de apaziguar seu sofrimento. Po-
rém, no decorrer da história, vemos que as pessoas à sua volta agem na
contramão da autenticação, rejeitando-a e tomando-a como um compor-
tamento inaceitável.
O que vemos, em seguida, é muito interessante. Os sonhos continuam.
A carne, ainda, está lá. E uma nova tentativa de autenticação, totalmente
circunstancial e ao acaso, surge na vida de Yeonghye. Seu cunhado, um
artista fracassado, pede a ela que o deixe fazer uma pintura corporal de
folhas, flores e vegetais em seu corpo. Ela aceita, e o efeito é logo sentido,
pois Yeonghye para de ter os sonhos, que tanto a incomodavam. Essa
possibilidade de ver seu corpo, sua carne, artisticamente transformado em
vegetal, também pode ser entendida como uma encenação da castração.
Como o vegetarianismo fracassara, talvez travestir o corpo, esse corpo
do reino animalia, em um corpo de outro reino, plantae, um corpo vegetal,
funcione muito bem para ela como uma tentativa perene de tratamento.
No entanto, essa segunda possibilidade de autenticação, também, fracassa,
pois esse processo de pintura corporal desperta o desejo de seu cunhado,
que é correspondido por Yeonghye. Nossa personagem não terá muita
sorte, pois o amor vivido por eles é logo descoberto pela irmã, que toma
atitudes drásticas: Yeonghye é internada num sanatório.
Entramos, agora, no terceiro ato do livro e nos deparamos com a derradei-
ra experiência da vegetariana, que se vê impelida a um destino kafkiano:
Yeonghye quer ser árvore, metamorfosear-se em um vegetal. No sanatório,
foge diversas vezes e vai para a floresta. É buscada e internada novamente.
Agora, nem mesmo o vegetarianismo serve a ela, que já não se alimenta
mais, entrando num quadro anoréxico grave. Esse aparente destino kafkia-
no me parece um risco existente na psicose. Isto é, quando o imaginário
na psicose não pode ser autenticado – e cabe aqui, muitas vezes, à figura
do analista como alguém capaz de preservar e ajudar a autenticar e tornar
verdadeiro um certo imaginário –, está-se fadado a pagar com o corpo, a
deixar a encenação e passar ao ato. Vale lembrar aqui o empuxo-a-mulher
Vertumnus em Seul: uma psicose kafkiana ESTRUTURAS CLÍNICAS 173
tão evidente em Schreber. Yeonghye é uma antecipação do que Schreber
conseguiu protelar por milhares de anos.
O destino final de Yeonghye nos lembra a obra de Giuseppe Arcimboldo,
pintor maneirista do século 16, que decidiu fazer um retrato alegórico do
monarca Rodolfo II, no qual reconstrói seu busto a partir de vegetais, flores
e frutas. Ele pinta um corpo, que se faz através de pequenas partes de
natureza-morta. Essa teria sido uma tentativa do pintor de metamorfosear o
monarca no deus etrusco Vertumnus, que, na mitologia romana, representa
a mudança, as estações, as transformações da terra. O estilo de Arcimboldo
pode evocar certo tom chistoso, mas o centro de sua ideia é fazer ‘parecer’
vivo o que é uma natureza-morta. Nesse sentido, Yeonghye poderia viver
parecendo natureza-morta, encenando uma castração, que não ocorreu
no simbólico. É o que a pintura corporal parece ter lhe proporcionado.
Creio que posso arriscar dizer que o encontro com o cunhado, algo total-
mente ao acaso, foi crucial para a personagem. Seu destino final sugere
que ela continuou numa certa direção dada a partir dali. Já que a pintura
fracassou, e isso pareceu ter tido muito efeito, restou-lhe ir além da pintura,
desautenticando o imaginário e, logo, vivendo a extração da carne no real
do ser. Yeonghye é como um Vertumnus, que, num absurdo só possível
através da ficção, abandonou as molduras do quadro, ultrapassando o que
deveria ser somente autenticado, para, então, encarnar o que é impossível
no nível estrutural.
REFERÊNCIAS
FREUD, S. O inconsciente. In: ______. ntrodução ao narcisismo: ensaios
de metapsicologia e outros textos (1914-1916). Tradução e notas de Paulo
César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 74-112.
KANG, H. A vegetariana. 1. ed. São Paulo: Todavia, 2018.
LACAN, J. O seminário, livro 3: as psicoses (1955-1956). Rio de Janeiro:
Zahar, 2008.
174 Griphos psicanálise n. 26
DA CERTEZA
NA PSICOSE À
CONVICÇÃO DA
EXISTÊNCIA DO
INCONSCIENTE
Suzana Márcia Dumont Braga*
RESUMO * Psicanalista
Membro da EFBH/iepsi
A autora faz uma comparação entre os termos ‘certeza’, usado
Doutora em Letras pela PUC
por Lacan para se referir à psicose, e ‘convicção’, usado por
Minas
Freud para se referir à existência do inconsciente no final de
E-mail:
uma análise. O artigo tem como objetivo mostrar que, se na
<subraga77@[Link]>
psicose, a certeza tem a função de suturar a falta, no final
de análise a convicção tem a função de evidenciá-la. O final
de análise tem laços com a experiência poética, pois possi-
bilita invenções linguageiras, que vão além do campo fálico,
fazendo com que o sujeito se depare com as possibilidades
do feminino.
PALAVRAS-CHAVE
Certeza; Convicção; Psicose; Poesia; Final de análise; Fe-
minino.
ABSTRACT
The author compares the term ‘certainty’ used by Lacan to
refer to psychosis with the term ‘conviction’ used by Freud in
Da Certeza na psicose à convicção... ESTRUTURAS CLÍNICAS 175
relation to the existence of the unconscious at the end of analysis. The article aims to
show that, if in psychosis, certainty has the function of suturing the lack, at the end of
analysis, conviction will show it. The end of analysis has ties to the poetic experience
as it allows linguistic inventions that go beyond the falic field, making possible to the
subject to face the possibilities of the feminine.
KEYWORDS
Certainty; Conviction; Psychosis; Poetry; End of analysis; Feminine.
“[...] para se chegar, pois, a Ela, há que se proceder antes não
compreendendo do que procurando compreender, deve-se antes pôr-
-se em trevas do que abrir os olhos para a luz” (SÃO JOÃO DA CRUZ)
Nas leituras que fiz durante os cartéis dos quais participo, deparei-me
com dois termos que, aparentemente, têm sentidos muito próximos, mas,
no contexto em que foram escritos, apontam para leituras diametralmente
opostas: ‘certeza’, termo usado por Lacan (1988) em O seminário, livro 3:
as psicoses; e ‘convicção’, palavra usada por Freud (1938) em “Análise
terminável e interminável”.
De acordo com o dicionário etimológico, ‘certeza’ diz respeito a algo
seguro, garantido, determinado; originalmente, uma variante de cernere:
distinguir, decidir; literalmente, peneirar, separar. Já ‘convicção’ vem do latim
convictio, que significa prova, refutação, de convincere: vencer, suplantar
decisivamente. Trata-se de termo formado pelo prefixo: com – intensivo +
vencer – derrotar.
Vamos ao Seminário 3, precisamente ao capítulo 6, no qual Lacan (1988, p.
90) nos lembra de que “o que caracteriza um sujeito normal é precisamente
não levar jamais a sério um certo número de realidades cujas existências
ele reconhece. [...] Uma feliz incerteza é que torna possível uma existência
suficientemente distendida”. Lacan (1988) diz, também, que a realidade não
é o que está em causa na psicose, mas, sim, a certeza. Mesmo quando o
psicótico exprime algo que não é da ordem da realidade, isso não abala
a sua certeza. A noção de realidade é da ordem do semblante. Ela se
176 Griphos psicanálise n. 26
apresenta sempre vestida pelo Outro. A realidade não está em causa na
psicanálise, nem quando se trata de psicose: “O louco não acredita na
realidade de sua alucinação” (LACAN, 1988, p. 90). O que está em causa
nas formas de estar no mundo – na neurose, na perversão ou na psicose
– é o Real. Para se defender do Real, o psicótico faz um rearranjo: cria a
certeza delirante; lembrando que certeza tem a ver com garantia; na psi-
cose, essa certeza é radical mesmo quando não é compreensível para o
próprio psicótico. Por exemplo, o assassinato da alma tem, para Schreber
(1984), um caráter enigmático, mas isso não abala sua certeza.
Lacan (1988) faz uma comparação entre os escritos de Schreber e os de
São João da Cruz. Os dois autores apresentam, como tema, uma rela-
ção erótica com Deus. O escrito de Schreber surpreende por seu caráter
completo, fechado, pleno, acabado. O mundo que ele nos descreve está
determinado, e ele adquire um certo domínio de sua psicose a partir da
concepção de que seria, ele mesmo, o correspondente feminino de Deus.
Tudo está arranjado na certeza que o situa como “a mulher de Deus”, ainda
que tal arranjo não comporte qualquer aspecto que nos dê uma ideia de
que haja uma relação entre esses dois seres.
Assim como está registrado nas Memórias de um doente dos nervos,
escritas por Schreber (1984), também, no texto de São João da Cruz,
há referência aos esponsais da alma com a presença divina. Mas, o que
distingue a escrita desses dois amantes de Deus? Para Lacan (1988),
Schreber é um escritor, mas não é um poeta. Seu texto não nos introduz
numa dimensão nova da experiência. Diz Lacan (1988, p. 94): “Há poesia
toda vez que um escrito nos introduz num mundo diferente do nosso”. E,
ao nos dar a presença de um ser, de uma certa relação fundamental, faz
com que essa experiência se torne, também, nossa. A poesia faz com que
não possamos duvidar da autenticidade da experiência de São João da
Cruz: “A poesia é criação de um sujeito assumindo uma nova ordem de
relação simbólica com o mundo” (LACAN, 1988, p. 94). E, de acordo com
Lacan, isso não se encontra nas memórias de Schreber.
Da Certeza na psicose à convicção... ESTRUTURAS CLÍNICAS 177
Gérard Pommier (1997) afirma que o poeta é capaz de descrever, mediante
a emoção estética, uma verdade, cujo saber permanece oculto. A expe-
riência da beleza ocorre num momento de vacância. A presença do objeto
a é uma espécie de intrusão, que se impõe antes que o eu se ponha em
guarda. Quando aparece, vale, porque toca o vazio, que nos habita. Há um
nada que só se mostra, porque estamos diante do abandono. As coisas
que nos atingem dessa maneira não servem para nada, não têm utilidade.
Jacques-Alain Miller (1987) aproxima a experiência poética da experiência
analítica. Tanto numa quanto na outra, a palavra perde sua utilidade para
ganhar novos sentidos, abrir novos caminhos: “Dar livre curso às invenções
significantes são a única coisa capaz de curar” (MILLER, 1987, p. 32). O
analista, ao manejar a transferência, colocará em prática uma impostura,
possível apenas pela sua posição singular devido à transferência: “Garante
ao paciente que o trabalho sem lucro, no vazio, completamente contradi-
tório com a ética capitalista em sua exigência de rentabilidade, serve para
outra coisa” (MILLER, 1987, p. 70). O encontro entre psicanálise e poesia
se dá pelo fato de que, em ambas, comparece o objeto causa de desejo,
facilitador da produção de novos significantes, numa relação com a língua
de maneira que uma singularidade própria se encarna. Há uma violência
perpetrada contra o uso corrente da língua a partir de uma manipulação
do significante.
Freud (1938), em “Análise terminável e interminável”, afirma que se espera
que o término, na análise de um analista, traga, para o analisando, a con-
vicção da existência do inconsciente. Comparando o significante ‘certeza’
com o significante ‘convicção’, o que podemos dizer? Se a certeza funciona
como um esteio para a angústia do psicótico, a convicção da existência
do inconsciente parece justamente apontar para a falta de garantia, para
a convicção do inconsciente visto como um furo, como impossibilidade de
fazer o todo. Os testemunhos de passe demonstram que o final de análise
não se encaixa num modelo fálico, mas, pelo contrário, designa algo que
só pode ser atestado por uma posição feminina; um a um. Como num
poema, vale por aquilo que nele falta.
178 Griphos psicanálise n. 26
O que se obtém, numa análise, não é da ordem do conhecimento. Trata-se,
sim, de um saber, que não se sabe. Interessam menos os dramas do que
foi vivido e mais o exercício de um dito, que desafia o impossível de dizer,
conforme a epígrafe escolhida para este trabalho: “para se chegar, pois,
a Ela, há que se proceder antes não compreendendo do que procurando
compreender, deve-se antes pôr-se em trevas do que abrir os olhos para
a luz”. Apesar de a frase de São João da Cruz estar fora de seu contexto,
ela me pareceu preciosa para nos referirmos tanto à experiência estética
quanto à experiência analítica.
Denise Maurano (2006, p. 40) pontua que “o trabalho do psicanalista é
inspirado por uma estética, por uma sensibilidade particular”. O desejo do
analista se presta a dar lugar ao feminino de forma que se possa celebrá-lo
no lugar de recalcá-lo. O saber do final de análise a que associo a expres-
são ‘convicção da existência do inconsciente’ não está associado a uma
compreensão, mas à possibilidade de tocar o objeto e fazer do impossível
uma poiesis, que, por sua vez, não pretenda suturar o vazio. Assim como
a poesia, a psicanálise não passa de uma espécie de fraude – só é bem-
sucedida quando fracassa. A falta de garantia é, também, a possibilidade
da invenção linguageira, da experiência poética às margens do Real. Nos
termos de Freud (1938), que o analisando faça um certo luto do objeto
com o qual tenta obturar a falta a ser, possa se deparar com o horror à
feminilidade – tanto os homens quanto as mulheres – e experienciar a
derrota em relação a querer o todo, ser ‘com+vencido’, ter convicção da
existência do inconsciente.
REFERÊNCIAS
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standard das obras psicológicas completas, 23. Rio de Janeiro: Imago,
1969. p. 239-287.
LACAN, J. O seminário, livro 3: as psicoses. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar,
1988.
Da Certeza na psicose à convicção... ESTRUTURAS CLÍNICAS 179
MAURANO, D. A transferência: uma viagem rumo ao continente negro.
Rio de Janeiro: Zahar, 2006.
MILLER, J.-A. O percurso de Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, 1987.
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SCHREBER, D. P. Memórias de um doente dos nervos. Tradução de
Marilene Carone. Rio de Janeiro: Graal, 1984.
180 Griphos psicanálise n. 26
DE VEGETARIANA A
VEGETAL: SONHO,
CENA, LEMBRANÇA
E O OBJETO
ENTALADO
Thereza Christina Bruzzi Curi*
RESUMO * Psicanalista
Membro da EFBH/iepsi
Este artigo é produto do cartel “Desleituras da criança,
E-mail:
adolescência e família”. O livro A vegetariana, da escritora
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sul-coreana Han Kang (2108), conta a história de Yeongh-
ye, uma mulher que, a partir de um sonho/pesadelo, toma
a decisão radical de nunca mais comer carne – tornar-se
vegetariana. Esse movimento tem como efeito uma espécie
de metamorfose, uma transmutação, uma passagem de sua
condição de ‘vegetariana’ para ‘vegetal’. A autora deste artigo
recorta do movimento radical de Yeonghye o sonho que de-
sencadeia sua decisão, a cena precedente, uma lembrança
da infância e a descrição do ‘objeto entalado’ para pensar
algumas questões a respeito do objeto e sua queda (ou não)
na constituição do sujeito.
Palavras-chave
Objeto; Queda do objeto; Constituição do sujeito.
De vegetariana a vegetal ESTRUTURAS CLÍNICAS 181
RESUME
Cet article a été produit dans le cartel « Délectures de l’enfant, de l’adolescent et de
la famille ». Le livre La végétarienne, de l’écrivain sud-coréenne Han Kang (2108),
raconte l’histoire de Yeonghye, une femme qui, à partir d’un rêve/cauchemar, prend la
décision extrême de ne plus jamais manger de la viande – elle devient végétarienne.
Ce mouvement extrême a pour effet une sorte de métamorphose, une transmutation,
un passage de sa condition de ‘végétarienne’ à une condition de ‘végétal’. L’autrice de
cet article découpe, dans le mouvement extrême de Yeonghye, le rêve qui déclenche
sa décision, la scène précédente, un souvenir d’enfance et la description de ‘l’objet
coincé’ pour penser à quelques questions concernant l’objet et sa chute (ou non) dans
la constitution du sujet.
MOTS-CLES
Objet; Chute de l’objet; Constitution du sujet.
O romance A vegetariana, da escritora sul-coreana Han Kang (2018),
conta a história de Yeonghye, desdobrando-a em três partes – narradas,
respectivamente, por seu marido, seu cunhado e sua irmã. As narrativas
são entremeadas por cenas de sonhos relatadas pela protagonista.
É um sonho/pesadelo de Yeonghye, que provoca sua decisão radical de
não mais comer carne – ‘ser vegetariana’ –, a qual, por sua vez, desenca-
deia uma série de acontecimentos, que transformam sua vida e a de seu
entorno. Seria um movimento para deixar a posição alienada que o marido
e a família, tacitamente, esperavam dela? Uma tentativa de separação?
Esse movimento radical tem como efeito uma espécie de metamorfose,
uma transmutação – de sua condição de ‘vegetariana’ para ‘vegetal’.
De sua saga, destaco o sonho desencadeante, a cena que o antecede,
uma lembrança da infância e a descrição do ‘objeto entalado’ para pensar
algumas questões a respeito do objeto e sua queda (ou não) na constitui-
ção do sujeito.
182 Griphos psicanálise n. 26
Para iniciar, alguns apontamentos teóricos
Quando a criança vem ao mundo, suas sensações corporais e orgânicas
não formam uma unidade. Ela apresenta-se como um ‘corpo fragmentado’,
caos orgânico. A unidade do eu corporal só se constitui a partir da imagem
encontrada no espelho do outro. Essa imagem mascara a fragmentação. Na
constituição do eu, unidade e fragmentação coexistem; a primeira velando
a segunda, mas o caos orgânico continua lá, à espreita. Há um descom-
passo entre o corpo fragmentado e a imagem unificada que representa o
corpo, descompasso que é estrutural e acompanha a vida subjetiva, falha
inevitável. É necessário um terceiro, que confirme a imagem, para que,
além da servidão imaginária, existam suportes simbólicos, significantes,
que organizem o que a criança vê no espelho.
Deslocamentos na narrativa
Desloco a narrativa da autora, invertendo sua ordem, para traçar um
encadeamento cronológico das cenas: lembrança da infância; cena que
precede o sonho; o sonho/pesadelo; e o objeto entalado.
Uma lembrança da infância
Yeonghye descreve uma lembrança da infância em que um cachorro arran-
ca um naco de sua perna. Seu pai mata o cachorro fazendo-o correr amar-
rado em sua motocicleta, pois ouvira dizer que os cachorros que morrem
correndo têm a carne mais macia. Sem se mexer, ela observa as voltas
da moto do pai com o cachorro amarrado, ofegante e de olhos revirados.
“Quando espero pela sétima volta, vejo meu pai carregando o cachorro
na moto, estirado. [...] Vejo seus olhos abertos, com sangue parado neles”
(KANG, 2018, p. 44).1
1 Os trechos do livro citados neste texto estão em itálico na obra original e, para
preservar essa escolha editorial, foram assim mantidos aqui.
De vegetariana a vegetal ESTRUTURAS CLÍNICAS 183
Para curar a ferida causada pela mordida, Yeonghye deve comer a carne
do cachorro.
“Para falar a verdade, comi bastante de sua carne [...] Por cima da sopa
com arroz, vi refletida a imagem dos seus olhos, os mesmos com os quais
me encarava enquanto corria, vomitando sangue e espuma. E não senti
nada demais. Nada demais mesmo” (KANG, 2018, p. 44).
A lembrança da infância traz a perda no corpo, com o contraponto de ter que
comer a carne daquele que lhe arrancara um naco, um pedaço de carne.
Os significantes enlaçam o organismo, caos orgânico, e a imagem do
corpo através das zonas erógenas. O corpo se constitui por meio de seus
orifícios, fonte das pulsões e dos objetos parciais – boca, ânus, falo, voz e
olhar –, os objetos a. São os objetos a que permitem ‘grampear’ a imagem
no organismo. Os objetos a, quando inseridos, ‘grampeados’ na imagem do
corpo, florescem; no entanto, quando estão fora dessa imagem, provocam
angústia ou horror.
A conformação dos objetos a se constitui a partir da experiência da an-
gústia. O que a angústia desvela no advento do sujeito é que há um corte
que se presentifica como perda.
Na constituição do sujeito, a pergunta “Che vuoi?” anuncia a dimensão do
desejo, ainda que a partir da angústia, termo intermediário entre o gozo e
o desejo. A angústia é sinal de uma divisão por vir, que inclui uma perda,
uma perda de gozo. É preciso o atravessamento da angústia para que o
sujeito do desejo possa advir.
A violência da cena em A vegetariana indica a invasão do Real, que espalha
gozo; o Outro não é barrado, e o sinal da angústia não aparece mediando
gozo e desejo: “E não senti nada demais” (KANG, 2018, p. 45).
184 Griphos psicanálise n. 26
Cena que precede o sonho
“[...] eu estava cortando carne congelada. Você [o marido] me apressou,
irritado. [...] Você sabe que fico nervosa quando você me apressa. Fico
perdida, como se fosse outra pessoa” (KANG, 2018, p. 23).
O Outro sem barra retorna, o sujeito se desorganiza, o corte surge no real
do corpo.
[...] De repente, a tábua de cortar deslizou para frente. Foi aí que eu me
cortei e a faca de cozinha perdeu um dente. Quando levantei o dedão,
uma gota de sangue escuro brotou rapidamente. [...] Quando enfiei o
dedo na boca, fiquei em paz. Coisa estranha, parecia que aquela cor
vermelho-sangue e seu gosto me acalmavam (KANG, 2018, p. 23).
Novamente, algo que cai do corpo, o sangue, é engolido de volta. Não há
separtição.
O que o sujeito perde, em sua constituição, é parte de si, nos dizeres de
Lacan (2005), uma separtição – e não uma separação –, uma divisão por
dentro. Mais do que perder, é preciso ceder um pedacinho ao Outro. É
por essa parte perdida, cedida, que o sujeito pode comparecer ao Outro,
como quem tem algo a dar, uma moeda de troca por meio da qual pode
se representar e se posicionar diante do Outro. É com o que restou desse
corte que o sujeito pode se colocar.
“Eu só fiquei olhando, enquanto você ficou todo agitado, com o rosto con-
torcido” (KANG, 2018, p. 23).
E no lugar da angústia: “[...] fiquei ainda mais tranquila. Era como se uma
mão gelada tivesse pousado no meu coração. Foi na madrugada seguinte
que vi pela primeira vez o meu rosto na poça de sangue do celeiro” (KANG,
2018, p. 23).
De vegetariana a vegetal ESTRUTURAS CLÍNICAS 185
O sonho
Centenas de pedaços de carne, uns pedaços enormes, estavam pen-
durados em sarrafos. Minha mão também estava manchada de sangue,
porque eu tinha comido pedaços de carne que estavam caídos no chão
daquele celeiro. [...] O reflexo dos meus olhos estava brilhando na poça
de sangue no chão do celeiro. A sensação de mastigar a carne crua, o
meu rosto, o brilho dos meus olhos. Parecia o de alguém que conheci
pela primeira vez, mas com certeza era meu rosto. Quero dizer, pelo
contrário, parecia tê-lo visto tantas vezes, mas não era meu rosto.
Era familiar e desconhecido ao mesmo tempo... Essa sensação real e
esquisita, terrivelmente estranha (KANG, 2018, p. 16-17).
O sujeito constitui-se dividido a partir do corte que a entrada da linguagem
lhe imprime e imprime ao Outro, uma operação de divisão que torna o su-
jeito e o Outro barrados e cujo resto é o objeto a. É a perda desse objeto,
a libra de carne, que o sujeito paga para ingressar no campo do Outro,
como desejante. Se os objetos não estão grampeados na imagem do corpo
pela linguagem, que veicula as experiências de gozo, eles ficam fora da
imagem e causam horror. Seria esse o caso dos pedaços de carne, que
desorganizam Yeonghye e a fazem tomar a decisão de não mais comer
carne? Diante do horror, do caos, seria ‘ser vegetariana’ uma suplência,
uma tentativa de ancoragem?
O objeto entalado
Yeonghye está no hospital com a mãe após sua tentativa de suicídio – cor-
tara o pulso com uma faca em reação à insistência agressiva do pai para
que engolisse, à força, uma porção de carne. A protagonista diz:
Tenho alguma coisa entalada na boca do estômago. Não sei o que é.
Mas está sempre aqui. Mesmo depois de parar de usar sutiã, não deixei
de sentir esse incômodo. Por mais que respire fundo, esse aperto no
peito não passa.
186 Griphos psicanálise n. 26
Gritos e choros se sobrepõem e ficam encravados aqui. É por causa
da carne. Comi carne demais. Todas essas vidas estão entaladas
aqui. Tenho certeza. Sangue e carne foram digeridos e se espalham
por todos os cantos do meu corpo; os resíduos foram colocados para
fora, mas as vidas insistem em obstruir o plexo solar.
Ao menos uma vez, uma única vez, eu queria gritar bem alto. Queria
sair voando pela janela escura deste quarto. Será que assim essa
massa que me aperta o peito vai sair do meu corpo? Será que isso é
possível? (KANG, 2018, p. 50).
O esforço de subjetivação, de suplência como ‘vegetariana’, se esvai, e
cortar o pulso, na tentativa de suicídio, não faz cair o objeto que fica en-
talado. O grito não sai!
Grito, objeto entalado no peito de Yeonghye, que, não tendo podido cedê-
-lo, não pode tampouco vê-lo transformado em apelo ao Outro.
Ninguém pode me ajudar.
Ninguém pode me salvar.
Ninguém pode me fazer respirar (KANG, 2018, p. 51).
Ao final da narrativa, Yeonghye se quer transmutada em vegetal... Na
impossibilidade de ceder um pedacinho, o objeto, seria isso o que sobra
de sua subjetivação?
Em lugar do aparecimento do sujeito dividido, representado pela vegeta-
riana, acompanhamos o surgimento da metamorfose de Yeonghye, sua
transmutação em vegetal. E o vegetal não é como o sujeito, não tem, enfim,
economia de gozo (MEIRA, 2007).
REFERÊNCIAS
BROUSSE, M.-H. Corpos lacanianos: novidades contemporâneas sobre
o Estádio do Espelho. Curinga 40. Maternidades contemporâneas. EBP-
Seção Minas, 2013.
De vegetariana a vegetal ESTRUTURAS CLÍNICAS 187
KANG, H. A vegetariana. São Paulo: Todavia, 2018.
LACAN, J. O seminário, livro 10: a angústia. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
MEIRA, Y. M. Escrever e contar. Transfinitos – colóquio. Belo Horizonte:
Autêntica; Aleph, 2007.
VIDAURRE, N. M. L.; MARTELLO, A. Pagamos com nosso corpo? O gozo
em jogo no discurso do mestre e do capitalismo. ASEPHallus, v. 12, n. 23,
p. 60-69, nov. 2016/abr. 2017. Disponível em: <[Link]
org/portal/resource/pt/biblio-836633>. Acesso em: 4 ago. 2022.
188 Griphos psicanálise n. 26
UM CAMINHO
OBSESSIVO E SUAS
DUALIDADES
Vivian Vallory*
RESUMO * Psicanalista do EFBH/Iepsi
E-mail:
A neurose obsessiva pode ser vista sob muitos recortes.
<vivianvallory@[Link]>
Este artigo parte de um caso clínico, pensado a partir de
suas dualidades, fantasias e sintomas, procurando entender
seus meandros e um possível caminho de conclusão à luz
de suas particularidades.
PALAVRAS-CHAVE
Neurose obsessiva; Feminino; Caso clínico; Sintoma; Fan-
tasia.
ABSTRACT
Obsessive neurosis can be seen in many ways. This article
come from a clinical case approached from its dualities, fanta-
sies and symptoms; in order to understand its intricacies and
a possible path to conclusion in the light of its particularities.
KEYWORDS
Obsessional neurosis; Feminine; Clinical case; Symptom;
Fantasy.
O presente artigo é uma tentativa de construir um
delineado teórico sobre um caso clínico de neurose
obsessiva. Desde o princípio, pude observar seu
caráter marcante: a rigidez, a obstinação, a organi-
Um caminho obsessivo e suas dualidades ESTRUTURAS CLÍNICAS 189
zação e, sobretudo, uma moral bem marcada pela separação do mundo
em ‘certo’ e ‘errado’. Tais significantes apareceram tão logo me remeteram
à crueldade do superego na neurose obsessiva. Freud, em O problema
econômico do Masoquismo, de 1924, descreve o cenário: diante de um
desejo recriminável, traça-se um conflito entre o ego e a consciência moral
e, para manter o recalque de forma bem-sucedida, a formação reativa se
estabelece com grande sentimento de culpa, autopunição e agressividade.
Ele aborda o sentimento de culpa, na neurose obsessiva, como uma reação
ao supereu feroz e, em uma tentativa de conter esse ataque, os imperati-
vos retornam para si de forma ativa (uma forma de sair da passividade).
Com seu herdeiro superegoico, a saída obsessiva é separar o afeto de
sua representação censurada e, por fim, na lógica edípica, situar o Outro
como seu mestre e senhor, garantindo-se como escravo e fiador (FREUD,
2006a, p. 98). Justamente nessa lógica, a paciente Marina (nome fictício)
procura ajuda pela culpa de ser quem é, e a agressividade, certamente, é
um de seus modos de ser no mundo.
Para pensar as estruturas e, principalmente, diferenciá-las entre si, é
preciso, dentre outras ações, pensar em como o indivíduo se relaciona
com o trinômio falo/falta/desejo (KEHL, 2008, p. 11), em uma releitura do
Édipo freudiano. Enquanto a histérica se oferece como falo para o Outro,
a partir de um lugar de falta absoluta e desejo ininterrupto, sabemos que o
obsessivo vê o Outro como a quem nada falta, anulando o desejo e o seu
próprio, e faz a marca da impossibilidade. Segundo Quinet (2009, p. 24),
ele não só anula seu desejo como tenta preencher todas as lacunas com
significantes para barrar o gozo. Então, não para de pensar, calcular e du-
vidar. No caso da paciente, não é diferente. A palavra ‘demanda’, decerto,
é a mais utilizada por ela. Além disso, a negativa da mãe já traça, desde
cedo, a impossibilidade do desejo: “Marina não tem jeito pra nada”. Desse
modo, o gozo é sempre do Outro, cujo lugar é o daquele que comanda,
vigia e do qual não se escapa.
Quando criança, Marina foi encarregada pela mãe de cuidar da casa e
dos irmãos, em uma possível ausência materna, seja por saúde, morte ou
190 Griphos psicanálise n. 26
abandono. Assim, fez com que a menina, desde muito cedo, assumisse
muitas responsabilidades sob a luz de uma ameaça fantasmagórica. A
partir disso, a antinomia freudiana amor/ódio se estabelece em relação
à mãe. A paciente sempre diz dessa relação de forma embargada e com
muita dor apesar de ver certo gozo em compartilhar desse lugar com ela.
Certa vez, queixou-se que a mãe rivaliza com ela em algumas questões
e fica surpresa quando pontuo: “Então, há algo em você que ela admira.”,
exemplificando, para mim, o que foi posto por Freud a respeito da dúvida
diante de afetos contraditórios.
Se a um amor intenso se opõe um ódio de força quase equivalente
e que, ao mesmo tempo, esteja inseparavelmente vinculado a ele, as
consequências imediatas serão certamente uma paralisia parcial da
vontade e uma incapacidade de se chegar a uma decisão a respeito
de qualquer uma das ações para as quais o amor deve suprir a força
motivadora (FREUD, 1909/2006b, p. 208).
Assumindo o lugar da indecisão, Marina se coloca sempre entre dualidades,
seja entre algo de cunho moral, seja entre dois significantes: sim/não, eu/
outro, escolha/isolamento, tirania/fragilidade, explosão/leveza.
A marca da dualidade está presente na forma como ela se vê e, também,
na construção de sua fantasia. Ela resume sua autoimagem na trama
familiar como sendo o ‘patinho feio’ e, embora levante só as questões
ruins e difíceis de tal arquétipo, ela, também, traz o contraponto: o cisne.
A partir da própria premissa de não conseguir falar bem de si mesma, ela
não percebe (pelo menos não conscientemente) que uma imagem carrega
a outra. Ao contrário, ela parece fazer um plano escópico da sua imagem;
isto é, projeta como quer ser vista pelo Outro e se distancia de uma outra
parte de si.
O livro A neurose obsessiva no feminino nos propõe a pensar “acons-
ciência obsessiva como uma ‘autoconsciência’ que sustenta um ideal de
tudo ver, uma espécie de panóptico em que o sujeito deixa na cena ape-
nas ‘uma sombra de si mesmo’” (ALVARENGA, 2019, p. 81). Para Lacan,
Um caminho obsessivo e suas dualidades ESTRUTURAS CLÍNICAS 191
essa consciência é uma defesa e uma cumplicidade. O obsessivo tampa a
falta do Outro com sua imagem fálica. Desse modo, Marina joga com sua
imagem duplicada para ter justamente o controle de sua divisão.
Em 4+1 condições da análise, Quinet (2009, p. 18) diz da histerização
do sujeito no início da análise e pude observar isso com Marina. Embora
partisse desses pares de opostos, ela diz não querer ser duas e se inco-
modava em perceber contradições internas (e, também, no outro). Nisso,
ela foi cedendo e, com o próprio inconsciente em exercício, começou a
aceitar sua divisão. Tal movimento remete a um vislumbre da castração
e sabemos o quão negado isso é na neurose. Mas, para o obsessivo, o
fazer ‘Um’ com o Outro, também, é muito traumático. Marina diz, muitas
vezes, se sentir invadida pelo outro; vê isso acontecer e se pergunta: “Como
conciliar eu e o outro?”
Marina projeta a imagem de quem tudo precisa fazer, de quem precisa dar
conta de todas as demandas, seja no trabalho ou na família. Tal lugar me
remete àquele ofertado pela mãe, o de ocupar um lugar que seria o seu,
mas que é, ao mesmo tempo, fantasioso, pois é um lugar onde não pode
existir a castração. Esse parece ser seu instante de fixação: ter que lidar com
uma demanda totalizante e com o desejo da mãe de que ela (Marina) ocupe
um lugar em que ela (mãe) se ausenta. Nessa trama, a mãe é, também,
um símbolo de contradição, uma vez que confia a sua responsabilidade a
outrem ao mesmo tempo em que fura a filha como aquela que não pode
nada. Aqui, a pergunta “che vois?” ganha esse peso e tentar ser ‘toda’ é
a fantasia que parece evitar o seu desejo. Diante disso, deparo-me com
este questionamento: se devemos diferenciar, segundo Miller (1988, p. 93),
sintoma e fantasia, como entendê-los no caso clínico em questão?
O sintoma está na ordem do significante e, por isso, é sobre ele que os
sujeitos falam, reclamam e narram desde o início da análise. A fantasia é,
em contrapartida, propriedade íntima e fonte de um prazer consolatório
(MILLER, 1988). Nos neuróticos, tal prazer está acompanhado de outra tal
vergonha, pela contradição com os valores morais e, pensando em Marina,
192 Griphos psicanálise n. 26
a sua fantasia esbarra justamente na culpa edípica: ocupar o lugar da mãe.
Ser ‘toda’ seria a sua forma da fantasia fálica, da fantasia de completar
o Outro (fazer ‘Um’), ou, ainda, de instalar-se nele, a partir do que Lacan
fala da oblatividade, isto é, dar prevalência à demanda do Outro, “pedir-lhe
permissão, dar o que se tem” (apud ALVARENGA, 2019, p. 86). Segundo
Miller (1988, p. 103), “A fantasia é uma máquina que se põe em ação quando
se manifesta o desejo do Outro”. Diante disso, fazer esse espelho com a
mãe é uma tentativa de responder à pergunta sobre qual o lugar do seu
desejo e uma barra contra a possibilidade da castração.
Freud já caracterizava a neurose obsessiva apontando para essa fantasia
fálica e colocando-a como uma satisfação paradoxal por ser, também,
uma defesa do sujeito (ALVARENGA, 2019). Além disso, há algo de real
na fantasia, algo que não cessa de se inscrever: um gozo. Segundo Miller
(1988, p. 108): “Propomos a fantasia como um meio não contingente, e
sim essencial, de pôr o gozo dentro do princípio do prazer. E a operação
própria da análise é abrir de novo a dimensão do além”. No caso de
Marina, seu para-além talvez esteja justamente em resolver o desejo do
Outro pelo amor, pelo fazer laço com o Outro.
“A fantasia é uma relação e, após sua travessia, tem-se que saber fazer
com a não relação, no amor e nas outras coisas da vida. O sujeito deixa
de insistir obsessiva e compulsivamente em estabelecer relações, o
que torna a vida mais leve e tem efeitos vivificantes no corpo” (ALVA-
RENGA, 2019, p. 101).
Aqui, começamos a entrar na lógica do sintoma: Marina sonha em fazer
parceria com alguém que ame todos os seus lados apesar de achar
que há algo nela responsável pelo afastamento das pessoas. Isso acaba
por colocar o Outro no interior do seu controle escópico. As mulheres
obsessivas, no recorte da sua compulsão, descobrem que, ao invés de
ter o falo, elas podem sê-lo. Para Lacan (apud ALVARENGA, 2019), o falo
não se inscreve na lógica do poder, mas é um significante, que simboliza
a não relação sexual e, na análise, o sujeito precisa se haver com isso.
Um caminho obsessivo e suas dualidades ESTRUTURAS CLÍNICAS 193
Ir para além da medida fálica é aprender a dela se servir e, com isso,
afrouxar algumas fixações.
O sintoma da paciente aparece com a assertiva ‘preciso ser leve’ e o signi-
ficante ‘leveza’ me chama a atenção por, repetitivamente, me fazer pensar
o que ele encobre. A ansiedade com que ela fala isso, associando sempre
leveza e maturidade, traz à lembrança a questão cerimoniosa com que a
instância moral disfarça uma representação, colocando o sujeito à mercê
da culpa. Qual gozo o cálculo da leveza esconde? Ser sempre bélica
consegue manter o Outro a uma distância aceitável, também, em relação
ao recuo do desejo. O sentimento de culpa, que agencia a expectativa
ansiosa, subverte a trama pulsional pela via da inibição. Ela, então, se
paralisa diante de um outro, que ela agride e que, fantasiosamente, pode
invadi-la ou abandoná-la. Ela, de alguma forma, tira o Outro de cena, mas
se coloca em jogo pela agressividade.
A leveza que Marina almeja é a condição de possibilidade para as suas
relações. Mas, o significante acaba por encarnar uma ansiedade e uma
angústia, que a responsabilizam por tudo, o que retira totalmente a dimen-
são do Outro – ao mesmo tempo agenciado por ela e detentor, também,
de todo poder. Sua agressividade mantém o outro longe o suficiente para
que ambos não vejam a castração e perto o suficiente para que estejam
sob controle. Seria o significante obsessivo da leveza sintomático, uma vez
que, compulsivamente, encobre o fracasso da relação sexual; em outras
palavras, a possibilidade de fazer ‘Um’? O dever e a necessidade da leveza
estão aqui senão para manter a lógica fálica e encobrir uma fragilidade
tanto da sua divisão quanto do lugar que ocupa na trama familiar.
Dessa forma, a paciente procura análise quando percebe que seu controle
escópico falha, quando ela não sabe o que ser para conseguir se relacionar
com o Outro e não se perder nele. Tentar cumprir todas as demandas não
faz dela ‘toda’ e assumir sua possibilidade de ser muitas é se abrir para o
desejo. Não há algo nela que afasta o Outro, mas o Outro talvez afaste
porque deseja. “A compulsão é a tentativa de reinserir o objeto no todo
194 Griphos psicanálise n. 26
fálico. Se um obsessivo vem com suas bravatas e suas angústias, um
corte que faça valer o que ele é como resto em direção ao desejo do Outro
permite uma nova solução que o alivia” (ALVARENGA, 2019, p. 91). Sair
dessa imagem de si ou vê-la com mais complacência parece ser uma forma
de levar o gozo fálico a um Outro gozo: “Ao contrário da histérica que se
queixa de uma falta de gozo, para a obsessiva há um excesso. Trata-se,
portanto, de consentir com o que resta e itera, e inventar um saber fazer aí
com o gozo não todo, impossível de negativar” (ALVARENGA, 2019, p. 114).
O par leveza/agressividade foi o que me intrigou com a questão da
neurose obsessiva em Marina. Tentei ouvir a insistência de um significante
e, articulado a ele, pensar na posição do sujeito no discurso (sujeito ou
objeto?). Pensando ainda com Freud sobre a necessidade de uma grande
quantidade de atividade para se chegar a um fim passivo, é importante
amenizar a força que a ‘leveza’ tem. Se o sintoma está implicado no início
da análise, a fantasia – ou o atravessamento dela – deve estar pressuposta
no fim. A necessidade de sair do discurso do mestre (incluindo destituir o
analista do lugar de mestre) e de entrar na dimensão ética do fazer com ‘o
que não se tem’ está colocada. Afinal, uma conclusão de análise passa por
uma destituição subjetiva. Segundo Miller (1988, p. 99), o analista auxilia
o sujeito a “dar uma volta pelos lados do nada”, entendendo a construção
da fantasia. Pude compreender com isso que, também, precisamos fazer
borda em nós para desenvolver nossa escuta analítica.
REFERÊNCIAS
ALVARENGA, E. A neurose obsessiva no feminino. Belo Horizonte:
Relicário Edições, 2019.
FREUD, S. O Problema Econômico do Masoquismo. In: ______. Edição
Standard Brasileira, 3. Rio de Janeiro: Imago, 2006a.
FREUD, S. Notas sobre um caso de neurose obsessiva. In: ______.
Edição Standard Brasileira, 10. Rio de Janeiro: Imago, 2006b.
Um caminho obsessivo e suas dualidades ESTRUTURAS CLÍNICAS 195
KEHL, M. R. Deslocamentos do feminino. 2. ed. Rio de Janeiro: Imago,
2008.
MILLER, J.-A. Duas Dimensões Clínicas: Sintoma e Fantasia. In: ______.
Percurso de Lacan, uma introdução. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1988. p.
91-150.
QUINET, A. As 4+1 condições de análise. 12. ed. Rio de Janeiro: J. Zahar,
2009.
196 Griphos psicanálise n. 26
ANATOMIA DE UM
ESCÂNDALO
Rosely Gazire Melgaço*
SINOPSE * Psicanalista Membro da
Escola Freudiana de BH/iepsi
E-mail:
Baseada no livro de mesmo nome, escrito por Sarah
<roselygazire@[Link]>
Vaughan, na minissérie Anatomia de um Escândalo,
acompanhamos uma sucessão de escândalos que
abalam a elite e a política do Reino Unido, a partir
de uma denúncia de violência corporal, apontada
como um estupro. Paralelamente, testemunhamos
os reflexos provocados nas pessoas envolvidas, em
suas particularidades.
Segredos são revelados, omissões e traições acon-
tecem e trazem à tona nebulosidades do passado,
que se descortinam em cadeia. Lacan enfatizava
que aquilo que não é tratado no Simbólico retorna no
Real. Na série, tal afirmativa é claramente apresen-
tada e traz realçado o emaranhado dos conteúdos
inconscientes.
A desconstrução de um cenário familiar visto como
perfeito é realizada com habilidade pela direção de
S.J. Clarkson das películas e a escolha do ótimo
elenco foi favorável para criar um belo suspense
para os espectadores, um processo de anatomia de
fatos e emoções.
198 Griphos psicanálise n. 26
COMENTÁRIO
Anatomia remete-nos à tarefa de uma dissecação, análise, exame, estudo.
É derivada do grego anatome (ana = através de; tome = corte).
Equivalente, etimologicamente, a anatomia, temos dissecação, que deriva
do latim (dis = separar; secare = cortar). Atualmente, anatomia é a ciência,
enquanto dissecar é um dos métodos dessa ciência.
Podemos dizer que o título do filme é uma nomeação acertada para o
que se propõe: por um lado, uma anatomia, um encadeamento em série
de cortes e recortes de processos psíquicos; e, por outro, o escândalo, o
horror que permeia uma apresentação do Real sem borda.
Quando Freud (1933, p. 75) escreveu a Conferência XXXI, ele a intitula:
“Dissecção da personalidade psíquica”.
Em versão mais amena, a palavra dissecção torna clara a ideia de uma
cadeia de elementos, que se desdobram e se favorecem dos cortes para
abrir possibilidades de análise e avanços nas questões subjetivas.
No referido texto, Freud (1933), p. 75, diz:
Os sintomas são derivados do recalcado, são, por assim dizer, seus
representantes perante o eu; mas o recalcado é território estrangeiro
para o eu – território estrangeiro interno – assim como a realidade...
é território estrangeiro externo. A trajetória conduziu dos sintomas
ao inconsciente, à vida das pulsões, à sexualidade; e foi então que a
psicanálise deparou com a brilhante objeção de que os seres humanos
não são simplesmente criaturas sexuais, mas têm, também, impulsos
mais nobres e mais elevados. Poder-se-ia acrescentar que, exaltados
por sua consciência desses impulsos mais elevados, eles muitas vezes
assumem o direito de pensar de modo absurdo e desprezar os fatos.
Anatomia de um escândalo RODA DE PROSA 199
Na série, as cenas de vidro que se quebram lembram-nos Freud (1933,
p. 77) quando diz:
Onde ela [a patologia] mostra uma brecha ou uma rachadura, ali pode
normalmente estar presente uma articulação. Se atirarmos ao chão
um cristal, ele se parte, mas não em pedaços ao acaso. Ele se des-
faz, segundo linhas de clivagem, em fragmentos cujos limites, embora
fossem invisíveis, estavam predeterminados pela estrutura do cristal.
Vou fazer pontuações sobre os três principais personagens, mas importan-
te frisar: temos um material riquíssimo referente aos outros personagens
para nossa discussão.
A personagem Sophie Whitehouse (Sienna Miller), mesmo sob o pacto
de parceria mantido com o marido no desenrolar da trama, não recua de
realizar um processo de retificação subjetiva; em outras palavras, de fazer
uma dissecção psíquica. Em silêncio, ela tece elaborações, uma análise
consigo mesma do passado mesclado ao presente, na busca de saber de
suas implicações na relação e nos acontecimentos, no por que ‘era o tipo
dele’, por que se deixou manipular. Em um caminhar solitário, mesmo criada
para controlar as emoções, ela ousa dissecar suas lembranças, na busca
de um novo olhar para as cenas, que, sintomaticamente, ‘não queria saber’,
que havia desviado das verdades. Na época, na ilusão de uma completude
adolescente, ela, jovem e bela, cumpriu sua determinação de conquistar
aquele homem, também jovem, belo, sedutor, atraente na arrogância e
potente. As revelações internas, que agora a invadem, provocadas pelas
revelações do mundo externo, causam-lhe total surpresa e perplexidade,
pois o recalque havia tirado seus conteúdos de cena.
James (Rupert Friend) segue um caminho diverso de Sophie. O escândalo
movimentou em si emoções de medo e susto, mas elas se circunscreveram
no receio de perder sua posição política, familiar e social. As estratégias
para driblar a situação foram ativadas – como sempre fazia – como em
um jogo, no qual só valia ganhar, em que era permitido ser ladrão de jogo.
Afinal, o que desde sua infância ouviu dos Whitehouse: “Nós sempre saímos
200 Griphos psicanálise n. 26
por cima”. O outro era desconsiderado enquanto sujeito de desejo, fosse
sua mulher, a amante ou até o amigo, instalando-se, assim, uma relação
de violência e destrutividade. Como objeto, objeto de desejo, o outro é o
responsável (o provocador) de suas próprias atitudes.
As reuniões no clube dos libertinos são sagradas, nas quais a garantia de
um lugar inscrito para o grupo e suas transgressões marcam a inscrição
de uma lei particular, perversa. Omertà é um termo da língua napolitana,
que define um código de honra de organizações mafiosas do sul da Itália.
Fundamenta-se num forte sentido de família e num voto de silêncio, que
impedem cooperar com autoridades. Interessante, porque o termo vem do
latim humilitas, humildade.
As lembranças que atravessam James, na maior parte das vezes, trazem
a marca de experiências de prazer sem se encaminharem para ressignifi-
cações. Durante todo o seu trajeto de vida, foi inadmissível ser desviado de
seu futuro brilhante, desenhado com totalidade de sucesso, revelando-se,
assim, como um ponto fantasmático de fragilidade. Quando ameaçado,
quando falha esse oráculo, sua angústia é deflagrada e encontra saída na
violência e na descarga sexual. Os dois episódios, com Holly e com Olivia,
acontecem pós situações desse contexto da perda do controle fálico, para
ele de total horror; é quando chora por dentro, e até com lágrimas. Falha
sua característica de confiança absoluta, de forma devastadora.
Entretanto, três cenas deixam entrever a face do James, educada para
ficar oculta, face que Sophie reconhece existir, mas, duvida, precisa
confirmar, “Você ainda é você?”, na insistência da pergunta se ele é um
homem bom. Tais cenas escapam do script de invulnerabilidade: quando
ele tenta remediar a situação de mal-estar da garçonete frente o abuso
dos amigos, quando diz que a política devia usar mais poesia e, ao final do
filme, após o julgamento, quando ele desabafa com Sophie as verdades
ainda ocultas. Seu próprio julgamento não tinha ainda terminado, ele sabia
de suas mentiras e omissões paralelo a acreditar na sua verdade de não
se considerar um mentiroso.
Anatomia de um escândalo RODA DE PROSA 201
Na metáfora do barulho e do trem que passa, o passado vai trazendo
vagões inconscientes e/ou conscientes para o presente, e o que não foi
tratado no simbólico se revela no Real. “O passado informa o presente”.
Ou, como diz James: “Deixei as coisas passarem, as coisas se somam”.
Os acontecimentos do passado se reatualizam no presente e revelam
lembranças encobridoras de conteúdos da sexualidade infantil que ali não
podiam aparecer.
Kate (Michelle Dockery) escolhe entrar no cenário do drama a partir de
um processo de identificação com Olivia, maquiado em um trabalho de
defesa em um processo criminal. Agora, com o poder da voz, da pompa e
da justiça, poderia falar o que antes silenciara: da perda, da dor, do amor,
do abandono, da ingenuidade, da impossibilidade de resistir à sedução,
do desejo de vingança.
Embaralhada em seu envolvimento pessoal no caso, luta para negar o que
a colega advogada tenta transmitir sobre focar um julgamento de acordo
com as evidências e sobre o ponto do consentimento. Temos, então, aqui
retratado o âmbito do campo do direito com seus paradigmas, verdades
e limites.
E no campo da Psicanálise, sabemos que as verdades são não todas, e
não ‘são um brinquedo’.
REFERÊNCIAS
ANATOMIA de um Escândalo. Criação: David E. Kelley e Melissa James
Gibson. EUA: Série dramática, Netflix, 2022.
FREUD, S. A dissecção da personalidade psíquica. In: ______. Conferência
XXXI (1933). Rio de Janeiro: Imago, 1976. (Obras completas, 22).
202 Griphos psicanálise n. 26
VERSÕES DO
CORPO
Rosely Gazire Melgaço*
Suzana Márcia Dumont Braga**
As questões de gênero têm ocupado a mídia e, tam- 1 Psicanalista, membro da
bém, a pesquisa psicanalítica. Na roda de prosa, EFBH/iepsi
E-mail:
abordamos esse tema por meio da discussão de
<roselygazire@[Link]>
duas produções fílmicas: o documentário Laerte-se
e o filme Girl. Reunir esses dois momentos aqui é ** Psicanalista
uma forma de enfatizar os diversos posicionamentos Membro da EFBH/iepsi
diante dessa questão e dos diferentes encaminha- E-mail:
mentos, que foram feitos pelos personagens. Em <subraga77@[Link]>
Girl, relato ficcional, Victor/Lara é um adolescente,
que enfrenta impasses; decide e aguarda a cirurgia
de redesignação sexual. Em Laerte-se, temos contato
com depoimentos do reconhecido cartunista brasi-
leiro, que, já na maturidade, descortina a mulher que
pode ser, dirigindo-se a um lugar que desconhece.
Parte 1
Girl
Sinopse
Girl, filme belga de 2018, apresenta como tema
questões ligadas aos percalços de trocar de sexo. A
direção e o roteiro são de Lukas Dhont. Lara, inter-
pretada pelo bailarino Victor Polster, é uma jovem de
Versões do corpo RODA DE PROSA 203
16 anos, que se encontra num processo de redesignação sexual. Nesse
processo, especialmente nas aulas de balé, ela enfrenta barreiras físicas e
emocionais enquanto se prepara para a cirurgia. O filme nos oferece uma
ótima oportunidade para discutir a passagem pelo túnel da adolescência
a partir dos dilemas vivenciados pelas pessoas trans.
Comentário
Lara muda-se com o pai e o irmão para Paris, onde pretende estudar balé
e fazer uma cirurgia de redesignação sexual. Podemos acompanhar seus
movimentos, seus olhares para o espelho assim como o espelho do olhar
do Outro: familiares, colegas de escola, vizinhos, colegas nas aulas de
balé. Na classe de dança, Lara vive grandes dificuldades para adequar
seu corpo às normas rígidas exigidas de uma bailarina clássica.
As relações com os familiares são leves. Ela tem no pai um apoio acolhedor.
Ouvir o irmão nomeá-la como ‘Lara’ apresenta um tom erótico, que traz
prazer, ao passo que ser chamada de ‘Victor’ é uma espécie de agressão.
Nega que um dia tenha sido Victor. No filme, não há referência à figura
materna ou a outros aspectos de sua vida antes de se mudar para Paris.
Aparentemente, a estratégia de Lara é varrer seu passado.
As considerações de Freud sobre a pulsão sexual, nos “Três ensaios sobre
a teoria da sexualidade”, são feitas a partir do que é, a princípio, visto como
desviante para, em seguida, ao longo desse texto de 1905, aproximar os
pervertidos das pessoas comuns. Também, os dilemas vivenciados pelas
pessoas trans, fenômeno que tem se tornado mais frequente na atualidade,
colocam uma lupa nas experiências vividas por todos os adolescentes.
A pergunta é: “O que é ser homem ou mulher?” Ela perturba os jovens
em seus percalços tanto em relação ao próprio corpo quanto no que diz
respeito a esse corpo, que está em jogo nas trocas sociais. A passagem
pelo túnel da adolescência confronta os jovens com essa tarefa. O túnel
é aberto dos dois lados. O direcionamento da vida adulta é uma ressigni-
ficação do que foi a experiência infantil. Espera-se que, nessa travessia,
204 Griphos psicanálise n. 26
encaminhamentos importantes sejam tomados pelo jovem adulto, entre
eles um posicionamento como homem ou mulher e a possibilidade do
exercício da sexualidade.
Lara consulta um médico para que possa usar hormônios, que impeçam o
desenvolvimento de características masculinas. Ansiosa, espera a hora de
fazer uma cirurgia para transformar o pênis em uma vagina. Também, viven-
cia um processo terapêutico quando é alertada quanto à falsa expectativa
de que uma cirurgia seria capaz de transformá-la numa mulher. O que é ser
mulher? “Não seria como pegar um ônibus”, diz-lhe o terapeuta. Ninguém
se torna uma mulher de um dia para o outro. É mais importante dar um
sentido feminino para o corpo do que alterar a genitália. Mas, Lara insiste:
“Só quero ser uma garota”. Entretanto, em outros momentos, também, diz:
“Tenho medo de não mudar nada”. “Você quer ser mulher imediatamente.
Não funciona assim. Aproveite sua puberdade”, diz-lhe o terapeuta.
Um caminho escolhido por ela foi fazer aulas de balé. No entanto, seu
corpo de menino precisa ser moldado, e Lara, então, se violenta. Esforça-
-se para dançar como se seu corpo fosse de menina. O esforço excessivo
leva a uma perda de peso, que prejudica o tratamento hormonal. Além
disso, esconde, agressivamente, a marca da diferença sexual: seu pênis
fica escondido sob ataduras, numa forma de negá-lo. Porém, “tem coisas
que não dá pra mudar, não é? Não dá pra arrancar um pedaço do pé”.
Freud (1923, p. 40) afirma que “o ego é primeiro e acima de tudo, um ego
corporal”. Em contraponto a essa afirmativa, Lacan (1981) considera a
importância de tomarmos o corpo marcado pelos significantes, dando-lhe
uma dimensão simbólica. Todavia, algo do corpo resta não simbolizado e
a identidade corporal vacila em alguns momentos. A adolescência, certa-
mente, é um desses momentos. O corpo insiste em se mostrar rebelde aos
significantes. Para alguns, esse desacerto é fonte de enorme angústia, a
sensação de que esse corpo não representa o eu.
Esse desacerto faz com que Lara deixe em suspenso sua vida amorosa
e sexual. Essa angústia é deflagrada diante do horror de um desencontro
Versões do corpo RODA DE PROSA 205
sexual, e Lara decide cortar aquilo que, segundo ela, impede-a de ser uma
garota. É um ato violento, mas calculado. Ato que escancara a magnitude
da angústia, que a habita mesmo que tenha apoio e compreensão por parte
do pai e das pessoas que a orientam. O sexual demanda uma travessia,
que cada vivente precisa percorrer sozinho.
Parte 2
Laerte-se1
Sinopse
O documentário Laerte-se, dirigido por Lygia Barbosa da Silva e Eliane
Brum e lançado em 2017, nos apresenta o cartunista Laerte com o convite
para conhecermos seu mundo e a longa trajetória de sua autoaceitação
como mulher. Num mundo de verdades absolutas, Laerte as questiona e
traça sua própria identidade.
Comentário
Na emoção de um ritmo leve e um tom poético, o documentário ultrapassa
a transmissão da questão de gênero, da mudança pela qual passa um
homem que escolhe ser mulher, e chega ao patamar do Corpo, do que ele
representa, e do Feminino em suas variantes. Um olhar amplo, despido
de preconceitos, livre, independente, de um ser impermanente, que traz
a dimensão de valor e da incompletude perene do ser humano. DEIXAR
IMPERMANENTE
Um convite sensível é lançado aos espectadores e apresenta-se imperativo
no tempo verbal: Laerte-se, liberte-se, revele-se, descubra-se, assuma-se,
ame-se.
O documentário é um testemunho de Laerte, cartunista que, aos 60 anos,
1 Texto elaborado a partir da discussão tecida na “Roda de prosa” do dia 6 de maio
de 2021.
206 Griphos psicanálise n. 26
assume a mulher que pode ser. O que poderia ser interpretado como
uma produção dirigida para esse tema, surpreendentemente, faz um giro
criativo para nos conduzir a outros temas de realce em um percurso de
sensibilidade, emoção e afeto.
Sobressaem, no filme, o clima de leveza, um ritmo de pausas, o entusiasmo
e a alegria para expressar o estatuto do desejo revelado.
As reflexões e o espaço entre perguntas e respostas nos dizem da ausência
de verdades absolutas e do alto valor da liberdade de ser. Sim! O ser é o
personagem principal.
Em um tempo lógico, as diretoras revelam de Laerte uma trajetória – com
seus laços familiares, que traçam, entre si, marcas de respeito e reconhe-
cimento desde os primeiros tempos em sua família nuclear até chegar aos
tempos atuais com a família extensa.
Destacam-se os temas do Corpo e do Feminino como temas privilegiados
pelo documentário. Laerte os apresenta como descobertas a serem reali-
zadas para além das que conquistou até então. A busca do Feminino se faz
com um brincar, uma estrutura de jogo lúdico, que ressalta a seriedade do
ato de construir as torres das elaborações. O Corpo, com suas vestimentas
e sua nudez, revela o que estava oculto e recalcado.
São descobertas particulares daquele ser falante, que ousou, corajosa-
mente, questionar, responder e descortinar “a investigação da mulher que
posso ser, indo para um lugar que não sei qual”, assim, diz Laerte. Res-
salta, então, o enigma ditado pela psicanálise: “O que quer uma mulher?”
Sua casa não é uma casa regular: fios expostos, tempo de reforma, tudo
provisório, provisório eterno, rodapé apodrecido; metáforas interessantes do
enquadre da liberdade, furos e limitações com que Laerte desenha a vida.
“Nem sempre fazemos coisas lógicas.” Sua assertiva é de uma abertura
iluminada, pois, ao considerar todas as mudanças e decisões que preci-
sou enfrentar, não exigiu de si mesma que as verdades fossem fechadas
e determinadas.
Versões do corpo RODA DE PROSA 207
Casa inadequada, eu inadequada, “há ocasiões em que me perco” e em
que “eu não tenho nada a dizer”; “medo do que podem achar”, “medo que
percebam que sou uma fraude”.
Se o chamam pelo pronome ‘ele’, com um tratamento masculino, Laerte até
se diverte, sem que isso abale sua posição de mulher. Por exemplo, quando
insiste, sem sucesso, com a manicure, que, por sua vez, não aprende que
Laerte já não é mais homem.
Mas, ela teria sua razão? Laerte é um homem/mulher? Ela vê, ali, a con-
dição pressuposta de uma bissexualidade original nos seres humanos,
como salientou Freud? Não lhe interessa a cirurgia de retirada do pênis,
mas lhe interessa colocar peitos para vivê-los.
Laerte, mesmo, lança a pergunta: “É possível ser mulher com minha ge-
nitália?”
E diz em momentos diversos: “Dificilmente, corpo está resolvido para
todo sempre.”, “Gosto de sair e levar meu corpo para passear com se-
renidade.” “Como consigo isso... exige certa segurança... me parece.” e
“A gente está sempre em processo de mudança.”
Laerte faz séries: no quadro, Corpo/Trabalho/Casa, com atividades a fazer
em cada campo; no pensar, Querer/Poder/Precisar/Dever, tentativas de
organizar as confusões inevitáveis e sempre presentes.
Um ponto relevante a ser destacado é que Laerte nos apresenta sua jo-
vialidade e seu prazer com as sutilezas de suas descobertas femininas.
Entretanto, não nega o lado perturbador, que é passar pelas provas de
comprometimento, as quais teve e tem de realizar. O filme O homem cha-
mado cavalo ilustra o que ela tem a dizer sobre as consequências, no real
do corpo, por vezes dolorosas, do ato de assumir o desejo.
Em 1920, Freud, referindo-se ao trabalho da psicanálise, ressalta
208 Griphos psicanálise n. 26
[...] ela deve contentar-se com revelar os mecanismos psíquicos que
culminaram na determinação da escolha de objeto, e remontar os ca-
minhos que levam deles às disposições pulsionais... Mas, a psicanálise
não pode elucidar a natureza intrínseca daquilo que, na fraseologia
convencional ou biológica, é denominado de ‘masculino’ e ‘feminino’:
ela simplesmente toma os dois conceitos e faz deles a base de seu
trabalho (p. 211).
Concluindo, a anatomia é dada, mas não é dado o modo como cada sujei-
to ‘vê’ sua anatomia. Laerte, em uma determinada entrevista, coloca: “Para
mim, não há ‘masculino’ e ‘feminino’. Não estou transitando, estou indo,
não sei bem para onde. O importante é que sei quem sou”.
Laerte lança nosso olhar para a liberdade, para o sim e o não, para a resis-
tência a se ver como objeto, para o escondido e os véus, para o impróprio,
para a morte que não muda nada, para a ausência de respostas precisas,
tudo isso pincelado com movimentos, imagens, quadros e enquadres da
arte.
REFERÊNCIAS
FREUD, Sigmund. A psicogênese de um caso de homossexualidade
numa mulher (1920). In: ______. Edição standard das obras psicológicas
completas de Sigmund Freud, 18. Rio de Janeiro: Imago, 1976. p. 185-212.
FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905). In: ______.
Edição standard das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 7.
Rio de Janeiro: Imago, 1969. p. 121-252.
FREUD, S. O ego e o id (1923). In: ______. Edição standard das obras
psicológicas completas de Sigmund Freud, 19. Rio de Janeiro: Imago,
1969. p. 13-83.
LACAN, J. O seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.
p. 150.
Versões do corpo RODA DE PROSA 209
PEDAÇOS DE
MULHER
Celeste Semião*
Suzana Márcia Dumont Braga**
Sinopse * Professora de língua
portuguesa
E-mail:
Os textos “Luto” e “Uma mulher em pedaços” repre-
<celestesemiao@[Link]>
sentam duas leituras do filme Pieces of a Woman, do
diretor húngaro Kornél Mundruczó (2020). A produção ** Psicanalista
dos textos é interessante para mostrar o funciona- Membro da EFBH/iepsi
E-mail:
mento da ‘Roda de prosa’, dispositivo criado, a fim
<subraga77@[Link]>
de dar espaço para a articulação da psicanálise com
outros campos do saber.
Uma das experiências de vida mais dolorosas, em tor-
no da qual é construída a trama do filme, é a morte de
um familiar. As reações dos personagens principais à
morte de uma recém-nascida constituem a narrativa
do filme, que este trabalho tenta analisar. Como uma
ponte em construção – ligação da morte com a vida
–, os personagens lutam para se reconstruir, lidando
com as reações familiares e com a influência de uma
sociedade exigente de um estado de felicidade per-
manente. No processo de reconstrução, interferem
marcas inconscientes e a pressa em se livrar do luto
e obter um alívio imediato, o que leva a um atalho:
atribuir a culpa a outrem. Só a elaboração do luto
permitirá à mãe da criancinha morta encontrar-se e
criar uma nova vida.
210 Griphos psicanálise n. 26
1 “Luto” – leitura de Celeste Simeão
O filme Pieces of a Woman (MUNDRUCZÓ,2020) tem como cenário a cida-
de canadense de Suffolk, ligada por pontes a outras localidades da região.
A construção de uma ponte inicia a narrativa do longa-metragem. A obra
conta com muitos trabalhadores; entre eles, está Sean (interpretado pelo
ator Shia LaBeouf), marido da personagem principal Martha Weiss (inter-
pretada pela atriz Vanessa Kirby). Na primeira cena, Sean dá instruções
aos outros colegas de profissão no sentido de agilizar o término da obra,
porque sua filha, ainda por nascer, terá de ser a primeira a atravessar a
ponte.
A esperança do marido é compartilhada por Martha, cuja gravidez cumpre
o prazo habitual. Ela se prepara para o parto fazendo escolhas e tomando
iniciativas consideradas importantes e acordadas pelo casal.
A gravidez vem, então, a termo. O casal vivencia o nascimento da filha
Yvette. Em vinte e três minutos de filme, o parto domiciliar feito pela parteira
Eva Woodward (Molly Parker) é mostrado com impressionante realismo.
Yvette nasce saudável, a mãe a pega ao colo, o pai fotografa mãe e filha,
mas, alguns minutos depois, a criança morre. Começa, então, o drama do
luto do pai, da mãe e da avó Elizabeth (Ellen Burstyn).
O luto é um conjunto de reações à morte. Quanto mais importantes os
afetos que ligam os enlutados à pessoa que morreu, maior o sofrimento,
o qual assume diferentes formas de expressão: tristeza profunda, desâni-
mo, perda de interesse nas atividades externas, frustração e sensação de
fracasso por acreditar no próprio poder de proteger o ser amado.
As manifestações de tristeza presentes no luto são um direito, muitas
vezes, negado pelas exigências da vida moderna, a qual não apresenta a
paciência necessária para esperar o tempo da reconstrução. O tempo, no
filme de Mundruczó, é marcado pela sequência dos meses que intitulam
as cenas, realçando a sua significativa participação na construção da vida.
Pedaçoes de mulher RODA DE PROSA 211
A ponte, como metáfora do luto, vai sendo construída concomitantemente
às ações dos personagens em sua luta pela reconstrução natural de suas
vidas a seu tempo e a seu modo.
Embora todos tenham sido atingidos pelo golpe narcísico da morte, suas
expressões os diferenciam. Sean assim como a avó Elizabeth representam
o pensamento da sociedade moderna – exigente de um estado de felicidade
permanente. O luto lhes é intolerável. Culpar a parteira é o atalho que en-
contram para sair do luto. Ao se referir à Ponte Tacona, que desabou sem
que os especialistas pudessem encontrar a causa, Sean demonstra sua
procura e roça a verdade ao se lembrar de que a ressonância foi a causa
do desabamento. Ele explica à advogada de acusação, contratada por ele
e por Elizabeth para defendê-los da atuação de Eva, que ‘ressonância’ é
o encontro das vibrações externas com as vibrações internas dos corpos
sólidos. Sean mostra-se suscetível às vibrações externas negativas dos
familiares e da sociedade. Apressa, em vão, a mulher a sair do estado de
alheamento para com os outros ao seu redor e de desinteresse pelo am-
biente da casa – nesse momento, as cenas mostram as plantas domésticas
já quase mortas. Sua atitude de forçar o tempo de Martha, forçar o seu
reestabelecimento, surte efeito contrário: Martha se desfaz de tudo ligado
à filha, à gravidez, e vai se distanciando de Sean.
Elizabeth, por sua vez, diante do ocorrido, depara-se com seu trauma de
ser uma judia, que sofrera medo e privações ao nascer e em suas primeiras
horas de vida devido à perseguição dos nazistas. Levar Eva ao Tribunal do
Júri e condená-la são a máxima expressão de uma vontade de vingança
inconsciente, que a perda da neta desperta. Ação inconsciente é, também,
sua intervenção constante na vida de Martha, realçada, ainda mais, com
atitudes, que produzem uma baixa autoestima em Sean.
Um detalhe importante é a maçã. A ‘maçã’ simboliza a vida, o amor, a
imortalidade, a fecundidade, a juventude, a sedução, a liberdade, a magia,
a paz, o conhecimento, o desejo. Seu formato esférico representa o ‘sím-
bolo do mundo’, e suas sementes, a ‘fertilidade’ e a ‘espiritualidade’
212 Griphos psicanálise n. 26
(Dicionário de Símbolos). Imersa no luto, Martha come maçã o tempo todo.
A pulsão de vida segue de par com a pulsão de morte.
Embora haja uma ideia de tempo decorrido como medida do luto (as di-
ferentes partes da narrativa se iniciam com datas específicas), o tempo é
mais misterioso e sutil. Medir o tempo envolve mais do que justapor um
relógio a um evento e anotar a indicação.
Martha vivencia três tempos de uma só vez: somado ao tempo do luto pela
morte da filha, ela vive o tempo do puerpério ou resguardo – quando a mãe
perde as alterações sofridas durante a gravidez. A perda dos hormônios
gera modificações emocionais, que causam medo, insegurança, raiva e,
até mesmo, rejeição à criança. Essa rejeição já foi nomeada como reação
à ‘interrupção voluntária da fantasia’. Com tudo isso, ainda há, para Martha,
um tempo de dor pelo desabamento de sua relação com Sean.
Em meio a tanta dor, Martha vive de acordo com um ciclo inspirado pela
ligação da mulher com a natureza. Não apressa o ciclo natural do luto,
mas não permanece inerte. Procura reconstruir-se. Seu luto é dinâmico.
Doa à universidade o corpo de Yvette com a ressalva de que ele lhe fosse
entregue após o estudo. Por meio das sementes de maçã, estuda a ger-
minação. ‘É preciso morrer para germinar’. A germinação das sementes
de maçã é uma marca importante de vida nova.
Sean vai embora para Seattle por imposição de Elizabeth, e Martha o leva
de carro até a fronteira. Antes de atravessá-la, Sean tira o gorro, que cobre
sua cabeça, e o arremessa, diante de Martha, no painel em frente ao vidro
de maior visão da mulher.
Quanto a Elizabeth, embora estivesse imersa em seu objetivo de culpar
a parteira Eva pela morte da neta, ela tem um momento de lucidez ao di-
zer à Martha: “Você só sairá desse estado quando encontrar sua própria
verdade”.
Martha, que vinha procurando essa verdade na profundidade e no silêncio
do luto, finalmente, a encontra motivada pelas perguntas do advogado de
Pedaçoes de mulher RODA DE PROSA 213
defesa de Eva a respeito de seu sentimento em relação à recém-nasci-
da. Num insight, ela se apressa para revelar as fotos deixadas por Sean.
Junto com as fotos da filha em seus braços, o amor se revela verdadeiro
parto de si.
Martha volta ao tribunal e depõe isentando Eva de culpa, limpando o caso
das vibrações externas, que turvavam o processo jurídico e o seu próprio
processo de se encontrar, reconhecendo que a dor da perda não decorre
da culpa de alguém, mas, sim, é decorrente do amor.
Martha está pronta assim como também fica pronta a ponte onde Sean
trabalhava. Yvette pode atravessá-la como Sean desejou. E, assim, acon-
tece. Martha veste o gorro de Sean e, de cima da ponte, espalha as cinzas
da filha nas águas do rio.
A última cena do filme mostra a nova vida de Martha, já mãe de outra me-
nina, que brinca numa macieira – a árvore da vida. Martha chama a filha:
“Luciana, vem jantar!” Ambas seguem rumo à casa conversando sobre si
mesmas, conhecendo-se, construindo a relação ‘mãe e filha’.
2 “Uma mulher em pedaços” – leitura de Suzana Márcia
Dumont Braga
O penoso processo de luto do casal Martha e Sean toca profundamente
qualquer espectador. Afinal, o filme tem como tema o luto diante da perda
de um filho, possivelmente a maior perda em nossa cultura, quiçá uma das
possíveis maiores perdas humanas. O relato se inicia em setembro, tempo
de outono, e atravessa as estações até chegar à primavera, quando a luz
volta a brilhar. As mudanças do clima são uma metáfora do que acontece
com os protagonistas.
Há uma nítida divisão da trama. Na primeira parte, com duração de quase
trinta minutos e sem cortes, o espectador acompanha o casal à espera da
chegada de sua primeira filha. O processo do parto é penoso, e a menina
214 Griphos psicanálise n. 26
Yvette morre logo depois de nascer sem que os pais ou a parteira pudes-
sem fazer qualquer coisa para salvá-la.
Na segunda parte, acompanhamos o casal vivendo um duro trabalho de
luto. Freud (1915), em “Luto e melancolia”, afirma que, no luto, é preciso
recolher a libido do mundo externo, trazê-la de volta para o eu e, depois,
reinvesti-la nos objetos externos. Segundo ele, no processo de luto, o
mundo se torna pobre e vazio; já na melancolia, o vazio é o próprio eu.
Freud diz, também, que, muitas vezes, sabe-se ‘quem’ foi perdido, mas
não ‘o que’ se perdeu nesse alguém. O que amamos em quem amamos?
Não conseguimos nomear.
Relações duradouras são aquelas que contêm diversos acordos, que vão
se refazendo a cada encruzilhada. No entanto, Martha e Sean, diante da
encruzilhada imposta pela perda da filha, golpe narcísico maior, entram
num processo de imensa solidão. Cada um vive uma dor que não pode
ser compartilhada. Suas vidas se tornam conjuntos disjuntos. Nada a
compartilhar. Junto com o luto pela perda da filha, vivem o luto da perda
do vínculo entre eles.
Sean, que tem um passado de drogadição, recorre às drogas e se relaciona
com outra mulher para tamponar a solidão. Martha, após o parto, vive a
dor de um resguardo sem bebê: o sangramento vaginal e a experiência
dolorosa de ter o peito cheio de leite sem criança para amamentar. A dor
é letra escrita no corpo.
O luto, também, tem de ser vivido no campo do Outro. Martha se defronta
com o olhar dos colegas de trabalho, com a percepção de outras crianças,
que estão ao redor e que explicitam a ausência da filha, e com a angústia
de ter de decidir, a despeito da opinião da mãe, o que fazer com o corpo
da filha morta.
Diante da situação de perda, há uma reedição de conflitos na relação com
a mãe fálica, que, por sua vez, quer dar as coordenadas do que deve ser
Pedaçoes de mulher RODA DE PROSA 215
feito. “Se tivesse feito do meu jeito, estaria segurando sua filha nos seus
braços agora”, sentencia a mãe. Numa tentativa de transformar o trágico
em drama, a mãe quer encontrar um culpado, numa forma de se defender.
A fatalidade é um dos nomes do Real. Mas, explicita, também, que ela se
culpa por não ter sido capaz de transmitir uma posição de luta à filha, de se
posicionar em nome da vida como ela havia aprendido com a própria mãe.
O abismo que se abre entre o casal desemboca numa separação. Fotos
são descartadas: as do ultrassom emolduradas num quadro, aquelas dos
momentos felizes vividos. Em meio a essas imagens, também havia fotos
não reveladas do parto. Poder ver essas fotos meses depois da morte de
Yvette permite à Martha construir uma imagem da filha. Essa experiência
é um marco, abre uma forma de lidar com o luto por meio da palavra para
dar um contorno simbólico ao real da experiência. Pela primeira vez, ela
pode falar da filha perdida. Inocentar a parteira durante o julgamento faz
parte desse processo de elaboração. Não fora para punir alguém que a
filha teria vindo ao mundo. É preciso dar um novo sentido a essa vida.
Assim, Martha pode retomar a vida depois da separação. Desfazer-se
das cinzas de Yvette e cultivar maçãs desde o tempo da germinação. De-
lineia-se uma forma de transformar a vida da filha perdida em uma nova
configuração. Afinal, sua lembrança é que, nos breves instantes em que
teve a bebê nos braços, havia registrado que ela tinha cheiro de maçã;
essa teria sido a marca de sua presença na brevidade de sua existência.
A cena final nos mostra que o tempo passou, e Martha pode se refazer e
vivenciar a maternidade num tempo novo, simbolizado por uma menina
em uma macieira cheia de frutos: uma aposta na vida!
REFERÊNCIA
PIECES of a Woman. Direção: Kornél Mundruczó. Produção: Canadá,
Hungria, Estados Unidos, 2020.
216 Griphos psicanálise n. 26
MUCIZE
Yolanda Mourão Meira*
Sinopse * Psicanalista
Membro da Escola Freudiana
Mucize apresenta o drama de Aziz, que possui acen- de Belo Horizonte/iepsi
E-mail:
tuadas deficiências físicas, e é muito maltratado por
<yolandamouraomeira@gmail.
todos. O rapaz tem apenas um amigo: um cavalo. O
com>
professor da aldeia o convida para participar das au-
las. Aos poucos, Aziz aprende a se comunicar através
de desenhos e da escrita. Mais tarde, arranjam-lhe
um casamento. Sob pressão, Aziz foge com a espo-
sa. Volta à aldeia muitos anos depois com a mulher
e dois filhos. Ele, então, consegue falar e andar. O
cavalo, seu primeiro amor, é o primeiro a reconhecê-
-lo. Indagado sobre o motivo de sua melhora, ele diz:
“Eu me apaixonei pela minha esposa”. A fuga de Aziz
teria uma função: fazer uma separação do significante
deficiente que o alienava? Como se dá o narcisismo
em Aziz e qual a relação entre o autoerotismo e o
narcisismo? Poderíamos pensar que o professor
funcionou como o primeiro espelho de Aziz, que
totalizou sua imagem e unificou seu corpo? E que o
amor da esposa foi fundamental para a estruturação
do seu narcisismo?
Comentário
Inspirado por uma história real, Mucize traz, nos
anos 1960, o drama de Aziz, rapaz morador de uma
Mucize RODA DE PROSA 217
humilde aldeia no leste da Turquia, que possui acentuadas deficiências
físicas, com limitações de movimento e de fala.
Desde que chegou à aldeia, o professor Mahir observou esse rapaz, que
era muito maltratado por todos. Relacionava-se somente com um cavalo.
Não falava e tinha parte do corpo paralisada. Vivia andando pela aldeia,
sujo, em condições muito precárias; mais parecia um animal.
Aziz ficava rondando a escola, e o professor, então, o convida para par-
ticipar da aula. Aos poucos, Aziz aprende a se comunicar através de
desenhos e da escrita.
Um casamento arranjado ‘presenteia’ Aziz com uma mulher linda. Aliás,
trata-se de costume muito interessante aquele da aldeia onde vive Aziz:
uma turma de mulheres se dirigia às aldeias vizinhas com a incumbência
de encontrar uma noiva para os rapazes de sua aldeia. Faz lembrar o an-
tropólogo Claude Lévi-Strauss quando fala da circulação das mulheres, fato
importante, que consolida o tabu do incesto. Uma aldeia oferecia a mulher
a uma aldeia diferente, a qual, por sua vez, oferecia o homem.
A noiva percebe, imediatamente, a deficiência do noivo e chora muito.
Inicialmente, considera-o um fardo e começa a cuidar de seu corpo. Sob
pressão, ela diz não aguentar mais. Vendo o sofrimento de sua esposa,
Aziz deixa uma carta para a aldeia explicando o porquê de sua saída e
foge com ela.
Aziz volta muitos anos depois com a mulher e dois filhos, levados no carro
do professor. Ele, agora, consegue falar, andar e tem um encontro emocio-
nante com o cavalo, seu primeiro amor, que é o primeiro a reconhecê-lo.
Somente depois desses acontecimentos, as pessoas perguntam: “É você
mesmo, Aziz?” Indagam como ele havia conseguido falar, se havia feito
uma cirurgia, e ele responde: “Eu me apaixonei pela minha esposa”.
Mucize é uma palavra turca que significa ‘milagre, prodígio, maravilha’; um
evento incomum, que é inexplicável pelas leis científicas.
218 Griphos psicanálise n. 26
No entanto, para que o milagre ocorresse, Aziz teve que se afastar da aldeia.
Qual a função desse afastamento? Ele teria servido para que o rapaz se
encontrasse pessoalmente? Ou para que fizesse uma separação do signi-
ficante ‘deficiente’, que o alienava? Falarei, agora, sobre o corpo de Aziz.
Não podemos pensar que se trata de um corpo apenas biológico, pois ele
é atravessado pela linguagem, pelos significantes. Antes de sua jornada
fora da aldeia, tratava-se de um corpo marcado pela deficiência. Ele era
‘o deficiente’, nada mais. Aziz tinha problemas corporais, mas esses são
minimizados pelo amor: “Me apaixonei pela minha esposa”. Como o amor
da esposa é, então, transferido para o eu de Aziz? Para discutirmos essa
passagem, temos de falar do narcisismo.
Houve, inicialmente, um investimento autoerótico em Aziz. Ele vivia quase
como um bicho: sem fala, sem pudor do corpo. Como se dá o narcisismo
nesse rapaz e qual a relação entre o autoerotismo e o narcisismo?
No texto “Sobre o narcisismo: uma introdução”, Freud (1914) fala da exis-
tência de uma fase de evolução sexual intermediária, que estaria entre o
autoerotismo e o amor objetal. Uma parte original do eu é posteriormente
transmitida a objetos, como o corpo da ameba com seus pseudópodes,
e, então, toma-os para si mesmo e para seu próprio corpo como objeto
de amor.
As pulsões autoeróticas se encontram presentes desde o início, sendo
necessária uma nova ação psíquica para provocar o narcisismo. Tal uni-
dade é precipitada por uma determinada imagem que o indivíduo adquire
de si mesmo, segundo o modelo do outro. Lacan relacionou essa etapa,
num primeiro momento da formação do eu, com a experiência narcísica
fundamental – o estádio do espelho.
Poderíamos pensar que o professor funcionou como o primeiro espelho de
Aziz, totalizando sua imagem e unificando seu corpo. O amor da esposa,
por sua vez, foi fundamental para a estruturação do seu narcisismo.
Mucize RODA DE PROSA 219
Para Colette Soler (2017), o primeiro corpo no ensino de Lacan é o corpo
da imagem convocado pelo estádio do espelho. Quando se diz ‘eu tenho
um corpo’, o ‘Um’ do corpo é o ‘Um’ da imagem.
Nesse momento (e também no que diz respeito a Aziz), podemos pensar
num corpo despedaçado, um corpo em que falta algo que constitua o ‘Um’
do corpo. Inicialmente, para Lacan, existiria um mal-estar vital no prematu-
ro: o ser despedaçado em suas funções encontra, na imagem do espelho,
a unidade que falta ao seu organismo. Nesse momento, Lacan elabora
a solução através do imaginário, que anuncia a totalização do organismo
fragmentado (o que vai se modificar com a teoria do nó borromeano). Para
dar conta da fragmentação sintomática e pulsional, Lacan introduz a tese
da linguagem operadora, da linguagem que opera sobre o organismo e
faz dele um corpo.
É essencial, para vida mental, ultrapassar os limites do narcisismo e ligar a
libido a objetos. Devemos amar, a fim de não adoecermos. Estamos destina-
dos a cair doentes se formos incapazes de amar, como dizia Freud (1914).
Inicialmente, a única relação afetiva de Aziz era com aquele cavalo. O
rapaz estava perdido, com seu corpo fragmentado, suas pulsões parciais
desordenadas. Mas, existia o cavalo. Qual o estatuto de sua ligação com
o animal?
A presença do professor deu-lhe humanidade, dignidade, a qual Aziz não
possuía anteriormente. As crianças batiam nele com varas e ele só sabia
gritar. Não havia a palavra nem para se queixar. Tudo muda quando alguém
acredita nele, o professor, chamando-o para participar das aulas e ensinan-
do, com muito cuidado, eu diria com amor, a aprender a escrever e a falar.
Aziz balbucia as primeiras palavras quando o professor convoca a turma
para falar o nome do pai. Sabemos da importância do Nome-do-Pai na
constituição do sujeito. Podemos pensar que a introdução da linguagem
convocou o aparecimento do sujeito. Houve uma constituição subjetiva.
Esse foi o milagre.
220 Griphos psicanálise n. 26
REFERÊNCIAS
COLETTE, S. Nova economia do narcisismo. Stylus Revista da Psicanálise,
n. 34, p. 27-42, ago. 2017.
FREUD, S. Sobre o narcisismo: uma introdução. In: ______. Edição
standard brasileira das obras psicológicas de Sigmund Freud, 14 (1914).
Rio de Janeiro: Imago, 1969.
Mucize RODA DE PROSA 221
TEXTOS
REUNIDOS
RESENHA DO
LIVRO DE
FÁBIO BORGES
Regina Beatriz Silva Simões*
* Psicanalista
Em minhas mãos, uma preciosidade: o novo livro
Membro da EFBH/Iepsi
de Fábio Borges, “Textos Reunidos”, recentemente
Mestre em Psicanálise pela
publicado pela Conceito Editorial. Nele, encontramos
UFSJ
o percurso da bela história – meticulosamente cons- E-mail:
truída – de um profissional da psicanálise. As páginas <reginabeatrizmg@[Link]>
têm como componentes: a dedicação, a seriedade, a
pesquisa e a paixão. Sim. É paixão o que encontro na
leitura deste exemplar: paixão pela psicanálise, pelas
letras, pela história, pelas descobertas, pela arte. Em
cada texto, a curiosidade aguçada de Fábio, aliada à
sua escrita primorosa e pormenorizada, é enfatizada
de maneira genial.
224 Griphos psicanálise n. 26
O texto freudiano tem primazia neste exemplar e o encontro com o ensino
de Lacan coroa a conversa inteligente e interessante, registrada em suas
produções e interlocuções. Entretanto, Fábio Borges caminha por trilhas
próprias, com seu estilo nobre e original, surpreendendo o leitor com a sutil
habilidade de tornar simples assuntos tão complexos.
O autor percorre terras variadas: artigos preparados para os seminários
que proferiu nas Escolas e grupos de psicanálise, questionamentos fun-
damentais sobre a clínica psicanalítica, detalhes valorosos sobre a saga
psicanalítica – que ele tão bem conhece –, reflexões e ensaios oriundos de
estudos, pesquisas fabulosas sobre Darwin, Sebastião Salgado e Van Gogh
entre outros personagens de relevo que elegeu. Os textos variam, mas o
traço de sensibilidade e a aguda inteligência persistem por toda a obra.
Invenção, fascínio, movimento, provocação. Esses são elementos encon-
trados no caminho que o leitor vai percorrer. São colheitas do percurso de
um colecionador e contador de histórias, profundo conhecedor dos temas
que ora publica. São frutos legítimos de quem delineou com seriedade a
prática analítica.
O prefácio de seu livro recebe a fina escrita de Ana Maria Portugal, amiga
e companheira de trabalho, que abre as páginas com louvor. O posfácio
traz a assinatura de Gilda Vaz, também companheira e amiga de longa
data do autor. Na orelha do exemplar, o convite de seu filho: o psicanalista
Gustavo Borges, que nos chama à leitura e escuta das palavras do pai.
O livro é repleto de escritas afetivas, pois o autor é digno de todas elas.
Para os que valorizam cada detalhe de uma publicação diferenciada, eis aí
um presente. A capa, que adorna todo este material valioso, é a fotografia
(belíssima!) do consultório de Fábio: espaço requintado e acolhedor, lugar
sagrado para os analisantes, casa de estudos do autor, recanto consagrado
da transmissão da psicanálise.
Textos reunidos - Resenha dos livro de Fábio Borges RESENHAS 225
E como se nada disso bastasse para classificar este livro como uma “relí-
quia”, o leitor encontra ainda um detalhe inédito: depoimentos de pessoas
que estiveram presentes, de alguma maneira, na vida profissional e afetiva
de Fábio e que encontraram, ali, lugar para o recorte terno das experiências
privilegiadas vividas ao lado do autor.
Não é à toa que Fábio Borges tem um lugar respeitado e de destaque na
história da psicanálise de Minas Gerais. Sua obra é o retrato deste trajeto
pulsante e incessante tal qual o movimento de uma análise.
226 Griphos psicanálise n. 26
AS CARTAS E SEUS
DESTINOS
RESENHA DO
LIVRO A CARTA
ROUBADA: LACAN
PARA CURIOSOS,
DE THAÏS GONTIJO
E JOSÉ MARCOS
RESENDE OLIVEIRA
Suzana Márcia Dumont Braga*
Quando o livro A carta roubada: Lacan para curiosos, * Psicanalista
de Thaïs Gontijo e José Marcos Resende Oliveira Membro da EFBH/iepsi
Doutora em Letras pela PUC
(2021), chega às minhas mãos, tenho uma sensação
Minas
de surpresa. A começar pela capa, que está ilustrada
E-mail
com um envelope e uma frase em letra cursiva: “A <Subraga77@[Link]>
carta sempre chega ao seu destino”. Folheio o livro
e vejo que ele tem um conteúdo singular. Trata-se de
As cartas e seus destinos - Resenha do livro A carta roubada... RESENHAS 227
um trabalho meticuloso a respeito do “Seminário sobre a carta roubada”,
texto de Lacan (1955) que abre seus Escritos. Esta pesquisa é um convite
para uma viagem por esse ensaio de Lacan. “Longe de tentar fornecer
uma compreensão do texto, a ideia foi mostrar a maneira como Lacan, ao
buscar interlocutores, os inseria em sua teoria, gerando, assim, uma con-
tribuição para a clínica psicanalítica” (GONTIJO; OLIVEIRA, 2021, p. 207).
Através da leitura desta obra, fiz descobertas interessantes. No início do
século XIX, no estado de Massachusetts, nasceu o escritor Edgar Allan
Poe. Em seus contos, o leitor costuma encontrar situações enigmáticas e
personagens com grande capacidade analítica, que, aos poucos, desve-
lam enigmas. Em 1844, foi publicada “A carta roubada”, último conto de
Poe, em que aparece o detetive Dupin, personagem que já havia estado
presente em outras novelas.
Essa carta/letra de Poe foi lançada ao mundo, como são os textos lite-
rários, e circulou entre várias mãos. Qual o seu destinatário? Entre seus
destinatários, Thaïs e José Marcos nos lembram de que a princesa Marie
Bonaparte, com base em alguns conceitos de Freud, publicou uma análise
da obra de Poe. Apoiada em conceitos freudianos, a princesa faz uma
decifração do conto “A carta roubada” a partir dos conflitos vividos por Poe
na infância e adolescência.
Essa obra de Bonaparte (1988) foi prefaciada por Freud, com quem ela teve
um vínculo importante. É interessante lembrar que o pai da psicanálise,
nas “Conferências introdutórias sobre psicanálise” (FREUD, [1916]1915),
compara o trabalho do analista ao de um detetive em busca de vestígios
para fazer suas descobertas. À psicanálise, afirma ele, interessam os res-
tos, detalhes que não têm importância para outros campos do saber. Os
restos nos dariam o sentido último? Desvelariam, por fim, o inconsciente?
No que diz respeito às considerações psicopatológicas de Marie Bonaparte,
Freud faz um contraponto e lembra que “investigações como estas não
se destinam a explicar o caráter de um escritor, porém mostram quais as
forças motrizes que o moldaram e qual o material que lhe foi oferecido pelo
destino” (GONTIJO; OLIVEIRA, 2021, p. 160).
228 Griphos psicanálise n. 26
Jacques Lacan (1955) retoma o texto de Poe num caminho inverso ao da
princesa. Dando ênfase ao significante em detrimento do significado, chama
atenção para a circulação da carta e para os diversos sentidos que ela vai
adquirindo enquanto circula de mão em mão. Afinal, o que interessava a
Lacan, num primeiro momento, era mostrar a primazia do significante em
relação ao significado, uma vez que o sentido da carta se modifica ao longo
do conto, e o leitor termina a leitura sem saber qual seria o seu conteúdo.
“Este é o tipo de decifração exigido pelo processo analítico, que resulta
em uma verdade, e não em uma significação. A interpretação não é para
revelar o sentido, mas para apontar o não sentido irredutível e traumático
ao qual o sujeito está assujeitado” (GONTIJO; OLIVEIRA, 2021, p. 206).
Podemos ver o livro de Thaïs e José Marcos como outra escrita a partir
de “A carta roubada”. Eles recebem a carta de Lacan e, tomados por uma
espécie de espírito de detetive, colocam uma lente no ensaio, percorrem
todas as pistas que o texto deixa, todas as referências que Lacan faz no
texto assim como todos os autores com quem ele dialoga e esclarecem os
conceitos psicanalíticos abordados por ele neste ensaio. Aqui, o subtítulo
do livro – “Lacan para curiosos” – ganha especial relevância. Sabe-se o
quanto Lacan buscou outros saberes nos campos da filosofia, da literatura,
da matemática etc. para fazer interlocuções. Essa curiosidade, também,
moveu os autores de A carta roubada – Lacan para curiosos. Eles foram
atrás dos interlocutores de Lacan, e esta minuciosa pesquisa marca a
originalidade deste livro.
Eles lançam sua carta, e quem for seu destinatário e se permitir abri-la
encontrará ali as marcas de tantos outros escritos que a antecederam. E,
quem sabe, poderá, também, escrever e lançar novas cartas no movimento
incessante de transmissão da psicanálise.
As cartas e seus destinos - Resenha do livro A carta roubada... RESENHAS 229
REFERÊNCIAS
BONAPARTE, M. Selections from The life and Work of Edgar Allan Poe: a
pscho-analytic interpretation. In: MULLER, J. P.; RICHARDSON, W. J. (Ed.)
The purloined Poe: Lacan, Derrida, and psychoanalytic reading. Baltimore,
London: John Hopkins, 1988. p. 101-132.
FREUD, S. Conferências introdutórias sobre psicanálise. Parte I –
Parapraxias (1916 [1915]). Conferência II – As parapraxias. In: ______.
Edição standard das obras psicológicas completas, 15. Rio de Janeiro:
Imago, 1969. p. 39-55.
GONTIJO, T. D.; OLIVEIRA, J. M. R. de. A carta roubada: Lacan para
curiosos. Belo Horizonte: Caravana, 2021.
LACAN, J. O seminário sobre “A carta roubada” (1955). In: ______.
Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. p. 13-66.
230 Griphos psicanálise n. 26
NORMAS DE PUBLICAÇÃO
REVISTA GRÎPHOS – psicanálise n. 26
1. Serão publicados preferencialmente trabalhos inéditos elaborados
por membros da Escola Freudiana de Belo Horizonte/iepsi e textos
de colaboradores convidados pela Diretoria de Publicação e Divulga-
ção, após ouvida a Diretoria.
2. Todos os trabalhos serão publicados em língua portuguesa. Ficará
a cargo do (a) autor (a) a tradução/versão de trabalhos enviados em
outro idioma.
3. Poderão também ser publicadas:
• Conferências sobre o tema.
• Reflexões sobre o tema proposto, articulado com outras áreas do
conhecimento.
• Casuísticas, entrevistas e resenhas de livros que enfoquem o tema.
4 Os trabalhos deverão ser apresentados na forma impressa e em ar-
quivo digital Word 2003-2007 ou superior, em fonte Times New Ro-
man tamanho 12, conforme esta especificação:
• Título em tamanho 14, em caixa-alta.
• Nome do autor em tamanho 12 seguido destas informações: profis-
são, instituição a que pertence, qualificação, e-mail.
• Espaçamento entre linhas 1,5 e alinhamento justificado.
• Parágrafos sem recuo e separados por 1 ENTER
• Laudas entre 20 e 25 linhas, não mais do que 7 laudas, em uma só
face, devidamente revisadas e rubricadas pelo autor.
5 Os trabalhos deverão ser acompanhados de Resumo e Palavras-
-chave; Abstract e Keywords; ou Resumé e Mot-clés redigidos pelo
autor. O resumo se limita a “um parágrafo e deve incluir palavras re-
presentativas do assunto. Deve ser redigido com verbos na voz ativa
e na terceira pessoa do singular. A NBR 6028 recomenda também a
inclusão de palavras-chave (3 a 5) logo abaixo do texto”.
6 Os originais deverão seguir estas convenções:
• Itálico: palavras de língua estrangeira; título de obra/artigo.
• Aspas duplas: citações de autores; falas de pacientes.
Normas de publicação 231
• Aspa simples: nos termos que o (a) autor (a) quiser destacar.
• Obs.: A sublinha não será usada.
7 Tabelas, quadros, gráficos, figuras, fotos etc. deverão ser enviados
em separado com a respectiva legenda numerada e a indicação da
localização desejável no texto, entre dois traços horizontais.
8 As notas explicativas deverão ser numeradas consecutivamente no
texto e listadas em rodapé.
9 As referências serão listadas no final do texto, em ordem alfabética.
Exemplos:
FREUD, S. Inibições, sintomas e ansiedade (1926 [1925]). In:
___. Um estudo autobiográfico, inibições, sintomas e ansiedade,
análise leiga e outros trabalhos (1925-1926). Direção-geral da tra-
dução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 91-
167. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas
Sigmund Freud, 20).
FREUD, S. Inibição, sintomas e angústia. In: _____. Inibição, sin-
toma e angústia, o futuro de uma ilusão e outros textos (1926-
1929). Tradução de Paulo Cesar de Souza. São Paulo: Compa-
nhia de Letras, 2014. (Obras completas, 17).
LACAN, J.O seminário, livro 10: a angústia (1962-1963). Rio de
Janeiro: Zahar, 2005.
LACAN, J. O estádio do espelho como formador da função do eu
(1949). In: ____. Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janei-
ro: Zahar, 1998. p. 96-103.
LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. B. Vocabulário de psicanálise. 4.
ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
10 Os textos deverão passar por revisão com revisor autorizado pela
Comissão Editorial, ficando a cargo do autor os custos desse traba-
lho.
11 A Comissão Editorial se reserva o direito de recusar, em correspon-
dência prévia, os trabalhos que não se enquadrem nestas normas
e entregues fora do prazo estipulado: 15/07/2020 para o e-mail:
escolafreudianabhiepsigriphos@[Link], criado especificamente
para esta revista.
12 Os trabalhos deverão ser enviados em arquivo digital.
232 Griphos psicanálise n. 26
MEMBROS DA ESCOLA FREUDIANA DE BELO HORIZONTE
2º SEMESTRE/2022
ALESSANDRA ALVARENGA SPADINGER ROSELY GAZIRE MELGAÇO
E-mail: <alespadinger@[Link]> E-mail: <roselygazire@[Link]>
ALOYSIO QUINTÃO BELLO DE OLIVEIRA SANDRA REGINA BRUM DA MATA
E-mail: <aloysiobello@[Link]> E-mail: <sandrabrum@[Link]>
ANDREA CHAGAS LIBANIO DE FREITAS SUZANA MÁRCIA DUMONT BRAGA
E-mail: <[Link]@[Link]> E-mail: <subraga77@[Link]>
HELOÍSA MAMEDE SILVA GONZAGA THEREZA CHRISTINA BRUZZI CURI
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IDA AMARAL BRANT MACHADO VANESSA GAMA POZZATO
E-mail: <idaamaral@[Link]> E-mail: <vanpozzato@[Link]>
MARIA AUXILIADORA BAHIA VERA LÚCIA SILVA NEVES
E-mail: <auxiliadorabahiabh@[Link]> E-mail: <nevesvera4@[Link]>
MARIA BARCELOS DE CARVALHO COELHO YÁSKARA SOTERO NATIVIDADE VEADO
E-mail: <mariabarcelosc@[Link]> E-mail: <[Link]@[Link]>
REGINA BEATRIZ SILVA SIMÕES REGINA YOLANDA MOURAO MEIRA
E-mail: <beatrizmg@[Link]> E-mail: <yolandamouraomeira@[Link]>
REGINA CÉLIA PACHÊCO NUNES
E-mail: <reginapacheco@[Link]>
Normas de publicação 233