0% acharam este documento útil (0 voto)
30 visualizações15 páginas

Estado Moderno

Estado Moderno caboverdiano

Enviado por

ruivit
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
30 visualizações15 páginas

Estado Moderno

Estado Moderno caboverdiano

Enviado por

ruivit
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

CAPÍTULO!

O PODER POLÍTICO E O ESTADO


MODERNO

1.1. O poder em geral e o poder político

A presente obra é dedicada à Teoria do Estado, disciplina surgida


na Europa no início do século XX e difundida por todo o mundo, de
crucial importância para os cursos jurídicos, uma vez que proporciona a
compreensão do Estado moderno e contemporâneo servindo, assim, de
fundamento para a compreensão de todo o Direito Público e,
particularmente, do Direito Constitucional.
A Teoria do Estado, tal como compreendida aqui, é um ramo da ciência,
marcada por forte interdisciplinaridade, uma vez que o conjunto de
explicações sobre o fenômeno estatal que a mesma proporciona
decorre de saberes oriundos de vários campos do conhecimento, tais
como a Ciência Política, a Sociologia Política, o Direito Comparado, a
História do Direito, a Filosofia Política e a Antropologia Política, entre
outras.1

1 BLUNTSCHLI assim se manifesta sobre a Teoria Geral do Estado: "Nós assim


denominamos, no sentido próprio da palavra, a ciência que tem o Estado por objeto,
"'9"'
Teoria do Estado Moderno e Contemporâneo

Considerando a vastidão de estudos sobre os fenômenos políticos


existentes em todas estas áreas, e sendo esta obra destinada à Teoria do
Estado, adotará uma metodologia típica dessa disciplina, traçando grandes
panoramas ou quadros-conceituais por meio de conceitos e de modelos (ou
tipos-ideais) que pretendem descrever2 o Estado e os fenômenos
políticos mais importantes a ele relacionados.
Não será possível, dentro dos limites da presente obra e considerada
a sua proposta, pretender exaurir os conceitos de disciplinas afins, embora
importantíssimas, tais como a Sociologia Política ou a Ciência Política.
Tais conceitos serão explorados na medida do necessário e na medida do
possível para auxiliar a compreensão dos conceitos, modelos e teorias aqui
abordados.

aquela que busca conhecer e compreender o Estado em seu ser, suas manifestações e seu
desenvolvimento. (1877, p. 1). E, mais adiante, distingue: "A ciência particular do Estado
restringe suas pesquisas e sua exposição a uma nação e a um Estado determinado (...). A
ciência geral funda-se, ao contrário, sob a concepção universal do Estado."
(BLUNTSCHLI, 1871, p. 8).
2 Uma disciplina científica possui um objeto delimitado e métodos próprios, e acaba por

constituir uma explicação racional e sistemática do objeto. O objeto da Teoria do Estado


é o tipo de sociedade politicamente organizada específico da modernidade e da
contemporaneidade denominado Estado, como é evidente. O Estado é objeto de estudos
e investigações, que originam hipóteses, que, testadas, originam teses, que combinadas,
estruturam teorias. Uma teoria é uma tentativa de explicação científica de um fenômeno.
A Teoria do Estado, às vezes chamada Teoria Geral do Estado, consiste em um conjunto
de teorias que visam explicar cientificamente os aspectos centrais destas sociedades
politicamente organizadas. Tais teorias são estruturadas em torno de conceitos ou
definições e de modelos ou "tipos-ideais". A Teoria do Estado tenta organizar o
conhecimento sobre o Estado recorrendo a classificações e categorizações, por gênero e
espécie. Busca conceituar ou definir os elementos principais dos Estados, tais como
povo, território, soberania e governo, entre outros. Para compreender o Estado, recorre
a modelos ou "tipos-ideais", que são abstrações que frisam apenas os aspectos essenciais
dos aspectos analisados. O método da Teoria do Estado é bastante distinto daquele
adotado por outras disciplinas que estudam os fenômenos políticos, tais como a
Sociologia ou a Ciência Política.
Sgarbossa & Iensue

Assim, é imperativo iniciar com a exposição, ainda que em breves


linhas, de algumas noções elementares sobre o poder político, objeto por
excelência do campo de estudos. Inicialmente deve-se estabelecer um
consenso semântico, ou seJa, um consenso sobre o significado da
expressão poder, como aqui será empregada.
Em primeiro lugar deve-se observar poder é um conceito relacional.
O poder, no sentido que aqui nos interessa, sempre surgirá em relações
entre pessoas, seja em relações entre uma pessoa e outra, seja em relações
entre uma pessoa e um grupo de pessoas, ou entre dois grupos de pessoas.
Como ensina Maria STOPPINO, poder não é uma coisa ou algo que se
possui, mas consiste em uma relação entre pessoas.3 Esta explicação
preliminar evidencia outra característica do poder.4
Poder, para os fins do presente estudo, além de relacional e social, é
humano. Outros grupamentos de animais formam sociedades (as
sociedades não-humanas), mas estas sociedades não nos interessam aqui.

3 Com base nisso, o autor critica visões como as de Thomas HOBBES, segundo a qual o
poder consistiria na posse de instrumentos aptos à consecução dos fins almejados pelo
agente. Como observa STOPPINO, de nada vale a posse de recursos para exercer o
poder (dinheiro, por exemplo) se a obediência não se verifica. Segundo este autor "o
poder não reside numa coisa (...), mas no fato de que existe um outro e de que este é
lavado por mim a comportar-se de acordo com os meus desejos." (BOBBIO,
MATTEUCCI, PASQUINO, 2008, p. 934).
4 Como se verá adiante, existe uma relação visceral entre poder político e Estado. Lincoln

ALLISON ensina que o conceito moderno de poder remonta ao ano de 1748, ano da
publicação do texto de David HU:ME intitulado "O contrato original". Em tal texto,
HUME sustenta que a maioria dos governos teria surgido a partir de usurpação ou
conquistas, ou ainda de ambos, e não do consentimento ou sujeição voluntária das
pessoas. Como ensina aquele autor, "descrevendo os processos de mudança política -
migração, colonização e vitória militar - Hume questiona, retoricamente, 'se há algo que
se possa descobrir em todos estes eventos que não se resuma em força ou violência."
(McLEAN; McMILLAN, 2003, p. 431).
"'11"'
Teoria do Estado Moderno e Contemporâneo

As relações de poder que aqui serão estudadas são aquelas existentes em


sociedades humanas.5
Dito isso, o poder pode ser definido como a capacidade que alguém
ou algum grupo possui de fazer com que outrem se comporte da maneira
que deseja.6 Isto é, se o indivíduo ou grupo A possui a capacidade de fazer
com que o indivíduo ou grupo B haja de determinada maneira, apesar da
vontade de B ser diversa, diz-se tratar-se de uma relação de poder (seja
qual for seu fundamento e os meios utilizados).7
Um traço importante do poder é seu caráter intencional. Ou seja,
para que a relação social em que A modifica o comportamento de B seja
corretamente compreendida como uma relação de poder é necessário que
A possua a intenção de modificar o comportamento de B daquela
• 8
manei ra.
No esquema que utilizamos, por A referimo-nos a um indivíduo ou
grupo que, em uma relação social, exerce poder sobre B, que representa
um indivíduo ou grupo que é sujeito do poder. A ação de A, como visto,
deve ser intencional. A ação de B, em geral, deve ser voluntária, o que não

5 Como ensina Mario STOPPINO, em um sentido especificamente social poder significa


capacidade de determinar o comportamento do homem, ou poder do homem sobre o
homem. Este conceito é por vezes denominado "poder social". (BOBBIO,
MATTEUCCI, PASQUINO, 2008, p. 933).
6 Observe-se que o poder sobre si mesmo não é relevante, em princípio, para as

disciplinas que estudam os fenômenos políticos, mas apenas o poder exercido sobre
outrem. (BOBBIO, MATIEUCCI, PASQUINO, 2008).
7 Muitos autores afirmam que poder consiste na capacidade de A impor sua vontade a B,
a despeito da vontade de B ser diversa, completando o conceito com a afirmação de que
A conseguiria superar eventual resistência de B. Além disso, tais relações fazem parte de
uma estrutura social que tende a revelar-se persistente. Nesse sentido os ensinamentos do
professor Lincoln ALLISON no Oxford Concise Dictionary of Politics, verbete ''powe-
1', p. 431.
8 (BOBBIO, MATTEUCCI, PASQUINO, 2008, p. 935).

"' 12"'
Sgarbossa & Iensue

significa que seja livre. Assim, sendo o poder coercitivo, muitas vezes a
obediência de B, embora voluntária, existe apenas por temor às sanções
ou represálias que podem ser impostas por A. O comportamento do
sujeito que sofre a incidência do poder é, portanto, minimamente
voluntário9 , salvo casos extremos em que qualquer vontade é excluída
pelo uso da força ou violência física.
Por outro lado, a consciência é um requisito necessário da ação de
A (o sujeito ativo na relação de poder), mas não é um requisito necessário à
ação de B (o sujeito passivo) em uma relação social de poder.1 0
Outro aspecto relevante do fenômeno social denominado poder
consiste no fato de ser, em geral, assimétrico e unidirecional. Significa que
A e B encontram-se em posições distintas na relação de poder, e que se a
vontade de A é a causa da conduta de B, a recíproca não é verdadeira. A
exerce o poder, B sofre a incidência do poder (BOBBIO, MATIEUCCI,
PASQUINO, 2008).
Por outro lado, também é verdadeiro, como reconhece
STOPPINO, que existem relações de poder caracterizadas por maior ou
menor reciprocidade. Seu exemplo são as negociações de aliança entre
dois partidos políticos. Em maior ou menor medida, ambos são obrigados

9(BOBBIO, MATIEUCCI, PASQUINO, 2008, p. 935). Assim, como observa o autor,


há que se distinguir as situações em que há uso de violência física, em que a modificação
do comportamento de B dá-se pela diretamente pelo uso da força por A, da situação de
coerção, na qual a obediência, embora não seja livre, é voluntária.
10 Idem. Como ensina STOPPINO, "para se ter poder não é necessário que B tenha
intencionalmente o comportamento pretendido por A. A pode provocar um
determinado comportamento de B sem manifestá-lo explicitamente; pode até esconder
de B que ele deseja esse comportamento e sem que B se dê conta de que se está
comportando segundo a vontade de A." Um exemplo claro desse tipo de relação de
poder está no conceito de manipulação através de propaganda subliminar.
"' 13 "'
Teoria do Estado Moderno e Contemporâneo

a fazer concessões para que a aliança seja possível e, nesse sentido, o


poder é recíproco.
O poder, como se vê, é um fenômeno social complexo, e por isso
ostenta diversas facetas.11 Diversos mecanismos podem ser utilizados por
alguém para exercer poder sobre outrem. Os autores mencionam a
importância de que A possua os recursos necessários ao exercício do
poder sobre B. Nesse sentido, o pensamento de Mario STOPPINO, que
ensina que "os recursos desse tipo são numerosos: riqueza, força,
informação, conhecimento, prestígio, legitimidade, popularidade, amizade,
assim como ligações íntimas com pessoas que têm altas posições de
poder." (BOBBIO, MATTEUCCI, PASQUINO, 2008, p. 937).
Assim surgem vários conceitos de poder complementares à noção
genérica inicial, tais como as noções de poder ideológico (exercido com
base em ideias), econômico (exercido com base em recursos escassos),
jurídico (exercido com base no direito) e político (exercido com base na
ameaça do recurso à força física), entre outros. Esta última categoria será
mais relevante para nossos fins ao longo desta obra, embora não esteja
dissociada das demais,
Nesse contexto, é essencial compreender os instrumentos ou meios
necessários para a existência de uma relação de poder. O poder
econômico, por exemplo, é exercido com base na detenção de recursos
escassos. Se algum recurso é escasso (água, por exemplo), a detenção de

11Existem diversos conceitos sobre poder, como a noção de esferas de poder (que
podem ser mais amplas ou mais restritas) e as noções de poder potencial (aquele possível
de ser exercido, poder em potência) e poder atual (aquele que é efetivamente exercido, o
poder em ato). (BOBBIO, MATIEUCCI, PASQUINO, 2008, p. 934).
"' 14"'
Sgarbossa & Iensue

tal recurso por alguém evidentemente possibilita que esta pessoa exerça poder
sobre as demais.1 2
A utilização de ideias bem elaboradas e articuladas entre si, através
de persuasão e de convencimento, por sua vez, pode dar lugar a relações
de poder, através do que por vezes se denomina poder ideológico.
Como a própria expressão evidencia, trata-se do poder baseado em um
sistema de ideias1.3
A crença na validade de normas jurídicas e na possível ou provável
aplicação de sanções punitivas por seu descumprimento, por outro lado,
faz com que seja possível falar em poder jurídico. Em última análise, é
poder exercido com base no direito ou na ideia de direito.
Em síntese, como pode perceber o leitor, conforme vana o
instrumento utilizado para alterar o comportamento alheio, diferentes são
as manifestações de poder que surgem. Nesse contexto, convém investigar
o que vem a ser o poder político.
A palavra política vem do grego polis, expressão que designava as
cidades-Estado da Antiguidade clássica grega. Ao lado de outros campos,
como a Ética, a política designava um saber prático, que dizia respeito à
vida na cidade.

12 É Mario STOPPINO quem chama a atenção para a possível relação entre poder sobre
coisas e poder sobre homens. Ele evidencia que o poder sobre as coisas pode ser
"relevante no estudo do poder social, na medida em que pode se converter num recurso
para exercer o poder sobre o homem." (BOBBIO, MATTEUCCI, PASQUINO, 2008,
p. 934). Mas poder político será sempre sobre pessoas, e não sobre coisas. O "poder" (de
fato) sobre coisas (domínio, posse, monopólio) é relevante enquanto meio apto a
propiciar o exercício do poder político, mas não se confunde com este.
13 Aqui a expressão ideologia não está sendo utilizada no sentido marxiano ou marxista.

"' 15"'
Teoria do Estado Moderno e Contemporâneo

A Política pode ser concebida, contemporaneamente, como uma


atividade. Geralmente designa-se com a expressão política a atividade em
tomo do poder. Embora esteja relacionada com o saber, trata-se de uma
atividade dotada de uma finalidade eminentemente prática, e nao
científica. Atualmente costuma-se compreender que quem faz política
busca conquistar e manter o poder em uma sociedade (donde se
compreende facilmente que poder e política estão umbilicalmente ligados).
Para alguns, considerando que não tem caráter apenas prático, mas
que exige ainda certo grau de "talento", a política seria mesmo uma arte, a
arte de atingir e manter o poder. Mas até aqui os conceitos são circulares,
porque, na busca de se definir poder político, retorna-se ao conceito de
poder (BOBBIO, MATTEUCCI, PASQUINO, 2008)1.4
Resta indagar: que tipo de poder se busca com a atividade política
propriamente dita? Qual a especificidade do poder político, qual o traço
característico que o distingue dos demais?
Segundo a maioria dos autores, atualmente o poder político
consistiria no poder exercido com o auxílio dos mecanismos de que
dispõe o Estado - e apenas ele. A atividade política, portanto, seria aquela
atividade estruturada em torno da obtenção e manutenção do controle
sobre o Estado.
O Estado, como se verá, é um tipo de sociedade política, uma
instituição que surge na modernidade, e que tem características próprias.
Nas sociedades contemporâneas, entende-se que o Estado é a única

14Ensina STOPPINO que não basta que A disponha de recursos para exercer poder
sobre B, mas que também necessidade de habilidade em converter os recursos de que
dispõe em poder.
Sgarbossa & Iensue

organização social que possui a faculdade de exercer, legitimamente, a


violência física de maneira legítima. Esta é uma de suas características mais
essenc1a1s.
Portanto, em última análise, o elemento típico do poder político,
que o distingue de todos os outros, é a possibilidade latente sempre
presente do uso da violência física legítima, e define-se como política a
atividade que corresponde a uma disputa sobre a detenção do Estado e,
consequentemente, dos meios e do exercício da violência física legítima
(seja esta disputa feita por meio de eleições, de golpes de Estado ou
revoluções).
Isso precisa ser bem compreendido. Quando se diz que a violência
física legítima é o meio específico do Estado, não significa que este meio
seja único15 , que não haja outros meios do Estado exercer seu poder (ao
contrário, o Estado exerce também poder ideológico e econômico, por
exemplo). Também não significa que seja o meio normal, rotineiro do
exercício do poder político, como adverte Norberto BOBBIO (até porque
é sabido que é normalmente muito mais eficaz governar com base em
consenso, ainda que mínimo, do que com base na força).
Significa apenas que nas sociedades contemporâneas a instituição
denominada Estado tende a ser a única capaz de exercer, legitimamente, a
violência física. Significa que todas as outras organizações sociais -
empresas, associações, igrejas, entre outras - embora possam exercer

15 Assim obviamente o Estado utiliza poder ideológico, econômico, jurídico e outros,


rotineiramente, para atingir seus fins. A utilização da violência física é a ultima ratio, e
apenas ao Estado se confere legitimamente na atualidade. Daí ser seu elemento
característico e, por consequência, o elemento caracterizador do poder político.
"'17"'
Teoria do Estado Moderno e Contemporâneo

algum tipo de poder, não podem exercer legitimamente esta forma

específica de poder, a violência física. Esta, apenas o Estado pode exercer1.6


O poder político é exercido por meio do Estado que, como
veremos, detém o monopólio da violência física legítima ou legitimada
(autoridade). A atividade política, contemporaneamente, é compreendida,
portanto, como a atividade que busca permitir o controle do Estado e,
consequentemente, o controle sobre a violência física legítima.
Não se está afirmando aqui, frise-se, que quem quer que exerça
atividade política queira ter o controle sobre o Estado exclusivamente ou
principalmente em razão da violência física legítima. Os fins podem ser -
e comumente são - outros, bem diversos.
O que se está afirmando, conceitualmente, é apenas que a
especificidade do poder político consiste na ameaça do uso da violência
física legítima e que, portanto, a atividade política pode conceitualmente
ser definida como atividade em torno da detenção dos meios do exercício
da violência física legítima, ou do Estado. 17

16 Outras associações distintas do Estado podem exercer poder, mas normahnente, em


virtude de proibição estatal, sem o recurso à coação, entendida como ameaça do uso da
força, ainda que como último recurso. Um exemplo esclarecedor de poder não político,
neste sentido, é o poder hierocrático, exercido pelas igrejas e organizações religiosas. A
ameaça de tais organizações é a privação de bens espirituais, como a salvação, e é com
base nessa ameaça que exercem poder e conseguem alterar o comportamento alheio
(WEBER, 2004). Fica evidente, assim, a diversidade entre este tipo de manifestação de
poder e o poder político em sentido próprio;
17 O estudo do Estado é correlato à noção de poder estabilizado que, como ensina
STOPPINO, consiste e uma situação na qual um elevado grau de probabilidade de que B
se comporte continuamente de acordo com os desígnios de A combina-se com um
elevado grau de probabilidade de que A aja continuamente no sentido de exercer poder
sobre B. No entanto, embora o Estado surja em contextos de poder estabilizado, as duas
"' 18"'
Sgarbossa & Iensue

Em síntese, como visto, o fenômeno do poder encontra-se presente


em relações sociais e consiste na possibilidade de um indivíduo ou grupo
de indivíduos impor sua vontade a outro indivíduo ou grupo, valendo-se
de diversos instrumentos.
O poder político possui sua caracterização na possibilidade, ao
menos como último recurso, da utilização da violência física, para a
obtenção da obediência e o Estado, na atualidade, é a única instituição ou
organização social que pode, legitimamente, valer-se da violência física de
maneira considerada legítima.
Diante disso, insta investigar as relações o que torna violência física
legítima, distinguindo-a da ilegítima, em que consiste o fenômeno da
legitimação e quais seus fundamentos.

1.2. Força, legitimação e autoridade

Força é comumente sinônimo de violência física18 em textos de


teoria política. Significa a sujeição física de alguém por outrem e consiste

noções não se confundem, pois, como ensina o autor, "o poder estabilizado se traduz
muitas vezes numa relação de comando e obediência", podendo ou não ser
"acompanhado de um aparato administrativo com a finalidade de executar as ordens dos
detentores do poder." STOPPINO observa que o poder estabilizado pode fundar-se
tanto em características pessoais quanto nas funções exercidas pelo detentor do poder,
aduzindo: "Quando a relação de poder estabilizado se articula numa pluralidade de
funções claramente definidas e estavelmente coordenadas entre si, fala-se normalmente
de poder institucionalizado. Um Governo, um partido político, uma administração
pública, um exército, como norma, agem na sociedade contemporânea com base numa
institucionalização do poder mais ou menos complexa." (negrito ausente do original)
(BOBBIO, MATTEUCCI, PASQUINO, 2008, p. 937).
18 Os autores distinguem conceitos como força, persuasão e coerção. Como ensina
Lincoln ALLISON, em geral força significa violência física, a capacidade de controlar
"'19"'
Teoria do Estado Moderno e Contemporâneo

na manifestação mais rústica e crua de poder. Como já mencionado, e


como será explorado de maneira mais aprofundada adiante, a única
organização social que pode exercer legitimamente o uso da força nas
sociedades contemporâneas costuma ser o Estado. Mas, neste passo,
convém perguntar o que distinguiria um ato de violência pura e simples,
ou força, de um ato de violência legítima, ou autoridade.
Segundo a sociologia política de Max WEBER, é a legitimidade que
distingue um ato de pura força de um ato de autoridade, legitimidade esta
que se obtém por meio de um processo denominado legitimação
(WEBER, 2004). A força é violência pura e simples, a autoridade, por
sua vez, consiste em violência legítima ou legitimada.
A legitimação é um processo de cunho psicológico e cultural que se
revela capaz de converter a violência em autoridade. Assim, um ato de
violência - como o aprisionamento de alguém ou, no limite, a retirada da
vida de alguém - pode ser visto tanto como ato de pura força (violência
ilegítima) quanto como um ato de autoridade (violência legitimada).
Se a privação da liberdade ou da vida for executada por uma
organização criminosa, por exemplo, tal ato é visto como ato de pura
força ou violência ilegítima, tanto que é tipificada como crime pelos
sistemas jurídicos atuais (no caso do exemplo, cárcere privado ou
homicídio, por exemplo).

outrem fisicamente; persuasão envolve convencimento com base em argumentos; a


coerção, no sentido utilizado na Ciência Política, em geral significa convencimento com
base em ameaças. (McLEAN; McMILLAN, 2003, p. 433). Todos são úteis ao exercício
do poder, e o poder exercido com base na força ou na ameaça de seu uso, como visto, é
o poder político.
Sgarbossa & Iensue

Por outro lado, se a privação da liberdade ou da vida for executada


por agentes públicos, no cumprimento de uma ordem ou decisão judicial
validamente proferida de acordo com a lei, passam a ser concebidos não
como atos de pura força ou violência, mas como atos de autoridade (ou
violência legítima ou legitimada), podendo traduzir-se, juridicamente, na
execução de uma pena privativa de liberdade ou de uma pena de morte,
no exemplo mencionado.
Perceba-se que o ato material é o mesmo (privação da liberdade ou
da vida de alguém), mas que, geralmente, a percepção social do mesmo,
por fatores psicológicos e culturais, é distinta, tendendo as pessoas a
conceberem como legítimas e autorizadas as últimas condutas, e como
ilegítimas e não-autorizadas as primeiras.
É desse fenômeno que decorre a distinção entre força e autoridade,
entendida a última como violência legítima ou legitimada, isto é, como
força que passou pelo processo de legitimação.
A legitimidade decorre, portanto, de um fenômeno denominado
legitimação. Legitimação pode ser definida, sinteticamente, como a
conversão da violência ou da força em autoridade, e pode ter vários
fundamentos, tais como a tradição e o direito (WEBER, 2004).
Em algumas sociedades, por exemplo, alguns atos de violência física
sao vistos como legítimos com base na tradição. Na maioria das
sociedades contemporâneas, no entanto, o fundamento da legitimidade é a
lei ou o direito.
Isso significa que a violência exercida com base no direito (e nos
limites autorizados por este) é vista como legítima - ou seja, é

"'21"'
Teoria do Estado Moderno e Contemporâneo

transformada em autoridade - ao passo que a violência exercida sem base


no direito ou contra este é vista como violência ilegítima e, normalmente,
tratada como ilícito.
Atualmente define-se o Estado, de um ponto de vista sociológico,
como o monopólio da violência física legítima (WEBER, 2004), pois,
como se verá melhor adiante e como já afirmado, é apenas o Estado a
organização social autorizada ao uso da violência pelo direito.
Deve-se registrar, no entanto, que embora a força ou violência
física, bem como a autoridade - violência física legítima -, sejam
elementos essenciais para a compreensão dos fenômenos políticos e do
Estado, há que se reconhecer a complexidade do fenômeno político e a
complementaridade dos diferentes tipos de poder.
Normalmente o poder ideológico, por exemplo, é utilizado pelo
Estado, em vez da violência física. Muitas vezes o poder econômico e
ideológico é utilizado como meio de conquista do poder político, por
grupos, candidatos e partidos.
Assim, um papel muito relevante no estudo dos fenômenos
políticos deve ser reservado ao papel das ideias e à teoria da ideologia. O
presente capítulo tratará deste fenômeno.
Primeiramente observe-se a ambiguidade da expressão ideologia.
Ela possui duas acepções principais muito difundidas.
Em sentido genérico, ideologia consiste em um sistema de ideias
bem concatenadas, baseadas em certos valores (HEYWOOD, 2010). Em
sentido mais estrito - marxista - ideologia consistiria em um conjunto de

"'22"'
Sgarbossa & Iensue

ideias que expressariam uma visão falsa da realidade, grosso modo. Aqui
trataremos, sobretudo, de ideologia no primeiro sentido.

1.3. Sociedades apolíticas e políticas pré-modernas

Embora as disciplinas da Ciência Política e da Teoria do Estado não


se confundam, como visto no capítulo anterior, são saberes inegavelmente
próximos e conexos, assun como as demais disciplinas que estudam o
âmbito do político. O Estado é o principal fenômeno político
contemporâneo e, portanto, constitui um tema de importância central
para qualquer investigação sobre a política. Portanto, convém
compreender corretamente desde logo o conceito de Estado e sua
localização na sucessão de sociedades politicamente organizadas que
existiram ao longo da História.
O presente capítulo se prestará a situar o Estado historicamente,
demonstrando tratar-se o mesmo de espécie do amplo gênero das
sociedades políticas ou politicamente organizadas. Após tal introdução
histórica, exporá alguns conceitos e explorará algumas características
centrais do Estado, para começar a desenvolver um conceito adequado do
mesmo, que se completará em capítulos sucessivos.
Existiram e existem ainda hoje, embora sejam raras, sociedades
desprovidas de organização política, comumente denominadas sociedades
acéfalas, ou seja, literalmente, "sem cabeça" (VAN CREVELD, 2004).
São sociedades humanas muito simples, nas quais inexiste qualquer

Você também pode gostar