Muito prazer Vinícius eu represento todas as mulheres que
foram atiradas para o campo da invisibilidade social quando
ultrapassaram a linha da juventude. A minha geração
envelheceu na era pré-digital, e isto fez toda a diferença,
não tivemos a oportunidade de compartilhar com amigos e
anónimos as nossas angústias, conflitos e as dificuldades
que encontramos durante o processo de envelhecer. Somos
de origens, raças, religiões, estrato social, escolaridade,
profissão muito diferente umas das outras, mas temos a
expressão do Ser Feminino em comum. E é este o elo que
nos une. Somos todas submetidas as mesmas pressões,
cobranças e castrações. Viver em liberdade é uma tarefa
muito árdua para nós mulheres. Além das habituais
atividades domésticas e profissionais, temos uma outra
obrigação: A beleza. É isto mesmo, este atributo que você
tantas vezes exaltou em sua escrita, é o nosso aguilhão. Que
nos remete sempre a imagens perfeitas de corpos magros e
jovens. Um verdadeiro paradoxo para aquele que deseja
morrer velho.
A beleza é algo que nos remete ao Divino, mas para nós
mulheres ultrapassa a barreira do normal, somos cobradas
por uma beleza impecável e nesta busca transitamos entre o
céu e o inferno, na verdade permanecemos mais tempo no
umbral. Lá somos consumidas pelo cansaço, gastamos
nosso tempo e dinheiro em busca do inatingível e como é
previsível, frustramos.
Vou parafrasear o seu soneto para te introduzir em nosso
mundo.
“São demais os perigos desta vida para quem ousa
envelhecer.
Principalmente quando uma ruga surge de repente,
E se deixa na face como esquecida
E se ao luar platinado que atua desvairado vier pintar os
seus cabelos tão amados
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto de uma mulher
Deve andar perto de uma mulher madura que é feita,
De rugas, sonhos e sentimentos
E que a vida de repente não a quer por imperfeita
Uma mulher real e madura
Que a beleza padrão porventura lhe cobra tamanho
sofrimento
Uma mulher que teve a audácia de envelhecer, e que
cansada da opressão, não querendo mais ser o padrão,
cheia do pudor preferiu viver nua.”
Bem-vindo ao nosso mundo inacabado onde a palavra de
ordem é aceitação. Aqui procuramos diariamente nos
desvencilhar de uma eterna companheira, a comparação.
Este sistema que nos deixa infeliz assim que cruzamos a
porta da rua, que abrimos uma revista ou quando alisamos
o ecrã de nosso telemóvel.
Aparentemente o mundo esta um caos, mas a maturidade
me permite dizer, que iniciamos uma nova era. Meninas
mais exigentes, mulheres mais cultas, idosas mais
reflexivas, todas nós estamos cansadas e finalmente
estamos aprendendo a utilizar uma linguagem comum, a da
sororidade. Estamos aprendendo a nós amar, e neste mundo
tão múltiplo cabem todos e todas, para nós a beleza esta no
conjunto singular. Feita a apresentação passo a palavra a
geração mais jovem que tem nos ajudado a ressignificar
conteúdos complexos, porém simples e natural.
TíTULO
Amo você Vinícius, através de sua poesia pude realizar um
projeto profissional, incrível do qual muito me orgulho.
A sua escrita poética e sensual foi a ferramenta que mais
utilizei para descascar um abacaxi que estava nas mãos de
meus “alunos”, pessoas acima dos 60 anos de idade. Um
fruto de casca repleto de espinhos, todos com nomes bem
fortes: medo, preconceito, estigma, estereótipo, padrão,
invisibilidade social, vergonha e pudor. Foi preciso muito
cuidado e poesia para retirar cuidadosamente cada uma de
suas farpas sem danificar o que nos interessava que era a
polpa, popularmente conhecida por beleza e a sensualidade.
Como boa mineira pus a mão na massa, ou melhor nas suas
palavras, e não é que deu certo! Embalados por suas poesias
e pela cadencia de seu ritmo, estes senhores e senhoras se
permitiram sonhar, esqueceram se das regras, do pudor, do
politicamente correto e falaram de seus desejos, dos seus
anseios, da beleza do agora e da sensualidade. Todos eles
há muito já haviam ultrapassado a linha do tempo, aquela
que nos retira todos os atributos idealizados pela Mito da
Beleza, e nos remete para o campo da invisibilidade social.
Desnudaram se dos próprios preconceitos construídos ao
longo da vida e que hoje os escravizavam, e resolveram
mostrar-se através de uma exposição fotográfica cujo tema
era a beleza e a sensualidade em mais idade.
A repercussão foi tão grande que me desafiaram a escrever
sobre o assunto. Tarefa difícil para quem só escreveu teses
e artigos científicos ao longo da vida, um trabalho metódico
e sem nenhuma poesia.
Poética é a vida e para saber ler suas quadras é preciso ver
cada segundo com os olhos de curiosidade e amor. Este
projeto fotográfico, desnudou a alma dos envolvidos e foi
ele quem me salvou. Há 7 anos vivendo em Portugal, não
estava realizada profissionalmente, havia muitas pedras no
meio do caminho, o cansaço me fez desistir. Resolvi me
aventurar por outras experiências: fiz bolos e biscoitos, tive
um site de produtos artesanais, uma produção industrial de
pão de queijo e por fim fui parar num escritório. Durante
esta trajetória, as quartas feiras foram intocáveis, neste dia
oferecia o meu tempo, saber e afeto a Universidade Sénior
de Tondela. O objetivo era conduzir senhores e senhoras
com mais de 60 anos a ressignificar suas histórias pessoais,
resgatar seus sonhos esquecidos, analisar o tempo de ontem
e do agora. Achava que tinha abandonado a minha
profissão, mas foi precisamente ela, nestes encontros que
me manteve viva, mas antes de aprofundarmos na história
deste projeto temos que ter outras conversas.
Beleza X Envelhecimento: Nem Rock Balboa tava conta
disso.
Não é fácil falar de beleza quando se envelhece, não é fácil
envelhecer na sociedade do espetáculo. Não é fácil
sobretudo envelhecer para a mulher. Este livro não é uma
reflexão somente para as mulheres, acho muito importante
que os homens possam adentrar em nossa intimidade, para
perceber como somos reféns da aparência e da estética.
Talvez seja por isso que convidei você Vinícius a participar
deste encontro e a representar todos os homens de todas as
idades, culturas ou formações.
“Que me desculpem as feias, mas Beleza é fundamental”
Como se diz aqui em Portugal você Vinícius é um sedutor
do caraças1, as suas poesias e musicalidade leva a gente a
outras dimensões. Há algum tempo parte de seu trabalho
literário tem sido criticado pelo pensamento machista que
revela. Confesso que nunca tinha dado por isso. A forma
lírica que aborda o corpo da mulher, fonte do desejo
masculino, esse encantamento físico muitas vezes propaga
1
Expressão informal Portuguesa que atribui intensidade, mas para mim nada mais é que dizer aquele
famoso palavrão de uma maneira socialmente aceita.
o pensamento de objetificação do feminino. Não deixo de
te admirar por isso, mas não podemos ser tão ingénuos de
não considerar o peso que as palavras, os provérbios, as
piadas e o marketing causam na sociedade.
Pode ser ignorância minha, mas até hoje nenhuma mulher
ganhou notoriedade reverenciando o corpo ou a beleza
masculina, principalmente através da escrita. Talvez fosse
muita ousadia para uma mulher, seria subverter a ordem das
coisas.
O corpo do homem parece estar blindado, ninguém
comenta se ele engordou, se os cabelos caíram ou
embranqueceram, se tem muitas rugas, se a roupa não lhe
assenta bem, se esta inapropriadamente vestido para o local
de trabalho, ou se a maneira como se comporta é
demasiadamente sedutora. Mas o contrário, é rotina na vida
de uma mulher, a gente nasce tendo acesso a um código de
conduta que procura nos padronizar na forma de agir, de
vestir, de viver e sobretudo de envelhecer. Alias, envelhecer
para a mulher é ainda hoje um ato de ousadia. A tal beleza
é fundamental, foi circunscrita a juventude e estereotipada
em corpos magros e bem torneados. O nosso ser feminino
se transformou num objeto comercial do feminino.
A multiplicidade de beleza que existe nas mulheres foi
encarcerada num padrão no qual um grupo muito seleto tem
acesso. A angústia gerada pelas imposições e cobranças,
criaram uma clivagem em nossa auto-estima, perdemos
horas e rios de dinheiro numa busca incessante para atingir
o ideal estético. Nunca atingimos. Angústia gera angústia
que gera mais consumo de produtos de beleza e estética, de
maneira equivocada procuramos nos recursos externos a
reconstrução da nossa auto-imagem. Mas fazemos através
dos recursos errados, pois é preciso cuidar da cabeça antes
que do corpo.
Você pode estar se perguntando: Meu Deus tudo isso
porque eu disse que beleza é fundamental? É meu caro o
seu ideal de beleza em Receita de Mulher, pega um pouco
pesado. Pescoço longo, extremidades magras, ossos que
despontem, pele e boca fresca, olhos grandes e
enigmáticos, que seja alta (de preferência), que tenha
cintura semovente e as imprescindíveis saboneteiras.
Passei parte da minha adolescência querendo saber o que
era cintura semovente, as saboneteiras só descobri mais
tarde e fiquei feliz em saber que as possuía. Veja ao ponto
que se chega o desejo de corresponder ao ideal de beleza do
outro.
O mundo hoje perdeu um pouco a poesia, anda bastante
literal, precisamos ter cuidado com as palavras mais do que
antes, porque a velocidade da propagação das informações
é alucinante, talvez incompreensível para o seu mundo. A
era digital fez tudo parecer mais rápido, descartável e
paradoxalmente perfeito. As pessoas se expõem com uma
facilidade incrível. Os recursos de correção fotográfica são
tantos que por vezes ou na maioria delas, nem sabemos o
que é realidade ou ficção.
Gostaria de lhe apresentar o nosso submundo, um lugar
onde nós mulheres conhecemos muito bem. Um local
repleto de paradoxos, pois atras do ideal da beleza nos
enveredemos pelos becos de tristeza, pelas ruas da angústia,
atravessamos pontes de insatisfação e nos encontramos
sempre nas encruzilhadas de sacrifícios, que nos ajudam a
moldar o corpo com a esperança de encaixar no manequim
desejado. Mas no mundo real poucas vezes isto acontece.
Será possível alcançar a beleza atravessando caminhos de
adjetivos tão sofridos? Acho que não. Hoje em dia,
Vinícius, os quadros de anorexia e bulimia assombram o
mundo. Muitas mulheres passam fome, e não estou falando
daquelas que pertencem a um estrato social do qual nos
envergonhamos. Falo de meninas e mulheres que
deliberadamente passam fome para que o seu corpo se
ajuste ao padrão esquálido. Acompanhei no Instagram,
depois te explico o que é isso, uma menina de 20 anos,
linda, que estava fazendo tratamento oncológico. Apesar
dos grandes e graves problemas que enfrentava, ela era pura
alegria, escolheu ser feliz. Em tratamento, usando sonda
nosagástrica, impossibilitada de comer e ingerindo pouco
líquido levava uma vida normal, sempre que possível. No
dia em que seu quadro clínico permitiu ela resolveu ir à
praia trazendo a sonda pendurada pelo nariz. Feliz, tirou
algumas fotos agradeceu a Deus e postou no Instagram.
Acredita que esta foto “quebrou a internet”, infelizmente
não foi pela sua manifestação de gratidão a vida, mas sim
pela exposição de seu corpo magro. A própria garota que
era modelo ficou surpreendida com a repercussão, veio a
público dizer às pessoas que elogiaram o seu corpo e
pediram indicação da dieta ou tratamento, que procurassem
ser felizes, libertando se de padrões de magreza. Quase
ninguém percebeu a sonda, quase ninguém deu conta da sua
doença. Aliás, doentio é a forma como se tornou a
perseguição pelo corpo perfeito e pela manutenção da
juventude.
Sabe Vinícius, eu não sou a única que anda procurando se
curar desta neurose, existe um movimento crescente de
mulheres que estão a questionar os padrões estéticos e a
falta de representatividade da pluralidade feminina. Apesar
de ser demasiada dramática em algumas situações, eu
procuro sempre ver o lado bom das coisas. Acredito que
batemos no fundo, e este movimento faz parte de um
processo de cura de nós mulheres.
Concordo com você a beleza é fundamental, não só nas
mulheres, mas em tudo na vida. Ela reside na liberdade, na
diversidade e nas diversas expressões da vida.
DAR TITULO
O Mito da Beleza é um daqueles livros que a gente não
consegue ficar indiferente. Naomi Wolf de maneira
objetiva nos apresenta uma situação bastante paradoxal
sobre a conquista da nossa liberdade e a razão de nosso
aprisionamento. Embora o caminho ainda seja longo e a
batalha diária, nos últimos anos fomos capazes de
ultrapassar as barreiras socias e familiares. Somos mais
instruídas e mais capacitadas para o mercado de trabalho,
ocupamos cargos de grande relevo profissional, mas
estamos cada vez mais presas e dependentes a um padrão
estereotipado de beleza. Uma construção social que nós
inadvertidamente perseguimos como se fosse um desejo
genuinamente nosso. Neste trecho do livro ela descreve um
cenário doentio alimentado por nós.
“ Pesquisas recentes revelam com uniformidade que em meio à
maioria das mulheres que trabalham, têm sucesso, são atraentes, e
controladas no mundo ocidental, existe uma subvida secreta que
envenena a nossa liberdade: imersa em conceitos de beleza, ela é um
escuro filão de ódio a nós mesmos, obsessões com o físico, pânico ao
envelhecer2 e pavor de perder o controle” pag. 12
2
Grifo nosso.
Passaram se 22 anos e o texto permanece atual. Apesar do
mundo ter evoluído tanto, a maneira que nós nos
relacionamos com o corpo e o seu envelhecimento
permaneceram estagnada no tempo. Esta obsessão é
transversal as mulheres, independente de sua escolaridade
ou estrato social. A indústria da beleza e da estética é aquela
que mais cresce, mesmo nos momentos de crise económica,
mesmo nas classes mais baixas. Os dados do IBGE de 2018
mostram que as mulheres brasileiras gastam 1/3 de sua
renda mensal com os cuidados de beleza, na Europa as
mulheres Inglesa, Alemãs e Francesas são as que mais
investem em produtos de beleza e estética. Falando da
minha realidade que é Portugal, por aqui as mulheres
preferiam investir em produtos em cuidados com a pele e
cabelo, mas nos últimos anos esta havendo uma ampliação
no consumo de produtos de beleza. A reportagem do jornal
Expresso elucida que o ambiente digital tem sido o grande
promotor de vendas de maquiagem e afins. As millennials
impulsionadas pelos tutoriais de beleza vem ensinado e
fomentando o consumo destes produtos as mães e avós. A
reportagem elucida um outro aspecto que gostava de
compartilhar e refletir. Segundo diz “O papel ativo da
mulher na sociedade, o crescimento da importância dos
media, o aumento do turismo e das viagens de portugueses
ao estrangeiro permitiram uma maior exposição a outras
culturas, onde a maquilhagem faz parte da rotina diária
feminina”3. O sistema comparativo veio acrescentar ou
aprisionar? Será que nos servimos da indústria da beleza e
da cosmética consciente de nossos desejos e necessidades?
Ou será ela que se serve de nossa fragilidade e de nossa
baixa auto-estima?
Desejamos ser destacados pela nossa singularidade, mas
como podemos deixar a nossa marca no mundo, se estamos
sempre a copiar padrões?
Cris Guerra é para mim uma figura irreverente que
descobriu a famosa “digital”. Ela transita por vários estilos
estando sempre presente o seu ar alegre e extrovertido. Em
seu livro Moda Intuitiva nos apresenta a chave que nos
permite acessar um local pouco visitado por nós.
“A confiança que vem de dentro muda o que você
emite. Mas, antes de mais nada, você esta concentrada
em suas sensações e, principalmente, na satisfação
3
Reportagem expresso: O efeito Baton por Catarina Nunes. Fonte https://expresso.pt/sociedade/2018-
04-21-O-efeito-batom
que lhe deu a certeza de sair com aquelas escolhas. Vá
em frente. Até as celebridades são constantemente
criticadas. (…..) é possível agradar a si mesma
sempre. Pare de se preocupar com o que os outros
pensam.”
A literatura elucida e o meu trabalho com pessoas acima de
60 anos comprova, deixar de se preocupar com a opinião
alheia é o mais difícil e necessário exercício para se viver
melhor com liberdade e autenticidade. As meninas crescem
ouvindo, “tenha modos você é uma menina”, “ao sentar
feche as pernas”, “olha o estado que você chegou da escola,
achas bem para uma menina?”, “menina não diz asneiras”,
“…as meninas são mesmo umas bonecas né? Olhe para
isto”, “linda desse jeito não vai faltar pretende.”, todas estas
frases eu ouvi atentamente, nos parques e praças onde
circulo com o meu filho, seja aqui em Portugal onde vivo
ou no Brasil nos períodos de férias. Frases que eu nunca
ouvi serem pronunciadas por mãe de menino. Observo com
muita frequência as meninas queixarem-se com as mães
sobre as roupas pouco confortáveis para brincar, algumas
recusam se a vestir saias ou vestidos, pois lhes tiram a
liberdade, são crianças que não querem saber de bons
modos, querem se divertir. Nem de longe tenho a intenção
de criticar as mães de meninas, se tivesse uma filha talvez
fizesse o mesmo, o que quero dizer é que muitas vezes nós
repetimos padrões e propagamos preconceitos sem dar por
isso. São estruturas que estão enraizadas em nossa
formação e cultura, e para fazermos diferentes precisamos
estar muito atentas na forma que agimos ou reagimos
diariamente.
Os modelos servem como referência para a construção de
nossa identidade, mas quando se tornam o padrão, estamos
fechando as algemas ao redor dos pulsos. Quanto mais
insegura uma mulher se sente com a sua imagem mais
preocupada com a opinião pública ela se torna. A
vulnerabilidade da situação nos faz recorrer aos tratamentos
estéticos, cirúrgicos e as dietas radicais como solução
desesperada para a angústia de corresponder exatamente ao
padrão idealizado seja por nós ou sobre nós.
Ingenuidade nossa achar que o universo que compõe a
beleza feminina é um assunto das revistas cor de rosa, que
circulam em salões de beleza ou em salas de esperas de
consultório médico. O assunto não pode ser visto como
futilidade, o impacto que ele causa em nossas vidas precisa
ser analisado e refletido. A falta de uma discussão profunda
e honesta tem provocado muita mutilação e dor tanto na
alma quanto no corpo. Há 18 anos acompanhei a distância
um caso clínico conduzido por uma terapeuta minha amiga,
que me causou profunda comoção. A sua triste história
ilustra como a objetificação em torno da beleza vem
adoecendo a todos nós.
Ana4 uma menina linda, muito alta e esguia, o seu biótipo
correspondia aos das famosas modelos de passarela. Era a
filha mais velha de uma família de classe média alta, criada
num ambiente onde a sua beleza tinha um destaque
especial, cresceu ouvindo que seria a próxima modelo
brasileira de sucesso. Mas este não era o seu sonho. Ana
fazia ballet desde os 3 anos, e esta era a sua verdadeira
paixão, sonhava conhecer o mundo pelas pontas dos pés.
Aos 11 anos de idade ela menstruou e o seu corpo começou
a ganhar formas, estas alterações foram confundidas por
grande parte das pessoas como ganho de peso. Em terapia
ela relata que a sua professora de ballet havia lhe
repreendido, disse que se ela quisesse ser uma profissional
4
Nome fictício.
da dança deveria se preocupar com o seu corpo, porque toda
bailarina era magra.
Ana que estava acostumada a receber elogios e vénias pela
sua aparência física, começa a sentir-se pressionada pelos
comentários ou repreendas sobre a mudança corporal. Na
verdade, ela não tinha engordado, a atuação dos hormônios
é que davam novas contornos ao seu corpo de menina.
Angustiada ela procura na internet informações que a
ajudasse na perda de peso. Reduz drasticamente o seu
consumo alimentar e passa a ingerir aboboras em todas as
refeições, pois tinha lido na internet que era um alimento de
baixa caloria. Os pais observaram a alteração de seu padrão
alimentar, mas atribuíram isto a um comportamento típico
de adolescente. A minha amiga se deparou com uma
menina muito fragilizada, angustiada pelo medo de não
realizar o seu sonho por estar fora do padrão. Uma menina
que mal tinha saído da infância e já era confrontada com as
cobranças que são construídas em torno do corpo de uma
mulher. Infelizmente a minha amiga foi chamada tarde
demais para intervir e Ana acabou por falecer.
Quantas Anas ainda existem? Quantas já tiveram suas vidas
interrompidas pela pressão? Quantas Anas atingem a meia
idade angustiadas com as alterações que surgem em sua
aparência e com o seu corpo? Quantas Anas deprimem por
sentirem se arremessadas para o campo da invisibilidade
social, quando atingem a meia idade? Passamos a metade
da vida em busca de um corpo magro e perfeito, depois
perdemos a outra metade correndo atrás da juventude.
Coisas de mulher? Será? Esta é a resposta mais superficial
para uma questão tão complexa que se ouve por ai. Não
acredito que o cromossoma X a mais que possuímos nos
faça ser tão masoquista ou insatisfeita com a nossa
aparência. A beleza é uma definição construída
socialmente, e por vezes o SOCIAL MENTE.
Éh Vinícius, você deve estar pensando: De onde surgiu
tanta insatisfação? Qual a dificuldade em vestir com alegria
a própria pele? O que anda provocando tudo isso? O
submundo da beleza parece um filme de terror, né? Eu
cresci ouvindo, “mulher para ficar bonita tem que sofrer”
acredita que nunca questionei esta frase, era uma realidade
que aos 11 anos eu havia experimentado com a depilação.
Somente muito mais tarde através do estudo sobre a beleza
e o envelhecimento, comecei a desenvolver um olhar mais
crítico sobre o assunto. Neste momento há muitos grupos
questionando formas e padrões de beleza: @garbindaiana
que trabalha a ressignificação do olhar sobre o próprio
corpo, @cool50 procura dar visibilidade a beleza feminina
após 50 anos, @it-avo vem mostrando ao mundo que as
vovós, estão mais vivas do que nunca, @asperennials
quatro mulheres que discutem na primeira pessoa os
conflitos e as descobertas decorrentes das mulheres acima
dos 40 anos, @shetalks abordam sexo, beleza, saúde e estilo
de vida nas mulheres 40+60- e tem eu @patriciawmarques
que venho procurando refletir e desconstruir os monstros
sobre o envelhecer. Vinícius vou deixá-lo refletir um pouco
sobre tudo isso, porque a minha conversa agora é com elas.
De mulher para Mulher
Talvez você esteja pensando: “Não exagera isto são casos
extremos, meu corpo minhas regras” Será? Se você já
conseguiu se libertar, ótimo. Mas saiba que pertence a um
nicho muito específico de mulheres. Convido a continuar a
ler este livro para perceber como você e sua experiência
podem contribuir para melhorar a vida de tantas outras. Mas
se você, assim como eu, esta em processo de transformação,
segura a minha mão ou as minhas palavras e vamos refletir
juntas.
Discutir sobre a beleza feminina no século XXI, deveria ser
tão démodé (quanto o uso desta palavra, numa narrativa da
língua portuguesa), mas nunca foi tão atual e urgente.
Necessitamos avaliar o que nos leva a perseguir padrões
físicos e estéticos, que na maioria das vezes não se
encaixam ao nosso biótipo. Porque alimentamos
comportamentos que nos escraviza e torturam?
O caso exposto aqui destas duas meninas nos mostra uma
sociedade neurotizada, que se movimenta reproduzindo
estereótipos e padrões sobre os corpos e a passagem do
tempo, principalmente em torno das mulheres. Se não esta
convencida, pergunte para suas amigas qual é o seu padrão
de beleza masculino.
Foi exatamente esta pergunta que eu fiz a 100 mulheres,
entre brasileiras e portuguesas, de uma faixa etária bastante
alargada, dos 20 aos 75 anos. A maioria revelou uma
dificuldade inicial em definir um padrão: “puxa que difícil,
nunca pensei sobre isso”, “acho que não tenho um padrão”,
“padrão de beleza? Sei lá se tenho um para os homens”.
Curiosamente o ideal de beleza masculina para as mulheres
transita entre as qualidades relacionadas a aparência e o
comportamento.
Pela imagem corporal não conseguimos traçar um perfil
pois as respostas foram bastante diversificadas.
Entretanto pelas qualidades comportamentais apresentadas
o padrão de beleza masculino seria definido por um homem
“educado, gentil, carinhoso, inteligente, sincero, bem-
humorado, independente, trabalhador e que saiba
compartilhar as tarefas domésticas”.
A seguir fiz a mesma pergunta, mas agora sobre o padrão
de beleza feminina, de imediato surgiram repostas, mas
poucas incluíram os aspetos comportamentais. Para as
entrevistadas a mulher padrão seria; “Magra, alta, pernas
bem torneadas, cintura fina, barriga chapada, bumbum
arrebitado.” A expressão bem torneada apareceu inúmeras
vezes. Pela descrição a mulher que existe no ideal feminino
não se encontra nem nas passarelas, e dificilmente será
representada por uma mulher que já tenha sido mãe ou que
tenha passado dos 40 anos.
Apesar de nossa amostra ser pequena, os indicativos nos
mostram como somos complacentes com o homem e
rigorosas com as mulheres. A beleza da mulher esta restrita
ao corpo, enquanto na dos homens ela adquire um horizonte
mais abrangente. Os sinais dos tempos como os cabelos
grisalhos, chegaram a ser mencionados como um atributo
de beleza e charme masculino, o mesmo não se verificou
nas mulheres.
O mais interessante é que os achados desta amostra vão de
encontro aos estudos de Brené Brown sobre a teia de
vergonha feminina. A autora identificou 12 áreas
causadoras de vergonha nas mulheres entre eles aparência,
imagem corporal e velhice, ou seja, “depois de todo esse
despertar da consciência ainda sentimos vergonha de não
sermos magras, jovens ou bonitas o bastante.”
Porque nós mulheres não temos um padrão de beleza
masculino? Porque ao nos avaliarmos mantemos o foco no
corpo? Será que esta construção é do feminino, ou vem
sendo construída para e no feminino? A quem interessa esta
concepção psicológica que reduz a nossa beleza ao corpo?
Preconceito, alimentamos o monstro que nos engole
mais tarde.
Ao longo da vida vamos nos aprisionando em mitos
estéticos e estereotipados, e com ele surge o preconceito.
Um bichinho danado que nos invade por todos os lados, ele
aparece nos locais e momentos mais inesperados e por
vezes inoportunos. Mas o pior, é que acolhemos o bichinho
e damos espaço para que ele se reproduza, e olha que o
danado é rápido na reprodução. Depois de nos ter tomado
por completo passamos o bichinho adiante que segue
contaminando as novas gerações. Em algum momento de
nossas vidas nos damos conta da contaminação e
percebemos a necessidade de expulsa-lo de nós. A partir
deste momento toda atenção é pouca, porque ele surge nas
piadas, nos provérbios, na maneira como educamos nossos
filhos ou filhas, e principalmente no automatismo de nossas
reações ou ações.
Eu nasci contaminada. Adélia Prado parafraseando Carlos
Drummond escreveu sobre o nascimento da mulher
“Quando eu nasci um anjo esbelto desses que tocam
trombeta anunciou”. Mas no meu caso Drummond parece
ter adivinhado o início de minha trajetória “quando nasci
um anjo torto desses que vivem na sombra disse” vai
Patrícia, enfrentar o ideal de beleza da sua família e da
sociedade, vai desconstruir preconceitos e mostrar que a
beleza esta na pluralidade. Assim começa a minha
passagem por este planeta, nasci morena, magra, comprida,
olhos negros e marcantes, muito cabeluda de pelagem preta,
densa e anelada uma típica descendente de libanes, muito
longe do que a minha família de descendência germânica
desejava. Eu uma menina numa família de 20 meninos,
justo a menina não era loira nem tinha olhos azuis. Dois
anos e meio depois veio meu irmão, este sim, um legitimo
ariano.
As comparações físicas entre eu e meu irmão foram
inevitáveis ao longo de toda infância e adolescência. Ouvi
coisas tão cruéis, ditas por pessoas de nosso convívio, por
vezes penso em como somos distraídos no uso da palavra,
falamos sem filtro, opinamos sem sermos questionados e
não damos conta de como o bichinho do preconceito se
instala provocando comparações e julgamentos que podem
impactar cruelmente as pessoas. Lembro-me de chorar
sozinha, no fundo do quintal, dizendo a mim mesma que
quando crescesse me tornaria loira e usaria lentes de contato
azuis. Acreditava que aquilo seria a minha vingança.
Inocente! Mal sabia que estava me enveredando por um
caminho muito perigoso. Responder ao ideal de beleza do
outro, antes que ao meu próprio. Meu corpo sofreu todas as
consequências desta tentativa, engordei para agradar e não
gostei do que vi, a partir dai entrei numa eterna insatisfação
com a minha imagem, que a mim parece deformada no
espelho. Sou da primeira geração da novela Malhação e da
série Barrados no Bailes, e nesta época as meninas como eu
de cabelo ondulado, crespo ou anelado, não tinha sua
representatividade. Ouvi vezes sem conta das pessoas que
mais me amam frases do tipo “oh dó, justo a menina nasce
com cabelo ruim, devia ser liso como o do irmão.”, “estica
o cabelo dela”, “nossa quanto cabelo, vai ter trabalho a vida
inteira par domar a juba”, “de onde foi que ela foi buscar
esse cabelo”. As angústias geradas pelas críticas
relacionadas ao meu cabelo, aliadas as precipitações típicas
da adolescência, levara-me aos 17 anos a alisa-lo
contrariando os conselhos de profissionais sérios e
competentes. As escondidas recorri a um cabeleireiro
inconsequente que aplicou um produto inapropriado ao meu
tipo de cabelo, resultando numa perda irreversível de 60%
dos fios capilares. A minha sorte é que eu era irmã gémea
do capitão caverna, perdi muito cabelo, mas fiquei com uma
quantidade compatível com a normalidade.
A minha auto-imagem foi construída entre aquilo que eu era
e aquilo que deveria ser, agora na adolescência da velhice
estou conseguindo ressignificar estes conflitos.
Porque eu estou falando tudo isso aqui? Acho que foi este
desconforto e esta cobrança que me levou a desenvolver um
interesse e um olhar diferenciado sobre a beleza,
especialmente das pessoas mais velhas.
Lembro-me de ouvir por diversas vezes “nossa ela
envelheceu tanto, quantas rugas.”, ou, “viu só? ela tá feia,
esta velha”. Comentários estes que eram dirigidos sempre
às mulheres. Como não tinha referência destas pessoas
quando jovens, olhava e as via bonita, achava harmonioso
o conjunto, e a falta de um padrão de comparação me
permitia observar a beleza que existia para além dos
detalhes que paralisavam o olhar das pessoas. A minha avó
materna desde cedo tornou se para mim um referencial de
beleza e elegância. O seu desejo de vida, de conhecimento,
sua adaptação aos tempos modernos o seu conjunto foi
sempre encantador. No Brasil na década de 80, as avós
habitualmente usavam vestidos florais, ou saias midi com
anagua e camisa, o típico uniforme das vovós. Roupas que
as tornavam seres doceis e angelicais, desprovidas de
sexualidade e sensualidade, que as atiravam para o campo
da invisibilidade social. Eram raras aquelas que usavam
calças. Mas a minha avó usou. Lembro-me de vê-la chegar
em minha casa com uma calça de corte clássico, cor de
salmão, camisa branca, colar camafeu e seu tradicional anel
de pérola, adorno que mais tarde foi herdado por mim.
Estava linda fiquei tão encantada com a sua nova forma de
vestir, que quis saber o porquê e como ela se sentia.
Estranha curiosidade para uma menina de mais ou menos 7
anos, mas se considerarmos a minha biografia, percebemos
que a vida é uma grande quebra-cabeças que nos faz ir a
procura das peças.
A minha avó não foi a única figura que deliciou o meu
olhar, sua irmã mais velha uma mulher pequena, elástica,
dona de uma lucidez, crítica e conhecimento sobre o mundo
incríveis. Um dia revelou a mim que seu grande sonho era
ser engenheira civil, adorava o cheiro de cimento molhado,
de ver as paredes ganhando formas, mas era um sonho
grande e ousado demais para uma mulher da sua época. Ela
e o marido construíram um pequeno condomínio em Belo
Horizonte, aonde residiam e ela era responsável por todas
as reformas que eram necessárias neste espaço. Assim, ia
realizando parte do seu desejo, tendo contato com o que
mais gostava. Presenciei uma cena em sua casa, que para
mim transformou-se num clássico dos colecionadores.
Fomos numa tarde de sábado visita-la, nesta altura deveria
ter uns 80 anos, a encontramos em cima do telhado,
discutindo com o pedreiro aonde deveria estar a telha
quebrada. Ela uma mulher pequenina, magra inspirava uma
falsa fragilidade, pois na verdade ela tinha a elasticidade e
a agilidade digna de uma professora de yoga. O pedreiro
que já era quase da família, estava desesperado temia uma
possível queda, quanto mais ele se preocupava mais ela se
irritava. Com uma destreza invejável, desceu sem auxílio,
mas somente depois dele ter prestado atenção a sua
informação. Embora ela usasse os tradicionais uniformes
das avós, trazia na alma as cores de Frida Kalo e a
irreverência de Iris Apfel.
Destas duas mulheres, tão diferentes na maneira de se vestir
e de lidar com a beleza, herdei a capacidade de ver o
envelhecimento para além dos estereótipos. Elas ensinaram
me que a vida deve ser vivida sem cerimónias e sem rótulos,
que a beleza é um conjunto harmónico entre a atitude e o
físico, e isto acabou por se refletir no meu trabalho.
O que vem a ser o envelhe(ser) feminino
Pois é Vinícius a liberdade de pensar, agir e viver é um dos
bens mais sagrados do qual nunca deveríamos abrir mão.
Mas os homens são os que melhor usufruem deste bem, a
vocês é dado a total liberdade para envelhecer. Os cabelos
brancos ou a falta deles, as rugas ou manchas senis não
parece incomodar a sociedade. Mas vai uma mulher
envelhecer e tudo passa a ser vigiado e discutido. Se ela
decide deixar os cabelos brancos, precisará de doses extras
de paciência para ouvir a metade do mundo a questionar sua
aparência: “é sinal de desleixo”, “que horror parece mais
velha do que é”, “ela não deve estar bem”, “e se fizesse
umas madeixas, não ficava melhor”, essa opressão é uma
pequena amostra do que ela irá enfrentar sem se quer pedir
opinião.
Hoje em dia existe detox e botox para tudo, o pânico de
envelhecer é tanto que muitas meninas na casa dos 20 anos
se submetem a estes procedimentos para barrar o tempo.
Ah, o tempo este nosso amigo inexorável que é visto como
nosso arqui-inimigo. Não vejo mal nenhum em utilizar dos
recursos existentes para se sentir bem e mais confortável
com a própria pele. Mas o que presenciamos é uma busca
frenética e massificada pela corrida contra o tempo. É tão
cansativo lutar contra algo que vai fatalmente nos vencer. E
essa luta é feminina.
Nós mulheres temos uma metrônomo5 biológico, é ele que
define a nossa passagem pelo tempo, neste caso é o sangue
e os seus hormônios. Quando ele chega a menina vai se
transformando em mulher, e quando diminui de frequência
ou intensidade, simbolicamente desperta a mulher para o 3º
ato da vida, o envelhecer. Ok ninguém se torna idoso por
volta dos 40 anos, mas a perimenopausa nos apresenta o fim
de um ciclo, ainda que seja apenas o reprodutor. É nesta
fase que entramos na segunda adolescência, mas agora a da
velhice.
São fases igualmente conturbadas marcado por conflitos de
ordem física e emocional e que demandam muita
capacidade de adaptação.
5
É um aparelho que através de pulsos (sonoros) de duração regular, indica um
andamento musical.
Veja as semelhanças:
SINTOMAS6 ADOLESCENCIA ADOLESCENCIA DA
VELHICE
ALTERAÇÕES Produção de hormônio Produção de hormônio cai
HORMONAIS aumenta drasticamente
ALTERAÇÕES NO Aumento de gordura no Aumento da cintura e dos
CORPO bumbum e no quadril. braços
Pêlos pubianos Tendência a quebra e perda de
engrossam cabelo
Aumento da oleosidade: Perda de elasticidade da pele
aparecimento de cravos e
espinhas
HUMOR Alterações de humor Alterações de humor
CONFLITOS Criança demais para Nova demais para umas coisas
ETÁRIOS umas coisas e crescido e velha demais para outras
demais para outras
Crise da Urgência
O tempo é cruel e nos cobra muitas vezes caro demais pela
nossa falta de presença no presente. A gente pode se
reinventar o tempo todo, mas há certas coisas que parece ter
um tempo certo para acontecer. Se por falta de presença
6
Fonte: site globo programa Bem-estar
deixamos de vive-las correr atrás do prejuízo vai exigir
doses extras de energia.
Estamos habituados a passar por crises existenciais desde a
primeira adolescência, e talvez seja justamente esta a fase
que mais conhecemos os sintomas e as dificuldades. Mas
sobre a adolescência da velhice pouco se fala, ela inicia-se
por volta dos 40 anos quando começamos a fazer um
balanço entre aquilo que idealizamos e aquilo que
construímos. É a famosa expectativa X realidade, homens e
mulheres passam por esta fase, mas nas mulheres em
virtude da menopausa esta crise parece aumentar de
proporção. Pensar no fim de um ciclo, ainda que seja apenas
o reprodutor, nos faz equacionar a vida e o seu termo. A
famosa meia idade, meio de quê? Não sabemos ao certo se
estamos a meio do caminho ou próximo do fim. Não
sabemos quando deixaremos de existir, e esta lembrança
nos leva a crise da urgência. De repente a gente é tomado
por uma necessidade absurda de realização, nesta altura
muitos casamentos são desfeitos, alguns mudam de
profissão, reavaliam e/ou mudam hábitos de vida. É a
certeza de que amanhã pode ser tarde.
Se você passou por esta crise e não mudou nada, esta tudo
bem também. Nem todo mundo sente necessidade de alterar
o rumo da vida, ou tem condições para fazê-lo, mas
ninguém passa indiferente a esta fase. Se você é mais velha
e acha que não passou por ela, devia estar muito distraída
ou ocupada demais para perceber as alterações de humor e
a insatisfação gerada pelo processo.
As mulheres com quem trabalho e tem mais de 70 anos não
se lembram ter passado por esta fase. Entretanto, numa
conversa mais aprofundada descobri que a vida
matrimonial e/ou profissional destas senhoras tinha
começado mais cedo, e no meio da crise elas estavam mais
ocupadas do que nunca com as demandas familiares:
casamento de filhos, cuidando dos netos ou pais adoecidos.
Tradicionalmente as mulheres cuidam de toda a gente, mas
são as últimas a serem cuidadas. A falta de tempo para si
não permitiu uma avaliação sobre a vida que estava sendo
construída. Para elas este olhar só foi possível mais tarde
quando a família se tornou mais independente. O desejo de
viver novas descobertas, de ressignificar sonhos
esquecidos, de dar vida aos anos as fez procurar por grupos
como os da Universidade Sénior. Nestes espaços
compartilham suas histórias, seus conflitos, suas
frustrações, falam dos sonhos esquecidos, da dificuldade
em lidar com o envelhecimento e das cobranças sociais.
Acolhem e são acolhidas, ensinam e aprendem, percebem
que por mais diferente que tenha sido a trajetória de cada
uma delas, a expressão da vivencia do ser feminino nos
aproxima mais do que somos capazes de imaginar.
No livro “Mulheres não são chatas, mulheres estão
exaustas” Ruth Manus traz várias reflexões sobre as
exigências pessoais e sociais que recaem sobre nós,
mulheres. Não importa a idade, o estrato social ou a
profissão estamos todas submetidas as mesmas “regras”.
A modernidade nos trouxe novas responsabilidades que
aliadas as velhas nos deixam ainda mais sobrecarregadas. É
de loucos a pressão que sofremos para dar conta de tudo na
perfeição e ainda manter se jovem, magra e bonita. Magra
e bonita podemos até conseguir manter, sabe lá Deus a que
custo, mas será possível manter se jovem? Como não entrar
em crise?
Um estudo realizado pela Universidade de Warwick, na
Inglaterra, acompanhou 50.000 adultos residentes em
diferentes países. Alemanha, Austrália e Grã-Bretanha.
Através de um questionário os pesquisadores queriam
perceber como era o grau de satisfação da pessoa com a
própria vida ao longo dos anos, uma espécie de medidor de
felicidade ou satisfação. Este estudo revelou a famosa curva
U da felicidade, ou seja, nós começamos a vida num estado
de bem-estar, este vai diminuindo com o passar dos anos,
tem o seu ápice de insatisfação por volta dos 45 anos, e
retoma o seu crescimento atingindo o seu ponto alto aos 70
anos. Os pontos mais baixos encontram-se nos períodos de
transição, de reavaliação da nossa vida e do possível tempo
que nos resta, ou seja, fase da adolescência da velhice.
Viver no limbo é muito mais difícil, requer de nós uma
grande capacidade de ajustamento. E como se não bastasse
todos os conflitos a preocupação com a aparência ganha
uma maior dimensão na vida da mulher.
Acredito que dentro de poucos anos esta curva sofrerá uma
alteração etária, estamos vivendo um período de transição
onde o Ser velho e a sua forma de relacionar com o mundo,
vem sendo questionada. E neste sentido os pontos mais
baixos de insatisfação, ou seja, o momento de transição,
pode vir a acontecer em idades mais avançadas. Atrevo-me
a dizer que esta será uma característica marcante associada
a 3ª fase da vida, trazendo a consciência de nossa finitude,
nos alertando para a necessidade de reconexão com o
presente.
Estética do Envelhecimento
A invisibilidade social é um termo que conhecia bem
trabalhando na saúde mental, a desordem psíquica e a
possibilidade de ocorrência em qualquer um de nós, causa
estranheza e desconforto o que levam muitas pessoas a
excluir ao invés de acolher e auxiliar. O que eu não
imaginava é que esta invisibilidade atingia também a uma
parcela saudável da população que tinha tido a audácia de
envelhecer.
Acompanhei em consultório uma mulher de 75 anos,
professora reformada proveniente de uma classe média alta.
Com muita tristeza ela me relatou que a grande dificuldade
em envelhecer foi torna-se invisível, “posso mudar o corte
do cabelo, modificar a maquiagem, mudar até o meu estilo
de vestir, que quase ninguém nota. Os que fazem o favor de
me enxergar dizem logo, nossa como você esta bonita, esta
mais jovem. Eu não quero parecer mais jovem, quero estar
bonita. Por vezes nem da vontade de me arranjar. Eu me
arranjo para mim, mas também é para os outros. E quando
não há o outro…” MH.
Nesta mesma época Vinícius uma figura pública brasileira
de 66 anos, que você deve ter conhecido muito bem,
estampava de biquíni as capas das principais revistas e
jornais de Portugal. Ao mesmo tempo que tinha a sua beleza
exaltada, muito se questionava sobre os possíveis recursos
que ela deveria utilizar para manter a jovialidade. Uns dois
anos mais tarde, uma linda atriz brasileira de 70 anos, que
tinha feito diversos papeis sensuais na TV, foi fotografada
de biquíni na praia. A sua pele revelava a passagem do
tempo e em nada colocava em causa a sua beleza que
permanecia em harmonia com o seu conjunto. Os mesmos
meios de comunicação publicaram a foto tendo como
legenda as críticas que a atriz recebeu por ser velha e usar
biquíni na praia. Infelizmente não houve uma reflexão
coerente sobre os preconceitos acerca do adulto mais velho,
não houve se quer um questionamento sobre usar biquíni na
praia, o que uma mulher mais velha deve usar? Um burkini?
Duas mulheres lindas acima de 60 anos fotografadas de
biquíni, uma elogiada por parecer jovem a outra criticada
por aparentar a idade que tem. Será que a primeira é
considerada bonita pelas características harmoniosas que
apresenta, ou porque se assemelha a estética das mulheres
mais jovens? A beleza é uma construção cultural, pessoal e
universal. Difícil de conceituar e de construir. Porque o que
pode ser admirado por uns pode ser repugnante para outros.
O que tornou-se um ponto de concordância mundial foi
circunscrever a beleza à juventude, logo envelhecer torna-
se repugnante. Vivemos ainda sob uma cultura que
menospreza a mulher, a sua imagem é muitas vezes uma
moeda de troca, um atributo que pode abrir caminhos para
o sucesso e a realização. Esta obsessão pela beleza,
especialmente juvenil, promove um sentimento de
inadequação ao envelhecer em grande parte nas mulheres.
A falta de uma estética própria do envelhecimento as faz
buscar por inúmeros procedimentos estéticos faciais que
vão apagando a beleza natural e singular. Aquela que
caracteriza a cada um de nós.
O que é isso, ficou doida? Não Vinícius, pensa comigo,
existe um padrão estético para todas as fases da vida, menos
para o envelhecimento. Quando admiramos a beleza de um
bebé, não levamos em consideração se ele é ou não careca,
pois sabemos que a ausência de cabelo é uma característica
física comum desta idade. Avaliamos o conjunto se é
harmonioso ou não, e se o bebe é simpático mais bonito o
achamos. Esta flexibilidade no julgamento da beleza é
realizada até a fase do adulto jovem. A partir dai o nosso
olhar é engessado. Perdemos a capacidade de admirar as
pessoas considerando as alterações biológicas inerentes a
faixa etária, o nosso julgamento sobre a beleza da pessoa
mais velha se prende a estética do adulto jovem, um ingrato
sistema de comparação.
Transformamos o nosso senso estético num terrível soldado
pronto para combater a invasão do grande inimigo: o
envelhecimento. Por melhor que seja o arsenal utilizado ele
fatalmente perderá a guerra, o excesso de plástica, ou de
preenchimento vai nos transformando num verdadeiro
avatar. Lembro-me de uma vez estar num restaurante e
passar por mim uma mulher alta, magra, loira um tipo que
não tinha como passar desapercebida. Num dado momento
ela vira-se de frente para mim, tomei um susto tão grande
que as pessoas da mesa ao lado, caíram na gargalhada. A
mulher parecia estar fantasiada para a festa do dia das
bruxas, o seu rosto transfigurado pelo excesso de plástica,
além de tê-la descaracterizado dava mais anos do que ela
tinha. Sim fui pesquisar no google pois tratava-se de uma
figura pública do país que estava. O que está por traz de
tanta plástica? Acredito que muito sofrimento, muita
dificuldade em aceitar a passagem do tempo. Como não
desenvolvemos uma estética de beleza sobre o
envelhecimento, nos agarramos a que temos, a juventude.
Neste ponto Vinícius homens e mulheres estão no mesmo
barco. Se você pensou que mais uma vez o seu género
estava em vantagem, enganou-se. Embora para o homem o
cabelo grisalho seja considerado um charme, a estética do
envelhecimento termina aqui. O famoso “coroa” que esta
na idade do Lobo, que tem aquele sexy apeal pode até ser
grisalho e ter algumas ruguinhas, mas se o seu corpo e o seu
conjunto não se assemelham ao padrão estético de um
jovem adulto ele deixa de ser desejado.
A nossa admiração esta muito atrelada a estética da
juventude, quem nunca ouviu, disse ou pensou: “você esta
tão bonita, nem parece ter a idade que tem” ou “nossa como
ela mantém este corpo com tanta idade”. São elogios
acompanhado de tanto preconceito, que quem os ouve não
deve se sentir totalmente feliz. Criamos uma armadilha para
nós mesmos, porque se tudo der certo vamos envelhecer, e
sofreremos as consequências de nossa ignorância pessoal e
social. Perpetuamos o preconceito nos distanciando cada
vez mais da criação de um conceito estético para o
envelhecimento.
Morando há 13 anos em Portugal eu cheguei a pensar que
por haver muitos idosos na sociedade, as pessoas tinham
uma visão menos preconceituosa sobre a beleza. Mas foi só
aprofundar as relações para perceber que também aqui a
sociedade sofre da mesma dificuldade. As pessoas não são
tão expressivas como no Brasil, nós brasileiras nos
rasgamos em público, choramos, descabelamos pomos pra
fora nossas angústias e seguimos em frente. Foi essa
definição que ouvi de um psiquiatra português. As mulheres
portuguesas são vaidosas, sofrem das mesmas pressões,
lutam com a balança, correm para as academias quando o
verão se aproxima e temem envelhecer. A diferença é que
estes conflitos não são escancarados em praça pública, o
salto agulha incomoda o pé tanto da brasileira quanto da
europeia. Talvez seja esta a explicação para uma questão
que há algum tempo me incomoda. A europa é um
continente envelhecido a olhos vistos, e somente agora
começa a surgir, muito timidamente, artigos em revistas,
sites ou blogues a questionar os paradigmas beleza X
envelhecimento.
Por aqui o assunto gira em torno do aparato social e
terapêutico para dar respostas as vulnerabilidades causadas
pelo envelhecimento biológico. Participei há tempos de um
seminário em quem tive oportunidade de apresentar o meu
trabalho sobre ressignificação da beleza das pessoas de
mais idade, no final da palestra fui interpelada por alguns
ouvintes, ouve um comentário em especial que me chamou
a atenção: “Você trabalha a vida com estas pessoas, a sua
discussão não esta centrada na doença, nem nas possíveis
técnicas para retardar os efeitos vulneráveis do
envelhecimento. Você trabalha com os idosos de um jeito
que retira o peso de envelhecer”. Fiquei a pensar nisto
durante dias, porque esta fala sintetizou todas as outras que
costumo ouvir quando apresento o meu trabalho. É
fundamental desenvolver intervenções sociais, na política e
na saúde que garantam uma manutenção e/ou melhoria da
qualidade de vida dos idosos. Mas a velhice não pode ser
vista apenas sob a ótica do declínio e das perdas, é preciso
vê-la para além da vulnerabilidade fisiológica. Talvez esta
construção ontológica nos condicione a ver nas rugas e nos
cabelos brancos um sinalizador de nossa finitude e isso nos
incomode.
A indústria da cosmética conhece muito bem os fatores
endógenos e exógenos presentes no processo de
envelhecimento e que causam alterações em nosso
organizamos. Nos últimos anos surgiram uma vasta gama
de produtos que prometem minimizar os efeitos do tempo
repondo substâncias que deixaram de ser naturalmente
produzidas ou estimulando a sua produção. Muitos destes
recursos nos permite envelhecer com mais harmonia e bem-
estar, entretanto as suas campanhas publicitárias são
desastrosas, reforçam o preconceito e o estigma sobre o
envelhecer, deixando nos mais vulneráveis, com a sensação
de uma inadequação com a perda de o nosso bem maior, a
juventude.
Trago o colágeno amado de volta, afasto as rugas e
desfaço a flacidez. Pergunte me como?
Quer rejuvenescer 10 anos em 7 minutos? Juro que a frase
não é uma jogada de marketing minha para te prender no
texto. Ela foi retirada de uma campanha publicitária de uma
marca famosa, espero não ser processada de plágio. Ok, se
você não acredita ser capaz de rejuvenescer 10 anos, pode
comprar a outra linha de produtos que promete revolucionar
a genética anti-idade, será que nos colocam no vácuo e
levam-nos para a congelação? Bem, acredito que não usam
formol, já ouvi dizer que existe muita mulher voltando a
deixar as suas madeixas naturais, porque o alisamento com
formol alterou tanto a genética capilar, que ela
simplesmente deixou de existir.
Pesquisei vários comercias de produtos para pele e neles
encontrei tanto na publicidade quanto na rotulagem,
palavras militares incitando a luta contra o nosso grande
inimigo: “creme anti-idade”, “anti-age”,
“rejuvenescedores”, “creme para uma pele radiante e
jovem”, “revitalize sua pele e aparente anos mais jovem”,
“cuidados anti-envelhecimento”. Esses produtos ao nos
oferecer um milagre, nos ajudam a consolidar a crença de
que envelhecer é um fenómeno que nos afasta da beleza. É
uma mensagem nada discreta que nos deparamos
diariamente na televisão, nas revistas e no supermercado.
Se há um lugar que venda produtos de estética, lá estão eles,
a nos lembra que com o passar da idade nos tornamos feias
e desinteressantes. Será possível construir uma estética do
envelhecimento sendo bombardeada constantemente com
campanhas publicitárias que incitam a apagar as
características naturais do tempo?
A Dove em 2007 foi pioneira e mudou o “anti-age” para
“pro-age”, no mesmo ano em Londres a Adverising
Stantards Authoritary recomendou que as marcas de beleza
procurassem utilizar expressões mais positivas nas
publicidades de seus produtos. Nos últimos 13 anos a
indústria da beleza ampliou sua oferta de produtos e
serviços para atender a demanda das pessoas acima dos 40
anos, trata-se de uma estratégia de mercado, pois o
envelhecimento mundial já é um fato. Os dados da ONU de
2019 nos mostram que pela primeira vez na história o
número de pessoas acima de 65 anos foi maior do que
crianças abaixo de 5 anos.
As modelos de mais idade têm sido novamente contratadas
para as campanhas publicitarias, porém, o ponto central
continua a ser combater os sinais do envelhecimento.
No Brasil já existe uma expressiva população prateada, que
vem utilizado, especialmente do instagram, para questionar
a rigidez dos padrões de beleza, discutir sobre os
preconceitos e estereótipos construídos sobre as idades e
que não representam as pessoas mais velhas da atualidade.
Consumidores mais críticos e exigentes impulsionam a
indústria da moda e da beleza a dialogar com a diversidade,
promovendo mudanças.
Há um crescente grupo de mulheres entre elas algumas
figuras públicas e celebridades que tem assumido os
cabelos brancos. São mulheres jovens, arrojadas,
conservadoras, elegantes, sensuais, despojadas, mulheres
de vários estilos que nos mostram diariamente como é
possível conciliar sensualidade e beleza com mais idade.
Presenciamos a construção de uma estética do
envelhecimento que passa pelos cabelos brancos. Um
movimento muito importante porque dá identidade ao
adulto que envelhece fugindo ao estereótipo. Quanto mais
representatividade, e mais ampla for a estética do
envelhecimento, menos presa ficaremos a estética da
juventude. Entretanto, quando leio nas revistas que o cabelo
branco agora é moda, que as mulheres não devem ficar
presas as químicas das tintas, receio que estejamos a
construir uma nova cela ao invés de abrir a porta da gaiola.
Somos seres múltiplos, de beleza singular, e é nisto que
devemos nos concentrar. A cada mulher deve ser dado o
direito de expressar o seu SER que envelhece de acordo
com o seu desejo e com o seu senso estético, sem
aprisionar-se a um modelo
Envelhecer não é um processo fácil, muitas vezes nos
olhamos no espelho e percebemos que a imagem parece não
condizer com a juvenilidade de nossa alma. É uma espécie
de imagem deformada no espelho. Observamos lentamente
alterações por todo o rosto. Linhas de expressão mais
acentuadas, o aparecimento de olheiras até mesmo para
aqueles que nunca tiveram, o terrível bigode de chinês que
nos deixa com cara de Bulldog Francês, e o famoso código
de barras estampado bem a frente de nosso rosto nos
lembrando de nosso prazo de validade. Após a menopausa
perde-se cerca de 20 % do colágeno, perde-se elasticidade
e ganha se rugas e flacidez. Cortou os pulsos? Calma a
natureza é sábia, o processo de transição é lento vamos
reaprendendo a nos olhar. Quem chega despreparado ou
muito viciado na estética da juventude, vai sofrer muito
mais para se aceitar. Todo processo de transição é difícil,
mas muito construtivo pois a gente se redescobre, amplia o
nosso olhar sobre a vida e sobre nós.
A Costanza Pascolato é uma de minhas musas inspiradoras,
a maneira suave, bela e elegante em que ela transita sobre a
linha do tempo torna-se para mim uma fonte de inspiração.
No programa Roda Viva de janeiro de 2020 ela disse “eu
sou da resistência, e para ser resistente você tem que ser
diplomático”, esta deve ter sido a fórmula que ela usou para
lidar com as transformações causadas pelo tempo. Não
entrou na guerra contra o envelhecimento, pelo contrário
com parcimónia utilizou a seu favor os recursos estéticos
que dispunha. Ela compreendeu que os detalhes nos
aprisionam e que o conjunto nos liberta, quando em seu
livro A Elegância do Agora nos diz “Não fico pensando no
envelhecer, me martirizando, controlando os sinais,
pesquisando ruguinhas em volta dos olhos, da boca, de
todos os lugares possíveis onde as rugas nascem, e a pele
cai. Eu não. Vou cuidar do que tenho de melhor e me
interessar por tudo”
A própria Costanza já disse que o processo não foi fácil,
mas ela escolheu se libertar foi cuidar da saúde mental e
ampliou o seu olhar. Acredito que falte isto em nós.
Cuidados dos cabelos, mas não da cabeça. Gastamos rios de
dinheiro com roupas e maquiagem, mas achamos caro
gastar em terapia. Neste mundo de opressor e massificado
que nos deparamos ao nascer, é muito difícil conseguir ser
autêntico mantendo a lucidez em nossas escolhas e desejos
diariamente. Nos comportamos como cachorro louco
correndo atrás do próprio rabo, e não é refugiando em
compras e em procedimentos estéticos que nos
descobrimos. É preciso olhar para dentro, cuidar de nossa
saúde emocional, independente do recurso terapêutico, o
importante é saber onde se encontra a cabeça e o rabo para
conseguir prosseguir. Contar com a ajuda de um
profissional para nos guiar nesta descoberta ou reconexão é
fundamental quando o conflito aperta.
Esta neurosa fóbica sobre o envelhecer e ser “imperfeito”
vem provocando um processo de autodestruição das
meninas às mulheres mais velhas, todas se mutilam em
busca de um corpo e rosto perfeito. Muitas se tornam a pior
versão de si mesma, que nada faz lembrar a sua versão
original.
Venho acompanhado o trabalho de alguns profissionais da
saúde e da estética: cirurgiões plásticos, maquiadores,
cabeleireiros, educadores físicos observo um discurso
comum entre eles ao falar sobre a beleza feminina,
especialmente para aquelas que tem mais de 40 anos. Todos
falam sobre a importância de se construir uma beleza
harmoniosa e mais natural, utilizando dos recursos estéticos
de maneira criteriosa, realçando os pontos fortes e
marcantes de cada um e atenuando aqueles que causam
desarmonia com o avançar da idade.
No meu entendimento estes profissionais estão nos
convocando a ver a beleza do agora, na harmonia na
naturalidade, sem comparações ou julgamentos. E não é
isto que fazemos ao admirar a beleza dos bebés?
Esse diálogo esta apenas começando a nossa guerra não é
com o envelhecer, e sim com o nosso arqui-inimigo o
preconceito acompanhado de seus soldados estereotipados.
Auto estima um projeto em construção.
Não podemos negar que a beleza tem um valor financeiro e
emocional. Faz parte da construção de nossa autoestima e
esta diretamente ligada a aceitação de nossa imagem, se
traduz na maneira como nos relacionamos conosco, com as
pessoas e com o mundo.
Os conflitos que surgem inerentes a passagem do tempo nos
incita a revisitar o nosso quarto do pânico, aquele
compartimento emocional onde vamos depositando sonhos,
crenças, preconceitos, frustrações, projetos não resolvidos
entre outros. Chega um momento que não da mais para
postergar a arrumação, nestas horas nos deparamos com
quinquilharias emocionais que fomos acumulando ao longo
da vida sem avaliar se era necessário ou não, impulsionados
pelos padrões e demandas sociais.
No meio de tanta coisa sem necessidade percebemos como
andamos distraídos de nós mesmos e de nossos desejos. É
preciso calma e coragem para avaliar e reavaliar a forma
como vivemos, entender quais são as nossas reais
convicções, os nosso anseios e desejos, compreender de
onde veio os nossos preconceitos como eles foram
alimentados ao longo da vida e identificar o caminho que
desejamos percorrer. É realizar a famosa separação do joio
e do trigo e estabelecer prioridades.
O exercício da autorreflexão deveria ser uma disciplina
curricular nas escolas. Esta prática nos ajudaria a ter
presença no presente, estaríamos em harmonia com os
acontecimentos de nossas vidas, seriamos mais autênticos e
felizes. Somos induzidos a ter e não a ser, parece uma
retórica esta frase, entretanto observo que ela vem
incomodando muita gente e incomoda muito mais as
pessoas quando envelhecem. Observo as reflexões do meu
grupo na Universidade Sénior sobre a perda de tempo com
supérfluos, a supervalorização com coisas que não fazem o
menor sentido e a dificuldade que tiveram em manter se
atento no que era estritamente necessário. Poupariam
tempo, dinheiro, sofrimento e estariam mais conectados
com a vida e com as pessoas que lhes são mais caras.
Como já disse Francisco Xavier “ninguém pode voltar
atrás e fazer um novo começo, mas qualquer um pode
começar agora e fazer um novo fim”.
Qual é a cor da velhice?
Em 2007 quando me mudei para Tondela, fiquei impactada
com as mulheres de preto que circulavam pelas aldeias e
cidade. Vestidas de preto dos pés a cabeça transmitiam a
tristeza de uma alma encarcerada num corpo a espera da
morte. Soube mais tarde que tratava-se de uma tradição
religiosa vinculada ao processo de luto. Depois da viuvez
homens ou mulheres abandonavam as cores e o preto
passava a fazer parte do seu vestuário. Como a expectativa
média de vida é maior entre as mulheres, elas sobressaiam
neste cenário desprovido de cores.
Confesso que as imagens delas me impactaram tanto quanto
as mulheres de burca que tive a oportunidade de ver nos
Emirados Árabes. Duas culturas distintas onde a religião e
a pressão social impunham regras as mulheres nem sempre
condizentes com suas crenças ou valores.
Recordo-me de ser confrontada, há alguns anos, no meu
local de trabalho, por uma menina de 5 anos que me fez uma
pergunta bastante surpreendente:
-“Ei mostre-me suas mãos”. Eu mostrei.
Em seguida diz: - “Você é viúva?”.
Sem entender direito o motivo daquela pergunta,
questionei, ao que me respondeu:
- “Você esta toda de preto, e lá na aldeia as velhinhas é
quem vestem preto. Mas sua mão não tem ondinhas, e seu
rosto não é de velhinha. Então você deve ser viúva, porque
as velhinhas viúvas é que se vestem de preto”. Envelhecer
para aquela menina seria perder as cores ou estar sozinha?
O pensamento concreto dessa criança fatalmente cederia
lugar ao abstrato se o comportamento da sociedade não
mudasse, mas mudou. Hoje raramente vimos pessoas
enlutadas até a morte.
Acredito que este cenário que acabei de descrever
contribuiu para reforçar a ideia de que na velhice perde-se
as cores, os afetos, e que a doença e a decrepitude passam a
fazer parte da vida. Não restando muito mais ao idoso além
da espera resignada da morte.
A construção conceitual sobre a velhice esta muito atrelada
as nossas experiências pessoais. O convívio com os nossos
avós é o primeiro contacto com esta fase da vida, quando
criança são eles a nossa referência de idoso. Se você teve a
oportunidade de conviver com avós dinâmicos, que
mantiveram se atualizados e que adotaram uma postura de
proatividade diante do envelhecimento, mesmo que eles
venham a padecer de alguma incapacitante inerente ao
processo, provavelmente as lembranças mais marcantes
serão aquelas que te remete a afeto e a vida. Mas se os seus
avós adotaram um comportamento saudosista,
poliqueixoso, não se adaptando as transformações do
tempo, provavelmente você vai ter ou teve muita
dificuldade em associar o envelhecimento a um processo
natural com perdas e ganhos.
O acompanhamento gradativo do envelhecimento de
nossos pais é o segundo momento marcante de nossa
experiência com o envelhecer. Um processo difícil, pois,
nos remete constantemente com a possibilidade da perda.
Transitamos emocionalmente entre as lembranças da
infância e da figura forte e invencível de nossos pais, com
a realidade do presente em que assiste as alterações e
vulnerabilidades do tempo. É preciso ter inteligência
emocional para saber lidar com estas questões, procurando
perceber os ganhos que também existe nesta fase da vida.
Não é intenção minha aprofundar este assunto, mas é
importante para nós percebermos que as crenças sociais e
culturais associadas as nossas experiências pessoais
consolidam os conceitos que construímos sobre o
envelhecer, e que muitas vezes não representará a nossa
forma de viver esta fase.
Foi exatamente isso que aconteceu com os meus alunos da
Universidade Sénior, eles estão vivenciando a velhice de
uma maneira completamente diferente de seus
antepassados. Para eles esta fase da vida representava a
tristeza, limitações, adoecimento, poucas oportunidades de
realização, estorvo a sociedade e ausência de beleza. Neles
estava presente o famoso etarismo7. E se tornava visível na
maneira como criticavam os seus contemporâneos
geracionais, que ousavam romper com as invisíveis regras
de conduta social do envelhecer. Fazê-los ter consciência
desta atitude não foi tarefa fácil, pois era uma reprodução
automática e inconsciente do preconceito. Ao mesmo
tempo que eles defendiam a liberdade de cada um viver
conforme os seus anseios e possibilidades, criticavam
aqueles que ousavam viver de maneira diferente as
invisíveis regras sociais. Um exemplo flagrante que trago
para ilustrar este caso, não por acaso, incide sobre uma
mulher de 80 anos. No verão ela abusava dos shorts e das
7
Etarismo: discriminação de pessoas ou grupo de pessoas baseada na idade.
camisetes, circulava pela cidade demonstrando autoestima,
alegria e um par de pernas invejáveis. Para além disso
mantinha o hábito de sair para dançar todas as quintas feiras
com um grupo de amigas. O marido não ia porque não
gostava. Da janela de minha casa, presenciava
semanalmente ele acompanhando sua mulher até a porta do
carro e despedindo se com um afetuoso beijo. Meta de
casamento! Sem alguma surpresa ouvi por diversas vezes
seus contemporâneos criticando sua maneira de vestir e
viver. Numa de minhas aulas, aproveitei a conversa para
demonstrar a presença de dois preconceitos: o etarismo e o
machismo. Ao expor cuidadosamente cada angulo da
situação, observei um certo constrangimento especialmente
das mulheres, ao perceber que as críticas relacionadas ao
comportamento da tal senhora existiam porque tratava se de
uma mulher. Nenhum homem casado era criticado por se
ausentar a noite de casa e ir para um café com os amigos
para assistir uma partida de futebol, ou por passar longas
horas da madrugada numa jantarada. Afinal esta liberdade
sempre foi um privilégio masculino, especialmente para
esta geração. O mesmo podemos dizer sobre as roupas, o
fato de não me identificar com um estilo de alguém não me
da o direito de criticar, principalmente se o argumento for a
idade.
Brené Brown no livro a Coragem de ser imperfeito revela
que julgamos as pessoas justamente nas áreas em somos
vulneráveis, “se me sinto confortável com o meu corpo, não
saio por aí zombando do peso ou da aparência de ninguém.
Somos cruéis umas com as outras, porque usamos essas
mulheres como alvo de nossas próprias insatisfações.” A
consciência de nossa imperfeição de nossa vulnerabilidade,
nos torna pessoas reais e melhores, um exercício diário de
e necessária reflexão.
A invisibilidade social e os estigmas que ela acarreta é uma
construção social que passa por todos nós, nos tornamos
algozes e vítimas de nossas crenças. Dai a grande
necessidade de continuamente avaliarmos os conceitos que
alimentamos sobre as pessoas e as fases da vida.
A longevidade é um fenómeno recente da humanidade,
atrevo-me a dizer que a experiência em envelhecer será
sempre muito particular de cada geração, porque ela se
relaciona com um modo de viver do individuo, da sociedade
e da cultura. Nos últimos anos presenciamos tantas
transformações e pelos vistos é este o caminho da
humanidade, reinventar-se a cada década. Logo, a velhice
de nossos pais será diferente da nossa que será diferente da
de nossos filhos. Viver esta fase da vida com a liberdade
que tivemos em outras fases, é um projeto em construção.
É capinar um terreno por onde brevemente iremos transitar.
O despertar da consciência: Só é feio quem quer!?
Os alunos da Universidade Senior de Tondela em 2015
frequentaram a oficina de teatro da ACERT (Associação
Cultural e Recreativa de Tondela) desta parceria resultou
uma peça teatral dirigida por ….. do grupo de teatro de
Santiago de Compostela. Como uma colcha de retalhos a
peça foi construída a partir dos relatos de vida destes alunos.
Leve, divertida e emocionante. O público pode se deliciar
com situações do quotidiano de outras épocas e perceber
como envelhecer tem desafios e limitações, mas também
oportunidade de aprender e de se reinventar.
Das diversas cenas uma em especial me marcou pela
maneira sexy e sedutora que três mulheres acima de 65 anos
relataram os seus cuidados com a beleza. A cruzada de
pernas de uma delas me fez lembrar Sharon Stone no filme
Instinto Selvagem.
Na aula seguinte todos estavam eufóricos com a
repercussão positiva da peça, para alguns atuar era a
realização de um sonho proibido na infância. O depoimento
a seguir foi o que mais me comoveu.
“Lembro me como se fosse hoje, estávamos todos na mesa
de jantar e meu pai perguntou a mim e aos meus irmãos o
que queríamos ser quando crescer. Eu pobrezinha na minha
inocência disse que queria ser atriz, levei uma chapada na
cara e nunca mais falei sobre o assunto. Anos mais tarde é
que compreendi a razão daquela bofetada. As mulheres de
família naquela altura estavam proibidas de exercer esta
profissão, eram consideradas prostitutas. Hoje sinto me
feliz e realizada porque finalmente pude experimentar algo
que sempre sonhei.”
O feminino nos coloca desde cedo em contacto com as
regras e normas que cerceiam a nossa liberdade de escolha
e expressão. Sempre lutei pela igualdade de oportunidade,
mas nunca senti uma necessidade tão grande, como agora
de ampliar as nossas vozes, este livro é também sobre isso.
Desde que comecei a ter encontros semanais com estas
senhoras, passei a ouvir histórias como esta que acabei de
relatar, sonhos que foram proibidos, vidas que tiveram seu
percurso alterado, simplesmente porque o desejo de
realização vinha de uma mulher. São vozes externas que
ditam a todo o tempo o que podemos ou não fazer, como
devemos ou não nos comportar, se podemos ou não agir, e
assim envelhecemos. Considerando tudo isso se chegarmos
razoavelmente lúcidas a estas idades, já é um bom sinal,
porque temos razões suficientes para surtar a meio do
processo. Talvez por isso muitas pessoas gostem de dizer
por aí que mulher é um bicho complicado, que nossa cabeça
é um computador cheio de algoritmos indecifráveis. Vai
vestir a nossa pele e quero ver se continua a pensar desta
maneira.
Pronto, terminado o desabafo voltamos ao que neste
momento nos interessa. Falar de Sharon Stone e de sua
turma. Não, não me perdi, nem surtei. Estávamos falando
do teatro e de como esta experiência impactou o grupo.
Durante o espetáculo me emocionei e sorri horrores, mas a
tal cena que ainda hoje esta viva em minha memória foi a
responsável pelo desencadear deste livro. O que teria este
recorte da peça de tão especial? Talvez, porque minha sogra
exibisse um cigarro entre os dedos e entre uma baforada e
outra, mais descontraída que o habitual contasse a sua
história, talvez porque a linguagem corporal das três em
cena tivesse se libertado das regras, e essa liberdade se
tornava incrivelmente sexy. Não sei, só sei que o melhor
estava por vir.
Logo que apresentei as minhas considerações sobre o que
assisti, expus a minha admiração pela sensualidade
apresentada em palco e falei diretamente a nossa “Sharon
Stone”. O que eu disse foi precedido de um silêncio
constrangedor. Sabe quando uma criança traz a público uma
conversa que ouviu de seus pais e que jamais poderia ser
revelada? Pois é, foi exatamente este o sentimento que tive.
Trabalhava com este grupo há alguns anos, os conhecia
muito bem, a pessoa a quem me referi para além de minha
aluna tinha se tornado uma amiga, uma mulher discreta e
contemporânea que não se afligia com os pormenores
sociais. Mas, foi justamente dela que veio o
constrangimento. O silêncio só foi rompido quando eu
expus o meu desconforto, e perguntei: “Algum problema no
que disse? Vocês não concordam comigo? Ela não estava
sexy? Ou o que esta incomodando é o fato de ter usado a
palavra sexy para elogiar uma mulher de 65 anos?” De tudo
que falei a última frase, foi aquela que lhes tirou do estado
catatónico. Todos falavam ao mesmo tempo procurando
defender se da acusação de preconceito.
A dona do elogio disse que sexy era uma palavra forte
demais para ela, pois não se via assim. Ela era inteligente o
bastante para saber que o elogio vinha a partir da minha
percepção e não da dela, mas procurava contra-argumentar.
Todos os outros basearam sua defesa, na tese de que a
palavra sexy os remetia a lugares que já não eram
frequentados por pessoas mais velhas.
“Não é preconceito é um fato, há características que
pertencem a juventude”. Etarismo, é assim que se chama
né?
Os deixei falar a vontade, quando os ânimos se acalmaram
lancei outra pergunta: “Então o que estão querendo me dizer
é que velho não pode ser bonito?”, utilizei uma palavra bem
provocativa, embora para mim velho seja uma expressão
afetuosa, para a maioria do grupo não é, eles preferem ser
tratados por idosos. Já viram formiguinha em chapa quente?
Foi assim que eles ficaram, o confronto com a realidade
causou muita indignação, e uma necessidade de se defender
da acusação criminosa; preconceito contra o idoso, ou seja,
contra eles mesmos.
“…eu sei reconhecer beleza nos meus contemporâneos.
Por exemplo ela esta bem, para idade que tem, esta bem.”
“Ah Patrícia eu me aceito, sou bonita, mas tenho espelho
em casa e sei que não tenho mais 30 anos”.
“Eu gosto da minha imagem, mas nada se compara ao meu
tempo de mais moça”.
“Claro que as pessoas mais velhas são bonitas, mas não
somos cegos. Bonito, bonito a gente não é, estamos bem.”
“Sexy é uma palavra forte demais, estou bem, mas sexy isso
já não sou há tempos”.
“Gosto da aparência que tenho, mas temos que ser realista
não dá para fantasiar.”
Todos os meus alunos apresentavam problemas visuais e
emocionais. A visão foi contaminada desde cedo pela
imagem decadente da pessoa mais velha, durante toda a
vida eles aprenderam a equacionar beleza=juventude. Nem
preciso dizer, que neste sistema comparativo o mais jovem
esta sempre em vantagem. No que refere se as emoções,
todos tinham a imagem deformada no espelho, diziam se
aceitar, mas não gostavam do que viam, estavam bem com
a imagem no espelho, mas o ideal da juventude não os fazia
apreciar a beleza do agora. Verbalizavam uma coisa, mas
nas entre linhas diziam outras. Num diagnóstico superficial
posso dizer que todos tinham sido contaminados pelo
bichinho do preconceito reprodutor, e na visão distorcida
que traziam de si mesmo, sempre havia um mas para
contrapor o que eles não queriam ver.
Embora os homens também comungassem dessa doença ela
era mais evidente entre as mulheres, beleza é algo que esta
intimamente relacionada a nós. É quase impossível ficar
indiferente. Porém, o desejo de ser aceito e apreciado é da
natureza humana, estando evidente este conflito com a
autoimagem percebi que precisava trabalhar este aspecto.
Não seria tarefa fácil, havia muitas questões subjacentes a
dificuldade de reconhecer se belo.
Trabalhava com este grupo há 2 anos e já os conhecia o
suficiente para perceber que a frontalidade não seria a
melhor maneira de abordar estas questões. Como se diz em
Minas o prato de sopa estava fervendo e era preciso
começar a comer pelas beiradas.
Falar de beleza e sensualidade para eles era falar do
passado. O padrão estético que todos mantinham, estava
ancorado na juventude. Os elogios relacionados a sua
beleza eram recebidos com simpatia, mas sem crença na sua
veracidade. E o autofágico do preconceito destruía
continuamente a autoestima.
Não é da noite para o dia que se desconstrói ideias pré-
concebidas e que se livra de duas chagas que nos causam
dificuldade de aceitação: julgamento e comparação.
A reconstrução da autoimagem não passa pelos
procedimentos invasivos, ela se faz em nosso interior. É um
processo muito mais doloroso pois não temos como
anestesiar as descobertas, nem como acelerar o processo de
cicatrização. Não é tão rápido como o procedimento
cirúrgico, mas os efeitos são duradouros, permitem ao
indivíduo viver com mais plenitude, independente da fase
da vida em que esteja. E foi justamente, o procedimento
mais doloroso, longo e necessário que me propus a realizar
com este grupo.
Nos palcos da vida somos todos autores e atores, ouvintes e
parlatores de nossos próprios discursos, atos e atitudes. Os
nossos julgamentos serão sempre os motivos de nossa
libertação ou aprisionamento durante a nossa trajetória.
Lascando Pedra
Neste trabalho cirúrgico onde a alma estaria desnudada,
precisaríamos de muita sutileza para abordar questões tão
delicadas. Nada melhor que poesia para tocar de leve as
nossas emoções, este instrumento maravilhoso que nos
permite sonhar sem estar preso a padrões, seja ele de que
natureza for.
Em nossos encontros, ou aulas, utilizava de diversas
atividades como instrumento facilitador de expressão ou de
assimilação de conteúdos. Sabendo que eles eram
admiradores da cadência e do ritmo linguístico da literatura
brasileira, recorri aos poemas de Vinícius de Morais, como
recursos para abordar a sensualidade, a beleza e a
sexualidade na vida presente, e não no passado. Percebe
agora querida (o) leitora ou leitor o porquê de ter convidado
Vinícius para uma conversa no início deste livro? Ele faz
parte desta história e tornou se um amigo íntimo nos últimos
tempos.
Através dele, ou de sua escrita, falamos sobre o medo, a
vergonha, a insegurança, as ideias preconcebidas, os
estigmas e os preconceitos sociais, que construímos ao
longo da vida. Revisitamos as imagens de nossos
antepassados e como eles nos influenciaram nesta
construção. Discutimos sobre os padrões de beleza,
procurando perceber quais estereótipos estão em
consonância com o que buscamos ou gostamos, de acordo
com o nosso próprio padrão. Neste processo, cada um
realizou a re-construção de sua autoimagem, a
ressignificação do conceito de beleza e do envelhecimento.
Havia muitos sentimentos inconscientes que se revelavam
em comportamentos adotados, não era apenas a sociedade
que rejeitava a beleza dos mais velhos, eles próprios se
excluíam. Como disse uma de minhas alunas foram dois
intensos anos lascando pedra.
A redefinição da autoimagem os colocaria de novo em cena,
não tínhamos a menor ideia do impacto que isso causaria
em suas vidas.
Transitando entre 1939 e 1956, embalados pelo Soneto de
Fidelidade, percorriam pelas ruas de Estoril e Rio de
Janeiro. Entre risos e prantos, pesares e contentamento,
cientes dos perigos desta vida, acordaram nos braços de
Corifeu. Este despertar levou misteriosamente a reflexões
sobre o sexo, a beleza e a sensualidade da vida atual. Ao
perceber a maturidade que o grupo tinha alcançado, lancei
um novo desafio: Realizar uma exposição fotográfica cujo
tema fosse a BELEZA e a SENSUALIDADE na 3ª idade.
Confesso que esperava como resposta boas gargalhadas e
uma negativa afetuosa. Mas como a vida e as pessoas estão
sempre a nos surpreender, ouvi um sonoro -EU TOPO-.
Sim, este merece destaque, porque ele veio da pessoa mais
preocupada com a opinião pública, uma mulher linda de 73
anos, que se vestia de uma maneira tão discreta, como se
desejasse passar desapercebida. Cris Guerra no livro Moda
Intuitiva nos diz que as roupas e os estilos, contribuem para
a construção de uma autoestima na medida em que auxilia
as pessoas a se diferenciarem umas das outras pessoas.
Mas era justamente o contrário que esta mulher procurava,
no passado ela havia sofrido demais com julgamentos
descabidos de uma sociedade conservadora. A sua alma
leve, corajosa, colorida estava encarcerada em roupas de
cores sóbrias e discreta. Quando jovem teve a oportunidade
de morar num país que estava em pleno desenvolvimento.
Um lugar habitado por mulheres vindas de diversas partes
do mundo, aonde usufruíam de independência e liberdade.
No ano de 1975 em virtude das alterações políticas, ela e
sua família, foram obrigadas a regressar ao país de origem,
encontrando uma sociedade machista subjugada por 30
anos de ditadura. O seu comportamento e a sua liberdade
facilmente tornaram-se reféns dos olhares maledicentes que
na verdade criticavam o que desejavam ter ou admiravam
ser. O famoso Deus me livre, mas quem me dera. Para ter
um pouco de paz essa mulher optou por alterar o seu estilo,
as roupas tornaram se uma espécie de uniforme, que a
mantinha camuflada. “Em África tínhamos liberdade de ir
e vir, não precisávamos de companhia ou permissão para ir
ao café ou conversar com um colega de trabalho. Eu e meu
marido tivemos que nos readaptar. Parte de mim morreu
quando passei a viver aqui e isto refletiu-se em minha
maneira de vestir”. Mais uma mulher oprimida pelo
controle da existência feminina.
Por isso o grifo. Este eu topo, é muito significativo. Ele
representa um grito de liberdade, de uma borboleta que há
anos desejava quebrar a crisálida. Naquele instante ela
venceu o medo, estava disposta a voar, a bater asas ao
julgamento descabido e ao preconceito social. A sua reação
desencadeou um efeito dominó e todos aceitaram o desafio.
Os bastidores do setting fotográfico
Desde que tomei consciência que a beleza das pessoas mais
velhas era desprezada, nasceu em mim o desejo de fazer
algo que possibilitasse uma reflexão, um olhar diferente que
pudesse impulsionar alguma mudança. Ainda estava em
êxtase com a possibilidade de realização deste sonho,
imaginando de que maneira iria conseguir fotografa-los,
quando fui surpreendida com a exigência do grupo. “Já que
vamos nos expor, então é para fazer bem feito. As fotos
devem ser tiradas por um profissional e tem que ser o Teles”
Carlos Teles é seu nome, um renomado fotografo da região,
que para além de suas qualidades técnicas possuía o
respeito, o olhar exigente e poético, necessários para realçar
a beleza da pessoa mais velha sem procurar resgatar os
vestígios da juventude. Queríamos a beleza real e
harmónica e não uma caricatura.
Um sonho sem dinheiro só poderia se realizar se a ele
juntasse novos sonhadores. Ainda bem que o mundo esta
cheio de entusiasta, de pessoas que pensam e vivem fora da
famosa caixa de convenções. Carlos identificou se com o
projeto e dispôs a realiza-lo voluntariamente.
Tínhamos o tema e precisávamos de um cenário, os anos 30
foi o nosso pano de fundo. A escolha das roupas, dos
adereços, todos os detalhes foram estudados ao por menor.
Não estávamos retratando apenas a beleza, mas sim a vida,
que é feita de sonhos, de projetos e de realizações. A alegria
e o entusiasmo de todos deixavam transparecer tudo isso.
Acho importante referir que o fotógrafo revelava alguma
preocupação com a sessão fotográfica. Ele conhecia bem
aquelas pessoas, alguns o tinham visto crescer. Eram
homens e mulheres por quem ele tinha muito respeito, mas
o tema a ser trabalhado, o colocaria em uma situação pouco
confortável, pois ele teria que manipular os corpos, solicitar
poses sensuais ou desnudar a pele. Era compreensível a sua
preocupação, este trabalho desafiava nos a despir dos
preconceitos e estereótipos que mantínhamos relacionados
a beleza, sexualidade e envelhecimento. Não havia outra
maneira, estávamos em busca da verdade, não podíamos
nos esconder atrás das velhas armaduras. Para vencer a
estranheza da situação foi preciso deixar morrer o velho
pensamento, aventurando-se a conhecer o novo.
Ver beleza na pessoa mais velha é olhar no espelho e
enxergar o futuro
As sessões fotográficas aconteceram num clima de muita
descontração e euforia. Riam de si mesmo e de sua
coragem, surpreendiam se com os seus pares, imaginavam
qual seria a reação dos familiares e amigos, gargalhavam
imaginado o comentário das más línguas. A alegria
manifestada por eles, valia todo o nosso investimento neste
trabalho.
“Seremos chamadas de velhas gaiteiras” diziam uns “nos
chamarão de loucos” retrucavam outros, naquele momento
apenas o presente importava, a segurança em vestir a
própria pele era o suficiente. Eles haviam conquistado a
sabedoria de quem sabe se amar sem comparações ou
julgamentos.
A transformação física e emocional que acompanhei de
alguns, tornaram se uma rica bagagem que guardarei para
sempre na memória. A autoconfiança cria um limite
imaginário em que o outro pensa duas vezes antes de
ultrapassar.
No fim de cada sessão fotográfica, havia sempre um “ahhh
já terminou, estava tão bom”.
Quem nasceu tirando self não entende a ousadia de uma
exposição.
Concluída a primeira etapa, nos reunimos para compartilhar
a experiência de ser fotografado nesta idade, buscando o
melhor angulo, expondo se com o propósito deliberado de
se mostrar bonito. As gerações mais novas talvez não
entendem o que haja demais nesta situação, os millennials8
nasceram com o telefone na mão fazendo selfs, editando
fotografias e compartilhando nas redes sociais. Mas para
estes senhores e senhoras acima de 60 anos a exposição
nunca fez parte de suas vidas. A cultura portuguesa é
permeada por alguma timidez a exposição, principalmente
nas gerações mais velhas, e no meio disto tudo ainda há o
tabu: velhice X beleza.
O reencontro com a beleza, a segurança emocional e o
desejo de viver haviam resgatado o sentido de pertença
social e a libertação da opinião pública. Após as sessões
fotográficas eles tomaram conta das ruas, dos cafés e
esplanadas da cidade.
“sai do studio com vontade de me fazer vista, com vontade
8
Geração internet, aquele que desenvolveu se numa época de grandes avanços tecnológicos e
económicos. Alguns autores falam dos nascidos entre 1980 e 1990, outros que nasceram no inicio dos
anos 2000.
de voltar a sentir borboletas no estômago, de viver de novo
um amor” sic.
“Me senti tão bonita que fui logo para uma esplanada,
acho que há muito tempo não me sentia tão feliz comigo
mesma.” sic
“Há muito não vestia blusas que fossem acima do cotovelo,
por vergonha das minhas peles, percebi que eu posso sim.
Agora ao sair de casa vejo, observo me diante do espelho,
se me sinto bonita, isto basta. Toca a andar” sic.
No livro A Coragem de Ser Imperfeito, Brené Brown
apresenta a “Teia da Vergonha” uma estrutura composta
por 12 áreas na qual as mulheres se tornam presas por
filamentos delicados, que sugam as energias e escamoteiam
a liberdade. Neste grupo estão presentes a preocupação com
a aparência atrelada a beleza e a juventude. Como já foi dito
noutro capítulo o envelhecimento confronta os ideias de
beleza, e gradativamente o ser que envelhece vai sendo
colocado no campo da invisibilidade social. O medo de
envelhecer, reflete também o receio de não ser aceito, de
quebrar vínculos, onde nasce o sentimento de rejeição. O
depoimento destas pessoas no reencontro com a autoestima,
nos mostra como o assunto é complexo. A beleza não pode
ser concebida como futilidade, é algo muito maior que um
padrão estético é através dela que nos apresentamos ao
mundo.
O primeiro obstáculo havia sido superado, agora teríamos
um outro, talvez ainda maior pela frente que era o confronto
com a sociedade. Embora a segurança fosse uma
característica marcante desta experiência, não tinha certeza
se sobreviveria as possíveis críticas sociofamiliares. Nos 6
meses que seguiram até a exposição, trabalhamos esta
questão, para que a reconstrução interna não ruísse.
A fotografia sem retoques é o confronto com a realidade
Um dia antes da exposição ser aberta ao público, cada
participante entrou de olhos vendados na galeria, podendo
ver apenas a si mesmo. O nosso objetivo era evitar possíveis
comparações, algo que conhecemos muito bem e
praticamos ao longo da vida, motivo de muita insatisfação.
Se porventura, alguém não gostasse ou não se sentisse
confortável com a fotografia, ela seria retirada da
exposição. Felizmente isto não aconteceu.
A autoestima é um dos pilares de nossa saúde mental. A
falta dela nos leva a um relacionamento auto-destrutivo, ou
conflituoso seja com os nossos familiares ou amigos. Nesta
experiência estávamos eu, o fotografo e o “modelo”,
quando retirávamos a venda a emoção tomava conta de
todos nós.
Presenciamos o suspiro de uma senhora com os olhos rasos
dágua a dizer: “Ah se minha mãe me visse assim, ela ia ver
que eu também sou bonita”. A menina que cresceu sendo
comparada a irmã, ouvindo de seus maiores afetos que não
sabia se comportar como uma menina e que não reunia os
predicados necessários da beleza. Estudou, tornou-se
independente, e buscou nas roupas um esconderijo para a
sua identidade feminina. “Eu sei que me visto como um
homem, e me comporte como um, às vezes. Os motivos são
outros, não sou homossexual.” Pela primeira vez em 73
anos de vida, ela se permitiu viver a experiência do universo
feminino. Embora se achasse inadequada, estava rodeada
de pessoas que lhe transmitiam segurança, nenhuma delas
dizia como ela deveria se comportar, apenas mostrava o
caminho de possibilidades que ela tinha para expressar o
seu Ser Feminino. E foi isto que ela fez. A sua emoção, as
lembranças que foram resgatadas, a percepção de que a
opinião dos outros sobre si de fato eram um erro, lavaram a
sua alma. Este é um caso explicito de como as “normas de
condutas sociais” que nós mulheres somos submetidas,
interrompem vidas, mudam trajetórias e amortecem a alma.
“Oh minha filha eu sempre vivi fora do padrão, a velhice é
apenas mais um”. Se você acha que a dona desta frase é uma
mulher acomodada, resignadamente conformada com o
mundo. Esta completamente enganado. A sua vida daria um
filme de coragem e determinação. Embora seja lindíssima,
de fato a sua imagem não corresponde aos ideais de beleza
de nossa sociedade. Neste projeto ela teve oportunidade de
expressar a sua indignação e de se reinventar. Diante de seu
retrato sorriu e chorou. Nos confidenciou que após ter
passado por uma mastectomia unilateral, nunca mais tinha
deixado os seus braços a mostra, mas que ali na imagem
gostava de os ver. Observou os seus traços, aqueles que a
distingue dos demais, que a tornam única e especial sendo
capaz naquele momento, de acolher a sua beleza e fazer as
pazes com o seu corpo.
Os padrões sejam de beleza ou de comportamento
alimentam preconceitos, pois tendem a ver como errado
todo aquele que age ou se apresente de maneira diferente.
Daí a importância da pluralidade da representatividade, os
modelos são nossas bússolas individuais os padrões os
carcereiros que nos conduzem a prisão.
A nossa Sharon Stone, aquela que acabou por dar origem a
tudo isso, estava muito ansiosa desejosa de ver o resultado.
Segundo o Carlos Teles ela foi a modelo mais fácil de ser
fotografada. A sensualidade era uma característica tão
marcante que não foi preciso grandes ensaios para chegar
no resultado desejado. Diante de sua imagem, sorri, procura
alguns defeitos, mas finalmente diz “eu e minha mania de
apegar aos detalhes, não gosto de ver a cor desta sombra,
podia ter sido um pouco menos. Mas realmente não consigo
me apegar a isto. Sinto me tão bonita, arrisco-me a dizer
que estou sensual. Sexy não! Mas sensual sim, nesta mulher
que esta aí, eu vejo. Eu vejo não, eu sou”.
Reconhecer a sua sensualidade, é despertar a consciência de
que a sua presença, o seu modo de agir é capaz de provocar
o interesse no outro. Mas reconhecer-se sexy a levaria a
dimensão dos desejos, do erotismo, da possibilidade do
resgate de uma vida sexual. Um caminho que exigiria a
desconstrução de outros estereótipos e padrões, um
universo mais complexo que somente um trabalho
terapêutico individualizado poderia atingir.
O envelhecimento nos confronta com os nossos medos e
desejos, a autoestima resgata todos eles e os expõe de
acordo com a nossa maneira de ser.
“Aí minhas borboletas no estômago, elas estão mais vivas
do que nunca.” E foi assim, ao som de uma alegre
gargalhada e com os olhos marejados de emoção, que esta
mulher de 68 anos expressou o desejo de viver uma nova
história de amor. Uma mulher que viu seus planos conjugais
serem precocemente interrompidos pela viuvez, colocando
-se a margem da sociedade nesta esfera da vida. A
fotografia a fez reconhecer se bonita, ampliou o seu olhar
sobre si e sobre a sua vida, acordou desejos adormecidos
pelo medo ou talvez vergonha. Trazendo a certeza de que
ainda poderia experimentar nova emoções e percorrer
outros caminhos.
O pequeno grupo de homens que participou deste projeto
precisa ser mencionado. Foram ótimos ouvintes,
mergulharam na intimidade feminina acolhendo os relatos
de dor e de angústia deste universo. Saíram mais
conscientes e fortes de seu papel masculino seja no
ambiente doméstico ou social. Embora eles não sofram as
mesmas pressões sociais sobre sua aparência, de igual
modo sentem se cobrados pelo paradoxo atual, envelhecer
mantendo-se jovem. Expor-se era também um ato de
ousadia, pois traria sobre eles, um olhar mais atento e
crítico, algo que eles não estavam acostumados. Este
trabalho promoveu descobertas e uma maior satisfação com
a própria imagem. Neste grupo havia um senhor que fora
apelidado como “Antônio Fagundes das Beiras9”, o seu
charme e sensualidade eram evidentes para os demais, mas
da mesma maneira que aconteceu entre as mulheres, ele não
reconhecia estes atributos. Velho não é sensual, lembram?
Entretanto, diante de sua imagem, sorriu num misto de
surpresa e encantamento. “Como pode, eu ter demorado
tanto tempo para perceber. Tenho um olhar… nunca
pensei…sim sou sensual. Porque não descobri isso
enquanto mais novo”? E lá vem o nosso companheiro de
longa data, o preconceito.
Como uma lasca de madeira que causa inflamação no
corpo, as ideias preconcebidas ao longo da vida nos
deterioram a visão sobre nós mesmos, o mundo e os outros.
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Região central de Portugal
Quem desta geração ouviu dizer que velho é sexy, sensual
ou lindo? Ninguém. O trabalho psicológico realizado
ressignificou visões, sentimentos, os preparou para as fotos,
para o embate com as críticas socias. Mas o fantasma da
branca de neve preso no espelho apresentava
constantemente a sua imagem revestida de preconceitos e
padrões. Todo processo de mudança necessita de esforço
pessoal, um exercício diário de avaliação e reavaliação das
ideias cristalizadas. A fotografia trouxe uma visão diferente
sobre si mesmo, a imagem eternizava o instante,
apresentava um conjunto harmonioso agora os detalhes
surgiam como características individuais que os
distinguiam dos outros. As comparações com a juventude
não tinham mais relevância, pois a beleza estava posta. A
beleza não é redundante nem comparativa simplesmente é.
A repercussão social
Momentos antes da inauguração, o público foi convidado a
desnudar-se dos preconceitos acerca da beleza e da velhice.
Eles iriam ver pessoas que diariamente transitavam pela
cidade: familiares, amigos, conhecidos e anónimos. A
imagem da pessoa mais velha, exposta de maneira sedutora
espelhava a possibilidade de um futuro próximo a ser
vivido. Quando estamos diante do novo, acolhemos ou
rejeitamos. Mas podemos rejeitar a ideia de experimentar a
vida em idades mais avançadas? O público demonstrava
atenção em cada palavra, notava-se um misto de euforia,
curiosidade e alguma descrença.
Deixei que as pessoas fossem tomando conta do espaço,
embalados pelo poema musicado de Vinícius de Moraes,
percorreram um labirinto, e em cada curva uma surpresa,
um poema e um encantamento. Observei quase todos,
alguns de olhos marejados me confidenciaram que
pareciam estar a ver pela primeira vez algumas daquelas
pessoas que passavam por eles diariamente. Era a
comprovação da famosa inviabilidade social.
A ousadia, a irreverência e sobretudo a autoconfiança que a
imagem refletia, não dava espaço para a critica. As pessoas
estavam impactadas, com tamanha segurança transmitida
pela pose ou pelo olhar.
Durante o evento pessoas mais jovens vieram ter comigo,
observei que entre os diversos assuntos havia um
denominador comum: Todos perceberam que iam
envelhecer, e que não gostariam de encontrar um mundo tão
fechado para os mais velhos como este em que vivemos.
Despertaram para o futuro, perceberam que era necessário
desconstruir alguns mitos, alguns conceitos, porque
futuramente seriam feridos por eles. Finalmente um de
nossos objetivos tinha sido atingido.
Vai envelhecer? Pergunte me como?
Envelhecer é fácil? Não, requer capacidade de adaptação.
Mas te pergunto viver é fácil? Conquistamos mais tempo de
vida, mas precisamos dar vida aos anos. Não pretendo negar
as adversidades ou a maior vulnerabilidade que o corpo
físico recente com a passagem do tempo. Há muito, que
tanto a ciência quanto as intervenções politico-sociais
desenvolvem acções para dar respostas a estas questões.
Observo que ficamos muito atrelados ao binómio
envelhecer/adoecer. A velhice não é só feita de doença.
Diariamente seja na minha vida privada ou profissional me
deparo com pessoas de muita idade viajando, estudando e
experimentando novos desafios.
As melhorias globais de saúde, educação, cultura e
informação tem oportunizado a atual geração envelhecida
viver com autonomia, independência e prazer. Homens e
mulheres são desafiados diariamente a se reinventar diante
do tempo. A nova velhice surge quebrando padrões e
desconstruindo paradigmas. Algumas coisas dependem do
tempo para acontecer, mas a maioria delas não. Será que há
uma fase certa para namorar? Casar? Divorciar? Estudar?
Mudar de profissão? Construir uma autoestima? Ser
bonito? Sensual? Ter uma vida Sexual? Ou mudar de
opinião? A vida acontece no agora, e o hoje é a única
certeza que temos.
O submundo da beleza esta sendo paulatinamente
descortinado, são muitas vozes engrossando o coro. As
mulheres estão se libertando do conto da bela adormecida,
somos nós a construir a nossa história. Cada uma de nós tem
o direito de expressar a sua beleza singular, os padrões
nivelam por baixo e causam o amortecimento de nossa
autoestima.
A passagem do tempo altera o nosso corpo e as nossas
feições, isso acontece desde que nascemos. As fases
transacionais podem não ser as melhores, são períodos de
adaptação, mas depois tudo se harmoniza.
Enão porque acreditar que a beleza se esvai com o tempo?
O precisamos é ampliar a nossa noção de estética. Se
ficássemos preso na estética de beleza da criança
encontraríamos beleza no adulto? Provavelmente não,
porque o nosso referencial seria outro.
Precisamos cuidar de nossa miopia estética para poder
entregar novos horizontes as gerações futuras. O
preconceito é uma herança intergeracional, uma espécie de
vírus de rápida contaminação, ele não mata, mas dói. Sua
profilaxia baseia-se na educação, na reflexão e numa
análise constante sobre como pensamos e agimos.
As pessoas envelhecem conforme viveram e podem mudar.
A liberdade é um dos bens mais preciosos da humanidade,
todos tem o direito de escolher como desejam envelhecer e
a expressar a sua beleza. Seja adotando os cabelos brancos,
ou pintando-os, realizando procedimentos estéticos ou
exibindo todas as rugas a que tem direito. A liberdade é a
palavra de ordem que a geração 60+ tem reivindicado. Os
mais jovens e inteligentes deveriam também fazer parte
deste movimento. Lembre-se somos autores e atores de
nossas escolhas.
Atrevo-me a dizer que a velhice é a fase da vida mais
surpreendente e a que nos proporciona mais liberdade para
viver, não acredita? Então observe. Do bebê a fase adulta
temos mais ou menos um roteiro construído, que passa da
escola ao mercado profissional e da casa dos pais ao seu
próprio lar. Entre o ponto de partida à chegada estão as
nossas escolhas, e são elas que construirão a nossa história
e deixarão a nossa marca no mundo. Agora te pergunto qual
é o roteiro da velhice? Antigamente era cuidar dos netos,
frequentar uma casa religiosa, realizar atividades de
benemerência e esperar pela morte. Para alguns este ainda
pode ser o caminho, mas para muitos já não é. Não existe
um roteiro padrão, nesta fase temos um mundo de
possibilidades. E não venha me dizer que a velhice traz
limitações, que eu te desafio a me mostrar em qual fase da
vida que não há. Próximos da linha de chegada as pessoas
que aprenderam com a experiência da vida, trazem uma
bagagem mais leve, importam se com o essencial e focam-
se no presente.
A beleza faz parte da vida e do ser que diariamente busca
se humanizar. Tudo que esta em harmonia com o universo
é provido de beleza. O trabalho destes senhores e senhoras
foi uma pequena contribuição nossa, para promover uma
reflexão, um olhar mais generoso e menos preconceituoso
sobre a pessoa mais velha. A beleza é um adjetivo difícil de
caracterizar, esta relacionada ao tal padrão que embaça os
olhos deixando tímido os gostos particulares. No meu modo
de ver a tanto a feiura quanto a beleza esta presente em
bebês, crianças, jovens, adultos e adultos mais velhos. Que
possamos ampliar o nosso olhar, acolher a vida e viver com
alegria cada fase da vida.
Obrigada Vinícius por ter me acompanhado até aqui. Antes
de encerrar a nossa conversa gostaria de lhe apresentar o
nosso elenco principal.
Há rugas, há pele, há cabelos brancos, há óculos, há
ausência de cabelo, há gordo, há magro, há beleza para
todos os gostos. Dispa-se do padrão de beleza, do
idealizado, do pré-concebido e se encante com o
inesperado.
Amplie sua visão estética e vem.