Dossiê Eros
Dossiê Eros
Um passeio pela
história da
Literatura erótica
feminina
E MAIS:
2
EDITORIAL
AO LEITOR
Caro leitor,
3
Este projeto nasceu da crença de que a
escrita tem o poder de
capturar a essência do
erótico, de transcender
as limitações do corpo
físico e nos transportar
para um reino onde
a imaginação e a
sensualidade se
entrelaçam de forma
sublime. Reunimos aqui uma seleção de
textos que abrangem uma ampla gama de
perspectivas, estilos e abordagens, buscando
celebrar a diversidade e a complexidade do
desejo humano.
Cada palavra escrita nesta compilação é um
convite para explorar as fronteiras do
prazer, romper tabus e questionar
convenções. Os textos aqui presentes não se
limitam a descrever encontros carnais, mas
também exploram a profundidade
emocional e a conexão íntima que
compartilhamos com nossos amantes e com
nós mesmos.
4
É importante destacar que a
abordagem do erotismo é um
terreno delicado, que requer
respeito, consentimento e
sensibilidade. Cada um dos
corajosos autores e autoras que
contribuíram para esta compilação
trouxe sua voz única e singular,
mergulhando nas profundezas de
sua criatividade para compartilhar
suas visões e experiências.
A sexualidade é um aspecto inerente à
experiência humana, e ao explorá-la através
da escrita, buscamos quebrar barreiras,
desafiar estigmas e promover uma cultura
de aceitação e respeito. Reconhecemos que
cada indivíduo possui suas próprias
preferências, limites e identidades, e é nossa
intenção criar um espaço inclusivo, onde
todos possam encontrar um reflexo de suas
próprias vivências e desejos.
5
Convido-o a abrir seu coração e sua mente, a
deixar-se envolver pelas palavras que dançam
nas páginas à sua frente. Que esta compilação
seja um convite para explorar a exuberância da
sensualidade humana, para abraçar a liberdade
de expressão e para celebrar o poder da escrita
como uma forma de conexão, descoberta e
compreensão.
Aprecie esta jornada de prazer e descoberta, e
que essas palavras despertem em você a
chama da paixão e do autoconhecimento.
Alessandra Bertazzo
Editora-Chefe
6
O EROTISMO NOS VERSOS DE
BANDEIRA E DRUMMOND
Por Alessa B.
A poesia amorosa e erótica está
destinada a provocar amor e
prazer erótico no exterior, no mundo.
[Francesco Alberoni]
7
Uma das tentativas mais
célebres partiu de
Camões com o seu Amor
é fogo que arde sem se
ver lá no século XVI.
E desde então uma
enxurrada de poemas
continua sendo produzida
sobre o tema. Mas como se disse
anteriormente, uma das várias abordagens
que podem ser feitas a partir dessa temática
é associá-la ao erotismo.
E, entre os muitos poetas que ousaram
poetizar sobre o tema encontraremos
Manuel Bandeira e Carlos Drummond de
Andrade no século XX, no período que ficou
conhecido como Modernismo após o
advento da Semana de Arte Moderna em
1922.
Para entender como ambos tratam a
temática erótica, vamos comentar e analisar
dois poemas a saber:
8
Manuel Bandeira
9
Se queres sentir a felicidade de amar, esquece
[a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação,
Não noutra alma.
Só em Deus – ou fora do mundo.
10
Podemos ver já no primeiro verso ou
conselho expressa a ideia de contradição
existente entre o amor espiritual (alma) e o
amor carnal (corpo), pois o eu-lírico expõe a
visão racionalista de que o amor está muito
mais vinculado a uma necessidade de
satisfação sexual ao afirmar que “a alma é
que estraga o amor”.
Essa afirmação leva diretamente ao
pensamento de Schopenhauer de que “toda
paixão, com efeito, por mais etérea que
possa parecer, na verdade enraíza-se tão
somente no instinto natural dos sexos; e
nada mais é que um impulso sexual
perfeitamente determinado e
individualizado”.
Nesse sentido, o indivíduo livre de sua
complexidade anímica atrelada às
agitações, aflições e inquietações causadas
pelo amor espiritual, que arrebata a razão e
os sentimentos, o melhor para “sentir a
felicidade de amar” é esquecer a alma, pois
ainda nas palavras do filósofo alemão:
11
‘[...] para que tanto barulho? Para que tanto
esforço, violência, angústia e miséria? Pois
em suma a questão é simplesmente esta:
que cada um encontre o seu par”, baseado
apenas nessa concepção carnal de amor.
Assim, o eu-lírico recusa categoricamente a
ideia de realização sentimental na busca
pela alma gêmea através do amor espiritual
baseada na obra filosófica Banquete, de
Platão, na qual explica a origem das almas
gêmeas.
Ao afirmar que “as almas são
incomunicáveis” entre si, o eu-lírico propaga
a ideia de que a alma humana só é capaz de
comunicar-se perfeita e espiritualmente e
de atingir uma comunhão plena com Deus,
sugerindo que uma alma só pode sentir-se
completa ao buscar essa integração
espiritual na religião ou mesmo na morte
quando declara que “Só em Deus ela pode
encontrar satisfação/Não noutra alma/Só
em Deus – ou fora do mundo”.
12
Portanto, somente os corpos é que vão se
comunicar com amplo entendimento e
satisfação através do amor carnal
representado no ato sexual, uma espécie de
código linguístico simplificado, mais
objetivo, direto e terreno, sem as
complexidades e do peso da alma humana.
Com isso, o eu-lírico procura demonstrar
que o sentimento amoroso pode ser
dominado pela razão a partir do momento
em que o amor for concebido como uma
experiência pura e estritamente carnal uma
vez que para ele os corpos se entendem
muito mais facilmente do que as almas,
porque segundo ele “os corpos se
entendem, mas as almas não”. Dessa forma,
o poema ilustra a negação do amor
espiritual em face do amor carnal, indo
assim contra a idealização do sentimento
amoroso.
13
Carlos Drummond de Andrade
14
Ao associá-lo ao erotismo, para o eu-lírico,
ao contrário dos versos de Bandeira, o
amor completo e verdadeiro é aquele que
funde alma e corpo, ou seja, amor espiritual
e amor carnal não podem ser vistos
separadamente, já que ambos estão
interligados, conforme proclama na
primeira estrofe:
15
Com base nessa linha de pensamento, na
qual amor carnal e amor espiritual devem
caminhar juntos, e sendo um complemento
do outro, o eu-lírico faz o seguinte
questionamento:
16
E daí que o arrebatamento carnal e o
espiritual juntos e misturados resultam
num grito, o qual vai expressar toda a
intensidade do ato, trazendo a sensação de
satisfação tanto do corpo quanto da alma.
Para esse eu-lírico então, o amor essencial e
completo é aquele que admite a fusão
carnal e espiritual entre dois seres, sendo
essa mistura a melhor representação do
amor verdadeiro, o que nos leva à
concepção de Platão sobre as almas
gêmeas. Assim, ao levantar a questão de
que a alma se expande “até desabrochar
em puro grito / de orgasmo, num instante
de infinito”, o eu-lírico apregoa que o ato
sexual não satisfaz somente o corpo, mas a
alma também, demonstrando que ambos
estão intimamente ligados, conforme
exprimem os versos:
17
O corpo noutro corpo entrelaçado,
fundido, dissolvido, volta à origem
dos seres, que Platão viu completados:
é um, perfeito em dois; são dois em um.
18
Todavia, devido a autossuficiência e a
arrogância sem limites que elas
desenvolveram, num certo momento
atreveram-se a agredir os deuses, o que
levou Zeus (que era o Deus supremo) a
puni-las, partindo-as ao meio, ou seja,
separando-as em duas metades,
diminuindo-lhes assim o poder e a
felicidade, obrigando-as dessa forma a
passar vida após vida procurando a metade
perdida.
Daí que, “remonta, pois, a essa época
distante, o inato sentimento de amor que
um ser humano alimenta por outro, e é
esse amor que nos faz reverter àquele
estado anterior, pelejando por fundir dois
seres num único ser e curar as feridas que
afligem a humanidade”, conforme observou
Platão.
19
Baseando-se nesse conceito, o eu-lírico
reforça a sua tese de que “o corpo noutro
corpo entrelaçado”, durante o ato sexual
une ao mesmo tempo “alma e desejo,
membro e vulva”, tornando-se assim um
único ser completo.
Com isso, o eu-lírico vai mais além quando
novamente nos propõe a seguinte reflexão
ao se referir a essa integração perfeita de
corpos e almas:
21
Pode-se afirmar, portanto, que “enquanto
estiver amando, você não deve existir;
apenas o amor, o ato de amar existem.
Esqueça-se tão completamente, que você
deixe de ser. Somente o amor existe. Torne-
se o amor e entre na vida que dura
incessantemente”, conforme denotam os
versos da estrofe.
Continuando a explanação desse ato sexual
sugerido nas estrofes do poema, o eu-lírico
descreve as sensações que tal experiência
produz, de acordo com os versos que
seguem:
22
E prossegue e se espraia de tal sorte
que, além de nós, além da própria vida,
como ativa abstração que se faz carne,
a idéia de gozar está gozando.
23
Quantas vezes morremos um no outro,
no úmido subterrâneo da vagina,
nessa morte mais suave do que o sono:
a pausa dos sentidos, satisfeita.
24
E ao final dessa experiência metafísica,
quando já satisfeitos os desejos do corpo e da
alma, nessa “morte mais suave do que o
sono”, na qual dá-se uma sensação de “pausa
dos sentidos”, quando os corpos estáticos
estendem-se na cama, perdendo
momentaneamente os reflexos ativos, “então
a paz se instaura” , isto é, a paz de que os
deuses desfrutam, já que trata-se de uma
experiência visando a elevação espiritual pela
busca de um plano superior, conseguida por
meio da relação carnal, ou seja, através do
“amor terrestre”.
Para Bandeira, portanto, o amor somente
pode traduzir-se no aspecto carnal, sendo
tematizado de uma forma mais racional. Já
para Drummond a definição do amor no
sentido completo e verdadeiro é aquela que
combina de maneira harmônica matéria e
espírito, procurando provar que a grandeza
do amor está justamente em combinar e
equilibrar razão e coração, corpo e alma.
25
Todavia, essa representação mais erótica do
amor carnal colocada no poema
drummoniano, leva-nos a um certo
estranhamento em relação ao conjunto da
obra do poeta, uma vez que poderá se
confundir com a pura e simples pornografia
a que estamos acostumados diariamente,
colocando em xeque conceitos e
preconceitos acerca do assunto.
Mas, como afirma o próprio poeta, “o amor
é palavra essencial”, uma vez que há
milhares de anos o ser humano vem
experimentando o sentimento amoroso
desvairadamente e de todas as formas. E
embora, tudo o que acontece na cama seja
segredo daqueles que amam, nunca houve
segredo mais exposto em todas as culturas
e em todas as épocas. Portanto, o bom
poema é aquele que traduz o segredo que
pertence a todos, embora nem todos
admitam.
26
Referências Bibliográficas:
27
Cantinho da Luxúria
Curiosidades da Literatura
erótica
28
O roteiro é mais ou menos o seguinte: uma
moça meio tímida se apaixona por um
bonitão bem de vida e, depois de um
percalço ou outro, os dois são felizes na
cama.
Embora essa estrutura de um romance hot
varie pouco, há diversos subgêneros:
histórias de “contrato”, de gravidez
indesejada, tramas esportivas ou em que o
protagonista masculino abandona seu
bebê, enredos protagonizadas por CEOs
viris ou mafiosos românticos, entre outros.
CEO
Máfia
30
Bebê rejeitado
Gravidez indesejada
31
Na maior parte dos casos, os protagonistas
são solteiros inveterados que nem
pensavam em filhos até que... Se interessou
por esse roteiro? Dê uma olhada na série “O
bebê do bad boy”, de Mari Cardoso.
Romance esportivo
32
Contrato
Enemies to lovers
34
Erotismo em Foco I
CLITÓRIS
35
Keth Braz, amazonense, poeta. Escreve
desde os 12 anos, mas há uns cinco anos,
decidiu retirar algumas das escritas da
gaveta e publicá-las. Tem participações em
antologias, coletâneas e revistas literárias. É
uma mulher que escreve o que lhe inquieta,
mas não lhe paralisa. A liberdade ganha asas
nos seus versos, poesias e rimas.
****
DESEJOS ARDENTES
Queria merecer,
Ver seu corpo de fada
Todo provido de curvas
Sinuosas de violão,
Que atacam meu coração.
Queria poder
Tocar seu rosto
Todo ajustado com a boca,
De lábios ajeitados
Para beijos de emoção.
36
Queria ter
Minhas mãos passando
Nas suas pernas e nádegas,
Gostosamente roliças,
Escondendo prazeres de paixão.
Queria remover
Os soutiens de seus seios
Redondos e bicudos
Nem pouco, nem muito graúdos
Com leite na imaginação.
Queria ser
Por você abraçado
Sem medos de pecado
Ou leve, ou pesado,
Mas com o divino perdão.
Queria envolver
Meus órgãos com os seus
E lhe encher de prazer
Para colhermos o amor
Na eterna profusão.
37
Queria chorar
No seu colo
E pedir para ser amado
Agora e para sempre
Sem nada de rejeição.
Queria merecer
Seu corpo e sua alma
Para o tempo restante da vida
E dizer-lhe, querida,
Que não seja por compaixão.
38
Em breve integrará a ALENRIO – Academia
de Letras do Noroeste do RS. Tem 75 anos
de idade.
****
DO (A) MAR QUE ME POSSUI
39
Rosangela Calza é escritora e poetisa, faz
parte de Academias nacionais e
internacionais; é vice-presidente da
Associação de Jornalistas e Escritoras do
Brasil, seccional Santa Catarina (AJEB/SC).
Publicou 80 livros solo e participou de 120
Antologias. Recebeu prêmios e menções
honrosas no Brasil e no exterior.
****
DOIS ZÍPERES
Há imersão no incauto
do calor do corpo do outro,
há minhocas na terra fértil
e açúcar no pensamento quente.
40
Escorre a língua pelos lábios
e a virgindade da coisa –
o que quer que ela seja
no leitoso corpo do homem –
desabrocha como o cravo
para nem mais se reconhecer.
Subverte-se a calça e
o aperto do sexo
é sentido até na fragrância
do perfume daquele pescoço –
ah, aquele pescoço!
41
Luciano Reis Martins, hoje com 34 anos,
reside há 5 anos no Estado de Minas Gerais,
atuando como servidor público efetivo na
cidade de Itabirito. Natural de Cachoeiras de
Macacu/RJ, escreve poesia desde os 19 anos.
Recentemente, começou a editar textos em
prosa. O autor tem alguns poemas
publicados em coletâneas literárias de
outras editoras. Recentemente, ficou em 3º
lugar no concurso literário promovido pela
Fundação de Cultura e Arte – PROARTE – do
Município de Carlos Barbosa/RS.
****
ENRIJECIDO
Vejo-te
Miras-me
Aproxima-te
Enrijeço-me
Aproxima-te
Abres a camisa
Seios à mostra
42
Enrijecidos
Aproxima-te.
Beijo-te
Acaricio-te
Enrijecido
Chupo-te
Lambo-te
Umedeço-te.
Enrijecido
Lambes-me
Chupa-me
Sentas
Introduzo-te
Geme-te
Gozo-te
Gozas-me
Jatos
Pulsados
Corpos suados
Abraçados
Acaricio-te.
43
Enrijecidos
Aproxima-te.
Recomeços
Toques
Úmidos
Enrijecido.
44
Coluna Quiz Erótique
( ) Delta de Vênus
( ) Cinquenta tons de cinza
( ) A vida sexual de Catherine M.
45
Havia muito o padre Gabriel, um dos santos
desse eremitério, cobiçava certa mulher de
Menerbe, cujo marido, um rematado corno,
chamava-se Rodin. A mulher dele era uma
moreninha, de vinte e oito anos, olhar leviano e
nádegas roliças, a qual parecia constituir em
todos os aspectos lauto banquete para um
monge. No que tange ao sr. Rodin, este era
homem bom, aumentando o seu patrimônio sem
dizer nada a ninguém: havia sido negociante de
panos, magistrado, e era, pois, o que se poderia
chamar um burguês honesto; contudo, não muito
seguro das virtudes de sua cara-metade, era ele
sagaz o bastante para saber que o verdadeiro
modo de se opor às enormes protuberâncias que
ornam a cabeça de um marido é dar mostras de
não desconfiar de os estar usando; estudara para
tornar-se padre, falava latim como Cícero, e
jogava bem amiúde o jogo de damas com o
padre Gabriel que, cortejador astuto e amável,
sabia que é preciso adular um pouco o marido de
cuja mulher se deseja possuir.
46
( ) A romana – Alberto Morávia
( ) Sexus – Henry Miller
( ) Contos eróticos – Marquês de Sade
( ) D.H. Lawrence
( ) Charles Dickens
( ) Virgínia Woolf
Teus seios
47
Teus seios... quando os sinto, quando os beijo
na ânsia febril de amante incontentado,
são polos recebendo o meu desejo,
nos momentos sublimes de pecado...
[...]
Túmidos... cheios... palpitantes, como
dois bagos do teu corpo de sereia
tem um rubro botão em cada pomo
como duas cerejas sobre a areia...
( ) Cruz e Souza
( ) Álvares de Azevedo
( ) J. G. de Araújo Jorge
( ) Alberto Caieiro
( ) Bocage
( ) Fernando Pessoa
48
UM PASSEIO PELA HISTÓRIA
DA LITERATURA ERÓTICA
FEMININA
Por Alessa B.
49
Após essa pequena semente lançada por
Safo de Lesbos, com o decorrer do tempo,
mesmo não desfrutando da mesma
liberdade dos homens para escrever em
algumas épocas, muitas outras mulheres
foram se enveredando pelo caminho da
Literatura Erótica, escrevendo não apenas
versos, mas também romances, dando assim
voz ao erotismo feminino, isto é, retirando o
monopólio masculino sobre esse tema visto
com olhos tortos e considerado ainda tabu
numa sociedade em que se privilegia o
discurso falocêntrico.
Durante o período da
Idade Média por
sofrerem perseguições
e ameaças de morte,
poucas mulheres se
dedicaram à arte da
escrita, principalmente
literatura erótica.
50
Somente a partir do
Renascimento até os nossos
dias é que inicialmente
mulheres como: Marie de
France, Eleanor de Aquitaine,
Marguerite de Navarre, Louise
Labé, Elisabeth I da Inglaterra e Cristina da
Suécia, que chegou a fundar academias
literárias durante a época de seu exílio na
Itália, todas de educação privilegiada e
pertencentes às altas cortes libertaram suas
penas e tinteiros e se dedicaram com mais
afinco a este tipo de literatura.
51
Já no início do século XX surgem outros
nomes, como: Florbela Espanca (na poesia
portuguesa), Natalie Clifford-Barney, Renée
Vivien, Lucie Delarue-Mardrus, Renée Dunan,
Sidonie Collette, se destacando esta última
pelas frases que caracterizavam seu estilo
literário, tais como: “Poucas pessoas sabem o
que é o prazer. Só conhecem a farra... Quem
nos criará um verdadeiro erotismo? Ele faz
falta à poesia e às letras”. (ALEXANDRIAN,
1993, p. 299)
Sidonie Collette
Florbela Espanca
52
Além destas, surgem também neste período
Anaïs Nin e Joyce Mansour, a primeira
considerada a melhor romancista erótica
moderna. De estilo surrealista e bastante
interessada pelos sonhos e prospecção do
inconsciente, seu erotismo é influenciado por
algumas experiências vivenciadas por ela e
marcado pela delicadeza e recusa da separação
entre amor e sexo, pois segundo a autora “a
literatura erótica escrita por homens não
satisfaz (ia) as mulheres”, devido ao fato de que
as “necessidades, fantasias e atitudes eróticas”
femininas são diferentes das dos homens.
Joyce Mansour
Anaïs Nin
53
Já em sua época Anaïs Nin profetizava que
haveria no futuro cada vez mais mulheres
que escreveriam tendo por base suas
próprias experiências e sentimentos, pois
para ela “o erotismo é uma das bases do
conhecimento de nós próprios, tão
indispensável como a poesia”.
Joyce Mansour se notabilizou por uma
poesia inicialmente marcada pelos temas
do sexo e da morte (Eros e Thanatos),
“misturados numa única obsessão uivante,
rosnante”, que “pareciam rugidos de
pantera negra, da qual ela própria tinha o
porte e o ímpeto selvagem”. (ALEXANDRIAN,
1993, p. 316) Logo a seguir seu estilo se
converteu em “uma imagética barroca,
macabra, exprimindo o auto-erotismo, o
sentimento de metamorfoses inquietantes
[...] exaltando a revolta feminina integral,
[...] produzidos por uma erupção de sua
sexualidade vulcânica”. (ALEXANDRIAN,
1993, p. 317-318)
54
Neste período outras tantas mulheres
continuavam pondo suas imaginações a
serviço da literatura erótica, tais como Nelly
Kaplan, que se destacou, introduzindo o
humor negro como um novo elemento no
erotismo, em narrativas onde se destacam
aventuras de vampiros e feiticeiras. Lise
Deharme, a mais velha de sua época a
praticar a literatura erótica, escreveu em
1969, aos setenta e dois anos, um romance
erótico, no qual se sobressai um erotismo
exaltado e gracioso ao mesmo tempo, mas
que, entretanto, acabou por render-lhe a
proibição.
55
Mas curiosamente sua obra conheceu a
evolução em seus últimos anos de vida, já
que começou a se aventurar por este tipo de
literatura numa idade em que segundo os
críticos uma mulher nada mais tem para
dizer, isto é, uma idade marcada pelo pouco
ou total desinteresse acerca dos assuntos
desta natureza.
Como se vê o principal centro de difusão da
literatura erótica feminina foi a Europa,
revelando mulheres inquietas e desejosas de
exprimir tanto em versos como em
narrativas o universo erótico feminino em
todas as suas nuances e matizes. Era preciso
mostrar aos homens os nem sempre bem
compreendidos caminhos da sexualidade
feminina condenada à repressão eterna por
uma cultura, na qual a postura imposta pela
sociedade foi a de submissão em relação ao
homem, isto é, um padrão comportamental
marcado pela passividade feminina não só
nas questões sexuais, mas em outros
aspectos também.
56
No Brasil a poesia erótica feminina
manifestou-se de forma mais clara somente
a partir do século XX, pois antes disso a
repressão a tudo o que se referia ao corpo,
incluindo sexo e virgindade por parte dos
portugueses que aqui chegaram,
desencadeou uma mentalidade bastante
preconceituosa, pode-se dizer assim, ao
relacionar sexualidade com pecado,
principalmente por parte da Igreja Católica e
do cristianismo. “O instinto sexual não
controlado pelas regras do casamento se
transformava em luxúria e paixão nas
páginas dos moralistas”. (PRIORE, 2005, p. 23)
Por isso, inicialmente apenas os homens
praticavam uma poesia erótica sem maiores
pudores, sendo Gregório de
Matos lá no século XVIII
considerado o primeiro representante
brasileiro a introduzir esta
temática em nossa poesia.
Entretanto, a voz erótica
feminina clamava por ser
57
ouvida e nos anos 60, com a revolução
feminista, que reivindicava basicamente
direitos iguais entre homens e mulheres
(direito ao voto, direitos trabalhistas e
salários iguais, entre outras questões
relativas à proteção da mulher) é que as
coisas começaram a mudar também na
Literatura.
A partir daí começam a surgir as primeiras
poetisas e escritoras a adotar o tema erótico
em suas obras, tais como: Márcia Denser,
Alice Ruiz, Betty Milan, Cassandra Rios,
Myriam Fraga, Olga Savary, Gilka Machado,
Hilda Hist, Adélia Prado, entre outras,
sobressaindo-se as duas últimas. Hilda Hist
por após décadas escrevendo literatura séria,
abdicar deste estilo para se entregar à
temática do erotismo, adotando temas-tabus
como: pedofilia, homossexualismo e
lesbianismo na tentativa de ser mais lida e
assim conquistar o reconhecimento do
público, segundo ela.
58
Hilda Hist
59
Adélia Prado
60
de baixo calão. Segundo Angélica Soares em
seu ensaio, Vozes femininas da liberação do
erotismo:
61
A pornografia pura e simples é
caracterizada pela representação explícita e
gráfica do ato ou atividade sexual com o
objetivo de provocar excitação e estimular
diretamente os instintos sexuais, focando
exclusivamente no corpo, nos prazeres do
sexo em nível carnal e na imagem concreta
com pouca ou nenhuma narrativa ou
contexto emocional. Além disso, ela tende a
ser mais direta, crua e tem como base a
primordial a gratificação sexual imediata.
Por outro lado, o erotismo é uma expressão
mais sutil, subjetiva e artística da
sexualidade, explorando a representação
estética do sexo. Ele envolve a criação de
uma atmosfera sensual, procurando
explorar a tensão sexual, estimular a
imaginação e o jogo da sedução a fim de
obter prazer pela impossibilidade de
concretização do ato.
62
Sua ênfase está na emoção e na conexão
entre os personagens, buscando uma
experiência mais ampla, envolvendo a
mente e sendo apenas sugerido de maneira
sofisticada e poética por meio de metáforas
mais ricas e refinadas.
Com isso, busca despertar fantasias e criar
uma conexão mais profunda entre o leitor
ou o espectador da obra. Assim, ele pode
ser encontrado, não só na literatura, mas
também na música, na pintura, na
escultura, etc.
No entanto, é importante destacar que a
linha entre pornografia e erotismo pode ser
subjetiva e pode variar entre diferentes
culturas, indivíduos e contextos. O que é
considerado erótico para uma pessoa pode
ser considerado pornográfico para outra. O
entendimento e a interpretação desses
conceitos podem ser influenciados por
fatores sociais, culturais e pessoais.
63
No âmbito literário, por exemplo, os
critérios para separar de fato a pornografia
do erotismo variam de acordo com a visão
dos críticos literários e do valor atribuído
por eles às obras, sendo, portanto, em certo
nível discutível essa diferença. Para o poeta
e crítico mexicano Octávio Paz, nas palavras
de Evelyn Fernandes, em seu ensaio Da
experiência da culpa à vivência do desejo:
64
Neste contexto foram surgindo poetisas e
romancistas como: Angélica Freitas, Marieli
Becker, Luana Muniz, Amara Moira, Ilana
Élea, Mari Sales, Cláudia Castro, Tatiana
Amaral, Agatha Santos, entre tantas outras
conhecidas e anônimas, que ao longo dos
últimos anos se dedicam a publicar seus
poemas e romances na Internet, seja em
sites e blogs de literatura e poesia ou
mesmo no Facebook, Instagram ou outras
redes sociais a fim de divulgarem suas
obras para o mundo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
65
FERNANDES, B. E. Da experiência da culpa à
vivência do desejo. Brasil. Disponível em:
https://revistas.ufrj.br/index.php/garrafa/art
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LIMAVERDE, R. O erotismo na literatura
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https://www.academiacearensedeletras.org.
br/revista/Colecao_Diversos/MulherLiteratu
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mo_na_Literatura_Feminina_REGINE_LIMAV
ERDE.pdf>
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NIN, A. O erotismo na mulher. Simone’s Site.
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<http://petkika.multiply.com/journal/item/1
19> Acesso em: 10/10/09.
PRIORE DEL, M. História do amor no Brasil. 2
ed. São Paulo: Contexto, 2006. (meio
eletrônico)
66
SOARES, A. Vozes femininas da liberação do
erotismo (momentos selecionados da
poesia brasileira. Brasil. Disponível em:
<http://www.fflch.usp.br/dlcv/posgraduacao
/ecl/pdf/via04/via04_10.pdf> Acesso em:
12/10/09.
Erotismo em Foco II
A CAÇADA
67
Para não perder o controle da situação,
montou um plano.
Entrada discreta. Portão eletrônico. Porta de
acesso de ferro marrom. Recepção com
uma iluminação baixa e amarela. Atrás do
balcão um daddy, já passado dos cinquenta
anos, alto, cabelos brancos. Cumprimentou
Renato e perguntou se era sua primeira vez
na casa, com um sorriso malicioso. Renato
fez que sim com a cabeça. Ao responder as
perguntas do check-in numa ficha de papel,
foi informado que fazendo dez massagens
ganhava uma entrada grátis. Recebeu um
par de chinelos de dedos, uma chave com
pulseira e foi apresentado ao massagista
que também era responsável por mostrar o
lugar aos novos frequentadores. Foi
conduzido até o vestiário e no seu armário
havia uma toalha branca e outra marrom,
mais três camisinhas.
68
Ao tirar a roupa para usar a toalha como
vestimenta, apareceu um rapaz negro de
cabelo cacheado, alto e magro, que se
olhassem mais de perto, pareceria seu
irmão mais novo. Ele se vestiu e foi embora,
não trocou olhares com o twink. O fato de
acontecer de forma tão fria e
despreocupada fez Renato ficar mais
tranquilo. Renato tem memórias ruins de
vestiários públicos.
Recebeu um tour com o massagista — um
urso branco de pelos negros um pouco
mais velho e mais baixo do que Renato, na
casa dos trinta. Ao passar pelo corredor
iluminado que levava a todos os recantos
do lugar, um homem cruzou com ele e
encostou o braço no de Renato. Ambos se
olharam e continuaram seus caminhos,
enquanto o massagista conduzia Renato
pela casa: a sala de TV (onde passava um
jogo de futebol), iluminada apenas pela tela
de quarenta e duas polegadas e abajures
69
nas mesas de canto; um segundo corredor
de iluminação avermelhada que continha as
cabines privadas; as duas saunas, seca e a
vapor; os chuveiros comunitários; o
fumódromo que era no pátio aberto nos
fundos, separado por mais uma porta de
metal; a sala de descanso com
espreguiçadeiras e o bar.
Completada a apresentação do ambiente,
Renato foi avisado de que sua massagem
agendada na recepção seria dali a trinta
minutos. Com olhos atentos e mente rápida
informou que aguardaria ser chamado na
sala de descanso onde ficam as
espreguiçadeiras. Queria um lugar
estratégico para observar como tudo
funcionava e talvez disfarçar um pouco a
tremedeira.
Escolheu a espreguiçadeira escorada na
parede que permitia observar a entrada do
corredor principal, os chuveiros, entradas
das saunas e do fumódromo. Perfeito.
70
A música ambiente era baixa e estava
sintonizada numa rádio de pop rock. A
temperatura era morna, provavelmente por
causa do calor que irradiava da sauna a
vapor. O ar era mais denso e a fumaça se
dissipava discreta para todos os lados.
Renato tirou a toalha, deitou na
espreguiçadeira e dobrou o joelho para
cima, tampando seu trunfo com a toalha e
evidenciando a perna até parte de sua
nádega direita como se fizesse parte de
uma obra renascentista. Observar com
imponência, imaginou. No ar corria mais do
que o cheiro do vapor e do sexo. Era
possível sentir o desejo de caça e quem
comia quem só era possível ver se os
envolvidos deixassem a porta aberta.
Observava o movimento do corredor
vermelho. Dois rapazes se cruzaram,
encostaram os braços e mudaram de
direção indo juntos rumo às cabines.
Renato olhava discretamente quem ia e
quem vinha. Quem olhava de volta e quem
71
simplesmente estava em busca de outro
corpo. O homem que havia encostado em
seu braço apareceu. Era careca, branco,
quarentão com menos de um e setenta de
altura:
— Bunda bonita – disse, puxando conversa.
Renato agradeceu o elogio. O homem
insistiu em estabelecer diálogo — O que
está fazendo aqui? - perguntou.
— Esperando a minha massagem –
respondeu Renato.
— Eu posso fazer uma de graça – replicou o
homem com um sorriso maroto.
— Valeu, mas o massagista já tá pra me
chamar – respondeu Renato. O homem
entrou na parte dos chuveiros e pendurou a
toalha em um dos ganchos enquanto
olhava fixamente para seu alvo, dizendo:
— Você quem sabe... – era impossível não
notar. O homem tinha um pau de mais de
vinte centímetros e estava meia bomba.
Essa provavelmente era sua arma secreta.
72
O seu azar é que Renato era ativo e apesar
de saber apreciar um belo monumento não
era isso que iria atraí-lo. Após molhar-se um
pouco percebeu que seu truque não tinha
funcionado. Se secou, enrolou a toalha na
cintura e ao sair mandou um até mais,
desaparecendo no corredor vermelho.
Pouco tempo depois o massagista apareceu
e Renato estava um pouco apreensivo,
porque não sabia se sua aventura
terminaria com final feliz. Interação meio
ambígua e, com certeza, tinha se
interessado pelo massagista. Ele tinha mãos
pesadas e não falava muito. Quando viu já
havia terminado, sem o final ou sinal de sua
oferta, acreditava que teria durado uns
trinta minutos, não sabia ao certo, era fácil
se perder no tempo naquele lugar.
Na saída Renato passou no bar, tomou um
cavalinho para ter coragem. Foi ao chuveiro
e tomou uma ducha. Passou pela sauna a
seco, mas achou pequena demais. Então
foi direto na sauna a vapor e se ficou uns
73
trinta segundos foi muito. Quem aguenta?
Pensou. Com certeza não sabia utilizar o
espaço.
Ao sair, outra ducha, viu que era assim que
se fazia. Deu uma olhada no corredor das
luzes vermelhas, a ação estava
acontecendo, algumas cabines de portas
abertas com plateia, outras não. Dentro
delas havia apenas uma cama de solteiro no
canto que mais parecia uma maca e um
gancho de parede. Não se sentiu convidado,
então seguiu até o bar, pegou mais um
cavalinho e foi até a sala de TV. Estava
passando um jogo de futebol e os dois
homens lá pareciam genuinamente
interessados na partida. Renato percebeu
um homem mais velho e esguio, encarando-
o com cara de que estava com muita fome.
Renato dispensou sutilmente o
pretendente, interrompendo o contato
visual, bebendo seu whisky e olhando
para a TV. O homem saiu não parecendo
74
satisfeito. Renato cansou de fingir estar
interessado no jogo de futebol e pegou o
caminho do corredor principal.
Sentou-se tranquilo na espreguiçadeira
mais uma vez. Agora confiante. Sabia que
era desejado. Era tudo o que queria, mas
nenhuma outra interação aconteceu
enquanto esteve ali curtindo a rádio pop
rock. O tempo passou rápido. Pelo vidro
fosco do fumódromo podia ver a luz do dia
ir embora.
Na sua última volta antes de ir para casa,
como na cena de um filme, um homem
passou por ele e colocou a mão em seu
antebraço. Ambos se viraram para conferir.
Era o cara com mais de um metro e noventa
de altura, urso de cabelos castanhos e
branco, por volta dos trinta. Se beijaram ali
mesmo e em seguida o urso perguntou:
— A fim de ir pras cabines? – lubrificando
os lábios sutilmente enquanto encarava
Renato de cima com os olhos entreabertos,
como se quisesse hipnotizá-lo.
75
— Vamo lá – respondeu Renato entregue ao
charme de seu caçador.
Entraram no corredor de luz avermelhada.
Pegaram a primeira cabine vazia. Fecharam
a porta, mas estava muito escuro. Não
sabiam onde ficava o interruptor. Depois de
se debaterem algum tempo conseguiram
acender a luz. Sorriram um para o outro.
Colocaram as toalhas no gancho da parede.
Renato empurrou o urso branco para a
cama, que caiu sentado, ficando mais baixo
do que sua presa. Renato o beijou com
força, pegando-o pelo pescoço. Com um de
seus braços puxou uma das pernas dele,
apoiando-a em seu ombro. Ele entendeu o
sinal e levantou a outra também.
Renato cuspiu no próprio pau e na mão.
Entrou rápido e com firmeza. O cara se
contraiu e disse para parar, segurando sua
coxa.
— Já parei, agora relaxa – diz Renato,
beijando sua perna. O urso descontraiu
os músculos e respirou. Renato recomeçou
76
devagar e foi cadenciando. O cara fechou os
olhos inclinando a cabeça para trás e
soltando uns gemidos, tentando se manter
másculo.
Depois de um tempo, Renato avisou que
estava quase gozando ao que o outro
concordou. Gozaram juntos. Após um longo
suspiro, o urso passou a mão pelo rosto
suado.
Saíram juntos da cabine. Foram para o
chuveiro e entre um charme e outro, Renato
indagou:
— É a sua primeira vez aqui? – Após ouvir
um sim, Renato confessou:
— A minha também.
— Deu pra notar – retrucou o outro de
imediato, mostrando um sorriso
debochado.
Terminando de se lavar e se secar, foram
para o vestiário se vestir, elogiando a roupa
um do outro, relaxados e sorridentes. Na
recepção, depois de pagas as contas,
Renato pediu o telefone do urso na casa
77
dos trinta e perguntou:
— Como eu te chamo?
— Henrique.
— Foi um prazer, Henrique.
Nunca mais se viram.
****
A DANÇA ENTRELAÇADA
78
trabalho. Acordei por uma ligação do meu
futuro chefe por volta das dez horas desta
manhã: “Onde você está? Já são dez horas!”
Assustado, olhei para o meu celular. Esqueci
de ligar o despertador. Gaguejei a primeira
desculpa esfarrapada. “Desculpe Seu Pedro,
me senti um pouco doente e esqueci a
hora... Então” ...
“Porque não ligou para o escritório
imediatamente? Você nem precisa mais
vir!”, o chefe gritou. Ouvi o clique seco da
desconexão.
Eu tomo um golpe do meu gim-tônica. O
drinque é quase impossível de engolir. Água
e limão demais. O gosto amargo suga meus
lábios para dentro da minha boca. Eu
balanço junto com a música lenta e sensual.
De repente, na escuridão, meus sentidos
são iluminados por uma deusa. Uma Vênus
de Milo com traços de uma japonesa. Uma
mistura incrível. Eu a quero.
Ela usa calças apertadas de pele de
cobra que honram suas pernas e quadris.
79
Ela se move lenta e sinuosamente para a
música. Seus cabelos pretos com mechas
laranja estão para cima. Dois longos cachos
em suas têmporas dançam ao som da
música. Seu corpo é esbelto e frágil.
Eu danço ao redor dela, me movendo aos
poucos mais para perto da beldade exótica.
A bebida me dá coragem para falar com ela:
“baila comigo. Como se baila na tribo”.
Ela me olha com um rosto inclinado e um
sorriso piedoso.
“As moças caem nesse seu bate-papo
furado?”, ironizam seus lábios voluptuosos
em formato de beijo.
Eu não desanimo. “Aliás, que calça linda
você está usando! É de pele de cobra de
verdade?”
Ela olha para mim com um sorriso
hipnotizante, enfatizado por seus dentes
branco-perolados.
“É uma verdadeira calça falsa de pele de
cobra”. Sua voz soa suave e doce, apesar da
música alta.
80
Ela continua dançando. Seus movimentos
ficam mais e mais provocantes. Eu chego
mais perto até que posso ver seus olhos
verde-acastanhados que me deixam entrar
na infinidade do desejo.
“Como seus olhos são diferentes! Estou me
afogando neles”, sussurro na sua orelha,
perfeita como uma concha.
“Minha mãe é japonesa e meu pai vem da
Hungria”, responde ela, lisonjeada e
orgulhosa da sua beleza majestosa. “Já notei
você há um bom tempo. Quando seus
amigos e amigas finalmente saíram, decidi
dançar perto, até você me notar. Você
demorou, né, mocinha! Sua gata morena!”
Nossa dança da sedução retorna com
nossos corpos mais e mais entrelaçados.
Dois corpos querendo entrar no céu.
Do nada, ela quebra nossa aliança de
desejo. Ela pega sua bolsa de uma mesinha
e olha no seu celular. “Meu Deus, já é tão
tarde! Tenho que acordar cedo”. Sem mais
nada, ela chama um carro de aplicativo.
81
“Não olhe assim, não quero ver você triste.
Vem comigo, princesa, estou com calor”.
“Vamos esperar o carro lá fora”, ela diz com
compaixão, quando nota meu olhar de
desespero.
Está chovendo e frio, mas isso não diminui
as chamas de amor no meu corpo. Aliso seu
rosto com minha mão. Os olhos se fecham
e nossos lábios se encontram num beijo.
Sinto seus fabulosos seios duros contra o
meu peito. Eu fico sem fôlego. Uma tontura
toma conta de mim. Minhas mãos querem
tocar em outros lugares do seu corpo.
Ela tira minha mão. “Não, ainda não, fofura!
Você bebeu demais. Me liga amanhã”.
Eu entro em pânico. “Esqueci meu celular.
Está carregando em casa. Posso digitar meu
número no seu celular?”
“Não, amor, é seu jogo. Mostra que quer
sofrer por mim”.
Sem pensar, peço papel e caneta
emprestados ao segurança. Ele olha para
mim com inveja.
82
Lentamente, ela escreve seu número no
papel.
O motorista do aplicativo chegou. Ela olha
para mim com carinho. “Não se esqueça de
ligar para mim, amanhã!”
Estou flutuando alto nas nuvens. A chuva se
mistura com minhas lágrimas de felicidade.
De repente, uma rajada de vento sopra o
papel com o número de telefone da minha
mão na rua molhada. Em choque, eu tiro o
papelzinho valedouro de uma poça de água
de chuva. Somente o último número, um
nove, meu número da sorte, ficou legível.
83
Coluna Páginas Proibidas
Cretino Irresistível | Christina Lauren
84
Cretino Irresistível é o primeiro livro de
uma série de romances ultra eróticos das
escritoras Christina Hobbs e Lauren Billings.
Christina Lauren é um pseudônimo das
amigas escritoras, donas de mais de 10
best-sellers dessas listas famosas, como
New York Times.
Uma parceria de sucesso que já vendeu
milhões de exemplares no mundo todo e
traduzidos para mais de 30 idiomas.
Cretino Irresistível conta a história de amor
do empresário, cretino e arrogante, Bennett
Ryan e da sua assistente Chloe Mills. Aquele
típico clichê do casal que se odeia, troca
farpas, mas aquela famigerada “tensão
sexual palpável” (adoro esse termo), acaba
unindo os dois, em um romance ardente,
com deliciosas cenas de sexo para ninguém
botar defeito.
Chloe é uma queridinha da família Ryan,
trabalhando na empresa como assistente,
enquanto conclui seus estudos de pós-
graduação em marketing.
85
É uma funcionária de confiança, das mais
competentes da empresa. Por isso é
designada para ser o braço direito do filho
caçula da família, que retorna da França
para assumir os negócios da família.
Acontece que a antipatia entre eles é
imediata, principalmente porque a forma
como Bennett encontra para lidar com a
sua paixão/tesão reprimida pela
estonteante Chloe é justamente a tratando
mal, com ignorância, egocentrismo, numa
tentativa falha, diga-se de passagem,
porque Chloe é diferenciada.
“Eu a queria. Eu queria mais do que
qualquer outra mulher. O grande
problema era que eu também a odiava. E
ela me odiava de volta. Quer dizer, ela
realmente me odiava. Em todos os meus
31 anos, nunca conhecera alguém que
me irritasse tanto quanto a Srta. Mills.”
(pág.22).
“Eu não queria ser o tipo de mulher que
sacrifica suas ambições por causa de um
homem”. (pág.152)
86
O destaque da trama é a Chloe, primeiro
porque ela é uma mulher que assume os
seus desejos sexuais e não tem medo de
dar e receber prazer. Em nenhum momento
ela se curva ao todo poderoso CEO da
empresa, responde a altura as tiradas e o
sarcasmo do chefe gostosão, e no momento
crucial da trama, mostra que todo o seu
empoderamento e atitude, não era apenas
para embelezar a história.
Uma protagonista à altura da arrogância do
seu chefe. Se o Bennett é um Cretino
Irresistível, obviamente a Chloe não fica
atrás, tanto que o segundo livro da série é
justamente a Cretina Irresistível.
87
Um diferencial da escrita dessas autoras é
dosar as cenas de sexo. Elas são essenciais
para entreter, mas nada desconfortáveis
ou exageradas. Mesclando o romance com
problemas e dilemas reais, trazendo uma
história picante, divertida, mas ao mesmo
tempo reflexiva, sobretudo acerca da
situação da mulher em relações
puramente eróticas.
Escrito pelo ponto de vista da Chloe e do
Bennett, com uma cronologia que mescla
lembranças do passado e o tempo
presente, Cretino Irresistível, mostra a
construção da relação de amor e
sobretudo confiança entre o casal. Por
conta dessa cronologia, a primeira cena de
sexo, inclusive, me pareceu mais um
assédio sexual, não fosse por uma atitude
da Chloe, que já nas primeiras páginas dá
uma pitada de como acompanhar essa
história de gato e rato será divertida.
88
“Que diabos ele estava fazendo? Meu
cérebro gritou para eu tirar aquela mão
dali e dizer para ele nunca mais me
tocar de novo. Mas meu corpo tinha
outras ideias.” (pág. 14)
Conquistar a Chloe não será nada fácil,
talvez o maior desafio da vida do todo
poderoso Cretino.
89
Referências Bibliográficas:
https://www.goodreads.com/book/show/3
1705068-cretino-irres-stivel
https://www.literalmenteuai.com.br/resen
ha-cretino-irresistivel-christina-lauren/
90
Faz-me levitar com teu ardente corpo
escultural,
Molda-me a entender este descomunal
alvoroço,
Atiça-me com teu sorriso carente, cheio de
malícia,
Encontra-me na essência de amar-te até o
raiar do dia.
91
Entrelaçar os nossos corpos suados, cheios
de adrenalina.
Como vulcão intenso em erupção, vais em
ti, me ter.
92
Sua trajetória literária é recheada de belas
produções. Entre elas são: 20 livros escritos,
919 poemas, 3 cordéis, 9 livros publicados e
23 aprovações em Antologias. Além disso,
faz parte da Academia dos Intelectuais e
Escritores do Brasil (AIEB), ocupando a
cadeira n° 32 (Eduardo Campos) desde
novembro de 2023, da Federação Brasileira
dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes
(FEBACLA), ocupando a cadeira 310 (Afrânio
Peixoto), desde dezembro do mesmo ano e
da Academia Hispano-Brasileña de Ciências,
Letras y Artes (AHBLA) ocupando a cadeira
205 (Célio Lima) desde janeiro de 2024.
93
ESTRELAS DO MAR
Houve um princípio
Tem gosto de sal a sua pele.
Besouro Mulher, Pele
94
O toque das águas se deixa ouvir.
Sobre a areia,
A espuma sussurra seu caminho
E deixa leves marcas
Que somem em seguida e pedem mais
E o mar volta a cobri-las e deixá-las
Num ritmo constante.
O oceano todo marulha.
Cada vez mais
As ondas tímidas avolumam-se
E quebram num ruído
E o mar ruge.
Num ritmo constante
Avança sobre as costas
Cada vez mais
Correndo a areia
Até um intenso beijo nas rochas,
Choque para as delicadas rochas...
Meu olhar percorre o distante,
Sobe e some no horizonte,
As ondas cobrem-me os pés
E eu vejo as estrelas
Do mar e mais nada!
A maré recua na doce tarde...
95
Murilo Alves Luzia, araraquarense, na Lira
dos Vinte (e um) Anos não sabe se sempre
gostou ou se interessou por arte, mas acha
que ela sempre esteve com ele. Começou a
engatinhar pela poesia compondo músicas,
influenciado por Nirvana e Belchior. Em
pouco tempo suas letras se tornaram "só"
poemas. Se apaixonou mesmo pela poesia
quando começou a ler Carlos Drummond de
Andrade nas atividades das provas da
escola. Está sempre experimentando com
seus poemas e trabalhando para evoluir
como poeta, e hoje define suas produções
como criativas e versáteis; desde poemas
sem pé nem cabeça a haicais, poemas
concretos e narrativos, sonetos e outras
maluquices.
96
EXPEDIÇÃO
98
FICA
Fica!
Fica só um pouco mais.
Eternamente
Me deixa cravar unhas e dentes,
Captar tudo de mais ardente
Que alucina a minha mente.
Fica!
Até que em mim sejas por inteiro.
Te demores mais no meu travesseiro,
Me deixa explorar teu corpo inteiro
E assim guardar por entre meus dedos
O que em ti me compraz.
Me deixa marcar em ti, minhas digitais,
Mata em mim essa fome
Que por agora consome
Todo o meu discernimento.
Fica!
Preciso acolher, sorver de tua pele
O suor derramado no embate,
No conflito de corpos em atrito.
Teu cheiro em nada contrito...
99
Fica!
Me olha de perto,
Dilata a pupila, pura ocitocina.
Quero tua imagem marcada,
Grifada em minha retina
De forma perene,
Em nada solene.
Fica!
E não te demores nesse decidir,
Estou te ofertando guarida
Em tudo assumida
De um amor que deflora,
Transforma,
Transborda num querer sem fim.
Fica!
Por toda parte...
Em cada parte, sê mim.
100
Adriana Penha é enfermeira por
formação, tem 52 anos de confronto com
as realidades. Mãe da Amanda e da
Gabriela. Natural do Rio Grande do Norte,
é comedora de camarão. Amante da arte
em toda sua expressão. Se aventura na
escrita poética sem métrica. Para ela,
escrever é ir ao encontro dos seus mais
íntimos e intensos sentimentos manifestos
através da poesia, uma de suas maiores
paixões. Registra sua arte em
@ensaios_poeticos e @adricapenha.
101
FLORESTA VIVA
****
IMAGENS EM REPOUSO
103
essa imagem nos traz o retrospecto
de desejos no peito adormecidos.
104
ÍNTIMOS VERSOS
105
Sê por ela dominado, sê dela fiel escravo:
Ela, a dominadora; tu, o habilidoso macho.
106
Lambe-a, lambe-a, pois, ledo leporino,
Baba bem sua bainha, fá-la tremer com o
badalo de teu sino.
107
LUXÚRIA
Confesso...
eu te desejo como quem
vem do deserto,
com sede e fome do teu corpo
assim... aberto,
na areia exposto, oferecido
só para mim.
Eu quero...
te amar com a fúria irrefreável
dos incestos;
soprar palavras obscenas
a cada gesto;
beijar a rosa que transborda
entre os cetins.
Em secreto...
tua boca inflama os meus sonhos
mais perversos;
meu corpo inteiro
segue o cheiro do teu sexo,
108
numa volúpia
que parece não ter fim.
110
MOMENTO OPORTUNO
111
Com firmeza e intensidade
Aproveitamos o fato de sermos fãs da
[profundidade.
Apreciamos o bem-estar, resultado do
[contato
Que com magnética força nos une e nos
[repele
Fazendo transpirar
Cada um dos poros da pele.
112
Não apenas em dias de folga
Ou aniversário de um de nós,
É necessário apenas
Que estejamos sós.
*****
MULHER-MANGA
Mulher és um fruto da terra
[...]
Aquele que saboreia a uva ou a amora
Mais que mangas e ameixas adora.
[Mourão]
113
que te olha de cima da mesa.
Deixa-a só no caroço
e palita teus dentes depois...
114
É idealizadora da Catarsis Revista Literária,
das Antologias: Catarsis; Poemas para Meu
Amor e deste Dossiê Eros, além de outros
projetos em andamento pela Editora &
Produtora Fênixart, da qual é uma das
sócias.
Instagram: @alebertazzo
Recanto das Letras:
recantodasletras.com.br/autores/alebertazzo
Blogger: literanaveia.blogspot.com
SEÇÃO HOT
O SEXO NO CINEMA
115
Opiniões sobre o assunto estarão sempre
em pauta. Inclusive no cinema. E se no
caso, as cenas são muito mais excitantes
por incitarem o imaginário, os filmes têm
um papel importantíssimo na concepção de
cada um diante do assunto. Sem entrar no
mercado pornográfico, grandes diretores já
retrataram o assunto das maneiras mais
diversas possíveis, como tema central de
suas obras ou não.
116
Sim, existem cenas explícitas que chegam a
incomodar. Mas o próprio constrangimento
de não poder – jamais! – ver ao lado dos
pais, gera uma reflexão. E essa intenção do
diretor torna a obra tão intrigante.
117
Explorando o lado mais psicológico, Darren
Aronofsky, por sua vez, ousa em Cisne Negro
(2010), quando retrata a libertação do lado
mais instintivo de Nina (Natalie Portman)
por meio da fantasia dela com Lily (Mila
Kunis).
118
Sem esquecer de Lars Von Trier, Papa do
desconforto visual, o dinamarquês carrega
no currículo incontáveis cenas, vezes
picantes, vezes traumáticas. Na sua última
obra, Ninfomaníaca (2013-2014), dividida
em duas partes, o sexo está por toda parte.
Desde as metáforas nas falas de Joe
(Charlotte Gainsbourg), até o próprio
enredo, que gira em torno das experiências
da personagem principal. Sem contar os
cartazes maravilhosos para promover o
filme.
119
O intrigante Jovem e Bela (2013) de François
Ozon traz a história de uma adolescente
descobrindo a sua sexualidade e acaba
virando prostituta por opção. Os conflitos
internos da protagonista Isabelle (Marine
Vacth) são tratados de maneira
despretensiosa (à francesa), apesar da
carga emocional do desenrolar da trama
ser forte. As cenas de sexo dependem dos
clientes, mas não é algo explícito como os
filmes de Gaspar Noé.
120
Erotismo em Foco IV
A NOITE NO TEMPO
122
Olho meu reflexo manchado pela escuridão
da janela e vejo que meus olhos estão
plácidos, deveriam estar negros, borrados
pelo lápis preto, mas não houve lágrimas
que pudessem macular a beleza plástica e
artificial da qual me inundo, pois já não
existem lágrimas para escorrer junto aos
pedaços.
Eram 2:27 da manhã quando peguei a
chave do quarto. Olhava para os móveis
enquanto seus olhos permaneciam
fechados em beijos gelados que
desintegravam o invólucro de meus
desejos. Apenas uma cama
cuidadosamente arrumada no centro, a
parede de vidro embaçado que separava o
pequeno chuveiro dos móveis comuns.
Uma televisão cega... uma banheira seca... e
mãos que continuavam a respingar em
minha pele adormecida.
123
E às 2:43 da manhã quando Gary Moore
começou a tocar no rádio junto à cabeceira
da cama, suas mentiras impregnadas da
constante verdade que bate nos segredos.
E seu peito abafava os sussurros de meus
seios enquanto seus lábios evocavam
minha boca insolente; minhas unhas
vermelhas arranhavam sua pele
enaltecendo o crescente desejo em que só
poderia haver pele... pele... pele... e algum
vestígio de sentimento esquecido.
Enquanto minha cabeça embalada pelo
vinho doce era embevecida pelo blues, seu
falo pulsava à beira de minhas pernas,
conduzindo meus quadris para o centro da
cama... apertando-me em seus braços...
segurando minhas pernas... umedecendo-
me com sua língua... meus lábios sugando
sua pele e no espelho lados invertidos.
124
Os ponteiros soavam 2:58 da manhã e
minha pele suava ao devorá-lo por entre
minhas pernas, prendendo-o em meu sexo,
suas mãos em minha cintura, minhas mãos
afagando seus gemidos flamejantes; meus
braços acariciando seu pescoço enquanto
sentia-o afogando-se em mim e meus
espasmos afogando-o em si. No mesmo
instante em que olhei para o espelho
cobrindo a parede ao lado. Com a cabeça
para trás, os lábios entreabertos exalando
prazer, ele segurava as ondas furiosas de
meus cabelos que caiam até minha cintura.
Foi quando se levantou sem se desligar de
mim, pressionando-me contra a parede de
espectros, nossos reflexos se confundiam
com a sombra de um passado que nunca
existiu.
Eram 3:18 da manhã quando quebrei o
espelho e cortei minha mão ao segurar
firme o estilhaço sob a garganta dele. O
sangue derramando suas memórias em
minhas lembranças que fugiam com um
pedaço de meu coração fechado.
125
A madrugada atingia 3:21 e eu vestia
minhas roupas no calor vernal, apesar do
inverno lá fora, que me obrigou a
permanecer apenas de lingerie.
Sentei-me no beiral da janela do quarto às
3:31 da manhã e começava a sentir o cheiro
imundo de outras vidas perdidas naquele
lugar. Retoquei o batom vermelho que
nunca usava, apenas por que gostava da
cor que se confundia com o sangue em
minha pele branca. Acendi o cigarro há
tanto tempo apagado entre meus lábios,
deixando as cinzas quentes caírem em
minhas coxas nuas. Por alguns segundos
olhei para a solidão da madrugada pétrea
que se estendia além do vazio atrás da
janela, no abandono da rodovia, antes de
bebericar o whisky sem gelo.
Eram 3:42 da manhã quando comecei a
observá-lo de perto, neste quarto onde
restam apenas suas reminiscências.
Eram 3:56 da manhã quando me sentei na
imitação de escrivaninha e comecei a
escrever.
126
São 4:47 da manhã.
127
A PRIMEIRA VEZ DE LOUISE
128
Três anos e meio antes, num dia qualquer
de janeiro, depois de ter instalado o app
Facebook namoro surgiu um cara. Ele, com
um corpo relativamente esguio, com fotos
de viagens ao exterior, mergulhando num
mar azul em lugares exóticos, com roupas
de frio em monumentos de Berlim e um
sorriso sincero, ainda que tímido, óculos
redondos, cabelos enroladinhos e pele
bronzeada. Ele se chama Ângelo.
Estão separados por mais de 600 km, ela
em Juiz de Fora, em Minas Gerais, ele em
Franca, no interior de São Paulo. Os dias
vão passando e as conversas persistindo
sempre novas, sempre leves, sempre
cativantes. A cada dia que passa Ângelo
desvenda e adentra mais o mundo de
Louise e vice-versa.
129
Os meses vão passando, a vontade de se
ver aumenta, até que um dia, sem mais
nem menos a conversa chega naquele
assunto, ela morria de vontade de vê-lo e
tê-lo para si, no meio de suas pernas,
abraçado fortemente ao seu corpo,
sentindo a respiração, sentindo a
penetração, sentindo a primeira vez. Depois
de algumas voltas, ela pede um nude dele,
aparece uma bela foto e ela responde: “Bela
ereção!” Pronto, sabia que ele era o homem
de sua vida, o amava, o desejava, o
admirava.
Infelizmente o universo não conspira a
priori, passam-se os anos e nunca se veem.
São namorados, mas nunca consumaram,
eles são só imagens dentro de um celular.
No entanto, depois de idas e vindas, brigas,
separações e reencontros, finalmente
conseguem. Louise, tem uma avó que mora
em Santo André. Ela é compreensiva e quer
unir o casal. Em uma viagem eles marcam
de se ver lá, tranquilos, longe das garras
das obrigações e dos pais.
130
Ele se hospeda no Go Inn, é uma noite de
sábado, ele manda mensagem para ela:
“Estou no 418, te aguardo, ansiosamente,
dedicadamente, loucamente...”. Ela se
arruma toda, faz uma escova nos cabelos
que ficam ondulados, brilhantes e
dourados, passa batom rosa leve, coloca
uma boina de tricô com um lacinho, um
conjunto de blusa preta com detalhes nas
bordas de branco e botões dourados, saia
preta, com meia calça preta por baixo, um
colar e brincos de pérolas, estilo “Old
Money”. Ele está com seu traje habitual,
uma jaqueta de piloto, uma camisa preta,
uma calça ocre, botas de couro, prático.
Ela entra no hotel, o concierge a direciona
ao elevador e ela segue. A campainha do
quarto toca, ela está com o coração
pulsando, afinal é a primeira vez ao vivo:
“Será que ele vai gostar de mim?”, pensa
ela.
“Será que ela vai gostar de mim?”, pensa
ele.
131
A porta se abre, os olhos castanhos dele se
encontram com os olhos azuis dela, eles
brilham, não dizem nada, sorriem e se
abraçam muito forte.
Ele olha para ela mais uma vez e diz:
─ Valeu a pena cada segundo de espera!
Ela responde:
─ Meu anjo... (e começa a chorar de
emoção)
Ambos entram juntos no quarto, abraçados
e ele com todo cuidado do mundo senta-se
com ela no sofá e começam a conversar e
cuidar um do outro, não há muito o que
dizer, mas muito a sentir. Os braços de
Ângelo envolvem a cintura de Louise, ela
sente um calor muito grande, ela já está
lubrificada. Com uma das mãos ele pega no
queixo dela e leva seu rosto ao dele e se
beijam, beijo de cinema, de perder o fôlego,
as línguas se entrelaçam, a respiração fica
intensa, sôfrega.
Louise faz menção de se despir, mas Ângelo
a interrompe:
132
─ Um momento, meu bem, estou suado,
você me espera tomar uma ducha
rapidinho, cinco minutos?
Ela concorda um pouco chateada, mas era
o tempo de colocar as ideias em ordem e se
reorganizar. Ele dispara para o chuveiro, se
lava com sabonete e água bem quente, o
vapor inunda o banheiro, sai um perfume
que invade os pulmões de Louise. Cada vez
mais ansiosa e entregue ao momento, ela
vê o que a aguarda. A porta do banheiro se
abre e Ângelo aparece cobrindo somente o
sexo com uma toalha, o peito nu com pelos
pretos e densos, uma cintura fina, braços
fortes, barriga tanquinho, pernas
musculosas e um volume escapando pela
toalha. Ela vê nele uma fera selvagem
pronta para devorá-la, invadi-la e tomar
posse dela. Se entrega como nunca, pois
não havia medo, só vontade, só prazer, só
realização.
Ela é agarrada violentamente por Ângelo,
que a carrega para a cama.
133
Ele a despe com cuidado, primeiro as
botinhas, depois a acaricia por dentro das
suas coxas, a barriga, os seios, a boca. Tira
a blusa branca dela, que por baixo revela
seios volumosos contidos por um sutiã de
renda:
─ Perfeição!
─ Você acha, meu bem?
─ Eu tenho certeza!
Começa a beijar um seio, enquanto acaricia
o outro com a mão. Ela tira a toalha de
Ângelo e instintivamente começa a
massagear seu pênis, duro e pulsante,
pensando consigo: “hoje que me acabo
toda”.
As mãos de Ângelo percorrem seu corpo e
em cada passada de mão, uma peça de
roupa se vai, até que ambos estão nus. Ele
a coloca com carinho deitada sobre a cama
e beija seu corpo até chegar em seu sexo.
Com beijinhos e caricias a faz implorar por
um oral.
─ É o que você mais deseja, não é?
134
─ É só o começo de tudo o que desejo
contigo!
A língua começa a passear pelos lábios,
pelo clítoris, e um, depois dois dedos a
penetram lentamente, profundamente,
cuidadosamente. Louise fica cada vez mais
lubrificada e começa a gemer
profundamente. Se torna mulher naquele
momento com um orgasmo intenso
percorrendo seu corpo como um
maremoto. Ângelo percebe e pergunta:
─ Quer descansar, meu bem?
─ Não, meu anjo, quero você dentro de
mim!
─ Implore que será concedido!
─ Eu imploro! Me faz mulher mais uma vez,
me faz sua! Só sua e de mais ninguém!
Ângelo sabia que era a mulher da vida dele
e um pensamento passa rapidamente em
sua cabeça: “tomara que seja assim todos
os dias, melhor morrer de amor do que na
mesmice”.
135
Ele coloca a camisinha e cuidadosamente
massageia a entrada de Louise com a
glande, ela estremece toda em gemidos e
pede desesperadamente pela penetração.
“Seu desejo é uma ordem” e, assim o faz.
Lentamente a glande entra, desaparece,
entrando cada vez mais fundo até a base e
mais um pouco. Ela o engole e o aperta
como nunca, pois é virgem de corpo, mas o
coração deseja todo o sexo do mundo. As
estocadas começam lentas e devagar, cada
uma seguida de um gemido intenso de
ambos, a velocidade aumenta, a lubrificação
encharca a cama, as veias estão saltadas e
ambos suam bastante. Tremem, gemem,
riem, se entregam.
Um terremoto de prazer os engloba,
começando pelo sexo de ambos e percorre
seus corpos como um raio, os músculos
relaxam e o sêmen dele invade Louise. Sua
lubrificação lambuza Ângelo. Os dois caem
um sobre o outro na cama tremendo e com
os sorrisos mais amplos do mundo. Louise,
não satisfeita, pula por cima de Ângelo e diz:
136
─ Opa! Opa! Cavalinho, quero que agora,
coma meu cuzinho!
Ângelo sorri o sorriso dos safados e diz a si
mesmo: “entrei solteiro, vou sair casado
dessa, mas que esposa!” Ele a pega, vão ao
sofá e Louise por cima dele, começa a
introduzir o membro de Ângelo no seu ânus.
Ângelo a impede e pega uma bisnaga de
lubrificante, passa em si, e no buraquinho
rosa e quente de Louise com todo cuidado
característico dele. Ela monta novamente
nele e começa a liderar o movimento.
Lentamente se acostumando com a dor e o
prazer, rebola e requebra, enquanto uma
mão acaricia seu grelo intumescido. Ângelo
a segura pela cintura e acaricia seus seios.
Ele a coloca de quatro e ajoelhada do lado
da cama, dizendo:
─ Agora de joelhos você vai rezar e pagar
todos os seus pecados de luxúria!
─ Meu anjo, mostra o caminho do céu para
mim!
─ Vamos juntos ao paraíso!
137
Ângelo cuidadosamente lubrifica mais um
pouco seu pênis e com dois dedos o ânus de
Louise, ele a abraça por trás e a segura pela
cintura, os quadris de ambos se juntam e ele
a penetra lentamente. Cada entrada é
seguida de um gemido e o sexo dela pinga
de prazer, sentindo o batimento do coração
dele através de seu pênis como batidas de
tambores que estremecem o chão. O pênis
de Ângelo escorrega, ela aproveita a deixa e
o reintroduz na vagina e nessa mesma
posição eles reiniciam a dança, ela sente
Ângelo pulsando e a avalanche de sêmen
que se aproxima, a antecipação é enorme.
Ela contrai e relaxa a musculatura interna, a
massagem em ambos é divina, o ápice se
reaproxima e quando chega ela contrai tão
forte que acaba por expulsar o pênis de
Ângelo, que no mesmo momento ejacula e
cobre a vulva e as coxas dela de esperma.
Ele se deita por cima de Louise e sussurra
em seu ouvido enquanto cheira o cabelo e a
nuca dela:
138
─ Vamos de novo?
─ Sim!
Numa situação em que maioria dos casais já
teria encerrado suas atividades de prazer e
deitado para dormir, eles continuavam a se
amar loucamente. O tempo perdia o sentido
entre cada movimento e o que pareciam
segundos eram minutos, horas...
A empolgação e a cavalgada se
perpetuavam e eles gozavam de novo e de
novo, repetindo posições, de lado, por cima,
de pé, ajoelhados do lado da cama com ele
por trás, etc...
Por fim deitaram-se suados e abraçados na
cama, ele por cima dela acariciando seus
cabelos, pergunta:
─ Quer namorar comigo?
─ Sim!
─ Quer casar comigo?
─ Quero!
─ Quer viver a vida inteira do meu lado?
─ Quero muito!!!
139
Ficaram a noite toda juntos. No outro dia se
separaram com um último beijo e lágrimas
nos olhos, mas com a promessa do retorno.
Sabiam que nessa vida, eram predestinados
um ao outro, se separaram por um tempo,
mas se encontraram de novo. Onde e como,
ainda não foi escrito.
Isso que foi escrito até aqui, estava em
folhas perfumadas com perfume de rosas
num envelope dourado, na escrivaninha, do
lado do sofá. Ângelo sabe que Louise é uma
leitora ávida. Ele escreveu tudo isso dias
antes e enquanto toma banho, ela está
lendo estas palavras. A porta do banheiro se
abre, ela deixa de lado o texto já finalizado e
se entrega. Ângelo se aproxima como um
predador vendo a presa, os deuses sorriem,
o texto desta profecia há de ser cumprido e
o céu está em festa.
140
Rafael Arcanjo é uma persona que vive
dentro de um pacato escriturário e aprendiz
de bibliotecário, perdido em uma biblioteca
esquecida pelos alunos, em uma pequena
universidade no interior. Rafael é a
lembrança dos tempos gloriosos, das
expedições a ilhas distantes, das aventuras
no sertão, dos amores e beijos molhados
dados no escuro do cinema e os amores
tórridos ruelas das cidades charmosas da
Alemanha. Rafael é a verdadeira persona
que aguarda ser libertado, hoje ele sai por
palavras, amanhã ele sairá do seu trabalho
para rever o mundo.
****
A ARTE DE AMAR
141
Dali surgem figuras bizarras, oníricas: Miró,
Chirico e Gala,
Que a, Persistência da Memória e o Sono
deixaram-me confuso,
Mas juro que vi Dali
O Grande Masturbador e o Relógio Fundido.
No momento mágico, indefinido.
Aparece no meu caminho o Cubismo e seu
realismo
Olho para o céu, nos últimos goles de uma
taça de vinho
E pego meu pincel.
Esfera, cilindro e cone, vindos não sei de
onde
O minimalismo de uma mulher
Podem ser sombra e luz: gelo e fogo.
Impressionismo meu?
A figura não tem contorno nítido.
A imagem não tem visual definido.
Expressionismo meu?
Quero polinizar tua flor, quero ser teu beija-
flor.
As cores fortes do Foguismo
142
─ O que estás admirando
É mesmo uma flor muito especial, ela
sensual nenúfar.
─ O desejo que se vê em mim é amoral.
É o fruto da criação; Abapuru.
Quero a Cavalgada das Valquírias
Quero me integrar aos seus mexidos. Quero
a Dança em Bougival
Quero ser o Munch do seu grito. Quero a
Noite Estrelada.
Eu Manet me declaro. Ela aceita e me dá o
Beijo de Klimt
E mostramos toda nossa arte, como em um
nu de Cezzane
Com o sentimento de Modigliani
─ Ela: quero seu Caravaggio, seu Picasso.
─ A musa do meu tesão, o gosto com que
pecava
O gosto com que pegava, o meu pincel
Fez do rosto uma tela e como numa
aquarela
Pintou o meu prazer; o Conde Orgaz.
Khalo, beijo seu Boccaccio e digo Olympia!
143
Eu quero ser seu Carregador de Flores
Eu quero Botticelli, minha musa.
Eu quero O baile do Moulin de la Galette
Quero que sejas minha Moça com o Brinco de
Pérola
Quero Botero, minha diva. Quero dar-te o
Anel dos Nibelungus
Quero Da Vinci, natureza morta.
Quero o renascimento todo dia,
Para ter a alegria, de poder pintar de novo.
144
AQUECER
Me toma,
Vai!
145
Kryssia Ettel é uma mangaratibense um
tanto cientista social, um outro tanto
professora de idiomas. Uma terceira
margem sua aprecia dar seus pulos em
escritos variados nas horas vagas.
Apaixonada por leituras diversas, em
especial poesia e realismo fantástico, é um
ser humano com forte crença de que
apenas a interpretação de texto salva.
****
BEIJO AMARGO DE CAFÉ
146
De fato, quanto mais próximo estivesse de
suas propriedades, mais lucrava, e sendo
um dos maiores produtores de café do
Brasil, poucos podiam competir com a
qualidade e a quantidade dos produtos de
Luciano Valim. Aqueles que o faziam,
Francisco Lacerda e Joaquim Breves, eram
considerados rivais à altura e respeitados
como tal.
No entanto, todos os três tiveram que se
ausentar de suas terras. A Bolsa Oficial do
Café estava localizada em um palácio
construído em 1916, que foi um centro de
negociação de café e a sua arquitetura
traduzia de forma simbólica, o espaço
ocupado pelo grão no Brasil e no exterior.
Ali eles se reuniram com um objetivo em
comum. Descobrir como competir com o
novo produto que afetava suas vendas.
O café vietnamita estava sendo escoado
para os Estados Unidos, Inglaterra,
Alemanha e França, tomando o lugar que
antes pertencia a eles.
147
No mezanino do segundo andar, Luciano,
Joaquim e Francisco observavam o pregão
ser conduzido.
— Já entrei em contato com meus
escritórios no exterior, realmente esses
vietnamitas estão fazendo algum tipo de
milagre. — Alto e muito magro com um
bigode fino, Francisco estava encostado na
mureta de costas para o vitral “A visão de
Anhanguera". — Acredito que tem algo a ver
com o clima da região, algo que altera o
sabor do café e que os gringos parecem
apreciar muito.
De origem pobre, Francisco, devido a sua
inteligência, conseguiu galgar degraus na
alta sociedade, mas ainda assim, entre o
baixo clero sofria muito preconceito, apenas
Luciano o via como era, um homem de
negócios, perspicaz e capaz de operar
milagres com pouco dinheiro.
148
— Papo furado! — Velho, mas vigoroso
Joaquim caminhava de um lado para o outro
enquanto conversavam. — Tem algo de
errado com tudo isso, não é assim, de uma
hora pra outra que eles podem parar de
comprar os nossos produtos. Existem
contratos para isso! É lobby, estou dizendo.
Com cabelos e bigodes brancos era o mais
engessado em seus preconceitos, ele tinha
dinheiro antigo, de gerações e gerações
passadas, portugueses ricos que vieram ao
Brasil esperando aumentar mais ainda seu
patrimônio, um império com fundações
vermelhas do sangue de escravos.
— O que você acha Luciano? — Os olhos dos
rivais se viraram para ele. — O que devemos
fazer para mudar este cenário?
Até o momento esteve calado, apenas
observando os funcionários trabalhando.
— Nada.
— Nada?!?! — Joaquim falou mais alto do
que pretendia.
149
— Não tem o que fazer. Por enquanto, nós
só estamos começando a ver como o
mercado mundial vai reagir a esse novo
produto. Não adianta se apavorar.
O som do martelo anunciou o fim da sessão
do dia, essa foi a deixa que Luciano estava
esperando. Os homens se despediram, ele
estava correto, não havia muito o que fazer,
ainda assim, sem que os outros soubessem,
comprou uma saca do café vietnamita. Era
hora de prová-lo.
Desde pequena Flávia acordava cedo, um
hábito que havia adquirido de seu pai
pescador. Sob o céu estrelado se pôs a
caminhar, sempre percorrendo o mesmo
trajeto onde era reconhecida. O silêncio só
era quebrado pelo som de seus passos e do
vento que soprava as folhas das árvores.
Caminhou em direção à praia, onde seria a
primeira a se sentar em uma das mesas da
Padaria do Porto. Pediria um café, acenderia
um cigarro e esperaria o sol raiar, para que
então pudesse começar a trabalhar.
150
No entanto, para sua surpresa, ela não foi a
primeira a chegar.
Sentado em uma das cadeiras e lendo o
jornal estava um homem bem vestido. Com
um rápido olhar ela soube que ele tinha
dinheiro, muito dinheiro. Ela se aproximou,
como uma gata no telhado, sem fazer som
algum.
— Esse lugar está ocupado?
Luciano levantou os olhos e, antes que
pudesse protestar, viu a moça se sentar.
— Bom dia, moço. Alguma notícia
interessante?
Hesitou, a maneira casual e sincera como
falou com ele fez com que ficasse
desconcertado por um momento. Tempo
suficiente para que um atendente
aparecesse.
— Pois não, senhora. O que gostaria?
— O mesmo que ele, por favor.
— Sinto muito, mas esse café foi trazido
pelo cavalheiro, posso trazer o da casa se
quiser.
151
Com a inocência de uma criança, ela se virou
para Luciano, olhos grandes, profundos e
pretos o encaravam. Novamente ele
hesitou.
— Pode trazer pra ela do meu café, sem
problemas.
No mesmo instante o semblante de súplica
desapareceu e se tornou um sorriso
malicioso, rasgado e cheio de más
intenções. Ele resolveu entrar no jogo.
— Por que você traz o próprio café?
— Geralmente as pessoas costumam se
apresentar antes de fazer perguntas.
— Meu nome é Flávia e o seu?
— Luciano.
— O que você faz?
— Nesse momento estou bebendo café.
— Vai me contar qual o segredo do seu café?
— Por que você não me diz o que acha dele
primeiro?
A xícara veio fumegante, Flávia podia ver o
próprio reflexo na superfície negra do
líquido. Levou a bebida aos lábios.
152
— E então? O que achou?
— É diferente.
— Diferente como?
Bebeu mais um gole.
— É amargo na medida certa, tem um certo
aroma de canela e terra molhada. É muito
bom mesmo.
— Sim, é o melhor café que eu já tomei na
vida.
— Você tem bom gosto.
— Isso eu sei, meu problema é outro.
Preciso pensar em como fazer um café
melhor que esse.
Ela apoiou o queixo nas costas da mão,
olhando para o potencial cliente com
curiosidade.
— Talvez eu possa te ajudar.
— Você entende como funciona a produção
de café?
O sol começava a despontar sobre o mar,
algumas gaivotas acompanhavam os barcos
dos pescadores na esperança de sobras.
— Não, mas sei onde tem um melhor que
esse.
153
Luciano ergueu uma sobrancelha.
— E onde seria?
— Me acompanhe que eu te mostro.
Ele olhou nos olhos negros de Flávia, ela
dizia a verdade. A conta foi paga. Levado
pela curiosidade e pela promessa de um
produto melhor, ele a acompanhou e
subindo a rua de pedras, eles foram até
uma casa grande e antiga de paredes
brancas.
Ao invés de irem para a cozinha, Flávia o
levou para um dos quartos da casa, lá havia
apenas uma cama com lençóis brancos e
uma penteadeira com o espelho quebrado.
Não havia café ali, apenas mãos macias.
Luciano tinha sido enganado e como uma
criança ingênua ele se deixou levar por uma
falsa promessa, agora estava nas mãos dela.
Resignado, se deixou despir. Enquanto
retirava a roupa de Luciano, Flávia explorava
seu corpo com os lábios sentindo o cheiro
doce de suor e a fragrância que usava para
fazer a barba.
154
Decidiu que gostava. Suas pequenas mãos
causavam arrepios enquanto passeavam
pelas costas largas de Luciano. As dele, tão
grandes e duras, acariciavam o cabelo longo
da moça ao mesmo tempo em que a
pressionava contra seu peito.
A excitação nublava a mente de ambos. Ela
podia sentir a rigidez de do pau dele contra
sua barriga. No meio de suas pernas a
umidade que escorria era um convite, mas
ainda era cedo. Se beijaram. Luciano se
deitou, Flávia pôde ver seu pau, pingando
sêmen e exalando um odor masculino que a
deixava inebriada. Ela o chupou, sentindo o
calor em sua boca e ao mesmo tempo o
gosto doce que tanto esperava. Gemeu de
satisfação, podia sentir a língua e a saliva de
Flávia massageando-o enquanto seus lábios
subiam e desciam por toda a extensão do
membro.
Ela o olhou nos olhos.
— Também quero te chupar.
155
Quando sorriu, Luciano pôde sentir os
dentes que faziam cócegas. Flávia se despiu
por completo, retirando as saias com a
facilidade de anos de prática e passou as
pernas pelos ombros de Luciano. Eles se
enroscaram em um abraço de luxúria.
Ambos sentindo o gosto do sexo um do
outro. Os gemidos baixos dela o excitaram
ainda mais, ele agarrou seu quadril na
esperança que a estivesse fazendo se sentir
tão bem quanto ela o fazia.
Quando percebeu que estava quase
chegando ao clímax, Flávia parou, tirou da
boca o pau de Luciano e o olhou. E sem
dizer uma palavra o beijou intensamente,
babando, lambendo e sentindo a aspereza
de sua barba.
Ela o queria. Montou devagar, sentindo cada
centímetro do pau dele penetrá-la até que
não houvesse mais lugar dentro de si.
Arquejando e gemendo ela se arrepiou, ele
podia ver a expressão de prazer dela e
gostou muito do que viu.
156
Luciano beijava seus seios sentindo o sabor
de sua pele e o sal de seu suor.
Ela o cavalgou, seu coração batendo forte no
peito, sentindo mãos fortes segurando seu
quadril, forçando o movimento de sua
buceta contra ele. Seu sumo escorria pela
virilha de Luciano, passando por suas bolas
e molhando o lençol branco. A cada
movimento a cama rangia em protesto, o
som se misturava aos de seus gemidos e da
respiração acelerada.
Mais forte, mais rápido, ela sentiu. O gozo
veio, fazendo seu coração disparar, seu
corpo se dobrar sobre ele e mais um jorro
de líquido coroando seu orgasmo. Sem dizer
uma palavra, Luciano a virou, agora por
cima, ele sentiu seu peso sobre o corpo de
Flávia, suas pequenas mãos o abraçavam
forte enquanto ele metia com força. Suando
e gemendo, ele tentava prolongar o prazer,
não querendo que acabasse, mas a cada
estocada ele sentia sua mente se perder em
prazer. Até que não mais resistiu.
157
Gozou, derramou seu sêmen dentro de
Flávia, os espasmos fizeram sua cabeça
girar, teve que se segurar para não esmagá-
la sob seu peso, seu pau, agora semiereto,
saiu da buceta deixando um rio branco
escorrer. Ela beijou sua testa suada e o
aconchegou em seus braços, ambos
ouvindo suas respirações e seus corações.
Ficaram assim por vários momentos, sem
dizer nada, apenas apreciando o que tinham
acabado de compartilhar um com o outro.
O suor semisseco fazia seus corpos
grudarem um no outro, Luciano pôde sentir
suas peles se separando quando Flávia se
levantou. Ela vestiu uma longa camisola e
saiu do quarto sem dizer uma palavra.
Luciano permaneceu deitado, cansado
devido ao esforço, quase pegou no sono.
Mas sua consciência voltou para a superfície
de seus pensamentos quando ouviu o som
da porta se abrir e Flávia entrar com uma
bandeja e duas xícaras.
158
— Aqui está o melhor café do mundo.
Ela pousou a bandeja na cama e Luciano
tomou a bebida. Havia algo de cítrico nele,
tal qual gotas de laranja, era refrescante,
mas ao mesmo tempo arranhava sua
garganta, descia deixando saudade em sua
língua.
— Como pode? Onde você arranjou um café
tão bom assim?
— Eu comprei na venda aqui perto.
— Esse café é local?
— É o café que eu compro sempre, não sei
onde é feito.
Ele estava confuso, sua mente tentava
decifrar de onde teria vindo um café tão
saboroso e que, com toda certeza era
melhor que o café vietnamita, ele nem
imaginava como fazer algo tão bom assim.
Flávia sorria misteriosa e dissimulada.
— Eu não entendo.
— Não é sobre onde é feito, como é feito,
nem nada disso. É sobre o que acompanha
cada xícara que o torna especial.
159
E, dizendo isso, ela o beijou. Um beijo
amargo de café.
160
CASADOS
161
Se olhando novamente no espelho, viu a
aliança em seu dedo. Coçou a joia enquanto
respirava fundo. Tirou-a, guardou na bolsa e
enfim, saiu.
No restaurante fez questão de se sentar
rapidamente em uma mesa, como se isso a
fizesse se esconder na multidão. Mesmo
assim, continuava incomodada com o fato
de ser uma mulher sozinha naquele
restaurante com mesas cheias de casais e
grupos de amigos. Nada parecia deixar
aquela noite mais estranha, até alguém
parar em sua mesa.
Um homem de meia-idade perguntava se
ela estava esperando alguém. Disse estar
sozinha, mesmo incomodada de ter que
falar isso em voz alta. Se chamava Raul,
tinha o cabelo grisalho, vestia uma camisa
social azul e uma calça preta. O fato de
tomar a liberdade de pedir para se sentar
com ela podia soar um tanto arrogante, mas
o perfume suave, o sorriso charmoso e a voz
levemente grave compensavam.
162
Raul fez seu pedido e os dois aproveitaram
para se conhecer melhor. Enquanto
comiam, Luiza falava sobre seu trabalho, o
motivo de sua viagem e alguns gostos
pessoais. Com poucos minutos,
encontraram na música um gosto em
comum.
— Poderíamos ir em um show juntos. O que
acha? — Perguntou Raul, sendo direto.
— Não sei… — disse Luiza antes de respirar
fundo. — Sou casada.
— Não sabia que é casada. Aliás, não vi
aliança em seu dedo.
— Tirei antes de sair.
— Por que fez isso?
Luiza olhou para os lados, constrangida. —
Não sei. — E respirou fundo mais uma vez.
— Acho que quis aproveitar a noite sozinha
e fazer algo diferente.
— Como paquerar algum estranho? —
Provocou Raul com um sorriso arrogante.
— Não necessariamente. Posso apenas sair
e me sentir livre, mas sem fazer uso dessa
liberdade.
163
— Não faz sentido para mim.
— Tudo bem não fazer. Você também não
tem aliança e não me parece um homem
solteiro.
Raul franziu o cenho.
— O que me denunciou?
— Nada, só me parecia charmoso demais
para estar sozinho. Você que se entregou.
Luiza sorria com sua travessura. — Então,
por que está sem sua aliança?
Pela primeira vez naquela noite, ela se
sentia mais à vontade ao colocar aquele
homem contra a parede. Havia uma leveza
naquela conversa cheia de pequenas
provocações que a distraía de qualquer
tensão. Raul respirou fundo, gaguejou e
sorriu sem graça antes de conseguir
responder.
— Tudo bem, eu admito. Saí sem aliança
para flertar. Estava na expectativa de
encontrar alguma mulher interessante e
passar um tempo a sós com ela.
164
Um sorriso tímido, porém, incontrolável
brotou no rosto de Luiza. — Então eu seria
uma mulher interessante?
— Não. Na verdade, é que esse restaurante
ficou sem mesa vaga mesmo.
O sorriso sapeca de Raul desencadeou uma
gargalhada em Luiza, que atraiu a atenção
de todos. O bom humor daquele homem a
atraía tanto quanto o queixo quadrado
emoldurando seu sorriso.
— Você não se sente culpado ao sair por aí,
paquerando outras sem a sua esposa?
Raul torceu os lábios, em claro desconforto.
— Não. Penso que isso me faz sentir um
pouco mais vivo. Por mais que o casamento
seja maravilhoso, nada é como a primeira
vez.
Luiza sorriu timidamente. Raul mudou de
postura. Se apoiou com os cotovelos sobre a
mesa, olhando para a mulher à sua frente —
O que pensaria se soubesse que seu marido
tira a aliança e sai por aí conhecendo
mulheres?
165
Pensativa, Luiza olhou para o teto,
organizando as palavras em sua resposta. —
Olha… antes eu teria ciúme, mas hoje penso
diferente. Pensar que meu marido
eventualmente sente desejo por outras, me
deixa até excitada.
— Está excitada agora? — perguntou Raul,
sem a deixar respirar.
— Não é da sua conta… — respondeu Luiza,
sorrindo sapeca. — Já pensou que sua
mulher pode não estar sozinha agora?
— Se ela não está fazendo agora, deve ter
feito hoje, no horário do almoço, ou talvez
quando foi pegar um café na copa. Ela é
uma mulher incrível, e deve receber olhares
e flertes o tempo todo. Se preciso sair à
noite para conversar com alguém, eles têm
procurado por ela.
— Pensar nisso te excita?
— Não nego.
— No seu caso é mais difícil esconder que
está excitado, não é? — perguntou Luiza,
com um sorriso debochado no rosto.
166
— Tem razão, mas você também não
esconde sentir o mesmo. — respondeu Raul,
com um sorriso malicioso no rosto e os
olhos direcionados para o decote de sua
interlocutora.
Quando olhou para baixo, Luiza percebeu o
tecido fino do vestido tomando a forma dos
bicos enrijecidos. Sua primeira reação foi
cobri-los com as mãos, constrangida. O riso
do homem frente ao seu embaraço
desencadeou uma reação oposta. Ela riu,
como se não houvesse outra reação possível
e os dois seguiram rindo juntos.
— Ficar com as mãos aí vai chamar mais
atenção ainda — provocou Raul.
Sem argumentos contra ele, Luiza respirou
fundo, tirando as mãos dos seios, sabendo
qual era o foco dos olhares maliciosos
daquele homem.
A conversa entre os dois seguiu com a
mesma leveza até pagarem a conta.
— Raul, foi uma noite agradável, mas já está
ficando tarde. Preciso ir.
167
Raul fez um gesto com a mão, sinalizando
que ela não se levantasse. — Espere um
pouco. Nessas situações eu não fico tão
discreto quanto você.
Luiza arregala os olhos. — Sério? Fiquei
curiosa agora…
— Falar isso não melhora a minha situação.
Rindo do seu novo amigo, Luiza mudou
rapidamente de expressão ao ver aquele
homem se levantar com um volume notável
entre as pernas. — Com sorte, só você vai se
admirar — disse ele, num misto de exibição
e constrangimento.
Os dois seguiram para fora do restaurante a
passos lentos. Luiza ia à frente e sentiu o
toque repentino das mãos em sua cintura.
— Você é responsável por isso. Agora me
ajude. — Sussurrou Raul ao pressionar o
corpo atrás do dela.
Abraçada por trás, Luiza sentia a ereção
daquele homem enrijecer pelo fino tecido
de seu vestido.
— Você está se aproveitando de mim —
provocou Luiza, aos sussurros.
168
— Se quiser que eu pare, é só dizer.
Mantendo o silêncio, Luiza sorriu. Os dois
seguiram pela calçada até um ponto onde
ela parou e se virou para ele. — Pronto. Te
salvei de passar vergonha lá dentro. Agora
preciso ir embora.
As mãos de Raul seguravam firme na sua
cintura, puxando-a para si.
— Tem certeza? Sinto que você não quer ir.
— Lembre-se do que falei: “sentir a
liberdade, sem fazer uso dela.”
— Você também disse estar curiosa.
Em um movimento rápido, os lábios de Raul
encontraram os de Luiza. As mãos dela
empurraram o peito por um instante, mas
deslizavam para envolver o corpo daquele
homem. Puxada ainda mais forte contra ele,
sentiu a ereção ainda mais rígida. As mãos
passeavam pelas costas dele. Lhe afagavam
a cabeça. Lhe apertavam a bunda sem se
importar de estar no meio da calçada. Os
dois se olhavam. Luiza sentia sua bunda ser
apalpada enquanto trocavam olhares, sem
saber o que fazer.
169
— Vem! — Luiza puxou Raul pela mão e os
dois atravessaram a rua. Entraram numa
viela estreita e depois em outra ainda mais
apertada e escura. Os sons da cidade, de
automóveis e sirenes pareciam distantes. As
lojas já fechadas não demandavam mais a
passagem de ninguém, sendo aquela uma
rua vazia. As residências nos andares de
cima já tinham suas janelas escuras. Alguns
poucos carros permaneciam estacionados
em um dos lados e foi atrás de um deles
que Luiza empurrou Raul contra o muro.
Os dois se agarraram em mais um beijo,
dessa vez mais lascivo que o anterior. Raul
deslizou as mãos pelas coxas de Luiza,
subindo o vestido, deixando sua bunda
exposta, coberta apenas pela calcinha.
Sentindo o pau daquele homem duro contra
o seu corpo, Luiza rebolava, se esfregando
nele sem desgrudar os lábios dos dele e sem
se importar com sua nudez. Com seu decote
mexido, seus seios foram expostos e
sugados por um homem que lhe chupava
com fome.
170
Gemeu manhosa, cada vez mais alto até os
dois ouvirem pessoas conversando.
De repente ambos pararam, tentando
identificar de onde aquela conversa vinha e o
quão perto era. Enquanto prestavam
atenção, Luiza alisava o pau de Raul por cima
da calça e ele continuava apertando sua
bunda. À medida que as vozes se afastaram,
Luiza começou a desafivelar o cinto e abaixar
a calça de Raul até os tornozelos.
— Você tem razão. Estou muito curiosa. —
Disse Luiza antes de se ajoelhar. Ela segurou
o pau daquele homem, fazendo um lento vai
e vem com as mãos. De cima, Raul olhava
ansioso pelo momento em que seria tocado
por algo além daquelas mãos. Com o
coração acelerado, sua respiração ofegava
com aquela mulher brincando com suas
expectativas. Quando finalmente engolido,
Raul gemeu alto, sendo repreendido por
Luiza. Sentindo aqueles lábios macios indo e
voltando em seu corpo, Raul se contorcia
contra a parede gelada que lhe esfriava a
bunda nua.
171
Grunhia o mais baixo possível para não fazer
barulho. Sentia um prazer cada vez mais
irresistível que logo não teria volta, mas ele
queria mais. Puxou Luiza para se levantar e a
abraçou, fazendo-a se pendurar em seu colo.
Os dois se beijavam com vontade e Raul
abandonou as calças, sentando-a no capô do
carro mais próximo. Com um puxão,
arrancou sua calcinha e jogou para o lado.
Invadiu seu corpo e ambos gemeram juntos.
— Que boceta gostosa, Luiza.
— Toda sua, Raul. Me fode!
Os braços se apertavam mutuamente como
se ambos quisessem se tornar um só. Raul
fodia lentamente Luiza, que colocou as
pernas em volta de sua cintura. Com
movimentos cada vez mais rápidos, a
pressão de Raul sobre o corpo de Luiza
aumentou e o alarme do carro disparou.
Nenhum dos dois se importou, continuando
os movimentos até gozarem juntos. Raul
urrava enquanto apertava Luiza contra si,
derrubando seu corpo sobre o dela.
172
Ela tremia, mordendo o ombro de seu
amante sobre a camisa. Os dois se beijaram,
mas por pouco tempo.
Quando se deram conta do barulho do
alarme do carro disparado, olharam para as
residências dos andares de cima das lojas e
viram luzes acesas, janelas abertas e as
silhuetas dos curiosos. Raul correu até sua
calça e a pegou, mas não a vestiu, Luiza
correu sem ajustar o vestido e nem mesmo
procurar a calcinha. Os dois correram
naquele estado até virarem mais duas
esquinas e finalmente poderem ajeitar suas
roupas. Se abraçaram e se beijaram mais
uma vez. Luiza abriu a bolsa e tirou a aliança
que colocou no dado e Raul fez o mesmo
com a aliança guardada no bolso. Rindo da
própria travessura, os dois já começaram a
planejar qual seria a aventura do próximo
aniversário de casamento.
173
Turin Tur é formado em Arquitetura e
Urbanismo pela UFF. Publicou contos nas
antologias: Volúpia (2022), O desejo Tem Seu
Tempo (2022), Hefesto (2023), Sussurros
ardentes (2023), Desejos profundos (2024) e
Universos ardentes (2024). Contato:
[email protected].
Instagram: @contosobscenos
****
NO CALOR DA NOITE
177
Rafael Sidney Gomes dos Santos (que
assina como Rafael SG Santos) é,
atualmente, graduando do curso de
licenciatura plena em Letras-Português.
Apresenta hábito de leitura/escrita e possui
afinidade com a literatura em geral.
****
O NOSSO SAGRADO
Consuma-me e te consumirei
Embebido, o teu rubro manto,
Tua hóstia, teu vinho santo,
Enlace contra a divina lei…
178
Eu sorvo tua caridade.
Sou tua Virgem; és minha sina,
Lascivo amor em majestade.
****
PELE COM PELE
A porta da frente
estava trancada,
o seu quarto era
o único ponto
de acesso ao meu.
179
Atravessando o seu terreno,
senti os seus braços fortes
à volta das minhas ancas
e os seus dedos
a apunhalarem-me as coxas.
Senti o peso
das minhas roupas cair.
Pele com pele,
a temperatura dos nossos corpos estava
a embaçar as janelas.
180
e com a umidade da minha língua,
sentindo ainda a sua vitalidade
a pressionar a minha intimidade.
Vinte minutos
de falta de controle
e liberdade para sentir
os prazeres da pele e do sexo.
181
PIRRALHA
182
Eu toco, acaricio e exploro sem fim,
Meus dedos o levam a lugares sem nome,
Gosto de ver sua luta contra o frenesi
Quando você chama meu nome e assume.
****
QUADRILHA ERÓTICA
Versão pornô-lésbica do poema ‘Quadrilha’, de
Carlos Drummond de Andrade
184
(até a Madre Superiora conheceu bem os
seus dedos…)
Raimunda escapou do desastre de se casar
com um homem,
graças a Mariana, que agora também curtia
BDSM.
Janaína se tornou uma devoradora de
casadas
e isso deixou muitos machos com medo
(ainda bem).
Lilian casou-se com a Senhora B. Ceta,
que não tinha entrado na história, pois só
aos 50
descobriu a felicidade de gostar de mulher.
À beira de te foder,
feito virgem na minha
mão você menstrua.
Deliro só de imaginar
Tuas mãos a me mapear
No gelo a me domar…
Bem-vindo ao inferno
Querido Frankenstein,
Mesmo em retalhos te quero,
Tu me excitas!
No fim do mundo,
188
No fim de tudo,
Mesmo que falte pulso
Vou te reviver.
189
Entre seus objetivos na escrita, para além de
ressignificar as adversidades da vida, estão a
ruptura com os estereótipos de gênero e os
conceitos de bem e mal através de
personagens imprevisíveis e enigmáticos.
Suas obras estão presentes em mais de 40
antologias e nas páginas: @art_analukattah;
https://www.facebook.com/art.AnaLuKattah.
****
TRILHAS DO PRAZER
Desfrutando o sabor
Da inocência perdida,
Coroada por nossas línguas
Até o dia amanhecer.
****
TROGLODITA
****
VERSOS
Todas as horas
Todos os meus pelos
todos eriçados
teu banheiro aqui
tua toda carne
nua de neve teu
sotaque teu grito
teu gemido urro
berro quase doído
meu membro no
céu do teu umbigo
meu peso todo
no teu berço todo
arreganhado tuas
coxas minhas cordas
meu gozo teu riso
193
eu e tu todinhos no
nosso próprio infinito.
194
SEÇÃO ACESSÓRIOS
A trajetória do erotismo na
literatura
Ao longo da história, o erotismo na literatura
percorreu um caminho de constante
transformação, refletindo as mudanças
sociais, culturais e morais de cada época.
Desde as sutis sugestões presentes em obras
clássicas até a explícita intensidade da
literatura contemporânea, o erotismo
literário acompanha a busca incessante da
humanidade por explorar e expressar a
sexualidade em suas diversas formas e em
relações íntimas com seus/suas
parceiros(as).
195
Evolução do erotismo na literatura
Antiguidade clássica
Idade média
Renascimento
196
Obras como “A Divina Comédia” de Dante
Alighieri e “Os Contos de fadas” de Charles
Perrault apresentavam descrições
detalhadas do corpo humano e do desejo
sexual.
Iluminismo e romantismo
Modernismo e pós-modernismo
197
Obras como “Ulisses” de James Joyce e “O
Amante de Lady Chatterley” de D.H.
Lawrence rompeu com tabus e apresentou
novas perspectivas sobre a sexualidade.
Literatura contemporânea
198
O poder transformador da literatura
erótica
199
Lembre-se: a literatura erótica deve ser
apreciada com responsabilidade e respeito. É
importante estar atento aos próprios limites
e se sentir confortável com o conteúdo que
está lendo.
Referências Bibliográficas:
https://jornaldebrasilia.com.br/estilo-de-
vida/a-trajetoria-do-erotismo-na-
literatura/
EROTISMO EM FOCO V
CÓDIGOS ÍNTIMOS
200
Foi ele primeiro a insinuar-se: galante,
presumido, pregustando a conquista que,
mal acostumado, considerava certa.
De fato, pouco mais de uma semana,
rolavam juntos na cama, no pequeno e
esmerado apartamento de Noélia, cuja
decoração ele teve a veleidade cavalheiresca
de gabar em termos vagos, girando os olhos
distraidamente.
O companheiro revelou-se um amante
ardente; meio incômodo às vezes com sua
ânsia de confirmar suas qualidades viris
inusitadas, cobrando dela aquiescências
sobre seu bom desempenho. “Então, me saí
bem?”, ou: “Hoje nós nos superamos!”. Se,
durante o ato, ela permanecesse calada, por
devaneio ou prazer, sabe-se lá, não tardava a
observação canhestra, dita em voz que mal
disfarçava o despeito nervoso de macho
ofendido: “Dei o melhor de mim, como
sempre faço. Por que desta vez foi diferente?
Seu dia não deve ter sido bom”...
201
Mediante a persistência do silêncio, virava-se
para a mesa de cabeceira e acendia um
cigarro, para dissimular o amuo. Nesses
momentos, parecia absolutamente ridículo e
infantil. Irritante!
De todo modo, Deodato era empregado da
aviação civil – comissário de bordo. A pós-
graduação lhe garantiria uma posição futura,
“lecionar, ou algo assim”, como dizia, quando
não fosse mais “tão apresentável” para o
desempenho da atual profissão.
Sujeito a complicadas escalas de serviço,
suas folgas dificilmente coincidiam com as da
amante, o que conferia a seus espaçados
encontros uma sempre reiterada sensação
de novidade. Suas “chatices” e idiossincrasias
passavam então despercebidas para Noélia,
ou ela as relevava como inócuos toques de
contraste com que aceitava temperar um
relacionamento abençoado por um forte
apetite mútuo, por um erotismo carregado e
condescendente.
202
Se para ela esse aspecto da vida em comum
parecia plenamente satisfatório, nem por
isso sentia-se absolutamente segura sobre o
que se passava pelas cogitações mais
secretas do companheiro, as quais ela
suspeitava muitas vezes não poder desvelar,
apesar das pistas com que ele lhas sinalizava.
Mas não se esforçava muito nesse sentido.
Acreditava que existem âmbitos das
emoções íntimas e pessoais que não devem
extravasar-se, mesmo no êxtase do orgasmo.
Algum mistério deve ser preservado como
recurso extraordinário, uma última cartada a
que se recorra em caso de crise, na iminência
de um naufrágio. Ela própria apegava-se a
elementos de seu mundo interior que
considerava inegociáveis, que decidira não
partilhar e nos quais enfim apoiava as bases
de sua identidade como pessoa autônoma e
independente. Portanto, esperava com
naturalidade que o mesmo se desse com
qualquer pessoa.
203
Pressentia, porém, o ressentimento de
Deodato, especialmente quando, após a
refrega amorosa – da qual ele se saíra, como
sempre, galhardamente – ela quedava
saciada, voltando-se para o lado, tranquila.
Talvez esperasse dela ainda aquela
curiosidade investigativa que leva a
esquadrinhar o corpo nu, exausto, no exame
minudente e comparativo dos estados de
excitação e relaxamento que se sucedem.
Numa dessas ocasiões, ele estendeu a mão
sob sua nuca. A cabeça, então em repouso
sobre o travesseiro, foi bruscamente puxada
de encontro ao peito musculoso e liso. Ela
intuiu que o desejo do amante era que o
olhasse fixamente, que admirasse atônita e
veneradora os detalhes daquele corpo
apolíneo; que o perscrutasse gulosa de todos
os detalhes e mistérios; que o sondasse com
os dedos, com os lábios e que a tudo isso
acrescentasse gemidos, resfôlegos e beijos
depositados sobre o peito, sobre o ventre...
Não lhe quis, contudo, condescender no que
lhe parecia óbvio e desnecessário.
204
Recusou-se à adoração do templo da
masculinidade. Disposta a descansar, cerrou
lânguida os olhos, sentindo a pele
ligeiramente transpirada roçar-lhe os lábios
premidos ao ritmo da respiração de seu
homem.
Percebeu então, com ligeira contrariedade,
sua cabeça ser forçada para baixo pela mão
que a pressionava, decidida e um pouco
brusca, em direção ao pênis, agora em
repouso sobre o ventre peludo. Poderia ter-
lhe pedido! Por que esses chatos não
verbalizam seus desejos? Acaso não pode
ocorrer nenhum vestígio de intromissão
racional nos gestos do amor? Entretanto, não
procurou desvencilhar-se. Obedientemente,
colheu o pênis entre os lábios e o sugou,
como acreditava que deveria fazer. Mas ele
se mostrava insatisfeito e, impaciente com a
imperícia, de novo excitado, tomou-lhe a
cabeça entre as mãos, imprimindo-lhe um
movimento brusco e repetido, sufocando-a
com a ponta inchada do membro que,
descomunal, ela não conseguia abocanhar
de todo.
205
Uma vez satisfeito, bramando como um
touro, conteve-lhe ainda a cabeça de
encontro ao quadril, posição na qual, ainda
meio engasgada, Noélia ficou a contemplar o
gigante moreno e derrubado expelindo as
últimas golfadas de sêmen perfumado e
viscoso. Registrou tudo mentalmente, não
por asco, que não chegara realmente a
sentir, mas pela truculência, pela prepotência
dessa atitude masculina.
Vingativa, minutos após, investiu na
implacável retaliação feminina. Afastou num
ímpeto os lençóis que agora mal encobriam
o corpo do rapaz exausto, expondo-o
completamente em sua nudez musculosa,
deixando-se em seguida cair pesadamente
sobre ele, em frenesi de entrega e
cumplicidade.
206
Sem mais pensar, despojada de escrúpulos,
dos recatos que se esvaíam rapidamente
pelos vórtices da vontade urgente, e apenas
concentrada no extravasamento
incontrolável de obscuros desejos, realizou
sobre aquela matéria animal seu ritual de
desinibição absoluta, ávido, poderoso, como
se uma possessão inaudita a tivesse
convertido em sacerdotisa primitiva,
cobiçosa da catarse pelo sangue, pela carne,
pelas entranhas...
Lambeu-lhe furiosamente as orelhas e o
pescoço; mordiscava-lhe os lábios polpudos,
orlados pela barba nascente e dourada;
escorregou o rosto pela extensão polida do
peito, circundando com a língua irrequieta os
mamilos cor de ameixa; beijou com renovada
veemência o ventre chato, escrutando com a
língua em delírio o umbigo rugoso e
minúsculo, deparando-se enfim, pávida e
reverente, com a opulência misteriosa do
membro monolítico, mas ainda inerte, meio
deitado sobre a alfombra de pêlos suados,
como um tronco derrubado sobre os musgos
orvalhados de uma clareira.
207
Ali, por fim, devota, depositou suas
oferendas e executou sua dança
propiciatória de hierodula devassa, repetidas
vezes, até derrotar definitivamente a fúria
espasmódica daquele deus rústico e pagão,
saciado uma vez por todas de seu gozo
incomensurável e voraz.
Porém, com tudo isso, nos detalhes do
convívio bissexto que não podiam escapar a
seu agudo senso de observação, Noélia
entrevia a absoluta carência de lirismo e
delicadeza, a ameaça permanente de império
da trivialidade que os rondava. Fatores esses
que, até ali, tão eficazmente a mantiveram
afastada do casamento ou mesmo de um
compromisso mais sério e prolongado.
Por exemplo, certa noite, após amarem-se,
surpreendera Deodato, porta aberta,
sentado na privada, lendo
despreocupadamente o exemplar de uma
dessas pretensiosas revistas de bordo.
Besteira, talvez. Evacua-se. É humano.
208
Mas, doravante, sempre que ele se estendia
ofegante e ardoroso sobre ela, penetrando-a
lentamente na consciência orgulhosa de sua
admirável virilidade, suas narinas fremiam
discretamente, farejando um cheiro
imaginário, repulsivo como aquele que,
naquela ocasião, haviam captado enfaradas.
“Alguma dose de pudor e resguardo sempre
é desejável para que as coisas não se
acomodem no grotesco, que, aliás, parece
ser a condição do ser humano”, dissera-lhe
uma amiga. O que, agora, soava-lhe como
uma opinião muito sensata.
Depois disso, muitas vezes Noélia
surpreendeu-se a esquadrinhar as cuecas
que Deodato deixava eventualmente nos fins
de semana, na cesta de roupas sujas ou
largadas no boxe do chuveiro. Ficava-lhes a
catar indícios de sujeira, algum frago;
apalpava-as, cheirava-as, preocupada não
sabia com que indícios de desleixo, de falta
de asseio. O mesmo fazia com as meias, caso
as encontrasse. Mas nada constatava.
209
Mesmo a roupa branca íntima permanecia
rigorosamente limpa e inodora após o uso.
Ele se mostrava bastante escrupuloso sobre
esse artigo, ou talvez a profissão lhe exigisse,
sabe-se lá.
Intimidade e tempo são provedores
eficientes do desencanto. Como acontecera a
outros antes, Deodato havia acabado.
Asseado, culto, divertido, mesmo assim,
enchera as medidas, como se diz. Em
especial depois que fora demitido,
aboletando-se no apartamento de Noélia,
mais ou menos com ar de proprietário
presumido em suas prerrogativas de amante
insubstituível, aguardando cômoda e
pacientemente que “a oportunidade à altura
de seus méritos” se apresentasse. O
rompimento, contudo, não foi traumático
como o fim de uma ópera verista. E até
houve um bom e cordial entendimento entre
eles, que entretanto não os isentou da fase
que Noélia, que abusava vez ou outra de
frases feitas, considerava como de “lamber
as feridas”.
210
Edwaldo Camargo Rodrigues, natural da
capital do Estado de São Paulo, bacharelou-
se em Filosofia pela USP, mudando-se para a
cidade de Peruíbe, na década de 80.
Graduou-se em Educação pela Universidade
Católica de Santos. Poeta e prosador, por
reverência aos clássicos, base de sua
formação intelectual e literária, seus
trabalhos remetem a formas tradicionais de
expressão e estilo, quer no discurso
narrativo ou pela escolha da versificação
escandida. Tem publicado sistematicamente
em inúmeras coletâneas temáticas em
diferentes gêneros, sendo autor dos livros de
contos intitulados Crimes e pecados (Editora
All Print – 20214) e Humor levado a sério
(Editora Ases da Literatura – 2024). É
membro cofundador da Academia
Peruibense de Letras, em que ocupa a
cátedra nº 28, dedicada ao celebrado poeta
pernambucano Manuel Bandeira.
211
CONTO DO ELEVADOR
212
Deixaram-se ficar assim por um breve
período, até que decorridos alguns minutos,
suas sombras foram revelando-os e então,
João sentiu-se na obrigação de romper o
silêncio, como se sua própria imagem o
desnudasse diante daquele desconhecido.
“Parece que houve um problema” disse
entredentes, envergonhado de sua própria
voz revelada assim tão tímida e frágil. O
outro nada respondeu, e assim continuaram
por mais um período, longo o bastante para
que João começasse a apreciar aquela
sensação de máquina parada no tempo. Foi
então que o sujeito se aproximou de João de
um jeito leve, lento, mas firme. Foi-se
chegando até encostar a cabeça no ombro
dele. Grudado no corpo do desconhecido
passageiro. João sentiu o cheiro forte do
shampoo perfumado nos cabelos úmidos e
curtos de seu companheiro de cubículo.
Deixou-se ficar assim, irmão siamês daquele
anônimo por um bom período. Aos poucos, o
elegante sujeito moveu a cabeça de tal forma
que logo estava cara a cara com João, que
percebeu o brilho intenso daquele olhar
verde-oliva.
213
Um hálito forte, masculino, exalava da boca
do sujeito. João hipnotizado deixou-se beijar
sem evitar um sentimento de conforto que
lhe inundava a alma/coração. Foram
momentos de intensas trocas de carícias
naquele espaço escuro e abafado. E ali
mesmo no chão poeirento daquele espaço
exíguo, entregou-se completamente àquele
ser desconhecido, que sem dizer palavra, só
com língua e mãos, percorria suas mais
profundas entranhas sem perdão. No auge
do prazer, num movimento brusco de seu
corpo, João acabou por acionar sem querer
com um dos braços o alarme do elevador
que imediatamente começou a tocar. Isso os
excitou ainda mais, e ali, suspensos por
cabos de aço e envoltos em forte estridência
deixaram-se abandonar num gozo gutural e
acumulado. Momentos depois, ouviu-se um
vozerio que do lado de fora do elevador se
formara. João e o desconhecido aos poucos
voltaram para aquela estreita realidade e,
sem mais palavras, se recompuseram. As
luzes do elevador se acenderam e com um
tranco este moveu-se para cima, atingindo
rapidamente o 24º andar.
214
A porta pantográfica se abriu. No hall,
algumas pessoas olhavam incrédulas aqueles
dois seres que saiam do elevador como se
desembarcassem de uma aeronave que
aterrissava após longo período em órbita.
Toda aquela situação que João vivenciara
transformou-se em realidade com o
burburinho das pessoas ocupadas em entrar
no elevador, após o que ele se viu
novamente a sós com o seu chique amante
de olhos verde-oliva no hall do edifício. Não
sabia mais aonde estava indo, o que viera
fazer ali. O outro camarada por sua vez
também adiava entrar em uma das diversas
portas numeradas e impessoais daquele frio
corredor. Foi nesse instante de dupla
incerteza que afinal o elegante sujeito dirigiu-
lhe a palavra. “Foi um prazer conhecê-lo,
estarei de volta a esta cidade em seis meses.
Se puder revê-lo será magnífico! Dito isto,
entrou firmemente por uma porta que dava
acesso à escada, sem antes entregar-lhe um
cartão com um número de telefone impresso
em letras vermelhas e... mais nada.
215
João encontrou-se inteiramente só, mas com
uma sensação de tranquilidade e certeza há
muito não experimentada. Passados seis
meses, João encontra-se novamente na
entrada do prédio em cujo elevador aquele
inusitado encontro se dera. Espera ansioso
aquele amante semestral que lhe deixara
somente um cartão com um número de
telefone e que ele ao ligar sem saber
exatamente o que dizer, e sem nem saber o
seu nome, para sua surpresa, quando o
outro atendeu, não só o reconheceu como
“aquele do elevador”, como também
objetivamente marcara um encontro para o
dia seguinte. E eis que surge claro diante de
João, o amante urbano de olhar verde
embriagante que sem esperar resposta ou
mostrar admiração ao vê-lo, simplesmente
sorriu de tal jeito, e sem nenhum trejeito lhe
estendeu a mão. Retribuindo assim o gesto
firme, João deixou-se então guiar por suas
mãos que entre dedos o levavam ao porão
do seu próprio elevador de sensações.
216
A porta pantográfica fechou-se diante dos
cidadãos que aguardavam no hall do edifício,
e que ofuscados pelo vidro espelhado da
fachada do prédio desapareciam da visão
dos amantes apressados tão rápido quanto a
razão.
217
DESEJO E MELANCOLIA
220
Mexia-se na cama com certa ansiedade e
impaciência, nessa hora percebeu que algo
nele estava diferente, desceu uma das mãos
até o meio das pernas e sentiu que seu sexo
estava mudado, havia crescido, enrijecido e
ardia, pulsava. Enquanto olhava
continuamente a figura pôs-se a massageá-lo
como forma de tentar dirimir aquela
angústia que o dominava, à medida em que
se tocava uma volúpia foi emergindo, ficou
tentado a se tocar mais, a continuar
mexendo no próprio sexo, que estava
extremante rijo, dava-lhe a impressão de que
explodiria, que se soltaria de seu corpo.
Sua visão se mantinha presa ao gibi, era uma
atração intensa que a imagem exercia sobre
ele, às vezes até fechava os olhos e se
imaginava dentro da história, como um
personagem que interagia com aquela
menina de vestido, lembrava também das
colegas de escola, do cheiro que cada uma
delas exalava, dos sorrisos, do roçar de
braços nas brincadeiras no recreio.
221
Pensou na professora, em como sua voz
doce e macia os acolhia no início das manhãs
com um bom dia sempre sorridente e
luminoso, pensava, olhava, sentia, tudo de
forma intensa, uma lubricidade tomava
conta de todo seu ser, seu corpo era um
misto de tentações permanente, uma lascívia
o dominou por completo, agarrou com
firmeza o pênis e o manteve entre as mãos
até que um enlevo o envolveu, todo seu
corpo se contraiu e logo depois amoleceu,
uma onda de contentamento o encharcou,
foi tomado por um regozijo, sentiu um gosto
diferente em estar vivo, um prazer novo e
indistinguível, nada antes o deixara assim,
tomado por uma alegria, uma satisfação
plena e absoluta.
Foi só então que percebeu algo em suas
mãos, um líquido viscoso e esbranquiçado
que saíra de seu sexo e molhara a revistinha.
Secou-a com o lençol, a colocou no chão
embaixo da cama e fechou os olhos
enquanto ainda sentia laivos de desejo
percorrendo seu corpo.
222
Alguns anos depois a lembrança desse dia
ainda sobrevivia com força em sua mente.
Acreditava que ali havia tido início seu
descontrole sobre os próprios desejos. O que
de início se apresentou como um deleite,
proporcionando um prazer novo e
encantador, paulatinamente se transformou,
metamorfoseando-se em algo cruel e
arrebatador, que o fazia se sentir fraco,
vulnerável e totalmente impotente. Era um
desejo maior que ele, intangível, mas ao
mesmo tempo bastante concreto, algo quase
que palpável tamanha a dimensão que
assumia em seu íntimo. Ele foi aos poucos
percebendo e compreendendo como essa
vontade ia surgindo, crescendo, se
expandido até o dominar por completo e o
levar a praticar ações que em seguida lhe
causavam vergonha, frustração e
arrependimento.
223
Se na transição da infância para a
adolescência o maravilhamento, fruto dos
gozos masturbatórios o levava ao ápice do
prazer, com a vida adulta o que antes era
visto e sentido como natural e comum se
configurou como um ponto de fraqueza, que
lhe tolhia as forças e o colocava frente a
frente com sua pior versão.
O primeiro sinal de que algo não estava indo
bem se deu numa época bastante agitada,
no começo da vida adulta, quando passava
pela transição entre ensino médio e trabalho.
Por não almejar uma faculdade e pensar que
trabalhar seria a opção mais condizente com
seus objetivos para o futuro, ele arrumara
uma vaga de vendedor numa loja de roupas
e estava tendo uma boa adaptação. Porém o
fato de ter que lidar com diversas mulheres
ao longo do dia, vendo-as escolher e
experimentar roupas, abria dentro dele um
vácuo enorme, que ia pouco a pouco
sugando-o, tirando dele toda a razão e o
levando a se refugiar no banheiro dos
funcionários para se masturbar.
224
Fazia isso de três a cinco vezes por dia, o que
acabou chamando a atenção dos outros
funcionários. Chegou então ao gerente o
boato sobre o seu comportamento inusitado,
com sumiços inexplicáveis no decorrer do
expediente e isso acarretou na sua dispensa
meses após ter iniciado no serviço.
Tentou relevar e justificar a demissão
dizendo para si mesmo que a falta de
experiência havia sido a causa principal.
Passou um tempo em casa e isso teve um
efeito avassalador sobre ele, levando-o a
identificar nas suas ações algo que não podia
ser comum tamanha a ânsia com que se
masturbava. Bastava ter algum contato visual
com imagens que minimamente
sensualizavam as mulheres, como as páginas
de lingeries nas revistas de cosméticos que a
mãe vendia. Nessas horas o buraco do
desejo dentro dele se abria e dava início ao
processo de sucção que o fazia refém de si
mesmo e do seu descontrole. Passou com
isso a sentir um misto de tristeza, fraqueza e
solidão após se masturbar.
225
Vivia numa constante oscilação de humores,
porque muitas vezes ao longo do dia era
movido por uma lascívia desenfreada, perdia
o controle e se masturbava. Após a
satisfação desse desejo impulsivo caía sobre
ele um peso enorme, composto de culpa e
incompreensão. Fatigado e sem domínio
sobre o próprio corpo ele foi se isolando
cada vez mais do mundo. Lembrava com
frequência do seu aniversário de onze anos e
nessas horas, triste e desmotivado, ele se
trancava no quarto, fechava os olhos e se
punha a rememorar em detalhes os traços
que compunham aquela revista. Então a
pegava do fundo da gaveta e se deixava levar
pelos tortuosos caminhos do desejo e da
melancolia.
227
Djamila andava na rua completamente
coberta por um véu branco e com uma
espécie de mordaça (haik) cobrindo a boca e
parte do rosto. Entrando, livrava-se do
"sobretudo" e trabalhava com um vestido
leve, colorido, até o joelho, com os pés
descalços.
Quando Ricardo estava na cama, o som da
chave na fechadura acordava-o, e então via
aqueles poderosos pés autoritários,
passando repetidamente diante de seus
olhos, primeiro nos tamancos de salto alto e
depois nos chinelos mais confortáveis. Ele
permanecia capturado pela visão dos pés
majestosos de Djamila e a mulher percebeu
isso.
Uma manhã, Ricardo tinha ficado na cama.
Não tinha vontade de sair ou se levantar.
Djamila entrou e passou em frente a ele,
ainda velada, os pés orgulhosos sob o véu,
nos tamancos de salto alto. Ricardo não
aguentou mais: estendeu as mãos, acariciou
seu pé. A mulher teve por um momento a
reação de se retirar, mas parou, com uma
emoção de triunfo: era exatamente o que
esperava.
228
Entregou-lhe o pé, no tamanco de madeira.
Com doçura, o homem acariciou o tornozelo,
desceu sob o calcanhar. Ela levantou o pé e o
sapato começou a escorregar. Ricardo
tornou-se mais corajoso: aproximou a boca
beijando os dedos dos pés, com as unhas
compridas ligeiramente enganchadas, como
as garras duma fera. Chupou o dedo grande
suavemente, então se comprometeu a
lamber os outros dedos e os interstícios.
Estavam levemente empoeirados, os pés de
Djamila: ela tinha caminhado na rua. No
entanto, tinham o sabor da pomada de mirra
que ela espalhava por todo o corpo e do
incenso com o qual perfumava a casa e seu
corpo. Sob as pomadas e os aromas, Ricardo
percebia o sabor ligeiramente salgado do
suor entre os dedos, o que lhe oferecia uma
sensação de intimidade. Isso o deixou louco
e perdeu toda moderação. Agarrou-se aos
tornozelos da mulher e começou a adorar
seus pés, com total devoção. Ao fazê-lo, se
movia de forma decomposta na cama,
mostrando inequivocamente toda sua
excitação. Djamila entendeu que ele estava
totalmente em seu poder.
229
Conseguiu habilmente remover o véu, sem
extrair o pé direito do abraço do jovem, e
ordenou-lhe com um gesto imperioso: "E o
outro? Beija o outro pé!" Então passou para
outras ordens: "Lambe-me debaixo da
planta!" "E o calcanhar? Beija o calcanhar!"
"Bom! Passa a língua bem entre os dedos,
quero perceber a saliva que me banha!"
Ricardo obedeceu e se entregou totalmente
a um êxtase fetichista que ainda não
conhecia. A única coisa que podia pensar era:
"Por que nunca fiz isso antes?". Sua língua
secou, ele respirou fundo, humildemente
levantou os olhos para olhar a mulher,
engolindo para acalmar a excitação e
começou de novo, como um cachorro fiel.
Djamila começou a pisar nele, em cada parte
do corpo, em primeiro lugar com doçura
macia, então de forma cada vez mais
autoritária, fazendo com que ele perdesse a
respiração e todas as últimas restrições.
230
O jovem cobriu os pés, os calcanhares e os
tornozelos com beijos e veneração e voltou
um pouco para as pernas da rainha, até os
joelhos, de frente e de costas, e tocou um
pouco as partes das coxas, sem nunca se
permitir continuar ao longo de seu corpo ou
exigir dela qualquer favor sexual. Ela o
pisoteava, descalça e às vezes com os saltos,
arrebatando suspiros e gemidos de dor. Era
capaz de fazer-lhe sentir todo seu peso no
corpo, sem causar danos permanentes.
Tratava-o agora com rigor, agora com
ternura, como se fosse seu cachorrinho.
Ricardo se revelara, oferecendo-se a sua
patroa que, a partir desse momento, teria
podido dispor completamente dele, como e
quando quisesse. Uma relação nova, estreita
e vinculativa começou para ele, um
compromisso total, algo que sempre criara-
lhe um grande medo, um caminho de
submissão a uma mulher forte, uma mulher
berbere que não lhe perdoaria qualquer
recusa das suas ordens.
231
A partir desse momento, Djamila se
assegurou de aparecer na casa do jovem
quando estava segura de encontrá-lo, com
aviso prévio. Ricardo devia preparar-se atrás
da porta, vestido apenas com uma fina
tanga, de joelhos, pronto para lamber os pés
de sua rainha assim que ela entrasse. Ela
pisoteava-o: o rosto, o pescoço, o corpo
inteiro, provocando-o com pressões e
pontapés nas partes mais íntimas. Chegava
com outro par de tamancos, para usá-los
depois de entrar na casa, para permitir que
ele cheirasse, lambesse as solas e chupasse
os saltos sem incorrer em riscos devido à
sujeira que podia ter pisado na rua.
Djamila açoitava as nádegas de Ricardo com
força, usando o cinto de couro de suas
calças. Um dia, a mulher extraíu de um saco
o necessário para praticar o tingimento de
alcana: o pó das folhas coloridas e um limão,
para obter uma pasta com água quente.
232
Ricardo teve que deitar-se sobre os joelhos
de Djamila, oferecendo seu traseiro nu,
avermelhado e quente, e a mulher decorou
suas nádegas, escrevendo em árabe frases
de ridículo e submissão. Neste ponto, o
corpo do jovem estava pintado de tal forma
que ele sentia-se envergonhado toda vez que
ia à Universidade, porque era possuído pela
sensação de que alguém que o observava
poderia perceber o significado da escritura
que levava, como lendo através das roupas.
Estava envergonhado na frente de todos
também porque percebia que seu
comportamento mudara e podia permitir
que alguém percebesse as mudanças que
estavam ocorrendo em sua vida pessoal. Ele
tinha adquirido atitudes e comportamentos
que se refletiam em todas as suas relações
com as pessoas do sexo feminino, no
trabalho, na rua, no restaurante, com as
empregadas da mercearia. Seus gestos
estavam mudando para uma maneira
humilde e submissa, disponível para os
caprichos de todas as mulheres que
encontrava.
233
Teve que se redimir várias vezes, durante as
aulas de seu próprio curso, percebendo que
estava olhando para os pés das alunas.
Também percebeu que a voz picante
começara a correr, na boca de suas alunas.
Não se permitiam expressar-se, mas muitas
vezes pareceu-lhe perceber atitudes alusivas.
A relação de submissão durou dois anos. Em
seguida, o contrato de Ricardo virou-se para
o fim e o jovem professor teve que sair
novamente para outras terras e outro
destino, abandonando o país em que ele
viveu suas melhores experiências, trazendo
com ele um rico patrimônio de experiências
e memórias, mas deixando lá a alma. Ele
teria continuado seu relacionamento com
Djamila e seu jovem "marido" para sempre,
mas teria que perder todo o resto de sua
vida, começando pelo trabalho e não
conseguindo garantir a sobrevivência.
Muitos anos se passaram, Ricardo percorreu
vários países, conhecendo outras mulheres,
outras companheiras, outras donas... agora
está aposentado e voltou a viver na Europa.
234
Mas esta noite pensa em Djamila, pergunta-
se onde estará a sua empregada argelina,
sua iniciadora nas artes e alegrias da
submissão. O pensamento o enche de
nostalgia, numa noite de inverno, enquanto
neva no exterior na escuridão da noite.
Parece-lhe ver diante de seus olhos aqueles
pés orgulhosos pintados com alcana, as
unhas compridas coloridas em preto
profundo. Ele percebe que estendeu a língua,
em um reflexo condicionado, excitado pela
memória, enquanto a televisão apresenta as
notícias do dia.
235
Regressando a Itália, practicou a profissão
liberal, interessando-se sobretudo na
restauração de monumentos estóricos, e
ensinou em diferentes institutos superiores,
a História da Arte, o Desenho e as Técnícas
de Construção. Fundador e Presidente desde
1994 da Associação Cultural Liutprand, de
Pavia, que edita estudos sobre a história
local e as tradições, sem descurar as relações
inter-culturais (site internet:
www.liutprand.it). Escreve contos e poemas
em diferentes linguas: italiano, português,
espanhol, catalão, francês, inglês.
****
ESPELHOS
236
Rafael e Maria Clara se conheceram há
alguns anos na faculdade. Ela fazia
Jornalismo e ele, Ciências da Computação.
Ambos prestaram vestibular no mesmo ano
e já no trote dos calouros, rolou um clima. E
aproveitando as várias cervejas, acabaram
passando a noite na república onde ela
morava.
Embora Clara imaginasse que tivesse sido
somente uma noite, qual não foi sua
surpresa quando no dia seguinte, Rafael
apareceu com um vasinho de amores-
perfeitos multicoloridos. Pode-se dizer que
foi amor à primeira transa. Em pouco tempo
já estavam com uma quitinete só para eles,
vivendo uma vida regrada entre estudos e
trabalhos freelancer para ajudar no
orçamento. Mas sempre rindo muito dos
perrengues e também dos momentos de
romance e, claro, ambos tinham uma paixão
muito aflorada e o sexo era frequente.
237
Com o tempo, o trabalho de Rafael ficou
mais pesado, já que tinha sido efetivado
como programador em um projeto de
sistemas para e-commerce, enquanto Clara,
além de escrever para uma agência digital
como freelancer, estava como colunista
regular no maior jornal da cidade. Era visível
o descontentamento no olhar de Rafa e
Clarinha. Até que, no meio de uma conversa,
quando ela já estava para falar que vinha
pensando em se separar, como por mágica,
ela recebeu uma notificação no celular. Uma
amiga da faculdade estava recomendando
um fim de semana em uma casa de campo
“especial”.
─ O que essa maluca quer com isso? –
indagou Clara sem entender porque a colega
enviou um convite desses, tantos anos
depois. Rafael pediu para ver a mensagem e
clicando no link, começou a ler em voz alta.
─ Famosa por ser diferente de tudo o que já
experimentou, a Reflexo, proporciona uma
experiência íntima fora do comum. Revirou
os olhos com descaso e devolveu o celular da
esposa.
238
Mas algo despertou a curiosidade de
jornalista. E Clara achou que poderia ser uma
oportunidade de reacender o casamento
deles.
Viajaram por algumas horas até um sítio
afastado. Na entrada, o caseiro passou as
informações básicas e entregou as chaves. O
espaço era somente deles, com a despensa
abastecida com todo o tipo de comidas e
bebidas para duas pessoas durante um final
de semana. Ao chegarem na casa isolada em
uma área preservada de Mata Atlântica
foram envolvidos por uma atmosfera
enigmática. Embora ela parecesse antiga,
estava muito bem conservada, possuindo
uma arquitetura gótica no pórtico, o que
exalava mistério.
Ao entrarem, outra surpresa. No interior, a
casa era decorada com móveis elegantes,
muito modernos e de bom gosto. Mas o que
chamava a atenção eram os espelhos que
adornavam quase todos os cômodos. De
todos os tamanhos, pequenos e discretos,
grandes e ornamentados, outros cobrindo
paredes inteiras.
239
Eles se entreolharam com uma sensação
estranha. Mas ainda assim, Clara e Rafael
começaram a explorar a casa, notando que
algo parecia diferente nesses espelhos. Eles
pareciam refletir fragmentos deles. Versões
que não correspondiam exatamente à
realidade.
Clara ao passar pelo corredor, teve a
impressão de ver uma versão mais jovem de
si mesma no espelho, sorrindo de forma
sedutora. E Rafael, por sua vez, percebeu seu
reflexo, como se estivesse agindo de forma
mais ousada e desinibida. Imaginaram que
fosse o cansaço da viagem. Enquanto
organizavam a bagagem no quarto, muito
acolhedor e com toda modernidade
disponível, perceberam que os espelhos
começaram a exercer uma estranha atração
sobre eles. Ao olharem para os espelhos,
viram seus reflexos se comportando de
maneiras que revelavam desejos ocultos,
que nunca haviam compartilhado. Isso
provocava um misto de curiosidade e
excitação. Um pouco assustada Clara se
abraçou ao marido, mas o tesão entre eles
cresceu e o desejo de revelar essas fantasias
se tornou irresistível.
240
Beijaram-se e assim que chegaram à cama,
transaram como na época de namorados, de
forma ardente e apaixonada, arrumando
cantos e formas de estarem com os corpos
entrelaçados. Ao olharem para os espelhos
novamente, expressões satisfeitas refletiam
os dois amantes deitados e exaustos. Mas os
espelhos queriam mais, e instigavam o sexo
a cada olhar.
─ Rafa! – exclamou Clara, ao perceber o
reflexo do marido tentando flertar com ela.
─ Seu reflexo está me encarando, como isso
é possível?
Curioso, ele passou a observar melhor o
quarto, mas estava muito cansado após a
viagem e também ao gastar sua energia com
a esposa na cama. Então disse:
─ Vamos ver isso com mais calma mais
tarde, pode ser?
Deu outro beijo apaixonado em Clara e se
virou já sonolento. Ela apenas concordou e
se aconchegou ao corpo quente dele,
adormecendo em seguida. No meio da tarde
ao acordarem, foram até a cozinha para
fazer um lanche. A despensa e a geladeira
estavam abastecidas com tudo o que há de
melhor.
241
Mas, vários espelhos também os serviam
com imagens hipnotizantes deles, agora com
aspecto mais envolvente, parecendo que a
cada movimento do casal, os reflexos os
guiavam para gestos cada vez mais sensuais.
A curiosidade de Clara a fez tocar em um
deles, próximo à pia e imediatamente sentiu
o reflexo tocando de volta os seus dedos.
Não o toque gelado do vidro espelhado, mas
quente, como sua própria mão. Encolheu
assustada o braço, causando espanto em
Rafael que, ao se aproximar da esposa, viu o
reflexo puxando-a para que sentisse as
curvas se aninhando ao volume na bermuda
larga. Enquanto o reflexo de Clara parecia
sentir a penetração suave do membro do
marido.
Clara gritou assustada quando viu a cena.
Mas Rafael experimentou reproduzir o que
viu e, ao mesmo tempo, as imagens de
ambos os homens se fundiram em uma ação
involuntária de posse de sua desejada,
realizando o que estava em sua mente,
pegando-a pelo quadril e empurrando forte
sua pelve, penetrando firme. As duas Claras
gemiam ao mesmo tempo e agarravam os
braços do parceiro.
242
Após se satisfazerem mais uma vez, os dois
se sentaram à mesa para terminar de
preparar o lanche. Com os espelhos
vigiando-os de forma ainda mais invasiva.
─ Estou um pouco assustada com tudo isso,
Rafa! – Ela informou o marido que estava
ainda extasiado com o ato recém terminado.
Ele se serviu de um pouco de café preparado
em uma máquina de cápsulas na bancada ao
lado da pia e olhando para todos os reflexos
à sua volta comentou:
─ Não consigo entender como o desejo
aparece assim, fulminante! Estou adorando
tudo. Eu sentia muito a sua falta. Mas
realmente, algo estranho parece estar
acontecendo aqui.
Aproveitaram o final do dia para passear pela
propriedade, conhecer o pomar nos fundos
da casa e ver um lago artificial construído
para peixes ornamentais, com bancos ao
redor e uma área de gazebo com cadeiras
reclináveis, tudo para relaxamento e
momentos de intimidade.
243
Ficaram ali até o sol se pôr, o que tornou o
momento ainda mais romântico. Retornando
para a casa, foram organizar o jantar e,
enquanto comiam, novamente os espelhos
os desejavam ainda mais. Foram para o
quarto e durante o banho, pensamentos
eróticos inundaram a mente de ambos.
Deitaram-se e tiveram uma noite intensa de
carícias, beijos apaixonados e muito sexo e
luxúria. Acordaram sentindo que todos os
sentimentos que haviam perdido estavam
restaurados. Era como se sentissem uma
mudança extrema em seu relacionamento.
As experiências compartilhadas naquela casa
os aproximou de uma maneira que jamais
imaginaram. Ao saírem para o checkout, o
sentimento de gratidão pela construção e
tudo o que os espelhos propuseram era um
misto de reverência e respeito, levando
consigo um segredo que só eles
compreendiam.
****
GRITO
****
NEGÓCIOS HUMANOS
247
Ao retornar, ainda aturdido com tamanha
ousadia e revelação, comecei a observá-la
atentamente. Percebi que não tirava os olhos
de mim. Seus movimentos pareciam
calculados. Intrigava-me, o olhar, o jogo de
sedução. Retirou da bolsa um pequeno
espelho e um batom, iniciando um ritual de
retoque. Ao terminar, jogou-me um beijo
com estalido de lábios. Um sorriso foi o
desfecho. Parecia estar me provocando ou
rindo de si própria: “você é mesmo uma
maluca, primeiro Dirceu, agora Licério”.
Com uma expressão alegre na face,
cantarolando e dançando como era de
costume, Dirceu adentrou a sala. Ao ver
Clara, ficou perplexo, e antes que suas
palavras fossem interrompidas por um “bom
dia” ou “como vai”, foi logo dizendo: “Boneca,
você está um tesão!” Ele caminhou na
direção dela, que não tardou a ir ao seu
encontro. Um abraço foi o princípio. As
carícias vieram em sequência, seguidas por
um longo e demorado beijo. Tive que
suportar o “amasso”, vendo as ágeis mãos de
Dirceu percorrendo os cabelos, as costas, as
coxas de Clara. O rala-rala me deixou
excitado a ponto de molhar a cueca.
248
Depois do tormento, veio a tranquilidade.
Após a troca de cumprimentos, decidimos
dar destino aos afazeres. O dia estava
programado: concluir o anúncio da lingerie.
Dirceu, além de excelente sócio, era um bom
companheiro. Íamos juntos às festas, às
farras, às loucuras... Desde os tempos da
Faculdade de Publicidade e Propaganda
mantínhamos uma boa amizade. Este era o
único obstáculo que me impedia de cair em
tentação, pois “mulher de amigo meu, para
mim é homem...”. Quando nos formamos,
ele foi para o exterior fazer cursos de
especialização. Ao retornar, abrimos a
agência. Nosso trabalho vinha se destacando
há algum tempo: fizemos ótimos comerciais
para televisão, bons anúncios em revistas e,
até prêmios ganhamos. Mas, o que estaria
acontecendo? Fazia poucos dias que estavam
namorando. Pensei com meus botões: “ele
não deve estar dando no couro”.
Meu lado consciente, a esta altura do
campeonato, brigava com meu
subconsciente, que ordenava meus
impulsos, instigando-me de maneira certeira,
como me dizendo ao pé do ouvido: “Vai em
frente Licério, papa!”.
249
Neste instante, Clara passou a desfilar à
nossa frente. Mergulhei meu olhar em seus
movimentos e num piscar atento pude ver
que Dirceu também fizera o mesmo. Quando
ela se abaixou para retirar do arquivo
algumas pastas, deixou à vista o seu traseiro;
mal coberto pela calcinha estreita que lhe
entrava por entre as nádegas. Fiquei
endoidecido ao ver aquela bunda. Comecei a
imaginar coisas, recordar histórias de
revistas masculinas, e apesar de não
acreditar muito na alquimia do desenrolar
das mesmas, estava quase inerte, vivendo
uma dessas fantasias.
Dirceu, em situação mais difícil que a minha,
necessitou sair para aliviar o tesão. Como um
adolescente, trancado no banheiro, deixou
seu pensamento fluir, desfazer, liquefazer
em gozo. Incontrolável e a sós, achei que era
o momento. Parti para o ataque, esquecendo
completamente a existência dele. Fui direto
ao que interessava. De volta à mesa, Clara
separava o material de arte-final, quando me
aproximei para pedir opinião sobre o slogan.
Ao dar-lhe o texto, não pude evitar o toque
em seus seios rijos. Ela se arrepiou toda, mas
não falou nada.
250
Sua boca convidativa enfraqueceu minha
resistência, fazendo-me beijá-la. Dirceu
apareceu fingindo não ter visto nada. Tentei
disfarçar, mas fui infeliz, condenando-me
pela marca de batom. Retornei ao
computador e em negrito destaquei minha
frase: Ela usa e você cobiça.
Ali estávamos, os três: quietos, absortos em
pensamentos. Em meio à distração do
trabalho trocávamos olhares. A cada
fisionomia notava-se, quase sempre, um ar
de desconfiança, até que chegou a hora do
café.
Clara, na fuga, foi ao banheiro e nós ao bar.
Para apagar o nervosismo, Dirceu acendeu
um cigarro. A fim de me refrescar do calor e
relaxar a ansiedade, pedi uma cerveja. Um
olhava para o outro como querendo
perguntar algo. Em compreensão ao silêncio
manifestei: “Fui pego de surpresa. Por mais
que quisesse me controlar, descontrolei”.
Decorridos quinze minutos voltamos
conversando. Menos tensos, porém ainda
preocupados. Dirceu pensativo; eu
esperançoso. Caminhávamos tranquilos pelo
corredor. Ao entrarmos na sala, lá estava
Clara se exibindo ao arte-finalista.
251
Foi impossível não a ouvir dizendo: “Isto é só
para você...”.
****
O JOGO DO AMOR
O amor é sede depois de se ter bem bebido
Guimarães Rosa
252
Mordisquei a sua orelha (a ponta da orelha),
fui descendo pro pescoço, percorrendo a sua
nuca. Desci por suas costas sentindo todo o
doce do seu aroma, enquanto minha língua
abria seu caminho e seus poros. Apertei com
suavidade e firmeza suas costelas. Foi
quando você deu seu segundo “ai”.
─ Não vale – falei – vou começar tudo de
novo.
Mais uma vez puxei levemente seus cabelos
(não tão leve) e beijei outra vez seu rosto.
Mordisquei a sua orelha (pontinha), fui
descendo pro pescoço, percorrendo a sua
nuca. Desci por suas costas sentindo todo o
doce do seu aroma, enquanto minha língua
abria seu caminho e seus poros.
Com suavidade e firmeza apertei suas
costelas. E posicionei seu corpo de frente
para o meu. A ponta da língua no bico dos
seios. O calor do meu beijo gelando a
superposição de suas vértebras. Inundei seu
umbigo de carinho e beijei pequenos e
grandes lábios.
Foi quando surpreendentemente conseguiu
se controlar. Porque não queria que eu
voltasse mais nenhum passo. Segui em
frente penetrando você.
253
Foi quando eu dei meu primeiro “ai”.
─ Não vale – você falou – vou começar tudo
do meu jeito.
****
SEM TÍTULO
254
— Só tô indo fumar, vossa malvadeza me
permite? — zombei, revirando os olhos.
— Depende… vai me deixar te fazer
companhia?
— Ué, já quer fugir da responsa? — devolvi,
dando um sorriso sarcástico. Mello deu um
risinho de lado, reconhecendo que eu tinha
ganhado aquela. — E aí, vai vir ou não?
O ouvi pedindo ao amigo que cuidasse da
banca enquanto ele “ia ali”, e fui abrindo
caminho entre a fila de pessoas que
admirava as artes expostas para venda. Não
demorou muito para uma sombra mais alta
me cobrir, bem ao meu lado. Diabo de
homem gostoso, estiloso, cheiroso, bonito…
ele de calça e boné brancos contrastando
com a camiseta vermelha me fez perder um
pouco a pose. Observei de canto de olho que
o sol fazia um reflexo bonito na sua pele de
tom marrom claro, assim como fazia seu
brinco e correntes prateadas reluzirem. Ai, ai,
era só aquela correntinha batendo na minha
cara…
— Tá brisando no que pra ficar quieta assim?
— Mello interrompeu meus devaneios.
255
— Nada. Só nesse calor infernal… não
aguento mais o aquecimento global —
disfarcei, porque imaginei que não seria de
bom tom contar que estava pensando nos
vários jeitos de fazer aquela corrente bater
na minha cara.
— Pode pá, São Paulo tá arrastando demais,
toda hora mudando o tempo — comentou
ele. — Mas e aí, cê sumiu…
— Sumi nada, você que me deixou na voz —
resmunguei. — Não sou besta de ficar
correndo atrás de quem não faz questão.
— Nossa, vida, calma. Eu meio que parei de
dar moral pra geral porque tava na maior
correria, cheio de encomenda de arte,
parceria…, mas faço questão de você sim.
— Pois demonstre melhor da próxima vez —
rebati, porque na minha cabeça, aquilo tudo
não passava de ladainha.
— Sim, senhora — Mello respondeu em tom
de brincadeira, amenizando o clima.
Depois de dar umas voltas por várias
exposições e bancas de acessórios, nós
encontramos uma saída nos fundos para
uma rua deserta e interditada, para que os
carros não tentassem parar ali.
256
Parte do evento, feito na área externa do
salão alugado, lembrava de fato uma feira.
Sentamos numa calçada qualquer, eu com
meu cigarro em mãos, ele com o seu tabaco.
— E aí, tá vendendo bastante? — puxei
assunto de novo, para disfarçar minha
chateação com o assunto anterior.
Obviamente, ninguém gostaria de ficar no
vácuo ao mandar mensagem, mas ele não
precisava saber que tinha me afetado tanto.
— Graças a Deus, hoje tá rendendo muito,
nunca pensei que ia ver minha arte
vendendo tanto! — Mello contou, um sorriso
orgulhoso despontando. Tentei não me
perder na beleza dele ao tragar a fumaça e
ao parecer tão sonhadora, mas não tive
muito sucesso. Minha resposta com certeza
veio depois do tempo considerado
adequado.
— Te sigo no insta desde que era tudo mato,
e nunca duvidei disso. Cê tem talento e é
esforçado! Merece todo o retorno que tem
hoje.
Acompanhar Mello e sua arte foi o que me
fez criar uma paixonite por ele. Além de gato,
gostoso e estiloso, o cara sempre fez um
corre absurdo para crescer na arte.
257
Retratando o cotidiano da periferia,
compartilhando o sonho dele e de diversas
outras pessoas de realidades semelhantes,
fez seu nome crescer na arte de forma
merecida. Bom, nem só de atração física
vivem as mulheres safadas: pelo menos eu
sempre gostei de admirar também os
bastidores por trás do close.
Fiquei em silêncio contemplativo por um
tempo, assistindo a fumaça do meu cigarro
subir e se destacar contra o céu azul e sem
nuvens. Quando voltei meu olhar para o
artista ao lado, percebi que ele me encarava
com intensidade durante minha distração.
— Que foi? — questionei, tentando disfarçar
a vergonha.
— Tava pensando que essa cena daria uma
ótima arte… e que cê é bonita pra caralho!
Porra, como que reagia a esse tipo de
comentário feito à queima roupa?
Obviamente, fiquei sem palavras, apenas
encarando Mello com um olhar
embasbacado. Nunca tinha chegado até
aquele ponto! A partir dali tudo aconteceu
muito rápido: ele se inclinou em minha
direção, e eu fiz o mesmo por reflexo.
258
Antes que me desse conta, nossos lábios
estavam colados, o cigarro tinha caído no
chão e as minhas mãos apertavam as costas
largas do artista. E caralho, que beijo
gostoso! Com gosto de tabaco, a língua dele
se movia lentamente contra a minha, num
ritmo que me fez querer tirar a calcinha na
esperança de que ele me chupasse da
mesma forma.
Entre um amasso e outro, as mãos dele
apalparam minhas coxas com vontade,
subindo minha saia já curta a um nível
provavelmente indecente. Não que eu me
importasse. Meu maior problema com
pegações em lugares públicos era a vontade
incontrolável de tirar a roupa. Qualquer dia
desses seria presa por atentado ao pudor.
— Queria te beijar em pé… — ele sussurrou
entre um beijo e outro.
— Pra quê?
— Te mostro já — sem falar mais nada, Mello
agarrou minha mão e me puxou para
levantar, me puxando para outro lugar.
259
Ali perto tinha uma espécie de beco, e como
a rua estava deserta devido à interdição do
evento (exceto pelos seguranças que
estavam fazendo cara de paisagem, fingindo
não nos ver), entramos até o final. Mello me
prensou na parede e apertou minha bunda
com tanta força que mais tarde ficaria a
marca.
— Por isso — ele comentou em tom
inocente. — Esse tipo de coisa é melhor em
pé.
Antes que eu sequer pudesse responder, ele
me enforcou de leve, provavelmente
testando minha reação ao toque. Com uma
mão no meu pescoço, Mello me segurou no
lugar enquanto a outra mão deslizava
devagar pelo meu corpo, alisando a lateral
repetidamente, de cima para baixo. Depois
de algum tempo só ameaçando, ele agarrou
meu seio esquerdo e apertou, beliscando o
mamilo rijo sob o tecido. Gemi baixo,
derretendo.
— Quieta — ele mandou, apertando os
dedos ao redor do meu pescoço, me
deixando sem ar.
260
Precisei fazer um esforço para obedecer,
principalmente quando ele começou a
brincar com a barra da minha regata antes
de enfiar a mão por baixo do tecido, roçando
minha pele sensível, alcançando meu mamilo
já duro para beliscar com mais força. A dor
misturou-se ao prazer e apertei minhas
coxas, sentindo a calcinha encharcada.
Os olhos escuros de Mello me mediam de
cima a baixo. O querido estava literalmente
me comendo com os olhos, e isso aumentou
meu tesão a níveis estratosféricos. Me
inclinei como pude em sua direção, e ele
entendeu o recado, juntando nossos lábios
num beijo molhado e sensual. Melhor que a
língua dele na minha, com certeza só a língua
dele no meu clitóris.
Durante o beijo, senti a mão grande
escorregando pelo meu corpo mais uma vez.
Prendi a respiração quando a senti invadindo
a minha saia e calcinha. Seu polegar deslizou
pela minha intimidade encharcada, e não
contive um gemido mais alto. Mello sorriu,
provocativo, e parou o beijo deixando
mordidas no meu lábio.
— Esse aqui foi o melhor elogio do dia —
brincou, levando o dedo molhado para perto
do meu rosto.
261
Sem pensar muito, deixei sua mão ainda
mais próxima e chupei o dedo de forma
obscena, roçando o piercing que tinha na
ponta da língua de forma sugestiva.
— Como pode ser tão puta? — provocou ele,
tirando o dedo da minha boca devagar.
— Ué, você tá falando isso porque não me
viu de quatro ainda… — dei um sorriso
sedutor, mordendo o lábio. — Consigo ser
muito pior.
— E vou ver quando? — Mello se aproximou,
colando o corpo no meu.
— Sei não, quando eu tava querendo te
mostrar cê me deixou na voz…
— Rancorosa você, né? — ele brincou,
colocando uma mecha de cabelo atrás da
minha orelha.
— Só às vezes… — dei de ombros, antes de
me inclinar e roubar um selinho dele. — Mas
me manda um salve quando cê tiver suave,
pô… a gente se tromba e desenrola.
— Pode pá, vou te mandar mensagem e te
trombo na melhor — ele se abaixou até estar
com a boca colada no meu ouvido. — Preciso
testar umas coisas com você, de preferência
sem roupa.
262
O infeliz disse isso e deu um sorriso de
cafajeste, passeando a mão pelo meu
pescoço, apertando de leve numa espécie de
promessa. Depois, como se nada tivesse
acontecido, ele ajeitou a roupa e virou as
costas, andando com típico gingado de
malandro. Antes de sair do beco, Mello olhou
para trás e mandou um beijinho, que me fez
derreter um pouco.
Sozinha naquele canto escondido, suspirei e
peguei mais um cigarro do bolso, apenas
para ter o que fazer com a mão, já que não
tinha mais o artista gostoso para agarrar.
Não sabia quando a gente ia “se trombar na
melhor”, mas esperava que fosse logo. Afinal,
apesar de tudo que havia acontecido entre
nós, eu ainda não tinha tido o privilégio da
correntinha batendo na minha cara.
266
Ela fecha os olhos e faz biquinho na direção
dele. Roberto se curva, põe a mão na nuca da
mulher e a beija por cerca de vinte segundos.
— Nossa, Roberto, que decepção! Pareceu
um beijo técnico! Não senti nenhuma paixão,
nenhum fogo neste beijo — Sheila
demonstra tristeza ao falar.
— Começou bem mal — O comentário de
Luciana tem o tom sarcástico.
— Espera, me dá mais uma chance, é que é
um lance novo para mim!
Roberto se concentra, coloca uma das mãos
na cintura de Sheila, a outra na face dela e a
beija novamente, desta vez tentando colocar
toda a paixão possível no seu beijo.
Quando acaba, Sheila está com um olhar
maravilhado.
— Agora sim, eu senti que você colocou
bastante paixão neste beijo, mas vamos ver
se foi tesão mesmo ou fingimento.
Sheila simplesmente coloca a mão no pau de
Roberto bem no meio do restaurante. Nem
sequer tenta disfarçar. Um garçom passa e
dá para notar que ele viu claramente o que
estava acontecendo.
— Hummm, está mesmo duro, e bastante
duro — Sheila se vira para Luciana — ele é
merecedor de ir para a fase dois, madame.
267
— Fase dois?
— O quarto!
Ao entrarem no quarto reservado por
Luciana, ela vai direto para uma poltrona
posicionada em frente à cama. Roberto tem
a impressão de que já rolaram muitas
sessões de test drive ali.
Sheila pula para cima da cama como se fosse
uma garotinha. Deita-se, e fica olhando para
Roberto, ansiosa.
“Está bem, vocês querem fazer um test drive
comigo? Pois vou mostrar toda a minha
potência e desempenho”.
Ele se joga ao lado de Sheila e beija-lhe a
boca, enquanto sua mão alisa e aperta suas
nádegas.
Sheila acaricia o peito musculoso de Roberto,
enquanto ele beija, lambe e até chupa o
pescoço da parceira.
Ambos se sentam e começam a tirar a roupa
um do outro. Nesse movimento, Roberto vê
Luciana olhando passivamente, como se
estivesse na praia só observando o mar.
Ele imaginava que ela estaria se
masturbando enquanto eles trepam. Mas
não. Ela parece até uma estátua.
268
Ele já fez sexo com duas mulheres ao mesmo
tempo, uma vez fez com três, mas nunca
com uma das mulheres só olhando.
Aquilo começa a excitá-lo. É como se fosse
um desafio. Ele vai fuder Sheila de tal
maneira que vai tirar Luciana de sua
passividade.
A esta altura, ela está só de calcinha, cheia de
gatinhos coloridos, e ele de cueca.
Ambos estão ajoelhados na cama. Ele a
abraça e ergue a pequena garota com
facilidade, colocando os seios dela na altura
de sua boca, e começa a chupá-los com
muito desejo.
— Hummm, nunca mamaram meus peitos
nessa posição...
Ele passa vários minutos se deleitando nos
seios de Sheila, e então manda ela tirar a
calcinha.
Ela obedece, tira a calcinha ainda com ele
mamando seus seios, então ele a ergue
ainda mais, coloca as pernas dela sobre seus
ombros, segura suas costas, e começa a
chupar sua buceta, enquanto ela segura a
cabeça dele para ficar mais firme.
269
Nessa posição sua xota fica muito aberta,
completamente esfregada na cara de
Roberto, que chupa, lambe, mete a língua...
Sheila geme sem parar.
Roberto olha de soslaio para Luciana, que
está de pernas cruzadas observando o casal
na mesma passividade.
— Sheila, já que isso é um test drive, topa
fazer uma manobra de direção perigosa?
— Você está dirigindo. Manda ver.
Roberto vira Sheila de cabeça para baixo,
mantendo sua buceta na altura de sua boca,
continuando a chupá-la.
Sheila agora está com a cara na altura da
pica de Roberto. Ela baixa sua cueca e fica
realmente surpresa com o tamanho de seu
caralho. Ela não se faz de rogada, o segura, o
chupa, o lambe com muita vontade.
Roberto então a joga na cama, e se aproxima
enquanto ela abre bem as pernas. Ele
começa a enfiar sua enorme jeba na
pequena buceta de Sheila.
Por um instante ele se preocupa que a
grossura de sua piroca possa machucar a
estreita abertura de Sheila, mas ela não só
parece aguentar aquela diferença de
tamanho, como adorar.
270
Aquilo o deixa ainda mais excitado, ele vai
metendo, metendo e consegue enfiar o
caralho inteiro na baixinha. Até ele se
espanta como Sheila não só aguenta tudo,
mas parece até querer que tivesse mais pica
para entrar nela.
Ele começa com um vai e vem vigoroso, que
arranca gritos de prazer alucinados de Sheila.
Ele se segura para deixá-la gozar primeiro.
Ela goza fazendo um escândalo. Só então ele
goza, mas não tira a pica de dentro dela.
Hora de mostrar que neste test drive, ele é
uma verdadeira Ferrari.
Ele diminui o ritmo, bem devagar, mas
continua bombando, ele fica alguns minutos
nesse ritmo, se recuperando, depois vai
aumentando a velocidade, aumentando,
aumentando, até que os dois gozam
simultaneamente.
Duas sem tirar de dentro! Depois dessa, ele
aposta que Luciana vai esquecer esta história
e pular em cima dele.
Mas ela continua somente sentada, olhando
passiva.
— Muito bom. Agora enrabe ela.
— Hã? Eu acabei de dar duas sem tirar de
dentro. Deixa pelo menos eu me recuperar
um pouco, tomar uma cerveja...
271
— Está bem.
Ele pega uma cerveja no frigobar, e a bebe
bem devagar. Sheila fica deitada, e Luciana
sentada na mesma passividade.
— Vou só ao banheiro — Ele diz ao terminar
a cerveja.
Roberto não faz nada lá. Só usa o tempo
para se recuperar mais um pouco.
Quando ele sai, Sheila está com os joelhos e
os ombros na cama, usando suas mãos para
abrir bem sua bunda. Ao lado dela, um pote
de lubrificante.
O cuzinho de Sheila é ainda mais estreito que
sua buceta, ele não acredita que ela vá
aguentar, mas Sheila diz para ele vir com
força total.
Roberto lubrifica bem seu caralho e mete
com força na bunda de Sheila, que
novamente grita de prazer alucinada.
Incrível, ele consegue enterrar
completamente sua jeba naquele cuzinho
apertadinho. Sheila se toca, gozando
repetidas vezes.
Roberto repete a tática e goza duas vezes na
bunda de Sheila.
— Avaliação — Pede Luciana.
272
— Ele fode muito bem, é viril, sua técnica é
ótima, mas falta-lhe carinho, delicadeza, ele
não faz amor. Ele simplesmente fode. Nota
sete.
— Que pena, só aceito de nota oito para
cima. Você pode ir!
— O QUÊ, EU VIM AQUI PARA NADA?
— É assim que você me classifica? Eu fui
nada para você? — Sheila começa a chorar.
— Viu o que você fez? — Luciana vai consolar
Sheila.
— Vocês são malucas! — Roberto reclama, se
veste e sai do quarto batendo a porta com
toda a força.
Assim que Roberto sai, Sheila começa a rir.
Luciana se ajoelha no chão, coloca uma mão
em cada coxa e fala com a cabeça abaixada:
— Minha senhora ficou satisfeita?
— Satisfeitíssima, escrava. Você sempre atrai
os melhores homens para fuderem comigo
— Sheila passa a mão na cabeça de Luciana
como se ela fosse uma cadelinha.
— E minha atuação?
— Perfeita. Tenho muito orgulho de ser sua
dona.
Luciana começa a lacrimejar de felicidade.
273
Batidas na porta. Sheila a abre, nua mesmo,
e um dos funcionários do hotel lhe entrega
uma caixa com cintas penianas, vibradores,
cordas, correntes, algemas, coleiras, chicotes
e até um taser.
— Para a cama, escrava. Já fui bastante
fudida hoje. Agora vou te fuder até
amanhecer!
****
ELA QUERIA MORAR NA CASA DE BONECAS
276
Quis conhecer a região do ‘abissal’, do ‘entre-
lugar’, quis conhecer o mundo de Alice, quis,
danadamente, fazer companhia para o gato
Cheshire, o Coelho Branco e o Chapeleiro
Maluco e tomar decididamente chá.
Era chegado novembro. Era chegado o amor.
Como ele demorara a chegar! E talvez por
este motivo também perpetrasse uma
fissura daquela proporcional ao tempo
aguardado. Se ‘chuvinha de novembro
amadurece a gabiroba’, de tão verde foi
‘perdendo-se de si’ e, então, o novembro
chegou e junto com ele saiu atônita para
viver o não vivido, mas tão cobiçado. Sim,
prefaciou. Sentenciou também tudo, saiu de
asas ligeiras, coração puro e adejou alto, tão
alto que esqueceu que era preciso ter um
mínimo de lucidez. Era preciso, mas quem
disse que, entre ser preciso e viver, se
escolheria aquele? Acabou, pois, facilmente
escolhendo este.
Conheceu a região dos ‘entre os entre’,
reconheceu sensitivamente a carne de sua
carne, a ‘ânima’ de seu ‘animus’. Bastava um
leve sim e teria ido. Sim foi, foi-se. E então
viajaram para o ali, para o azul, para o
profundo, para o possível, por que não?
277
La Belle Munière, la belle hortelã, la belle
musique de Satie.
Acreditou que tivesse relido a sua alma,
apanhado os seus segredos primaveris,
adivinhado as suas sensações recônditas.
Pensou ter soletrado como na lição
aprendida de cor uma a uma as páginas
suas/nossas; julgou ter navegado no seu
corpo como se faz a travessia de um rio
caudaloso, antes mesmo percorrido de olhos
fechados e sentidos outros. Ela queria
navegar aquele rio outras tantas vezes e
encontrar. Encontrar-se?
Pensou precipitadamente que amor seria tal
qual sentença matemática em que
fatalmente dois e dois seria quatro. Mas
amor tem equação diversa. Queria ter
conjugado menos o verbo sofrer. Queria
muito mais ter conjugado em todos os
tempos possíveis o verbo deleitar-se. Sim...
viveu e apeteceu o inusitado por detrás do
muro vizinho.
Quis morar na casa de boneca – aquela
mesma oferecida por aquela pessoa como
sendo de uma de suas autoras preferidas. K.
Mansfield.
278
Aparentou não conhecer a estória para
acarinhar-lhe por ter apresentado algo novo
para o seu púbere universo literário. Sim, na
maior parte do tempo, tudo era novo, tudo
era a primeira vez ou será que tudo que elas
faziam juntas era como se fosse a primeira
vez? Leram, revisitaram: Helena Parente
Cunha, Milan Kundera, Virgínia Woolf, Clarice
Lispector, Lygia Fagundes Telles, Emily
Dickinson, Camille Claudel, Frida.
Reescreveram, nas fendas do tempo, uma
escrita outra, um universo outro, uma
possibilidade também outra? Um estilo outro
de ser, de sentir-se? Procurar-se? Ela teria e
descobriria um estilo ‘rosa de ser’ e você?
Teria um estilo de ser, ou seria um estilo
delicado/meio frouxo de ser? Sempre
doendo, sempre se doendo, sempre
sangrando e sofrendo. Sim deveria não ter
aprendido facilmente a conjugar o verbo
sofrer e seus correlatos. Mas reconheceu
que esta era uma lição impossibilíssima.
Havia uma teimosia natural/’inatural’,
aprendizado de quando em vez viveu como
rolinha atapetando o terreno insólito do seu
coração.
279
Queria/deveria ter restado na casa de
boneca. Queria ter podido estar sobre as
abrangências daquele espaço da casa de
boneca, brincar, rodopiar e cantar cantigas
de roda para a boneca mais nova de
sapatinhos de verniz. Queria, pois, não ter
que despertar, queria não ter que acordar
para a nova realidade, porque no seu íntimo
ainda estava com aquela sensação primeira e
tão ‘intricadamente’ dela (o estilo rosa de ser)
na pele, na alma, no cerne do ser: “Tem
gente que é assim mesmo: despede
chegando e parte querendo ficar”.
280
Onde era mesmo que aquela assumia o
desafio de ‘ser’, sem se valer
consecutivamente de metáforas tão
intricadas? Bem que tentara tantas e
incontáveis vezes lê-la nas entrelinhas, lê-la
nos menores gestos, adivinhá-la até nas
ausências, tateando alcançar a linha
indivisível entre o ‘Ser’, o ‘Estar’ e o
‘Apresentar-se’. Mas toda a lição era
dessemelhante.
Quanto mais se lançava no exercício de
conhecê-la, mais se afundava no terreno
cada vez mais insólito de si e, então, perdia-
se de ‘si mesma’. Chegou até mesmo ao
abismo de si. Acreditou e restou mergulhada
no pântano. Não sabia, pois, respirar “o
novamente”’! Haveria, algum dia, “o
novamente”?
O amor confinado no gesto da espera. A
espera lindada quase no exercício de
paciência de retirar e contar uma a uma as
sementes de romã para o suco do amor!
281
Ela bem que tentara conjugar o verbo
desapegar e seus correlatos e intencionar
amar sem pedir impiedosos contratos, mas,
naquele momento, não fora capaz de amar
sem pedir; de amar sem querer, ainda que,
por filigranas do tempo, a presença do ente
amado. Escasseara a maturidade necessária
para o exercício pleno do amor que é quase
como dissera aquele outro escritor de que
amar é “ter um pássaro pousado nos dedos”
e saber que a qualquer momento ele pode
voar”!
Não estaria naquele momento, talvez nem
mesmo agora, aparelhada para lidar com a
falta, com as parcas e raras visitas. Não
estaria preparada para aproveitar o instante
sem problematizá-lo toda vez. Será que
alguém estaria de algum modo habilitado a?
Reconhecera naquele livro – diverso
daqueles que havia folheado ou lido com
destreza – a letra de sua melodia há tempos
presumida, que era quase um ultraje não
saber lidar com a ânima de seu ânimus,
talvez seja por isso que a leitura do livro
prometido por aquela deixara nessa pessoa
que, ora faz o relato de si, a sensação
premente da morte, a sensação inequívoca
do erro e as marcas ‘deletérias’ em ambas!
282
Ela lera a priori aquele livro como se fosse
um velho conhecido seu. Leu nas entrelinhas,
apanhara os possíveis segredos primaveris
daquela pessoa adulta como se recolhe
flores em terreno amplo e com as mãos
embebidas pela colheita farta. Mas depois
esqueceu que uma vez lido (leu-se com os
olhos do amor e quase sempre amamos o
reflexo de nós mesmos estampado naquilo
que parecia ser o outro), que ficara cega para
os outros e distintos livros, até mesmo para
o livro de si e/ou o livro de outrem.
O outro – objeto de nosso querer! Ainda
objeto de nosso querer? Nós que ainda não
sabemos amar sem exigir, sem pedir, sem se
bastar. Nós – seres sedentos, repletos da
lacuna de existir. Leitura, pois, muito
equivocada. Para um dos filósofos –
conhecidos nossos – o contrário da verdade,
não seria a mentira/ ‘a inverdade’, mas o
equívoco. Então, equivocou-se! Então?
Ela que adorava tanto o verbo. Fora presa
fácil deste mesmo verbo ornamentado de
confetes, purpurinas, com adornos de
irrealidade. Ela amou a história contada.
283
Ou será que ela amou a história ambicionada
que já trazia dentro de si e habilmente
aprendida de que era fácil crer nos dizeres
de que “foram felizes”? Não se diz mais: para
sempre, pois, que para sempre como diria
aquele outro poeta: ‘para sempre, sempre
acaba’.
Aprendera tempos atrás na cartilha ‘Caminho
Suave’, cujo título agora em trocadilho se
semelha tão denso, tão incerto, tão difícil de
ser desaprendido, de que o amor não é nada
suave, sublime... o amor é ‘terrível’.
Provocara fissuras tão difíceis de serem
esquecidas! Talvez ela devesse ter aprendido
na cartilha outra (naquela estudada por
aquela outra pessoa) – teria sido; Ah!
Seguramente fora na Cartilha Sodré... Só
(SOL)... dré – quase notas musicais para a sua
orquestra desalinhada – a amar sem exigir, a
amar sem solicitar. Mas sucumbiu! Quem
não sucumbiria? Até Simone de Beauvoir –
que ‘anos-luz’ da moça que aprendera na
cartilha Caminho Suave – havia tão bem
aprendido a lição sabida de cor de amar sem
posses, de amar sem sofreguidão, também
não fora capaz de não sentir, por fim, ciúmes
e desejar rever os contratos tracejados em
linhas pespontadas.
284
A orquestra descompassada da moça que
aprendera na cartilha ‘Caminho Suave’ não
soube ler o livro outro do primeiro amor.
Nem saberia as notas para sua (a sua
própria) melodia desalinhada. Os outros
“eus” dentro de si, desajustando a afinação
da orquestra – antes tão harmônica ou
parecia harmônica?
Na cartilha do outro talvez se pudesse
pensar em notas outras, diversas das suas, já
que a própria cartilha já trazia o ‘sol’? Aquela
aprenderia a alinhar as notas distintas de si e
construir uma orquestra mais harmônica?
Talvez!
Ela, por razões óbvias, só saberia manifestar
a nota ‘si’ e “Se” tivesse dado certo; e “Se”
tivesse sido outra a escolha; E “se” tivesse
não olhado para trás e seguido o curso
retilíneo, ainda assim traria dentro de “si” e
consigo o ‘rio seco de si’?
A nota ‘si’ em trocadilho ditando a lição da
condicional “Se”. Se tudo fosse diverso; Se
tudo fosse possível? Se ‘o novamente’
pudesse ser admissível?
285
Ficara e restará sempre com a condicional
“Se”; Se aquela tivesse respondido as cartas;
Se aquela tivesse realizado a conversa final e
definitiva; Se aquela pessoa restasse ao
alcance das mãos como seres amigos que
pareciam ser de longa data e de viagem
imprecisa? E o ‘se’ a ditar a lição da cartilha
não aprendida de que os ‘caminhos nunca
foram suaves’.
Não era fácil para ela ler o livro daquela que
se dizia ‘ser o mesmo livro, podes ler’! Não
aprendera a decodificar os códigos outros –
diversos dos seus. Aquela sempre criando
metáforas nas linhas e entrelinhas e esta
procurando ler a mesma história
culturalmente ensinada e dificilmente de ser
desaprendida (‘iriam ser felizes’), porque a
preleção havia sido amorosamente
aprendida e também ensinada desde a
infância quando principiou as elementares
letras e restituíra desorganizadamente os
primeiros rabiscos para a primeira e
indelével educadora.
Ela sempre procurando juntar os elos, os
nós, intentando amenizar as pequenas
ruindades calmas, das acanhadas aversões
que sorriem.
286
Ela tentando justificar as ausências,
compensando esta ou aquela
incompreensão com o fato de aquela outra
não ter podido dizer a história real de si. E
qual seria mesmo a história real de si?
Aquela estaria ali naquele livro prontamente
ofertado como se pudesse ser lido por ela?
Não poderia. Tanto o é que uma vez se
lançado no desafio de ‘o ler’, desaprendera
por completo como era mesmo ser a moça
que aprendera no ‘caminho suave’.
Pensava, precipitadamente, que vamos
modificando muito as páginas do livro até
mesmo por uma questão de tática de
sobrevivência, embora o mote do livro talvez
pudesse ser o mesmo. Pudesse?
O outro livro – pauta desconhecida – embora
acreditasse um dia saber decifrar o verbo! O
outro – linhas perfumadas – exalando versos
para outros olhos que não mais os seus! O
outro – cheiro distinto do seu – ainda
“eriçando a pele saudosa”. O outro – capa
entrevista por sentidos outros na longa e
incerta viagem, ainda longínqua dos contatos
seus! O outro – tópico diverso do seu – ainda
fazendo o coração saltitar feito “em quando
uma vez” caíra do balanço incerto da vida.
287
O outro – parágrafos já divisados antes
mesmo de sua chegada – ainda em estado
de plena cobiça.
Ela queria, pois, adentrar “o novamente” nos
parágrafos, nas frases, nas linhas, nos
acentos, nas vírgulas, nos trocadilhos – do
livro amado, mas não consentido. Não teria,
pois, o código judicioso para adentrar!
O livro ofertado (“Eu sou o mesmo livro,
podes ler”) até poderia ser o mesmo, mas
talvez ela nunca obtivesse nitidamente o
código para compreendê-lo! Agora, muito
embora, nem o livro seja o mesmo e não
podes ‘me ler’ como outrora pudera! Não
podes? E já pudera tanto e incontáveis vezes!
Se antes você colocara letra em minha
melodia e se acreditou que a recíproca
pudesse e fosse a mesma; no agora, a
orquestra é desarticulada, talvez eu esteja
em ‘dó sustenido’ e você em ‘ré bemol’ (na
essência a mesma ‘meia’ nota), mas na
prática estamos ‘sós’ a reproduzir a
orquestra malograda de nós mesmos.
Violinos, harpas, contrabaixos, pianos,
saxofones, koras, assim estaremos e
restaremos como outrora dissera aquela “em
desatino/desalinho”.
288
O livro – outrora porta entreaberta para a
sonhada felicidade – hoje acordes bemóis de
tristeza!
Os corpos se embrenharam
Pela cama, entre os lençóis
Cuidadosos, se encaixaram
Sincronismo, estavam a sós
Impulso do tesão, respiraram
Com o gozo que soou após.
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DESEJO LATENTE
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Seu corpo incendiava de tesão
Enquanto beijava aquela mulher,
Ora lentamente, ora intensamente,
Provando todo o sabor daquele beijo ,
Descendo pelo seu pescoço,
Chegando até o seu peito
Farto, gostoso, perfeito.
Chupou seu mamilo com avidez,
Seguiu beijando sua barriga
Onde suas pintas contavam histórias das
estrelas
Que foram unidas pela sua língua .
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DOSSIÊ EROS
EDIÇÃO 01
293