0% acharam este documento útil (0 voto)
37 visualizações3 páginas

2 - Humanismo

Humanismo

Enviado por

Andreia Pacheco
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
37 visualizações3 páginas

2 - Humanismo

Humanismo

Enviado por

Andreia Pacheco
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

PORTUGUÊS

APONTAMENTOS LITERÁRIOS
Prof.: António Guerreiro
António Guerreiro
HUMANISMO
É importante salientar que o termo Humanismo é polissémico, podendo por isso ser considerado sob vários
ângulos, ao mesmo tempo distintos e interdependentes. Aqui, interessa-nos o seu sentido mais estrito ou histórico,
entendido enquanto movimento literário e cultural de uma época marcada por profundas transformações na
sociedade europeia.
O Humanismo, também conhecido como Pré-Renascimento ou Quatrocentismo, corresponde ao período de
transição da Idade Média para a Idade Clássica. Tem como marcos iniciais as nomeações de Fernão Lopes como
Guarda-Mor da Torre do Tombo (local onde se guardavam os documentos oficiais), em 1418, e, como Cronista-Mor
do Reino, em 1434, quando recebeu de D. Duarte, rei de Portugal, a incumbência de escrever a história dos reis que
o precederam.
Historicamente, o Humanismo foi um movimento intelectual italiano do final do século XIII que se espalhou
por quase toda a Europa, isto porque, após a queda de Constantinopla em 1453, muitos intelectuais gregos
(professores, religiosos e artistas) se refugiaram em Itália e começaram a difundir uma nova visão de mundo, mais
antropocêntrica, que ia de encontro à visão teocêntrica medieval. Entre as principais ideias humanistas estavam:
• o retomar da cultura antiga, através do estudo e imitação dos poetas e filósofos greco-latinos;
• a revalorização da filosofia de Platão, especialmente no que diz respeito à distinção entre o amor
espiritual e o carnal — neoplatonismo;
• a crítica à hierarquia medieval, o homem reivindicando para si uma posição de destaque no Universo –
não aceitação passiva das imposições místicas difundidas na ideia de destino;
• o bifrontismo, coexistência de características medievais (feudalismo, teocentrismo) e renascentistas
(mercantilismo, antropocentrismo, pragmatismo burguês).

I - CONTEXTO HISTÓRICO-CULTURAL

No final da Idade Média, Portugal estava a passar por profundas transformações. O desenvolvimento de
outras atividades económicas estimulou a crise do sistema feudal e deu início ao chamado mercantilismo — a
economia de subsistência é substituída gradativamente por atividades comerciais. Surgem as pequenas cidades,
chamadas burgos, e com elas uma nova classe social, a burguesia. Muitas descobertas são feitas, entre elas a
invenção da imprensa (em 1448, por Gutenberg) e a de instrumentos relacionados com a expansão ultramarina. Mas
é, sem dúvida, a Revolução de Avis (1383-1385) o marco cronológico da consolidação do Estado Nacional Português.
Através dela estabelece-se a política centralizadora do poder nas mãos do rei, respaldada pela burguesia
mercantilista. A partir da primeira conquista ultramarina portuguesa, a Tomada de Ceuta, em 1415, inicia-se o
período das Descobertas, que consolidam o nacionalismo português.

II- PRODUÇÃO LITERÁRIA


A produção literária desse período subdivide-se em:
• Poesia Palaciana
crónicas de Fernão Lopes
• Prosa prosa doutrinária
novelas de cavalaria

• Teatro – Gil Vicente

A Poesia Palaciana, como o próprio nome indica, era a poesia produzida no ambiente dos palácios, feita por
nobres e destinada à Corte. Ao contrário dos códices (manuscritos) trovadorescos, grande parte da produção poética
PORTUGUÊS
APONTAMENTOS LITERÁRIOS
Prof.: António Guerreiro
António Guerreiro
desse período foi recolhida por Garcia de Resende, no Cancioneiro Geral, formado por 880 composições, impresso
em 1516. Entre as suas principais características estão:

- a separação entre música e texto – a poesia destina-se à leitura. Assim, a própria linguagem é responsável
pelo ritmo e expressividade. O termo trovador aos poucos assume um caráter pejorativo e começa a surgir a
figura do poeta;
- a utilização das redondilhas – versos compostos por cinco (redondilhas menores) ou sete sílabas poéticas
(redondilhas maiores);
- a temática variada – com composições religiosas, satíricas, didáticas, heroicas e líricas. O lirismo amoroso
trovadoresco, a partir da influência de Petrarca (um dos precursores do Humanismo italiano), assume uma nova
conotação, a mulher idealizada, inatingível, carnaliza-se e a sensualidade reprimida nas cantigas de amor passa a
ser frequente.

Fernão Lopes é a principal figura da prosa humanista, considerado o fundador da historiografia portuguesa. A
sua importância deve-se não só ao aspeto histórico da sua produção, mas também ao aspeto artístico das suas
crónicas. Nas suas crónicas, apesar de centradas na figura e poder do rei, o povo aparece pela primeira vez com
coautor das mudanças históricas portuguesas. Entre as suas características destacam-se: a imparcialidade, o registo
documental, a criticidade e o nacionalismo. São da autoria de Fernão Lopes:

- a Crónica de El-Rei D. Pedro I

- a Crónica de El-Rei D. Fernando

- a Crónica de El-Rei D. João I

A prosa doutrinária, também chamada de ensinanças, corresponde a textos de caráter didático, destinados
à nobreza. São obras para o aprendizado de certas artes da época, como a montaria.
As novelas de cavalaria conservam basicamente as mesmas características do período Trovadoresco.

2.1 - O Teatro de Gil Vicente


Antes da produção vicentina é praticamente impossível falar-se em teatro. A manifestação teatral da Idade
Média limitou-se à encenações de caráter litúrgico, presas aos ritos da religião católica. As encenações religiosas
apresentadas no interior das igrejas dividiam-se em:
- Mistérios – representação da vida de Jesus Cristo
- Milagres – representação da vida de santos
- Moralidades – representações curtas com finalidade didática ou moralizante.

As encenações que ocorriam fora dos templos religiosos recebiam o nome de profanas e apresentavam um
caráter mais popular e não estavam relacionadas com os cultos católicos. Dividiam-se em:
- Arremedilho ou Arremedo – imitação cómica de acontecimentos ou pessoas;
- Pantomima alegórica – espécie de palhaçada circense da atualidade, na qual atores mascarados imitavam
as pessoas.
- Farsa – encenação satírica com um humor primário, situações absurdas e ridículas;
- Sotie – (sotie vem do francês sot e significa tolo) semelhante à farsa, mas com um parvo, tolo no papel
principal;
- Momo – encenação carnavalesca com uma temática variada. As pessoas utilizavam máscaras e imitavam
pessoas e animais;
- Entremeze – encenações breves apresentadas entre os atos de peças mais longas. A sua função era
preencher os intervalos;
- Sermão burlesco – monólogo recitado por um ator mascarado;
- Écloga – auto pastoril. Atores vestidos de pastores pregavam os valores da vida no campo.
PORTUGUÊS
APONTAMENTOS LITERÁRIOS
Prof.: António Guerreiro
António Guerreiro
Pouco se sabe sobre os dados biográficos de Gil Vicente. Acredita-se que tenha tido muito prestígio na corte
portuguesa, desempenhando a função de organizador das grandes festas palacianas. Para outros, entretanto,
desempenhava a função de ourives, atraindo a atenção da rainha Leonor. Mas é unânime o seu reconhecimento
como o fundador do teatro português e o maior representante do Humanismo.

Assim como o período, as suas peças apresentavam o bifrontismo como característica central. Ora com
fortes marcas medievais, ora com antecipações renascentistas.

Gil Vicente criticou toda a sociedade da época, as suas peças apresentam indivíduos de todos os segmentos
sociais. Só não criticou mordazmente a Família Real, da qual dependia. É importante destacar que todo o moralismo
vicentino não é contra as instituições, mas contra os indivíduos que as corrompiam. Tanto que em nenhum de seus
trabalhos questionou qualquer verdade cristã, apresentava uma visão teocêntrica e conservadora da sociedade. Na
realidade, era contra as novidades trazidas pelas mudanças do período que punham em risco a integridade do povo
português, os seus autos representam uma tentativa de resgate dessa integridade que se perdia através da
corrupção, do adultério e da ambição.
Por outro lado, Gil Vicente inovou; mesmo escrevendo em redondilhas, não seguiu a rigidez do teatro
clássico vigente até então (unidade de ação, tempo e espaço). As suas representações apresentavam uma grande
variedade temática, povoadas por inúmeros personagens, amplitude temporal e justaposição de lugares. A
alegoria, as personagens-tipo e a variedade linguística também o distinguem do seu tempo. As suas personagens
não apresentam características particularizadas, ao contrário, são generalizações, estereótipos, que representam
toda categoria profissional ou uma classe social (povoam as suas peças as alcoviteiras, os fidalgos, os frades, os
judeus). Outras vezes, através da abstração, as personagens representam ideias ou instituições (a Fama, a Igreja, a
Lusitânia, Todo-o-Mundo e Ninguém). As personagens vicentinas expressavam-se através de diversos registros
linguísticos: arcaísmos, castelhano, saiaguês (falar típico de Saiago, região que faz fronteira com Portugal), latim,
português vulgar, coloquial, popular, culto e erudito.

A produção teatral de Gil Vicente divide-se em três fases:

- Primeira Fase – marcada pelos traços medievais e pela influência espanhola de Juan del Encina. São desta
fase: O Monólogo do Vaqueiro, o Auto Pastoril Castelhano, o Auto dos Reis Magos, entre outros.

- Segunda Fase – aparecem a sátira dos costumes e a forte crítica social. São desta fase: Quem tem farelos?, O
Velho da Horta, o Auto da Índia e a Exortação da Guerra.

- Terceira Fase – aprofundamento da crítica social através da tragicomédia alegórica, da variedade temática e
linguística, é o período da maturidade expressiva. São desta fase: A Trilogia das Barcas, a Farsa de Inês Pereira,
o Auto da Lusitânia.

2.2 – A Farsa de Inês Pereira


Conta a história que a Farsa de Inês Pereira surgiu por volta de 1523, quando a autoria dos textos de Gil
Vicente foi questionada. Ele, a fim de provar a sua inocência, pediu que lhe dessem um tema qualquer para que
produzisse uma peça. O tema dado foi um dito popular: “mais quero um asno que me leve que cavalo que me
derrube”, expressão conhecidíssima da célebre farsa.
Inês Pereira, jovem ambiciosa e namoradeira, cansada dos afazeres domésticos decide-se a casar, mas não
com um qualquer rapaz da sua classe social, deseja um casamento nobre, com um homem que seja galante, discreto
e que saiba cantar. Recusa o casamento com Pêro Marques, que mesmo rico era camponês e casa-se com Brás da
Mata, falso escudeiro que a maltrata após o casamento.
Com a morte do marido, a jovem casa-se novamente com o primeiro pretendente, mesmo sem amá-lo.
Ingénuo e devotado, Pêro Marques não percebe a traição da mulher com um falso religioso e, na cena final da farsa,
leva a própria esposa para os braços do amante, daí a frase: “mais quero um asno que me leve que cavalo que me
derrube”.

Você também pode gostar