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História Indígena: uma abordagem teórico-metodológica nas pesquisas com/dos


indígenas

A partir dos anos 1990 com a expansão dos programas de pós-graduação no Brasil
houve um aumento significativo das pesquisas envolvendo a História Indígena. Contudo, os
estudos que visam fundamentar esse campo no país são recentes e ainda tímidos, nesse
sentido, é possível identificar diferentes problemáticas em abordar as pesquisas na História
Indígena, esse texto busca problematizar algumas situações envolvendo a produção
historiográfica nas pesquisas da História Indígena.

Longe de buscarmos certezas procuraremos, nesse texto, problematizar algumas


questões que possam vir a enriquecer ainda mais os trabalhos sobre a História Indígena. Dessa
forma, não no sentido de traçar conclusões ou buscar uma resposta definitiva, mas identificar
alguns desafios no trato das pesquisas desse campo. Para isso fundamentaremos a discussão
apoiados na História Cultural, levando em conta que é a partir da tomada de posição desse
campo historiográfico que se ampliou o debate sobre cultura, e (só) dessa forma, a História
consegue expandir os estudos sobre grupos étnicos.

O que podemos afirmar, é que esse é um campo impreterivelmente interdisciplinar


apontando para o dialogo com as áreas próximas principalmente a Antropologia, outro dato
indiscutível, é de que cada vez mais, a presença dos indígenas nas graduações e programas de
pós-graduações motiva a necessidade de repensarmos algumas categorias nas pesquisas dos
acadêmicos indígenas. Dessa forma, esse texto busca problematizar algumas dessas situações
envolvendo a produção historiográfica nas pesquisas da História Indígena.

Abordaremos a questão do método e do campo historiográfico das pesquisas que


envolvem a História Indígena. Por fim, apoiados em nossas experiências em um curso de
formação de professores indígenas pretendemos apresentar como estamos percebendo os
acadêmicos indígenas enquanto pesquisadores, atores e produtores de sua escrita histórica.

Contudo antes disso é preciso compreender como a historiografia desse campo vem se
renovando e sendo consolidada nos últimos anos, isso é como os grupos indígenas tem sido
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vistos pelos historiadores, e como a História Indígena enquanto campo, tem se desenvolvido a
partir do dialogo entre a História e a Antropologia, principalmente no que tange a segunda
metade do século XX.

Os indígenas na História Indígena: mudanças e renovações no campo historiográfico

A ampliação do campo e da noção de História Indígena entre os historiadores


possibilitou que diferentes grupos, em diferentes épocas, passassem a ter sua história
revisitada. Nesse sentido, parece estar bastante claro que a História dos grupos indígenas na
América não começou em 1492, com o “descobrimento”. Todavia a pesar de reconhecer que a
presença humana na América pode ter de 12 mil a 35 mil anos (CUNHA, 1992) nossas
observações aqui versarão sobre o contato entre as sociedades indígenas e não indígenas, e
como esses passaram a ser descritos pela historiografia.

Até pouco tempo os indígenas eram vistos na História do Brasil como povos que
desempenharam papeis muito secundários, como se estivessem sempre agindo a partir da
necessidade dos colonizadores. Em alguns momentos foram vistos como amigos, em outros
como inimigos, como bons e como maus, mas sempre como coadjuvantes na história dos
colonizadores. Maria Regina Celestino de Almeida em seu livro “Os índios na História do
Brasil” identifica nas análises sobre o período colonial três imagens dos povos indígenas:
“idealizados no passado”, “bárbaros do sertão” e “degradados” (ALMEIDA, 2010).

O primeiro grupo, “idealizados no passado” mostra a imagem de indígenas que foram


enaltecidos nas pinturas, nos romances e nas musicas. É o Guarani romântico de Jose de
Alencar e foi utilizado na criação na criação de um símbolo nacional. Sua imagem
corresponde - convenientemente segundo Cunha (1992) - ao “índio morto”, é o índio que
aparecem na história sem qualquer atitude de rebeldia ou de confronto, surgem apenas como
aliado dos portugueses a quem deviam lealdade.

Esse olhar pode ser identificado desde a criação do Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro IHGB, na tentativa de criar um símbolo para incluir na memória coletiva da
História do Brasil a presença indígena, mas um índio benevolente e aliado aos interesses dos
colonizadores.
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Uma segunda imagem pode ser identificada como os “bárbaros dos sertões”, que
correspondiam aos indígenas que se rebelavam, ocupavam e atacavam a terra dos imigrantes e
colonizadores. Contra esses índios “bárbaros” foram deliberadas as chamadas “Guerras
Justas” a partir de 1808, com a chegada da corte imperial ao Brasil. Podem ser ligados a esses
indígenas os grupos Botocudos, Kaingang entre outros.

Existia ainda outro grupo considerado os “degradados” que constituíam aqueles que
sempre em menos número eram vistos como “misturados” e já integrados ou em processo de
integração a sociedade nacional, embora sempre vistos como preguiçosos.

A forma de ver os grupos indígenas modificou a partir do desenvolvimento do campo


da História e do diálogo com a Antropologia. Para a mudança na concepção da História foi
fundamental a ampliação do conceito de cultura. Isso se dá a partir da consolidação da Nova
História Cultural. A cultura sempre foi objeto de estudo dos Historiadores, contudo essa
produção é ampliada a partir da metade do século XX. Se por um bom tempo o campo da
cultura foi extremamente reduzido (apenas a “alta cultura” como das obras literárias, das
artes, eram proclamadas como objetos da História), com a expansão do termo cultura, todos
os atos do cotidiano passam também a ser objetos de estudos. “ao existir, qualquer individuo
já está automaticamente produzindo cultura” (BARROS, 2010:57).

Um fundamental acontecimento para a consolidação do campo surge com a Nova


História Cultural, tributaria a chamada terceira geração dos Annales, fortalecida a partir de
1974, com a criação da coleção editada por Jacques Le Goff e Pierre Nora, “História: Novos
Problemas, Novas Abordagens; Novos Objetos”. Calcada na possibilidade de ampliar as
fontes para suas pesquisas, utiliza da interdisciplinaridade, dos diálogos entre a História e
principalmente a Antropologia, mas também as demais Ciências Sociais, o que possibilita aos
historiadores mudar o foco e o olhar nos estudos a acerca da presença humana na Historia.

Para Burke, a partir da ampliação do conceito de cultura, passa a ser levado em conta
“não apenas a arte, mas a cultura material, não apenas o escrito, mas o oral, não apenas o
drama, mas o ritual, não apenas a filosofia, mas as mentalidades das pessoas comuns. A vida
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cotidiana ou a ‘cultura cotidiana’”. (BURKE, 2000:246-247). Dessa forma, a concepção de


cultura adotada pela historiografia na Nova História Cultural considera a existência de
culturas diferentes, nem superiores, nem inferiores.

Para não nos determos apenas na Historiografia francesa, temos que considerar
também outra perspectiva importante para a renovação do campo da História Cultural, que é a
chamada Escola de Frankfurt, “tendência do Materialismo Histórico que propõe uma radical
renovação do marxismo e que incorpora um atento dialogo com a Psicanálise e com as teorias
da Comunicação” (BARROS, 2010:71) na busca pelo alargamento dos temas culturais da
vida cotidiana.

Importante pensador a partir da corrente do Materialismo Histórico, Habermas, propõe


um olhar sobre a “cultura de massas” onde a cultura é estruturada através de “símbolos” e,
claro, suas interpretações.

Habermas desenvolve o pressuposto inicial de que qualquer processo


comunicativo parte da utilização de regras semânticas inelegíveis para os
outros (...). O uso de idiomas, por exemplo, traria em si (...) determinadas
normas sociais que seriam evocadas automaticamente pelo emissor de um
discurso, com ou sem uma autorreflexão consciente deste processo
(BARROS 2010:72)

O que de fato nos aproxima do modo como interpretamos esses símbolos/discursos,


está amarado a concepções de cultura. Contudo, é preciso ressaltar que, pensar a cultura e a
linguagem possibilita ampliar os objetos para abordar a Historia Cultural. Dessa forma,
trabalhos fundamentais, para versar sobre as formas múltiplas de ver a cultura através da
linguagem, podem ser encontrados em Bakthin Cultura popular na Idade media e no
Renascimento, e em Todorov A conquista da América.

Enquanto na obra de Bakthin, o autor aborda o “dialogismo”, isto é as varias vozes


que podemos encontrar dentro de uma mesma prática cultural, ou mesmo de um texto.
Todorov em sua obra sobre a colonização da América nos possibilita refletir sobre alguns
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conceitos que se tornaram chaves para a Historia Cultural, como “alteridade cultural” e as
formas que compreendemos as análises narrativas.

A abordagem dialógica e polifônica da cultura abordada por Bakthin, e sua


fundamental análise de “circularidade cultural”, possibilitaram expandir ainda mais a
concepção de cultura.

Tomando alguns importantes historiados que elaboraram trabalhos fundamentais para


o desenvolvimento da Historia, podemos citar os trabalhos de Michel de Certeau e sua relação
com o cotidiano que aparece como contraponto a historia dos grandes eventos. Do mesmo
modo, importantes são as observações de Roger Chartier sobre “prática” e “representação”, os
quais passam a ser a ação do exame dos historiadores.

Todos esses elementos, embora resumidamente aqui expostos, possibilitaram aos


historiadores dialogar com a antropologia, e assim propor novas formas de escrever a historia
e compreender as práticas culturais dos grupos étnicos.

Nesse sentido, temos que ressaltar que a forma como a Antropologia e a História
abordavam as comunidades indígenas, também era a forma como o Estado tratava esses
grupos. Assim viam a cultura como estágios que com fazes de desenvolvimento aonde os
indígenas iriam de um estagio primitivo ao civilizado. Essa perspectiva orientaram a
intervenção e as políticas para as sociedades indígenas, como também na academia. Ainda na
década de 1970, os indígenas eram vistos no Brasil como sociedades fadadas ao
desaparecimento, e assim não mereceriam a atenção dos historiadores (CUNHA, 1992).

Passo importante para a compreensão dos grupos étnicos se da a partir das analises de
etnicidade elaboradas por Barth. Para além do caráter organizacional dos grupos étnicos e de
suas fronteiras, as concepções de identidade étnica e etnicidade de Barth passam a auxiliar os
historiadores a compreender melhor as sociedades indígenas. Se antes a definição era dada
excessivamente por questões culturais, passa agora a ser adotada a organização social dos
grupos para compreender as identidades. “Esta história produziu um mundo de povos
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separados, cada um com sua cultura própria e organizado numa sociedade que podemos
legitimamente isolar para descrevê-la como se fosse uma ilha”. (BARTH, 1998:190).

Para Barth, a concepção de etnicidade se dá através do contato com outros grupos,


pela autoatribuição, mas também pelo reconhecimento de “outro”, seja pela classificação
básica, ou pelo simples caráter de se compreender “diferente” do grupo a que pertence. “Se
eles dizem que são A, em oposição a outra categoria B da mesma ordem, eles estão querendo
ser tratados e querem ver seus próprios comportamentos como de As e não de Bs”. (BARTH,
1998:195). Essa posição é assumida também por Pacheco de Oliveira (1999) sobre os
processos de identificação. Ele aborda a identificação étnica como o princípio da
autoidentificação, e o reconhecimento pelos pares, como também o reconhecimento de uma
identidade diferenciada da sociedade majoritária.

Dessa forma, importante também é identificar a ampliação que o estudo proposto por
Sahlins permitiu, ao considerar também a estrutura e o evento. Em sua obra “Ilhas deu
Historia” o autor aborta a conjuntura do que chama de "estrutura da conjuntura", define que
ao mesmo tempo em que as categorias culturais tradicionais se reproduzem também são
atribuídos novos valores, assim para o autor ao mesmo tempo em que as categorias
tradicionais se reproduzem também lhes são atribuídas novos valores a tradição. Nesse
sentido, as estruturas do presente também são estruturas do passado, logo a construção
histórica acontece em um conjunto interminável entre a prática da estrutura e a estrutura da
prática.

Essa “renovação” por assim dizer, proporcionou o desenvolvimento da História


Indígena no que refere a revisitação de histórias já escritas, como também possibilitou a
ampliação de novos objetos para o trabalho dos historiadores. Para titulo de exemplo podemos
mencionar dois trabalhos basilares sobre o que estamos demonstrando.

O primeiro é a obra “Negros da Terra” de John Manuel Monteiro, que propõe um novo
olhar a respeito das ações dos bandeirantes de São Paulo. Demonstrando os diferentes
momentos da história onde os bandeirantes penetraram o território brasileiro. A originalidade
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da obra se dá pelo fato de modificar o olhar sobre os bandeirantes, se antes eram vistos como
verdadeiros heróis nacionais, e conquistadores responsáveis pela expansão das terras
brasileiras, agora são mostrados como colonizadores que com interesses bem pessoais, aonde
as expedições tinham por objetivo a busca pela mão de obra indígena. O que garantiu o
desenvolvimento da região de São Paulo.

Outra obra não menos importante e que modificou a forma de estudar os grupos
indígenas é o artigo de João Pacheco de Oliveira publicado na Revista de Antropologia do
Museu Nacional intitulado “Etnologia dos Índios misturados? Situação colonial,
territorialização e fluxos colônias”. O artigo aborda a questão dos grupos indígenas do
nordeste brasileiro (embora Pacheco de Oliveira refute o nome índios do Nordeste, por
considerar que essa denominação foi adotada não pior questões sociais, ambientais ou pelo
processo histórico que as populações passaram, mas por uma questão geográfica em uma
denominação completamente ocidental). Como essas populações eram consideradas
integradas a sociedade nacional e “já misturadas” até pouco tempo (pelas concepções
antropológicas já discutidas anteriormente) é com o processo de etnogenese que o autor está
interessado.

Pacheco de Oliveira critica os antropólogos americanistas, que estariam mais


preocupados em se debruçar sobre os grupos indígenas da Amazônia, relegando assim a
etnologia sobre as populações indígenas do nordeste como uma “etnologia menor”. Não nos
cabe aqui discutir as críticas do autor, o certo é que sua discussão sobre “as perdas e ausências
culturais” e “distintividade cultural” abre um legue de novas possibilidades para a
investigação antropológica e histórica, inclusive para novos estudos de demarcação de terras
indígenas para grupos que até então eram considerados extintos.

O autor então adota uma opção pela Antropologia Histórica, pois está preocupado em
não esquecer a historia da colonização que os povos indígenas passaram. Essa noção torna-se
fundamental nos trabalhos que envolvem a História Indígena.

Para além dos objetos de investigação que só se tornaram possíveis de serem


estudados a partir da ampliação do campo da História Indígena, é preciso ainda analisar e se
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debruçar sobre como as opções metodológicas tem contribuído para a ampliação do debate
sobre a História Indígena.

Etno-história ou História Indígena: uma questão de método

O termo etno-história aparece pela primeira vez em 1909, no trabalho de Clark


Wisseler (EREMITES DE OLIVEIRA, 2003), quando utilizou fontes escritas e documentais,
além de dados arqueológicos, para fazer a história das sociedades indígenas. Almejava-se,
inicialmente, que a etno-história permitisse contar a História dos povos sem escrita, a partir de
fontes produzidas por outros povos. Para isso, esses povos já deveriam estar em contato
colonial.

Contudo, é só a partir de 1950 que a etno-história se solidifica na América do Norte,


tanto como disciplina quanto como método. Quando consolidada, passa a ser compreendida
como um método interdisciplinar. A partir de então, a etno-história, enquanto disciplina
isolada, não é mais reconhecida pela academia. Apesar disso, Eremites de Oliveira (2003)
percebe que no Brasil ainda se faz confusão entre a etno-história e a História Indígena.

O termo história indígena tem sido usado como um neologismo científico,


[...] [alguns abordam como a] história que os historiadores e outros cientistas
sociais fazem sobre a trajetória dos povos ameríndios ou trata-se, segundo
propôs Bartomeu Melià (1991), da própria história contada e interpretada
pelos indígenas, que para ele melhor a conhece por meio da tradição oral.
(EREMITES DE OLIVEIRA, 2003:39-40).

Dentre as discussões que compreendem a etno-história, fato consensual é que hoje ela
é tida como um método que pode ser utilizado tanto pela Antropologia quanto pela História,
mas também pelas demais áreas das Ciências Sociais. Infere-se que a etno-história não é uma
disciplina autônoma, mas uma metodologia usada por pesquisadores que devem possuir “no
sólo la habilidad de un buen historiador convencional sino que también un sólido
conocimiento de etnografía, si quiere ser capaz de evaluar las fuentes e interpretarlas con un
razonable entendimiento de las percepciones y motivaciones del pueblo nativo involucrado”.
(TRIGGER, 1982 apud, ALCAMÁN, 1997).
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É preciso ressaltar ainda que, no Brasil, a demora em se solidificar esse tipo de método
é decorrente da própria concepção que História e a Antropologia tinham das sociedades
indígenas. Segundo Manuela Carneiro da Cunha, em seu livro “História Dos Índios No
Brasil”, - a primeira grande coleção a abordar a História das sociedades indígenas - ainda na
década de 1970, os indígenas eram tidos como povos que, além de não ter passado, estavam
fadados ao desaparecimento, logo não mereciam atenção maior de historiadores e
antropólogos. Assim a História Indígena como campo é muito recente no Brasil

No Brasil, um dos primeiros fóruns onde se discutiu a temática foi o Grupo


de Trabalho “História Indígena e do Indigenismo”, coordenado por Manuela
Carneiro da Cunha, da USP, que realizou o seu primeiro encontro formal em
1984, no quadro da reunião da ANPOCS - Associação Nacional de Pós-
Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais. (...) A partir desse encontro,
algumas universidades brasileiras passaram a integrar a disciplina em seus
programas curriculares. No primeiro semestre de 1985, Etno-história é
oferecida na Pós-Graduação da UNICAMP (SP). No segundo semestre do
mesmo ano, o Curso de História da Universidade Federal do Amazonas
reformula sua grade curricular, introduzindo esta disciplina na graduação.
Logo depois, ocorre mudança similar na Universidade Federal da Bahia,
seguida de algumas outras instituições de ensino superior. (FREIRE, s/d).

Nos últimos anos ainda diferentes episódios tem contribuído para o aumento dos
debates com relação a História Indígena. Podemos citar a Lei 11.645 de 2008, que determinar
a inclusão nos currículos escolares da Educação Básica o ensino da história e culturas dos
povos indígenas no Brasil, mas também a partir da criação e do acesso dos próprios grupos
indígenas ao ensino superior permitiu que eles passassem a serem também os protagonistas de
suas historiografias, fato que ainda é recente e que tem ganhado espaço no debate sobre a
História Indígena.

História Indígena e os indígenas como escritores de suas Histórias

Com o aumento das discussões sobre a História indígena e a própria popularização de


pesquisas com essa temática, outra concepção de História Indígena passa a ser formulada. A
ideia de que existiriam duas formas opostas do fazer História Indígena, uma concepção êmica
e a outra ética. O primeiro aspecto dá conta de uma história indígena êmica, que só partiria de
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dentro da cultura indígena, pois para isso seria necessário descobrir esquemas culturais
internos como a própria língua, além de valores morais próprios da comunidade. A história
êmica seria a representação que estes fazem de si mesmos e se constituiria na ‘verdadeira’
História Indígena.

Em contraponto, a história ética seria a interpretação realizada a partir de categorias de


análises de fora da cultura, das categorias de linguagem científica. “a aparente dicotomia entre
o ético e “êmico”, remete a uma longa e antiga discussão aparentemente longe de um
entendimento consensual: história/eventos/diacronia versus estrutura/mitos/sincronia”
(EREMITES DE OLIVEIRA, 2003:40). É preciso dessa forma então compreender que “a
visão que os próprios nativos constroem sobre sua trajetória é, em muitos casos, impregnada
por complexas representações simbólicas não facilmente decodificáveis e passíveis de serem
ordenadas em termos temporais” (Idem).

Vemos, portanto, que realizar uma história êmica pode ser um processo muito
complicado, pois é preciso levar em conta que em uma comunidade indígena os sujeitos não
são iguais. Nesse sentido, um rezador, um xamã, deterá muito mais conhecimento da história
e da cultura na comunidade do que um sujeito qualquer (LARAIA, 2004).

De outra sorte, temos que considerar outro fator que impossibilita uma história êmica.
É basilar o julgamento de que não existe “uma” História da sociedade indígena - salvo
algumas particularidades que possam ter ocorrido no sentido de alguma “História oficial” de
alguma região ou de alguma Terra Indígena – o que de fato se observa, são histórias de
famílias. Cada ator indígena conta à forma como a sua família, seus antepassados, foram parar
em determinado local. A única história compartilhada é aquela que toma forma de mito.

Outro fato que começa a ser debatido é com relação do aumento, nos últimos anos, de
indígenas no Ensino Superior. É grande o número de acadêmicos indígenas que se dedicam a
abordar temas sobre sua comunidade nas áreas de História ou Antropologia. Estamos diante
de um fenômeno que em pouco tempo poderá reconstituir uma nova concepção da etno-
história. Contudo, faz-se necessário observar que apesar desses atores e interlocutores
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indígenas estarem em posição privilegiada, não haverá garantia de que surja uma nova
concepção, uma nova etnociência, em virtude do local de produção do saber.
(CAVALCANTE, 2010)

Este é um fenômeno ainda muito recente e conclusões acerca dele podem ser
precipitadas, pois ainda não é possível saber o exato alcance e a repercussão
que essas pesquisas terão. Não há dúvida, no entanto, de que um pesquisador
indígena que se dedica à história de sua própria etnia está em condições
muito mais favoráveis do que a maioria dos outros pesquisadores para
analisar a história desse povo, sobretudo a partir de uma perspectiva êmica.
Nesse sentido, tudo indica que logo se terá acesso a trabalhos com uma
perspectiva renovada e rica, especialmente para os povos indígenas.
(CAVALCANTE. 2011:358)

Como docente de um curso de licenciatura intercultural indígena, nos colocamos em


situação privilegiada ao analisar os trabalhos de conclusão de curso desenvolvidos pelos
alunos. Estamos falando do curso de graduação em Licenciatura Intercultural – Teko Arandu
curso específico para indígenas das etnias Guarani e Kaiowá da Universidade Federal da
Grande Dourados. Este Curso tem como objetivo habilitar os professores Guarani e Kaiowá,
em nível superior de licenciatura, para o atendimento à Educação Escolar Indígena, conforme
preconiza a Lei, nos níveis do Ensino Fundamental e Médio, nas modalidades da Educação
Básica, especialmente nas escolas de suas comunidades, tanto na docência como na gestão
escolar.

O curso esta organizado em dois blocos, sendo o primeiro parte de uma formação
comum que engloba a educação escolar indígena naquilo que compreende seus fundamentos
pedagógicos, linguísticos e legais. O segundo bloco faz parte de uma formação especifica nas
áreas que o curso habilita: matemática, linguagem e seus códigos, ciências sociais e ciências
da natureza. O curso que já esta em sua quarta turma e tem marcado a colação de grau da
segunda turma

No final do curso os acadêmicos tem a oportunidade de desenvolverem um trabalho de


conclusão de curso o TCC é um componente/módulo que integra o Projeto Pedagógico do
curso e tem como objetivo possibilitar aos discentes do curso desenvolvimento de pesquisa
12

contemplando prioritariamente as atividades relacionadas aos processos de ensino e


aprendizagem, considerando entre outras coisas recuperação de suas memórias históricas, a
reafirmação de suas identidades étnicas e a valorização de suas línguas e de suas culturas, a
pesquisa e registro do conhecimento tradicional dos grupos familiares, da aldeia e das etnias
Guarani e Kaiowá, valorizando as narrativas históricas para compreender as concepções de
mundo e o modo de vida do grupo.

A partir das situações observadas no desenvolvimento dos trabalhos pelos acadêmicos


indígenas, principalmente nos trabalhos que envolvem uma pesquisa histórica, podemos
observar diferentes situações que nos fazem refletir as discussões apresentadas anteriormente.

O principal elemento que aparece nas pesquisas dos acadêmicos indígenas que nos faz
refletir na produção da escrita da História Indígena é a resistência que os acadêmicos têm com
a literatura já produzida sobre a temática pesquisada. Reconhecem que estão em um espaço
privilegiado para a construção de suas narrativas históricas, mas encontram resistência em
tomar o que já foi escrito pelos pesquisadores karai, isso é o pesquisador branco não indígena.

Os argumentos para essa resistência são diversos: os pesquisadores que produziram


textos sobre as suas comunidades escreverem sobre o que não conheciam, ou sobre uma
cultura que não era a sua, em oposição à situação dos acadêmicos indígenas; outro argumento
é que os locais e a região pesquisada e os interlocutores das pesquisas dos karai em muitos
casos foram às comunidades onde eles vivem, e os pais, tios ou avós que foram os sujeitos
entrevistados por esses pesquisadores.

Essa mesma resistência pode ser encontrada com relação às fontes ditas oficiais,
encontramos imprecisões de datas, dados e acontecimento nas escritas dos acadêmicos
indígenas, o argumento também é o mesmo, se o fato aconteceu em sua comunidade, os mais
velhos ou a sua parentela tem conhecimento disso. Sendo assim, não é necessário pesquisar
em outros lugares para escrever algo que a sua família tem conhecimento.
13

Obviamente que é preciso problematizar essas pesquisas e essas escritas indígenas,


contudo repudiamos desclassificar esses trabalhos, ou mesmo caracteriza-los apenas como
fontes, aonde só após a análise de um “pesquisador de verdade” pode tomar o que foi escrito
como relevante. Da mesma forma, como já comentamos não se pode supervalorizar essas
pesquisas e considera-las apenas essas como verdadeiras.

Retomando a discussão inicial é preciso considerar que, na historiografia


contemporânea o historiador é um sujeito inserido em seu tempo, logo, ator da sua
representação de historicidade. Diante disso, precisamos ter cuidado de não considerarmos
que a história escrita pelos indígenas será a verdadeira história indígena, uma história melhor
ou pior do que a escrita por um não indígena. Poderá conter, sim, uma nova concepção do
fazer história.

Para além das disputas teóricas envolvidas, reforçamos que compreendemos a etno-
história como um método interdisciplinar que possibilita analisar historicamente as sociedades
indígenas. Disciplinarmente, contudo, o campo no qual nos inserimos é o da História
Indígena. Esse campo ainda pode ser abordado de diferentes perspectivas. Primeiramente, no
sentido de uma História Indígena, como costumeiramente se fez a História do Brasil, quando
em parte da História do Brasil é contado o contato do europeu com o indígena.

Outra abordagem é aquela que considera a História de cada povo, e/ou a sua relação
com outros povos, sejam indígenas ou não-indígenas. Desse modo, a História indígena pode
remeter à História do indigenismo, ou mesmo à relação dos indígenas com o Estado, com as
missões religiosas, com as Organizações não Governamentais ONG’s, com a escola, dentre
outras possibilidades.

Enfim para concluir a discussão do debate proposto, cabe considerar que precisamos
levar em conta a mudança na área e as concepções sobre o campo histórico atual.
Acreditamos que o desafia atual não deveria mais estar relacionado sobre a legitimidade do
uso de determinadas metodologias ou fontes para justificar a sua validade nas pesquisas em
História Indígena, assim como não cabe desqualificar ou supervalorizar as pesquisas
14

historiográficas pelos atores dessa escrita ser indígenas. Ao buscarmos na academia qualificar
os trabalhos desenvolvidos, seria contraditório procurar desenvolver, nos moldes acadêmicos,
pesquisas com a perspectiva êmica.

Da mesma forma, que valorizamos as perspectivas multidisciplinares nos diálogos


com a Antropologia e a Ciência Social, que só foram possíveis a partir da renovação
historiografia, chamamos a atenção para a necessidade de ampliação do debate teórico-
metodológico no campo da História Indígena, que ainda é tímido visto o conservadorismo da
área. A ampliação do debate reforça o campo da História Indígena tornando as pesquisas
ainda mais qualificadas no extrato da historiografia, sem que essa linha precise se encontrar
na reduzida ou na periferia dos historiadores.

Referencias Bibliográficas

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