História Da Arte Brasileira Dos Anos 1970 A 1990
História Da Arte Brasileira Dos Anos 1970 A 1990
a 1990
Os principais acontecimentos artísticos das três últimas décadas do século XX e sua relação com fatores
sociais, políticos e econômicos.
Prof. Thiago Fernandes
1. Itens iniciais
Propósito
Aprender sobre as transformações no campo da arte brasileira entre as décadas de 1970 e 1990 serve de
instrumento para lidar com o funcionamento dos atuais circuitos artísticos.
Objetivos
• Reconhecer as motivações que levaram à busca de novos materiais e lugares para a arte.
• Identificar o impacto de acontecimentos políticos, como a ditadura e a redemocratização na produção
artística brasileira.
• Analisar as condições da arte brasileira no contexto da globalização.
Introdução
As últimas décadas do século XX foram de consolidação, no campo da arte, das experimentações realizadas
nos anos 1950 e 1960. Com o enrijecimento da Ditadura Militar após o Ato Institucional nº 5, decretado em
1968, artistas brasileiros tiveram de recorrer a táticas silenciosas para encarar o contexto político vigente,
apostando cada vez mais em trabalhos efêmeros, conceituais, e nas novas mídias, como o vídeo.
Ato Institucional nº 5
Atos Institucionais foram o recurso jurídico usado pelas forças da Ditadura Civil-Militar para ações que
iam contra a Constituição e sem a necessidade de validação dos outros poderes. O mais famoso é o nº
5, instituído por Costa e Silva, com o objetivo de expandir os controles nacionais. É marcado pela
ampliação das ações de controle moral e social, pelo fechamento do Congresso e pela criação de
agências reguladoras, que tinham que autorizar, por exemplo, de notícias a obras de arte para que não
ferissem os ideais “revolucionários”.
Neste material, compreenderemos os processos de ruptura, retomada e redescoberta que caracterizam a arte
brasileira das três últimas décadas do século passado. Veremos como fatores sociais, políticos e econômicos
— como a Ditadura Militar, a redemocratização e a globalização — afetaram a produção artística e os seus
modos de recepção pública.
1. Anos 1970
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A obra não existe mais. A arte é um sinal, uma situação, um conceito [...] O
artista não é o que realiza obras, dadas a contemplação, mas o que propõe
situações que devem ser vividas, experimentadas. Não importa a obra,
mesmo multiplicada, mas a vivência [...] O artista é o que dá o tiro, mas a
trajetória da bala lhe escapa. Propõe estruturas cujo desabrochar, contudo,
depende da participação do espectador.
As sentenças acima, retiradas do texto Contra a arte afluente: o corpo é o motor da “obra”, escrito pelo crítico
brasileiro Frederico Morais em 1970, abrem aquela década dando o tom do que estaria por vir. A negação da
noção de obra — e, em especial, da obra como um objeto dado à contemplação — faz ecoar os desejos dos
artistas neoconcretos, que, no final da década de 1950, já militavam pela participação ativa do público em sua
relação com a arte.
Artistas brasileiros da década de 1970 levaram mais a fundo a promessa neoconcreta de diluição da arte na
vida cotidiana. O corpo é o motor da arte, que, muitas vezes, ganha a aparência não de objeto, mas de uma
situação que é projetada pelo artista e vivenciada pelo público: mecanismos a serem ativados pelo corpo,
performances e objetos inseridos em lugares inesperados gerando momentos de medo, desconforto ou
engajamento são alguns dos exemplos das proposições artísticas daquela década.
Embora essas tendências estejam em sintonia com movimentos artísticos internacionais (como a arte
conceitual, a land art, a body art e a mail art), elas adquirem certas particularidades no contexto brasileiro. Um
de seus motivadores é a Ditadura Militar iniciada em 1964, que se tornou mais rígida na década de 1970,
fazendo com que artistas escapassem daquelas formas mais diretas de posicionamento (como a arte
figurativa em desenho, pintura ou escultura, muito difundida na década anterior) e buscassem formas de
comunicação mais sutis, metafóricas, camufladas no cotidiano ou mesmo clandestinas.
A arte brasileira já possuía um histórico de
exposições e obras censuradas desde a
década de 1960. Mostras importantes como
Propostas 65 (1965), o IV Salão de Artes do
Distrito Federal (1967), o III Salão de Ouro Preto
(1967), a IX Bienal de São Paulo (1967-1968) e a
II Bienal de Artes Plásticas da Bahia (1968) já
haviam sofrido interferência dos militares.
Um dos primeiros indícios de mudança nas estratégias adotadas pelos artistas brasileiros diante da repressão
se deu no Salão da Bússola, que ocorreu em 1969 no MAM Rio.
O trabalho de Barrio ativa diferentes sentidos, rompendo com a ideia de “contemplação” de um objeto artístico
e mesmo com a noção de obra, uma vez que as Trouxas não foram compreendidas, no primeiro momento,
como tal. O cheiro exalado pelo material tornava o olfato um sentido significativo para a situação gerada por
Barrio, assim como a reação e interação das pessoas que tentavam se aproximar. Sendo assim, o que há de
mais fundamental no trabalho não é o objeto, mas a situação por ele gerada.
As mensagens “subversivas” de Cildo chegavam ao público de forma anônima, discreta e direta, sem
a mediação de um espaço expositivo tradicional, funcionando como uma tática para se posicionar
contra a Ditadura sem ser descoberto.
A ação de Antonio Manuel resultou em uma exposição de 24 horas, tempo de duração de um jornal, e
aconteceu exclusivamente em suas páginas. Em uma nota incluída no encarte, o artista afirma que “o espaço
do MAM, das Galerias, tornou-se pequeno em relação aos veículos de massa”.
Destacam-se também os Domingos da criação, coordenados por Frederico Morais durante seu período como
coordenador de cursos no MAM-Rio.
Já a popularização de equipamentos portáteis de vídeo fez difundir-se a videoarte no Brasil. Artistas como
Anna Bella Geiger, Letícia Parente, Sonia Andrade, Fernando Cocchiarale e Paulo Herkenhoff exploraram o
potencial poético e político do vídeo, subvertendo seus usos tradicionais (entretenimento, documentação
etc.). Com essa nova mídia, encontraram possibilidades de capturar e projetar ações efêmeras realizadas com
o corpo e realizar novas experiências com a imagem em movimento.
Um dos elementos que chama a atenção desse novo diálogo é a mudança de status da performance pontual e
simbólica, que passa a ter um caráter de maior continuidade, repetição, uma nova poética representativa. De
alguma forma, parte da arte ganha novos meios de exploração e não está mais voltada para poucos
produtores excêntricos ou poderosos.
Com isso, o próprio espaço da exposição e do entendimento de arte também muda, afinal, passa pouco a
pouco a ser comum encontrar vídeos e filmes em galerias de arte, e sua percepção pelo espectador se dá de
maneira distinta daquela que ocorre nas salas de cinema.
O espectador geralmente não está em uma sala escura, que direciona seu olhar para uma única tela
retangular, mas na sala luminosa de um espaço expositivo, simultaneamente a outras telas e objetos.
Enquanto o espectador de cinema mantém uma postura imóvel e sentada, o visitante de museu ou galeria é
um sujeito errante, cuja postura é móvel e ereta. Dessa maneira, ele não se prende à duração do vídeo. As
imagens podem ser abandonadas e retomadas a qualquer instante, podendo realizar uma fruição fragmentada
e não linear.
A arte sempre foi produzida com os meios de
seu tempo, apropriando-se das tecnologias
disponíveis. Podemos recordar, por exemplo, a
forma como o nascimento da fotografia e do
cinema impactou a obra de artistas modernos.
Com a migração da arte do espaço fechado dos museus e das galerias para a TV e para outras mídias de
massa, seu estatuto e alcance são modificados e, assim, são possibilitadas novas formas de inserção social. O
sucesso midiático de artistas visuais e a disponibilidade de acesso à arte pela reprodução em meios de
comunicação de massa são alguns dos fatores que marcaram a produção artística da década de 1980.
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Questão 1
Artur Barrio e Cildo Meireles são dois artistas que, na década de 1970, buscaram outras formas de exibição
para seus trabalhos. Enquanto Barrio dispensava as galerias para expor suas Trouxas ensanguentadas na
beira de um rio, Meireles utilizava garrafas de refrigerante como veículos para suas mensagens “subversivas”.
A respeito da execução de seus trabalhos, o que mais poderíamos apontar como um elemento em comum
entre suas propostas?
Questão 2
C
o uso da arte como entretenimento.
Pintura redescoberta
Na década de 1980, tem sucesso no Brasil uma nova
geração de artistas, cuja infância e adolescência se
caracterizaram pela convivência com um amplo repertório
de imagens.
É desse mundo de imagens, disponíveis com muita facilidade, que a Geração 80 retirou parte considerável de
suas referências e inspirações. Além da cultura de massa, seu repertório visual é formado pelo contato com a
arte via catálogos e fascículos vendidos em bancas de jornais, além dos acervos de museus que foram
construídos no país nas décadas anteriores.
Uma “redescoberta” da pintura já era anunciada desde o final da década de 1970. O Panorama da Arte
Brasileira, que ocorreu em 1979 no Museu de Arte Moderna de São Paulo, surpreendeu alguns críticos, como
Frederico Morais, devido à forte presença da pintura após tantos anos de predomínio do conceitualismo, da
videoarte e da arte produzida com meios não convencionais.
Morais alegava que a pintura não estava sendo retomada, pois ela nunca deixou de ser produzida,
mas redescoberta.
Ocorre que alguns artistas, movimentos e meios parecem
“sair de cena” quando não se encaixam muito bem nas
ideias defendidas por quem tem o poder de formar opinião.
Com a abertura política, uma sensação de liberdade se difundiu na década de 1980 e se refletiu em vários
setores da cultura, da rebeldia do rock nacional à tomada das ruas pela axé music baiana e pelos trios
elétricos. As multidões reunidas pelo movimento Diretas Já encontraria um paralelo na arte com a exposição
Como vai você, Geração 80?, que reuniu na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, 126
artistas.
Entre os diversos nomes importantes que participaram da mostra estão Alex Vallauri, Beatriz Milhazes, Cristina
Salgado, Daniel Senise, Delson Uchôa, Gervane de Paula, Leda Catunda, Jorge Guinle Filho, José Leonilson,
Ricardo Basbaum e Suzana Queiroga.
Como vai você, Geração 80?, 1984, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage.
Com o novo espírito de liberdade e com a redescoberta da pintura, críticos e artistas questionavam se as
vanguardas teriam terminado.
Mais do que um mero “retorno” ao ato de pintar, a nova pintura seria influenciada pelas inovações das
vanguardas do passado e pela grande quantidade de informações visuais das mídias de massa do presente.
Surgia uma arte eclética, derivada de diferentes fontes e irredutível a uma categoria exclusiva.
Com a superação da ideia evolucionista das vanguardas, os
artistas não mais temiam fazer obras de influência pop um
dia, expressionistas em outro, surrealistas em outro, sem se
reduzir a um movimento específico e sem se recusar a
misturar essas diferentes influências numa mesma obra.
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A chamada Geração 80 foi também um fenômeno midiático. Foram os veículos de comunicação os principais
responsáveis por moldar sua imagem, com discursos que enfatizavam suposta atitude hedonista daqueles
artistas, o prazer de pintar e outros clichês, em contraponto ao aspecto político e experimental da década
anterior.
Tal generalização causa estranhamento se considerarmos alguns artistas que surgiam naquele período, mas
não se encaixavam num suposto “estilo” da Geração 80. Na contramão desse fenômeno surgiam iniciativas
coletivas de artistas, responsáveis por criar circuitos paralelos ao circuito hegemônico (aquele formado por
museus, galerias e outras instituições que se estabeleciam).
Em São Paulo, desde pelo menos a década de
1970, já se via propostas desviantes como o
grupo 3Nós3, que realizava intervenções em
espaços públicos e mantinha postura crítica
diante do mercado de arte.
No Rio de Janeiro, iniciativas como essa surgem com maior força na década de 1980, por meio de grupos
como A Moreninha, que era formado, em sua maioria, por artistas que participaram da exposição Como vai
você, Geração 80?, além do crítico Marcio Doctors. Os integrantes do grupo acreditavam que a crítica local e a
mídia privilegiavam o “retorno à pintura” e ignoravam a produção que não se encaixava nessa categoria.
Portanto, os moreninhos — como eram chamados os membros do grupo — militavam pela tomada da palavra
pelo artista, questionando o rótulo Geração 80, e desejavam mudar a imagem do artista como alguém ligado
estritamente à pintura e ao circuito comercial.
Em sua primeira ação, os integrantes promoveram uma maratona de pintura impressionista na Ilha de Paquetá,
no Rio de Janeiro. Na ocasião, o grupo homenageava o centenário de um suposto grupo de “pintores de
domingo”, seguidores de Manet, também chamado A Moreninha, que no século XIX teria se reunido na mesma
ilha para realizar pinturas ao ar livre. Mas essa história não passava de uma farsa criada pelo grupo e enviada
aos veículos de comunicação. Jornais e emissoras de TV replicaram a falsa história e divulgaram a ação na
qual artistas da Geração 80 celebrariam o centenário do grupo de pintores impressionistas que haveria
passado por Paquetá.
A mídia, que havia sido responsável por difundir clichês sobre a Geração 80, foi utilizada de forma
tática por artistas que não se conformavam com tal rótulo e desejavam desconstruir aquele
estereótipo.
Após essa primeira ação, os integrantes passaram a realizar encontros periódicos em seus ateliês, onde
debatiam aspectos referentes às artes visuais, como os movimentos internacionais e as questões do meio de
arte brasileiro e, mais especificamente, carioca.
A Moreninha também realizava intervenções no circuito artístico, como o happening durante a palestra do
crítico italiano Achille Bonito Oliva — principal teórico da transvanguarda, que ecoava nos discursos sobre a
Geração 80 — na galeria Saramenha, no Rio de Janeiro. Na ocasião, o crítico italiano buscava divulgar seu
“novo” movimento artístico, uma espécie de desdobramento da transvanguarda chamado Progetto Dolce.
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Questão 1
A arte e o preço da arte é um debate histórico. Muito discutiu-se, na década de 1970, com os novos
equipamentos e as formas de serem disseminados, que as tela tinham perdido seu papel e teriam chegado ao
seu fim, mas isso não aconteceu. Qual relação podemos estabelecer entre a renovação pelo interesse na
pintura e o crescimento do mercado de arte no Brasil na década de 1980?
A pintura é um meio mais fácil de ser comercializado, diferentemente de performances e materiais menos
convencionais que prevaleceram na década de 1970.
O domínio do mercado de arte conseguiu banir a execução de trabalhos artísticos com meios menos
convencionais, obrigando os artistas a dedicarem-se à pintura.
C
Apenas o mercado conseguia definir os parâmetros da produção artística, eliminando a influência de outras
instituições, como museus e escolas de arte.
O mercado está de acordo com os ideais evolucionistas da vanguarda, encontrando na retomada da pintura
uma nova fase, superior às anteriores.
O mercado teve que se dedicar à pintura, pois era o único meio de expressão adotado pelos artistas naquela
década.
Questão 2
Ao escrever sobre a exposição “Como vai você, Geração 80?”, o artista Jorge Guinle afirma: “Estão ausentes
nos trabalhos brasileiros a busca de identidade nacional, (que se nota nos italianos e alemães, como Penck),
os brasileiros preferem o cosmopolitismo barato dos shopping center”. Qual aspecto da Geração 80 pode ser
relacionado a essa frase?
A redescoberta da pintura.
O caráter comercial.
O posicionamento político.
O ecletismo.
A alternativa E está correta.
Na década de 1980 surge no Brasil uma arte eclética, derivada de diversas fontes. Ao mencionar o
cosmopolitismo do shopping center, Guinle observa a não redução da arte brasileira a uma identidade fixa.
3. Anos 1990
A virada dos anos 1980 para os anos 1990 consolida a emergência de contextos periféricos nas narrativas da
história da arte. Sendo até então uma disciplina de base europeia, e por vezes norte-americana, a história da
arte, bem como o circuito artístico contemporâneo, passou a incluir artistas de regiões até então
marginalizadas, como o Brasil.
É o momento da descoberta internacional de artistas como Hélio Oiticica, Lygia Clark e Lygia Pape, alguns dos
mais importantes nomes da arte contemporânea brasileira, que finalmente protagonizaram mostras em
renomadas instituições na Europa e nos Estados Unidos. Enquanto isso, no Brasil eram inaugurados grandes
centros culturais, patrocinados por bancos ou grandes empresas, responsáveis por realizar mostras de
artistas como Claude Monet e Salvador Dalí.
A respeito dos meios de expressão, a pintura, que teve seu auge na década anterior, seguia com força, mas
também se elevou o número de artistas interessados em produzir vídeos ou videoinstalações — projeções em
grande formato, ou com múltiplas telas, nas quais é criado um ambiente para a imersão do espectador. Não
podemos dizer, entretanto, que há um meio dominante: deparamo-nos com um considerável número de
esculturas, objetos, gravuras, desenhos, intervenções urbanas e outras manifestações. O senso de liberdade,
que se evidenciou na década de 1980, parecia ter sido levado mais a fundo.
Com a participação mais ativa do Brasil no circuito global de arte e com o avanço das trocas com outros
países no âmbito da cultura de massa (cinema, música, programas de TV etc.), uma das principais
inquietações dos artistas nacionais era a respeito do entendimento de si e de suas obras como brasileiras em
um mundo globalizado.
A globalização fez surgir reflexões sobre a ameaça da homogeneização cultural: quando culturas
dominantes se impõem sobre outras, apagando ou ocultando as diferenças.
Encontramos um exemplo dessa atitude no artista paraense Emmanuel Nassar, que em algumas obras toma
como referência a tradição da arte construtiva europeia, de aspiração universalista, mas produz seu
vocabulário geométrico com materiais precários — geralmente resíduos industriais — representativos de um
país subdesenvolvido.
Para Nassar e outros artistas brasileiros, a prática da gambiarra é assumida como uma resposta à condição do
Brasil em meio à desigualdade existente no mundo globalizado. Considerada um desvio ou uma improvisação
aplicada ao uso de dispositivos, objetos e espaços antes destinados a outras funções — devido à falta de
recursos, tempo ou mão de obra —, a gambiarra possui sentido cultural forte no país, designando soluções
rápidas e feitas com as possibilidades à mão.
Artistas brasileiros sentiam fazer parte de uma cultura global, ao mesmo tempo em que se
identificavam com sua nacionalidade ou região específica, mostrando ser possível fazer arte que
dialogue com o restante do mundo sem perder um “sotaque” próprio.
O popular, o suburbano e o regional entram em contato com o cosmopolita. Termos como hibridez e
sincretismo foram valorizados como marcadores da singularidade da arte brasileira.
Arte e sociedade no fim do século
A arte às vésperas do milênio
Se na década de 1980 movimentos artísticos do
passado tornaram-se fonte de inspiração
assumida pelos artistas, na década de 1990 é a
própria história do país, e não apenas a história
da arte, que se eleva como objeto de interesse
artístico. O clima de fim de século, com a
proximidade do ano 2000, fez despertar no
mundo inteiro revisões sobre as décadas
precedentes e expectativas para o novo
milênio.
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Diante disso, na virada do século XXI, o Rio de Janeiro assistiu à proliferação de ações artísticas em espaços
públicos, além do surgimento de um grande número de iniciativas coletivas de artistas e espaços autônomos
de arte contemporânea. Enfrentando dificuldade de inserção nesse restrito circuito, alguns artistas passam a
criar seus próprios circuitos e a atuar como autolegitimadores dessa nova produção.
A mostra significava um gesto de independência e de busca por visibilidade para artistas jovens, de carreira
menos consolidada, bem como uma resposta ao sentimento de estagnação presente no sistema de arte da
cidade.
A Galeria do Poste convidava, uma vez por mês, um artista para realizar uma intervenção num poste da Rua
Coronel Tamarindo, no bairro do Gragoatá. A casa localizada exatamente em frente ao poste, pertencente ao
artista Ricardo Pimenta, idealizador do projeto, também fazia parte da galeria e abrigava eventos,
manifestações artísticas variadas e o bistrô da Galeria do Poste.
Assim, formavam uma rede de contatos locais, nacionais e internacionais, possibilitando a vinda ao Brasil de
nomes que dificilmente seriam trazidos por um museu, pois isso mudaria a natureza de condução do projeto,
intensificando o custo e a burocracia. Devido às suas pequenas dimensões e à pouca burocracia, a condução
dessas agências torna-se mais ágil e flexível.
Além disso, iniciativas como essa conferiam ao artista uma nova posição diante do circuito e de um mercado
de arte muito restrito, que o reduzia a uma figuração passiva. A mobilização e as estratégias desses grupos
diante do sistema de arte conferiram aos artistas o papel de agenciadores de seus próprios circuitos.
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Questão 1
Entre as opções abaixo, qual exemplifica um efeito da globalização na arte brasileira da década de 1990?
A ênfase na pintura.
Questão 2
Rosana Paulino utiliza seus trabalhos para abordar o racismo estrutural no Brasil. Adriana Varejão trata da
violência no Brasil colonial e seus desdobramentos na atualidade. Vik Muniz desenvolve trabalhos artísticos
em torno da miséria. Entre as opções abaixo, qual podemos definir como a ligação entre esses três artistas e,
simultaneamente, uma característica comum na arte brasileira da década de 1990?
A globalização.
O regionalismo.
O conceito de gambiarra.
Considerações finais
Como vimos, a arte brasileira das três últimas décadas do século XX foi diretamente influenciada por fatores
políticos, econômicos e sociais. Na década de 1970, ocorreu a busca por novos lugares e por materiais
inusitados, assim como a criação de situações e ações discretas como consequência de um dos períodos
mais duros da Ditadura Militar. Já a liberdade e o clima festivo e lúdico que ecoa em boa parte da arte nos
anos 1980 são reflexos da redemocratização do Brasil. A arte dos anos 1990, por sua vez, é influenciada pela
percepção de um mundo sem fronteiras e pelo reconhecimento dos artistas como participantes,
simultaneamente, de uma cultura local e global.
Também vimos como o crescimento do mercado de arte renovou o interesse pela pintura sem que isso
significasse o abandono de outras práticas. Diferentes manifestações artísticas, como instalações,
performances e vídeos, continuaram sendo produzidas nas décadas de 1980 e 1990, quando o espírito de
liberdade despertado no decênio anterior parece ter sido levado ainda mais a fundo.
Foi possível constatar a importância dos meios de comunicação para a arte no período em questão: as redes
criadas pela arte correio e a maior facilidade de acesso a máquinas portáteis de vídeo nos anos 1970; o
sucesso midiático e a importância das mídias de massa para o repertório visual da Geração 80; e a
participação dos artistas dos anos 1990 em uma rede global.
Os acontecimentos e inovações surgidos na arte brasileira das décadas de 1970, 1980 e 1990 ainda se fazem
presentes e impactam a produção atual. Somos herdeiros da radicalidade dos anos 1970, da liberdade
artística dos anos 1980 e das percepções identitárias da década de 1990.
Podcast
Neste bate-papo, o professor Rodrigo Rainha entrevista a professora e artista, Luana Costa, sobre as
características e contextos presentes na radicalidade dos anos 1970, na liberdade artística dos anos
1980 e nas percepções identitárias da década de 1990.
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Confira a seguir o conteúdo indicado especialmente para você!
Assista à entrevista com o artista Antonio Manuel, realizada pelo Instituto Tomie Ohtake em torno da
exposição AI-5 50 ANOS - Ainda não terminou de acabar. O artista aborda a censura nos anos da Ditadura
Militar e seus trabalhos realizados nesse período. Você pode encontrar o vídeo no canal do Instituto Tomie
Ohtake no YouTube.
Pesquise o arquivo Memória Lage, da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, e encontre imagens e
documentações textuais sobre a exposição Como vai você, Geração 80?.
Assista ao filme Lixo extraordinário (2011), dirigido por Lucy Walker, para conhecer mais sobre o processo de
trabalho de Vik Muniz.
Leia também estes ótimos artigos sobre a arte que dão o tom de como a repressão e a censura não
impediram a criatividade e o valor construído das artes visuais:
Do corpo à terra, 1970. Arte Guerrilha e resistência à Ditadura Militar, de Carolina Dellamore, publicado na
Revista Cantareira em 2014.
As artes visuais sob vigilância: censura e repressão nos anos de ditadura, de Caroline Saut Schroeder,
publicado na MODOS: Revista de História da Arte em 2019.
Referências
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BASBAUM, R. (org.). Arte contemporânea brasileira: texturas, dicções, ficções, estratégias. Rio de Janeiro:
Rios Ambiciosos, 2001.
CANONGIA, L. Anos 80: embates de uma geração. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 2010.
CAYSES, J. B. V. de. Isto não é uma obra: arte e ditadura. Estudos Avançados, v. 28, n. 80, p. 115-128, abr.
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COSTA, L. C. da (org.). Dispositivos de registro na arte contemporânea. Rio de Janeiro: Contra Capa / FAPERJ,
2009.
LUCIE-SMITH, E. Os movimentos artísticos a partir de 1945. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
MORAIS, F. Artes plásticas: a crise da hora atual. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1975.
MORAIS, F. Contra a arte afluente: o corpo é motor da obra. Revista de Cultura Vozes, v. 35, ano 64, 1970.
SANTAELLA, L. Por que as comunicações e as artes estão convergindo? São Paulo: Paulus, 2005.