Conhecer é a forma suprema da razão
OS AUTORES
PARA O SÉCULO XXI?
humana dominar o mundo, ou seja, de se
sentir senhora da vida e da terra habitada. Alberto Vieira
QUE SABER{ES}
A sistematização do conhecimento de forma
Aline Bazenga
distinta e organizada por disciplinas decorre,
entretanto, da vontade de ordenar o caos do Ana Cristina Trindade
saber. O conhecimento sistemático Ana Londral
oferece-nos então um mapa orientador, Annabela Rita
que nos dá a impressão pacificante de que Carla Lucas
abarcamos a realidade e dominamos o caos. Carlos Valente
Catarina Faria
Cada época cultural sentiu a necessidade de
realizar esta sistematização, quer em versão de Cristina Coelho
compêndios multidisciplinares, quer em versão Cristina Trindade
de enciclopédia. Custódia Drumond
Esta obra resulta justamente de um evento Daniela Marcheschi
OS TEMAS E científico realizado no quadro de um grande
OS PR OBLEMAS Ernesto Rodrigues
QUE SABER{ES}
projeto de produção de um novo saber
enciclopédico sobre a região autónoma da Filipa Oliveira
UM SABER EM ESPIRAL: Madeira. Guilherme Silva
DESAFIOS AO CONHECIMENTO Foi a partir dos resultados de pesquisa e das Isabel Santa Clara
PARA O SÉCULO XXI?
HUMANO NO SÉCULO XXI reflexões apresentadas nesse evento que Jacinto Jardim
esta obra se estruturou, assumindo-se que o
maior dos desafios seria uma aposta forte na Joana Balsa de Pinho
NESOLOGIA: PECULIARIDADES interdisciplinaridade e na discussão das suas João David Pinto Correia
possibilidades e dos seus limites em tempos de João Relvão Caetano
GNOSIOLÓGICAS DAS ILHAS acentuada especialização.
Jorge Freitas Branco
Os que se interessam pelos temas
HISTÓRIA, CULTURA E CIÊNCIA NA MADEIRA
HISTÓRIA, CULTURA E
CIÊNCIA NA MADEIRA
José Eduardo Franco
CONHECIMENTO CIENTÍFICO E madeirenses, articulados e enquadrados por
HUMANIZAÇÃO DA PAISAGEM reflexões epistemológicas que interessam à José Manuel Paquete de Oliveira
problematização do processo de produção de José Renato Gonçalves
conhecimento no século XXI, encontrarão aqui, Luís Machado de Abreu
HISTÓRIA DA MADEIRA com certeza, leituras estimulantes.
Luísa Marinho Antunes
Luísa Soares
CULTURA, LINGUAGENS E Marc Augé
CRIAÇÃO ARTÍSTICA Projeto ‘Aprender a Madeira – Dicionário de História da Madeira’ Miguel Sequeira
apoiado pelo programa Intervir +
www.aprenderamadeira.net Nelson Veríssimo
EDUCAÇÃO, FORMAÇÃO Paulo Miguel Rodrigues
HUMANA E PROFISSIONAL Raimundo Quintal
E DESAFIOS DA SOCIEDADE REGIÃO AUTÓNOMA UNIÃO EUROPEIA Rui Carita
MADEIRENSE DA MADEIRA Fundo Europeu
de Desenvolvimento Regional
Simão Silva
ISBN 978-989-680-133-5 Teresa Norton Dias
50
POLÍTICA, SOLIDARIEDADES, COORDENADORES Thierry Proença
COORDENADORES
COMUNICAÇÃO E DIÁSPORAS JOSÉ
Thomas Dellinger
9 78 989 6 801 335
EDUARDO
FRANCO
JOSÉ EDUARDO FRANCO
Viriato Soromenho-Marques
E CRISTINA
TRINDADE
E CRISTINA TRINDADE
•COLEÇÃO ESTUDOS INSULARES •
DIREÇÃO
José Eduardo Franco
José Manuel Paquete de Oliveira
CONSELHO CIENTÍFICO CONSULTIVO
Alberto Vieira, Aline Bazenga, Ana Rita Londral
Carlos Valente, Cristina Trindade, Custódia Drumond
Eduardo Jesus, Isabel Santa Clara, Jacinto Jardim
João David Pinto-Correia, Jorge Freitas Branco
José Agostinho Jardim Gonçalves, Luísa Marinho Antunes Paolinelli
Luísa Soares, Miguel Sequeira, Nelson Veríssimo
Paulo Miguel Rodrigues, Raimundo Quintal, Renato Gonçalves
Rui Carita, Saturino Gomes, Sílvio Fernandes, Simão Daniel Silva,
Teresa Norton Dias, Thierry Proença, Thomas Dellinger
A condição insular foi geradora de cultura, de literatura, de
modos de estar e de pensar com matizes peculiares conferidos
pela mundividência de quem nasceu com a marca de ter o mar
como grande e vasta fronteira. Esta coleção pretende publicar
obras sobre autores, temas e problemas que valorizem a herança
cultural gerada nas ilhas, nomeadamente nas ilhas portuguesas.
QUE SABER{ES}
PARA O SÉCULO XXI?
HISTÓRIA, CULTURA E CIÊNCIA NA MADEIRA
Esta obra foi publicada no âmbito do projeto
‘Aprender a Madeira – Dicionário de História da Madeira’,
apoiado pelo programa ‘Intervir +’
www.aprenderamadeira.net
TÍTULO
Que Saber(es) para o Século XXI?
História, Cultura e Ciência na Madeira
COORDENADORES
José Eduardo Franco e Cristina Trindade
AUTORES
Alberto Vieira, Aline Bazenga, Ana Londral, Annabela Rita
Carla Lucas, Carlos Valente, Catarina Faria, Cristina Coelho
Cristina Trindade, Custódia Drumond, Daniela Marcheschi, Ernesto Rodrigues
Filipa Oliveira, Guilherme Silva, Isabel Santa Clara, Jacinto Jardim
Joana Balsa de Pinho, João David Pinto-Correia, João Relvão Caetano
Jorge Freitas Branco, José Eduardo Franco, José Manuel Paquete de Oliveira
José Renato Gonçalves, Luís Machado de Abreu, Luísa Marinho Antunes
Luísa Soares, Marc Augé, Miguel Sequeira, Nelson Veríssimo
Paulo Miguel Rodrigues, Raimundo Quintal, Rui Carita, Simão Silva
Teresa Norton Dias, Thierry Proença, Thomas Dellinger, Viriato Soromenho-Marques
DIREITOS RESERVADOS
© Esfera do Caos Editores, APCA e Autores
DESIGN DA CAPA
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FOTOGRAFIAS EXTRA-CAPÍTULOS
(SEPARADORES DE PARTES E SECÇÕES, E PÁGINAS INICIAL E FINAL)
© Florentino Bernardes Franco
IMPRESSÃO E ACABAMENTO ACD PRINT
DEPÓSITO LEGAL 385734/14
ISBN 978-989-680-133-5
1ª EDIÇÃO Dezembro de 2014
ESFERA DO CAOS EDITORES
Campo Grande
Apartado 52199
1721-501 Lisboa
www.esferadocaos.pt
APCA – AGÊNCIA DE PROMOÇÃO DA CULTURA ATLÂNTICA
Estrada Comandante Camacho de Freitas, 516
9020-152 Funchal
www.apca-madeira.org
QUE SABER{ES}
PARA O SÉCULO XXI?
HISTÓRIA, CULTURA E CIÊNCIA NA MADEIRA
COORDENADORES
JOSÉ EDUARDO FRANCO
E CRISTINA TRINDADE
Tradições populares madeirenses:
emoções e representações
Thierry Proença
Universidade da Madeira
............................................................................................................................
O tema “tradições populares madeirenses” estabelece, logo à partida,
uma relação entre um território – o arquipélago da Madeira –, um cole-
tivo humano e as suas práticas quotidianas, ou seja, um conjunto de
valores morais, saberes e fazeres, inscrito numa continuidade temporal
em constante adaptação às sucessivas realidades. Trata-se, portanto, de
discursos, gestos e objetos históricos da sociedade madeirense, aptos a
constituírem lugares de construção e de representação da coesão e identi-
dade culturais.
No atual contexto de acelerada transformação dos modos de vida,
vale a pena refletir sobre os padrões referenciais daquilo que se apre-
senta como traço singular do espaço e da afinidade madeirenses, o que
levanta a questão de saber como constituir um repositório dos diferen-
tes aspetos dessa configuração civilizacional, até para – quanto mais não
fosse – perspetivar o evoluir dos seus sentires identitários.
Por vivermos hoje não só cientes da necessidade de proteger quer
a paisagem natural e cultural, quer o património móvel e imaterial, mas
também seduzidos pela busca das raízes, pela revisitação da memória
1
coletiva e pelo reconhecimento de sinais diferenciadores, preocupamo-
-nos, deste modo, com a divulgação dos saberes e vivências “do povo”,
para “o povo” e com “o povo”. Não só esta busca contribui infalivel-
mente para o desenvolvimento da Madeira, como ainda é desse cadinho
social e cultural que depende a imagem de marca com que a Ilha se
apresenta ao mundo.
1
A propósito da memória coletiva, Edil Silva Costa declara: “Todos os grupos
humanos, independente ao grau de civilização em que se encontram, detêm uma
tradição, onde está arquivada a sua memória coletiva. Desde a civilização mais
primitiva à mais complexa, é a continuidade da tradição que garante a sobrevivên-
cia cultural do grupo e seu aperfeiçoamento.” (Edil Silva Costa, “Tradição: a
criação colectiva”, Revista Internacional de Língua Portuguesa, n.º 9 (Julho), Lisboa,
Associação das Universidades de Língua Portuguesa, 1993, pp. 19-29.)
341
Thierry Proença
Esse modo de ser e de sentir-se madeirense – a tal “madeirensi-
2
dade” cujo conceito, caro ao meu colega Paulo Miguel Rodrigues , se
tem discutido nestes últimos anos no nosso meio académico – ou seja,
uma consciência coletiva própria, marcada por um dado contexto
geográfico e histórico, define uma comunidade de destino que apela a
uma identidade legitimadora e de projeto. Nos planos do sentimento de
si, do sentido da pertença e do imaginário, esta noção prende-se com a
universal exemplaridade do seu significado mítico, enquanto discurso
fundacional de um “nós” (os da Madeira) a demarcar-se de um “eles”
(os de Portugal continental), que faz oscilar o insular entre a madeirensi-
dade e a portugalidade, entre a proximidade e a distância, entre a forte
atração magnética que a Ilha exerce e o insistente apelo à descoberta do
mundo.
Logo, sem nunca menosprezar os desafios da contemporaneidade,
será conveniente observar a tradicionalidade, alicerçada em conhecimen-
tos transmitidos de geração em geração, conjugando saberes, crenças e
maneiras de ser, sobre os quais importa refletir. Essa tradicionalidade,
definida pela UNESCO, desde 1989, como processo dinâmico e funcio-
nal, com aceitação coletiva, descreve-se a partir de campos temáticos, tais
como os recursos naturais e o trabalho, a família e a comunidade, as for-
mas de expressão religiosa e a medicina popular, a alimentação e a culiná-
ria, as técnicas de produção e o artesanato, os particularismos linguísticos
e a norma padrão, ditos e cantares, contos e romances tradicionais, festas
e diversões, partidas e regressos.
Daí emanam as manifestações que resultam de um misto de
elementos exógenos com elementos endógenos, não raras vezes reinterpre-
tados e frequentemente em diálogo com outras latitudes. Neste sentido,
a cultura popular madeirense, de acordo com a aceção que aqui lhe
dou, merece ser considerada e estudada nos seus próprios termos, num
enquadramento de natureza interdisciplinar (Etnografia, Antropologia,
Linguística, Sociologia, Ecologia, História, Economia, Artes Performati-
vas e Biologia), procurando uma articulação íntima com os domínios
2
Ver Paulo Miguel Rodrigues, “Da insularidade: prolegómenos e contributo
para o estudo dos paradigmas da Madeirensidade” (1910-1926), in Alberto
Vieira (dir.), Anuário do Centro de Estudos de História do Atlântico, n.º 2, Fun-
chal, Secretaria Regional de Educação e Cultura/Centro de Estudos de História
do Atlântico, 2010 (em suporte CR-ROM).
342
Que Saber(es) para o Século XXI?
dos Estudos Culturais. Tal é o desígnio que o projeto do Dicionário
Enciclopédico da Madeira se propõe alcançar.
A partir do século XX, a Cultura democratizou-se e pluralizou-se
em “culturas”, deixando de ser uma atividade fechada sobre si mesma,
fazendo cada vez menos sentido vê-la compartimentada em categorias
como alta cultura, cultura ordinária, cultura erudita e cultura popular,
cultura oficial e cultura alternativa. Numa época de maior mobilidade
geográfica, social e intercultural, passamos do antropocentrismo para
uma tendência antropomórfica, em que o homem da rua passa a ser
obreiro de si próprio, autoconstruindo-se, desenvolvendo filtros através
dos quais se modela. Deste modo, a sua identidade nunca é uma
construção acabada, porque alterável ao longo do tempo, consoante o
seu percurso de vida. Trata-se, com efeito, de um processo dinâmico,
tal como o define Claude Clanet do seguinte modo: “Ce sont les
actualisations de ces interrelations entre les individus et les ensembles
des significations détenues par la communauté qui constituent la cul-
3
ture dans son aspect dynamique” . Esse indivíduo comum integra, pois,
o conjunto de anónimos que estão na base da sociabilidade moderna e
do pulsar cultural, enquanto criação coletiva. Para uma sociedade orbi-
tar em torno de si mesma, deverá fixar significativas referências no
plano do simbólico e dos laços afetivos, admitindo simultaneamente
influências e experiências diversas no seu corpo social. Assim, nesse
corpo social, existem diferenças culturais profundas, consoante os
níveis de educação, as origens de classe, as faixas etárias, o género, os
centros de interesse, entre outros aspetos.
É nesse sentido que procurarei, em jeito ensaístico, demarcar as
várias coordenadas sobre o tema proposto, partindo do tópico “intérpretes
e mediadores das tradições madeirenses”, para traçar relações entre
discurso, performance e legado, através de uma análise de vários regis-
tos que as épocas sedimentaram e, por fim, centrar-me-ei nas “tradições
populares: emoções e representações” com o intuito de deixar observa-
ções e pistas de reflexão.
3
Claude Clanet, L’Interculturel – Introduction aux approches interculturelles en
Éducation et en Sciences Humaines, Toulouse, Presses Universitaires du Mirail,
1990, p.16.
343
Thierry Proença
Intérpretes e mediadores das tradições madeirenses
É em pleno séc. XIX, com a redescoberta “romântica” dos romanceiros
e cancioneiros, na senda de Garrett, e, sobretudo, por se fazer sentir a
necessidade de animação da capital insular para gáudio de funchalenses
e visitantes, que alguns aspetos das tradições populares da Madeira vão
ganhar relevância. Assiste-se, por um lado, ao desenvolvimento de
4
registos descritivos, quer em manuscritos , quer em periódicos, quer em
livros, e, por outro, à exibição, em 1850, na Praça Académica, de um
grupo de camponeses de São Martinho que, com trajes antigos, dança-
ram o “à la moda” na primeira feira organizada pelo Governador Civil,
5
José Silvestre Ribeiro . Tanto quanto se sabe, o poeta Joaquim Pestana
(1840-1909) e o artista João Nunes (1850-1927) terão sido alguns dos
precursores do folclore madeirense. O poeta recolheu quadras popula-
res e assentou alguns apontamentos etnográficos na imprensa regional.
O artista, mais conhecido por “Diabinho” e pertencente a uma família
6
de violeiros no Funchal, terá publicado trabalhos sobre a música e os
cordofones regionais (a viola e o rajão) a partir de 1872. Em 1880,
Álvaro Rodrigues de Azevedo (1825-1898), incentivado por Teófilo
7
Braga (1843-1924) com quem trocava correspondência , publica no
Funchal o Romanceiro do Archipelago da Madeira, a que não faltam con-
tos e jogos verbais infantis.
4
Citando o estudo de Manuel Morais à Coleção de Peças para Machete [1846] de
Cândido Drumond de Vasconcelos (2003), Filipe dos Santos (2013: 150) enuncia:
“Existem vários métodos manuscritos, datados de 1844 (sensivelmente) até
1901, para a aprendizagem do machete (…). Deste conjunto, convirá destacar a
coleção de peças da autoria de Cândido Drumond de Vasconcelos – um virtuoso
madeirense desse instrumento, a par de Manuel Joaquim Monteiro Cabral e
António José Barbosa –, datada de 1846 e impressa no ano de 2003.”
5
Danilo José Fernades, “O Folclore em eventos sociais entre 1850 e 1948: factos e
evidências”, III Colóquio do grupo de Folclore e etnográfico da Boa Nova, prefácio de
T. M. e colaboração de Maria Ivone Alves Vieira Fernandes e Nelita do Sacramento
Gonçalves Sousa, Funchal, Grupo de Folclore e Etnográfico da Boa Nova, 1999.
6
Ver, por exemplo, Visconde do Porto da Cruz, “João Nunes (Diabinho), o precursor
do “folclore” madeirense”, Revista Portuguesa, n.º 23, 1942, pp. 17-19 (apud Sílvia Gil-
berta Gomes, na sua dissertação de Mestrado Memória e Promoção Cultural Madeirense
na obra do Visconde do Porto da Cruz, Universidade da Madeira, 2013, p. 49.
7
Jorge Freitas Branco, “Entre a imagem e a realidade: reflexões sobre a Madeira
como experiência antropológica”, Actas do I Colóquio Internacional de História
da Madeira, Vol. I, Funchal, Governo Regional da Madeira, 1989, pp. 270-306.
344
Que Saber(es) para o Século XXI?
Nas primeiras décadas do século XX, um conjunto de intelectuais,
apostados em afirmar a identidade cultural madeirense, junta à sensibili-
dade inata de filhos da terra o gosto pelo labor da escrita e da investiga-
ção. Surgem, então, os primeiros textos sobre aspetos etnográficos do
arquipélago da Madeira de Adolfo César de Noronha (1873-1963), Alberto
Artur Sarmento (1878-1953), Jayme Sanches de Câmara (1881-1946),
Visconde do Porto da Cruz (Alfredo de Freitas Branco, 1890-1962),
8
Eduardo Antonino Pestana (1891-1963), Carlos Maria dos Santos
(1893-1955), João Cabral do Nascimento (1897-1978), Ernesto Gonçal-
ves (1898-1982), Horácio Bento de Gouveia (1901-1983), Jaime Vieira
Santos (1903-1981), Fernando de Aguiar (1909-?) ou Manuel Ferreira
Pio (1928-1993). A esta lista devemos aduzir esses observadores privilegia-
dos da comunidade que os padres costumam ser, como, a título de exem-
plo, Fernando Augusto da Silva (1863-1949), o coautor do Elucidário
Madeirense; Jacinto da Conceição Nunes (1869-1954), um colecionador de
artefactos antigos; Eduardo C. N. Pereira (1887-1976), o autor de Ilhas de
Zargo; Alfredo Vieira de Freitas (1908-1993), ou Manuel Juvenal Pita Fer-
reira (1912-1963).
Os folcloristas da primeira metade do século XX – uns marcados
pelo horizonte do Integralismo Lusitano, outros simplesmente anima-
dos pelo interesse crescente, em toda a Europa, pelos grupos folclóricos
e pelas suas representações, “numa época de afirmação feroz das identida-
9
des nacionais” , e ainda aqueloutros enquadrados, pouco depois, na
10
política cultural do Estado Novo , versada na exaltação do passado e do
11
povo português para fins propagandísticos do poder vigente – vão
registar e descrever os costumes do povo insular, formas e expressões
8
Ver o interessante trabalho sobre “O Natal Madeirense”, em que faz, com base
numa análise de dois autos de Gil Vicente, a demonstração de que a liturgia popu-
lar do Natal na Madeira corresponde à do continente na era de Quatrocentos.
9
Jorge Torres, Rui Camacho, “O Xarabanda e a revalorização da música tradicional
madeirense”, in Manuel Morais (coord.), A Madeira e a Música – Estudos (c. 1508-c.
1974), Funchal, Empresa Municipal “Funchal 500 Anos”, 2008, pp. 635-638.
10
O Estado Novo, uma ditadura de tipo fascizante, vai organizar gradualmente
o folclore “administrado”, disseminado pelos cartazes e pela rádio, tratado ora
como mercadoria, ora como propaganda do regime.
11
João David Pinto-Correia, “Memória e identidade insulares”, in Aguarelas de
Carlos Luz: Madeira 2000, Funchal, Secretaria Regional do Turismo e Cultura,
Direção Regional dos Assuntos Culturais, 1999, pp. 13-26.
345
Thierry Proença
da sua linguagem, cantigas e toadas, a religiosidade e as crenças, o trajar
e os seus bailados, a memória e o anedotário das condições de vida.
Muitos desses trabalhos aparecerão em monografias ou nas revistas
Arquivo Histórico da Madeira (iniciada em 1931) e Das Artes e da Histó-
12
ria da Madeira (1948-1971). Jorge Freitas Branco descreve-os como
sendo obra de “estudiosos locais, desligados do contexto nacional (cen-
tral) da pesquisa etnológica e, talvez por isso, quase exclusivamente
preocupados em fabricar uma imagem regional, característica ou
mesmo típica”. Com efeito, tomando o povo por testemunha e arquivo
da tradição, acreditavam na investigação da origem e das caraterísticas
das manifestações folclóricas como o meio mais eficiente para afirmar a
identidade insular.
A partir dos anos 70, sucedem-se gerações que foram sensíveis a
aspetos relativos à definição da comunidade madeirense enquanto enti-
dade cultural, isto é, ao levantamento de um conjunto de caraterísticas de
um modo de ser e de estar dos populares. São intelectuais – músicos,
artistas plásticos, fotógrafos, funcionários, professores ou jornalistas –,
como António Aragão (1921-2008), Artur Andrade (1927-1992), Rui
Santos (1921-), Francisco de Freitas Branco (1924-1996), Maria Augusta
Nóbrega (1929-2007), José de Sainz-Trueva (1947-), Mário André
Rosado (1949-), António Rodrigues (1951-), Jorge Valdemar Guerra
(1953-), Rui Camacho (1957-), Danilo Fernandes (1958-) ou Vítor Sardi-
nha (1961-), que desenvolvem ora indagações “no terreno” para coletar
registos sonoros e fotográficos, objetos e memórias, ora reconstituições e
eventos para difundir o gosto pela cultura popular, mediante uma
13
voluntariosa aprendizagem autodidata . Outros há que enveredam pelo
ativismo cidadão, a exemplo de João Carlos Abreu (1935-), futuro gover-
12
Op. cit., p. 278.
13
A esse propósito, escreveu Vítor Sardinha, no seu artigo “Um olhar sobre as
práticas musicais madeirenses do século XX”: “Um pequeno núcleo de
investigadores e musicólogos amadores, dos quais se destacam António Aragão
e Artur Andrade, iriam recolher por toda a Madeira e Porto Santo nos anos 70
o cantar e tocar do nosso povo, registando-os para o futuro. Foi um imensurá-
vel testemunho que viria a repor a verdade, quando comparado com o “fol-
clore” inventado a partir do meio urbano e que se destinava apenas a ser
apresentado nos hotéis.” (Vítor Sardinha, “Um olhar sobre as práticas musicais
madeirenses do século XX”, in João Abel de Freitas (coord.), A Madeira na
História – escritos sobre a pré-autonomia, Lisboa, Âncora Editora, 2008, p. 111.)
346
Que Saber(es) para o Século XXI?
nante, empenhado em resgatar da estigmatização a zona velha do Fun-
chal e apostado na sua afirmação e revitalização. Para eles, se esses
modos de viver, sentir e agir se apresentam comuns à maioria dos insula-
res, devem, então, ser considerados como uma parte da consciência cole-
tiva ou como um traço da personalidade cultural madeirense.
Se é certo que a imprensa do Funchal e vários grémios (grupos de
dança ocasionais e seguidamente formalizados, Casas do Povo…) procura-
ram revalorizar as tradições populares insulares, depois, já em plena
autonomia política e administrativa da Região, fortalecem-se e multipli-
cam-se as organizações dedicadas ao seu registo, preservação e estudo,
designadamente a moderna comunicação social regional (imprensa, rádio,
14
televisão e meios online), a Direção Regional dos Assuntos Culturais
(D.R.A.C.), através de museus e da Direção de Serviços de Educação
Artística e Multimédia (vulgo DSEAM, ex-GCEA), o Parque Natural da
Madeira, coletividades várias, como a “Associação Musical e Cultural
Xarabanda”, a “AFERAM” (Associação de Folclore e Etnografia da
Região Autónoma da Madeira) e a “Archais” (Associação de Arqueo-
logia e Defesa do Património da Madeira), e diversas instituições, tais
15
como câmaras e juntas de freguesia , o Centro de Estudos da História
do Atlântico (1985) e a Universidade da Madeira (1988). Na área do
jornalismo regional pós-25 de abril, Horácio Bento de Gouveia, Maria
Aurora Carvalho Homem, Manuel Nicolau, Duarte Caires, Luísa Gonçal-
ves e Lília Mata retratam e documentam vivências antigas, em desuso,
memórias do quotidiano de tempos idos, evocam práticas e usos casti-
ços que legitimam a especificidade cultural e identitária madeirense, e
que cativam a curiosidade da audiência regional e da diáspora portu-
guesa. Para preservar e recriar os estilos musicais de inspiração popular
formaram-se grupos, tais como os “Xarabanda” (1981, ex-“Algozes”),
“Banda d’Além” (na década de 90) e “Encontros da Eira” (1997), que se
dedicam a fazer recolhas e registos, posteriormente trabalhados e
divulgados nos eventos em que participam ou nos CDs que editam.
14
Na Madeira, a imprensa surge em 1821, a rádio privada começa a emitir em
1948 e a Emissora Nacional em 1967, sendo a RTP-Madeira criada em 1972.
15
A título exemplificativo, enumeram-se alguns periódicos que essas institui-
ções lançaram e que versam sobre o passado insular: Islenha, Xarabanda, Girão,
Origens, Ilharq, Folclore, Por Terras Tabaqueiras; juntam-se-lhes Boletins Munici-
pais e sites de juntas de freguesia da Região.
347
Thierry Proença
A par de toda essa atenção e experiências, motivadas pela militân-
cia cultural, numerosos trabalhos de caráter científico têm vindo a
lume. Vale a pena referir alguns nomes importantes, como os etnógra-
fos Kate Brüdt e Jorge Dias, os geógrafos Orlando Ribeiro e Raimundo
Quintal, o engenheiro agrónomo Joaquim Vieira da Natividade, os
antropólogos Jorge Freitas Branco e Jorge Torres, os estudiosos de
Literatura Oral e Tradicional, designadamente Pere Ferré, João David
Pinto-Correia e Bela de Menezes, os historiadores Rui Carita, Alberto
Vieira, Nelson Veríssimo, João Adriano Ribeiro, a museóloga Lídia Goes
Ferreira, o realizador José Luís Cabrita, o arquiteto Victor Mestre, o
musicólogo Manuel Morais, o arqueólogo Élvio Sousa, os linguistas Lindley
Cintra, Naidea Nunes, Helena Rebelo e Aline Bazenga, investigadores da
etnobotânica como Licínia Costa Ramos, Fátima Freitas e Maria da Graça
16
Mateus . Numa linha de investigação literária para fins de divulgação
junto do grande público, atente-se igualmente no trabalho experiente
do polígrafo José Viale Moutinho (1935-).
Além do acervo de artes figurativas, monografias, ensaios, artigos e
recolhas que versam sobre a tradição madeirense, importa considerar a
escrita literária, quer na sua vertente de literatura de viagens, quer na de
motivação socio-etnográfica, quer na narrativa da memória insular.
A Literatura de viagens (séc. XV-séc. XIX), constituída por rela-
ções de jornada, diários de bordo, correspondência entre negociantes,
memórias ou jornal de um périplo de caráter autobiográfico, desenhos,
estampas e fotografias, resulta, regra geral, de testemunhas oculares dos
lugares por elas fixados no papel, com observações diversas acerca da
população e suas atividades. Neste sentido, esses documentos represen-
17
tam a “auscultação do confronto entre culturas/civilizações” e, como tal,
16
Ver a esse respeito Plantas e Usos Tradicionais nas Memórias de Hoje – Fregue-
sias da Ilha, de Miguel Sequeira, Susana Fontinha, Fátima Freitas, Licínia
Ramos e Maria da Graça Mateus, Casa do Povo da Ilha - Santana, 2006, Plantas
e seus usos tradicionais – Freguesia Fajã da Ovelha, de Fátima Freitas e Maria da
Graça Mateus, Funchal, Parque Natural da Madeira, 2013, bem como Plantas
aromáticas e medicinais em contexto urbano: saberes madeirenses na cidade do
Funchal, de Licínia Costa Ramos, dissertação apontada para cumprimento dos
requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Antropologia – Natu-
reza e Conservação, e apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas,
Universidade Nova de Lisboa em julho de 2013.
17
Ana Isabel Moniz, Thierry Proença dos Santos, “O Funchal na Literatura de
Viagens (em textos de italianos, franceses e de um castelhano)”, Funchal
348
Que Saber(es) para o Século XXI?
dão conta de dois mundos: o das tradições dos ilhéus e o das impressões
do forasteiro (filtradas pela sua visão e entendimento do mundo).
No que diz respeito à literatura de motivação socio-etnográfica, há
um desdobramento nos formatos da poesia descritiva, por vezes com
18 19
intenção jocosa , da peça de teatro , da crónica e do conto. Em muitos
desses textos cultiva-se um estilo madeirense, que consiste na tentativa
de transpor para a escrita os “falares” dos camponeses, na projeção da
cor local, na encenação de tipos humanos ilhéus ou frequentadores da
Ilha, na evocação quer de factos e vultos históricos, quer de lendas
locais, na expressão de uma sentida insularidade, ora motivo de orgu-
lho, ora de frustração. De João dos Reis Gomes (1869-1950) a Ernesto
Leal (1913-2005), passando por João França (1908-1996), vários auto-
20
res deram conta dessa expressão , ora em tons carregados e dramáticos,
ora em tintas cómicas e benevolentes.
Quanto à narrativa da memória insular, plasmada no convívio
popular, pode dizer-se que tem dominado nestes últimos tempos a
produção literária. Representa o registo pessoal do tempo vivido, que
flui à margem dos factos históricos, mas ao sabor do quotidiano e do
intimismo. A perspetiva histórica mantém-se, visto haver o delinear de
um passado de que o autor/narrador ainda tem reminiscências ou pro-
cura evocar. Movido pelo apelo da memória afetiva, o escritor esforça-se
por recriar o ambiente social e caraterizar a paisagem e as gentes que
conheceu, propondo, desse modo, uma literatura-testemunho, num
jogo em que se entrelaçam a crónica, a memória e a ficção.
(d)Escrito – ensaios sobre representações literárias da cidade, Vila Nova de Gaia,
7 Dias 6 Noites, 2011, p. 120.
18
Por exemplo, o poeta José António Monteiro Teixeira (1795-1876) tira do
prelo, em 1845, um Manual dos Romeiros da Novena de N. S. do Monte ou Bus-
sola métrica, joco-moral, obra inspirada no estilo de Bocage e dedicada ao vinho
e amor que acompanhavam os romeiros ou as romarias. Trata-se de uma obra
in 8º de 32 páginas, impressa no Funchal, pela tipografia do Imparcial.
19
Veja-se, por exemplo, A Família do Demerarista (Funchal, 1859) de Álvaro
Rodrigues de Azevedo, Última Benção (Funchal, 1917) de Elmano Vieira, o Auto
dos Vilões (Funchal, 1927) de Jaime Câmara, O Emigrante (Lisboa, s.d.) de João
França, bem como a Ilha de Argüim (Lisboa, 1996) de Francisco Pestana.
20
João Gouveia (1880-1947), Alberto Artur Sarmento, Teodoro Correia (1890-
1955), Elmano Vieira (1892-1962), António Marques da Silva (1900-1978),
Horácio Bento de Gouveia e Carlos Cristóvão (1924-1998) apresentam-se como
alguns dos cultores deste filão literário.
349
Thierry Proença
Vê-se, assim, renascer, num mundo cada vez mais feito à escala
“glocal”, livros de recordações sobre a história da família ou dos lugares
da infância – onde a Ilha, apesar das ocasionais penúrias decorrentes de
condicionalismos geográficos, se afigura como o refúgio que abriga e
protege. Em despeito de um tom impregnado, ora de compaixão, ora de
bonomia, esses textos são atos simbólicos, que tendem a louvar o antigo
equilíbrio social e a expressar o fascínio pelas origens, determinados
pela angústia e a saudade que a contemporaneidade, repleta de incerte-
zas, suscita. No tocante a essa matéria, a passagem do séc. XX para o
século XXI tem sido pródiga, se atentarmos nos textos de João Carlos
Abreu, Irene Lucília Andrade (1938-), António José Rodrigues (1940-),
Ricardo França Jardim (1946-), Lídio Araújo (1951-), Francisco Fernandes
(1952-), Nelson Veríssimo (1955-), António Fournier (1966-), Lília Mata
(1967-) ou Marta Caires (1971-).
Tradições populares: emoções e representações
Quanto ao tema das tradições populares e das emoções que elas desper-
tam, tal abordagem pressupõe uma interação afetiva e emocional entre
formas e intérpretes da tradição e os vários públicos que a ela aderem.
Para ilustrar o meu propósito, apoiar-me-ei numa citação do etnógrafo
Manuel Viegas Guerreiro que repara de forma certeira: “Sob o impulso
da alegria ou da dor ou para se aliviar do trabalho o homem desabafa
suas emoções, desferindo acordes nos instrumentos sonoros que tem à
mão, cordas da voz ou outras, em quaisquer objetos que produzam
21
sons” .
Tal situação sugere espontaneidade e autenticidade, apresentando
um concentrado de humanidade, a condição da vida humana e a sua
capacidade para a sublimar. Assim, à luz desse exemplo, a questão das
emoções poderia ser abordada sob dois prismas: por quem integra esse
modus vivendi e o interpreta (os atores) e por quem assiste e eventual-
mente participe nele (os legatários, isto é, as gerações seguintes). A manu-
tenção dessa cultura expressiva, resultante de identidades, experiências e
ambientes vividos, dependerá dos sentimentos, preferências e interesse
dos sujeitos que a auferem, podendo, ou não, transmiti-la.
21
Manuel Viegas Guerreiro, Para a História da Literatura Popular Portuguesa,
3.ª ed., Lisboa, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1993, p. 9.
350
Que Saber(es) para o Século XXI?
22
A emoção, definida pelo neurocientista António Damásio como
um feixe de respostas fisiológicas do corpo suscitadas de modo mais ou
menos autónomo pelos estímulos e pulsões exteriores, está alinhada
com o corpo, ligada à ordem do sensível e à vida pública, enquanto os
“sentimentos” estão acertados com a mente, ligados à ordem da moral e
à vida privada. Esta última conceção, mais próxima da noção dos afetos,
é aquela que se tem revelado mais operativa no campo das Ciências
Sociais e Humanas. Como tal, emprego, na presente abordagem, os
termos “emoções” e “sentimentos” indiferentemente um pelo outro,
23
porque parto da hipótese, na esteira do linguista Patrick Charaudeau ,
de que as emoções surgem de uma “racionalidade subjetiva”, integrada
numa intencionalidade e numa finalidade que o sujeito planeia, determi-
nada pelos valores e crenças que o habitam e pela sua capacidade de
autocontrolo emocional.
24
Quer isto dizer que, como enuncia o sociólogo Carlos Fortuna , a
reação dos indivíduos ao mesmo estímulo nunca é idêntica, variando
consoante fatores como a psicologia, a memória ou o conhecimento que
cada um desenvolve. Quando um sujeito aprecia um elemento dramá-
tico associado a objetos significativos, paisagens impressivas, monumentos
admiráveis, obras-primas, lugares da memória ou práticas árduas do
passado, afloram-lhe sentimentos que decorrem das emoções filtradas
através dos domínios do pensamento, da sensibilidade e dos seus cen-
tros de interesse.
Deste modo, a emoção revela-se na representação de um objeto
que o indivíduo pretende observar ou para o qual se sente atraído. Daí
haver pessoas ou até públicos que se disponibilizam para manifestações
populares que possam oferecer o sentido da partilha e o prazer intelec-
tual e/ou estético, implicando-se nessa atividade, vivida como experiên-
cia gratificante. A revalorização pura e simples da convivialidade e da
22
António Damásio, Ao Encontro de Espinosa: as Emoções Sociais e a Neurologia
do Sentir, Lisboa, Temas e Debates, 2012.
23
Patrick Charaudeau, “Pathos e discurso político”, in Ida Lúcia Machado,
William Menezes, Emília Mendes (org.), As Emoções no Discurso, vol. 1, Rio de
Janeiro, Lucerna, 2007, pp. 240-251.
24
Carlos Fortuna, “Património, turismo e emoção”, Revista Crítica de Ciências
Sociais [Online], 97 | 2012 (versão eletrónica colocada online a 19 de abril de
2013, em: http://rccs.revues.org/4898).
351
Thierry Proença
generosidade pode apresentar-se como fonte de resistência e de equilí-
brio, revalorização essa que passa por observar de modo crítico os senti-
dos propostos pelos paradigmas da contemporaneidade: o homem progra-
mado e a homogeneização simplificadora por efeito da mundialização. O
que leva ao entendimento de que toda ação voluntária conjunta é, hoje
em dia, resistência e de que, assim, se justifica, numa lógica de pertença
e de consciência coletiva, o apego à tradição promotora de convivência,
na defesa de uma continuidade entre a preservação e a inovação.
Tal como a cultura de massa explora os recursos emocionais e
imaginativos dos indivíduos, as “tradições populares”, definindo-se pela
dimensão expressiva de uma civilização, podem evocar e suscitar histó-
rias, fantasia e emoções. Isto assim é porque, como repara João David
25
Pinto-Correia , à nossa volta “muito do passado ficou, algo da experiência
acumulada durante séculos ainda continua igual ou semelhante, influen-
ciando, nutrindo, matizando a mundivivência”. Se há quem entenda que “a
tradição já não é o que era”, não é menos verdade que o interesse pelo
vernáculo e o saudosismo do “antigamente é que era bom” voltam a estar
na ordem do dia. Sinais dos tempos: os impessoais snack-bares vão
cedendo o lugar a “tabernas” e “tasquinhas”, requalificadas e acolhedo-
ras; um informal aviso num café de aldeia, com o dizer “Não temos WI-
-FI. Falem uns com os outros”, revela uma atitude possível contra os
excessos de uso das novas tecnologias de comunicação e apela ao conví-
vio direto e presencial, humanizando a sociabilidade. Outras manifesta-
ções parecem não passar de moda, como as práticas ancestrais ligadas à
medicina alternativa ou às artes ditas mágicas que se mantêm populares
junto de indivíduos de todos os extratos sociais, por constituírem solu-
ções ou refúgios alternativos para a superação de carências ou inquieta-
ções. Curandeiras e rezadeiras não deixam de ser solicitadas e as ervaná-
rias, algumas de tão boa reputação quanto antigas, outras de configuração
new age, continuam nas nossas cidades de porta aberta, propondo “chás”
reconfortantes, massagens reabilitadoras e mensagens de autoajuda.
Tal significa que a abordagem às tradições populares obriga a ter em
conta os mecanismos de fabricação dos discursos e imaginários em seu
redor, motivados por um ideário associado aos conceitos do lugar das
origens, da tradição e do simbólico. Por exemplo, a persistência em conser-
25
Op. cit., p.18
352
Que Saber(es) para o Século XXI?
var o rito da matança do porco, o orgulho na manutenção dos arraiais, a
valorização da gastronomia regional, o ressurgimento da “dança das espa-
26
das” na Ribeira Brava, a redescoberta das lendas populares, os reinventa-
dos bares de poncha, decorrem de um posicionamento assumido em rela-
ção a discursos histórica e ideologicamente motivados. Instituem-se, deste
modo, formas de resistência a algumas mudanças sociais e económicas,
assim como formas de afirmação identitária e de sobrevivência cultural.
Também não é por acaso que o “mundo do antigamente” se tornou
um filão explorado pelo “mercado da saudade” e pela publicidade, cuja
linguagem apela às forças do imaginário e das emoções do público
visado. Há meses, a RTP-Madeira difundia um “comercial”, de efeito
parodístico, em prol duma empresa de compra e venda de ouro,
protagonizado por um caricato casal de “vilhões” de idade que decide
vender parte do ouro que tinha para poder visitar o filho, a nora e os
netos, emigrados na Venezuela. Este tipo de aproveitamento de estereóti-
pos, cruzando caricaturas de um mundo em extinção com a atualidade,
é bem revelador do modo como a cultura de massa recupera a cultura
popular tradicional, num processo de manipulação de símbolos com
alcance político e socioeconómico.
Além do recurso à força dos estereótipos para fixar o senso comum
e criar empatia, os discursos dominantes numa sociedade não cessam
de moldar mentalidades, padrões de comportamento e uma parte expres-
siva da cultura. Quando esse senso comum afirma que sobre “futebol,
religião e política não se discute”, tal ditado indicia, paradoxalmente, a
importância que esses temas de grande melindre podem ocupar na vida
da população. Com efeito, essa trilogia, a par de outros fenómenos tão
enraizados como a insularidade, a migração e o turismo – para comple-
tar o quadro de análise –, representam importantes pilares do sistema
26
Segundo se crê, esta dança, que integrava a festa do Corpo de Deus, remonta,
pelo menos, ao séc. XVI e, muito provavelmente, à Idade Média. Na Madeira, terá
sido António Aragão quem tentou reconstituir esta tradição, da qual havia memó-
ria na Ribeira Brava. No ano 2000, Danilo Fernandes (o presidente do grupo de
Folclore e Etnográfico da Boa Nova, Funchal) consegue formar o grupo “Danças
das Espadas” com treze elementos masculinos. Desde então, esta dança é, por
regra, apresentada ao público no dia 29 de junho após participação na Procissão da
Festa de São Pedro, na Ribeira Brava. Para mais informação, v. Danilo Fernandes,
“A Dança das Espadas na imprensa regional”, Islenha, n.º 28, 2001 (jan.-jun.),
Funchal, Direção Regional dos Assuntos Culturais, pp. 158-164. Em Penafiel, essa
tradição não se perdeu, havendo ainda um grupo de “dançadores” a executá-la.
353
Thierry Proença
social madeirense que provocam frequentemente sentimentos profun-
dos, ora disfóricos, ora eufóricos, decorrentes da relação do indivíduo
com o seu meio de origem, experiências de vida e memórias antigas.
Esses seis elementos constituem-se como fator propulsor de mobiliza-
ções em prol dos interesses da comunidade, configurando-se como um
repositório de tradições. Veja-se, por exemplo, o quotidiano dos insula-
res balizado e influenciado pela forte presença da catolicidade, desde os
primórdios do povoamento do Arquipélago. As festividades, na sua maioria
organizadas pela Igreja e por um grupo de festeiros, são normalmente
dedicadas a Santos da sua devoção. Todavia, esse forte pendor religioso
27
cruza-se com atmosfera de gozo pagão : tapete de flores, arcos enfeita-
28
dos, procissão, promessas e “charolas” combinam com ambiente de
29
arraial, com comes e bebes e “charamba” (isto é, “cantar ao desafio”) .
Mercê da sua natureza geográfica e do seu processo histórico, o
peso da insularidade, configurada pela ruralidade e pelo telurismo, ainda
que bastante aligeirado nestas últimas décadas por força dos novos meios
de transportes e telecomunicações, assim como do desafogo económico,
mantém-se na Região Autónoma da Madeira, circunscrevendo a mundivivên-
cia insular a uma intensa interação social voltada para si própria.
As dificuldades de sobrevivência e o excesso populacional, bem
como as catástrofes periódicas que assolam o Arquipélago, aliadas ao
anseio de enriquecer em terras distantes, levam os insulares a terem os
olhos postos no horizonte marítimo. Não admira que, ao longo dos
séculos XIX e XX, milhares de madeirenses tenham embarcado para o
Brasil, Demerara, Havai, Venezuela, Estados Unidos, África do Sul e,
mais recentemente, tenham emigrado para destinos europeus. Dessas
mobilidades têm resultado intercâmbios, quer a nível cultural e linguís-
30
tico , quer a nível económico e social.
27
Como ilustram, a título exemplificativo, os contos “Dois irmãos” (1907) de
João dos Reis Gomes e “A Santa do Calhau” (1992) de Maria Aurora Carvalho
Homem.
28
Trata-se de uma “oferenda, em forma de pinha, pejada de frutos e outros
produtos hortícolas”.
29
As festas religiosas são tão antigas como o povoamento do arquipélago da
Madeira. Já não terão a predominância de outros tempos, havendo hoje uma
oferta maior e mais concorrida de eventos não religiosos.
30
Veja-se, por exemplo, o caso da “malassada”, iguaria associada à tradição do
Carnaval, quer na Madeira, quer nos Açores, sendo por estes insulares
portugueses transportada, em finais do séc. XIX, para o arquipélago do Havai,
354
Que Saber(es) para o Século XXI?
Para o Madeirense, o turismo é a atividade económica que emergiu
em força na Ilha em meados do séc. XIX, favorecendo o aparecimento
de hotéis, quintas para vilegiaturistas e agências transitárias e de via-
gens. Trouxe, também, uma dinâmica atividade portuária e uma evolu-
ção do fluxo de visitantes, passando de mais de uma centena para
milhares. Tudo isto leva-o a tomar consciência da necessidade de criar e
participar em eventos socioculturais, como atração e venda turísticas:
casinos, bailes e animação para a sociedade elegante, tanto funchalense
como estrangeira, serviços e passeios para proporcionar sensações úni-
cas e satisfazer curiosidades, conciliando paisagem monumental, etnici-
dade e cosmopolitismo. É neste contexto que surgem os carreiros do
Monte, convertidos numa das maiores atrações da Ilha, os memoráveis
“bomboteiros” e garotos da “mergulhança”, as “glamourosas” festas do
fim de ano na baía do Funchal, os extintos “cortejos etnográficos”,
promovidos pela Delegação de Turismo da Madeira (1936-1979), e as
cada vez mais desusadas exibições de ranchos folclóricos em restauran-
tes. Os madeirenses em contato com o turista cultivam, como não podia
deixar de ser, uma faceta acolhedora, festiva e bem-disposta.
Por sua vez, o futebol, como fenómeno mundial a partir do séc. XX,
tem repercussões em boa parte da população insular, dando-lhe motivos
para exaltar a preferência clubística ou a sua identidade, elevando não raras
vezes a sua autoestima, em rituais de celebração. Desde o primeiro jogo de
futebol em Portugal que teve lugar no Lugar da Achada, na Camacha, em
1875, até à sua mais recente figuração no museu dedicado ao jogador de
renome internacional, Cristiano Ronaldo, passando pelo facto de o Club
Sport Marítimo ter sido campeão nacional em 1926 e pelas memórias de
jogos disputados por sucessivas gerações no Almirante Reis, no Funchal, o
futebol não tem cessado de conquistar adeptos, de instrumentalizar a
influência política e de gerar oportunidades de negócio, dando origem a
equipas e claques, promotoras de novos aspetos da tradição popular, no
processo de sociabilização interclassista e intergeracional.
Quanto ao quadro sociopolítico e económico desenhado desde a
implantação da Autonomia regional (a partir de 1976), tem-se assistido
que a perfilhou e a converteu em doce regional. Tal foi o sucesso que os
havaianos passaram a chamar Malasada Day à nossa “terça-feira gorda”. Na
verdade, as “malassadas” são mais conhecidas nos Estados Unidos do que em
Portugal continental, onde se preferem as “bolas de Berlim”.
355
Thierry Proença
à manutenção e aprofundamento de uma cultura política, de estilo
autocrático mas até então bem aceite pela maioria, assente em valores e
atitudes que condicionam e influenciam a vida cultural: face a uma
institucionalização de cartazes turísticos como o desfile de Carnaval à
moda brasileira (deixando em segundo plano o “Cortejo Trapalhão”, no
Funchal, e os mascarados do Entrudo, nos concelhos rurais), a Festa
das Flores, eventos desportivos, festivais temáticos e inaugurações ofi-
ciais de empreendimentos ou edifícios, a manifestação espontânea e auto
expressiva dos populares tende a ser relegada para o consumo local.
Convém, por essa razão, fazer, em primeiro lugar, um exame crí-
tico aos discursos etnográficos que têm por objeto as culturas populares
e, em especial, as gentes a elas ligadas, seja em cenário urbano, seja em
cenário rural, para, de seguida, desvelar os processos de construção da
tradição que motivaram uma requalificação dos objetos e gestos resgata-
dos do passado, imbuídos, em novo contexto, de novos e oportunos
significados culturais. Com efeito, essas outras marcas identitárias,
inscritas na lógica da dominação cultural, motivam discursos sobre as
tensões entre grupos dominantes e dominados, modernos e antigos,
sobre tudo aquilo que possa ser considerado superior ou inferior, o
bom gosto e o mau gosto, o científico e o senso comum, sobre uma
satisfação que as circunstâncias do momento proporcionam ou as
oportunidades que as crises de sociedade desencadeiam.
Em nome da consolidação da identidade regional, criaram-se íco-
nes, museus e exposições para “turista ver” e para o filho da terra neles
se rever. Ao ambientar-se no aeroporto internacional da Madeira, o passa-
geiro, recém-desembarcado, é interpelado pelas figuras sobredimensio-
nadas do “típico” boneco de massa amarela, um conceito importado e
31
recriado há poucas décadas e elevado a símbolo regional , patentes em
amplos painéis de azulejo, como se se procurasse atenuar o efeito de
32
não-lugar de que fala Marc Augé . Noutros espaços, cristalizam-se estereó-
tipos da cultura popular madeirense, como, por exemplo, no Parque
Temático de Santana ou na habitual “aldeia etnográfica”, erguida e exibida
31
Veja-se, a esse respeito, o artigo de Teresa Brazão Câmara, “Bonecas comestí-
veis de maçapão” publicado na revista Atlântico - Revista de Temas Culturais,
n.º 7, Outono 1986, Funchal, pp. 218-226.
32
Marc Augé, Non-lieux, introduction à une anthropologie de la surmodernité,
Paris, Seuil, 1992.
356
Que Saber(es) para o Século XXI?
no Largo da Restauração, no Funchal, pela altura do Natal. Assim ence-
nada a história dos usos e costumes, com os seus adjuvantes materiais e
espirituais, tais como as habitações populares, o artesanato, as ferramentas,
as técnicas de fabrico, as armações simbólicas ou adornamentos, a culinária
e as diversões, depreende-se a intencionalidade com que esta foi sendo
apropriada por diferentes instâncias – poderes públicos e privados –, que
contribuem para as variações funcionais e simbólicas que estes modos de
33
vida foram adquirindo. Até porque, como repara Jorge Freitas Branco , se
“sente cada vez mais a necessidade de produzir uma imagem constante
para a indústria turística”.
Face a essa estandardização ou folclorização, torna-se necessária
uma nova postura, livre de preconceitos etnocêntricos, mas ciente dos
ecossistemas sociais e culturais, porque se pode incorrer no erro de
encarar a História Regional e Local como algo que só busca originalida-
des “exóticas” em detrimento de usos e costumes tão enraizados quanto
partilhados. A esse respeito, importa reter a consideração do historiador
34
Alberto Vieira , quando chama a atenção para a falta de fundamento
das explicações algo precipitadas que folcloristas madeirenses enuncia-
ram relativamente às danças tradicionais do arquipélago (o charamba, o
baile pesado, a mourisca, a canção de embalar e o baile da meia volta),
vistas por eles “como resultado de uma (…) aportação cultural dos
escravos” africanos. Em seu entender, tal hipótese não é aceitável por-
que a situação da escravatura na Madeira – com variáveis mais favorá-
veis à assimilação do que à resistência ou autonomia cultural – foi
muito distinta da do Brasil. Com efeito, o sistema social no Arquipélago
não dava margem para o desenvolvimento de formas e expressões
marginais e alternativas.
Se os madeirenses sentem, legitimamente, orgulho em ter conferido a
outras civilizações algum aporte cultural, no âmbito dos movimentos
migratórios, como os casos da “exportação” da romaria à Nossa Senhora
do Monte ou da “braguinha”, transformada no Havai em ukulele, não
deveriam ter qualquer reticência em reconhecer as afinidades que têm
com outras regiões do país e do mundo. Confronte-se, por exemplo, a
33
Op. cit., p. 273.
34
Alberto Vieira, Notas soltas – O quotidiano madeirense, Funchal, CEHA – Biblio-
teca digital, 2002. Disponível em: httt://www.madeira-edu.pt. Consultado em
dezembro de 2013.
357
Thierry Proença
“escadinha” madeirense com o presépio tradicional algarvio, ou o bolo
do caco com o pão makla, de tradição marroquina (habitual no Rama-
dão). Repare-se, ainda, que, nas trocas e voltas que emigrantes madeirenses
fizeram, especialidades venezuelanas, como as arepas, as hallacas e pan
de jamon, passaram a fazer parte de muitas boas mesas da Ilha. Veja-se,
também, como alguns costumes beneficiaram atempadamente de uma
35
inversão de tendência, à luz da observação de Nelson Veríssimo :
[É] bem verdade que, nas últimas duas décadas, recrudesceu o inte-
resse por algumas tradições, designadamente as Missas do Parto, a
noite do Mercado, os Reis e o varrer dos armários, principalmente pelo
empenhamento da comunicação social, Igreja, grupos de música
tradicional, autarquias e Casas do Povo.
Se, no Funchal, a “Folgança dos Maios” parece ter caído em
desuso, subsistindo apenas numa reformulação integrada na Festa das
Flores (inicialmente, um evento promovido pelo Ateneu Comercial do
Funchal nos anos cinquenta que foi ganhando importância ao longo do
tempo), o Halloween (o dia das bruxas) tornou-se na mais recente tradi-
ção adotada em Portugal e na Madeira, por importação dos Estados
Unidos, mas com novos contornos relativamente ao país de origem,
ganhando alguma expressão sobretudo junto dos jovens que saem à
noite.
O rol de constatações que acabo de enunciar vem, deste modo, dar
36
razão a Denys Cuche , quando afirma:
Le processus que connaît chaque culture en situation de contact
culturel, celui de déstructuration puis de restructuration, est en réa-
lité le principe même d’évolution de n’importe quel système culturel.
Toute culture est un processus permanent de construction, déconstruc-
tion et reconstruction. Ce qui varie, c’est l’importance de chaque
phase, selon les situations.
A época atual tende, efetivamente, a pautar-se pelo diálogo entre a
aceitação de transferências culturais e a revalorização de tradições pró-
prias. As tradições populares já não se constituem, portanto, como um
repositório estático representando a autenticidade ontológica de uma
35
Nelson Veríssimo, “Natal Madeirense”, Povos e Culturas, Lisboa, CEPCEP, n.º
11, 2007, pp. 79-86.
36
Denys Cuche, La Notion de culture dans les sciences sociales, 3.ª ed., Paris, La
Découverte (Repères, 205), 2004.
358
Que Saber(es) para o Século XXI?
comunidade, numa lógica de distinção, mas antes como um produto de
movimentos diversos, por vezes ambíguos e contraditórios, que percor-
rem os circuitos da fabricação dos imaginários locais ou regionais, do
consumo turístico ou da invenção da tradição.
Neste sentido, as tradições populares madeirenses assumem-se
como um renovado campo de estudo com contornos cada vez mais rele-
vantes na atualidade, talvez pela consciência sociocultural de se estar
envolvido numa dinâmica em que a transformação dos modos de vida
provocada pela globalização já não é vista como uma ameaça. Basta
37
lembrar, com Jean-Pierre Warnier , em A Mundialização da Cultura,
que a humanidade é “uma máquina de fabricar diferenças”. Numa cró-
nica publicada em 1967 na imprensa regional, Horácio Bento de Gou-
38
veia enunciava o mesmo entendimento:
Quanto mais o cosmopolitismo recrudesce em todas as partes do
mundo, impetuosamente o dominando, tanto mais o regionalismo se
exterioriza, sob todas as formas. É uma reação natural dos ambientes
humanos, opondo-se à sua desvirtualização, ao desenraizamento do
que há de caráter próprio nos costumes, nas tradições e até na lingua-
gem.
Interessa, pois, valorizar, numa perspetiva antropológica e numa
lógica de abertura, discursos e práticas que estruturam um leque de
escolha de estilos de vida e de visões do mundo no seio da sociedade
madeirense. Na verdade, o património material e intangível, que abrange
as suas tradições e expressões populares, merece, por respeito às suas
memórias ancestrais, ser transmitido e explicado às gerações futuras.
Com o projeto Aprender a Madeira, pretende-se, assim, dar mais um
passo nessa direção.
37
Jean-Pierre Warnier, A Mundialização da Cultura, Lisboa, Ed. Notícias, 2000,
p. 105.
38
Horácio Bento Gouveia, “Regionalismo – Ranchos folclóricos”, Crónicas do
Norte, com prefácio de José António Gonçalves, Madeira, Câmara Municipal de
S. Vicente, 1994, p. 142.
359