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Criminologia Crítica: Conceitos e Funções

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Unidade 2 - Aspectos da criminologia crítica

Unidade 1 - Criminologia e psicologia criminal: estudos e abordagens teóricas do


crime e do criminoso

Criminologia: conceitos, objetos e métodos


As ciências criminais abrangem um rol de disciplinas autônomas que, uma vez integradas ao contexto penal,
contribuem para o funcionamento do sistema penal e tratamento adequado da criminalidade. Logo, a análise de tal
contexto começa pela abordagem da criminologia para, em seguida, ser objeto da política criminal que, só então,
passará pelo escrutínio do direito, processo e execução penais.
Nesse processo de tratamento do contexto penal, cabe à criminologia estudar, a partir de dados empíricos da
realidade, a criminalidade em sua origem, causas e consequências, com especial foco em seus elementos
constituintes (crime, criminoso, vítima e controle social da conduta), ao passo que a política criminal, de posse dos
dados tratados pela criminologia, avalia os modos de combate e controle da criminalidade, dando especial atenção à
ressocialização do criminoso, à adoção de medidas de prevenção e à intervenção no delito e em seus efeitos graves.

EXPLICANDO
Segundo Shecaira (2014, p. 325), a política criminal “estuda as estratégias estatais para a atuação preventiva da
criminalidade, e tem por finalidade estabelecer a ponte eficaz entre a criminologia, enquanto ciência empírica, e o
direito penal, enquanto ciência axiológica”. São exemplos de política criminal as operações de combate ao tráfico de
drogas, à corrupção e aos desvios de dinheiro em procedimentos licitatórios do Governo.

A partir da apresentação de estratégias estatais traçadas pela política criminal para prevenção da criminalidade,
eventuais propostas concretas de alteração do Direito Penal são feitas (afinal, este é voltado à decidibilidade dos
conflitos a partir da tipificação das condutas humanas indesejadas, com a criação de proposições jurídicas gerais e
obrigatórias), para torná-lo mais adequado à realidade mutável que pretende regular.
Pelo exposto, é possível concluir que não há subordinação entre a criminologia, a política criminal e o Direito Penal.
Por essa razão, o Direito Penal, por exemplo, não condiciona ou emoldura a criminologia. Na verdade, o Direito Penal
converte a experiência criminológica, transmutada em estratégias de política criminal, em norma válida pelo princípio
da legalidade, considerando a avaliação dos possíveis meios de controle e combate à criminalidade fornecida pela
política criminal.

O QUE É CRIMINOLOGIA? QUAL É SUA FUNÇÃO?


Situado seu posicionamento entre as ciências criminais, é importante compreender o conceito de criminologia.
Segundo Oliveira (2021, p. 17), “a origem etimológica da palavra criminologia deriva do latim crimino (crime) e do
grego logos (estudo), significando o estudo do crime” como fenômeno social.

Sendo, portanto, o estudo do crime, a criminologia pode ser entendida como uma ciência autônoma, pois apresenta
função, método e objeto próprios.
Por ter seu objeto de estudo baseado na experiência e observação da realidade dos fatos, é considerada uma ciência
predominantemente empírica (uma ciência do ser, em oposição à abstração normativa do dever-ser). Ademais,
possui natureza interdisciplinar, pois se vale do conhecimento oriundo de diversos ramos do saber (sociologia,
psicologia, direito, biologia, medicina legal, psiquiatria, antropologia etc.) para superar eventuais contradições e
suprimir possíveis lacunas. Assim, a criminologia vai muito além de ser uma mera fonte de dados estatísticos: ela os
coleta e os interpreta a partir de uma metodologia específica, oriunda da soma dos ensinamentos de várias áreas,
analisando a questão criminal de uma perspectiva científica, prática e voltada a conflitos concretos e historicamente
situados.
Conclui-se, portanto, que a função da criminologia é tentar explicar cientificamente os fatores determinantes de
ocorrência do delito, a partir da indicação de um diagnóstico qualificado e conjuntural sobre a criminalidade,
contribuindo para informar a sociedade e orientar o poder público acerca do crime de modo válido e confiável para
que se tome decisões e encontre soluções para a prevenção e o controle da criminalidade.
A criminologia, ao dar amparo à formulação de programas de políticas criminais (prevenção específica e direta dos
crimes socialmente relevantes) e sociais (prevenção de ordem geral e indireta dos delitos) como modos de controle
das quais o Estado dispõe para lidar com a infração, criminoso e vítima (função linear), não se restringe à análise da
norma penal e seus efeitos, já que observa, principalmente, as causas que levam à delinquência, com o fim de
possibilitar o aperfeiçoamento dogmático do sistema penal.
São etapas da criminologia:
1. Explicação científica da criminalidade;
2. Prevenção do delito:
 Primária: enfrenta a origem da criminalidade pelo controle social formal, com medidas de médio e
longo prazo;
 Secundária: atua quando o crime se exterioriza (foco nos potenciais criminosos e zonas de
criminalidade), com realização de curto e médio prazo e operacionalizada pela política criminal e pelo
controle social jurídico-penal;
 Terciária: feita após a prática do delito, sendo destinada ao preso, com caráter punitivo e
ressocializador, e operacionalizada pela política criminal e pelo direito penal, objetivando evitar a
reincidência;
3. Intervenção no homem delinquente para evitar a reincidência.

Importante salientar que a prevenção do crime para a criminologia se assenta em três premissas básicas:

1. Ineficácia da prevenção penal (a aplicação de pena privativa de liberdade apenas estigmatiza o criminoso,
acelerando e consolidando sua carreira criminal, em nada contribuindo para resolver o problema da
criminalidade);
2. Maior complexidade dos mecanismos dissuasórios (a certeza e a rapidez de aplicação da pena se afiguram
mais importantes do que sua gravidade);
3. Necessidade de uma intervenção de maior alcance, abrangendo políticas sociais como intervenções
ambientais, melhoria das condições de vida do infrator e reinserção social dos exclusos.

OBJETOS E MÉTODOS DA CRIMINOLOGIA


A criminologia tem por objeto de estudo elementos concretos do mundo real, razão pela qual é considerada uma
ciência empírica, como já dito. Ressalta-se ainda que seu objeto de estudo varia conforme sua concepção ao longo do
tempo, sendo que, atualmente, se considera a configuração quadripartida da década de 1950, compreendendo:
 O crime (fenômeno social que causa problema social;
 O criminoso (agente do ato ilícito);
 A vítima;
 Controle social da conduta criminosa.

O crime, fenômeno multifacetado e eminentemente humano, abrange condutas convencionalmente definidas como
infrações por determinada sociedade, o que não necessariamente vale para outro grupo social. Exemplo disso é “o
aborto, tipificado como crime no Brasil, é tolerado na maior parte da Europa” (OLIVEIRA, 2021, p. 42).
É possível entender o conceito de crime, principal objeto de análise da Escola Clássica, a partir de diferentes
perspectivas teóricas, como as fornecidas pelo Direito Penal (lesão ou ameaça de lesão a bem jurídico; conduta assim
definida em lei; ou toda conduta típica, ilícita e culpável), pela sociologia criminal (desvio/violação de padrão de
comportamento social) e pela filosofia (ideias de razão e moral). A criminologia optou por entender o crime como
problema social reiterado e de relevância social que requer uma maior aproximação à realidade do fenômeno
criminal ao ser abordado, considerando não só o início dos atos executórios (como estabelecido pelo Direito Penal),
mas, mesmo antes disso, também a dinâmica do delito e eventuais alternativas de intervenção no processo para se
alcançar a dissuasão (OLIVEIRA, 2021, p. 42). Assim, o crime, para a criminologia moderna, refere-se a fato aflitivo
(causa dor à vítima e à sociedade) e de incidência massiva na população (é algo reiterado), que apresenta, além de
uma persistência espaço-temporal (por se distribuir por todo o território e ao longo de um tempo juridicamente
relevante), um inequívoco consenso a respeito de suas causas e das técnicas de intervenção mais eficazes para seu
enfrentamento, bem como uma consciência generalizada sobre sua negatividade (VIANA, 2018, p. 154).
O criminoso passou a ganhar ênfase como objeto de estudo da criminologia com a Escola Positivista, ante o
argumento de que a sociedade precisava ser defendida de sua ação e, para tanto, a compreensão dos motivos que
levam determinado indivíduo a se comportar de modo a violar a lei se fazia necessária.
Obviamente houve variação de tal entendimento nas diferentes escolas criminológicas: para a Escola Clássica, o
criminoso chegou a ser visto como um pecador que escolheu um comportamento voltado ao mal em vez do contrário,
ao passo que na Escola Positiva Italiana (positivismo antropológico) o delinquente era visto como um doente nato,
nascendo, por vezes, criminoso (atavismo). Já na Escola Correcionalista, o criminoso era considerado uma pessoa
inferior incapaz de governar a si próprio, que precisava de ajuda e que, por isso, deveria ter uma pena com função
terapêutica e pedagógica por parte do Estado. A teoria, ou Escola, Marxista, por sua vez, entendia o criminoso como
uma vítima das estruturas econômicas, defendendo, por isso, uma mudança de sociedade. Atualmente, a
criminologia moderna tende a examinar o delinquente como uma unidade biopsicossocial (deve ser analisado em
suas interdependências sociais), e não mais como uma unidade biopsicopatológica, de modo que nessa perspectiva
ele passa a ser uma pessoa normal que pode, por algum motivo, resolver descumprir as regras do jogo.
A vítima, elemento bastante complexo e antigo, passou por estágios de valorização, neutralização e revalorização ao
longo da história. Houve a autotutela vista nos primórdios da civilização até o fim da Alta Idade Média, com a Lei de
Talião, consistente na reciprocidade entre crime e retaliação (direito de ação na devida proporção da agressão,
podendo a vítima resolver seu problema com o agressor infligindo a esse um castigo na mesma medida do mal
sofrido). Porém, com o surgimento do Estado e do processo inquisitivo, este assumiu o monopólio da jurisdição e a
responsabilidade por decidir conflitos entre vítima e agressor, não cabendo mais a vítima tal papel (neutralização).
Os estudos criminológicos da vítima surgem logo após a Segunda Guerra Mundial, resultado da necessidade de
proteger os vulneráveis ante a percepção do sofrimento e das atrocidades impostos pelos nazistas. Com o avanço da
psicologia social, advém, no século XX, a vitimologia, “com o propósito de estudar o seu papel no episódio danoso,
bem como seu modo de participação e contribuição na ocorrência do delito” (OLIVEIRA, 2021, p. 45). Atualmente,
ante a maior preocupação com a vítima, foram criados alguns institutos, como o arrependimento posterior, a
composição civil de danos – Lei nº 9.099/95 – e a injusta provocação da vítima, e a legislação de proteção à vítima,
como a Lei nº 13.431/2017 (garantias de direito à criança e adolescente vítima ou testemunha de inquérito policial e
processo criminal), a Lei nº 11.340/2006 (Lei Maria da Penha), a Lei nº 10.741/2003 (Estatuto do Idoso) e a Lei nº
8.069/1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA), com consequente revalorização da vítima no direito e
processo penal.
Diante do destaque atual dada ao papel da vítima na estrutura do delito, ressalta-se a ideia de estágios de
vitimização em questões criminológicas da vitimologia, a saber:
Vitimização primária
Relacionada ao indivíduo atingido diretamente pelo crime;
Vitimização secundária
Consequência das relações entre vítimas primárias e Estado, em face da burocratização de seu aparelho repressivo;
Vitimização terciária
Situação em que a vítima acaba abandonada pelo Estado e estigmatizada pela comunidade (a vítima do delito arca,
ao mesmo tempo, com o desamparo e o julgamento estatal e social).

O último elemento objeto da criminologia é o controle social, que se refere “aos meios adotados pela sociedade para
fazer com que o indivíduo observe os padrões de comportamentos referentes aos valores predominantes, garantindo
uma convivência harmoniosa e pacífica” (OLIVEIRA, 2021, p. 46). Trata-se de um conjunto de mecanismos,
instituições, estratégias e sanções impostos pela sociedade via Estado, que visam submeter o indivíduo com
comportamento desviante às normas de convivência social como modo de controle da criminalidade, ora pela
prevenção, ora pela punição.
Doutrinariamente, o controle social pode ser classificado com base em seu modo de manifestação:

 Controle Social Informal


Mecanismos exercidos pela família, escola, religião, mídia, opinião pública etc., via regras sociais difundidas por
tais instâncias e internalizadas pelo indivíduo ao longo de seu processo de socialização, o qual recebe sanções
caso não as cumpra, como estigma negativo, castigo em filhos etc.;
 Controle Social Formal
Mecanismos oficiais exercidos pelo Estado pela atuação subsidiária do sistema de justiça criminal (é a ultima
ratio quando falhar o controle informal).

A dogmática penal, ao trabalhar o controle social, o faz a partir do preceito secundário da norma penal, não se
preocupando como podem ser os anos de pena do condenado (ou seja, os tipos de atividade que podem ser
desenvolvidas, o modo como o preso pode ser tratado ou mesmo como deve ocupar seu tempo). Por outro lado, a
criminologia investiga o controle social de um modo mais profundo, analisando como o aparelho estatal deve atuar
para fins de controle e combate da criminalidade, inclusive na aplicação efetiva das consequências jurídicas para
aquele que praticar um comportamento transgressor. Nesse sentido, essa função de intervir na pessoa do infrator
visa analisar o impacto real da pena em quem a cumpre, como também desenhar e avaliar diferentes modos de
resposta ao crime; e conscientizar a sociedade que o crime é um problema de todos.
Aliás, a avaliação dos meios de enfrentamento do crime se baseia em modelos de reação ao delito que podem ser
conciliáveis, a saber:
 Modelo clássico/dissuasório/retributivo
Pena de caráter retributivo, com rápida aplicação do castigo pelo Estado para reduzir a criminalidade,
devendo, por isso, ser intimidatória e proporcional ao dano causado, sem que necessariamente haja preocupação
com a ressocialização do condenado ou com a reparação dos danos;
 Modelo ressocializador
Pena de caráter utilitário e fim de prevenção especial positiva (evitar a reincidência), destinando-se à
reeducação do condenado para sua reintegração social, não se restringindo à retribuição pelo mal causado;
 Modelo restaurador/integrador/consensual/de justiça restaurativa
Visa a reparação do dano à vítima ou a restauração do status quo antes da prática do delito, com
possibilidade de resolução pacífica de conflitos mediante a composição de interesses entre as partes envolvidas por
acordo, transação, conciliação e mediação (flexibilização da atuação estatal), propiciando, segundo Oliveira (2021, p.
176), a restauração do controle social abalado, a assistência ao ofendido e a recuperação do delinquente (a aplicação
desse modelo não é admitida em todos os crimes indistintamente, como naqueles previstos na Lei Maria da Penha,
que são mais graves e, por isso, exigem rigor na aplicação de penas).
Por fim, entre os métodos/instrumentos científicos de que a criminologia se vale para a compreensão do
fenômeno criminal, tem-se o empirismo e a interdisciplinaridade. O método empírico/experimental/indutivo parte
da análise dos fatos da realidade, do mundo do ser para, então, chegar à regra. Já a interdisciplinaridade é a utilização
de saberes de diversos ramos científicos (direito penal, filosofia, sociologia, psicologia, biologia etc.) para
compreender a complexidade do fenômeno criminal.

O surgimento do saber do crime


Historicamente, analisa-se o desenvolvimento da criminologia a partir de uma classificação bipartida
em fases. O período pré-científico abrange a Antiguidade, momento em que a abordagem do crime é feita
por diversos autores em textos esparsos até o século XIX. Houve, nessa fase, tanto o enfoque abstrato e
dedutivo (grande importância às garantias penais e processuais, bem como à pena retributiva ao homem
que rompe o contrato social e escolhe fazer o mal) como o empírico (influência do cientificismo e
determinismo, visando traçar as relações de causalidade da criminalidade).
Quanto ao período científico, há quatro correntes sobre seu marco inaugural. Parte majoritária da
doutrina entende que se iniciou com a obra O homem e o delinquente (1876), de Cesare Lombroso, ligado à
Escola Positivista Italiana. Outra parte da doutrina, contudo, pontua que o termo criminologia foi utilizado
pela primeira vez pelo antropólogo francês Paul Topinard, em 1879. Há ainda uma terceira corrente que
apregoa que Raffaele Garofalo teria sido o responsável por compreender a criminologia como ciência
voltada à criminalidade, ao crime e à pena, tornando o termo título de livro científico, em 1885. Em uma
quarta perspectiva, a Escola Clássica (ou retribucionista) aponta as obras de Cesare Beccaria e Francesco
Carrara (Programa de Direito Criminal, de 1859) como marco inicial desse período. Shecaira (2014), por sua
vez, defende que há, entre os períodos pré-científico e científico, o semicientífico, relacionado a Lombroso
(seu pensamento não estaria vinculado a um contexto propriamente científico), de modo que somente com
a Escola de Chicago teria surgido o momento científico da criminologia.
Considerando o contexto brasileiro, é a partir da obra Ensaios sobre Direito Penal (1884), de João
Vieira de Araújo, que a criminologia se estabelece teoricamente.
PERÍODO PRÉ-CIENTÍFICO
Na Antiguidade, havia uma total ausência de estudos sistematizados de dados sobre a criminalidade
coletados por um método rigoroso. Boa parte das explicações para o fenômeno criminal se baseava em
fundamentos sobrenaturais/religiosos, vistos, até então, como pecado. Nesse sentido, a partir do
demonismo e da demonologia, atribuía-se uma personalidade maligna ao criminoso, em especial aos
doentes mentais, supostamente submetidos a uma espécie de possessão demoníaca. Tal crença, de tão
arraigada, perdurou até a virada psiquiátrica de Pinel (VIANA, 2017, p. 27).
Alguns pensadores antigos contribuíram para a formação dos estudos criminológicos, fornecendo as
bases da noção de delito, suas causas e finalidades de sua punição. Protágoras (485-415 a.C.), por exemplo,
discorreu sobre a pena como mecanismo de efeito preventivo de novas infrações, por servir de exemplo de
punição para aqueles que insistissem em cometer crimes naquele grupo social. Sócrates (470-399 a.C.)
enfatizou a ideia de ressocialização do criminoso. Já Hipócrates (460-355 a.C.), ao reconhecer que o
indivíduo acometido por insanidade mental não poderia ser responsabilizado penalmente, acabou por
estabelecer as premissas da inimputabilidade penal. Isócrates (436-338 a.C.) lançou os fundamentos da
coautoria, ao estabelecer que aquele que oculta o crime nele toma parte. Platão (427-347 a.C.) e
Aristóteles (388-322 a.C.) pontuaram alguns dos possíveis fatores econômicos causadores da criminalidade,
como a ganância e a cobiça (OLIVEIRA, 2021, p. 21). Também há disposições sobre julgamento e aplicação
da pena no Código de Hamurabi, como a necessidade de maior severidade no julgamento dos ricos, ante
sua “maior amplitude de oportunidades para aquisição de bens materiais e culturais” (SUMARIVA, 2017, p.
36), e as penas aplicáveis aos altos escalões do funcionalismo público da época (OLIVEIRA, 2021, p. 21).
Na Idade Média, cuja ideologia cristã era predominante, o crime era visto como pecado, sendo o
criminoso, portanto, um pecador (influência oriunda tanto da filosofia escolástica como da teologia). Havia
também a inquisição das ordálias ou juízo de Deus para a produção de provas, o que pressupunha a
interpretação de elementos da natureza como meio de prova, com base no juízo divino sobre culpa ou
inocência do acusado (OLIVEIRA, 2021, p. 22). Santo Agostinho (354-430 d.C.), segundo Oliveira (2021, p.
22), “pregava a necessidade de se considerar a pena como medida de defesa social e como meio de
promover a ressocialização do delinquente, sem olvidar de seu cunho intimidatório”, enquanto São Tomás
de Aquino (1226-1274 d.C.) “apontava a pobreza como a grande causa do roubo”, justificando, em dada
medida, o furto famélico, em um esboço da ideia de estado de necessidade como excludente de ilicitude.
Aquino, ao apregoar que caberia a cada um o que é seu por critérios de igualdade, foi precursor da justiça
distributiva.
No Renascimento do século XVI, a obra Utopia (1516), de Thomas Morus, mostrou a origem da
criminalidade (desorganização e desigualdade social e pobreza) (SUMARIVA, 2017, p. 36). Erasmo de
Roterdam e Martinho Lutero discutiram, respectivamente, as causas do crime (pobreza) e as diferenças
entre criminalidade urbana e rural.
Nos séculos XVII e XVIII, surgiram os penitenciaristas Jeremy Bentham (1748-1832) e John Howard
(1726-1790), preocupados com a reforma do delinquente pela melhoria nas condições na cadeia, algo que
julgavam ser o fim prioritário da administração. Há ainda as contribuições de Montesquieu (1689-1755),
Voltaire (1694-1778) e Rousseau (1712-1778), relativas, respectivamente, aos tipos de crimes existentes
(ofensas à religião, aos costumes, à tranquilidade e à segurança dos cidadãos); relativas à reforma do
sistema carcerário e à utilidade da pena (com limitação da pena capital); e à ideia de que a propriedade
privada ocasionaria o problema social da criminalidade.
No mesmo período, surgiram os fisionomistas. Della Porta (1535-1616) dedicou-se à criação do
retrato do criminoso, pressupondo que da aparência seria possível deduzir caracteres psíquicos. Joahnn
Lavater (1741-1801) criou a pseudociência cranioscopia/craniometria (estudo científico do cérebro que
sustentava que, pela medição da cabeça e análise da forma externa do crânio, seria possível determinar a
personalidade do indivíduo), que acabou sendo difundida por Franz Joseph Gall (1758-1828) e John Gaspar
Spurzhem (1776-1832). Para os fisionomistas, a aparência externa do indivíduo poderia estar relacionada
ao seu corpo psíquico para identificar características físicas de índole criminosa (estereótipo do criminoso).
Nesse contexto, beleza e feiura eram reflexos da bondade e maldade/tendência ao crime, respectivamente
(aliás, constata-se que, até hoje, essa ideia encontra ressonância na sociedade, como se pode observar no
modo como se dão as blitzes policiais). Lavater concebeu, inclusive, a ideia de ‘homem de maldade natural’,
com base na semelhança entre o comportamento humano e dos animais (OLIVEIRA, 2020, p. 22). Houve,
ainda, o juízo de valor criado pelo juiz napolitano Marques de Moscardi, denominado Édito de Valério
(adotado pelo imperador romano Valério, no século IV), pelo qual, em caso de dúvida entre dois indivíduos
presumivelmente culpados, deveria ser condenado o mais feio.
Na sequência, surgiu a frenologia, precursora da neurofisiologia e neuropsiquiatria, voltada à
análise interna da mente e da formação cerebral para identificar a localização física de cada função anímica
do cérebro, ao mesmo tempo em que relacionava o comportamento criminoso a más formações cerebrais.
Franz J. Gall (1758-1828), médico alemão desenvolvedor dessa teoria, estudou as protuberâncias e
depressões cranianas e suas relações com certos atos humanos, de modo que cada ponto do cérebro seria
responsável por um tipo de crime. John G. Spurzhem (1776-1832), discípulo de Gall, dedicou-se a traçar
uma carta cranioscópica, tomando o peso cerebral como medida para aferir a capacidade de intelecção.
Benito Morel (1809-1873), por sua vez, associou a criminalidade à degeneração, sendo os tipos chinês e
mongol tendentes ao delito. Também criou as figuras do degenerado e do tarado, que influenciaram
Lombroso.
Ainda no século XVIII, o médico francês Phillips Pinel (1745-1826) desenvolveu a psiquiatria como
ciência autônoma, rompendo com o pensamento demonológico de associar o doente mental à possessão
pelo mal. Ele promoveu diagnósticos distinguindo os criminosos dos enfermos mentais, com substituição
do castigo destes pelo tratamento médico (crime viria de sua degeneração/regressão hereditária) (VIANA,
2017, p. 32)
Também nesse período surgiu a análise antropológica, variação da frenologia com menos questões
médicas, defendendo que o criminoso seria uma variedade mórbida da espécie humana. Prostre Lucas
(1805-1885) enunciou o conceito de atavismo (aquele ser que apresenta um
retrocesso/regressão/involução no processo evolutivo, ou resquícios de uma evolução mal concluída,
enfatizando aspectos de hereditariedade e falhas genéticas). Cesare Lombroso (1835-1909) acrescentou,
posteriormente, que o atavismo é característica dos criminosos. Por sua vez, Gaspar Virgílio (1836-1907) e
Cuby y Soler (1801-1875) enunciaram o conceito de criminoso nato. Darwin (1809-1882) apregoou que o
criminoso seria uma espécie atávica (ênfase ao legado hereditário).
A Escola Cartográfica precursora do positivismo sociológico e do método estatístico, considerava o
delito um fenômeno coletivo, um fato social regular e ordinário, regido por leis naturais como qualquer
outro acontecimento, devendo ser submetido a uma análise quantitativa, sendo a taxa de criminalidade
algo inexorável, como são as taxas de nascimento e falecimento, cuja tendência era se manter estável em
determinado espaço. Burocrata belga, principal representante dessa escola, Adolphe Quetelet (1796-1874),
criador da figura do homem médio (parâmetro preditivo do comportamento adotado por uma pessoa com
conhecimentos razoáveis e proporcionais), realizava estudos estatísticos criminais (mapeamento dos crimes)
para identificar regras, tendo ainda enunciado os postulados das relações constantes entre a criminalidade
real, a aparente e a legal. Ele criou a cifra negra, ao apontar que existe uma relação invariável entre os
delitos conhecidos e julgados e os delitos desconhecidos por não serem comunicados. Ademais, foi
responsável pela teoria das leis térmicas, na qual associou determinados tipos de delito às estações do ano,
de modo que, no inverno, haveria mais crimes patrimoniais; no verão, os crimes contra a pessoa seriam
mais comuns; e, na primavera, emergiriam os crimes contra a dignidade sexual (justificava-se também
haver mais homicídios em área mediterrânea do que em uma continental pela maior temperatura).
Ademais, era prática comum dos teóricos da Escola a utilização da estatística moral, em que variáveis eram
utilizadas para elaborar meios que previssem a taxa de criminalidade.
No fim do século XVIII, surgiu, com o Iluminismo, a Escola Clássica, em que houve a “adoção do
método lógico-abstrato e dedutivo, baseado no silogismo, e [...] a fundamentação da responsabilidade
penal no livre-arbítrio” (OLIVEIRA, 2021, p. 23). Representam-na Cesare Beccaria, Francesco Carrara e
Giovanni Carmignani.

PERÍODO CIENTÍFICO
No século XIX, houve com a emergência de um ambiente cientificista, o abandono do método abstrato e
dedutivo do silogismo clássico em favor do método empírico, experimental ou indutivo de estudo, um deliberado
movimento para o campo concreto de verificação prática do crime e do criminoso. Nesse ambiente surgiu, então,
o positivismo criminológico da Escola Positiva Italiana, inspirado pela fisionomia e frenologia, defendendo a
necessidade de investigar as causas da criminalidade para diminui-la e garantir a defesa social, sendo o delinquente
alguém de periculosidade, mas não culpável.
Cesare Lombroso, autor da obra O homem delinquente, de 1876, considerada pela doutrina majoritária a
responsável pelo nascimento da criminologia científica, representou a vertente antropológica, antropobiológca ou
correcionalista da Escola Positiva, em que “procurou explicar o fenômeno criminal empiricamente a partir de fatores
biológicos, valendo-se de dados estatísticos” (OLIVEIRA, 2021, p. 81). Criador da antropologia criminal, defendeu o
determinismo biológico na seara penal, criando a imagem do criminoso como alguém fraco e incapaz de resistir às
tentações do mundo.
Enrico Ferri (1856-1929), autor de Sociologia criminal (1914), liderou a vertente sociológica da Escola Positiva.
Defensor das penas individualizadas em vista do homem concreto e do determinismo social no âmbito penal,
entendeu o crime “como um fenômeno social determinado por causas naturais” (OLIVEIRA, 2021, p. 25). Já Raffaele
Garofalo (1851-1934), expoente da vertente jurídica da Escola Positiva, diferenciou os delitos legais dos naturais
(nestes a conduta seria criminosa em qualquer tempo ou lugar, por violação de sentimentos altruístas que se
encontram como medida em toda sociedade).
Também no século XIX, a Escola Francesa de Lyon (sociologia criminal), sob influência de Auguste Comte
(1789-1857) ligado ao positivismo e à sociologia moderna, analisou o crime como um fenômeno social a ser
compreendido com base no modo como os fatores do meio ambiente social (exógenos) atuam na conduta individual.
Alexandre Lacassagne (1843-1924), fundador da Escola de Lyon, opôs-se a Lombroso ao defender que,
embora o delinquente apresente um aspecto patológico e uma predisposição pessoal latente (anomalias físicas e
psíquicas) para a delinquência, ela somente emerge a partir de sua interação com o meio social. Durkheim (1858-
1917), por sua vez, defendia que o crime nada mais era do que um fenômeno social ordinário, “desde que observado
o limite estabelecido para cada tipo social” (OLIVEIRA, 2021, p. 27), uma característica que acompanha a sociedade
de modo generalizado, em nada relacionado a doenças. Já Jean-Gabriel de Tarde (1843-1904), também crítico a
Lombroso, analisava o crime sob a perspectiva da teoria da aprendizagem baseada na imitação (contato social
deletério) e transmissão por gerações, além de outros condicionantes sociais.
No fim do século XIX, surgiu a criminologia socialista em sentido amplo, sob influência de Karl Marx (1818-
1883) e Friederich Engels (1820-1895), compreendendo a criminalidade como fruto da sociedade capitalista, de
modo que sua eventual redução ou desaparecimento poderia ocorrer com a instauração do socialismo.
Em 1882, surgiu a antropometria criminal ou bertillonagem, criada por Alphonse Bertillon (1853-1914),
“consistente na técnica de identificação de criminosos pelo registro de suas medidas e marcas corporais, como
tatuagens, cicatrizes, sinais de nascença etc.”, tendo também concebido o assinalamento antropométrico e a
fotografia judiciária (OLIVEIRA, 2021, p. 27). Por fim, houve, em 1904, a demonstração científica do sistema
dadiloscópico de identificação, por Juan Vucetich (1858-1925), superando, assim, a técnica anterior.
No século XX, houve a emergência das escolas ecléticas/intermediárias, com gradual abandono do antropologismo
lombrosiano e a adoção de teorias de teor psicológico, psicanalítico e psiquiátrico, que defendiam que o crime
ocorria por fatores endógenos e exógenos, com preponderância do primeiro, procurando conciliar, em certa medida,
os preceitos das escolas clássica e positiva. A Escola Crítica ou Terza Scuola italiana, por exemplo, marcou o início do
positivismo crítico, tendo como principais defensores Bernardino Alimena, Giuseppe Impallomeni e Manuel
Carnevale. Nessa corrente, o crime é um fenômeno ao mesmo tempo individual e social, fundamentando a pena, de
caráter aflitivo, na responsabilidade moral do deliquente (determinismo psicológico), o que leva à distinção entre os
imputáveis e os inimputáveis (SUMARIVA, 2017, p. 47). Acreditava, ainda, que o controle da criminalidade dependia
de uma reforma social.

Por sua vez, a Escola Técnico-Jurídica (1905), representada por Arturo Rocco, Manzini, Massari, Detiala, Cicala, Vanini
e Conti e reagindo à Escola Positiva, destacou o crime como uma relação jurídica de conteúdo individual e social, e a
pena como consequência/reação ao crime, com responsabilização moral do criminoso imputável (livre vontade
presente) para prevenção geral e específica (OLIVEIRA, 2021, p. 91).
A Escola de Marburgo (Escola Sociológica Alemã, Escola Moderna, Nova Escola ou Escola de Política Criminal),
defendida por Franz von Liszt (1851-1919), tentou, por um ecletismo metodológico (antropologia, psicologia e
estatística criminal), criar uma ciência global do Direito Penal. O delito era visto como um fenômeno humano-social e
um fato jurídico ao mesmo tempo, de sorte que a criminalidade deveria ser enfrentada por meio de uma investigação
sociológica sobre o delito combinada com um estudo dogmático. Substituiu a pena retributiva pela pena finalista, ou
seja, aquela que, vinculada à culpabilidade do imputável (em relação aos inimputáveis, havia apenas a medida de
segurança) é dirigida à manutenção da ordem jurídica, do Estado e da proteção coletiva, valendo-se da prevenção
especial via conversão do criminoso em membro útil à sociedade (adaptação artificial) ou sua retirada do convívio
social (inocuização) (OLIVEIRA, 2021, p. 92). Para tanto, considerava uma classificação especial dos criminosos,
influente até hoje: delinquente ocasional, corrigível ou habitual, cada qual com uma pena voltada a um fim específico
(recordação, ressocialização, inocuização) com aplicação nos momentos de sua cominação (advertência e intimidação)
e execução. Pela falta de finalidade das penas de curta duração, essa Escola recomendava sua eliminação ou
substituição.
A Escola Correcionalista surgiu com a publicação, em 1839, da obra de Cárlos D. A. Röder (seu defensor na Alemanha).
Röder via a aplicação da pena como uma oportunidade de correção moral do delinquente. Mais aceito na Espanha,
com a obra de Francisco G. de los Ríos, o correcionalismo teve como representantes, nesse país, Pedro G. D. Montero
(1861-1919) e Concepción Arenal (1821-1893). A Escola acreditava que a pena deveria ser correcional, isto é, deveria
ter o caráter pedagógico de correção/recuperação do indivíduo, adaptando-o à sociedade para que não reincidisse no
delito (LIMA JÚNIOR, 2017, p. 94). Deveria funcionar, portanto, como um remédio social, de duração indeterminada e
constantemente adaptado ao estágio do indivíduo na execução penal, sendo o juiz um médico atuando em prol do
saneamento e profilaxia social e o criminoso um portador de patologia de desvio social (OLIVEIRA, 2021, p. 96).

Escola Clássica e Escola Positiva


As Escolas Clássica e Positiva da criminologia partiram de alguns modelos teóricos subjacentes. Na Escola
Clássica, destacavam-se a criminologia clássica e a neoclássica, que sustentavam que os meios de prevenção do delito
(dissuasão) precisam ter natureza penal, consubstanciados em seu efeito inibitório. Contudo, o modelo teórico
clássico entendia que tal prevenção devia se centrar no rigor da pena, ao passo que o neoclássico preconizava a
prevenção do crime a partir do correto funcionamento do sistema legal e no modo como era percebido pelo
delinquente (ou seja, com ênfase no retorno proporcionado pela aplicação da pena). De acordo com Oliveira (2021, p.
71), “em uma visão reducionista, encara o delito como enfrentamento do delinquente, não havendo uma
preocupação com a reparação do dano e a socialização do infrator”. Quanto ao modelo da Escola Positiva, verificou-
se o método empírico da criminologia positivista, no qual o criminoso era analisado pela observação e
experimentação, sendo identificado a partir de certas características físicas, psicológicas e sociais, em uma tentativa
de associá-las a uma predisposição à prática de crimes (determinismo do fenômeno criminal).

CURIOSIDADE
A criminologia contemporânea é um terceiro modelo teórico em que são analisadas as causas, características,
formas de prevenção e controle de incidência do delito enquanto fenômeno individual e social, de caráter humano e
conflitivo. Há ênfase nos modos de reação social ao crime, na análise deste, do criminoso e da vítima, visando à
intervenção no delinquente, com sua ressocialização, reparação do dano e prevenção da criminalidade.
Cabe pontuar que as Escolas Clássica e Positiva foram as únicas com posições extremas e filosoficamente bem
definidas, de sorte que nas correntes subsequentes se procurou conciliar os postulados das escolas antecedentes.

ESCOLA CLÁSSICA OU RETRIBUCIONISTA


Inspirando-se no movimento iluminista, surgiu, no fim do século XVIII, a Escola Clássica ou Retribucionista,
que, em oposição direta ao antigo regime absolutista, buscou garantir direitos individuais ao limitar o poder punitivo
do Estado. Sendo ela a última manifestação do período pré-científico da criminologia, estudava o crime e a pena
como entidades jurídicas abstratas, utilizando-se do método lógico-abstrato/dedutivo, em que a partir de um
princípio geral são extraídas algumas consequências lógicas.

A punibilidade do indivíduo pressupunha seu livre-arbítrio e sua autodeterminação, em um contexto de


observância da ordem jurídica e moral estabelecida via contrato social. Desse modo, o “indivíduo, signatário do
contrato social e dotado de livre arbítrio, ao descumprir a lei, de forma livre e consciente, sujeita-se a uma pena
como resposta objetiva à prática do delito e como forma de restabelecimento da ordem jurídica violada” (OLIVEIRA,
2021, p. 75). Ressaltou-se o caráter retribucionista e dissuasório da pena, devendo ser uma resposta certa,
previamente estabelecida em lei e proporcional ao crime praticado (Estado retribuindo o mal praticado na mesma
medida), o que evidenciou seu fim de punição e intimidação geral, sem preocupação com ressocialização e reparação
do dano. Entre os principais teóricos da Escola Clássica, destacou-se Francesco Carrara, Cesare Bonesana (Beccaria),
Jean D. Romagnosi, Jeremias Bentham, Franz J. Gall, Anselmo von Feuberbach, Giovanni Carmignani, Pelegrino Rossi,
Emílio Brisa e Enrico Pessina.
Autor da obra Dos delitos e das penas (1764), Cesare Bonesana, o Marquês de Beccaria, foi defensor da
restrição do poder estatal de punir e da humanização da punição. Segundo Sumariva (2017, p. 39), Beccaria
estabeleceu os princípios da legalidade e da anterioridade da lei, devendo ser clara, simples e capaz de causar temor,
sem favorecer determinadas classes em detrimento de outras. Também apregoava a proporcionalidade e a finalidade
preventiva da pena (para evitar a reincidência), com vedação à tortura, bem como a existência de uma justiça livre de
corrupção, que priorizasse o princípio da inocência e fosse capaz de propiciar um julgamento por autoridade judicial,
com garantia de sigilo das acusações e da prisão preventiva como medida cautelar. Viana (2017, p. 38-39) acrescenta
que Beccaria entendia como meios possíveis de evitar a criminalidade tanto o aperfeiçoamento da educação como a
recompensa da virtude, devendo a pena de morte, em regra, ser proibida, salvo em caso de instabilidade política ou
turbulência social, no interesse da segurança da nação ou, ainda, quando fosse o único modo de dissuadir os demais
cidadãos da prática de crimes.

Cesare Bonesana, o Marquês de Beccaria, aristocrata milanês representante da Escola Clássica. Apresentou as
bases do Direito Penal moderno: igualdade perante a lei, abolição da pena de morte e da tortura para obtenção de
provas e instauração de julgamentos públicos e céleres.
Francesco Carrara concebeu o delito como ente jurídico, ou seja, o crime, mais do que ser um mero fato ou
ação, enseja uma relação contraditória entre a lei e o comportamento humano (VIANA, 2017, p. 42). Assim, a figura
da infração seria composta, de um lado, por uma força física e o dano causado pelo crime e, de outro, por uma força
moral, oriunda da vontade livre e consciente do delinquente (GAMBOA, 2015, p. 18).
Por fim, há o legado da Escola Retribucionista à dogmática penal contemporânea: a exigibilidade de conduta
diversa, situação em que embora haja a possibilidade concreta de comportamento conforme o direito, o indivíduo
opte, no exercício de seu livre-arbítrio, por violar a lei, o que configuraria sua culpabilidade (VIANA, 2017, p.44-46).

ESCOLA POSITIVA
A Escola Positiva surgiu no século XIX, havendo, a partir de 1827, a publicação dos primeiros dados
estatísticos sobre a criminalidade, conferindo cientificidade aos estudos criminológicos. Em 1876, contudo, com a
publicação de O homem delinquente, de Cesare Lombroso, surgia para a doutrina majoritária a criminologia científica.
Para a Escola Positiva, o crime era um fenômeno natural e social, cuja causa era determinada por fatores biológicos,
físicos e sociais. Diante desse panorama, a criminologia deveria ser um modelo integrado de ciências penais, de
natureza causal-explicativa, para informar o Direito Penal (SUMARIVA, 2017, p. 42), utilizando-se, para tanto,
do método empírico-indutivo, indutivo-experimental ou indutivo-quantitativo, em que a partir da análise de dados e
fatos particulares, buscar-se-ia uma proposição científica geral e explicativa das causas do delito, bem como o
estabelecimento de modos de reação a ele em defesa do corpo social. Nesse contexto, o criminoso era visto como
uma peça-chave do centro das análises, as quais buscavam identificar nele traços vinculados à criminalidade
(determinismo) e, com isso, negava-lhe o livre arbítrio. A finalidade da pena passou, então, a ser a prevenção especial
(afastamento do caráter retribucionista conferido pela Escola Clássica), de modo que pudesse servir de instrumento
de defesa social em função da periculosidade do agente.
Destaca-se que a Escola Positiva, de acordo com a doutrina, costuma ser classificada em três vertentes, a
saber:
1) antropológica ou antropobiológica: representada por Cesare Lombroso (1835-1909), com a obra O homem
delinquente (1876), o qual procurou explicar o fenômeno criminal empiricamente a partir de fatores biológicos,
valendo-se de dados estatísticos;
2) sociológica: liderada por Enrico Ferri (1856-1929), autor de Sociologia Criminale; e 3) jurídica: tem como principal
expoente Rafaelle Garofalo (1852-1934), com a obra Criminologia, de 1885 (OLIVEIRA, 2021, p. 81).

Dentre os principais autores da Escola Positiva, Cesare Lombroso, responsável pela criação da antropologia
criminal e defensor do determinismo biológico, foi considerado pai da criminologia. Sob influência da fisionomia e da
frenologia, e utilizando-se do método empírico em suas investigações, desenvolveu o conceito de “criminoso nato a
partir do estudo da anatomia dos criminosos e da identificação de seus traços atávicos simiescos (reprodução de
características do homem primitivo e de animais inferiores), o que explicaria seu comportamento selvagem”
(OLIVEIRA, 2021, p. 84). Desse modo, o crime era predominantemente um fenômeno biológico (embora tenha
reconhecido, posteriormente, a influência de causas sociais exógenas na criminalidade como desencadeadoras de
fatores clínicos), de sorte que certas pessoas estariam mais propensas à delinquência ante suas características físicas
e psíquicas (anomalia, doenças e estigmas de origem atávica ou degenerativa). Nas obras La donna delinquente e La
prostituta e la donna normale (1895), escritas em coautoria com Guglielmo Ferrero (1871-1942), equiparou a
prostituição feminina à criminalidade masculina. Além do criminoso nato (portador de uma degeneração incurável
dos centros nervosos que produz uma condição de anormalidade caracterizada por certas feições/fisionomia típica e
traços anímicos), Lombroso também classificava o delinquente em louco (portador de anomalia ou patologia mental
adquirida ou manifestada tardiamente), passional (agia pela emoção) e ocasional (levado a cometer o crime por
circunstâncias). Ressalta-se que, mesmo atualmente, as concepções lombrosianas permanecem arraigadas
no consciente coletivo, ante ao julgamento preconceituoso baseado na aparência física de certos grupos sociais (“é
comum a seletividade de pessoas negras e pobres em buscas pessoais realizadas em blitz policiais, com base no vago
conceito de “fundada suspeita”, previsto no art. 240, §2º, do Código Processual Penal” (OLIVEIRA, 2021, p. 84-85)).
Cesare Lombroso, médico italiano, defendia que o crime tinha caráter hereditário e regressivo a estágios
primitivos, sendo inaceitável socialmente (por isso era favorável à pena de morte e à prisão perpétua). Fonte:
Wikimedia Commons. Acesso em: 08/03/2021.
Enrico Ferri, defensor do determinismo social, apontava os fatores antropológicos, sociais e físicos/telúricos
(isto é, fatores advindos do solo e da natureza, como clima, temperatura, estações do ano etc.) como as causas do
delito, de modo que o homem só cometeria crimes por viver em sociedade. Reconheceu, portanto, uma
responsabilidade social na criminalidade, voltando sua preocupação não só ao fator individual. Descartou, desse
modo, a tese de que o delito seria produto da escolha do delinquente (negativa do livre-árbitro), o que afasta, sua
responsabilização moral pela conduta criminosa praticada. É, nesse contexto, que Ferri concebeu a chamada Lei de
Saturação Criminal, a qual apregoa que determinados crimes “seriam produzidos em dadas condições sociais e, em
circunstâncias excepcionais do meio social, poderia haver um incremento nas taxas de criminalidade”, a chamada
sobressaturação criminal (OLIVEIRA, 2021, p. 86). Ademais, Ferri preconizou a neutralização do criminoso pela sua
segregação do convívio social via pena como modo de defesa da sociedade. A teoria dos substitutivos, por sua vez,
tinha como fundamento a ideia de que o enfrentamento da criminalidade deveria priorizar os meios preventivos,
adotando-se medidas de natureza diversa (econômica, política, científica, religiosa, educativa etc.) (VIANA, 2017, p.
69). Cabe ressaltar ainda que, a expressão criminoso nato foi preconizada por Ferri, não por Lombroso, tendo a
utilizado em sua obra Os criminosos na arte e na literatura, de 1881. Por fim, classificou os criminosos em natos,
loucos, passionais, ocasionais e habituais.
Por derradeiro, tem-se o terceiro e último principal nome da Escola Positivista, o jurista e ministro da Corte
de Apelação de Nápoles Raffaele Garofalo, responsável pela criação do termo criminologia para se referir à ciência de
estudo da criminalidade e da pena. Garofalo apregoava que o crime era, na verdade, um sintoma advindo de uma
anomalia moral ou psíquica situada na natureza degenerada do indivíduo, entendimento esse que deu origem aos
conceitos de temibilidade e periculosidade. Nesse contexto, e considerando a necessidade de tratamento médico do
delinquente, trouxe à tona, como nova modalidade de intervenção penal, a medida de segurança, além da ideia
de prevenção especial como fim da pena. Nápoles acreditava na aplicação de penas severas (incluindo a de morte) e
no dever do delinquente de indenizar tanto o Estado como a vítima, como modos de combate à criminalidade.
Ademais, Garofalo distinguiu os delitos em legais (condutas cuja tipificação poderia variar a depender da
localidade e da vontade política, por não serem ofensivos ao senso comum de moralidade, como nos crimes contra a
ordem tributária) e naturais (comportamentos cuja tipificação independe da época ou da localidade, já que violam tal
senso, como no delito de homicídio). Também propôs uma classificação dos criminosos, mas dessa vez em assassinos,
violentos (enérgicos), ladrões (neurastênicos) e lascivos (simples) (OLIVEIRA, 2021, p. 87).

O desenvolvimento da sociologia criminal: Escola de Chicago e teoria da anomia


A sociologia criminal é a ciência que explica a correlação crime-sociedade com base na teoria
macrossociológica, que pressupõe o entendimento da criminalidade como um fenômeno oriundo do modelo de vida
em sociedade, devendo ser analisada a partir das causas e reações sociais que suscita, a despeito de questões
biológicas e patologias individuais. As escolas científicas desse período podem ser subdivididas em teorias do
consenso/integração (Escola de Chicago, teoria da subcultura delinquente, teoria da anomia e teoria da associação
diferencial) e teorias do dissenso ou do conflito (Labelling Approach/teoria do etiquetamento ou da rotulação social e
teoria crítica ou radical), de modo que cada uma delas lida com o enfrentamento do conflito advindo da
criminalidade a partir de uma determinada perspectiva a respeito da sociedade.
As teorias do consenso, de caráter funcionalista e conservador/tradicional, acreditam que o funcionamento
harmônico da sociedade depende do respeito consensual de seus membros às normas impostas por suas instituições,
convivendo entre si a partir do compartilhamento de regras em comum (há uma estruturação social baseada em
elementos estáveis, integrados, funcionais e perenes consensualmente aceitos), de modo que a análise do crime se
centra em suas causas e consequências.
Lado outro, as teorias do conflito, mais progressistas e críticas, apregoam que a harmonia/pacificação social
só é atingida via controle social, com uso de força e coerção do Estado para que haja a imposição da ordem e o
cumprimento de regras impostas pelo poder vigente, pois ante a luta permanente entre dominantes e dominados
pelo poder, não há voluntariedade para que ocorra tal pacificação (querem, antes, a dissolução das condições que
não os favoreçam, sujeitando a sociedade a mudanças contínuas).

Pelo exposto, vê-se que enquanto as teorias do consenso entendem que o ataque a uma mera falha pontual
no sistema, passível de ser corrigida, seja suficiente para lidar com o problema da criminalidade, sem a necessidade
de corrigir a sociedade como um todo (por si só, bem organizada e articulada), as teorias do conflito acreditam que a
própria sociedade é conflituosa, não sendo possível atacar a criminalidade sem alterar o funcionamento da estrutura
social, atingida pelo estudo aprofundado do delito.

ESCOLA DE CHICAGO
A Escola de Chicago, ou da ecologia criminal, fundamentada nas teorias do consenso, surgiu nas décadas de
1920 e 1930, no Departamento de Sociologia da Universidade de Chicago, a partir dos estudos sobre a sociologia das
grandes cidades da época, que correlacionavam as causas do crescente número de delitos vistos em Chicago às
influências sociais do desenvolvimento de seu entorno urbano industrial. Para Sumariva (2017, p. 66), houve nesse
desenvolvimento uma mutação das grandes cidades, com aumento populacional acompanhado de incremento nos
índices de criminalidade local, o que levou à necessidade de se conhecer os mecanismos de aprendizagem e a
transmissão das culturas desviadas que mantinham alguma relação com a criminalidade.
Tendo por base a antropologia urbana e lançando mão de uma perspectiva transdisciplinar, a Escola de
Chicago se propôs a investigar empiricamente em que medida a conduta criminosa poderia ser influenciada pelo
ambiente circundante, com vistas a obter um diagnóstico confiável sobre os problemas sociais emergentes da
realidade norte-americana da época. Nesse momento, portanto, foi delineada uma relação entre o crescimento
populacional e o aumento da criminalidade nas cidades, de sorte que os seguidores dessa escola propuseram, enfim,
a tese de que a cidade produzia a delinquência (em última análise, o aumento populacional acabava levando a um
aumento da criminalidade). Assim, segundo Oliveira (2021, p. 109), as ações interventivas na cidade, de cunho
preventivo (com consequente redução da repressão), além de planejadas e limitadas previamente a um certo espaço,
deveriam contar com a participação dos membros da sociedade, contando com a utilização de inquéritos sociais para
se investigar o real índice de criminalidade visto nos centros urbanos.
Diversas teorias criminológicas surgiram a partir dos estudos da Escola de Chicago. A teoria ecológica ou da
desorganização social, por exemplo, surgiu em 1915, sendo seminais as obras de Robert Park e Ernest Burguess. Para
tal teoria, as altas taxas de criminalidade das cidades estavam relacionadas “à debilidade do controle social informal,
à desordem e à falta de integração e sentimento de solidariedade entre seus membros” (OLIVEIRA, 2021, p. 112),
problemas esses ocasionados pela elevada taxa de migração populacional para Chicago, que experimentava o
desenvolvimento econômico e industrial na época. Gomes e Molina (2008, p. 343-344) acrescentam ainda outros
fatores que contribuíram para o aumento da criminalidade urbana, tais como:
 A deterioração dos grupos primários (família etc.);
 A modificação qualitativa das relações interpessoais;
 A perda de raízes no espaço residencial pela alta mobilidade;
 A cser_educacional dos valores tradicionais e familiares;
 A superpopulação;
 A tentadora proximidade às áreas comerciais e industriais com acúmulo de riqueza;
 O enfraquecimento do controle social.

Penteado Filho (2020, p. 83) sintetiza algumas propostas da ecologia criminal para combater a criminalidade,
centradas na melhoria das condições socioeconômicas da comunidade como um todo e na criação de programas
comunitários voltados ao lazer e ao tratamento e prevenção da criminalidade, com planejamento estratégico, além
de reurbanização dos bairros pobres.
Nesse contexto, Ernesto Burgess concebeu a teoria da zonas concêntricas, um modelo que dispunha sobre o
modo de crescimento das cidades norte-americanas, as quais tenderiam a se expandir a partir do seu centro, com a
formação de zonas concêntricas. Freitas (2002, p. 73-77) resume:

 Zona I (loop)
Parte central, onde se situavam as atividades financeiras e profissionais (serviços e indústrias);
 Zona II (zona em transição/intermediária)
Área contígua à zona central e de transição do distrito comercial para os bairros residenciais (cortiços e
guetos com infraestrutura deficiente, formação de gangues, escasso controle social e grande rotatividade de pessoas),
sendo normalmente ocupada pelas pessoas mais pobres, inclusive recém-chegadas à cidade, haja vista ser um local
de baixo custo de vida e próximo às fábricas, que absorviam essa mão de obra;
 Zona III (zona residencial)
Área limítrofe à anterior, com residências de trabalhadores que escaparam das condições de vida da zona II,
composta principalmente pela segunda geração de imigrantes;
 Zona IV (subúrbio ou zona da classe média)
Formada por bairros residenciais, com casas e apartamentos onde residem as classes média e alta da
sociedade que utilizam metrô para o trabalho;
 Zona V (exúrbia)
Região fora dos limites da cidade (áreas suburbanas e cidades-satélites), compostas por casas de pessoas de
classe média e alta (commuters), que trabalham no centro da metrópole e levam um tempo razoável no
deslocamento para o serviço.

Saliente-se que tais zonas estariam em constante expansão e deslocamento em direção ao território da zona
propínqua, em um processo de invasão, dominação e sucessão, resultando na expansão da cidade como um todo.
Ressalta-se que, para esse modelo, a maior incidência de crime e delinquência ocorreria estatisticamente na
Zona II, onde os laços de solidariedade social eram destruídos à medida que tal área era invadida pelo comércio e
pelas indústrias, diminuindo, assim, a resistência à criminalidade. Com isso, rompeu-se o entendimento, até então,
cristalizado pelas ciências biológicas de que as favelas urbanas seriam produto de determinismo biológico,
resultantes do acasalamento de pessoas portadoras de genes defeituosos e compreendidas como produto da
desorganização social.
A teoria espacial, da década de 1940, manifestou-se nos escritos do arquiteto Oscar Newman, que apregoou
a construção de modelos arquitetônicos adequados como medida preventiva situacional do crime. Assim, mitigariar-
se-ia a criminalidade preventivamente pela reestruturação arquitetônica e urbanística das grandes cidades, o que
daria ensejo à criação do chamado espaço sustentável, ou seja, aquele que permitiria uma “maior vigilância pelas
pessoas e fomentaria a autodefesa, por meio de barreiras reais ou simbólicas que desestimulassem a ação criminosa
e aumentassem os riscos para o infrator” (OLIVEIRA, 2021, p. 116), por propiciar um crescimento ordenado da cidade
e disponibilizar próximo aos indivíduos a infraestrutura adequada ao seu desenvolvimento.
A teoria das janelas quebradas (the broken-windows theory), oriunda dos estudos publicados, em 1982, pelo
cientista político James Wilson e pelo psicólogo criminologista Georg Kelling, procurou estabelecer uma relação direta
de causalidade entre a criminalidade violenta e a não repressão a pequenos delitos por parte do Estado, de modo
que ao se promover a punição dos crimes mais brandos, o Estado se faria presente e demonstraria preocupação com
a prática de todo e que qualquer delito, “afastando a sensação de impunidade na sociedade e, com isso, inibindo a
prática de delitos mais graves” (OLIVEIRA, 2021, p. 117). Em uma comparação, seria a mesma lógica vista na situação
de haver uma janela quebrada em um prédio sem imediato reparo: as demais janelas logo também seriam quebradas
à medida que as pessoas que passassem pelo local concluíssem que ninguém cuida do imóvel (a ausência de cuidado,
por dar a sensação de haver chances reduzidas de punição, acarreta o rompimento dos controles da comunidade,
com aumento da prática de delitos, inclusive mais graves). Essa teoria embasou o movimento de tolerância zero, em
Nova Iorque, e motivou o recrudescimento do regime de cumprimento de pena para os crimes hediondos e
equiparados no Brasil (crença de que o aumento do rigor penal diminuiria os índices de criminalidade).
Aliás, a teoria da tolerância zero, do início da década de 1980, a partir do movimento neoconservador lei e
ordem, defendia igualmente a necessidade de se punir com severidade os pequenos delitos para evitar o crescimento
da criminalidade e, assim, manter a ordem pública e a segurança dos espaços de convivência social. A ideia era a de
que, a partir do cumprimento de seus deveres legais para com a população, o Estado propiciasse condições
adequadas de desenvolvimento psicossocial pelo acesso a serviços, o que, segundo Sumariva (2017, p. 69),
reconquistaria a confiança da sociedade e, por conseguinte, infundiria o hábito da legalidade, com consequente
redução dos índices de criminalidade. Essa teoria pressupôs ainda a existência de certa afinidade e confiança entre a
polícia e a comunidade em prol da segurança pública, com a denuncia e combate de crimes pequenos para suprimir
os espaços de práticas de grandes delitos.
A última teoria vinculada à Escola de Chicago é a teoria dos testículos despedaçados/quebrados (breaking
balls theory), também defensora do combate aos pequenos delitos. Defende que a perseguição policial eficaz de
criminosos pela prática de crimes menores acaba por os afugentar para locais distantes, onde podem tentar dar
continuidade aos crimes uma vez livres do controle estatal (SUMARIVA, 2017, p. 69).

TEORIA DA ANOMIA
Relacionada à Escola do Consenso, a teoria da anomia foi preconizada por Robert King Merton, a partir da
publicação, em 1938, de artigo sob inspiração doutrinária de Émile Durkheim, defensor da ideia de que o crime era
algo normal, necessário e útil para o equilíbrio e desenvolvimento sociocultural, ante sua complexidade social.
Merton sustentou que uma conduta passa a ser crime quando viola a consciência coletiva, tendo a pena o fim
de satisfazê-la e preservar a sociedade.

Robert Merton (1910-2003), sociólogo estadunidense. Fonte: RUIZA; FERNÁNDEZ; TAMARO, 2004.
Ao verificar uma ausência ou decomposição de normas sociais em razão do fracasso de mecanismos
reguladores da vida em sociedade, a teoria estrutural-funcionalista da anomia conseguia modificar o tipo de
abordagem da delinquência, deslocando-se de uma “perspectiva positivista biopsicológica e caracterológica da
delinquência para uma concepção sociológica, despatologizando o delito, de sorte a compreendê-lo com a noção da
normalidade do desvio como fenômeno social” (OLIVEIRA, 2021, p. 128). Nessa teoria, são analisadas a estrutura
social e os fins culturais (riqueza, sucesso econômico, status social) por ela estabelecidos, bem como os meios
institucionalmente legítimos e para alcançá-los (como o trabalho), de modo que é possível constatar o surgimento do
comportamento desviante do indivíduo a partir do momento em que houver escassez ou acesso desigual a esses
meios na estrutura social, o que o obriga a se valer de modos ilegítimos de obtenção dos fins culturais, em clara
violação ou abandono às normas vigentes (é a anomia) (SUMARIVA, 2017, p. 73). Em síntese, a motivação para a
delinquência decorreria da impossibilidade de o indivíduo atingir as aspirações socioculturais a ele impostas pela
estrutura social, experimentando o fracasso ante o desajuste entre tais objetivos e as formas legítimas de alcançá-los.
A esse propósito, Merton elencou modos de adaptação aos referidos fins culturais e meios para seu alcance
(SUMARIVA, 2017, p. 73):
 Conformidade ou comportamento modal
Modo de adaptação mais comum, é aquele em que os fins culturais e os meios institucionalizados legítimos
para seu alcance são aceitos pelo indivíduo;
 Inovação
Os fins culturais são aceitos pelo indivíduo, mas os meios propostos para seu alcance não o são, ante sua
escassez/indisponibilidade, o que o leva ao rompimento com o sistema vigente pelo comportamento desviado,
voltado ao alcance de tais fins;
 Ritualismo
Aqui ocorre o inverso da inovação, pois o indivíduo aceita ritualisticamente os meios institucionalizados, mas
renuncia às metas culturais (entende que não é capaz de alcançá-las);
 Evasão ou retraimento
O indivíduo assume uma posição derrotista e resignada, renunciando tanto os fins culturais como os meios
institucionalizados para atingi-los (ocorre com moradores de rua, alcoólatras e usuários de drogas);
 Rebelião
O indivíduo rejeita as metas culturais e meios institucionalizados, por inconformismo e revolta.

Quando circunscrito a limites toleráveis, considera-se o delito um fenômeno natural, por estar presente em
todas as sociedades e, de certo modo, fazer parte do consciente coletivo. Lado outro, quando ultrapassar tais limites,
a criminalidade passa a ser um estado de anomia, pois pode dar ensejo à desordem social e à consequente descrença
no sistema normativo de condutas, levando ao enfraquecimento da solidariedade social (afinal, livres de vínculos
sociais, os indivíduos podem ter comportamentos antissociais e autodestrutivos). Exemplo disso é a criminalidade
vista na Cracolândia, em São Paulo.

Teorias da associação diferencial (white collar crime) e subculturas delinquentes


A teoria da associação diferencial é uma das vertentes das teorias da aprendizagem social (abrangem as
teorias da identificação diferencial, do reforço diferencial, do condicionamento operante e da neutralização), que
surgiram, a partir das décadas de 1960 e 1970, defendendo a tese da aprendizagem de técnicas para o cometimento
do crime e de mecanismos psicológicos de neutralização. Ressalta-se que essas teorias “negam a vinculação do crime
à pobreza, sustentando que indivíduos de classe média e alta também podem delinquir, aprofundando as
investigações científicas sobre a criminalidade das classes mais privilegiadas” (OLIVEIRA, 2021, p. 119).
Tanto a teoria da associação diferencial como a das subculturas delinquentes, como já dito, derivam das
teorias do consenso desenvolvidas pela sociologia criminal, de modo que a criminalidade é vista como decorrência de
um fenômeno oriundo de um conflito externo ao funcionamento da sociedade, que é de harmonia, não de conflitos.

TEORIA DA ASSOCIAÇÃO DIFERENCIAL (WHITE COLLAR CRIME)


A teoria da associação diferencial, difundida por Edwin H. Sutherland, em 1924, tem como premissa principal
a ideia de que o crime, assim estabelecido com base nos valores dominantes de um grupo, não pode ser definido
apenas como uma disfunção das pessoas de classes menos favorecidas, ou como algo hereditário, sendo, antes,
resultado de uma socialização inadequada que possibilitou a aprendizagem de um comportamento criminoso pelo
sujeito ativo e sua associação à conduta desviante, ante a percepção de que as condições para a prática delituosa são
favoráveis. Em outras palavras, essa teoria, partindo de uma perspectiva social de análise do fenômeno criminal,
descarta a ideia de que alguém pode nascer criminoso (rechaça a ideia de que a conduta criminosa seria fruto de
fatores biológicos), haja vista que o crime surge a partir de um processo de socialização diferencial, com
aprendizagem de um comportamento desviante em vez de um comportamento em conformidade com o Direito.
Acrescenta-se que, sob essa perspectiva, a influência criminógena seria proporcional ao grau de intimidade
do contato interpessoal estabelecido, podendo variar, ainda, “de acordo com sua intensidade, duração, frequência e
prioridade, sendo certa a maior influência dos contatos ocorridos durante a infância, bem como com pessoas ou
grupos a que o indivíduo atribua prestígio” (OLIVEIRA, 2021, p. 121-122).
Edwin Hardin Sutherland (1883-1950), sociólogo e criminologista norte-americano criador da teoria da
associação diferencial. Fonte: LUBOTZKY, 2019.
A teoria da associação diferencial, sob influência da Escola de Chicago, fundamentou-se no pensamento do
jurista e sociólogo francês Gabriel Tarde, que sustentou teses como a influência social sobre a criminalidade e a
transmissão dos dogmas, dos sentimentos, da moral e dos costumes pela imitação (VIANA, 2017, p. 241-242). Acerca
da imitação, Tarde formulou algumas leis gerais sobre o modo como ela ocorre, estabelecendo que:
 Quanto maior a intensidade do contato entre as pessoas e sua aproximação, mais efetiva deve ser a imitação;
 Ideias e necessidades presentes nas classes mais abastadas tendem a ser imitadas pelas camadas sociais
inferiores;
 O modelo comportamental mais recente tende a se sobrepor ao mais antigo quando em conflito.

No entanto, a teoria de Sutherland estabeleceu que o crime, em vez de ocorrer pela mera imitação passiva de
impulsos delitivos, necessita de um processo de comunicação pessoal para que seja aprendido, sendo irrelevante a
atuação das esferas impessoais (como o crescimento urbano e a maior comunicabilidade entre os indivíduos), nesse
processo, para que haja difusão mais ágil e fácil da criminalidade (VIANA, 2017, p. 243).
Sumariva (2017, p. 71) pontua as possíveis causas da associação diferencial, como a desorganização
social (expressão substituída por Sutherland, em 1949, por organização social diferenciada, em respeito à diversidade
cultural) e o conflito cultural entre grupos diversos, situação em que a cultura criminosa pode prevalecer caso os
fatores favoráveis à violação das normas sejam mais influentes.
Como a teoria da associação diferencial reestrutura a visão da criminalidade vinculada apenas à pobreza,
incluindo também indivíduos integrantes das classes sociais mais elevadas, Sutherland concebeu, no final da década
de 1930, os crimes de colarinho branco (white-collar crimes), definindo como tal os delitos “perpetrados por pessoas
respeitáveis e de elevado status socioeconômico no curso de seu trabalho, mediante a violação da confiança e das
leis reguladoras de suas atividades profissionais, gerando dano à sociedade” (OLIVEIRA, 2021, p. 122). Tais crimes
requerem conhecimento e habilidades especializados, bem como certa inclinação para tirar proveito de
oportunidades para a prática de condutas desviantes, o que deu ensejo ao surgimento do Direito Penal Econômico
para lidar, por exemplo, com o crime de lavagem de dinheiro.

TEORIA DAS SUBCULTURAS DELINQUENTES


A obra Delinquent Boys (1955), de Albert Kircidel Cohen, foi a precursora da teoria das subculturas
delinquentes, apregoando que o crime seria produto de subculturas (ou seja, da cultura dentro de uma outra cultura,
reveladora de sentimentos, valores, filosofia de vida e regras próprias de determinado subgrupo social) que
coexistem com a cultura dominante em certa sociedade e se contrapõem à regra estabelecida por ela. Quando esses
subgrupos criam limites pela violência, tem-se a subcultura da delinquência.
Segundo Sumariva (2017, p. 72), essa teoria apresenta os seguintes pressupostos:
 A sociedade comporta uma pluralidade de culturas dentro de si;
 A conduta desviada é abrangida pela lei;
 Os comportamentos regular e irregular apresentam uma semelhança estrutural na origem.

Ademais, são fatores que caracterizam essa teoria (SUMARIVA, 2017, p. 71):
 Não utilitarismo da ação (ausência de motivação racional em boa parte dos crimes praticados);
 Malícia da conduta (prazer em ver o outro prejudicado);
 Negativismo da conduta (oposição aos padrões sociais predominantes.

Albert K. Cohen (1918-2014), sociólogo e criminologista norte-americano que agrupou os pontos de vistas de
Sutherland e Merton. Fonte: Wikimedia Commons. Acesso em: 08/03/2021.
Diferente da teoria ecológica, em que o delito resulta da desorganização social ou da ausência de valores, a
teoria das subculturas delinquentes entende que o crime é, na verdade, produto de um sistema subcultural de
normas e valores, de sorte que enquanto a regularidade e a adequação de uma conduta ao direito é definida
segundo o sistema oficial de normas e valores, a irregularidade é dada por sistemas subculturais, como os hooligans,
os skinheads etc. Nessas subculturas, as regras, geralmente destoantes das leis estatais, são impostas
pela violência em locais onde o poder de polícia do Estado, muitas vezes, não consegue chegar.
Essa teoria surgiu nos Estados Unidos pós-Segunda Guerra Mundial, com base patriarcal e valores culturais
fundados no protestantismo, o que deu ensejo a um padrão de valores pautados na ética do sucesso, inacessível,
contudo, a uma grande parcela da população. Portanto, foi uma das causas dos conflitos sociais do período (como a
luta por direitos civis durante os anos 1960), com o consequente surgimento de subculturas como modo de reação
das minorias desfavorecidas a uma estrutura social de acentuada competitividade e escassas possibilidades, reunindo
indivíduos com as mesmas dificuldades para o desenvolvimento de valores e regras próprias que fugiam do padrão
estabelecido para o convívio em sociedade, como é o caso das gangues de delinquência juvenil localizadas em
periferias das grandes cidades (CALHAU, 2009b, p. 79).

O desenvolvimento da psicologia criminal e as influências da psicanálise


A criminologia se vale de saberes científicos multidisciplinares visando dar conta de uma análise que
demanda um olhar consideravelmente abrangente para compreender de modo mais completo possível as
repercussões que a criminalidade pode implicar. Desse modo, insere-se a relação entre psicologia, psicanálise e
criminologia. A psicologia criminal afigura-se como um ramo da psicologia jurídica, inserida na psicopatologia
criminal/forense, campo da Medicina Legal, tendo por objeto de estudo a personalidade ou condições psíquicas do
delinquente, a origem e processamento do delito, bem como os fatores que possam influenciar essa personalidade,
de índole biológica, mesológica (relacionada ao meio ambiente) ou social. Nesse sentido, Molina (2002, p. 253)
assevera que “corresponde à Psicologia o estudo da estrutura, gênese e desenvolvimento da conduta criminal”.
A criminologia se vale ainda das teorias psicanalíticas, analisando os sintomas sociais contemporâneos com
vistas à redução dos danos e sofrimento provocados por violências públicas/institucionais ou
privadas/interindividuais (CARVALHO, 2008, p. 109).

PSICOLOGIA CRIMINAL
A psicologia criminal tem um viés microcriminológico voltado à análise clínica do delinquente e de pequenos
grupos, investigando sua personalidade, história e dinâmica de seu comportamento criminoso, com o intuito de
fornecer tanto um diagnóstico (estado atual) quanto um prognóstico (possíveis desdobramentos futuros) do
delinquente para propor possíveis estratégias de intervenção, como prevenção da reincidência, reinserção social,
contenção ou superação de possíveis tendências criminosas etc.
São temas da psicologia criminal: a violência em suas várias formas, o depoimento de testemunhas, a
aplicação de testes psicológicos a delinquentes (aferição de tipo psicológico e grau de periculosidade), os estudos
psicossociais de carreiras criminais, as entrevistas psicológicas etc. Aliás, não há, para Bonger (1943 apud LIENE, 2008,
p. 174), uma tipologia psicológica específica do delinquente, de sorte que é possível encontrar entre eles todos os
tipos humanos possíveis; o que diferencia o criminoso das demais pessoas, contudo, seria uma deficiência moral
associada a uma exagerada tendência materialista.
Mira Y Lopez (2008 apud LIENE, 2008, p. 175-180), ao tentar compreender como as pessoas reagem em
situações de conflito, elencou fatores responsáveis pela reação de uma pessoa, classificando-os em herdados
(constituição corporal, temperamento e inteligência), adquiridos (prévia experiência de situações análogas,
constelação, situação externa atual, tipo médio de reação social e modo de percepção da reação) e misto (caráter).
Para Cohen (1996, p. 10 apud LIENE, 2008, p.179), contudo, “melhor do que procurar rotular ou classificar ‘tipos
criminosos’ seria procurar estabelecer possíveis relações entre uma condição humana, em um determinado contexto,
com a prática de ilicitudes”. Logo, em vez de traçar um perfil criminoso, a psicologia criminal investiga “uma série de
variáveis, circunstâncias e determinados contextos que levam as pessoas ao cometimento de um delito” (LIENE, 2008,
p. 180), pois esse é um fenômeno multifatorial.
No Brasil, verifica-se, de acordo com a Lei de Execução Penal (Lei nº 7.210/1984), que a atuação do psicólogo
no sistema prisional se concentra na realização da avaliação psicológica; na realização do exame criminológico de
entrada (verifica a relação entre as caraterísticas de personalidade e o crime cometido para individualização da pena
e acompanhamento psicológico do preso) e para fins de progressão de regime ou concessão de benefícios (art. 112)
feito no âmbito do Centro de Observação Criminológica (art. 96); do exame de personalidade (art. 9) e de parecer (art.
6) para a Comissão Técnica de Classificação (arts. 6 e 7) nas unidades prisionais. Embora o exame criminológico não
seja obrigatório, quase sempre é requisitado na prática, além de poder ser determinado para subsidiar decisão sobre
progressão de regime do cumprimento de pena de crime hediondo ou equiparado (Súmula vinculante nº 26, STF),
também deve ser admitido pelas peculiaridades do caso, desde que em decisão motivada (Súmula nº 439, STJ).
PSICANÁLISE E SUAS INFLUÊNCIAS NA CRIMINOLOGIA
O desenvolvimento da psicanálise, na década de 1890, por Sigmund Freud (1856-1939), deu-se no mesmo
momento da emergência da criminologia científica da Escola Positiva, merecendo destaque a contemporaneidade
das obras O homem delinquente (1876) e A interpretação dos sonhos (1900). Entre as décadas de 1920 e 1930, as
teorias psicanalíticas freudianas sobre a neurose começaram a dar ensejo a uma criminologia psicanalítica. Jacques
Lacan (1901-1981), por sua vez, tratou diretamente da relação da psicanálise com a criminologia, evidenciando “a
função da lei em sua interação com a subjetividade humana e a relação dialética da lei com o crime, e rechaçou a
teoria do delinquente nato (Ferri e Lombroso) e a concepção da categoria de delito natural (Garofalo)” (OLIVEIRA,
2021, p. 160). Assim, a subjetividade do criminoso e suas particularidades psicológicas se tornaram objeto da
criminologia (CALHAU, 2009a, p. 63-65).
Segundo Dias e Andrade (1997, p.191), a criminologia psicanalítica tem princípios que fundamentam uma
teoria geral do crime, pois traz a ideia de que:
 O homem é naturalmente antissocial;
 O crime resulta da domesticação falha de um animal selvagem;
 A adoção de um comportamento desviante ou não depende boa parte da infância, fase de conformação da
personalidade.
Para as teorias psicanalíticas, ocorre o delito quando há uma perda de caráter inibitório do superego
(consciência) e do ego (solicitações de ordem moral e social) que passam a se submeter às exigências do ID
(impulsividade e inconsciente guiados pelo princípio do prazer). Assim, “Freud sustenta que todas as pessoas seriam
capazes de praticar um crime, reconhecendo a influência de perturbações nos processos de identificação e formação
da consciência durante a primeira infância” (OLIVEIRA, 2021, p. 161). Isso aproxima as noções de homem
honesto/normal e criminoso/anormal, já que a estrutura psicológica deste corresponde a do cidadão normal que
respeita as leis, com a diferença de que seu desenvolvimento ocorre a partir de um processo de socialização balizado
em modos de vida desviantes. A delinquência juvenil e a habitual seriam exemplos de manifestação desses
criminosos normais.
Também há a criminalidade neuroticamente condicionada, havendo casos de delito-sintoma/delito-obsessão
(cleptomania, piromania, pseudomania); crime provocado por mecanismos patológicos de sofrimento provocado
(processo neurótico) ou imaginado (processo psicótico); crime legitimado por racionalizações; e crime em
consequência do sentimento de culpa proveniente de desejos proibidos, conhecido como teoria freudiana dos
instintos (a realização da conduta desviante permite que haja uma identificação da angústia do sujeito a algo
concreto, representando a punição um verdadeiro alívio). Freud pontuava ainda que mesmo os crimes negligentes
são motivados pelo inconsciente.
Frisa-se, por fim, que as teorias psicanalíticas sobre a criminalidade se apresentam em duas vertentes:
 As que explicam o crime como um ato individual (Freud, Alfred Adler, Carl Jung, Erich Fromm, Jean Bergeret,
Jacques Lacan);
 As que identificam na sociedade a origem da produção do delito e da pena, as chamadas teorias psicanalíticas da
sociedade punitiva (Freud, Theodor Reik, Franz Alexander, Hugo Stab, Paul Reiwald, Edward Naegeli, Helmut
Ostermeyer).

Unidade 2 - Aspectos da criminologia crítica


A virada criminológica
A investigação sobre a virada criminológica constitui um aspecto fundamental do contexto da disciplina
de criminologia e abordagem sociopsicológica da violência e do crime, pois está relacionada à mudança
do paradigma etiológico, da criminologia positivista, para o paradigma da reação social.
Diante disso, em um primeiro momento, será realizada uma abordagem sobre os principais aspectos
referentes ao paradigma etiológico para, em seguida, apresentar a sua transição para o paradigma da reação social.
No que concerne ao paradigma etiológico, destacam-se duas matrizes fundamentais: a antropologia criminal de
Cesare Lombroso e a sociologia criminal de Ferri.
A criminologia (por isso mesmo positivista) é definida como uma ciência causal-explicativa da criminalidade;
ou seja, que tendo por objeto a criminalidade concebida como um fenômeno natural, causalmente determinado,
assume a tarefa de explicar as suas causas segundo o método científico ou experimental e o auxílio das estatísticas
criminais oficiais e de prever os remédios para combate-la. Ela indaga, fundamentalmente, o que o homem
(criminoso) faz e por que o faz (ANDRADE, 2003, p. 35).
Portanto, de acordo com a teoria positivista, “a criminalidade é um meio natural de comportamentos e indivíduos
que os distinguem de todos os outros comportamentos e de todos os outros indivíduos” (ANDRADE, 2003, p. 35).
No contexto da teoria positivista, inicialmente, destacou-se Cesare Lombroso, “que sustenta, inicialmente, a
tese do criminoso nato: a causa do crime é identificada no próprio criminoso. Partindo do determinismo biológico
(anatômico-fisiológico) e psíquico do crime, valendo-se do método de investigação e análise próprio das ciências
naturais” (ANDRADE, 2003, p. 35).

Lombroso destacou-se, à época, no cenário do paradigma etiológico, sustentando a sua teoria a partir de
uma pesquisa realizada em hospitais psiquiátricos e prisões, na Itália, pela qual buscou identificar nos criminosos
“anomalias, sobretudo, anatômicas e fisiológicas vistas como constantes naturalísticas que denunciavam, a seu ver, o
tipo antropológico delinquente, uma espécie do gênero humano, predestinada, por seu tipo, a cometer crimes”
(ANDRADE, 2003, p. 35-36).
Além disso, no contexto do paradigma etiológico, destacou-se Ferri, que identificou “uma tríplice série de
causas ligadas à etiologia do crime: individuais (orgânicas e psíquicas), físicas (ambiente telúrico) e sociais (ambiente
social) e, com elas, ampliou a originária tipificação lombrosiana da criminalidade” (ANDRADE, 2003, p. 36).

Dessa forma, no que concerne ao entendimento de Ferri, no contexto do positivismo, destaca-se que:
A tese fundamental de que ser criminoso constitui uma propriedade da pessoa que a distingue por completo
dos indivíduos normais. Ele apresenta estigmas determinantes da criminalidade. Estabelece-se desta forma uma
divisão aparentemente “científica” entre o (sub)mundo da criminalidade, equiparada à marginalidade e composta
por uma “minoria” de sujeitos potencialmente perigosos e anormais (o “mal”), e o mundo decente, da normalidade,
representado pela maioria na sociedade (o “bem”) (ANDRADE, 2003, p. 37).
A partir desta tese sobre o bem e o mal, a pena privativa de liberdade é compreendida como um mecanismo
de defesa da sociedade contra os criminosos, que representam o mal.
Dito isso, a virada criminológica é caracterizada pela mudança do paradigma etiológico, representado
fundamentalmente pelas teorias de Lombroso e Ferri, para o paradigma da reação social, conforme demonstra o
Diagrama 3:
Teoria do etiquetamento
O estudo da teoria do etiquetamento, também conhecida como labeling approach theory, é fundamental no
contexto da disciplina de criminologia e abordagem sociopsicológica da violência e do crime, pois é um tema
intimamente relacionado à criminologia crítica e ao paradigma da reação social, fornecendo diversos contornos sobre
a criminalidade.
Tendo em vista a íntima relação existente entre a teoria do etiquetamento e a criminalidade, em um primeiro
momento, antes de iniciar a abordagem sobre a teoria do etiquetamento propriamente dita, vale destacar algumas
premissas fundamentais em torno da criminalidade.
Embora a noção de criminalidade esteja relacionada à conduta definida como crime, não está apenas
relacionada à legislação criminal, pois envolve aspectos sociológicos muito mais amplos. Neste sentido, destaca-se
que o status de criminoso ou delinquente é atribuído não somente em razão da prática de uma conduta definida
como crime, mas também a partir do etiquetamento de determinados sujeitos que cometem delitos. Nesse contexto,
a criminalidade é definida a partir de um duplo processo:
Um status atribuído a determinados indivíduos mediante um duplo processo: a “definição” legal de crime,
que atribui à conduta o caráter criminal, e a “seleção” que etiqueta e estigmatiza um autor como criminoso entre
todos aqueles que praticam tais condutas (ANDRADE, 2003, p. 41).
A partir disso, é possível perceber que determinados sujeitos que cometem infrações penais não são
compreendidos como criminosos ou delinquentes, enquanto outros, em razão de diversos fatores, dentre os quais se
destaca a pobreza e a exclusão social, são taxados como criminosos ou delinquentes.
Por sua vez, as instâncias de controle social, ou seja, a polícia, os juízes e as instituições
penitenciárias contribuem para a criação de estigmas conferidos a determinados sujeitos que manifestam condutas
criminosas. Isto explica o fato de que duas pessoas podem praticar o mesmo fato delituoso, porém apenas a
considerada desviante ou delinquente ser alcançada pelas instâncias de controle social (BARATTA, 2002, p. 86).

Por outro lado, além das instâncias de controle social, o senso comum também desempenha papel
fundamental no que concerne à criação de estigmas a determinados comportamentos, ou seja, etiquetando
determinados sujeitos que praticam determinadas condutas.
Portanto há uma grande influência das instâncias oficiais – inclusive aquelas que elaboram as normas - na
criação de um estigma de “delinquente”, criminoso, a partir do momento em que, de duas pessoas com o mesmo
comportamento, apenas uma delas é atingida. Esse estigma é transferido para o senso comum, e vice-e-versa, já que
as instâncias são formadas por pessoas (CUSTÓDIO; KERN, 2020, p. 310).
Em meados do século XX, surgiu a teoria do etiquetamento, também conhecida como labeling approach
theory, teoria da reação social ou paradigma da reação social. “Diferentemente das teorias criminológicas anteriores,
a teoria do etiquetamento deixou em segundo plano as questões biológicas como motivo da conduta desviante”
(CUSTÓDIO; KERN, 2020, p. 309).
Por sua vez, a teoria do etiquetamento está relacionada a duas correntes: o intervencionismo simbólico e a
etnometodologia. No que concerne à distinção de ambas as correntes, observa-se que a
corrente da etnometodologia compreende a sociedade como o produto de uma construção, na qual os indivíduos
possuem posição de destaque em sua tipificação e definição. Já a corrente do intervencionismo
simbólico compreende a realidade social a partir das diversas interações entre os indivíduos (BARATTA, 2002, p. 87).
Dessa forma, enquanto a corrente do intervencionismo simbólico origina-se da psicologia social e
da sociolinguística, a corrente do etnometodologia advém da sociologia fenomenológica, conforme demonstra o
Diagrama 6:

Portanto a teoria do etiquetamento trata-se de um grande avanço sob a perspectiva do estudo da


criminologia, pois volta o olhar para a realidade social do sujeito e de que forma a criação de estigmas interfere na
reprodução da criminalidade.
A partir da teoria do etiquetamento, é possível perceber que as desigualdades econômicas e
sociais interferem diretamente na criação de estigmas e discriminações a determinados sujeitos que cometem
infrações penais, seja pelas instâncias de controle social ou seja pelo senso comum, atribuindo um tratamento
diferenciado aos sujeitos que praticam idênticas condutas criminosas. Isso por que porque determinados sujeitos são
considerados cleptomaníacos, enquanto outros são chamados de ladrões.

O desenvolvimento da criminologia crítica


O desenvolvimento da criminologia crítica está relacionado, dentre outros elementos, à teoria do
etiquetamento, visto que decorre das inovações advindas do estudo desta teoria, a qual volta o olhar para a realidade
social do sujeito, investigando a relação entre a atribuição de estigmas aos sujeitos e a reprodução da criminalidade.
Destaca-se que um dos principais precursores no campo do desenvolvimento da criminologia crítica foi o sociólogo,
filósofo e jurista Alessandro Baratta, razão pela qual constitui um nome de destaque nas pesquisas que envolvem a
criminologia crítica.

CURIOSIDADE
Alessandro Baratta nasceu 1933 e faleceu 2002. Ele se destacou como um dos principais precursores da
criminologia crítica, além de ter se destacado no âmbito da teoria abolicionista e na teoria do garantismo penal.
Baratta teve papel de destaque na fundação e desenvolvimento da Escola de Bolonha de Direito Penal e Criminologia,
na Itália, dentre outras posições de destaque que ocupou durante a sua trajetória.
Em linhas gerais, o desenvolvimento da criminologia crítica constitui uma crítica ao Direito Penal e
compreende o rompimento com o paradigma anteriormente instituído, o da criminologia positivista.
A política criminal correcionalista do positivismo criminológico, estruturada nas ideias de consenso social,
patologia do criminoso, objetividade das estatísticas e gravidade do delito comum, ascende ao enfoque macro
proposto pela criminologia crítica, no qual a reação social e os processos de seleção, etiquetamento e estigmatização
demonstram nova forma da violência: a violência estatal das agências penais (CARVALHO, 2016, p. 154).

A criminologia crítica, ao representar uma crítica ao Direito Penal, tece, especialmente, críticas ao sistema
penitenciário, o qual julga incapaz de promover a ressocialização do preso.

CITANDO
“Os altos índices de reincidência têm sido, historicamente, invocados como um dos fatores principais da
comprovação do efetivo fracasso da pena privativa de liberdade [...]. As estatísticas de diferentes países, dos mais
variados parâmetros políticos, econômicos e culturais, são pouco animadoras e, embora os países latino-americanos
não apresentem índices estatísticos confiáveis (quando não, existentes), é este um dos fatores que dificultam a
realização de uma verdadeira política criminal” (BITENCOURT, 2009, p. 111).

A partir do Diagrama 8, podemos observar que a criminologia crítica se volta, fundamentalmente, à pena
privativa de liberdade, ao encarceramento e ao sistema penitenciário, compreendendo que tais elementos
são incompatíveis com a ressocialização do preso ou apenado.
Nesse contexto, a criminologia crítica sugere que a pena privativa de liberdade seja aperfeiçoada e, sempre
que possível, que sua aplicação seja substituída por outra modalidade de pena, como, por exemplo, as penas
restritivas de direitos.
Dessa forma, a criminologia crítica compreende a pena privativa de liberdade como um mal necessário, mas por
outro lado, recomenda que a mesma seja aplicada apenas em casos específicos, quando considerada indispensável.
Atualmente, domina a convicção de que o encarceramento, a ser para os denominados presos residuais, é
uma injustiça flagrante, sobretudo porque, entre eles, não se incluem os agentes da criminalidade não convencional
(os criminosos de colarinho branco). O elenco de penas do século passado já não satisfaz [...]. Todas as reformas de
nossos dias deixam patente o descrédito na grande esperança depositada na pena de prisão, como forma quase que
exclusiva de controle social formalizado (BITENCOURT, 2009, p. 107).
Para a criminologia crítica, a pena privativa de liberdade, sob a perspectiva do capitalismo, é um instrumento
a partir do qual ocorre a reprodução das desigualdades sociais e da marginalidade. Em razão disso, “a criminologia
crítica não admite a possibilidade de que se possa conseguir e ressocialização do delinquente em uma sociedade
capitalista” (BITENCOURT, 2009, p. 121).

Psiquiatria criminal
A criminologia, como um ramo que estuda fundamentalmente sobre a violência e sobre o crime, estabelece
relações com diversos campos de estudos, como a sociologia, a filosofia, a antropologia e a psiquiatria.
Desse modo, a investigação sobre a psiquiatria criminal, no contexto da disciplina de Criminologia e Abordagem
Sociopsicológica da Violência e do Crime, é fundamental, pois busca analisar a relação entre a psiquiatria e a
reprodução da criminalidade.

CONTEXTUALIZANDO
“Atualmente, não existe consenso na literatura médica sobre as relações entre doença mental e criminalidade,
do ponto de vista do valor etiológico da primeira para predizer a segunda. No entanto, isso não parece ter sido um
impedimento para que o campo jurídico-penal tenha continuado a instituir para a medicina psiquiátrica o caráter de
único saber com competência técnica e amparo legal para determinar a periculosidade criminal de indivíduos
diagnosticados como doentes ou portadores de transtornos mentais” (MITJAVILA; MATHES, 2012, p. 1378).
Sabe-se que, historicamente, a “loucura” foi atribuída a diversas situações sociais, indistintamente, em razão
da insuficiência de estudos científicos sobre determinadas matérias, principalmente na esfera da psiquiatria.
Do início até quase o fim da primeira metade do século XIX, a justiça penal europeia restringia-se a perguntar
ao perito psiquiatra se o indivíduo que cometeu um crime ou um delito estava em estado de demência – ou se era
portador de doença mental – no momento de seu ato. Apenas isso. Nada mais, nem menos. Da metade deste mesmo
século em diante, tal pergunta foi se estendendo, se ampliando a uma interrogação mais geral, que estava para além
da objetivação sobre a existência ou não de alienação mental em seus sintomas delirantes e alucinatórios mais
claramente identificáveis. A pergunta se estendeu essencialmente ao interesse de saber sobre um potencial em
virtualidade no indivíduo. Desse novo momento em diante – quiçá, ainda hoje – não ficou muito claro até que ponto
o criminoso deveria ser visto como doente ou como puro desviante moral das normas sociais (RIBEIRO, 2013, p. 16).
No campo da criminologia não é diferente, pois diversas vezes a “loucura” foi atribuída aos sujeitos e utilizada
como fundamento para justificar a prática de determinados fatos delituosos, em especial aqueles que geram maior
comoção social. Dessa forma, a "prova psiquiátrica da loucura" adquiriu, durante os primeiros sessenta anos do
século XIX, três formas: a droga, a hipnose e o interrogatório (BASSO, 2014, p. 105).
Não se pode negar que “loucura” é um termo carregado de discriminações e preconceitos a partir do qual
são estabelecidas múltiplas vertentes no sentido de inferiorizar e estigmatizar o sujeito que possui determinada
modalidade de transtorno mental ou doença mental.
Em razão disso, pontua-se que ao longo da história o termo “loucura” deixou de ser utilizado, dando lugar ao
surgimento de denominações como transtorno mental ou doença mental.
A abordagem médica das relações entre loucura e criminalidade parece ter se estabelecido em alguns países
europeus nas primeiras décadas do século XIX, com a presença nos tribunais de médicos opinando sobre
determinados crimes e sua vinculação com doenças mentais. Questionava-se, então, se determinado crime poderia
ser um sinal de doença. Diante desse tipo de questionamento, emerge o conceito de monomania para se referir a
quem cometeu um crime sem motivo aparente; esse crime seria o único sintoma de uma doença monossintomática.
Tal preocupação dos psiquiatras com o crime e sua relação com a doença mental seria baseada na tentativa
de responder se todo louco é um potencial criminoso (BASSO, 2014, p. 106).
Em razão disso, a partir do século XX, a justiça penal ampliou o olhar em relação à psiquiatria criminal,
preocupando-se não somente com a possibilidade do agente delituoso possuir ou não doença ou transtorno mental,
mas também sobre a periculosidade de tal indivíduo.
Dito isso, é possível perceber que a psiquiatria criminal reflete a relação entre a doença mental e a
periculosidade do agente delituoso, conforme demonstra o Diagrama 9:
Portanto, a partir de uma perspectiva mais atualizada da psiquiatria criminal, “a noção de ‘transtorno mental’, e não
mais a de loucura, como acontecia nos primórdios e primeiros desenvolvimentos da psiquiatria, é o principal
fundamento contemporâneo da medicalização do crime e da periculosidade criminal” (MITJAVILA; MATHES, 2012, p.
1384).

Por outro lado, pontua-se que, “na ótica da medicina psiquiátrica, a noção de periculosidade criminal não é
utilizada para prever qualquer tipo de crime (MITJAVILA; MATHES, 2012, p. 1387).
Destaca-se, ainda, no contexto da psiquiatria criminal, a figura dos hospícios ou manicômios como
estabelecimentos destinados aos considerados “loucos”. Neste contexto, acreditava-se que a melhor alternativa ao
tratamento psiquiátrico de tais indivíduos era o isolamento social.
Contudo, por volta do século XX, esses estabelecimentos passam a ser denominados como hospitais
psiquiátricos. Tal modificação é visualizada com a reforma penal de 1984, na qual o manicômio judiciário passou a ser
denominado de Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico, conforme observa-se no art. 99 da Lei de Execuções
Criminais e nos arts. 96 e 97 do Código Penal.
O estudo sobre tais aspectos se torna relevante porque o ordenamento jurídico brasileiro prevê duas figuras,
quais sejam a pena e a medida de segurança. “Isso obedece ao fato de a pena ser aplicada àqueles que são
considerados imputáveis – a quem se pode atribuir culpa – e a medida de segurança é exclusivamente direcionada
aos inimputáveis e para os semi-responsáveis” (BASSO, 2014, p. 122).

CITANDO
“Consciente da iniquidade e da disfuncionalidade do chamado sistema ‘duplo binário’, a Reforma Penal de
1984 adotou, em toda a sua extensão, o sistema vicariante, eliminando definitivamente a aplicação dupla de pena e
medida de segurança para os imputáveis e semi-imputáveis. A aplicação conjunta de pena e medida de segurança
lesa o princípio do ne bis in iden, pois, por mais que se diga que o fundamento e os fins de uma e de outra são
distintos, na realidade, é o mesmo indivíduo que suporta as duas consequências pelo mesmo fato praticado”
(BITENCOURT, 2009, p. 744).
No que concerne às distinções existentes entre a pena e a medida de segurança, no ordenamento jurídico
brasileiro, destaca-se:
a) As penas têm caráter retributivo-preventivo; as medidas de segurança têm natureza eminentemente preventiva.
b) O fundamento da aplicação da pena é a culpabilidade; a medida de segurança fundamenta-se exclusivamente na
periculosidade.
c) As penas são determinadas; as medidas de segurança são por tempo indeterminado. Só findam quando cessar a
periculosidade do agente.
d) As penas são aplicáveis aos inimputáveis e semi-inimputáveis; as medidas de segurança são aplicáveis aos
inimputáveis e, excepcionalmente, aos semi-inimputáveis, quando estes necessitam de especial tratamento curativo
(BITENCOURT, 2009, p. 745).

Antipsiquiatria e movimento antimanicomial


O estudo sobre a antipsiquiatria e o movimento antimanicomial consiste, em linhas gerais, na articulação e
no desenvolvimento de críticas relacionadas à psiquiatria tradicional, especialmente no que concerne ao tratamento
manicomial, direcionado às pessoas consideradas “loucas”.
Sabe-se que, durante muito tempo, a psiquiatria tradicional considerou a internação nos manicômios ou
hospícios como medida necessária e eficaz ao tratamento da “loucura”.
Ocorre que a internação nos manicômios violava gravemente os direitos humanos e fundamentais dos
indivíduos, pois os retirava do círculo social e da convivência familiar, direcionando-os a ambientes de exclusão e
sofrimento.
Os manicômios caracterizavam-se pelo tratamento cruel e degradante destinado aos internados, pois
tratamentos como o uso de elevadas doses de medicação, “camisas de força” e choques elétricos eram práticas
constantes nesses estabelecimentos.

A esquizofrenia destacou-se como uma das principais causas de internações em manicômios. Neste contexto,
vale apresentar, brevemente, os principais comportamentos que dizem respeito à esquizofrenia, de acordo com a
psiquiatria:
Tradicionalmente, a esquizofrenia é reconhecida a partir dos seguintes comportamentos e sentimentos
expressos pelo indivíduo doente: distorção da realidade compartilhada, presença de alucinações e delírios, distúrbio
do pensamento e expressão inadequada dos afetos. Ainda não há comprovação científica de que a doença seja
hereditária; porém, estudos comprovam que a chance da doença manifestar-se em um indivíduo sobe de 1% –
incidência sobre a população em geral – para 10% quando há um caso de esquizofrenia na família (SANTOS, 2006, p.
119).

Dessa forma, a antipsiquiatria é um movimento que surge no século XX, no qual “ [...] uma parcela de profissionais da
área de saúde mental no Brasil começou sua luta, na década de 80, para derrubar – em termos políticos e éticos – as
práticas desumanas exercidas no interior dos muros dos manicômios, hospícios e sanatórios (SANTOS, 2006, p. 122).

Destaca-se que o desenvolvimento da antipsiquiatria, no Brasil, tem raízes na psiquiatria democrática da Itália,
representada por Franco Basaglia, o qual “[...] defendia a prática da inserção e da solidariedade, onde o louco teria
voz e vez, a partir de sua própria subjetividade. Por inserção, entende-se o retorno à possibilidade de convívio social e
de produtividade, responsáveis pelo sentimento de autonomia” (SANTOS, 2006, p. 123).
O mérito da crítica de Basaglia ao sistema psiquiátrico tradicional está no fato dele considerar a loucura complexa
demais para ser uma exclusividade do psiquiatra. Com isso, ele retira o poder que o psiquiatra tinha sobre o louco e
institui uma rede interdisciplinar de assistência mental não tutelar, com o objetivo de promover a conscientização do
louco de seu lugar de excluído e, ao mesmo tempo, propiciar-lhe novas perspectivas de inserção na própria
comunidade em que o doente vive. Trata-se, portanto, de bem mais que uma modesta humanização da intervenção
psiquiátrica (SANTOS, 2006, p. 123).
No que concerne ao movimento antimanicomial, observa-se que “a busca por uma radical transformação nas
relações sociedade/louco/loucura é desenhada pelo MLA com base em várias dimensões do processo da Reforma
Psiquiátrica” (LÜCHMANN; RODRIGUES, 2007, p. 403).
O movimento antimanicomial é caracterizado como um movimento social que surgiu na década de 80 e “constitui-se
como um importante movimento social na sociedade brasileira, na medida em que se organiza e se articula tendo em
vista transformar as condições, relações e representações acerca da loucura em nossa sociedade” (LÜCHMANN;
RODRIGUES, 2007, p. 406, grifo nosso).

Dessa forma, a articulação e o desenvolvimento do movimento antimanicomial têm papel fundamental no


crescimento da antipsiquiatria no cenário brasileiro.
Dentre as lutas do movimento, destaca-se a proteção dos direitos humanos e fundamentais aos doentes mentais a
partir de um tratamento humanitário, pautado na solidariedade, na cidadania, na dignidade da pessoa humana e no
bem-estar social.
O movimento antimanicomial teve papel estratégico no avanço da psiquiatria criminal. Por outro lado, um dos
principais desafios desse movimento diz respeito ao financiamento, o qual “[...] requer a discussão de como captar
recursos para campanhas, encontros e realização de projetos, entre outros. E, por último, a necessidade de
estabelecer um processo de avaliação da ação coletiva, já que os rumos do movimento necessitam ser mais
discutidos entre si” (LÜCHMANN; RODRIGUES, 2007, p. 406).

SINTETIZANDO
Observamos que a virada criminológica é caracterizada pela mudança do paradigma etiológico para o paradigma da
reação social. Por sua vez, o paradigma etiológico diz respeito à criminologia positivista, caracterizada pela
antropologia criminal de Lombroso e pela sociologia criminal de Ferri. Lombroso sustentou a tese do criminoso nato,
identificando a causa do crime no próprio criminoso, por meio do determinismo biológico (anatômico-fisiológico) e
psíquico do crime. A partir de pesquisa realizada nos hospitais psiquiátricos e prisões, na Itália, Lombroso teria
identificado anomalias anatômicas e fisiológicas que, segundo ele, demonstravam o tipo antropológico de
delinquente. Ferri, por sua vez, ao ampliar a tipificação lombrosiana de criminalidade, sustentou a sua teoria a partir
da identificação de uma tríplice série de causas relacionadas à etiologia do crime, sendo elas: as causas individuais
(orgânicas e psíquicas); as causas físicas (ambiente telúrico) e, por fim, as causas sociais (ambiente social).
Vimos também que a teoria do etiquetamento, também denominada labeling approach theory, teoria da reação
social ou paradigma da reação social, está relacionada a duas correntes: a corrente do intervencionismo simbólico,
originada na psicologia social e na sociolinguística, e a corrente da etnometodologia, originada na sociologia
fenomenológica. A teoria do etiquetamento surgiu em meados do século XX e, segundo ela, duas pessoas podem
cometer idêntico fato delituoso e apenas em uma delas recair o status de criminoso ou delinquente. Isto ocorre
porque diversos fatores refletem nesse cenário, especialmente a pobreza e a exclusão social, de modo que as
próprias instâncias de controle social contribuem para a reprodução de tais estigmas a determinados sujeitos.
Além disso, observamos que a criminologia crítica, representada por Alessandro Baratta, um de seus principais
precursores, desenvolveu-se no sentido de tecer críticas ao Direito Penal e, de modo especial, ao sistema
penitenciário. Segundo a criminologia crítica, a pena privativa de liberdade e o encarceramento são incompatíveis
com a ressocialização do preso ou apenado. Em razão disso, a pena privativa de liberdade, para a criminologia crítica,
deve ser aplicada apenas em casos específicos, ou seja, quando não for possível substituí-la por outra modalidade de
penalização, uma vez que a pena privativa de liberdade reproduz as desigualdades sociais e a marginalidade.
Observamos que a psiquiatria criminal busca relacionar a psiquiatria com a criminalidade. Desse modo, os estudos da
psiquiatria criminal partem da concepção de “loucura”, característica atribuída, historicamente, para justificar a
prática de determinados fatos delituosos, especialmente aqueles com maior comoção social. Por outro lado, não se
pode negar que o termo “loucura” traz consigo a ideia de discriminação e preconceito, acarretando a estigmatização
e a inferiorização dos sujeitos. Dessa forma, a partir do século XX, observa-se que o termo “loucura” passou a ser
substituído por transtorno mental ou doença mental. Na mesma época, época, a psiquiatria criminal também passou
a preocupar-se com a periculosidade de tais sujeitos. No que concerne à psiquiatria criminal, destaca-se, também, a
existência dos chamados manicômios ou hospícios, estabelecimentos nos quais ocorriam as internações dos sujeitos
considerados “loucos” que, em razão disso, eram retirados do convívio familiar e social. Com a reforma penal de 1984,
tais estabelecimentos passaram a ser denominados como hospitais de custódia e tratamento psiquiátrico.
Vimos, ainda, que o ordenamento jurídico brasileiro prevê a aplicação de pena para os sujeitos imputáveis e semi-
imputáveis e a medida de segurança aos sujeitos inimputáveis e, excepcionalmente, aos semi-imputáveis, adotando o
sistema vicariante, o qual veda a aplicação conjunta de pena e medida de segurança, em face do princípio do ne bis in
iden.
Por fim, também vimos que a antipsiquiatria e o movimento antimanicomial tecem críticas em face da psiquiatria
tradicional, voltando o olhar, fundamentalmente, para os tratamentos cruéis e degradantes dos hospícios e
manicômios, caracterizados como ambientes de reprodução e legitimação de graves violações de direitos humanos e
fundamentais, nos quais a esquizofrenia destacou-se como uma das principais causas de internações. Diante disso, a
antipsiquiatria e o movimento antimanicomial surgiram no século XX, na década de 80, estabelecendo lutas e
articulações sociais em face de tais práticas desumanas.

UNIDADE 3.
Tópicos sobre a herança da criminologia crítica, pós-crítica e o defensivismo

A herança da criminologia crítica e as políticas penais alternativas


A investigação sobre a herança da criminologia crítica e as políticas penais alternativas consistem em
importantes contribuições no contexto da disciplina de Criminologia Crítica e Análise Sociopsicológica da Violência e
do Crime, pois buscam inserir ao estudo reflexões acerca das vertentes do minimalismo, do abolicionismo,
do garantismo, do feminismo, do realismo de esquerda e do realismo marginal.
Por sua vez, a criminologia crítica, ao considerar a crise no sistema penal, observa o seu “papel meramente
simbólico, ilusório para a sociedade, uma vez que passa a ideia de que o Estado está atuando e garantindo à
segurança de todos, quando na verdade não tem condições de cumprir todos os propósitos para que foi criado”
(SANTOS, 2014).

MINIMALISMO
A vertente do minimalismo entende que o sistema penal se encontra em crise de legitimidade. Em razão disso, o
minimalismo “defende a aplicação do Direito Penal e, consequentemente, das penas de prisão, em determinados
casos restritos, de forma subsidiária, como última razão (ultima ratio)” (SANTOS, 2014). Por sua vez, a Constituição da
República Federativa do Brasil de 1988 relaciona-se à vertente do minimalismo.

CONTEXTUALIZANDO
Observam-se, no contexto da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, elementos relacionados à
vertente do minimalismo, especialmente os princípios constitucionais que sustentam o Estado Democrático de
Direito, dentre os quais destacam-se o princípio da dignidade da pessoa humana; o princípio da individualização da
pena; o princípio da humanidade; o princípio da igualdade; o princípio da proporcionalidade; e o princípio do devido
processo legal.

Ao sustentar pela intervenção mínima do Direito Penal, assim como pela sua aplicação em casos específicos, a
vertente do minimalismo sustenta que, sempre que possível, sejam aplicadas ao acusado outras medidas em
substituição à pena privativa de liberdade.
[...] o minimalismo, como se pode observar, entende que o sistema punitivo deve ser mantido, no entanto só deve
ser utilizado em casos extremos, em que exista grave violação a bem jurídico de extrema relevância, ou casos de
sociopatas que ofereçam grave ameaça à segurança da sociedade. Essa corrente propugna uma intervenção mínima
do Direito Penal, sua aplicação só ocorreria em determinados casos restritos, de forma subsidiária (ultima ratio)
(SANTOS, 2014, p. 127).
Embora a vertente do minimalismo sustente pela manutenção do sistema penal, ressalta-se que
“o Direito Penal deve ser tomado como medida extrema para proteger e tutelar bens e valores fundamentais,
garantindo vida humana digna para cada um dos cidadãos e restringindo o sofrimento humano com a ampliação
máxima do direito à liberdade” (SANTOS, 2014).

ABOLICIONISMO
Assim como a vertente do minimalismo, o abolicionismo entende o sistema penal a partir de uma crise de
legitimidade. Por outro lado, se diferencia do minimalismo, pois, enquanto o minimalismo sustenta pela intervenção
mínima do Estado, o abolicionismo sustenta pela completa extinção do sistema penal punitivo.
Dito isso, destaca-se que a vertente do abolicionismo tece profundas críticas ao sistema penal punitivo, razão
pela qual é uma vertente da criminologia crítica bastante criticada.
Para a vertente, o sistema penal punitivo não impede a reprodução da criminalidade. Dessa forma, “os
abolicionistas entendem que o caráter punitivo da pena é violento e só acaba por gerar mais violência em outros
campos, principalmente nos presídios, considerados por muitos como a “escola do crime” (SANTOS, 2014).
O abolicionismo propõe a solução pacífica dos conflitos sociais, a partir da “[...] adoção do diálogo indivíduo-
indivíduo, sem a interferência do Estado, preservando a cidadania e a dignidade humana de ambas as partes: vítima e
agressor; e adequando a solução à realidade das partes envolvidas” (SANTOS, 2014).
O abolicionismo compreende que, além do sistema penal punitivo gerar a reprodução da violência e da
criminalidade, configura uma estrutura de dominação de classe, pois alcança apenas os mais pobres, perpetuando as
desigualdades sociais e econômicas. Em razão disso, o abolicionismo propõe a extinção completa do sistema punitivo.

CITANDO
“No entanto, entende-se ainda não ser possível prescindir do sistema penal com a promoção de sua abolição, uma
vez que, antes, é necessária uma reforma na estrutura da sociedade, tanto no aspecto econômico, quanto no aspecto
político. Faz-se necessária a existência de uma sociedade igualitária, sem diferenças sociais e econômicas, e a
descentralização do poder, para o sucesso do abolicionismo penal” (SANTOS, 2014).
Podemos considerar que, apesar de serem duramente criticadas,
“as soluções propostas pelo abolicionismo têm sua relevância e despertam para a necessidade de pensar novas
alternativas à resposta penal diante de situações-conflito cada vez mais frequentes nas sociedades modernas”
(SANTOS, 2014).
GARANTISMO
A vertente do garantismo é sustentada por Luigi Ferrajoli, teórico de grande relevância nesse contexto. Dessa
forma, “[...] a teoria garantista representa ao mesmo tempo o resgate e valorização das normas constituintes como
elementos fundamentais para limitar os abusos estatais rotineiros na demanda penal” (FREITAS; MANDARINO; ROSA,
2017).
Assim, “o discurso garantista tem por base o respeito à dignidade da pessoa humana e seus direitos
fundamentais, com sujeição formal e material das práticas jurídicas aos conteúdos constitucionais” (FREITAS;
MANDARINO; ROSA, 2017).
Por outro lado, alguns doutrinadores entendem que, embora a vertente do garantismo apresente “[...]
instrumentos possíveis para defesa dos acusados e para isonomia de tratamento aos sujeitos do processo, a realidade
processual indica que esse discurso é meramente retórico e limitado ao plano teórico-abstrato, com dificuldades de
se concretizar no plano prático-reformista” (FREITAS; MANDARINO; ROSA, 2017).
[...] o que se põe em xeque é se o modelo teórico abstrato proposto pelo discurso garantista consegue romper as
barreiras da mera retórica dos direitos fundamentais e se efetivar no campo pragmático. Logo, questiona-se: dentre o
catálogo de garantias possíveis de serem invocadas no processo penal, será que todos os acusados têm a real
possibilidade de efetivá-las com o amplo acesso à justiça? (FREITAS; MANDARINO; ROSA)
Uma das críticas em relação ao garantismo consiste na seletividade em relação à observância dos direitos
fundamentais no contexto do processo penal, decorrentes da dominação das classes dominantes. Dessa forma,
critica-se a “[...] idealização constitucional dos direitos humanos, sem a força e o compromisso para aplicação do
discurso garantista, mostra a interpretação normativa frágil e de alcance limitado” (FREITAS; MANDARINO; ROSA,
2017).
Sustenta-se que, na teoria, “as bases teóricas do garantismo constituem instrumentos estratégicos para
mitigar os abusos que o Estado Penal comete contra os excluídos sociais, mais especificamente para defender e bem
equacionar o constitucional Estado Democrático de Direito” (FREITAS; MANDARINO; ROSA, 2017). Por outro lado, no
contexto da prática, essa vertente é dificilmente observada.
A exclusão social aliada à insuficiência de recursos econômicos e à desigualdade racial são as principais
causas pelas quais os indivíduos que cometem infrações criminais são taxados de criminosos ou delinquentes, tendo
seus direitos humanos e fundamentais constantemente violados, já que a atribuição de estigmas relacionados à
violência e à marginalidade reflete diretamente no acesso às garantias constitucionais.
FEMINISMO
A vertente do feminismo reflete em contribuições significativas na disciplina de Criminologia e Análise
Sociopsicológica da Violência e do Crime, pois busca relacionar a figura mulher com o contexto de investigação sobre
a criminalidade. Historicamente, em relação às mulheres, “[...] é sabido que, por muitos séculos, em comum
mantiveram a docilidade, a fragilidade, a dependência, a maternidade e a vocação para a família, sendo inaceitável o
comportamento divergente destes” (MARTINS).
Por outro lado, “[...] no caso das mulheres autoras de delitos, estas ainda ocupam um espaço de oposição à
figura feminina aceita socialmente” (MARTINS, 2009). Desse modo, observa-se que, ao ser considerada criminosa ou
delinquente, a mulher autora que pratica um fato delituoso é vislumbrada a partir de uma perspectiva oposta da
ideia de mulher honesta.
Nesse contexto, a fim de contextualizar a vertente do feminismo, o Diagrama 5 ilustra a figura da mulher a
partir de três vertentes da criminologia: a criminologia clássica, a criminologia positivista e a criminologia crítica.

É possível identificar, a partir desse diagrama, que a figura da mulher é concebida de formas diferentes nos
discursos da criminologia clássica, da criminologia positivista e da criminologia crítica. Contudo, destaca-se que os
três discursos possuem um ponto em comum: situaram a mulher no campo de controle.
No contexto da criminologia clássica, que compreende que o sujeito criminoso é munido de livre-arbítrio, a
figura da mulher é visualizada a partir da prostituição degenerada moral e criminosa, cenário em que é destacada a
importância da família como instituição repressora.
Já no contexto da criminologia positivista, em que o determinismo biológico (anatômico-fisiológico) e
psíquico do crime constitui aspectos fundamentais, a figura da mulher criminosa é relacionada às características
masculinizadas, à prostituição e à mulher atávica. Esse contexto também é demarcado pela figura da criminosa-
vítima, figura relacionada à mulher honesta e à dependência do homem.
Por sua vez, no contexto da criminologia crítica, ao instituir o paradigma da reação social, analisa-se a
seletividade em relação às mulheres consideradas criminosas ou delinquentes, decorrente da estigmatização
relacionada à concepção de mulher honesta.

CITANDO
“O Código Penal Brasileiro de 1940 ainda apresenta o ideal de mulher honesta e a criminalidade decorrente
de ações contrárias as delas esperadas. Da mesma forma, a figura da criminosa masculinizada permanece viva no
imaginário popular e de alguns magistrados. Uma figura calcada pelo discurso criminológico positivista como
detentor de uma periculosidade nata, uma anormalidade sem possibilidade de tratamento, tanto quanto a figura da
prostituta” (MARTINS, 2009).
Em contrapartida, “[...] emerge junto ao discurso criminológico feminista a figura da mulher emancipada.
Aquela que não apela a um sistema penal seletivo a fim de resolver conflitos, mas que busca uma cidadania não
abstrata, uma cidadania que possa usufruir inteiramente” (MARTINS, 2009).
A ideia de mulher emancipada traduz “uma igualdade, para além do aspecto jurídico, de base social, política
e econômica, a fim de que as figuras femininas apresentadas pelas criminologias dos séculos passados não mais
legitimem exclusões e marginalizações” (MARTINS, 2009).
REALISMO DE ESQUERDA
No que concerne ao realismo de esquerda, destaca-se que, ao se opor aos movimentos político-criminais
repressistas, busca-se abarcar às suas investigações elementos como a sociedade, o Estado, o criminoso e a vítima,
priorizando as políticas criminais preventivas. O realismo de esquerda teceu críticas em face das teorias da
criminologia já existentes, considerando-as restritas (COELHO, 2012).

REALISMO MARGINAL
O realismo marginal consiste em uma importante vertente da criminologia crítica, pois relaciona o racismo
com o sistema penal, demonstrando o seu caráter seletivo em relação ao encarceramento, propondo “[...] a tarefa de
atuar na pequena parte da realidade social selecionada pelo sistema, na qual caberia, aos juristas, produzir soluções
que interrompessem o processo de seletividade” (DUARTE, 2020).
Eugenio Raúl Zaffaroni, na obra Em busca das Penas Perdidas, propôs, a partir da ótica do realismo marginal,
uma alternativa à cultura jurídica penalista. Seu diagnóstico reconhecia o impacto do colonialismo (genocídio e
racismo) do sistema penal. Disso resultariam a hipertrofia das funções policiais normalizadoras, a subsidiariedade do
encarceramento nos processos de violência institucional e a presença de práticas e discursos subterrâneos,
acobertados por uma cultura jurídica legalista e formalista incapaz de lidar com elementos empíricos da realidade do
sistema penal (DUARTE, 2020).
Criminologia pós-crítica
A criminologia pós-crítica caracteriza-se, essencialmente, pela análise de vertentes do culturalismo, pós-
modernismo e criminologia do reconhecimento, conforme demonstra o Diagrama 8.
Ressalva-se que a criminologia, como ciência, nunca teve um desenvolvimento linear. Escolas surgiram,
tiveram seu ápice e foram colocadas como menos ou mais importantes a partir do surgimento de novas formas de
pensamento. Nesse processo, algumas desapareceram, mas grande parte nunca deixou de existir ou foram
completamente suplantadas (FURQUIM, 2014).

CULTURALISMO
O culturalismo consiste em uma vertente da criminologia pós-crítica, a fim de “[...] observar as
complexidades contemporâneas, tendo como contexto as interações sociais baseadas na cultura, tal como na
subcultura que dela emana, e ainda, nos desafios de uma sociedade multicultural” (FURQUIM, 2014).
[...] esta perspectiva na criminologia analisa o crime em seu contexto cultural, procurando entender melhor por
meios de estudos de imagens, significados, valores e interações entre crime e controle, especialmente voltada às
determinadas estruturas sociais que são relacionadas às subculturas ilícitas, resultando quase sempre na
criminalização simbólica das formas culturais inferiores, a construção mediada do crime e dos temas ligados ao seu
controle, além das emoções incorporadas à coletividade, às quais moldam significados do crime (FURQUIM, 2014).
Dessa forma, o culturalismo investiga a relação entre o crime e a cultura, buscando identificar de que forma
as múltiplas culturas refletem na prática de fatos definidos como crimes, especialmente as culturas subalternas, as
quais são constantemente relacionadas à criminalidade, à violência e à marginalização.

No que diz respeito ao significado da concepção do termo cultura, destaca-se que “[...] a cultura está compreendida
na ideia das artes, ciências, religião e educação, manifestando-se em diferentes âmbitos, tais como na criação e na
fruição em uma determinada coletividade” (FURQUIM, 2014).

PÓS-MODERNISMO
O pós-modernismo é caracterizado como uma vertente da criminologia pós-crítica, a partir da qual se
expandem as concepções da criminologia crítica.
A criminologia crítica produzida no Brasil, e também na América Latina, desenvolveu-se sob grande influência
de Alessandro Baratta. A obra seminal deste autor analisa detidamente as mais diversas teorias criminológicas, e
delas retira o fundamento que deslegitima os princípios sob os quais, segundo ele, o direito penal estrutura-se (LINCK;
MAYORA, 2010).
Dessa forma, a vertente do pós-modernismo compreende o sistema penal punitivo excludente e rejeitador,
pautado no exagero e em regras estreitamente definidas para promover a segregação dos sujeitos e a reprodução das
desigualdades.
A vertente do pós-modernismo busca aprimorar as investigações da herança da criminologia crítica e as
políticas penais alternativas,como o minimalismo; o abolicionismo, o garantismo, o feminismo, o realismo de
esquerda e o realismo marginal, no que concerne à formulação de críticas em face do sistema punitivo penal,
analisando a relação entre a manutenção deste sistema com a reprodução da criminalidade e da violência, assim
como em relação à necessidade de aplicação de outras medidas em substituição à pena privativa de liberdade.

CRIMINOLOGIA DO RECONHECIMENTO E DEMAIS RENOVAÇÕES DE CRÍTICA


Relacionada à criminologia pós-crítica, a criminologia do reconhecimento pauta-se, fundamentalmente, a
partir de três aspectos: a negação do Direito Penal do Inimigo; é contra o reducionismo da criminologia crítica; e,
ainda, questiona as políticas de segregação e segurança.
Hegel caracteriza “reconhecimento” como uma forma de autorreconhecimento e de reconhecimento pelo
outro.

A herança do defensivismo e as políticas criminais punitivistas


A análise sobre a herança do defensivismo e das políticas criminais punitivistas ocorrerá a partir da
investigação sobre as vertentes da Lei e Ordem, da tolerância zero, do populismo punitivo, da esquerda punitiva e do
Direito Penal do Inimigo. Nesse sentido, veja o Diagrama 12:
LEI E ORDEM
O movimento Lei e Ordem tem origem na década de 1960, nos Estados Unidos. Dessa forma, os movimentos
de Lei e Ordem, “ao explorar os pânicos morais, entendem o direito penal, em sua tendência maximalista, como
único instrumento capaz de solucionar o problema da sempre crescente criminalidade” (CARVALHO, 2016).

Os defensores do movimento Lei e Ordem


“veem na ampliação do espectro punitivo, na flexibilização das regras processuais e na implementação de
penalidades severas o instrumento eficaz para conter a ação dos criminosos que ousam desrespeitar a harmonia
social” (CARVALHO, 2016).

EXPLICANDO
O movimento Lei e Ordem é sustentado, principalmente, pela imprensa sensacionalista, que, ao disseminar os
elevados indicadores de criminalidade a partir de estigmas e estereótipos, ocasiona na sociedade sentimentos como
revolta, medo e insegurança. Nesse contexto, a sociedade vislumbra, a partir do endurecimento exacerbado do
sistema punitivo penal, a alternativa mais adequada ao controle da criminalidade e da violência, tendo em vista a
busca pela paz e tranquilidade. Em contrapartida, o rigor das penalizações reproduz, ainda mais, a criminalidade,
além de violar direitos humanos e fundamentais.

TOLERÂNCIA ZERO
A vertente da tolerância zero está intimamente relacionada ao movimento Lei e Ordem, já que se trata de modelos
que se sustentam pelo endurecimento do sistema penal repressivo e fundamentam-se no autoritarismo.
Todavia, enquanto os modelos de tolerância zero primam pela repressão à criminalidade de rua e bagatelar, por
processos de higienização social a partir de normas penais sancionadoras de comportamentos individuais
(behaviorismo penal), os MLOs reivindicam alta punibilidade às graves ofensas dos bens jurídicos interindividuais,
sobretudo os delitos contra a pessoa e contra o patrimônio. Nesta fusão de perspectivas, entende-se a intolerância
como o único mecanismo de prevenção da desordem social (CARVALHO, 2016).
POPULISMO PUNITIVO
O populismo punitivo, assim como a Lei e Ordem e a tolerância zero, está relacionado à herança do defensivismo e às
políticas criminais punitivistas.
Paralela aos movimentos de direita punitiva, identificados nos MLOs e nas políticas de tolerância zero, exsurge nova
perspectiva criminalizadora, denominada esquerda punitiva, cujo efeito, na integração dos horizontes de punitividade,
é a potencialização do discurso repressivo. Com esquerda e direita aliadas na nova cruzada moral contra a
criminalidade, obtém-se a intensificação das funções simbólicas do direito penal, gestando novo paradigma
criminalizador: o populismo punitivo (CARVALHO, 2016).
Dessa forma, o populismo punitivo, compreendido como um paradigma criminalizador, está relacionado à esquerda
punitiva, da qual decorre a potencialização do discurso repressivo.
A partir do populismo punitivo, “[...] observa-se o aumento vertiginoso nos índices de encarceramento” (CARVALHO,
2016). O populismo punitivo, portanto, vislumbra o encarceramento e a restrição do direito fundamental à liberdade
como alternativas ao controle de criminalidade e violência.
Ao ser analisada a curva de aumento da população carcerária nas duas últimas décadas, nota-se que a opção político-
criminal autoritária de recrudescimento dos aparelhos punitivos tem obtido êxito no incremento do punitivismo.
Dados que desde o ponto de vista da crítica criminológica tomam dimensões preocupantes (CARVALHO, 2016).
Dito isso, percebe-se que a vertente do populismo punitivo continua tendo amparo na sociedade contemporânea,
embora a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 afirme o respeito aos direitos humanos e
fundamentais e ao princípio da dignidade da pessoa humana, entre outras tantas garantias legais previstas ao
acusado.
O autoritarismo e as teses a favor do encarceramento permanecem presentes no cenário brasileiro, embora a
Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 tenha instaurado o Estado Democrático de Direito.
Nesse contexto, destaca-se a importância dos movimentos sociais para a permanente efetivação da democracia e dos
direitos humanos e fundamentais no campo prático.

ESQUERDA PUNITIVA
A esquerda punitiva, por sua vez, é uma vertente da herança do defensivismo e das políticas criminais punitivistas.
Dessa forma, ressalta-se que:
[...] historicamente a política criminal de esquerda baseou seu programa de atuação na contração do aparato penal -
carcerário, em muito decorrente da crítica à criminalização de atos perpetrados por classes econômicas menos
favorecidas e pelos movimentos sociais e contraculturais, sobretudo no caso do uso de entorpecentes, na atualidade
verifica-se a convergência de matrizes políticas historicamente diafônicas (CARVALHO, 2016).
Nesse cenário, destaca-se que a esquerda punitiva,
“[...] além de ratificar a repressão aos delitos interindividuais, formula novo catálogo de condutas necessárias à
criminalização, fundamentalmente no que tange àquelas lesivas de bens jurídicos coletivos e/ou transindividuais”
(CARVALHO, 2016).
Em razão disso, constata-se a importância da vertente da esquerda punitiva nesse contexto, uma vez que “[...] o
potencial criminalizador/punitivo da esquerda punitiva acaba sendo maior que o dos tradicionais movimentos
criminalizadores” (CARVALHO, 2016).
DIREITO PENAL DO INIMIGO
A vertente do Direito Penal do Inimigo considera como inimigos os criminosos econômicos, terroristas, delinquentes
organizados, autores de delitos sexuais e outras infrações penais perigosas. Nesse contexto, percebe-se “[...] a
constância das práticas punitivas violentas nos países da América Latina e sua exacerbação no permanente Estado de
exceção proposto na fundamentação teórica do Direito Penal do Inimigo” (CARVALHO, 2016).

O combate ao narcotráfico e ao crime organizado, no marco do Direito Penal do Inimigo e da fixação do Estado de
exceção permanente, dirime as fronteiras entre as políticas de segurança e o direito penal. O problema, desde a
perspectiva do garantismo, é que o direito e o processo penal devem representar as barreiras de contenção das
violências constantemente emanadas dos instrumentos da política repressiva. Do contrário, se operarem na
legitimação e não na deslegitimação da violência, a tendência é o extravasamento e a perda do controle dos atos do
poder (CARVALHO, 2016).
Por sua vez, destaca-se que o Direito Penal do Inimigo, introduzido por Günther Jakobs, compreende que contra o
inimigo não se justifica um procedimento penal a partir da observância das garantias legais, e sim um procedimento
de guerra.

SINTETIZANDO
Observamos que a herança da criminologia crítica e as políticas penais alternativas são caracterizadas a partir das
vertentes do minimalismo, abolicionismo, garantismo, feminismo, realismo de esquerda e realismo marginal.
Por sua vez, o minimalismo pauta-se na aplicação da pena privativa de liberdade em última ratio, ou seja, quando
esgotadas as possibilidades de substituição da pena privativa de liberdade por outra modalidade de pena. Além disso,
o minimalismo se relaciona aos seguintes princípios previstos na Constituição da República Federativa do Brasil de
1988: princípio da dignidade da pessoa humana; princípio da proporcionalidade; princípio da igualdade; princípio do
devido processo legal; princípio da individualização da pena; e princípio da humanidade.
Por outro lado, a vertente do abolicionismo prega pela completa extinção do sistema penal punitivo, uma vez que,
segundo tal vertente, a aplicação da pena privativa de liberdade reproduz os indicadores de violência, razão pela qual
propõe a solução pacífica dos conflitos sociais.
Já o garantismo, sustentado por Luigi Ferrajoli, sustenta pela limitação dos abusos estatais na seara penal, a partir da
valorização das normas constitucionais, tais como a observância da dignidade da pessoa humana e dos direitos
fundamentais. Destaca-se que alguns doutrinadores apontam que tal discurso se limita ao campo teórico, tendo
amplas dificuldades de concretização no campo prático, tendo em vista a seletividade, estigmatização e
desigualdades instituídas no sistema penal.
Observamos a vertente do feminismo, que relaciona a figura da mulher com a reprodução da criminalidade; a
vertente do realismo de esquerda, que se opõe aos movimentos político-criminais repressistas, priorizando pelas
políticas penais preventivas; e, ainda, a vertente do realismo marginal, que relaciona o racismo com a seletividade do
sistema penal punitivo.
Também falamos sobre a criminologia pós-crítica, a partir da análise do culturalismo, do pós-modernismo e da
criminologia do reconhecimento. A vertente do culturalismo investiga o contexto das interações sociais baseadas na
cultura, relacionando-as à criminalidade. Vimos, na perspectiva da criminologia pós-crítica, o pós-modernismo, a
criminologia do reconhecimento, e demais inovações da crítica.
Versamos sobre a herança do defensivismo e as políticas criminais punitivistas a partir da análise do movimento de
Lei e Ordem; da tolerância zero; do populismo punitivo; da esquerda punitiva e do Direito Penal do Inimigo.
Nesse contexto, vimos que o movimento de Lei e Ordem vislumbra o sistema punitivo penal como único instrumento
capaz de solucionar o problema da sempre crescente criminalidade, cenário em que destaca-se o papel da imprensa
sensacionalista na reprodução dos discursos baseados no movimento de Lei e Ordem.
Já a tolerância zero, vertente autoritária da criminologia, assim como o movimento de Lei e Ordem, sustenta pela
repressão à criminalidade de rua.
Além disso, o populismo punitivo, a partir da perspectiva de potencialização do discurso repressivo, sustenta sua
concepção na ideia de que o encarceramento e a consequente restrição ao direito fundamental à liberdade figuram
como alternativas à redução dos indicadores de criminalidade e violência.
Em contrapartida, a esquerda punitiva, no contexto da herança do defensivismo e as políticas criminais punitivistas,
formula novo catálogo de condutas necessárias à criminalização, fundamentalmente no que tange àquelas lesivas de
bens jurídicos coletivos e/ou transindividuais, e também ratifica a repressão aos delitos interindividuais.
Vimos, ainda, a respeito da vertente do Direito Penal do Inimigo, que considera inimigos os criminosos econômicos,
terroristas, delinquentes organizados, autores de delitos sexuais e outras infrações penais perigosas. Ao considerar
tais sujeitos como inimigos, o Direito Penal do Inimigo sustenta que esses sujeitos não merecem a observância das
garantias do processo penal, mas sim um procedimento de guerra.

UNIDADE 4
As múltiplas faces da violência no cenário brasileiro contemporâneo

Violência e segurança pública no Brasil


contemporâneo
Seção 2 de 6

A violência é um fenômeno multifacetado e complexo, presente em grande escala no cenário brasileiro. Em razão
disso, tendo em vista as múltiplas causas da violência, “(...) a gestão da política de segurança pública, como suporte
para enfrentamento da violência e da criminalidade, representa um desafio tanto para o Estado quanto para a
sociedade (CARVALHO; SILVA, 2011, p. 60).
Por sua vez, a mídia assume papel de destaque no que concerne à divulgação sobre a reprodução da violência,
focalizando na publicização das modalidades de violência que ocasionam maior comoção social. A partir da
divulgação da violência pela mídia, grande parcela da sociedade acredita que o enrijecimento do sistema punitivo
penal é a alternativa mais adequada para o enfrentamento da violência.
Dentre as modalidades de violência com indicadores mais elevados na contemporaneidade, destacam-se a violência
de gênero e as violências contra crianças e adolescentes, além das múltiplas violências em relação aos negros.
Considerando a complexidade inerente ao tema da violência, assim como as múltiplas causas que envolvem esse
fenômeno, o enfrentamento da violência não se restringe apenas a uma medida, mas abrange diversos atores sociais,
dentre os quais destaca-se a segurança pública.
A segurança pública é considerada uma demanda social que necessita de estruturas estatais e demais organizações
da sociedade para ser efetivada. Às instituições ou órgãos estatais, incumbidos de adotar ações voltadas para garantir
a segurança da sociedade, denomina-se sistema de segurança pública, tendo como eixo político estratégico a política
de segurança pública, ou seja, o conjunto de ações delineadas em planos e programas e implementados, como forma
de garantir a segurança individual e coletiva (CARVALHO; SILVA, 2011, p. 60).
Desse modo, a segurança pública trata-se de um mecanismo para promover o enfrentamento da violência. Nesse
sentido, destaca-se a importância da formulação e do aprimoramento das políticas públicas intersetoriais de
segurança pública.
Por sua vez, as políticas públicas de segurança pública envolvem não apenas políticas públicas de erradicação da
violência, mas, principalmente, políticas públicas de prevenção desse fenômeno, a partir da atuação compartilhada
de diversos atores sociais.
Nesse contexto, a rede de educação assume papel de estratégico nas políticas públicas de prevenção e erradicação da
violência, em que os profissionais da educação devem inserir atividades acerca do fenômeno da violência com
crianças e adolescentes, integrando, também, a sociedade nesses debates.
Nesse contexto, destaca-se a importância dos diagnósticos locais, realizando-se o levantamento sobre as
modalidades de violências com maior incidência no âmbito local, a fim de que possam ser desenvolvidas ações
estratégicas de segurança pública específicas nesse sentido.
Qualquer que sej22a o diagnóstico local sobre a dinâmica da criminalidade, será sempre indispensável reconhecer a
multiplicidade de dimensões envolvidas: desde a economia à saúde, da estrutura familiar às escolas, do cenário
urbano à disponibilidade de transporte, das condições habitacionais ao acesso ao lazer, das oportunidades de
emprego às relações comunitárias, do perfil psicológico predominante, em cada situação típica, ao potencial cultural
presente nos movimentos musicais ou estéticos da juventude. Nada disso deve ser examinado de uma perspectiva
genérica e abstrata, mas de modo bem concreto, segundo as manifestações específicas do território em questão – e
de seus habitantes (SOARES, 2006, p. 96).
A segurança pública na contemporaneidade vem se mostrando ineficiente em relação ao enfrentamento da violência.
Um dos motivos mais significativos que corrobora com esse cenário é a falta de investimentos em políticas públicas e
ações estratégicas para tal finalidade.
Por sua vez, a redução dos indicadores de violência requer atuação nas causas originárias da violência, que estão
principalmente relacionadas às desigualdades sociais e econômicas.
Observa-se que as estratégias de segurança pública no cenário brasileiro têm se restringido à ação repressiva da
polícia. Em contrapartida, esta ação repressiva da polícia reproduz ainda mais violência, uma vez que são marcadas
pelos elevados indicadores de mortalidade e lesões corporais.
Embora o sistema de segurança pública seja pautado na segurança individual e coletiva, de acordo com a
Constituição Federal de 1988, as políticas de segurança, no Brasil, têm se caraterizado pela falta de articulação. Em
razão disso, constata-se que a segurança pública “trata-se de uma questão significativamente complexa que impõe a
necessidade de aproximação entre diversas instituições e sujeitos” (CARVALHO; SILVA, 2011, p. 62).
Dessa forma, “sem articulação entre polícias, prisões e judiciário, inclusive sem o envolvimento da sociedade
organizada, não existe eficácia e eficiência nas ações de controle da criminalidade e da violência e nas de promoção
da pacificação social” (CARVALHO; SILVA, 2011, p. 62).

Estratégias de policiamento
O tema sobre as estratégias de policiamento reveste grande importância no contexto da disciplina de Criminologia e
Abordagem Sociopsicológica da Violência do Crime, uma vez que o policiamento tem sido uma das principais
estratégias de enfrentamento da violência da contemporaneidade.
A despeito dos sentimentos ambíguos suscitados pela polícia junto às comunidades pobres, poucas agências públicas
têm sido tão demandadas pela população dessas áreas, constituindo-se em serviço público de primeira necessidade.
A deterioração acarretada pela implosão da violência nesses locais tem levado essas comunidades a um sentimento
de desamparo e de desalento que, associado à precariedade de outros serviços públicos, acaba potencializando o
ambiente de desorganização social (BEATO; SILVA; TAVARES, 2008, p. 692).
Para promover o enfrentamento do fenômeno da violência, a ação policial tem utilizado a mesma ferramenta que
pretende combater, qual seja, a violência, evidenciada pelo grande número de atrocidades que ocorrem no cotidiano,
especialmente nos lugares em que as desigualdades se encontram explícitas. Por sua vez, a utilização de violência
pela polícia ocasiona a reprodução do ciclo de violência, agravando ainda mais esse cenário.

Em razão disso, “a cser_educacional que assola os presídios brasileiros surge como consequência do sistema penal
retribucionista que potencializa a violência; da problemática situação atual que envolve o delito, na medida em que
se oferece o mal àqueles que praticam o mal” (SANTANA; SANTOS, 2018, p. 240).
No que diz respeito à atuação policial, “a complexidade dos fenômenos com os quais a polícia tem de lidar, bem
como a diversidade de contextos urbanos nos quais atua, tem reiterado o descrédito reinante em relação às formas
convencionais de atuação policial” (BEATO; SILVA; TAVARES, 2008, p. 694).
Considerando que a violência é um fenômeno multifacetado, “uma política de segurança pública deve lidar, a par das
estratégias de desenvolvimento socioeconômicas de âmbito local e focalizado, com mecanismos que incrementem a
eficiência e o controle da polícia” (BEATO; SILVA; TAVARES, 2008, p. 694).
Dessa forma, é necessário que as estratégias de policiamento envolvam múltiplas diretrizes e ações, bem como
outros atores sociais, como a família, a escola, a assistência social e as redes de lazer, esporte e cultura.
Portanto, a ação integrada da polícia com os demais atores sociais deve atuar, fundamentalmente, na prevenção da
violência, rompendo a lógica de aplicação de violência como castigo em resposta ao mal causado.
Violência contra a mulher
A violência contra a mulher é um dos problemas sociais com maior incidência no cenário brasileiro. Infelizmente,
“agredir, matar, estuprar uma mulher ou uma menina são fatos que têm acontecido ao longo da história em
praticamente todos os países ditos civilizados e dotados dos mais diferentes regimes econômicos e políticos” (BLAY,
2003, p. 87).
Destaca-se que as modalidades de violência contra a mulher não se restringem à violência física, englobando
também a violência psicológica, a violência moral, a violência sexual e a violência patrimonial.

Embora a violência física tenha maior destaque na mídia, ressalta-se que as demais modalidades de violências contra
a mulher são tão prejudiciais quanto a violência física, pois resultam em inúmeras consequências psicológicas, sociais
e econômicas às mulheres. Dessa forma, a violência física é entendida como qualquer conduta que ofenda sua
integridade ou saúde corporal (BRASIL, 2006).
Por outro lado, a violência psicológica é:
entendida como qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da autoestima ou que lhe prejudique
e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e
decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante,
perseguição contumaz, insulto, chantagem, violação de sua intimidade, ridicularização, exploração e limitação do
direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação (BRASIL,
2006).
Destaca-se que as consequências decorrentes da violência psicológica, na maioria das vezes, são irreversíveis, se
estendendo ao longo da vida das mulheres.
As principais origens da ação violenta advêm de ciúme, poder e histórico familiar, apontando ancoragens sociais no
poder masculino e submissão feminina construída ao longo do tempo. As principais consequências da violência são o
trauma, o desamor e a insensibilidade, provavelmente diminuindo seus índices de qualidade de vida e inserção social
(FONSECA; RIBEIRO; LEAL, 2012, p. 313).
A violência sexual, por sua vez, é:
entendida como qualquer conduta que a constranja a presenciar, a manter ou a participar de relação sexual não
desejada, mediante intimidação, ameaça, coação ou uso da força; que a induza a comercializar ou a utilizar, de
qualquer modo, a sua sexualidade, que a impeça de usar qualquer método contraceptivo ou que a force ao
matrimônio, à gravidez, ao aborto ou à prostituição, mediante coação, chantagem, suborno ou manipulação; ou que
limite ou anule o exercício de seus direitos sexuais e reprodutivos (BRASIL, 2006).

A violência patrimonial é “entendida como qualquer conduta que configure retenção, subtração, destruição parcial
ou total de seus objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos
econômicos, incluindo os destinados a satisfazer suas necessidades” (BRASIL, 2006). Por sua vez, a violência moral é
“entendida como qualquer conduta que configure calúnia, difamação ou injúria” (BRASIL, 2006).
No contexto brasileiro, a Lei Maria da Penha, Lei nº 11.340, de 2006, consiste em um importante instrumento
normativo que proíbe a violência contra a mulher, pois, além de prever expressamente as modalidades de violências,
cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher.
Dentre os mecanismos criados pela Lei Maria da Penha, o art. 12 dispõe expressamente os procedimentos que a
autoridade policial deve adotar de imediato, em todos os casos de violência doméstica e familiar contra a mulher, ao
formalizar o registro da ocorrência (Quadro 3).

Além disso, destacam-se as medidas protetivas, previstas no art. 22, as quais visam a promover o afastamento
imediato do autor. Nesse contexto, o Quadro 4 trata das modalidades de medidas protetivas, as quais poderão ser
aplicadas de imediato pelo juiz ao agressor, em conjunto ou separadamente, após a constatação da prática de
violência doméstica e familiar contra a mulher.

Por outro lado, apesar dos inúmeros avanços da Lei Maria da Penha, que inegavelmente refletiram na redução dos
indicadores de violência contra a mulher no Brasil, a legislação, por si só, não é instrumento suficiente para alcançar
os resultados desejados em relação à violência contra a mulher.
Para enfrentar esta cultura machista e patriarcal são necessárias políticas públicas transversais que atuem
modificando a discriminação e a incompreensão de que os Direitos das Mulheres são Direitos Humanos. Modificar a
cultura da subordinação de gênero requer uma ação conjugada. Para isso é fundamental estabelecer uma articulação
entre os programas dos Ministérios da Justiça, da Educação, da Saúde, do Planejamento e demais ministérios (BLAY,
2003, p. 96).
Dessa forma, a articulação de políticas públicas consiste no principal mecanismo para promover o enfrentamento da
violência contra a mulher na contemporaneidade, a partir da ação integrada e intersetorial de diversos órgãos e,
sobretudo, envolvendo a sensibilização da sociedade em relação à proibição da violência contra a mulher.

Violência na infância e na adolescência, e a política criminal de drogas


Embora a Constituição Federal de 1988, em seu art. 227, tenha estabelecido a proibição de qualquer modalidade de
violência em face de crianças e adolescentes, são elevados os indicadores oficiais que demonstram o número de
crianças e adolescentes vítimas de violência no Brasil.
O art. 227 da Constituição Federal trata-se de um grande marco em relação à proteção de crianças e adolescentes no
Brasil, pois reconhece crianças e adolescentes como sujeitos de direitos, estabelecendo um rol de direitos
fundamentais básicos, como o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à
cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.
Destaca-se que a proteção constitucional dos direitos de crianças e adolescentes possui influência significativa da
Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança, das Nações Unidas, de 1989, ratificada pelo Brasil em 1990,
sendo um tratado internacional de grande importância nesse contexto.
O art. 227 da Constituição Federal também estabelece o princípio da tríplice responsabilidade compartilhada, uma
vez que incumbe a família, a sociedade e o Estado de assegurar tais direitos fundamentais à criança e ao adolescente,
com absoluta prioridade.

CONTEXTUALIZANDO
De acordo com o art. 4º, parágrafo único, do Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei nº 8.069, de 1990, a
prioridade absoluta, prevista no art. 227 da Constituição Federal, corresponde a: “a) primazia de receber proteção e
socorro em quaisquer circunstâncias; b) precedência de atendimento nos serviços públicos ou de relevância pública;
c) preferência na formulação e na execução das políticas sociais públicas; e d) destinação privilegiada de recursos
públicos nas áreas relacionadas com a proteção à infância e à juventude”.
Nesse contexto, o art. 227 da Constituição Federal também estabelece que “é dever da família, da sociedade e do
Estado colocar crianças e adolescentes a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência,
crueldade e opressão” (BRASIL, 1988).

Apesar da previsão constitucional e, também, do Estatuto da Criança e do Adolescente, em relação à proibição contra
qualquer modalidade de violência em face de crianças e adolescentes, a legislação, por si só, não é capaz de coibir a
reprodução das diversas modalidades de violências.
Nesse contexto, destaca-se a importância da formulação e do aprimoramento de políticas públicas específicas, de
acordo com a modalidade de violência, a partir da atuação intersetorial dos órgãos do Sistema de Garantias de
Direitos de Crianças e Adolescentes, com a criação de fluxos e protocolos nesse sentido, de acordo com a realidade
de cada município.
EXPLICANDO
O Sistema de Garantias de Direitos de Crianças e Adolescentes é estruturado a partir de três níveis. O primeiro nível é
o de atendimento, caracterizado pela atuação das redes de atendimento e dos Conselhos de Direitos. O segundo
nível é o de proteção, caracterizado pela atuação dos Conselhos Tutelares. Por sua vez, o terceiro nível é o de justiça,
caracterizado pela atuação da Defensoria Pública, do Ministério Público e do Poder Judiciário.
Dentre as modalidades de violências em face de crianças e adolescentes com maior incidência na
contemporaneidade, destaca-se a violência contra crianças e adolescentes negros nas favelas, uma grave violação de
direitos, pois está relacionada à guerra às drogas, ao racismo estrutural e à violência policial.
A palavra violência tem origem no verbo latino violare, que significa tratar com violência, profanar, transgredir. Faz
referência ao termo vis: força, vigor, potência, violência, emprego de força física em intensidade, qualidade, essência.
Na tradição clássica greco-romana, violência significava o desvio, pelo emprego de força externa, do curso “natural”
das coisas. Hoje, o termo é empregado de modo polissêmico. Designa fatos e ações humanas que se opõem,
questionam ou perturbam a paz ou a ordem social reconhecida como legítima. Seu uso corrente compreende o
emprego de força brutal, desmedida, que não respeita limites ou regras convencionadas (ADORNO, 2012, p. 72)
No que tange à violência contra crianças e adolescentes negros nas favelas, destacam-se os indicadores levantados
pelo relatório anual A infância & você: os resultados da sua parceria com o UNICEF em 2020, realizado no ano de
2021, que apontou, no Brasil, o assassinato de 6.930 crianças e adolescentes entre 10 e 19 anos de idade. Do
total, 81% eram pretos (UNICEF, 2021).
A mortalidade de crianças e adolescentes negros nas favelas está relacionada à chamada necropolítica. Por sua vez,
“(...) o termo necropolítica tem a ver com regimes de distribuição (desigual) da morte e as funções assassinas ou de
morte do Estado” (CARDOSO, 2018, p. 962).

Além dos dados da UNICEF, aponta-se a pesquisa realizada pelo Comitê para Prevenção de Homicídios de
Adolescentes no Rio de Janeiro, realizada entre julho de 2019 e junho de 2020, a qual identificou o número de
mortes violentas de adolescentes (OBSERVATÓRIO DE FAVELAS; ISER, 2020).
Tal pesquisa apontou que de janeiro de 2013 a março de 2019 foram registrados 2.484 homicídios de adolescentes
no estado do Rio de Janeiro, relacionados à chamada letalidade violenta intencional, abarcando os homicídios, as
mortes por intervenção de agentes do Estado, os latrocínios, bem como as lesões corporais seguidas de morte
(OBSERVATÓRIO DE FAVELAS; ISER, 2020).
De acordo com essa pesquisa, dentre as vítimas, 79% eram negros e 76% estavam na faixa entre 16 e 17 anos. Ao
abordar as causas da letalidade violenta, destaca que, em primeiro lugar, estão os homicídios dolosos, com 76%. A
segunda maior causa de mortes foi a ação dos policiais, correspondendo a 22% (OBSERVATÓRIO DE FAVELAS; ISER,
2020).
A violência na infância e na adolescência está intimamente relacionada com o tema da política criminal de drogas,
uma vez que grande parte dessas violências contra crianças e adolescentes ocorre em locais onde o tráfico de drogas
se encontra presente.
Além da violência, crianças e adolescentes estão expostos ao trabalho infantil no tráfico de drogas, cuja principal
causa determinante de ingresso a essa modalidade de trabalho é a econômica.
Apesar das peculiaridades, trabalho infantil no tráfico de drogas deve ser visto como um trabalho infantil como as
demais modalidades. Ou seja, todo aquele trabalho realizado por criança ou adolescente, em desacordo com as
normas vigentes, precisando ser abolido por meio de políticas de proteção à criança e ao adolescente, e não somente
pela ótica responsabilizadora ou reparatória (CUSTÓDIO; KERN, 2020, p. 320).

EXPLICANDO
No Brasil, é proibida a realização de qualquer modalidade de trabalho antes dos 16 anos de idade, salvo na condição
de aprendiz, a partir dos 14 anos, de acordo com a Lei nº 10.097/2000. Já os trabalhos perigosos, insalubres ou
penosos, os prejudiciais à moralidade, os noturnos, os trabalhos realizados em locais e horários que prejudiquem a
frequência à escola ou que tenham possibilidade de provocar prejuízos ao desenvolvimento físico e psicológico, são
proibidos antes dos 18 anos de idade, de acordo com a Constituição Federal e o Estatuto da Criança e do Adolescente.
Em contrapartida, no que concerne à política criminal de drogas, no Brasil, embora configurem-se “os elevados custos
da criminalização, sua manutenção é necessária em decorrência da opção por modelos punitivos moralizadores e que
sobrepõem os interesses do Príncipe aos princípios (e garantias fundamentais), ou seja, a razão de Estado à razão de
direito (CARVALHO, 2016, p. 242).
Dessa forma, a política criminal de drogas é pautada na “opção moralizante e normalizadora aflora nas atuais
tendências de tratamento de usuários pela Justiça Terapêutica e, no âmbito do comércio ilegal, nos efeitos penais da
adjetivação hedionda das condutas” (CARVALHO, 2016, p. 242).
Apesar de sua insustentabilidade, o discurso punitivo opera com determinadas inversões ideológicas e significativas
que acabam, nas aparências, facilmente consumidas pelos mass media jurídicos (senso comum teórico), justificando
hipóteses criminalizadoras. A principal manipulação interpretativa no campo dos entorpecentes ocorre,
inegavelmente, com a enunciação da criminalização como mecanismo de tutela do bem jurídico saúde pública
(CARVALHO, 2016, p. 245).

Justiça restaurativa e políticas públicas de prevenção ao delito


A justiça restaurativa remete a uma vertente oposta ao sistema punitivo penal, pois enquanto esse é pautado no
encarceramento e na aplicação das penas privativas de liberdade, a justiça restaurativa busca a diminuição da
intervenção penal em relação à resolução de conflitos decorrentes da prática de delitos.
Em contraposição a essa concepção tradicional da justiça criminal, cresce a ideia da justiça restaurativa, adotando o
paradigma restaurativo como um modelo mais humanizado e capaz de combater altos índices de reincidência
criminal, para reintegrar egressos do sistema penitenciário e solucionar conflitos em comunidades com condão de
reintroduzir a vítima no processo de resolução dos problemas derivados do crime, permitindo-lhe a reapropriação do
conflito avocado pelo Estado soberano, limitando o exercício de poder do sistema penal e substituí-lo por formas
efetivas de solução de conflitos, e, assim, reforçar os laços e sentimentos de solidariedade social, outrora rompidos
(SANTANA; SANTOS, 2018, p. 229).
Dessa forma, “a partir dos anos 70 do século passado, foi (sic) surgindo referências à justiça restaurativa como um
modelo de resposta ao crime diferente da justiça penal” (SANTANA; SANTOS, 2018, p. 229).
A justiça restaurativa representa um grande avanço sob a perspectiva dos estudos da criminologia, “por considerar os
crimes como violações de pessoas e relacionamentos interpessoais, e não somente ao Estado soberano, que
acarretam na obrigação do infrator reparar os danos” (SANTANA; SANTOS, 2018, p. 229).
No que diz respeito ao sistema punitivo penal, segundo a visão da justiça restaurativa, “o discurso de combate ao
crime tem servido como álibi para fomentar a exclusão social e a constante violação dos direitos humanos de uma
classe social pré-selecionada, seja por ação ou omissão do Estado” (SANTANA; SANTOS, 2018, p. 230).
Em razão disso, para a justiça restaurativa, a partir do sistema punitivo penal, “(...) lastreado no discurso de
manutenção da ordem e defesa da sociedade em geral, pode-se identificar a escalada das práticas de controle em
que medidas que deveriam ser consideradas como excepcionais são normalizadas pela sua frequente ocorrência”
(SANTANA; SANTOS, 2018, p. 231).
Dito isso, a justiça restaurativa “(...) surge como um novo modelo, mais humanizado, retirando do Estado e
devolvendo à vítima e à sociedade em geral o controle e a resolução do conflito delitivo'' (SANTANA; SANTOS, 2018, p.
231).
A justiça restaurativa busca a prevenção do conflito, assim como a diminuição das consequências que dele decorrem,
voltando o olhar para a vítima, para o ofensor e para a comunidade, sob a perspectiva da solução do conflito.

Portanto, “no modelo restaurativo afasta-se a possibilidade de condenação à pena de prisão, afirmam-se as
vantagens para reintegração do agente ofensor e invoca-se a satisfação das necessidades das vítimas, e ainda
apresenta solução mais pacificadora para a comunidade” (SANTANA; SANTOS, 2018, p. 237).
Ao voltar o olhar para a vítima, a justiça restaurativa busca inserir “a vítima no processo de resolução dos problemas
derivados do crime, permitindo-lhe reapropriação do conflito afastando o direito penal do papel de vingador público,
limitando o exercício de poder do sistema penal e substituí-lo por formas efetivas de solução de conflitos” (SANTANA;
SANTOS, 2018, p. 238).
O padrão restaurativo tem por objetivo conciliar os interesses de todas as partes envolvidas no conflito criminal, em
busca por uma pacificação e ressignificação da relação social conflituosa que o originou, e assim almeja pela
restauração de todas as relações abaladas, não se limitando à reparação dos danos causados à vítima e à comunidade,
a partir de uma postura ativa e amadurecida do infrator durante a utilização do instrumental da mediação, o que
redunda em vantagens para todos os envolvidos no episódio criminal, na medida em que devolve à vítima a
relevância de sua participação na resposta ao dano sofrido, o que afasta possibilidade de uma vitimização secundária,
e promove recuperação da paz social da comunidade envolvida (SANTANA; SANTOS, 2018, p. 238).
Por sua vez, as políticas públicas de prevenção ao delito estão relacionadas ao tema da justiça restaurativa, uma vez
que ambas buscam a ação preventiva do delito, a fim de evitar o fenômeno da reincidência.
Embora o conceito de políticas públicas seja complexo e multidimensional, podemos considerar, em linhas gerais, que
as políticas públicas se tratam de instrumentos de transformação social, pautados na concepção de concretização dos
direitos humanos e fundamentais.

CITANDO
“Os estudos sobre políticas públicas desenvolveram-se no contexto pós-2ª Guerra Mundial nos Estados Unidos, com
amparo de instituições governamentais e privadas convencidas da importância do viés científico para a boa gestão
governamental. A análise de políticas públicas passou a constituir uma subárea da ciência política norte-americana na
década de 1950, marcando uma mudança de foco nas investigações sobre a política: em lugar das estruturas e
instituições políticas, a atenção voltou-se à ação dos governos” (SCHMIDT, 2018, p. 119).
No que diz respeito às políticas públicas de prevenção ao delito, assim como a justiça restaurativa, remetem à ideia
oposta ao sistema punitivo penal.
A importância ‘prática’ do estudo das políticas públicas compreende diversos aspectos, entre as quais vale ressaltar a
eficácia da participação cidadã e o discernimento frente às complexidades da gestão pública. A compreensão bem
embasada das políticas permite a ação cidadã mais qualificada e mais potente. É fundamental que o cidadão conheça
e entenda os mecanismos e a previsão legal das políticas públicas que o afetam, quem participou de sua formulação,
como estão sendo implementadas, quais interesses estão sendo contemplados e quais não estão, as principais forças
envolvidas, os espaços de participação existentes, os possíveis aliados e os adversários. Por outro lado, o estudo
científico das políticas permite perceber a complexidade que envolve a gestão pública, evitando simplificações e
reducionismos, que frequentemente levam ao entusiasmo por soluções autoritárias (SCHMIDT, 2018, p. 121-122).
Em razão disso, devemos considerar que as políticas públicas “não são um setor ou departamento com vida própria.
Elas são o resultado do processo político, que se desenrola sob o pano de fundo institucional e jurídico, e estão
intimamente ligadas à cultura política e ao contexto social” (SCHMIDT, 2018, p.122).
Tendo em vista a complexidade que envolve a violência e a criminalidade, as políticas públicas de prevenção ao delito
devem envolver uma atuação intersetorial de diversos segmentos da sociedade.
Uma das principais estratégias que devem ser observados durante a formulação das políticas públicas de prevenção
ao delito é a atuação nas causas originárias da violência, relacionadas especialmente às desigualdades econômicas,
sociais e raciais.
As políticas públicas possuem cinco etapas principais, quais sejam (SCHMIDT, 2018):
 Definição do problema;
 Inserção do problema na agenda política;
 Formulação da política pública;
 Implementação da política pública;
 Avaliação da política pública.

Além disso, destaca-se a importância da formulação e do aprimoramento de políticas públicas particularizadas, de


acordo com a modalidade de violência e da realidade local. Por sua vez, o cenário brasileiro é marcado pela
fragilidade das políticas públicas de prevenção ao delito, fator que colabora com a reprodução dos indicadores de
violência, razão da importância da inserção do tema na agenda política.

SINTETIZANDO
Nesta unidade, observamos que a violência e a segurança pública no Brasil contemporâneo são temas que
estabelecem diversas interlocuções com a disciplina de Criminologia e Abordagem Sociopsicológica da Violência e do
Crime. A violência é um fenômeno multidimensional e complexo, que apresenta elevados indicadores no cenário
brasileiro, concretizando-se a partir de diversas modalidades, como as violências de gênero, contra crianças e
adolescentes contra os negros, fruto de um passado escravocrata e colonial, que permanece reproduzindo a
desigualdade racial, o preconceito racial e o racismo.
Vimos, também, que a segurança pública se trata de um mecanismo de enfrentamento das múltiplas modalidades de
violência, contexto no qual a formulação e o aprimoramento de políticas públicas intersetoriais de segurança pública
se mostram muito importantes. No que concerne às estratégias de policiamento, vimos que estas têm se focalizado
na atuação violenta da polícia, ocasionando a chamada reprodução do ciclo da violência. Em razão disso, observamos
que o sistema punitivo penal potencializa ainda mais a violência e, tendo em vista a complexidade inerente à
violência, a mesma deve ser enfrentada a partir de diversas instituições e sujeitos.
Em relação à violência contra a mulher, especificamente, vimos que se trata de um problema social que detém
elevados indicadores no Brasil e compreende cinco modalidades de violência, a física, a psicológica, a moral, a sexual
e a patrimonial. Apesar de a violência física ser a modalidade de violência, contra a mulher que recebe maior
destaque na mídia e nos demais meios de comunicação, as demais violências são tão graves quanto a violência física,
refletindo em severas consequências, as quais que se estendem ao longo da vida das mulheres.
Além disso, apontamos que, em 2006, foi publicada a chamada Lei Maria da Penha, reconhecida como um
instrumento normativo de grande importância para a proteção das mulheres em relação à violência doméstica. Por
sua vez, as medidas protetivas são um dos principais mecanismos previstos na Lei Maria da Penha. Por outro lado,
também vimos que embora a Lei seja um instrumento legislativo avançado, não consegue, por si só, produzir os
resultados desejados em relação à diminuição dos indicadores de violência contra a mulher.
Vimos também sobre a violência em relação à infância e à adolescência, que, apesar de terem sido reconhecidos
como sujeitos de direitos pela Constituição Federal de 1988, são constantemente vítimas de violências, dentre as
quais destaca-se a violência contra crianças e adolescentes negros nas favelas.
Também vimos que a política criminal de drogas é sustentada a partir de opção moralizante e normalizadora de
criminalização das condutas relativas ao uso de entorpecentes. Por fim, observamos sobre a justiça restaurativa e as
políticas de prevenção ao delito, temas que vêm ganhando destaque na contemporaneidade, sob o viés dos direitos
humanos e fundamentais, uma vez que se opõem à ideia de aplicação da pena privativa de liberdade, voltando o
olhar para a prevenção do delito e para a humanização das práticas de resolução de conflitos.

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