Material de cunho pedagógico de uso exclusivo da professora; é proibida a reprodução. Elaborado pela Prof.a Dr.
a Luan
Flávia Barufi para a disciplina de Análise Funcional do Comportamento do curso de Psicologia da Universidade Paulista.
PSICOTERAPIA ANALÍTICO-FUNCIONAL:
• Proposta de psicoterapia da Terceira Geração de Terapia Comportamental.
• Estudo e intervenção sobre variáveis da própria relação terapeuta-cliente.
• Functional Analytic Psychotherapy = FAP.
• Longe de ser uma “receita” pronta, desafia sobretudo o terapeuta, sob a égide da Avaliação/Análise
Funcional, a se conhecer e se reinventar a cada nova, e única, relação com seu cliente.
• Psicoterapia Analítico-Funcional:
• FAP é uma proposta de terapia baseada nos princípios da ciência da Análise do Comportamento e da
filosofia do Behaviorismo Radical.
• Desenvolvida, inicialmente, por Robert Kohlenberg e Mavis Tsai, em 1987.
• SKINNER = psicoterapeuta deve adotar a prática da “audiência não punitiva”.
o Postura constante do terapeuta na relação com o cliente.
• Promoção de intimidade =
repertório interpessoal que envolve a autorrevelação de pensamentos e sentimentos, resultando em um
sentimento de conexão, apego e proximidade na relação com o outro.
comportamentos são aceitos, com risco mínimo de rejeição e julgamento.
Papel da psicoterapia = ajudar cliente a construir uma nova história de relacionamentos íntimos, a começar pela
própria relação terapeuta-cliente.
Análise da relação terapeuta‑cliente como instrumento para mudança de comportamentos clinicamente
relevantes
Comportamentos Clinicamente Relevantes (CRB1):
Ambiente de psicoterapia é um dentre vários em que o cliente se comporta e com os quais se relaciona.
Alguns comportamentos do cliente que ocorrem na relação com o terapeuta têm especial relevância clínica na
FAP.
Clinically Relevant Behavior 1 (Comportamento Clinicamente Relevante 1), ou CRB1 =
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Comportamentos do cliente significativos que representam uma amostra do próprio problema que a
terapia se propõe a tratar.
Pertencem a classes funcionais constituídas dos problemas do cliente
Comportamentos Clinicamente Relevantes (CRB2):
Clinically Relevant Behavior 2, ou CRB2:
comportamentos de melhora, ocorrendo na própria relação com o terapeuta.
cliente se comporta na sessão de tal modo que seus problemas melhorariam se ele assim o fizesse em seu
dia a dia.
Comportamentos Clinicamente Relevantes (CRB3):
Clinically Relevant Behavior 3, ou CRB3:
Trata-se do comportamento do cliente de fazer análises, o que pode ser considerado um estímulo
especificador de contingências por modificar verbalmente a função de um estímulo.
Inclui descrições de variáveis envolvidas nos problemas do cliente, mas também descrições de variáveis
associadas às melhoras ou mudanças.
Papel do terapeuta é o de modelar os CRB3 do cliente, de modo que seja mais um mecanismo de mudança
na FAP, por meio de comportamento governado por regras.
Comportamentos Clinicamente Relevantes – Exemplo:
o Carlos tem muita dificuldade de expor suas opiniões e até mesmo de tatear o que pensa e sente em seus
relacionamentos. Sem conseguir ser assertivo, acaba concordando com os amigos e familiares ou
tentando agradá-los demais e, dessa forma, esquiva-se de críticas e de rupturas nas relações.
o Como todo comportamento de esquiva, a armadilha desse mecanismo é que, ao fazer isso, perde o
parâmetro referente a ser aceito pelos outros caso tivesse se comportado de modo alternativo.
o Sentindo-se esgotado nesses relacionamentos, Carlos eventualmente perde o controle de suas emoções
e “explode” com pessoas próximas a ele, que acabam se afastando, produzindo mais esquiva e
reafirmando a regra de que ele não é aceito quando “fala o que pensa”, ou de que suas opiniões não têm
valor.
o Nesse processo de esquiva de punição não sinalizada e/ou incontrolável, Carlos aprendeu a rastrear o
tempo todo sinais de rejeição do outro como tentativa de controle da relação.
o Como resultado final, sente-se extremamente ansioso, e “ansiedade” (a ponta do iceberg) é a queixa que
ele traz como motivo para busca de terapia.
Comportamentos Clinicamente Relevantes (CRB1):
“Ser pontual” poderia fazer parte do problema (ser um CRB1):
• A função desse comportamento é esquivar-se de qualquer crítica que poderia receber caso se atrasasse
— ou receber elogios e seu problema tem a ver com a maneira como ele lida com o julgamento dos outros;
• O modo como ele cumpre seus compromissos acaba sendo pouco flexível, produzindo sofrimento ao
priorizar suas obrigações acima de qualquer coisa;
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• Ele espera dos outros a mesma seriedade que ele próprio adota com compromissos e acaba se
decepcionando quando os outros não correspondem a essa expectativa.
Comportamentos Clinicamente Relevantes (CRB2):
Pontualidade tem como função a esquiva de críticas, não apenas o atraso poderá ser CRB2, mas muitos outros
comportamentos do cliente em sessão como, por exemplo: discordar do terapeuta, falar sobre algo que fez e
que poderia ser alvo de críticas, verbalizar que se sentiu julgado pelo terapeuta caso isso tenha acontecido, ou
mesmo ouvir uma crítica do terapeuta sem necessariamente se sentir julgado como pessoa ou sem que isso
ameace a relação.
Comportamentos Clinicamente Relevantes (CRB3):
“Se eu me atrasasse, pensaria imediatamente que você acha que não estou dando valor para toda ajuda que
você me dá”.
“Eu percebi que não tenho conseguido falar sobre algumas coisas por medo de ser julgado por você. As pessoas
vivem julgando umas às outras”.
“Ultimamente eu tenho conseguido sair daqui em paz, sem aquelas minhas ideias recorrentes de que você está
pensando que eu sou um louco problemático”.
Comportamentos Clinicamente Relevantes (CRBs) são assim divididos:
CRB1 – comportamento‑problema que deve reduzir de frequência ao longo do processo clínico;
CRB2 – comportamentos diferentes dos CRBs1 que indicam “melhora”, que devem aumentar de
frequência ao longo do processo clínico;
CRB3 – análise de contingências feitas pelo cliente sobre seu próprio comportamento.
Cinco regras que o clínico deve estar sob controle para trabalhar com CRBs são:
• atentar para ocorrência de CRBs = Consciência;
• evocar CRBs = Coragem;
• reforçar naturalmente CRBs2 = Amor;
• observar comportamentos do clínico que podem exercer função reforçadora para os
comportamentos do cliente = Propiciar e observar reforçamento;
• e interpretar o comportamento do cliente, visando facilitar generalizações.
Autoconhecimento do terapeuta
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Psicoterapia pessoal:
Forma de terapeuta desenvolver todas as complexas habilidades necessárias à condução da FAP.
Várias dessas habilidades requerem autoconhecimento, especialmente ao observar o que se está sentindo.
Levar em conta a história pessoal do terapeuta.
Problemas e melhoras do terapeuta também são objeto de análise, sendo denominados TI (problema do
terapeuta acontecendo na sessão) e T2 (melhora ou progresso do terapeuta acontecendo na sessão).
Fazer sua própria terapia não deveria ser uma opção, mas sim uma condição na formação do terapeuta.
Supervisão FAP:
Supervisão clínica faz parte do processo de formação do terapeuta.
Recortes de sessão para ilustrar a aplicação da FAP:
1) Coerente com pressupostos da FAP, busca, na própria relação supervisor-supervisionando, desenvolver as
habilidades do terapeuta, especialmente as indicadoras de uma melhora de suas dificuldades pessoais (T2).
Cliente Alice relata sua conversa com uma colega, sobre estar perto de terminar a faculdade e não se sentir segura
para atuar na área. Na conceituação de caso, levantou-se que a cliente tem dificuldade em expressar sentimentos
“ruins” e tende a amenizar situações de conflito. Nesse caso, nomear um sentimento é considerado o CRB2. O
objetivo do terapeuta, nesse fragmento, portanto, foi manter o foco na descrição do sentimento, apesar da
esquiva da cliente em entrar em contato com isso.
T: E como você se sente com relação a isso, de ter que fazer um trabalho e receber por ele? [Terapeuta apresenta
uma situação potencialmente aversiva – evocação de CRB1]
C: Meu plano é fazer um curso de especialização e um estágio, eu acho que isso vai me ajudar a sentir mais
preparada para trabalhar na área. [Cliente engaja-se em CRB1]
T: Mas, qual é o sentimento que vem quando você pensa em terminar a faculdade e ter que começar a trabalhar?
[Terapeuta reapresenta a pergunta]
C: Não sei dizer. [Cliente engaja-se em mais CRB1]
T: Você consegue me dar uma palavra que resume isso? [Terapeuta reapresenta a pergunta]
C: Eu não sei qual o sentimento... [Cliente continua emitindo CRB1]
T: Você sente alguma coisa agora? [Terapeuta reapresenta a pergunta]
C: Eu tenho medo, de me frustrar, de decepcionar as pessoas. [Cliente responde com CRB2, nomeia o sentimento]
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2) O CRB1 da cliente envolvia respostas dar explicações (racionalizar), como forma de evitar o contato com
sentimentos referentes a um aborto espontâneo e à morte do pai. O terapeuta utiliza três alternativas de bloqueio
de fuga/esquiva (descrever o comportamento em curso, reapresentar a pergunta e pedir que a cliente descreva
seu comportamento), contudo, a cliente continua a emitir CRB1s.
C: eu estava procurando na internet e vi que muitas vezes a má formação do feto provoca o aborto. Isso é bom,
porque evita que nasça uma criança com problemas.
T: ouvir você falar dessa forma me deixa um pouco incomodado, porque parece que você está falando de uma
coisa distante de você. Parece que perder o bebê não quis dizer nada.
C: não!
T: me ajude a entender o que está acontecendo aqui. Você tocou no assunto do aborto, sem que isso tivesse
qualquer relação com o que nós estávamos falando. Então, você começa a me dizer o quanto isso é indiferente
para você. Eu estou confuso. O que está acontecendo dentro de você agora?
C: (pausa) eu tenho pensado muito no aborto nos últimos dias. O quanto ele doeu, tanto fisicamente quanto
emocionalmente. É como se um pedaço de mim tivesse sido arrancado. Eu penso que agora minha filha teria 6
meses. Penso em como ela seria e o que estaríamos fazendo, como nossa vida seria. Você tem razão. Eu fico dando
explicações para tentar não pensar em quanto isso dói. Tem horas que eu me culpo, tem horas que penso numa
razão lógica, tem horas que acho que estou sendo punida por alguma coisa. Mas é sempre assim, eu tentando
não sentir essa dor.
REFERÊNCIAS:
DEL PRETTE, G. O Que é Psicoterapia Analítico-Funcional e Como Ela É Aplicada? EM SANTOS, L.P., GOUVEIA, J.P;
OLIVEIRA, M.S. Terapias comportamentais de terceira geração: guia para profissionais. Novo Hamburgo:
SINOPSYS, 2015 (p. 310-342).
POPOVITZ, J.; SILVEIRA, J. A Especificação do Responder Contingente do Terapeuta na Psicoterapia Analítica
Funcional. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, v. 16, n. 1, p. 5-20, 1 abr. 2014.
VARTANIAN, J. Evocar comportamentos de melhora em sessão: o raciocínio clínico da FAP. Disponível em:
[Link]
da-fap