PONTIFÍCIO ATENEU SANTO ANSELMO
Faculdade de Teologia
INSTITUTO SÃO PAULO DE ESTUDOS SUPERIORES
SALMO 22(21)
SOFRIMENTO E ESPERANÇA DO JUSTO
ANÁLISE DO SALMO 22
SILVA, Valdir Carneiro
Salmos
Prof.º Dra. Maria Antônia Marques
São Paulo
2024
SALMO 22(21)
SOFRIMENTO E ESPERANÇA DO JUSTO
ANÁLISE DO SALMO 22
1.1. ENTENDENDO O SALMO 22
O Salmo 22 é um texto rico em significados e simbolismos, que expressa a fé e a
confiança de um fiel que passa por momentos de angústia e sofrimento, mas que não
perde a esperança na salvação de Deus. Esse salmo foi composto em um contexto
histórico de opressão e violência, provavelmente durante o exílio na Babilônia, quando o
povo de Israel se sentia abandonado e desamparado por Deus. O Exilio ocorreu em
597a.c, a cidade de Jerusalém sofre a sua primeira invasão pelas tropas do rei babilônico
Nabucodonosor e tem o seu Templo saqueado. O então rei de Judá, Joaquin (597), que
herdara há poucos meses um reino em guerra contra a maior potência de então, paga,
juntamente com sua corte e boa parte da elite de Judá, pela errônea decisão de seu pai,
Joaquim (608-598), de revoltar-se contra o domínio da Babilônia. Assim, parte da elite
judaica é deportada.
Para governar Judá, Nabucodonosor impõe o ambíguo rei Sedecias. Este movido
por sua corte descontente com o jugo babilônico, em 587 se revolta contra sua suserana a
qual, após um breve cerco a Judá, entra em Jerusalém, destrói o templo e a cidade,
fazendo que os filhos mais ilustres de Judá morram pela espada ou sejam deportados. E,
com esse evento tem início a fase mais importante da solidificação do judaísmo enquanto
religião.1 Por isso, o salmista clama por socorro e pede que Deus não se afaste dele, pois
ele é o seu único refúgio e proteção. Ao mesmo tempo, o salmista reconhece que Deus é
fiel e poderoso, que ele sempre ouviu e salvou os seus antepassados, e que ele é o rei e o
senhor de toda a criação. O salmista louva a Deus e anuncia as suas maravilhas às futuras
gerações, convidando todos os povos a se prostrarem diante dele e a celebrarem a sua
bondade e misericórdia.
Dessa forma, pode-se considerar o exílio babilônio como uma espécie de
escravidão análoga que os hebreus sofreram no Egito. Estudos revelam que os exilados
1
DONNER, Herbert. História de Israel e dos povos vizinhos. São Leopoldo, RS: Sinodal; Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.
2 v.. p.435
de Judá tinham as mesmas liberdades que os cidadãos babilônios. Eles tinham a liberdade
de culto e podiam se organizar de forma espontânea. Eles não foram “escravos”. A única
limitação que os mantinham na Babilônia era a ausência do direito de retornarem à sua
terra natal. Dessa forma, os textos bíblicos deste período mostram mais o estado de
espírito do povo exilado do que sua real situação. Dessa forma, é possível concluir com
Herbert Donner que “os sofrimentos dos exilados eram internos e daí poderiam ter
surgido as inspirações desses salmos e não se baseavam nas suas condições de vida”2.
Esse salmo é uma profecia messiânica, pois antecipa os sofrimentos e a glória de
Jesus Cristo, o filho de Deus, que foi rejeitado e crucificado pelos seus inimigos, mas que
ressuscitou dos mortos e recebeu toda a autoridade no céu e na terra. Por isso, os cristãos
veem nesse salmo um testemunho da paixão e da ressurreição de Jesus, que é o
cumprimento das promessas de Deus para a humanidade.
A divisão do salmo ocorre assim: pode ser dividido em três partes principais: nos
versículos 2-22 vemos que o salmista está com a vida por um triz e pode-se observar que
a pessoa está tão abatida que se sente abandonada por todos, porém que a recordação de
Javé e sua aliança lhe dão forças para continuar suplicando; de 23-27 a situação muda, de
modo que o orante começa a cantar os benefícios do Senhor,[...]porque ele não
desprezou, não desdenhou a pobreza do pobre, nem lhe ocultou sua face, mas ouviu-o,
quando ele gritou”'. A terceira parte, 28,32, vemos um subtipo que é um hino a Javé,
enquadrando-os aos hinos da realeza do Senhor.
O salmo possui figuras muito fortes, as quais remontam animais ferrosos, que
despedaçam o "ser” daquele que está aflito, seu temor é tão grande que usa dessas
linguagens muito comuns naquela época para qualificar o seu opressor. Mas Deus tem
uma visão consoladora: “é comparado a uma parteira (10) guerreiro (20) herói (22) e rei
(29)”3; além disso, é retomado a figura da fidelidade de Javé para com a aliança para com
seu povo eleito, pois o próprio povo o louva, como vemos nos versículos 4-6.
Esse salmo deve ter-se originado pela oração contínua de pessoas justas que
entravam em conflito com gente injusta, o que mostra os diversos conflitos da sociedade
2
DONNER, Herbert. História de Israel e dos povos vizinhos. São Leopoldo, RS: Sinodal; Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.
2 v.. p.435
3
[Link],Conhecer e rezar os salmos: Comentário popular para nossos dias, Paulus, São Paulo 2000,22.
o que o salmo tenta nos dizer é que o injusto não respeita a vida e liberdade dos demais e
os oprimem. Pelos próprios elementos apresentados pelo salmista é possível afirmar que
as pessoas que rezavam essa oração eram gente pobre e sofrida.
É tão visível o sofrimento que a pessoa se sente completamente abandonado, pois
diz:” “[...] eu grito de dia, e não me respondes, de noite, e nunca tenho
Descanso”4,revelando-nos que esse servo sofredor clama sem sessar, contudo, não é
atendido, como se Javé fosse surdo a suas súplicas esse Deus o qual tirou- do ventre
materno e era Eleo seu Deus5.
O próprio profeta Jeremias quando narra sua vocação mostra sua consagração
desde o ventre materno, porque foi Javé quem o modelou nas entranhas de sua mãe 6. É
papel profético denunciar a iniquidade dos perversos, mas enquanto profeta sua única
certeza é na justiça de Deus que não tardará, como o próprio Cristo diz:”E Deus não faria
justiça a seus eleitos que clamam a ele dia e noite, mesmo que os faça esperar? Digo-vos
que lhes fará justiça muito em breve”7.
Ademais, por mais que Deus pareça estar surdo as orações, permitindo tantas
aflições ao seu servo fiel, todavia a oração não cessa, porque passa a clamar pela
memória de seus antepassados. De fato, se Deus libertou Israel de tantos perigos durante
a história da salvação, como a libertação da escravidão, também o libertará desses cães
numerosos que o despedaçam. É interessante ressaltar que é por causa dessa memória e
dessa aliança que se mantém fiel a lei da justiça e na oração incessante. No fim o salmista
reza sua libertação e sua própria descendência irá servir a Deus para sempre e cantar os
grandes feitos do Senhor.
Este salmo pode ser dividido em dois segmentos: o primeiro (2-22) expressa o
lamento do salmista, que se sente perseguido pelos seus inimigos e clama pela
intervenção divina, recordando a aliança que Deus estabeleceu com os seus antepassados.
O segundo (23-30) celebra a ação de graças do salmista, que reconhece ter sido atendido
4
S122,3.
5
Conf. S1 22,10ss.
6
Conf. Jr 1,5.
7
Lc 18,7s.
por Deus e proclama que as futuras gerações continuarão a servi-lo e a louvá-lo
eternamente. “Isso é suficiente para explicar as diferenças, sem a necessidade de admitir
dois autores diferentes”?
Segundo o que nos expõe Artur Weiser 8, é provável que esse salmo foi
apresentado ao culto após algum fiel que o redigiu ou rezou ao ser atendido. E conforme
o tempo passou na vida dessa comunidade, o salmo continuou a ser rezado em situações
específicas e durante muitos anos sofreu alterações que o atualizasse.
1.2. DIVISÃO E HERMENÊUTICA DO SALMO
A estrutura do salmo 22 pode ser dividida em duas partes principais, conforme a
proposta de Bortolini em sua obra "Os Salmos e o Projeto de Deus". A primeira parte (2-
22) expressa a angústia e a confiança do salmista, que se sente abandonado por Deus,
mas não perde a esperança em sua intervenção salvadora. A segunda parte (23-32) revela
a gratidão e o louvor do salmista, que reconhece o agir de Deus em sua vida e proclama
sua fidelidade diante da comunidade. Neste comentário, faremos uma análise
hermenêutica de cada uma dessas partes, buscando destacar os aspectos teológicos e
literários do texto.
Neste texto, o autor reflete sobre os versículos 2-3 do Salmo 22, que expressam o
lamento de alguém que se sente abandonado por Deus. Ele destaca a contradição entre a
fé na bondade de Deus e a experiência do silêncio divino diante do sofrimento humano.
Ele se identifica com as pessoas que clamam por justiça e não são ouvidas, mas também
se lembra da esperança cristã de que Deus não se esquece dos pobres e oprimidos, mas os
exalta e os convida para a sua comunhão. O autor usa um tom profissional e respeitoso,
sem julgar ou criticar a Deus ou as pessoas que sofrem, mas buscando compreender o
mistério da providência divina.
Os versículos 4-6 do Salmo 65 nos lembram da fidelidade de Deus para com o seu
povo, que fez uma aliança com os seus antepassados e os libertou da escravidão no Egito.
8
A. WEISER, Os salmos:Grande Comentário Biblico, Paulus, São Paulo 1994, 158.
Essa aliança foi renovada no Templo de Jerusalém, onde Deus habita e recebe o
louvor, a adoração, a gratidão e as ofertas dos seus fiéis. O salmista recorda as maravilhas
e os milagres que Deus realizou na história do seu povo, especialmente através de
Moisés, o grande líder e profeta. O Templo é o lugar onde Deus se manifesta e se
comunica com o seu povo, e por isso é o centro da vida religiosa e social de Israel.
Nos versículos 7-9, observamos duas atitudes do salmista: a de se prostrar Diante
da majestade de Deus, reconhecendo sua fragilidade e necessidade de sua graça, e a de
clamar por sua intervenção, relatando a Deus como ele está sendo desprezado e zombado
pelos seus inimigos. A primeira atitude revela a fé e a confiança do salmista no Deus
Javé, que é o único digno de louvor e adoração. A segunda atitude expressa a angústia e o
sofrimento do salmista, que espera pelo socorro divino.
O problema se torna quando a humilhação provém de uma injustiça; mas o grande
problema aqui é este: “Que ele recorra a Iahweh, que ele o liberte, que o salve, se é que o
ama”9. Veja que isto está em consonância com os versículos 2 e 3, onde aparentemente
Deus está surdo à oração, porém quando essa situação é constatada pelos seus
adversários, a tristeza do injuriado se torna comprovadamente maior e chega a abalar o
coração de quem o reza.
No próximo núcleo, 10-12, o fiel mostra que Deus sempre foi próximo dele, desde
o ventre materno e consagrado, no Templo e segundo a lei, a Javé, como se vê nessa
passagem: “eu fui lançado a ti ao sair das entranhas, tu és o meu Deus desde o ventre
materno”[Link] versículo 12, o salmista pede a Deus que volte a estar perto, como outrora
era próximo a ele. É muito bonito ver como é construído o vínculo com Deus neste
período, em que Deus tem conotação de cuidar do humano desde sua formação inicial até
o fim de sua vida.
No cristianismo esse amor é extrapolado até as últimas consequências com o
sacrifício pascal de Cristo e sua ressurreição, a qual tem o enfoque no resgate da vida dos
que morreram, porque “É custosa aos olhos de Iahweh a morte dos seus féis”11. A morte
9
S1 22,9.
10
S1 22,11
11
S1 116,15
rompe os laços do homem para com seu Criador, porque segundo a tradição judaica “Os
mortos já não louvam a Iahweh, nem os que descem ao lugar do Silêncio”12
A existência humana é marcada pela vida e pela morte, e ninguém pode fugir
dessa realidade. Mas a esperança de Cristo renova o meu espírito. Essa promessa de estar
como Pai eternamente é o que me motiva a resistir ao mal e aos seus agentes, até o fim.
Somente Deus pode satisfazer a minha vida, por isso, me dediquei a Ele como o salmista,
desde a minha mocidade louvo o Senhor!
Há uma relação entre os versículos 13 e 14, que falam do terror dos opressores, os
quais se assemelham a touros fortes, amedrontando o injuriado, como vemos nos
versículos 15-16, fazendo com que ele diga: “Eu me derramo como água e meus ossos
todos se desconjuntam; meu coração está como a cera, derretendo-se dentro de
mim[..]”13. O terror que derrete o coração como cera, deve ter sido uma situação
totalmente horrível. Nos versículos 17-19 temos uma situação intrigante: os malfeitores
rodeiam o fiel como uma matilha de cães furiosos, enquanto “[...] as pessoas me olham e
me veem”14. Não há ninguém que o defenda? Nenhum justo? Alguém que se arrisque? A
resposta é não, pois a única esperança dessa pessoa que clama com sua alma abatida é a
salvação de seu Deus.
O salmista continua a suplicar a Deus por socorro no versículo 20, repetindo o
apelo do versículo 12 para que Ele não se afaste dele em sua angústia. Ele clama por
libertação da morte, que é representada pela espada que ameaça sua vida; da opressão,
que é comparada à pata de um cão que o persegue; da violência, que é ilustrada pelo leão
que o devora e pelo búfalo que o ataca. São imagens fortes que expressam o sofrimento e
o perigo que o salmista enfrenta.
No versículo 23, porém, há uma mudança de tom no salmo, pois o salmista passa
a falar como alguém que foi salvo por Deus de seus inimigos. Ele declara que vai
proclamar as obras de Deus no culto, diante da grande assembleia. Ele se refere ao
Templo de Jerusalém, onde se rezava o louvor e a adoração a Javé. No versículo 24, ele
12
Sl 115,17
13
S1 22,15.
14
S122,18
convida os descendentes de Israel a temerem e glorificarem a Javé, sem excluir os demais
povos que se uniram à fé dos filhos de Abraão.
O versículo 25 é uma chave fundamental para o salmo, porque é nele que vem
nossa afirmação de que Deus realmente libertou o orante, como uma resposta do louvor
da assembleia:” Sim, pois ele não desprezou, não desdenhou a pobreza do pobre, nem lhe
ocultou sua face, mas ouviu-o, quando ele gritou”.
O versículo 26 é uma nova afirmação da fidelidade do salmista, já que ao
permanecer fiel a Deus durante o período da tribulação, continuará fiel até o fim,
cumprindo suas promessas ao altíssimo. O versículo 27 insere novamente a Esperança
para aqueles que rezam o salmo, de que “os pobres comerão e ficarão saciados, louvarão
a Iahweh aqueles que o buscam [..]”. Em outras palavras, poderia dizer que “aqueles que
permanecem fiéis à lei (aliança) serão consolados e socorridos por Deus. Quando
clamarem, Javé os atenderá".
Os versículos 28-30 do Salmo 22 expressam a visão de um reino universal de
Deus, no qual todos os povos e nações se curvam diante da sua majestade e reconhecendo
seu domínio. Essa visão reflete a esperança de um povo que experimentou o exílio, a
opressão e a humilhação, mas que confia na fidelidade e na justiça de Deus. O versículo
30, porém, revela uma limitação dessa esperança: somente os vivos podem louvar a Deus.
A morte é o fim da adoração e da comunhão com Deus. Por isso, a importância de gerar
descendentes que perpetuem o nome e a obra de Deus para as gerações futuras. Assim, o
salmista expressa a sua fé em um Deus que é Senhor da história e da vida, mas também
reconhece a fragilidade humana diante da morte.
1.3. CONCLUSÃO
O Salmo 22 é um testemunho de fé e esperança de alguém que enfrenta muitas
dificuldades e perseguições por causa da sua fidelidade a Deus. É no salmo que o fiel
expressa sua angústia e sua confiança em Deus, que não o abandona, mas o socorre e o
salva. Ele reconhece que Deus é o seu pastor, que o conduz pelos caminhos da justiça e
da paz.
Este salmo que escolhi nos faz lembrar de Jesus Cristo, que viveu a plenitude da
obediência e do amor a Deus, mesmo sofrendo a rejeição e a violência dos homens. Ele
se identificou com os pobres e os oprimidos, e entregou sua vida na cruz por nossa
salvação. Ele foi humilhado e crucificado, mas Deus o ressuscitou e o exaltou. Em sua
ressureição, ele abriu as portas da vida eterna com o pai.
Ao refletir sobre este salmo em nosso contexto contemporâneo, eu fico pensando
as pessoas que hoje vivem esquecidos as margens da sociedade. Elas ficam falando com
Deus lá no fundo de seu coração resgatam toda sua labuta do cotidiano e é nessa labuta,
no seu viver que ela coloca para fora todo um louvor a Deus o seu clamor, a sua súplica.
quantas pessoas estão neste momento recitando os salmos de suas labutas e de seus
sofrimentos? O que nos faz pensar que este salmo nos atualiza ainda para os sofrimentos
dos pobres e injustiçados, entretanto, o mesmo salmo traz em sua pericope final a
mensagem de um Deus justo, que escuta a voz do sofredor e não o deixara sem justiça,
dando de certa forma acalento para aqueles que esperam por justiça pois o senhor não
tardara. Pensando nisso tudo escrevo esse Salmo:
Salmo do Vencedor Nordestino
Ó Senhor, Deus de toda espera, Tu que ergues do chão o pobre, sou filho da terra que
clama por água, Do sertão sofrido da macaxeira e do molho de Palma, Mas nunca nos
faltou Senhor! Nas noites escuras, o vento cantava, E no silêncio, o senhor escutou o meu
clamor, me ensinou a valorizar o trabalho honesto, as palavras colhidas com dificuldade e
com suor na testa, hoje, olho para traz, vejo tua mão, agindo no pouco que me tornastes te
agradeço, Senhor, pela força e direção, Pelas lutas e pelas perseguições, eu proclamo seja
exaltado o senhor Deus do Sertão.