I-Juca Pirama: Poema Épico de Gonçalves Dias
I-Juca Pirama: Poema Épico de Gonçalves Dias
Se os europeus podiam
I-JUCA PIRAMA, DE encontrar na Idade Média as origens da
nacionalidade, o mesmo não aconteceu com
GONÇALVES DIAS os brasileiros. Provavelmente por essa razão, a
volta ao passado, mesclada ao culto do bom
selvagem, encontra na figura do indígena o
Ficha técnica símbolo exato e adequada para a realização
Publicação: 1851 – Últimos cantos da pesquisa lírica e heroica do passado.
Foco Narrativo: 3ª pessoa • O índio é então redescoberto, embora sua
Estilo literário: Romantismo (1ª geração) recriação poética dê ideia da redescoberta
Gênero: Lírico / Poema épico de uma raça que estava adormecida pela
tradição e que foi revivida pelo poeta. O
idealismo, a etnografia fantasiada, as
situações desenvolvidas como episódios da
grande gesta heroica e trágica da civilização
indígena brasileira, a qual sofre a degradação
do branco conquistador e colonizador, têm na
sua forma e na sua composição reflexos da
epopeia. da tragédia clássica e dos romances
de gesta da Idade Média. Assim o índio que
conhecemos nos versos bem elaborados de
Gonçalves Dias é uma figura poética, um
símbolo.
• O título do poema significa “o que há de ser • Gonçalves Dias centra I-Juca Pirama num
morto, e que é digno de ser morto.” estado de coisas que ganham uma enorme
• Supõe-se que o poema épico I-Juca Pirama importância pela inevitável transgressão
tenha sido escrito entre 1848 e 1851. cometida pelo herói, transgressão de cunho
• Foi lançada no livro Últimos cantos (1851) e romanesco (o choro diante da morte) que
pertence a primeira fase do romantismo quando transposta a literatura gera uma
brasileiro. 3 incrível idealização dos estados de alma.
• É um ícone do romantismo brasileiro. Como exemplo, podemos citar as reações
• A obra está dividida em dez cantos causadas pelo “suposto medo da morte”.
• O poema é composto por 484 versos Com isso, o autor transforma a alma indígena
protagonizados pelos índios tupis e timbiras. em correlativos dos seus próprios movimentos,
• É considerado pelos críticos como um dos mais sublinhando a afetividade e o choque entre os
elaborados poemas do Romantismo brasileiro. afetos: há uma interpenetração de afetos
• Embora tenha nome próprio, “Juca Pirama” (amor, ódio, vingança etc.) que estabelece
não tem nada a ver com o nome do índio uma harmonia romântica entre o ser que está
aprisionado pelos Timbiras. sendo julgado e a sua natureza – a natureza
• Apesar de ter uma fama narrativa que indígena, com a consequente preferência
configura o gênero épico e um conteúdo pelas cenas e momentos que correspondem
dramatizável, predomina no poema o gênero ao teor das emoções. Daí as avalanches de
lírico – um lirismo fácil e espontâneo, bravura e de louvor à honra e ao caráter.
perpassado das emoções e subjetividade do • É narrado em 3ª pessoa por um índio timbira
poeta. que relata às gerações posteriores as proezas
• Como é próprio do romantismo, estilo a que do guerreiro tupi que lá esteve.
está ligado Gonçalves Dias, é um lirismo que • A posição do narrador é distante, revelando-
brota do coração e da “imaginação se onisciente e onipresente.
criadora” do poeta e que expressa bem o • O poema descreve, a partir de um “flash-
sentimentalismo romântico. back”, a estória de um índio tupi que, por ser
• A obra é indianista e vale ressaltar a um bravo e corajoso guerreiro, deveria ter sua
musicalidade dos versos que é uma carne comida numa cerimônia religiosa
característica típica de Gonçalves Dias. (antropofagia).
• O poema I-Juca Pirama nos dá uma visão mais • Temática: O índio adequado a um forte
próxima do índio, ligado aos seus costumes, sentimento de honra, simboliza a própria força
idealizado e moldado ao gosto romântico. natural do ameríndio, sua alta cultura acerca
• O índio integrado no ambiente natural, e de seu povo representado no modo como
principalmente adequado a um sentimento este acata o rígido código de ética de seu
de honra, reflete o pensamento ocidental de povo.
honra tão típico das novelas de cavalaria
medievais – é o caso do texto Rei Arthur e a
• O índio brasileiro é um clone do cavaleiro e as rimas seguem o esquema AAA (paralelas) e BCCB
medieval das novelas européias românticas (opostas e intercaladas).
como as de Walter Scott. Canto 5 – Ao escutarem o canto de morte do guerreiro
tupi, os timbiras entendem ser aquilo um ato de
covardia e desse modo desqualificam-no para o
Resumo sacrifício. Dando a impressão do conflito que se
estabelece e refletindo o diálogo nervoso, entre o chefe
O poema narra o drama de I-Juca Pirama, último Timbira e o índio Tupi, o poeta altera o decassílabo com
descendente da tribo tupi, que é feito prisioneiro de versos mais ou menos livres. Não há preocupação nem
uma tribo inimiga. Movido pelo amor filial, pois o índio com estrofes nem com rimas.
tupi era arrimo de seu pai, velho e cego, I-Juca Pirama, Canto 6 – O filho volta ao pai que ao pressentir o cheiro
contrariando a ética do índio, implora ao chefe dos de tinta dos timbiras que é específica para o sacrifício
timbiras pela sua libertação. O chefe timbira a desconfia do filho e ambos partem novamente para a
concede, não sem antes humilhar o prisioneiro: “Não tribo dos timbiras para sanarem ato tão vergonhoso
queremos com carne vil enfraquecer os fortes.” Solto, o para o povo tupi. Reproduzindo o diálogo entre pai e
prisioneiro reencontra-se com seu pai, que percebe que filho e também a decepção daquele, o poeta usa
o filho havia sido aprisionado e libertado. Indignado, o decassílabo juntamente com passagens mais ou menos
velho exige que ambos se dirijam à tribo timbira, onde o livres. Não há preocupação com rimas ou estrofes.
pai amaldiçoa violentamente o jovem guerreiro que Canto 7 – Sob alegação de que os tupis são fracos, o
ferido em seus brios, põe-se sozinho a lutar com os chefe dos timbiras não permite a consumação do ritual.
timbiras. Convencido da coragem do tupi, o chefe Num ritmo constante, marcado pelo heptassílabo (sete
inimigo pode-lhe que pare a luta, reconhecendo sua sílabas), o poeta reproduz a fala segura do pai
bravura. Pai e filho se abraçam – estava preservada a humilhado e do chefe Timbira. A estrofação e as rimas
dignidade dos tupis. são livres.
Canto 8 – O pai envergonhado maldiz o suposto filho
covarde. Para expressar a maldição proferida pelo
Estrutura da obra velho pai, num ritmo bem marcado e seguro, o poeta
usa o verso eneassílabo (nove sílabas), distribuindo-os
A metrificação de Gonçalves Dias é bastante em oitavas, com rimas alternadas e paralelas.
original, pois “menospreza regras de mera Canto 9 – Enraivecido o guerreiro tupi lança o seu grito
convenção”. O poeta sempre busca a forma de guerra e derrota a todos valentemente em nome de
ideal para cada assunto, adequando bem forma sua honra. Casando-se com o tom narrativo e a reação
altiva do índio Tupi, o poeta usa novamente o
e conteúdo. Em I – Juca – Pirama, alterna versos
decassílabo com estrofação e rimas livres.
longos e curtos, ora para descrever (verso lento),
Canto 10 – O velho Timbira (narrador) rende-se frente ao
ora para dar a impressão do rufar dos tambores no poder do tupi e diz a célebre frase: “meninos, eu vi”.
ritual indígena. Alternando o hendecassílabo com pentassílabo, o
O poema nos é apresentado em dez cantos, poeta fecha o poema, de forma harmoniosa e
organizados em forma de composição épico – ordenada, o que reflete o fim do conflito e a serenidade
dramática. Todos sempre pautam pela dos espíritos. Casando com essa ordem restabelecida,
apresentação de um índio cujo caráter e as estrofes vêm arrumadas em sextilhas e as rimas
heroísmo são salientados a cada instante. obedecem ao esquema AA (paralelas) e BCCB
(opostas e intercaladas).
Canto 1 – Apresentação e descrição da tribo dos
Timbiras. Como está descrevendo o ambiente, o autor Personagens principais
usa um verso mais lento e caudaloso, que é
hendecassílabo (onze sílabas). A estrofe é sempre de
seis versos (sextilha) e as rimas obedecem ao esquema:
• I – Juca Pirama: típico herói romantizado,
AA (paralelas) e BCCB (opostas ou intercaladas). perfeito, sem mácula que desperta bons
Canto 2 – Narra a festa canibalística dos timbiras e a sentimentos no homem burguês leitor.
aflição do guerreiro tupi que será sacrificado. O poeta • O velho tupi: simboliza a tradição secular dos
alterna o decassílabo (dez sílabas) com o tetrassílabo índios tupis. É o pai de I – Juca Pirama.
(quatro sílabas), o que sugere o início do ritual com o • Os timbiras: índios ferozes e canibais.
rufar dos tambores. As estrofes são de quatro versos • O velho timbira: narrador e personagem
(quarteto) e o poeta só rima os tetrassílabos. ocular da estória.
Canto 3 – Apresentação do guerreiro tupi – I – Juca
Pirama. Sem se preocupar com rimas e estrofação, o
poeta volta a usar o decassílabo (com algumas Tempo e Espaço
irregularidades), novamente num ritmo mais lento, que
se casa bem com a apresentação feita do chefe • Espaço: O autor, através do narrador timbira,
Timbira. não faz menção ao lugar em que decorre a
Canto 4 – I – Juca Pirama aprisionado pelos Timbiras
ação; sabe-se, entretanto, que os timbiras
declama o seu canto de morte e pede ao Timbiras que
viviam no interior do Brasil, ao contrário dos
deixem-no ir para cuidar do pai alquebrado e cego. O
verso pentassílabo (cinco sílabas), num ritmo ligeiro, dá Tupis, que se localizavam no litoral.
a impressão do rufar dos tambores. As estrofes com • Tempo: não há uma indicação explícita, mas
exceção da primeira (sextilha), têm oito versos (oitavas), percebe-se que é a época da colonização
portuguesa, quando os índios já estavam
sendo dizimados pelo branco, como diz, no grandes escritores portugueses como Almeida
seu canto de morte, o guerreiro Tupi – um triste Garrett e Alexandre Herculano. Enquanto
remanescente “da tribo pujante/ que agora esteve fora do país compôs sua obra mais
anda errante”. conhecida, a Canção do exílio.
Gonçalves Dias • Pertenceu a primeira fase, que tinha como
principal objetivo valorizar o que havia de
• O escritor brasileiro Antônio Gonçalves Dias nacional.
nasceu no interior do Maranhão, em 1823. • Em sua escrita, o autor procurava também
• Estudou em Coimbra e formou-se em Direito. exaltar as belezas naturais do país e deixava
• No período em que permaneceu no transparecer um tom sentimental, típico do
estrangeiro teve a oportunidade de conhecer romantismo.
Resumo
Úrsula tem início com o encontro entre Túlio, um jovem
negro escravizado, e Tancredo, um rapaz branco.
Túlio salva a vida de Tancredo, algo pouco usual para
a época, e do sentimento de gratidão do rapaz salvo
passa a nascer uma amizade mútua. A construção da
• Considerado o primeiro romance escrito por personagem de Túlio é uma franca crítica ao caráter
uma mulher no Brasil. desumanizador e degradante da escravidão: na
direção contrária da intelectualidade eugenista da
• Publicado sob o pseudônimo "uma época, que pintava o negro como exemplar de uma
maranhense". raça inferior e destituído de civilidade, Maria Firmina
• Considerado um romance precursor da mostra Túlio como um rapaz de moral superior, cujo
temática abolicionista na literatura brasileira. maior problema é lidar com a adversidade da
• Primeiro romance da literatura afro-brasileira. sociedade escravocrata. Túlio encaminha Tancredo
• O texto marca-se pela linearidade narrativa para ser tratado em casa de seus senhores, e lá tem
início o principal triângulo amoroso da narrativa:
e por personagens desprovidos de maior
Tancredo apaixona-se por Úrsula, que é desejada
complexidade psicológica. também por seu tio, o Comendador Fernando P., um
• Dramas dos escravos - valorização das grande vilão, retrato de todos os males terrenos. À
características próprias dos moda dos folhetins românticos, o embate do triângulo
afrodescendentes, rompendo com o amoroso ocupa o papel central, mas nesse caso serve
estereótipo racial da época (negro / como subterfúgio para que a autora conduza as
conotação negativa. discussões que realmente lhe interessam, por meio
• A “heroína” branca X visão realística sobre a de encaixes de pequenas histórias nas quais outras
personagens narram reminiscências de suas vidas,
escravidão.
com destaque especial para Mãe Susana, que conta
• Confronta a ideia vigente na época de que como sobreviveu aos porões dos navios dos
o negro era ruim por natureza + retrata “caçadores de almas” e à vida em sua pátria antes
elementos da cultura negra como sinônimo de ser sequestrada e escravizada.
de algo forte e bom. A obra trata de valores como a nobreza dos
• Aparentemente, é uma clássica história de sentimentos, do comportamento coerente com os
amor impossível. princípios cristãos, da coragem, da amizade, entretanto
possui um fim pessimista, com o enlouquecimento de
Úrsula, o assassinato de seu amado Tancredo, o ✓ Túlio, Susana e Antero são três personagens
arrependimento do tio Comendador e a consequente negros, que questionam, agem e acima de
morte, pois apenas esta pode libertar o homem da tudo: traçam uma identidade do Brasil. Uma
opressão, de acordo com os moldes românticos.
das principais contribuições do romance de
Quanto aos aspectos do enredo, atentamos à questão
Maria Firmina dos Reis é problematizar a
da escravidão, permitindo refletir sobre o passado
histórico do país, os costumes, as tradições da formação identitária no Brasil ao focalizar
sociedade. personagens silenciados historicamente;
• Fernando P. (comendador): é caracterizada
como sendo um homem atormentado,
Personagens principais obcecado e possuidor de uma maldade
extrema. `Nota-se no decorrer da história que
• Úrsula: digna heroína romântica, possuía o mesmo é um homem perigoso e responsável
sentimentos profundos e verdadeiros. É pela morte do pai de Úrsula e da condição de
descrita como doce, bela e cheia de enfermidade da mãe, Luísa B. Trava uma
compaixão, não possui pai e divide a solidão perseguição para desposar Úrsula a qualquer
com sua mãe doente. Na verdade, o narrador custo, como uma espécie de prêmio por sua
nos mostra uma personagem afetiva, com condição. É caracterizado como vilão
receio de perder a mãe, transferindo no também pela forma com que tratava seus
decorrer da trama o sentimento de amor para escravos.
Tancredo.
• Tancredo: é elaborada seguindo a linha de Tempo e Espaço
visão tipicamente romântica. A personagem
tem aspectos de cavaleiro medieval, descrito
• Espaço: A protagonista vive nesse ambiente
como pálido e abatido em seu cavalo.
natural passado no campo, mas algumas
Demonstra um caráter justo, generoso e bom,
cenas ocupam lugar em um pequeno
além de ser financeiramente abastado,
povoado de nome Vila dos Guimarães, no
possuindo um sentimento nobre de gratidão à
Maranhão.
Túlio, escravo que o salva do acidente, logo no
início da trama. • Tempo: Século XIX.
• Túlio: é a personagem poética; as falas de Túlio
são usadas como denúncia. Único cativo da
decadente propriedade da mãe de Úrsula,
Maria Firmina dos Reis
salva a vida de Tancredo num acidente.
Destaca-se a humanidade condoída do • É autora de uma literatura crítica: sua
sujeito afrodescendente, cujo perfil dramático produção é atravessada pelas questões
e existencial vai além da mera força de raciais e de gênero.
trabalho ou do papel de porta-voz do ódio • Filha de um branco com uma negra, sendo,
rancoroso dos quilombolas. portanto, afrodescendente é
• Suzanna: Sua história é a representação do considerada uma das primeiras mulheres
processo da diáspora negra. É uma mulher brasileiras a escrever um romance e também
que foi retirada de sua África, separada de a primeira escritora negra de nosso país.
marido, filhos e família. Foi jogada em um • Além de escritora, foi professora primária e
navio negreiro e presenciou as mais terríveis musicista.
desumanidades. • Entrou para a história como a fundadora,
• Antero: é um escravo de idade mais da “primeira escola mista do país”.
avançada e de bom coração, traz uma • Faleceu em Guimarães, em 11 de novembro
abordagem que fala sobre a África marcada de 1917, pobre e cega.
pelo trabalho duro e, também, suas festas e • Sua obra ficou esquecida até 1962, quando o
comemorações culturais. Antero não é historiador Horácio de Almeida (1896-1983)
representado como alguém impiedoso, mas colocou a escritora em evidência.
como vítima.
• O conto apresenta um em enredo com estrutura O jovem Luís Soares, que gostava de “trocar o dia pela
de folhetim, em que a trama parece ser o elemento noite”, dilapida a fortuna herdada do pai e então se
fundamental. Os acontecimentos são narrados sem lembra de contactar o tio (major Luís da Cunha Vilela),
precipitações, intercalados por explicações por para ver se consegue herdar-lhe a fortuna. Mas esse tio
parte do narrador, que conversa explicitamente cria uma sobrinha, Adelaide, e gostaria que Luís casasse
com o leitor, possibilitando assim uma narrativa com ela. Este prefere “a herança sem o casamento”.
marcada por digressões. Esta seria uma Uma carta do falecido pai da moça para ser lida dez
característica marcante do estilo Machadiano, anos após sua morte bota mais lenha na fogueira.
além da ironia e o estudo da alma feminina. O conto “Luís Soares”, do escritor Machado de Assis,
• A ironia Machadiana pode ser identificada logo no pertence à fase Romântica do autor. Machado de Assis,
primeiro capítulo, onde o narrador fala acerca da através das personagens, critica a sociedade que vive
construção da obra, informando ao leitor que seria de aparências por meio de Luís, que se vê humilhado
conveniente a apresentação da personagem Miss quando não possui a riqueza que gostaria.
Dollar, mas que não o faria, pois encheria a obra de O conto é narrado em 3° pessoa, sendo um narrador-
digressões sem importância para a história. No observador. Tratando de casamento, heranças e
entanto, é justamente isso que o narrador faz, negócios, ele busca mostrar a verossimilhança da
mergulha o leitor em diversas possiblidades de sociedade carioca do século XIX, ajudando também
personalidades para Miss Dollar, que afinal é para as discursões acerca do valor documental da
apenas uma cachorrinha galga. literatura. Está contido no livro “Contos Fluminenses”,
• Fugindo um pouco da estética romântica, Miss coletânea anterior à fase madura do autor.
Dollar traz personagens imprevisíveis, não
transparentes e até mesmo interesseiras, 3. A mulher de preto: Publicado originalmente
acarretando em reviravoltas dentro da narrativa, no Jornal das Famílias de abril e maio de 1868 com
como o fato de Margarida estar apaixonada por o pseudônimo J.J.
Mendonça. O jovem médico Dr. Estevão Soares apaixona-se pela
bela Magdalena, a misteriosa “mulher de preto” que
Personagens havia visto no teatro Lírico, mas se verá ante a espinhosa
tarefa de reconciliá-la com seu amigo, o deputado
• Miss Dollar – cadelinha galga de olhos castanhos e Meneses, que dela se separara (à moda antiga, sem
aveludados, possuía uma coleira ao pescoço divórcio formal) por uma suspeita de adultério, agora
fechada por um cadeado com os dizeres: “De tout dirimida.
mon coeur”.
• Mendonça – homem de 34 anos, cursou medicina Personagens
e ganhou boa parte de seu dinheiro inventando um
elixir na época de epidemia. Acha Miss Dollar e a • Estêvão Soares: Médico, rapaz de vinte e quatro
devolve a sua dona, Margarida, por quem se anos, alto e com bigode encaracolado, realçado
apaixona. pela palidez da pele, olhos castanhos vívidos e
• Margarida –Viúva cética quanto ao amor de seus observadores, era sério, ambicioso, elegante,
pretendentes por causa da convivência com o generoso, e na verdade tinha talento para
falecido marido e dona de Miss Dollar, aparentava Matemática, mas cursou Medicina por causa de
ter 28 anos e estar no pleno desenvolvimento de sua seu pai, a quem perdeu junto da mãe aos vinte
beleza. Tinha cabelos castanhos e olhos verdes, anos. Estava sempre perturbado, por conta de
como “duas esmeraldas nadando em leite”, o que questões que envolviam o coração e a inteligência.
provocou certo receio por parte de Mendonça, Muito rigoroso em se tratando de mulheres, não
mas não o impediu de amar a viúva.
aceitava nada menos que a perfeição física, moral principalmente a temática de uma sociedade de
e intelectual; aparências.
• Meneses: Deputado de quarenta e sete anos, não
gostava de socializar, era cético sobre tudo e todos, 5. Confissões de uma viúva moça: Publicado
mas com maneiras gentis e cavalheiras, tinha sorriso originalmente no Jornal das Famílias de abril, maio
amável, era instruído, sentimental, austero. Amava e junho de 1865 com a inicial J. O "romance" foi
Madalena, sua esposa que acreditava ele o ter considerado "dos mais perigosos para a juventude"
traído; e acusado de subverter a "moral das famílias" por
• Madalena: A mulher de preto, tinha trinta e quatro um certo O Caturra, desencadeando uma
anos, bela e graciosa, era esposa de polêmica, publicada nos Dispersos de Machado de
Meneses, com quem tinha um filho. Aproximou-se de Assis.
Estêvão com único propósito de conseguir auxílio para
reconciliar-se com seu marido; Uma mulher casada (Eugênia) é assediada por um
• Padre Luís: Amigo de Estêvão que lhe chamava homem que se diz perdidamente apaixonado (Emílio) e
Platão de Sotaina, rapaz de trinta anos formado na até se torna amigo do marido para melhor se aproximar
escola de Fénelon, sempre aconselhava o amigo a dela e após muita insistência conquista seu coração.
casar-se, e esse era o tema de inúmeras discussões Mas quando ela enfim fica viúva e eles podem assumir
de ambos; seu amor abertamente, ele perde o interesse.
• Oliveira: Tinha certa intimidade com Estêvão, era É um conto singular na obra machadiana, pois revela
um literato fluminense que escrevia peças e que um dos poucos momentos em que o escritor se utilizou
acabou ganhando seu momento de fama de um narrador feminino. Eugênia, a jovem viúva do
aproveitando-se de Estêvão. conto, escreve a uma amiga “confessando” seus
deslizes amorosos quando casada.
Tempo: Psicológico. Machado queria, com essa opção narrativa e este
Espaço: Rua da Misericórdia, Rua do Lavradio, Teatro tema provocativo, algo mais do que servir apenas de
Lírico, casa de Madalena na Rua do Conde. simples receituário básico para o comportamento
Foco Narrativo: Narrador Onisciente, terceira pessoa. “decente” de suas leitoras. Ainda que o conto seja
Temas: Traição, nobreza e fidelidade na amizade, narrado por Eugênia como espécie de
necessidade de obtenção de status (representada em aconselhamento a outras mulheres, é interessante a
Oliveira), política, amor, casamento por interesse, forma como ela revela, a partir da história de sedução,
mistério, paganismo, ilusão amorosa, a mulher sedutora suas insatisfações conjugais.
que engana o homem. Por outro lado, seus conselhos podem também se
Características da Escola Literária: um estudo sobre a destinar aos homens, precavendo-os de outros deveres
personalidade feminina, a ironia, o mistério, maiores no casamento. Se o conto machadiano tem
características de Machado, o descritivismo, linguagem valor de instrução, é certo que vale tanto às mulheres
impessoal e formal, objetivismo. quanto aos homens, sobretudo no que diz respeito às
Verossimilhança: A ambição das pessoas para expectativas de cada uma das partes relativas ao
conseguir promover-se, a traição, a fidelidade e a casamento. Nessa perspectiva, o conto assume um
nobreza em uma amizade, o amor, o casamento por outro formato: o de questionador dos papéis (e das
interesse. expectativas) conjugais de homens e mulheres e, mais
ainda, dos próprios modos de concepção do
4. O segredo de Augusta: Publicado originalmente matrimônio.
no Jornal das Famílias de julho e agosto de 1868
com a assinatura Machado de Assis. 6. Linha reta e linha curva: Publicado originalmente
no Jornal das Famílias de outubro, novembro,
Um marido infiel (Vasconcelos), que dilapidou todo seu dezembro de 1865 e janeiro de 1866 com o
patrimônio, vê como única solução casar a filha com pseudônimo Job.
um amigo endinheirado (Gomes). A família se opõe. Um
conto sobre a vaidade e egoísmo humanos. Conto mais longo do livro, constituído em grande parte
Neste conto nota-se o destaque à trajetória social da de diálogos, como se fosse uma peça teatral. De fato,
mulher do século XIX: Augusta é uma mulher vaidosa e trata-se do reaproveitamento da peça As Forcas
egoísta, que deixa de lado seu papel de mãe – fato este Caudinas que permaneceu inédita durante a vida do
revelado pela falta de intimidade e sintonia entre ela e autor. O casal Adelaide e Azevedo, que vive em
a filha - e se entrega à opulência da vida burguesa, Petrópolis uma prolongada lua de mel, recebe a visita
distanciando-se dos afazeres domésticos e outras do amigo Tito que, devido a uma decepção amorosa
tarefas que seriam comuns a ela na época. no passado, decidiu nunca mais se apaixonar, pois “se
Além disso, outros temas, como o autoritarismo não tenho os gozos íntimos do amor, não tenho nem os
patriarcal e a vida boemia – referentes à Vasconcelos - dissabores, nem os desenganos”. Mas a bela Emília, por
e principalmente o casamento por interesse também quem um “velho de cinquenta anos” (Diogo Franco)
são evidenciados. A proposta de matrimônio entre está apaixonado, decide desafiar a resolução de Tito.
Adelaide e Gomes reforça a ideia de que o Tudo termina num final surpreendente.
acontecimento era visto como uma troca de favores e Linha reta e linha curva conto pertencente ao livro
movido por interesses e ambição, diante de uma Contos Fluminenses, do célebre escritor brasileiro
sociedade corrompida sustentada pelo poder do Machado de Assis. O conto se inicia com Ernesto
dinheiro e do status. Azevedo e Adelaide, moradores de Petrópolis recém-
A história gira em torno da família Vasconcelos, na casados que acolhem com frequência a visita de
segunda metade do século XIX, envolvendo amigos. Um deles é Tito, solteirão convicto que acaba
de chegar de uma longa viagem. Na casa de Ernesto desfeita. Esta é uma característica marcante nas obras
Azevedo e Adelaide, ele encontra a jovem viúva Emília, machadianas.
amiga de Adelaide, com a qual começa um jogo de Lugar: O lugar onde a história se passa não é
sedução. especificado ao longo do texto.
Azevedo sempre foi um homem de muita sorte e sempre Foco Narrativo: 3ª pessoa, narrador onisciente.
teve um bom emprego, uma boa família e um bom Características da Escola Literária:
casamento. ✓ O amor influencia as ações dos personagens de
Tito afirmava que apenas queria aproveitar a vida, não maneira significativa.
queria compromisso sério com ninguém. Porém, ele já ✓ Retrato da natureza humana, ressaltando a traição,
havia se envolvido com Emilia, onde Tito a pedia em o interesse e a loucura.
casamento, mas a dama não aceitou e casou-se com ✓ Também se fazem presentes o pessimismo, a ironia
outro. Contudo Tito acreditava ser incapaz de amar e a morte como meio de fuga.
novamente. Ao fim de tudo o casal fica junto ✓ Narrativa detalhada.
novamente revivendo o amor do passado. Observação: quando escreveu este conto, Machado
ainda estava sobre a influência da perspectiva
7. Frei Simão: Publicado originalmente no Jornal das romântica, embora já apresentasse características
Famílias em junho de 1864 com as iniciais M.A. realistas.
Um frade beneditino (Simão), “de caráter taciturno e Temas:
desconfiado”, com leves sintomas de alienação ✓ A loucura: afetou tanto o personagem principal
mental, morre aos 50 anos aparentando 38 e deixando como seu pai, sendo mais relevante na obra no
anotações onde revela a decepção amorosa que o personagem principal.
levou a ingressar, aos 30 anos, no convento: o amor por ✓ O celibato: apesar de não ter tanto foco na obra, é
uma prima (Helena) que o pai mentirosamente disse ter criticado no texto.
morrido, durante uma viagem de negócios do filho, ✓ O interesse: na obra tanto o pai quanto a mãe de
para evitar que se casassem. Simão são muito egoístas.
Verossimilhança:
Personagens As personalidades dos personagens e suas relações
sociais são os pontos de verossimilhança mais notáveis.
• Frei Simão: personagem principal da história;
taciturno, desconfiado, ranzinza e recluso; ele é
enganado pelo pai, que afirma que Helena, sua
Tempo e Espaço
amada, está morta, e adentra a vida eclesiástica;
após descobrir a verdade enlouquece e morre. • Espaço: Rio de Janeiro
• Helena: irmã de criação de Frei Simão; bela, meiga • Tempo: Século XIX.
e extremamente boa; é obrigada por seu padrinho
e pai adotivo a se casar com um agricultor para se
separar de Simão; quando reencontra este, morre Machado de Assis
devido ao choque.
• Abade: abade para quem Simão diz suas últimas
palavras; ele é um dos mais curiosos acerca do • 1839-1908; Morro do livramento / família
passado de Simão. humilde;
• Pai de Simão: tanto Simão quanto Helena não o • “Maior escritor de todos os tempos” – Maior do
contrariavam inicialmente; possuía um egoísmo século XIX;
descomunal; foi responsável pela separação do • Fundador da Academia Brasileira de Letras;
casal; ao fim, enlouquece e morre, assim como • Foi contista, cronista, jornalista, poeta e
Simão. teatrólogo.
• Poligrafo (prosa transcende);
Tempo: Psicológico, pois nesta obra ocorre uma
• Aprofundamento psicológico;
desestruturação espaço-temporal, isso acontece de tal
maneira que a linearidade aparente da história é
• Análise de comportamento;
• Crítica, ironia e humor.
PRIMEIRAS ESTÓRIAS, DE
GUIMARÃES ROSA
Ficha técnica
Publicação: 1962
Foco Narrativo: 3ª pessoa e 1ª pessoa
Estilo literário: Modernismo (3ª geração)
Gênero: Narrativo / Conto
• A obra Publicado em 1962, seis anos depois do a anedótica, a satírica, vazadas em diferentes
romance Grande sertão: veredas, tons: o cômico, o trágico, o patético, o lírico, o
• Primeiras estórias constam 21 contos. sarcástico, o erudito, o popular.
• Linguagem Destaque da literatura de Rosa, a • As personagens embora variem muito quanto
linguagem é marcada por forte originalidade. à faixa etária e experiência de vida, elas se
Alia a informalidade da linguagem coloquial à ligam por um aspecto comum: suas reações
complexidade da linguagem poética. psicossociais extrapolam o limite da
• O tom é variado: ora sério (lírico ou normalidade. São crianças e adolescentes
dramático), ora cômico. Temas Sentido oculto superdotados, santos, bandidos, gurus
da existência, crescimento espiritual por meio sertanejos, vampiros e, principalmente, loucos:
de experiências amorosas, vida como sete estórias apresentam personagens com
aprendizado, sensibilidade extraordinária este traço.
manifestando-se pela loucura e pela • A relação com a morte e com o desejo de
ingenuidade infantil, vida como imortalidade está presente em toda a obra de
predestinação, limites entre bem e mal. Guimarães Rosa, mas talvez com mais
• A maioria dos relatos em Primeiras Estórias, intensidade em “Primeiras Estórias”.
embora apenas pretendam narrar "casos do
sertão", apresentam uma síntese da totalidade
da existência dos protagonistas, as estórias de
Resumo
Rosa tentam vencer a rotina, ultrapassar o As 21 estórias, portanto, são narrativas preocupadas em
peso do quotidiano e da miséria através do tematizar, simbolicamente, os segredos da existência
riso, do olhar lúdico e da ressurreição do humana. Em cada um dos contos deste livro o narrador
momento presente; predominam configura sua experiência de forma diferente,
ainda epifanias afirmativas e positivas atravessando estágios emocionais distintos, conforme o
associadas ao bem e ao amor. ponto do percurso em que se encontra. Tanto em As
• Em 1999, o livro Primeiras Estórias foi adaptado Margens da Alegria, quanto em Os Cimos, contos
extremos do livro, ele se identifica profundamente com
para o cinema por Pedro Bial como o
o protagonista, como se ele espelhasse sua própria
filme Outras Estórias, O filme se baseou em
trajetória, sua infância, como se assim universalizasse, de
cinco contos do livro Primeiras Estórias: certa forma, essa travessia. Ou seja, ele tenta perceber
"Famigerado", "Os irmãos Dagobé", "Nada e o que há de comum na infância de cada menino,
nossa condição", "Substância e Soroco, sua nessas delicadas passagens, em seus estados de alma,
mãe, sua filha". Todavia, não se trata de nos dolorosos conflitos, nas fascinantes descobertas.
transposição de uma obra literária para o Os personagens de Rosa parecem caminhar pelas
cinema, mas, antes, de uma concepção dela veredas da memória, vagar pelos labirintos de sua
enquanto possibilidade cinematográfica. psique, ser guiados pelos fios das experiências por eles
vividas e não completamente elaboradas no plano da
• Trata-se do primeiro conjunto de histórias
consciência. Eles são movidos pela necessidade de
compactas a seguir a linha do conto
transmitir suas vivências, para melhor compreendê-las e
tradicional, daí o “Primeiras” do título. O ordená-las em sua mente consciente. Diante do tempo
escritos acrescenta, logo após, o termo estória, transcorrido, os protagonistas rosianos mantêm uma
tomando-o emprestado do inglês, em constante atitude interrogativa.
oposição ao termo História, designando algo
mais próximo da invenção, ficção. Contos do livro
• Na obra há a intenção de apresentar fábulas
para as crianças do futuro. 1. As margens da alegria – Narrado em terceira
• À primeira vista, a leitura de Primeiras pessoa, esse primeiro conto de Sagarana, de
Estórias pode, falsamente, parecer difícil e a Guimarães Rosa, é considerado, com o último, Os
linguagem soar erudita e ininteligível, mas essa cimos, a moldura do livro, já que apresenta as
é uma avaliação precipitada. Na verdade, o mesmas personagens no mesmo ambiente.
autor busca recuperar na escrita, a fala das A principal personagem é o Menino e, assim como ele,
personagens do sertão mineiro; a poesia as outras personagens são apenas identificadas pelo
presente nas imagens, sons e estruturas de grau de parentesco.
O conto é em tom lírico reflexivo, a primeira viagem de
uma linguagem que está à margem da norma
um menino, a descoberta do mundo: a crueldade
estabelecida pelos padrões urbanos. representada pela morte do peru e a beleza e a alegria
• Quanto ao emprego dos tempos verbais, representadas pelo vagalume.
nota-se que, na maior parte das estórias, o O autor se identifica profundamente com o
relato se faz através de uma mistura do protagonista, como se ele espelhasse sua própria
pretérito perfeito com o pretérito imperfeito do trajetória, sua infância, como se assim universalizasse, de
indicativo. certa forma, essa travessia. Ou seja, ele tenta perceber
• A obra aborda as diferentes faces do gênero: o que há de comum na infância de cada menino,
a psicológica, a fantástica, a autobiográfica, nessas delicadas passagens, em seus estados de alma,
nos dolorosos conflitos, nas fascinantes descobertas.
mais próximo, ora distanciado. Sabe de todos os
2. Famigerado – Narrado em primeira acontecimentos por presenciá-los e por ouvir falar
pessoa, Famigerado, conto que faz parte da deles, porém, não diz a revelação que Nininha fez para
obra Primeiras estórias, de Guimarães Rosa, Tiantônia, quando apareceu o arco-íris. Isso só
constitui-se num episódio cômico. acontecerá depois da morte da menina.
Nesse conto, podemos opor o poder da força, Damásio, Semanticamente é possível perceber que a menina não
ao poder da instrução, do conhecimento médico. Caso pertence ao cá (terra), mas sim ao lá (céu), pela
o médico tivesse revelado o sentido dicionarizado do presença de palavras ligadas ao universo do mundo do
termo “ famigerado” , estaria, por certo, infligindo uma lá: lua, estrelinhas, céu, alturas, aves, mortos, saudade,
sentença de morte ao moço. milagre, a mãe não tirava o terço da mão, e a menina
Em Famigerado, Guimarães Rosa tematiza a mora no “Temor-de-Deus” e principalmente a palavra
importância da linguagem. Seu conhecimento ou não arco-íris, dentre outras. Arco-íris é a palavra-chave, pois
determina as posições sociais. remete ao imaginário coletivo de fazer um pedido ao
arco-íris quando este aparece no céu. Pela metonímia
3. Sorôco, sua mãe, sua filha – Conto narrado em “caixão colorido”, Nininha pede a morte e
terceira pessoa, mas com a participação ambígua metaforicamente, o que ela deseja, acontece. Há,
nesse momento, o clímax do conto, pois é o confronto
do narrador como personagem. Isto se dá pelo fato
entre os dois mundos: o cá (mundo terreno), de
do narrador ser um observador dos fatos, mas
Tiantônia, em que a morte é vista como ruim,
também fazer parte do povo: “A gente se esfriou repreendendo a menina versus o lá, que para Ninhinha
(…)” “A gente estava levando agora o Sorôco (…)” é a alegria , a libertação de um mundo que não é o seu,
Ou seja, “a gente “, no conto, pode ser a gente, o esperando cumprir o seu destino e realizar o seu desejo
povo da estação, como também o marcador oral de ser “a menina de lá”. Desta forma, fecha-se o círculo
“a gente” enquanto nós. do universo premonitório traçado pelo conto, calcado
O conto tem uma temática triste, trabalha com o no destino fatídico de uma menina que não pertence
sentido circular de passar a angústia do personagem ao mundo de cá, entretanto possui a magia de um
Sorôco com sua solidão e desespero ao ter que deixar ir outro mundo encantado: o mundo da criação artística.
para longe as únicas pessoas que tem no mundo,
ficando mais solitário ainda. Tudo gira em torno da 5. Os irmãos Dagobé – tem narração em primeira
separação, da perda, da ausência e da distância. pessoa (alguém do arraial, presente no velório e no
A grande temática do conto é a solidariedade. Há a enterro, que registra suas impressões sobre os irmãos
compaixão do povo para com Sorôco e sua dor. O Dagobé e possíveis acontecimentos futuros).
povo se solidariza com Sorôco. A irracionalidade Não há marcação de tempo e espaço (velório e o
entoada na cantiga da mãe e da filha loucas realiza o enterro) e traz a violência como tema.
elo de ligação entre as dores de todos os homens. É Seus personagens são: Damastor (morto), Derval
uma cantiga compreendida só por aqueles que (caçula), Dismundo, Doricão e Liojorge.
possuem sentimento, a razão de ser do humano. Esta Em sua linguagem o autor usa aliterações (repetição da
cantiga metaforiza a união entre os homens por meio letra D nos nomes dos irmãos Dagobé); frases
da solidariedade. incompletas: “ Aquilo era quando as onças.” e
É possível imaginar o sofrimento de Soroco, o vazio aglutinação de palavras: “ perguntidade” .
dolorido sentido e a profunda solidão na alma. A solidão Este conto confirma a idéia popular de que Deus
só não é absoluta, porque existe a solidariedade do escreve certo por linhas tortas. Damastor Dagobé,
povo acalentando seu coração. bandido extremamente feroz, foi surpreendentemente
Pode-se observar também as sugestões sonoras assassinado por um sujeito aparentemente fraco,
oferecidas pelo nome do personagem: Sorôco – só Liojorge, pressionado por legítima defesa. É em meio ao
louco; Sorôco – socorro, como compreensão do forte velório que o narrador se coloca, para captar mais
sentido do contexto do texto. Por outro lado, é vivamente a reação das pessoas presentes, todos com
interessante perceber a gradação do título, sugerindo a inúmeras conjecturas sobre como será a vingança dos
união da família como vagões que se engatam no trem irmãos Dagobé.
da existência e se desengatam no destino. Cada vagão O mais surpreendente é que chega o recado de
carrega sua própria solidão e dor, mas forma o trem da Liojorge, querendo deixar claro que havia matado com
solidão e da dor coletivas, na metáfora de uma respeito e que queria estar na presença dos irmãos,
cantiga. para mostrar sua boa vontade. Se isso já deixou todos
Sorôco é comparado a Jó, personagem da Bíblia, por sobressaltados, muito mais quando se fica sabendo que
causa de seu sofrimento. Passado e futuro, ele, no meio. o bom moço queria ajudar a carregar o caixão de
Ele, a terceira margem. A eternidade. E as proporções Damastor. Parecia que o medo havia feito do rapaz um
gigantescas dele lembram as personagens grotescas maluco.
que são castigadas, eliminadas em outros contos. O Surpreendentemente os irmãos Dagobé concordam,
padecimento a que foi submetido ao cuidar das duas, mas impõem uma condição: só depois do caixão ser
no entanto, redimiu-o. fechado. Os presentes imaginam algum plano malévolo
e traiçoeiro dos bandidos. No entanto, a narrativa
4. A menina de lá – A menina de lá , conto de apresenta frustração após frustração. Liojorge chega e
Guimarães Rosa, da obra Primeiras estórias, é não é assassinado. Conduz o caixão. No caminho,
narrado em terceira pessoa. tropeça e quase derruba o féretro. Para os
Em um momento do texto, o narrador também passa a espectadores é um prenúncio de desgraça. E
ser personagem (“Conversávamos, agora”), em outros, comentam que os irmãos Dagobé estão na realidade
funciona como um narrador testemunha dos fatos, ora
realizando o pior dos planos: usar o homem como canoa no brejão, de léguas, que há, por entre
carregador e no cemitério dar cabo dele. juncos e mato, e só ele conhecesse, a palmos, a
No entanto, este é outro conto a lidar com anticlímax. escuridão, daquele“.
Enterrado Damastor, seus irmãos agradecem a atenção • A repetição também é um recurso expressivo
dos acompanhantes, mostram compreensão em comum ao autor, como no caso: e o rio-rio-rio, o rio
relação a Liojorge e reconhecem que o falecido, em sempre fazendo perpétuo.
vida, era mesmo muito ruim. Comunicam que estão de • Neologismos também estão presentes (“diluso”,
mudança para a cidade, o que indica evolução. talvez variante de diluto, diluído; ou “bubuiasse”) ao
O conto é uma alusão irônica: “Viviam em estreita lado de termos regionais como “trouxa”, no sentido
desunião…” É a imaginação popular versus o real: de comida e roupas, típico no falar dos boiadeiros;
Liojorge vai sofrer a vingança dos três irmãos mais novos. além de outras palavras pouco comuns: encalcou,
Todos acreditam nisso. Vitória da justiça: matara em entestou etc.
legítima defesa. Damastor que era mau e perverso. • As figuras de linguagem reforçam o lado poético do
Merecia morrer. “Damastor, o grande pior.” Alegria dos conto como exemplificam a gradação “Cê vai,
três irmãos remanescentes, einfim livres do grande pior. ocê fique, você nunca volte!”, a antítese “perto e
longe de sua família dele”, além do próprio caráter
6. A terceira margem do rio – A terceira margem do metafórico do rio.
rio, da obra Primeiras estórias, de Guimarães Rosa, é Sem dúvida, todos esses recursos geram dificuldade ao
narrado em primeira pessoa e é o mais famoso e o leitor que desafia a obra rosiana. Mas, uma vez
mais aberto conto do autor. Existe no conto uma enfrentados, eles permitem o acesso ao mundo do
intertextualidade bíblica com Noé. “encantatório”, ao mundo do desconhecido, da
terceira margem, que só poderia ser recriado por uma
Tempo: Neste conto o tempo cronológico é de um linguagem também recriada e nova, capaz de refletir
longo período, toda a vida do narrador. Mas a todo o deslumbramento desse universo.
intensidade com que as impressões e o A temática deste conto é a loucura.
amadurecimento do narrador são trabalhados dão Desde o título, o leitor já depara com o insólito da obra
enfoque ao tempo psicológico. rosiana: o que vem a ser a terceira margem do rio? A
Espaço: O espaço é delimitado pela presença expressão provoca o entendimento a fim de despertá-
concreta do rio, caracterizando a paisagem rural de lo para o mundo do inconsciente, do abstrato. A
sempre. Desse espaço, como foi comentado terceira margem é aquilo que não se vê, que não se
anteriormente, emanam magia e transcendentalismo toca, que não se conhece.
aos olhos do leitor, no ir e vir do rio e da vida. O pai, ao ir à procura da terceira margem do rio, busca
Personagens o desconhecido dentro de si mesmo; o isolamento é a
Os personagens são: filho (narrador-personagem), pai única maneira encontrada para procurar entender os
(“ virara cabeludo, barbudo, de unhas grandes, mal e mistérios da alma, o incompreensível da vida. A
magro, ficado preto de sol e dos pêlos, com aspecto de estranha história do homem que abandona sua família
bicho, conforme quase nu, mesmo dispondo das peças para viver em uma canoa e nunca mais sair dela é o
de roupas que a gente de tempos em tempos argumento exemplar usado pelo autor para discorrer
fornecia” ), mãe, irmã, irmão, tio (irmão da mãe), sobre o medo do desconhecido.
mestre, Padre, dois soldados e jornalistas. O rio sempre teve destaque na imaginação do autor:
Esses personagens, sem nomes, acabam se […] amo os grandes rios, pois são profundos como a
caracterizando como tipos sociais, por suas funções na alma do homem. Na superfície são muito vivazes e
história. A observação desse aspecto já mostra, no pai, claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros
a tendência ao isolamento. Sempre fora a mãe a como os sofrimentos dos homens. Amo ainda mais uma
responsável pelo comando prático da família. O pai, coisa de nossos grandes rios: a eternidade. Sim, rio é
sempre quieto. O filho e narrador não foi aceito na uma palavra mágica para conjugar a eternidade.
infância para companheiro do pai no seu desafio. Na Guimarães Rosa
maturidade, quando tem a oportunidade, acha não Um aspecto interessante a ser notado é que o narrador,
estar preparado para ir rumo ao desconhecido, ao quando criança, queria embarcar com o pai. Este o
“inominável”. impediu. Adulto, intui o porquê da busca do pai e,
chegando-se à margem do rio, diz que quer substituí-lo.
Recursos de estilo É o único momento em que o velho se manifesta, indo
• Toda essa estranha história vem vazada no já em direção à margem. No entanto, o narrador fica com
comentado estilo típico de Guimarães Rosa. A medo da imagem do pai, que parecia vir do outro
oralidade é reproduzida na fala do narrador: Do mundo. Foge. Por isso, torna-se a única personagem
que eu mesmo em alembro, ele não figurava mais fracassada, pois não foi capaz de transcender, de
estúrdio nem mais triste do que os outros, realizar seu salto.
conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem
ralhava no diário com a gente. 7. Pirlimpsiquice – Conto narrado em primeira pessoa,
• As frases, curtas e coordenadas, independentes, apresentando um narrador protagonista.
garantem um ritmo lento e pausado à leitura: Ele
me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n’água, O período a que o autor nos remete é o tempo
proava para cá concordando. prazeroso da infância, repleto de aventuras e de
• A sintaxe é recriada de maneira inusitada, experiências inéditas, como a da arte de representar.
provocando estranhezas durante a leitura: “não fez O nome desse conto parece uma união de duas idéias,
a alguma recomendação“, “nosso pai se Pirlimpimpim, o pó de faz de
desaparecia para a outra banda, aproava a conta do Sítio do Picapau Amarelo e psique, que tanto
pode significar “ alma” , “ espírito” , “ mente” . É a 9. Fatalidade – Conto narrado em primeira pessoa
história de onze ou doze crianças que estão ensaiando (testemunha), cujos personagens são: Meu Amigo,
uma peça, Os Filhos do Dr. Famoso, para ser delegado filósofo, que já foi de tudo na vida, e Zé
encenada diante da escola. É notável como crianças, Centeralfe, caboclo perseguido por um valentão
símbolo da liberdade, agem no rigor dos ensaios que lhe quer roubar a esposa.
constantes. Chama a atenção também como os Os recursos de linguagem utilizados são barbarismos e
adultos têm uma linguagem tão empolada, próxima do elipses (“adonde” barbarismo popular).
vazio. O pior é que um grupo de crianças, liderado pelo O conto contrapõe o poder da autoridade ao poder do
Gamboa, ficou de fora de todo esse processo e homem comum, submetido às leis e tematiza, em
começa a espalhar que tem conhecimento da obra última instância, a violência arbitrária existente no
que os meninos ensaiam tão em segredo. Então, como sertão. Esta, por sua vez, justifica o título,
disfarce, os atores criam uma terceira história. pois assume um caráter de fatalidade. Portanto, a
Tudo perfeitamente programado, mas em cima da hora fatalidade (a morte) é o tema do conto, sem
o Ataualpa, quem iria abrir a peça, tem um parente associação com o cômico, mas com o místico.
que está para morrer e, por isso, precisa ir embora. Trata-se da história de Zé Centeralfe, que vive
Quem assume o seu lugar é o narrador, que sabia acochado, pois sua esposa desonrosamente está sendo
todas as falas de cor, pois era o ponto. No entanto, na cortejada por um facínora, Herculinão. O casal, para
estréia é que perceberam que a peça devia ser evitar problemas, mudou-se do Pai-do-Padre
aberta por um poema conhecido só pelo Ataualpa. O para Amparo. Mas o bandido segue-os. Mudam-se
narrador fica parado, sem saber o que fazer. A gafe é então para a cidade, onde deveria haver lei, ordem,
paga com vaias monstruosas. segurança, mas continuam sendo seguidos. É por isso
A situação é salva por Zé Boné, garoto limítrofe que teve que o pobre homem vai pedir ajuda ao delegado,
sua participação limitada a um papel sem fala. chamado pelo narrador de Meu Amigo, figura que cita
Inesperadamente começa a encenar a própria peça intensamente os filósofos gregos. A intenção é
do Gamboa, no que é seguido pelos demais garotos, obter o apoio da justiça dos homens. No entanto, Zé
como se estivessem num transe, que se transfere Centeralfe é induzido a outro tipo de moral.
para a platéia, paralisando-a. Esse transe coletivo pode Aparentemente, é a justiça pelas próprias mãos, pois o
ser entendido como o poder da Arte. delegado convence Centeralfe, apenas com o
Em Pirlimpsiquice, a invencionice infantil é lembrada olhar, a pegar as armas. Assim que saem, encontram
com saudades pelo narrador levantando um Herculinão, que é assassinado com um tiro no
tênue limite entre o real e a imaginação. peito (coração) e outro na cabeça (mente).
Em Fatalidade, aprende-se a viver, não debaixo da lei
8. Nenhum, nenhuma – No conto Nenhum, Nenhuma, do determinismo de um destino alheio
a indefinição do espaço se articula com a questão e estranho aos reclamos do coração, mas sob a graça
do tempo,na medida em que todas as referências da liberdade de transformar a inexorabilidade
a espaços indefinidos misturam-se à memória de uma sentença fatal na maleabilidade de uma
perdida que o narrador tenta recuperar; o que ele disposição vital capaz de não desperdiçar a ocasião
talvez resuma da seguinte forma: As lembranças oportuna de reespiritar-se.
são outras distâncias….
10. Seqüência – Em Seqüência, décimo conto
A narrativa inicia com o trecho: Dentro da casa-de- de Primeiras Estórias, e narrado em terceira pessoa,
fazenda, achada, ao acaso de outras nos
várias e recomeçadas distâncias, passaram-se e deparamos com a história de uma busca. Essa
passam , na retentiva da gente, irreversos busca é, a princípio, material pois que um rapaz vai
grandes fatos – reflexos, relâmpagos, lampejos – procurar uma vaca desgarrada do rebanho mas,
pesados em obscuridade. no decorrer da trama, transforma-se numa busca
A procura pelos fatos da infância que “ passaram e espiritual
passam-se” constitui uma tentativa de descobrir uma em que a vaca transforma-se em uma ponte entre
verdade misteriosa e inacessível, que se articule e
o mundo material e o espiritual. Voltamos a nos
modifique o presente, lançando novas luzes ao futuro.
deparar com a força do destino, dentro da
O narrador do conto narra em primeira pessoa, com a
cumplicidade explícita de sua memória, uma das concepção roseana: um vaqueiro saindo à procura
personagens principais dessa história, tentando de um
também compreender os dilemas que envolvem a animal extraviado não percebe que está indo ao
aproximação da morte. encontro da pessoa amada. Como se, na vida, o
O narrador rosiano caminha como se estivesse perdido próprio acaso, tecido de erros e enganos, de
no labirinto de suas lembranças, encontrando as saídas repente, sem razão aparente, iluminasse o caminho
após um árduo e doloroso esforço. Ao longo de sua certo entre os muitos descaminhos da vida.
odisséia, ele enfrenta a tensão entre a memória e o
esquecimento, no resgate do passado, que não retorna A narrativa do conto retoma a crença na
em sua pureza original, mas é fruto de uma singular predestinação e na recompensa que advém da
seleção dos fatos lembrados. resistência
O narrador faz um enorme esforço de memória, que ao sofrimento: o rapaz e a vaquinha superam
tanto pode ser entendido com a recuperação de um obstáculos, enfrentam sérios perigos e são
sonho, ou uma regressão psicanalítica ou até terapia de recompensados, pois o moço encontra o verdadeiro
vidas passadas. amor, a vaquinha, a liberdade.
Guimarães Rosa trata os bichos, em especial cavalos e imagem no espelho e eliminando todas, na
vacas, como seres maravilhosos. Em seus contos tentativa de encontrar a sua verdadeira essência, livre
eles ganham status de personagens e a vaca, com sua de qualquer ilusão que os seus olhos
imagem de servidão paciente e de força pacífica, pudessem criar.
tem poder decisivo nas narrativas de Guimarães Rosa. Após anos dessa experiência, o personagem chega ao
Com isto tira das mãos do homem as decisões ponto de não conseguir ver nenhuma imagem,
sobre seu próprio destino, modificando a situação de quando está diante de um espelho. Então, resolve parar
submissão existente. É assim com a vaca do por um bom tempo com as experiências e
conto Seqüência que, de objeto passivo de busca, não dirige mais o olhar a nenhum espelho. Porém, num
passa a condutora do destino do vaqueiro, dia, ele retoma essa experiência e consegue
numa inversão irônica que é a chave de compreensão ver apenas um esboço muito mal feito do seu rosto, um
do conto. A busca empreendida se vincula à quase rosto. Nesse instante, o narrador
idéia da viagem que traz em si determinações que se sente contente e tranqüilo e convida o leitor a refletir
pertencem tanto ao tempo quanto ao espaço. sobre o que é de fato a vida.
O tempo e o espaço em que se localiza o conto situam- O elemento anedótico consiste na situação absurda,
se numa larga faixa em que se alojam o relatada pelo narrador, de que é possível ver
substrato latente do tesouro da tradição literária e um outras pessoas, objetos e até animais no lugar da
repertório mítico que o embasa. Essa própria imagem no espelho. O narrador passou a
narrativa que se refere sempre a uma criação, sendo ao acreditar nessa louca idéia, quando ainda era jovem e
mesmo tempo uma criação, e é tida como estava num lavatório, onde de súbito, se
absolutamente verdadeira. deparou com um perfil humano feio, desagradável que
Buscando na simbologia das palavras, nomes, lugares e lhe gerou nojo e repulsa. Porém, essa figura
personagens do conto, percebemos um era ele mesmo dentro de um jogo de ângulos produzido
substrato latente que visa o retorno à ordem primordial por dois espelhos: um fixo na parede e outro
das coisas, com o restabelecimento do numa porta lateral. A partir desse acontecimento, o
equilíbrio. Assim é a peregrinação do vaqueiro narrador inicia uma busca pelo seu eu através dos
em Seqüência. espelhos: comecei a procurar-me – ao eu por detrás de
A escolha da vaca como um animal a conduzir o mim – à tona dos espelhos.
destino de um humano deve, portanto, ser entendida O conto é como um jogo da verdade. O espelho é o
metaforicamente. O caminho do rapaz é recheado de instrumento da análise. O narrador vai descendo em
indagações e dúvidas, mas sem se desviar do suas experiências até não encontrar mais sua imagem:
traçado da vaca. as máscaras (aparência) vão sendo destruídas.
Por fim, começa a emergir no espelho uma outra
imagem …um rostinho de menino, de menos-que-
11. O espelho – o centro da obra Primeiras Estórias, de menino.
Guimarães Rosa, onde o narrador, em primeira Este conto apresenta um aspecto que o destaca em
pessoa, conta de sua luta para provar a falta de relação aos demais de Primeiras Estórias:
lógica e de sentido do mundo. Diante sua linguagem é erudita, carregada de termos
de um espelho, foi descobrindo com o passar dos científicos e filosóficos, numa formalidade que se afasta
dias a mentira que é a aparência humana. Num do caráter oral dos outros 20 textos, significando o
processo de “ desimaginar-se” , vai verificando que fascínio exercido pelo espelho sobre cientistas e
o homem, como todas as coisas, não passa de filósofos de todos os tempos.
Seu narrador, que parece conversar com o leitor diz que
uma metáfora. No limite do absurdo, ele chega a
realizou um enorme esforço, por meio de
ver sua “ forma” invisível.
seu reflexo num espelho, de busca do seu verdadeiro
O tema da identidade é tratado através da metáfora eu, o “ eu por trás de mim” .
do ato de se ver e se reconhecer no reflexo dos Esse verdadeiro eu precisa ser encontrado por meio de
espelhos. seu reflexo. Estuda-se, pois, sua imagem e
No conto reaparece a estrutura narrativa inovadora, semelhança. Assim, a busca do verdadeiro eu está na
trata-se da relação diálogica de um narrador busca de Deus. Para tanto, o narrador vê-se
que não se identifica nominalmente e que interpela o na necessidade de realizar exercícios que têm a
leitor por “senhor”. O narrador relata uma proposta de eliminar as superfícies enganadoras
experiência insólita: Se quer seguir narro-lhe; não uma de sua imagem. Com esforço, elimina sucessivamente
aventura, mas experiência, a que me a imagem do seu sósia animal, dos seus pais,
induziram, alternadamente, séries de raciocínios e de suas paixões, das idéias que os outros lhe atribuem,
intuições. Tomou-me tempo, desânimos, esforços. dos interesses efêmeros. O resultado de
/…/ O senhor, por exemplo, que sabe e estuda, todos esses esforços causa-lhe muito sofrimento,
suponho nem tenha idéia do que seja na verdade – principalmente uma terrível dor de cabeça.
um espelho?. Assim, o leitor é chamado a trilhar as Resolve, pois, abandonar a tarefa.
veredas de uma devassa da alma humana. Tempos depois, voltou a se olhar no espelho e não viu
De tema metafísico, transcendente, o conto não é uma nada. Aos poucos, uma imagem vai-se formando,
narrativa com história, intriga, no sentido de forma luminosa. No final, surge a imagem de algo
tradicional. É uma experiência, como o próprio narrador que é menos que um menino. Eis a idéia de que
personagem declara. a criança enxerga melhor a verdade (eis um dos
Seguindo um método próprio, o narrador desenvolve a motivos para a predileção para esse tipo de
sua busca durante anos, experimentando as personagem na obra). Tornando-se adulto, a visão é
diferentes formas que podem brotar de sua própria embaçada. No entanto, existe a promessa de que
se voltará ao estágio da perfeição. Vai-se estar face a corresponde à desconfiança de quem ainda não
face com Deus, como se diante de um espelho. consegue entender o propósito de suas atitudes.
No conto O Espelho, predominou o aspecto esotérico, E chega um dia, como em toda narrativa, que é preciso
quando a obra Primeiras estórias nos apresenta pôr, até que aparentemente, um ponto final: morre o
vivamente retratos de pobreza, exclusão e abandono a protagonista, os empregados vislumbram castigo de um
que são entregues os habitantes do sertão. plano transcendente. A casa, espaço em que ele está
sendo velado (e estando sozinho), incendeia-se, faz-se
12. Nada e a nossa condição – Conto com narrador em pó; e como pó, volta à terra, à gleba tumular.
primeira pessoa (testemunha), cujo personagem Neste conto, temos, de um lado Tio Man’Antônio,
central é Tio Man’Antônio, mais um dos loucos indivíduo superior, que se distingue dos demais por sua
iluminados de Guimarães Rosa. concepção elevada acerca da existência, bem como
O lugar (espaço) é uma utopia: … cuja sede distava de por suas atitudes, invariavelmente nobres. De outro, seus
qualquer outra talvez mesmo dez léguas, dobrava-se na agregados, que não chegam a identificar outra
montanha… É a instauração do espaço ficcional. relação a não ser a de subserviência.
Tio Man’Antônio, depois de casado resolve doar quase A morte de Tio Man’Antônio provoca uma mudança de
tudo que tem àqueles que trabalham com ele. É a atitude por parte dos agregados, pois esses são
iluminação: os haveres materiais de nada valem para tomados pelo medo. Se antes o desprezavam, depois
ele. de sua morte passam a envolvê-lo numa aura de
Um dos recursos de linguagem utilizados: aliterações santidade. Isso ocorre porque temem a justiça divina
– …leigos, ledos, lépidos…, …dobrada dobadura, a quer, para castigá-los por seu ódio infundado, poderia
derrubarem mato…. alterar sues destinos, fazendo com que desgraças se
Nada e a nossa condição aproxima-se fortemente abatessem sobre eles.
de As margens da alegria e Os cimos (respectivamente, A execução do ritual de adoração tem duplo objetivo:
primeiro e último contos da obra Sagarana) ao focalizar obter o perdão divino e restituir-lhes a paz de espírito.
os pólos opostos dos elementos aéreo e terrestre,
encenando a complementariedade do supreno e do 13. O cavalo que bebia cerveja – Narrado em primeira
inferno. pessoa Reivalino, um homem do meio rural e tem
Neste conto, Tio Man’Antônio, é tão rico e bom como como tema o mistério, a não aceitação daquilo
os reis dessas histórias tradicionais. que é diferente.
A narrativa inicia-se com o enterro da esposa da Com esse conto, Guimarães Rosa enfoca os horrores e
personagem principal, que, a partir desse instante, a desagregação trazidos pela guerra, mostrando
começa a realizar um movimento de desapego em que que o sertão se torna também lugar de homens
se esvazia das posses e abastece seus próximos. Desfaz refugiados, perseguidos e sós.
o jardim predileto de sua falecida, o que dá a impressão Reivalino Belarmino conta a história do esquisito italiano
de estar-se desfazendo das lembranças dela. Giovânio, ex-combatente de guerra, que vivia isolado
Em Nada e a nossa condição, tio Man’Antônio, que vive numa chácara com seus cães, entre os quais se
em uma fazenda da qual é proprietário, tem família destaca Mussolino.
constituída, com tia Liduína e suas filhas, mas desde o O narrador, seu empregado, sente aversão por este
início da narrativa, ele é mostrado como um ser homem de estranhos hábitos. Além de não tomar
diferente, estranho em seu comportamento, segundo o banho, vive fungando e sempre pede cerveja “para o
paradigma do povo à sua volta. cavalo”. Mesmo quando a mãe adoece, e o
Morre tia Liduína, há luto na casa, mas naquele dia, Tio patrão lhe dá dinheiro para as despesas, inclusive para
Man’Antônio abre portas e janelas, certo de que a o funeral, Reivalino, o narrador, não supera a
narrativa se constrói por um fazer, vários ou muitos. repugnância que sente.
Transitoriante, Tio Man’Antonio dá curso à vida em que Um dia, uns estrangeiros chegam à cidade buscando
o rompimento é pura aparência: muda o espaço, informações sobre o homem. O narrador é chamado
derruba árvores em volta da casa grande da fazenda, pelo subdelegado, Seu Priscílio, para contar o que sabe
reconstrói a fisionomia do lugar e, quando uma das sobre ele. Nesse ínterim, o patrão chama-o para
filhas, por não entender o pai, lhe pergunta se aquilo conhecer sua casa: não há móveis, cheira a local
está certo, ouve dizer: Faz de conta, minha filha, faz de fechado; Reivalino pressente “bafo de presença”. Em
conta, velha maneira de lidar com a dor, relação seguida surgem comentários de um “cavaleiro saído da
reflexiva que o sustenta e tenta sustentar a relação com porteira de uma chácara”.
o outro, os outros que precisam entendê-lo para aceitá- De novo interrogado pelos estrangeiros, inclusive um do
lo. Tio Man’Antônio, na situação inicial da história, Consulado, Reivalino, sentindo-se enganado,
parece um sujeito indiferente ao que acontece à sua conta-lhes tudo. O subdelegado vai até a chácara
volta a partir da perda da esposa Liduína, mas é sua investigar. Quer saber que histórias seriam aquelas
maneira de enfrentar a dor, não fazendo com que ela, de um cavalo beber cerveja? Giovânio enche a
a dor, seja obstáculo para a continuidade da narrativa. gamela com a bebida. O animal bebe tudo. Seu
Há nesse percurso narrativo tempo de festa: vieram os Priscilo retira-se. Informado por nova suspeita de
moços, as filhas noivaram e casaram e mudaram-se Reivelino, que assegura-lhe: Alguma outra
para longe. Tio Man’Antônio, sozinho, mas não triste, dá razão devia de haver, nos quartos da casa, seu Priscilio
curso à sua trajetória: os empregados continuam seu retorna à chácara. Lá, não encontra
trabalho, a terra se agita em produção. Afinal, ao fim nada fora do normal, apenas um cavalo empalhado
de forte pensar toma uma decisão, não contrária ao dentro de um quarto trancado.
que já fizera: a distribuição de terras aos colonos, Reivelino deixa de ser informante e começa a se
ficando ele na casa grande; a necessidade de partilhar sensibilizar com a condição do patrão. Giovânio
chama o rapaz para comunicar-lhe a morte do irmão,
mutilado de guerra. Após o enterro, Reivalino, Assim começa a estória: NA NOITE de 11 de novembro
comovido e envergonhado, despede-se do patrão, de 1872, na comarca do Serro Frio, em Minas Gerais,
pois partirá da cidade. Giovânio convida-o para deram-se fatos de pavoroso suceder, referidos nas
beberem cerveja juntos. Bebem na companhia de folhas da época e exarados nas Efemérides.
Mussolino e do cavalo. Nessa estória ocorre um jogo entre o conhecido e o
Ao morrer, Giovânio deixa a chácara para Reivalino, desconhecido. O narrador apresenta muitas
que ajeita a propriedade a e vende. Antes, informações sobre a comunidade, porém, ao falar do
bebe todas as cervejas que restam, em memória do protagonista, as pinceladas são mais evocativas,
amigo. impressionistas, o que mostra a profunda diferença
entre este e a comunidade. Neste jogo fica
14. Um moço muito branco – Este conto é introduzido evidenciado o que é do cotidiano e o que é do
por uma precisão espaço-temporal atípica em inusitado, o que é ausência de luz, e o que é presença
Guimarães Rosa e pode ser classificado como luminosa. Trata-se de um verdadeiro contraste entre os
fantástico. aspectos da imanência (vida da comunidade) e da
Em Um moço muito branco, novamente surge a transcendência (chegada do moço branco). Ao se
evocação ao mistério que se perde em descrições referir às pessoas do lugar, a narração caminha menos
factuais. Nos deparamos com o jogo de luz e sombra. solta, e se prende a retratar com mais realismo os seus
Novamente alguém estranho precisa aparecer para costumes. Mas, no que diz respeito ao moço branco, o
lançar algum tipo de luz nova sobre a comunidade narrador faz outros contornos, sugere, evoca,
cega. De forma muito tênue, o narrador mostra que do provocando uma distinção entre o protagonista e os
grotesco e assustador pode surgir um ser delicado e outros.
claro de visão, ou seja, dos escombros de um possível
terremoto, aparece um homem muito branco, que 15. Luas-de-mel – O conto, narrado em primeira
reacenderá, sem que o saiba, alguns feixes de luz pessoa, introduz o motivo, fundamental na obra
apagados. Um moço muito branco é uma revelação, rosiana, do eterno feminino. A mulher é a ponte que
porque nos traz um personagem que une o passado e o futuro, assegurando a
revela aos outros o que eles têm em si mesmos, e que continuidade da existência e a indestrutibilidade do
raramente é tocado. Este personagem, caracterizado elan vital. A mulher madura e a jovem noiva
por ser muito branco “Tão branco; mas não constituem as duas pontas do fio da vida, e a
branquicelo, senão que de um branco leve, consciência de sua interconversibilidade situa o
semidourado de luz: figurando ter por dentro da pele homem na eternidade, libertando-o de seu
uma segunda claridade”, é responsável pela mudança isolamento e restituindo-o à totalidade cósmica.
da perspectiva de vida das pessoas do lugar.
Novamente temos a inserção, na obra de Guimarães Do nada é que as coisas acontecem. Essa frase pode
Rosa, de uma criatura singular, fora dos padrões sociais ser entendida como uma defesa do desapego,
e até mesmo estéticos. A presença desta criatura é presente em Sorôco, sua mãe, sua filha, Os Cimos, A
mostrada como fruto de uma catástrofe, de um Terceira Margem do Rio, O Espelho ou Nada e a Nossa
“fenômeno luminoso” projetado no espaço, e que Condição. Pode também ser entendida como uma
gerou um terremoto que sacudiu os altos, quebrou explicação para as ações de Liojorge e Zé Centeralfe,
e entulhou casas, remexeu vales, matou gente sem de Os Irmãos Dagobé e Fatalidade, respectivamente.
conta…. Mas é uma frase proferida por Joaquim Norberto,
Os relatos são feitos, inicialmente, a partir de elementos protagonista do presente conto.
comprobatórios, revelando uma intenção narrativa de A narrativa deste conto pode ser interpretada como
ser o mais verossímil possível, mas que depois se dilui ilustração para a idéia de que em meio a
ao descompromisso com o factual, para penetrar situações corriqueiras, banais, é possível viver fortes
novamente nas camadas mais sutis dos emoções e grandes amores. É o que ocorre
acontecimentos. Ou seja, os fatos, com datas e locais com Joaquim Norberto e Sa-Maria Andreza, velho casal
específicos, são verdadeiros pretextos para a revelação acostumado com a vida pacata da fazenda
de outras verdades que serão narradas, as quais Santa-Cruz-da-Onça e que tem a mesmice de sua vida
pertencem ao tempo próprio da narrativa, bem como quebrada pelo pedido do Coronel Seotaziano de
de suas necessidades e intenções. proteção a um casal que quer casar-se, contrariando a
A história acontece num passado já distante. O decisão da família da moça. Deve-se notar que, além
narrador preocupa-se em fornecer datas e lugares de a filiação de Joaquim a Seotaziano
precisos para dar mais exatidão à insólita história do lembrar o feudalismo, a chegada do casal provoca
moço. Elke mesmo admite que: da maneira ainda hoje duas conseqüências: cria, em forte crescendo, uma
se conta, mas transtornado incerto, pelo decorrer do expectativa tensa de um combate, o que faz todos
tempo, porquanto narrado por filhos ou netos dos que ficarem armados, até o padre, que viera celebrar o
eram rapazes, quer ver que meninos, quando em boa matrimônio. Gera, também, o renascer do amor em
hora o conheceram. Joaquim Norberto e sua esposa Sa-Maria Andreza.
A chegada do moço, cuja procedência permanece No final, outra vez se manifesta no obra o recurso ao
desconhecida até o final do conto, coincide com a anticlímax. O irmão da noiva surge, mas não traz
ocorrência de uma série de fenômenos naturais. Isso, a guarda, apenas o convite de um almoço para
somado ao inusitado de seus traços individuais, a seu comemorar a união. Todos vão ao festejo, menos
estranho desaparecimento e ao fato de que todos se Joaquim Norberto e Sa-Maria Andreza. Os dois ficam
transformam diante de sua presença, aproxima sua para aproveitar o sentimento renovado. Amor traz
imagem à de um ser especial, enviando de outro amor.
planeta ou do plano divino.
Eu, feliz, olhei minha Sa-Maria Andreza; fogo de amor A imagem que simboliza Mula Marmela é a do carvão,
verbigrácia. Mão na mão, eu lhe dizendo – que é preto, mas, aproximado à luz, torna-se
na outra o rifle empunhado – : — ‘ Vamos dormir brilhante. As ações de Mula Marmela, para quem tem
abraçados… visão tapada – como o narrador de O Espelho,
Nesta frase podemos observar que o amor do casal em certo momento, ou Damásio Siqueiras,
maduro é retratado numa atmosfera de proteção e em Famigerado – são malignas. No entanto, a ação
serenidade. dela salvou, por meio da morte, seu companheiro e de
seu enteado. Tanto que os dois,
16. A partida do audaz navegante – Conto narrado em por mais bandidos que fossem, sempre a respeitaram e
terceira pessoa, onde há duas histórias justapostas: a temiam, como se intuíssem que o destino
a que nos conta o narrador, envolvendo as deles estava nas mãos dela.
crianças; e a que Brejeirinha inventa sobre o Como argumento em favor da personagem, é
“ Audaz Navegante” . O conto desenvolve, lembrado o momento em que Retrupé fora assassinado.
portanto, duas narrativas absolutamente simétricas Quando havia descoberto o inevitável fato
e correspondentes, a do narrador onisciente e a (envenenamento), tem uma explosão de raiva e tenta
de Brejeirinha sobre as mesmas personagens e atingir Mula Marmela com seu facão, mas não a
ações, Zito, a namorada, a separação e o alcança, mesmo ela estando inflexível. Arrefecida
reencontro. A intenção é privilegiar a linguagem e a explosão, começa, entre lágrimas, a chamar a algoz
o universo infantil, seus jogos e brincadeiras. de mãe. Ela o chama de filho.
Guimarães Rosa olha o mundo neste conto através de Realizada sua missão, parte da cidade, sob o silêncio
Brejeirinha, personagem central. ingrato dos habitantes. O narrador faz ainda
Neste conto os barbarismos são explorados questão de lembrar que na saída ela havia carregado
poeticamente. Logo no início do conto, quando o nas costas um cachorro morto – ou para limpar
narrador procura situar o leitor dentro do “espaço”, a cidade, ou para enterrar o coitado, ou para garantir
é apresentada a personagem “Mamãe”. Pelo companhia em sua viagem. Qualquer uma dessas
tratamento, pode-se compreender que o narrador se hipóteses reforça o caráter positivo da protagonista.
inclui como personagem da cena, sem manter um
distanciamento de quem narra fatos experimentados 18. Darandina – Darandina é narrado em primeira
por outros. pessoa, por uma testemunha do episódio, um
Zito é o elemento “de fora”; portanto aquele que rompe plantonista de um hospício.
a harmonia. Metáfora do desejo, Zito é símbolo do pai É um conto que se situa entre o anedótico e o satírico.
ausente e desdobra-se na figura do “audaz Seu título não é explicado pelo autor. Os dicionários
navegante”. Pode-se, então, compreender que a passaram a incluir “ darandina” em suas edições mais
narrativa de Brejeirinha como uma construção que, a recentes – talvez devido exatamente ao emprego
um só tempo, denuncia a falta (do pai) e tenta, pela desse termo por Guimarães Rosa – com o sentido de
linguagem, pela fantasia, reverter a perda em atrapalhação, confusão.
conquista, uma situação na qual a passividade (sofrer a Darandina é um dos 21 contos, narrativas curtas,
perda) transforma-se em poder: impor a saída integrantes da obra Primeiras estórias, de Guimarães
(do navegante). Rosa, onde a estória coloca, como O Alienista, de
Machado de Assis, a questão das fronteiras entre a
17. A benfazeja – Mais uma vez a idéia de que quem normalidade e a loucura: ou estão todos loucos, caso
não está preparado para a verdade não a pode em que ninguém é louco?
enxergar. Mas neste conto esse defeito é visto em Este é um dos poucos contos urbanos da obra.
uma cidade inteira, o que deixa o narrador, que Claramente, sua temática é a loucura: uma pessoa
conversa com esses moradores, irritado comum que, por isso, consegue realizar uma façanha
com tal cegueira. Lembra O Velho do Restelo, que espanta a todos os viventes e espectadores de um
de Os Lusíadas. dia comum: escala, sem dificuldade alguma, uma
Narrada em primeira pessoa, por um narrador do palmeira e se instala no seu topo, resistindo a todas as
povoado, a estória tem como protagonista a Mula- tentativas que se fizeram para arrancá-la de lá. As
Marmela, mulher caracterizada como “furibunda de conseqüências desse fato inusitado são as mais
magra, de esticado esqueleto, e o se sumir de diversas, mas o principal é que se chega à conclusão
sanguexuga, fugidos os olhos, lobunos cabelos, a cara de que faltam conceitos para explicá-lo.
(…) o queixo trêmulo (…) a selvagem compostura”. Sua maluca subida, além de fazer lembrar Ismália, do
O narrador está determinado a convencer – o que não simbolista Alphonsus de Guimarães, mostra uma
consegue – a todos que Mula Marmela, mulher confusão que a personagem faz entre plano denotativo
estéril, sem nome cristão, dotada de linguagem antiga (sair do chão, ao pé da letra) e plano conotativo (sair
(sua descrição a afasta deste mundo), não é do chão no sentido de buscar a transcendência).
uma personagem maldita como sempre fora Em meio ao impasse produzido pela cena nova e
apregoado. Sua função fora benfazeja, pois eliminara deslumbrante (o homem no topo da palmeira brilha e
dois personagens sedentos por sangue: seu fere como o sol ao meio-dia), o narrador expõe suas
companheiro Mumbungu e o filho deste, Retrupé, que dúvidas, desconfiando que o mundo se deixa abalar
chegou até a ser cegado pela madrasta para deter seu não tanto por conteúdos renovados, mas pela maneira
espírito maligno. Essas acusações não são como estes conteúdos se estruturam na sua
explicitamente encampadas pelo narrador, que apresentação.
apenas relata, cômoda e seguramente, os comentários Outro aspecto interessante é o que acontece no chão.
que circulam pela cidade. Além do absurdo que é os especialistas discutirem a
rotulação da insanidade do sujeito, sem solucionarem o
problema, chama também a atenção a cidade inteira Em Substância os contrários aparecem harmonizados
acompanhar o espetáculo do rapaz. Tudo isso autoriza ao final do conto. Os personagens transcenderam assim
o seguinte questionamento: quem é louco? o nível imediato de uma realidade, superando a cisão
O incrível é que o louco consegue um equilíbrio dos opostos. Para falar deste outro estágio em que eles
espantoso no alto da palmeira (outra diferença entre os se encontram Guimarães Rosa lança mão de
planos denotativo e conotativo), tornando-se, portanto, estruturas lingüísticas carregadas de paradoxos:
um excesso humano. Isso é que explica a profundidade “acontecia o não-fato”, “em-si-juntos”, “avançavam,
de sentido de suas frases, como “Viver é impossível!” parados”.
Infelizmente, recobra de súbito a sanidade e passa a ter Deve-se também observar no conto a notação fonética
medo da queda. De fato, chegar tão longe do comum os nomes: Maria Exita (Mariasita), Sionésio (senhor
do chão assusta – é o mesmo medo que sentiu o Onésio) e Nhatiaga (senhora Tiaga). Essa é uma das
narrador de A Terceira Margem do Rio e Sionésio, marcas de Guimarães Rosa.
de Substância. É conduzido para baixo pelos
bombeiros. A população fica irritada com o fim do 20. Tarantão, meu patrão – Outro conto com anticlímax.
espetáculo. O ex-louco, talvez por segurança, tem (ou É a estória de um “louco-iluminado” da galeria
simula) outro surto, devolvendo alegria à cidade, que roseana,
volta, alimentada, para o seu cotidiano. o Iô Jão-de-Barros-Dinis-Robertes, narrada em
A ação desenvolve-se em região urbana não primeira pessoa por Vagalume, ajudante-de-ordens
especificada: uma praça vizinha de hospício. Não é do protagonista e encarregado de cuidar dele,
cidade muito pequena, pois nela há Secretário de que, envelhecido, era dado a doideiras e desatinos.
Finanças e um Corpo de Bombeiros equipado com O apelido “Tarantão” deriva exatamente de
maiores recursos. “atarantado”, que
Como ocorre nos demais contos, há um significa “doido”, “atrapalhado”. Lembra D. Quixote,
acontecimento-núcleo, do qual se originam os visionário,
desdobramentos relacionados. No caso, como já inadaptado ao real.
citado, um doido com boa aparência abriga-se no alto O tema é recorrende em Guimarães Rosa: turbulência
de uma palmeira, fugindo da perseguição após e a harmonia restabelecida.
pequeno furto que ele praticou. Em torno desse fato,
comentários, providências, discussões, discursos… 21. Os cimos – Narrado em terceira pessoa, neste conto
tendo a loucura como pano de fundo. O leitor se vê é retomado o mesmo tema de A margem da
diante de um protagonista doente mental que profere Alegria: a descoberta do mundo, de sua magia, dos
frases desconexas, aparentemente filosóficas e ritos da tristeza e da alegria, dos ritos da travessia e
proféticas, capazes de levar a multidão de ouvintes ao de superação do medo a e da dor. O protagonista
delírio triunfante, a ponto de tratar o insano como herói. é o mesmo Menino, da primeira estória, agora em
O que parecia trágico termina cômico. É o tragicômico. sua segunda viagem. Dividido em quatro partes, a
saber, I – O Inverso Afastamento; II – Aparecimento
19. Substância – Este conto, Substância, tem como do Pássaro; III – O Trabalho do Pássaro e IV – O
personagem principal Sionésio, homem simples, Desmedido Momento, principia em sentido inverso
trabalhador e calado. O vocabulário reduzido da As Margens da Alegria: por causa da doença de
limita-lhe a expressão, não a sensibilidade. sua mãe, o Menino é enviado à fazenda do tio (o
O narrador, em terceira pessoa, onisciente, fala por mesmo do primeiro conto).
ele, transformando seus sentimentos O último conto apresenta forte semelhança com o
em linguagem. primeiro. O ambiente é o mesmo, assim como
O título desse texto, um verdadeiro conto de fadas, praticamente as personagens. Além disso, o ponto final
estaria relacionado a três fatos. Substância pode de As Margens da Alegria é o início de Os Cimos: a
significar “o essencial”. Seria um conselho para que nos morte. Porém, o menino faz, aqui, sua viagem não mais
atenhamos apenas ao que é importante. É a lição no feliz, mas na agonia, pois sua Mãe corre um sério risco
aprendida por Sionésio. A palavra pode também estar de morrer.
ligada à idéia de alguns textos místicos medievais, que Para se viver melhor, deve-se evitar o apego à vida e
diziam que os anjos eram todos iguais “assim como o aceitar a morte. É o que fez Tio Man’ Antônio em
moço muito branco, de Um Moço Muito Branco, que é Nada e a Nossa Condição ou Giovânio em O Cavalo
indefinido por ser feito de uma substância divina. Pode que Bebia Cerveja. Essa necessidade
ainda estar ligada ao polvilho, material extremamente de desapego é vista neste conto no chapeuzinho de
branco que Maria Exita, empregada de Sionésio, um macaquinho de brinquedo que o Menino acaba
manipula. perdendo durante essa viagem. Ainda assim, talvez por
Este conto apresenta uma bela metáfora sobre a não entender essa mensagem, guarda o boneco,
pureza de sentimento decorrente da retidão e do que várias vezes parece querer sair do bolso.
sofrimento. Há trabalho incessante, e o cotidiano de Ainda assim, o menino parece inconscientemente sentir
uma menina dedicada a bater o polvilho, num que se ligar fortemente às coisas é ruim,
movimento incansável, é descrito nos planos objetivo tanto que sua agonia é crescente. Parece não querer
e subjetivo. No enredo, vemos a descrição do trabalho, mais querer. Querer é apegar-se. Apegar-se
da lida e da luta pela sobrevivência, e temos um valioso é sofrer.
retrato dos costumes de uma comunidade que tem Eis que, durante o nascer do sol, o menino intui a
como uma das formas de subsistência o fabrico e o necessidade de estar na frente da casa do
depuramento do polvilho, bem como as condições Tio. É quando presencia o início de um ritual que vai
precárias e primitivas em que este trabalho é realizado. durar 1 mês: o vôo de um tucano, que pousa
num galho diante da criança, sempre às 6h20, alimenta-
se e alça novamente vôo às 6h30, em • O autor João Guimarães Rosa nasceu em
direção do sol, da luz, agora mais forte que a do vaga- 1908, em Minas Gerais.
lume em As Margens da Alegria. • Enquanto trabalhava como médico no
Essa precisão faz com o que aprenda a esperar, a ter
interior, registrava o que ouvia e via:
esperança, a deixar partir. Tanto que
expressões, anedotas, versos, tipos humanos.
propõem caçar a ave, mas ele rejeita. Aprendeu a
desapegar-se. Aprendeu a viver. Essas anotações foram amplamente usadas
Resultado: contrariando expectativas, sua mãe melhora em sua obra.
e escapa da morte. O Menino retorna para • MAIOR NEOLOGISTA BRASILEIRO.
seu lar. No avião, durante a volta, o piloto devolve-lhe o • Médico e diplomata
chapéu do boneco. Mas o macaquinho • Em 1929 publica alguns contos na revista
já estava perdido. Ou deixado partir. Cruzeiro
• Em 1946 publica Sagarana – seu primeiro livro,
Tempo e Espaço que chama atenção pelas inovações e
riqueza de simbologia.
• Espaço: contos que se passam, em sua • Muito conhecido pela obra “Grandes Sertões
maioria, em um ambiente rural não específico, Veredas, 1956”
espelhando situações e temas particulares e • Pertence a terceira fase do modernismo –
universais. Geração de 45 – questões socias/existenciais
• Tempo: Século XX. se potencializam.
• Prosa regionalista – recria costumes do
sertanejo e fala dos personagens.
Guimarães Rosa • Linguagem regionalista, popular e coloquial.
• Cria seu próprio dicionário: Léxico de
Guimarães Rosa.