Livro: Hipótese de Incidência Tributária
Autor: Geraldo Ataliba
O livro Hipótese de Incidência Tributária, de Geraldo Ataliba, é um clássico no
campo do direito tributário brasileiro. A obra, originalmente publicada em 1968,
examina um dos conceitos mais importantes para a compreensão e aplicação
do direito tributário: a hipótese de incidência.
Inicialmente, o autor conceitua “tributo” como o comportamento de levar
dinheiro aos cofres públicos, sendo este, portanto, o objeto da obrigação
tributária. Em seguida, passa a analisá-lo como objeto do direito, abordando-o
como um conceito jurídico privativo, que só é válido para o direito, e não para
as outras ciências. Ademais, esclarece que a norma tributária é estruturalmente
igual às demais normas jurídicas.
O direito é um instrumento para alcançar fins por meio dos comportamentos.
No caso do direito tributário, o direito é o meio pelo qual o Estado arrecada
dinheiro mediante o comportamento dos sujeitos passivos de levar o dinheiro
aos cofres públicos. Neste sentido, o direito tributário é o instrumento do
Estado para obrigar o comportamento dos sujeitos passivos de entregarem
dinheiro aos seus cofres e a seus agentes de arrecadar da forma correta.
Assim, as normas que impõem um comportamento e atribuem qualidade aos
agentes, impondo respeito a esta qualidade.
O autor define o tributo como “instrumento jurídico de abastecimento dos cofres
públicos”, obrigando a transferência de dinheiro das pessoas privadas para os
cofres públicos, por meio do comportamento destas pessoas de entregar o
dinheiro e dos agentes de arrecadá-lo.
O tributo deve ser entendido como uma obrigação jurídica pecuniária. O sujeito
ativo é o Estado ou agentes que o representem determinados em lei e o sujeito
passivo é uma pessoa privada também determinada por lei, respeitando-se,
obviamente, os princípios constitucionais. Ressalte-se, ainda, que o tributo não
constitui sanção de ato ilícito. Este conceito diferencia o tributo de outras
obrigações que podem ser devidas ao Estado, como multas, obrigação
convencional ou indenização por dano.
Ataliba define a hipótese de incidência como a descrição legal de uma situação
fática, prevista na norma jurídica, que, quando ocorre, gera a obrigação
tributária. Ele destaca que é fundamental a separação entre o fato gerador e a
hipótese de incidência: enquanto o fato gerador é o acontecimento concreto no
mundo real, a hipótese de incidência é a previsão abstrata da norma.
A hipótese é a situação abstrata descrita em lei, que ao se concretizar é que
gera a obrigação tributária. Nas palavras de Geraldo Ataliba, “a hipótese de
incidência é a descrição legal de um fato”, é um “mero conceito abstrato”, é a
“descrição genérica de um fato”. Os efeitos jurídicos mandamentais da norma
só surgirão com a efetiva realização da hipótese de incidência. Assim, a
obrigação tributária não surge da lei, mas sim da realização da hipótese contida
nesta lei, que é, portanto, um conceito legal.
Por meio dessa análise, chega-se a conclusão de que o elemento principal e
essencial da norma jurídica é seu conteúdo mandamental, uma ordem de
comando, sendo que o comportamento humano deve adequar-se a este
conteúdo. Ora, este comando é precisamente a vontade do editor da norma.
Quando a vontade é genérica e abstrata, temos a norma geral, quando é
específica e concreta, a norma é individual.
Dessa forma, toda norma possui uma hipótese e um comando. O comando só
é obrigatório associado à hipótese. Não existe sem ela, que, por sua vez, nada
é sem o respectivo comando.
O conceito de hipótese de incidência é universal, é válido em todo e qualquer
lugar em que haja direito, pois se trata de uma categoria jurídica, um conceito
legal, na qual se define uma situação que pode vir a ocorrer e que, se ocorrer,
vai gerar a obrigação contida na lei.
Ainda que na hipótese de incidência estejam descrito inúmeros fatos e
elementos de fato, ela é indivisível, de forma que estes inúmeros fatos e
elementos formam um “todo complexo”, que deve ser considerado
juridicamente como uma unidade.
A efetiva realização da hipótese de incidência, é a concretização do fato
estabelecido pela hipótese. Não há como executar a pretensão estatal sem a
ocorrência do fato imponível, pois como já dito, é ele quem dá origem à
obrigação. Assim, conclui-se que a hipótese de incidência é a imagem abstrata
do fato, enquanto o fato imponível é sua concretização, que vai desencadear o
mandamento normativo e sua execução.
Assim, a hipótese de incidência tributária é a situação abstrata estabelecida em
lei que só vai gerar a obrigação a partir de sua concretização. Ela descreve
genérica e hipoteticamente um fato, designa o sujeito ativo (determina-o, sendo
o Estado ou seus agentes), estabelece um critério genérico de identificação do
sujeito passivo (este só será determinado a partir da ocorrência do fato
imponível), pode prever genericamente circunstâncias de modo e lugar e
estabelece critério genérico de mensuração do tributo.
A partir dessa distinção, entra o conceito de fato gerador como o evento que
realiza a hipótese de incidência tributária, transformando a previsão legal em
uma relação jurídica concreta entre o sujeito passivo (contribuinte) e o sujeito
ativo (Estado). Essa análise é crucial para a aplicação prática do direito
tributário, pois é o fato gerador que define a obrigação tributária e dá início ao
processo de cobrança do tributo.
O momento fático em que a obrigação é gerada é quando ocorre o fato
gerador, fato este que tem a potencialidade para determinar o nascimento da
obrigação tributária. É a partir da ocorrência do fato gerador que o Estado
passa a ser credor desta obrigação e a pessoa prevista em lei passa a ser
devedora.
Além disso, a lei também atribui a este momento fático a criação da obrigação
ao particular de levar o dinheiro aos cofres públicos. Assim, a partir da
ocorrência do fato gerador, também chamado de fato imponível, o Estado
passa a ter direito de exigir a obrigação, e a pessoa privada fica obrigada a
entregar a prestação. O autor esclarece que o objeto da norma tributária é o
comportamento da pessoa privada, e o dinheiro a ser levado é objeto deste
comportamento.
O direito tributário não é um ramo autônomo, mas um capítulo do direito
administrativo, tratado com autonomia apenas didaticamente. O fundamento
das normas tributárias é a Constituição Federal e elas só vão incidir seu
mandamento a partir da ocorrência do fato imponível. Ademais, só colhem os
comportamentos das pessoas contempladas pelas hipóteses da lei, como
todas as demais normas jurídicas.
Outro aspecto importante é o papel da norma jurídica e da competência
legislativa na criação das hipóteses de incidência tributária. Explica como o
poder de tributar é exercido dentro dos limites constitucionais, e como as
normas tributárias devem ser interpretadas de forma estrita, já que a criação de
tributos é um ato de soberania estatal que afeta diretamente a esfera
patrimonial dos cidadãos.
A lei, é instrumento da vontade do estado, que obriga os comportamentos
humanos a realizarem os objetivos visados por aquela vontade, tanto
comportamentos de agentes seus quanto os de terceiros sujeitos a seu poder.
A base do direito tributário, segundo o autor, é o tributo. É a partir do conceito
de tributo que se constrói toda a sistemática do direito tributário, que é um ramo
do direito administrativo e não goza de autonomia. O tributo é o conceito
fundamental do direito tributário, seu núcleo. Importante enfatizar, no entanto,
que este conceito pode sofrer modificações conforme a evolução humana,
como o direito como um todo.
Assim, entende-se que o objeto da norma tributária não é o dinheiro que é
transferido para os cofres públicos, e sim o comportamento de levar esse
dinheiro aos cofres. Trata-se de obrigação de dar que tem um objeto que é o
comportamento e consiste em dar alguma coisa, essa coisa é objeto material
do comportamento, o qual, é objeto de comando.
O objetivo é a transferência de dinheiro das pessoas privadas, submetidas ao
poder do estado, para os cofres públicos. Esta movimentação física do
dinheiro, coisa material, não pode ser obtida senão por meio de
comportamentos humanos. As normas jurídicas, por sua vez, atribuem dinheiro
ao estado e ordenam comportamentos, dos agentes públicos, de contribuintes
e de terceiros, tendentes a levar, em tempo oportuno, pela forma correta,
segundo os critérios previamente estabelecidos e em quantia legalmente
fixada, dinheiro dos particulares para os cofres públicos.
Esse comportamento do objeto de comando, recebe o nome de prestação. O
objeto da relação tributária é o comportamento consistente em levar dinheiro
aos cofres públicos, e esse dinheiro é denominado tributo.
Para que a transferência seja realizada, adotou-se como técnica a obrigação
de um fato, a que a lei atribui tal qualidade jurídica, ou seja, a lei atribui a certos
fatos a virtude para determinar o nascimento da obrigação tributária. Ainda, a
lei atribui ao mesmo fato a virtude de criar a obrigação, a cargo do particular,
de levar esse dinheiro aos cofres públicos.
A obra também explora as diferentes espécies de tributos (impostos, taxas,
contribuições de melhoria) e como cada uma delas está associada a diferentes
tipos de hipóteses de incidência. Ataliba examina a natureza e os critérios que
distinguem esses tributos, oferecendo uma compreensão detalhada sobre
como a legislação estrutura e delimita o campo de atuação do Estado na
arrecadação tributária.
Juridicamente, tributo é definido como obrigação jurídica pecuniária, ex lege,
que se não constitui em sanção de ato ilícito, cujo sujeito ativo é uma pessoa
pública, ou delegado por lei desta, e cujo sujeito passivo é algum nessa
situação posto pela vontade da lei.
É obrigação pecuniária cujo objeto é o comportamento de transferir valor
pecuniário, ou seja, dinheiro, ao Estado. A norma tributária trata do tributo e
rege seu relacionamento entre os sujeitos da obrigação. Dessa forma, tributo é
a expressão que indica a relação jurídica que constitui o núcleo do direito
tributário, entre os sujeitos.
Esta relação jurídica surge com a realização da hipótese definida na norma. A
norma tributária descreve hipoteticamente um fato que a partir da sua
realização em concreto vai determinar o surgimento da obrigação de levar
dinheiro aos cofres público, ou seja, de pagar um tributo.
Toda vez que alguém dá dinheiro ao estado, deve-se verificar o motivo, ou
seja, se é multa, obrigação convencional, indenização por dano ou tributo.
A multa, caracteriza-se como sanção por ato ilícito. Para que alguém seja
devedor de multa, é necessário que algum comportamento anterior se tenha
sido qualificado como ato ilícito ao qual a lei atribui a consequência de dar
nascimento à obrigação de pagamento de dinheiro ao estado, como punição,
ou consequência desfavorável daquele comportamento.
Já, tributo trata-se de obrigação jurídica legal, pecuniária, que não se constitui
em sanção de ato ilícito, em favor de uma pessoa pública. Ter-se-á obrigação
de indenização por dano, se o fato de que nascer a obrigação foi ilícito.
Ataliba discute ainda a interpretação das normas tributárias, enfatizando que a
interpretação das hipóteses de incidência deve ser restritiva, em razão da
reserva legal tributária. Ou seja, somente a lei pode criar tributos ou definir
suas hipóteses de incidência, e qualquer ampliação ou interpretação extensiva
que vá além do que a norma estabelece seria inconstitucional.
O trabalho de Ataliba é amplamente reconhecido por ter elevado o debate
sobre a hipótese de incidência a um nível mais técnico e teórico dentro do
direito tributário. Sua obra é pioneira ao sistematizar de forma rigorosa os
conceitos relacionados à formação da relação jurídica tributária e sua base
normativa.
Ele consegue, ao longo da obra, expor de maneira didática os aspectos
técnicos de um tema que é central para o direito tributário, oferecendo uma
contribuição relevante tanto no campo teórico quanto prático.