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Acta bot. bras. 21(3): 521-529.

2007

Diatomáceas indicadoras de paleoambientes do Quaternário de


Dois Irmãos, Recife, PE, Brasil
Giane Soares de Souza1, Maria Luise Koening2,5, Enide Eskinazi Leça3 e
Maria de Pompéia Correia de A. Coêlho4

Recebido em 10/11/2005. Aceito em 21/11/2006

RESUMO – (Diatomáceas indicadoras de paleoambientes do Quaternário de Dois Irmãos, Recife, PE, Brasil). O trabalho apresenta o
levantamento da diatomoflórula identificada em sedimentos do Quaternário da Lagoa das Diatomáceas (Dois Irmãos, Recife), baseado em
um testemunho de sondagem com 4,5 m, tendo sido analisadas amostras com intervalos de 10 em 10 cm. Foram identificados 46 táxons,
distribuídos em 19 gêneros, 40 espécies e seis variedades. A coluna estratigráfica esteve composta por gêneros epífitos (Actinella,
Amphora, Cocconeis Eunotia, Fragilaria, Frustulia, Gomphonema e Rhopalodia), bentônicos (Navicula, Neidium, Nitzschia e Surirella)
e planctônicos (Aulacoseira, Cyclotella e Skeletonema). A maioria das espécies é oligoalóbia e litoral, destacando-se em termos de
freqüência e abundância: Actinella brasiliensis, Anomoeoneis serians, Eunotia pectinalis, Frustulia rhomboides, sugerindo uma deposição
de sedimentos em ambiente limnético. O predomínio de espécies epífitas em determinadas profundidades confirma a presença de
macrófitas durante uma parte do período de deposição. Das espécies identificadas sete são consideradas de ambiente marinho: Cocconeis
heteroidea, Cocconeis scutellum, Diploneis decipiens, Nitzschia scalaris, Nitzschia sigma, Skeletonema costatum e Surirella heideni as
quais ocorreram de forma esporádica.

Palavras-chave: diatomáceas, Quaternário, fóssil, estratigrafia

ABSTRACT – (Diatoms as indicators of paleoenvironments during the Quaternary at Dois Irmãos, Recife, Pernambuco State, Brazil).
A study of fossil diatoms from Lagoa das Diatomáceas (Dois Irmãos, Recife) was carried out based on a 4.5-meter-long core sample.
Samples were analyzed at 10 cm intervals. A total of 46 taxa were identified in 19 genera, 40 species and six varieties. The stratigraphic
column was composed of epiphytic (Actinella, Amphora, Cocconeis Eunotia, Fragilaria, Frustulia, Gomphonema and Rhopalodia),
benthic (Navicula, Neidium, Nitzschia, Surirella), and planktonic (Aulacoseira, Cyclotella and Skeletonema) genera. Actinella brasiliensis,
Anomoeoneis serians, Eunotia pectinalis and Frustulia rhomboides are oligohalobe, littoral species with high frequency and abundance,
which suggests sediment deposition in a limnetic environment. Epiphyte dominance at certain depths confirms the presence of macrophytes
during the deposition period. Only seven of the identified species are from a marine environment: Cocconeis heteroidea, Cocconeis
scutellum, Diploneis decipiens, Nitzschia scalaris, Nitzschia sigma, Skeletonema costatum and Surirella heideni which occurred sporadically.

Key words: diatoms, Quaternary, fossil, stratigraphy

Introdução aquáticos, terrestres ou subaéreos, podendo viver fixas


como epífitas em macroalgas e fanerógamas marinhas,
As diatomáceas constituem um dos principais flutuando livremente ou sobre substrato orgânico (Bold
grupos na base da cadeia alimentar de todos os & Wynne 1985). São encontradas em grandes
ecossistemas aquáticos, estimando-se que a produção quantidades no plâncton marinho e de água doce, onde
dessas microalgas no ambiente marinho esteja em podem formar densos lençóis flutuantes (Cooper 1999).
torno de 2 × 10 13 kg C/ ano, cuja produção representa A presença de diatomáceas em registros fósseis
20 a 25% da produção primária mundial (Moreno et al. deve-se à natureza resistente de sua parede celular
1996). que é composta de sílica, facilitando a formação de
São algas ubíquas, apresentam uma ampla depósitos silicosos denominados diatomitos. Tais
distribuição, sendo encontradas desde ambientes depósitos são encontrados nos oceanos ou em

1
Parte da Dissertação de Mestrado da primeira Autora - Programa de Pós-Graduação em Biologia Vegetal da Universidade Federal de
Pernambuco ([email protected])
2
Universidade Federal de Pernambuco, Departamento de Oceanografia, Av. Arquitetura s/n, Cidade Universitária, 50670-901 Recife, PE,
Brasil ([email protected])
3
Universidade Federal Rural de Pernambuco, Departamento de Biologia, Rua Dom Manoel de Medeiros s/n, Dois Irmãos, 52171-900 Recife,
PE, Brasil ([email protected])
4
Sociedade Nordestina de Ecologia ([email protected])
5
Autor para correspondência: [email protected]
522 Souza, Koening, Leça & Coêlho: Diatomáceas indicadoras de paleoambientes do Quaternário de Dois Irmãos...

ambientes limnéticos. A identificação das espécies pode siltes, argilas, massas diatomáceas, sedimentos
ser utilizada também para interpretações paleoeco- turfáceos e depósitos de mangue (CPRM 2001).
lógicas: determinar se os sedimentos são de origem A Lagoa das Diatomáceas está localizada dentro
marinha ou não, mostrar de que modo às características do núcleo urbano do Recife, PE (Reserva Ecológica
lacustres foram mudadas durante o período de Dois Irmãos), na chamada Planície do Recife, em
Quaternário, especialmente em relação a eutrofização torno da qual se elevam ao norte, ao oeste e ao sul, em
antropogênica e acidificação, reconstruir os climas semicírculo quase perfeito, as Colinas da Formação
passados e as condições passadas nos oceanos e Barreiras. A leste tem-se o Oceano Atlântico. Ao longo
ecossistemas aquáticos (Ruiz-Moreno & Carreño da linha litorânea, a Planície do Recife tem a extensão
1994; Yim & Li 2000). Em alguns países, estes de cerca de 15 km, e na direção oeste, uma extensão
depósitos sedimentaram-se no período Cretáceo (Era de, aproximadamente, 14 km (Coutinho et al. 1998;
Mesozóica) e, no Brasil, datam do período Quaternário CPRH 2001). As variações do nível relativo do mar,
(Era Cenozóica) (Moreira 1975). de pequena amplitude e curta duração, foram
O Quaternário caracteriza-se por profundas importantes no desenvolvimento das porções mais
mudanças climáticas, assim como pelo surgimento do recentes das Planícies Costeiras, inclusive na instalação
Homem. Mundialmente, os estudos referentes ao dos depósitos fluvio-lagunares, os quais podem intercalar
Quaternário são relativamente recentes e por isso sedimentos tipicamente lagunares, ricos em conchas,
alguns não atingiram sua completa maturidade e com sedimentos de água doce depositados em lagoas,
sistematização mais definida. No Brasil, a situação não brejos e pântanos. Na subsuperfície são encontradas
é diferente e o país não apresenta uma literatura camadas de argilas moles, diatomitos e turfas,
numerosa (Suguio 1999). Em Pernambuco, a pesquisa respectivamente oriundos desses ambientes. Assim, a
sobre diatomáceas fósseis é, ainda, pouco desenvolvida, evolução das Planícies Costeiras, inclusive da Planície
merecendo destaque o trabalho pioneiro de Souza & do Recife, está diretamente relacionada às variações
Abreu (1939) que estudaram depósitos do Rio Grande do nível do mar que ocorreram durante o Período
do Norte, Ceará e Pernambuco, e algumas observações Quaternário, tendo Coutinho et al. (1998) considerado
fragmentárias de espécies ocorrentes em depósitos de as seguintes fases evolutivas: a) a primeira fase iniciada
Dois Irmãos, que foram apresentados por Moreira pela deposição da Formação Barreiras, tendo
(1975). Por outro lado, as diatomáceas recentes acontecido no final de Plioceno, depositando-se até a
marinhas e dulciaqüícolas do nordeste são bastante atual plataforma continental submersa; b) a segunda
conhecidas, quanto à composição florística e aspectos fase, representada pela chamada Máxima Transgressão,
quantitativos (Eskinazi-Leça et al. 1996), o que facilita o nível do mar elevado, erodiu parte da Formação
uma comparação florística entre os registros atuais e Barreiras, esculpindo falésias; c) a terceira fase é a da
os encontrados em sedimentos do quaternário. deposição pós-Barreiras, conseqüência da regressão,
Para um maior conhecimento das diatomáceas que se sucedeu após a fase anterior. Esta fase permitiu
fósseis de Pernambuco, foi realizado um levantamento a deposição dos sedimentos continentais em forma de
florístico das espécies observadas em um testemunho leques aluviais acumulados no sopé das falésias; d) na
de sondagem retirado da lagoa das diatomáceas, quarta fase aconteceu a chamada Penúltima
localizada no bairro de Dois Irmãos, Recife, PE. Transgressão, na qual os depósitos da fase anterior
foram retrabalhados e cobertos; e) na quinta fase houve
Material e métodos a regressão subseqüente com a formação dos Terraços
Marinhos Pleistocênicos, situados atualmente numa
O material para estudo foi obtido na Lagoa das altitude de 6 a 10 m. Nesta época, possivelmente o rio
Diatomáceas (08°011 04,911 Lat. S. e 34°56’56,5’’ Capibaribe mudou de curso, passando da direção S 30
Long. W.) - bairro de Dois Irmãos, que se caracteriza E para N 40 E, na altura de Dois Irmãos, ocasionando
como sendo uma antiga lagoa de restinga, hoje a erosão de parte do terraço marinho pleistocênico e
transformada em uma baixada alagada e preenchida favorecendo a instalação, na planície, de zonas de
por um material turfoso. A área também apresenta pântanos e/ou lagunas; d) a sexta fase é marcada pela
depósitos Quaternários, que são constituídos por Última Transgressão, tendo ocorrido o afogamento das
sedimentos terrígenos (areias, argilas e conglo- planícies costeiras pleistocênicas e a estabilidade do
merados). Nas planícies fluviolacustres que nível do mar, que se seguiu ao máximo transgressivo
caracterizam a área estudada, dominam areias finas, de 5.100 anos A.P, permitiu a formação dos Terraços
Acta bot. bras. 21(3): 521-529. 2007. 523

Marinhos Holocênicos. intervalo basal, compreendido entre 412 e 454 cm


O testemunho foi datado pelo método do 14C, pelo apresenta cor marrom acinzentado, textura arenosa
Institut de Recherche Pour le Developpment muito orgânica até 418 cm, bolsões de areia, grandes,
(ORSTOM) e a idade mais antiga, na base do entre 442 e 445 cm, menores mais para o topo, pedaços
tetemunho, foi de 7.000 A.P. de carvão dispersos situados entre 413 e 444 cm, e
O testemunho de sondagem apresenta 14 coletados para datação do 14C.
intervalos, assim caracterizados: o intervalo superior, Na coleta foi utilizado um tripé com tubo de
entre 0 e 15 cm, apresenta cor marrom acinzentado, irrigação de alumínio (vibro testemunhador) desenvol-
com textura argilo-arenoso, pedaços de material vegetal vido segundo metodologia de Martin & Flexor (1991).
carbonizados e raízes de vegetação atual; o intervalo Após a coleta, o tubo (testemunho de sondagem) teve
seguinte, entre, 15 a 31 cm, de cor cinza, textura suas extremidades vedadas com tampas plásticas e fita
argilosa e alguns pedaços de carvão; o intervalo entre adesiva, marcado no sentido base-topo e depositado
31 a 53 cm apresenta cor marrom acinzentada, textura no Departamento de Biologia - Área de Ecologia da
argilo-arenosa, pedaços de vegetais, carvão e nódulos Universidade Federal Rural de Pernambuco. O mesmo
de argila endurecidos; o intervalo seguinte, entre 53 e foi denominado como PE - 3/92, apresentando
81 cm, apresenta cor marrom muito escura, textura profundidade de 4,5 m. Posteriormente, o tubo foi
orgânica e numerosos pedaços de vegetais de devidamente cortado com uma serra elétrica e o sedi-
dimensões de até 10 cm, pedaços de madeira situados mento separado em fatias transversais de 1 cm cada,
entre 70 e 80 cm; o intervalo entre 81 e 95 cm apresenta exceto na primeira sub-amostra (0-2,5 cm), sendo estas,
cor marrom escuro, textura orgânica e alguns pedaços por sua vez, divididas em seis amostras que serviram
de vegetais com dimensões centimétricas com cerca para diversas análises paleontológicas. As amostras
de 85 cm; o intervalo entre 95 e 107 cm, apresenta cor utilizadas para a análise das diatomáceas tiveram
marrom acinzentado escuro, textura orgânica mais fina intervalo de 10 cm entre elas, totalizando 46 amostras.
do que o material vegetal da camada acima, pedaços Foram preparadas lâminas de microalgas de acordo
de madeira situados entre 104 e 106 cm; o intervalo com o método descrito por Müller-Melcher & Ferrando
entre 107 e 121 cm apresenta cor marrom acinzentado (1956) e feitas às identificações qualitativa e quantitativa
muito escuro, textura claramente síltica e matéria de acordo com bibliografia especializada. As caracterís-
orgânica fina; intervalo entre 121 e176 cm , cor marrom ticas ecológicas dos taxa foram baseadas na literatura,
acinzentado muito escuro, textura argilo-arenoso muito como também no trabalho de Moreira Filho et al. (1999)
orgânico, pedaços de vegetais de grande tamanho e o enquadramento taxonômico foi baseado no Sistema
aumentando do ápice para a base, numerosos pedaços de Classificação de Simonsen (1979).
de carvão de tamanho centimétrico e madeiras situados Foram calculadas as freqüências de ocorrência
entre 130 e 169 cm; o intervalo entre 176 e 252 cm de acordo com o número de amostras onde cada táxon
apresenta cor marrom acinzentado muito escuro, ocorreu (Mateucci & Colma 1982) sendo adotadas as
textura orgânica, restos vegetais de grande dimensão seguintes categorias: Muito freqüente = >70% das
(folhas, raízes) e numerosos pedaços de carvão em amostras; Freqüente = 70% |– 40%; Pouco
toda a seqüência e madeiras entre 195 e 239 cm, o Freqüente = 40% |–20%; Esporádica = ≤20%.
intervalo seguinte, 252 a 310 cm, apresenta cor marrom A variação da abundância relativa dos táxons
acinzentado muito escuro, textura orgânica, numerosos esteve baseada entre a densidade absoluta de uma
pedaços de carvão espaçados, pedaços de madeira espécie e o somatório das densidades absolutas de todas
em toda a seqüência e madeira situada entre 263,5 e as espécies presentes em cada lamina, como uma
277; o intervalo entre 310 e 319 cm apresenta cor cinza forma de obtenção da representação quantitativa de
escuro, textura orgânica e pedaços de carvão cada táxon. Foi adotado o seguinte critério para o enqua-
espaçados; o intervalo entre 319 e 384 cm apresenta dramento dos táxons, segundo Lobo & Leighton (1986):
cor marrom escuro, textura orgânica, pedaços de Dominante = > 50%; Abundante = 50% |– 30%; Pouco
madeira, restos de vegetais (folhas) sedimentadas Abundante = 30% |–10%; Rara = ≤10%.
horizontalmente, pedaços de carvão espaçados e
madeiras situadas entre 358 e 359 cm; o intervalo entre Resultados e discussão
384 e 412 cm apresenta cor cinza, textura argilosa muito
orgânica, pedaços de carvão, folhas e concentração Foram identificados na análise estratigráfica 46
de restos vegetais nos 5 últimos centímetros; o táxons, representados por 19 gêneros, 40 espécies e
524 Souza, Koening, Leça & Coêlho: Diatomáceas indicadoras de paleoambientes do Quaternário de Dois Irmãos...

seis variedades (Tab. 1). A maioria dos táxons esteve diatomáceas nas camadas próximas ao topo (0 a 190 cm
distribuído na Ordem Pennales, com 91,31% da de profundidade), ocorrendo um declínio e até ausência
diatomoflórula, estando a ordem representada por sete na diatomoflórula, a partir da profundidade 190 cm
famílias: Naviculaceae (17 spp.), Eunotiaceae (9 spp.), incluindo as profundidades de 270, 290, 300, 310 a 330,
(4 var.), Nitzschiaceae (5 spp., 2 var.), Achnanthaceae 350 a 370, 390 a 410, 430 a 450 cm (Fig. 3). A não
(2 spp.), Surirellaceae (2 spp.), Diatomaceae (1 sp.), deposição de diatomáceas nos diferentes níveis estrati-
Epithemiaceae (1 sp.), e destacando-se os gêneros gráficos foi também constatada por Moro & Bicudo
Pinnularia (8 spp.) e Eunotia (8 spp. e 4 var.). (1998), na lagoa Dourada, estado do Paraná, com a
A Ordem Centrales compreendeu 8,69% do total não deposição de diatomáceas entre 11,3 m e 9,9 m,
identificado e as espécies identificadas foram ressaltando os autores que falhas na deposição de
enquadradas na família Thalassiosiraceae (3 spp.). As diatomáceas em sedimentos são registradas por vários
Fig. 1 (A-K) e Fig. 2 (A-H) apresentam as espécies e autores atribuindo a diagêne, ou seja, a dissolução pós-
variedades de diatomáceas mais representativas na deposicional das frústulas como a hipótese mais aceita.
coluna estratigráfica. No que se refere à abundância relativa (Fig. 4),
Particularmente para o nordeste brasileiro, são quatro espécies destacaram-se em relação às demais:
conhecidas algumas pesquisas que se referem a Actinella brasiliensis, Anomoeoneis serians,
diatomáceas do Quaternário, destacando-se Souza & Eunotia pectinalis e Frustulia rhomboides, todas
Abreu (1939) que estudaram depósitos do Rio Grande consideradas epífitas e bênticas, porém, nenhuma das
do Norte, Ceará e Pernambuco, e Moreira (1975), que espécies identificadas apresentou caráter dominante.
analisou três amostras de diatomitos do Quaternário Estas mesmas espécies já foram assinaladas em
de Pernambuco. Para o Estado da Bahia, Füstenberger sedimentos quaternários do nordeste do Brasil por
(2001) identificou 38 táxons de diatomáceas, entre eles Souza & Abreu (1939) , Moreira (1975) e também
Anomoeoneis serians, Actinella brasiliensis e em sedimentos do delta do Nilo (Zalat, 1995).
Frustulia rhomboides em testemunho de sondagem No testemunho de sondagem de Dois Irmãos a
coletado no rio Icatu, com características semelhantes comunidade das diatomáceas caracterizou-se pela
ao paleoambiente de Dois Irmãos. presença de espécies reconhecidamente de ambientes
A distribuição das espécies na coluna estratigráfica limnéticos, como os representantes de Actinella,
não foi uniforme, com uma maior deposição de Anomoeoneis, Eunotia, Frustulia e Pinnularia, além

Tabela 1. Espécies de diatomáceas identificadas na coluna estratigráfica coletada em sedimentos do Quaternário de Dois Irmãos, Recife,
PE, Brasil.

Famílias Espécies/Variedades

Thalassioraceae Cyclotella meneghiniana Kützing, Skeletonema costatum (Grév.) Cleve, Aulacoseira granulata (Ehr.)
Simonsen.
Diatomaceae Fragillaria sp.
Eunotiaceae Actinella brasiliensis Grunow, Eunotia camelus Ehrenberg, Eunotia didyma Grunow var. didyma, Eunotia
didyma Grunow var. elongata Hustedt, Eunotia didyma Grunow var. jungulata Freguelli,Eunotia
femoribus (Patr.) Hustedt, Eunotia flexuosa (Bréb.) Kützing, Eunotia major (W. Sm.) Rabh. var.
emarginata A. Cleve, Eunotia pectinalis (Dill.), Eunotia trigibba Hustedt, Eunotia vumbae Choln.,
Eunotia zygodon Ehrenberg, Eunotia sp.
Achnanthaceae Cocconeis scutellum Ehrenberg, Cocconeis heteroidea Kützing
Epithemiaceae Rhopalodia musculus (Kütz.) Otto Müller
Naviculaceae Amphora sp.1, Amphora sp.2, Anomoeoneis serians (Bréb. Ex Kütz.) Cleve, Diploneis decipiens Cleve,
Frustulia rhomboides (Ehr.) Det., Gomphonema gracile Ehrenberg, Navicula sp.1, Navicula sp.2, Neidium
affine (Ehr.) Pfitzer, Pinnularia abaujensis Pantocsek, Pinnularia biceps Gregory, Pinnularia maior
(Kütz.) Rabh., Pinnularia nobilis Ehrenberg, Pinnularia stauroptera (Grun.) Rabenhorst, Pinnularia
stomatophoroides Mayer, Pinnularia sp.1, Pinnularia sp.2
Nitzschiaceae Hantzschia amphyozys (Ehr.) Grun. var. aequalis Cleve-Euler, Hantzschia amphyozys (Ehr.) Grun. var.
capitata Otto Müller, Nizschia scalaris (Ehr.) Wm. Smith, Nitzschia sigma (Kütz.) Wm. Smith, Nitzschia
sigmoidea Wm. Smith, Nitzschia praelonga Cl. Grunow, Nitzschia sp.
Surirellaceae Surirella heideni Hustedt, Surirella sp.
Acta bot. bras. 21(3): 521-529. 2007. 525

Figura 1. A. Eunotia camelus Ehrenberg. B. Eunotia didyma Grunow var. didyma. C. Eunotia didyma Grunow var. elongata Hustedt.
D. Eunotia femoribus (Patr.) Hustedt. E. Eunotia flexuosa (Bréb.) Kützing. F. Eunotia major (W. Sm.) Rabh. var. emarginata A. Cleve.
G. Eunotia pectinalis (Dill.). H. Eunotia didyma Grunow var. jungulata Freguelli. I. Eunotia trigibba Hustedt. J. Eunotia vumbae Choln.
K. Eunotia zygodon Ehrenberg.
526 Souza, Koening, Leça & Coêlho: Diatomáceas indicadoras de paleoambientes do Quaternário de Dois Irmãos...

Figura 2. A. Actinella brasiliensis Grunow. B. Anomoeoneis serians (Bréb. Ex Kütz.) Cleve. C. Pinnularia abaujensis Pantocsek.
D. Pinnularia biceps Gregory. E. Pinnularia maior (Kütz.) Rabh. F. Pinnularia nobilis Ehrenberg. G. Pinnularia stauroptera (Grun.)
Rabenhorst. H. Pinnularia stomatophoroides Mayer.
Acta bot. bras. 21(3): 521-529. 2007. 527

25

20
Número de espécies

15

10

420-421
430-431
440-441
450-451
150-151
160-161
170-171

220-221
230-231
240-241
250-251

270-271
280-281
290-291
300-301

410-411
130-131
140-141

180-181
190-191
200-201
210-211

260-261

320-321
330-331
340-341
350-351
360-361
370-371
380-381
390-391
400-401
90,5-91,5

120-121

310-311
0-2,5

20,5-21,5
30,5-31,5
40,5-41,5
50,5-51,5

100,5-101,5
110,5-111,5
10,5-11,5

60,5-61,5
70,5-71,5
80,5-81,5

Profundidade (cm)

Figura 3. Número de espécies na coluna estratigráfica coletada em sedimentos do Quaternário de Dois Irmãos, Recife, PE, Brasil.

do predomínio dos elementos considerados oligoalóbios, sugerem a existência de um ambiente lacustre, de


os quais constituíram 80,6% da flora identificada pequena profundidade, considerando-se o hábito litoral
(Tab. 2). A presença de espécies epífitas e bênticas (principalmente epífito) da maioria das espécies
identificadas em todas as camadas onde ocorreu à
–♦– Anomoeneus serians –„ – Frutulia rhomboides deposição. Esta constatação, também, pode confirmar,
80 no referido ecossistema, a colonização de macrófitas
70 aquáticas (angiospermas), elementos considerados
60
substratos indispensáveis para a fixação de espécies
50
de diatomáceas epífitas. Considere-se, ainda, que
%

40
estudos recentes realizados em lagos localizados na
30
área de sondagem (Vasconcelos et al. 1998),
20
confirmaram a presença abundante de Eleocharis
10
interstincta (Vahl.) Roemer & Schult, macrófita
0
aquática enraizada, densamente colonizada por
10,5-11,5
20,5-21,5
30,5-31,5
40,5-41,5
50,5-51,5
60,5-61,5
70,5-71,5
80,5-81,5
90,5-91,5
100,5-101,5
110,5-111,5
120-121
130-131
140-141
150-151
160-161
170-171
180-181
190-191
200-201
210-211
220-221
230-231
240-241
250-251
260-261
270-271
280-281
290-291
300-301
310-311
320-321
330-331
340-341
350-351
360-361
370-371
380-381
390-391
400-401
410-411
420-421
430-431
440-441
450-451
0-2,5

diatomáceas, entre as quais destacaram-se


– ♦ – Actinella brasiliensis –„ – Eunotia pectinalis
Anomoeoneis serians e Frustulia rhomboides
70 espécies, também, identificadas por estes autores como
60 abundantes no material depositado. Este fato pode
50
confirmar que os depósitos estudados foram prove-
40
nientes de deposição atual, com menos de 7.000 A.P.
%

Para Silvestre & Carvalho (1998), nos lagos que


30
formam a bacia da Prata, localizada na área de Dois
20
Irmãos, a flora planctônica é relativamente pobre e
10
pouco abundante, devido à escassez de nutrientes no
0 epilímnio, ao contrário da flora epífita que é bastante
10,5-11,5
20,5-21,5
30,5-31,5
40,5-41,5
50,5-51,5
60,5-61,5
70,5-71,5
80,5-81,5
90,5-91,5
100,5-101,5
110,5-111,5
120-121
130-131
140-141
150-151
160-161
170-171
180-181
190-191
200-201
210-211
220-221
230-231
240-241
250-251
260-261
270-271
280-281
290-291
300-301
310-311
320-321
330-331
340-341
350-351
360-361
370-371
380-381
390-391
400-401
410-411
420-421
430-431
440-441
450-451
0-2,5

diversificada. Este fato, talvez, justifique a rara presença


de espécies de diatomáceas planctônicas no material
Figura 4. Abundância relativa das principais espécies de
analisado, onde apenas três espécies foram
diatomáceas identificadas no testemunho de sondagem coletado identificadas, Aulacoseira granulata, Cyclotella
em sedimentos do Quaternário de Dois Irmãos, Recife, PE, Brasil. meneghiniana e Skeletonema costatum, o que poderia
528 Souza, Koening, Leça & Coêlho: Diatomáceas indicadoras de paleoambientes do Quaternário de Dois Irmãos...

Tabela 2. Categorias ecológicas das espécies diatomáceas identificadas na coluna estratigráfica coletada em sedimentos do Quaternário de
Dois Irmãos, Recife, PE, Brasil.

Categoria Nº táxons % Táxons

Água doce
Oligoalóbia epífita 16 44,5 Actinella brasiliensis, Eunotia camelus, Eunotia didyma var. didyma,
Eunotia didyma var. elongata, Eunotia didyma var. jungulata, Eunotia
flexuosa, Eunotia femoribus, Eunotia major var. emarginata, Eunotia
pectinalis, Eunotia trigibba, Eunotia vumbae, Eunotia zygodon, Frustulia
rhomboides, Gomphonema gracile, Neidium affine, Rhopalodia
musculus
Oligoalóbia bentônica 11 30,6 Anomoeoneis serians, Hantzschia amphyozys var. aequalis, Hantzschia
amphyozys var. capitata, Nitzschia sigmoidea, Nitzschia praelonga,
Pinnularia abaujensis, Pinnularia biceps, Pinnularia maior, Pinnularia
nobilis, Pinnularia stauroptera, Pinnularia stomatophoroides.
Oligoalóbia planctônica 2 5,5 Aulacoseira granulata, Cyclotella meneghiniana.
Marinha
Planctônica 2 5,5 Surirella heideni, Skeletonema costatum
Planctônica epífita 5 13,9 Cocconeis heteroidea, Cocconeis scutellum, Diploneis decipiens.Nitzschia
scalaris, Nitzschia sigma

atestar a falta de condições ecológicas para o CPRM (Centro de Pesquisas de Recursos Minerais) 2001.
desenvolvimento de elementos planctônicos. Geologia e recursos minerais do Estado de Pernambuco.
Foi também constatada nos sedimentos a presença Recife.
Coutinho, R.Q.; Filho, M.F.L; Neto, J.B.S. & Silva, E.P. 1998.
de espécies marinhas: Cocconeis heteroidea,
Características climáticas e geomorfológicas e
Cocconeis scutellum, Diploneis decipiens,Nitzschia geotécnicas da reserva ecológica de Dois Irmãos.
scalaris, Nitzschia sigma, Skeletonema costatum e Pp. 21-49. In: I.C. Machado; A.V. Lopes & K.C. Pôrto
Surirella heideni, além da presença de espículas de (orgs.). Reserva ecológica de Dois Irmãos: estudo em
espongiários. Estas ocorrências, contudo, não um remanescente de Mata Atlântica em área urbana
representam, um indicativo de condições marinhas nas (Recife – Pernambuco – Brasil). Recife, Secretaria de
profundidades amostradas, visto que, a presença destas Meio Ambiente - SECTMA.
espécies foi considerada esporádica, tendo as mesmas Eskinazi-Leça, E.; Silva-Cunha, M.G.G. & Koening, M.L.;
Chamixaes, C.C.B.; Passavante, J.Z.O. & Feitosa, F.A.N.
apresentado valores inferiores a 3%.
1996. Microalgas. Pp. 61-68. In: E.V.S.B. Sampaio; S.V.J.
A baixa abundância de espécies em um ambiente Mayo & M.R.V. Barbosa (eds.). Pesquisa Botânica
particular pode ser causada, por exemplo, por um fator Nordestina: progresso e perspectiva. Recife,
ambiental principal, uma combinação de fatores Sociedade Botânica do Brasil, Seção Regional de
ambientais, competição com outras espécies ou Pernambuco.
alimento favorito de um predador (Snoeijs, 1999). No Fürstenberger, C.B. 2001. Interpretações paleolimnológicas
caso do perfil de Dois Irmãos, estudos aprofundados do Quaternário Recente a partir da análise da
comunidade de diatomáceas (Bacillariophyceae) no
de reconstrução de paleoambientes são necessários
sedimento do Rio Icatu, Município de Xique-Xique,
para que se possa tecer comentários à respeito.
estado da Bahia, Brasil. Tese de Doutorado.
Universidade Paulista, Rio Claro.
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fitocenosis planctônicas de los sistemas de
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