Tutorial 1- A evolução no acesso à saúde pública no Brasil.
Objetivos:
1. Conhecer o funcionamento da saúde no Brasil perante a história
( períodos, movimentos populares...)
2. Entender o Sistema Único de Saúde (diretrizes, níveis de atenção de
saúde e legislação 8080, 8142 e CF88).
3. Entender as contribuições que a Conferência de Alma-Ata proporcionou
à saúde.
1. Saúde no Brasil do período colonial ao Brasil Império:
* O território brasileiro era visto apenas como fonte de riquezas naturais para a
metrópole, então não se investia no desenvolvimento de uma sistemática de saúde
qualificada.
* limitação da saúde aos próprios recursos da terra (plantas, ervas, fontes animais)
juntamente com conhecimentos empíricos (curandeiros).
* epidemias eram comuns como a varíola que exterminou milhares de indígenas
durante os primeiros séculos da colonização e a febre amarela com a chegada de
navios negreiros com indivíduos infectados, e isso ocorria facilmente pela falta de
sanitarismo juntamente a falta de informação para evitar a infecção como isolar os
pertences dos infectados que faleciam para evitar possíveis casos e as práticas para
impedir a disseminação do mosquito da febre amarela.
* forte influência religiosa, tanto da religiosidade católica, as indígenas e as
afrodescendentes, na qual rituais eram utilizados como símbolo de purificação do
corpo/espírito.
* Boticários, Barbeiro-cirurgião, curandeiros, benzedeiras, parteiras.
* Mistura de todas as culturas tanto indígenas, quanto africanas até mesmo europeias
para compartilhar conhecimentos da arte de curar.
* Após a chegada da família real o Brasil necessita de uma organização sistemática que
proporcionasse o mínimo de saúde, na qual durante o século XIX e início do XX ficou
baseada no âmbito sanitarista, sendo estimulado delegações de medidas básicas às
juntas municipais de práticas sanitárias. Além o sistema também era responsável pela
inspeção nos portos, no intuito de evitar possíveis invasões de contaminações que
gerassem epidemias. Essa organização era ineficiente para o restante do império que
não abrangesse a região da capital carioca, considerando o caráter centralizador e
unificado da administração.
Saúde no Brasil na República Velha até 1930:
* Estabelecimento de uma organização jurídica-política na qual assegurou apenas
condições formais da classe burguesa-clássica, de forma que os interesses dominantes
eram voltados para o capitalismo agrário-pecuarista (política café com leite).
* O desenvolvimento das cidades paralelo a falta de uma sistemática sanitária abria
espaço para a proliferação de epidemias, como por exemplo, no Rio de Janeiro
apresentava-se infestações de varíola, malária, febre-amarela e a peste bubônica, fato
o qual afetava diretamente a mão de obra do sistema capitalista e isso estimulou o
desenvolvimento de iniciativas do governo que era dominado pelos grandes
representantes do capitalismo.
* durante o governo do presidente Rodrigues Alves, houve um desenvolvimento do
sistema sanitário com a intitulação de Oswaldo Cruz como diretor geral de Saúde
Pública, no qual teve o papel de implementar medidas que combatessem as epidemias
no país, especialmente no Sudeste, como a implementação da obrigatoriedade das
vacinas, na tentativa de extinguir a varíola, a febre amarela, além de campanhas de
saneamento que contribuíram para a abolição da peste bubônica que assolava a região
sudeste naquela época, com o extermínio de ratos os quais continham pulgas
infectadas.
* Revolta da vacina : com a obrigatoriedade da vacinação para todos, os
representantes das brigadas sanitárias invadiam as casas e vacinavam todos e isso
gerou indignação por parte da população, a qual se revoltou no Rio de Janeiro e
resultou na retirada da obrigação da vacinação, o que precisou ser reajustado nos
métodos de ação de combate às epidemias do país.
* Outro contribuinte ativo no desenvolvimento do sistema de saúde do país foi Carlos
Chagas, sucessor de Oswaldo Cruz, no qual estimulou a propaganda e educação
sanitária, desviando o foco do caráter incisivo e policial utilizado por Oswaldo. Houve
a criação de órgãos especializados no combate à tuberculose, à lepra e outras doenças
venéreas. Nesse período também a assistência hospitalar, infantil e a higiene industrial
ganharam forte representatividade, havendo melhorias, lembrando que não
assolavam todas as regiões do país.
*(1918) Liga Pró-Saneamento do Brasil, manifestação mais importante na incisiva
mobilização por uma ampla reforma sanitária que melhorasse as precárias condições
sanitárias do país, a qual alertou as elites políticas, intelectuais e econômicas da
necessidade de investimento público estatal.
* Com a forte industrialização que ocorreu no sudeste, a vinda de imigrantes europeus
instalou no Brasil um espírito revolucionário (anarquistas) nos operários que
começaram a se organizar para lutarem por melhorias de vida, o que futuramente
contribuiria na saúde da população.
Saúde no Brasil de 1930 à criação do SUS.
* Diante do aquecido cenário de estímulos em prol do desenvolvimento de uma
sistemática de saúde coerente, a Era Vargas se deu como atora na construção de uma
burocracia pública na saúde, o que significou uma vasta extensão da rede assistencial
pública básica pelo país, da complexidade tecnológica e normativa. No entanto, como
o reconhecimento oficial da profissão passa a ser uma premissa para qualquer
aspiração de inserção no domínio previdenciário, os indivíduos que detinham das
assistências de saúde eram os trabalhadores formais, ou seja, a maioria dos indivíduos
do país ficavam excluídos.
*1941- Reforma Barros Barreto: instituição de órgãos normativos e supletivos
destinados a orientar a assistência sanitária e hospitalar; criação de órgãos executivos
de ação direta contra as endemias mais importantes (malária, febre amarela, peste);
fortalecimento do Instituto Oswaldo Cruz, como referência nacional; descentralização
das atividades normativas e executivas por 8 regiões sanitárias; destaque aos
programas de abastecimento de água e construção de esgotos, no âmbito da saúde
pública; atenção aos problemas das doenças degenerativas e mentais com a criação de
serviços especializados de âmbito nacional (Instituto Nacional do Câncer).
*Na década de 50, em 1953 foi criado o Ministério da Saúde, que passa a coordenar a
questão sanitária do país. Iniciativas como desenvolvimento de novos inseticidas
(DDT), vacinas, antibióticos, campanhas de erradicação de doenças infectocontagiosas
foram estimuladas nesse contexto.
*As lutas sindicalistas por melhorias no sistema de previdência social perpassavam
desde o início da era Vargas, com a representatividade dos Institutos de
Aposentadorias e Previdência Social (IAPS) que conquistaram direitos para a classe
trabalhadora formal dos grandes distritos nacionais, mas foi durante a década de 60
que realmente alcançaram avanços significativos no setor previdenciário.
*1960- Lei Orgânica de Previdência Social: Art. 1º A previdência social organizada na
forma desta lei, tem por fim assegurar aos seus beneficiários os meios indispensáveis
de manutenção, por motivo de idade avançada, incapacidade, tempo de serviço, prisão
ou morte daqueles de quem dependiam economicamente, bem como a prestação de
serviços que visem à proteção de sua saúde e concorram para o seu bem-estar. Com
esta lei, a classe trabalhista formal obteve melhorias no acesso à saúde, no entanto as
classes sociais que não trabalhavam formalmente continuaram a sofrer sem assistência
médica qualificada. Um pouco mais tarde os trabalhadores rurais entraram no sistema
de previdência com uma lei que instituiu o Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural.
* Com a instalação do regime militar, os militares procuram atuar através da
formulação de algumas políticas sociais na busca de uma legitimação do governo
perante a população. Assim, dentro do objetivo de buscar apoio e sustentação social,
o governo se utiliza do sistema previdenciário. Visto que os IAP’s eram limitados a
determinadas
categorias profissionais mais mobilizadas e organizadas política e
economicamente, o governo militar procura garantir para todos os trabalhadores
urbanos e os seus dependentes os benefícios da previdência social. Diante desse
contexto, foi possível arrecadar muitos recursos para o financiamento de benefícios
para a saúde, tendo em vista que os beneficiários contribuíam.
*1967- Promulgação do Decreto Lei 200, estabelecendo as competências
do Ministério da Saúde: formulação e coordenação da política nacional de saúde;
responsabilidade pelas atividades médicas ambulatoriais e ações preventivas em
geral; controle de drogas e medicamentos e alimentos; pesquisa médico-sanitário;
*Em 1970 criou-se a SUCAM (Superintendência de Campanhas da
Saúde Pública) com a atribuição de executar as atividades de erradicação e
controle de endemias, sucedendo o Departamento Nacional de Endemias Rurais
(DENERU) e a campanha de erradicação da malária.
*Em 1975 foi instituído no papel o Sistema Nacional de Saúde, que
estabelecia de forma sistemática o campo de ação na área de saúde, dos setores
públicos e privados, para o desenvolvimento das atividades de promoção,
proteção e recuperação da saúde. O documento reconhece e oficializa a
dicotomia da questão da saúde, afirmando que a medicina curativa seria
de competência do Ministério da Previdência, e a medicina preventiva de
responsabilidade do Ministério da Saúde. No entanto, o governo federal destinou
poucos recursos ao Ministério da
Saúde, que dessa forma foi incapaz de desenvolver as ações de saúde pública
propostas , o que significou na prática uma clara opção pela medicina curativa,
que era mais cara e que no entanto, contava com recursos garantidos através da
contribuição dos trabalhadores para o INPS.
Concluindo podemos afirmar que o Ministério da Saúde tornou-se
muito mais um órgão burocrato-normativo do que um órgão executivo de
política de saúde.
Tendo como referência as recomendações internacionais e a necessidade de
expandir cobertura, em 1976 inicia-se o Programa de Interiorização das Ações
de Saúde e Saneamento (PIASS). Concebido na secretaria de planejamento da
presidência da república, o PIASS se configura como o primeiro programa de
medicina simplificada do nível Federal e vai permitir a entrada de técnicos
provenientes do “movimento sanitário” no interior do aparelho de estado. O
programa é estendido a todo o território nacional, o que resultou numa grande
expansão da rede ambulatorial pública.
* Reforma Sanitária: o movimento sanitário inclui aqueles que compartilham o
referencial médico social na abordagem dos problemas de saúde; e que por meio de
determinadas práticas políticas, ideológicas e teóricas, buscam a transformação de
setor em prol da melhoria das condições de saúde e de atenção à saúde da população,
na consecução do direito de cidadania no país.
O movimento sanitário não aparece isolado do contexto histórico vivenciado nos
anos de 1970 no Brasil. Paralelamente, evidencia-se a crise do milagre econômico no
país, que permitiu o surgimento no cenário político de alguns atores sociais, como o
sindicalismo operário, os trabalhadores rurais, um percentual da Igreja, alinhando-se a
certos grupos de trabalhadores, e, também, a outros movimentos sociais urbanos.
* Os anos 1980 se iniciam com a 7° CNS e o tema “Extensão das ações de saúde
através dos serviços básicos”, sob ampla influência do ideário de “Saúde para todos no
ano 2000” (OMS) estabelecido na Conferência Internacional de Alma-Ata em 1978, e a
experiência pregressa do PIASS (Programa de Interiorização das Ações de Saúde e
Saneamento). No contexto da crise financeira da previdência é apresentado o
natimorto Plano Prev-Saúde, que procurava incorporar as teses de descentralização,
hierarquização e regionalização, com ênfase aos serviços básicos. A criação do
Conselho Nacional de Administração da Saúde Previdenciária (CONASP)
desencadeia em 1982, o plano de reorientação da assistência médica da previdência
de corte antiprivatizante, que abriga no seu bojo o projeto das Ações Integradas e
Saúde (AIS), implementado nos anos seguintes.
Esse campo de conflito propiciou o primeiro evento importante na Saúde: a VII
Conferência Nacional de Saúde, em 1980, tendo como eixo central “a extensão das
ações de saúde através dos serviços básicos”, que buscava implementar um
Programa Nacional de Serviços Básicos de Saúde e apresentava como pressupostos
básicos a extensão da cobertura, a integração dos serviços existentes dos diversos
níveis de complexidade e a regionalização do atendimento por área definida, assim
como, a participação da comunidade
Sobre as experiências regionais do PIASS, secretários estaduais de saúde da
região nordeste articulam uma frente que se consolidaria na criação do Conselho
Nacional de Secretários Estaduais em 1982 (CONASS). O clima de uma transição
democrática favorece o realinhamento das forças políticas e propicia a condução de
lideranças do movimento sanitário tanto no Ministério da Saúde quanto na Previdência
Social.
Mas enfim, todos os caminhos progressistas se cruzam na 8° CNS, em 1986. Um
fato ocorrido neste encontro ilustra a importância das várias frentes de mobilização de
forças pela saúde que se organizavam no país. A previsão original de oito vagas para
os representantes das secretarias municipais de saúde teve que ser redimensionada
para 80, reconhecida a amplitude e amadurecimento daquela participação. O
aprendizado, conquistas e mobilização da oitava CNS se mostrou um aquecimento
essencial para a difícil organização e estratégias políticas que se fizeram vitoriosas na
aprovação do SUS na Constituinte de 1988.
2. Princípios e diretrizes do SUS:
Art. 7º As ações e serviços públicos de saúde e os serviços privados contratados ou
conveniados que integram o Sistema Único de Saúde (SUS), são desenvolvidos de
acordo com as diretrizes previstas no art. 198 da Constituição Federal, obedecendo
ainda aos seguintes princípios:
I - universalidade de acesso aos serviços de saúde em todos os níveis de assistência;
II - integralidade de assistência, entendida como conjunto articulado e contínuo das
ações e serviços preventivos e curativos, individuais e coletivos, exigidos para cada
caso em todos os níveis de complexidade do sistema;
III - preservação da autonomia das pessoas na defesa de sua integridade física e moral;
IV - igualdade da assistência à saúde, sem preconceitos ou privilégios de qualquer
espécie;
V - direito à informação, às pessoas assistidas, sobre sua saúde;
VI - divulgação de informações quanto ao potencial dos serviços de saúde e a sua
utilização pelo usuário;
VII - utilização da epidemiologia para o estabelecimento de prioridades, a alocação de
recursos e a orientação programática;
VIII - participação da comunidade;
IX - descentralização político-administrativa, com direção única em cada esfera de
governo:
a) ênfase na descentralização dos serviços para os municípios;
b) regionalização e hierarquização da rede de serviços de saúde;
X - integração em nível executivo das ações de saúde, meio ambiente e saneamento
básico;
XI - conjugação dos recursos financeiros, tecnológicos, materiais e humanos da União,
dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios na prestação de serviços de
assistência à saúde da população;
XII - capacidade de resolução dos serviços em todos os níveis de assistência; e
XIII - organização dos serviços públicos de modo a evitar duplicidade de meios para fins
idênticos.
Referências:
POLIGNANO, Marcus Vinícius. História das políticas de saúde no Brasil: uma pequena
revisão. Disponível em <[Link]
Acesso em: 30 de julho de 2019.
ROCHA, Juan Stuardo Yazlle. Manual de Saúde Pública & Saúde Coletiva no Brasil. 1°
Edição. Atheneu. 2012
SANTOS, Marta Alves. Lutas sociais pela saúde pública no Brasil frente aos desafios
contemporâneos. Rev. Katálysis, Florianópolis. 2013, vol.16, n.2, pp.233-240.
Disponível em: <[Link] Acesso em: 31 de julho de
2019.
BRASIL. Ministério da Saúde. Lei nº 8.080, de 19 de setembro de 1990. Lei Orgânica da
Saúde. Brasília, set. 1990. Disponível em:
<[Link] Acesso: 30 de julho de 2019.
BRASIL. Ministério da Saúde. Lei nº 8142 de 28 de dezembro de 1990. Brasília, dez.
1990. Disponível em: <[Link] Acesso: 30 de
julho de 2019.