MEDIDA CAUTELAR NA ARGUIÇÃO DE DESCUMPRIMENTO DE PRECEITO
FUNDAMENTAL 1.196 SÃO PAULO
RELATOR : MIN. FLÁVIO DINO
REQTE.(S) : PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL
ADV.(A/S) : MARVIA SCARDUA DE CARVALHO E OUTRO(A/S)
INTDO.(A/S) : CÂMARA MUNICIPAL DE SÃO PAULO
ADV.(A/S) : PROCURADOR-GERAL DA CÂMARA MUNICIPAL
DE SÃO PAULO
INTDO.(A/S) : PREFEITO DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO
ADV.(A/S) : PROCURADOR-GERAL DO MUNICÍPIO DE SÃO
PAULO
DECISÃO:
Trata-se de Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental
proposta pelo Partido Comunista do Brasil – PC do B, a fim de que sejam
reconhecidas e sanadas o que entende ser graves lesões ao preceito
fundamental da dignidade da pessoa humana, previsto no inciso III do
art. 1° da Constituição, praticadas pelo Município de São Paulo, a partir
da concessão do serviço público de administração de cemitérios e
crematórios públicos, serviços cemiteriais, além de serviços funerários,
cuja regulamentação encontra guarida no art. 1° da Lei municipal n°
17.180, de 25 de setembro de 2019, e art. 9°, inciso VI, da Lei municipal n°
16.073, de 4 de outubro de 2017.
O Partido requerente defende, inicialmente, o cabimento da
arguição, destacando a presença de todos os requisitos legais para o seu
ajuizamento, conforme as seguintes justificativas:
“17. Os artigos 1o da Lei no 17.180, de 25 de setembro
de 2019, bem como do artigo 9o, inciso VI, da lei no 16.703,
de 4 de outubro de 2017 do município de São Paulo,
violam de forma flagrante o direito à dignidade humana
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(art. 1o, III, CF).
18. Inexistência de outro meio capaz de sanar a lesão
ou ameaça (subsidiariedade). Portanto, em face do caráter
acentuadamente objetivo da arguição de descumprimento,
o juízo de subsidiariedade há de ter em vista,
especialmente, os demais processos objetivos já
consolidados no sistema constitucional.
19. Princípio da subsidiariedade (art. 4o, § 1o, da Lei
no 9.882/99): inexistência de outro meio eficaz de sanar a
lesão, compreendido no contexto da ordem constitucional
global, como aquele apto a solver a controvérsia
constitucional relevante de forma ampla, geral e imediata.
A existência de processos ordinários e recursos
extraordinários não deve excluir, a priori, a utilização da
arguição de descumprimento de preceito fundamental, em
virtude da feição marcadamente objetiva desta ação.
20. Diante desse contexto, a ADPF é instrumento
constitucional apto ao controle de legitimidade do direito
pré-constitucional, do direito municipal em face da
Constituição Federal e nas controvérsias sobre direito pós-
constitucional já revogada ou cujos efeitos já se exauriram.
Nesses casos, em face do não cabimento da ação direta de
inconstitucionalidade, não há como deixar de reconhecer a
admissibilidade da arguição de descumprimento.
21. Também por aplicação da regra da
subsidiariedade, será cabível, em tese, a arguição de
descumprimento de preceito fundamental tendo por objeto
o reconhecimento da constitucionalidade de lei ou ato
normativo estadual ou municipal.”
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Asseverou também que “a legislação aqui inquinada como violadora de
preceito constitucional fundamental, contrasta com a própria Lei Orgânica do
Município de São Paulo nos artigos 123 e 125, inciso I, o que torna ainda mais
clamoroso a inconstitucionalidade dos artigos 1o da Lei no 17.180, de 25 de
setembro de 2019, bem como do artigo 9o, inciso VI, da lei no 16.703, de 4 de
outubro de 2017 do município de São Paulo, até porque viola o artigo 29 da
C.F.”.
Em relação à violação do preceito fundamental, pontuou que:
“32. A privatização dos serviços funerários e cemiteriais,
tem levado a exploração comercial desenfreada, pelas
empresas que receberam a concessão do Poder Municipal, nos
piores momentos da vida das pessoas que perdem seus entes
queridos. Preços extorsivos dão a tônica do que tem sido o
calvário de quem precisa sepultar um familiar, um amigo,
sobretudo para os mais pobres, que na prática não tem acesso
aos serviços destinados a pessoas de baixa renda.
[...]
34. A ofensa ao princípio fundante da República
Federativa do Brasil – dignidade da pessoa humana – inscrita
no inciso III, art.1o da C.F., reside justamente na hiper
exploração comercial no momento de maior fragilidade
emocional dos cidadãos e das cidadãs, impondo as famílias
enlutadas, sofrimento extra à perda do ente querido, reduzindo
a dimensão da vida e da dignidade humana a uma expressão
monetária vil, escorchante, revestida de crueldade na qual a
dignidade se esvai, ante a exigência estúpida do capital
privado, que não tem na prestação dos serviços funerários e
cemiteriais um fim em si mesmo, mas extração de lucratividade,
quanto maior melhor e nesta toada, o sofrimento de quem
perde um ente querido só aumenta e a dignidade humana é
liquidada definitivamente.
3
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35. A incompatibilidade entre iniciativa privada em
alguns serviços típicos a serem prestados pelo estado
genericamente considerado, é absoluta, não havendo espaço
para relativizações, e entre estes serviços, “in casu” destacamos
os serviços funerários, é gritante por sua carga de
desumanidade, dignidade humana versus lucro e para
aumentar a remuneração do capital, toda a sorte de artifícios é
lançada contra os incautos, que só querem se despedir com
dignidade do seu familiar, do seu ente querido.
36. É nítida a ofensa ao princípio da dignidade humana,
no momento mais dolorido da existência, a pessoa ser
extorquida de valores que não possui, para a derradeira
despedida do ente querido.”
Com base nestes argumentos, defende que esta Suprema Corte
determine, em caráter liminar, a sustação da “eficácia do art. 1° da Lei n°
17.180, de 25 de setembro de 2019, e do art. 9°, inciso VI, da Lei n° 16.703, de 4
de outubro de 2017, do município de São Paulo, em face da Constituição da
República e em decorrência retornar os serviços funerários e cemiteriais da cidade
de São Paulo à administração pública direta”.
É o sucinto relatório. Passo a decidir.
A Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental encontra-
se prevista no ordenamento jurídico nacional no § 1°, do art. 102, da
Constituição Federal, que, por sua vez, foi regulamentado pela Lei n°
9.882, de 3 de dezembro de 1999, objetivando evitar ou reparar lesão a
preceito fundamental:
“Art. 1° A arguição prevista no § 1° do art. 102 da
Constituição Federal será proposta perante o Supremo Tribunal
Federal, e terá por objeto evitar ou reparar lesão a preceito
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fundamental, resultante de ato do Poder Público.
Parágrafo único. Caberá também arguição de
descumprimento de preceito fundamental:
I - quando for relevante o fundamento da controvérsia
constitucional sobre lei ou ato normativo federal, estadual ou
municipal, incluídos os anteriores à Constituição;
II – (VETADO).
Art. 2° Podem propor arguição de descumprimento de
preceito fundamental:
I - os legitimados para a ação direta de
inconstitucionalidade;
[..]
Art. 4° A petição inicial será indeferida liminarmente,
pelo relator, quando não for o caso de arguição de
descumprimento de preceito fundamental, faltar algum dos
requisitos prescritos nesta Lei ou for inepta.
§ 1° Não será admitida arguição de descumprimento de
preceito fundamental quando houver qualquer outro meio
eficaz de sanar a lesividade.”
Segundo as lições de Dimitri Dimoulis e Soraya Lunardi, “o objetivo
geral da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) é
impedir que condutas ou normas contrárias a preceitos fundamentais
decorrentes da Constituição comprometam a regularidade do sistema
normativo, afetando a supremacia constitucional”1.
Ademais, as ações de controle abstrato de constitucionalidade
1
DIMOULIS, Dimitri; LUNARDI, Soraya. Curso de processo constitucional: controle de
constitucionalidade e remédios constitucionais. São Paulo: RT, 2021, p. 187.
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possuem causa de pedir aberta, no sentido de que “a adequação ou não de
determinado texto normativo é realizada em cotejo com todo o ordenamento
constitucional vigente ao tempo da edição do dispositivo legal”(ADPF 109 ED,
Rel. Min. Edson Fachin, Tribunal Pleno), e não apenas em relação aos
dispositivos apontados na petição inicial.
Para que seja devidamente processada, a ADPF necessita preencher
certos pressupostos, a saber: (i) legitimação do autor da petição nos
moldes do inciso I do art. 2° da Lei n° 9.882/1999; (ii) alegação de
descumprimento de preceito fundamental que interfira de forma direta
com a fixação do conteúdo e alcance do preceito fundamental, sem
necessidade de prévia intervenção de legislação infraconstitucional; e (iii)
inexistência de outro meio idôneo para sanar a lesividade
(subsidiariedade).
Em relação ao caso em análise, reconheço a presença de todos os
pressupostos de admissibilidade, tendo em consideração que (a) a
arguição foi proposta por um partido político com representação no
Congresso Nacional, possuindo, então, legitimidade universal (ADPF
572/DF, Rel. Min. Edson Fachin); (b) a solução da controvérsia posta na
arguição dispensa prévia interpretação e aplicação de legislação
infraconstitucional; e (c) com base nos precedentes desta Suprema Corte,
inexiste outro meio idôneo para sanar a lesividade apontada na exordial.
Essa ausência de meio idôneo é bem evidente, inclusive à vista do
momento em que o cidadão defronta-se com a controvérsia em exame: a
morte de um ente querido, circunstância impactante, geradora de
sofrimentos e lágrimas e - ao mesmo tempo - exigindo providências
imediatas, incompatíveis com a apresentação da lide perante as
instâncias ordinárias. Acerca do pressuposto da subsidiariedade, trago à
colação o seguinte precedente:
“Ementa: AGRAVO REGIMENTAL. ARGUIÇÃO DE
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DESCUMPRIMENTO DE PRECEITO FUNDAMENTAL.
ADPF. EDITAL MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. ENEM.
EXAME NACIONAL DO ENSINO. AÇÃO CIVIL PÚBLICA.
SUBSIDIARIEDADE. ART. 4º, §1º, DA LEI 9.882/99.
INEXISTÊNCIA DE OUTRO MEIO EFICAZ PARA A
SOLUÇÃO AMPLA, GERAL E IMEDIATA DA
CONTROVÉRSIA CONSTITUCIONAL. AGRAVO
PROVIDO. 1. A compreensão do que deve ser “meio eficaz para
sanar a lesividade”, se interpretada extensivamente, esvaziaria
o sentido da ADPF, pois é certo que, no âmbito subjetivo, há
sempre alguma ação a tutelar – individual ou coletivamente – o
direito alegadamente violado, ainda que seja necessário
eventual controle difuso de constitucionalidade. 2. De outro
lado, se reduzida ao âmbito do sistema de controle objetivo,
implicaria o cabimento de ADPF para qualquer ato do poder
público que não autorizasse o cabimento de ADI, por ação ou
omissão, ou ADC. 3. O critério deve ser intermediário, de
maneira que “meio eficaz de sanar a lesão é aquele apto a
solver a controvérsia constitucional relevante de forma ampla,
geral e imediata. No juízo de subsidiariedade há de se ter em
vista, especialmente, os demais processos objetivos já
consolidados no sistema constitucional” (ADPF 388, Rel. Min.
Gilmar Mendes, Tribunal Pleno, DJe 01.08.2016). Especialmente
os processos objetivos, porque haverá casos cuja solução ampla,
geral e imediata ocorrerá por outros instrumentos processuais,
não servindo a ADPF tampouco a tutelar situações jurídicas
individuais. Precedentes. 4. No caso concreto, impugnam-se os
Editais de convocação do Exame Nacional de Ensino, os quais,
ainda que possam ser questionados pela via individual ou
coletiva, encontram na ADPF, ante a multiplicidade de atores
afetados, meio eficaz amplo, geral e imediato para a solução
da controvérsia. 5. Agravo Regimental a que se dá provimento,
assentando-se o cabimento da presente ADPF no tocante ao
atendimento do requisito do art. 4º, §1º, da Lei n.º 9.882/99”.
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(ADPF 673 AgR, Relator(a): LUIZ FUX, Relator(a) p/
Acórdão: EDSON FACHIN, Tribunal Pleno, julgado em 29-06-
2020, PROCESSO ELETRÔNICO DJe-201 DIVULG 12-08-2020
PUBLIC 13-08-2020)
No que se refere ao pedido liminar, a Lei n° 9.882/1999 possibilita
sua concessão, nos termos do art. 5°:
“Art. 5° O Supremo Tribunal Federal, por decisão da
maioria absoluta de seus membros, poderá deferir pedido de
medida liminar na arguição de descumprimento de preceito
fundamental.
§ 1° Em caso de extrema urgência ou perigo de lesão
grave, ou ainda, em período de recesso, poderá o relator
conceder a liminar, ad referendum do Tribunal Pleno.
§ 2° O relator poderá ouvir os órgãos ou autoridades
responsáveis pelo ato questionado, bem como o Advogado-
Geral da União ou o Procurador-Geral da República, no prazo
comum de cinco dias.
§ 3° A liminar poderá consistir na determinação de que
juízes e tribunais suspendam o andamento de processo ou os
efeitos de decisões judiciais, ou de qualquer outra medida que
apresente relação com a matéria objeto da argüição de
descumprimento de preceito fundamental, salvo se decorrentes
da coisa julgada”.
A despeito da lei de regência da ADPF não especificar os requisitos
autorizadores da medida liminar, a doutrina e jurisprudência delinearam
os seguintes: (a) fumus boni juris, consistente na relevância jurídica da tese
contida na exordial; (b) necessidade de urgência em decorrência de
possíveis danos derivados do tempo a ser percorrido até o julgamento de
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mérito (periculum in mora); e (c) conveniência da cautelar em razão da
avaliação comparativa do benefício esperado e do ônus da suspensão
provisória2.
Para fundamentar seu pedido, o Arguente traz cópia do ato
impugnado (eDOC 9):
“LEI Nº 17.180, DE 25 DE SETEMBRO DE 2019.
Art. 1º O art. 9º da Lei nº 16.703, de 4 de outubro de 2017,
passa a vigorar com as seguintes alterações:
“Art.
9º ...................................................... ............................................
VI - os cemitérios e crematórios públicos, os serviços
cemiteriais nos cemitérios e crematórios públicos, bem
como os serviços funerários.
.........................................................................
§ 3º .......................................................................................
VI - será garantido, na concessão de que trata o inciso
VI do “caput” deste artigo, o caráter secular dos
cemitérios, o acesso sem indagação de crença religiosa,
bem como a liberdade da prática dos respectivos ritos a
todos os cultos religiosos, respeitadas as normas
vigentes.”
“LEI Nº 16.703, DE 4 DE OUTUBRO DE 2017.
Art. 9º Fica o Executivo autorizado a outorgar concessões
e permissões dos seguintes serviços, obras e bens públicos:
2
DIMOULIS, Dimitri; LUNARDI, Soraya. Curso de processo constitucional: controle de
constitucionalidade e remédios constitucionais. São Paulo: RT, 2021, p. 204.
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VI - os cemitérios e crematórios públicos, os serviços
cemiteriais nos cemitérios e crematórios públicos, bem como
os serviços funerários”.
Discorre a parte autora que o serviço público funerário, cemiterial
e de cremação é incompatível com a exploração por meio da iniciativa
privada, porque as práticas comerciais empregadas pelas
concessionárias ofendem a dignidade daqueles que necessitam do
serviço em um dos momentos mais vulneráveis da vida, que é a perda
de um ente querido.
Para corroborar esta afirmação, o Partido requerente colaciona
diversas reportagens veiculadas pela imprensa nacional, descrevendo os
abusos sofridos pela população paulistana que necessita dos serviços
funerários, cemiteriais e de cremação do município, entre elas, transcrevo
as seguintes:
“FOLHA DE SÃO PAULO – Edição de 12 de novembro
de 2024
CONCESSIONÁRIA PEDE R$ 12 MIL PARA
ENTERRAR RECÉM-NASCIDO EM SP
OUTRO LADO: Grupo Maya alega falha em seu serviço
de atendimento e promete reforçar a capacitação dos
funcionários
O Grupo Maya, responsável pela administração dos
cemitérios do Campo Grande, Lajeado, Lapa, Parelheiros e da
Saudade em São Paulo, cobrou R$ 12 mil para realizar o
funeral de uma criança recém-nascida.
O caso foi revelado, na tarde desta segunda-feira (11), pela
vereadora Silvia Ferraro (PSOL), da Bancada Feminista, na
10
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Comissão de Política Urbana, Metropolitana e Meio Ambiente
da Câmara de São Paulo.
Na ocasião, a comissão sabatinou o presidente da SP
Regula, João Manoel da Costa Neto, após uma série de críticas
com a privatização do serviço funerário na gestão do prefeito
Ricardo Nunes (MDB).
Cemitério da Saudade, administrado pelo Grupo Maya,
desde março de 2023 - Rubens Cavallari - [Link].2023/Folhapress
A SP Regula (Reguladora de Serviços Públicos do
município) é a responsável por supervisionar a prestação do
serviço feito pelas concessionárias.
Durante a sabatina na Câmara, Ferraro apresentou para
Costa Neto e os demais vereadores prints de WhatsApp no qual
uma pessoa escreveu que está "com um recémnascido que
faleceu em Mauá" e a "ideia da família é trazer o corpo para o
Saudade [cemitério em São Miguel Paulista, na zona leste]".
O representante do Grupo Maya, então, respondeu que o
serviço "está saindo a R$ 12 mil, com uma entrada de R$ 2.400".
A reportagem teve acesso aos prints apresentados pela
vereadora. O gabinete da vereadora encaminhou um pedido de
esclarecimentos e providências por preços abusivos para
enterros sociais.
Presidente de agência reguladora admite que gestão de
cemitérios de SP deixa a desejar Cemitérios de SP, com milhares
de túmulos abandonados, terão geolocalização de jazigos
([Link]
[Link])”.
“CANAL UOL – Edição de 23/03/23
Velórios sobem 400% após privatização dos serviços
11
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funerários na capital de SP Quatro empresas que ganharam
concessões para administrar o serviço funerário na capital de
São Paulo reajustaram a taxa de enterro em 464%; caixões
mais baratos subiram 357%, entre outros reajustes
([Link]
“G1 – Edição de 7/11/2024
Após relatos de problemas, concessionárias do serviço
funerário terão de prestar esclarecimentos à Câmara de SP
Diretor da agência reguladora do município também foi
convidado para falar sobre a fiscalização dos serviços prestados
pelas concessionárias.
A Câmara Municipal de São Paulo aprovou, nesta quarta-
feira (6), a convocação dos representantes de duas
concessionárias responsáveis por administrar cemitérios e
crematórios na capital paulista para prestarem esclarecimentos
sobre problemas na prestação de serviços funerários
denunciados pela população.
Nos últimos dias, a TV Globo exibiu diversos relatos de
familiares que tiveram dificuldades para enterrar, exumar e
renovar a cessão de ossuários para guardar os restos mortais
de seus entes. Segundo as famílias, cemitérios administrados
pelo Grupo Maya e pela Consolare estariam praticando
cobrança abusiva de taxas e desrespeitando a tabela de preços
estabelecida no processo de concessão.
([Link]
relatos-de-problemasconcessionarias-do-servico-funerario-
[Link])”.
“G1-SP – Edição de 24 de Abril de 2024
Concessionária que administra Cemitério em SP cobra
12
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R$ 523 para uso da capela; família se revolta e faz cerimônia
do lado de fora
Parentes de PM enterrado no local relata que já tinha
pagado R$ 5,2 mil por sepultamento, mas empresa se recusou
a abrir a capela para orações. Uso do espaço era gratuito antes
de ser entregue à iniciativa privada. Grupo Maya confirma
cobrança por hora, mas diz que não foi procurada pelos
parentes.
([Link]
paulo/noticia/2024/04/24/concessionaria-queadministra-
cemiterio-em-sp-cobra-r-523-para-uso-da-capela-familia-se-
[Link])”.
“G1 SP e TV Globo – Edição 04 de Novembro de 2024
(VÍDEO REPORTAGEM ANEXA)
Concessionárias de cemitérios de SP já foram autuadas 134
vezes pela prefeitura desde o início das concessões, mas só 22
processos geraram multas até agora
Dados da SPRegula - a agência paulistana de fiscalização
das concessões - apontam uma média de mais de um processo
administrativo e meio aberto por semana, nesses 1 ano e 7
meses de concessão, que começou a vigorar em março de 2023.
([Link]
paulo/noticia/2024/11/04/concessionarias-decemiterios-de-sp-ja-
foram-autuados-134-vezes-pela-prefeitura-desde-o-inicio-
dasconcessoes-mas-so-22-processos-geraram-multas-ate-
[Link])”.
A atividade funerária, cemiterial e de cremação é qualificada como
serviço público local, cuja atribuição é dos municípios, conforme
precedentes desta Corte:
13
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CONSTITUCIONAL. MUNICÍPIO. SERVIÇO
FUNERÁRIO. C.F., art. 30, V. I. - Os serviços funerários
constituem serviços municipais, dado que dizem respeito com
necessidades imediatas do Município. C.F., art. 30, V. II. -
Ação direta de inconstitucionalidade julgada procedente.
(ADI 1221, Relator(a): CARLOS VELLOSO, Tribunal
Pleno, julgado em 09-10-2003, DJ 31-10-2003 PP-00014 EMENT
VOL-02130-01 PP-00023)
Agravo regimental no recurso extraordinário. 2.
Assistência funerária. Serviço público de interesse local. Art.
30, V, do texto constitucional. ADI 1.221. Precedentes. 3. Lei
Complementar Municipal 380/2008. Ofensa reflexa à
Constituição Federal. Súmula 280 desta Corte. 4. Ausência de
argumentos capazes de infirmar a decisão agravada. 5. Negado
provimento ao agravo regimental.
(RE 1308662 AgR, Relator(a): GILMAR MENDES,
Segunda Turma, julgado em 30-08-2021, PROCESSO
ELETRÔNICO DJe-177 DIVULG 03-09-2021 PUBLIC 08-09-
2021)
Desse modo, a exploração dessa atividade econômica deve se
conformar com os parâmetros constitucionais do regime jurídico
administrativo específico da prestação de serviço público, mormente em
relação aos direitos dos usuários, à política tarifária e à obrigação de
manter serviço público adequado, conforme prescrito pelo art. 175 da
nossa Carta Política:
“Art. 175. Incumbe ao Poder Público, na forma da lei,
diretamente ou sob regime de concessão ou permissão,
14
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sempre através de licitação, a prestação de serviços públicos.
Parágrafo único. A lei disporá sobre:
I - o regime das empresas concessionárias e
permissionárias de serviços públicos, o caráter especial de seu
contrato e de sua prorrogação, bem como as condições de
caducidade, fiscalização e rescisão da concessão ou permissão;
II - os direitos dos usuários;
III - política tarifária;
IV - a obrigação de manter serviço adequado”.
Soma-se a isto a obrigatoriedade da Administração Pública - ou
de todo aquele que atua em seu nome - pautar-se pelos princípios
norteadores do art. 37, caput, da CF, notadamente a moralidade e a
eficiência.
A eficiência consubstancia-se no dever de buscar a melhor utilização
possível dos recursos disponíveis para alcançar resultados concretos e
satisfatórios na prestação de serviços à sociedade. Isso inclui a adoção de
medidas que assegurem rapidez, economicidade, eficácia, qualidade e
efetividade na execução das atividades administrativas. Já a moralidade
reside na atuação da Administração Pública não apenas pela legalidade,
mas também pela boa-fé, lealdade, honestidade e probidade.
O cotejo desses aspectos com as provas colacionadas aos autos pelo
Partido arguente leva ao preenchimento da razoabilidade jurídica da tese
apresentada, isto é, do fumus boni juris.
A despeito de o serviço funerário, cemiterial e de cremação estar
sendo prestado atualmente por meio de concessões à iniciativa privada,
ainda mantém seu caráter público e, por isso, vincula-se aos preceitos
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fundamentais acima delineados.
Além do mais, a manutenção da situação descrita na petição inicial
até que seja concluído o julgamento de mérito desta ação certamente
agravará o risco de lesão aos preceitos fundamentais impactados pela
atuação das concessionárias do serviço público funerário e cemiterial
paulistano com graves prejuízos para a população local.
A morte de um brasileiro não pode estar acompanhada de
exploração comercial de índole aparentemente abusiva, conforme se
extrai das inúmeras reportagens acima citadas. Sobre isso é importante
destacar o caso amplamente noticiado pela imprensa de uma família que
se viu impedida de fazer o sepultamento de um recém-nascido, pois o
representante da concessionária, ao invés de apresentar toda a tabela de
preços, limitou-se a exigir que a família adquirisse um jazigo, conforme
reconheceu posteriormente um representante da concessionária:
“Concessionária cobra R$12 mil em funeral de recém-
nascido
Grupo Maya, responsável por cemitérios em SP, promete
revisão interna após críticas
O Grupo Maya, concessionária que administra diversos
cemitérios em São Paulo, está no centro de uma polêmica após a
denúncia de cobrança abusiva em um funeral. A vereadora
Silvia Ferraro (PSOL), integrante da Bancada Feminista, trouxe
à tona, durante uma sessão da Comissão de Política Urbana,
Metropolitana e Meio Ambiente da Câmara de São Paulo nesta
segunda-feira, 11, a cobrança de R$ 12 mil feita pela empresa
pelo funeral de uma criança recém-nascida.
O caso gerou imediata reação entre os parlamentares e
provocou um debate sobre a privatização do serviço funerário
na capital paulista, realizada sob a gestão do prefeito Ricardo
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Nunes (MDB). A sessão contou com a participação de João
Manoel da Costa Neto, presidente da SP Regula – órgão
responsável pela supervisão dos serviços prestados pelas
concessionárias.
Ferraro apresentou evidências em forma de prints de
mensagens de WhatsApp, onde uma pessoa relatava estar com
o corpo de um recém-nascido falecido em Mauá e desejava
levá-lo para o Cemitério da Saudade, localizado em São Miguel
Paulista, na zona leste da cidade. A resposta do representante
do Grupo Maya destacou que o serviço custaria R$ 12 mil, com
um pagamento inicial de R$ 2.400.
“Vimos aqui, em tempo real, uma pessoa sendo
explorada pelo WhatsApp enquanto tentava contratar o
serviço funerário social. A empresa Maya cobrando R$ 12 mil
para fazer esse funeral, que não deveria custar mais que
R$ 600”, afirmou a vereadora Ferraro, destacando a
discrepância em relação à tabela oficial de preços.
Em resposta às denúncias, Costa Neto se comprometeu a
investigar a situação. “Por trás desse WhatsApp há uma pessoa
representando uma transmissão de serviço público. E a gente
vai perseguir a mais clara apuração, e, tendo a comprovação, a
punição será aplicada de acordo com os termos do contrato”,
garantiu o presidente da SP Regula.
Em nota ao Terra, o Grupo Maya afirmou que, conforme
os termos do contrato de concessão, os serviços oferecidos
variam de acordo com o perfil da família requerente,
incluindo opções gratuitas e categorias como social, popular e
padrão.
Sobre o caso específico, a empresa alegou que, como a
família não era proprietária de um espaço no cemitério, foi
feita a oferta de venda de um jazigo, o que elevou o custo.
“Entendemos que o atendimento deveria ter enviado a tabela
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de preços completa, com todas as possibilidades”, disse a
nota.
O grupo acrescentou que lamenta o ocorrido, reforçará a
capacitação das equipes de atendimento e abrirá uma apuração
interna sobre o fato.
A Prefeitura de São Paulo, por sua vez, afirmou à
reportagem que a SP Regula abrirá uma investigação sobre o
caso. "Havendo comprovação de irregularidades, a
concessionária será punida nos termos do contrato", destacou.”3
Com isso, vê-se que, apesar da privatização dos serviços funerários,
cemiteriais e de cremação ter na sua origem uma ideia de modernização
da prestação pública, o caminho trilhado até agora possui fortes indícios
de geração sistêmica de graves violações a diversos preceitos
fundamentais, entre os quais, a dignidade da pessoa humana, a
obrigatoriedade de manutenção de serviço público adequado e
plenamente acessível às famílias.
Pelo menos nesse momento processual, visualizo que as práticas
mercantis adotadas pelas concessionárias atentam contra os preceitos
constitucionais acima elencados, razão pela qual devem ser
obstaculizadas, deixando a análise da constitucionalidade da
privatização do serviço público para o julgamento de mérito pelo
Plenário desta Corte.
Isso posto, com fundamento nas razões acima expendidas, defiro
em parte a cautelar, para determinar, até o exame de mérito, que o
Município de São Paulo restabeleça a comercialização e cobrança de
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Disponível em: [Link]
funeral-de-recem-nascido,[Link]?utm_source=clipboard
Acesso em 21/
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serviços funerários, cemiteriais e de cremação tendo como teto os
valores praticados imediatamente antes das concessões (“privatização”),
atualizados pelo IPCA - Índice Nacional de Preços ao Consumidor
Amplo até esta data. Com isso, objetiva-se evitar danos irreparáveis ou
de difícil reparação em desfavor das famílias paulistanas, em face de
um serviço público aparentemente em desacordo com direitos
fundamentais e com valores morais básicos.
Outrossim, caberá à Administração Municipal as providências que
considerar cabíveis para o cumprimento da liminar, mantendo, ou não, os
contratos de concessão, e em que termos.
Por fim, em conformidade com o rito estabelecido em lei, solicitem-
se informações ao Município de São Paulo, no prazo de 10 (dez) dias, nos
termos do art. 6º da Lei 9.868/1999.
Após, remetam-se os autos ao Advogado-Geral da União e ao
Procurador-Geral da República, sucessivamente, no prazo de 15 dias,
para manifestação.
Apresento a decisão para referendo do Plenário.
Comunique-se com urgência.
Publique-se.
Brasília, 24 de novembro de 2024.
Ministro FLÁVIO DINO
Relator
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