A CLÍNICA EM FREUD
AULA 4
Prof.ª Raquel Berg
CONVERSA INICIAL
Nesta aula, estudaremos três textos fundamentais na teoria freudiana:
“Sobre a concepção das afasias”, “Algumas considerações para um estudo
comparativo das paralisias motoras orgânicas e histéricas”, de 1893, e “Projeto
para uma Psicologia Científica”, de 1895. Esses textos darão algumas bases
para uma melhor compreensão dos estudos de caso de Freud sobre a histeria.
Nesse momento, Freud ainda trabalhava com a psicanálise como uma ciência
que poderia se apropriar dos estudos em neuroanatomia para estabelecer as
bases de seu próprio saber. Com sua proximidade das universidades europeias
e de estudos de cientistas como Wundt, Freud tentou relacionar suas hipóteses
sobre a formação do aparelho psíquico com os estudos referentes à
descoberta dos neurônios. Juntamente com seus estudos sobre as histéricas,
Freud procurou criar uma terminologia própria para esses achados, embora
após a divulgação da “Interpretação dos Sonhos”, o autor tenha abandonado
essa hipótese neuronal e seguido com o estudo das pulsões. Para fins dos
nossos estudos sobre psicanálise, suprimiremos boa parte das análises de
Freud a respeito do funcionamento do corpo humano que não contribuam
diretamente para nosso estudo inicial sobre o aparelho psíquico.
TEMA 1 – “SOBRE A CONCEPÇÃO DAS AFASIAS”
Esse texto sobre a concepção das afasias é, na verdade, um texto que
não pertence à coleção das obras completas. Talvez possamos dizer que ele
foi um primeiro “divisor de águas” entre os estudos neurológicos e psicológicos
freudianos, muito embora aqui o autor ainda discuta a constituição da fala e da
linguagem a partir de sua análise sobre as afasias. Mas o que é a afasia?
A afasia é, num sentido lato, um distúrbio de memória, e num sentido
estrito, uma perturbação da linguagem. Distinguem-se comumente 2
tipos de afasia: a afasia sensorial e a afasia motora. Na primeira, há
uma perda da compreensão da linguagem, embora seja mantida a
capacidade da pessoa de se servir da linguagem articulada; na
segunda, a pessoa perde a capacidade de pronunciar as palavras,
embora mantenha a compreensão do que as pessoas dizem (Freud,
1891 apud Garcia-Roza, 1995, p. 19).
Atualmente, a afasia é entendida como um transtorno de linguagem, que
pode ser causado por um AVC (acidente vascular cerebral), um tumor ou
alguma lesão neurológica. Sendo Freud um neurologista nessa época, era
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comum ele receber pacientes com esse tipo de problema em seu consultório, o
que o fez começar a estudar as origens da afasia nesses indivíduos, que nem
sempre tinha causas físicas.
Segundo Freud (1891), existem dois tipos de afasia, uma relacionada a
um centro (um centro motor, sobre o qual havia alguns estudos de Broca
considerando a perda da fala sem comprometimento da inteligência) e outra
mais ligada às vias de condução (um centro sensorial complexo, com estudos
de Wernicke sobre a perda da linguagem sem comprometimento da
capacidade de fala). No entanto, Freud classifica a afasia de Wernicke como
“parafasia”, pois, para ele, não seria um prejuízo ou uma lesão causada por
fatores externos ou traumas, mas sim um “sintoma puramente funcional”
(Freud, 1891 apud Garcia-Roza, 1995, p. 23). A grande diferença aqui é que,
se a afasia em questão fosse de fundo orgânico ou anatômico, o local lesado
ficaria permanentemente inativo, enquanto as outras partes não só iriam
funcionar, como se adaptariam para suprir a falta da parte que ficou inativa.
Portanto, nesse texto tem início o trabalho com a noção de representação, que
é, muito mais que a palavra em si ou o significado dessa palavra na língua
corrente, o que aquela palavra ou frase significa para um determinado
indivíduo, para o paciente; como ela se articula em sua história de vida e como
ela compõe a construção do sintoma para muito além do seu sentido
anatômico. A discussão, assim, ultrapassa o conceito da lesão orgânica para
um sentido funcional, ou seja, qual função ou papel ela exerce na psique, que
efeitos ela provoca no funcionamento global do psiquismo e na história de vida
do paciente. Freud não negou, nesse texto, a possibilidade de existência de
alterações neuronais em uma afasia funcional: o que ele questiona fortemente
é que sua origem tenha uma causa orgânica, o que ocorre na afasia de Broca e
no modelo de Nassif sobre os efeitos de sujeito, nos quais Nassif também
considera que haja uma causa orgânica ou fisiológica para todo problema de
linguagem.
Em primeiro lugar, os processos psíquicos não ocorrem em decorrência
dos processos fisiológicos, mas em paralelo a eles, sendo ambos pertencentes
a um único organismo e não a órgãos ou entidades dissociadas,
independentes. O todo é maior que a soma das partes; ou seja, para Freud a
linguagem é “uma totalidade, como algo que não pode ser dividido ou
fragmentado em ‘centros’, mas como algo unitário e indivisível, e somente em
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relação a algo desse tipo podemos empregar o termo ‘aparelho’.” (Freud, 1892,
apud Garcia-Roza, 1995, p. 37). Em segundo lugar, Freud também acredita
que alguns problemas de linguagem não estão necessariamente ligados a um
trauma; podem estar ligados a questões emocionais ou mesmo ao cansaço
(quem nunca teve dificuldade de gesticular uma resposta adequada após
acabar de acordar, antes de dormir em um dia muito exaustivo ou após
presenciar uma cena impactante que “atire a primeira pedra”).
É por meio da conexão entre as palavras e seus significados ou entre as
palavras e suas representações que Freud começa a trabalhar o conceito de
inconsciente. Pois, uma vez que o significado atribuído às palavras na
sociedade é arbitrário, a forma como nossa mente faz conexões entre essas
palavras e os afetos também é arbitrário. O esquema traçado na Figura 1
procura mostrar, de forma simples, que a palavra é uma composição entre o
som captado pelo sistema auditivo e a imagem captada pela visão. Já o sentido
dessa palavra se conecta, na mente, com o cruzamento de informações
sensoriais e as associações com outros objetos.
Figura 1 — Associações de objeto
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Já sabemos que a capacidade de aprendizado é facilitada quando
somos capazes de introduzir uma nova informação dentro de um conjunto de
conhecimento que já temos, quando ela passa a integrar e remodelar uma
informação previamente adquirida. No caso dos sintomas, essas associações
são involuntárias, não dependem do desejo do indivíduo de apreender a
informação. Pelo contrário, o desejo é esquecer; no entanto, da mesma forma
que acontece quando comemos um bolo e passamos mal, e nossa mente nos
“treina” a não gostar mais de bolo porque armazena a consequência de que
“bolo faz mal” (de forma evolutiva), quando temos uma experiência aleatória
que resgata uma lembrança ruim, essa experiência também passa a ser
rechaçada, gerando as condições para o estabelecimento do sintoma. Freud,
baseando-se em Stuart Mill, acredita na existência de quatro princípios para
que haja o estabelecimento da associação: semelhança (ideias parecidas têm
mais chance de se conectarem), contiguidade (a ocorrência de duas ideias em
um mesmo momento facilita que se associem), frequência (o quanto aquela
conexão se repete a ponto de criar uma ligação entre elas) e inseparabilidade
(no sentido de ser difícil pensar em um elemento separado de outro).
Por fim, a Figura 2 traz o esquema que mostra como se distinguem os
tipos de afasia, separando aquelas que compõem o grupo das afasias verbais
(com dificuldade para compreender as palavras), das afasias assimbólicas
(cuja dificuldade está em associar o nome ao objeto) e das agnosias (nas quais
há a dificuldade de reconhecer o objeto em si).
Figura 2 — Tipos de afasia
Esses distúrbios, muitas vezes, passam por um período de incubação ou
latência antes de virem a ser sintomas, processando esse período no
inconsciente.
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TEMA 2 – ALGUMAS CONSIDERAÇÕES PARA UM ESTUDO COMPARATIVO
DAS PARALISIAS MOTORAS ORGÂNICAS E HISTÉRICAS
Segundo o editor inglês James Strachey, esse texto faz parte do
primeiro conjunto de textos que foram “divisores de águas” da teoria freudiana,
no sentido de que trouxeram modificações de perspectivas (da Neurologia à
Psicologia). Esse estudo de Freud foi escrito a pedido de Charcot durante seu
estágio na clínica de Salpêtrière, que apresentamos em conteúdos anteriores.
Segundo o autor, existem dois tipos de paralisia motora de fundo
orgânico: as periférico-medulares (nos nervos periféricos) e as paralisias
cerebrais. Freud baseia essa afirmação no trabalho de Golgi, Ramón y Cajal e
Kölloker, e diz que “o trajeto das fibras da condução da motricidade é
constituído por 2 neurônios (unidades neurais celulofibrilares), que se acham
em conexão e se relacionam entre si no nível das células conhecidas como
células motoras do corno anterior” (Freud, 1895, p. 203). Na sequência, o autor
descreve a paralisia periférica como detalhada, na qual não há uma regra fixa
sobre qual a localização ou extensão de uma lesão nervosa, e a paralisia
cerebral como em massa, na qual acomete-se uma parte extensa do corpo, um
membro ou mesmo um aparelho motor complexo. Vale destacar que esses
estudos ainda estavam em seu início e que o modelo de neurônio só surgiu
efetivamente em 1903 com Ramón y Cajal, enquanto o complexo de Golgi foi
publicado em 1898, três anos após a publicação do Projeto. Freud, por também
desenvolver inúmeros estudos nessa área, tinha acesso prévio às descobertas
dos autores por sua comunicação em congressos e eventos, o que lhe permitia
adiantar hipóteses sobre o funcionamento do aparelho psíquico com base nas
descobertas que estavam se encaminhando.
Nessa época, era comum associarem a histeria à capacidade de simular
essas paralisias, entre outras diferentes doenças de fundo orgânico. Sobre
isso, Freud afirma que as paralisias histéricas não afetam músculos isolados e
sempre se apresentam em larga escala, semelhantes às paralisias cerebrais,
mas como paralisias de representação. Nesse sentido, ele afirma:
Em primeiro lugar, [a paralisia histérica] não obedece à regra, que se
aplica regularmente às paralisias cerebrais orgânicas, segundo a qual
o segmento distal sempre está mais afetado do que o segmento
proximal. Na histeria, o ombro ou a coxa podem estar mais
paralisados do que a mão ou o pé. […] e, clinicamente, podem-se
encontrar com muita frequência essas paralisias isoladas,
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contrariando as regras da paralisia cerebral orgânica. (Freud, 1895,
p.205-6).
Freud também observou que, no caso das afasias em histéricas, era
possível que uma paciente tivesse dificuldade de falar ou compreender um
idioma específico (seu idioma materno, por exemplo), mas permanecer capaz
de compreender um outro idioma, algo que não é possível de ocorrer numa
afasia orgânica. Nas lesões orgânicas, além disso, observa-se um prejuízo nas
funções de forma desigual, sendo as funções mais complexas e adquiridas
tardiamente no desenvolvimento humano que são as mais afetadas; já na
sintomatologia histérica, muitas vezes as funções mais primitivas, aquelas
adquiridas durante a tenra infância, ou as mais simples é que são afetadas,
havendo um prejuízo perfeitamente sincronizado com as questões psíquicas do
paciente:
A paralisia histérica se caracteriza, pois, pela delimitação precisa e
pela intensidade excessiva; possui essas duas qualidades ao mesmo
tempo, e é nisso que manifesta maior contraste em relação à paralisia
cerebral orgânica, na qual regularmente se constata que essas duas
características não se associam entre si (Freud, 1895, p. 207-8).
Freud, assim como Charcot, acredita que a lesão histérica, diferente da
lesão orgânica que tem origem cortical, tem sua origem de forma dinâmica ou
funcional, conectada às experiências do paciente que não foram elaboradas.
Ou seja, “o que está em questão é a concepção corrente, popular, dos órgãos
e do corpo em geral” (Freud, 1895, p. 213). Essa frase será vista com muita
frequência nos estudos a respeito de Freud e da histeria, pois ela traduz de
maneira única e direta o significado da histeria na dinâmica da formação dos
sintomas.
TEMA 3 – PROJETO PARA UMA PSICOLOGIA CIENTÍFICA (PARTE I)
O texto sobre o Projeto é, na verdade, um rascunho cuja intenção foi
apresentar duas ideias: 1) que o próprio estado de repouso da mente está
sujeito às leis do movimento e 2) que os neurônios são partículas materiais
(como já mencionamos, a descoberta do neurônio ainda aconteceria). Assim
Freud traz seu “princípio da inércia”, segundo o qual os neurônios se esforçam
por eliminar toda a energia que possa eventualmente se acumular neles, e o
“princípio da constância”, no qual Freud afirma que o organismo procura
manter uma quantidade de energia constante ou tão baixa quanto possível.
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Na teoria das “barreiras de contato”, Freud (1895) aborda a memória do
tecido nervoso; nesse sentido, o tecido nervoso é capaz de, ao mesmo tempo,
manter-se estável e dinâmico, uma vez que tem células capazes de
permanecer intactas e células capazes de se modificar, de se transformar;
aqui, o autor cita as células perceptuais (que apenas captam as informações) e
células mnêmicas (que armazenam a informação captada). Na teoria das
barreiras de contato, Freud (1895) afirma que há duas classes de neurônios:
um que não se altera depois da passagem de uma energia de excitação
(chamados de permeáveis), e outro que é mais sensível e, por isso, impede a
maior parte da energia de excitação de passar por ele (impermeável).
Do ponto de vista biológico, Freud tem ciência de que sua hipótese é
muito mais um modelo do que uma estrutura identificada em estudos de
anatomia, o que não impede um pesquisador de criar um modelo teórico para
facilitar a compreensão de sua proposta. Aliás, em seu estudo, Freud (1895)
menciona que, tal como os estudiosos do neurônio, ele também acreditava que
as terminações de um neurônio e suas conexões fossem a mesma coisa, o que
não estaria de todo incorreto se formos pensar que tanto os dendritos quanto
as terminações dos axônios cumprem a função de conexão. A Figura 3 ilustra o
que hoje sabemos sobre os neurônios.
Figura 3 — Estrutura de um neurônio
Créditos: Ldarin/Shutterstock.
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Neste ponto, da mesma forma que há dois tipos de neurônios, Freud
também considera que o sistema nervoso tem duas funções: receber estímulos
externos ao organismo e fazer a descarga das excitações de origem endógena.
O sistema nervoso é composto de um cérebro primitivo conectado às nossas
funções primárias (como comer, dormir, respirar, piscar etc.), além de regiões
mais desenvolvidas, responsáveis pelo aparelho psíquico, emocional (que hoje
sabemos que está relacionado com o sistema límbico) e cognitivo (localizado
no córtex pré-frontal). Segundo Freud, todos esses sistemas costumam
funcionar de forma equilibrada e regulada. Quando se ultrapassa a capacidade
do organismo de lidar com uma determinada quantidade de energia, surge a
dor. O sistema nervoso tem um importante papel de fugir da dor, o que faz com
que surjam os sintomas a partir da união dos sistemas para acabar com essa
dor. Aqui não estamos pensando apenas em dor física, mas também no
significado da dor, o que adentra a questão qualitativa da dor: “a consciência
nos dá o que se convencionou chamar de qualidades — sensações que são
diferentes numa ampla gama de variedades e cuja diferença se discerne
conforme suas relações com o mundo externo” (Freud, 1895, p. 360). Nesse
sentido, haveria uma terceira classe de neurônios, que faria a intermediação
entre as informações quantitativas e qualitativas. A consciência é a combinação
desses três tipos de neurônios, os quais fazem com que a consciência sofra
modificações mesmo quando não está em operação (isto é, mesmo quando
estamos dormindo, por exemplo).
Esse funcionamento neuronal ocorre em conjunto com o princípio da
inércia, ou seja, é papel desses três conjuntos de neurônios evitar o desprazer.
Quando a quantidade de energia aumenta, eles se organizam para eliminá-lo,
sendo que em baixa quantidade ou quantidade adequada (ou seja, com a
produção de prazer) esses neurônios permanecem estáveis. De acordo com
Laplanche e Pontalis (2001, p. 362), esse modelo do princípio de inércia é
similar ao reflexo, pois, no arco reflexo, uma sensação experimentada é uma
sensação captada pelo órgão e completamente descarregada por sua
respectiva via sensorial (audição, olfato, paladar, visão). Dependendo da
intensidade do estímulo, não há um efeito sobre o organismo (como quando
estamos envolvidos em uma corrida e não sentimos pisar em uma pequena
pedra, ou quando escutamos uma apresentação musical e não nos damos
conta dos instrumentos que participam da audição); mas, quando há uma
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intensidade suficiente, nosso corpo reage ao estímulo, quer provocando o
prazer, quer o desprazer. Caso o corpo encontre uma outra experiência ou
outro objeto que possa cessar a sensação de dor, o sistema psíquico
rapidamente associará esse novo objeto à experiência de cessação da dor,
resgatando-o caso a dor volte a aparecer. Esse sistema está relacionado ao
que Freud começa a chamar de ego, uma estrutura psíquica mediadora, que
inibe processos aversivos e facilita a sensação de prazer, garantindo assim o
equilíbrio do sistema nervoso.
Figura 4 — Caminhos do prazer ou desprazer
A Figura 4 mostra que os caminhos do prazer e do desprazer seguem
vias diferentes, muito embora a origem seja a mesma. E Freud (1895) resume
de forma simples o fluxo de energia: quando o ego (ou seja, a instância que
medeia a entrada e descarga de impulsos) catexizado (cheio de energia de
investimento) é inibido (ou seja, reage inibindo essa energia que está nele), a
descarga de energia necessária torna-se uma indicação de realidade (ou seja,
a psique busca no corpo uma forma de descarregar essa energia, conectando-
a diretamente com a realidade e com o que o corpo está sentindo no
momento), permitindo assim a descarga de energia de forma específica e
direta. Uma das formas mais comuns se dá nos sonhos, uma das primeiras
vezes que Freud introduz esse assunto.
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TEMA 4 – PROJETO PARA UMA PSICOLOGIA CIENTÍFICA (PARTE II)
A segunda parte desse estudo trata das psicopatologias. Na histeria, o
paciente fica sujeito a uma compulsão, que ocorre por causa de ideias intensas
e recorrentes. Segundo Laplanche e Pontalis (2001), na terminologia freudiana
a compulsão é um tipo de atitude que o paciente é levado a ter por uma
imposição interna. O pensamento é obsessivo e o comportamento é
compulsivo, e esse comportamento (ou conjunto de comportamentos) é uma
defesa contra a sensação de angústia originada pelos pensamentos
obsessivos. Esses termos têm o mesmo significado da terminologia absorvida
pela psiquiatria atual.
Segundo o autor, todas as pessoas são capazes de ter ideias intensas e
repetidas. Isso ocorre com um investigador e são perfeitamente justificáveis. O
problema das ideias e comportamentos histéricos é que eles são extravagantes
(por vezes, ridículos), ininteligíveis, incongruentes em sua estrutura e não
podem ser resolvidos por meras reflexões internas ou estudos pessoais, pois
são impossíveis de solucionar pelo raciocínio. As compulsões histéricas
também persistem, diferentemente de um pensamento comum, demonstrando
sua associação com as neuroses. Outra situação que ocorre na histeria é o
aparecimento de símbolo. No ambiente comum, diz Freud (1895, p. 403): “um
soldado é capaz de se sacrificar por um farrapo multicor preso a um mastro,
por que (sic) isso se transformou para ele no símbolo de sua pátria”. Nesse
exemplo, não se considera um comportamento histérico o soldado se sacrificar
porque o pedaço de farrapo (no caso, provavelmente uma bandeira que sofreu
danos) é um símbolo compartilhado socialmente, para o qual os militares
cantam quando louvam seu país. No caso da histeria, o símbolo representa a
substituição de um desejo ou de um conflito, muito embora esse símbolo não
tenha qualquer relação com o desejo em questão (ou seja, a escolha do
símbolo se dá pelo deslocamento da energia, enquanto a angústia original é
recalcada e excluída do pensamento consciente). Veremos em conteúdos
posteriores alguns dos estudos de Freud sobre como os símbolos estabelecem
uma importância única na formação da histeria. No caso da histeria, Freud
acredita que sua origem está relacionada a questões sexuais, uma vez que
essa era a principal questão das pessoas no final do século XIX — o controle
excessivo sobre a sexualidade.
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TEMA 5 – PROJETO PARA UMA PSICOLOGIA CIENTÍFICA (PARTE III)
A parte 3 do Projeto trata de uma tentativa de Freud de representar os
processos psíquicos normais. Segundo o autor, toda percepção excita, de
alguma forma, a consciência. Essas excitações geram uma descarga que leva
informação aos neurônios conectados ao psiquismo, que irá processar e avaliar
qualitativamente a informação recebida. Isso influencia diretamente a atuação
do processo de atenção, pois, do ponto de vista biológico, a atenção orienta o
ego sobre qual informação ele deve se ater, quais informações são relevantes
e quais podem ser simplesmente ignoradas pela consciência.
A fala tem um papel muito importante na formação do psiquismo, pois a
fala também cria as conexões entre significante e significado, entre os símbolos
e suas associações motoras, visuais e sonoras, e a formação da memória, ou a
formação de facilitações neuronais para informações conhecidas. Com isso, o
pensamento é constituído com base nas indicações de realidade que o ego faz
ao psiquismo e na fala com seus símbolos, que trazem a forma mais elevada
do psiquismo e do pensamento cognitivo. Enquanto essa construção se dá sem
excessos de catexia, o sofrimento emocional não aparece e o indivíduo é
capaz de processar as informações de modo racional.
Quando uma lembrança causa desprazer, segundo Freud (1895),
significa que, quando houve a captação da percepção correspondente à
lembrança, essa percepção causou desprazer, gerou uma experiência de dor.
Essas experiências atraem a máxima atenção do psiquismo, não por trazerem
uma experiência de prazer, mas porque trazem a recordação de uma
experiência de desprazer. E, se houver uma passagem de pensamento no
momento que o ego está se defendendo do desprazer, esse novo pensamento
poderá ficar aleatoriamente associado à experiência de dor. Isso está
relacionado às falhas que ocorrem no psiquismo considerado normal.
Juntamente a isso, os erros de pensamento podem ocorrer quando o
psiquismo procura traduzir uma determinada emoção de maneira “simplista”,
utilizando um único neurônio para traduzir uma informação considerada
complexa; outro erro pode advir da percepção parcial da realidade. Isso pode
estar ocorrer nos sonhos, por exemplo. No capítulo anterior, Freud (1895)
explicou que os sonhos fazem conexões absurdas, pois a necessidade do
psiquismo é estabelecer conexões; quando duas ou mais experiências exigem
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simultaneamente uma descarga de energia, o sonho recebe sem restrição
ambas as energias, criando, portanto, as conexões aleatórias que assim
produzem os sonhos sem sentido, com informações que não têm qualquer
relação no tempo ou no espaço em que ocorreram, tendo assim como única
função a realização de desejos.
NA PRÁTICA
No texto sobre as paralisias orgânicas e histéricas, Freud (1895) traz
alguns exemplos da época, os quais podemos transportar para os dias atuais
quando queremos compreender o significado da concepção psíquica do corpo,
para além do corpo como organismo vivo. O primeiro exemplo é o do homem
que não queria lavar a mão porque seu soberano a tinha tocado. Isso é a
mesma situação que vemos hoje quando um fã, por exemplo, conhece seu
ídolo e tem a oportunidade de receber um abraço ou um aperto de mão, e
decide não querer mais se lavar ou lavar suas roupas para conservar aquela
experiência, aquela sensação conectada aos sentidos mais primitivos. Outro
exemplo dado no texto traz as tribos selvagens que, na Antiguidade,
queimavam os bens de um líder morto e, muitas vezes, também seus animais e
suas esposas, como um símbolo de que nenhuma dessas “coisas” poderia
voltar a ser tocada. Novamente, quantas vezes em consultório já observamos a
dificuldade das pessoas que perdem entes queridos em desmontar o quarto ou
em vender ou doar os objetos que pertenciam a essa pessoa, como se tudo
aquilo não pudesse pertencer a mais ninguém além do ente morto. A sensação
de seguir em frente, mudar rotinas e preservar a experiência somente na
memória gera um conflito emocional que, quando mal administrado, cria os
sintomas e, em seu estado mais grave, os transtornos. Como diz Freud (1895,
p. 215): “todo evento, toda impressão psíquica é revestida de uma determinada
carga de afeto […] da qual o ego se desfaz, seja por meio da reação motora,
seja pela atividade psíquica associativa”. Assim, sempre que temos uma nova
experiência, essa vem imbuída de uma carga de afeto e, quando essa carga
traz algum tipo de sofrimento (seja intrínseco à experiência ou ligado a alguma
experiência anterior conectada à lembrança de alguma forma), nossa mente
fará um esforço para recalcar essa lembrança ou separar a informação do
afeto, deslocando-o na forma de sonhos, chistes (as famosas piadas com
fundo de verdade), sintomas ou na sublimação, com comportamentos que nos
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trazem prazer para além do sexual — comer, conversar, praticar exercícios
físicos, entre outros.
FINALIZANDO
Como mencionamos no início desta aula, nosso objetivo aqui foi trazer
as origens do trabalho de Freud, expressas em seus textos sobre as afasias,
na comparação das paralisias motoras orgânicas e histéricas e no Projeto para
uma Psicologia Científica. Trabalhamos de forma aprofundada sobre esses
estudos para compreender como Freud sai da lógica anatômica das doenças e
passa para a lógica da representação. Ao analisar os sintomas histéricos e as
afasias, Freud estabelece alguns modelos sobre o funcionamento psíquico que
darão base para que ele posteriormente constitua sua teoria sobre o
inconsciente e sobre o funcionamento do aparelho psíquico.
Esperamos que tenha aproveitado as discussões apresentadas aqui
para conhecer um pouco mais das origens da Psicanálise e convidamos você a
continuar acompanhando os conteúdos para saber mais sobre como Freud
elaborou e desenvolveu seus estudos, criando assim as bases de sua teoria.
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REFERÊNCIAS
FREUD. (1895) Projeto para uma Psicologia Científica. v. 1. In: Edição
standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud
(1886-1899). Rio de Janeiro: Imago.
GARCIA-ROZA, L. A. Introdução à metapsicologia freudiana. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar, 1995. v. 1, v.2 e v. 3.
LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. B. Vocabulário da Psicanálise. 4. ed. São
Paulo: Martins Fontes, 2001.
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