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Presentes, Linguagem e Memórias Familiares

Enviado por

Fernanda Fachina
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Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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A Bola

O pai deu uma bola de presente ao filho. Lembrando o prazer que sentira ao ganhar a sua
primeira bola do pai. Uma número 5 sem tento oficial de couro. Agora não era mais de couro,
era de plástico. Mas era uma bola. O garoto agradeceu, desembrulhou a bola e disse "Legal!".
Ou o que os garotos dizem hoje em dia quando gostam do presente ou não querem magoar o
velho. Depois começou a girar a bola, à procura de alguma coisa. — Como é que liga? —
perguntou. — Como, como e que liga? Não se liga. O garoto procurou dentro do papel de
embrulho. — Não tem manual de instrução? O pai começou a desanimar e a pensar que os
tempos são outros. Que os tempos são decididamente outros. — Não precisa manual de
instrução. — O que é que ela faz? — Ela não faz nada. Você é que faz coisas com ela. — O quê?
— Controla, chuta... — Ah, então é uma bola. — Claro que é uma bola. — Uma bola, bola. Uma
bola mesmo. — Você pensou que fosse o quê? — Nada, não. O garoto agradeceu, disse "Legal"
de novo, e dali a pouco o pai o encontrou na frente da tevê, com a bola nova do lado,
manejando os controles de um videogame. Algo chamado Monster Baú, em que times de
monstrinhos disputavam a posse de uma bola em forma de blip eletrônico na tela ao mesmo
tempo que tentavam se destruir mutuamente. O garoto era bom no jogo. Tinha coordenação e
raciocínio rápido. Estava ganhando da máquina. O pai pegou a bola nova e ensaiou algumas
embaixadas. Conseguiu equilibrar a bola no peito do pé, como antigamente, e chamou o
garoto. — Filho, olha. O garoto disse "Legal" mas não desviou os olhos da tela. O pai segurou a
bola com as mãos e a cheirou, tentando recapturar mentalmente o cheiro de couro. A bola
cheirava a nada. Talvez um manual de instrução fosse uma boa idéia, pensou. Mas em inglês,
para a garotada se interessar.

LUIS FERNANDO VERÍSSIMO


Pá, Pá, Pá
A americana estava há pouco tempo no Brasil. Queria aprender o português depressa,
por isto prestava muita atenção em tudo que os outros diziam. Era daquelas americanas que
prestam muita atenção.
Achava curioso, por exemplo, o "pois é". Volta e meia, quando falava com brasileiros,
ouvia o "pois é". Era uma maneira tipicamente brasileira de não ficar quieto e ao mesmo
tempo não dizer nada. Quando não sabia o que dizer, ou sabia mas tinha preguiça, o brasileiro
dizia "pois é". Ela não agüentava mais o "pois é".
Também tinha dificuldade com o "pois sim" e o "pois não". Uma vez quis saber se
podia me perguntar uma coisa.
— Pois não — disse eu, polidamente.
— É exatamente isso! O que quer dizer "pois não"?
— Bom. Você me perguntou se podia fazer uma pergunta. Eu disse "pois não". Quer
dizer, "pode, esteja à vontade, estou ouvindo, estou às suas ordens..."
— Em outras palavras, quer dizer "sim".
— É.
— Então por que não se diz "pois sim"?
— Porque "pois sim" quer dizer "não".
— O quê?!
— Se você disser alguma coisa que não é verdade, com a qual eu não concordo, ou
acho difícil de acreditar, eu digo "pois sim".
— Que significa "pois não"? — Sim. Isto é, não. Porque "pois não" significa "sim".
— Por quê?
— Porque o "pois", no caso, dá o sentido contrário, entende? Quando se diz "pois
não", está-se dizendo que seria impossível, no caso, dizer "não". Seria inconcebível dizer "não".
Eu dizer não? Aqui, ó.
— Onde?
— Nada. Esquece. Já "pois sim" quer dizer "ora, sim!". "Ora se aceitar isso." "Ora, não
me faça rir. Rã, rã, rã."
— "Pois" quer dizer "ora"?
— Ahn... Mais ou menos.
— Que língua! Eu quase disse: "E vocês, que escrevem "tough" e dizem "tâf'?", mas me
contive. Afinal, as intenções dela eram boas. Queria aprender. Ela insistiu:
— Seria mais fácil não dizer o "pois". Eu já estava com preguiça.
— Pois é.
— Não me diz "pois é"! Mas o que ela não entendia mesmo era o "pá, pá, pá".
— Qual o significado exato de "pá, pá, pá".
— Como é?
— "Pá, pá, pá".
— "Pá" é pá. "Shovel". Aquele negócio que a gente pega assim e...
— "Pá" eu sei o que e. Mas "pá" três vezes?
— Onde foi que você ouviu isso?
— É a coisa que eu mais ouço. Quando brasileiro começa a contar história, sempre
entra o "pá, pá, pá". Como que para ilustrar nossa conversa, chegou-se a nós,
providencialmente, outro brasileiro. E um brasileiro com história:
— Eu estava ali agora mesmo, tomando um cafézinho, quando chega o Túlio. Conversa
vai, conversa vem e coisa e tal e pá, pá, pá...
Eu e a americana nos entreolhamos.
— Funciona como reticências — sugeri eu. — Significa, na verdade, três pontinhos.
"Ponto, ponto, ponto."
— Mas por que "pá" e não "pó"? Ou "pi" ou "pu"? Ou "etcétera"?
Me controlei para não dizer — "E o problema dos negros nos Estados Unidos?". Ela
continuou:
— E por que tem que ser três vezes?
— Por causa do ritmo. "Pá, pá, pá." Só "pá, pá" não dá.
— E por que "pá"?
— Porque sei lá — disse, didaticamente. O outro continuava sua história. História de
brasileiro não se interrompe facilmente.
— E aí o Túlio com uma lengalenga que vou te contar. Porque pá, pá, pá...
— É uma expressão utilitária — intervim.
— Substitui várias palavras (no caso toda a estranha história do Túlio, que levaria
muito tempo para contar) por apenas três. É um símbolo de garrulice vazia, que não merece
ser reproduzida. São palavras que...
— Mas não são palavras. São só barulhos. "Pá, pá, pá."
— Pois é — disse eu.
Ela foi embora, com a cabeça alta. Obviamente desistira dos brasileiros. Eu fui para o
outro lado. Deixamos o amigo do Túlio papeando sozinho.

LUIS FERNANDO VERÍSSIMO


A Foto

Foi numa festa de família, dessas de fim de ano. Já que o bisavô estava morre não
morre, decidiram tirar uma fotografia de toda a família reunida, talvez pela última vez. A bisa e
o bisa sentados, filhos, filhas, noras, genros e netos em volta, bisnetos na frente,
esparramados pelo chão. Castelo, o dono da câmara, comandou a pose, depois tirou o olho do
visor e ofereceu a câmara a quem ia tirar a fotografia. Mas quem ia tirar a fotografia?
— Tira você mesmo, ué.
— Ah, é? E eu não saio na foto? O Castelo era o genro mais velho. O primeiro genro. O
que sustentava os velhos. Tinha que estar na fotografia.
— Tiro eu — disse o marido da Bitinha.
— Você fica aqui — comandou a Bitinha.
Havia uma certa resistência ao marido da Bitinha na família. A Bitinha, orgulhosa,
insistia para que o marido reagisse. "Não deixa eles te humilharem, Mário Cesar", dizia
sempre. O Mário Cesar ficou firme onde estava, do lado da mulher. A própria Bitinha fez a
sugestão maldosa:
— Acho que quem deve tirar é o Dudu...
O Dudu era o filho mais novo de Andradina, uma das noras, casada com o Luiz Olavo.
Havia a suspeita, nunca claramente anunciada, de que não fosse filho do Luiz Olavo. O Dudu se
prontificou a tirar a fotografia, mas a Andradina segurou o filho.
— Só faltava essa, o Dudu não sair. E agora?
— Pô, Castelo. Você disse que essa câmara só faltava falar. E não tem nem timer? O
Castelo impávido. Tinham ciúmes dele. Porque ele tinha um Santana do ano. Porque comprara
a câmara num duty free da Europa. Aliás, o apelido dele entre os outros era "Dutifri", mas ele
não sabia.
— Revezamento — sugeriu alguém.
— Cada genro bate uma foto em que ele não aparece, e...
A ideia foi sepultada em protestos. Tinha que ser toda a família reunida em volta da
bisa. Foi quando o próprio bisa se ergueu, caminhou decididamente até o Castelo e arrancou a
câmara da sua mão.
— Dá aqui. — Mas seu Domício...
— Vai pra lá e fica quieto.
— Papai, o senhor tem que sair na foto. Senão não tem sentido!
— Eu fico implícito — disse o velho, já com o olho no visor. E antes que houvesse mais
protestos, acionou a câmara, tirou a foto e foi dormir.

LUIS FERNANDO VERÍSSIMO


ABC
Quando a gente aprende a ler, as letras, nos livros, são grandes. Nas cartilhas — pelo
menos nas cartilhas do meu tempo — as letras eram enormes. Lá estava o A, como uma
grande tenda. O B, com seu grande busto e sua barriga ainda maior. O C, sempre pronto a
morder a letra seguinte com a sua grande boca. O D, com seu ar próspero de grão-senhor. Etc.
Até o Z, que sempre me parecia estar olhando para trás. Talvez porque não se convencesse
que era a última letra do alfabeto e quisesse certificar-se de que atrás não vinha mais
nenhuma.
As letras eram grandes, claro, para que decorássemos a sua forma. Mas não
precisavam ser tão grandes. Que eu me lembre, minha visão na época era perfeita. Nunca mais
foi tão boa. E no entanto os livros infantis eram impressos com letras graúdas e entrelinhas
generosas. E as palavras eram curtas. Para não cansar a vista.
À medida que a gente ia crescendo, as letras iam diminuindo. E as palavras,
aumentando. Quando não se tem mais uma visão de criança é que se começa, por exemplo, a
ler jornal, com seus tipos miúdos e linhas apertadas que requerem uma visão de criança. Na
época em que começamos a prestar atenção em coisas como notas de pé de página, bulas de
remédio e subcláusulas de contrato, já não temos mais metade da visão perfeita que tínhamos
na infância, e esbanjávamos nas bolas da Lulu e no corre-corre do Faísca.
Chegamos à idade de ler grossos volumes em corpo 6 quando só temos olhos para as
letras gigantescas, coloridas e cercadas de muito branco, dos livros infantis. Quanto mais
cansada a vista, mais exigem dela. Alguns recorrem à lente de aumento para seccionar as
grandes palavras em manejáveis monossílabos infantis. E para restituir às letras a sua
individualidade soberana, como tinham na infância.
O E, que sempre parecia querer distância das outras.
O R! Todas as letras tinham pé, mas o R era o único que chutava. O V, que aparecia em
várias formas: refletido na água (o X), de muletas (o M), com o irmão siamês (o W).
O Q, que era um O com a língua de fora. De tanto ler palavras, nunca mais reparamos
nas letras. E de tanto ler frases, nunca mais notamos as palavras, com todo o seu mistério. Por
exemplo: pode haver palavra mais estranha do que "esdrúxulo"? É uma palavra, sei lá.
Esdrúxula. Ainda bem que nunca aparecia nas leituras da infância, senão teria nos desanimado.
Eu me recusaria a aprender uma língua, se soubesse que ela continha a palavra "esdrúxulo".
Teria fechado a cartilha e ido jogar bola, para sempre. As cartilhas, com sua alegre
simplicidade, serviam para dissimular os terrores que a língua nos reservava. Como
"esdrúxulo". Para não falar em "autóctone". Ou, meu Deus, em "seborréia'!
Na verdade, acho que as crianças deviam aprender a ler nos livros do Hegel e em
longos tratados de metafísica. Só elas têm a visão adequada à densidade do texto, o gosto pela
abstração e tempo disponível para lidar com o infinito. E na velhice, com a sabedoria
acumulada numa vida de leituras, com as letras ficando progressivamente maiores à medida
que nossos olhos se cansavam, estaríamos então prontos para enfrentar o conceito básico de
que vovô vê a uva, e viva o vovô. Vovô vê a uva! Toda a nossa inquietação, nossa perplexidade
e nossa busca terminariam na resolução deste enigma primordial. Vovô. A uva. Eva. A visão.
Nosso último livro seria a cartilha. E a nossa última aventura intelectual, a
contemplação enternecida da letra A. Ah, o A, com suas grandes pernas abertas.

LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

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