SBE Notícias 418
SBE Notícias 418
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Boletim Eletrônico da Sociedade Brasileira de Espeleologia
Nesta Edição
Caros leitores, é um prazer imenso preencher essas primeiras linhas do SBE Notícias, compartilhando
com vocês, comunidade espeleológica, uma síntese daquilo que entendemos como mais importante no
cenário nacional e internacional. Nesse mês que passou, sem dúvida nenhuma, o acontecimento mais
marcante foi a comemoração do dia da mulher! A Comissão Editorial do SBE Notícias, com o aval e
incentivo da Diretoria da SBE, empenhou-se em realizar uma singela homenagem as espeleólogas. Já na
capa, nos esforçamos por coletar o maior número possível de faces femininas, que de posse de seus
capacetes, já demonstravam sua força desde os primórdios da espeleologia brasileira. Na sequência,
nosso periódico foi agraciado com uma profunda e poética mensagem de Gisele Sessegolo, veterana do
GEEP-Açungui, que vem representando com destreza e força a mulher espeleóloga brasileira na Diretoria
da SBE. Em seguida, em convite disseminado pelas redes sociais da SBE e outros grupos de divulgação,
convidamos a todas as espeleólogas a se fazerem presentes na nossa revista, contando um pouco mais
sobre sua história. Fizemos esse convite sem restrições, correndo o risco de termos uma edição com
centenas de páginas, porque hoje, felizmente, muitas são as mulheres que vive na e da espeleologia.
Esperamos que esse gesto carinhoso tenha tocado a todas vocês! Esperamos que essa singela
homenagem tenha trazido ainda mais força a vocês!
Também foi nesse mês de março que vimos o 36º Congresso Brasileiro de Espeleologia e o 18º
Congresso Internacional de Espeleologia da UIS serem adiados, ambos para 2022. O primeiro, será entre
os dias 20 e 23 de abril, em Brasília, e o segundo, entre os dias 24 e 31. Essa foi uma resposta
responsável a crise sanitária global de CoViD-19, que segue produzindo mortes em todo o mundo. A SBE,
desde o início da pandemia no ano passado, adotou e sempre que possível reiterou as orientações da
Organização Mundial da Saúde, e desta vez não poderia ser diferente. Continuamos orientando a todos
que, por mais difícil que seja, adiem suas expedições e saídas de campo em geral. O distanciamento social
segue sendo uma das medidas mais eficazes de combate à pandemia.
Mas temos ainda dois assuntos que gostaríamos de destacar. O primeiro é o de que 24 de abril
(sábado), a partir das 9h, a SBE realizará a sua Assembleia Geral Ordinária (AGO) de prestação de contas.
O evento será realizado em ambiente virtual, conforme convocação oficial enviada aos associados da SBE,
e transmitida pelo canal da SBE no YouTube para todos os interessados. A participação de todos é muito
importante!
Por fim, mas não menos importante, gostaríamos de tornar pública a candidatura oficial do Brasil para
sediar o 19º Congresso Internacional de Espeleologia, que deverá ocorrer em 2025. Mais informações
poderão ser obtidas na matéria específica sobre esse assunto, nesta edição do SBE Notícias. Temos
grandes chances de vencer esse pleito e sermos eleitos. Vamos juntos?
Allan Calux
Presidente da SBE
É com grande alegria e satisfação que anuncio a ções ao George Veni em julho de 2020 e reiterada
todos que a SBE acaba de formalizar junto à União durante a reunião anual do Diretório da UIS, realizada
Internacional de Espeleologia (UIS) a candidatura do de forma virtual em setembro daquele ano. Desde
Brasil para sediar o 19º Congresso Internacional de então, pudemos constituir um pequeno comitê
Espeleologia em 2025. organizador com pessoas responsáveis por tomar as
Voltando um pouco no tempo, registra-se que a decisões iniciais, como o local do evento, orçamento
primeira iniciativa concreta em favor do Brasil sediar preliminar, listagem inicial dos programas pré e pós-
novamente o evento máximo da espeleologia mundial congresso, entre outras. A cidade sede escolhida foi
surgiu em 2015, quando uma proposta foi apresentada Belo Horizonte, o coração da espeleologia brasileira,
formalmente pela SBE na reunião da UIS daquele ano, com infraestrutura aeroviária que permite acesso para a
na Eslovênia. O intuito era organizar o 18º CIE, em 2021, maior parte das regiões cársticas do Brasil.
com o mote de SPELEO-BRAZIL+20, numa alusão à Conseguimos também organizar o nosso orçamento, e
Rio+20, de 2012, a Conferência da ONU para o neste momento gostaria de informar que a viabilidade
Desenvolvimento Sustentável realizada no Rio de financeira do evento está garantida, uma vez que boa
Janeiro vinte anos depois da conferência de 1992, parte das despesas do congresso será custeada por
também no Rio; no mesmo sentido, a proposta da SBE recursos públicos através de parceria em processo de
era em alusão ao SPELEO-BRAZIL 2001, realizado em formalização com o ICMBio/CECAV. Para tanto, teremos
Brasília vinte anos antes do pretendido 18º CIE. o CECAV como principal parceiro e coorganizador.
Sabia-se na época que o 18º CIE seria na Europa, Dando sequência a essa cronologia histórica,
pois o anterior estava encaminhado para a Austrália, e chegamos à reunião do Diretório da UIS de 22 de
nunca (ao menos até então) houve dois congressos da janeiro de 2021, que teve participação de franceses
UIS consecutivos fora da Europa Ocidental. Como a membros da Comissão Organizadora do 18º CIE, até
França também apresentou formalmente uma proposta então agendado para o período de 25 de julho a 1 de
em 2015, na mesma reunião da UIS na Eslovênia, a agosto deste ano. Porém, com o agravamento da
proposta brasileira foi retirada e a França ficou com a pandemia do novo coronavírus, discutiu-se a
preferência. possibilidade de adiamento. Os organizadores, no
Vale lembrar que o José Ayrton Labegalini e o entanto, pediram prazo até março para essa decisão.
Nivaldo Colzato, em seus encontros com a comunidade Dessa forma, uma nova reunião do Diretório da UIS
espeleológica internacional por ocasião de eventos e com os franceses foi agendada para o dia 26 de março.
reuniões anuais da UIS, já vinham sendo rotineiramente As doses de esperança que se apresentavam em
interpelados por membros da UIS, atuais e antigos, janeiro, principalmente na Europa, para o combate ao
principalmente europeus, numa espécie de “pressão COVID-19 vieram abaixo, e no dia 15 de março os
psicológica” para que o Brasil sediasse o congresso da franceses se anteciparam e comunicaram a UIS a
UIS novamente. É unanimidade na comunidade decisão de adiar o evento para o período de 24 a 31 de
espeleológica internacional que o SPELEO-BRAZIL julho de 2022.
2001 foi um grande sucesso. Aliando-se a isso a A reunião virtual do dia 26 de março continuou na
imagem fabulosa que todos levaram do nosso país, seja agenda da UIS, mas agora com pauta única sobre as
pelos lugares visitados, seja pela amabilidade e simpatia consequências desse adiamento. Com início às 14h
de nós brasileiros, era de se esperar que todos queiram (horário de Brasília), as duas primeiras decisões foram
voltar. rápidas e consensuais:
O tempo passou e, em novembro de 2019, o
Presidente da UIS, George Veni, enviou circular aos 1 – Com o adiamento do 18º CIE, também fica
Delegados da UIS instigando-os para que seus países automaticamente prorrogado o mandato do atual
enviassem propostas para a organização do 19º CIE. A Diretório da UIS, pois o mesmo é eleito para governar
UIS tinha conhecimento, embora que informalmente, do até a próxima Assembleia Geral, ou seja, até o próximo
interesse da China e México em sediar esse evento. CIE. Dessa forma, o novo Diretório a ser eleito em 2022
Porém, logo após a referida circular, Veni foi cumprirá um mandato de três anos, até o 19º CIE em
comunicado oficialmente da desistência de ambos. 2025.
Imediatamente escreveu ao José Ayrton e Nivaldo sobre
isso, desejando que o Brasil mantivesse firme sua 2 – O Ano Internacional das Cavernas e do Carste
intenção. 2021 (IYCK), que teria seu ponto máximo no 18º CIE em
A partir daí, uma série de iniciativas, lideradas 2021 e continuidade até o final deste ano, também fica
principalmente por José Ayrton e Nivaldo, foram prorrogado até o final de 2022, mantendo seu clímax
conduzidas. Após diversas conversas e encontros para o mesmo evento, mas agora em nova data.
visando amadurecer a ideia, uma manifestação formal
nossa foi encaminhada por meio de uma carta de inten- O terceiro ponto discutido foi sobre a eleição do país
anfitrião do 19º CIE, em 2025. O Brasil é candidato Curiosidade: Essa não é a primeira vez que um CIE é
único a sua organização, uma vez que a China e o adiado por um ano. Isso já aconteceu com o 2º CIE, na
México declinaram de suas intenções. Embora fosse Itália e com o 9º CIE, na Espanha, em ambos os casos,
consensual entre os membros do Diretório a vitória do por problemas internos dos países organizadores. O 2º
Brasil, o mesmo não tem autoridade para essa decisão, CIE foi adiado de 1957 para 1958, mas em uma época
que cabe única e exclusivamente à Assembleia Geral. anterior à fundação da própria UIS; a organização do
Diante deste cenário, o Presidente da UIS, George Veni, congresso era ditada por uma comissão especialmente
propôs a convocação de uma Assembleia Geral formada durante o primeiro congresso na França (1953);
Extraordinária, cuja pauta seria deliberar sobre este no segundo caso, o 9º CIE, foi adiado de 1985 para
assunto. Uma parte do Diretório presente sustentou 1986. Nos tempos dos dois casos anteriores, a
opinião de se esperar a assembleia de 2022 para comunicação era feita por carta ou telex, período
chancelar (ou não) a candidatura brasileira. Foi “longínquo” à nossa era da informática e da
necessário que Nivaldo Colzato, Secretário Adjunto e comunicação on-line; além disso, no primeiro caso, não
represente brasileiro no Diretório, intervisse para que existia a própria UIS e no segundo, embora a UIS já
esse impasse foi resolvido; foi explanada a importância fosse uma realidade, seu Regimento Interno e as Regras
de se ter essa homologação oficial por parte da UIS o para Organização de CIEs, documentos de 1969, eram
mais rápido possível, entre outras razões pelas omissos na solução desse tipo de problema. Hoje a UIS
negociações em adiantado no Brasil. Essa chancela foi tem uma documentação renovada e atualizada,
colocada como condição sine qua non para a inclusive com regras para realização de assembleia
manutenção da candidatura brasileira pela SBE. Isso geral virtual e voto por meios eletrônicos.
colocado e entendido, houve decisão unânime e a UIS Mas voltando a proposta brasileira de organização
já tem os instrumentos legais para a convocação da do 19º CIE, embora a cidade sede escolhida seja Belo
Assembleia Geral e votação no formato eletrônico. Não H o r i z o n t e , b u s c a re m o s o rg a n i z a r u m e v e n t o
será, portanto, uma AG virtual, mas sim uma votação efetivamente brasileiro, que consiga mostrar aos
por e-mail. espeleólogos de todo o mundo quão importante são
Com essa decisão, a SBE se comprometeu a nosso carste e nossas cavernas. Nesta perspectiva,
oficializar a candidatura do Brasil para o 19º CIE, em convocamos desde já toda a comunidade espeleológica
2025, bem como apresentar até meados de maio um nacional a vir junto conosco nessa construção que, para
vídeo institucional promovendo o evento, que será dar certo, só pode ser coletiva, democrática e diversa. É
distribuído aos delegados dos 55 países membros. A fundamental que tenhamos uma comissão organizadora
eles será dado um prazo, talvez de uma semana, para representativa de todas as nossas regiões, motivo pelo
analisar o material e proferir seu voto. O documento já qual convidamos desde já os grupos de espeleologia
foi redigido e está com a associada Linda El-Dash para filiados à SBE a manifestarem interesse neste trabalho.
revisão. A produção do vídeo está a cargo de Daniel Será longo e exigirá muito de todos nós, mas temos
Menin. O anúncio do resultado desta votação está certeza que valerá a pena!
previsto para a primeira semana de junho. A imposição Tão logo tenhamos a Assembleia Geral
da SBE em se ter essa decisão foi para se garantir Extraordinária da UIS em junho, as novidades sobre
quatro ao invés de três anos de tempo para os esse tema serão prontamente informadas à comunidade
preparativos do evento. espeleológica brasileira.
Sociedade
Brasileira de
Espeleologia
No segundo semestre de 2018 foi lançado o Censo Este projeto foi especialmente trabalhoso –
Espeleológico Nacional da Sociedade Brasileira de principalmente em função das muitas perguntas que
Espeleologia, que buscava compreender as características poderiam ser respondidas. Por isso, a publicação
e o panorama da comunidade espeleológica brasileira no lançada não pretende exaurir a quantidade de
ano em que a SBE completava 50 anos de existência. informação que pode ser gerada a partir dos dados
Conseguimos grande engajamento de toda a comunidade coletados, mas sim apresentar uma primeira análise,
e alcançamos 603 respondentes para as 47 perguntas com estatística descritiva básica. A divulgação da base
propostas, no decorrer das 22 semanas em que o de dados minimamente tratada, possibilita que outros
formulário permaneceu aberto para preenchimento. A base profissionais possam gerar novas informações que
de dados resultante é composta por 29.187 células de sejam relevantes para a comunidade espeleológica
informação tendo sido já investido no tratamento e análise como um todo, ou ainda, para nichos específicos. Por
dessa base cerca de 560 horas voluntárias. isso, a proposta é que seja mantido um espaço aqui no
Como parte das comemorações do Ano Internacional SBE Notícias para a apresentação de análises dos
do Carste – 2021, nós da equipe do Censo Espeleológico associados, considerando esta valiosa fonte de
Nacional 2018 decidimos organizar uma publicação com informação que todos nós construímos quando nos
uma breve análise dos dados coletados durante o engajamos neste projeto.
projeto, que é lançada juntamente com esta edição do “O desafio é do tamanho do patrimônio espeleológico
SBE Notícias. brasileiro sob responsabilidade de cada um de nós, mas
em tempos tão sombrios como este que vivenciamos, o
importante ainda continua sendo “manter a chama
acesa”.
Aguardamos as análises de todos, e de cada um de
vocês.
Algumas das peças desenvolvidas para a divulgação do AICC 2021 nas redes sociais.
A interação entre os seres humanos e os ambientes Fogão e Gruta da Aflição, cujos códigos de registro no
cársticos tiveram início com os nossos antepassados Cadastro Nacional de Cavernas (CNC) da Sociedade
pré-históricos, que utilizavam as cavernas como refúgio Brasileira de Espeleologia (SBE) são, respectivamente,
das intemperes da natureza. Estes ambientes foram MG-1861 MG-1862 e MG-1863. Tais cavernas se
palco das primeiras relações humanas, como afirma desenvolvem nas margens e no leito do córrego do
Clayton Lino em “Cavernas: o fascinante Brasil Funil, no contato litológico dos mármores dolomíticos
subterrâneo”, de 1989: da Formação Gandarela na base, com itabiritos da
Formação Cauê no topo, ambos do Grupo Itabira,
“A história humana não pode ser contada sem Supergrupo Minas. Destaca-se no vale uma notável
referir-se às cavernas [...] Nas cavernas, o homem relevância hídrica pois representa uma das cabeceiras
encontrou um de seus primeiros abrigos e seus do rio do Carmo, que vem sofrendo impactos diretos do
mais antigos santuários, onde o profano e o despejo de lixo e esgoto da comunidade adjacente.
sagrado podiam conviver integrados.” Conforme pode ser observado na foto 2, o esgoto (água
acinzentada) sai pela entrada principal (jusante) da
Na medida em que foram desenvolvidas as Gruta Ponte de Pedra após percorrer toda a sua
primeiras edificações, estes ambientes passaram a ter extensão.
outras relações com homem, sendo hoje locais de, A visita contou com a participação do professor do
principalmente, contemplação e aventura, além de Departamento de Engenharia Ambiental (DEAMB) da
estudos em diversos temas, seja através do meio Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), Dr. Alberto
acadêmico ou estudos ambientais. Fonseca e do produtor audiovisual, Fernando Costa. A
Em paralelo a este avanço social dos meios de expedição teve o objetivo de identificar os pontos mais
moradia, com ênfase na expansão das zonas urbanas, críticos da poluição no local, a fim de traçar possíveis
houve um crescimento expressivo do descarte de medidas de contenção. A iniciativa prevê a atuação da
resíduos domésticos e industriais, que em alguns casos SEE, em parceria com a UFOP, na elaboração de um
atingem ambientes cársticos. Na maioria das projeto acadêmico que visa caracterizar os impactos no
ocorrências, a contaminação é acompanhada de Vale do Ojô e propor medidas de mitigação aos órgãos
impactos que geram grande perturbação ambientais, públicos competentes. Além disso, durante a atividade
em virtude dos danos estruturais e ecossistêmicos de campo foram coletadas imagens que irão compor
advindos dos resíduos estranhos a este ambiente. uma série documentada pelo Prof. Alberto sobre a
A fim de analisar impactos sócio-ambientais em utilização dos recursos hídricos no município de Ouro
cavidades naturais subterrâneas, foi realizado no dia 28 Preto.
de novembro de 2020, uma visita técnica da Sociedade Por fim, fica registrado o descontentamento dos
Excursionista Espeleológica (SEE) à região do Vale do membros da SEE frente a atual situação do vale, e a
Ojô, localizado na zona urbana do município de Ouro esperança de que este seja o primeiro passo para a
Preto (MG), às margens do bairro Padre Faria. O local atenuação, ou até mesmo recuperação desta
abriga três cavidades: Gruta Ponte de Pedra, Gruta do importante região cárstica.
Galão de combustível e pá
localizadas no interior da Gruta do
Fogão, possivelmente relacionada
com a atividade garimpeira.
Em novembro de 1969, trinta e dois anos após a contribuições de muitas gerações de sócios da
fundação da Sociedade Excursionista e Espeleológica entidade.
dos Alunos da Escola de Minas, é lançada a primeira Com o intuito de reunir e divulgar trabalhos
edição da Revista Espeleologia, pioneira em território relacionados às áreas da espeleologia, promovendo a
nacional e na América Latina. De acordo com os disseminação do conhecimento científico por meio da
registros contidos nas primeiras publicações, este fora Política de Acesso Livre, a comissão editorial da Revista
um passo inicial na divulgação das primeiras viagens e Espeleologia Digital tem o prazer de anunciar que estão
descobertas das cavidades naturais subterrâneas no abertas as submissões de trabalhos do dia 15 de
Brasil, sendo destacadas sessenta grutas nos estados março a 17 de junho de 2021 para compor a edição
de Minas Gerais, São Paulo, Bahia, Mato Grosso e digital Nº 3. Os conteúdos para envio seguem as
Ceará. temáticas: Biologia Subterrânea, Cartografia e
Considerando as dificuldades financeiras existentes Espeleometria, Geoespeleologia, Geomorfologia e
naquela época, a publicação da primeira edição só foi Hidrogeologia Cárstica, Legislação Espeleológica,
possível com o apoio da então Escola de Minas, da Arqueologia e Paleontologia, Espeleoturismo e
Fundação Gorceix, da Prefeitura de Ouro Preto, do Educação Ambiental.
Governo do Estado de Minas Gerais e principalmente O edital com as instruções de envio dos trabalhos,
dos sócios ativos da SEE que trabalharam durante anos cronograma e o modelo de submissão estão
pelo seu desenvolvimento e não mediram esforços para disponíveis no endereço eletrônico: https://see.ufop.br/
tornar possível a divulgação dos estudos revista-espeleologia-digital-submissoes
espeleológicos.
Ao decorrer das décadas, a Revista Espeleologia Cordialmente,
contou com 11 (onze) edições impressas e a partir de A Comissão Editorial da Revista Espeleologia Digital
2017 iniciou-se as edições em formato digital visto o
desenvolvimento de recursos computacionais.
Atualmente, possuímos 13 publicações que tiveram
CECAV
8 de Abril
8 de Abril
de 2021
de 2021
| N° |418
N° 418
| www.cavernas.org.br
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dos grupos
ESPELEOTURISMO
artigos
Geopatrimônio e geoturismo na paisagem cárstica
Conhecer a história da vida na Terra somente é devido a COVID-19, percebia-se um crescente interesse
possível pelo estudo de sua evolução geológica. Tal na expansão do mercado turístico para diversos
evolução é conhecida quando estudamos os processos segmentos, entre eles o turismo de aventura e o
de formação dos minerais, rochas e formas de relevo. ecoturismo, por exemplo. Pensando na utilização dos
Esse conhecimento do patrimônio abiótico permite a sítios que compõem o geopatrimônio de um lugar como
identificação de uma grande variedade de atrativos o principal foco da visitação, vemos surgir o
naturais que possibilitam, entre outras coisas, a prática geoturismo. Neste segmento, tem-se basicamente as
do turismo. Embora o conceito de patrimônio seja algo motivações de recreação, lazer e aprendizado e por
muito amplo, normalmente ele está associado a uma todo o mundo existem exemplos espetaculares de
herança de importância para uma região, país ou até formas e processos geológicos e geomorfológicos que
mesmo para toda a humanidade. Assim sendo, quando podem ser utilizados para a prática desse tipo de
mencionamos o uso do patrimônio abiótico para o turismo. Muito mais do que serem paisagens
turismo, é essa noção de patrimônio como “herança” fascinantes, as cachoeiras, as montanhas, os vulcões, o
que é destacada. carste e as cavernas apresentam a história da evolução
Sem levar em consideração o cenário de pandemia da Terra.
É interessante que nesse tipo de turismo, a instituição dos processos relacionados ao geoturismo
interpretação da paisagem é extremamente importante em tais regiões pode favorecer o empoderamento das
para que o turista, além do lazer, possa compreender comunidades com relação a importância ambiental do
como toda aquela paisagem evoluiu. Assim, com o carste e das cavernas e impulsionar o processo de
maior desenvolvimento do geoturismo, a conservação preservação ambiental. Aliado a isto, o desenvolvimento
do geopatrimônio e a divulgação dos locais mais do turismo pode proporcionar o desenvolvimento de
significativos por meio do turismo passaram a ser tema outras atividades econômicas, favorecendo o
de destaque em várias pesquisas a fim de promover o desenvolvimento socioeconômico dos municípios que
conhecimento, a conservação, a valorização e a se desenvolvem sobre o carste.
divulgação dessa “herança” natural. Ressalta-se que é necessário que o poder público
Em relação às cavernas e o carste, como se sabe, o (e.g. prefeituras) estabeleça parcerias com o setor
termo carste, é usado para descrever um tipo de relevo privado local (e.g. mineradoras e indústrias com
que abriga cavernas e um complexo sistema hídrico processos em licenciamento) envolvendo a comunidade,
subterrâneo. Além disso, este relevo apresenta formas com o objetivo de criar programas de capacitação para
de relvo muito peculiares como as depressões fechadas educar e sensibilizar as pessoas para investirem nas
(dolinas), paredões rochosos, nascentes, sumidouros e áreas.
as cavernas, por exemplo. A instalação de painéis interpretativos em locais
No Brasil, com inúmeras regiões cársticas, poucas estratégicos, bem como o incentivo de atividades de
são aquelas com fluxo constante de visitação e com educação ambiental envolvendo o carste é fundamental
infraestrutura adequada. Contudo, as cavernas mais para que os preceitos da geoconservação sejam
conhecidas geralmente têm recebido fluxos anuais da efetivos. É importante lembrar que a sustentabilidade na
ordem de 50.000 visitantes. Obviamente muitas outras utilização deste patrimônio cárstico e espeleológico
cavernas são visitadas no país, mas em muitos casos o exige a implantação do geoturismo e segmentos
controle de entrada não é feito ou não é sistematizado, turísticos afins mediante um processo que envolva a
fato que pode danificar irreversivelmente sítios do população local, principalmente a população rural
g e o p a t r i m ô n i o . O u t ro s l u g a re s , u n i d a d e s d e contribuindo para a melhoria da sua qualidade de vida.
conservação, ou não, o visitante pode estar diante das
belezas do exocarste e não somente das cavernas
(endocarste).
Esse tipo de visitação, também conhecido como
turismo espeleológico (ou espeleoturismo), é
considerado uma prática puramente recreativa de
visitação às cavernas e deve ser realizado com critérios
específicos devido à fragilidade de tais ambientes. A
instalação de luz artificial, por exemplo, pode levar à
alteração da temperatura e da umidade da caverna.
Atualmente a iluminação de muitas cavernas turísticas
tem sido trocada para refletores que utilizam os LEDs e
o uso desse tipo de iluminação é potencialmente menos
impactante do que o uso de lâmpadas de alta potência,
pois o calor emitido é bem menor.
Em algumas regiões muito povoadas, situadas em
áreas cársticas, os problemas decorrentes da expansão Entrada da Lapa do Rezar, PARNA Cavernas do Peruaçu. Foto: L.E.P.
urbana podem agravar os impactos ao patrimônio Travassos.
cárstico e/ou espeleológico. Assim sendo, o uso do
solo, aliado ao desconhecimento dos sistemas cársticos
vem ocasionado impactos ambientais significativos em
diversas partes do país e é preciso ter como base os
estudos sobre geodiversidade nestes locais.
No país, muitas províncias cársticas e espeleológicas
estão dentro de municípios que apresentam boas
condições de infraestrutura para desenvolvimento do
turismo e as principais estradas ou vias de acesso são
Afloramento coberto por lapiás no PARNA Cavernas do Peruaçu.
pavimentadas. Aquelas que não são pavimentadas, mas Foto: L.E.P. Travassos.
que se encontram em condições aceitáveis para o
trânsito de veículos pequenos e ônibus, podem auxiliar
no geoturismo.
Paradoxalmente, em muitos casos e desde que bem
estruturado, é o turismo nessas áreas que vai auxiliar
sua conservação. Devido à fragilidade própria do carste
e suas geoformas, e os crescentes distúrbios Dolina em frente a um
paredão na região
antrópicos, o carste necessita de incessantes cuidados cárstica de Arcos-Pains.
quanto à sua proteção quando de seu uso turístico. A Foto: L.E.P. Travassos.
Por Lucas Rabelo (CEBS / Speleogaláticos) & Rodrigo Lopes Ferreira (CEBS / UFLA)
Você sabia que existem hotspots de biodiversidade encontra protegida por unidade de conservação. É uma
subterrânea e que alguns deles já foram diagnosticados caverna labiríntica, ainda pouco explorada, mas
no Brasil? Pois é... até agora no Brasil são conhecidos certamente com mais de 1 Km de desenvolvimento, que
dois sistemas subterrâneos que cumprem os requisitos dava acesso ao nível de base das águas subterrâneas
estabelecidos para serem classificados como Hotspots da região em seus condutos inferiores. Entretanto,
de biodiversidade subterrânea, o Sistema Areias (SP) e diversas publicações relataram para um drástico
a Toca do Gonçalo (BA). Estes dois sistemas brasileiros rebaixamento do nível freático da cavidade na última
também são, até o momento, os únicos Hotspots de década, que coincide com a utilização de águas
biodiversidade subterrânea conhecidos para a América subterrâneas para irrigação de plantações na região. Em
do Sul1. dezembro de 2018, uma visita à caverna realizada por
Originalmente, um Hotspot de biodiversidade pesquisadores do CEBS revelou um cenário
segundo a proposta de Myers e colaboradores (2000) extremamente preocupante: todo o lençol freático não
diz respeito a regiões com alta concentração de era mais observado. Assim, áreas antes inacessíveis
espécies endêmicas (que não são encontradas em puderam ser exploradas, revelando que a caverna é
nenhuma outra região do planeta) que estão sob forte mui to mai s l ong a d o q ue s e pens av a. U m sina l
pressão de degradação humana2. No Brasil, temos dois
Biomas inteiros que são considerados Hotspots de
biodiversidade, o Cerrado e a Mata Atlântica. Porém, o
conceito de Hotspots de biodiversidade subterrânea é
diferente do proposto por Meyrs. Culver e Sket (2000)
definiram como Hotspot de biodiversidade subterrânea
habitats subterrâneos com 20 ou mais espécies
estritamente subterrâneas (troglóbias), independente
dos habitats estarem ou não sobre pressão de
degradação antrópica3.
O sistema Areias hoje conta com 28 espécies
troglóbias conhecidas, se situa no Bioma Mata Atlântica
e tem boa parte protegida pelo Parque Estadual
Turístico Alto Ribeira (PETAR). Possui aproximadamente
14 km de extensão, considerando a estimativa de
conexões por drenagens subterrâneas, é composto
principalmente por três cavernas, sendo a Areais de
Cima, com 5,5 Km de desenvolvimento, Areias de Baixo
com 1,5 Km de desenvolvimento e a Ressurgência das
Areias, com 1,2 Km de desenvolvimento.
A Toca do Gonçalo conta com 22 espécies Entrada da Toca do Gonçalo. Foto: Rodrigo Lopes Ferreira,
troglóbias, insere-se no bioma Caatinga e não se 2018, Campo Formoso, Bahia.
Referências:
1. Souza-Silva, M. & Ferreira, R. L. The first two
hotspots of subterranean biodiversity in South America.
Subterr. Biol. 19, 1–21 (2016).
2. Myers, N., Mittermeier, R. a, Mittermeier, C. G.,
da Fonseca, G. a & Kent, J. Biodiversity hotspots for
conservation priorities. Nature 403, 853–8 (2000).
3. Culver, D. C. & Sket, B. Hotspots of
subterranean biodiversity in caves and wells. J. Cave
Karst Stud. 62, 11–17 (2000). Conduto do rio da cavidade Areias de Baixo. Foto: Daniel Menin, 2020.
Estilo predominante dos condutos da Toca do Gonçalo. Foto: Marconi Souza Silva, 2012.
Global distribution of microwhip verificar que a maioria das espécies têm distribuição
muito restrita (em torno de 0.01 km2) e primariamente
scorpions (Arachnida: Palpigradi), 2021, explicada pelas condições climáticas e
Journal of Biogeography, https://doi.org/10.1111/ secundariamente pela disponibilidade de habitat e
jbi.14094 nutrientes. Além disso, nosso estudo aponta o Brasil
como um dos centros de diversificação de palpígrados
Por Stefano Mammola, Maysa Fernanda Villela Rezende troglóbios, já que muitas espécies novas têm sido
Souza, Marco Isaia & Rodrigo Lopes Ferreira descritas e registradas nos últimos anos graças à
intensificação dos estudos bioespeleológicos
Neste artigo, foram compilados dados de realizados por grupos de pesquisa e empresas de
distribuição global dos palpígrados, que nos permitiu consultoria ambiental.
Distribuição das espécies edáficas (em rosa) e troglóbias (em roxo) de Palpigrdi no mundo obtida através da compilação de dados de
literatura e de coleções biológicas: (a) Distribuição global; (b, c) detalhe da distribuição na região mediterrânea e no Brasil,
respectivamente, que correspodem a regiões com grande concentração de registros.
Confira também:
Daniel C. Cavallari, Fernanda S. Silva, Carlo M. Cunha, Maria E. Bichuette & Rodrigo B.
Salvador. Brasilian troglobitic snails begin to emerge and are already in danger;
Tentacle N.29, March 2021, p. 32-34.
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Paranaense – GEP
Fundação 23/04/1983
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