Influências da lírica camoniana:
lírica tradicional e a inspiração clássica
Formas poéticas da lírica tradicional: Composições em
medida velha
(géneros da tradição peninsular)
Vilancete: - mote de 2-3 versos e voltas de 7 versos
- o último verso repete, com ou sem variante, o verso final do mote
Cantiga: - mote de 4-5 versos e voltas de 9-10 versos
- o último verso do mote é repetido, total ou parcialmente, no fim de
cada volta
Temáticas da lírica tradicional
Temas e tópicos tradicionais e populares: a ida da donzela à fonte; a
Natureza; a beleza da mulher; o amor (tema central); a saudade
Episódios banais e assuntos de circunstância: num ambiente
cortesão, com uma reação humorística ou satírica por parte do poeta
Grandes temas da poesia camoniana: «Os bons vi sempre passar»;
«Vós sois ua dama»
O poema «Descalça vai para a fonte» destaca:
a ida da figura feminina à fonte – cena do quotidiano e cenário
rural/natural, que, por ser um local afastado, é propício aos
encontros amorosos entre a donzela e o amigo;
descrição da figura feminina como uma bela donzela.
No poema «Verdes são os campos», o sujeito poético dirige-se ao campo
e aos animais para confidenciar o amor que sente pela amada, num
diálogo que lembra também as cantigas de amigo, em que a Natureza
tem o papel de confidente, surgindo personificada, escutava os lamentos
e as súplicas da donzela.
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Camões cultivou temas satíricos, conforme a tradição poética peninsular.
Em textos sobre episódios banais e assuntos de circunstância, o poeta
recorre à sátira ou ao humor para responder a comportamentos ou
comentários que remetem para um ambiente cortesão.
Grandes temas da lírica camoniana
O desconcerto do mundo
O amor impossível
As desilusões de uma existência passada
Formas da poesia de inspiração clássico
Verso decassílabo - medida nova (renascimento)
Soneto: Género lírico apropriado à reflexão sobre uma ideia
14 versos decassílabos
Duas quadras e dois tercetos
Esquema rimático abba/abba nas quadras e cde/cde nos tercetos
Concluído com «chve de ouro» (conclusão)
Temáticas da poesia de inspiração clássica
Representação da amada: por influência petrarquista, surge a imagem
de uma mulher:
angélica, um ser divino, de pele e cabelos claros, elementos físicos
reveladores das qualidades da alma;
com um poder transformador da Natureza e do Homem;
do contacto com outras culturas, nasce um novo conceito de beleza
feminina, distante do de Petrarca (pele e cabelos escuros) capaz de
provocar fascínio e tranquilidade no amador.
Representação da Natureza:
espaço alegre, tranquilo, sereno, propício ao amor (locus amoenus);
espelho da alma do poeta, refletindo os seus sentimentos;
confidente, testemunha da dor provocada pela ausência/separação
da amada;
espaço onde o "eu" pode projetar os seus sentimentos negativos.
Experiência amorosa e reflexão sobre o amor
poeta dividido entre a fascinação do amor espiritual e a atração de
um amor carnal, entre a mulher que admira e a que deseja;
à luz do petrarquismo, a ausência da mulher amada é ocasião de
purificação amorosa; no entanto, por vezes, essa situação origina
sofrimento, saudade e ânsia de reencontro físico;
o poder transformador do amor e os seus efeitos contraditórios.
Reflexão sobre a vida pessoal
o poeta reflete sobre: − o Destino (que nunca lhe foi favorável); −
os erros que cometeu; − o amor (fracassado).
Tema do desconcerto
reflexão sobre o desconcerto do mundo, ao nível social e moral. Assim,
este resulta:
da errada distribuição dos prémios e dos castigos (os maus são
galardoados, os bons severamente castigados);
dos contrastes entre a «opulência» e a «miséria»;
do crescente interesse dos homens por valores materiais.
Tema da mudança
consciente da irreversibilidade do tempo, o poeta reflete sobre: − a
renovação cíclica da Natureza; − a mudança da vida e das coisas.
A representação da amada na lírica de
Camões
A representação da Natureza na lírica
de Camões
Paisagem bela, amena, alegre, verdejante e colorida
Propícia ao amor e à harmonia (recriação do paraíso)
Realça a beleza da figura feminina
Dependente das qualidades da figura feminina que são exaltadas
Personificada – quando é espaço de diálogo, confidente do eu (como
nas cantigas de amigo)
Espaço de projeção subjetiva do eu lírico (reflexo do seu estado de
alma)
Também pode surgir em confronto com o distúrbio provocado pela
ausência da amada – introdução de laivos de sofrimento e de
nostalgia no tópico do locus amoenus (expressão latina que significa
“lugar ameno”)
Vilancete «Se Helena apartar»
Natureza aprazível e harmoniosa, de acordo com o tópico do locus
amoenus: campos verdes e com flores, animais que pastam, ventos
serenos, fontes com água límpida.
Dependente do poder transformador dos olhos de Helena.
Espelho da beleza e da serenidade da figura feminina.
Cantiga «Verdes são os campos»
Paisagem amena, verdejante, colorida, mágica, de acordo com o
tópico do locus amoenus.
Propícia ao amor e à harmonia
Natureza como confidente: o eu dirige-se ao campo e aos animais
para confidenciar o amor que sente pela amada
Dependente das qualidades femininas exaltadas (olhos verdes /
campos verdes)
Projeção da amada nos campo: as ervas verdes espelham a beleza
dos seus olhos verdes – «isso que comeis / […] são graças dos olhos
/ do meu coração.»
Natureza aprazível e harmoniosa, de acordo com o tópico do locus
amoenus: ambiente aprazível, verdejante, fresco e sereno, um
espaço harmonioso onde reina a felicidade
Em contraponto com o estado de espírito do eu: a sua beleza
intensifica os efeitos da saudade da amada no sujeito poético e
provoca-lhe sofrimento – «Sem ti, tudo m’ enoja e m’ avorrece; /
sem ti, perpètuamente estou passando / nas mores alegrias, mor
tristeza.»
A experiência amorosa e a reflexão
sobre o amor
A experiência amorosa:
A reflexão amorosa:
Amor sensual
Marcado pelo desejo e pelo prazer, associado aos impulsos terrenos
e ao mundo dos sentidos.
Modelo: Vénus / figura sensual, com existência corpórea
Descrição da beleza sensual e da delicadeza da figura feminina.
Sentimento de culpa e conflito interior, provocado pelo desejo e
pela ânsia de prazer (colisão com os valores sociais e religiosos e
com a aspiração ao amor espiritual)
Amor espiritual
Amor idealizado, influenciado pelo petrarquismo e pelo platonismo
(a ideia
de que o amor perfeito apenas pode ser alcançado numa realidade
superior); limita-se à contemplação e à adoração da amada.
Modelo: Laura de Petrarca / figura angelical, inatingível, com pele,
cabelo e olhos claros (exemplo de perfeição física, psicológica /
moral e espiritual).
Sublimação do amor – a renúncia ao desejo e a contemplação e
adoração da figura divina permitem ao eu uma elevação espiritual e
moral.
Essa transformação exige a renúncia ao gozo sensual e a ausência do ser
amado: uma disciplina ascética que leva o eu ao êxtase de natureza
mística. A imagem do fogo é metáfora de um desejo exaltado que purifica.
O amor torna-se um modo de conhecimento. Amar é um processo de
aperfeiçoamento intelectual, uma via para a quietude […].
A experiência amorosa e a reflexão sobre o amor –
exemplos
Soneto «Amor é um fogo que arde sem se ver»
A dificuldade em definir o amor
Os efeitos intensos, mas contraditórios, do amor
Soneto «Tanto de meu estado me acho incerto»
A tensão e o permanente conflito interior em que o eu se encontra,
devido à intensidade dos seus sentimentos e às reações opostas
que originam.
Soneto «Busque Amor novas artes, novo engenho»
A incapacidade de fugir ao sofrimento, mesmo renunciando à
esperança no amor
Soneto «Transforma-se o amador na cousa amada»
A sublimação do sentimento amoroso
Soneto «Alma minha gentil que te partiste»
A morte da mulher amada e a saudade
Soneto «Aquela triste e leda madrugada»
A saudade provocada pela partida da mulher amada
O desconcerto do mundo na lírica de
Camões
O mundo às avessas:
Desconcerto exterior: dissonância, na sociedade, entre os
comportamentos/princípios éticos e morais e os resultados – os homens
bons não são premiados, e os maus têm sucesso (a realidade é contrária
à lógica do bem e das virtudes)