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Antes de Tudo - É Meu Delírio - Viktor Elline

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Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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ANTES DE TUDO:

É MEU DELÍRIO

UM ROMANCE CRIADO POR


VIKTOR ELLINE
OBRA DE FICÇÃO
Qualquer nome, personagens, acontecimentos reais e lugares
são frutos da imaginação do autor. Qualquer semelhança com
pessoas reais, vivas ou mortas, eventos e situações propostas é
mera coincidência.
Capa: TTenorio
Diagramação e revisão: Viktor Elline
Publicação Independente / Kindle Direct Publish em 2022.
1º Edição Digital | Criado no Brasil.

REDES SOCIAIS:
Instagram Literário: Viktor Elline Autor

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS


Proibida a reprodução, no todo ou em parte, através de
quaisquer meios, sem a autorização documentada do autor. Em
caso de plágio, cópia ou qualquer violação, os direitos serão
reavidos perante a justiça.
“Lei nº9.610, de 19 de fevereiro de 1998”
Dedico essa obra a todos os suspiradores ao redor do mundo!
Para todos aqueles que sentem medo de amar, que foram
machucados e por algum motivo criaram uma barreira impedindo tal
sentimento. Vocês são amados!
Quero agradecer a cada um de vocês por me darem a chance
de transportá-los do mundo real para o universo que criei, seja por
alguns minutos, horas ou dias. E espero que voltem aqui sempre
que precisarem de um descanso.
Peço que, por gentileza e boa educação, não plagiem minha
obra. Muito tempo, esforço (lágrimas também) foram derramadas
para que esse livro visse a luz do dia. Isso foi feito para vocês, mas
o reconhecimento e respeito são necessários de ambas as partes.
“Quem diria que todos os meus planos mudariam quando,
literalmente, fosse ao chão por aquele que amaria desde a primeira
vez que meus olhos encontrassem os seus.
O som mais perfeito havia se tornado o de um suspiro.
O mesmo suspiro que causaria Meu Delírio!”
Sumário
CAPÍTULO 01 - Tranque a Porta
CAPÍTULO 02 - A Surpresa Que Não Foi Uma Surpresa
CAPÍTULO 03 – Controle
CAPÍTULO 04 - Um Novo Continente.
CAPÍTULO 05 - Mercado Negro
CAPÍTULO 06 - (Não É) O Amor Da Minha Vida
CAPÍTULO 07 - Mais Do Que Um Homem
CAPÍTULO 08 - Os Três Para Mim
CAPÍTULO 09 - Mundo Cor De Rosa
CAPÍTULO 10 - O Homem Protetor
CAPÍTULO 11 – Chocolate
CAPÍTULO 12 – Preocupado
CAPÍTULO 13 - O Vinho e a Aliança
CAPÍTULO 14 - O Fim do Túnel
CAPÍTULO 15 – Sinceridade
CAPÍTULO 16 – Herói
CAPÍTULO 17 - O Resultado
CAPÍTULO 18 – Atlântida
CAPÍTULO 19 - Informações Proibidas
CAPÍTULO 20 - Você Realmente Sente Minha Falta?
CAPÍTULO 21 – Mergulhando
Agradecimentos:
CAPÍTULO 01 - Tranque a Porta

— Eu menti o tempo todo, porque eu estava fazendo de tudo


para ficar longe de você! — Gritei para aquela mulher em minha
frente. Ela não esboçava nenhuma reação ao saber que seu filho
mudaria para um país completamente diferente.
— Espero que saiba o que está fazendo, Parker. — Ela pegou
a bolsa e deu o sinal para que o motorista carregasse minhas malas
já prontas.
— Eu não acredito que você não vai me falar nada!
Estava incrédulo com aquela atitude. Ela agia como se nada
estivesse acontecendo, ou como se eu fosse do outro lado da rua e
não para outro país. Ela sempre havia sido dura comigo, mas
pensava que ainda existia algum tipo de consideração pelo filho que
colocou no mundo. No entanto estava enganado quanto a
capacidade daquela mulher de se importar com algo além da sua
condição financeira.
— O que você quer que eu diga? — Perguntou checando seu
celular e mandando alguma mensagem. — Você já tem idade o
suficiente para ser responsável. Se acha que é capaz, não me
importo com o que faça, desde que não me envergonhe. Agora
ande logo. Vou para a empresa e depois peço para te deixarem no
aeroporto.
Eu queria chorar, mas sabia que aquilo a faria constatar que eu
era um fraco, então passei por ela sem dizer nada. Quando o frio
daquela manhã me atingiu, passando pelo meu casaco e perfurando
minha pele como agulhas, senti um certo conforto. Minha memória
se lembrava de quando era mais novo e de como eu adorava ficar
do lado de fora de minha casa, somente vendo o vento batendo nas
copas das árvores e as fazendo dançar em sincronismo, ou como
quando estava com a janela completamente aberta de meu quarto,
sentindo a corrente de ar mexer meus cabelos e bater em minha
pele aquecida. Eu sentia saudade de tudo aquilo. De toda a
facilidade em viver quando a minha única responsabilidade era ser
exemplar na escola e mostrar os boletins para minha mãe. Pelo
menos naqueles momentos eu sentia que, de alguma forma
distorcida, ela se importava comigo.
Mas à medida que minha idade aumentava, a presença dela
diminuía cada vez mais. Eu quase não a via, e das poucas vezes
que isso acontecia, ela conversava com todas as pessoas menos
com o seu próprio filho. Incontáveis vezes eu tentara uma
aproximação, ou buscar fazer algo que a agradasse, pois sentia sua
falta. Mas ela só se dirigia a mim quando para me corrigir ou sobre a
forma que deveria me comportar em algum evento. E somente
naqueles momentos sentia seu carinho falso. Eu não me lembrava
de ter em algum momento uma lembrança onde estávamos juntos e
sorrindo.
Caminhava naquela calçada de pedras que levava em direção
ao carro, e era como caminhar para a minha liberdade. Eu queria
um lugar para chamar de meu e sabia que não conseguiria aquilo
naquela cidade ou naquele país, pois sempre estaria embaixo da
influência de Harper Hayes. Me perguntava em qual momento ela se
tornara tão amarga? Minha avó, mesmo pelas poucas vezes que
vinha me visitar antes de falecer, contava que sua filha era uma
garota sorridente quando criança, sonhadora e sempre disposta a
amizades, mas que a vida a deixou seca. Nem o nome do próprio
filho ela escolhera, deixando o trabalho para sua mãe. Minha avó
dizia que pelo menos os nossos nomes combinavam um com o
outro: “Parker e Harper”.
Quando entrei no automóvel novamente senti como se
estivesse preso dentro de uma gaiola com algum animal predador.
Era assim que me sentia perto dela. Constantemente me
defendendo de seus ataques a minha aparência, desempenho
acadêmico ou comportamento. Tudo o que ela podia encontrar,
usava para me cobrar. Buscava sempre a perfeição, porém aquilo
não se aplicava a ela, nem ao seu péssimo comportamento como
um ser humano.
Não me despedi de meus amigos, nem os avisei que faria
aquela viagem, pois tinha certeza de que não se importariam. Noite
passada estavam aproveitando uma festa regada de bebida e
drogas. O mais interessante era o fato de fazerem trabalhos
voluntários para dependentes químicos e negarem fortemente em
frente ao seus pais o próprio vício.
O caminho inteiro Harper mexeu em seu celular e falava com
sua secretária em alguma ligação regada a irritação. Eu tinha dó de
todos que trabalhavam com aquela mulher. Deveria ser uma
constante vontade de jogar tudo para o alto ou esganá-la. Pelo
menos eu tinha aquela vontade. E aquele pensamento me fez rir,
cortando o silêncio. Ela me encarou.
— O que é tão engraçado?
— Eu estava pensando na quantidade de pessoas que
gostariam de te esganar pelo seu jeito. — Respondi a encarando e
deitando minha cabeça no encosto.
— E você? Tem vontade de fazer isso com a sua própria mãe?
— Era a conversa mais longa que tivemos em meses.
— O tempo todo, mãe! — Afirmei e pude escutar sua risada.
Fina e calma como sempre. Era a primeira vez em anos que a via
fazer aquilo, e por um momento pensei em desistir de meus planos.
Me questionava se ela estava sentindo alguma coisa pela
minha partida ou se realmente não se importava com aquilo. Nós
convivemos durante meus vinte e três anos embaixo do mesmo teto
e eu conhecia todas as suas reações, assim como sua indiferença.
Porém naquele momento não encontrei a mulher durona. Ela me
olhou por alguns segundos e colocou um de meus cachos no lugar.
Imediatamente parei de sorrir. Tinha esquecido de como o
toque de sua mão era macio e quente. Estava deixando tudo para
trás e mesmo não pensando daquela forma há muito tempo, eu
realmente a amava e queria sua aprovação, mas sabia que aquilo
era somente um sonho meu.
— Eu não sou o monstro que você pinta em sua mente. — Ela
disse. — Tudo o que eu faço é para te proteger do idiota do...
Ela parou por um instante e pensou nas palavras que usaria a
seguir. Eu sabia que ela citaria um nome e aquilo me intrigou, mas
só tirou uma chave da bolsa e me entregou.
— O que é isso? Eu tenho todo o dinheiro que você me deu.
— Eu não perguntei se precisa de alguma coisa. — E lá estava
ela de volta. — Você pode estar em um outro país, mas nada te
impede de ser assaltado ou morto. Não vou carregar isso nas
minhas costas.
O carro parou em frente a empresa e o motorista saiu abrindo
a porta para ela. Eu realmente pensei que ela mudaria de ideia e me
acompanharia até o aeroporto, mas me enganei estupidamente. Ela
saiu sem se despedir e nem olhar para trás.
Ao “realmente” ficar sozinho naquele carro, pude deixar as
lágrimas saírem de meus olhos aquecendo por onde passavam.
Como eu pude ser tão estupido a ponto de acreditar que ela
mudaria de uma hora para outra? Apertei aquela chave idiota em
minha mão e prometi que nunca mais choraria por alguém. Uma
promessa que não tinha certeza nenhuma de que conseguiria
cumprir. Ela poderia ser a pessoa que havia me concebido naquele
mundo, mas definitivamente não era sinônimo de mãe.
Em meu celular recebi uma mensagem de sua secretária e vi
que era o endereço do local onde seria meu novo lar. Eu poderia
muito bem ser orgulhoso e jogar aquela chave pela janela, mas se
ela fazia tanta questão de me comprar aquele imóvel, não seria eu
quem recusaria. Menos uma preocupação para minha cabeça.
O aeroporto não estava tão cheio aquele dia. Talvez pelo frio
horrível que fazia, mas para mim aquele era o clima ideal. O céu
quase branco me trazia uma sobriedade e relaxamento instantâneo.
Peguei minha mala e agradeci o desejo de boa viagem que o
motorista me deu. Eu não me atrevi a perguntar seu nome, pois
aquela era a primeira vez que ele falara comigo em anos de serviço.
Não fingiria uma falsa simpatia. De certo ele estava feliz, pois teria
mais tempo livre para não fazer nada já que sempre ficava perto de
mim.
Caminhei por aquele espaço amplo e percebi que estava umas
duas horas adiantado para o voo. E não tinha me dado conta da
minha ansiedade até entregar de mãos tremendo o bilhete e meu
passaporte para a atendente. Estava mudando completamente
minha vida, longe de todo aquele drama que ela foi nos últimos
anos. A garota bem arrumada me olhou e sorriu amigavelmente,
notando o meu nervosismo.
— Primeira viagem? — Perguntou com os olhos focados na
tela do computador.
— Pode se dizer que sim.
— Se ajudar, eu aconselho a tomar um chá de camomila
dentro do avião. — Ela me entregou meus documentos. — Na
primeira classe eles possuem um ótimo.
— Muito obrigado. — Estranhei ao ouvir aquilo, pois havia
comprado a econômica e quando olhei novamente o bilhete,
realmente constava o upgrade. Era óbvio que minha mãe tinha feito
aquilo. Ela sabia de tudo o que eu fazia e me senti um idiota por
achar que eu havia conseguido mentir para ela sobre toda aquela
mudança.
Estava ansioso para aquela viagem, mas também orgulhoso
de mim. No fim do ano passado havia feito a mesma viagem para
realizar a minha entrevista para entrar na Faculdade de Artes
Dramáticas de Bisera, e devo dizer que nunca tinha sentido tanto
orgulho quando soube de minha aprovação depois de alguns dias.
Era o meu presente de Ano Novo e eu gostaria muito de ter alguém
para contar aquilo. Até tentei iniciar o assunto com minha mãe em
nosso jantar, porém não me dera atenção.
Parei em uma das várias lanchonetes que havia dentro do
aeroporto e comprei uma água. Minha garganta teimava em ficar
seca a todo momento devido ao nervosismo e previ minhas várias
idas ao banheiro. Abaixei minha cabeça e enfiei meus dedos em
meus cabelos, a massageando, tentando inutilmente controlar as
batidas de meu coração.
— Um café, por favor! — Um homem ao meu lado pediu
enquanto falava ao telefone com outra pessoa. Me concentrei em
sua voz para tentar mudar meus pensamentos de uma possível
morte certa caso o avião caísse.
— Mas eu quero a minha bala, mamãe! — Uma menininha
gritou não muito longe de mim.
Eu focava em tudo menos em mim mesmo, até que meus
pensamentos ficaram vagos e finalmente consegui me acalmar. Me
concentrei em minha respiração lenta e o silêncio em meus ouvidos.
Tudo estava meio abafado e me senti calmo para seguir viagem.
Sabia que era tudo coisa da minha cabeça, mas tinha aprendido
aquilo enquanto ignorava as broncas e lições de moral dadas pela
minha progenitora, mesmo eu nunca dando um motivo sequer para
aplicá-las.
Dentro do avião, logo me sentei em minha poltrona e coloquei
meus fones de ouvido procurando afastar meu medo idiota. Chamei
a comissária e pedi um chá de camomila, seguindo conselho da
atendente, e não demorou muito para que eu comprovasse que ela
tinha razão. Fiquei muito menos ansioso e até propenso a dormir,
mas ver a cidade se tornando cada vez menor e as nuvens cada vez
mais próximas foram de tirar o fôlego. Eu agradeci a intromissão de
minha mãe. Ela tinha feito algo de bom por mim, pelo menos uma
vez. Fiquei admirando o céu por vários minutos, em silêncio, até que
sem perceber adormeci.
Não lembro com o que sonhei, porém me sentia renovado, e
não ativo ou preocupado devido aos pesadelos dos últimos dias,
onde eu era expulso do avião em pleno movimento.
Uma mulher bem-vestida tocava o meu ombro gentilmente, me
dizendo que pousaríamos em alguns minutos. Me preparei e depois
de um desconforto inicial, vi as luzes do aeroporto ao longe. Ele
brilhava como uma noite de Natal em pleno janeiro, e uma emoção
contagiante me veio. Eu finalmente estaria iniciando um novo passo
em minha vida e completamente independente de minha mãe. Ela
não estaria mais perto de mim, mesmo que fosse para influenciar
minhas ações, porém manteria minha promessa de não dar vexame,
pois isso não era parte de mim.
À medida que andava por todo aquele lugar percebia que eu
estava em casa. A luz vencendo a escuridão que fazia do lado de
fora, as pessoas se abraçando depois da longa viagem e ainda mais
em especial, as que estavam sozinhas, como eu, me faziam
perceber que não era único. Puxando minha mala, passei pelas
portas de entrada e o barulho da cidade inundou meus ouvidos.
Vozes ao telefone, taxistas arrumando malas nos carros e multidões
caminhando pela calçada encheram meu corpo de uma euforia
maravilhosa. Eu estava em um novo país, em meu novo lar pelos
próximos quatro anos e se tudo ocorresse bem, pelo resto de minha
vida.
Havia passado para cursar Drama, ou Artes Cênicas, na
faculdade de Bisera e aquela oportunidade me dera forças. Alguma
coisa me dizia que minha vida mudaria completamente e me sentia
tão bem com aquela sensação, muito diferente do meu medo
incondicional dos julgamentos de minha mãe. Eu seria uma nova
pessoa. Alguém melhor, principalmente, para mim.
No caminho até o apartamento em que eu moraria, pedi para o
taxista passar em frente à minha futura universidade, e assim que
coloquei meus olhos naquela estrutura moderna e coberta por
placas de vidro, não contive o sorriso e parecia uma criança boba
com as mãos e o rosto grudado na janela. Eram exatamente oito
horas da noite e um grupo de alunos estava saindo, sorrindo e
conversando entre si animadamente. Logo seria eu quem estaria
daquela forma... Feliz.
O táxi parou em frente a um prédio em uma região calma. Pelo
estabelecimento fechado na frente teria acesso fácil a uma padaria,
o que facilitaria comprar alguma coisa. Paguei a corrida e agradeci a
gentileza do motorista em me ajudar com as malas. Quando entrei a
recepcionista fez um sinal para que um ajudante as pegasse.
— Bom dia, Sr. Hayes. — Ela disse e percebi a diferença em
seus dois olhos, onde um era castanho e outro azul.
— Por favor, me chame de Parker.
— Meu nome é Mandy. — Apertou minha mão. — Aqui estão
as chaves reservas do seu apartamento. Sua mãe nos ligou
avisando que chegaria em breve. Pedi para que limpassem tudo.
As peguei e com o movimento um panfleto da minha
universidade caiu.
— Você vai estudar na faculdade de Bisera?
— Sim, consegui uma bolsa. Por quê?
— Eu também vou! — Sorriu. — Vou cursar Cinema e Roteiro.
— Vou cursar Drama. — Respondi me apoiando no balcão. —
É ótimo saber disso. Pelo menos vou conhecer alguém. Seria muito
invasivo pedir seu número? Prometo que não sou nenhum
psicopata.
— Sem problema algum. Também vou adorar ter um amigo. —
Disse anotando seu número no meu celular. — Sr. Hayes, eu ia
adorar conversar mais com você, mas agora tenho que trabalhar. É
meu último dia aqui, então quero deixar uma boa impressão.
— Claro, desculpa. — Falei sorrindo e indo em direção ao
elevador, mas parei e a encarei. — Me chama de Parker, por favor.
Me sinto estranho quando me chama de senhor.
— Pode deixar, Parker.
Me surpreendi assim que as portas se abriram no corredor
privativo do apartamento e mais ainda quando entre nele. Estava
muito bem cuidado e todos os móveis em perfeito estado. Minhas
malas foram deixadas na entrada e dei uma gorjeta ao ajudante.
Achei engraçado de início, pois ele somente ficou parado lá, mesmo
depois de eu dizer que não precisava de mais nada. Até que me
toquei e dei o dinheiro para ele. Devia ser um hábito.
Decidi guardar todas as minhas roupas de uma vez e depois
de me sentir sujo devido a tanta arrumação, tomei um banho. A
água quente fez meus músculos relaxarem e sorri embaixo do
chuveiro. Eu estava feliz depois de muito tempo e adorando me
sentir daquele jeito. Enquanto me trocava, meu celular começou a
vibrar em cima da cama e me surpreendi por receber aquela
ligação.
— Oi, Mãe.
— Já chegou? — Questionou direta como sempre.
— Sim, e já estou me preparando para dormir.
— Ótimo. — Um silêncio pairou na conversa e podia jurar que
queria falar mais alguma coisa, mas como sempre, algo a impedia
de demonstrar sentimentos para seu próprio filho, então a ajudei.
— Obrigado.
— Pelo que? — Pigarreou. Ela sabia muito bem do que eu
estava falando.
— Pelo apartamento. Ele é muito bonito.
— Achei que fosse gostar mesmo. — Podia jurar que tinha um
sorriso em seu rosto do outro lado da linha. — Bom, era isso. Se
precisar de algo, sabe o que fazer. Boa noite, filho.
Fiquei tão chocado por ter me chamado de "filho" que travei e
nenhuma palavra deixou minha boca. Mas mesmo que quisesse
respondê-la, não conseguiria, pois logo em seguida a chamada foi
encerrada. Fiquei por vários minutos deitado com o celular na mão,
com aquela palavra se repetindo em minha mente, até que uma
corrente de vento fez meu corpo se arrepiar. No relógio marcavam
quase dez horas e fui até a cozinha, e para minha surpresa havia
uma variedade de comidas. Como estava cansado optei por comer
um cereal e logo me joguei na cama. Meus olhos lentamente se
fecharam e não sonhei com nada.

|<>|<>|<>|<>|<>|<>|

Com a luz do sol entrando pela janela, e também com o meu


despertador estourando meus ouvidos, acordei. E muito feliz, pois
aquele seria meu primeiro dia na minha mais nova universidade. A
primeira Terça-Feira de várias outras pelos próximos anos. Eram
seis horas da manhã e já estava correndo pela casa, ansioso pela
aula que começaria as nove horas. Não morava muito longe, então
caminharia até lá. Não conseguia me segurar de tanta emoção, meu
coração batia alegremente.
Quando já estava pronto, me sentei no sofá e peguei o celular
para mandar mensagem para Mandy. Ela provavelmente estaria
acordada naquele horário. Eu não tinha o costume de ser tão
sociável, mas aquele momento estava impedindo todas as minhas
barreiras de se formarem. Mandei um bom dia que logo foi
respondido, então combinamos de nos encontrarmos logo na
entrada da escola.
Fechei todo o apartamento e assim que passei pela recepção,
cumprimentando o homem que cobria o turno da manhã, me
surpreendi quando vi minha mais nova amiga chegando no hall do
prédio com sua bolsa e um sorriso tão grande no rosto quanto o
meu. Ela me deu um abraço, e eu de início não soube o que fazer,
mas logo retribui o gesto, gostando da intimidade.
Mandy também tinha vinte e três anos e havia se mudado para
Bisera, buscando seguir seus sonhos. Os seus pais não a apoiaram
de início, e ainda não o faziam. Mais uma coisa que tínhamos em
comum. Ainda tinha esperanças de que minha mãe um dia me
dissesse um "Te Amo", mas sabia que não aconteceria. Ela era
muito dura consigo e se recusava a demonstrar qualquer tipo de
afeto. Ela podia não deixar mostrar, porém eu sabia que sofria com
o machismo diariamente.
Estava errado quanto a distância e acabamos pedindo um
Uber até a universidade. Meu coração batia muito forte em meu
peito, tanto que tive que apertar as mãos em minha mochila. Eu
estava sorrindo de ansiedade e segurei em Mandy, que se jogou em
meus braços da mesma forma. Nós nos olhávamos com alegria e
não contendo a excitação eu soltei um gritinho, que minha mais
nova amiga acompanhou. Quem nos visse pensaria que estávamos
morrendo de vontade de ir no banheiro.
— Vamos? — Me perguntou já me puxando.
— Vamos!
As luzes que vinham de fora faziam o local ser muito maior do
que era. Vários alunos andavam para lá e para cá em plataformas e
uma recepção enorme estava montada para dar boas-vindas a
todos os novos estudantes. O espaço era tão amplo e aberto que
meus cabelos se moviam com o vento. Várias mesas estavam
espalhadas pelo pátio e vários veteranos vestiam a camisa azul que
representava a cor da escola. Todos sorrindo e recebendo
calorosamente todos os novos alunos e ajudando com as
identificações das salas.
Mandy viu que sua estação de informações era um pouco
afastada da minha e tivemos que nos separar, mas combinamos de
nos encontrarmos logo no final do dia, já que nossas aulas eram
quase a tarde inteira. Caminhei segurando os meus braços
buscando trazer algum conforto e parar de tremer, mas aquela
tentativa foi um pouco falha. Eu estava animado demais e seria a
minha primeira vez convivendo com diferentes culturas. Torci para
falar tudo certo e não passar vergonha na frente de ninguém.
Assim que cheguei à mesa, estava um garoto que não deveria
ser mais velho que eu e em seu crachá estava o nome Frederick.
Ele estava ajudando uma outra menina de cabelos platinados e
alguns fios cor de rosa na minha frente. A primeira coisa que notei
quando cheguei era como o jeito dos biserinos era diferente. Era
quase como uma sensação palpável das nossas energias.
O fiquei encarando, admirado pelo seu jeito enquanto ajudava
a todos, até que ele passou os olhos em mim rapidamente, mas
depois voltou e me encarou por alguns segundos, concordando com
o que a garota falava, mas depois a olhou entregando o mapa da
escola e o seu cronograma. Estava na cara que ela estava se
jogando para cima dele e eu nem precisava entender o que ela
dizia.
Quando chegou a minha vez ele se levantou, diferente de todo
mundo que atendera, e estendeu a mão para mim. Sua barba tinha
algumas falhas, mas nada que o deixasse desleixado, pelo
contrário, só o fazia parecer ainda mais educado e sensual. Tanto
que tive que me controlar para parar de olhá-lo. Eu estava
começando a ficar com vergonha e ainda nem tinha trocado uma
palavra com ele. Pareceria um idiota se continuasse daquele jeito.
Me sentei em sua frente, e com todo o autocontrole do mundo,
mantive minha postura ereta.
— Bom dia, Frederick. — Fingi que lia seu nome no crachá. —
Meu nome é Parker.
— Bom dia, Parker. — Ele respondeu com um sorriso e uma
voz tão macia que tive um orgasmo auditivo. — O que eu posso
fazer por você?
— Eu preciso do meu cronograma e se possível uma ajuda pra
onde devo ir.
— Sem problemas. Me dá sua carteirinha. — Pediu e entreguei
sentindo seus dedos encostarem nos meus. E tinha quase certeza
que fizera aquilo de propósito, pois uma covinha apareceu em um
sorriso contido. Ele começou a digitar algumas coisas no
computador e a todo momento o pegava olhando para mim, e ele
sabia que eu o via, pois não desviava quando nossos olhares se
encontravam. — Você sabe que vai ter que escolher uma aula
adicional, não é?
— Sim, eu sei.
— Já sabe o que vai escolher? — Me entregou meus
documentos e se apoiou na mesa, deixando a vista a definição de
seus braços. Ele tinha músculos, mas nada exagerado. — Eu tenho
que indicar dança. Você tem corpo de quem dança bem.
— Tenho? — Estranhei a comparação.
— Tem, sim... — Ele foi interrompido por uma garota de
cabelos loiros e vestindo o mesmo uniforme. Ela se pendurou no
pescoço dele e me olhou com um sorriso forçado, o qual eu retribuí
com prazer.
— Calouro? — Perguntou para Frederick e me ignorando. Ele
estava com a cara fechada ou até constrangido. Eu vi que meus
guias já estavam impressos e os peguei de sua mesa, me
levantando. Ele fez o mesmo, desequilibrando a garota.
— Bom, eu preciso ir agora. Foi ótimo conhecer vocês. — Me
afastei
Eu virei o primeiro corredor e senti a intensidade do olhar de
Frederick acabar. Não era idiota a ponto de não perceber que ele
estava dando em cima de mim, e também que ele e aquela loira
tinham algum tipo de relação. No entanto não me colocaria entre os
dois. Eles que se resolvessem, e esperava, de todo o meu humilde
coração, que não tivesse nenhum drama amoroso na faculdade. Já
tinha problemas demais dentro da minha própria cabeça e não
precisava de mais nenhum.
Finalmente achei a sala e me surpreendi quando todos
estavam sentados e vestidos confortavelmente. Tinham pessoas
das mais variadas etnias e estilos. Reconheci uma garota que devia
ser indiana e um outro homem que tinha tranças indicando sua
origem africana. Eles eram tão únicos e tão confiantes que de início
fiquei constrangido de me aproximar, no entanto não precisei fazer
nada. Uma garota de cabelos loiros e tão branca que parecia que
fosse quebrar a qualquer minuto, se aproximou com um sorriso e
fazendo sua grande trança balançar.
— Oi, eu sou Pamela, muito prazer em te conhecer. — Puxou
minha mão e a sacudiu. Ela parecia estar sob efeito de um quilo de
açúcar. — Qual o seu nome? De onde você veio?
— Oi, Pamela. Eu sou Parker. Eu nasci em Parvat mesmo,
morei um tempinho aqui na cidade de Bisera, mas nos mudamos e
fui criado no Brasil com a minha mãe.
— Brasil? Que legal. Você tem um sotaque mesmo. — Ela
ainda segurava minha mão.
— Isso é uma coisa ruim?
— De jeito nenhum. Ele é até sexy de ouvir. — Paramos em
frente a todos. — Gente, esse é o Parker, ele é brasileiro e parvato.
— Oi. — Foi tudo o que eu consegui dizer antes de ser
bombardeado com milhares de perguntas.
Estava adorando conhecê-los. Bonio viera da África do Sul e
era um doce de pessoa, apesar de ser enorme. Seus dreads caiam
um pouco abaixo de seu pescoço dando um charme especial a ele.
Talyua era a garota indiana que depois que você trocava a primeira
palavra com ela, era um discurso atrás de discurso. E tinha que
confessar que foi um pouco difícil entender tudo o que ela falava
devido a velocidade e seu sotaque.
Não demorou muito para que a professora aparecesse e com
boas-vindas. Com a ajuda dos veteranos de outras turmas,
organizaram um café e trocaram experiências conosco. Contamos
sobre nossa trajetória até o momento, e me senti envergonhado de
falar, pois a única vez que havia participado de uma peça ou tive um
contato maior com o teatro fora no ensino médio. Bem diferente de
todos. Porém a professora não ligou e me disse para ter orgulho de
cada momento, pois eram esses que nos conquistavam e assim
trazíamos algo de bom para quem nos assistisse.
No mesmo dia tive aulas introdutórias e pequenas amostras do
que estudaria, como discursos, representação, postura corporal e
vocal, movimentação, e a que mais achei diferente, sobre máscaras,
para que nos tornássemos e entendêssemos sobre nossos
personagens. No horário de almoço fiquei com a minha turma e
estava me sentindo tão completo e bem no meio daquelas pessoas
que não conseguia pensar em mais nada. Depois de alguns minutos
Mandy se sentou ao meu lado junto com alguns de seus colegas e
todos começaram a conversar. Afinal, seu curso de Roteiro e
Cinema e o meu de Drama tinham tudo a ver.
Senti que estava sendo observado e não gostei da sensação.
Olhei em volta e não havia ninguém prestando atenção em nossa
mesa, mas sabia que havia alguém escondido no meio de toda
aquela gente. Mandy me cutucou perguntando o que eu tanto
procurava, mas desconversei. Não bancaria o paranoico. Por conta
de ser o primeiro dia só tivemos mais uma aula de representação
onde apresentamos os monólogos de nossas audições e um outro
que gostássemos. Seria a minha terceira vez me apresentando em
frente de desconhecidos e não me preocupei. O que a professora
havia me dito martelava o tempo todo em minha cabeça.
Quando o pôr-do-sol anunciava o início da noite fomos
liberados. Muitos dos meus colegas iriam para o alojamento que a
universidade disponibilizava aos alunos, um caminho contrário ao
meu. Mandei uma mensagem a Mandy dizendo que já tinha ido, e
quando estava quase virando a rua escutei alguém chamando meu
nome. Frederick correu para me alcançar, vestido com uma jaqueta
preta que o deixava ainda mais lindo. Ele sorriu para mim assim que
se aproximou.
— Oi... — Ele disse recuperando o fôlego.
— Oi, de novo. — Respondi rindo da cara de cansado que ele
fazia.
— O que foi? Tem alguma coisa no meu rosto?
— Não é nada. Esquece. — Me olhou desconfiado. — O que
você quer?
— Eu... é — Coçou a cabeça. — Caramba, é muito difícil me
concentrar com você me olhando desse jeito.
— Eu posso me virar se quiser.
— Não é isso! — Ele se afobou, mas quando eu ri ficou
desconcertado. — Você está brincando com a minha cara, não é?
— Juro que não estou. — Fiz um “X” com os dedos e os beijei.
Ele acompanhou meus movimentos e mesmo depois de abaixar as
mãos continuou olhando para minha boca. — Frederick, tudo bem?
— É... desculpa. É que eu não sei como falar isso, mas... Indo
direto ao ponto você quer sair comigo? Eu sei que ainda é cedo e a
gente nem se conhece direito, mas eu realmente te achei muito
bonito.
Eu fiquei surpreso com aquela pergunta e elogio, mesmo
sabendo que eles viriam. Ele era lindo demais, mas eu tinha algo
em mim, talvez o meu medo de me envolver, me fazendo recusar o
seu pedido. Não o conhecia e ele parecia um cara legal, mas eu
simplesmente não podia. Não naquele momento.
— Frederick, eu...
— Pode me chamar de Fred. — Me interrompeu.
— Fred, eu não posso sair com você agora. Eu não estou
pronto ainda. Espero que entenda. Você parece um cara
maravilhoso.
— Entendi. — Seu rosto se entristeceu. — Pelo menos eu
tenho alguma chance de isso algum dia acontecer?
— Bom, se você se comportar, quem sabe? — Sorri e me virei.
— Tchau, Fred.
Ele colocou as mãos nos bolsos e com um sorriso pequeno foi
embora. Não queria machucá-lo e ter alguém me olhando torto.
Quem saberia, no futuro, o desse uma chance. Mas naquele
momento tudo o que eu queria era focar em mim. Fiquei vinte e três
anos da minha vida fazendo o que minha mãe queria, me
importando com o que dizia, e acabei não fazendo nada e só
desperdiçando meu tempo. No entanto, naquela nova cidade, daria
toda a atenção a minha felicidade.
Decidi caminhar mesmo sendo um pouco longe até meu
apartamento, mas com o tempo pude ver as luzes se acendendo e
os táxis coloridos começarem a inundar as ruas levando as mais
diferentes pessoas. Pessoas essas que levavam consigo alguma
paixão e sonhos. Eu me sentia uma delas. Me sentia alguém em
Bisera. Em um de meus devaneios acabei quase caindo em cima de
uma gaiola com uma gatinha e outra com um cachorro, ambos de
pelugem preta. Assim que me viram começaram a fazer um barulho
imenso na frente do petshop. Abaixei ficando na frente de ambos, e
fiz carinho em suas carinhas pequenas. Eu senti tanto amor por eles
naquele momento que sem pensar entrei na loja.
O dono estava sentado lendo alguma coisa na bancada e
assim que me viu se endireitou, colocando um sorriso no rosto e me
cumprimentou com uma voz amigável. Eu mostrei os dois bichinhos
e falei que queria adotá-los. Ele não pensou muito no assunto, de
fato estava querendo doá-los mesmo, pois eram os únicos lá.
Aproveitei e comprei tudo o que podia, desde brinquedos a papéis
higiênicos para limpar o bumbum deles. Depois me julgaria por ter
gastado tanto, porém naquele momento só queria dar de tudo a
eles. Assim, com uma caixa com os dois e várias sacolas, iniciei a
minha família.
Pedi um Uber e o motorista foi muito bondoso em me deixar
colocar os dois animais lá dentro. Assim que cheguei, fiquei
esperando alguém aparecer na recepção para me ajudar, mas
aquilo não aconteceu. Não havia ninguém lá. Então entrei no
elevador com todo aquele peso e com a gatinha miando muito.
Estava com meus braços doendo com todo aquele peso e os nós de
minhas mãos estavam parecendo que se romperiam. Passei a
chave eletrônica na porta, graças a Deus a tinha pegado na
recepção de manhã, e entrei nem me preocupando com a
escuridão.
No instante que coloquei a caixa com os dois animais no chão,
senti um braço me envolver pela cintura e outro subir pelo meu
pescoço tampando a minha boca. Eu senti a barba do homem
arranhar minha bochecha, e o cheiro de seu perfume estava
impregnado em seus dedos. Tentei me soltar, me abaixando e
dando um impulso para trás, mas ele jogou todo o seu corpo em
cima de mim, me prendendo no chão. Mordi seu dedo deixando
minha boca livre, mas antes que pudesse pedir por ajuda, escutei a
voz do intruso em minha orelha.
— Não grite! Eu não vou te machucar e vou te soltar devagar,
ok? — Disse e por um momento apreciei a voz grave e meio rude
dele. — Não grite, garoto.
Lentamente o senti sair de cima de mim, fazendo com que o ar
gelado me fizesse tremer de frio. Me virei rapidamente e então
percebi que ele não estava sozinho. Pequenas luzes estavam
jogadas nos cantos do apartamento, e vários homens com
equipamentos modernos estavam acomodados pela sala. O homem
que havia me prendido estava em pé na minha frente, mas devido à
sombra da porta não consegui ver seu rosto, mas ele era alto, muito
mais que eu. Ele me pegou pelos braços e me colocou em pé.
— Quem é você? Quem são vocês e o que estão fazendo no
meu apartamento?
— Meu nome é Vincent. — Ele me disse e me puxou em
direção ao meu quarto. Assim que entramos, a luz de fora iluminava
bem o ambiente, e então consegui ver seu rosto.
Uma barba cheia o cobria. Sua expressão séria e dura me
causaram um certo incomodo, e com ele me olhando de cima, com
um ar superior, não melhorava a sensação. Eu me perdi em seus
olhos, tentando identificar onde estavam sua íris, mas não tive
sucesso. As mangas de sua camisa estavam puxadas e ela estava
com botões abertos, deixando exposta uma camada de pelos pretos
como seu cabelo. — Você fica aqui. E não saia até eu mandar!
Acordei de minha apreciação pelo seu corpo e me levantei
indignado. Não seria preso em meu próprio apartamento. Ainda
mais por um desconhecido metido a machão.
— Eu não recebo ordens suas! — Me aproximei apontando o
dedo em sua cara. — Você está onde eu moro e eu quero saber o
que está acontecendo!
Ele segurou minha mão assim que ela se aproximou o
suficiente. Eu fiz menção de levantar a outra, mas ele foi mais
rápido e a prendeu também. Senti a minha pele friccionar a sua e
mesmo gostando de sentir o calor dela, a minha parecia ser
rasgada.
— Me solta!
— Vai ficar aqui, me entendeu? — Me ignorou e só fez mais
pressão. E como uma chave, desbloqueando uma porta em minha
memória, me desesperei. Senti o odor de nicotina gravado em
minha cabeça e a sensação de imponência tomou meu corpo. Então
sem pensar me debati em seus braços, tremendo e fraco.
— Me solta! Me solta, agora! — Implorei sentindo meus olhos
arderem e tentei me afastar dele.
— Para com isso! — Mandou, estranhando meu
comportamento, mas não parei até ele segurar meu queixo, não
para me causar dor, mas com firmeza. Encarei seus olhos e por um
momento me acalmei. — Se controla, garoto. Eu estou mandando
você ficar aqui, por enquanto. Logo tudo vai acabar.
Vincent disse aquilo de forma branda, e entendi como uma
promessa. Ele me soltou e suspirou. Antes de sair do quarto, ainda
me olhou.
— Não acenda a luz.
Com aquela última ordem ele saiu e fiquei parado em pé no
escuro. Passei meus dedos por onde estavam os seus alguns
segundos atrás, e era quase como se ainda estivessem ali. Ele era
um homem rude e bruto, com toda a certeza. Ele devia ser um
policial, pois havia reparado em algum tipo de colar militar em seu
pescoço, mas não entendia o que ele e vários outros estavam
fazendo no meu apartamento. Mas o que mais me incomodava foi
ter sentido a mesma sensação de anos atrás. Havia prometido não
me deixar ser fraco, mas nas mãos daquele homem quebrei meu
juramento. Me sentia mal, não por ele, mas por mim. De alguma
forma não sentia que ele queria me fazer mal, só estava fazendo o
seu trabalho.
Não sei quanto tempo fiquei naquele quarto, mas escutei
vários passos e a porta da entrada ser aberta e fechada. Os
pequenos sussurros pararam e tudo caiu no mais completo silêncio.
Ele entrou em meu quarto com meu cachorrinho em um braço e
minha gatinha no outro. Seu dedo estava sangrando bem perto da
unha, e foi engraçado vê-lo segurando os dois. Aquela pose de
"macho alfa" se desfazia, e até que ficava um pouco amigável.
Ele chegou perto da cama, ficando em pé na minha frente e
me fazendo olhar para cima devido a estar sentado. Me encarou por
alguns segundos, mas não disse nada. Sua presença era autoritária.
Sua pose altiva e forte me inebriava e me fazia perder os sentidos.
Ele jogou a gata no meu colo e fez carinho no cãozinho antes
de me entregar.
— Esse gato é seu mesmo. Morde igualzinho.
— É uma gata!
— Não importa. — Vincent disse chupando o sangue do dedo.
— Não saia do quarto! Está tudo quase acabando.
Ele não me olhou uma segunda vez e saiu. A gatinha se
arrumou em meu colo. Já o cãozinho foi para o meio da cama e
começou a se arrastar na colcha lisa e leve. Fiz carinho nos dois até
caírem no sono e decidi que não ficaria mais trancado. Não seria
uma réplica de princesa de conto de fadas e ficaria preso em um
castelo por conta de um monstro.
Passei pelo corredor que dava acesso a sala e todas as
pessoas que estavam lá não estavam mais, somente Vincent e um
outro homem. Passei pelos dois tentando fazer o mínimo de barulho
possível, mas à medida que me aproximava daquele homem rude
meu coração aumentava seus batimentos. E como se sentisse a
mesma coisa, ele se virou e me encarou. Passou a mão na testa e
percebi o quanto estava cansado. Se endireitando veio em minha
direção, mas apressei o passo indo à cozinha. Somente com a luz
de um poste do outro lado da rua, pude ver a silhueta daquele
homem. Ele era lindo. Extremamente lindo e charmoso somente por
estar ali em pé. Eu tinha vontade de abraçá-lo e me recordei de
quando me imobilizou. Briguei internamente comigo mesmo por
pensar aquelas coisas e ainda mais em uma situação como aquela.
O que eu tinha na cabeça? Estaria, eu, descobrindo um novo
fetiche? Pedi paciência para quem quer que me escutasse naquele
mundo e universo.
Peguei todos os ingredientes para fazer um sanduíche e os
distribuí. Vincent chegou devagar, olhando as coisas no balcão e
suspirou impaciente.
— Eu mandei ficar no quarto. Por que me desobedece? —
Perguntou, se sentando e passando a mão na barba. Vi aquele
gesto e eu mesmo quis fazê-lo. Tive vontade de lhe fazer carinho e
deixá-lo dormir. Ele era um homem feito, mesmo assim, sentia uma
necessidade de lhe agradar de alguma forma ou de chamar a sua
atenção. Eu só podia estar carente para pensar aquelas coisas.
— Eu já falei que não manda em mim e não se esqueça de
que você está no meu apartamento. Até onde eu sei posso muito
bem chamar a polícia por estarem invadindo uma propriedade
privada. — O respondi me concentrando em passar a maionese no
pão e escutei mais um de seus suspiros. Ele devia fazer aquilo com
frequência, ou todos o desafiavam como eu fazia. E tinha que
admitir que estava adorando fazer aquilo. Terminei um sanduíche e
o empurrei. — Coma. Alguma coisa me diz que não se alimentou
direito hoje.
— Isso é uma ordem? — Me encarou com a cabeça um pouco
baixa e podia ser minha mente me enganando, mas aquilo soou
bem irônico.
— Você come se quiser, eu não ligo! Só estava tentando ser
gentil. Afinal, um de nós tem que ser. — Terminei o meu e me
encostei no balcão. O encarei o tempo todo, assim como ele, e não
pude evitar de sorrir. Vincent tinha uma expressão naturalmente
séria. — Se não vai comer, tenho certeza de que o outro vai querer.
Ele pegou o lanche e deu a primeira mordida, mastigando
devagar. Depois que saboreou, comeu tudo mais rápido que eu. Ele
devia estar o dia inteiro naquilo, seja lá o que estivesse fazendo, e
nem parado para cuidar de si. Seu cabelo estava um pouco fora do
lugar de tanto os pentear com os dedos em momentos de estresse.
— Faz mais um para mim? — Pediu e eu ri. — O que foi
agora?
— Faz você! — Empurrei as coisas em sua direção, mas ele
as empurrou de volta.
— Eu quero que você faça!
— Não! — Ele suspirou novamente. Toda vez que fazia aquilo
era como se inspirasse o ar de meus pulmões.
— Você é sempre teimoso assim?
— Só com quem me derruba no chão do meu apartamento. —
Sua boca se moveu no que pareceu um sorriso, mas logo voltou ao
normal. Ele passou as duas mãos pelo cabelo e depois voltou a se
curvar no balcão, me observando e a tudo o que eu fazia.
Peguei mais um pão e fiz um sanduíche. O levei a minha boca
e ele acompanhou o movimento, mas antes que desse uma mordida
sorri, e como adivinhei, outro suspiro veio. Entreguei a ele, que
pegou e comeu sem nem agradecer.
— De nada. — Recebi um olhar de poucos amigos. Por que
ele ficava lindo daquela forma?
Com o seu corpo curvado consegui ver mais de seu peito
pelos botões abertos da camisa. Ele tinha uma camada negra o
cobrindo, mas que davam um charme a mais. Vincent era o típico
homem que chegaria em qualquer lugar e chamaria a atenção de
todos. A sua barba se movia tão lindamente enquanto comia, se
aquilo fosse possível dizer, que quando terminou torci para me pedir
mais. E para minha felicidade aconteceu.
O servi e pedi para que entregasse uns dois ao seu
companheiro de trabalho. E assim ele o fez. Chamou o outro
homem na cozinha, que prontamente respondeu ao chamado do
chefe e depois me agradeceu pela gentileza, e voltou ao seu posto.
Vincent me encarava sem piscar, o que me fazia sentir nu em
sua frente. Ele não falava, não puxava nenhum assunto, e nem se
movia. Só ficou parado me encarando e acompanhando todos os
meus movimentos. Pensei que falaria alguma coisa, mas seu celular
tocou e uma voz metálica informou que tinham pegado alguém.
Ele saiu da cozinha e foi até a sala, olhando a tela do
computador e em seguida deu várias ordens a quem estivesse do
outro lado da linha. Tentei ver o que estava acontecendo, mas deixei
tudo como estava e fui até o meu quarto.
Na cama, os dois filhotinhos dormiam juntos em cima do
travesseiro. Na ponta dos pés fui ao banheiro tomar um banho. E
sabia que não era o certo, afinal havia um desconhecido no outro
cômodo. No entanto se fosse para ele me matar, já estaria morto.
Quando terminei e me troquei, fui novamente até os dois, porém não
havia mais sinal de ninguém. Nenhum indício de que alguém tinha
entrado em meu apartamento.
Me senti mal por não ter visto Vincent, e com raiva por ele ter
saído sem falar nada nem me avisado. Fui até a cozinha e depois
de alguns segundos olhando para a rua quase vazia, vi que eram
quase onze horas da noite. Tomei um copo de água e apaguei todas
as luzes. Mas quando estava chegando ao corredor a porta de
entrada se abriu e ele passou por ela acendendo a luz. Quis sorrir,
mas não o fiz. Estava feliz em vê-lo e transparecer aquilo seria
constrangedor demais. Em sua mão tinha um envelope, mas de
longe não consegui identificar.
— Está tudo bem agora. — Se aproximou e olhei para cima
para encontrar seu olhar, o gravando em minha memória. Ele fez
uma cara de dor quando passou o dedo na calça. Fui até a cozinha
e voltei com um Band-Aid e coloquei em seu dedo. Ele tinha alguns
calos, mas nada ruim de se sentir.
— De nada de novo. — Respondi ao seu agradecimento
inexistente e sorri. E como pensei, ele suspirou.
— Isso estava na sua porta. — Me entregou o envelope e em
seu símbolo estavam três riscos na diagonal.
Peguei o papel e o apertei forte. Coloquei um sorriso falso e
agradeci.
— Só queria te avisar sobre isso. Boa noite, Parker. — Ele
sabia meu nome e não me lembrava de em momento algum ter me
apresentado. Ele caminhou até a porta, e antes de fechá-la me deu
mais uma ordem. — Tranque a porta!
Idiota!
CAPÍTULO 02 - A Surpresa Que
Não Foi Uma Surpresa

Depois de sonhos não tão inocentes que me fizeram acordar


todo suado as quatro horas da manhã, não consegui mais dormir e
só fiquei enrolando na cama, enquanto via meus mais dois novos
companheiros de quarto dormirem amontoados um em cima do
outro. O que eu tive na cabeça quando os adotei? Talvez estivesse
carente demais e qualquer demonstração de carinho me afetasse
brutalmente. Bom, ainda bem que tal carência se refletiu em deixar
dois animaizinhos entrarem no meu apartamento e não um homem.
Agradeci os dois por terem conquistado meu coração e não um
safado qualquer.
Eu tinha o péssimo hábito de deixar qualquer um entrar na
minha vida antes. Qualquer um que se mostrasse interessado em
mim, tanto emocionalmente quanto sexualmente, apesar de a última
opção só ter acontecido uma vez, e sendo o suficiente para que eu
perdesse completamente o interesse em um pênis por vários anos
da minha vida. A experiência foi tão consideravelmente sem graça
para mim, que eu ter feito sexo ou ido a um jogo de basquete teria
sido a mesma coisa, ou seja, completamente entediante e
descartável. Isso até eu querer sentir novamente um certo oficial
que entrara em meu apartamento na noite passada.
Olhei para a porta de madeira, ainda coberta por uma camada
fraca de luz que vinha do lado de fora, e esperançosamente esperei
que ele entrasse por ela e me ordenasse ficar no quarto novamente,
o que eu desobedeceria sem hesitar, somente para vê-lo suspirar
em frustração. Poderia não admitir em voz alta, pela vergonha que
seria, mas tê-lo por perto foi como se estivesse tomando conta de
minha vida por completo. Aquela foi a sensação que tive durante as
quatro horas em que o tive perto de mim. Ele era tão imponente
somente por estar em pé no meio de uma sala vazia, que me fazia
tremer de excitação.
Esfreguei minhas mãos no rosto tentando tirar a imagem de
Vincent da minha mente, e agradeci meu filho canino por ter
acordado e se jogar na minha cabeça, mordendo a juba que estava
meu cabelo. O peguei no colo e o levantei no alto, ouvindo seus
latidos fininhos e vendo seu rabinho descontrolado. Devido ao seu
pequeno escândalo acordou sua irmãzinha que se espreguiçou
lenta e preguiçosamente. Fiz carinho em seu rostinho e ficamos
naquilo por vários minutos.
Desci pelas escadas com os dois pequeninos me seguindo de
forma desengonçada e comecei a arrumação de um espaço deles.
E quando me abaixei um reflexo de luz me atingiu, e sua fonte
estava bem embaixo de onde todos aqueles equipamentos estavam
montados na noite anterior. Era estranho pensar que todos aqueles
homens armados estavam lá algumas horas atrás e perseguindo
alguém. Eu tinha curiosidade em ver sobre quem eles estavam
buscando, mas a minha atenção sempre voltava para o líder de
todos eles. Me obriguei a parar de pensar naquele homem e a me
concentrar na minha vida. Fui até o objeto caído e se tratava de uma
daquelas correntes de exército, com o nome de Gary Richards, e o
restante das informações eu não tinha ideia do que eram. Talvez ele
voltasse até o meu apartamento, então aguardaria por ele, caso
contrário, levaria para a polícia.
Me arrumei para a faculdade e ainda faltavam duas horas para
sair de casa, então fiquei deitado no sofá até que a carta que
Vincent me dera veio em minha mente. Não precisava abri-la para
saber de quem era, pois as vinha evitando durante os últimos
meses, e mesmo eu mudando de país elas não pararam. Apesar de
ele não ter sido presente nos últimos oito anos de minha vida ainda
tentava uma aproximação. Aquela mágoa era como um fantasma.
Depois de muito pensar decidi abrir e ver o que tinha escrito.

"Estou indo te ver! Chego na sexta!"

O que ele queria comigo? Eu já estava cansado de toda


aquela situação em que ele dizia que me veria, porém era só uma
promessa vaga. O que tinha na cabeça, sendo que ele era quem
havia se afastado em primeiro lugar? E ainda por cima me mandava
uma carta! Quem mandava cartas? Ele tinha que passar em algum
terapeuta para aprender sobre a realidade, pois o mundo dele não
era o mesmo para o restante das outras pessoas.
Fiquei tão nervoso que tudo o que quis fazer era comer
sozinho um bolo inteiro, mas me controlei, e decidi que só comeria
um sonho. Então saí para aproveitar a padaria em frente ao meu
prédio. Quando fechei a porta e virei para o corredor, trombei com o
que parecia uma parede, que fez meu nariz coçar pelo impacto e o
que se seguiu foi uma série de espirros. Quis xingar quem quer que
fosse e até faria aquilo, mas não consegui. Pois ele estava lá, e com
um sorriso no rosto pela minha crise.
Vincent estava parado me olhando de cima, e me senti como
um adolescente admirando seu rosto e ele por completo. Não
conseguia parar e ele ainda tinha aquele sorriso presunçoso, como
se fosse o dono do mundo. E quando movimentou seu maxilar para
iniciar uma frase, novamente tive a vontade de colocar a mão em
sua barba para senti-la arranhar meus dedos.
— Bom dia. — Sua voz vibrou em meu corpo como a terra
vibrava com um terremoto.
— Bom dia. — Respondi em um tom fraco demais. Onde
estava minha confiança? — O que você está fazendo aqui? Veio me
prender também, Sr. Policial?
— Longe disso.
— Então sai da minha frente, porque eu tenho que tomar café.
— Dei a volta por ele e escutei o seu suspiro.
— Preciso entrar no seu apartamento. Tem uma coisa que um
dos meus homens perdeu lá dentro.
— Um dos meus homens. — Repeti. Sabia do que se tratava,
mas decidi brincar um pouco com ele. — Veio tarde. Já aspirei todo
o chão hoje e joguei tudo fora.
— E fez isso que horas? — Fez um movimento levantando a
manga do terno para verificar o relógio. Eu não sabia por que, mas
aquilo havia sido tão sexy. — Ainda são seis horas da manhã?
— Pois é, eu tive um pesadelo horrível onde alguém me
prendia dentro da minha própria casa, mais especificamente em
meu quarto, e tentava me matar. — Virei para ver seu rosto, e ele
ainda tinha aquele sorriso discreto e ar prepotente.
— E o monstro conseguia alguma coisa? — Parei bem na
porta do elevador, enquanto ele estava na pequena área privativa
antes de entrar no apartamento. Com minha mão livre apertei o
botão do térreo e com um movimento rápido entrei, deixando
Vincent com uma cara de poucos amigos para trás.
Estava acabando de deixar a carta que recebera com o
porteiro e pedindo para qualquer um que quisesse falar comigo
escrevesse um bilhete para eu ver depois, e se a letra fosse
parecida com a da carta, era para expulsar de lá, Vincent apareceu
e passando pela porta do elevador me pegou pelo braço, não de
forma violenta para criar alarde, mesmo assim eu senti uma certa
força ser imposta no ato.
— Quantos anos você tem, garoto? — Senti o hálito quente e
aroma de café.
— Eu acho que você fez o seu dever de casa e sabe muito
bem da resposta, não é? —Aproximei ainda mais nossos rostos até
que senti seu nariz encostar no meu. Ele não moveu um músculo
para me impedir, então resolvi testar até onde seria o seu limite.
Com meu braço livre levei minha mão até sua nuca, e o puxei
um pouco para baixo. Seu rosto estava tão perto e sua barba tão
mais atrativa, que não hesitei e deixei um beijo lento nela, a
sentindo pinicar meus lábios deliciosamente. O aperto em meu
braço afrouxou e com delicadeza levei-o a parte de trás de sua
cabeça em um abraço. Levantei meu olhar e encontrei o seu. Suas
íris castanhas estavam escuras demais e me lembrar que aquilo era
sinal de excitação me fez sorrir. Seu olhar foi para a minha boca e
como um sinal, avancei na sua.
Seu gosto era indescritível. Minha língua dançou pelos seus
lábios e devagar encontrou a sua. Ele não demonstrava nenhuma
reação e me deixou fazer o que quisesse. Passei minhas mãos com
certa vontade em sua barba, e senti a sua se acomodar em minha
cintura. E assim que sua língua passou pela minha parei o beijo.
Lentamente vi seu corpo se mexer pela respiração e... lá estava o
suspiro. Me soltei dele e vi quando me encarou seriamente.
— O que você é? — Ainda o sentia tocar minha cintura, e
ainda tinha meus braços ao redor de seu pescoço.
— Ninguém especial. — Respondi e segurei sua gravata, o
puxando para perto. — Mas você parece alguém gentil e que me
pagaria um café da manhã, certo, Sr. Policial?
— Demoniozinho. — Vincent me puxou para fora do edifício,
ignorando o porteiro que presenciara toda aquela safadeza.
— Só que um demoniozinho com fome. — Disse e assim que
cheguei a rua me abracei. Ainda não estava acostumado com
aquele frio horrível de Bisera. Ele viu meu gesto e começou a tirar o
paletó. — Não precisa. A padaria é logo ali na frente.
— Fica quieto! — Ordenou e colocou o tecido quente em meus
ombros. — Você nunca foi lá, não é?
— E você foi? — Sua camisa apertava seus braços e torso.
Ele ficava muito bem vestido formalmente.
— Sim.
— E isso se deve porquê...
— Porque é caminho do meu trabalho e gosto do café deles.
Agora, vamos logo. Tem que ir para a faculdade daqui a pouco.
— Nossa, papai... — Disse surpreso. — Quanto tempo você
ficou pesquisando sobre mim?
— O que vai querer? — Perguntou, ignorando minha pergunta,
assim que nos sentamos. Me entregou o cardápio e fiquei o
encarando, enquanto pedia um café puro ao garçom que acabara de
chegar e então repetiu a pergunta. — Vai querer o que, Parker?
— Um chá e um sonho, por favor. — Pedi ao homem, que se
retirou para pegar nossos pedidos.
Vincent não falou nada nos minutos que se seguiram. Ele se
acomodou na cadeira e senti quando seu joelho encostou no meu,
fazendo um formigamento começar em minha pele. Ele olhava o
movimento do local, mas sempre voltava seu olhar para mim. Sorri,
mas ele permaneceu quieto, sem reação, mas suspirou quando
revirei os olhos.
— Você suspira... Obrigado. — Agradeci o garçom. — Você
suspira demais, sabia?
— O que foi aquilo? — Tomei um gole bem lentamente, mas
não tirei os olhos do homem na minha frente. Fui pegar o meu doce,
mas ele puxou o prato.
— Dá para você me dar o meu sonho? — Tentei pegar, mas
ele não deixou. — Vincent, me dá! Eu tô com fome.
— Me responde, garoto. — Ordenou.
—Você não gostou?
— Isso não vem à questão.
— Mas é claro que vem. — Tentei pegar o prato, mas ele o
afastou ainda mais de mim. — Você gostou do beijo. Por que fazer
esse joguinho?
— Até onde eu me lembre você foi quem me beijou. Eu não fiz
nada.
— Mas não fez nada para me tirar de você e nem me impedir.
— Me sentei vencido na cadeira. — Não venha me dizer que não
gostou.
— Você parecia um garoto de programa, se arrastando em
mim daquele jeito. — Disse e eu não esperava por aquele
comentário. Ouvir aquelas palavras saírem de sua boca me
machucaram de uma forma que vacilei em manter minha postura
confiante.
— Nossa, foi tão ruim assim? Se eu te dei tanto nojo quanto
parece, me desculpa. — Me levantei, o encarando.
— Eu não senti nojo. — Aquilo foi como uma facada no meu
peito. Por que ele estava mentindo? Eu tinha sentido, mesmo que
por um breve momento, a sua língua se mover de encontro a minha.
Eu não estava louco em pensar que ele queria me retribuir, porém
aquilo foi horrível de se escutar, o que só me deixou irritado.
— Que bom saber disso, Vincent. — Tirei o seu paletó de
meus ombros, sentindo o vento me deixar gelado. A padaria
realmente não tinha aquecedor. Coloquei a peça de roupa em seu
colo, já que não a pegou quando a estendi. Ele só me olhou em
silêncio e quando me virei para sair voltou a falar. E uma vontade
enorme de bater em sua cara me tomou.
— O que foi? Falei alguma coisa errada? — Queria jogar
aquela xícara de chá quente nele.
— Imagina, claro que não! Só me comparou com um puto.
Nada demais! — Olhei mais uma vez para ele e coloquei o melhor
sorriso que pude. Mordendo o dedo indicador da forma mais
indecente que consegui, mandei um beijo para ele, que suspirou
impaciente.
— Para de agir assim. Senta e termina seu café. — Mandou,
mas quando viu que não o obedeci, se levantou e fez menção de
me pegar pelo braço. Novamente não usou força, mas firmeza. Me
afastei dando um passo para trás. — Senta agora!
— Você não manda em mim! Pegue tudo isso e leva pra um
dos seus putinhos, acredito que vão adorar. Você parece conhecer
muito bem o nosso tipo. — Saí e fui direto para o elevador do meu
prédio. Quando a porta estava prestes a se fechar a mão dele
impediu. Ele falaria alguma coisa, mas eu não o deixei. — Você vai
ficar aí e me esperar. Não quero você no meu apartamento.
Ele somente se afastou e a porta se fechou. Minhas mãos
estavam geladas e meu corpo inteiro tremia de nervosismo. Como
ele tinha coragem de falar uma coisa daquelas para mim? Eu não
tinha feito nada demais e não teria feito se soubesse que não
queria. Eu não era nenhum devasso ou imoral para atacar homens
ou alguém que não queria sentir o meu toque. E nada justificava a
forma fria como havia me tratado. Palhaço idiota!
Peguei todas as minhas coisas para a aula e com o pingente
nas mãos tive vontade de o jogar pela janela, mas não seria certo
com o homem que precisava dele. Coloquei comida com raiva no
potinho para os meus dois bichinhos e sai pela porta novamente,
respirando fundo e lentamente para tentar acalmar meus nervos.
Como alguém que eu não conhecia poderia destruir minha manhã
daquele jeito? Tinha aguentado xingamentos piores que aqueles e
comparações muito mais nojentas de pessoas que considerava
minha família. No entanto, escutar dele algo do tipo havia me
afetado de uma forma horrível.
Quando cheguei ao térreo Vincent estava em pé e
conversando com alguém no celular, mas encerrou a ligação assim
que me viu. Estava com a mesma feição e me irritou o fato de que
ele não demonstrava nenhum arrependimento pelo que havia me
dito. Nenhum pedido de desculpas ou expressão remetendo a
tristeza. Peguei o pingente e com violência o empurrei no seu peito.
Ele encostou sua mão na minha para segurar o objeto, e senti que
queria manter o toque. Porém a puxei, o vendo suspirar novamente.
Ele tentou falar algo, mas o interrompi.
— Pegue esse negócio e some, ok? — Passei por ele, mas ele
me seguiu até o lado de fora. — Até nunca mais, Sr. Policial.
— Espera, Parker. — Puxou e segurou meu braço, me fazendo
olhá-lo. — O que eu falei, eu...
— Eu não quero saber, tá bom? Guarda as suas desculpinhas
para você. — Chamei um táxi e graças a Deus tinha um bem perto
de mim.
— O que é isso? Eu iria te levar para a faculdade.
— E por que razão você faria isso, Vincent?
— Por que eu não faria?
— Porque você não me conhece, talvez?! O que você...? Eu
não te entendo.
— Entra no carro, Parker,
— Não precisa se incomodar. Eu tenho pernas e dinheiro para
pagar pelas minhas vontades. E se não tiver, o que um boquete não
resolve, não é?
— Olha o que você fala, garoto! — Vi uma veia em sua testa
saltar.
— Você não é meu namorado! Vai viver a sua vida e me deixa,
Vincent. — Entrei no táxi e o deixei parado na calçada.
Não olhei para trás ou para lugar algum. O que ele tinha me
dito havia me afetado de uma forma que não esperava. Me senti
como uma pessoa baixa e vulgar, exatamente como me senti
quando...
Quis gritar dentro do carro, mas era bem capaz do taxista me
jogar para fora em pleno movimento. Por que ele tinha que ser
daquele jeito e me falar aquelas coisas? Sentia que ele queria o
beijo e se eu fiz foi porque me deu abertura. Não era minha culpa e
muito menos motivo para me menosprezar. Porém me forcei a tirar
aquilo da cabeça. Eu não o veria mais e nem teria que aturar
aqueles suspiros idiotas, ridículos, prepotentes, excitantes e
irritantes. No entanto, não foi o que aconteceu. Não consegui me
concentrar na dinâmica na sala de aula e aquilo se seguiu pelo
restante da semana.
Os dias se passaram e tudo o que conseguia fazer era me
concentrar nas aulas ao mesmo tempo que minha cabeça sempre
voltava para aquele policial grosso que havia invadido meu
apartamento. Não sei o que me acontecia, mas estava me
martirizando por alguém que nunca mais veria. Nem mesmo o
cordão que havia encontrado em meu apartamento me dava a
esperança de que o veria novamente. No entanto, também me dava
raiva a forma que havia me tratado da última vez que nos
encontramos. Não sabia se o perdoaria pelo jeito que se referira a
mim, pois ao mesmo tempo que achava aquilo um absurdo, também
achava excitante.
Estava na faculdade, esperando o horário da aula, pois havia
chegado muito cedo, quando vi Frederick passar pela entrada. Ele
era outro que também havia entrado no caminho do meu coração,
porém não me animava tanto como o estúpido suspirador. Além do
fato de estar ou não em um relacionamento com uma garota que
nem me lembrava o nome, mas que passava o tempo todo grudada
nele como um carrapato. Ele tinha um rosto tão calmo, mas se tinha
a coragem de me chamar para sair enquanto estava enrolado com
outro alguém, era o pior tipo de homem que poderia me relacionar.
No entanto, não foi possível me esquivar dele durante as
aulas, pois como se fosse uma tradição para todos os calouros,
estávamos todos convidados para uma comemoração. Na verdade
me referia ao fato de sermos obrigados a ir em uma festa de boas-
vindas a noite. Meu ânimo para aquelas coisas não estava o dos
melhores, e tudo o que queria fazer era voltar para o meu
apartamento e finalmente ter um descanso merecido depois de
cuidar de minha gatinha, ainda sem nome, mas que eu chamava de
"Gatinha", por conta de uma pequena infecção em seus olhos.
Morria de medo de algo acontecer com ela, então meu corpo havia
se condicionado a sempre ficar atento aos seus resmungos.
A melhor parte de tudo era ter Pamela, minha colega de classe
e muito independente, para não falar outra coisa, e Mandy, a ex-
recepcionista do apartamento. Elas haviam se tornado minhas
amigas na cidade e me impedido de cair em uma depressão
causada pela solidão. Ao contrário de minha cidade natal, as
pessoas de Bisera eram muito mais fechadas do que eu pensava, e
meus colegas estudantes eram piores ainda. Nem eram ninguém,
mas já queriam passar a perna uns nos outros para serem os
favoritos dos professores.
Encarava a tela do celular de Pamela, observando o espaço
onde seria a festa, quando uma notificação de mensagem apareceu.
E mesmo o texto não sendo o mais adequado para aquele horário
da manhã, ela não fez questão nenhuma de esconder. Até mesmo
ficou com um sorriso enorme enquanto respondia seu contato
nomeado de "Sotaque Gostoso". Não sabia como ela tinha aquela
facilidade para encontrar pretendentes
— Desculpem por isso. Estou conhecendo esse cara e ele é
completamente o homem mais lindo e gostoso que eu já
experimentei na vida.
— "Experimentou"? — Mandy a olhou rapidamente. — Não
sei como você consegue se referir à eles desse jeito.
— Não sabe, porque fica o tempo todo enfurnada nesses seus
livros de romance e não sai para viver a vida. Querida Mandy, se
você não sair dessa sua bolha de contos de fadas, vai acabar tendo
somente os seus personagens para chamar de seus homens. E eles
não tem um pinto de verdade.
— Se tiver que acontecer, acontecerá! Não vou ficar saindo
com qualquer um por aí. — Mandy disse um pouco sentida. Minhas
duas amigas eram o oposto uma da outra, mas de longe preferiria a
garota de olhos de cores diferentes. Pamela, apesar de ser alguém
de atitude, as vezes não tinha o controle sobre a sua língua, o que a
deixava um pouco esnobe demais para o meu gosto.
— Mas e você, Parker?
— O que tem eu?
— Está planejando se divertir com alguém na festa de hoje?
— Eu nem queria ir, Pamela. Só estou indo por causa de
vocês e para não ser o antipático da sala.
— Vai ser bom, amigo. Você vai ver! Vai se surpreender com o
que pode acontecer em uma noite de diversão.
Esperava que estivesse certa, mas que não me arrependesse
dos acontecimentos depois. Já tinha uma vida pessoal complicada
demais para ficar me preocupando com as consequências de
atitudes de bêbados.
Assim que cheguei em meu prédio, passando em frente a
recepção, encarei o Sr. Simas. Uma pontinha de curiosidade surgiu
em minha cabeça, coisa que ocorria sempre devido a
constantemente me lembrar de meu visitante surpresa. Era ele
quem estava de expediente naquele dia e que obviamente havia
permitido aqueles homens subirem para meu apartamento,
possivelmente até cedera a chave reserva sem minha autorização.
Eu escolhera não ir atrás de nenhuma medida drástica, afinal
Vincent era um agente da lei, mesmo assim era perigoso.
Fingi que estava abrindo minha caixa de correio e acenei com
a cabeça quando ele sorriu para mim. Estava reunindo em minha
cabeça as palavras certas e até mesmo as ameaças certas caso se
mostrasse relutante em me dar as respostas que eu tanto queria.
Aquele agente suspirador estava me atormentando os pensamentos
e precisava saber mais sobre ele.
— Boa tarde, Sr. Simas. — Me apoiei no balcão com os dois
braços.
— Boa tarde, Sr. Hayes. Como foi a faculdade hoje?
— Ótima, mas preferia ter ficado dormindo mais um pouco.
— Eu sei que é cansativo, mas tem que pensar no seu futuro,
garoto. Se eu fosse bonito como você também tentaria ser um astro
do cinema.
— Obrigado pelo elogio. Massageia minha autoestima assim.
Mas eu queria saber se pode me ajudar com uma coisa.
— Claro.
— Alguns dias atrás eu tive uma visita inesperada, vamos dizer
assim, e creio que sabe do que eu estou falando. — Sua expressão
se tornou receosa, e seus olhos passaram por todas as coisas no
balcão, como se tentasse arrumar uma saída para aquela situação.
— Não posso falar sobre isso, Sr. Hayes. É um assunto que...
— Eu quero saber se pode me falar sobre quem eram aqueles
homens.
— Senhor, eles me fizeram jurar que não contaria nada e nem
mesmo...
— Você tem que entender que não é uma coisa fácil de se
aceitar, Sr. Simas. Eu até mesmo tentei relevar a situação, mas eu
fico pensando que talvez eu não esteja tão seguro nesse prédio.
Não quando tal situação ocorre sem o meu consentimento.
— Garanto que não há perigo nenhum, Sr. Hayes. O agente
me assegurou que não haveria nenhum perigo para o senhor e nem
para nenhum outro morador.
— Sabia que quando entrei em meu apartamento ele me
derrubou no chão? Eu estava carregando minha gatinha e
cachorrinho no colo. Eu poderia ter me machucado e também os
dois.
— Eu sinto muito por isso, mas...
— Acredito que isso seja uma boa razão para eu saber sobre o
que aconteceu e quem eles eram.
— Eu não posso contar, senhor. Eles...
— Ou eu posso conversar com a minha mãe. Ela pagou uma
fortuna por esse apartamento e como a mãe coruja que é, sempre
preocupada com a minha segurança, vai ficar horrorizada com o que
me aconteceu.
— Não é preciso....
— É capaz de mandarem demitir toda a equipe de funcionários
daqui e até mesmo processar a equipe de segurança. Ela é um
monstro quando se trata da minha segurança. Uma certa vez um
homem, foi um acidente, passou sem querer por cima da minha
bolsa na calçada, por pouco não pegando o meu pé, e ela o fez
perder a carteira de motorista. Ele iria preso, mas eu implorei para
que não fizesse.
— Senhor, eu...
— Eu não quero que nada de ruim aconteça com ninguém
aqui. Me acolheram muito bem desde que cheguei, mas não sei se
vou conseguir esconder como fiquei abalado com tudo isso. —
Lágrimas escorreram de meus olhos, das quais eu limpei depois de
suspirar. — Talvez eu não seja capaz de fazer nada por vocês...
— Sr. Hayes, eu sinto muito...
— Eu não quero que perca o seu emprego, Sr. Simas. Sei
como a vida é difícil e como será mais difícil ainda quando todos
souberem que estranhos entram com a sua permissão nos
apartamentos. Ainda mais acontecendo comigo, um garoto de vinte
três anos recém completados, praticamente um inocente nessa
cidade. — Forcei mais lágrimas a saírem. — Talvez se me contasse
qualquer coisa que me ajudasse a encontrar aquele agente, para
que eu pudesse conversar com ele e perder esse meu trauma, eu
me sentisse mais seguro novamente.
— Sr. Hayes, pelo amor de Deus! — Ele estava branco e
talvez tivesse exagerado um pouquinho, mas eu precisava saber
mais sobre aquele suspirador. O senhor respirou, se dando por
vencido, e me olhou por alguns segundos antes de falar. — Sr.
Hayes, eles me fizeram assinar um contrato de sigilo. Se eles
souberem que eu contei...
— Eles não vão! Prometo com a minha vida! — Segurei suas
mãos. Para minha sorte não era ele quem havia me visto beijar
Vincent. — Pode confiar que vou guardar tudo o que me contar à
sete chaves.
— Eles não me contaram muita coisa, só me certificaram e
mostraram quem eram, com todas as provas possíveis, por isso
confiei que não fariam nada com o senhor.
— Sei de seu cuidado, Sr. Simas, mas continue, por favor.
— Só sei que estavam atrás de alguém morando em um dos
outros prédios aqui da rua, e que precisavam do apartamento do
senhor para observar, porque era o com melhor vista.
— Um bandido? Ele era perigoso? Um assassino?
— Deus queira que não, menino! — Me encarou alguns
segundos antes de continuar e me obriguei a controlar minha
animação.
— Ele não te disse nenhum nome ou sobrenome?
— Ele me mostrou, mas não me lembro, infelizmente.
— Não lembra de nada importante, Sr. Simas? Nada mesmo?
— Me endireitei, indignadamente triste pela decepção daquela
conversa.
— Bom, eu escutei um dos agentes, um mais animado que os
outros, conversando com o tal de Vincent, que poderiam fazer um
jantar dia vinte e nove desse mês.
— Hoje é dia vinte e nove.
— Era o aniversário do cara no comando de tudo, o Vincent,
mas ele nem deixou o coitado terminar e cortou aquele papo
dizendo que ficaria sozinho e não queria ninguém no pé dele.
— Provavelmente hoje é o aniversário dele. Ele disse para
onde iria?
— Disse que iria no Orleans depois do trabalho.
— O que é Orleans?
— É um restaurante de gente fina. Eu só fui lá uma vez, mas
ainda consigo sentir o gosto da carne assada deles. É deliciosa,
senhor!
Era aquilo! Eu iria para o restaurante e ficaria esperando
aquele homem lá. Não havia plano melhor para vê-lo novamente e
cobrá-lo de respostas. Daquela vez, eu mesmo seria quem o
colocaria em uma situação inesperada e ele não poderia se esquivar
das minhas perguntas sobre.... Bom, ainda teria que entender o que
eu queria com aquilo, mas inventaria na hora. Improviso sempre fora
meu forte.
— Muito obrigado, Sr. Simas. Pode ficar tranquilo que não vou
atormentar minha mãe com esse assunto.
— Sr. Hayes, eu tenho que te falar outra coisa. Um homem...
— Não precisa, Sr. Simas. Já me ajudou bastante. — Lhe
respondi já virando o corredor e entrando no elevador. Não poderia
perder tempo e tinha que me arrumar para esperá-lo.
Depois de tomar banho fiquei por alguns minutos nu em meu
quarto, esperando o hidratante de morango ser absorvido por minha
pele, enquanto escolhia que roupa usar. Levei em conta que
também teria uma festa para ir, caso não ficasse a noite toda de
tocaia naquele restaurante.
Depois de muita indecisão sobre a cor exata para causar uma
boa impressão, optei por um vermelho vivo, pois como ele mesmo
me caracterizou, só estaria me encaixando na categoria de um
profissional do sexo. E me olhando no espelho, eu me daria muito
bem naquele ramo. Tinha todas as características para o sucesso.
Dei comida para os meus dois bichinhos e prometi que logo
lhes daria um nome. Estava sem inspiração nenhuma para escolher
algo a altura e todos que me vinham a cabeça não eram dignos da
beleza que tinham. Pareciam irmãos gêmeos, mesmo que de
espécies diferentes. Tranquei tudo e nem mesmo dei atenção para o
Sr. Simas que ainda tentou me parar, provavelmente tentando me
alertar para uma possível aproximação com aquele agente grosso e
suspirador.
Quando cheguei no tal restaurante notei que realmente era um
lugar lindo e bem frequentado. Não havia confusão, mas diversão.
Algumas famílias estavam chegando para o jantar e rapidamente
passei os olhos por todos a procura dele, mas não o encontrei. Pedi
uma mesa um pouco longe do fundo, pois imaginando como aquele
homem seria, era bem capaz de pedir o lugar mais reservado de lá.
Olhei em meu relógio e marcavam quase sete horas da noite.
Aquela podia ser uma missão falha, pois Vincent poderia ter
desistido por estar cansado ou qualquer outro motivo. Me lembrava
exatamente de sua expressão em meu apartamento enquanto
comia. Umas olheiras estavam se evidenciando, indicando que não
estava dormindo direito por alguma razão.
Pedi alguns aperitivos leves e até mesmo, com toda a cautela
do mundo, fui ao banheiro e voltei da mesma forma. Quando
terminei de comer o que estava posto, me distraindo pelo sabor e
perfume delicioso do prato, voltei a olhar em volta. E lá do fundo,
sozinho e apoiado na cadeira com uma bebida na mão, encarava o
que parecia ser um pequeno bolo. Mas minha observação foi
cortada pelo garçom, que em sua mão trazia uma taça de sorvete
de creme, vários pedaços de morango e chocolate branco, e uma
cobertura do mesmo sabor da fruta.
— Eu não pedi isso. Houve um engano. — Disse tentando
olhar através dele. Não poderia perder Vincent de vista.
— Eu sei que não pediu, Sr. Hayes. — O homem vestido de
camisa branca e calça preta tinha um sorriso no rosto, e se colocou
de lado apontando para a mesma direção que eu olhava. E com um
arrepio que fez meu estômago se contorcer em prazer, percebi
aquele homem sério me encarando. Ele tomou um gole da bebida,
me olhando tão fixamente, que foi impossível não me sentir
completamente atraído por tudo o que era. — Ele pediu para que o
convidasse a se juntar à ele.
— Eu... — Bom, ele já havia me descoberto e minha surpresa
havia sido destruída. — Tudo bem. Só preciso fechar a conta com
você.
— Não é preciso. O Sr. Vincent já pagou por tudo o que você
consumiu.
— Pagou?
— Sim, Sr. Hayes.
— Ele vem bastante aqui? — Perguntei me levantando, e
tentando manter o mínimo de elegância, já que meu corpo dava
indícios de que havia desaprendido a andar.
— O Sr. Vincent ama a torta de frango, receita da Sra. Orleans,
dona do restaurante.
O garçom me conduziu até a mesa e meu corpo queimava
mais que o sol que havia deixado de brilhar no céu. O suspirador me
acompanhou durante todo o trajeto, e notei que estava com um
pedaço de bolo na mesa, intocado, mas que ainda havia uma
pequena fumaça saindo de seu núcleo quente. Assim que o homem
nos deixou, ainda fiquei em pé, esperando algum movimento para
poder reagir.
Vincent estava perfeito com a camisa preta, desabotoada até
abaixo de seu peito. Sua barba ainda estava cheia e naturalmente
alinhada, o que novamente me deu vontade de acariciar quando
saboreou a bebida de seu copo. Ele era quente e fazia meu corpo
acompanhar sua temperatura. Até que sorriu minimamente,
intensamente prepotente e cheio de si.
— Boa noite, Demoniozinho.
CAPÍTULO 03 – Controle

Quem diria que um garoto de vinte e três anos estaria preso na


cabeça dele depois de um primeiro encontro inesperado, e outro
não tão bom assim. Desde a primeira vez que Vincent havia visto
Parker soube que havia algo de diferente no jovem. Não sabia
explicar o motivo, porém nada fizera o tirar da cabeça aqueles olhos
azuis e jeito teimoso por dias. Ele tentava se concentrar em seu
trabalho, algo que fazia constantemente, muitas vezes se privando
de sua vida social, no entanto não era mais o que queria fazer. E da
mesma forma que ficou incontáveis minutos olhando a foto do
garoto antes de ir para seu apartamento da primeira vez, estava
observando e conhecendo tudo o que podia sobre ele.
Vincent estava em sua mesa, batendo com a caneta em cima
do teclado, enquanto lia sobre o mais novo.

Parker Hayes Ivanov;


Vinte e Três Anos;
Formado em Design de Interiores;
Recém-chegado em Bisera para estudar Drama na faculdade
da cidade;
Se formou com dezesseis anos na escola;
Pais separados;
Vivendo sozinho;
.
.
.
"Solteiro!".

Aquele último fato o fez sorrir rapidamente. Não queria saber


que aquele demoniozinho estava com alguém e se sentiu melhor
para seguir o dia. De alguma forma havia o tornado mais leve e
suportável. Mesmo com as obrigações e tendo que lidar com
pessoas de quem não simpatizava nem um pouco, Vincent
conseguia tempo para pensar em uma maneira de ver Parker
novamente. Pela primeira vez depois de muito tempo alguém havia
despertado o seu desejo não somente por algo carnal, mas também
por proximidade. Quis ter as mãos no menor para que pudesse
controlá-lo em seus braços e não o deixar sair. Porém sua vontade
maior era a de novamente sentir o beijo provocativo daquele que o
tirou do sério desde o primeiro dia que se encontraram.
A atitude que Vincent teve não fora a das melhores depois do
ato, ele mesmo admitira aquilo para si mesmo e somente para si.
Não tinha o costume de pedir desculpas à ninguém, a não ser que
fosse obrigado e realmente sentisse vontade. Fora aqueles dois
motivos, nada o faria se humilhar se realmente não os quisesse por
perto. No entanto, aquele garoto despertara aquele seu lado. Ele se
via indo ao seu apartamento e dizendo aquelas palavras que tanto
feriam seu orgulho como o homem forte que era, somente para ter a
chance de ficar ao lado do menor novamente.
Mas nada envolvendo Parker parecia estar sob seu controle. E
seu jeito irônico ao continuar se referindo como um garoto de
programa, somente para lhe provocar, era algo que o tirava do sério.
O agente estava admirado pelo gênio daquele ator em formação, e
talvez por ser o único que não baixara a cabeça para ele em
momento algum, havia o visto com outros olhos. Ele admirava
pessoas de personalidades fortes e decididas, desde que não
fossem aquilo com ele, e em um misto de aceitação e negação,
admitiu para si que devia tentar conversar com o garoto novamente.
Se ele não fosse um demoniozinho teimoso, talvez até mesmo
tivessem um encontro decente.
Batidas soaram em sua porta e se arrumou, minimizando a tela
do jovem. Mandou a pessoa entrar e logo Gary, um de seus
agentes, o mesmo que havia esquecido o cordão no apartamento de
Parker, entrou carregando um pequeno bolo de aniversário. Aquela
data não lhe trazia nenhuma felicidade, mas sim uma melancolia
devido a ser o dia em que seu pai falecera.
— O que é isso, Richards?
— É um presente do pessoal, chefe. O senhor não é desses
de comemorar, mas a gente não podia deixar o seu aniversário
passar em branco. — Encarou o rapaz a sua frente, se lembrando
de todas as vezes que o ajudara em sua vida, todas as vezes que o
advertira além do âmbito profissional, como seu pai faria com
qualquer um. Gary era mais novo que ele e talvez por aquele motivo
tenha lhe dado mais votos de confiança do que qualquer outro ali. —
O senhor merece depois de tudo o que fez esse ano, e depois de
prender o merda do Henrique, tem que se dar algum momento de
felicidade.
— Vou ter meu momento de felicidade quando sair daqui e
chegar em casa.
— Vai curtir com alguém?
— Que intimidade é essa, Richards? — Vincent o encarou,
fazendo o outro arregalar os olhos pela brincadeira. — Está faltando
trabalho? Posso muito bem arranjar algo bem longe daqui para você
fazer.
— Desculpa, senhor! Não está mais aqui quem falou. Só
pensei que...
— Pense no seu trabalho e no relatório que ainda não recebi
nem de você e nem dos outros preguiçosos aqui! — Vincent
aumentou o tom de voz a ponto de todo o salão fora de sua sala
ficar em silêncio.
— De qualquer forma, vou deixar o bolo aqui. — Gary se
aproximou e deixou o doce embalado na mesa como se o chefe
fosse o morder. — Feliz Aniversário, senhor.
— Certo. Obrigado, agora vá fazer seu trabalho!
Gary saiu com um sorriso controlado, pois havia conseguido
deixar o presente de todos sem ser xingado, e Vincent percebeu seu
sorriso, mas escolheu não fazer nada. Depois de vários minutos
jogou os restos no lixo e se concentrou em terminar seu trabalho
para chegar o quanto antes em casa.
Mesmo que aquele dia não lhe trouxesse boas vibrações
devido a morte de seu pai, ele tinha sua mãe para voltar. Ele
precisava se manter agradável por ela e era a única por quem se
deixava levar um pouco pelas emoções, afinal fora ela quem o dera
a chance de ser feliz no mundo.
No caminho de casa, mesmo não sendo seu trajeto, fez
questão de passar pela frente do prédio de Parker. Com uma
esperança idiota esperou que pudesse vê-lo rapidamente, porém
sem sucesso. Suspirou e coçou a barba por ter aquela atitude
infantil e acelerou pelas ruas. Se perguntava o que aquele garoto
havia feito com ele e se realmente acreditasse em tais coisas, havia
sido alvo de um feitiço ou charme daquele serzinho.
Quando chegou em casa notou tudo perfeitamente arrumado,
da mesma forma que a deixara pela manhã. A única diferença era a
luz da cozinha acesa, indicando que sua mãe já estava preparando
sua refeição favorita: macarrão com frango. Ele fez o mínimo
barulho possível e ficou atrás da senhora de longos cabelos brancos
e sedosos, até o momento em que ela se virou para pegar uma
colher e se assustou.
— Vincent! Eu já disse para parar de chegar desse jeito. —
Segurou o rosto do filho, trocando sua expressão assustada para
uma feliz. — Feliz Aniversário, meu amor!
— Obrigado.
— A comida está quase pronta, então vá tomar um banho.
Ele somente lhe deu um beijo no topo da cabeça e foi para seu
quarto. Assim que tirou sua camisa e foi em direção ao banheiro,
notou uma outra caída atrás da pia, provavelmente sua mãe não a
vira. Assim que a pegou um aroma de morango subiu ao ar e ele
levou o tecido para mais perto de seu rosto, inspirando mais. Era o
cheiro “dele”. Era algo único e Vincent poderia reconhecer o
perfume de Parker dentre todos.
Ele apoiou os braços no balcão e encarou seu reflexo no
espelho. Era notável que os últimos meses estavam cobrando o
tempo gasto. Ele não se preocupava com sua aparência além de
ficar apresentável, mas devia reconhecer que precisava de um
descanso.
Depois de já vestido deixou a camisa no cesto e desceu. Como
sempre naquela ocasião, se sentaram um perto do outro e orou.
Vincent era um pouco cético quanto a certas coisas, mas acreditava
que existia algo acima deles, mesmo que não fosse o Deus que sua
mãe prezava tanto. Ele ficou em silêncio e pediu, justo naquele
momento, que algo de bom viesse para sua vida.
As vezes se sentia sozinho, mesmo preferindo ficar daquela
forma, mas algo havia mudado. Ele sabia e sua mãe também.
Enquanto comiam em silêncio, coisa que ele estranhou devido a
senhora sempre ter algum assunto aleatório, ela decidiu arriscar
saber sobre a vida de seu filho tão reservado.
— Aconteceu alguma coisa?
— Nada, meu filho. — Tomou um gole de vinho. — Na
verdade, estou curiosa sobre você.
— Sobre mim? — A encarou e viu seu sorriso divertido. —
Pergunte. Sabe que não precisa ficar de joguinhos.
— Não seja tão seco com sua mãe, garoto. Isso não é jeito de
me responder.
— Desculpe.
— Você puxou seu pai direitinho nesse quesito, sabia? Mesmo
ele sendo um amor de homem, era uma pedra enrolada em veludo.
— Vincent suspirou com a comparação recorrente. — E está aí o
suspiro!
— Mãe...
— Tudo bem. Eu parei! Mas me conte quem é o garoto da foto
que estava no seu escritório?
— Não é ninguém.
— É sim. Mesmo você não me contando nada sobre o seu
trabalho, eu aprendi a identificar as coisas nas suas pilhas de
papéis.
— É um garoto teimoso que conheci quando estava
terminando um caso do trabalho. Não é nada demais.
— E por que a foto dele está separada das demais?
— Não quero falar sobre isso, mãe. É um assunto pessoal.
— Se você está gostando de alguém, quem quer que seja, tem
todo o meu apoio. — Ela tomou mais um gole do vinho. — Sabe que
não vou me aprofundar no assunto, mas desde que não esteja
tendo mais nada com aquela mulher, estou feliz!
— Karen está no passado. Não precisa se preocupar, Sra.
Celeste. — Segurou a mão dela. — Eu te amo, mãe, mas não quero
ter que pedir para não vir mais aqui se continuar olhando minhas
coisas. Sabe que meu trabalho...
— “Envolve coisas sigilosas e difíceis de lidar”, sim, eu sei,
meu filho. Não estava sendo curiosa, somente notei essa diferença.
— Temos que ir. Está quase na hora. — Disse pegando os
pratos vazios e levando para a cozinha. Ele se certificou de que tudo
estava trancado e seguro, e logo estavam a caminho do Orleans.
— Se me permite dizer... — Vincent suspirou pela insistência
da mãe naquele assunto. — Eu achei o “Teimoso” bonito.
— E por que está me contando isso?
— Só estou comentando. Você não o achou bonito? Os olhos
dele são lindos. Nunca vi olhos tão azuis. Ele não deve ser daqui.
— Ele não é. Está aqui para estudar Drama na faculdade da
cidade.
— Um ator? Não sei se combinaria com você, mas eu acho
que pode ser bem interessante. Ele deve ser espontâneo, o que iria
de encontro com...
— Não há nada para combinar, mãe. E tire isso da sua cabeça.
Ele é um demoniozinho irritante e não há nada mais para se dizer!
— Claro que não há...
Vincent suspirou pelo comportamento da senhora ao seu lado.
Ela sempre tinha um jeito de conversar com ele e conseguir o que
queria. Mesmo que não houvesse dito o que sentia em exatas
palavras, suas atitudes e rodeios deram a entender que Parker não
era um estranho para ele.
Ainda teve que ficar aguentando alguns assuntos bem
direcionados sobre relacionamentos até chegarem. Se lembrava de
quando a mãe ficava atormentando o marido com aqueles temas,
mas sempre acabavam em uma discussão sobre quem era o melhor
participante de um reality show qualquer. Sentia falta do pai que
falecera. Se ele tivesse sido mais presente, talvez notasse que o
homem apresentava alguns sinais do problema de pressão e tivesse
ficado do lado da mãe ao pedir para que fosse ao hospital. Talvez...
Quando pararam em frente ao restaurante, notou que o
movimento estava um pouco maior que o de costume. Era uma
Sexta-Feira, o que explicava tudo. Como sempre fazia, analisou
cada nome em registro na lista da Hostess até que viu um familiar.
Ele passou os olhos atentamente pelo interior, porém não viu
ninguém além de famílias e amigos rindo. Não havia sinal daquele
demoniozinho atrevido.
No caminho observou cada detalhe de cada um, e negou
quando sua mãe perguntou se havia algo errado. Eles fizeram os
pedidos de sempre: um sorvete de creme com pedaços de morango
e calda quente dentro de um bolo de chocolate. Era o que sempre
tomavam quando estavam os três juntos em todo aniversário de
Vincent, mesmo depois de se tornar um homem feito e cheio de
manias difíceis de lidar devido a rigidez do trabalho.
O garçom trouxe um copo de Bourbon para ele, que mesmo
sob os olhares recriminatórios da mãe, não lhe deu atenção. Ele
sabia muito bem de seus limites e, com o doce que viria a seguir, o
álcool não teria efeito nenhum em seu organismo. Sua mãe se
levantou para ir cumprimentar sua amiga e dona do
estabelecimento, uma mulher que certamente ainda poderia seguir
uma carreira de modelo caso quisesse.
Pediu também para que o garçom levasse um sorvete para
Parker, como um presente, a fim de saber onde estava. E ao mesmo
tempo que as duas sumiram por um dos corredores, ele viu Parker
voltando do banheiro. Viu o trabalhador levar o sorvete para o
garoto.
De repente seu coração bateu mais forte no peito, e se pegou
ansioso para finalmente se encontrar com aquele que havia mexido
tanto com sua cabeça nos dias passados. E assim que seus olhos
se cruzaram uma corrente elétrica pareceu percorrer por todo o seu
corpo, dando um sinal apreciativo àquele que vinha a passos lentos
em sua direção.
Ele vestia uma camisa vermelha e estava arrumado demais
para alguém que somente viria para um restaurante. Procurou por
mais alguém na mesa dele, mas estava sozinho. Assim que chegou
perto o suficiente, não resistiu e o provocou.
— Boa noite, Demoniozinho.
— Se você acha que me comprar um sorvete vai melhorar sua
situação comigo, está muito enganado. Eu não me esqueci de nada
do que disse da última vez que nos vimos.
— O que te faz pensar que quero melhorar nossa situação? —
Vincent se divertia com o jeito atrevido do menor. Tudo o que queria
fazer era colocar suas mãos nele novamente, e daquela vez, ser
quem o beijaria de supetão. Queria sentir novamente a maciez dos
lábios de Parker e que o fizeram sentir um prazer e atração enorme,
a ponto de uma ereção desconfortável o acompanhar durante
aquele dia.
— Se você não quisesse, poderia muito bem não ter me
mandado isso. — Apontou para o doce. — Não sei o que pretende,
mas não vou te dar mais atenção.
— Não acha que está sendo mimado e imaturo?
— Eu? Quem disse que eu era um garoto de programa foi
você!
— Você estava se jogando em cima de mim e me beijou do
nada. — Tomou um gole da bebida, ficando ainda mais confortável
na cadeira, que a contraponto deixou Parker ainda mais irritado.
— Você gostou, seu grosso!
— Mas você me beijou do nada e, novamente, estava se
jogando em cima de mim.
— Não sei o que eu tinha na cabeça quando vim aqui.
— O que quer dizer com isso? — Encarou o garoto ainda em
pé.
— Quero dizer, quando aceitei vir até aqui conversar com
você. — Cruzou os braços, em um ar de superioridade que o
deixava, aos olhos do agente, ainda mais provocante.
— Sente-se, Parker. Seu sorvete vai derreter.
— Eu tenho um compromisso agora a noite. Não posso
demorar aqui.
— Aonde vai? — Vincent ajeitou a postura, se inclinando na
direção do outro. — Tem que tomar cuidado por aí.
— Eu sei muito bem me defender de quem quer que seja. E
não te interessa aonde eu vou.
— Me responda, Parker.
— Não tenho que te responder nada, Vincent. Não te devo
satisfações da minha vida.
— Você é novo por aqui...
— Mas já consegui vários clientes que me pagam muito bem.
— Disse com um sorriso. Vincent pousou o copo lentamente na
mesa e se levantou, ficando maior que o garoto em sua frente, que
o encarou de cabeça erguida.
— Não repita isso. Nunca mais. — Apontou para a cadeira
vazia a sua frente. — Senta, Parker.
— Isso é uma ordem?
— Considere uma.
— E se eu não obedecer?
— Não me obrigue a responder.
— Eu posso muito bem gritar e fazer um escândalo.
— Sei que você quer fazer isso. — Vincent retrucou, vendo o
rosto do menor corar.
— Quem está com insinuações obscenas agora?
— Você entendeu o que quis entender, Parker. — Suspirou,
sentindo o perfume delicioso de morango nele. — Por favor, Parker,
senta comigo por alguns minutos. Quero conversar com você sem
nenhuma provocação.
Em silêncio, o garoto de olhos azuis brilhantes se sentou.
Olhou ainda para uma bolsa ao lado da cadeira, mas escolheu não
externar o que havia pensado ao torcer o nariz.
— O que quer conversar?
— A forma como te tratei não foi certa, devo admitir. Estou com
muitas coisas no trabalho e meu jeito pode ser difícil por causa de
tudo o que aguento.
— Isso é um problema seu, Vincent. Eu não tenho nada com o
seu trabalho estressando e superimportante. Eu só trabalho com o
prazer, lembra?
— Sem ataques, por favor. Controle o seu gênio por alguns
minutos, pode ser?
— Continue. — Ele pegou a colher e mastigou o morango com
o sorvete, e por uma fração de segundos Vincent o admirou tanto
quanto ele admirava a delícia doce.
— Hoje não é um dia exatamente feliz para mim.
— Você não tem cara de que comemora aniversários mesmo.
É muito duro e rígido pra isso.
— Como sabe que é meu aniversário? — Encarou o jeito do
outro, que era um ótimo ator, pois escondeu muito bem o
nervosismo inicial.
— Esse é um bolo de aniversário, não é?
— Você andou perguntando de mim por aí?
— É claro que não. Para quem eu perguntaria, Vincent? Eu
nem mesmo sei o seu sobrenome.
— Certo. — O mais velho se voltou a cadeira. — Meu pai
faleceu nesse mesmo dia. Hoje é aniversário da morte dele.
— Vincent... — Parker parou de mastigar e limpando a boca o
encarou, afrouxando a armadura irônica que tinha. — Seu pai
faleceu no dia do seu aniversário?
— Sim.
— Isso é sério, Vincent? Não brinca comigo.
— Pra que eu mentiria sobre isso?
— Eu... eu sinto muito. Não sei o que te dizer, mas sinto muito
mesmo.
— O mais interessante é que somente você, além de minha
mãe e os responsáveis pelo enterro, sabem sobre isso. Não é algo
que espalho por aí.
— Por quê?
— Não sou um homem que gosta de ser visto com olhares de
pena ou compaixão.
— Pois eu estou te olhando dessa forma agora. E não estou te
diminuindo de forma alguma. — Ele se ajeitou na cadeira. — Por
que me contou isso, Vincent? Não sou ninguém para você e não
tivemos, até agora, nenhuma conversa saudável.
— Não sei o motivo, Parker. Depois... — O celular do menor
tocou rapidamente e ele pediu desculpas depois de ler a
mensagem.
— O que você estava dizendo?
— Não era nada.
— Como assim?
— Só esqueça. Quem era no telefone? — Perguntou e o
menor o encarou, ponderando se devia respondê-lo ou não.
— Minha amiga. Me perguntou onde estou e pediu para ir logo
encontrar com ela.
— Vai a uma festa então?
— Sim, Vincent, eu vou para uma festa.
— Espero que tenha juízo.
— Sempre sou responsável no que faço.
— É bom reforçar.
— É bom cuidar da própria vida também.
— Não teria que me preocupar com a sua se não fosse tão
impulsivo.
— E pra que você se preocupa com a minha vida, Vincent?
Você nem me conhece.
— E preciso te conhecer pra saber como você é?
— O que? — Ele respirou fundo, controlando suas emoções e
logo encarou Vincent. — Não sei o que você tem nessa sua cabeça
de homem grosso e das cavernas, mas se importar comigo não é
uma das suas responsabilidades. E não é você que está sendo
impulsivo por estar achando que tem que cuidar de mim?
— Olha, garoto...
— Viu? Estou com total razão. — Parker se levantou e fez um
gesto para que Vincent fizesse o mesmo. — Anda, se levanta e para
de ser um grosso. Não faça eu desistir de ser uma pessoa melhor.
Agradeceria também se você tirasse um pouco essa sua expressão
fechada da cara, porque já está ficando com rugas. Para alguém
que parece ser tão respeitado no trabalho, daqui a pouco vão ter
que te colocar em algum programa para melhorar sua aparência.
— Você não tem noção do que fala, não é?
— E você não parece seguir o caminho oposto! Fica me dando
ordens para lá e para cá, se achando alguém na minha vida e ...
Para de falar e levanta dessa cadeira, por favor! Estou quase
desistindo de ser uma pessoa educada e decente com você.
— Como você fala demais! Pronto! O que você quer? — Ele
viu o garoto passar os braços por seu pescoço, exatamente como
se beijaram pela primeira vez. Instintivamente ele aconchegou o
corpo do menor no seu e o segurou, aproveitando a proximidade
repentina. Ele sentiu um beijo em sua bochecha, por cima de sua
barba um pouco grande. Eles se encararam por alguns segundos, e
Vincent fez um carinho nas costas dele. — Eu sei como é não ter
um pai, mas me lembro dos momentos bons que tive com o meu.
Então mesmo que infelizmente o seu tenha falecido no dia do seu
aniversário, não encara isso como um fato triste e sim como mais
um motivo pra se lembrar de toda a felicidade que teve do lado dele.
— Obrigado, Parker. — Vincent teve vontade de beijá-lo, sem
se importar se alguém os observassem, porém o garoto se
desvencilhou de seus braços.
— Agora eu tenho que ir ajudar a minha amiga em uma festa,
e você tem que acompanhar alguém no jantar. — Apontou para a
bolsa. — Diga para ela que tem bom gosto.
— Parker. — Segurou seu pulso. — Só tenha cuidado lá.
— Eu sempre tenho, Vincent. Não sou nenhum indefeso e eu
poderia muito bem ter acabado com você quando invadiu meu
apartamento, se não fosse por meus bichinhos de estimação. Agora,
até mais, Vincent.
Ele viu Parker se afastar e quis segui-lo para se certificar de
que ficaria bem, ou mandar um de seus homens o vigiar, mas logo
tirou a ideia da cabeça. Ele estava perdendo o controle tentando
manter seus pensamentos em ordem. Por que era tão difícil quando
o assunto era aquele demoniozinho?
Ele se sentou e comendo o bolo de chocolate com os goles da
bebida, esperou sua mãe, que não demorou muito. Ela ornava um
sorriso e se sentou olhando o copo de sorvete a sua frente.
— Era ele?
— Ele quem, mãe?
— Ora, Vincent, o tal garoto das fotos. O “Teimoso”? Ele é
muito mais bonito pessoalmente.
— Era ele.
— Vi vocês dois se abraçarem. Nunca te vi fazer isso com
ninguém. Comigo é uma raridade.
— Ele só estava sendo gentil.
— E por qual motivo, meu filho? Sei que é homem demais para
deixar seus sentimentos evidentes.
— Eu contei para ele sobre o pai.
— Contou? Você não comenta sobre esse assunto com
ninguém. Por que fez isso?
— Eu não sei, mãe. — Largou a colher no prato. — Eu nem
conheço ele direito e tudo o que eu consigo fazer é pensar que ele
tem alguma coisa de especial pra me fazer perder o controle.
— Dessa vez vou me abster e deixar você entender tudo
sozinho. — Ela pegou a colher e começou a comer o restante do
bolo.
— Agora não tem nenhum conselho? Nem uma palavra de
sabedoria? Cadê a senhora intrometida e toda interessada na minha
vida?
— De repente, não me sinto tão na obrigação de ajudar meu
filho. Afinal, ele já é um homem adulto e autossuficiente, além de ter
um trabalho superperigoso e exigente. Isso já é um sinal de que ele
pode cuidar de qualquer assunto sozinho. E eu sei que ele pode,
porque eu criei esse homem na minha frente muito bem.
— Muito engraçado, mãe. — Suspirou, pendendo a cabeça
para trás. — Será que papai aprovaria?
— O que?
— Não sei... Deixa pra lá. Estou cansado e falando besteiras.
— Seu pai podia ser muitas coisas, mas sempre foi
compreensível e inteligente. Duas das qualidades que me fizeram
me apaixonar por ele. Além de me mimar bastante, é claro.
— Ele te elogiou.
— Seu pai?
— Parker.
— Sério? Ele me viu?
— Viu a sua bolsa. Disse que você tem bom gosto.
— Já gostei dele. Mal posso esperar para você perder o
controle e falar com ele de novo. Quem sabe eu tenho alguém para
fofocar sobre você. Sempre quis mostrar suas fotos peladinho de
quando era bebê.
— Mãe...
— Ou contar sobre as coisas que fazia quando era um menino.
— Mãe!
— Eu estou brincando, Vincent. Credo! — Empurrou o sorvete
para ele. — Quem sabe ele entrar na sua vida e te fazer perder o
controle de tudo seja bom? Há tempos eu peço para você voltar a
sorrir de novo, como quando era mais novo. Talvez esse Parker seja
a pessoa que eu tanto pedi para aparecer na sua vida. Deus é
milagroso e age de formas inusitadas... Você crendo ou não, ele
sempre cuidou de você!
CAPÍTULO 04 - Um Novo
Continente

Ir aquela festa não havia feito bem algum para meu cansaço.
Pelo contrário, estava ainda mais indisposto e não queria tirar de
minha cabeça aquele encontro com Vincent. Ainda conseguia sentir
seu corpo por debaixo da camisa que usava. Quis tocá-lo
novamente e oferecer meu carinho pelo momento que estava
passando. Perder o pai justo no dia de seu aniversário era razão
suficiente para cogitar não comemorar a data, porém o que eu havia
falado era a mais pura verdade. Se seu pai fora alguém bom, tinha
certeza de que não gostaria que o filho deixasse de ser feliz.
Encarei todas aquelas pessoas se divertindo e rindo, bebendo
e comendo como se estivessem sob algum efeito de drogas e
reconheci que aquele não era o ambiente certo para mim. Querendo
ou não minha mãe havia passado um pouco de seu jeito
controlador, onde me fazia preferir um jantar ou comemoração com
um pouco mais de requinte.
O pior de tudo foi ter que aguentar Frederick me olhando, ao
mesmo tempo que tentava se esquivar da garota insistente em seus
braços. Aquele problema era algo que evitaria a todo custo. Havia
me mudado para Bisera para mudar de vida e não para acabar com
a minha por conta de uma estudante ciumenta, descontrolada e
potencialmente obsessiva.
Mandy estava conversando com seus amigos, um pedido ou
ordem, como preferirem chamar, que lhe dei. Eu podia ser simpático
com todos e ter facilidade em me comunicar, mas minha mais nova
amiga não. E se quisesse se inserir naquele mundo, uma coisa que
precisaria seriam pessoas influentes. E uma boa forma de praticar
suas habilidades sociais era com seus próprios colegas.
Nem mesmo me preocupei com Pamela, pois depois de mais
ou menos trinta minutos já havia deixado a festa para ir atrás de seu
namoradinho misterioso. Pensei que seria mais como ela quando
me mudasse, por estar sozinho em uma cidade onde ninguém me
conhecia ou teria importância o suficiente na minha vida para me
importar com seus julgamentos. No entanto, estava mais para uma
Mandy da vida, onde tudo o que queria fazer era ficar no sofá e
assistir algum seriado com meus bichinhos do lado.
E foi o que eu fiz logo após de me despedir da escritora
apaixonada. Assim que cheguei no térreo aguardei um táxi dar as
caras. E agradeci o porteiro do prédio por chamar um para mim.
Meu celular vibrou com uma chamada de minha mãe e ponderei se
devia atendê-la. Pelas minhas contas já eram por volta das dez
horas da manhã de um sábado no Brasil.
— Não me diga que está trabalhando agora.
— Bom dia, Parker. Liguei somente para te dizer que terei
dificuldades para atender suas ligações caso precise falar comigo.
Tenho uma conferência e estarei ocupada.
— Qualquer coisa falo com sua secretária. Mais alguma coisa?
— Estranhei seu silêncio.
— Seu avô.
— Morreu?
— Não.
— Então não quero saber nada dele. — Fechei minha cara ao
me lembrar daquele homem e tudo o que havia feito comigo. Se não
escutasse de sua existência pelo resto de minha vida seria pouco.
— Quero te dizer que ele não está bem de saúde. Seu pai me
ligou para informar. — Aquele era outro que não tinha vontade de
saber sobre.
— Não me interessa nada deles. A senhora sabe muito bem
disso.
— Isso não apaga o fato de que você é herdeiro do que quer
que aquele homem deixe no mundo.
— E você acha que ele deixaria alguma coisa para mim?
— Pelo que seu pai me conta, ele parece ter mudado.
— E a senhora voltou a conversar com meu pai? — Indaguei
vendo meu prédio se aproximar.
— Ainda temos responsabilidades em conjunto. Uma delas é
cuidar do nosso patrimônio para que você possa estudar sem se
preocupar com necessidades básicas.
— Não sei mais o que quer com essa ligação, mãe. — Tentei
me acalmar devido ao seu jeito seco e duro de falar. Ainda me
machucava, mesmo tendo lidado com ele durante toda minha vida.
— Caso seu pai entre em contato, fale com ele. Seu irmão irá
visitá-lo em alguns dias, mas não sei quando. Disse que tinha
algumas coisas para resolver do trabalho. Ele se tornou um homem
responsável.
— Acredito que muito se deve ao nepotismo, quero dizer,
merecimento e dedicação dele. Mas que bom que de um jeito ou de
outro ele aprendeu a focar a cabeça dele em algo que não em
festas e brigas.
— Bom, era isso o que eu tinha que falar.
— Boa viagem, mãe.
— Obrigada, Parker. Não faça nada imprudente.
— Eu alguma vez dei moti... quer saber? Esquece. Bom dia.
Desliguei o aparelho com a mesma raiva que bati a porta do
carro, ou seja, muito forte. Pedi desculpas e fui direto para meu
apartamento, sem nem me dar ao trabalho de olhar para os lados.
Tirei toda a minha roupa e tomei um banho, repetindo que não mais
me estressaria por quem não fazia questão de me querer bem de
verdade.
Então todos os dias em que eu passava em frente à mesa
encostada na parede de vidro em minha sala, ou pela padaria para
comprar meus sonhos, me lembrava dele. Lembrava de como
marcou sua presença em meu lar e em meus pensamentos, e me
pegava sonhando acordado com nosso encontro no restaurante
Orleans. Será que ele se arrependera do que havia dito e agiu
daquela forma para que o perdoasse? Vincent me assombrava a
quase todo minuto e me pegava tentando lembrar o sabor do seu
beijo ou a sensação de sua barba na minha pele.
Eu queria me matar todas as vezes que aquele homem vinha
em minha mente. Meu orgulho estava ferido, mas meu cérebro e
coração trabalhavam juntos para fazer com que eu quisesse escutar
a sua voz. Todas as manhãs eu olhava da janela para ver se o seu
carro aparecia, ou inventava alguma desculpa para mim mesmo, a
fim de me convencer de que tomar café da manhã as cinco horas da
manhã era melhor. Eu mesmo estava me traindo em querer tocar
naquele homem novamente.
Ao mesmo tempo que queria falar com ele, me irritava, pois
lembrava de seu jeito sério, presunçoso e indiferente ao me tratar.
Queria encontrá-lo para poder xingá-lo por tudo o que eu estava
sentindo. Queria dar um tapa naquele rosto e beijá-lo ao mesmo
tempo. Ele obviamente era um ogro, porém não me importava com
aquilo, nem com seus suspiros ao me achar infantil ou imoral. Eu só
queria saber que ele também havia pensado em mim.
Nos dias seguintes tinha a constante sensação de ser vigiado
todas as vezes que caminhava para a faculdade. Ela tinha
começado desde quando havia recebido a carta, mas escolhi não
dar atenção àquilo, pois seria inútil tentar descobrir o motivo dela.
Eu também já tinha coisas demais para me preocupar, como por
exemplo, descobrir como melhorar a minha atuação, pois teria uma
cena para apresentar.
Em uma tarde de sexta-feira, estava conversando com Pamela
sobre o que faríamos, já que formamos uma dupla para a atividade.
Ela estava querendo fazer uma adaptação de Romeu e Julieta, e eu
discutindo com ela dizendo que não faria nada romântico, pois já
estaria muito batido, e por fim ela concordou comigo, e ficamos de
nos encontrar no domingo com ideias. Assim que saímos da
faculdade já eram quase sete horas da noite e estávamos morrendo
de fome. Decidimos ir a um restaurante e enquanto esperávamos
nosso Uber, novamente a sensação de estar sendo observado
voltou. Olhei para todos os lados e não encontrei ninguém que
chamasse a minha atenção.
No caminho minha amiga continuou dizendo que queria
encontrar alguém para transar sem se importar se o motorista
estava escutando todas aquelas barbaridades. Eu por outro lado,
estava morrendo de vergonha por nós dois já que ela não tinha
papas na língua, e aquilo era até engraçado, apesar dos
constrangimentos que vinham acompanhados de uma piada.
A fachada do Orleans brilhava como um farol e atraía várias
pessoas para seu interior despojado e intimista. Mesas estavam
dispostas ao redor de todo o salão, combinando com as colunas de
mármore branco. No centro estava um bar, como uma ilha, e ao seu
redor um jardim interno com várias mesas de madeira escura e
cadeiras acolchoadas brancas. Deviam trocar todas as semanas a
decoração, pois estavam diferentes da última vez que fui.
— Esse lugar tem um sorvete maravilhoso, Pamela. — Falei
assim que nos sentamos. — É caro, mas muito delicioso.
— Eu sei que você sabe que eu sei que você tem dinheiro para
comprar metade disso tudo. — Pegou o cardápio. — Eu vou querer
um combo quatro com batatas fritas. Ah, e uma coca bem gelada,
por favor.
Eu nem tinha percebido que já havia um garçom perto de
nossa mesa. Ele estava parado anotando nossos pedidos.
— E o senhor? — Me perguntou gentilmente.
— O mesmo que o dela, só que um suco de abacaxi no lugar
do refrigerante, por favor.
— Eu deixaria ele fazer de tudo comigo com essa roupa
engomadinha.
— Pamela! Ele nem saiu direito daqui. E se ele escutou?
— Espero que tenha mesmo. Mas então, meu querido Parker.
— Sua voz adquiriu um tom animado e manhoso. — Eu percebi, e
todo mundo na verdade, que o gostoso do Frederick não para de te
olhar. O que indica que ele quer o seu corpinho.
— Meu Deus! — Suspirei e automaticamente Vincent veio em
minha cabeça. — Eu não quero nada sério com ninguém agora. Já
basta ter que me concentrar para decorar os textos que não são
fáceis. Não tenho cabeça para mais nada.
— Mas ninguém está falando em ter algo sério, menino. —
Respondeu dobrando um guardanapo numa tentativa falha de
origami. — Só estou falando que, se eu não me engano, e eu quase
nunca me engano, aquele homem quer transar com você. Isso se
você só quiser sexo.
— Eu sei que ele gosta de mim, de algum jeito. — Passei a
mão no cabelo separando alguns fios. — Ele, no primeiro dia que
nos vimos, veio pedir pra sair comigo.
— Mentira! Sério?
— Sim. Eu disse que não queria, porque eu vi aquela menina
pendurada nele.
— Ai meu Deus, Parker! — Colocou as mãos na boca,
cobrindo um sorriso. — Que sorte você tem. Eu não encontro um
para dar uns beijos e afins.
— E o seu namoradinho misterioso? Como é mesmo que você
salvou o contato?
— “Sotaque Gostoso”.
— Esse mesmo. O que aconteceu?
— Teve que voltar para o país dele. Só estava a trabalho aqui,
mas eu queria me candidatar a uma vaga de amante fixa.
— Amante?
— Ele namora, eu acho.
— E você fala isso assim?
— Ele quem deve ter comprometimento com a namorada dele.
E outra, eu só fui descobrir isso quando encontrei com ele depois da
festa que a gente foi.
— A festa que você me deixou sozinho.
— Minhas sinceras desculpas. — Segurou minhas mãos por
cima da mesa.
— Investe em alguém menos complicado. Tem o carinho do
Jazz. Eu acho ele super bonitinho e ele super ficou de gracinha pro
seu lado na aula adaptativa.
— O Larry?
— Eu não sei o nome dele, mas é o de cabelo grandinho e
amarrado.
— É o Larry. — Começou a morder um canudo descartável. —
Eu não sei. Ele é um amor, mas...
— Por que todo mundo quer justamente os que os
complicados e difíceis? — Perguntei e eu também queria a
resposta, pois não parava de pensar no homem que havia me
comparado a um garoto de programa.
— Ai, eu não sei! Só sei que sei lá.
— Você é doidinha. — Ri da cara que fez.
— Só um pouquinho.
Conversamos muito mais sobre nossas vidas e ao contrário do
que eu pensava, longe da influência de minha mãe, eu não tive
medo nenhum de contar sobre mim ou me abrir com alguém. Não
tinha a vida mais badalada e nem a experiência da garota a minha
frente, fora ter transado com o entregador de pizza, como uma cena
de pornô barato, enquanto minha mãe viajava. Foi ótimo ganhar
pizza de graça, mas aquela fora minha maior e única loucura.
Em um momento da noite todos se viraram para a entrada do
restaurante e um homem entrou, com músculos aparentes na
camisa preta que usava. Não era um fã de esportes, mas o tinha
visto em uma revista ou outra. Era um lutador de MMA ou algo do
tipo. Atrás dele tinha um garoto que já tinha visto saindo da
faculdade. Ele estudava em uma outra universidade próxima a
minha. Estava com um celular no ouvido e parecia estar em apuros
por algo, e quando passaram por mim pude escutá-lo discutindo
com alguém por conta de um voo cancelado. Deveria ser o agente
do boxeador. Pamela ficou toda ouriçada e tive que dar um chute na
sua canela para que se controlasse.
Depois de todo o alvoroço se sentaram em uma mesa não
muito longe da nossa, e mesmo de costas eu podia ver que o menor
estava desconfortável com algo que o lutador falava. Parei de
prestar atenção neles e comi, pois não queria que me notassem
olhando para eles. O restante do jantar ficamos conversando
besteiras, e por fim pedimos um carro para nos levar em casa.
No caminho Pamela acabou cochilando e me usando como
encosto. O cheiro de seu cabelo era de chiclete e tinha que me
lembrar de perguntar o que passava nele, pois era delicioso. Estava
quase seguindo seu exemplo quando chegamos ao meu
apartamento. A acordei e me despedi, pedindo para que me
avisasse quando chegasse e que não dormisse novamente. Ela me
respondeu com um "pode deixar" bocejando que não me passou
muita confiança.
Assim que o carro saiu senti um zumbido, como se meu corpo
me alertasse sobre alguma aproximação, e sem muito pensar virei
minha bolsa com tudo para trás. Acertei em cheio a cara de alguém.
Ele a segurou e lentamente pude ver o sorriso brincalhão e travesso
de meu irmão. Harvey tinha uma essência livre e tão maravilhosa
que não me contive ao me jogar em seus braços. Ele me abraçou
muito forte, como se quisesse me quebrar ao meio, e como sempre
fazia, puxei seus cabelos, o fazendo rir.
— Estava com saudade de você, Valentão. — Me agarrei no
seu braço e entramos no edifício.
— Eu também estava, Raposinha. — Disse e percebi seu
sotaque devido a viver na Rússia com nosso pai. — Você está
perdendo o jeito, sabia?
— Era você que estava me seguindo para lá e para cá? —
Questionei e com sua confirmação tudo se clareou. Ele era o motivo
de me sentir observado a semana inteira.
— Por que ficou me seguindo e não veio falar comigo?
— Você sempre estava rodeado dos seus amiguinhos ou no
encontro com um cara lá, que achei melhor só olhar de longe e ver
se estava com raiva.
— Eu não estava em um encontro com ninguém, ok? — Me
apressei em dizer, pois ele tinha uma mania insuportável de se
meter em minha vida e ser um completo inconveniente. — E você
podia ter falado comigo. Pamela adoraria te conhecer e vocês
combinariam um com o outro. Os dois são uns safados sem
vergonha na cara.
— E agora eu sei que ainda está com raiva.
— Não estou com raiva de ninguém. Por que não me ligou?
— Estava resolvendo umas coisas da empresa e você mudou
seu número. Falou até pra não me deixarem entrar. Não recebeu a
carta que te mandei?
— Era a sua letra?
— Era.
— Está igualzinha a dele. — Falei desconfiado, entrando no
elevador e esperando ele carregar as malas. — Você tem certeza de
que não tem nada por trás dessa sua vinda.
— Só vim resolver algumas coisas do trabalho depois de visitar
a mãe. Estava com saudades do meu irmão. Isso é um crime?
— É estranho.
— O que?
— Nada. — Não contaria para ele que estava paranoico.
— Mas e você e o pai? — Perguntou disfarçando e fiz uma
careta. — Ainda tá bravo com ele?
— Não quero falar sobre isso, ok? Você voltou agora, depois
de quase dois anos. — Segurei a porta do elevador para que ele
passasse para a entrada privativa. — Mas já que tocou no assunto,
me responda só uma coisa.
— Certo. — Ele carregava as malas atrás de mim, mas antes
que eu abrisse a porta o olhei.
— Quando ele vem? Eu sei que aquela não era a sua letra e
você sabe usar um celular e redes sociais. — Cruzei os braços. Ele
riu me empurrando para dentro.
— Amanhã de manhã ele vem para cá. Ele teve que passar na
filial daqui. — Harvey olhou o apartamento e assoviou. — A mãe
sempre soube fazer essas coisas. Eu lembro dos nossos quartos e
como ela decorou antes de... você sabe, eles se separarem e nos
separarem.
— Foi melhor assim. E melhor ainda que você ficou com ele.
Afinal, um gay na Rússia seria uma vergonha, não é? Já era aqui,
imagina em um país completamente homofóbico! — Sorri
cinicamente e fui para a cozinha. — O que ele quer, afinal? Ele não
tem nada comigo.
— Ei, calma. Não é bem assim, Raposinha. O pai nunca falaria
assim de você. Ele te ama e eu sei que você sempre foi o preferido
dele. O velho mal se aguentava de ansiedade nesses últimos dias
pra vir aqui te ver.
— Não precisa mentir, Harvey. — Peguei um bolo que tinha
comprado e dei para ele. Vi seus olhos brilharem e logo estava
atacando e falando de boca cheia.
— Eu não tô não! — Disse entre um pedaço e outro. — Ele, de
verdade, estava muito feliz por te ver de novo.
— Depois de oito anos. — Harvey olhou como se sentisse
triste por mim.
Ao contrário do meu pai, minha mãe nunca deixou de ver
Harvey e sempre conversavam. Ele sempre vinha passar algum
tempo em nossa casa no Brasil, porém eu nunca recebi sequer um
convite ou um bom dia depois da separação dela com Yorick, meu
pai. Todo o meu contato com ele se foi assim que as canetas foram
usadas para assinar um documento. Sofri demais nos primeiros
anos, mas depois aprendi a dar valor a quem quisesse ficar do meu
lado.
— Que calor tá aqui! — Ele tirou a jaqueta e a camisa. Sua
pele estava coberta por mais tatuagens que eu poderia contar. Me
aproximei tocando uma que me atraiu bastante. Uma raposa estava
bem em cima de onde estava seu coração e o senti bater.
Quando eu era pequeno e estávamos em um chalé em férias,
vi uma raposa misturada com a neve. Me aproximei tanto dela, tão
admirado, que não vi que rosnava para mim, pois seus filhotes
estavam perto. Se não fosse por meu pai, que estava me
procurando com Harvey, eu teria sido atacado. Mas me apaixonei
tanto que por anos todas as minhas roupas eram brancas para
imitar os pelos do animal.
— Eu fiz essa pensando em você. Pra te ter sempre perto.
— Nossa, Harvey! — Sorri exageradamente e segurei seu
rosto. — Essa foi a coisa mais linda que você já fez para mim. Eu
não sabia que tinha essa capacidade.
— Sai daqui, vai! — Me empurrou e vi uma cicatriz bem abaixo
do desenho.
— O que foi isso?
— Briga de bar. — Respondeu sem dar importância, mas
vendo que eu não estava satisfeito com a resposta, continuou. — Eu
estava bêbado em um bar e outros caras também estavam, aí já
sabe o resto.
— Você não tem jeito mesmo, não é? — Lhe dei um tapa na
cabeça. — Sempre foi um valentão. Se você morrer, eu te revivo só
pra eu te matar. Mas eu acho que a cirrose te mata antes.
— Já passou. Relaxa. — Falou limpando a boca e depois
pegou suas malas parando no corredor. — Pra onde eu vou?
— Antes deixa eu te apresentar para meus novos filhinhos! —
O cachorrinho veio correndo e latindo, enquanto a gatinha andava
lentamente.
— Desde quando você tem os dois?
— Praticamente chegaram nesse apartamento junto comigo.
— Se a mãe visse isso...
— Não poderia fazer nada. — Falar nela e sobre o que faria
com seu jeito frio me irritou. Então peguei meu cachorro de seu colo.
— Pode ficar no quarto do lado do meu. É o segundo da direita.
E rindo foi se arrumar. Coloquei o restante do bolo na geladeira
e depois fui para o meu quarto tomar um banho. Era tão bom ter
meu irmão comigo. Ele sempre me fazia sentir a pessoa mais feliz
do mundo, mesmo sendo como um relâmpago avisando de uma
tempestade. Daquela vez meu pai estaria lá, e seria a primeira vez
que teríamos contato um com o outro depois de oito anos. Não
sabia o que esperar daquele encontro. Não saberia o que falar, mas
na verdade não era eu quem devia explicações, e sim ele!
Quando voltei a sala meu irmão estava jogado no sofá,
somente com um shorts de malha fina e completamente apagado de
sono. O acordei e o ajudei a arrumar seu quarto com ele parecendo
um bêbado cambaleando. No entanto estava completamente lúcido
quando me pediu para comprar pães e fazer misto-quente para ele
no café da manhã.
Lhe dei boa noite e me retirei. Na cama percebi o silêncio, até
que não ouvi os miados da gatinha e cachorrinho. Os procurei por
todo o canto, e comecei a ficar preocupado quando não os
encontrei. Até que escutei os miados no quarto do fundo. Abri a
porta do escritório e vi a bagunça dos dois.
O cãozinho estava dormindo em cima de um pequeno sofá e a
gata, assim que abri a porta, subiu desengonçadamente pela minha
perna. Perguntei o que tinham aprontado, mas só miou, obviamente
se desculpando por toda a bagunça. Peguei o seu irmão no colo e
só então acordou, começando a me lamber. Os deixei na cozinha
comendo e fui limpar tudo o que fizeram.
Quando terminei, fui ter minha noite de sono merecida.
Precisaria descansar para Yorick. E foi com aquela preocupação e o
ronronar da felina no meu pescoço que dormi. E ainda bem que não
tive sonhos ou pesadelos com meu pai ou Vincent.

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Na manhã seguinte acordei com meus despertadores naturais


querendo comida, então não tive outra alternativa a não ser levantar
resmungando. Eram cinco horas da manhã e meus olhos ainda
doíam de sono. Deitei no sofá por alguns minutos até que escutei
novamente o choro de um deles tentando subir. Aproveitei aquela
motivação toda e me levantei para me trocar e ir comprar o que
precisava para fazer o café da manhã de Harvey. Na verdade, só
troquei o shorts por uma calça de malha fina e coloquei uma blusa
por cima.
Quando pisei na calçada do lado de fora do prédio, o vento
gelado me atingiu e desejei que Vincent estivesse ali para me dar o
seu paletó novamente. Caminhei na rua sem me importar em olhar
para os dois lados, pois aquela hora não havia ninguém por lá.
Alguns carros estavam no estacionamento do estabelecimento e
algumas famílias estavam arrumadas para viajar devido as grandes
malas ao lado das mesas. As crianças estavam emburradas
tomando seus chocolates, e os pais conversando sobre algo. Fazia
muito tempo que não sabia o que era uma viagem em família.
Enquanto estava no balcão, apoiei a minha cabeça nele e
fiquei naquela posição esperando os dez minutos que o padeiro me
pediu para a nova fornada de pães quentes. Pedi um sonho e um
chá para comer lá mesmo e enquanto os saboreava, senti uma
presença. Alguém tinha puxado o banco do meu lado e sentado
virado para mim.
Lentamente virei meu rosto e meu coração bateu mais rápido.
Ele estava lá, em toda a sua presunção e seriedade, me olhando de
cima devido a sua altura. Novamente tive vontade de passar meu
rosto em sua barba como um gato. E não tive outra escolha a não
ser gravar todas as coisas que podia de como ele estava, desde os
óculos escuros que segurava em sua mão, os fios brancos que se
destacavam em sua barba, seus olhos penetrantes e incisivos
contra mim, sua camisa preta com duas pequenas manchas
brancas, mas igualmente linda, e até a sua calça Jeans escura e
sapatos sociais.
Tudo nele atraía minha atenção e quis me jogar em seus
braços para sentir algum tipo de carinho feito por ele. Vincent não
dizia nada, mas via seus olhos passeando pelo meu rosto e corpo,
como se gravasse cada parte de mim, até parar em minha boca. Ele
estendeu sua mão direita, com seus dedos grossos e vi um anel
pequeno em seu dedo mindinho. A segurei antes que me tocasse,
pois eu seria capaz de gemer se a sentisse. Peguei um papel e olhei
meu reflexo no celular para limpar minha boca. Ele suspirou e me vi
com saudades daquele simples gesto. Fazia dias que não o via
depois de meu falho plano de o emboscar em seu aniversário.
Ele ficou alguns segundos em silêncio até que falou alguma
coisa, que de início não entendi, pois estava apreciando o tom rouco
e grave de sua voz. Ela entrou em meus ouvidos como se fosse um
líquido quente e me inundou por inteiro com um tremor gostoso.
— Você está me ouvindo? — Perguntou com os olhos
incisivos.
— Não. — Respondi e me levantei para pegar meu pedido.
Quando passei por ele seu perfume entrou em meu sistema e
causou uma pane momentânea. Ele suspirou atrás de mim e me
seguiu até o caixa. Paguei por tudo e saí, tentando ignorar o homem
do meu lado, mas ele me segurou pelo braço. Mesmo morrendo de
vontade de me jogar nele, me lembrei de sua acusação feita na
recepção do prédio do outro lado da rua. — Desculpa, Vincent, mas
de sábado eu não faço programa. Por favor, me liga durante a
semana, ok?
— Eu não quero voltar nesse assunto, Parker. — Passou a
mão na barba várias vezes. — Eu achei que já tínhamos resolvido
isso.
— Eu não lembro de termos conversado especificamente
sobre isso.
— Estou tentando te pedir desculpas pelo que eu disse.
— Sério? — Sorri ironicamente e tentei puxar meu braço, mas
sem sucesso. — Isso é estranho, porque eu não escutei nada do
tipo agora e nem quando nos encontramos lá atrás.
— Você é impossível! — Exclamou suspirando.
— Se não vai pedir nada, por favor, me solta. Acho que você
não pode perder tempo com alguém vulgar como eu. Vai acabar
com a sua imagem de bom homem.
— Pelo amor de Deus! — Me puxou para mais perto e deixou
meu rosto perto do seu. — Você é insuportável!
— É muito gratificante ser assim!
— Não vejo como!
— É uma habilidade que desenvolvi para quando meus
clientes pedem desconto pela noite de sexo quente e delicioso que
proporciono. Agora me solta, Vincent! Seu aperto está me
machucando.
— Não repita isso.
— O que? Que eu sou um garoto de programa ou que
proporciono sexo quente e delicioso?
— Parker...
— Me solta, por favorzinho? — Fiz um biquinho e o vi suspirar
novamente. Era gratificante vê-lo irritado.
— Não foi certo falar o que eu falei... — O interrompi.
— Sério? Que bom que percebeu isso! — Puxei meu braço e
daquela vez consegui me soltar. Eu via em seu rosto que estava
tentando, mesmo com seu orgulho sendo enorme. Devia aceitar
suas desculpas, mas queria fazê-lo sofrer mais um pouco. E me
senti vingado quando seu rosto ficou corado pela irritação. Controlei
meu corpo para não me excitar com aquele homem.
— Puta merda, Parker! Você parece uma criança birrenta! —
Mexeu em seu cabelo e deu um passo em minha direção.
— E você um velho ranzinza! — Retruquei me afastando e ele
ficando mais vermelho. — Até a barba está ficando branca. Cuidado
para não se irritar demais, Vincent. Vai acabar tendo um treco e com
o que eu ganho com programa, quando você finalmente marcar seu
horário comigo e parar te tentar conseguir sexo de graça, não
consigo te levar para um hospital. Você tem plano de saúde?
— Parker...
— Agora eu fiquei preocupado, Vincent. Estou com medo de
fazer tão gostoso e você ter algum infarto. Vi que isso acontece com
gente idosa. Tipo, isso não é uma doença de gente velha?
— Garoto, eu vou te mostrar o velho! — Passou o braço pela
minha cintura e me beijou com força... E eu gemi, me
descontrolando pela onda de prazer que senti. Sua barba arranhava
minha boca sem nenhuma piedade e ele segurou meu cabelo
controlando totalmente o movimento. Ele parou abruptamente, e
demorei alguns segundos antes de abrir os olhos, bêbado de prazer.
— Perdeu alguma coisa? — Ele falou e não entendi, até que
aquela voz estrondosa ativou minha mente.
— Acho que meu filho nos seus braços.
Eu não estava acreditando naquilo. Me virei e vi aquele
homem que havia me deixado a muito tempo atrás e nunca fez
questão de me ligar. Meu pai estava com uma cara de poucos
amigos para Vincent, que também não abaixou o olhar para ele.
— O que você está fazendo, Parker? Quem é ele? —
Perguntou me olhando seriamente, mas eu não estava com
paciência. A raiva brotou em mim por tudo o que ele tinha feito. Ou
melhor, tudo o que ele deixou de fazer na minha vida.
— Não te interessa, Yorick! — Ele estranhou eu chamá-lo pelo
nome, mas depois sua expressão se suavizou.
— Meu filho, nós precisamos conversar.
— Nós não temos nada para conversar. Eu não quero
conversar com você e muito menos te ver. — O interrompi e me virei
para Vincent, que encarava meu pai. Estalei os dedos em sua
direção. — Eu não te desculpei ainda, mas agora não é a melhor
hora. Passe aqui depois do trabalho.
— Você vai ficar bem? — Perguntou passando os braços ao
meu redor, parecendo algum tipo de instinto de macho alfa idiota,
mas os tirei.
— Por que não ficaria? — Meu pai perguntou se aproximando,
enfrentando o gênio de Vincent.
— Pelo que eu escutei ele não quer olhar para a sua cara. —
Era só o que me faltava!
— Eu cansei disso aqui. — Falei saindo do meio dos dois. —
Se querem brigar iguais uns cachorros de rua, fiquem à vontade!
Os deixei e entrei no elevador. Eu merecia aquilo? Eu tinha
feito alguma coisa ruim na minha vida para alguém? Pensei que
havia fugido de todos os meus problemas, mas eles pareciam me
seguir onde quer que eu fosse. Encostei a cabeça no vidro
espelhado e vi o reflexo de meu rosto. A região da minha boca
estava toda vermelha devido a barba de Vincent. Bruto! No entanto
foi impossível não sorrir quando toquei a pele e senti o quanto
estava sensível.
O elevador se abriu e antes de eu abrir a porta, Harvey o fez.
Pelo jeito, tinha acabado de acordar. Estava acabando de vestir sua
camiseta e me olhava desconfiado. Olhou atrás de mim não
encontrando aquele homem e tentou fingir que estava tudo bem.
Passando por mim apertou o botão do elevador e logo estava
descendo os andares. Olhando pela janela vi o exato momento em
que meu pai caminhava em direção ao meu prédio e seu andar
retesado refletia sua raiva. Não havia mais sinal do outro
nervosinho.
Fui até a cozinha e comecei a preparar o café para mim e meu
irmão, e enquanto colocava os lanches na chapa meu celular tocou
na bancada. A foto de minha mãe apareceu e pensei em recusar,
porém aquilo só serviria para que ela se irritasse. Eu sabia que ela
sabia que meu pai estava lá, pois provavelmente havia passado o
endereço para ele.
— Bom dia, mãe. Precisa de algo? Lembro que falou que
estaria muito ocupada. — Falei com uma alegria exagerada e ela
demorou para responder.
— Pelo visto seu pai já chegou.
— Por que deu o endereço para ele? Você sabe que ele me
abandonou completamente e sabe melhor do que ninguém. O que
eu vou fazer com ele aqui? Eu não consigo olhar para a cara dele.
— Ele ainda é seu pai e tem o direito de vê-lo. Tente dar uma
chance a ele, Parker. Pela conversa que tivemos ele parece
realmente querer se aproximar de você.
— Então ele devia ter conversado comigo antes de qualquer
outra pessoa! Eu não ligo se ele quer se aproximar de mim, porque
ele perdeu todas as chances de fazer isso. Não sinto nada por ele,
ele não é meu pai e eu não o quero perto de mim. — Despejei as
palavras e me virei. Por um segundo congelei, mas logo depois o
encarei. — Bom, ele acabou de escutar tudo, então vou desligar.
Tchau, mãezinha!
Ela se despediu secamente, como sempre fazia. E chegara a
hora de encarar a fera que estava em minha frente. Tirei os lanches
e os servi nos pratos, Harvey chegou alguns segundos depois com
o restante das malas de Yorick. Meu pai afrouxou a gravata e ficou
parado respirando forte, em um misto de arrependimento e raiva.
— Eu sou seu pai, garoto. Você não pode dizer essas coisas.
— Agora você lembra que tem outro filho? Pelas minhas
contas está oito anos atrasado e contando.
— Não é certo falar dessa forma comigo.
— E o que você gostaria que eu fizesse? Uma recepção
calorosa? Talvez eu devesse ter feito isso e colocado uma carta
escrita "Obrigado por me ignorar na sua vida por oito anos. Eu te
amo muito!". Eu acho que essa seria uma ótima ideia! O que você
acha?
— Parker, tenha mais respeito comigo. — Avisou.
— Por que todo mundo acha que é desrespeitoso dizer a
verdade? — Passei por ele e me sentei no sofá. Meus dois filhotes
estavam com roupinhas para protegê-los do frio daquela cidade.
Harvey devia tê-los encontrado e colocado.
— Olha para mim quando eu falar com você. — Ordenou.
— O que você quer? O que você veio fazer aqui? Eu não te
quero aqui. Eu não quero ter você perto de mim!
— Filho... — Ele se sentou perto de mim e tentou segurar
minha mão.
— Não me toca! Fala logo o que você veio fazer aqui e vai
embora. — Falei um pouco alto demais. — Só me deixa em paz.
— Eu só quero conversar com você, Parker. — Apoiou os
braços no joelho e me olhou. Pude ver o arrependimento e o quanto
eu tratá-lo daquele jeito o machucava, mas não me importava, ou
não queria me importar. Queria que ele sofresse da mesma forma
que sofri quando me abandonou. — Eu sei que você tem razões
para não querer falar comigo, mas eu sou seu pai. Eu quero me
aproximar de você.
— Isso não vai acontecer!
— Raposinha, por favor. — Harvey se aproximou. — Escuta o
que o nosso pai tem para dizer.
— Não se intrometa, Harvey. Você não ficou sem um pai e sem
uma mãe. Eu fiquei! E um que não fez questão nenhuma de falar
comigo durante oito anos. Mas então, do nada, ele aparece e quer
se aproximar como se nada tivesse acontecido? — Levantei e
encarei Yorick. — Espero que você tenha um lugar para ficar, pois
aqui não vai ser.
Ele me olhou espantado pela atitude. Respirava pesadamente.
— Você está expulsando nosso pai?
— E isso nem se compara com o que ele fez. Ele me expulsou
da vida dele e não pensou duas vezes. — Apontei o dedo para
Harvey. — E se você quiser, pode ir com ele.
— Eu não acredito que você tá fazendo isso. Dá uma chance
para o pai explicar tudo o que aconteceu.
— Filho, deixa ele. — Yorick se levantou e abotoou o terno,
como um daqueles homens de negócios. — Se você, agora, não me
quer perto de você, eu vou embora. Mas eu posso te pedir uma
coisa?
Seus olhos estavam suplicantes e eu não sei porque estava
tremendo tanto com aquela situação. Por que ele simplesmente não
ia embora e me deixava em paz? Eu não queria ele perto de mim.
Toda a solidão que senti quando ele me deixou, sem ao menos se
despedir, estava voltando. Estava me sentindo impotente perto dele
e aquilo trazia memórias que não queria que voltassem. Como uma
dor fantasma, coloquei a mão em minha cintura, apertando o
pequeno e quase insignificante relevo que lá havia.
Não disse nada quanto ao seu pedido, mas lutando contra o
meu orgulho, fiz que sim com a cabeça e permiti que me pedisse o
que ele queria.
— Eu posso te abraçar?
— O que? — Pisquei várias vezes até ter certeza das palavras
que saíram de sua boca.
— Eu posso te abraçar, meu filho? — Repetiu e deu um passo
para perto de mim.
Eu não sabia o que responder. Não estava preparado para um
pedido daqueles. Saber que ele estava querendo uma aproximação,
depois de tantos anos, fez eu me sentir como se estivesse em um
barco, perdido no meio do oceano, e de repente avistasse alguma
ilha ou continente. Me peguei, intimamente, querendo aquele abraço
e me toquei de que eu nunca parara de sentir a sua falta. Ela só
estava mascarada e escondida debaixo de todo aquele
ressentimento. Eu ansiava por sentir seu carinho e um aperto em
meu peito fez com que eu quisesse chorar e ser consolado por ele.
Meu irmão estava parado perto da porta, junto das malas e
com meu cachorrinho aos seus pés mordendo a barra de sua calça.
Ele me olhava em expectativa pela minha resposta e me encorajou
fazendo um sinal com a sua cabeça na direção de nosso pai.
Eu não queria mais lutar contra ele. Meu coração pedia para
perdoá-lo e minha mente dizia para continuar o negando. Deixá-lo
entrar na minha vida só faria com que fosse mais difícil superar a
sua falta quando me abandonasse de novo. Era um erro, mas eu
estava tão cansado de me sentir sozinho... Tão cansado! E aquilo
me fez respirar fundo e aceitar.
— Tudo bem. — Falei e vi o rosto de meu pai se iluminar com
um sorriso. Sem esperar por mais nada veio rapidamente e me
levantou em seus braços.
Eu, de início, levei um choque com o que estava acontecendo,
pois parecia que não sabia o que era um abraço. O coração dele
batia tão forte em seu peito e adorei senti-lo daquele jeito. Eu era
como um náufrago pisando em terra firme depois de muito tempo.
Passei meus braços pelo seu pescoço, e vendo que eu retribuíra o
gesto, me apertou ainda mais. Eu queria ficar mais, mas tinha que
mostrar que ele demoraria para ter minha confiança de volta. Então
o empurrei gentilmente.
— Tá bom. Já chega! — Limpei meus olhos marejados. Harvey
estava com um sorriso enorme quando o olhei, e disfarçou, se
abaixando para fazer carinho no cãozinho.
— Muito obrigado. — Yorick agradeceu sem conseguir conter o
quanto estava feliz. Seria engraçado vê-lo daquele jeito, com
lágrimas nos olhos, mas não podia me deixar vencer pela imagem
de pai arrependido. — Eu vou te reconquistar, meu filho. Eu te
prometo que não vou te deixar fora do meu alcance nunca mais.
— Tá. — Foi tudo o que consegui dizer. E mesmo não
admitindo para mim mesmo, gostei do que disse. Não tinha certeza
se devia fazer aquilo, então não pensei muito. — Você pode ficar
aqui, Yorick. Não precisa ir embora assim, mas encontre um lugar o
quanto antes.
— Muito obrigado, filho. — Deu ênfase na última palavra.
— Bom, já que está tudo certo, você pode fazer o nosso café,
não é, Raposinha? — Harvey disse esfregando as mãos.
— Você é um morto de fome sem o mínimo de bom senso!
Sempre foi! — Caminhei em direção a cozinha, ainda sob o olhar
feliz de meu pai, que agora tirava o terno.
— Deixa que eu faço o chá. — Pediu, mas meu irmão e eu
dissemos não ao mesmo tempo.
— Você pode ter ficado longe por oito anos, mas uma coisa
que eu nunca vou esquecer é do veneno que chama de chá. —
Falei dando tapinhas em seu ombro, mas me afastei, percebendo
que estava sendo amistoso demais.
— E eu lembro que você cozinha muito bem. — Ele
respondeu.
Fiquei em silêncio, terminando de fazer todas as coisas. Os
dois me encaravam em divertimento como dois meninos. Quando
erguia meu olhar, disfarçavam. Eles conversavam várias coisas e
em alguns momentos, sempre tentando uma aproximação, Yorick
me perguntava sobre minha vida. Eu não me prolongava nas
respostas, e sorria quando meu irmão fazia alguma piadinha sobre o
passado, sempre tomando cuidado para não tocar no assunto
pesado de nossa separação.
Estava gostando de ter os dois lá. Me senti sozinho grande
parte da minha vida e tinha me acostumado com a solidão. Minha
mãe esteve comigo, mas era o mesmo de não estar, pois sempre
era muito preocupada com a empresa que tanto lutou para erguer.
Eu não tinha amigos. Na verdade, tive uma, porém ela havia ido
embora a muito tempo com a sua família, e de vez em quando
conversávamos, mas não era a mesma coisa de tê-la por perto e
poder chamá-la para sairmos juntos.
Estava tudo indo bem até que meu pai começou com assuntos
que giravam em torno da minha vida pessoal, em específico sobre
relacionamentos, e sabia muito bem o que perguntaria.
— Quem era aquele homem com quem eu te vi mais cedo?
— Vincent.
— Só Vincent?
— Só Vincent! — Respondi e coloquei as coisas na mesa,
encarando seu rosto. — Não abusa da boa sorte.
Ele resmungou algo em russo e não compreendi. Sabia que
ele não desistiria tão facilmente em saber quem o homem que havia
me beijado era, mas a verdade era que eu também não sabia, além
de que era um “policial”, suspirava muito quando estava impaciente
ou irritado, e tinha um beijo muito bruto. Estava perdido e justo no
momento em que eu achava que tinha me encontrado. Para mim
Vincent era “Só Vincent” mesmo.
Meu celular apitou em meu bolso e uma mensagem apareceu:

"Passarei aí por volta das cinco horas. Esteja pronto! É o


Vincent."

Como ele tinha conseguido o meu número? Não estava


acreditando no abuso que aquele suspirador teve. Mas me peguei
ansiando pelo momento em que finalmente ficaríamos sozinhos.
Meu coração bateu mais forte e rapidamente enquanto mordia um
dos sanduíches. Eu, com certeza, tinha encontrado terra firme, mas
não sabia se era um território hostil ou amigável.
CAPÍTULO 05 - Mercado Negro

Meu pai havia ido dormir em seu quarto e Harvey se jogado no


sofá depois do café, enquanto eu até tentei ficar parado em um
lugar só, mas não consegui. A ansiedade me corroía por dentro em
saber que Vincent passaria em meu apartamento para me levar a
algum lugar. Eu poderia estar entrando no carro de um sequestrador
ou assassino em série? Poderia, mas escolhi acreditar que ele não
era nada daquilo.
No meu quarto, depois de tomar banho, me tornei um furacão.
Minhas roupas estavam todas jogadas na cama e só havia
conseguido escolher a parte debaixo do meu "look de encontro". E
era sempre o que eu vestia, ou seja, uma calça preta e um tênis
branco. Não tinha como errar... Ou será que tinha? Estava com a
cabeça baixa para que meu cabelo ficasse na posição que eu queria
assim que o creme secasse e vi meu cachorrinho entrando todo feliz
no quarto, achando que o estava chamando para brincar.
O peguei no colo e fiquei apontando para as roupas vendo se
ele tinha alguma reação, mas ele parecia tão perdido quanto eu.
Queria mandar uma mensagem para aquele suspirador e cancelar,
mas sabia que ele não aceitaria. Era obstinado demais. Eu estava
cheio de problemas para não falar coisa pior, morrendo de vontade
de sentir seus braços novamente ao meu redor e seu beijo forte e
bruto. Ele era tão maravilhosamente sério e sexy em toda a sua
pose de agente especial, que eu não saberia como me comportar.
Aquele era o motivo de eu sempre ser bocudo com ele. Meu
nervosismo tomava conta e o que fazia era responder tudo como se
fosse um ataque. Porém aquilo só havia acontecido com duas
pessoas em anos. E uma delas estava dormindo no outro quarto. No
fim, optei por uma camisa azul que mais parecia um uniforme, pois
sempre a vestia...
Coloquei tudo de volta no lugar e chegando na sala meu irmão
me encarou o tempo todo enquanto ia a cozinha. Eu estava fazendo
alguma coisa para comermos e tomando todo o cuidado possível
para não me sujar. Ele se sentou no balcão bem ao lado de onde
estavam os ingredientes e pegou um tomate, ainda com seus olhos
em mim.
— Se você quer falar alguma coisa, fala logo ou sai daí. —
Falei com uma faca na mão e ele riu.
— Você não assusta ninguém, sabia? É muito fofo para isso.
— Sai daqui, seu idiota! — Ele sabia o quanto eu odiava ser
chamado de fofo, porque sempre diziam que eu era mais novo do
que aparentava e me impediam de entrar nos brinquedos dos
parques nas poucas vezes que me visitava.
— Mas por que você está todo arrumado? Vai sair com aquele
cara?
— E por que você quer saber?
— Porque eu sou seu irmão, oras... — Pegou um pedaço de
presunto e jogou para o cachorrinho. Eu precisava dar um nome
para eles.
— E isso te dá algum direito especial? Eu não preciso saber
das garotas com quem você sai e nem quero. Então... — Dei um
pedaço de presunto para a gatinha. — Então, não te devo nenhuma
explicação.
— Eu não lembrava de você ser ácido desse jeito, Raposinha.
— Apontou um pedaço de cenoura na minha direção. — O pai não
vai gostar nada de saber disso. Ele parece não ter gostado do cara
quando te viu aos beijos com ele hoje de manhã.
— É uma pena saber disso. Eu fico muito triste, sabe? Onde
eu estava com a cabeça? Eu tenho que pedir desculpas para ele.
Como eu pude não me importar com o que ele pensaria de mim? —
Fiz uma cara de choro e graças a minha disposição pelo drama
meus olhos marejaram.
— Misericórdia, Parker. — Se aproximou. — Você está
chorando de verdade? Realmente escolheu o curso certo. Você é
uma cobra criada.
— O quê? — Coloquei a mão no peito exageradamente. —
Como você ousa falar isso da nossa mãe? Ela não vai gostar nada
de saber que seu filho preferido a chamou de cobra.
— Não vem não! Não falei dela. — Apontou o dedo na minha
cara. — Olha você distorcendo o que eu disse.
— Não, não, não! Foi exatamente o que você disse. Falou que
eu sou uma cobra criada, sendo assim, nossa mãe foi a cobra que
me criou. — Coloquei a mistura de legumes, queijo e presunto no
forno, e limpando a mão sorri para Harvey. — Você vai ter que se
ver com ela depois.
— Nem começa, Raposinha! Quer saber? Se divirta, eu vou
dar uma saída. — Desceu do balcão.
— Onde vai?
— Não te interessa. — Respondeu sorrindo.
— Idiota. Só tenta não morrer, ok? — Bateu continência.
Meu irmão saiu e disse que voltaria somente perto de
anoitecer. Fiquei no sofá a tarde toda, completamente arrumado e
deitado de forma que não amassasse a minha roupa. Olhava a
mesma mensagem várias e várias vezes tentando imaginar o que se
passou na cabeça de Vincent quando a mandou. Depois daquele
beijo de manhã eu tive a certeza de que ele havia pensado em mim,
da mesma forma que eu havia feito. Sorri igual um bobo ao imaginar
ele na mesma situação apaixonadamente indecisa que a minha.
Tentei procurá-lo nas redes sociais, mas havia milhares de
perfis com o nome Vincent, mas nenhum com a foto de um homem
bravo e lindo. Desisti depois de vários minutos e comecei a imaginar
para onde iríamos. Será que estaria vestido corretamente? Não
queria passar vergonha na frente dele. Seria horrível depois de
nossa última experiência juntos. Bem, a antepenúltima.
Mordi meus lábios tentando imaginar e sentir o seu sabor e
sua barba arranhar minha boca. Queria ser beijado daquela forma
novamente e pedi para que ele quisesse fazer de novo. Meu
cachorrinho latiu e por um momento me assustei com a visão de
meu pai saindo do corredor escuro. Ele estava com o rosto inchado
de dormir e com uma roupa mais confortável. Era estranho tê-lo lá,
no mesmo cômodo que eu, e depois de tanto tempo, até mesmo
escutar a sua voz. Era bom e esquisito ao mesmo tempo.
— A comida está pronta. É só esquentar se quiser. — Disse e
voltei a mexer no celular, fugindo de seu olhar. Mas ele se
aproximou de mim, se sentou no sofá e o que falou a seguir fez com
que eu não soubesse reagir.
— Me desculpa? — Fiquei em silêncio diante daquele pedido,
então ele segurou minha mão e voltou a falar. — Eu sinto muito por
tudo ter acontecido da forma que aconteceu. Se em algum momento
eu te fiz pensar que era alguma vergonha para mim, eu sinto muito.
Eu...
— Pai... — Assim que aquela palavra saiu de minha boca perdi
o controle e comecei a chorar.
Aquela lembrança dolorosa veio em minha cabeça e ficou se
repetindo várias e várias vezes. O cigarro, o xingamento, o tapa e a
vergonha. Eu nunca tinha me sentido tão miserável quanto naquele
momento. Ele não estava lá. Ele tinha me abandonado quando eu
mais precisara dele e de sua compreensão. Tudo o que eu queria
era me encolher em seus braços até não existir mais nenhuma
ameaça. Ele sempre me protegera, por que não esteve lá naquela
vez?
Ninguém nunca havia me contado o que realmente havia
acontecido para que meus pais se separassem, e aquilo me matava
por dentro, pois eu tinha quase certeza de que o principal motivo era
a minha existência. Alguma voz me dizia que eu ser quem sou fez
com que tudo o que meus pais tivessem construído juntos fosse
partido ao meio, incluindo seus próprios filhos.
E lá estava ele, oito anos depois daquele acontecimento,
tentando uma aproximação, mesmo eu o negando e evitando olhar
em seus olhos. Admitir para mim mesmo que ele realmente estava
arrependido por tudo o que tinha feito era difícil. Me afastar e negá-
lo, o meu próprio pai, o homem que eu precisei durante toda a
minha adolescência, era um desafio.
Eu precisava de um pai que me dissesse que estava tudo bem
e que me protegesse, como os outros faziam com todos os meus
colegas na escola. Yorick tinha perdido grande parte da minha
formação como um ser humano e homem. Ele não esteve lá quando
precisei de conselhos sobre minha sexualidade ou sobre sexo. Tudo
o que eu tinha dele era sua ausência e uma saudade que me
consumiu por muito tempo.
— Não vamos falar disso agora, tá bom? — Pedi e a
contragosto ele concordou.
— Eu só quero que você saiba de uma coisa: eu nunca deixei
de te amar, meu filho. — Se aproximou e beijou minha testa. —
Você é o que eu tenho de mais precioso nesse mundo e eu não me
perdoaria se você nunca mais quisesse me ver.
— Yorick, eu... — Uma mensagem fez meu celular apitar. Era
Vincent. Olhei para as horas e eram quatro e quarenta e seis. Ele
dizia que estava em frente ao meu prédio. Me sentia mal saindo em
uma conversa daquelas, mas teríamos outra chance. E se ele
realmente quisesse respeitaria meu tempo. — Eu preciso ir. A gente
conversa depois, pode ser?
— Parker, nós estamos conversando. — Viu meu celular apitar
novamente e provavelmente deduziu que era Vincent. — Você vai
sair com aquele homem ao invés de conversar com seu pai?
Aquilo me irritou de uma forma tão grande que tive que
controlar minha boca para não o xingar de todos os nomes
possíveis.
— Sim, é exatamente isso que eu vou fazer! — Peguei minha
blusa e chaves e fui em direção a porta, mas voltei para pegar
minha carteira. — Se você sempre quis ter essa conversa comigo,
por que teve que esperar oito anos para isso? — Ele diria alguma
coisa, mas acho que percebeu que não tinha autoridade. — Já que
está aqui, dá comida para os bichinhos as sete horas. Obrigado.
Fechei a porta atrás de mim e encostei nela respirando fundo.
Por que era tão desgastante e difícil ter uma conversa com meu
pai? E por que ele falava de uma forma doce e depois já começava
a exigir alguma coisa de mim? Ele não tinha o direito! Meu celular
apitou novamente e era uma nova mensagem de Vincent
perguntando onde eu estava?

"Estou indo! Estava me despedindo de um cliente!" —


Respondi.

Saí do elevador e de lá pude vê-lo encostado no carro, me


encarando com uma expressão fechada no rosto. Não consegui não
sorrir e quando passei pelas portas, o abri ainda mais. Ele me olhou
por inteiro e suspirou, só que daquela vez não consegui entender se
era uma coisa boa ou ruim. Olhei para minha roupa procurando
alguma mancha, mas não encontrei nada.
— O que foi? Estou feio?
— Não. — Respondeu e deu mais uma olhada para meu
corpo. — Nenhum pouco.
— O que foi então? Tem alguma coisa em mim? Por que você
suspirou quando me viu?
Ele sorriu e foi a primeira vez que o vi fazer aquilo.
— Você sempre é desconfiado assim? — Se endireitou e se
aproximou, colocando as mãos em minha cintura. Eu travei com
aquele toque e ansiei pelo seu beijo, mas ele não o fez.
— Não sou. — Me soltei e entrei em seu carro.
Passei os olhos por ele todo, e era até que bem-organizado.
Tinha uma embalagem do que parecia ser de algum fast food,
porém nada mais. Seu cheiro estava inundando o carro e eu inspirei
fundo aquele aroma forte e deliciosamente anestesiante. Sua
jaqueta estava jogada no banco de trás e uma bolsa com uma
toalha saindo dela. Ele obviamente frequentava a academia.
Quando entrou, me endireitei, mas ainda o olhava. Ele tinha
umas manchinhas na camisa preta, mas não o faziam parecer se
vestir de forma desleixada. Vincent não tinha dado partida, mas me
olhava sem dizer nada. Aproximou o rosto do meu, fazendo meu
coração acelerar, mas não fez o que achei que faria. Ele não me
beijou. Simplesmente se esticou procurando o cinto de segurança,
tentando pegar a trava. Senti seu perfume, já que seu pescoço
estava próximo de meu nariz. Sua barba estava grande e um pouco
molhada, assim como alguns fios de seu cabelo. Queria senti-la em
meu rosto novamente. Senti-la me arranhando e pinicando os meus
lábios. Queria tanto que não resisti!
Deixei um beijo quase no fim de seu maxilar, o fazendo parar e
então escutei seu suspiro. Ele desceu sua mão pelo meu rosto,
traçando uma linha pela minha bochecha e pescoço, torso e
pousando em minha perna direita, a apertando intensamente. Aquilo
me fez vibrar de prazer. Tomei um susto quando senti sua boca na
pele exposta de meu pescoço. Ele passou seu queixo subindo e
descendo fazendo um arrepio subir pela minha coluna. Foi
impossível não arfar e gemer contidamente, procurando não soar
tão vergonhoso.
— Parker... — Se afastou, encarando meu rosto e
principalmente meus lábios.
"Me beija, Vincent!"
— O que foi? — Perguntei.
— Coloque o cinto! — Mandou e foi minha vez de suspirar.
Indignado, prendi seus cabelos entre meus dedos e avancei em sua
boca. Meu corpo explodiu em várias sensações.
Sua língua encontrou a minha e com a mesma brutalidade de
antes, ele me tomou em seu controle. Meus lábios pareciam
queimar devido aos arranhões que sua barba causava e um aperto
mais forte em minha perna fez eu me assustar e gemer
involuntariamente. Ele parou, e lutei para abrir os olhos e encontrar
os seus. — Você é um demoniozinho, garoto.
— Só com quem merece. — Falei com meus dedos
massageando a minha boca. Ele acompanhou meus movimentos e
lá estava o suspiro que eu adorava.
— Ponha o cinto. — Ordenou e daquela vez obedeci.
No caminho até onde quer que estivesse me levando, percebi
que ele não era muito comunicativo e o silêncio estava me
sufocando. Vincent dirigia, enquanto eu o encarava e não parava
mesmo eu percebendo que ele sabia. Procurei o botão para ligar o
rádio, mas não o encontrava de jeito nenhum. Ele, vendo minha
dificuldade, passou o dedo por um círculo em um painel e uma
música qualquer começou a tocar. Peguei meu celular e conectei
com minha playlist e logo a música Não Esqueço do Niara com
Pabllo Vittar começou a tocar.
Ao cantar os versos em português percebi seu olhar em mim.
Ele fazia uma cara engraçada quando estava tentando entender
alguma coisa, e me fez sorrir ao perceber aquilo, mas não falei nada
e continuei me divertindo com a melodia calma. Vincent espiou o
nome e em seguida me fez sorrir ao tentar falar o nome da música.
Ficou parecido com "Náo Esquéçô".
— Quem é essa cantora? — Perguntou assim que a música
acabou.
— É uma Drag Queen. É brasileira.
— Você é de lá? — Olhou para os dois lados da rua e percebi
o quanto ficava sexy dirigindo. — Você tem um sotaque, bem fraco,
mas tem.
— Eu acho que você já sabe a resposta dessa pergunta, já
que me mandou uma mensagem e eu nem havia te passado meu
número.
— Você me passaria de qualquer jeito, garoto.
— Você é muito convencido sobre o que eu sinto por você.
— Eu sei te ler, Demoniozinho. Gosta de me provocar e isso é
um sinal pra mim. — Aquilo fez meu corpo aquecer, e o ar-
condicionado ligado não foi suficiente para amenizar seu efeito em
mim.
—Minha avó era brasileira e meu avô era daqui de Bisera. Eles
tiveram minha mãe, que se casou com meu pai, que é Russo, mas
eles se separaram e ela foi morar no Brasil e eu fui junto. Então sou
aqui de Parvat, ou seja, parvato, brasileiro e russo. — Expliquei
gesticulando e ele achou engraçado. — Para de rir. Eu falo com as
mãos mesmo.
— E você não gosta muito do seu pai, pelo que eu vi.
— Prefiro não falar sobre isso, porque nem eu mesmo entendo
o que está acontecendo na minha vida nesse momento. —
Respondi e depois ele ficou em silêncio novamente. Eu não gostava
daquilo, pois sentia a necessidade de ter a sua atenção voltada à
mim. Eu parecia um dependente químico.
— Você até que canta bem. — Vincent falou e me ascendi por
dentro.
— Obrigado.
Depois de mais minutos o carro parou em frente a uma grande
portaria. Ele esticou o dedo para o reconhecimento e logo o portão
foi aberto. Pelo que parecia estávamos em um condomínio e era um
ambiente bem calmo.
— Onde estamos, Vincent? Você me trouxe para a sua casa?
— Eu preciso trocar de roupa. — Disse estacionando em frente
a uma casa de dois andares e pegou a bolsa no banco detrás. — Eu
passei na academia e tomei uma ducha rápida. Só vou tomar um
banho decente e vamos. Não vou demorar.
— Tudo bem. — Desci do carro junto dele.
Era linda. No segundo andar existia uma sacada que levava a
parte dos fundos. A grande porta da entrada foi aberta por ele,
mostrando o seu interior bem decorado. A paleta de cores era feita
em tons de laranja e preto, incluindo móveis de madeira e
acolchoados brancos. Todos bem iluminados e aconchegantes. A
sala de estar tinha uma grande parede de vidro que deixava
possível ver o quintal. Tudo estava bem-organizado, como se
estivesse pronta para ser vendida, com exceção de algumas peças
de roupas jogadas pelo sofá ou penduradas em uma cadeira.
Era estranho pensar naquilo, mas ela refletia bem a
personalidade de Vincent. Era imponente, linda, séria, mas
completamente atraente. Ele combinava com tudo e era possível
sentir que aquele era o seu local seguro. Onde ele ia para
descansar ou fugir de seu trabalho. Ele deixou sua mochila em cima
do sofá e começou a desabotoar a camisa. Pude ver parte de seu
torso e abdômen definido. Não havia nenhuma intenção maliciosa
no ato, pois parecia o ter feito no automático.
Caminhei por entre os sofás em direção a parede de vidro, e
tentando não olhar para ele, mas um espelho fez tudo mais difícil.
Um colar brilhou em seu peito, chamando minha atenção e quando
levantei meu olhar, ele estava parado me encarando. Eu sorri
gentilmente e me virei, de repente, sem graça. Se ele fosse um
louco, eu estava perdido.
— Vai tomar seu banho. — Disse nervoso com a situação.
— Está tudo bem? — Perguntou, como se adivinhasse meu
constrangimento.
— Está. — Me sentei no canto do sofá branco. — Não se
preocupe, eu não vou roubar nada. Um cliente está me pagando
muito bem.
— Sobre isso... — Vincent se aproximou e involuntariamente
prendi minha respiração. Ele se sentou ao meu lado e puxou meu
rosto gentilmente quando não o encarei. — Quero que pare de falar
isso.
— Eu...
— Não me interrompa, por favor. — Pediu e mordi o interior de
minha bochecha, formando um biquinho. Ele o encarou, mas depois
voltou aos meus olhos. — Eu fui um idiota quando insinuei aquilo.
— Que bom que você reconhece isso. — O interrompi e ele
suspirou. — Ok, continue.
— Não quero que fale mais isso. — Concordei com a cabeça.
— Ótimo. Fique à vontade, eu já volto.
Ele se levantou e eu não acreditava que aquele era o seu
pedido de desculpas. Eu simplesmente não queria acreditar! E ainda
me senti um idiota por ter ficado falando sobre aquilo para atingi-lo
de alguma forma. Ele claramente achava que eu tinha culpa por ele
ter falado aquilo. Idiota!
Peguei meu celular e roteirizei um carro até a minha casa. Era
muito caro, mas cogitei deixá-lo sozinho. Peguei o endereço e por
um momento fiquei em dúvidas para quem mandar caso
acontecesse alguma coisa. Por fim, mandei para Pamela, que me
respondeu com um emoji safado e pediu para que eu usasse
camisinha. Completamente louca.
Fui até a porta que levava ao quintal e a abri. O perfume das
árvores inundou meu nariz e inspirei fundo. O vento estava gelado,
mas de certa forma refrescante e uma luz iluminava agradavelmente
o espaço com cadeiras. Fiquei ali pensando no que estava fazendo.
Lá estava eu, em um país que não tinha vivência, mudando
completamente o rumo de minha vida com um curso que sempre
sonhei, e naquele momento na casa de um completo estranho
suspirador, que tinha conhecido em meu próprio apartamento e que
possuía um gênio difícil e mandão.
O vento batia em meu corpo, esfriando as partes que tocava e
me fazia viajar em meus pensamentos silenciosos, e em como eu
gostaria de ficar ali para sempre, sem falar nada, sozinho e
completamente isolado de qualquer influência do mundo. Sem os
problemas que estavam voltando em minha vida e me fazendo
reviver eventos que há muito tempo tinham me machucado e ficado
no passado. Só queria continuar a escutar o barulho das árvores e
na penumbra da noite.
Não sei quanto tempo fiquei naquela mesma posição, mas me
sentei quando meus braços e pernas começaram a adormecer e
minha mente se tornar cada vez mais leve e calma. Eu estava
quase pegando no sono em meu primeiro encontro com Vincent.
Esfreguei os olhos tentando espantar aquela vontade de morrer na
cadeira confortável. Meu celular vibrou e quando o tirei do bolso,
sua iluminação machucou meus olhos e iluminou bem o local. Havia
uma pequena piscina mais a frente, encostada em um muro de
pedras e algumas plantas. Vincent me ligava, mas antes de eu
poder atender escutei sua voz.
— O que você está fazendo aí? — Estava com uma toalha no
pescoço e a camisa com somente dois botões abotoados.
— Nada. — Me aproximei e coloquei minha mão em seu peito,
sentindo seu colar e algumas gotas de água. Ele a encarou e depois
a mim. — Você vai ficar gripado se ficar andando sem camisa nesse
frio.
Ele não disse nada e também não tirou minha mão de seu
corpo. Eu estava sentindo a mesma tensão de antes, quando nos
beijamos. Sentia que ele queria meu toque em sua boca e que eu
me entregasse em seus braços da mesma forma que fiz naquela
manhã.
— Você quer que eu te beije, Vincent? — Encarei sua boca.
— Eu sei que você quer. — Sorri passando meus dedos por
sua barba.
— Eu quero, mas não posso beijar outros homens sem
permissão. — Aproximei meu nariz de seu pescoço, sentindo seu
perfume. Ele suspirou e beijei a curvatura de seu maxilar. — É
assédio, e o senhor, como uma autoridade, teria que me prender,
não é mesmo? E eu não conseguiria ficar no meio de todos aqueles
homens perigosos. Nós dois sabemos como esses lugares são. Eu
não teria como me defender daqueles brutos.
Entrei na casa, saindo de seu toque e ele veio atrás de mim.
Vincent me pegou pelo braço, me colocando junto de seu corpo. O
frio de fora e o seu calor faziam do meu corpo um campo de guerra.
Eu sorria por sua atitude. Ele aproximou seu rosto do meu, mas me
afastei quando tentou me beijar. Passei a ponta da minha língua
pelos seus lábios e me afastei novamente quando tentou os
alcançar. Ele suspirou.
— Você quer que eu te beije, Vincent?
— Você é um demoniozinho. — Beijou meu pescoço. E pela
terceira vez sem sucesso tentou me beijar. — Porra, Parker! Dá pra
você parar?
— Por que você não responde a minha pergunta? — Senti
seus braços apertarem minha cintura e sua ereção em minha
barriga. — Seria muito mais fácil do que continuar sendo teimoso.
— Eu sou teimoso? — Passou a barba em meu rosto, me
fazendo arrepiar.
— É sim! — Fechei os olhos, gostando de seu carinho bruto, o
que aproveitou e conseguiu o que queria... Finalmente!
Nunca reclamaria da sua brutalidade e força impostas em
nosso beijo. Ele apertava seus braços ao meu redor me fazendo
mais e mais dependente deles para meu equilíbrio. Eu delirava cada
vez que sua língua quente encontrava a minha. Queria cada vez
mais que ele me tomasse como seu, e saber que o deixava com
desejo me fazia ter muito mais vontade de provocá-lo.
Vincent era o tipo de homem que eu nunca consegui me
relacionar quando estava no Brasil, por puro medo e receio. Morria
de medo de me apaixonar e me entregar, pois eles fariam de tudo
para me usar como quisessem e depois descartar. No entanto, com
aquele ao qual eu estava entregue, sentia algo diferente. Era como
se ele realmente me quisesse por perto, ou talvez fosse minha
mente apaixonada me convencendo daquilo. Ele tinha algo de
especial que me fazia querer querê-lo, se aquela coisa pudesse ser
dita.
Ele terminou o beijo e tudo o que eu queria fazer era pedir para
que continuasse. Ele me soltou de seu abraço, sentando-se no sofá
e vi seu membro marcado na calça, que não fez questão nenhuma
de esconder. O encarei até que suspirou e me puxou pela mão, me
fazendo ficar na sua frente. Vincent me segurou pela cintura e
encostou sua cabeça na minha barriga, respirando fundo. Ficou
alguns minutos daquela forma e suas mãos acariciavam minha pele
por debaixo da camisa. Eram ásperas, mas muito mais cuidadosas
que qualquer outra.
Coloquei meus dedos em seus cabelos e comecei a lhe fazer
carinho. Seus ombros largos cederam e senti sua respiração relaxar
e diminuir o ritmo. Ele estava cansado e ficou naquela posição até
eu pensar que tinha caído no sono. Nem conseguia imaginar o
quanto deveria ser estressante fazer o que fazia. Deveria estar
morto de cansaço e ainda queria me levar para algum outro lugar
longe do conforto que sentia lá.
— Vincent? — O chamei e recebi um resmungo de resposta
que me fez sorrir. — Não precisa me levar para sair se não quiser.
— Por que isso? — Se afastou, encostando no sofá e coçando
os olhos com uma mão.
— Você está cansado e ainda trabalhou hoje. Eu posso não
ser um chefe de cozinha, mas eu sei cozinhar bem. Posso fazer
alguma coisa aqui se quiser. — Falei de forma mansa, como se não
quisesse o incomodar.
— Eu não me importo em sair. Te prometi isso.
— Mas eu estou dizendo que não precisa. Não precisa se
esforçar tanto para me impressionar. — Disse segurando seu rosto,
acariciando sua barba e por fim lhe dando um pequeno beijo. Queria
sentar em seu colo e deixá-lo tomar conta de mim, mas me controlei
para não fazer aquilo. Então dei um tapinha em sua bochecha, o
assustando. — Vamos ver o que você tem nessa geladeira.
Fui à cozinha e vi que ele tinha bastante comida estocada,
como se tivesse feito compras recentemente, mesmo não
parecendo alguém que fazia aquele tipo de coisa. Ao contrário de
mim, que adorava passear por aqueles corredores e me sentir
independente.
Coloquei ingredientes para fazer um macarrão com um frango
já pronto. Estranhei de início, pois tinham algumas coisas prontas e
não achava que aquele homem tinha capacidade ou paciência para
cozinhar algo incrementado como uma torta de morango bem
decorada.
Depois de um tempo somente escutando o som dos talheres e
sentir o cheiro dos ingredientes sendo preparados, ele veio a
cozinha e começou a fuçar nas panelas. Bati com a colher de
madeira em sua mão.
— Para de mexer. — Brinquei ameaçando-o bater de novo. Ele
sorriu sutilmente e tinha que admitir que ficava lindo.
— O cheiro está na casa toda. — Se apoiou no balcão perto de
mim e pegou um pouco do suco que fiz. — Eu não sabia que você
cozinhava. Não tem cara.
— Não tenho? Tenho cara do que então, senhor... É Vincent do
que mesmo?
— Salas.
— Vincent Salas. — Parker Hayes Salas... — Mas então, Sr.
Salas, eu não tenho cara de quem cozinha e é independente?
— Não. Você claramente não precisa se esforçar para nada.
Percebi isso assim que entrei no seu apartamento.
— Assim você me ofende, Vincent. — Me senti mal por ele
achar aquilo de mim.
— Só falei o que eu vi.
— Eu nasci em uma família com condições e eu agradeço,
mas isso não me faz menos nem mais que ninguém. Nem que eu
não tenha que me esforçar. Não sabe o que eu passei para chegar
aqui.
— O que você passou, Parker? Sei que não teve que trabalhar
em nenhum momento, terá duas graduações depois que concluir
seu curso aqui...
— Posso não ter passado por nenhuma necessidade, mas isso
não tira o fato do que eu passei na minha... Esquece isso.
— Passado pelo que?
— Deixa isso para lá. É passado e não quero trazer para
minha vida agora. — Me virei e tirei as panelas do fogo, montando
tudo nos pratos. — Falando nisso, o que você estava fazendo
aquela noite no meu apartamento?
Me sentei a mesa com ele ao meu lado, que começou a se
servir ignorando completamente minha pergunta.
— Você não é surdo, Vincent. O que estava fazendo lá?
— Não posso te falar muito, mas eu não sou um policial
comum. — Ele começou e pousou os cotovelos na mesa. Sua
camisa estava aberta e o colar fino pendia de seu pescoço,
balançando como se quisesse me hipnotizar. Eu quis beijar sua
pele. — Meus olhos estão aqui em cima.
— Eu sei. — Falei e continuei olhando para seu corpo. Sorri e
enfim olhei para seu rosto. — Mas continua, Sr. Não-Sou-Um-
Policial-Comum.
Ele suspirou.
— Eu trabalho no departamento de crimes internacionais e só
posso te dizer isso. — Começou a comer e aquilo só atiçou mais a
minha curiosidade.
— Tinha algum criminoso? Era um assassino? Ele matou
pessoas?
— Isso não é divertido, Parker. Muito menos interessante. —
Respondeu seco e assim que colocou mais uma garfada do meu
macarrão na boca, parou e mastigou devagar.
— O que foi? Está ruim? — Comi um pouco, procurando
alguma coisa estranha. — É o sal? Eu exagerei? Eu não tenho
costume de usar sal, mas não sabia se você gostaria.
— Está uma delícia. Parece a comida da minha mãe. — Sorri
com o elogio. Ele então pareceu se lembrar de alguma coisa e olhou
o relógio. — Eu tinha que ligar para ela, mas já está tarde. Amanhã
eu ligo e já me preparo para a bronca.
Ele sorriu com o próprio comentário e fiquei admirando sua
feição relaxada e despreocupada. Vincent era um homem muito
lindo e eu não sabia como, mas ele estava me conquistando com
seu jeito reservado. Ele literalmente me fez cair de amores por ele
no dia que me derrubou no chão.
— Não vai comer? A comida vai esfriar.
— Vou. — Foi tudo o que eu consegui dizer e ficamos em
silêncio até que me veio uma outra dúvida. — Com quem você
estava no Orleans? No dia do seu aniversário.
— Por que quer saber?
— Porque eu quero. Mas se não quiser me contar, tudo bem.
Não temos que contar com quem saímos mesmo.
— E com quem nós estamos saindo, Parker?
— Não sei dizer ainda. Mas quem sabe quem pode aparecer
na nossa vida, na faculdade...
— Está insinuando alguma coisa, garoto?
— De jeito nenhum, Sr. Policial-Não-Tão-Comum. Só
constatando um fato. — Ele segurou gentilmente meu rosto,
apertando meus lábios.
— Você me provoca, Parker. Não sei por que não consigo te
colocar no seu lugar.
— Não consegue, porque sabe que eu tenho razão e gosta de
mim.
— Está muito confiante com alguém que acabou de conhecer.
— Você quem me convidou para sua casa deliberadamente.
— É a segunda vez que você cozinha para mim.
— Você invadiu meu apartamento e aquilo era um sanduíche
simples, então não conta.
— Estava fazendo o meu trabalho.
— E quem disse que eu não estou fazendo o meu? Eu nunca
atendi em domicílio, então considere-se um sortudo. — Sorri
maliciosamente, e vi sua mandíbula ficar marcada e sua respiração
pesar.
— Já disse que não quero mais que fale desse jeito.
— E eu não te respondi que pararia.
— Você tem que aprender algumas coisas na vida.
— Você me ensina? Eu adoro conversar antes do “finalmente”.
— Ri de como ele estava ficando ainda mais tentador ao ser
contrariado. Era cada vez mais excitante ver aquele homem enorme
tentando se impor contra mim.
— Não me provoca, Parker.
— Faz parte do meu trabalho. Eu até gosto quando são mais
brutos. Adoro sentir as marcas que ficam em minha pele. — Pendi o
pescoço, como um convite submisso ao prazer. Vincent se levantou
em minha direção e eu estava pronto para que descontasse sua
frustração em mim. Até mesmo via o quão “grande” era o seu
desejo, porém seu celular tocou. — Não vai atender? Pode ser algo
importante.
— Parker, você me deixa... — Ele suspirou frustrado ao me ver
sorrir.
— O celular, Vincent! Não precisa se preocupar comigo, ok?
Ele suspirou mais uma vez e pegou o aparelho, se afastando
de mim. Não sabia o motivo de querer tanto provocá-lo e nem tinha
ideia do homem que era. Poderia estar me envolvendo com alguém
completamente maluco e mexer com seu psicológico, na casa dele,
onde eu estaria completamente à mercê do perigo de suas atitudes,
era algo muito imprudente. Porém não conseguia evitar. Tudo nele
me atraía.
Fui até a cozinha e peguei a torta de morango e mesmo nosso
momento anterior ainda estar presente, a ligação que recebera,
provavelmente de seu trabalho, o havia estressado. Então acabei
por decidir ser mais carinhoso do que provocativo. Terminamos o
jantar em silêncio e eu estava me controlando para não ficar o
olhando o tempo todo. Não sabia o que estava dando em mim para
ficar admirando qualquer pequeno gesto que seu corpo fazia.
Apreciava o movimento de sua barba enquanto mastigava, como ele
respirava antes de cada garfada e levava a comida a sua boca, e
até mesmo como ele segurava o talher. Era aquilo o que se sentia
ao se apaixonar? Aquela sensação estranha na barriga? Eu não
conseguia comer, pois estar perto dele me deixava sem jeito e com
o estômago uma bagunça. Sua confiança parecia sugar a minha, ao
mesmo tempo que me inundava de uma nova.
Empurrei o máximo da torta que pude para dentro do meu
corpo com o suco e agradeci por sempre colocar quase nada
quando me servia. Ele mal tinha terminado de colocar o último
pedaço na boca quando seu celular tocou novamente na sala. Ele
pediu desculpas e achei aquela a coisa mais educada do mundo. Da
mesa não conseguia escutar muita coisa, mas ouvi um xingamento
para quem quer que estivesse do outro lado da linha. Aproveitei
para pegar o restante das coisas e limpar a mesa.
Fiquei mexendo no celular, curtindo algumas coisas que meus
antigos amigos postaram e vi que Mandy havia usado o Facebook
para pedir indicações de apartamentos. Mandei uma mensagem
para ela, pedindo para me encontrar na parte da tarde no outro dia.
Estava com a ideia de convidá-la para morar junto comigo, pois
assim que meu pai fosse embora ficaria sozinho com meus dois
animais e ela poderia me fazer companhia. Além do mais, a
conhecendo melhor, era uma ótima amiga.
Vincent entrou na cozinha com a camisa toda abotoada e com
uma cara de poucos amigos. Ele voltaria para o trabalho àquela
hora? O que eu faria? Será que devia pedir para que me levasse de
volta para casa? Pelo que me falou uma vez, era caminho do seu
trabalho, e também, ele não quereria um estranho em sua casa,
mesmo que tivesse trocado uns beijos com ele.
— Eu tenho que ir ao escritório. — Disse e vi que não queria ir.
Eu estava encostado no balcão da cozinha, enquanto ele estava do
outro lado da mesa.
— Eu entendo. Você é uma pessoa importante. — Coloquei
meu melhor sorriso, mesmo querendo gritar para que não fosse. —
Vá cuidar do país, Sr. Policial-Não-Tão-Comum.
Bati com a mão na cabeça como se fosse um soldado e ele
suspirou.
— Vem aqui.
— Para quê? — Perguntei somente para pirraçar, pois iria de
qualquer jeito.
— Só venha aqui, Parker! — Reclamou e seu torso esticou a
camisa pela respiração, assim como aumentou minha temperatura.
Ele era tão sensual e acredito que não tinha noção do que me fazia
querer fazer com ele. Caminhei lentamente, mas antes do último
passo ele já tinha passado a mão por debaixo da minha camisa e
subiu pela parte detrás das minhas costas. Seu corpo quente no
meu me fez fechar os olhos em apreciação. Vincent apoiou sua
testa na minha. — Não quero te deixar. Não hoje.
Segurei seu rosto, acariciando sua barba da forma mais
cuidadosa e terna possível. Ele fechou os olhos aproveitando o meu
toque. Suas mãos foram parar em minha cintura, a apertando
lentamente e traçando voltas com seu polegar.
— Você tem que ir, mesmo eu também não querendo que vá.
Senti sua respiração aquecer meus lábios e logo fui tomado
por mais um beijo. Tão bruto quanto os anteriores, mas de certa
forma, com carinho. Tive vontade de chorar.
— Vai. — Pedi, apertando o seu lábio inferior.
— Eu volto logo. — Acariciou minha bochecha e beijou meus
dedos. — Apesar de ser um demoniozinho, você parece um anjo.
— Anjos também podem ser demônios de acordo com a bíblia.
— Eu sei. — Sorrimos. Me soltou e pegou suas chaves, saindo
pela porta sem olhar para trás. — Qualquer coisa me liga e fique à
vontade.
— Vincent? — Ele parou na porta e me encarou. Era o homem
mais lindo que havia visto na vida. — Toma cuidado, ok? Está tarde
e você não dormiu direito.
— Não se preocupe.
Suspirei e de repente aquela casa se tornou tão grande e fria
sem aquele homem para inundá-la com sua presença. Eram
exatamente dez e cinquenta e cinco da noite e me perguntei o que
teria acontecido de tão importante para que tivesse que sair àquela
hora? Pelo que havia me dito não lidava com bandidos comuns e
aquilo me deixou com uma certa inquietação.
Ele devia se doar tanto ao seu trabalho que entendi por que
sua casa parecia estar sempre pronta para ser vendida. Obviamente
só a usava para dormir. Decidi fazer um pequeno tour e descobri
que era realmente muito grande. Havia quatro quartos, incluindo o
seu, com sacadas para a área da piscina.
Abri a porta de seu quarto e vi que nele não tinham muitos
móveis, mas a bagunça que estava nele. Não sabia se devia, no
entanto, como teria tempo de sobra comecei a arrumar e levar para
o cesto as roupas que estavam sujas. Fiquei naquilo por vários
minutos e nenhum sinal dele aparecer. No meu celular já se
aproximava da meia noite. Me deitei em sua cama, me
esparramando nela e senti seu cheiro.
Pensei nele deitado ali, totalmente a vontade e tive que
controlar minha mente para as indecências que imaginava. Ele não
tinha nenhuma foto da família por lá. Bom, ele devia gostar da mãe
pela forma que falou dela. No banheiro notei que gostava bastante
de sais de banho, pois tinham vários deles, e uma banheira enorme
que podia acomodar todo mundo que eu conhecia sem problema
nenhum.
Vincent parecia tão forte, mas também tão solitário e carente.
Eu nunca havia amado ninguém em minha vida, mas achava que
estava começando a amá-lo, então aquela seria uma experiência
interessante e esperava que não fosse traumatizante. Uma coisa
que sabia muito bem, e que não queria de jeito nenhum, era sofrer
por amor, ainda mais por alguém como aquele homem. Ele não
parecia do tipo que corria atrás de alguém e nem o mais romântico
dos pretendentes.
Suspirei e olhei as horas: meia-noite. Mandei uma mensagem
perguntando quando viria, mas não tive resposta. Fui até a cozinha
e passei em frente a bolsa da academia que estava em seu carro. E
uma ideia me veio envolvendo aquilo. Procurei algo que me
indicasse o nome dela, mas não havia nada lá. E estava quase
desistindo quando procurei por mais alguns bolsos e encontrei um
pequeno papel, como um comprovante quase amassado e apagado
pela umidade, mas havia um endereço e um pequeno símbolo de
um peso e uma mão o segurando.
Tirei uma foto dele e o coloquei onde estava, pois sendo quem
era Vincent poderia notar que havia mexido em suas coisas. Prometi
que no outro dia já colocaria em ação meu plano de atormentar mais
a vida daquele homem. Não tinha bem uma razão lógica ou decente
para me matricular, no entanto, no período em que estivesse lá,
conseguiria ser quem eu quisesse. E provocá-lo havia se mostrado
algo muito gratificante.
Fui me deitar no quarto de hóspedes, pois seria muito abusivo
ele me encontrar no seu. Escovei meus dentes com uma escova
reserva e peguei uns edredons para me cobrir. Mandei uma
mensagem para Pamela dizendo que estava tudo bem e que a
encontraria no outro dia para definirmos tudo sobre a apresentação,
e logo o sono veio. Assisti a copa das árvores se moverem e com
aquela dança adormeci.

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Acordei sentindo o vento passar pelas minhas costas e me


aconcheguei quando encontrei o edredom. Mas me incomodou a
cama estar gelada, e abri meus olhos com certa dificuldade. A luz
de um pequeno abajur estava acesa e Vincent estava com as costas
nuas e tirando a sua calça. Seus músculos se tensionavam à
medida que se movia e tive que virar o rosto quando se livrou da
cueca. Quando os abri novamente já estava com um daqueles
shorts de pijama e tecido liso. Havia me levado para seu quarto e eu
estava prestes a dormir com ele.
— Não quis te acordar. — Falou vendo meus olhos abertos.
— Que horas são? — Se deitou e apagou a luz.
— Um pouco mais que duas horas. — Me puxou para si.
— O que está fazendo?
— Eu quero dormir com você. — Sua perna quente encostou
na minha e percebi que eu estava sem calça. Seus pelos roçaram
na minha pele e toquei em seu peito desnudo.
— Você tirou a minha calça, Vincent? — Subi minhas mãos até
seu rosto.
— É melhor dormir sem elas. — Respondeu como se fosse a
coisa mais normal do mundo despir as pessoas. Escutei sua
respiração e com sua barba em meus dedos me aproximei com
cuidado e dei um beijo nela. O que eu estava fazendo? Ele se virou
e me beijou, só que daquela vez tão sutilmente que quase pedi por
mais.
— O que você foi fazer no trabalho?
— Uma mercadoria foi roubada. — Respondeu e ficou em
silêncio. Pensei que não continuaria, mas ele prosseguiu. — Nós
conseguimos encontrar e o fornecedor também.
— Onde ele venderia? Existe essa coisa de mercado negro?
— Perguntei fazendo carinho em seu peito. — Eles têm um lugar
igual nos filmes onde se reúnem e são todos mafiosos cheio de
ternos e gravatas, e gente com cicatrizes nos olhos? Você já esteve
em um?
— O mercado negro não é como nos filmes, Parker. Não
vamos falar sobre isso. A última coisa que quero fazer é pensar no
trabalho quando estou com você. Não queria ter te deixado.
— Tudo bem. — Resmunguei contrariado e o senti me puxar
para mais perto. — Mas eles chamam de “Mercado Negro” mesmo?
— Sim, eles chamam. — Vincent respondeu depois de um
suspiro cansado. — Feliz?
— Um pouquinho. — Dei um beijo rápido em seus lábios e me
aconcheguei. Mais um suspiro. — Boa noite, Vincent.
— Boa noite, Demoniozinho. — Começou um carinho em
minha cintura que me fez cair no mais gostoso dos sonos.
CAPÍTULO 06 - (Não É) O Amor Da
Minha Vida

— Porra! — Vincent gritou quando o belisquei na barriga. —


Qual o seu problema?
— O meu problema é que eu não estava conseguindo me
mexer, respirar e a ponto de perder minha perna, porque você
estava impedindo a circulação do meu sangue! — Saí debaixo dele,
respirando profundamente.
Vincent em algum momento da noite havia deitado em cima de
mim, e estava me sufocando com seu peso. Não conseguia
empurrá-lo, pois ele tinha prendido meus braços e pernas com o
cobertor, possivelmente tentando me matar asfixiado. Ele se
arrumou na cama depois do susto e esfregou a região avermelhada.
— Precisava disso? — Penteou o cabelo com os dedos.
— Mas é claro! Que eu saiba, preciso respirar para viver. —
Sorri e coloquei a mão em sua perna. — Mas me desculpa por te
acordar dessa forma. Não era minha intenção.
Fiz um vai e vem massageando sua coxa, a arranhando
levemente. Escutei um de seus suspiros pesados tentando controlar
sua respiração, e aos poucos vi o volume aumentar em seu shorts.
Me sentei em sua perna direita ainda acariciando a outra, e
aproximei meu rosto do seu. Vincent não dizia nada, somente me
encarava com aquele olhar predatório.
— Você me desculpa? — Enfiei minha mão por debaixo do
tecido e segurei seu membro com força, o sentindo pulsar pelo meu
estímulo. Vincent abriu um pouco a boca e aproveitei para lhe beijar.
Ele me segurou, me impedindo de sair de seu colo e avançou
ferozmente. Espalmei seu peito e senti sua pele queimar a minha.
Ele suava fazendo seus braços deslizarem em mim. Ele levantou
minha camisa somente para descer as mãos por baixo da minha
cueca e segurar minhas nádegas com força. Gemi em sua boca
interrompendo o beijo por um segundo. Senti seus lábios e barba
em meu pescoço, logo descendo para o meu peito nu. Sentia
arrepios e uma sensação inebriante, que faziam ser difícil me
concentrar em um ponto em específico.
Segurei seu rosto e me afastei de seu colo, me abaixando
lentamente até ficar próximo de sua ereção. Em meu rosto senti o
calor que de lá emanava e passei meu nariz levemente naquela
elevação, sentindo um prazer imenso tomar conta de mim. De uma
hora para outra tudo o que eu queria era sentir seu sabor e ver o
resultado de meu toque estampado em seu rosto. Deslizei minhas
mãos em sua perna, puxando alguns de seus pelos e o fazendo
gemer baixo. Ele me olhou e segurou em meus cabelos com certa
força, mas não para me afastar e sim para não me deixar parar com
o que faria.
Vincent passou seu polegar em meus lábios até que o forçou
para dentro. Senti certa aspereza nele, mas seu contato fez minha
boca salivar. Com toda a calma do mundo, eu o chupei. Sentindo o
calor de sua virilha segurei seu membro novamente, passando
meus dedos pela glande exposta e com sinais de seu pré-semen.
Desci seu short mostrando o que tanto queria dentro de mim.
Passei a língua por toda a extensão e sorri quando ele saltou
ao meu toque. O coloquei em minha boca e senti seu gosto um
pouco salgado. Escutei um suspiro, percebendo sua atitude
amortecer devido ao prazer imediato e aquele foi meu sinal.
— Eu tenho que ir. — Me levantei, admirando sua expressão
frustrada. Peguei minha calça e com uma dificuldade proposital a
passei por minhas pernas, como se estivesse apertada.
— O que? — Se levantou ainda nu e ereto. — Tem que ir para
onde? Vai me deixar assim?
— Eu tenho compromissos, Vincent. E sim, vou deixar você
assim, mas eu tenho uma solução.
Peguei sua mão e coloquei em seu membro.
— O nome é masturbação. É só colocar seus dedos em volta
do seu pênis e fazer um vai e vem que logo, logo você goza.
— Parker... — Ele tentou me alcançar, mas parou para levantar
o short que estava em seus joelhos.
Desci as escadas já ligando para Pamela para lembrá-la de me
encontrar, que não demorou muito para atender e me perguntar
sobre o meu "encontro". Prometi que contaria tudo para ela assim
que nos víssemos e pedi para que não se atrasasse, pois arrancaria
seus cabelos. Fiz um sinal para que Vincent esperasse, e outro
indicando o telefone quando chegou perto de mim respirando fundo.
Sentei calmamente no sofá cruzando as pernas. Ele não
estava com uma cara muito boa e seu “amigão” não tinha baixado.
Ficou o tempo todo em minha frente, me esperando terminar a
conversa. E assim que tirei o aparelho do ouvido ele começou.
— O que foi aquilo lá em cima? — Sorri me levantando. Me
apoiei em seu peito nu e deixei um beijo nele. — O que você está
fazendo, Parker?
— Aquilo não foi nada e eu não estou fazendo nada. —
Acariciei sua barba.
— Não é o que parece.
— Bom, eu não fiz nada que não quisesse. — Me afastei, indo
em direção ao banheiro e com ele sempre ao meu encalço.
Comecei a colocar pasta em uma escova que havia lá e me
perguntei quantos pacotes delas ele teria. Será que eram para as
suas transas de uma noite? Será que levava várias ou vários para
transar em sua casa? Aquele pensamento me fez sentir ciúmes,
mesmo não tendo uma relação com ele. — Você precisa me levar
embora. Tenho que encontrar alguém.
— E quem essa pessoa seria? — Pegou uma das diversas
escovas, colocou pasta e começou a escovar os dentes.
— Um cliente. — Respondi e ele parou. Com seu corpo me
prensando me curvou e cuspiu.
— Já mandei parar com essas insinuações. — Gemi
sensualmente e me encostei mais nele. Ele segurou minha cintura,
mas logo se afastou. — Você é um demônio!
— Credo, Vincent! — Reclamei depois de cuspir e lavar minha
boca. — Você tem que parar de falar isso de mim. Se algum fanático
religioso te escutar é capaz de me queimarem vivo. E você já me
deixou quente o suficiente.
— Meu Deus... — Suspirou. Aproximei minha boca da sua,
como se fosse o beijar, mas soprei em seu nariz.
— Como está o meu hálito? — O abracei pelo pescoço e lhe
dei um beijo na barba. Eu o amava beijar lá.
— Está ótimo.
— Eu preciso ir. Tenho que tomar banho em casa.
— Tem um chuveiro aqui.
— E depois eu visto as suas roupas? — Voltei para o sofá e
apoiando minha cabeça em minhas mãos, o encarei. — Você está
tentando me fazer ficar mais tempo aqui, Sr. Policial-Não-Tão-
Comum?
— Estou. Pensei que passaria mais tempo com você.
Aquele comentário fez meu coração bater mais rápido e meu
sorriso se tornar ainda maior. Ele queria mais de minha companhia,
o que indicava que gostava de me ter por perto. Aquele homem,
mesmo parecendo bravo, tinha se declarado para mim. Podia não
ser com as exatas palavras "eu gosto de você", mesmo assim era
alguma coisa.
— Bom, eu até passaria mais tempo com você, mas você saiu
para trabalhar as dez horas da noite e me deixou sozinho aqui.
— Parker, eu tive que ir... — Começou a se explicar, mas o
interrompi.
— Eu sei, Vincent. — Me aproximei, o abraçando. — Eu sei
que você é uma dessas pessoas importantes. E se você não se
importar, eu quero dar um conselho.
— Qual? — Suspirou cansado. Eu podia ver as olheiras se
formando pelas noites mal dormidas, mas naquela manhã ele
estava com uma aparência mais leve, e seu suspiro não estava tão
carregado de reclamações. Ri comigo mesmo daquele pensamento.
— Fica mais na sua casa, ok? Ela parece pronta para ser
vendida a qualquer momento.
— Ficar em casa? Esse é o seu conselho? — Passou seus
braços ao meu redor e me apertou neles.
— Sim, qual o problema? — Tirei seu rosto do meu pescoço,
mas não antes de me arrepiar quando inspirou meu perfume.
— Nada. É um ótimo conselho.
Ele me beijou da mesma forma bruta de antes. Não me
cansava daquela sensação. De sua barba grossa arranhando meus
lábios, seus braços me impedindo de sair e suas mãos apertando
meu corpo. Ele me tomava para si toda vez que eu sentia seu sabor.
Senti sua ereção em minha perna, assim como a minha, e me
ascendi, pois queria mais.
Se fosse com outra pessoa não pensaria duas vezes e me
entregaria ao desejo, mas Vincent era diferente. Não queria
desapontá-lo. Não devia me entregar tão rápido, mas sim
impressioná-lo, para que ficasse ao meu lado depois do nosso
momento. Tinha medo de perdê-lo e de nunca mais o ver. Naquela
semana que fiquei longe dele e mesmo depois de ter me magoado
com seus comentários, eu o queria. Queria dar a oportunidade de se
desculpar e começar de novo.
Eu estava apaixonado depois de pequenos e breves encontros
com aquele homem. Caí no conto do amor à primeira vista. Vincent
era o tipo de homem que fazia aquilo com as pessoas. Sua
personalidade forte e intimidadora despertava um desejo de querer
agradá-lo e eu era uma dessas pessoas, e felizmente, uma das que
ele havia escolhido para beijar e demonstrar o carinho que tanto
desejávamos.
Ficou alguns segundos me olhando e pensei que diria algo,
mas não o fez. Me deu mais um beijo e pediu que o esperasse, pois
me levaria de volta. Saí de seu colo e o vi subir as escadas. Os
músculos de suas costas se moviam tão graciosamente. Droga!
Fui até os fundos enquanto ele se arrumava. Existiam umas
quatro cadeiras e uma piscina encostada a um monte de pedras e
toda a casa estava cercada por um muro e plantas. Vi uma coleira
jogada perto de uma casinha de um cachorro grande, mas não
havia nenhum sinal do animal.
— Você gostou daqui? — Apareceu atrás de mim, colocando
sua mão em meu ombro.
— Sua casa é muito calma. Mesmo sendo tão perfeita e com
tudo no lugar.
— Quem sabe você vem aqui outra vez?
— Antes ou depois da sua próxima vítima?
— Do que está falando? — Me virou para si. — Eu não trago
ninguém aqui. Nunca trouxe!
— Vou fingir que acredito nisso, Sr. Salas. — Dei um peteleco
no seu nariz. — Onde está o cachorro?
— Você muda de assunto com uma facilidade.
— Quero saber se é alguém decente. Um animal as vezes é
sinal de que é confiável.
— Não te dei motivos suficientes?
— Você me chama de demônio, insinua que eu sou garoto de
programa, que eu sou provocativo...
— Já entendi o seu ponto, Parker. Estava com muitas coisas
na cabeça e acabei descontando em você.
— E ainda não se desculpou devidamente.
— Claro que já!
— Você se faz de tonto, não é possível! Mas esquece isso. Vai
ser como dar murro em ponta de faca e vai acabar insinuando outra
coisa de mim.
— Você não é bem a pessoa mais educada de se conversar.
Tudo é motivo para...
— O cachorro, Vincent. Fale do cachorro.
— Você é impossível. — Suspirou irritado. — A cachorra está
com a minha mãe. Eu não conseguia dar a atenção que ela
precisava.
— Entendi. Eu preciso dar um nome para os meus bichinhos.
— Falei brincando com um colar que ele estava usando.
— Aquele gato ainda está lá?
— É gata. E está sim, por quê?
— Tem que mandar cortar a unha dela. — Mostrou uma
pequena cicatriz em sua mão esquerda de onde havia sido
arranhado na primeira vez que nos conhecemos.
— Tadinho. Prometo que vou fazer isso. — Brinquei com sua
barba. — Mas agora eu realmente tenho que ir, Vincent.
— Tudo bem. — Me olhou por uns segundos novamente e
saímos sem dizer nada.
Fomos para dentro da casa e vi aquele homem pegar suas
coisas. Estava arrumado demais somente para me levar embora.
Quis perguntar para onde iria, mas me contive. Não era da minha
conta e não tínhamos nada para ficar querendo saber de sua vida.
Mesmo querendo muito.
Me despedi mentalmente daquela casa e me convenci de que
seria a última vez que a veria. Obviamente Vincent tinha planos
diferentes para a nossa noite, que talvez, digo talvez, envolvessem
o meu corpo no seu. Não era idiota em acreditar que não queria
transar comigo e para ser bem franco, eu me sentiria horrível. Não
porque tinha nojo. Muito longe disso! Eu sentia uma atração enorme
por aquele homem e era um fato que não tinha contrapontos. No
entanto, eu me conhecia, e sabia que já estava nutrindo alguma
coisa por ele e nem o conhecia direito.
Eu poderia não ser a pessoa certa para ele, mesmo eu
querendo que ele fosse a pessoa certa para mim. Nossos mundos
eram completamente diferentes, e ele não parecia o tipo de pessoa
que se entregava ou tinha um relacionamento duradouro. E aquilo
era exatamente o que eu procurava, mesmo parecendo que não.
Meu comportamento perto dele e até aquele momento quando
acordamos, só serviu para que tivesse certeza de que eu só daria
meus sentimentos de bandeja.
Ele estava diferente de quando o encontrei pela primeira vez e
de todas as outras. Estava carinhoso de uma forma que não
pensaria que pudesse ser. E era bom. Ótimo, na verdade. Me sentia
importante e especial. E se o que ele tinha dito fosse verdade, eu
seria uma das únicas pessoas que haviam pisado em seu refúgio.
Me assustei e acordei de meus pensamentos quando colocou
a mão em minha perna e lá a deixou durante a viagem. Olhei seu
perfil e vi o quanto, ele por inteiro, era tão incrivelmente belo. Tinha
vontade de me aninhar em seu corpo como minha gatinha fazia no
travesseiro de minha cama. Ai, que vida horrível a minha! Por que
eu tinha que gostar dele?
— O que está pensando, Parker? — Deu uma leve apertada
em minha coxa para chamar atenção. Ri devido as cócegas que ele
causou. Tentei tirar sua mão, mas não consegui e ele olhou em
divertimento para mim. — O que foi? Tem cócegas quando eu te
aperto assim?
— Para, Vincent! — Pedi, mas me ignorou e me fez gritar e
gemer ao mesmo tempo com mais um aperto. Ele riu e o som de
sua voz grossa me deixou feliz. — Para, por favor!
Ele ainda apertou minha perna mais uma vez, se divertindo
com o meu desespero.
— Vincent!
— Tudo bem. — Disse, mas não tirou a mão. — O que você
está pensando? Você nunca fica sem falar nada.
— Estava pensando em como você é um irritante sem noção e
muito chato.
— Tem certeza disso? — Moveu a mão mais para cima.
— Tá! Eu estava pensando em como você está tão carinhoso
comigo. Satisfeito? Deus!
— Carinhoso?
— Sim, carinhoso. Bem diferente do bruto convencido de
quando nos conhecemos.
— Você pensou isso de mim?
— Ainda penso, mas acho que está se controlando para ter
outra chance de sair comigo.
— Bom saber disso.
— Bom pra quê? — O encarei.
— Para a próxima vez que você for em casa. — Ele estacionou
em frente a padaria do meu prédio.
— E vai ter uma próxima vez?
Ele queria um novo encontro...
— Sim, eu quero que cozinhe para mim de novo. — Sorriu e o
admirei, sem dizer uma palavra. — O que foi?
— Você fica muito bonito sorrindo, sabia?
— Faz tempo desde a última vez que me senti bem assim. —
Fechou os olhos. Vincent confessou a mim e tive vontade de não
deixá-lo.
— Espero que continue assim.
Nos olhamos por longos minutos e a todo momento quis
desviar meus olhos dos dele, pois estavam me causando uma
vergonha imensa. A minha personalidade perto dele, ao mesmo
tempo que era atiçada, era domada. Ele tinha uma maneira de me
fazer reagir as suas atitudes e minha mente enlouquecer. Estava
prestes a lhe beijar quando batidas na janela do carro chamaram
nossa atenção. Era Harvey e ele estava com um sorriso enorme que
me fez ter vontade de quebrar todos os seus dentes. Vincent
abaixou o vidro e pude escutar a voz divertida de meu irmão.
— E aí, cara? Tá gostando do meu irmãozinho?
“— Alguém me mata!” — Pensei.
— Estou. Algum problema? — Vincent respondeu e o olhei
incrédulo.
— Nenhum. — Harvey apoiou os braços na janela do meu
lado. — Só se ele aparecer magoado um dia. Aí, você vai ter um
problema.
— Veremos.
— "Veremos"? O que você quer dizer com isso, Vincent? Vai
me magoar para testar a teoria do meu irmão, é isso?
— Nós não temos nada. Como eu vou poder te magoar? — E
lá estava o Vincent idiota. O que não sabia tratar ninguém bem e
não pensava no que dizia.
— Realmente, Vincent. Nós não temos nada! Tenha um bom
dia.
Saí do carro empurrando meu irmão e apontei o dedo em sua
direção.
— Não se intrometa nunca mais na minha vida, me entendeu?
— Ele me olhou inconformado, mas levantou as mãos em sinal de
rendição.
Caminhei pela rua sem movimento e entrei em meu prédio
sem olhar para ninguém. Quando cheguei no apartamento fui direto
para o meu quarto, me tranquei e fui tomar um banho. Sentir a água
caindo em meu corpo fez meus batimentos diminuírem um pouco,
mas a minha mente ainda estava agitada.
Ele tinha que estragar tudo em algum momento. E novamente
eu estava lá, sofrendo pelo que ele tinha dito. "Nós não temos nada"
ficava voltando e voltando na minha cabeça. Eu era muito burro
mesmo. Ao mesmo tempo que me convencia de que não teríamos
nada, criava milhares de motivos para me convencer de que sim,
poderíamos ter algo juntos. Parecia um jovenzinho apaixonado e
estava começando a achar que era mesmo.
Ele era gay, no mínimo bissexual, então não tinha dúvidas que
poderia sentir algo por mim além da atração física, mas talvez
houvesse outra razão para que não se envolvesse com ninguém.
Vincent era um homem lindo e bem-sucedido, mas estava sozinho.
Talvez ele não fosse tão boa pessoa assim. Devia haver algo de
podre por debaixo daquela armadura atraente.
Quando estava no quarto me arrumando para encontrar
Pamela, meu celular tocou e vi o nome daquele policial, mas não
atendi. Não queria escutar sua voz, então coloquei o meu celular em
modo avião e só ficaria disponível quando fosse ligar para alguém.
Perto da porta de entrada havia uma mala preta no canto do
sofá. Estranhei de início, mas não dei muita atenção. Não havia
sinal de meu pai em nenhum lugar da casa e muito menos dos
meus bichinhos, pensei em chamá-los, mas não tinham um nome,
então fui a procura deles, e como sempre estavam no pequeno
quartinho da bagunça, brincando com os papéis e várias outras
coisas. Os coloquei para fora e tranquei a porta de uma vez.
Depois da minha conversa não tão boa com meu pai, não tinha
certeza se o realmente queria perto de mim. Sua personalidade era
muito protetora, principalmente comigo. Enquanto Harvey podia
levar quem quisesse para casa e recebia todo e qualquer apoio de
meu pai, eu tinha horário para voltar. Escrevi uma mensagem para
meu irmão e avisando onde iria já que não havia voltado até o
momento.
Deixei o apartamento com uma sensação estranha para trás. E
ela não passou nem mesmo quando fui me encontrar com Pamela
no Orleans. Talvez fosse a fome, mas minha intuição me dizia que
algo aconteceria. Vi que ela tinha me deixado um recado e assim
que paguei pela corrida coloquei o aparelho no ouvido para ouvir.
Fiquei com dificuldades, pois uma gritaria, não sei de onde, me
impedia. Tampei minha outra orelha com o dedo e apertei mais o
celular na outra. Caminhei sem olhar por onde ia, até que senti um
baque forte me levar ao chão e uma dor horrível na bochecha. Cai
de costas e alguém em cima de mim.
— Misericórdia! — Reclamei colocando a mão no meu rosto e
sentindo o local latejar. Estava pronto para gritar com o garoto que
tinha me atropelado, mas parei quando vi seu rosto vermelho de
tanto chorar. O reconheci da primeira vez que fui ao restaurante. Ele
estava com aquele esportista famoso.
— Me desculpe, por favor! — Pediu assim que o ajudei a se
levantar e limpar a sua roupa.
— Você está bem?
— Eu vou ficar, muito obrigado! — Disse caminhando, mas
segurei seu braço.
— Você tem certeza que está bem? Eu te pago um chá, sei lá,
pra você se acalmar.
— Não quero! — Recusou olhando para a fachada do
estabelecimento e depois para de onde veio correndo. Ele mudou
sua expressão para uma mais amigável. — Meu nome é London e
juro que estou bem.
— Como a cidade?
— Sim, como a cidade. — Olhou novamente para trás e algo o
estava incomodando, mas não havia ninguém, somente uma
multidão de garotas amontoadas uma em cima da outra. — Eu
realmente tenho que ir. A gente se esbarra por aí.
— Por favor, não! — Ri e ele me acompanhou. — Sou Parker.
— Foi um prazer. — Ele seguiu apressado para onde quer que
fosse.
Entrei no Orleans e pedi uma mesa para esperar a atrasada da
Pamela. Peguei o copo gelado e o coloquei no rosto para tentar
amenizar a dor. Fiz meu pedido e não me importei se ela reclamaria
por não a ter esperado. Enquanto saboreava meu suco e via a
ligação de Vincent em meu celular, o mesmo esportista entrou. Ele
estava vestindo uma camiseta branca amassada demais para
alguém que atraia olhares por onde passava. Ele foi direto para a
cozinha, como se procurasse por alguém. Estava bravo ou até
desesperado. Será que... será que ele estava procurando London?
Era única explicação para os dois estarem correndo daquele jeito,
como um rato fugindo de um gato. O garoto até que parecia um
ratinho pequeno e o esportista, bem... ele era um gato mesmo.
— O que aconteceu no seu rosto? — Pamela perguntou assim
que se sentou. Ela pegou meu suco e começou a tomar ainda
olhando para o resultado de meu encontro com o fugitivo.
— Esse suco é meu! — Reclamei, mas de nada adiantou e ela
repetiu a pergunta. — Eu fui atropelado por um garoto assim que
cheguei aqui.
— Está doendo? — Apertou a minha pele e me esquivei do
seu toque.
— É claro que sim, idiota! Não toca!
— Bom, tomara que isso não fique roxo. Seu rosto é muito
branquinho para ficar com marcas.
— Tá bom. — Escutei o barulho das portas sendo abertas
abruptamente e o esportista saiu de lá como um trem descarrilhado.
— Eu nunca vou cansar de admirar esse homem. Eu vi que ele
ganhou uma luta importante ontem, e sem um arranhão sequer. Foi
um recorde e todo mundo está falando dele. — Ela comentou
acompanhando o homem sair pelo saguão. Ele realmente era digno
de toda a atenção que recebia. Parecia um deus africano cheio de
músculos e sua pele era maravilhosamente linda. Queria eu ter uma
daquele jeito.
Quem visse Pamela não pensaria que tinha uma
personalidade tão forte e independente. Tive uma surpresa quando
vi aquela menina magra e com uma trança angelical falando que
queria transar violentamente. Tinha meus momentos e achava que
muitas vezes eu parecia mesmo um garoto de programa, como
Vincent havia me comparado, mas com ela era muito frequente. E
adorava aquilo nela. Precisava de pessoas decididas na minha vida,
mas ainda mais de pessoas boas. E minha amiga era linda por
dentro e por fora.
Discutimos sobre a pequena apresentação que faríamos e o
restante do nosso café da manhã ficamos jogando conversa fora,
até Mandy chegar. Contei sobre meu encontro com Vincent, mas
não lhe dei detalhes, pois não queria ter de lidar com suas
expectativas sobre aquilo.
Nossa amiga escritora não demorou a chegar, pois precisava
conversar com ela sobre ser minha colega de apartamento. Poderia
estar me precipitando, mas escolhi não pensar muito no assunto.
Muitas pessoas moravam com estranhos ou viviam em repúblicas
cheias de gente, então ela morar comigo não seria nada fora do
normal.
Nos despedimos de Pamela, que parecia uma louca atrás de
um homem que estava conversando, e fomos para uma praça lá
perto. Mandy estava curiosa sobre o que eu queria, e eu ficava
dizendo para ter calma só para ver sua ansiedade aumentar. Ela era
tão engraçadinha quando queria saber de alguma coisa que não
pude resistir. E quando nos sentamos em um banco, um de frente
para o outro, a encarei seriamente e segurei a sua mão, como se
estivesse prestes a contar algum segredo de estado ou algo do tipo.
Ela estava gelada.
— Você está pronta para saber? — Fingi estar o mais
preocupado que podia.
— Eu acho que sim, bem... Estou pronta. Me conta, Parker! Eu
vou morrer aqui!
— Bom, eu não sei como te falar isso, mas eu não quero que
pense em besteiras e nem que estou com segundas intenções. Me
promete não mudar o jeito que vai me olhar de agora em diante? —
Meus olhos marejaram.
— Meu Deus, o que foi, Parker?
— É... Desde que eu te vi, na recepção do meu apartamento,
eu te achei diferente. — Comecei e estava surpreso com minha
atuação. — Diferente de uma forma boa, mas tem uma coisa que
ficou na minha cabeça, algo sobre mim que eu preciso te contar.
— Me diz. — Mandy colocou a mão em meu ombro. — Pode
contar comigo. Você já é meu amigo.
— Então vamos lá. — Minhas conversas deviam contar como
horas complementares para o curso. — Eu sou... Eu sou viciado em
comer brigadeiro e você vai ter que aprender a fazer para mim
depois de ir morar comigo.
Falei rapidamente e vi o olhar confuso de minha tímida amiga.
Depois de alguns segundos entendeu o que eu quis realmente dizer.
Ela piscou várias vezes e tentou falar, mas torceu a roupa e apertou
os lábios.
— Você está me convidando para morar com você, é isso? —
Concordei com a cabeça. — Você está me chamando para morar
com você, Parker? Esse drama todo era para isso? Seu idiota! Eu
pensei que você ia morrer ou estava doente! Como... Nossa, eu
quero te bater tanto agora!
— Era realmente uma coisa importante para se dizer. Não
poderia falar de qualquer jeito.
— E precisava falar como se fosse morrer daqui a dois
minutos? Eu odeio você!
— Pode me odiar morando comigo. Eu vi a sua mensagem
sobre precisar de um lugar para morar.
— Eu não posso aceitar isso. E eu nem tenho como te pagar
pelo seu apartamento. Você viu onde mora?
— Não é nada demais, Mandy.
— Parker, com o que eu tenho de economia não conseguiria
nem mesmo pagar a almofada para dormir do lado de fora dele. Eu
não posso aceitar. Desculpa. É muito mais do que eu poderia pedir.
— E quem disse que você vai pagar alguma coisa? — Segurei
sua mão. — Eu estou te convidando para morar comigo, sem custo
nenhum. Você vai ter que me ajudar com as tarefas, mas fora isso é
bem simples de entender que vai morar comigo de graça.
— Parker, eu não sei...
— Como não, Mandy? Você está procurando um apartamento
e eu tenho três quartos de sobra no meu.
— Você tem certeza disso? Estou desempregada e nem
comecei a ganhar pelos livros que estou vendendo online. — Me
olhou receosa.
— Estou sim. Nós só precisamos estabelecer algumas regras
antes. Mas tenha em mente que você não tem escolha a não ser
gostar de meu cachorrinho e gatinha.
— Parker, eu nem sei como te agradecer por isso. Eu vou ficar
muito feliz em cuidar deles para sempre.
— Você tem cara de que vai ser uma pessoa boa para se
conviver.
— Eu nem sei como te agradecer por isso. Eu prometo que
vou fazer tudo para deixar o apartamento em ordem.
— Acho bom, mas não vire uma maníaca por limpeza, ok? E
nada de ficar batendo panela de manhã nos finais de semana. Eles
são para descansar.
— Eu não sabia o que faria se não conseguisse um lugar. Teria
que largar o curso e voltar para a casa dos meus pais. — Mandy se
entristeceu. — E isso eu não iria querer. Não depois de largar tudo
para seguir a minha vida. Seria muita humilhação e aposto que eles
iriam adorar jogar isso na minha cara.
— Vocês não são próximos? — Perguntei percebendo sua
mágoa. — Eles não são bons para você?
— Definitivamente não. Eu me sentia uma prisioneira e para
ser bem sincera com você, eu não os amo. — Não fiquei surpreso
com a revelação, pois a entendia muito bem. — Eu sempre era
oprimida e nunca me motivaram para nada. Era somente o encosto
que tinham que carregar, mas que trazia um pouco de dinheiro.
— Mandy, eu sinto muito por isso! — Apertei sua mão. — Não
precisa nem continuar a falar, porque não vale a pena lembrar de
quem não se importa com a gente. Eu imagino pelo que passou e
meio que sofri do mesmo. Mas agora você vai morar comigo e vai
ser como uma irmã para mim. Vou cuidar de você!
— Obrigada, Parker. — Me abraçou. — Você é maravilhoso!
Seus pais devem ter muito orgulho de você.
— Eu não tenho tanta certeza assim, minha querida amiga e
irmã postiça. — Me levantei e puxei sua mão para me acompanhar.
— Eu quero um sorvete e depois vamos nos matricular em uma
academia.
— Eu não gosto de academias.
— Não é para você, bobinha. Vamos dizer que estou em um
projeto de melhorar alguns aspectos da minha vida.
— Você está parecendo a Pamela falando dos encontros dela.
Tem algum homem envolvido?
— De jeito nenhum, Mandy. — Me fiz de ofendido, mas logo
sorri, a fazendo revirar os olhos.
Mandy era uma garota que à primeira vista poderia parecer
tímida, como Pamela, porém realmente era. Também era muito
decidida e sabia muito bem o que queria. Desde o primeiro
momento havia simpatizado com ela e quando soube que
estudaríamos na mesma universidade vi como uma oportunidade de
me aproximar, e ter uma amiga. E não estava errado em fazer
aquilo.
Dividir meu apartamento com ela seria uma coisa boa para
ambos. Eu teria alguém para conversar e ela poderia guardar o
dinheiro que ganhava com seu livro. Até pensei em procurar um
trabalho, mas infelizmente por conta da carga horária do curso
decidi aproveitar a boa vida que minha mãe me proporcionava.
O dia inteiro ficamos rodando por Bisera, o Museu nacional, a
galeria de arte e reclamei daquilo sem graça que eles chamavam de
cachorro-quente. Aquela cidade tinha muito que aprender com o
Brasil em relação a comida.
No entanto fiquei ainda mais ansioso para minha matrícula na
mesma academia de Vincent. Ele não esperaria me encontrar por lá
e quase conseguia escutar seu suspiro ao me ver pela primeira vez
no local. Conseguia identificar certas características, como ter um
gênio possessivo e dominante sobre as coisas e pessoas. A forma
como a todo momento me tocava e como havia se imposto contra
meu pai e irmão eram outros sinais. Mesmo sendo um estúpido logo
depois.
Lá dentro pude ver uma quantidade moderada de pessoas,
sem aquele amontoado que via em outras academias. A
recepcionista foi muito solícita e educada ao me explicar como tudo
funcionava e mais ainda ao me mostrar o valor da mensalidade. Os
olhos multicoloridos de Mandy se arregalaram, mas não deixaria
aquilo atrapalhar meu plano de atrapalhar a sanidade daquele
agente especial secreto e suspirador. Cobraria por toda a falta de
atenção parental usando o dinheiro que sempre me recusei a gastar.
Depois de conhecer o primeiro e segundo andar, notei um
homem com um corte baixo e militar. O reconheci imediatamente
como um dos agentes que estavam em meu apartamento da
primeira vez que vi Vincent. Richards era seu sobrenome se não me
enganava. Parecia novo, mas seu corpo desenvolvido o deixava um
pouco mais altivo. Para minha sorte não havia me visto.
Acabei por me matricular somente nas aulas de Ioga, pois não
queria acabar com minhas mãos e nem deixar meu corpo travado
por ficar levantando pesos o tempo todo. Questionei Mandy se
realmente não queria me acompanhar naquela empreitada, mas ela
recusou veemente. Então não teria nenhum apoio quando o
momento chegasse.
Peguei meu celular para pedir um Uber para nos levar embora,
e depois de horas tirei do modo avião, o que fez chover milhares de
mensagens. Quinze ligações foram perdidas cinco delas eram de
Vincent. Eu não as retornaria de jeito nenhum, pois ainda estava
com raiva do que havia dito. Havia dormido na casa dele e na
mesma cama, pra no final me dizer, sem hesitar, que não tínhamos
nada. Ele realmente não devia sentir nada e depois de ver que seria
mais difícil transar comigo do que com os outros, disse aquilo. Só
conseguia me irritar com aquele joguinho de ficar me ligando, sendo
carinhoso, para depois fazer uma coisa daquelas.
Queria me bater por sentir algo por ele, mas também queria
terminar o que tinha começado naquela manhã. Ele poderia ser
daquele jeito, mas queria acreditar que tinha qualidades que o
faziam ser uma pessoa que seria possível gostar e deixar que se
aproximasse. Eu realmente queria. Nunca quis amar e fazer daquilo
algo importante, mas se tivesse o poder da escolha, gostaria que
fosse ele. E com aquilo era mais que notável que ele fazia uma
bagunça dentro de mim e causava uma série de pensamentos
contraditórios ao querê-lo, xingá-lo, odiá-lo, admirá-lo e todos os “a-
los, e-lo e i-los” possíveis.
Depois de deixar Mandy em uma pequena pensão onde
dormia, e completamente certo de que ela se mudar era a melhor
opção, senti a mesma sensação ruim de antes. As ligações do
número desconhecido em meu celular eram demais para ser um
simples engano, porém não tinha coragem de retornar. Caso me
ligasse novamente atenderia, caso contrário, não me daria ao
trabalho.
Recebi mensagens de Yorick, de Harvey, e de mais um outro
número que não reconheci. Queria distância dos dois, pois não
sabia até quando ficariam em meu apartamento. Estava em um
dilema entre tentar novamente ter um pai ou deixá-lo fora da minha
vida, como ele havia feito comigo. Eu não era cego para ver que me
amava, mas eu também não podia esquecer do seu abandono.
No entanto, quando estava quase chegando minha mãe me
ligou. Fiquei receoso em atender e algo me dizia para desligar o
celular e nem voltar para o apartamento, mas eu enfrentaria aquela
mulher depois de um jeito ou de outro, e não estava com paciência
para discutir.
— Boa noite, mãe. Tudo bem com você?
— Onde você está? — Estava mais séria que o normal, mas
também havia uma certa preocupação.
— No Uber, voltando para o apartamento. Por quê?
— Estamos esperando. Venha logo, Parker.
— Como assim? Você está em Bisera? Por quê?
— Sim, estou. — Fez uma pausa. — Venha logo.
O que estava acontecendo? Minha mãe nunca tinha feito nada
assim e muito menos saído do Brasil sem necessidade. Ela gostava
de se sentir no controle das coisas e era assim que se sentia na sua
casa. Na verdade, se sentia muito melhor em sua empresa, ao redor
de todas aquelas pessoas que tinham medo dela e que a
respeitavam por não quererem perder seus empregos.
Dentro do carro fiquei criando milhares de teorias. Será que
viera me buscar? Me diria que não mais me ajudaria com meus
estudos? Será que ficara sabendo sobre a minha rebeldia e de uma
hora para a outra começou a se importar com a minha vida ou com
o que Yorick dizia? Ou será que ele tinha contado sobre Vincent?
Ela nunca tinha feito aquilo. Nem quando as revistas anunciaram
que eu era gay, muito tempo atrás, ela havia se importado. Pelo
contrário, a empresa até deu um salto quando aquilo veio a público.
Foi bom para seus negócios. Ou seja, minha sexualidade estaria
totalmente fora de questão.
Eu não aceitaria aquela intromissão e muito menos por conta
de Vincent. Por que ele tinha sempre a mania de conhecer meus
pais naquele tipo de situação? Sempre estava me colocando em
conflito com eles e lhe bateria se fosse o caso.
E como se só de pensar nele o atraísse, quando estava saindo
do carro e me despedindo do motorista, senti uma presença atrás
de mim. Me virei em um pulo e me afastei o máximo que pude.
Lá estava ele, vestido socialmente, com uma camisa social um
pouco aberta. Como ele saía daquele jeito? Parecia ter voltado de
seu trabalho, pois tinha a mesma expressão cansada das vezes que
o via depois de voltar de lá. Era um final de semana e mesmo assim
estava trabalhando. Mas não era meu problema.
— O que está fazendo aqui? Você tem que parar de vir assim.
— Onde você estava? — Me ignorou.
— Eu perguntei primeiro.
— Eu vim te ver.
— Isso eu sei, Vincent. — Cruzei os braços. — Mas para quê?
Qual o motivo?
— Eu te liguei e você não atendeu. — Respondeu e tive
vontade de rir de como estava parecendo um adolescente naquele
momento, mas não o fiz. — Você saiu do carro do nada e tive a
impressão de que ficou bravo com alguma coisa.
— É sério isso? — Bufei frustrado. Como assim ele não sabia
o que tinha acontecido?
— O quê? Eu fiz alguma coisa? — Deu um passo em minha
direção.
— Não, Vincent. Você não fez nada, porque não tem como
você fazer nada para me irritar sendo que nós não temos nada, não
é?
— Espera, é por causa disso?
— O que você disse? Eu realmente não me lembro. — Bati
com o indicador na bochecha, fingindo estar pensativo.
— Parker, pare de agir assim. — Segurou meu braço
gentilmente e meu coração acelerou. Meu corpo aqueceu ao seu
toque. — Eu odeio quando você é irônico.
— E eu com isso? — Me aproximei de seu rosto, tocando sua
barba. — Eu não deveria me importar com isso e nem você,
porque... nós... não... temos... nada.
— Você é impossível! — Suspirou. Vi seu peito subir e descer.
— Eu sou! Por que você está aqui então? Eu sempre fui assim.
— Nem eu sei, garoto. — Segurou minha mão. Ele estava
sério. — Onde você estava?
— Não é da sua conta!
— Eu vou precisar de muita paciência com você. — Disse para
si mesmo.
— Você não vai precisar de nada. — Puxei minha mão
sentindo a aspereza da sua. — Foca no seu trabalho como sempre
fez. Aliás, você foi para lá hoje de novo?
— Agora você quer saber sobre onde eu estava? — Venceu
nossa distância, tocando a minha cintura. — Por que eu tenho que
te responder e você não?
— Porque você veio me ver, porque você errou comigo e
porque você quer a minha atenção. — Toquei seu peito com o
indicador no final de cada frase. Colocou meu corpo no seu e senti o
quanto ele estava quente.
— O que eu faço com você, garoto?
— Começa respondendo a minha pergunta. Na verdade, nem
precisa, eu sei que você estava lá. Vai acabar morrendo e já está
cheio de cabelos brancos.
— Você está preocupado comigo? — Vincent pegou meu
queixo e o levantou, me fazendo o olhar enquanto encarava a minha
boca.
— Eu não! Só estou dizendo que... — Fui interrompido quando
um sorriso vitorioso surgiu em seu rosto e ele avançou em meus
lábios. Senti um gosto meio doce e amargo. Talvez de alguma
bebida. Brigaria com ele assim que terminasse de me enlouquecer e
arrepiar todo o meu corpo com sua barba. Ele desceu sua mão até o
limite de minhas costas e me apertou ainda mais em si. Gemi e ele
forçou mais o beijo, mas juntei todo meu controle e o empurrei.
Puxei o ar para dentro dos meus pulmões e agradeci pelo
oxigênio existir. O que estava acontecendo toda vez que o beijava?
Com ele era tão diferente? Sentia um prazer descomunal ao sentir
seus lábios nos meus e sua língua vencer a minha. Não precisava
fingir como das vezes que beijava algum outro qualquer. Vincent
tinha algo de especial.
— Você não pode sair beijando as pessoas. Isso é assédio! —
Reclamei e ele riu. Senti meu celular tocar em meu bolso e ele
também. — Eu preciso ir agora. É importante!
— Eu vou te ligar amanhã e dessa vez atenda! — Ordenou e
me beijou mais uma vez.
— Não precisa se preocupar comigo, Vincent. Não é como se
você fosse o amor da minha vida. — Deixei seu abraço. — Agora
vai para casa e antes que eu me esqueça: não beba antes de dirigir.
Nem mesmo um gole.
— Você fica muito engraçado bravo. — Zombou e belisquei a
sua barriga como naquela manhã. — Porra, Parker!
— Você mereceu. Agora vai embora! — Me afastei e o deixei
sem olhar para trás.
Assim que entrei no elevador me encostei na parede gelada e
sorri como uma criança. Apesar de ter brigado com Vincent como se
fossemos namorados, não conseguia resistir ao seu jeito. Ele tinha
um controle sobre mim que não conseguia explicar de nenhuma
forma. Era algo que não tinha como entender e nem como deixar de
lado.
Quando abri a porta do meu apartamento lá estava a minha
mãe, sorrindo gentilmente para meu irmão, e o abraçava como eu
nunca tinha sido abraçado. Não por ela. Tinha uma certa inveja dele
por receber o amor de nossos pais, enquanto eu só havia recebido
as sobras. Não tinha nada contra ele e o amava mais que tudo, mas
não podia deixar de perceber o favoritismo.
Meu pai estava com os olhos vermelhos, como se estivesse
prestes a chorar e assim que me viu tentou sorrir gentilmente, mas
eu não entendia o que estava acontecendo. Ele veio tentar me
abraçar, mas as palavras em tom de represália de minha mãe
chegaram antes. Nada simpática ou amorosa como estava sendo
com o meu irmão, seu filho favorito, que precisava sempre do seu
amor.
— Onde você estava, Parker? Seu pai tentou te ligar o dia
inteiro.
— Eu fui encontrar uma amiga da faculdade por conta de um
trabalho. — Respondi controlando meu tom de voz.
— Quando alguém te ligar, atenda! Pode ser importante. —
Voltou a me repreender e não aguentei. Ela não tinha o direito de
me cobrar de nada e eu não tinha culpa nenhuma da merda de
situação pairando ao nosso redor.
— Como quando eu estava vomitando sangue na escola e
você não me atendeu? Ou como quando eu precisei de você para
avisar que ninguém tinha me buscado na escola? Você não pode
me cobrar de nada sendo que não foi nenhum exemplo.
— Abaixe esse tom. Não é hora pra jogar seus problemas em
cima de mim. Não vê que seu irmão não está bem?
— Mas que bom que ele tem a mãezinha carinhosa para
cuidar dele, não é? Ele sempre teve os dois cuidando dele. —
Sequei as lágrimas.
— Parker... — Meu pai tentou me tocar, mas puxei meu braço
com força.
— Não me toca! — Gritei para ele, que me olhou com tristeza.
— Falem logo o que aconteceu e me deixem em paz.
— Filho, eu tentei te ligar, mas não consegui. Eu não queria
que soubesse dessa forma, mas seu avô faleceu essa tarde, filho...
Meu pai faleceu. — Revelou e as lágrimas escaparam de seus
olhos.
Eu não soube como reagir àquela notícia. Mas tudo veio em
minha mente...
Tudo o que aconteceu na última vez que o vi.

...

“Estava voltando da escola quando vi o carro de meu avô


parado na frente de casa. Naquele horário, minha mãe
provavelmente estaria no trabalho e meu pai preparando nosso
almoço. Entrei passando pela sala e cozinha, mas não encontrei
ninguém. Até que subi as escadas em direção ao escritório. Eu
abriria a porta como sempre fazia, mas algo me disse para ir com
cuidado até lá.
Pela porta pude escutar as vozes de meu avô, meu pai e
Turman. Os três estavam conversando em russo e não conseguia
entender muita coisa, pois ainda estava aprendendo, mas em um
momento eles falaram mais devagar.
— Seu filho vai trazer a ruína para você, Yorick! — Era a voz
fraca e grossa de meu avô. Eu nunca recebi seu carinho e sabia que
se dava ao fato de eu ser gay. Gortan sabia e eu sabia que ele
sabia, mesmo eu não tendo contado nada para ninguém.
— Parker ser gay não vai ser bem-visto pela mídia russa, mas
a decisão é sua. — Turman disse. Ele era o amigo do meu pai e
sócio da empresa que tinham. Eu percebia os olhares que tinha
para mim, mas nunca o daria abertura e evitava ficar sozinho com
ele por medo.
— Harper já fez a escolha dela e não pode deixar que fique
com o meu neto. Harvey tem que ficar sob a sua guarda. Ele vai ser
um grande homem ao seu lado e não ao lado dela. Ela que fique
com aquele menino.
Escutei aquilo e meu coração foi parar em minha garganta.
Sabia que enfrentaria o preconceito por ser gay no mundo e nas
ruas, mas não que sofreria com ele dentro de minha própria casa.
Esperei para ver se meu pai falaria alguma coisa, mas nada veio.
Nenhuma palavra para me defender... Nada.
Voltei para a cozinha e controlei minhas emoções o máximo
que pude. Coloquei o melhor sorriso e gritei pelo meu pai. Escutei a
porta se abrir e quando me encontraram estava colocando minha
comida no prato. Meu pai não me olhou em momento nenhum e
somente pegou sua pasta e saiu. Aquilo quebrou o meu coração.
Meu avô estava parado no batente da porta com sua barba branca,
apoiado na bengala e fumando seu cigarro fedido.
Ele me olhava com um sorriso no rosto e não sentia nada
agradável vindo dele. Sua presença fez meu estômago embrulhar.
Vomitaria tudo se comesse. Então peguei meu prato e joguei tudo
no lixo.
— O que está fazendo, garotinho? — Eu tinha dezessete anos
e ele me chamava daquela forma para me menosprezar. Enquanto
com Harvey o chamava de "campeão", "garotão" e "meu herói". —
Não teve aulas de etiqueta?
— Eu tive e é por isso que joguei fora. — O encarei. — É
melhor jogar fora do que vomitar devido ao nojo que senti de
repente.
— Você quer dizer alguma coisa, garotinho? Está bem
corajoso para falar comigo nesse tom. Você deve saber se
comportar.
— "Saber me comportar"... — Repeti suas palavras e caminhei
em sua direção, mas ele me segurou forte pelo braço. — Me deixa
ir!
— Não se deve deixar falando sozinho os mais velhos.
— Desculpa, vovô. Eu pensei que o senhor já conversasse
sozinho. — Retruquei ironicamente. — Me desculpa?
Tentei soltar meu braço, mas ele me segurou mais forte e me
deu um tapa no rosto que fez meu lábio cortar. Senti o gosto do
sangue e o olhei atônito por aquela agressão. O que ele tinha na
cabeça?
— Seu merdinha mal educado. — Gritou, ficando vermelho. —
Você é uma bicha nojenta e uma vergonha para meu filho! Você não
merece nada! Sua mãe devia ter te abortado quando teve a chance!
— Tira suas mãos de mim! — Tentei me soltar, mas ele me
empurrou no batente da porta e levantou minha camiseta da escola.
Com o cigarro queimou minha barriga. Gritei para que me soltasse e
me joguei com o corpo em cima dele, o que o fez se desequilibrar e
cair sem o apoio da bengala.
— Você não vai acabar com tudo o que construí. Não vai
arruinar seu pai e se contar sobre isso, eu faço da sua vida e a da
sua mãe as mais miseráveis possíveis, me entendeu?
— Eu te odeio!
Corri em direção a escada e Turman apareceu com um sorriso
maldito. Ele havia visto tudo o que aconteceu. O ignorei e comecei a
subir, mas antes pude ver seu olhar para meu corpo e me mandar
um beijo.

...

Chorei aquele dia e por vários outros quando soube que meu
pai havia me deixado sem nem ao menos se despedir. Ele era a
pessoa com quem conseguia ser eu mesmo e sempre acreditei que
quando o momento chegasse, ficaria ao meu lado. Eu estava
errado. Completamente!
Yorick simplesmente havia saído da minha vida sem
pestanejar, e acreditando na mentira de Gortan, onde eu tinha
gritado e o agredido por ter tentado conversar comigo sobre eu ser
gay e eu não ter reagido bem. Aquele momento me assombrou por
muitos anos até que parei de pensar neles. Havia "superado" as
agressões que sofri daquele velho maldito, que se dizia meu avô,
mas as lembranças nunca se apagariam, nem mesmo a pequena e
insignificante cicatriz em meu abdômen.
— Nós vamos para Rússia essa noite. — Minha mãe avisou.
— Eu não vou no enterro dele! Não vou para lá!
— Meu filho, ele era seu avô... — Meu pai começou a falar,
mas o impedi.
— Ele não era nada meu! Ele não passava de um mentiroso
nojento que conseguiu enganar você direitinho!
— Parker! Você já está passando dos limites com esse
comportamento. Aprenda a se colocar no seu lugar. — Minha mãe
se levantou. — Não adianta você ter raiva de alguém que só tentou
te ajudar. Ele não tinha culpa de você estar revoltado com quem
você é.
— Eu não tenho e nunca tive problemas com quem eu sou. Ele
quem tinha e mentiu sobre tudo!
— Não foi o que aconteceu.
— Claro que não foi, mãe! Afinal, quem perguntaria para o filho
gay o que realmente tinha acontecido? Quem? Ninguém! Eu só sou
a vergonha que vocês carregam e que exibem quando bem
entendem. Desculpa eu não ser como o Harvey, um pegador,
machão e bonitão. Ele sim é um filho para se orgulhar, não é? Um
macho como o meu pai aqui! Me desculpa eu ter nascido gay e um
motivo para terem vergonha. Você devia ter me abortado como meu
avô me disse. Teria sido muito mais fácil só ter o Harvey para cuidar.
Então dito isso, eu repito que não vou para a Rússia!
— Você vai, sim! — Ela gritou de volta.
— De tudo o que eu falei foi isso que ouviu? Você me
surpreende mesmo. Vovó me contava que você era amorosa antes,
mas eu acho que ela devia estar delirando quando disse!
— Por favor... — Harvey tentou falar, mas foi ignorado.
— Me respeite, Parker! — Ela veio em minha direção e
levantou o braço para me bater, mas Yorick a segurou antes que o
fizesse.
— Harper! — Ele a repreendeu.
— Me bate, anda! Deixa, papai! — Dei tapas leves no meu
rosto. — Você não vai fazer me sentir mal! Não quando você já fez
eu me sentir um miserável minha vida inteira!
— Calem a boca! — Meu irmão gritou e paramos. — Parem
com essa merda! Eu não quero escutar mais uma palavra sobre
essa merda toda! Será que a gente pode tentar ser uma família
normal pelo menos uma vez?
— Meu filho, me desculpe. Eu... — Harper começou a falar
com uma voz gentil.
— É sério isso? — Revirei os olhos para aquilo e minha mãe
suspirou pesadamente.
— Nós temos que conversar sobre o que aconteceu, mas não
agora! — Harvey veio em minha direção, segurando em meus
ombros. — Eu preciso de você, Raposinha. Eu preciso de você para
passar por isso. Por favor, vem comigo para o enterro de nosso avô
e depois nós voltamos.
Vi seus olhos marejados. Eu tinha errado em falar daquele jeito
em relação à ele, e tinha perdido o controle com toda aquela
situação. Devia ter controlado minhas palavras e respeitado a sua
presença, pois foi o único que me ajudou e ficou ao meu lado todo o
tempo. Ele me fez sentir um pouco menos sozinho.
— Harvey, você sabe como eu me sinto com tudo isso.
— Eu sei, Parker, mas ele me criou durante toda a vida.
— Harvey...
— Parker, por favor, faz isso por mim! Eu preciso de você! —
Ele me encarou e eu queria gritar não várias vezes e deixar todos
sozinhos, mas minha consideração por ele me impedia. Harvey,
sempre que precisei, foi alguém que pude conversar e mesmo que
seu pedido parecesse egoísta, me sentia na obrigação afetiva de
ficar ao seu lado, mesmo querendo que aquele homem velho e
falecido queimasse no inferno.
— Eu vou por você e só por você! — Ele me abraçou e percebi
que meu pai me olhava triste.
— Obrigado. Precisa de ajuda para arrumar sua mala?
— Não. Eu sei fazer isso. — Respondi e sumi no corredor. Não
olhei para minha mãe e me abracei quando passei perto de Yorick,
pois não queria encostar nele.

Depois de toda aquela discussão arrumei minhas roupas e


mandei uma mensagem para Mandy, para que cuidasse dos meus
bichinhos e que dormisse no apartamento. Ela concordou e deixei
avisado a recepção.
E lá estava eu, embarcando para um país onde viver minha
vida era considerado um crime, e indo no enterro da pessoa que eu
mais desprezava. Parecia estar em uma balança, enquanto um lado
estava bom o outro faltava uma coisa.
Eu só queria que tudo melhorasse e encontrar o equilíbrio para
seguir meu caminho.
Queria Vincent comigo, pois ele saberia lidar com aquilo.
CAPÍTULO 07 - Mais Do Que Um
Homem

Com todas as minhas forças desejei que o avião desse meia


volta por alguma falha e me impedisse de ir para aquele país.
Queria que nada daquilo tivesse acontecido e que aquele velho
podre continuasse vivo e bem longe de mim por muitos e muitos
anos. Mas não! Ele tinha que morrer e parecer um tornado, fazendo
todo mundo ser sugado para ele.
Harvey estava muito triste com o ocorrido e a todo tempo era
consolado pela nossa mãe. Ela não o largava em momento algum e
sempre se mostrava prestativa com as emoções do seu filho
preferido, sempre amável e carinhosa. Muito diferente do que se
mostrava quando falava comigo, como na discussão que tivemos
antes de eu embarcar naquela droga de viagem. Realmente não
entendia o porquê de meus dois pais me odiarem tanto a ponto de
quererem me mandar para longe de suas vidas e fazerem tudo para
que me sentisse mal somente por existir. Eu não era uma pessoa
ruim e sempre procurava tratar todos da melhor forma possível em
todos os momentos, sem distinção.
Sozinho, fiquei sentado no fundo do pequeno jato particular
que haviam alugado, já que por conta da minha demora não
conseguiram comprar a passagem para a Rússia. Com meus fones
de ouvido, me isolei durante grande parte do trajeto até que peguei
no sono e somente acordei quando senti alguém sentado do meu
lado. Era meu pai. Ele estava vestido formalmente, como sempre.
Achava até que não tinha outro tipo de roupa. A quanto tempo ele
estaria me olhando? Assim que meus olhos se abriram, se
encontraram com os dele e percebi tristeza.
Desde que Yorick tinha chegado em meu apartamento vinha
tentando se aproximar de mim várias vezes. Sendo gentil, amigável
e até protetor, porém eu ainda estava machucado e com todas as
barreiras que levantei para não sofrer ou sentir algo por ele. E não
seria fácil me desfazer de todas elas, pois o estrago que ele havia
feito em minha vida, pelo simples fato de não fazer parte dela, já
tinha sido feito. Eu não queria dar uma chance a ele por medo, mas
ao mesmo tempo sentia que ele, mesmo que aos poucos, estava
fazendo sua presença ser notada pelo meu coração, e aquele
adolescente que foi abandonado e pedia pela atenção do pai,
estava voltando.
Fiquei em silêncio por vários minutos, e até tentei encarar a
escuridão azul do mar do lado de fora, mas era impossível ignorar a
sua presença. Seu olhar parecia uma faca no meu pescoço e sentia
a minha pele queimar. Vencido, tirei meus fones e de repente tudo o
que escutava era a música baixa que estava tocando e nada mais.
Nenhuma conversa paralela de minha mãe e Harvey.
— Se você vai falar alguma coisa, agora é a hora. — Disse à
ele e me encostei no banco, me cobrindo com minha blusa de frio.
— Eu realmente queria que tudo tivesse sido diferente, Parker.
— Ele se curvou sobre os joelhos e passou a mão nos cabelos.
Depois voltou a me olhar. — Eu não queria ter te deixado. Nenhum
de vocês.
— E o que você quer que eu diga? Quer que eu concorde com
você e diga que realmente foi horrível crescer sem um pai e com
uma mãe ausente e rancorosa, ainda por cima, com algo que não é
nem sua culpa? Porque eu posso concordar com você!
— Meu filho, por favor... — Puxou a minha mão e a segurou.
— Eu estou cansado dessa briga. Eu quero ter meu filho de volta.
— Eu não quero isso. — Queria meu pai de volta, mas minha
mágoa era muito maior. — Eu não quero que você se aproxime pra
depois me abandonar.
— Eu não vou fazer isso, eu prometo!
— Eu achava isso oito anos atrás e olha a situação que
estamos. — Suspirei. — Eu não quero ter que me acostumar com a
sua falta depois. Você tem a sua vida e eu tenho a minha, não tem
porque querer que eu participe dela. Fica com o Harvey. Ele serve
muito melhor para ser seu filho do que eu. Afinal, a mídia russa não
vai favorecer a sua empresa quando souber que tem um filho gay.
Nesse momento vi seus olhos se arregalarem, e ele soube que
eu havia escutado tudo naquele dia. Soube que eu tinha ciência de
que tudo o que ele havia levado em consideração quando se
separou foi a integridade de sua empresa.
— Filho, eu te amo do jeito que você é e nunca me importei
com o que pensariam de mim ou de você! — Se aproximou de mim
e apertou ainda mais minhas mãos.
— Você não me defendeu! Você me abandonou! — Falei
sentindo as lágrimas descerem em meus olhos. Estava segurando
aquelas emoções por muito tempo.
— Filho...
— Não me chame de filho, porque você não é meu pai. Você
deixou de ser quando saiu por aquela porta e me deixou sozinho
com aquele monstro nojento que chama de pai. Eu fui humilhado e
agredido e você não estava lá! Eu fui chamado de sujo, que eu era
uma vergonha para você e que eu devia ter sido abortado pelo meu
próprio avô. E meu pai não estava lá! Minha própria família! Eu não
cresci rodeado de carinho como o Harvey, eu não cresci! E eu
nunca mais quero sentir aquilo.
— Parker, me escuta! — Vi o desespero em seu rosto ao
escutar aquelas palavras. — Eu me arrependo muito de não ter
lutado por você!
— Eu não quero saber de nada! Me deixa em paz, de uma vez
por todas! — Queria bater nele por ainda insistir. — Eu não quero ter
um pai e muito menos que ele seja você! Você está me ouvindo?
Você não é meu pai e não vai ser!
— Eu não vou deixar você sair da minha vida de novo! —
Afirmou decidido, mas eu também estava.
— Eu não saí da sua vida. Foi você quem me deu as costas.
— Parker, eu não quero mais isso...
— Eu não estou nem aí para você, Yorick! Agora sai de perto
de mim. Por favor. — Pedi me virando para a janela e fechando os
olhos.
— Você é meu filho e eu te amo! — Confessou antes de se
levantar e ir de volta para seu assento. Eu nada respondi.
Por que eu tinha que passar por aquilo? Por que tudo tinha
que voltar para a minha vida? Eu não queria nenhum deles lá. Não
queria ninguém que me machucasse ou trouxesse as memórias de
uma vida que queria abandonar. Foi por aquilo que aprendi a
esquecer meu pai, ignorar minha mãe e fechar o meu coração para
qualquer sentimento que pudesse surgir quanto a eles, pois eu
sabia que somente era uma forma de me iludir.
Chorei em silêncio. Percebia que meu pai algumas vezes me
olhava, mas o ignorava e continuaria a fazer mesmo depois daquela
viagem idiota. Não devia ter aceitado, nem por Harvey e nem por
ninguém. Aquilo só estava me fazendo mal e me destruindo. Me
sentia como um nada e a presença daqueles dois, que deveriam ser
para quem voltaria caso precisasse de carinho ou cuidado, só fazia
minha descrença e raiva aumentarem.
E então, me vi pensando em Vincent e como queria que
estivesse comigo. Queria sentir seus braços ao meu redor, pois me
passariam a sensação de carinho e proteção. Estava me sentindo
como um animal indefeso naquele momento, prestes a entrar no
território de predadores. Ele saberia o que fazer naquelas situações.
Para falar a verdade, acho que ele nem se colocaria em tais.
Saberia dizer não e se manter firme com sua resposta.
Fiquei tentado em mandar uma mensagem para ele e
conversar, mas já era tarde demais, e provavelmente estaria
dormindo. E com toda a certeza trabalharia naquela manhã. No
entanto, ignorei o bom senso e mandei mesmo assim, para que
visse assim que acordasse e não conseguisse me ligar.

Parker: Vincent, tive que viajar de última hora. Talvez não


consiga me ligar, ok? Tenha um bom dia.

Vi as fotos que Mandy tirou dela e dos meus bichinhos no sofá,


e respondi Pamela, que havia me dito que o encontro com o seu
"ficante" tinha sido maravilhoso. Até que uma notificação surgiu e
instantaneamente um sorriso brotou em meu rosto.

Vincent: Viajou?
Parker: Sim, viajei.
Vincent: E está tudo bem?
Parker: Se eu estivesse em meu apartamento, estaria.
Vincent: Posso ajudar com alguma coisa?
Parker: Se conseguir parar um avião no meio do oceano, te
agradeceria muito!
Vincent: Está indo para onde?
Parker: Rússia.
Vincent: Rússia?
Parker: Sim, Rússia. O meu avô morreu.

Ele começou a digitar, mas logo parou. E não tive resposta por
alguns minutos. Será que aquilo tinha sido demais para ele saber?
O assunto era muito forte? Porém enquanto guardava o celular,
recebi uma ligação daquele policial.
— Você podia continuar mandando mensagens, não precisava
ligar.
— Eu odeio essas coisas! Mas quero dizer que sinto muito
pelo seu avô.
— Obrigado, Vincent, mas não precisa. Ele me odiava e o
sentimento era mútuo.
— Como assim?
— Ele me odiava por ser quem eu sou. E com isso quero dizer
ser gay.
— E você está indo no enterro dele, porque...
— Por causa do meu irmão. Ele tinha uma relação maravilhosa
com aquele homem e, como eu sou uma boa pessoa, estou dando
meu apoio.
— Entendo. — Ficou uns segundos sem dizer nada.
— Você não devia estar dormindo agora, Sr. Policial-Não-Tão-
Comum?
— Você me chama assim só para me provocar?
— Não agora. Prefiro fazer isso pessoalmente para ver como
você fica. — Respondi e sorri quando escutei o seu suspiro.
— Você está me deixando louco, sabia?
— Que bom que estou conseguindo! Pensei que teria que
mudar a minha tática.
— Quando eu te pegar, garoto... — Ele não terminou a frase,
mas foi suficiente para me deixar excitado.
— Espero que consiga fazer tudo o que imagina, já que está
ficando velho. Sabe, da última vez que nos vimos eu vi mais cabelos
brancos em você. Na verdade, quantos anos você tem, Vincent?
— Demoniozinho... — Falou mais para si mesmo. — Eu tenho
trinta e três anos.
— Imagina quando estiver com quarenta. Vai estar todo
branco. — O provoquei e logo depois ri.
— Garoto, você merece umas palmadas!
— É uma pena você não estar aqui, não é? — Suspirou. As
luzes do avião se acenderam indicando que logo pousaríamos. —
Como eu sei que você vai trabalhar, vá dormir agora. Você está me
escutando?
— Estou.
— Então assim que eu desligar vá se deitar e tente não ficar
lembrando da nossa manhã juntos. Vai ser mais difícil dormir! — Ele
tentou falar alguma coisa, mas desliguei.
Coloquei o cinto, já me preparando para pousar, quando recebi
uma mensagem dele.

Vincent: Se precisar, me ligue!

Não o respondi, mas fiquei feliz em saber que se importava


comigo, ao menos um pouco. Mesmo não sabendo o que ele e eu
tínhamos, sentia que havia alguma coisa acontecendo. Tinha
vontade de ficar perto dele e saber que prestava atenção em mim.
Nunca havia conhecido ninguém como Vincent. Era como se eu
estivesse vivendo aqueles inícios de paixões que tanto li durante a
minha adolescência e nos livros do Nicolas Sparks. Só esperava
que nada de ruim acontecesse para que pudéssemos ficar juntos.
Ficava como um bobo todas as vezes que ele falava, ou fazia
qualquer coisa, como comer, por exemplo. Adorava como a sua
boca e maxilar se moviam ao mastigar lentamente cada porção. E
também como o seu peito subia todas as vezes que inspirava uma
grande quantidade de ar, e até mesmo, como seu rosto ficava mais
sério quando suspirava todas as vezes que eu o provocava. Me
sentia como um adolescente pronto para cair de amores pelo amor
da minha vida. Realmente não sabia o que estava acontecendo na
minha cabeça, mas até aquele momento, não queria entender.
Com a turbulência apertei os braços do assento e esperei o
desconforto passar. Eu odiava aquela parte. Quando me levantei
para pegar minhas malas meu pai foi mais rápido. O olhei confuso,
mas ele me ignorou e somente deu um sorriso gentil.
— Deixa que eu levo.
— Eu não sou nenhum inválido. — Falei parando no topo da
escada de saída.
— Eu sei, meu filho. — Ele sorriu para mim novamente, e
todas as vezes que fazia aquilo me incomodava. Não era ruim, mas
me deixava com vontade de chorar e acreditar que um abraço não
seria uma má ideia. — Mas eu quero fazer isso. Cuidado com os
degraus.
Coloquei as mãos em meu rosto, como se me escondesse do
mundo, e quando as tirei e ele estava rindo do gesto, como se
estivesse familiarizado. Caminhamos em direção a um carro preto
que estava a nossa espera e o vento frio bateu em mim, me fazendo
colocar minha blusa. A porta se abriu e de repente tudo se tornou
mais gélido e morto. Com um sobretudo longo e preto, como se
estivesse pronto para um enterro, Turman parou perto da porta,
sorrindo para todos, mas desviei meus olhos assim que percebi que
os deles se encontrariam com os meus.
Eu não conseguia me sentir bem perto daquele homem e não
adiantava tentar. Era como se ele estivesse pronto para me atacar a
qualquer momento. Todas as vezes que ele me tocava ou dirigia sua
voz a mim, era como se eu estivesse sendo abusado. Me sentia
sujo e vulnerável. Ele sempre esteve perto do meu pai, afinal era o
seu sócio. E antigamente, sempre quando acontecia algum tipo de
reunião em nossa casa, evitava sair de meu quarto para não ter que
encontrá-lo.
Ele cumprimentou a todos com um abraço, mas vi o rosto de
minha mãe quando ele a tocou. Ela não gostava dele tanto quanto
eu. Pelo menos naquilo concordávamos. Harvey parecia estar aéreo
a tudo, mas ainda sim me olhava de vez em quando para se
certificar de que eu estava lá e não tinha voltado correndo para o
avião e voado de volta para os Bisera. Eu tinha a vontade, mas
aguentaria por ele.
Quando aquele homem veio me cumprimentar juntei todas as
minhas forças para não vomitar em sua roupa. Encarnei um
personagem e fingi a educação que não tinha para com ele. Senti
seus braços ao meu redor, e também quando me fez um carinho
desnecessário nas costas. Meu estômago embrulhou e se ele
tivesse continuado com aquilo por mais um segundo, um estrago
teria ocorrido.
— Eu sinto muito pela morte de seu avô. — Ele disse e quis
dar um murro em sua cara. Turman sabia muito bem do tipo de
relação que aquele velho e eu tínhamos. Ele havia visto a nossa
última briga, que marcara a nossa despedida.
— Ele até que viveu bastante. — Me afastei e me aproximei de
meu pai. — Espero que ele tenha vivido bem depois de tudo o que
aconteceu. Me lembro de como era amável com meu irmão. É uma
pena para ele. E é ele quem precisa de palavras amáveis, não eu!
— Ele realmente era um homem amável com quem merecia.
Era um homem justo. — Quis cuspir em sua cara.
— Uma pena ele não estar mais aqui para te mostrar o que
fazer, não é? — Me virei para meu pai. — Quando vai ser o enterro
dele, Yorick?
— Yorick? — O nojento questionou. — Não o chama de pai?
— Não se intrometa! — Meu pai avisou. — É um assunto
familiar, assim como o enterro.
— Claro, me desculpe. — Concordou, mas sabia que não fora
sincero.
— O enterro será daqui a duas horas. — Yorick respondeu.
— Então é melhor irmos, para não nos atrasarmos. — Minha
mãe disse com os braços ao redor de Harvey, que não havia dito
nenhuma palavra até o momento. Eu não gostava de o ver daquele
jeito.
Um outro carro parou perto do nosso e Turman indicou para
onde todos deviam ir. Minha mãe acompanharia meu irmão,
enquanto eu iria com meu pai e ele. Não saberia o que fazer ou
como sobreviver aquela viagem, mas Harvey foi meu salvador. Ele
parou no meio do caminho e me chamou quando estava prestes a
entrar naquela provação.
— Raposinha? — Escutei sua voz rouca. — Pode vir comigo?
— É claro que posso, Harvey. — Parei quando o aquele
monstro de olhos claros ficou em minha frente. — Com licença.
— Eu só queria dizer que seu avô tentou falar com você. —
Não soube como reagir àquilo. Será que ele estava brincando com a
minha cara? Só podia ser aquilo. Durante aqueles oito anos aquele
monstro nunca fizera questão de saber da minha existência, e
deixou bem claro da última vez que nos vimos de que nem queria
que estivesse vivo. Por que tentaria me ligar? Não havia sentido. —
Eu só achei que devesse saber.
— Desculpa não acreditar em uma das suas mentiras. Na
verdade, não me desculpe. Engula todas elas, Turman. Agora, com
licença.
Assim que cheguei ao alcance de Harvey, ele me puxou para
seus braços e me colocou dentro do carro, olhando na direção do
outro homem antes de entrar também. Vi a entrada de Vladivostov, e
logo me lembrei da última vez que havia a visitado. Era inverno e a
neve caia aos montes. Eu tinha por volta dos treze anos e minha
avó ainda estava viva. Ela tinha me dito para ir visitar Gortan e me
convencido de que seria uma boa experiência. E em certa parte ela
estava certa. Eu tinha adorado ver a neve, mas odiara todas as
vezes que tive que ficar trancado em casa quando meu pai ia
trabalhar junto de meu avô.
Tanto tempo se passara desde a minha última vez naquela
cidade que havia esquecido de como o ar de lá carregava um aroma
do mar que tanto gostava, mesmo com todos aqueles navios
transitando por todos os lados. Baixei a janela do carro, sem me
importar com o vento gelado, e enquanto passávamos pela grande
avenida pude ver a doceria que meu pai comprava balas e pirulitos,
e a adega onde ele bebia com Turman e seus outros amigos. Tinha
entrado lá somente uma vez, junto de minha mãe. Ela fora avisar
que estava levando a mim e meu irmão para o Brasil. Aquele foi o
início, pelo menos de onde eu me lembrava, da separação dos dois.
Meu pai naquela época não levava nada á sério. Talvez pelo
fato de passar a maior parte do tempo bêbado e cambaleando pelos
cômodos da casa. Na Rússia, como todos sabiam, beber era algo
cultural e até apoiado pelo governo e, antigamente, até pela igreja.
Uma coisa histórica e fixada no país que se tornara comum. Bebiam
a todo momento e usavam a vodka para tudo. Como quando minha
mãe estava em meu trabalho de parto e meu avô a fez beber. Meu
pai sempre ria quando contava aquela história. Dizia que fora a
primeira vez que havia visto sua ex-mulher desarrumada. Minha
mãe, obviamente, o odiava por sua memória.
As árvores começaram a se tornar maiores e mais robustas à
medida que entrávamos no condomínio onde meu pai morava. Eu
não conhecia sua nova casa por motivos óbvios, mas ainda bem
que decidira se mudar de onde seus pais moravam.
— Meu pai realmente sentiu minha falta esse tempo todo,
Harvey?
— Te encontrar de novo era o que ele mais queria, Raposinha.
— Respondeu. Como eu não disse nada, continuou. — Ele só não
foi antes por conta de tudo o que estava acontecendo aqui. Nosso
avô já estava doente e começou logo depois que nossos pais se
separaram. Mas cabeça dura do jeito que era, guardou pra ele a
doença e a gente só descobriu quando não tinha mais jeito.
— Ele estava sofrendo? — Questionei e houve a demora da
resposta, então me virei para encarar Harvey, que me olhava com
confusão. — O que foi? Eu o odiava, mas também não sou um
monstro.
— Ele não sofria com a dor. A pior parte era não poder fazer
tudo o que fazia antes. Trabalhar e tudo mais. — Ele disse e pegou
o celular, me mostrando uma mensagem de Gortan. — Ele tinha
mudado, Parker. Como você está vendo, ele até me perguntou se
você estava bonito e bem, como ele se lembrava. Acho que a
doença o fez pensar em tudo o que fez.
— Tomara que ele tenha se arrependido mesmo. — Voltei a
me concentrar do lado de fora. — Talvez seja uma chance de não ir
para o inferno.
— Parker...
— Desculpa. Eu sinto muito por você gostar tanto dele.
— Isso não ficou melhor.
Vi o carro parar em frente a uma grande casa de dois andares,
cercada por um portão de ferro e muros cobertos de plantas.
Descemos e assim que o motorista abriu a porta, eu tremi.
Definitivamente não estava vestido para aquela ocasião. Mas
também senti meu coração acelerar quando realmente caiu a ficha
de que meu avô tinha morrido. Aquilo estava começando a me
afetar e não queria que aquilo acontecesse. Não havia motivos!
O vento frio da cidade entrava pelo meu casaco e só melhorou
quando entramos na casa. Era espaçosa e tinha a cara de meu pai.
Sua mãe, a avó que eu não tinha conhecido, o ensinara sobre
jardinagem e ele manteve aquele hábito. Bem dispostos pelos
cômodos, estavam vasos com as mais variadas espécies da flora.
Somente uma cadeira de rodas destoava. “Ele” tinha passado por lá.
Meu irmão, já familiarizado com tudo foi ligando o aquecedor e
colocando as malas pela sala, me deixando ao lado de nossa mãe.
Ela parecia cansada pelo segundo voo sem descanso, mas ainda
estava perfeita em seus trajes e pronta para uma nova discussão,
se assim precisasse fazer.
— Até que ele soube se virar bem sem você, mãe. — Recebi
um mínimo sorriso dela.
— É o que parece. — Ela tirou os óculos do rosto e me olhou.
— Eu não devia ter levantado a mão para você.
— Não devia mesmo. — Sorri amigavelmente com o gesto. —
Aconteceu algo entre você e o Turman?
— Por que pergunta isso?
— Você parece gostar dele tanto quanto eu, ou seja, nada.
— Ele é traiçoeiro, Parker. E mesmo depois de tanto tempo
ainda não mudei minha opinião. Mas seu pai também parece ter
acordado para a vida e está mais rígido.
— Ele te fez algo?
— Não, mas ele te faria algo.
— Não entendi.
— Eu via a forma como ele te olhava. Se pudesse o colocaria
na cadeia, mas não se pode acusar alguém sem provas.
— Vocês dois são iguais, sabia? Tem a mesma cara de gente
teimosa. — Meu irmão disse ao longe.
Ela não disse mais nada e foi até ele, que pegou sua mala e a
acompanhou até o andar de cima, me fazendo um sinal para que
ficasse à vontade. O problema é que eu não estava a vontade.
Estava com todos os meus sentidos me pedindo para dar meia volta
e com meu estômago me dizendo para que fosse o mais rápido
possível para o banheiro, pois colocaria tudo o que tinha comido
para fora.
Me sentei no sofá que estava encostado a janela da sala e
olhei para o lado de fora. Meu pai e Turman não tinham vindo para
casa e me perguntei se até mesmo hoje estavam trabalhando. Bom,
Vincent faria a mesma coisa, mas com ele eu meio que me sentiria
bem em pedir para que não trabalhasse.
Decidi que deveria descansar, então fui até o andar de cima e
escolhi o último quarto do corredor, e também o mais simples. E
sem muito pensar, tirei meus tênis e me joguei na cama, me
cobrindo com a manta quente que a estava cobrindo. Era tão
confortável que me enrolei mais ainda e não demorou para que me
perdesse na escuridão. Eu não sonhei e nem vi quando apaguei.
Somente lembrava de meu último desejo, que era que aquilo tudo
acabasse logo, para que pudesse voltar com a minha vida e sem a
interferência de ninguém mais. Queria voltar para meus bichinhos e
até conversar com Mandy. Eles se tornaram os meus pontos de
segurança depois da mudança.
Acordei aos poucos sentindo um carinho em meu cabelo, e
como se fosse um click, me levantei rapidamente. Não havia
ninguém que tinha aquela intimidade comigo além de minha gata
quando dormia na minha cabeça. Há muito tempo não sabia o que
era ter alguém tocando em mim em meu sono ou para me acordar
gentilmente. O único que havia feito aquilo em oito anos foi Vincent,
e ele quase me matou sufocado.
Com o movimento brusco acabei me desequilibrando e caindo
do outro lado da cama. Escutei a risada grossa e logo soube quem
era. Yorick estava vestido todo de preto, já pronto para o enterro e
tenho que admitir que meus olhos lembravam muito os seus. Mas o
que é que ele estava fazendo? Quem havia lhe dado o direito de me
tocar? E ainda rir da minha queda?
— Não sei onde acha graça disso! — Me levantei. — Quem
mandou entrar no meu quarto assim?
— Desculpa, meu filho. Não foi a minha intenção! — Ele se
aproximou e de uma vez me puxou para seus braços em um abraço.
Eu fiquei sem reação. — Eu não resisti ver você dormir. Era como
quando você era um garotinho. Eu sempre te acordava assim.
— O que você está fazendo? — Perguntei ainda sem retribuir
o gesto.
— Estou abraçando o meu filho e espero que ele faça o
mesmo. — Me apertou ainda mais. — Estou esperando, Parker. Só
vai sair daqui quando retribuir!
— Qual é o seu problema? — Tentei me soltar ou empurrá-lo,
mas sem sucesso. — Você fica oito anos longe e acha que vai ser
assim que vai conseguir minha confiança de volta? Me obrigando a
ser gentil?
— Eu fiquei oito anos longe e essa foi a pior decisão da minha
vida, mas eu não vou perder mais tempo. Eu vou ter o amor do meu
filho de volta! Então me abrace logo, Parker!
— Que saco! — Reclamei e por fim o abracei. — Pronto!
Satisfeito?
— Muito.
— Agora dá pra você me soltar?
— Não! Espera só mais um pouquinho. — Um flash estourou
no quarto e finalmente meu pai me soltou. — Prontinho, agora você
está livre!
— Mas o que é isso? — Estava incrédulo. Harvey estava com
o celular na mão e mostrando a foto que acabara de tirar para nosso
pai. — Não acredito que você fez isso, Harvey.
— É só uma foto, Raposinha. — Respondeu como se não
fosse nada. Tentei pegar o celular, mas ele desviou e entregou para
a outra criança barbuda no quarto. — Isso foi tudo ideia dele,
irmãozinho. Não fica com raiva de mim.
— Quantos anos você tem? Por Deus! — Coloquei as mãos no
rosto não acreditando no que estava acontecendo.
— Não muitos! — Yorick respondeu e me encarou como se
lembrasse de algo. — Você fica igual a sua mãe quando está com
raiva de alguma coisa. Não é mesmo, Harvey?
— Fica mesmo.
— Fica o que? — Minha mãe apareceu na porta do quarto.
— Nosso filho, Harper. Ele coloca as mãos no rosto igual a
você quando fica frustrado.
— E por que ele está frustrado?
— Porque seu ex-marido me abraçou e pediu para o seu outro
filho tirar uma foto enquanto eu não podia recusar.
— Quantos anos vocês têm?
— Eu fiz a mesma pergunta.
— Cara de um, focinho do outro! — Harvey disse.
— Bom, vá se arrumar, Parker. Logo temos que sair e ir ao
cemitério enterrar o seu avô. E vocês dois, deixem ele em paz. —
Deixou minha roupa na cama e logo em seguida colocando a mão
no rosto, deixando o quarto.
— Viu só? — Yorick perguntou sorrindo para mim — Os dois
são iguaizinhos quando estão com raiva.
Bati a porta frustrado quando saíram e olhando para a minha
mão que involuntariamente tinha ido parar novamente em meu
rosto. Eu nunca tinha reparado naquilo, e me surpreendeu saber
que meu pai se lembrava de minhas manias, mesmo tanto tempo
longe de minha vida. Sorri com a arte que ele fez e meu coração
aqueceu. Só esperava que não acabasse com o meu ele partido,
como se fosse um adolescente decepcionado.
Quando estava prestes a sair meu celular apitou, e nele estava
um pequeno vídeo de Vincent no meu apartamento, com sua barba
que eu tanto adorava mexer sendo lambida pelo meu cachorrinho.
Mandy obviamente tinha filmado sem ele perceber, mas não pude
deixar de me sentir feliz. Ele estava em meu apartamento e
brincando com os meus filhinhos. Eu quis tanto estar lá para ver
aquela cena pessoalmente.
Depois de alguns minutos, quando já estava no carro a
caminho do cemitério, recebi uma mensagem daquele policial
reforçando sua presença e me dizendo que se precisasse bastava
ligar. E foi assim que soube que Vincent era mais do que um homem
que tinha aparecido na minha vida. Mesmo sem termos nenhuma
relação definida, ou até mesmo saber o que éramos um para o
outro. Ele estava se tornando alguém importante para mim.
CAPÍTULO 08 - Os Três Para Mim

Vincent não estava completamente feliz por Parker ter viajado


logo quando a relação de ambos estava “progredindo”, a seu ver,
mesmo que em passos curtos. Ele sabia que sua personalidade não
facilitava muito o que tinham, mas não podia evitar de querer Parker
e tudo o que ele causava em seu corpo e mente.
Tudo o que mais queria era ter aquele garoto nos braços, da
mesma forma que o teve quando dormiram em sua casa. E mesmo
Vincent não expressando em palavras, tê-lo em sua cama foi uma
forma que encontrou em agradecer aquele demoniozinho de olhos
claros por ter sido gentil. Ele estava cansado de seu trabalho e
como se conhecesse seus gestos, o outro propôs que ficassem em
casa.
Aquilo nunca havia ocorrido. Nenhum dos pretendentes que
Vincent teve em sua vida havia mostrado tanta empatia ou cuidado
com suas vontades. A verdade era que nem mesmo ele tinha o
mesmo respeito por quem saía. Sua vontade era simplesmente
descarregar as frustrações e estresse do trabalho. No entanto,
assim que botou os olhos naquela peça cheia de teimosia, não
conseguiu mais lhe tirar da cabeça.
O agente se viu condicionado a sempre pensar no garoto,
mesmo quando não era o momento certo, como em alguma reunião.
E depois de tê-lo em seu refúgio, para onde quer que olhasse se
lembrava da feição provocativa, do corpo gracioso andando de um
lado para o outro, da voz audaciosa e personalidade ácida de
Parker. Tudo o que ele queria era mais momentos ao lado daquele
que estava mudando seu interior para algo que nem mesmo ele
sabia que queria.
O mais novo havia partido para Rússia por conta do velório do
avô. Vincent ainda não entendia como era a relação de Parker com
sua família, mas sabia que não era a das melhores. Seu pai não era
alguém presente e sua mãe não era a mais afetuosa pelo que havia
pegado nas pequenas conversas que teve. E por aquele motivo já
não tinham a empatia do agente. A vontade de punir quem
destratasse o menor era algo que também aflorara.
Estava sentado em seu sofá, vestido casualmente, o que era
algo diferente já que havia adquirido o hábito de sempre estar com
uma camisa social devido a instabilidade nos momentos de folga.
Suas responsabilidades não tinham horário, então aprendera que
sempre deveria estar pronto para o que aparecesse, pois não
confiava em ninguém para lidar com complicações. Acreditava na
frase que dizia que “se quer algo perfeito, faça você mesmo”.
Ele caminhou até o fundo da casa e vendo as cadeiras postas
mais uma vez se lembrou do garoto e da forma que se provocaram.
Vincent não conseguia controlar seus impulsos em tentar domar
Parker, e mesmo quando todas as vezes que suas tentativas eram
frustradas, ele se sentia vivo. Definitivamente uma luz havia se
acendido quando o encontrou.
Encarou a casinha da cachorra que estava com sua mãe, uma
tentativa de trazer um pouco de animação para sua vida. No final só
acabara se sentindo ainda mais atarefado por ter que cuidar de
alguém que não tinha tempo para dedicar. Desparafusou a pequena
estrutura e assim que esticou a mão esquerda viu a cicatriz da gata
de Parker.
Se permitiu sorrir ao se lembrar que ele ainda não havia
escolhido um nome para os pequenos. O agente sempre quis ter
dois animais de estimação, uma fêmea e um macho, tudo para dar o
os nomes que seu pai sempre quisera, mas sua mãe nunca deixou.
Então decidiu que faria o desejo do pai com as bolinhas de pelo.
Colocou a casinha em seu carro e foi em direção a casa da
dona Celeste. Desde sua noite com Parker não havia a visto
pessoalmente, somente trocado mensagens ou falado por telefone.
E já sabia que escutaria muito dela. Ou pelo menos levaria algum
puxão de orelha.
Depois da morte de seu pai, a relação dos dois se tornara
ainda mais forte devido a só terem um ao outro em suas vidas.
Tanto seus pais eram filhos únicos, o que indicava que não tinham
nenhuma família além de si mesmos. E após um evento em seu
passado, onde achou que aquilo mudaria, não se preocupou mais
naquele aspecto de sua vida, já que a esperança foi arrancada de
si, literalmente.
Quando chegou na casa de sua mãe escutou a cachorra
latindo, indicando sua presença antes mesmo de colocar as chaves
na porta. Passou pela sala e cozinha, porém não encontrou a
senhora até chegar no jardim. Ela sorriu ao ver o filho depois de
tanto tempo e limpou as mãos para poder abraçá-lo.
— Você demorou demais para vir aqui, Vincent. Pensei que
teria que virar uma criminosa para vir me ver.
— Estava ocupado com o trabalho, mãe. — Colocou a casinha
no canto do quintal e acariciou a cabeça da cachorra, que agora
tinha uma coleira com o nome Lena. — Espero que ela ainda caiba
na casa.
— Ela vai sim, mas passa a maior parte do tempo dormindo no
sofá ou no tapete do meu quarto. Mas você já tomou café?
— Já sim, mãe. — Suspirou se sentando em um banco que ele
mesmo havia colocado com seu pai. De repente se sentiu ainda
mais cansado de sua vida e sua mente novamente vagou para o
garoto atiçado.
— Está tudo bem, meu filho? Não se feche com a sua mãe.
— Só o trabalho...
— Como sempre. Ainda acho que você precisa tirar umas
férias para se afastar de tudo isso um pouco.
— Sabe que não é assim que funciona.
— É claro que é. Você já tem dinheiro o suficiente para não se
preocupar com aquele trabalho, mas como eu sei que gosta, não
vou voltar nesse assunto. — Disse rapidamente. Celeste nunca
perdia a chance de tocar na possibilidade de ele não voltar a fazer o
que fazia. Não gostava nenhum pouco do filho se arriscando pelo
mundo com pessoas sem educação ou escrúpulos. — No entanto,
Vincent, você já treinou muito bem os seus agentes. E não é o único
naquele lugar. Não é responsável pela vida de todos e merece um
descanso.
— Mãe, se for continuar com esse assunto eu vou embora
agora mesmo.
— Eu só me preocupo com você, Vincent. — Ela se aproximou
e se sentou ao lado dele, acariciando seu cabelo. — Nas ligações
que me fez esses dias não sei quantas vezes te escutei suspirar.
— Mãe...
— Tudo bem, tudo bem... Se não quer falar sobre essa parte
da sua vida, vai falar sobre outra. — Ela sorriu e ele suspirou, já
sabendo sobre o que seria. — O que está acontecendo com você e
esse seu coração duro e forte? Fui na sua casa para cuidar da
limpeza desnecessária e vi um macarrão muito delicioso alguns dias
atrás. E sei que o senhor não sabe cozinhar dessa forma.
— Não vai me deixar em paz, não é?
— Ou você conversa comigo sobre o seu trabalho ou sobre
seu coração. Mas como você não gosta de críticas na área
profissional, vai ter que aceitar minhas opiniões na pessoal. — Ele
suspirou, se dando por vencido, o que sua mãe adorou, pois ver que
seu filho estava caminhando para deixar de ser alguém sozinho lhe
fazia ter esperanças.
— Não temos nada ainda. Ele é teimoso demais e me tira do
sério o tempo todo. Mas tem alguma coisa nele que eu não consigo
não gostar.
— É o mesmo garoto que você encontrou no Orleans? O
“Teimoso”?
— Sim.
— E ele sente o mesmo por você?
— Eu sei que sente.
— Por que você não vai vê-lo hoje? Ou melhor, por que não o
convida para jantar conosco?
— Não vou chamar Parker para jantar na nossa casa assim do
nada, mãe. Não temos nada.
— Você o levou para sua casa.
— É diferente de trazê-lo aqui. Você é minha mãe, faz parte da
minha vida pessoal.
— Mas você quer trazer esse tal de Parker para sua vida
pessoal, não quer?
— Mas ele ainda não está presente nela. — Suspirou
novamente. Pensou no que Parker estaria fazendo naquele
momento e se devia mandar alguma mensagem ou tentar ligar, mas
logo desistiu. Não demonstraria estar tão interessado nele, pois
sabia que usaria aquilo a seu favor. — Quem sabe quando voltar de
viagem ou quando os pais dele não estiverem mais por perto.
— Ele tem problemas familiares?
— Não parece ter uma família amorosa.
— Dinheiro não significa amor. Seu pai e eu sempre tivemos
tudo, mas adotar você foi a melhor coisa que nos aconteceu. — Ela
afirmou, se levantando para dar comida para a cachorra. Vincent
aproveitou para fazer o mesmo e continuar com o plano de levar os
animaizinhos de Parker ao veterinário. — Onde vai?
— Tenho que resolver algumas coisas, mas depois volto.
— Que coisas, Vincent?
— Minhas coisas, mãe. — Deu um beijo no topo da cabeça da
senhora e a deixou curiosa sobre o que o filho faria.
Vincent tamborilou os dedos no volante do carro por um bom
tempo antes de seguir até o apartamento de Parker. O que sua mãe
havia dito sobre o garoto sentir o mesmo por ele estava
reverberando em sua cabeça. Por conta de seu trabalho sabia muito
bem ler as pessoas e suas intenções com somente um olhar torto,
porém será que seus sentidos estavam enganados por estar caindo
nas graças daquele demoniozinho?
Praguejou por todo o caminho sobre como aquilo estava lhe
tirando a paz. Não conseguia não querer ter Parker para si e sabia
que aquele desejo tinha certa possessividade envolvida, no entanto
não faria nada para desrespeitá-lo. Não queria machucá-lo de forma
alguma e por aquele mesmo motivo que não havia tentado nada
mais quando o mesmo dormiu em sua casa. Somente ele sabia o
quão forte teve de ser quando despiu o menor em sua casa e
dormiu ao seu lado... Ele ainda conseguia sentir o calor das mãos
do garoto ao segurar seu membro na manhã seguinte.
Abriu a janela e acelerou o carro, cortando perigosamente os
lerdos da estrada. Sua mãe morava muito longe da cidade e aquilo
também o incomodava. Assim que o caso que estava trabalhando
na empresa se encerrasse, a traria para mais perto e quem sabe
poderia apresentar as duas pessoas que queria ao seu redor.
Quando chegou na recepção do apartamento viu o mesmo
porteiro que estava no dia em que pisou lá pela primeira vez. E
esse, logo que viu o agente, empalideceu o rosto e ficou nervoso.
Era uma reação de se esperar já que ele sabia que fora ele quem
contara para o Parker sobre o aniversário da morte de seu pai e o
seu.
— A chave do apartamento de Parker Hayes, por favor.
— Senhor, não posso permitir que suba. O senhor Hayes não
deixou seu nome na lista de quem tem permissão para...
— Não me faça ter essa chave de outra forma. Se quisesse
fazer algum mal à ele ou a você já teria feito muito tempo atrás.
— Sr. Salas, eu posso perder meu emprego. — O
recepcionista implorou, mas Vincent não se importou com aquele
drama desnecessário.
— Não vai perder seu emprego e se perder eu mesmo te
coloco em um lugar muito melhor que esse. Agora, me dê as
chaves. Não vou pedir de novo. — Ele desviava os olhos
rapidamente sempre que os encontrava com os do agente, mas
respirando fundo e engolindo em seco, concordou com a cabeça.
— A chave reserva não está na recepção. A nova colega de
quarto do Sr. Hayes está lá em cima. Vou avisar que o senhor está
subindo. Só assine seu nome aqui, por favor.
Vincent pegou o elevador e tentou se lembrar de suas
anotações. Quem seria essa colega de quarto? Algo que não se
orgulhava de fazer, mas que achava necessário, era deixar um de
seus agentes observando Parker. Aquilo se iniciou por conta do
traficante que estava no prédio perto do seu. Queria ter certeza de
que ninguém voltaria para buscar respostas pela justiça feita.
No entanto, à medida que aquele relacionamento diferente dos
dois foi aflorando, quis ter certeza de quem estava na vida do
menor. Era ressabiado demais para não se preparar para qualquer
um que se metesse a besta na vida de Parker. E por não saber
quem aquela colega de quarto seria, mandou uma mensagem
avisando que Gary e ele teriam uma conversa séria sobre seu
desempenho.
Antes mesmo de bater na porta escutou os latidos do pequeno
cachorrinho e suas patinhas baterem na madeira. Ele tocou a
campainha e logo viu de quem se tratava. Mandy era o nome dela e
não havia como se enganar devido sua Heterocromia. Era amiga
escritora de Parker e estudava na mesma faculdade.
— Olá, eu posso te ajudar?
— Meu nome é Vincent. Sou namorado de Parker.
— Namorado? O Parker não me falou de nenhum namorado...
Ai, meu Deus! — Arregalou os olhos, o encarando envergonhada. —
Você é ele?
— Eu sou “ele”.
— Você quer entrar? O Parker não está. Ele teve que viajar
com os pais para a Rússia. Se não me engano o avô dele morreu.
— Ele me contou sobre isso. — Antes de fechar a porta a
gatinha, que estava em cima de algum lugar, pulou em seu colo, e
só não arranhou mais seu ombro, pois a segurou antes de ficar
pendurada. — Ele ainda não cortou as unhas dessa gata?
— Ai, meu Deus! Você está bem? Ela estava tão calminha... os
dois estavam. — Ela disse encarando o cachorro pulando na perna
do agente, que logo o pegou no colo. — Eles parecem gostar de
você.
— Já encontrei com esses dois aqui. — Os colocou no chão.
— Vou levá-los no veterinário daqui a pouco, mas eu não sabia que
morava com o Parker.
— Ele me convidou recentemente, ontem na verdade.
— E você trabalha?
— Atualmente não.
— Não pensa em trabalhar?
— Penso, mas...
— Quantos anos você disse que tinha?
— Tenho vinte e um anos.
— Seus pais não acharam perigoso você morar sozinha?
— Eu decidi isso por mim mesma. — Naquela resposta Mandy
usou um pouco mais de convicção. Seus pais era um assunto que
não gostava de falar e que lhe traziam más lembranças.
— Imagino como seja difícil mesmo seguir carreira com Arte.
Você e Parker se conheceram na faculdade, não é? — Outra
pergunta que ele sabia a resposta.
— Eu trabalhava como recepcionista aqui quando ele chegou.
— Entendo. — Ele deu alguns passos na direção da garota, a
obrigando a levantar ainda mais o rosto para poder vê-lo, mesmo
que não tivesse coragem para manter o contato por muito tempo. O
único que tinha aquela coragem, ou audácia, era Parker. — Mandy,
mesmo com meu relacionamento com Parker ser recente, me
importo com a segurança dele. Não é algo que abro mão em relação
as pessoas que eu gosto.
— Certo. — Mandy concordou rapidamente. — Eu também
não quero que nada aconteça com o Parker. Ele é um excelente
amigo e um pouco bocudo, mas ele é uma boa pessoa! Com toda a
certeza! Eu não sei o que faria sem ele. Provavelmente estaria sem
teto agora, ou voltando pra minha casa.
— Ele é bocudo mesmo.
— Sim! Eu até queria ser um pouco mais como ele, mas
depois eu me lembro que ele precisa de um filtro as vezes, mesmo
eu achando que ele mente... — Ela arregalou os olhos novamente
ao olhar Vincent e seu rosto impassível. — Não estou chamando o
Parker de mentiroso! Só quis dizer que ele não é sincero o tempo
todo... Não! Ele é sincero, mas não é isso... Ai, meu Deus!
— Mandy. — Vincent colocou a mão em seu ombro, achando
suficiente a pressão que havia colocado nela. — Você parece uma
boa garota. Tenho certeza de que é uma.
— Sim, eu sou uma boa garota! Isso ficou esquisito...
— Minha única preocupação é cuidar de Parker e de quem ele
gosta. E vejo que deve gostar de você para convidá-la para morar
com ele.
— Sim...
— E era isso que eu precisava saber. Obrigado, Mandy.
— Obrigada... Quero dizer, de nada, Vincent. Obrigada
também por cuidar do Parker.
— Vou levar esses dois aqui para o veterinário.
— Claro. — Ela permitiu, mesmo não achando que aquilo
estava sob discussão. Seu medo por Vincent era do mesmo
tamanho que o achou intimidador. De um jeito bom e justo, é claro.
Ela foi até a cômoda e pegou as coleiras dos dois. E enquanto o
mesmo as arrumava nas duas bolinhas de pelo preta, com uma
coragem que não sabia de onde, o filmou escondida e mandou para
Parker.
— Obrigado, Mandy. Foi um prazer te conhecer.
— Foi um prazer também, Vincent. Volte sempre... Pra ver o
Parker, não eu! Eu sou só a amiga dele e sua também... Eu acho
que sou. Vou avisar o Parker que você levou os dois tá, tchau!
Fecha a porta, por favor!
A garota correu pelo corredor e Vincent sorriu pela forma
afobada e amedrontada dela. Pelo menos havia comprovado que
não era um perigo para Parker, se não considerasse seu jeito tímido
e nervoso.
Com os dois animais no carro, os controlando para que não
saíssem do banco da frente, foi em direção a clínica veterinária.
Depois de um tempo, diminuiu a velocidade e segurou o cachorrinho
em seu colo e prendeu a gata no banco. Estava de certa forma
contente pelo que faria a seguir, e pela primeira vez em um tempo
se viu com saudade de Parker. Aquelas três coisinhas teimosas e
agitadas eram sua responsabilidade dali em diante.
Ao entrar na clínica, foi em direção ao balcão da recepção e
percebeu o sorriso astuto do garoto solícito. Se fosse em outra
ocasião o acharia bonito e cogitaria tentar uma aproximação, no
entanto aquilo nem passou por sua cabeça, pois quem queria
estava a milhares de quilômetros de distância.
— Como posso ajudar, senhor?
— Quero passar esses dois em um check-up e ver se está
tudo certo. Faça todos os exames e dê os remédios de pulga e
essas coisas. — O menino pegou os dois e os colocou em caixas de
transporte.
— Aqui estão os preços e...
— Não precisa me mostrar nada. Só me informem se estiver
algo errado.
— Certo.
— E corte as unhas da gata. Não se esqueçam!
— Você sabe me dizer se eles têm algum tipo de alergia?
— Adotamos recentemente... Meu namorado adotou, mas ele
não está aqui agora. Não acho que tenham. — Vincent fez carinho
na gatinha, que esticou a pata para ele. — Se acontecer alguma
coisa com eles...
— Cuidaremos bem deles, senhor. Pode deixar.
— Espero que sim.
— Okay. — O menino pegou um papel e caneta para colocar a
identificação. — E quais são os nomes deles?
CAPÍTULO 09 - Mundo Cor De
Rosa

Estávamos novamente em um carro, a caminho do cemitério.


Mas só conseguia pensar em todas aquelas pessoas que me
cumprimentariam sendo que eu não sentia o mínimo de
consideração. Ele poderia ter sido bom para muitos, mas não para o
seu próprio neto... sua própria família.
Harvey não estava tão mal quanto antes, acredito que por
conta de todo apoio que recebera de nossa mãe antes de sairmos.
Eu sabia que ela não tinha o menor pingo de empatia pela morte
daquele homem e só queria apoiar os dois homens de nossa família
disfuncional. Já que seriam eles quem administrariam tudo o que o
nome Ivanov possuía. Eles precisavam se manter firmes e ela
prezava pelo futuro e pela segurança que uma renda alta e fixa
proporcionava.
Não que ela fosse tirar algum proveito daquilo, pois já não
tinha nenhuma ligação com aquela parte da família a mais de oito
anos, mas até mesmo ela sabia que não poderia deixar o próprio
filho cair em um luto. E pela forma carinhosa que meu irmão tratava
a memória de nosso avô, realmente aquele velho havia sido alguém
completamente diferente de quem era no passado.
Meu pai olhou o caminho, estranhando por onde íamos e
questionou Turman. O traiçoeiro havia dito que precisavam passar
na empresa antes do cemitério, pois o advogado da família estava
encerrando todos os documentos da herança, e de acordo com o
desejo de Gortan Ivanov, aquele era uma de suas condições.
Assim que o carro cruzou por aqueles portões enormes notei o
quanto meu pai havia crescido e me questionei se teria o mesmo
sucesso comigo ao seu lado. Meu avô teria razão quanto a
atrapalhar a evolução de tudo só pelo fato de eu ser gay? Sabia que
aquele país era preconceituoso, mas era ao ponto de sabotar a
carreira de alguém promissor só por causa daquele fator?
Turman me olhava o tempo todo, o mesmo olhar de todas as
vezes que visitava minha casa para conversar com meu pai sobre
negócios. Não gostava nenhum pouco dele e sabia que suas
intenções eram as mesmas de uma cobra pronta para dar o bote em
sua presa. Não havia nada de bom vindo daquele homem e sabia
que se tivesse a chance assumiria o controle de tudo deixando o
total de zero coisas para Yorick.
O prédio enorme e de vidraça espelhada preta se erguia em
incontáveis andares. A segurança era ainda mais imponente, pois
havia homens armados em todos os locais possíveis. Talvez até
atirassem em mim se fizesse algum movimento brusco. O frio não
amenizava nada e quando entramos a grandiosidade do espaço me
fez sentir ainda menor e fraco. Seria uma boa tática para
amedrontar adversários daquela forma.
Uma das recepcionistas liberou nosso acesso e um segurança
cumprimentou os três homens a nossa frente. Tudo o que eu
escutava era o barulho do salto-alto de minha mãe indo de encontro
ao chão de mármore brilhante. Tudo estava no mais completo
silêncio, como se também estivesse de luto pelo seu criador.
Quando chegamos ao trigésimo segundo andar, o último
daquela enorme empresa, ficamos todos em uma pequena sala de
espera em frente a uma sala de reuniões. Me afastei depois de
alguns minutos para buscar água, mas tudo o que eu queria fazer
era procurar uma janela para me jogar dela...
Mentira, não queria me suicidar, mas queria ar puro. Até
mesmo aquele ar-condicionado era homofóbico, pois não conseguia
de jeito nenhum respirar direito. Dei longos goles em três copos até
que senti a presença de alguém. Turman estava com seus olhos
brilhantes em mim e um sorriso tão perigoso quanto.
— Não pude deixar de reparar que você cresceu bastante,
Parker. Como foi a vida no Brasil? Soube também que está
estudando em Bisera.
— Estava ótima até meu pai e você aparecerem para destruir
tudo.
— Não diga isso. — Mostrou ao redor ao abrir os braços.
Poderia até ser um homem lindo com todos aqueles músculos, até
mesmo eu tinha que admitir aquilo. No entanto, Vincent o vencia em
todos os aspectos possíveis. — Olhe tudo o que o seu pai
conquistou só pra poder voltar a falar com você.
— Ele não fez isso por mim.
— Tudo o que ele falava em todos esses anos era em como
queria poder voltar a falar com você. Voltar a ser o seu pai. — Sorriu
dando mais alguns passos em minha direção, mas não movi um
músculo sequer. Sabia que estava tentando me intimidar com o seu
tamanho. — Sei do que estou falando, porque era eu quem
escutava o seu pai todas as vezes que bebia demais e se
arrependia de ter deixado o filho amado.
— E você, como um bom amigo, está tentando ajudá-lo? Por
favor, Turman, nós dois sabemos que você é tão caridoso quanto
um homem morrendo de sede no deserto e com somente uma
garrafa de água.
— Não perdeu sua língua afiada, não é?
— Não é porque estou mais velho que pode agir desse jeito
comigo. Eu sei o que você quer fazer, Turman. Reconheço o olhar
de um tarado de longe. — Me aproximei dele, encarando seu rosto.
— Mas isso não vai acontecer. Não me tinha antes por causa da
idade e nem vai ter agora, porque eu prefiro morrer a encostar em
você.
— Pensei que todos vocês eram fáceis. Eu sou um homem
atraente, Parker. Não pode negar isso.
— A sua personalidade acaba com todas as suas qualidades.
Qualquer um que aceite ficar com você devia se internar em uma
clínica de reabilitação, porque você é uma droga e não serve nem
para dar prazer.
— Olha como fala comigo, garoto! — Segurou meu braço, me
impedindo de passar por ele. — Você não está querendo que eu
seja bruto com você, está?
— E o que você vai fazer? Abusar de mim no meio do corredor
da empresa que você trabalha? Sei que possuem várias câmeras
aqui e espero que não venham pedir uma explicação de porque
você está me segurando tão agressivamente.
— Está tudo bem aqui? — Harvey questionou, olhando irritado
para Turman.
— Está sim, moleque. Só estava conversando com seu irmão
sobre tudo o que aconteceu.
— Não perguntei para você, seu merda. — Harvey retrucou e
vi o sorriso daquele crápula se tornar ainda maior.
— Já bebeu, Harvey? Geralmente só faz burradas quando já
está caindo pelas paredes.
— Mas ainda consigo arrebentar a sua cara se vier de graça
pra cima do meu irmão.
— Acho que esqueceu com quem está falando.
Eu poderia até revirar os olhos para toda aquela confusão,
afinal, qual era a necessidade de todos tentarem me defender sendo
que sempre tive tudo sob controle? Estava prestes a acabar com
toda aquela palhaçada quando toda a minha segurança foi sugada
de mim quando aquele homem saiu da sala de reuniões.
Não era possível! Devia estar realmente passando mal para
que aquela visão maldita aparecesse. Com a mesma bengala de
antes e se vestindo como um advogado pronto para destruir a vida
de alguém, meu avô, aquele que havia tirado tudo de mim oito anos
atrás, apareceu.
Minha mãe estava tão aturdida quanto eu, então aquilo não era
minha mente me pregando peças. No entanto quem realmente não
estava bem era Yorick. Não conseguia imaginar o que se passava
em sua cabeça, mas algo estava explícito e era o sentimento
chamado raiva. Ele segurou o mais velho pelo colarinho, mas
diferentemente da força que o senhor tinha antes, tudo o que via
nele era uma sensibilidade palpável.
— Como você...? O que você fez? O que você está fazendo?
— Meu pai gritou, porém Turman foi até eles para os separar. —
Você sabia disso? Mas que palhaçada é essa?
— Eu precisava conversar com todos vocês. — Me encarou.
— Todos vocês. Sei que não foi a melhor forma de fazer isso e eu...
— A melhor forma, pai? A melhor forma? Você acha que essa
não foi a melhor forma? Você sabe o que fez? Falar que estava
morto? O que você tem na cabeça?
— Yorick, eu preciso falar com todos vocês. Minha vida está
acabando. Peço desculpas por isso, mas não sabia outra forma de
trazer todos aqui.
— Gortan, você poderia ter ligado. Mentir a própria morte é
ridículo, além de ser um crime. — Minha mãe disse se levantando,
ainda descrente que aquele homem realmente estava parado a
poucos metros dela. — Se é um assunto tão importante...
— Seu filho não viria, Harper. — Interrompeu minha mãe e me
olhou. No entanto eu ainda continuava parado no mesmo lugar.
Meu pescoço estava completamente imóvel devido a tensão.
Eu sentia meus pés afundarem no chão e um zumbido em meu
ouvido teimava em querer me deixar surdo. E até acharia aquilo a
melhor alternativa para nunca mais escutar aquele velho falar. Como
ele tinha coragem de fazer algo como aquilo e ainda agir
naturalmente, como se estivesse fazendo algo benéfico?
— Parker, você não viria por vontade própria. Eu tentei te ligar,
mas você não me atendeu. — Ele esperou uma resposta minha,
porém ela não veio. — Eu sinto muito pelo que aconteceu no
passado, mas eu realmente quero me desculpar com você...
— Eu queria que você estivesse morto.
— Parker, eu sei que errei como seu avô e é compreensível
que não queira me ver...
— Eu queria que você estivesse morto! — Repeti. O ódio por
ele tomou conta de mim. — Você destruiu a minha vida. Destruiu
qualquer chance de eu ter um pai e ou mãe que se preste! Você
destruiu todas as minhas chances de ter uma família! Você sabe o
que é isso?
— Me desculpe, Parker. — Ele tentou se aproximar, mas parou
quando dei um passo para trás. — Por favor, me deixe conversar
com vocês. Eu preciso explicar o motivo de ter feito tudo isso.
— Eu não me importo com nada que venha de você!
— Eu precisei... — Gortan respirou com certa dificuldade.
— Eu não me importo! Eu vou embora daqui! — Me virei para
caminhar, mas parei quando ele voltou a falar.
— Se você não ficar, eu não posso seguir com a minha vida.
— Além de velho é surdo também?
— Eu preciso que assine os papéis da sua herança.
— Eu não quero nada que venha de você! Dê para o Harvey,
porque ele é o neto que te ama.
— Parker, eu tive que fazer o que fiz! Estava correndo perigo
de vida e não poderia deixar que...
— Você devia ter deixado te matarem. Dessa forma só teria
destruído a sua vida!
— Parker...
Desci os elevadores controlando minhas lágrimas para não
fraquejar naquele lugar maldito. Como aquele velho idiota teve
coragem de mentir sobre algo tão grave? O que se passava na
cabeça dele? E ainda por cima acreditava que conseguiria falar
comigo depois de tudo o que me fez passar e desgraçar toda a
minha vida? Era ridículo somente pensar na possibilidade de me
sentar no mesmo ambiente que ele depois de tudo. Se pensava que
lhe daria uma chance estava mais senil do que aparentava.
Os seguranças do lado de fora me olharam, mas não se
atreveram a me tocar. Talvez soubessem quem eu era, o que foi
bom para que saísse de lá o quanto antes. Não tinha a menor ideia
de onde estava indo e aquele lugar parecia tão ameaçador quanto
as coisas que escutava na televisão ou em notícias. Era tão frio e
morto, que era quase como se um país não tivesse uma alma.
Parei depois de um tempo em uma rua deserta e peguei meu
celular. Queria ligar para Vincent e pedir sua ajuda, porém sabia que
aquilo seria impossível. Não queria também o envolver naquela
bagunça toda e percebesse o quanto eu era um poço de tristeza e
falsidade. Talvez estivesse no curso certo. Pelas coisas que
aconteciam em minha vida teria que sustentar um personagem
alegre para sempre e somente me permitir chorar sozinho... Que era
como sempre me sentira.
Eu queria aquele policial, e até poderia dizer que queria ser
seu namorado, mas realmente não sabia o que fazer. Nunca me
relacionara com ninguém e saber que algo poderia surgir era
assustador. Ele, caso o momento surgisse, me pediria em namoro?
Será que era um desses homens que sentiam a necessidade de
firmar uma relação com um pedido e um anel no dedo ou ele não se
importava com esse tipo de coisa? E se lhe contasse sobre todo o
meu passado e as coisas que me atormentavam? Seria ele forte o
suficiente para aguentar todos os meus problemas e tudo o que me
fazia ser fraco?
Muitas vezes Vincent parecia se importar comigo, e aquilo
percebia nos mínimos detalhes, como quando falava de meus
bichinhos e reclamava sobre as unhas de minha gata, pedindo para
cortá-las o quanto antes; dizendo que minha comida era boa e que
eu deveria cozinhar para ele novamente. Porém em outros
momentos era como se não tivesse um filtro ou se importasse se o
que falaria me machucaria. Como quando insinuou que eu era um
garoto de programa.
Queria acreditar que suas qualidades superavam seus defeitos
e que não era uma pessoa totalmente fodida da cabeça como a
minha família. Esperava que ele não fosse e queria que me
abrigasse em seus braços, pois ele havia me trazido a sensação de
segurança. Eu não precisava segurar meus impulsos quando estava
do seu lado e aquela era a melhor sensação do mundo. Ele me fazia
perceber quem eu realmente era debaixo de todas as minhas
máscaras.
Peguei meu celular e mandei uma mensagem para ele,
questionando como estava e pedindo que me falasse algo para me
confortar, como havia feito quando estava no avião vindo para
aquele país. Ele me respondeu depois de alguns minutos com um
simples "Vai ficar tudo bem!" e nada mais além. Fiquei descrente
com aquela resposta. Ao mesmo tempo que era carinhoso, era um
desalmado.
Talvez fosse decorrente de seu trabalho e depois de tanto
tempo convivendo com pessoas fechadas havia absorvido aquela
personalidade. A verdade era que eu tinha emoções demais para
nós dois. Era até cômico de se pensar que me apaixonaria pela
pessoa mais fria que pude conhecer em toda minha vida...
Apaixonado...
Guardei o aparelho no bolso, mas desejei ter alguém me
ligando na mesma hora, pois novamente a solidão e realidade me
atingiram. Em qualquer outro momento eu teria somente ignorado
aqueles problemas e voltado a ser o garoto passivo
emocionalmente, mas já estava de saco cheio daquele joguinho,
seja ele qual fosse. Estava em um país que me odiava, no funeral
de alguém vivíssimo que odiei grande parte da vida, e que me fez
odiar quem eu deveria amar. Definitivamente, não era o momento
certo.
Depois de quase duas horas zanzando pelo centro daquela
cidade horrível, pedi um táxi para me levar para a casa. No carro
pensei em meu irmão e em como estava depois de tudo aquilo.
Poderia até ser egoísta de minha parte deixá-lo, mas para que
pudesse ajudá-lo deveria estar em condições para tal, o que
definitivamente não estava. Sentia que alguma coisa muito mais
grave tinha acontecido, pois Gortan havia mudado completamente.
Ele nunca havia trocado palavras ou tentado se explicar por nada,
mas perguntar estava fora de cogitação. E não tinha motivos para
me intrometer naquele assunto. Se ele quisesse se arrebentar
acharia ótimo, mas que ele fizesse aquilo quando eu estivesse a
milhares de quilômetros longe dele.
Eu me importava com Harvey e queria que não se
encrencasse com nada, mas odiava ainda mais que me usassem
como desculpa. E sabendo como as pessoas podiam ser
manipuladoras e sujas, não duvidaria de que aquele nojento do
Turman inventasse algo sobre mim e nossa conversa. Ou tentasse
se aproximar de mim ou algo pior, como havia insinuado. Ele era
maior que eu, e mesmo sabendo me defender não queria correr
aquele risco. Era só o que me faltava ficar no meio de outra
confusão. Minha vida seria calma e eu faria com que ela fosse
daquele jeito, mesmo que tivesse que me mudar de novo.
Assim que cheguei na casa de meu pai já estava pesquisando
passagens de avião para Bisera. Não ficaria nem mais um dia
sequer naquele lugar. Um dos seguranças da casa que me deixara
entrar havia falado com alguém no rádio. Desconfiei que estava
avisando alguém sobre meu sumiço.
Depois de uma hora senti meu irmão atrás de mim e ele viu
minha pesquisa. Não estava bem e talvez nem tivesse conversado
com nosso avô. Harvey sempre havia me protegido quando
estávamos juntos, mas aquela não era a hora para me importar com
aquilo.
— Você não pode ir embora amanhã?
— E por que não posso ir hoje? — Fechei minha mala e tentei
passar por ele, mas sem sucesso. — Nosso avô não foi enterrado,
está completamente vivo, só não consigo dizer que está lúcido,
porque ninguém decente faz o que ele fez. Eu não aguento ficar
aqui, Harvey.
— Você não tem nenhuma consideração? — Era o que me
faltava! Lidar com o drama do meu irmão.
— Por quem?
— Por ele! Por mim! — Respondeu indignado. Eu não estava
acreditando naquilo!
Havia evitado uma discussão com um possível estuprador,
com meu não tão morto avô homofóbico para ter uma com meu
irmão que, de uma hora para outra, parecia ter esquecido tudo o
que acontecera. Harvey poderia ser muitas coisas e recebido muitas
pancadas nas brigas que arrumava, mas sabia que não perdera a
capacidade cognitiva. Obviamente estava tentando me fazer ficar
para que tivessem tempo de me prender naquela casa. Talvez até
me vendessem para quem quer que queria matar nosso avô. Não
duvidava de nada.
— Por você eu tenho consideração. Eu te amo, Harvey. Mas
por ele eu não sinto nada! Não tenho nada para dizer e eu não
quero ter nenhuma ligação com ele. Eu vim até aqui por você e não
confunda isso. Ele era seu avô e o homem que me odiava.
— Mas... — Tentou falar, porém fiz sinal para que parasse.
— Eu vou embora, Harvey. Não me siga e não se atreva a falar
para alguém me seguir, porque se isso acontecer, não vai ter mais
um irmão, me entendeu? Não me siga e repasse a mensagem para
todo mundo dessa família doida que a gente tem.
Assim que fechei a porta do meu quarto desci direto para a
cozinha procurar algo para comer no caminho, mas não tinha nada
além de ovos e alguma coisa verde, que eu tinha quase certeza que
estava estragada. Decidi que compraria algo no aeroporto, pois era
melhor não arriscar colocar nada daquela casa na boca. Não
correria o risco de pegar alguma intoxicação alimentar.
Pensei em meu pai à medida que caminhava para fora daquela
casa e achei que deveria me despedir dele. Ele estava tentando se
aproximar e eu sentia que devia isso a ele. Porém se fizesse aquilo
me impediria de ir. Quando estava quase passando pela porta
escutei alguns passos na escada e lá estava minha mãe. Não queria
encontrar com mais ninguém para não ter que dar explicações, e
esperava que aquele fosse o momento em que Harper Hayes não
se importasse com o filho.
— Indo sem se despedir? — Se aproximou, arrumando o
cachecol em meu pescoço.
— Eu não gosto de despedidas e muito menos desse país e as
pessoas que vivem nele. — Peguei meu celular e pedi um táxi.
— Seu pai não vai gostar nada disso. — Arrumou seu casaco
quando o ar gelado atingiu seu corpo devido a porta aberta.
— Ele não tem que gostar de nada.
— Fiquei tão chocada quanto você sobre o que aconteceu,
Parker.
— Se não ficasse confirmaria que não tem sentimentos.
— Não precisa me atacar. Eu sou sua mãe e não sou tão fria a
ponto de deixar aquele homem se aproximar de você de forma tão
fácil.
— Eu não me importo, mãe. — Olhei o celular, vendo o taxi se
aproximando cada vez mais. — Pensei que ficaria para conversar e
ver o que ele tinha para dizer.
— Seu pai não deixou ninguém falar com ele, e depois que
você saiu seu irmão não demorou muito para ir atrás de você. Onde
estava?
— Conhecendo a maravilhosa Rússia. É um país muito
agradável. Até penso em vir mais vezes.
— Sua ironia é admirável, Parker.
— Bom, agora tenho que ir. Até qualquer dia, mãe.
Agradeci quando o motorista me ajudou com minhas bagagens
e entrei no automóvel que começou a deslizar lenta e suavemente
pela estrada. Fechei a janela e daquela vez não senti o cheiro do
mar. Nem aquilo me era mais atrativo. Encostei a cabeça no banco
e fechei os olhos, entrando em um estado de calmaria que só
cessou com a minha chegada no aeroporto.
Agradeci novamente ao homem e entrei naquela grande
estrutura. Fiz todos os procedimentos de embarque e me sentei em
uma mesa de uma lanchonete qualquer. Em meu celular havia uma
ligação perdida de Vincent e uma mensagem de Pamela me
perguntando onde estava. Respondi que somente estava voltando
de viagem, pois senão aquela garota me encheria a paciência
querendo detalhes de tudo e meu drama familiar seria cansativo
demais de explicar. Fiz menção de ligar para o policial, porém
desisti. O que falaria para ele? Queria ouvir sua voz e a saudade de
seu toque tomou conta de meu coração. No entanto, seria de noite
em Bisera e ele estaria dormindo.
Então pacientemente esperei meu voo ser anunciado e me
preparei mentalmente para a longa viagem. Pedi um chá de
camomila para a comissária de bordo, seguindo o conselho da
atendente brasileira e logo fui derrubado, acordando aqui e ali, mas
dormindo a maior parte do percurso. Era uma dica que levaria para
a minha vida inteira e se visse a salvadora de minhas futuras
viagens pagaria alguma coisa a ela. Mesmo com todas as escalas
fazendo o voo total ter quase vinte horas, não fiquei tão enjoado
quanto pensei que ficaria.
Assim que foi anunciado que estávamos em território
conhecido, senti como se um peso saísse de minhas costas e
finalmente pude respirar aliviado. Meu pai não estaria lá, ou minha
mãe e muito menos Gortan. Decidi não pensar naquele ser e
considerei que ainda continuaria morto. Esperava que não tivesse
se sentido renegado, pois não queria nem mesmo ser motivo para
atormentar sua vida. Não conseguia deixar tudo para trás. Havia o
perdoado há muito tempo, mas nunca esqueceria daquele
momento. Foi a partir dele que entendi que deveria ser uma pessoa
boa, mas forte para me defender tanto física quanto
psicologicamente. Aquele papo de virar o outro lado do rosto
quando receber um tapa era uma bobagem ridícula. Ser idiota não
era uma virtude!
Assim que o taxi me deixou em frente ao meu prédio tive um
bug cerebral por conta do fuso horário. Eram cinco e cinquenta e
dois da tarde quando cheguei e somente sete horas da manhã
quando sai da Rússia. Soltei um suspiro de alívio e olhei para a
padaria que ficava logo em frente. Entrei na recepção e pedi para
que olhassem as minhas malas enquanto eu comprava meu sonho
sagrado. E assim que saí de lá, comendo e sentindo sua macies,
tudo o que eu precisava era me deitar em minha cama com meus
bichinhos.
Perguntei se Mandy havia voltado da faculdade e o porteiro e
recepcionista me disse que sim, mas tinha ido ao mercado.
Aproveitei para avisar definitivamente que ela moraria comigo e que
tinha todas as autorizações como uma moradora. No elevador, meu
coração batia ansiosamente para que chegasse logo dentro de meu
lar. Queria me jogar no sofá e ficar sem fazer nada pelo menos
naquele dia. Queria descansar até meu corpo criar vontade própria
e se levantar sozinho. No momento que tirei minhas chaves da mala
escutei o latido de meu cachorrinho. Sorri ao saber que alguém
estava a minha espera e quando me viu ficou sob as patinhas
traseiras balançando o rabinho. O peguei no colo, fechando a porta
com os pés.
— Olá, meu amorzinho. Como você está... — Ele tinha uma
coleira azul no pescoço com um nome escrito. — Benj? Quem
colocou esse nome em você, meu filho?
Fui até a gatinha e ela estava com uma coleira rosa com o
nome Jasmin gravado. A beijei e deixei os dois no chão, correndo
para a cozinha tomar um copo de água. Me apoiei no balcão e tirei
meu celular do modo-avião e vi milhares de mensagens de meu pai,
ligações perdidas de Harvey, e também mensagens de Vincent me
perguntando onde estava. Por mais que quisesse respondê-lo
ignorei a todos. Queria deixar tudo para mais tarde.
Tirei minha roupa e fui direto para o banho, ficando um bom
tempo aproveitando a água quente escorrer pelo meu corpo.
Coloquei meu pijama, que praticamente era uma camiseta grande e
velha e um short do mesmo tom pastel de rosa. Minha avó havia me
dado quando eu disse gostar daquelas cores. Nunca o jogaria fora,
mesmo que fosse somente para deixá-lo guardado. Sentia sua falta.
Ela sempre esteve do meu lado e fora minha mãe quando Harper
Hayes não fora.
Eram quase sete horas e Mandy não havia chegado, então
decidi preparar nosso jantar. E enquanto o fazia, foi impossível não
lembrar da última vez que cozinhei e para quem. Estava com
saudades dele e com toda a certeza queria que estivesse sentindo o
mesmo; que me ligasse para que eu pudesse sentir que sua
atenção estava em mim. Mesmo que fosse grosso, como sempre
era, não me importaria, pois estaria sendo grosso comigo. E aquilo
seria mais um motivo para que eu o corrigisse e ele suspirasse
indignado. Aquele suspiro era tudo o que eu queria ouvir, mas
infelizmente teria de esperar um bom tempo, porque aquelas horas
ele estaria em seu trabalho, como o viciado que era. Ainda não
achava certo ele se doar tanto e esquecer de si.
Mandei uma mensagem para Mandy e questionei se já estava
chegando, mas assim que foi enviada escutei a porta se abrir, e lá
estava minha nova companheira de apartamento. Ela não havia me
visto, mas obviamente sentido o cheiro do macarrão, pois olhava
para todos os lados me procurando. Apareci em seu campo de visão
e ela sorriu, largando os papéis e sacolas de compra na mesa, e
veio em minha direção me dando um abraço apertado.
— É possível sentir tanto a sua falta em tão pouco tempo?
— É sim! Eu sou maravilhoso, Mandy! Qual o seu problema?
— É um convencido também. — Me soltou e foi em direção as
panelas vendo o que tinham. — Ainda bem que voltou. Pamela não
me deixava em paz perguntando sobre você ou pedindo conselhos
para os caras que está saindo. O que é completamente sem
sentido, porque eu nem nunca tive um namorado.
— Ai, Deus. — Ri e peguei os pratos para nos servirmos. —
Amanhã eu estou de volta e ela te dá um descanso.
— Outra pessoa que ficou perguntando sobre você foi
Frederick. — Me olhou com uma sobrancelha erguida. — Ele gosta
de você pelo que tudo indica.
— Eu sei.
— Sabe?
— Sim. — Então contei da conversa que tivemos e do pedido
para sairmos. Ela estava parada no meio da cozinha me olhando
como se eu fosse feito de ouro.
— Eu não acredito nisso. — Me acompanhou e sentamos no
sofá. Benj e Jasmin ficaram aos nossos pés, na esperança de que
déssemos algo para eles.
— Pois pode acreditar. De início eu achei que ele tinha alguma
coisa com aquela loira, que eu não lembro o nome, mas talvez ele
seja bissexual. Quem sabe?
— Eu não quero ser inconveniente, mas está tudo bem com
você? Por conta do velório do seu avô.
— Esse é um assunto que não quero falar com ninguém,
Mandy. Quem sabe amanhã eu esteja melhor e te explico a bagunça
que minha família é. — Revirei os olhos e o nome do meu
cachorrinho brilhou na coleira. — Quem deu esses nomes para os
meus bichinhos?
— Foi seu namorado policial bonitão. — Sorriu enquanto
tentava mastigar. — Vocês dois estão namorando? Porque ele disse
que era seu namorado e parece muito que é seu namorado. Ele
ficou muito à vontade aqui.
— Ele disse que é meu namorado?
— Sim. Não estou mentindo de jeito nenhum.
— Ele disse que é meu namorado? — Sorri, mal contendo
minha felicidade por saber daquilo. Vincent havia se apresentado
daquela forma para alguém que não conhecia, o que era um indício
de que não tinha vergonha de mim.
— Disse, Parker! E entrou aqui sem medo nenhum.
— Ele é um folgado mesmo. — Sorri, lembrando daquele
homem. — Mas nós não temos nada. Eu queria muito, mas não
somos namorados. Ele não me pediu em namoro e nem comentou
isso comigo, então não é válido. Nem sei se ele é esse tipo de cara
e provavelmente falou isso para entrar aqui sem problemas.
— Eu já não acho isso. — Se levantou e foi em direção da
cozinha e começou a gritar de lá. — Ele me encheu de perguntas do
tipo bem protetoras. Até me senti em um interrogatório.
— Me desculpa por isso, Mandy. Não me lembro de ter
autorizado ele a subir. Vou falar com o porteiro. — Ela voltou e
pegou meu prato, pois já tinha terminado de comer. — Obrigado.
— De nada. — Parou antes de ir ao outro cômodo, e me olhou.
— Obrigado de novo por me deixar ficar aqui.
— Não foi nada. — Me ajoelhei no sofá, ficando na sua altura.
— Isso vai ser bom tanto para mim quanto para você.
Ela me abraçou com o braço livre e ficamos assim por uns
trinta segundos. Sabia daquilo, pois ela estava contando bem
baixinho. Dei risada e a encarei em questionamento.
— Eu vi que se você ficar trinta segundos abraçando alguém o
corpo libera hormônios da felicidade. — Deu de ombros. A
campainha tocou enquanto ela passava perto e pelo olho mágico viu
quem era. — Mas eu acho que dá certo, pois o seu hormônio
grandão da felicidade está aqui do lado de fora. — Abriu a porta. —
Olá, Vincent. Boa noite.
Meu coração começou a bater mais rápido instantaneamente
quando escutei seu nome e vi seu grande corpo passar por Mandy.
Ele batia tão rápido que deixaria qualquer cardíaco no chinelo.
Vincent estava vestido socialmente, como sempre, e vários botões
de sua camisa estavam abertos revelando seu peitoral e músculos.
Eu teria que pedir para que mudasse aquele hábito, pois não tinha
tanto controle para não avançar em seu corpo... e não tinha como
afastar os olhares indecentes pra cima dele.
Minha amiga me olhou sorrindo, mas segurando o riso. Quis
bater nela, mas antes que o fizesse saiu para cozinha levando a
louça, me deixando sozinho com o significado da perfeição
suspirante. O encarei e não pude deixar de sorrir devido ao seu
rosto impassível. Ele caminhou em minha direção como um
predador. Meu corpo tremia tanto de excitação que
involuntariamente me levantei do sofá me afastando dele. Uma
ansiedade estava tomando conta de mim que eu não pude deixar de
rir. Ele me olhou com confusão, não entendendo o que estava
acontecendo. Porém nem eu mesmo entendia.
Em minha cabeça, todas as memórias do meu avô surgiram, o
sentimento de humilhação, abandono, rejeição, tristeza, a discussão
com Harvey, a tentativa falha, mas nojenta de Turman de me
assediar, a discussão com a minha mãe antes da viagem e a
situação cansativa de meu pai tentar se aproximar insistentemente
de mim. O meu riso se tornou um choro e tudo pareceu se tornar
mais pesado. Não conseguia sair do lugar. Estava em uma crise de
ansiedade na frente do homem que gostava.
— Parker, o que aconteceu? — Ele se aproximou, mas segurei
seus braços antes de me tocarem.
— Vai embora, por favor! — Não conseguia enxergar nada,
pois as lágrimas estavam todas paradas em meus olhos. — Vincent,
você não pode me ver assim!
— Parker, para de falar merda! — Reclamou nervoso e com
um movimento rápido se desprendeu e me prendeu em seu abraço.
— Não fala assim comigo! — Tentei empurrá-lo, mas ele me
apertou ainda mais fazendo meu rosto encostar na pele descoberta
de seu peito. Era quente e seu perfume estava bem leve devido ao
longo dia, mas igualmente maravilhoso.
— Para de ser teimoso! — Levantou meu rosto e vi que estava
sério. Tão sério quanto a primeira vez que nos vimos. — O que
aconteceu?
— Nada! — Não poderia descarregar meus problemas. Ele
não tinha nada a ver com aquilo e a parte ruim da minha vida. Na
verdade, apesar de tudo, ele era a melhor parte dela no momento.
— Você é teimoso demais! — Suspirou, se sentando no sofá e
me fazendo cair desajeitadamente em seu colo. O que me fez ter
vergonha da situação, porém ele não me deixou sair.
— Vincent, me solta. Eu estou bem.
— Parker? — Mandy apareceu vindo da cozinha. Ela me olhou
e viu que estava chorando. Então encarou Vincent seriamente, o
que me faria rir se não estivesse naquela situação. — Você está
bem?
— Estou sim, Mandy. — Respondi, sorrindo de forma
amigável.
— Tem certeza?
— Está tudo bem, Mandy. — Vincent falou. — Pode deixar que
eu cuido dele. Eu te prometo isso.
— Se precisar de mim, estou no meu quarto. — Caminhou
ainda olhando para Vincent, como se estivesse convencendo a si
mesma de que o que ele disse fosse verdade.
Observei minha amiga sumir no corredor, e só então olhei para
o homem grudado em meu corpo. Ele me encarava e eu sentia
como se estivesse despindo a minha alma, pouco a pouco, para
poder descobrir o que estava me deixando daquele jeito. Vincent era
um homem intimidador, e somente pelo fato de estar parado e sem
falar nada, sentia como se fosse culpado e tivesse que confessar
um crime cometido.
— Vai me contar o que está te deixando assim ou vou ter que
ficar aqui pelo resto da minha vida? — Inquiriu e pela terceira vez
tentei sair de seu colo. — Você não vai sair daqui, Parker!
— Por que você está fazendo isso? — Mexi no primeiro botão
de sua camisa. A sensação de suas mãos em minhas costas
parecia um calmante que irradiava para todo o meu corpo.
— Isso o que? Me importar com você? — Seu tom de voz era
duro, mas eu não respondi, pois não sabia o que falar. Ele suspirou
como se estivesse cansado. — Parker, eu não sou mais um
adolescente e não tenho paciência para esses dramas.
O encarei, surpreso e ofendido pelas suas palavras. Eu não
estava sendo dramático e muito menos parecendo um adolescente
mimado. Tinha acabado de passar por uma situação horrível que
trouxera lembranças do meu passado. Aquilo não era nenhuma
futilidade e escutá-lo falar aquilo só me fez querer dar um murro
naquele rosto perfeito.
— Eu não estou fazendo nenhum drama, Vincent! Não é
porque estou chorando que eu sou um adolescente fraco. Eu tenho
problemas como qualquer outra pessoa e eles não são menores do
que os que você tem. — Tentei sair do seu colo, mas ele segurou
meus pulsos. — Me solta agora, Vincent!
— Não e para de tentar! Eu não vou te deixar! Não quis dizer
que os seus problemas não tem importância, garoto. Estou falando
sobre isso que está acontecendo entre nós dois. Eu não tenho
tempo livre pra ficar te levando em encontros e muito menos cabeça
para joguinhos. Eu gostei da sua sinceridade irritante desde aquela
noite, mesmo me irritando muito! Eu quero te conhecer, Parker. Mas
já sou velho demais para todo esse drama, então não enrole e conte
o que está acontecendo!
— Finalmente você admitiu... — O encarei. — Finalmente
admitiu que é velho!
— Não dá para acreditar nisso! — Me soltou somente para
passar a mão no rosto, mas depois segurou forte em minha cintura
com um braço e com o outro segurou o meu rosto. — Você percebe
o que está fazendo comigo, Parker? Eu não consigo parar de querer
sentir você nos meus braços. Toda vez que eu te vejo parece que eu
tenho que te ter nas minhas mãos pra ter certeza de que você não
vai sair correndo.
Ele aproximou seu rosto do meu, me fazendo sentir seu hálito
quente em meus lábios, e me peguei desejando um de seus beijos
violentos. Queria sentir minha boca sensível depois de sua barba a
arranhar com brutalidade e desejo, e queria sentir aquilo pois teria
certeza de que ele estaria ali por mim. Pelo menos por aquele
momento.
— Eu também sinto isso. — Sussurrei. — Eu nunca tive nada
assim, Vincent. Nunca tive alguém que me dissesse esse tipo de
coisa e que não me decepcionasse depois. Eu não quero me apegar
a você para depois ver você sair da minha vida como se eu não
fosse nada.
— Eu não vou mentir e dizer que vou ser igual esses garotos
da sua idade, ficar te bajulando o tempo todo e vivendo nesse seu
mundo cor de rosa. Mas uma coisa que eu não vou fazer é brincar
com você! — Segurou meu queixo e aproximou seu lábio do meu.
— Eu vou ser completamente sincero com você do começo ao fim e
quero que faça o mesmo. Me ouviu?
— Eu prometo. — Assenti e finalmente senti seu beijo bruto,
que fez meu corpo tremer em excitação. Ele subiu a mão pela minha
perna, passando por debaixo do meu short e apertando minha coxa,
bem no limite de onde minha cueca estava, e eu tive vontade de que
ele avançasse mais, porém aquilo não aconteceu. — Você pode
fazer somente uma coisa por mim?
— O que você quer? — Questionou passando sua barba em
meu pescoço, me fazendo gemer involuntariamente. Vendo minha
reação ele a passou um pouco mais forte naquela região, a
deixando ainda mais sensível.
— Você pode, pelo menos as vezes, me mimar para eu me
sentir feliz no meu mundo cor de rosa? — Sorri e o escutei suspirar,
sentindo sua respiração quente. Ele riu e eu adorava aquele som da
mesma forma que seus suspiros.
— Você não tem jeito mesmo, Demoniozinho. — Me beijou
novamente. Sua língua passava na minha e a queimava de desejo.
— Por favor? — Voltei a pedir. Senti sua mão apertar minhas
bochechas e ele morder o bico que se formou em meus lábios.
— Eu vou me arrepender disso?
— Eu não posso te prometer que não. — Sorri, enquanto
sentia sua barba em meu queixo. Benj latiu aos nossos pés e eu
sabia que ele queria comida. — Outra coisa, Vincent, de onde você
tirou esse nome? Benj? O que é isso?
— Meu pai sempre quis ter dois cachorros, mas a mãe dele
nunca deixava, e quando ele teve os nossos quando eu era criança
a minha mãe escolhia os nomes. Então eu decidi fazer isso com
esses dois.
— Nos meus bichinhos?
— “Nossos”. Meu contato está na clínica veterinária.
— Você... De onde você tirou “Benj”? Meu Deus, eu nunca
escutei esse nome na minha vida. — Peguei Jasmin, enquanto Benj
subiu entre nós.
— Você ainda não percebeu? — Fiz que não. — "Benj
Jasmin". Benjamin!
Ele fez uma expressão como se aquilo fosse o mais óbvio
possível, e tudo o que consegui fazer foi rir. Ele me tirou de seu
colo, nervoso com a minha reação. Ele chamou meu cachorro, que
o seguiu como um bom companheiro e o fiquei observando.
Eu soube que a partir daquele dia ele faria parte de meu
“mundo cor de rosa”, como ele mesmo tinha dito. Ele querendo ou
não. Vincent poderia não ser o adolescente apaixonado que sempre
assisti e me apaixonava nos filmes, mas com certeza era muito
melhor que todos os possíveis pretendentes.
Não era difícil se encantar pelo seu jeito, mas ali, como ele
perto de mim e me deixando ver um lado mais humano de si, me fez
ter a certeza de que era um bom homem e que poderia ser amado.
Não era uma pedra a todo momento e me permitiria ser feliz ao seu
lado, ou buscar o conforto dos seus braços quando algo em meu dia
não estivesse bom. Ele era a perfeita combinação do homem dos
sonhos de qualquer um.
E era meu. Saber de seu cuidado com Benj e Jasmin fora o
ápice da demonstração de seu cuidado. Mesmo sendo quem era,
alguém super ocupado com o trabalho, havia arrumado tempo para
fazer algo que nem de longe era sua responsabilidade. Algo tão
singelo, mas que tinha o maior significado de afeto para mim. Ele
cuidou dos dois seres que eu amava e automaticamente transferiu
seu amor para mim.
Vincent me ganhava a todo o tempo sendo exatamente quem
era e sem pedir desculpas. Era autêntico, forte e independente, ou
seja, tudo o que eu almejava ser. Mas ainda me perguntava se
existia algum buraco naquela armadura, ou se somente o
falecimento de seu pai era o momento triste em seu passado.
Diferente de mim, seria mais difícil vê-lo quebrar, no entanto, caso o
momento chegasse, se caso ainda estivéssemos juntos, estaria ao
seu lado para lhe mostrar o carinho que alguém poderia ter por ele.
Estava apaixonado por Vincent e ele por mim. O questionaria
assim que possível sobre ser alguém em minha vida, e esperava
não ter uma resposta decepcionante. Porém, com todos os
exemplos que tive até o momento, acreditaria em sua promessa de
ser completamente sincero quanto ao seu envolvimento comigo... E
eu faria o mesmo por ele!
CAPÍTULO 10 - O Homem Protetor

Com Vincent dentro do meu apartamento me sentia protegido,


mas ao mesmo tempo como se ele fosse me colocar trancado
dentro do meu quarto como fizera da primeira vez. Sabia que já
tivera momentos mais íntimos com ele, porém não conseguia deixar
de me sentir nervoso e fora de meu habitat. Somente pelo fato de
ele estar parado, sentado ao balcão de minha cozinha, me sentia
ansioso. Eu estava controlando meu corpo para não derrubar
nenhum talher, enquanto esquentava a comida para ele comer.
Ele poderia muito bem fazer aquilo sozinho, mas tinha um
cuidado extremo com as minhas louças. Acho que herdara aquilo de
minha avó. Ela tinha o mesmo zelo excessivo com suas coisas e
não deixava ninguém que não soubesse manuseá-las chegar perto.
Não que eu não acreditasse que ele não soubesse se servir, pois
sabia que sim, mas queria eu mesmo fazer aquilo, para evitar
qualquer acidente e também, pois queria que ele sentisse a mesma
coisa de quando cozinhei em sua casa.
Aquele homem estava tão confortável que me perguntava se o
que ele dissera uns momentos antes, sobre querer algo sério
comigo, era verdade. E se realmente quis dizer que era meu
namorado para Mandy. Era muito esquisito pensar que estava em
algum tipo de relação mais séria com alguém. Ele parecia tão
inalcançável para alguém como eu, que tinha a impressão de que se
dissesse algo errado ele desapareceria em uma nuvem de fumaça.
Então me concentrei no que estava fazendo, mas a sua presença
atiçava cada um dos meus sentidos. Seu perfume não tão forte
contaminava toda a cozinha e se pudesse cheirar a minha camiseta,
ele estaria lá, devido ao seu abraço. Seu toque ainda estava fresco
em minha pele, assim como o sabor de sua boca quando esteve na
minha.
Tudo estava no mais completo silêncio, com exceção de Benj
latindo para Jasmin que estava deitada no topo do sofá, e me
assustei quando Vincent me chamou. Assim que o olhei ele não
estava mais sentado, e sim em pé, perto de mim. Encarei seu peito
por conta da sua camisa totalmente aberta. Estava se sentindo
muito à vontade. Levantei meu olhar e através daquela carranca
pude jurar que estava o mínimo de um sorriso.
— Por que está tão quieto? — Se aproximou, mas não me
movi. Senti o calor que emanava de seu corpo me aquecer e
poderia ficar até sem ar se aquilo continuasse. — Você nunca fica
sem falar nada.
— Não estou falando, porque estou me concentrando em não
derrubar nada. — Passei por ele com o prato e o servi. — Essa
louça foi muito cara e eu não quero quebrar.
— Entendi. — Escutei seu suspiro. — É macarrão de novo?
— Como assim de novo? — O encarei indignado. — Se não
estiver bom para você, fique à vontade para fazer sua comida.
— Não foi nesse sentido que eu quis dizer, Parker. — Me
seguiu até a sala de estar. — Você não vai comer?
— Já comi. — Me sentei e assim que ele fez o mesmo,
entreguei o prato. — Eu fiz assim que cheguei, então ainda deve
estar bom.
— Eu sei que está. — Respondeu e me virei para não me ver
sorrir. E enquanto comia não pude deixar de o admirar.
Estava sentado com as pernas um pouco abertas, mas não de
forma folgada igual os idiotas de bolas inchadas nos transportes
públicos, e sim de forma relaxada como fazemos em casa. O seu
abdômen, mesmo em uma posição que seria possível ver alguma
gordurinha, estava perfeitamente moldado sob sua pele. E seu
rosto, mesmo sério estava sereno, leve e não carregado como
quando chegava do trabalho para me ver. Era bom vê-lo daquele
jeito e até calmante.
— Como foi a sua viagem? Não me esqueci da sua crise.
— Eu não quero falar sobre isso agora.
— Tem certeza?
— Você fala abertamente sobre os seus problemas?
— Eu quero saber o que te aconteceu.
— Não foi isso que eu perguntei, Vincent. — Ele suspirou, me
encarando por alguns segundos depois de voltar a comer.
— Você é difícil demais.
— Você que quer tudo do seu jeito. Não se esqueça que eu
não sou um dos seus agentes secretos do governo do país, Sr.
Policial-Não-Tão-Comum. — Suspirou novamente e sorri.
— Estaria demitido se fosse um.
— Que bom que eu não sou então.
— Não vai me contar o seu problema?
— Você vai me contar um dos seus?
— No momento o meu problema é o seu problema. — Eu
queria me bater por me deixar amolecer com o que falava para mim.
Parecia que ele sabia exatamente o que dizer para me fazer fraco e
suscetível a sua manipulação dominadora.
— Não é não. E não quero te contar sobre essa parte da
minha vida. Aquilo não vai mais acontecer. — Me ajeitei no sofá. —
Mesmo assim, obrigado por se importar comigo. Não sabia que era
capaz de ser gentil.
— Parker, não me provoque...
Ri, encarando a televisão a minha frente e tentando me
concentrar no que passava, porém meus olhos a todo momento me
traíam para observar de canto de olho o que homem lindo ao meu
lado fazia. Ele só estava mastigando, mas o poderia dar um prêmio
de Mastigador Mais Sensual do Mundo. No entanto o que minha
amiga havia me contado, sobre como se apresentara para ela,
também estava martelando na minha cabeça.
— Você quer me perguntar alguma coisa, garoto?
— Não. — Me ajeitei ainda mais no sofá ao seu lado e fingi
prestar atenção no programa.
E fiquei em completo silêncio, somente escutando quando o
garfo batia levemente em seu prato. Queria lhe perguntar se
realmente nossa relação seria a de namorados, mas talvez me
achasse um inseguro por algo que já tinha dado a entender. Mas o
que eu poderia fazer? Ele não havia dito com todas as palavras:
"Parker, agora nós somos namorados”.
— Anda, fala! — Mandou, e esticou um braço no sofá,
deixando o prato no seu colo. — Você está igual criança quando
quer pedir alguma coisa.
— Não estou, não! — Deixei a almofada que segurava de lado,
mas não o encarei. Ele se levantou em direção a cozinha sem falar
mais nada.
Me deitei no sofá beliscando minha perna por ser tão imaturo.
Qual era o problema de perguntar qualquer coisa a ele? Nós éramos
dois adultos em uma relação... pelo menos eu achava.
Bocejei sentindo um sono tão forte que lutei para ficar
acordado, mas ele não durou, pois meu corpo sentiu sua presença
como uma injeção de adrenalina. Ele estava perto de mim e
estendeu sua mão, me ajudando a levantar. Vincent era mais alto
que eu, pois meu rosto se acomodava perfeitamente na curva de
seu pescoço.
Ele não disse nada e somente me beijou, lentamente e com
todo o carinho que eu poderia desejar. Com toda a certeza do
mundo sentia algo por ele, e o que me fazia ter mais segurança em
me deixar levar pelos seus gestos era a certeza de que também
sentia algo por mim. Afinal, não estaria em meu apartamento ou
viria me ver todas aquelas vezes, sendo que eu não o havia dado
nada em troca, e com aquilo queria dizer sexo. Em nenhum de
nossos encontros. Ele nunca havia tentado nada além do que eu
permitia. Todas as iniciativas mais “abusadas” partiram inteiramente
de mim.
— A Mandy me contou sobre o que você falou quando veio
aqui.
— Te contou?
— Sim, Vincent. Você realmente pensa assim?
— Eu quero você, Parker. É tudo o que eu consigo pensar,
porque você me atormenta e me irrita com o seu jeito até nos meus
pensamentos.
— Você está apaixonado por mim, Vincent? Está dizendo que
está morrendo de amores por mim, igual um adolescente?
— Você é um demoniozinho, garoto. — Ele baixou seu rosto
até a curvatura do meu pescoço e inspirou profundamente. — Seu
cheiro é maravilhoso.
— Você é meu namorado agora? — Perguntei acariciando sua
nuca e o senti se mover quando riu brevemente.
— É isso o que queria me perguntar? — Me encarou e pude
ver seu sorriso. Era a coisa mais linda que poderia ver. Assenti e ele
passou o dedo em minha bochecha. — Você é sim meu namorado,
se é isso que quer saber.
— E o que isso significa especificamente? Você não vê
nenhum problema? O que você vai dizer para os seus amigos, por
exemplo?
— Eles não precisam saber. A vida vai ser nossa. —
Respondeu e tentou me beijar, mas me esquivei. Ele queria me
manter no escuro, como se eu fosse um segredinho?
— Eu não vou ser o amor da sua vida às escondidas, Vincent!
— Tentei me afastar, mas ele segurou meu pulso levemente e sorriu.
O que me irritou profundamente. — Estou falando sério! Eu não me
assumi para ser o segredo de ninguém, então se você é um
daqueles “héteros” eu não vou ser seu brinquedinho. Está me
ouvindo, Vincent? Para de rir!
— Estou ouvindo. Mais alguma coisa? — Continuou e bati em
seu peito nu, mas ele não expressou nenhuma reação.
— Isso não tem graça.
— Vai parar de drama?
— Não é drama! Eu não vou viver escondido e se é isso que
você quer, tudo acaba aqui!
— Vai parar de drama?
— Não é... — Seu olhar dominante me fez parar e respirar
fundo.
— Eu disse que eles não precisam saber, porque eu não saio
perguntando da vida deles e pouco me importa. Eu não me
interesso pela vida de ninguém no momento, com exceção da sua.
Mas se o dia chegar e eu tiver que levar alguém naquelas festas de
merda do trabalho, você vai estar do meu lado.
— Você se interessa pela minha vida? — Me ascendi e
controlei minha empolgação por ouvir aquelas coisas.
— Preciso mesmo responder essa pergunta? — Me puxou,
mas me esforcei para não me aproximar. — Dá para você parar de
birra?
— Eu não estou fazendo birra! — Reclamei. Tentou me puxar
novamente, mas não deixei. Ele me olhou como se quisesse me dar
uns tapas e suspirou. Sorri, pois eu amava vê-lo suspirar. Aquilo foi
o suficiente para me agarrar com força.
Assim que meu corpo encostou no seu foi impossível não
espalmar minha mão em seu torso largo. Involuntariamente, mas
nem tanto, o apertei e senti sua firmeza fazendo meu corpo queimar
em luxúria. Mexi minha perna para o meio das suas e senti seu
membro duro em minha coxa. Vincent mexeu seu quadril, o
arrastando pelo meu abdômen, buscando aliviar sua excitação. Ele
segurou meu rosto e me beijou com brutalidade, fazendo sua barba
arranhar minha boca da forma que eu tanto gostava.
Passei meus dedos por todo o seu peito e abdômen, o
arranhando levemente até segurar na fivela do seu cinto. O puxei
para cima e desci o zíper de sua calça, enfiando minha mão por ele
e segurando o objeto de meu desejo. Comecei a masturbá-lo
lentamente, cobrindo e descobrindo a pele de sua glande, sentindo
o seu pré-sêmen molhar meus dedos. Desci meus lábios pelo seu
pescoço deixando um beijo naquela região.
— Você quer realmente fazer isso?
Não respondi, apenas o puxei pelo seu membro para mais
perto de mim e deixei um beijo em seu queixo. O soltei e caminhei
pelo corredor em direção ao meu quarto. Eu não estava certo do
que faria, mas tive a certeza de que faria com ele. O deixaria ditar
as regras, pelo menos daquela vez, ou só por um momento. Mas me
entregaria ao prazer que poderia me proporcionar naquela noite, e a
todas as sensações que me privei por receio.
Fui para o quarto e me sentei na cama, e sorri gentilmente
quando vi Vincent entrar, agora com a calça totalmente aberta e seu
pênis em riste. Ele trancou a porta atrás de si e caminhou
lentamente até parar em minha frente, me olhando de cima. Segurei
em suas pernas e passei minha língua pela sua glande, o que o fez
respirar pesadamente. E como se aquilo fosse minha permissão, o
coloquei na boca sentindo seu gosto um pouco salgado. De certa
forma era estranho, mas ao mesmo tempo algo me fazia querer ter
mais e mais dele. Não era fácil ter toda sua extensão em mim, mas
me esforçava para que pudesse senti-lo me preencher.
Vincent colocou as mãos ao lado da minha cabeça e começou
a se mover, controlando o ritmo que entrava e saia, me deixando
louco por mais. Eu passava minha língua em volta de sua glande e
aquilo só o fazia aumentar a velocidade das estocadas, até que me
levantou abruptamente. Eu ainda pude ver um pequeno e frágil fio
de saliva se romper entre meu lábio inferior e seu membro. Ele me
beijou com força, e desceu meu short e cueca, me abrindo e
fazendo com que seu dedo brincasse com minha entrada, que se
contraia toda vez que era tocada.
— Você faz eu querer te foder sem nenhum cuidado, garoto! —
Me deitou na cama, tirando sua roupa completamente. Seu corpo
brilhava pelo suor e podia sentir seu aroma inebriante.
— Esse não é um vocabulário correto para um agente da lei.
— Me ajoelhei, tirando minha camiseta, e quando estava passando
pela minha cabeça, tomei um susto ao sentir seu queixo passar com
força de meu pescoço ao meu peito, enquanto ele distribuía beijos
pelo caminho. Senti a ardência de seu toque bruto e aquilo me fez
gemer em apreciação, e ainda mais quando mordeu meu mamilo e
passou sua língua pela região. Vincent me apertou pela cintura
como se quisesse me prender, e então sua mão desceu para o meu
membro, começando um vai e vem forte e gostoso.
Ele desceu ainda mais com sua boca até me ter nela. A senti
molhada e sua língua brincar com minha sensibilidade. Me contorcia
a cada movimento e involuntariamente tentava me afastar daquelas
ondas de prazer, porém quanto mais tentava mais me segurava em
si e sugava. Eu estava completamente à mercê de sua vontade
devido a sua força e não poderia me sentir melhor.
Ele desceu as mãos suadas da minha cintura por minhas
nádegas, até seu dedo, sem cerimônia nenhuma, me penetrar e
fazer soltar um gemido alto. Aquele safado sorriu comigo ainda em
sua boca, mas então deixou meu membro de lado, me fazendo
sentir o ar frio do quarto.
Vincent beijava minha barriga à medida que ia mais fundo
dentro de mim. Eu só conseguia pensar em controlar meus
gemidos, pois Mandy poderia escutar. No entanto aquele suspirador
maldito fazia ser muito difícil eu focar em qualquer outra coisa. Abri
minha boca levemente e logo senti sua língua se apossar da minha,
e fui tomado por aquele beijo bruto e violento que só ele tinha.
— Vincent... — Chamei quando consegui respirar. Ele gemeu
quando minha coxa apertou seu membro.
— Eu sei. — Respondeu convencido, me penetrando ainda
mais fundo com seu dedo áspero e curioso. Com habilidade e sem
deixar de me torturar deliciosamente, pegou uma camisinha em sua
calça.
— Você sempre anda com uma no bolso?
— Só depois que conheci você.
— Estava planejando fazer isso comigo?
— Desde a primeira vez que eu te vi. Só não sabia que ia ser
tão difícil assim.
— Agora que conseguiu vai me deixar pela manhã?
— Eu sou capaz de te algemar para poder te deixar só pra
mim.
— Não seria uma má ideia, sabia?
— Não me provoca, Demoniozinho. Eu quero ir com cuidado
com você.
— Eu não me importo de um pouco de força. — Ele mordeu
meu lábio.
— Você vai acabar com a minha sanidade.
— Admita que você é louco por mim, Sr. Policial-Não-Tão-
Comum!
Ele sorriu e me beijou com calma, mas intensamente. Eu
amava sentir a textura de sua barba em minha pele, pois era como
se ela queimasse e me refrescasse em arrepios ao mesmo tempo.
Me sentia um gato buscando me arrastar nela para buscar cada vez
mais aquela sensação anestesiante. Vincent parecia saber de minha
apreciação, pois sempre a passava em meu pescoço.
Ele se posicionou no meio de minhas pernas, fazendo com que
ficassem acomodadas envolta de sua cintura. Ele pressionou seu
membro em minha entrada e o forçou para dentro. Não sabia dizer
exatamente o que me tomou naquele momento, mas uma mistura
de delírios fez meu sistema nervoso e cérebro entrarem em uma
combustão de prazer. Uma dor gostosa em meu pênis me fez gemer
e segurar seus braços com força. Demorou um pouco para que eu
me acostumasse e não o rejeitasse, mas enquanto aquilo não
acontecia, sentia seu beijo em meu ombro direito subindo por meu
pescoço. Até que me preencheu, me abrindo vagarosamente à
medida que toda sua extensão me alargava para se encaixar. O
abracei buscando algum tipo de conforto e senti seu corpo molhado
de suor escorregar deliciosamente em minhas mãos, então cravei
meus dedos em seu ombro quando o senti avançar de uma vez.
— Parker... — Sussurrou. Ele não se moveu, esperando algum
sinal, como se o dissesse que estava pronto. E quando finalmente
ocorreu, apertei seu membro e o senti inchar um pouco mais. —
Não faz isso!
— Estou pronto. — Afirmei e o apertei mais uma vez.
Ele se moveu lentamente para fora de mim, até o ponto de eu
me sentir mal por não o ter abrigado dentro de meu corpo, e voltou a
me penetrar na mesma lentidão. Ele não estava mais buscando a
minha aprovação, e sim os meus gemidos em protesto àquela
tortura. Ele estava com um sorriso canalha, de quem sabia o que
estava fazendo. Sabia que os meus gemidos entre pausados com a
minha respiração denunciavam minha indignação ao não ser tratado
com força. Mas quando estava prestes a pedir por mais ímpeto ele
aumentou o ritmo, atingindo um ponto tão fundo dentro de mim que
me fez o prender com minhas pernas para que continuasse no
mesmo lugar
Vincent não se continha e estocava cada vez mais forte,
intensa e rapidamente. Me encarava a todo momento vendo o que
estava causando em mim. Apertava meu corpo buscando marcar
minha pele como sua e eu queria cada vez mais daquilo, de seu
membro quente e grosso deslizando em mim.
Ele então me virou de bruços e me abraçou pela cintura, não
me deixando mover um músculo todas as vezes que me
impulsionava para frente. Eu só sabia gemer a todas as suas
investidas. Com suas estocadas eu era tomado por espasmos
involuntários e consecutivos, tantos que até me fazia perder a
capacidade de respirar. Aquele homem sabia o que fazia e sabia
muito bem. E não foi difícil para mim ter um orgasmo tão forte e
prazeroso. Tremi com a onda de excitação que me atingiu e o
apertei várias vezes dentro de mim. Com um gemido forte vindo
dele senti meu interior se expandir à medida que ele se derramava.
Vincent deitou seu corpo no meu e senti como estava quente,
em como a sua respiração estava ofegante. Ele não disse nada e
somente ficou abraçado comigo, passando sua barba pela minha
pele já sensível no pescoço. Eu não sabia o que dizer ou fazer
naquele momento, então só aproveitei seu carinho até que peguei
no sono, cansado depois da noite mais intensa e prazerosa que tive.

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No outro dia acordei somente coberto por um lençol e com as
batidas de Mandy em minha porta, me chamando para ir para a
faculdade. Olhei para meu lado e não vi sinal daquele suspirador, o
que me causou certa tristeza, pois o esperava lá.
Me sentei na cama e mesmo que em uma fração muito
pequena, senti o resultado ardente e sutil da aventura que tivemos.
Era mais como um desconforto do que uma dor propriamente dita.
Ainda estava nu e em minha cintura estavam as marcas do nosso
prazer, as provas de que aquele estúpido delicioso havia me tomado
para si.
Vi que sua camisa estava jogada debaixo da cadeira, o que me
fez pensar se ele havia saído de lá sem ela e aquela era a única
conclusão. Propositalmente a peguei, a levando ao meu nariz e
sentindo seu perfume excitante. Mas logo me xinguei por fazer
aquele tipo de coisa. O que eu era? Alguém perdidamente
apaixonado? Sim, óbvio que era, mas também tinha dignidade.
Tomei meu banho e a todo momento que descia meus olhos
admirava e suspirava como ele, amando o que havia acontecido.
Decidi colocar uma camisa longa naquele dia para esconder
qualquer vestígio, e ainda coloquei uma blusa por cima. E poderia
esconder de qualquer um o que havia feito, mas era impossível
fazer aquilo da minha amiga, pois assim que pisei na cozinha senti
seu olhar divertido e a vontade de rir. A ignorei o máximo que pude
e de todas as formas que consegui, como ficar de costas, não olhar
em seus olhos ou reclamar de seus pigarros, mas não consegui
aguentar seu grito fino de empolgação.
— O que foi, garota? — Massageei minha orelha.
— Você não vai fingir que eu não escutei a pouca vergonha
que fizeram no seu quarto ontem! — Se balançou na cadeira do
balcão.
— Você é mesmo uma curiosa, sabia?
— Para com isso e me conta logo! — Se levantou e me ajudou
a preparar nosso café. Olhei o relógio e ainda eram seis e cinquenta
da manhã, o que nos dava duas horas antes da aula começar.
Então contei tudo nos mínimos detalhes para aquela devassa com
cara de princesinha da Disney, e quando terminei ela tinha um
sorriso de orelha a orelha. — Eu vi quando ele saiu sem camisa do
seu quarto. Estava falando com alguém no telefone e pelo visto era
algo muito sério. Ele me perguntou se eu tinha visto a camisa dele,
mas quando fiz que não, saiu pela porta sem nem me dar tchau.
— Devia ser sério mesmo, porque estava no chão perto da
cadeira no meu quarto. Na cara dele. — Mordi uma torrada e
coloquei mais do queijo temperado que Mandy preparou. — O que
você colocou aqui?
— Uma receita minha. Gostou?
— Amei! Faça todas as manhãs. — Comi mais uma e voltei a
perguntar. — Que horas ele saiu? Eu nem percebi.
— Devia estar cansado do esforço e teve sono pesado! —
Brincou e revirei os olhos com as besteiras que falava. — Mas eu
não sei ao certo que horas que saiu, mas foi de madrugada. Tipo,
umas quatro horas da manhã.
— Devia ser do trabalho dele. Ele é viciado.
— E com o que ele trabalha?
— Alguma coisa com o governo, ou sei lá... Acho que é da
polícia internacional. Ele não me contou muito e não me deixou
perguntar mais nada sobre esse assunto.
— Que homem misterioso! — Brincou com Benj em seu colo.
— Será que ele é um espião ou algo do tipo?
— Não viaja, garota! Ele não é um dos personagens dos seus
livros. Confesso que pensei algo do tipo, mas como eu disse, é
impossível tirar qualquer coisa daquele homem.
— Desculpa, é a minha cabeça de escritora. Mas eu queria
saber mais dele e...
Ela parou de falar e olhou assustada para a porta. Me virei
rapidamente e lá estava ele, vestido formalmente, como se
estivesse pronto para uma festa de gala. O encarei, assim como ele
fez comigo, e não pude deixar de sorrir. Mas voltei a mesa e
continuei minha refeição.
— Querem saber mais sobre quem? — Ele perguntou, se
aproximando e passando a mão exatamente onde ele tinha me
“marcado”. O que me confirmou que sabia muito bem como havia
me deixado quando deu um pequeno aperto.
— Sobre um garoto da universidade. Ele gosta do Parker e até
o chamou pra sair! — Mandy disse rapidamente e me engasguei. O
que aquela doida tinha na cabeça?
— Um garoto que gosta do Parker... — Vincent repetiu
lentamente e aproximou sua cadeira de mim, de modo que eu
praticamente ficasse entre suas pernas. Além de pegar minha
torrada. — E o que você disse para esse garoto, Parker?
— Que naquele momento eu não estava interessado. — Não
baixei meu olhar e ele apoiou sua perna na estrutura da cadeira,
fazendo seu joelho encostar em minhas costas.
— Entendo. Então isso pode acontecer ainda.
— Não! E Mandy, saiba que Vincent é oficialmente meu
namorado.
— Sério? Que legal isso! — Ela estava adorando aquela
conversa.
— Sim, então se você vir qualquer um se aproximando de mim
ou se forem falar com você sobre minha vida, diga que estou
namorando um homem muito sério e possessivo, ok?
— Pode deixar, amigo. — Concordou com a cabeça e encarou
Vincent assim como eu, esperando sua réplica, mas ela não veio.
Bufei em desgosto e ele riu.
— Você é tão chato, sabia?
— Deixa de drama, Demoniozinho. — Respondeu e voltou a
comer.
— Meu amor, drama é a minha profissão! — Peguei a torrada
de sua mão quando ele ia comer. Ele me olhou impaciente e aquilo
só me fez querer beijá-lo.
Ele se endireitou na cadeira e achei aquilo estranho. Então
pegou o celular que vibrava em seu bolso e respondeu uma
mensagem.
— Eu quero pedir uma coisa aos dois, e antes que pensem
besteira, me deixem terminar. — Falou e suspirou. Ele colocou a
mão em minha perna, deixando um aperto leve e começou a passar
o dedo por ela em um gesto carinhoso. — Eu contei para o Parker, e
provavelmente ele contou para você também, que eu trabalho em
um departamento do governo. Mais especificamente no de crimes
internacionais.
— Ele falou algo do tipo, mas nada demais.
— Bom, na noite em que eu conheci Parker estava atrás de
um criminoso. Ele estava morando em um dos apartamentos da rua.
Ele está preso, mas não estava sozinho. Por isso eu quero que
tomem bastante cuidado para quem contam quem eu sou ou quem
perguntar quem é o namorado do Parker. Eles sabem sobre mim e
por isso podem muito bem saber de você, Parker, e das pessoas ao
seu redor. — Ele dizia aquilo e tudo o que eu conseguia pensar era
em como o que ele trabalhava era muito mais do que eu imaginava.
Saber que existiam criminosos horríveis todos sabíamos, mas
quando eles estavam tão perto de alguém que você conhecia
chegava a ser assustador. Ele segurou minha mão. — Nada vai
acontecer com vocês, mas eu peço discrição. E novamente, eu não
estou te escondendo de ninguém. Se tiver que te levar para
conhecer até minha mãe, eu vou te levar. Não tenho vergonha de
quem eu sou ou quem eu tenho do meu lado. Se eu estou com você
é porque eu quero estar com você. Entendeu?
Assenti, mas não disse nada. Estava atônito demais por
escutá-lo falar aquelas coisas na frente de Mandy. Não era a
primeira vez, mesmo assim, quando alguém como Vincent, um
homem que para os padrões da sociedade não parecia nem um
pouco gay, falava algo do tipo, era como um evento exótico.
— Ótimo. Tudo que peço é que tenham cuidado. Eu vou cuidar
de vocês, mas me ajudem com isso. — Disse por fim e olhou o
relógio, soltando a respiração pesadamente. — Eu vou passar pela
universidade. Se arrumem que vou deixar os dois lá.
— Okay. — Mandy disse e começou a guardar as coisas,
como se obedecesse a um comando, enquanto eu deixava comida
para Benj e Jasmin.
Via Vincent acompanhar cada movimento meu e percebia a
sua atenção comigo, mesmo sendo visível que várias outras coisas
estavam em sua cabeça. Queria poder ajudá-lo com algo, mas era
mais que óbvio que eu nada poderia fazer. Somente oferecer meu
carinho e compreensão. Desejava que ele se sentisse bem comigo
e não ligaria se começasse a passar mais tempo em meu
apartamento.
Fui para meu banheiro e assim que terminei de escovar meus
dentes o vi sentado na cama olhando para mim. Ele estendeu sua
mão e a peguei, sendo puxado para perto de seu corpo. O vi de
cima e em como ele estava cansado. E ali comigo se abriu... ou pelo
menos tentou.
— O que está acontecendo dentro dessa sua cabecinha? —
Acarinhei sua barba. Ele fechou os olhos e ficou por alguns longos
minutos aproveitando meu gesto.
— Eu queria ficar aqui, desse jeito, até tudo passar. — Apoiou
a cabeça em meu abdômen.
— Até o que passar, Vincent?
— Tem coisas que eu não posso te contar. — Se levantou e
me beijou, tão ternamente que desejei poder ficar ali para sempre.
— Foi bom para você? Eu te machuquei?
— Não! — Respondi rapidamente. — Foi tudo perfeito! Você
foi maravilhoso comigo, Vincent!
— Isso é bom. — Encostou sua testa na minha e logo deu um
beijo nela. — Eu tenho uma reunião hoje e se tudo ocorrer como eu
espero terei que viajar. Voltarei domingo.
— O que? Para onde você vai? Eu achei que... que ficaríamos
mais tempo juntos.
— É o meu trabalho, Parker. Eu tenho que ir. — Foi direto e me
senti mal. Não queria que fosse, pois já sentia sua falta mesmo
estando em seus braços.
— Eu achei que teríamos mais tempo juntos, só isso... — Falei
e sorri timidamente. Mas por dentro eu estava torcendo para que
desse tudo errado.
— Eu também queria. — Me beijou novamente e tive uma
súbita vontade de chorar, então o abracei procurando sentir o
máximo que podia de seu corpo e gravando seu toque em minha
pele. — Vamos, eu tenho que te deixar na universidade.
— Tudo bem. — Peguei minha bolsa do chão e o vi pegar a
sua camisa, a dobrando para levar embora. — Não! Deixa aí! Por
favor.
— O que você pretende fazer com ela, garoto? — Sorriu,
gostando da minha reação de posse ao pegar a peça de roupa.
— Ela tem o seu cheiro e vai me impedir de cometer uma
loucura.
— Que loucura? — Vincent ainda tinha o sorriso no rosto.
— De ir atrás do cara que deu em cima de mim quando eu me
sentir sozinho. — Toquei em seu torso e o olhei com a melhor cara
sofrida que pude.
— Ninguém vai te tocar do jeito que eu te toquei. Se quiser eu
te dou até as minhas cuecas. — Me segurou pela cintura,
encostando seu membro duro na parte superior de minha coxa. E da
mesma forma que fiz anteriormente, abri seu zíper liberando aquele
pedaço de carne grosso e grande. — Você vai mesmo fazer isso?
— Considere meu último programa antes do meu melhor
cliente se for.
Sem mais delongas o coloquei na boca e suguei sua glande
com toda a força que pude, apertando suas pernas. Queria ter mais
e mais dele e engolir cada gota de seu pré-sêmen. Lambia e
chupava cada veia saltada e parte exposta. Escutava seus gemidos
e eles só serviam como prova de que eu o estava dando prazer e
fazendo o certo.
Ele segurou minha cabeça e começou um vai e vem vagaroso
e intenso, controlando o ritmo que seu pênis deslizava por minha
língua e me fazendo babar cada vez mais nele. Queria mordê-lo,
mas me contive em passar levemente meus dentes em sua glande,
e aquilo foi o suficiente para que ele aumentasse a velocidade e
estocasse com força, mas ao mesmo tempo com cuidado. Até que o
senti inchar e despejar aquele líquido quente em minha boca. Engoli
mesmo estranhando o gosto, mas senti um prazer enorme com
aquilo. Ao mesmo tempo, com a fricção de meu próprio membro
com minha calça, cheguei ao meu limite.

Nota Mental: Pesquisar quais frutas deixam o “néctar” mais


doce.

Vincent me puxou para cima e me beijou deliciosamente,


fazendo com que eu me perdesse em seu toque. Ele me olhou com
um sorriso discreto no rosto e corei, mas, mesmo assim, lambi meus
lábios, para logo em seguida serem sugados pelos seus com força.
— Benj, solta a minha calça! — Mandy gritou da sala. Senti o
sorriso daquele policial se formar em nosso beijo.
— Você vai me enlouquecer, meu garoto! Eu vou ficar louco
sem essas suas provocações!
— Eu não sou de ninguém, Vincent.
— Isso é o que você pensa, Parker. Não pense que não sei
como você se sente.
— E como exatamente eu me sinto, Sr. Policial-Não-Tão-
Comum?
— Como um demônio louco pra sugar a minha alma toda vez
que puder. — Arregalei meus olhos pela sua fala.
— Isso teve uma conotação sexual, Vincent?
— Só estou querendo dizer que você é meu e o seu corpo não
mente para mim. Eu quero mais de você, Parker.
— Que esse nosso momento significativo sirva de motivo pra
que volte mais vezes nesse quarto. — Peguei em seu pênis e o fiz
gemer quando acariciei sua glande ainda sensível. O guardei de
volta em sua cueca e o arrumei. — Agora eu preciso me trocar de
novo.
Vincent se sentou na cama, e sem vergonha nenhuma me
despi da parte debaixo. E assim que terminei e o encarei, vendo o
volume em sua calça descaradamente denunciar sua excitação.
— Você precisa dar um jeito nisso aí. — Veio até mim e seus
braços me rodearam.
— Ele só vai abaixar quando eu estiver bem longe de você!
— Já que é assim, vamos logo.
Quando chegamos na sala, minha amiga viu que eu havia
trocado minha roupa e sorriu como uma safada para mim assim que
Vincent passou por ela. Meu namorado! Adorei pensá-lo daquela
forma. Antes de sairmos ele ainda brincou com Benj e deu um beijo
em Jasmin, como se estivesse se despedindo brevemente deles.
Achei a coisa mais fofa do mundo. Assim como Mandy que soltou
um "Own" baixinho do meu lado.
No caminho todo escutei as músicas que gostava e as
reclamações de Vincent que preferia o silêncio. E aquele simples
fato me fez ponderar se realmente estávamos construindo uma
relação. Eu o queria e pela forma que me tratava, e a conversa
franca que teve comigo e Mandy, também me queria.
Me sentia protegido perto dele e saber que cuidava de mim me
fazia sentir menos sozinho. Com toda a certeza sentiria sua falta
durante os próximos dias. Morreria de saudades para ser mais
sincero. Queria ele perto e que aparecesse do nada em meu
apartamento, ou até que dormisse comigo. No entanto, teria que
aguentar aquele aperto horrível no meu coração. E ele se tornou
mais forte assim que chegamos na faculdade. Minha amiga saiu
primeiro do carro, se despedindo de Vincent.
Me apoiei em seu corpo, não me importando caso alguém nos
visse, mas aquilo provavelmente não ocorreria devido ao carro ser
protegido. Vantagens de se namorar um Policial-Não-Tão-Comum
do governo! O beijei com força, gravando cada arranhão que sua
barba fazia em mim.
— Me liga se precisar de alguma coisa. Mas somente se
precisar. — Ele disse passando o dedo pelos meus lábios que
estavam queimando deliciosamente.
— Não vou te atrapalhar, Vincent. — Resmunguei
manhosamente e o fiz rir. — Espero que você não se esqueça de
mim.
— Nem que eu quisesse. — Abriu as pernas mostrando seu
membro ainda duro.
— Isso é bom! — Passei meus dedos delicadamente por cima
da calça e sussurrei em seu ouvido. — Eu sou seu único putinho!
— Parker! — Exclamou e eu fechei a porta do carro.
Assim que pisei na calçada, quase que imediatamente, senti
alguém trombar comigo e se agarrar em meu braço direito. Pamela
sorria descaradamente.
— O que aconteceu com a sua boquinha rosa? — Perguntou
cinicamente.
— Alergia!
— Te desejo melhoras, amigo. — Fingiu consideração, mas
com um sorriso puramente pecador. — Eu também sofro com essas
alergias. A única diferença é que elas são causadas por um homem
gostoso, loiro e com um sotaque russo sensual.
— Sotaque russo? — Vi o carro de Vincent se afastar e depois
encarei Pam. Aquilo foi muito estranho. Qual seria a possibilidade?
— Como assim? É o mesmo de antes? Você nunca me falou o
nome dele.
— Ah não, isso é meu segredo. — Andou de costas, virada
para mim. — Se você não vai me contar sobre o seu homem, eu
não te conto sobre o meu!
CAPÍTULO 11 – Chocolate

“Qual é a probabilidade de você estar saindo com uma garota


chamada Pamela?”
Foi a mensagem que mandei para meu irmão depois de me
despedir de Vincent, o que já estava sendo uma completa tortura.
Ele parecia estar tão presente em minha vida, que tudo o que fazia
me lembrava de alguma coisa dele. Como quando passei em frente
a um restaurante e me lembrei de que ele comia. Todo mundo
comia, obviamente, mas somente Vincent se alimentar corretamente
me importava.
Ainda conseguia escutar sua voz e sentir o fantasma de seu
toque em minha pele. Tudo que eu mais queria era que os dias
passassem o mais rápido possível para que pudesse novamente
estar em seus braços ou aguentando aquele humor difícil. Estava
até disposto a relevar suas respostas secas. Afinal, ele era meu
namorado.
Um sorriso bobo aparecia todas as vezes que me lembrava
daquele fato. Saber que ele queria ser algo em minha vida me fazia
sentir especial de um certo modo. Saber que eu participava da sua
me fazia sentir melhor ainda.
Durante o restante da semana não me aguentava de
ansiedade e esperava ansiosamente todo o fim de aula, pois
indicava que o dia estava acabando, ou seja, menos um até
finalmente poder vê-lo. Na Sexta-Feira tive uma notícia tão boa que
tudo o que eu mais queria era contar àquele suspirador.
A pequena cena que Pamela e eu fizemos foi vista por um
veterano do curso de cinema e ele nos fez o convite para que
participássemos de um curta metragem que estava produzindo,
como seu trabalho de conclusão. Seria meu primeiro trabalho como
ator e além da visibilidade, era uma coisa que eu me orgulharia de
fazer. Calisto era seu nome, completamente diferente e que eu
nunca havia escutado em minha vida. Mas apesar de ter um monte
de coisas em sua cabeça e cheio de orientações, o sentia um pouco
abatido. O que era triste, pois parecia uma excelente pessoa. Ele
veio falar conosco, porém algo aconteceu que o fez se desculpar e
prometer que nos ligaria.
Havia mandado uma mensagem para Vincent, tentando ter sua
atenção para poder lhe contar o que havia acontecido, mas não me
respondeu. Provavelmente estava ocupado com o seu trabalho...
como sempre. No entanto, esperei por sua resposta por mais de
quatro horas e nada. Não era possível que não tivesse nenhum
momento para si, que o permitisse olhar uma vez sequer o celular.
Ele era um homem ocupado, eu sabia daquilo, mas eu também
merecia dedicação e carinho.
Me forcei a focar em minha vida e decidi me ocupar em
descobrir o máximo que podia sobre atuação e me enfiei nos livros,
estudando quase a tarde toda. Era a melhor coisa que eu podia
fazer para não ficar pensando naquele homem sério e
completamente sedutor. Estava tão concentrado que não percebi
quando Frederick havia sentado na cadeira ao meu lado e me
encarava
— Ah, Frederick. Há quanto tempo você está aí?
— Não muito. — Me olhava com um sorriso. — Você fica
bonitinho quando está concentrado. Faz um biquinho fofo.
— Sei... Aham... — Estranhei e tinha que cortar aquilo o mais
rápido possível. — Pensei que você ia sair com todos os seus
amigos agora. April não parava de falar que vocês finalmente
estavam dando certo.
— Não é bem isso que está acontecendo, Parker. —
Respondeu como se estivesse se explicando. — Ela e eu não temos
nada. A gente só está se...
— Se conhecendo? — Ele soltou a respiração em uma risada
sem graça. Culpado! — Que bom que você está dando certo com
alguém.
— Não é nada sério. A gente não tem nada. Só saímos
algumas vezes e... — Disse apressado, mas ri de sua reação. Era
claro que ele ainda queria sair comigo, mesmo eu não o dando
esperança alguma de que aquilo aconteceria.
— Não precisa se explicar pra mim, Frederick. — Toquei seu
braço. Ele até que tinha alguns músculos por baixo da camiseta,
mas nada comparado a Vincent, que mais parecia um deus romano
com toda a sua brutalidade em me tocar com eles. — Nós não
somos nada além de amigos, e como tais, quero que você seja feliz,
mesmo que fique por aí com várias ou vários. Só se cuida, tá bom?
— Você sabe que eu queria estar saindo com você, não sabe?
Por que a gente não tenta? Pelo menos uma vez.
— Como amigos, só como amigos, nós podemos sair. Agora,
se você quiser algo além disso, me desculpe, mas não vai rolar.
— Por quê? Você não tem ninguém e eu também não. —
Frederick insistiu. Suspirei e automaticamente me lembrei de
Vincent fazendo aquilo.
— Eu estou sim com alguém, Frederick. — Respondi e me
levantei pegando minhas coisas. — Eu estou namorando, na
verdade. E eu não tenho nenhuma intenção de terminar. Então, se
você quiser que sejamos amigos eu não tenho nenhum problema.
Você é uma ótima pessoa. Mas se continuar com isso de tentar algo
além da amizade, peço que não fale mais comigo, porque eu não
vou aceitar nenhum convite.
— Mas quando isso aconteceu? Eu não fiquei sabendo de
nada.
— E por qual razão você teria que saber sobre a minha vida?
— Caminhei para fora da biblioteca. Já estava escurecendo e
aquele assunto estava se tornando um saco de manter. E como se
fosse a minha tábua da salvação, vi London andando agarrado a
seus livros, como se estivesse com medo de deixá-los caírem. —
Desculpa, Frederick, eu tenho que correr. Tenho que ajudar um
amigo que está com problemas.
— Mas...
— London! — Gritei e o garoto de cabelos castanhos e olhos
azuis frágeis me olhou assustado. — Tchau, Frederick.
Andei a passos largos até chegar perto do moreno e o abracei
como se fossemos amigos de longa data. Ele não retribuiu o gesto,
mas também não me afastou. Vi a confusão estampada em seu
rosto.
— Parker, não é?
— Isso mesmo! — Sorri ao ver que se lembrava de mim. —
Você agora é meu melhor amigo e a gente vai sair caminhando,
comigo te abraçando, porque você está passando por um momento
muito difícil na sua vida e eu estou te ajudando, como o melhor
amigo que você tem.
— Está fugindo daquele cara ali atrás? — Olhou discretamente
para Frederick.
— Isso mesmo! Vamos antes que ele invente outra desculpa
para vir tentar sair comigo.
E assim deixamos rapidamente da faculdade para o ar frio de
Bisera. Não sabia o quanto estava com fome até sentir o cheiro de
um salgadinho que uma criança estava comendo. Paramos de
andar assim que chegamos no limite da calçada e os vários táxis
amarelos se moviam como um oceano de tantos que tinham. Ainda
me surpreendia em como tudo fluía da melhor forma possível. Bem
diferente de quando estava no Brasil.
— Muito obrigado por me salvar.
— Sempre que precisar.
— Bom, como uma forma de agradecimento, o que acha de eu
te pagar um jantar? Eu estou morrendo de fome e pelo jeito você
também ficou na faculdade a tarde toda. Está querendo roubar o
salgado da menininha tanto quanto eu.
— Agora você que está tentando sair comigo? — Brincou e
rimos.
— Desculpa, amigo, mas você não faz bem o meu tipo e
acredito que eu não faço o seu. — Comentei e ele me olhou curioso.
— Lembra da semana passada, quando você me derrubou,
enquanto estava fugindo daquele lutador famoso?
— Eu não estava fugindo de ninguém. — Tentou argumentar,
mas estava na cara que estava mentindo.
— Se você não estava fugindo dele, eu sou hétero. —
Retruquei. — Eu sei que tem alguma coisa rolando entre vocês dois,
mas se você não quiser me contar tudo bem, não vou insistir.
Mesmo sendo melhores amigos à pouco mais de dez minutos.
— É complicado demais para tentar te explicar agora.
— Então vamos jantar no Orleans?
— Não sei se quero ir lá. Os pais dele são os donos e meio
que eu briguei com o filho deles. Não quero dar de cara com
ninguém. Mesmo eles sendo maravilhosos comigo, não sei o que
Jackson contou.
— Então nós vamos descobrir hoje. — Dei sinal para um táxi e
empurrei London para dentro. Dei o endereço para o motorista e
logo estávamos a caminho. Era evidente seu nervosismo com a
situação, mas também sua ansiedade.
— E se ele estiver lá? O que eu vou fazer?
— E se ele não estiver? Vamos deixar de comer no melhor
lugar da cidade por seu medo. Jackson Orleans não vai fazer nada
enquanto estiver comigo. Eu sei me defender também. — Respondi
olhando o celular, pois Vincent acabara de me responder o “Oi” que
havia lhe mandado. Ele me ligou alguns segundos depois.
— Você está bem?
— Estou indo jantar com London.
— E esse seria...
— Um amigo.
— Um amigo de onde?
— Um amigo, Vincent.
— Quero saber de onde.
— Eu não fico querendo saber sobre os seus amigos.
— Eu não perguntei o que você quer saber. Perguntei quem é
esse tal de London. Então responda a minha pergunta, Parker.
— Grosso! Se for para me tratar assim é melhor continuar com
seu trabalho importante, Vincent. Não se preocupe comigo, porque
ele não é nenhum cliente. Eu já atendi hoje cedo e eles me trataram
muito bem.
Encerrei a ligação e bufei de frustração. Quem ele achava que
era para me tratar daquele jeito? E ainda por cima me obrigar a
responder seu interrogatório, como se eu não fosse inteligente o
suficiente para saber com quem andar. Já tinha visto e vivido com
uma das piores pessoas que pisaram nessa terra e sabia muito bem
julgar o caráter de quem me rodeava.
Ele tentou me ligar algumas vezes, mas recusei todas, uma
após a outra, logo após receber as notificações. Sabia que aquilo
somente serviria para que ficasse com mais raiva, mas queria que
ele ficasse putíssimo. Que soubesse que eu não era nenhum de
seus funcionários, e se ele quisesse saber de alguma coisa teria
que me tratar muito bem.
— Problemas com seu namorado? — London perguntou
olhando para mim com um sorriso divertido. — Eu escutei tudo,
porque ele meio que fala um pouco alto demais. Não quero te
causar nenhum problema.
— Não vai causar nenhum. — Desliguei o celular e o coloquei
na bolsa. — Ele me ignorou o dia inteiro e agora, só porque contei
que estava indo jantar com você, ele resolveu se preocupar com a
minha segurança? Agora eu é quem vou dar um gelo nele.
— Queria que alguém se preocupasse assim comigo. —
London respondeu olhando para a janela, de repente parecendo
muito pensativo.
— Você tem agora. — Apertei seu ombro. — Como eu menti
que éramos melhores amigos, o que você acha de sermos melhores
amigos de verdade? Eu realmente preciso me rodear de pessoas
boas.
— Acho que vai ser uma ótima ideia.
Durante toda a noite trocamos memórias de nossa vida e
daquela forma pude conhecer mais daquele garoto de olhos tão
bondosos, e o quanto a vida dele parecia com a minha. Ele era
sozinho e havia sido adotado quando ainda era pequeno. E estava
aguentando uma barra imensa, pois seu pai não estava bem da
saúde e seu irmão não facilitava nada para ele sendo rebelde.
Ele tinha vinte e dois anos e cursava Publicidade. Me disse
também que até um tempo atrás estava trabalhando como um dos
agentes de Jackson Orleans, o lutador de MMA em ascensão e que
era a febre do momento por ser um gostoso total. Palavras de
London, não as minhas.
Quando perguntei o motivo de não estar mais trabalhando para
ele, a resposta foi uma série de xingamentos como “grosso”,
“mimado” e “estúpido”. O que na minha cabeça só mostrava que ele
gostava do tal lutador, mas ainda estava em fase de negação.
Ambos estavam, pois pelo que me contou sobre o Jackson, tudo
indicava que o outro sempre ficava rondando meu mais novo melhor
amigo por ciúmes. Até tentei colocar aquilo na cabeça dele, mas
uma série de “nãos” e “nuncas” me mostraram que aquilo era um
assunto para outro momento.
Já no restaurante, depois de um tempo uma mulher, mais
parecendo uma supermodelo ou deusa africana, apareceu e
caminhou até nossa mesa. Ela reconheceu London de longe e o
recebeu com um sorriso tão grande que desejei que alguém sorrisse
daquela forma pra mim. Depois das apresentações fiquei sabendo
que era a mãe do “amor” da vida de meu amigo. Era incrível como
tudo o que ela fazia tinha uma elegância fora do comum. Tive a
impressão de que estava perto de uma rainha e me senti um idiota.
Ela comentava que Jackson estava desleixado e irritadiço
depois que meu amigo havia deixado de frequentar sua casa e
trabalhar com ele, mas não consegui prestar atenção em nada mais,
pois tive a sensação de que estava sendo vigiado. E tive certeza
quando vi um homem me encarando e que desviou o olhar assim
que me percebeu. Pedi licença a eles e fui ao banheiro. Precisava
tirar a prova real e demorei muito lá. Meu amigo devia pensar que
eu estava com diarreia ou algo do tipo.
Depois de alguns minutos o mesmo homem entrou no
banheiro rapidamente como se procurasse alguma coisa, ou
alguém, mas assim que me viu se recompôs e foi para um dos
mictórios como se fosse aliviar as suas necessidades. Seus cabelos
estavam cortados muito curtos, de forma que só era possível ver
que eram castanhos. O reconheci na hora com o agente Richards,
mas ele parecia não saber que me recordava dele. Ele tinha
músculos grandes, devido a jaqueta apertar suas costas e ombros à
medida que se movimentava, e assim que se virou pude notar que
não deveria ser muito mais velho que eu, pois seu rosto era o de um
garoto que estava pronto para fazer alguma pirraça.
Eu estava apoiado no balcão da longa pia de mármore,
somente esperando que ele terminasse o que estava fazendo.
Assim que me olhou, vi, mesmo que por uma fração de segundo,
sua confiança falhar e saber que fora descoberto. Ele veio até a pia
ao meu lado, me cumprimentou com um aceno de cabeça e
começou a lavar as mãos. Me perguntava até quando fingiria que
não me conhecia.
Fui tomado de uma coragem fora de mim e virei o homem
rapidamente, de forma que ficasse de frente para mim e de costas
para o encosto da pia. Ele se assustou com o meu gesto, mas por
incrível que pareça não fez nada. Talvez, por ser pego de surpresa
pela minha atitude ou por minha mão que apertava o meio de suas
pernas. Seu rosto estava em uma careta sofrida, mas ele não
reagiu, o que só comprovou que estava ali a mando daquele
suspirador mandão.
— Como você está, agente Richards? — Segurei seu cordão
pendurado no peito. — Sabia que fui eu que encontrei isso aqui e
entreguei para aquele safado do Vincent?
— Eu não sei do que... — Gemeu quando apertei suas bolas
com mais força.
— Não ache que eu sou idiota, Gary. — O soltei. — Eu sei que
Vincent te mandou aqui. Qualquer homem se defenderia de um
ataque assim, então ou você estava gostando da minha mão no seu
pau ou o meu querido dono te mandou ficar me seguindo. Qual dos
dois?
— Tá. — Disse arrumando seu membro na calça jeans e me
olhou culpado. — Ele me mandou aqui.
— Obrigado por admitir o óbvio.
— É verdade então? Que o chefe está te namorando?
— Ele não contou pra ninguém sobre mim? — Me senti
desapontado quando ele negou. — Mas é claro que ele não
contaria. O que eu pensei?
— Não é nada disso! O chefe não conta nada pra ninguém da
vida dele, mas é que eu... — Gary se colocou na minha frente
quando ameacei sair do banheiro. — Olha, se ele souber disso ele
me mata, mas depois do dia que a gente foi no seu apartamento ele
mudou. Ele mesmo disse que buscaria o meu cordão quando eu
esqueci. Depois ficou um porre de chato quando voltou de lá. Ficou
de cara feia uma semana e tratando a gente pior do que já trata. Só
começou a melhorar um tempo atrás.
Só conseguia pensar que foi quando brigamos quando me
comparou a um garoto de programa e depois quando me levou para
sua casa e jantamos juntos. Ele então parecia ser uma pessoa mais
branda quando estava comigo e quando não, aquilo refletia até no
seu trabalho. Era bom saber daquilo e escolhi não me zangar por
mandar o coitado do Gary para me vigiar.
— Liga pra ele! — Mandei e o rosto do homem ficou branco.
— Não, por favor. Ele vai saber que eu não consegui ficar te
vigiando. — Pediu, mas eu não estava nem aí.
— Ele vai ficar sabendo de qualquer jeito, Gary. A diferença vai
ser se eu for te defender pra ele ou não. — Peguei o celular de seu
bolso e o entreguei.
— Isso não vai adiantar de nada.
— Liga. Agora!
— Mas que saco! — Reclamou, desbloqueando o celular e
ligou. O peguei da sua mão e depois de chamar duas vezes ele
atendeu.
— O que você quer, Richards? — Vincent questionou com sua
voz autoritária e me controlei para não me deixar levar. — Se me
disser que o perdeu eu te demito agora!
— Ele não me perdeu, Sr. Policial-Não-Tão-Comum. E por que
você o atende tão rápido e demora tanto para me responder um
simples “oi”? — O silêncio se seguiu. Ele suspirou.
— Por que você desligou o celular? — Quis bater nele. Como
tinha a coragem de querer me tornar o foco da discussão?
— Eu não acredito nisso, Vincent. Você coloca alguém pra me
seguir e ainda quer me cobrar de algo?
— Eu não precisaria disso se você não fosse teimoso e me
respondesse quando pergunto algo. E não desligue a merda do
celular.
— Você é um idiota, sabia? Um idiota estúpido, grosso e
ridiculamente territorialista, Vincent. — Vi Gary tentar arrancar os
cabelos que não tinha falando “Eu tô fodido!” várias vezes. — E se
eu souber que você fez alguma coisa com o Gary, eu te bato. Bom
trabalho, Vincent.
Ainda pude escutar ele gritando o meu nome antes de eu
desligar. Que raiva que estava sentindo naquele momento, mas
também queria que ele estivesse ali para que ao mesmo tempo que
eu pudesse o bater por colocar um marmanjo pra me seguir, que
pudesse beijá-lo para matar minha saudade. Vi o celular brilhar na
mão de Gary com uma ligação de seu chefe.
— Se você continuar me seguindo não vai precisar se retratar
para o estúpido do Vincent, porque eu mesmo te mato. — Ameacei.
A porta do banheiro se abriu e London entrou. Ele olhou para nós
dois e estranhou a cena.
— O que está acontecendo aqui? Está tudo bem, Parker?
— Está, amigo. Esse daqui estava me seguindo a mando do
meu namorado controlador e grosso, mas eu já resolvi. — Falei
rapidamente e o puxei pra fora, mas antes de sair me virei para o
agente aflito. — Se ele te fizer alguma coisa, me fala que ele sofre
também. Apesar de tudo, foi um prazer, Gary. E cuida do seu
cordão. Algumas pessoas não são tão boas como eu.
Fomos direto para a nossa mesa onde um garçom no
aguardava com o restante de nossos pedidos e contei a London
tudo o que pude, e tudo o que fez foi rir de toda aquela situação. Eu
também ri um pouco, mas todas as vezes que me lembrava de que
Vincent colocara alguém para me seguir tinha vontade de enforcá-lo
com minhas próprias mãos. Aquele era um comportamento no
mínimo abusivo e um sinal para me preocupar. No entanto, me
lembrei da conversa que teve comigo e Mandy sobre o seu trabalho.
Sabia me defender graças a Harvey e meu pai, pois desde
pequeno me colocaram em aulas de artes marciais, mesmo eu
sendo completamente avesso a qualquer esporte de contato. Então
não precisava de uma babá me seguindo e contando tudo o que
fazia. Nem meu pai fazia aquilo. Quem lhe dava o direito?
Terminamos o jantar conversando amenidades e London foi o
primeiro a me parabenizar pelo meu mais novo projeto como ator.
Prometeu que estaria comigo assim que o curta fosse lançado para
que pudéssemos assistir juntos. Estava feliz por ter o conhecido, e
também como meu mais novo amigo naquela cidade que seria meu
lar por mais quatro anos e quem sabe mais. Prometi que o ajudaria
caso precisasse de alguma coisa e que o convidaria qualquer dia ao
meu apartamento para que eu pudesse cozinhar e lhe mostrar Benj
e Jasmin.
Não vi mais Gary depois que saiu do restaurante e não mais
sentia a presença de ninguém me observando. Esperava que
Vincent não fosse ruim o suficiente para o punir por algo. O agente
parecia uma boa pessoa e até divertido. Seu jeito de bad boy era
até que charmoso.
No entanto, depois da mãe de Jackson ter nos cumprimentado,
todos estavam prestando atenção em nossa mesa. Era estranho ter
tantos olhos em mim sem eu fazer completamente nada. No
entanto, aquilo parecia uma coisa normal para London. Talvez
porque ele era realmente o motivo dos olhares.
Depois de um tempo ele recebeu uma ligação e disse que era
seu irmão. Ele se levantou e foi até uma área mais calma do
estabelecimento. E decidi ligar o meu celular e imediatamente ele foi
bombardeado por mensagens bravas de Vincent, de Mandy
perguntando quando chegaria e a resposta de Harvey quanto a sair
com Pamela, ao qual ele negou.
Eu não estava completamente satisfeito com aquilo e algo me
dizia que tudo era muito suspeito para ser uma mera coincidência
ela sair com um russo, quando a minha vida estava rodeada por
eles. Mas eu não insistiria e deixaria por aquilo mesmo. Não era
meu problema. Se eles estavam saindo, bom para eles.
Assim que London voltou, percebi que estava um pouco
agitado e começou a juntar suas coisas. Me contou que seu irmão
estava bêbado e jogado em algum bar da cidade e que precisava ir
buscá-lo. Ele fez um sinal para o garçom e pediu que colocasse na
conta dele o jantar e tudo o que eu pedisse depois. Nem tive tempo
de protestar, pois ele saiu, se despedindo de mim com um beijo no
rosto e uma promessa que sairíamos mais vezes.
Decidi voltar para meu apartamento. Não havia sentido ficar
mais lá e estava me sentindo deprimido em ficar sozinho. Assim que
abri a porta, Mandy grudou em meu braço e me levou direto para o
elevador novamente, dizendo que tínhamos que ir ao mercado, pois
estava morrendo de fome e não havia nada na geladeira. E aquilo
até que me fez bem. Adorava fazer compras com meu pai quando
criança, e aquela memória me fez sentir saudades dele. E não sei o
que me deu, mas peguei meu celular e mandei uma mensagem
para ele.

Parker: Você está bem depois de tudo?


Yorick: Estou sim, filho. E você?
Parker: Sim, estou no mercado fazendo compras com a Mandy
e me lembrei de quando fazíamos juntos.
Yorick: Eu adorava ver seu sorriso.
E eu sorri com aquilo. Ele se lembrava das mesmas coisas que
eu e amoleceu um pouco a minha resistência à ele e suas tentativas
de se aproximar.
Parker: Eu senti sua falta.
Yorick: Eu também senti, meu filho. E espero que isso mude a
partir da semana que vem.
Parker: Vai se mudar?
Yorick: Sim. Sua mãe te contou?
Parker: Talvez... Bom, era só isso. Fica bem, pai.
Meu celular se iluminou com uma de suas ligações e pedi
licença para Mandy. Fui em um dos corredores vazios, pois não
queria ninguém me escutando.
— Filho, eu quero que saiba que não tive nada com o que meu
pai fez. Eu não sabia do que ele estava tramando quando mentiu
sobre ter falecido.
— Eu não quero falar sobre isso. Só te mandei mensagem,
porque algo me disse para mandar. Ainda não quero fazer parte
desse aspecto da sua vida e isso inclui saber sobre esse homem.
— Eu sinto muito por tudo o que ele fez, filho. E mais ainda por
tudo o que eu deixei de fazer. Eu falhei como o seu pai e me culpo
todos os dias por isso. — Sua voz ficou um pouco embargada. —
Você não sabe como eu sinto a sua falta e quanto o quero de volta.
Eu quero ser um pai para você, Parker. Por favor, me dê uma
chance.
— Eu não sei se estou pronto para isso ainda. Eu... tenho que
desligar. Mandy está querendo minha ajuda para escolher algumas
coisas. Tchau, Yorick.
— Até breve, filho.
Seria demais aceitá-lo de volta depois de tudo? Eu ainda
estava machucado para me abrir totalmente e não queria quer sua
presença viesse acompanhada do homem que me humilhou quando
mais novo. Antes de guardar meu celular mudei o nome de seu
contato de Yorick para Pai. Admiti para mim mesmo que o queria de
volta, mas não o deixaria voltar a não ser que estivesse
completamente seguro do que aquilo acarretaria.
Mandy e eu pagamos por tudo e antes de voltar, mesmo com
as sacolas, paramos em frente a padaria e restaurante em frente ao
nosso prédio para tomarmos um sorvete. Nossa vida como colegas
de apartamento estava ótima e não somente lhe contei a boa notícia
sobre meu primeiro trabalho, mas ela também estava feliz, pois
havia recebido seu primeiro salário dos livros que publicava. Me
mostrou seu perfil no Instagram e como estava crescendo cada dia
mais.
Me contagiei com nossos planos e projetos futuros e até
mesmo começamos a planejar uma viagem quando nossas férias
chegassem. Ambos precisávamos nos divertir e minha vida pessoal
estava me deixando ainda mais cansado devido a todas as
reviravoltas das últimas semanas.
Na entrada, dois homens vestidos formalmente entraram e
observaram o local. Não eram de lá, pois era evidente por seus
cabelos quase brancos. Mas depois de entrar o terceiro soube que
tinham vindo diretamente do inferno. Como ele tinha a coragem de
vir me ver depois de tudo? Minha vontade era de jogar tudo o que
havia em minha mesa em sua direção e com sorte o espantar igual
alguma peste intrometida.
Seus olhos vieram diretamente de encontro ao meu e em seu
rosto estava a mesma expressão da última vez que nos vimos.
Gortan, aquele que deveria ser meu avô morto, caminhou em minha
direção com seus capachos ao seu encalço. Faria um escândalo,
mas não queria constranger Mandy e nem ser expulso do local que
sempre frequentava.
— Parker, nós precisamos conversar.
— Nós não temos, não. Eu achei que havia deixado isso bem
claro da última vez que nos vimos. Então, por favor, vá embora. Eu
não quero te ver nem hoje e nem nunca. — Controlei minha voz.
Mandy me encarava estranhando toda a situação.
— Você não precisa falar se não quiser, mas vai me escutar.
— Vai me insultar de novo?
— Parker, quem é esse homem? — Minha amiga questionou,
mas o monstro foi mais rápido em responder.
— Eu sou o avô dele, criança.
— Avô...? Mas, Parker, você havia me dito que... — Ela ficou
ainda mais confusa.
— Eu também pensei que ele tinha morrido, mas tudo não
passou de uma mentira para tentar fazer sei lá o que. — Respirei
fundo, voltando a encarar o homem. — Gortan, por favor, vá
embora. Eu não quero falar com você e nem fazer uma cena aqui.
— Eu vou falar com você e vai ser a última vez, eu prometo. —
Ele puxou uma cadeira. — É até melhor que sua amiga esteja aqui
para ser testemunha e prova do que farei.
— O que você quer? Por que saiu lá da Rússia?
— Eu já falei com seu irmão e estou aqui para falar com você e
me explicar. — Cruzei os braços, já imaginando as desculpas
esfarrapadas que diria. — Eu não quis reunir todos por capricho.
Mesmo tendo errado em vários aspectos em minha vida, nunca quis
que nada de ruim acontecesse com nenhum membro de minha
família.
— Acho que você não teve sucesso nesse seu objetivo,
porque você fez tudo de ruim para mim. Isso se você algum dia me
considerou parte dela.
— Não tive... Eu errei com você, Parker. Mas as condições de
antes me obrigaram a tomar aquela atitude. Eu tive que separar seu
pai de você, porque sua condição traria consequências para nós.
— De novo vai usar a minha sexualidade para me humilhar? É
isso que veio fazer aqui?
— O que quero dizer é que a nossa empresa...
— Sua empresa! Eu não tenho ligação alguma com ela!
— O investimento que tive foi a preço de minha vida. Eu
precisava que tudo desse certo e a empresa começasse a dar
lucros, pois minha vida estava em risco.
— E olha você aqui! Vivíssimo! — Sorri ironicamente, mas já
cansado de toda aquela explicação sem sentido.
— Você é tão parecido com sua avó, minha falecida mulher.
— Não adianta você tentar trazer nada disso como carta na
manga. Eu não quero saber.
— Você é tão teimoso quanto...
— O que você quer comigo, Gortan? Eu não me importo com a
sua história, com o que deixou ou não de fazer... Só fala o que quer
e me deixa em paz.
— Eu estou me afastando do cargo da empresa, me
desfazendo de tudo o que eu tenho e tentando me desculpar por
todos os meus erros. — Um de seus homens abriu uma pasta e ele
me entregou um papel. — Esse é o meu testamento, Parker.
— Você não morreu, Gortan.
— Mas eu vou. Em pouco mais de dois meses, mas vou. E por
essa razão, você é um dos meus herdeiros e mesmo não sendo
próximos, é da minha família. Nesse papel diz que você tem um
terço de tudo o que eu tenho e isso será válido quando eu não
estiver mais aqui.
— Eu não quero. — Me levantei. Aquela história poderia até
mesmo ser verdadeira, mas eu não me comovia nem um pouco. Ele
vivendo ou não, não faria a menor diferença na minha vida. Tudo o
que sua presença me causara durante muito tempo fora desgosto e
insegurança.
— Já está decidido, Parker.
— Eu já disse que não quero. Será que você não entende que
não quero nenhuma ligação com você? Eu nunca precisei de você
ou do seu dinheiro e não vai ser agora que vai mudar! Muda isso e
entrega tudo para o Harvey ou para o Yorick, mas eu não quero.
— Essa é a minha vontade, querendo você ou não. — Sua voz
controlada me irritava. — Um terço de tudo o que é meu será seu
quando eu vier a falecer.
— Que você carregue isso para o seu túmulo, porque eu não
aceito! — Lhe dei as costas e peguei minhas compras. Mandy se
levantou, fazendo o mesmo. — Não vou ser igual a você e lhe
desejar a morte, porque você já está caminhando para ela. Mas
gaste os seus esforços para quem realmente quer o seu perdão.
— Eu não posso mudar o passado, mas gostaria de ter
encontrado outra forma de lidar com tudo.
— Sabe, Gortan, agora eu percebi uma coisa. — O encarei,
segurando as lágrimas de meus olhos. Meu pensamento foi direto
para Vincent. — Você me fez um favor sumindo da minha vida e
sendo a péssima pessoa que foi para mim. Agora eu percebo isso.
Viver ao seu lado seria um castigo e espero que realmente tenha
aprendido com os seus erros. Se é perdão que você precisa de
mim, eu te perdoo. Só não apareça de novo na minha vida!
Lhe virei as costas e saí pisando fundo até o balcão, deixando
muito mais do valor que consumimos. Atravessei a rua rapidamente
e esperei Mandy em frente ao elevador. Minha respiração estava
descompassada e meu emocional queria se destruir em milhões de
pedaços. No entanto, não me deixaria ser vencido por aquele
problema.
Não aceitaria nada dele e se mesmo assim não respeitasse
minha decisão, faria com que tudo fosse transferido para Harvey ou
Yorick. Aquele homem havia tido um papel curto na minha vida,
horrível e perturbador, mas teve. Não o veria mais e caso visse, não
o daria a atenção. Gortan não era meu avô e para mim nunca havia
sido.
Subi com Mandy em silêncio do meu lado, porém sentia seus
olhos em mim. E ficamos sem trocar uma única palavra enquanto
arrumávamos as coisas nos armários e geladeira. Benj estava
latindo em meus pés e Jasmin me encarava do sofá. Eram minha
família e atualmente as coisas que mais amava na vida.
— Me desculpa por ter feito você presenciar aquilo, Mandy.
— Não tem problema. Mas você está bem? — Ela tocou meu
braço e meus olhos foram vencidos pelas lágrimas.
— Eu estou tão cansado, Mandy. Eu estou cansado de ter que
lidar com o meu passado. Tudo o que eu queria era que todos me
deixassem em paz.
— Você não precisa ser forte o tempo todo, Parker. Eu estou
aqui por você. Sei que não posso te oferecer muito, mas estou aqui.
— Eu nunca me senti bem perto das pessoas, mas quando eu
cheguei aqui pensei que isso mudaria, porque eu tinha deixado
minha mãe para trás, meu pai, avô e todos os acontecimentos. Mas
tudo voltou de uma vez.
— Às vezes as coisas só não haviam tido um ponto final. Seu
avô está doente e pelo que disse não tem muito tempo de vida,
então talvez esse seja o ponto final da vida dele na sua.
— Eu... Eu só quero ser feliz e completo pela primeira vez.
Sem meu passado.
— Você vai ser, Parker! É a pessoa mais talentosa e gentil que
eu conheci. E está me dando a chance de mudar minha vida
completamente. — Me abraçou. — Eu não tenho uma relação boa
com a minha família e não estou dizendo que deva dar uma chance
para o seu pai, mãe ou quem quer que seja, mas você tem a
oportunidade de mudar o que acontece no seu futuro. Você foi o
mais próximo de alguém que realmente se importou comigo. E isso
te faz minha família. Se quiser, nós podemos formar a nossa própria
família.
— É claro que eu quero. — Sorri, lhe abraçando mais forte.
— Isso é ótimo! Você tem todas as chances para mudar seus
caminhos e o poder de escolha para aceitar quem quer que caminhe
ao seu lado.
— Isso parece uma frase do seu livro.
— Eu peguei de lá mesmo. — Rimos. — Você é lindo, amigo.
Por dentro e fora!
— Obrigado, Mandy.
— Eu que tenho que te agradecer.

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Meu final de semana seguiu. Falei com meu pai sobre a visita
de Gortan e o que ele iria fazer, mas não quis escutar nada sobre
ele. Somente lhe avisei que caso falecesse, que não queria nada
em meu nome. E talvez, não querendo abalar a relação que
tínhamos, somente concordou comigo.
Depois de minha conversa com Vincent no banheiro do
Orleans, ele não havia mais tentado qualquer contato. Fiquei sem
saber dele, mesmo querendo lhe contar sobre o que havia me
acontecido. Ele era uma das coisas boas que haviam aparecido
para mim depois de tudo, mas não quis me declarar e parecer ainda
mais sensível. Então, mais uma semana se passou e ele não havia
voltado de viagem. Me avisou daquilo em uma ligação bem rápida e
sem me dar possibilidade de manifestar meu descontentamento.
Era um sábado à tarde e estava me sentindo como um garoto
apaixonado de colegial, me perguntando se ligaria ou não para ele.
Estava morrendo de ansiedade para escutar a sua voz e esperava
que ele estivesse com saudades de mim também. Mandei todos os
meus receios para os ares e peguei meu celular. Ele demorou para
atender, mas assim que o fez percebi que música tocava ao fundo, o
que indicava que não estava mais trabalhando.
— O que você quer?
— Nossa, boa noite para você também, Vincent. — Falei e ele
continuou em silêncio. — Eu estava com saudade, por isso liguei.
— Era só isso?
— Era, Vincent! Era só isso mesmo! — Me irritei com sua falta
de consideração.
Eu não o entendia! Antes da viagem havia sido tão carinhoso,
me tratara muito bem, me fazendo sentir especial, mas depois me
tratava daquele jeito. Como se eu fosse... Como se eu fosse
realmente um garoto de programa.
— Desculpa se estou te atrapalhando. Já entendi que você
não tem tempo para mim ou para conversar com o seu namorado.
— Não começa com isso, garoto. — Ele disse baixo e eu sabia
que estava se controlando para não gritar comigo.
— Começar com o que? A te tratar mal igual você me trata?
— Eu estou trabalhando, Parker. Eu te falei que essa viagem
era a trabalho. Não tem prazer nenhum aqui. Eu estaria muito
melhor se você estivesse aqui comigo, mas não é possível.
— Como um garoto de programa? Porque é só quando você
quer que eu engula seu pau que você me trata bem.
— Olha o jeito que fala, Parker! Se respeite!
Ele não me dava valor e queria me cobrar sobre respeito?
— Eu me respeito, sim! Me respeito o suficiente para ter
educação quando converso com alguém, e não tratar a pessoa que
supostamente estou gostando como se fosse um nada. Você é
quem não me respeita, Vincent, mas tudo bem. Aproveita o seu
trabalho.
— Para com esse drama. Eu não estou com tempo pra isso.
Deixa isso pra sua escola! — Suspirou cansado.
— Como você pode ser tão estúpido? Você escuta o que fala
para mim? E é faculdade! Eu não sou uma criança! E para de me
tratar mal. Para de falar essas coisas que você sabe que eu odeio.
Não vai ganhar pontos nenhum com isso! — Gritei e desliguei a
chamada.
Peguei meu travesseiro e gritei o mais alto que pude com a
cara enfiada nele. Benj veio até a cama e ficou tentando pular para
subir, mas ainda não conseguia, bem diferente de sua irmãzinha,
que mesmo desengonçadamente subiu e se deitou em minhas
pernas. O peguei e ele veio me lamber tentando me animar.
— Seu pai é um idiota escroto, Benj! — Ele latiu irritado por
não o soltar. — É claro que você ficaria do lado dele! Só me trata
bem quando quer carinho.
Deixei escapar algumas lágrimas. Quem Vincent pensava que
era para me tratar daquela forma? Como se eu fosse um estorvo. O
liguei para demonstrar que sentia sua falta e ele me tratava com
frieza? Me senti um nada naquele momento. Na verdade, me senti
pior que nada: um nadinha carente. Como se fosse algum crime ou
uma coisa horrível dizer a alguém que sentimos sua falta.
Queria me bater por fazer aquele tipo de coisa, e por um
momento pensei em ligar novamente e mandá-lo para todo o tipo de
lugar, mas só serviria para que me tratasse pior do que já tinha feito,
e fosse motivo para ele e seus amiguinhos engravatados do
governo rirem. E era aquilo que deveriam estar fazendo, contando
como ele tinha me esnobado todas as vezes que pôde e mesmo
assim conseguira me levar para cama.
— Eu acho que alguém precisa de chocolate. Eu fiz aquele
negócio que você me ensinou, mas eu não sei falar. — Mandy
apareceu na porta com uma tigela, me tirando daqueles
pensamentos. — Desculpa, mas eu escutei tudo. Você fala alto
quando fica irritado.
— É brigadeiro, Mandy. — Peguei a colher que me entregou e
comecei a me afundar no doce. — Por que ele tem que ser tão
insensível? Me diz! Eu só liguei para ser um bom namorado e dizer
que estava com saudade. É como se eu não valesse nada, sabe?
— Par, ele disse que estaria em uma viagem a trabalho, não
disse? Talvez seja algo perigoso, igual ele insinuou pra gente aquele
dia. — Falou com a colher na boca. — E você não devia ter falado o
que falou pra ele. Mesmo não parecendo, ele tem sentimentos e não
deve ter gostado nada, nada do que você falou.
— Não foi nada demais.
— Foi sim, amigo. Você foi horrível com ele. — Ela me encarou
e apontou o talher com chocolate na minha cara.
— Cala a boca! É pra você ficar do meu lado! Se não ficar eu
te boto pra fora do apartamento e vai ter que pedir pra morar com
ele.
— Besta. Mas assim que ele voltar, e eu sei que ele vai, escuta
o que ele disser antes de jogar alguma coisa nele.
— Eu vou tentar.
— E ele falou quando volta?
— Ele não me conta nada, Mandy! Que ele volte e vá para o
inferno também!
Terminamos de comer o brigadeiro enquanto assistíamos
alguma série em seu notebook, e assim que começamos a pegar no
sono já eram quase duas horas da manhã. E eu sabia que era falta
de higiene não escovar os dentes, mas ainda estava com o gosto de
chocolate na boca e morrendo de preguiça de ir ao banheiro. Então,
assim que Mandy saiu do quarto e tudo caiu no silêncio e escuridão,
eu dormi.
Não devo ter cochilado por mais de dez minutos quando senti
que tinha alguém no quarto. Na escuridão vi uma silhueta enorme
se movimentando em silêncio, e com toda a falta de coordenação
peguei meu celular para ligar para a polícia. Aquilo e todo o barulho
que fiz atraiu a atenção de quem tinha invadido meu apartamento,
então gritei por socorro ao mesmo tempo que a luz se acendeu,
revelando quem estava parado e me encarando.
Não pude controlar as batidas de meu coração e muito menos
a forma descontrolada da qual o meu corpo buscava oxigênio.
Engoli em seco ao ver Vincent parado e vestido socialmente. Seu
cabelo estava maior, assim como sua barba, que também estava
com mais fios brancos, mas lindamente sedutora.
— O que você acha que está fazendo? — Sua voz grossa me
atingiu e só então consegui me mover.
— Você tem o que na cabeça de entrar assim no meu quarto?
— Deixei o celular de lado. — Eu estava ligando para polícia!
— O que aconteceu? — Mandy apareceu descabelada e
correndo pela porta do meu quarto. — Vincent! Você voltou.
— Pode voltar a dormir, Mandy. Está tudo bem. — Disse
tirando o paletó e se sentando na beirada da cama para começar a
desabotoar a camisa. E assim minha amiga foi bocejando para seu
quarto.
— O que você está fazendo aqui? — Jasmin, assim que viu
seu “pai”, foi em sua direção. E eu poderia muito bem avisar que
suas unhas já estavam grandes e afiadas novamente, mas escolhi
deixar Vincent perceber sozinho. E assim aconteceu. Ele se
levantou rapidamente, reclamando e pegando a gatinha de suas
costas quando ela enfiou suas garrinhas pelo tecido da camisa. — A
Jasmin está com saudades.
— Eu percebi. — Ele tirou a camisa e vi seu corpo musculoso.
Ele começou a desabotoar sua calça, mas logo parou quando Benj
começou a latir, querendo sua atenção. E ele não era o único. Eu
até tinha desistido de brigar. Então me deitei para que não visse
meu rosto corar pelas coisas indecentes que queria que fizesse
comigo.
Não demorou muito para que a luz fosse apagada e se
deitasse comigo. A cama afundou atrás de mim e senti seu braço
me puxar para seu corpo quente. Em minha coxa, senti seu membro
duro. Ele subiu por dentro do tecido do meu short e ficou
acomodado em minha pele, assim como o resto de seu corpo.
— Você está pelado, Vincent? — Perguntei mesmo sabendo a
resposta.
— Você quer que eu me vista? — Beijou minha nuca e senti
um arrepio me percorrer. Ele percebeu o que fizera e suspirou
contente.
— Faça o que quiser. Você não se importa com o que eu falo
mesmo. — Respondi depois de um tempo. Então ele me virou para
ele e senti seu hálito de menta e seus lábios tocarem levemente
meu pescoço.
— Eu tinha acabado de voltar da viagem quando me ligou.
Estava no trabalho e eles estavam comemorando a volta de todos.
— Explicou, mas assim que percebeu que eu havia puxado ar para
falar me beijou.
Não esperava por aquilo. Ele foi violento e bruto da maneira
que eu gostava que fosse. Sua perna quente passou por entre as
minhas de forma que seu pênis se acomodou atravessado entre
elas. Senti como se fosse morrer de prazer naquele instante, e
assim que tirou sua boca da minha, gemi em desgosto.
— Eu estava trabalhando, mas isso não justifica como te tratei,
e por isso, peço desculpa. Estava com a cabeça cheia e ainda tinha
que lidar com aqueles desgraçados.
— Não foi certo mesmo, Vincent. Não mereço ser tratado
dessa forma. Só estava com saudades.
— Tudo o que eu queria era voltar para você. — Me abraçou
sussurrando e sua respiração ficou bem calma, mas ele voltou a
falar. — Eu senti saudades também, Demoniozinho.
Sorri.
— Eu sei. — Ri quando ele beliscou minha nádega, mas
depois a acariciou. — Mas se você me tratar assim de novo,
prometo que vou esquecer de você. E não importa se vier atrás de
mim com chocolate e tentando me conquistar como um dos garotos
apaixonados da minha idade. Eu te deixo pra fora do meu mundo
cor de rosa que você tanto critica.
— Eu sei...
— Eu estou falando sério!
— É claro que está, Demoniozinho. — Disse beijando meu
ombro. — E falando em chocolate, a sua boca está com gosto dele.
— Sério? — Brinquei e me beijou novamente. Sua língua
passou pela minha deliciosamente.
— Sim. — De repente me descobriu, me fazendo sentir o ar
frio. Jasmin miou em protesto e se ajeitou perto do policial, que a
acomodou em seu braço. — Vai escovar os dentes.
— É sério isso?
— Vai logo! — Lhe dei um tapa no peito e me levantei, mas ele
me retribuiu com outro bem mais forte na parte de trás da minha
coxa quando me afastei. — Para de birra!
— Estúpido!
— Demônio!
Então fui até o banheiro e escovei os dentes, meio contrariado
e com vontade de rir. Amava aquele jeito mandão e ao mesmo
tempo safado e carinhoso. Queria mais e mais daquilo a todo o
momento. Vincent sabia que estava me conquistando. Queria senti-
lo perto de mim e ficar aninhado em seu corpo para sempre. Eu
tinha vontade de chorar a todo momento só para ter uma desculpa
para sentir seu abraço. Ele era tudo o que eu queria.
Assim que voltei para cama, assoprei seu rosto.
— Isso mesmo. — Me puxou, me fazendo cair desajeitado em
seu corpo. Me aninhei ali, competindo com Jasmin, sentindo seu
carinho em minhas costas. — Boa noite, Parker.
— Boa noite. — Deixei um beijo em seu peito, o que fez ele
subir e descer intensamente.
Ele suspirou.
CAPÍTULO 12 – Preocupado

Não sabia se tinha sido um sonho ou algum tipo de devaneio,


mas tudo se mostrou real quando senti o braço possessivo de
Vincent me manter perto do seu corpo. Ele estava um pouco suado
devido ao calor embaixo das cobertas, mesmo com o ar-
condicionado ligado. A pele exposta da minha perna deslizou pela
sua e como se fosse um estímulo senti seu membro pulsar. Olhei
seu rosto e me assustei ao ver seus olhos abertos e fixos em mim.
Meu coração parecia querer sair pela boca e respirar somente
pelo meu nariz se tornou um sacrifício. Especialmente quando sua
mão subiu por minhas costas, me prendendo ainda mais e me
puxou para cima dele. O olhava fixamente e ele, sem dizer uma
palavra, sentou-se comigo em seu colo. Ele puxou a barra de minha
camiseta, a levantando por cima de meus braços e assim que viu
meu peito nu passou seus dedos ásperos por ele, até que os fechou
em meu pescoço.
Sua boca veio até a minha e senti sua língua abrir caminho. O
beijei com delicadeza, enquanto sua barba arranhava meus lábios.
Era viciado naquela sensação. Era inebriante sentir cada fio irritar
minha pele. Queria cada vez mais daquilo e ele parecia gostar da
forma que eu acariciava seu rosto enquanto ditava suas vontades.
Ele me levantou um pouco e entendi o que queria. Tirei as
peças que restavam e finalmente pude sentir seu membro quente
embaixo de mim. Ele começou um vai e vem, buscando aliviar sua
excitação, mas eu não queria esperar. O segurei, causando um
gemido baixo em Vincent, e lentamente senti toda a sua extensão
se abrigar dentro de mim. Ficamos naquela posição por um tempo,
aproveitando o momento. Todas as vezes que involuntariamente
contraía os músculos o sentia pulsar, até que começou a se
movimentar, saindo e entrando.
Desejava mais força para que o sentisse cada vez mais fundo,
porém, como se para me provocar, ele me pressionava cada vez
mais lenta e intensamente. O beijava e mordia seus lábios, até que
atingiu meu íntimo prazer. Soltei todo o ar de meus pulmões e
instintivamente mordi seu ombro devido ao prazer que senti. Meu
corpo inteiro se retesou e contraiu, fazendo com que eu tivesse
outro momento luxuoso ao seu lado.
Caí em seu corpo me sentindo tão fraco e sensível, que
quando Vincent me abraçou sorri com uma criança besta. Uma
sensação maravilhosa tomou conta de mim, me fazendo distribuir
beijos por seu rosto e pescoço. Ele havia aproveitado aquilo tanto
quanto eu.
— Eu queria fazer isso com você ontem, mas era capaz de te
dar umas palmadas.
— Eu não sou uma criança, mas não ia reclamar. — Ele
segurou meu rosto com força e me beijou com seu jeito bruto.
— Você me provoca demais, garoto.
— E você gosta quando eu faço isso! — Me levantei com
dificuldade. Estava tomado de suor. — Vamos tomar banho, Sr.
Policial-Não-Tão-Comum.
Puxei aquele homem enorme para o banheiro. Ele foi em
direção ao chuveiro, mas me apoiei no deck de onde estava a
banheira. Nunca tinha entrado e como era uma manhã de domingo
e não tinha nada para fazer, decidi tomar meu primeiro banho nela.
Assim que Vincent escutou o barulho da água, me olhou.
— Você vai usar a banheira agora?
— Vou, por quê? — Me sentei olhando meu corpo. Não tinha o
costume de reparar nele, mas naquele momento me admirei. Eu
tinha tudo no lugar e ri ao ver a barriga negativa que Mandy tanto
me xingava por ter. Estava com as marcas das mãos de Vincent na
cintura. As toquei gentilmente e o olhei, percebendo que observava
cada movimento meu com atenção. — Gosta do que está vendo?
— Se você falar mais alguma coisa, eu vou te foder aí mesmo.
— Suspirou enquanto a água da ducha escorria pelo seu corpo.
— Por favor, Vincent. Não use esse tipo de vocabulário
comigo.
— Parker...
— Você sabe que eu não resisto.
E foi dito e feito. Em um momento ele tinha desligado o
chuveiro e no outro enterrava seu pênis em mim. Daquela vez ele
usou sua força para marcar meu corpo ainda mais como seu, e pela
segunda vez eu soube o que era o prazer. Ele sabia o que estava
fazendo e não podia ter alguém melhor para me mostrar como o
sexo poderia ser prazeroso.
Assim que a banheira encheu deslizamos para dentro dela.
Coloquei os sais de banho que nunca tinha usado. Montei em seu
colo de frente para ele, enquanto ele estava relaxado e com os
braços estendidos. Aproveitei para ensaboar aquele corpo
maravilhoso. Vincent me olhava e me sentia realmente despido em
sua frente.
— O que você está olhando?
— Você. — Respondeu. Sorri com sua resposta curta. Sempre
direto. Pegou um pouco da espuma que havia se formado e
começou a me ensaboar, me apertando toda vez que podia. Quando
esfregou meu membro, arfei. Ainda estava sensível, mas quando
sua mão foi para minha entrada e um de seus dedos tentou me
penetrar, gemi. Uma dorzinha estava presente assim que contraí. —
Dói?
— Um pouquinho.
— Desculpa.
— E por que você está sorrindo? — Não tive resposta. O
belisquei na costela, o fazendo segurar meus braços e me puxar
para um beijo. — Você é um safado!
— Só com você.
— Eu realmente senti sua falta. E eu posso parecer um bobo
por falar isso, mas eu realmente senti saudades.
— Eu sei. Eu também senti.
— Não sei como vou lidar com essa sua distância, Vincent.
Toda vez que algo parece dar certo para gente, uma coisa aparece
para nos separar. Primeiro foi a minha viagem e depois foi a sua.
— Nós vamos dar um jeito nisso.
— Vamos mesmo?
— Quer mesmo ter esse assunto agora?
— Eu só quero conversar com você. Não acho que é pedir
demais.
— Não é. — Suspirou, beijando meu ombro. — Mas tenho
algumas coisas que não posso me ausentar, ou deixar nas mãos de
outra pessoa.
Terminamos o restante do banho sem pressa, enquanto eu
tirava respostas curtas de como havia sido sua viagem. Ele não
parecia se interessar muito e sempre que falava de seus "parceiros"
suspirava irritado, tudo por não fazerem algo do jeito que ele queria
que fizessem. Decidi não estragar a nossa manhã insistindo naquele
assunto, mas tinha que pedir que não fizesse nada contra o Gary.
Ele não tinha feito nada de errado. Eu que era muito bom em saber
quando alguém estava me seguindo. E foi aquilo que fiz quando
estávamos na mesa.
Ele estava comendo as mesmas torradas com o queijo que
Mandy tinha temperado. Igualzinho como havia feito na manhã
quando contou a ela sobre nós. Minha amiga tinha saído bem cedo
para fazer algo com seus amigos da faculdade, mas antes de sair
deixara o agrado que Vincent tanto queria.
Estava brincando com Jasmin enquanto ele terminava de
comer. Eu beliscava umas uvas e percebi que todas as vezes que
fazia aquilo ele me olhava estranho. Algo que havia notado era que
nunca falava o que se passava em sua cabeça até que fosse
realmente necessário. Então, na maior parte das vezes eu tinha que
arrancar as coisas dele.
— O que foi, Vincent?
— Você só vai comer essas uvas, Parker?
— Eu não tenho fome de manhã. — Respondi dando uma
delas para Benj.
— Isso não é desculpa.
— O que você está insinuando? Acha que eu não como
direito?
— Eu só perguntei. — Pegou a décima torrada. Sim, eu
prestava atenção em tudo o que ele fazia da mesma forma que fazia
comigo.
— Eu quero que você não brigue com Gary, ok? — Me apoiei
no balcão a sua frente e ele parou de comer.
— Você quer?
— Sim, eu quero. Você que foi o errado em colocá-lo pra me
seguir!
— Não vou discutir com você sobre o que eu faço com o meu
pessoal. E muito menos deixar de corrigir o trabalho de um deles só
porque está me pedindo.
— Como você consegue ser tão grosso?
— Eu não fui grosso. Você que é sensível demais.
— Eu não acredito no que eu estou ouvindo.
— É dramático também.
— Você é um idiota, sabia? Eu não vou aturar isso. — Tentei
me afastar, mas ele me segurou. — Me solta.
— Para com isso! Está estragando meu café.
— Me desculpa, senhor. — Falei puxando meu braço, mas ele
não cedeu. — Vincent, eu já entendi. Eu não vou me intrometer no
seu trabalho, só pedi que não brigasse com Gary.
— Eu não vou brigar com ninguém, Parker. Mas ele ter falhado
em te vigiar sem ser descoberto é uma falha, e eu como superior
dele, preciso apontar onde melhorar. Se fosse alguém perigoso ele
estaria morto agora.
— Eu sou perigoso, Vincent. — Ele riu me subestimando. Com
um movimento rápido bati em seu braço e me soltei de seu aperto.
Ele cerrou os olhos em minha direção e tentou me pegar
novamente, mas desviei. Então se levantou e eu não gostei nada de
seu sorriso. — Não começa, Vincent!
Saltei para longe quando avançou em mim. Eu pedia para
parar, mas ele estava decidido. Corri pelo apartamento, escapando
várias vezes de seus braços até que me encurralou na parede
quando tive que saltar por Benj, que estava correndo atrás de nós
querendo brincar. Vincent, que estava sem camisa, tinha algumas
gotas de suor escorrendo por sua pele e por um momento me
desconcentrei. E foi quando aproveitou. Ele me deu uma rasteira
que fez meus pés baterem um no outro e se não fosse por seu
abraço, que me prendeu junto ao seu corpo, eu teria batido a cara
no chão.
— Isso não quer dizer nada. Se eu quisesse você estaria cego
agora. — Coloquei meus dedos na direção de seus olhos.
— Se eu quisesse você estaria desacordado agora. — Apertou
desconfortavelmente minha cintura. — E com alguns ossos
quebrados. Você é rápido, mas é fraquinho, garoto.
Ele sorria vitorioso de seu feito, então com um movimento
rápido chutei o meio de suas pernas e Benj terminou o serviço
pulando nele e mordendo sua mão, mas obviamente sem machucar
nada o seu pai. Ele gemeu de dor, mas não me xingou.
— Como eu dizia, você estaria cego, mas agora está no chão
e sendo mordido por um cachorrinho muito perigoso, assim como
eu. — Me aproximei devagar e toquei seu rosto. Ele não dizia nada,
mas também não fazia nada. — Me desculpa? Foi demais?
— Não preciso desculpar nada. — Se levantou comigo. — É
bom saber que sabe se defender, mesmo que eu descubra isso em
primeira mão.
O celular dele tocou no quarto e foi atender. Repassei tudo o
que tinha acontecido até aquele momento e cheguei à conclusão de
que era a manhã mais feliz que eu tivera em muito tempo. Arrumei
todas as coisas e fiquei sentado no sofá assistindo qualquer besteira
até ele voltar, o que começou a levar uma eternidade. Depois de
quase vinte minutos achei um absurdo ainda estar no telefone com
alguém. Então fui até o quarto e o vi saindo do banheiro enxugando
os cabelos e completamente nu. Não me cansava de admirá-lo. Seu
membro começou a se enrijecer e apontar para cima, e olhei
envergonhado para o sem vergonha, que estava muito confortável
com a situação.
— Já falei que ele só desce longe de você. — Começou a se
vestir.
— Você é muito safado. Acho que é a idade. — O provoquei,
mas sua reação foi outra devido seu celular vibrar com uma
mensagem, o que o fez suspirar irritado.
— Já vai sair?
— Tenho que levar o relatório para o trabalho. — Respondeu.
— Onde está aquela camisa branca que ficou aqui?
— Na primeira porta do guarda-roupa. — Peguei Jasmin no
colo e me sentei na cama o vendo se arrumar. Ele pegou a outra
camisa preta que estava pendurada na poltrona perto da janela,
mas não sabia onde colocá-la, então estiquei a mão.
— Deixa que eu lavo. Quando você decidir voltar, estará limpa.
— Peguei a peça de roupa, mas parei de andar quando seu corpo
grudou no meu, me segurando de costas para ele. — Eu já sei que
precisa trabalhar, mas eu pensei que em um domingo, depois de
uma viagem, você ficaria um dia de folga e comigo
— Eu tenho que ir. — Cheirou meu cabelo.
— A gente pode fazer algo depois, o que acha? — Ele
permaneceu em silêncio. Então me virei e pude ver em seus olhos
que não queria me dizer que viajaria. — De novo? Você acabou de
voltar, Vincent! Eles não têm nenhuma outra pessoa para ir no seu
lugar?
— Eu tenho que ir, Parker. É o meu trabalho. — Levantou meu
rosto e pela segunda vez eu chorava na sua frente. — Você está
chorando porque eu vou viajar?
— Estou sim. — Resmunguei. Ele fez carinho em Jasmin que
estava empoleirada em meu ombro. — Eu pensei que a gente ia
passar o dia juntos, no mínimo. Eu acabei de arrumar um namorado
e parece que ele já está saindo para me trair com alguém do
trabalho.
— Você realmente escolheu o curso certo. Eu preciso ir, mas
eu volto pra você.
— Para onde você vai dessa vez? Eu vou poder te ligar sem
você me tratar mal?
— Eu não vou poder atender nenhuma ligação enquanto
estiver lá, Parker. E é só isso o que eu posso te contar.
— Vincent... — Me beijou antes de eu começar a falar, mas
não consegui retribuir. O que ele tinha falado me fez sentir um pesar
enorme. — Por favor, não morre. Está me ouvindo? Eu não deixo
você morrer!
— Eu não vou. Eu tenho que voltar pra te tratar mal,
esqueceu? — Fez uma piada sem graça e o abracei forte. — Só vai
ser por uma semana.
— Uma semana, Vincent? Eu praticamente fiquei sem te ver
por duas semanas e agora vem mais uma?
— Eu preciso ir, Parker. Não torna isso mais difícil do que já é.
— Eu só queria que entendesse o meu lado. Parece que está
me negando o mínimo que eu mereço.
— Chega de manha, Demoniozinho.
— Não é manha. Eu só queria você... — Fiquei mais alguns
minutos grudado nele até que o encarei e dei um beijo calmo em
seus lábios. E só naquele momento senti algo horrível sobre o que
poderia acontecer em seu trabalho. — Eu não quero ficar ser você.
— O que? — Levantou meu rosto, não entendendo o que eu
havia dito por eu estar completamente grudado em si.
— Eu não quero ficar se você.
— Não vai ficar, Parker.
— Me promete.
— Por que está com medo?
— Só promete, Vincent. — Suspirou.
— Você não vai ficar sem mim. Eu prometo que volto pra você.
O acompanhei o tempo todo e fui com ele até a calçada do
prédio, para me despedir mais uma vez e o ameaçar de morte caso
não voltasse, então ele entrou em seu carro e partiu. Ainda fiquei
alguns minutos do lado de fora olhando por onde foi, antes de voltar
para o apartamento.
Não sabia o que fazer, e muito menos tinha ânimo para
qualquer coisa. Me afundei no sofá e fiquei daquele jeito até algo na
tv me chamar a atenção e me tirar aquele homem da cabeça. Mas
quando escutei a porta se abrir, por um instante pensei que podia
ser ele que tivesse desistido da viagem e voltara para mim, mas era
Mandy. Ela viu meu desapontamento e contei a ela, porém nem com
seus conselhos consegui me animar.
De noite o tirei de minha mente e conversei com Calisto por
telefone, o garoto que dirigiria o curta-metragem. Ele me explicara
que estava finalizando tudo, mas que a partir da próxima semana
começaríamos a ensaiar, mas pediu que eu o encontrasse com
Pamela na segunda para nos apresentar a toda a equipe. E me dei
conta de que nem mesmo contara para Vincent sobre aquele meu
feito.
E assim se fez. Conheci Kyle, um garoto muito ácido e
maquiado. Pamela e ele se adoraram logo de cara, pois um parecia
o outro. A única diferença era que minha amiga tinha uma vagina.
Fui apresentado a Alyssa, uma garota de cabelos roxos e um
homem de uma barba enorme ruiva, que se apresentou como
segurança de Calisto. Estranhei aquilo, mas não discutiria, pois não
o conhecia muito bem para saber se era alguém importante ou não.
Depois eu pesquisaria. Apresentou várias outras pessoas que
trabalhariam conosco e como se daria o curta. Havia ficado com o
papel de um menino que descobrira que só tinha três semanas de
vida e Pamela seria minha amiga, toda preocupada em fazer os
meus dias restantes os melhores possíveis, mas com segurança.
Me lembrei de Gortan e mandei a coincidência parar de me
provocar.
E falando naquilo, percebi que Gary estava me seguindo para
todo o lado, só que daquela vez ele não fez questão de tentar se
esconder e me avisou logo de cara quando estava voltando da
faculdade depois da reunião com a equipe. Havia prometido que
não me atrapalharia, mas que tinha que ficar de olho em mim. Eu
não discutiria. Não depois de quase querer bater nele quando não
me dizia nada sobre onde Vincent havia ido. Ele somente repetia
"não tenho permissão" incontáveis vezes. Por fim, desisti e comecei
a ignorá-lo e fui até a academia cancelar minha matrícula, pois não
precisaria mais saber sobre Vincent ou tinha a vontade de praticar
as aulas. Não queria o cercar tanto assim, afinal ele precisaria estar
presente para aquilo.
Foquei inteiramente nas aulas e nos ensaios durante todos os
dias que se seguiram, para que não tivesse tempo para pensar se
Vincent estava bem, se estava correndo algum perigo pelo qual não
poderia me contar, se já estava voltando ou pensando em mim.
Ainda não entendia o motivo de ser ele a fazer tudo e sempre ter
que ir para onde quer que fosse para resolver algum problema.
Estava tão focado em esquecer dele que acabei me esquecendo de
todos a minha volta. Inclusive Mandy.
Minha amiga havia começado a ficar cada vez mais cabisbaixa
e quieta, totalmente diferente da pessoa prestativa e bondosa que
era. Logo após eu sair da faculdade, por volta das oito horas da
noite fui para o apartamento, mas assim que passava pela recepção
do hotel, vi várias ligações perdidas de Calisto. Nossa amizade
estava fluindo bem, apesar de ele ser bem exigente como diretor.
— Até que enfim você atendeu.
— Desculpa, eu tenho a mania de desligar o celular durante as
aulas. Mas o que você queria com a minha pessoa, querido diretor?
— Queria saber se quer ir no bar do meu namorado hoje?
Quero comemorar que consegui um patrocínio que não seja o meu
pai para o nosso filme. Preciso também que me passe seu nome
completo.
— Isso é maravilhoso! Me manda o endereço que eu vou sim.
Entrei no meu apartamento e vi que Mandy estava sentada na
janela, com seu notebook no colo, mas sua atenção estava muito
longe dele.
— Parker Hayes Ivanov é o meu nome. Calisto coloque o
nome de Mandy Bell também. Uma amiga vai comigo no bar hoje.
— Tudo bem, te espero lá e aproveita que hoje é o início da
semana de artes da escola. Vai poder dormir até tarde amanhã.
— Até daqui a pouco.
— Até.
Deixei minhas coisas no sofá e peguei uma almofada, jogando-
a do lado da garota que ainda olhava perdida para fora. Encostei
meu corpo no seu e só então acordou daquele transe. Mandy estava
com uma expressão triste e não gostava nada de vê-la daquela
forma. Ela tinha que ser a minha fada madrinha naquela cidade e
estar totalmente feliz o tempo todo. Já bastava a minha vida triste
para me derrubar. Não precisávamos de dois mortos
emocionalmente naquele apartamento.
— O que aconteceu?
— São os meus pais... — Respondeu depois de um tempo. —
Eles estão me pedindo dinheiro.
— E por que estão pedindo para você? Eles não trabalham?
— Trabalham, mas não ganham tanto assim pra manter os
luxos que tanto gostam. Eu sempre ajudava com alguma coisa, mas
quando eu vim morar com você e parei de trabalhar, também parei
de mandar dinheiro. Eu tenho que te ajudar com alguma coisa. Acho
que vou separar um dinheiro dos livros que estou vendendo e...
— Não vai não! Esse dinheiro é seu! Não precisa me ajudar
em nada aqui, e em relação aos seus pais, com todo o respeito, que
eles se ferrem, Mandy. Eles não te ajudaram em nada e pelo que
você comentou comigo só te colocavam pra baixo. Você não precisa
ajudar eles. Não é sua obrigação e sim o contrário
— Mas eles me criaram, Parker. — Ela tentou argumentar e eu
sentia sua hesitação. — Eu não posso deixá-los assim. Eu…
— Pode sim! — A segurei pelos ombros. A encarei e percebi
como as nossas situações eram meio que parecidas. Se meu pai
fosse o pai dela seria tudo perfeito, os dois se amariam pra sempre.
— Mandy, você cresceu muito rápido. E você lutou com unhas e
dentes pra sair da sua cidade pra ter um futuro. E eu admiro tanto
isso em você. Sei que a gente cresceu em realidades diferentes e
temos a mesma idade, mas você é um exemplo pra mim. Você quer
ser uma mulher independente e eu só quero ser como você. Alguém
responsável e carinhoso.
— Parker... — Me abraçou. — Obrigado, de verdade, mas não
é para tanto.
— Eu que agradeço você. E acho que essa sua bondade está
entrando no meu coração. — Me levantei, a puxando. — Eu até
mudei o contato do meu pai de “Yorick” para “Pai”.
— Isso é ótimo! Então eu vou continuar te abraçando pra
passar mais bondade.
— Sai daqui! — Fingi nojo, mas logo retribuí. — Vai se
arrumar, porque a gente vai em um bar hoje. E pelo que me disse, o
namorado do Calisto é o dono, então vamos ter bebidas de graça.
Anda logo, vadia!
— Vadia?
— Vadia! — Repeti a empurrando na direção do seu quarto e
logo fui para o meu.
Separei uma roupa e tomei meu banho, demorando longos
minutos lembrando de como uns dias atrás eu estava com aquele
suspirador maravilhoso me tomando para si. Queria me bater por
sentir tanto a sua falta, mas queria bater nele por me fazer seu
namorado e logo em seguida só passar a noite comigo. Só havia
ficado com ele quatro dias desde que nos conhecemos, e somando
todas as horas não formavam nem um dia completo. Parecia um
carente pensando naquelas coisas, mas eu realmente era.
Vincent não me mandava mensagens e não deixava o coitado
do Gary me falar nada sobre onde estava. E enquanto isso, morria
de preocupação e minha mente dramática só ficava pensando em
como o perderia para algum bandido horrível. Dei uns beliscões em
minha perna para tirar aquelas coisas da cabeça. Ele não se
deixaria levar tão fácil. Era um ótimo profissional e eu tinha certeza
daquilo, pois era dedicado até demais ao trabalho. Porém estava
cada vez mais ansioso por sua vinda e esperava que tudo desse
certo.
Talvez fosse por conta daquela minha carência que mandei
uma mensagem para meu pai, que me propôs almoçar com ele em
sua casa já que estava morando em Bisera, e até se lembrou de
Mandy, dizendo que a poderia levar para passarmos a tarde juntos.
Quando chegamos no bar pude ver que era enorme, muito
diferente de qualquer outro que havia ido. Não que fosse adepto a
frequentar aqueles lugares, mas realmente estava impressionado
com a sua decoração. Cheguei, coincidentemente, junto de Calisto,
Kyle, Alyssa, Richard e outros dois garotos, um ruivo e outro moreno
que deviam ser namorados. Mas uma coisa muito curiosa e
engraçada aconteceu.
Assim que entramos e fomos direto para o segundo andar,
todos os outros clientes gritaram: "Olha! O Florzinha do Jared!"
quando viram meu diretor. Ele pareceu não estar surpreso com a
reação, mas foi direto para um cara enorme de cabelos longos e
deu um tapa no seu peitoral meio exposto na camisa leve e fina.
Todos fomos até eles que pararam de discutir quando nos
aproximamos.
— Parker, esse é o palhaço do meu namorado, Jared. Jared,
esse é o Parker, o meu ator. Essa é Mandy, amiga dele.
— É um prazer, Jared. — Estendi a mão, mas ele veio para
cima de mim e de minha amiga, nos abraçando e levantando no ar.
— É um prazer conhecer vocês dois. Todos os amigos do Flor
têm tratamento especial aqui.
— Obrigada. — Mandy agradeceu, atraindo a atenção de
Jared para seus olhos.
— Modelinho, vem cá! — Ele chamou e Kyle, que estava com
uma maquiagem perfeita em tons de vermelho, se aproximou. —
Você também tem a mesma cor dos olhos dela, não é? Uma bolinha
de gude marrom e outra azul.
— “Bolinhas de gude”, sério? Meus olhos são verdes e azuis,
mas temos a mesma condição. Heterocromia é o nome.
— Engraçado isso, né? É a única coisa hetera em você. —
Alyssa brincou.
— Cala a boca, garota! Vai cuidar desse seu cabelo seco e
podre. E você para de rir, Jared. Todo mal-cuidado!
— Não encrenca, Modelinho. Eu queria ter olhos assim.
— Eu sei que queria, Jared. — Kyle disse convencido e logo
reclamou quando o maior o colocou nos ombros e o levou para
longe, pedindo para ficarmos à vontade. Ele colocou o garoto no
ombro de um cara completamente cheio de tatuagens, com exceção
do rosto, que acabara de chegar.
— Animados, não é? — Mandy comentou.
— Eu estou adorando. — Falei e a puxei em direção ao bar. —
Vamos pegar alguma coisa docinha.
Ficamos conversando e pude perceber como todos ali eram
cúmplices um do outro. Eram realmente uma grande família feita de
diferentes pessoas e eu queria participar de algo assim. Já tinha
uma irmã, Mandy, e me sentia feliz por compartilhar momentos com
ela. Queria proporcionar e dar tudo o que ela não pôde ter por conta
de seus pais abusivos. Já tinha visto muito sofrimento em suas
palavras e não deixaria que elas ficassem para sempre ditando o
que sentisse.
A noite inteira nos divertimos e bebemos os drinques
deliciosos que Jared ou algum de seus bartenders faziam. Todos
eram muito divertidos e solícitos comigo e Mandy, já que éramos
novos no círculo de amizade, e sempre nos perguntavam alguma
coisa para nos incluir na conversa. Até achei graça quando
perguntaram se minha amiga namorava, e quando ela,
envergonhada, respondeu que não, dois dos amigos deles
levantaram a mão como se estivessem se oferecendo para namorá-
la. Ela não soube onde enfiar a cara.
Mas tudo mudou quando perguntaram sobre a minha vida
amorosa. Eu não tinha problema nenhum em dizer que Vincent era
meu namorado e respondi que já era comprometido. Jared bateu na
mesa rindo alto e pegou o dinheiro que o cara tatuado, Nicolai, que
descobri ser irmão de Calisto, lhe entregou. Ri da aposta sem
sentido que fizeram, mas voltei a não saber o que dizer quando me
questionaram onde ele estava. Então só respondi que estava
viajando a trabalho.
Queria que Vincent estivesse ali comigo, se divertindo e rindo
com todos. Mas também não sabia como ele era fora do meu
apartamento, ou ao redor de várias pessoas. Sabia que era educado
e que gostava de Mandy, mas em um grupo diferente de pessoas?
Então percebi que não tinha ideia do que aquele suspirador gostava
de fazer ou se saía com o pessoal do seu trabalho, como Gary e sei
lá mais quem. Esperava que voltasse para mim para que eu
pudesse lhe perguntar o quanto antes.
A noite seguiu maravilhosa graças a Jared e seus amigos, e
quando descobriram que eu tinha uma ótima pontaria me fizeram
jogar dardos no alvo e bolinhas em copos, dizendo que todas as
vezes que eu acertasse eles beberiam, o que eu achei uma
armação, pois depois que viram que eu não errava nenhuma vez,
começaram a beber até quando eu não jogava.
Escutei Mandy conversar com Calisto e Alyssa sobre Arte,
Kyle com Nicolai e Jared sobre uma campanha e mostrando as
fotos das roupas que usaria, mas seu namorado reclamava de
todas. O menor nem ligava e lhe dava um beijo toda vez que um
resmungo saía, o que ocorria até quando as roupas eram
comportadas. Era um casal completamente diferente e opostos, mas
lindos de se ver.
Minha amiga em um determinado momento começou a rir
descontroladamente de algo que escutara, e devido ao álcool em
meu corpo e no de todos, rimos de sua risada esquisita. E ri tanto
que em determinado momento não conseguia mais ficar ereto, pois
os músculos de meu abdômen estavam contraídos e doíam demais.
O ar de meus pulmões mais saía do que entrava e pensei que
morreria naquele momento. Até que senti um beliscão feito pelas
unhas afiadas de Kyle. Ele estava chorando e voltando a si, e havia
feito aquilo com todos para que se controlassem. O agradeci e vi
que Mandy estava no chão ajoelhada e Calisto abraçava Jared,
enquanto esse acariciava sua barriga ainda com um sorriso no
rosto. Um amigo do cabeludo começou a rir de novo, mas uma
mulher de cabelos raspados na lateral colocou um gelo por dentro
de sua camisa para que parasse.
A noite havia sido maravilhosa, mesmo quando na saída do
bar um mar de flashes nos cegou momentaneamente. O nome de
Calisto, Jared e Kyle eram gritados aos montes e me surpreendi
quando até o meu foi algumas vezes. Será que eles tinham ciência
de quem minha mãe era? Será que tinham pesquisado o meu nome
quando me viram perto de Calisto? Bom, Harper Hayes não gostaria
nada daquilo quando aparecesse sei lá onde. E tinha certeza de que
descobriria.
No táxi, durante o caminho do apartamento, fiquei olhando o
nome de Vincent na chamada do celular, e toquei para que ele
começasse a chamar, mas como sempre, caiu direto na caixa
postal. Quis chorar com aquilo e por toda a carência que estava se
acumulando no meu corpo. Por que ele não me atendia ou tinha de
viajar? Só parei de pensar nele quando chegamos no apartamento e
vi Harvey jogado no sofá, sem camisa, com suas tatuagens e
cicatrizes de brigas antigas expostas. Assim que me viu se levantou
num pulo, e com seus pés descalços veio em minha direção me
abraçando. Minha cabeça pendeu para frente devido ao álcool, mas
assim que voltei a mim retribuí o abraço.
— Me desculpa ter falado aquelas coisas na viagem,
Raposinha. — O olhei, estranhando sua atitude. Devido minha
condição de embriaguez não me lembrava ou tinha ideia do que
estava falando.
— Eu te desculpo, claro, mas me coloca no chão. Estou
ficando enjoado.
— Você bebeu? — Ele sorriu. — Meu irmãozinho certinho
bebeu?
— Cala a boca e me solta. Você é o desandado aqui, então eu
posso. Me solta!
— Tá bom. — Harvey ria e olhou para Mandy, que estava
vermelha perto dele. Meu irmão era bonito, não era segredo pra
ninguém, mas ela estava muito mais que nervosa. Era quase como
se os dois se conhecessem.
— Eu vou almoçar com Yorick, sabia? — Caminhei para o
quarto com ele me seguindo.
— Eu sei. Ele me ligou todo contente pra contar. Mandy é sua
amiga faz tempo?
— Ela é minha amiga. — Ri, começando a escovar os dentes.
— Isso eu sei, mas é a muito tempo? Já que ela está morando
aqui...
— Vocês se conhecem, né? Não precisa mentir. Eu vi o olhar
dela. Se você brincar com ela eu te mato. — Cuspi a pasta.
— Eu não vou fazer nada que ela não queira. — Se apoiou na
porta, cruzando os braços. Dei um tapa na sua barriga
exageradamente trincada de músculos. — Sua mão continua
pesada.
— A Mandy não é como as safadas que você sai. Ela é
decente, está me ouvindo? — Tirei minha roupa, ficando só de
cueca e me cobri. Ele se deitou na cama ao meu lado e me abraçou.
— O que está fazendo?
— Nada, só cuidando do meu irmão fraquinho. Agora fecha os
olhinhos e descansa.
— Tá! Boa noite.
— Boa noite, Raposinha.

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No dia seguinte fiquei a manhã inteira deitado, tentando me
mover o mínimo possível, e só me levantando para comer algo que
Harvey havia feito. Não estava com cabeça para ficar escutando
nada, mas sabia que os dois estavam conversando demais, e na
parte da tarde saíram juntos, pois tudo ficou em um completo
silêncio, com exceção do ronronar de Jasmin no meu ouvido e do
Benj.
Sair noite passada havia sido ótimo para tirar Vincent dos
meus pensamentos, pois minha mente estava ocupada demais em
procurar maneiras de arrancar a bolinha do meu cachorrinho. E me
impedia de ficar me lamentando por não ter aquele suspirador
comigo.
Depois de algumas horas Mandy e Harvey me trouxeram um
pote de sorvete. Ambos estavam com sorrisinhos divertidos no rosto
e quando encarei minha amiga, entendendo sobre o que aquilo se
tratava, ela ficou vermelha e começou a comer descontroladamente
o doce.
Estava adorando tudo até meu irmão falar aquele nome.
Turman. Eu ainda não havia esquecido o que ele tentara fazer
comigo durante o enterro de meu avô, e muito menos as coisas que
fazia antes de minha família vir abaixo. Ele ainda administraria a
sede da empresa na Rússia, mas como era um dos sócios
principais, assim como meu pai, eles se reuniriam periodicamente
para tratar dos assuntos ligados aos seus negócios. Eu não gostava
nada daquilo, mas tudo o que eu teria de fazer era ficar longe dos
dois todas as vezes que aquele nojento viesse a Bisera, e ficaria
tudo bem.
Meu irmão parecia compartilhar do mesmo sentimento que eu,
porém não sabia tão bem controlar as emoções e acabava com o
punho enterrado na cara de alguém, e por aquele motivo tinha
várias cicatrizes pelo corpo. Típico machão, eu diria. Não muito
diferente do nosso pai. A única diferença era que o mais velho sabia
controlar a raiva até o momento certo, mas não dispensava uma boa
briga. Ainda bem que havia puxado minha mãe, e era estranho me
sentir agradecido por aquilo. Eu ser parecido com Harper Hayes
parecia uma espécie de coisa proibida e me prometi que nunca
repetiria aquilo.
O dia do almoço chegou e estava mais nervoso do que poderia
admitir. Estava me prendendo a todos os tipos de besteiras
possíveis para tirar da minha cabeça o fato de que meu pai estaria
lá, e que eu não teria para onde correr caso me sentisse
desconfortável. Todos os detalhes mais inúteis possíveis giravam ao
meu redor, como os quatrocentos e setenta quadradinhos, divididos
em sete faixas retangulares que tinham no meu guarda-roupa, ou
como o azul-claro da minha camisa de mangas curtas dobradas
duas vezes quase combinava com o azul do céu naquele dia, e
como o branco do meus shorts e tênis estavam brancos como o
branco das nuvens e o branco da cortina da janela do meu quarto,
porém não combinavam nada com o branco amarelado da bolinha
de Benj. Quantas vezes eu conseguia colocar a palavra branco nas
minhas frases antes de me dar branco e eu não conseguir pensar
em nada?
— Eu estou bem. — Afirmei para Jasmin que não parava de
miar para mim. Ela chiou mais manhosa e se deitou. — Filha, me
desculpa. O papai está nervoso, porque ele vai ver o papai dele.
Meu celular tocou e logo a foto de Calisto apareceu. Ele havia
passado por algumas questões bem pessoais nos últimos tempos e
até mesmo pensei em Vincent ajudá-lo. No entanto, nossa relação
estava a melhor possível.
— Bom dia, Parker. Eu tenho uma ótima notícia para você. Eu
mandei uns vídeos de nossos ensaios para um produtor que
conheci através de Kyle e ele gostou muito de você. Passei seu
contato e ele deve te ligar nos próximos dias para te indicar um
trabalho, também passei seu contato para um dos agentes que Kyle
me indicou. O nome dele é Perry e é um ótimo profissional.
— Nossa! — Fiquei atordoado com todas aquelas informações.
Quem sabe aquele fosse o momento de minha vida realmente ter
uma reviravolta. — Eu nem sei o que te dizer, Cali. Vou aguardar
ansiosamente a ligação.
— Não há de que. Depois que me defendeu do Harrison no
almoço da faculdade, soube que era uma pessoa boa.
— Você quem é! — Estava ajoelhado e brincando com as
patinhas de Jasmin quando meu irmão entrou no quarto, vestido
como um motoqueiro. Ele me puxou pelo braço quando não fiz
questão nenhuma de me levantar e me sacudiu no ar, quase
derrubando o celular da mão. Ele estava mais forte do que me
lembrava e definitivamente mais alegre. — Cali, eu tenho que
desligar agora, mas eu te retorno assim que puder, tudo bem?
— É claro. Um Beijo!
— Será que dá para você ser uma pessoa decente pelo menos
uma vez na vida? Não viu que eu estava no telefone?
— Você estava demorando demais aqui no quarto e já é hora
de ir.
— Eu estava me arrumando e controlando minha ansiedade.
Não sei se é uma boa ideia. Ainda não estou completamente feliz
com seu avô estando vivo e querendo bancar o redimido.
— As pessoas podem mudar, sabia?
— Harvey, você é o perfeito exemplo de que elas não mudam,
só fingem para conseguir o que querem. E se ele estiver lá...
— Vai dar tudo certo, Raposinha! — Me puxou pelo corredor.
— Você vai ver que pelo menos nosso pai nunca deixou de te
considerar o preferido.
Benj estava sentado no sofá olhando um passarinho pela porta
de vidro da sacada. Coloquei comida para ele e num segundo veio
como um furacão comer. Mandy apareceu segurando nossas blusas
meio brancas com detalhes brancos... Me bati mentalmente para
tirar a palavra branco da minha cabeça.
Quando estávamos prontos descemos de elevador até o
estacionamento do prédio, que eu nunca tinha ido por sinal. Harvey
estava com um carro enorme e que eu não sabia o nome de jeito
nenhum. Me sentei no banco de trás para evitar qualquer conversa
e obriguei minha amiga a ir de carona. Coisa que a deixou vermelha
de vergonha, mas não ousou me contrariar. Por que será?
Ele dirigiu pelas ruas da cidade e se afastava cada vez mais
do centro. Achei que conhecia aquele caminho e tive a certeza
quando paramos em frente ao portão do condomínio que Vincent
morava. Não era possível que aquilo estivesse acontecendo, era?
Meu pai e namorado morando no mesmo lugar? Automaticamente
lembrei que os dois não se deram muito bem da primeira vez que se
encontraram.
— Papai escolheu um bom lugar pra morar. Disseram que é o
mais seguro. Até me ajudou a comprar uma casa para mim e queria
comprar uma para você. — Harvey disse olhando para fora e
quando passamos por uma de dois andares, branca e com pilares
sustentando a varanda, ele parou. — Essa daqui é pra ser a sua.
Nunca moraria lá. O que Yorick tinha na cabeça para fazer
algo assim? Não era daquela forma que conseguiria alguma coisa.
E o que Vincent pensaria? Obviamente concluiria que comprara
para ficar mais perto dele, como um garoto apaixonado. Não, nunca
moraria lá!
— Ele está completamente louco. Igual todo mundo da parte
dele da família.
— Então reza para ele não ter comprado. “Compra Definitiva”
eles disseram. Ou foi nosso pai? De qualquer forma, já temos onde
morar.
— Eu não moro aqui nem morto! — Reclamei olhando minha
“nunca-será-minha-casa” casa se afastar.
— Elas são lindas! — Mandy falou aérea.
Harvey dirigiu por mais alguns minutos até que passamos pela
casa de Vincent, que estava... habitada. As luzes da grande janela
vertical ao lado da porta estavam acesas, o que indicava que
alguém estava lá, ou ele poderia ter as esquecido ligadas, o que era
bem improvável. Mas então uma mulher de cabelos amarrados saiu
carregando um saco preto de lixo e o colocou no cesto próprio para
o descarte. Devia ser a arrumadeira, pois os cabelos brancos
denunciavam a sua idade. E até onde eu sabia, Vincent não se
atraía por aquele tipo.
Meu coração bateu um pouco mais lentamente e pude me
concentrar na minha real preocupação. O carro entrou por um
portão de ferro e passou por um jardim imenso com árvores e
gramado verde, e no fundo, uma casa enorme. No entanto o que
mais me chocou foi ver meu pai.
Ele vestia uma camisa azul escura que deixava os pelos de
seu peito aparentes, um shorts quase do mesmo tom e chinelos.
Achei aquilo estranho, pois não sabia que era possível ele tirar
aquelas roupas formais. Apesar de estar descontraído, seu rosto
demonstrava estar cansado, mas... feliz. E um sorriso se formou por
entre a barba espessa.
Descemos do carro e assim que ele colocou os olhos em mim,
veio me abraçar. Ele segurou meu rosto em suas mãos e deixou um
beijo em minha testa. Exatamente como fazia antigamente, quando
ainda éramos pai e filho. Não sabia de onde aquela intimidade havia
surgido ou o motivo de ter o deixado fazer aquilo.
— Estou tão feliz que veio, filho. — Falou mal contendo sua
animação. E eu não estava diferente, mas não deixei transparecer.
— Você está horrível! Precisa dormir mais, Yorick.
— Parker! — Mandy me repreendeu. — Desculpa, Sr. Ivanov.
Ele está muito feliz em te ver também, senhor. Eu sou Mandy.
— Eu sei quem você é. E é um prazer te conhecer. — Meu pai
apertou sua mão. — Vamos entrar, o almoço está quase pronto.
— Você que está cozinhando? — Indaguei olhando admirado a
grande casa. O Hall de entrada tinha uma grande escada que
levava até o andar de cima, e havia grandes espaços abertos que
levavam a sala de estar e a cozinha, cada um de um lado. O
seguimos até o cômodo e começou a olhar as panelas.
— Sim, eu mesmo. Lembro de como gostava da minha comida
quando era pequeno.
— Gostava? — Fingi não lembrar, mas quis sorrir.
— Sim, principalmente a minha carne com legumes. — Bebeu
um pouco da bebida em um copo perto dele. Harvey fez o mesmo e
colocou mais para o pai.
— Vocês vão morrer de cirrose. — Disse e comecei a olhar
pela grande porta de vidro que levava para o lado de fora.
— Parker! — Mandy me deu um cutucão. — Ele não quis dizer
isso, Sr. Ivanov.
— Yorick, por favor, Mandy.
— Eu disse que ele estava uma cobra criada, pai. — Harvey
pegou um pedaço de carne da panela, mastigando com a boca
aberta por conta da temperatura, e logo depois tomou um gole da
bebida para aliviar sua língua.
— Eu posso ajudar em alguma coisa?
— Pode pegar o suco que está na geladeira, Mandy. Parker
não é muito fã de refrigerante. — Me surpreendi com o tanto de
coisas que se lembrava de mim. — Filho, por favor, pegue os pratos
e leve para fora.
Harvey fez o que ele pediu e logo estava arrumando a mesa
para comermos com a ajuda de minha amiga.
Yorick se atrapalhou com o pano de prato e sem querer
acabou se queimando na panela quente. Me aproximei e liguei a
torneira. E como se fosse uma coisa normal peguei sua mão e a
coloquei embaixo da água.
— Obrigado, filho.
— É só água.
— Não por isso. — Fechou a torneira e me segurou pelos
ombros, me fazendo o olhar. — Obrigado por ter vindo.
— Eu... — Tentei falar, mas vê-lo chorar travou minha
garganta. Era o momento.
— Me desculpa por ter te deixado, por ser um fraco quando
você precisava que eu fosse forte... — Me puxou para um abraço.
— Eu falhei como seu pai antes, mas eu não vou falhar agora. Pode
ter certeza disso!
— Eu não quero ter essa conversa.
— Então quando vamos ter, Parker? Eu estou respeitando o
seu espaço, mas tente entender que eu te amo, meu filho. Eu quero
fazer parte da sua vida e te recompensar por tudo o que eu deixei
de fazer para você.
— Por que agora? Por que depois de todo esse tempo? —
Respirei fundo para tentar controlar minha ansiedade.
— Não quero parecer que coloquei a empresa na sua frente,
porque não foi a minha intenção, mas eu precisei aguentar certas
coisas e me dedicar a ela para que eu pudesse continuar dando
tudo o que você precisava. — Secou meus olhos, mas segurei sua
mão. — Quando eu vi que você estava se mudando para seguir sua
carreira, eu sabia que tinha que me aproximar.
— Eu...
— Eu só te peço uma chance para me desculpar, filho. Por
favor, não me deixa de fora da sua vida. Eu não quero mais ficar
longe de você!
— Eu não quero mais te afastar, porque isso está me doendo e
me incomodando mais do que deveria. E eu não posso me deixar
afetar por algo assim. Não quando eu estou vendo uma luz no fim
do túnel para tudo o que eu sempre quis fazer na vida. — Sequei as
minhas lágrimas. — Se realmente for isso o que você quer, por
favor, não me machuque. Se você quer algum lugar na minha vida,
não me faça me arrepender de abrir meu coração para você. Não
sei o que está acontecendo para que todo mundo esteja querendo
falar comigo e ser uma família novamente, mas vamos com calma,
tá bom?
— Claro! — Respondeu sorrindo. — Vamos no seu tempo.
Você me diz quando eu estiver passando dos limites e eu paro. Eu
criei o seu irmão, mas ele sempre foi um espírito livre, como a sua
mãe. Mas você sempre foi meu filhotinho.
— “Filhotinho”, Yorick?
— É. Não lembra quando eu te chamava assim?
— Tem coisas que não precisamos trazer para o presente,
okay?
— Você era muito novo, mas olha pra você agora: está um
homem e muito lindo tenho que dizer. Tem os olhos da sua avó,
minha mãe. Tão clarinhos que parecem que vão trincar a qualquer
momento. Ela ia adorar ter te conhecido, sabia? Ela era uma pessoa
maravilhosa e colocava meu pai na linha. Infelizmente...
— Ok! Escutei algo parecido do Gortan sobre minha falecida
avó que não conheci.
— Espero que ele não tenha te incomodado. Seu avô pode ser
um pouco difícil...
— Chega de falar nele. Esse é um assunto proibido se quiser
se aproximar de mim, entendeu? — O interrompi pegando a panela
da carne e ele pegou os acompanhamentos. — Chega de assuntos
tristes e vamos comer.
— Vamos. — Se arrumou, voltando a si e se colocou do meu
lado, mudando de assunto. — Seu irmão e a Mandy estão
namorando?
— Não que eu saiba. Mas os dois se gostam. Isso eu tenho
certeza!
Me sentei perto dele e durante todo momento o pegava me
olhando enquanto comia. Estava feliz por ter aceitado o convite e
mais ainda por dar uma chance à ele de entrar em minha vida
novamente. Ele perdera muito e vários anos do meu crescimento,
porém parecia ter sofrido tanto quanto eu com a distância entre nós.
Ele me perguntava sobre como estava a faculdade e amigos, e
eu tentava responder da melhor forma e com a maior quantidade de
detalhes possíveis para que ele pudesse entender o que se passava
dentro do curso de Drama. Yorick parecia sempre prestar muita
atenção em tudo. Era um ótimo homem e principalmente parecia um
ótimo pai. Harvey teve sorte de tê-lo por perto.
A tarde se passou rapidamente até o momento em que ele
precisou atender uma ligação do trabalho. E percebi que era um
outro viciado, assim como Vincent. Disse que precisaria se ausentar
por algumas horas, mas pediu para que eu não fosse embora, pois
voltaria o mais rápido possível.
Harvey havia convencido Mandy a entrar na piscina e saíram
para comprar roupas de banho. Onde? Não tinha ideia, mas sabia
que era uma desculpa para se pegarem em algum canto. Aquela
garota ia ver só por me esconder as coisas.
Aproveitei que estava sozinho para caminhar até a casa de
Vincent. Queria ver com meus próprios olhos se estava tudo bem e
se a aquela mulher não era uma louca. Ou se o saco preto que
jogou fora não eram os restos do corpo esquartejado do suspirador.
Então assim que cheguei em frente, espiei por entre a janela.
As luzes ainda estavam acesas, o que indicava que ela ainda estava
lá, mas não via nenhum movimento. Tudo estava no seu lugar e não
tinha nenhum sinal da senhora. Até que escutei um latido bem perto
de mim e pulei quando a vi parada alguns degraus abaixo, com um
sorriso divertido no rosto.
— Eu não ia roubar nada, eu juro! — Falei rapidamente.
— Eu sei que não, Parker. — Ela sabia meu nome e eu não
soube o que dizer. Não me lembrava de tê-la visto em nenhum lugar
antes.
— Desculpa, mas como sabe meu nome? — Me aproximei,
deixando a grande pastora alemã me cheirar e lamber minhas
mãos.
— Você acha que não vou saber quem está amansando o
coração do meu filho?
— Você é a mãe do Vincent?! — Quis ser uma avestruz pra
enfiar minha cabeça no chão.
“Que ótima maneira de conhecer sua sogra, Parker. Ponto pra
você por ser pego espionando a casa do filho dela.”
— Eu não sou um louco. Eu não estava seguindo ele e nem
invadi o condomínio! É que acabei de descobrir que meu pai mora
aqui também e estou vindo de um almoço na casa dele. Na verdade,
o almoço acabou, mas ele saiu pra resolver alguma coisa do
trabalho, e é um viciado, sabe? Igualzinho o seu filho, que por sinal
é muito lindo e educado. Só em alguns momentos ele passa do
limite. Mas eu super o respeito! Eu só decidi passar aqui porque
meu irmão e minha amiga saíram pra comprar roupas de banho pra
entrar na piscina da casa, não tenho certeza se vão voltar tão
cedo...
— Você fala muito! — Disse séria e senti meu coração parar.
Desmaiaria, tinha certeza. Mas então ela riu... Alto. E até colocou a
mão na barriga. — Eu te amei! Finalmente vou ter alguém pra
conversar. Meu filho é muito quieto, sabe? Igualzinho o pai dele.
— Não brinca assim, Sra...? — A acompanhei entrando na
casa.
— Celeste. E é só Celeste, nada de senhora.
Então descobri que ela era a melhor pessoa que eu poderia
pedir para ser minha sogra. Era divertida na medida certa e me
contou tudo sobre o Vincent, desde quando era pequenininho e um
garotinho todo emburrado e troncudinho, que vivia seguindo o pai
para cima e para baixo; sobre a adolescência, onde estava focado
em ser um policial e passava a maior parte do tempo estudando e
na academia; e até a fase adulta, onde quase se casou com uma
"piranha", chamada Karen. Minha sogra se referia a ela daquela
forma e eu também comecei. Aquela mulher parecia ser
insuportável pela forma que se comportava, como se fosse dona do
mundo, e nunca trocava mais do que duas palavras com Celeste.
— Me desculpe pelo que vou falar agora, mas ela estava mais
preocupada em ser traçada pelo meu filho do que ser uma mulher
digna para ele. — Disse com desgosto. — Uma completa piranha,
se me permite acrescentar de novo. Ainda bem que ele encontrou
outra pessoa. Você, no caso.
— Eu vou ficar sem graça, Celeste. — Senti meu rosto
queimar.
— Não fique. É um elogio! Sabe, te olhando assim, eu sei por
que meu filho está apaixonado por você. É um anjinho.
— Ele disse que está apaixonado por mim? — Não resisti
perguntar.
— Não. Sabe como Vincent é, não é? Uma porta falaria mais
sobre a vida dela do que ele. Mas ele nem precisou. Veio perguntar
para mim umas semanas atrás onde o pai dele havia me levado
para me pedir em namoro, e óbvio que era para levar você. Coisa
que eu fiquei sabendo que não fez. Me disse que você cozinhou
para ele também. Ótima maneira de o conquistar. — Rimos. — Me
contou que você estava preocupado por ele estar cansado do
trabalho e foi quando soube que era decente. Sabe, ele anda
cansado esses dias por conta do trabalho exigente dele, e nem tem
ido em casa direito. Mas sabe para onde ele foi? Para o seu
apartamento. — Segurou minha mão. — Eu fiquei com ciúmes, não
vou negar, mas eu sabia que estava em boas mãos. A propósito,
você não escutou de mim, mas ele te comprou um anel.
— O que? — Meu coração estava descontrolado.
— Isso, menino. Ele me levou para ajudá-lo a comprar. Ele vai
te pedir em namoro. — Comentou sorrindo. — Eu achei tão
bonitinho o meu menininho todo indeciso na hora de comprar o anel.
Você tinha que ver a cara dele. Foi tão lindo! Ele ficava me
perguntando se combinava com a sua foto.
— Ele tem uma foto minha?
— Tem sim. — Pegou o seu aparelho e me mostrou uma que
Mandy tinha tirado. Eu estava segurando Benj e Jasmin. — Um fofo!
E eu ainda não acredito que ele deu aqueles nomes para os seus
bichinhos por causa daquele jogo de palavras idiota do meu marido.
Ri de sua frustração enquanto guardou o celular, mas fiquei
sem graça quando me encarou.
— Olha, Parker. Eu nunca o vi tão feliz quanto depois que te
conheceu. Ele era um grosso. Pegou essa mania do pai. Ele não é
comigo, claro, pois eu bato na bunda dele se for. Mas ele tem essa
mania de ser muito sério e direto, me entende, não é? — Concordei.
Eu sabia muito bem. — Não leva essa parte dele a sério, porque
muito disso é por conta do trabalho. Ele é um homem muito íntegro
e meu maior orgulho como mãe. E me sinto mais realizada quando
sei que ele escolheu você, que pelo pouco que me contou é muito
lindo, por dentro e por fora.
— Obrigado, Celeste. — Apertei sua mão gentilmente.
Aproveitando aquele momento, decidi saber mais sobre o passado
de Vincent. — Celeste, você me disse que ele quase se casou com
uma mulher.
— Está querendo saber se meu filho é gay?
— É só uma curiosidade minha.
— Vincent é um homem fechado, Parker, então não sei com
quem ele se relaciona por aí, mas de uma coisa eu tenho certeza:
você não é qualquer um. Talvez ele seja bissexual... não sei.
— Você não tem nenhum problema com isso?
— Eu fui enfermeira, Parker. Lidei com todo o tipo de gente e
um trabalhador da saúde que tenha algum tipo de preconceito deve
devolver a licença na hora.
— Isso é bom de se escutar.
— Se te ajudar a ficar mais tranquilo sobre esse assunto,
Vincent não se relacionou com ninguém depois daquela
mulherzinha. Depois do que ela fez com ele, não me admira ele ter
demorado anos para finalmente se abrir com alguém.
— O que ela fez? — A senhora fez cara de quem havia falado
demais. — Pergunto, porque Vincent quase não me conta nada
sobre a vida dele, mas ele sabe tudo sobre a minha.
— Não é que eu não queira te contar sobre isso, mas não é
algo que me cabe. Isso é um assunto do meu filho e você.
— Entendo, mas obrigado mesmo assim. Me fez perceber que
tem um coração debaixo daquele peito.
— Ele é gentil, mas é grosso também. É uma contradição
ambulante o meu filho. Mas olha só as horas! — Disse espantada.
Eram quase sete da noite. Ficamos conversando por mais de três
horas seguidas e nem percebi. — Ele ligou várias vezes. Deve ter
voltado, porque ele sempre me avisa, mas com a conversa não
percebi.
Bati a mão no bolso e percebi que não tinha trazido meu
celular. Mas então uma luz, indicando que um carro havia parado
em frente da casa, iluminou toda a sala e logo se apagou.
— Nosso docinho chegou. — Disse Celeste contente olhando
para a porta, de onde um Vincent bem zangado entrou. — E chegou
azedo.
— O que a senhora estava fazendo que não atendia o...
Parker?! — Ele me olhou confuso e sorri com vergonha.
— Oi. — Foi tudo o que eu disse. Celeste se aproximou do
filho e soltou um lamento tocando seu rosto, e logo notei o motivo.
Uma parte de sua bochecha tinha uma mancha um pouco roxa,
como se ele tivesse levado um soco, mas a sua barba fazia um bom
trabalho em escondê-la. Seu lábio inferior tinha um corte, assim
como sua sobrancelha. De sua camisa social um pouco aberta era
possível ver que seu peito estava coberto por uma faixa curativa.
Ele havia se machucado e meu coração se apertou ao vê-lo daquela
forma. Me aproximei e, assim como sua mãe, o encarei com temor.
— O que aconteceu com você, Vincent?
— Meu filho, você precisa se sentar. Me deixa olhar isso
direito. — Celeste tentou puxá-lo, mas ele não se moveu, alternando
seu olhar de mim para ela.
— O que está acontecendo aqui? — Ele estava confuso e foi
prazeroso vê-lo daquele jeito. — O que vocês estão fazendo juntos?
— Uma hora eu teria que conhecer meu genrinho, já que você
não o levava até mim. E por um acaso do destino o encontrei esta
tarde. — Ela disse e novamente puxou seu braço. — Anda menino,
me obedeça. Eu sou sua mãe e vou ver se cuidaram do meu homão
direito.
— Eu estou bem, mãe. — Vincent reclamou ainda olhando
para mim.
— Faz o que a sua mãe está pedindo... Homão — Mandei e
ele suspirou ao ver o meu sorriso em divertimento.
— Espera. — Pediu e me abraçou forte, como se quisesse ter
certeza de que eu estava lá. Senti que não estava bem, mas ele
insistia em se manter forte.
— Eu estou aqui, Vincent. — Ele concordou com a cabeça e
me beijou ternamente. Depois de nosso carinho sua mãe o olhava
contente e eu estava queimando de vergonha.
— Agora, para o sofá. — Mandou e ele suspirou. — E não
adianta ficar soltando ar igual uma panela de pressão. Eu vou te
examinar sim! Eu fui enfermeira minha vida inteira. Agora, tira a
camisa.
Ele começou a desabotoar o tecido, mas quando percebi a sua
dificuldade me aproximei para ajudá-lo. Celeste pareceu ter tido a
mesma ideia, pois nossas mãos se encontraram, porém me deixou
continuar. Vincent nos encarava, e negando com a cabeça, a deitou
no encosto do sofá.
— Eu mereço isso. — Resmungou sem nos olhar.
— Olhe pelo lado bom, meu amor. — A senhora tirou a peça
de roupa quando ele se afastou por um momento e tornou a deitar.
— Agora você tem duas pessoas para cuidar de você.
— Pra me fazerem perder a cabeça, isso sim! — Retrucou.
Enquanto sua mãe o examinava muito criteriosamente,
apertando certas partes do seu corpo e perguntando se sentia
alguma coisa, eu me sentia cada vez mais inútil. E tudo o que eu
fazia era olhar a relação cheia de cumplicidade dos dois. Eu nunca
teria aquilo com minha mãe. Nunca teria aquele amor ou alguém
que se preocupasse com o horário que eu chegaria, pois temia pela
minha segurança e não por uma péssima imagem que aquilo
poderia passar.
Celeste tinha todo o cuidado de fazer carinho no rosto de seu
filho todas as vezes que ela massageava uma parte dolorida. Todo
aquele amor e capacidade de cuidar de alguém eram admiráveis.
Me sentia um estorvo, incapaz por não poder oferecer nada. E
aquilo batia em minha cabeça a todo momento. O que eu poderia
fazer para ele? O que eu poderia fazer para aliviar sua dor? Ler uma
obra de Shakespeare?
Quando eles se levantaram, devido a dor que Vincent estava
sentindo, tudo o que pude fazer foi buscar os analgésicos no seu
carro, que ainda não tinham sido abertos. Enquanto estava voltando
para dentro, um jipe estacionou rente a calçada e Gary saiu
acompanhado de um outro homem, esse mais moreno e com olhos
verdes claros lindos. Em seu cordão estava escrito Kent Amaya, o
mesmo sobrenome da ex-quase-esposa de Vincent.
Entreguei os remédios à eles e disse que seu chefe estava lá
dentro. Eu não sabia o motivo, mas uma melancolia horrível tinha se
abatido em mim por ver Vincent, que era tão forte e altivo, mesmo
que lutando contra sua condição, estar debilitado. E o meu
segurança temporário pareceu notar.
— Você não vai entrar, Chefinho? Ele vai gritar com a gente se
não entrar.
— Vai mesmo. — Kent concordou.
— Celeste está lá e tudo o que ele precisa é da mãe agora. —
Sorri falsamente. — Boa noite pra vocês.
— Você tá bem?
— Estou sim, Gary. Só tive muitas coisas acontecendo hoje.
Até depois!
Eles entraram na casa e eu limpei uma lágrima que teimou em
cair. No entanto, não dei nem dez passos e escutei a porta bater
contra a parede violentamente e Vincent, segurando um pouco
acima de seu abdômen, estava em pé me olhando em um misto de
raiva e dor.
— Onde você pensa que vai? — Perguntou furioso.
— Chefe, o senhor tem que descansar. — Gary falou tentando
segurar o corpo pesado do seu superior.
— Tira a mão de mim, Richards! — Vincent rosnou para o
coitado, que se afastou de cabeça baixa.
— Ele está tentando te ajudar, seu grosso! — Briguei me
aproximando.
— Eu não pedi a ajuda de ninguém. Pedi?
— Não. Muito menos a minha, mas você devia ser agradecido
por mesmo assim eles virem aqui por você. Cadê sua
consideração?
— Vem aqui!
— Você devia ser mais gentil com as pessoas, Vincent.
— Parker, vem aqui!... Por favor. — Ele respirou fundo e
notando o quanto estava fragilizado e se mantendo forte, fui até ele.
Assim que me alcançou me puxou gentilmente para si. — Eu
preciso de você do meu lado. Eu não quero mais ninguém. Por
favor… só fica aqui.
— Tudo bem. — Soltou a respiração, aliviado. — Vai pra
dentro e me espera lá. Eu preciso voltar pra casa do meu pai para
avisar Mandy, mas eu volto em alguns minutos.
— Por que você não pode ligar pra eles? — Reclamou.
— Para de ser manhoso, homem. — Celeste o abraçou. —
Parker disse que volta, não disse? Então vai se deitar e esperar.
— Nós estamos indo chefe, só viemos ver como o senhor
estava. — Gary falou e esperou um agradecimento que não veio.
Então belisquei aquele ingrato.
— O que foi?
— Agradece. Agora! — Mandei e ele bufou.
— Obrigado, Richards e Amaya. Podem ir! — Revirei os olhos.
— Muito obrigado. Vocês foram muito gentis em vir como ele
está. Qualquer coisa eu aviso vocês.
— Por nada, chefinho. — Gary disse sorrindo, mas logo fechou
a cara sob o olhar do chefe.
— "Chefinho", Richards? — Vincent se exaltou. — Some
daqui, vai! Os dois! Que intimidade é essa?
Ele entrou e pisquei para os dois agentes que foram embora
se divertindo. Fui até a cozinha onde vi aquele ingrato abrir uma
cerveja. Rapidamente a peguei de sua mão e o encarei enquanto
despejava o líquido na pia.
— Mas que merda é essa, Parker?
— Mais respeito ou eu vou embora. Se quer beber alguma
coisa, beba água e esse remédio. Anda!
A contragosto ele pegou os dois e bebeu.
— Ótimo, agora pra cama. O que acha de eu fazer macarrão
pra você? — Abri a geladeira e depois o encarei. E ele saiu
reclamando em silêncio, exatamente como eu pensei que faria. —
Eu estou brincando, amorzinho.
— Do que me chamou, garoto? — Voltou até mim, me olhando
curioso.
— Amorzinho. — Repeti lentamente. Então finalmente senti
seus lábios nos meus da forma bruta que eu adorava. Mas ele se
afastou me deixando reclamando por um beliscão na coxa. — Por
que fez isso?
— Pela cena que fez na frente dos meus agentes. — Subiu as
escadas e me deixou sozinho.
Eu quis derrubá-lo lá de cima e me senti a própria Nazaré
Tedesco. Por um momento, lembrei de minha avó e de como
adorava assistir novelas com ela.
Celeste entrou trazendo alguns legumes frescos. Não tinha
visto por conta de estar escuro da última vez que estive lá e de estar
saindo com pressa, mas havia uma horta que ela cuidava. Ela
assumiu a cozinha e a todo momento me olhava sorrindo e feliz.
Quando perguntei do que aquilo se tratava, respondeu que estava
contente por me ter lá. Acabei por pedir seu celular e avisei a Mandy
que não voltaria pra casa de meu pai. Expliquei por cima tudo o que
acontecera e dei minha senha para que pudesse pedir um Uber
para ir embora. Ela disse que pediria ajuda a Harvey, já que ele já
sabia do meu envolvimento com Vincent.
Conversei por alguns minutos com Celeste sobre tudo o que
havia acontecido, e lhe questionei sobre o estado do suspirador.
Parecia tudo em ordem e pelo trabalho que Vincent exercia, não o
deixaria sair com a certeza de que algo complicaria sua situação. O
que me deixou mais calmo. Não conseguia nem imaginar a
possibilidade de algo acontecer com ele. Nada poderia entrar em
nosso caminho, pois eu queria estar ao seu lado e não o deixar
nunca mais.
Escutamos a campainha tocar e Mandy apareceu com meu
irmão. Os dois estavam com uma expressão alegre e eu sabia o que
tinham feito. Minha amiga estava saidinha demais depois que
começara aquela relação. Esperava que não saísse machucada e
não perdoaria aquele loiro briguento se brincasse com as emoções
dela. Era muito boa para sofrer por qualquer coisa.
— É aqui que ele mora então. — Harvey entrou, olhando tudo
em volta, assim como Mandy. — Ele parece ganhar bastante
dinheiro. Se deu bem, Raposinha. Se ser ator não te der dinheiro, já
agarra esse homem.
— Muito engraçado, Harvey. Cadê meu celular?
— Aqui. — Mandy me encarou um pouco receosa. — Parker,
você não está bravo comigo por estar... saindo com o seu irmão,
está?
— Confesso que isso é novo para mim, mas não. Não estou
bravo com você e se Harvey está te fazendo bem, isso é o que
importa.
— Eu estava morrendo de medo de você me odiar...
— Cadê o seu policial? — Harvey perguntou, mas foi Celeste
quem respondeu.
— Meu filho está descansando um pouco. E você seria?
— Sou o irmão do Parker, senhora. — Beijou as mãos da
minha sogra. O próprio cavalheiro fajuto. — Ele não deve ter
contado de mim ainda, mas isso é bom, porque assim eu consigo
contar a verdade sobre quem eu sou. Meu irmão tem a mania de
pensar inverdades sobre mim.
— Você fala bonito demais, menino. O que me indica que é um
sem-vergonha.
— Ele é mesmo, Celeste! Mas acho que ainda tem salvação. É
um valentão que não sei como é meu irmão.
— Confesso que no passado eu não dava a importância para
quem estava do meu lado, mas essa princesinha aqui me fez mudar.
— Ele abraçou Mandy, que ficou ainda mais vermelha.
— Ele gosta de me deixar sem graça, Sra. Celeste. —
Apertaram as mãos. — Sou amiga de Parker e do seu filho também.
Ele é um homem maravilhoso.
— Eu que sou o maravilhoso aqui, Princesinha.
— Harvey, fica quieto, por favor. — Revirei os olhos. — Cadê o
Yorick?
— Nosso pai ainda não voltou da empresa, mas pediu
desculpas para você quando falei com ele.
— Tudo bem... — Respirei fundo.
— Vocês já jantaram? — Celeste perguntou.
— Eu vou levar a Mandy para jantar, mas eu agradeço o
convite, Celeste. Só passei aqui para entregar o celular do
Raposinha. — Ele beijou o rosto dela e depois fez o mesmo comigo.
— Boa noite para vocês. E irmãozinho, se precisar que eu te busque
é só me falar.
— Podem aproveitar despreocupados. Vou ficar bem.
— Tchau, Sra. Celeste. Boa noite para vocês. Mande
lembranças para o Vincent por mim.
— Juízo, Mandy. — A provoquei só para vê-la corar.
— O sangue da sua família é abençoado, querido.
— Pelo menos na aparência temos que ser perfeitos. —
Resmunguei comigo mesmo e sorri em resposta à ela.
E assim com uma sopa que cheirava deliciosamente bem, subi
as escadas e deixei Celeste curiosa para assistir Escrava Isaura,
entretida na trama brasileira.
Com todo o cuidado que podia entrei no quarto na ponta dos
pés e vi Vincent nervoso ao telefone.
— ...Eu não quero saber, Karen. Apague esse número e me
deixa em paz. Você é doente?
Coloquei as coisas na pequena mesinha que tinha no quarto e
peguei o celular de sua mão. Ele me olhou sem entender, mas eu
sabia muito bem o que fazer.
— Desculpe, mas o Sr. Salas não está em condições de falar
no momento. Peço que ligue quando estiver melhor e isso não
ocorrerá nos próximos dias. Ele precisa de repouso. Boa noite. —
Falei com a voz mais bondosa que pude e desliguei a chamada.
— Era a Karen. Ela trabalha comigo e...
— Eu já sei quem essa daí é e não preciso de explicação.
Agora, come tudinho.
— Vou ter que deixar minha mãe longe de você. — Se sentou
na cama, vestindo um short leve e preto, que apertava
deliciosamente sua coxa. Porém algo ganhou vida entre suas
pernas. — Se você continuar olhando não vou ligar pra dor no meu
peito.
— Para de falar besteira e abre a boca, “Homão”. — Levei uma
colherada da sopa até sua boca e fiz o movimento de mastigar,
como se fazia com um bebê. — Bom, garoto.
— Me dá isso aqui, Demoniozinho! — Reclamou irritado com
meu jeito “carinhoso” de tratá-lo. Lhe mandei um beijo e fui ao seu
banheiro escovar meus dentes, e logo após até seu guarda-roupa
pegando uma camisa e um shorts com cordão, pois tudo ali era
maior que eu.
Então assim que terminei meu banho e saí de dentro do box
cheio de vapor, lá estava Vincent sentado e de cabeça baixa me
esperando. Ele estendeu a mão e me colocou em seu colo, de
frente para ele, e com as mãos penteei seu cabelo para trás.
— Eu tive tanto medo de não voltar pra você. — Ele começou
com uma voz rouca e carregada. Em seus olhos vi que ele queria
chorar, mas não o fez. — A primeira coisa que eu pensei quando
levei o tiro foi em você, Parker. Eu não pensei em minha vida, mas
sim em você.
— Você levou um tiro?
— Eu estava de colete, não foi nada.
— Vincent?! Como assim não foi nada? Você poderia ter
morrido e...
— Me deixa terminar, Parker!
— Eu só... — Acarinhei sua barba e fiz menção para continuar.
— Eu nunca me declarei pra ninguém como nesses filmes que
você gosta, e se você me parar agora eu não vou fazer do jeito
certo. — Sorriu apertando minha cintura em um abraço. — Eu não
sou romântico e não ligo pra essas coisas, mas eu sei que você liga.
Tudo o que eu pensei no caminho de volta foi em como eu queria
que você fosse meu. Uns dias atrás eu fui com a minha mãe
comprar isso aqui. E eu queria saber se você... — Riu do que estava
prestes a fazer.
— Pergunta logo! — Mandei ansioso, pois já sabia muito bem
o que aquela caixinha significava. Mas eu não me aguentei. — Sim,
Vincent! Mesmo você sendo um estúpido e grosso, eu aceito ser
seu namorado!
— Como você... — Olhou para porta como se visse sua mãe
de lá. — Ela te contou, não foi?
— Sim, mas não briga com ela. Anda, coloca o anel em mim!
— Me pus de joelhos na cama e estendi a mão. Eu nunca tinha
recebido nada assim. E eram lindas! As duas alianças eram de ouro
com algumas pedrinhas azuis. Eu não fazia ideia do que eram, mas
eram fascinantes.
— Ficou linda em você.
Sorri descontroladamente. Aquele policial se deitou, coberto
até a cintura e com as mãos atrás da cabeça. Fiz o mesmo ao seu
lado, ainda eufórico, e peguei sua mão a colocando junto da minha
no alto.
— Eu sei que isso foi caro, Vincent. Não quero que gaste
comigo e nem que pense que eu estou feliz somente por tudo o que
você pode me dar. Só pra saber, poderia só ter feito toda a
declaração que eu aceitaria.
— Eu sei. — Respondeu. Me virei e o beijei intensamente.
— Obrigado... Namorado! — Ri e ele suspirou, acariciando
minhas costas por baixo da camisa.
— Você nunca vai esquecer isso, não é?
— Nunca! — Respondi feliz da vida. — Eu vou sempre me
lembrar desse dia!
CAPÍTULO 13 - O Vinho e a
Aliança

Depois daquela noite maravilhosa onde, pela primeira vez em


minha vida, havia sido pedido em namoro, me sentia nas nuvens
deitado com o homem que amava. E baseado em todos os sinais,
principalmente em seu pedido, me amava também. Em vários
momentos acordei, pois, talvez devido a seu gênio possessivo,
Vincent me puxava para perto de si e gemia de dor pelo seu
ferimento. Acariciava seu rosto e sabendo, mesmo que
inconscientemente, que eu estava ao seu lado, afrouxava o aperto.
Acordei naquela manhã de domingo muito cedo, e por vários
minutos fiquei observando aquele homem. Sua barba com alguns
fios brancos, seu cabelo começando a crescer e, obviamente, seu
corpo maravilhoso. Ele facilmente faria qualquer um se ajoelhar para
satisfazer suas vontades. Menos a mim, pois minha vontade de
provocá-lo era muito maior do que a de satisfazê-lo.
Aquele Policial-Não-Tão-Comum, agente do governo,
suspirador e grosso era tão diferente de mim em certos aspectos
que era quase impossível não achar que tudo fosse um sonho. Me
sentia tão completo perto dele e cheio de boas sensações que era
como estar em um constante estado de anestesia. Vincent sabia
muito bem do efeito que tinha sobre mim, pois sempre me fazia
parecer um idiota com déficit de atenção em seus braços.
Conhecê-lo havia sido uma das melhores coisas que me
aconteceram desde que chegara naquele novo país. Tudo o que
tinha feito até aquele momento foi me proteger, mesmo que
indiretamente. Ele era ocupado, no entanto sempre arrumava um
jeito de me ver, mesmo que somente para passar a noite. Mas eu
odiava aquilo, pois desde que havia se declarado para mim em meu
apartamento, eu tinha passado mais tempo sozinho do que
aproveitando a minha nova relação.
Odiava o fato de que ele mantinha um segredo sobre seu
trabalho. Minha análise era que fosse como um “agente
internacional” e que tinha mais dele a seu comando, como Gary e o
Kent Amaya, que tinha o mesmo sobrenome da tal Karen, ex de
Vincent. E saber que ela estava ligando para o meu namorado me
deixava receoso sobre a influência que ainda poderia ter em sua
vida. Será que se viam com frequência ou Vincent era idiota em
achar que ela somente queria sua amizade?
Eram sete horas da manhã e a casa estava em silêncio, mas
como se ela sempre estivesse lá, a grande pastora alemã estava do
meu lado da cama, me olhando enquanto abanava seu rabo. Levei
minha mão até a sua cabeça e vi em sua coleira um pequeno
pingente com o nome Lena. Ela me olhava como se sorrisse para
mim ou me chamasse para alguma coisa. E o que mais me
surpreendeu, era que também olhava para Vincent o tempo todo,
como se o esperasse acordar.
— O que você quer, Lena? — Me desvencilhei da mão
possessiva. — Você está com fome?
Ela rodou como se confirmasse. Com cuidado para não
acordar o homem, levantei e vesti a mesma roupa de ontem,
deixando a camisa dele no cesto. A cachorra já estava na porta e a
segui até o lado de fora da casa onde havia um potinho com suas
coisas. Voltei na cozinha e enquanto procurava a ração, ela voltou
batendo o focinho em um armário. O abri e lá estava seu café da
manhã.
— Você é muito inteligente, garota. — Fiz carinho em sua
cabeça e me levantei. Na porta de entrada Celeste voltava com um
saco e de longe pude sentir o cheiro de pães e um pacote de
sonhos estava em sua outra mão. Fiquei maravilhado com ela e
obviamente seu filho havia contado sobre os meus gostos.
— Meu filho disse que você gosta. — Se sentou na mesa
enquanto eu terminava de arrumar as coisas. — Vai acordar aquele
marrento pra gente tomar café.
Subindo as escadas fiquei feliz, pois estava sentindo que
minha vida estava se ajeitando finalmente. Meu relacionamento com
meu pai parecia andar pra frente, e com a mudança dele para o país
ficaríamos mais próximos. E meu namoro com Vincent e amizade
com Mandy eram tudo o que poderia pedir.
Assim que cheguei ao quarto vi aquele homem lindo, coberto
da cintura para baixo e respirando lentamente. Me sentei ao seu
lado e vi que seu corpo estava quente assim que toquei em seu
peito. Não estava com febre ou algo do tipo, só quente. Dei alguns
tapinhas de leve e chamei seu nome algumas vezes até que sua
mão segurou a minha.
— Bom dia. — Ele passou os dedos pela aliança e sorriu
discretamente.
— Você quer tirá-la de mim?
— Prefiro levar outro tiro. — Gemeu quando belisquei seu
abdômen.
— Nunca mais repita uma coisa dessas. Eu não quero te...
— Não quer o que? — Se sentou e aproximou o rosto do meu.
— Não quer me perder, é isso, garoto?
— Ia falar que não quero ter que te aturar doente. Você fica
mais insuportável e grosso que o normal.
— Você me ama desse jeito. — Respondeu me encarando, me
pegando de surpresa com aquelas palavras.
— É engraçado como o amor é estranho, não é?
— O que quer dizer?
— Nós somos completamente diferentes um do outro e mesmo
assim estamos juntos. Eu nunca pensei que encontraria alguém
como você e muito menos que prestaria atenção em mim.
— Você não sabe o quanto é bonito, não é? — Me sentou em
seu colo e beijou meu rosto. — Parker, desde a primeira vez que te
vi soube que queria você. Tem alguma coisa que me enlouquece pra
te ter.
— Essa foi a coisa mais bonita que me disse. Acho que vou
considerar uma declaração de amor. — Sorri e senti outro beijo em
meu pescoço, assim como sua respiração em minha pele.
— Você tem esse jeito que me faz querer te prender nesse
quarto e não te deixar sair andando direito.
— Cala a boca, Vincent! — Me levantei. — Acho que você está
afetado pelos remédios para falar essas coisas indecentes para
mim. Levanta agora dessa cama e se arruma pra tomar café. Sua
mãe está mandando!
— Não vai ajudar a me vestir? Eu levei um tiro e você é meu
namorado agora. — Ficou em pé e pegou uma calça Jeans, já que
estava somente com uma bermuda. Fui até ele e peguei a roupa da
sua mão. — Pega uma cueca na gaveta.
— Você é muito folgado pra quem se faz de independente. —
Disse e assim que já tinha tudo em mãos o mandei ficar na minha
frente. — Nunca te vi tão solto assim.
— Só estou tentando te tratar bem.
— Sendo um tarado?
Assim que toquei a barra do tecido leve que vestia, senti a sua
ereção que a todo momento estava ignorando. Ele era tão gostoso
que tudo o que eu queria era lhe provocar. E era daquela forma que
o olhava. Ele queria que eu o tocasse, queria sentir minhas mãos ao
redor de seu membro. Desci lentamente o tecido e levemente passei
meu nariz por toda sua extensão escutando um suspiro pesado.
— Você está tentando é se aproveitar de mim com essa sua
fala mansa. Eu vejo como você está precisando do meu carinho.
— Eu fiquei longe de você por dias, Parker.
Peguei a cueca e assim que a tinha passado por seus pés,
comecei a levantá-la, passando minhas unhas por sua pele e
tomando cuidado para não encostar em seu pênis. No entanto
assim que subi até a sua cintura, coloquei sua glande em minha
boca e passei minha língua suavemente por ela. Vincent falou um
palavrão e fez menção de segurar em meus cabelos, mas me
levantei.
— Senta. — Mandei e com um sorriso de canto ele obedeceu.
Passei as pernas da calça por suas pernas e assim que estava todo
vestido, me acomodei em seu colo e a abotoei. Ele estava com os
braços apoiados na cama e me encarava o tempo todo. O beijei,
sentindo sua barba arranhar meus lábios. — Você podia muito bem
ter feito isso sozinho.
— Podia, mas queria que você cuidasse de mim. — Passou os
braços na minha cintura.
— Queria? Mas ontem lembro muito bem você dizer que não
precisava de ninguém.
— Eu disse que precisava de você. — Beijou abaixo de minha
bochecha. Ele se mexeu para pegar o celular que tocava no criado-
mudo e o atendeu.
Não conseguia entender o que diziam, mas eu, com toda a
certeza, já sabia ler as expressões do meu namorado. E aquele
olhar era o mesmo que teve todas as vezes que me contou que iria
para o trabalho logo depois de uma situação gostosa em nosso
relacionamento. E confirmando minhas suspeitas com um "estou
indo", saí de seu colo. Sem olhar para trás desci as escadas e me
juntei a Celeste, que desmanchou seu sorriso assim que percebeu
que o que eu ostentava em meu rosto era falso.
— O que meu filho fez dessa vez?
— O trabalho dele, Celeste. — Sussurrei, controlando a
vontade de chorar. — Todas as vezes isso acontece! Quando
alguma coisa boa acontece com a gente parece que eles sabem e
logo o chamam.
— Eu também odeio esse trabalho.
— Sendo bem sincero, eu nunca tive um namorado e senti
isso, essa vontade de querer ficar perto de alguém que chega a
doer. E eu tento entender, tento mesmo, mas é difícil quando parece
que o futuro disso não está nas minhas mãos. — Apertei meus
dedos nos olhos, tentando reprimir meus sentimentos. Não queria
que Vincent me visse chorando e sendo o dramático que já achava
que eu era. — Eu só queria ter um tempo pra nós. Nunca fizemos
nada juntos desde que nos conhecemos.
— Meu amor, tenta conversar com ele. Ele vai te escutar,
porque essa velha aqui não adianta de nada.
— Eu não sei se falar com ele vai ajudar também. — Reclamei,
de repente me sentindo cansado, completamente diferente de
quando subi até o quarto. Vincent desceu as escadas já vestido
formalmente para trabalhar em pleno domingo. Ele ainda falava com
alguém no telefone quando se sentou à mesa conosco, mas logo
desligou o aparelho quando Celeste mandou.
Eu não conseguia comer direito, pois estava sentindo minha
ansiedade querer me tomar. Havia muito tempo desde que tive uma
crise e não queria ser atingido por uma logo no meio dos dois. As
tivera antes e todas foram por razões emocionais, mas eu precisava
me controlar. Ele me olhava atentamente como se suspeitasse de
algo e somente falou diretamente comigo quando apoiei minha
cabeça nos braços.
— Você está bem?
— Estou cansado, só isso. — Respondi querendo surtar por
seu cinismo. Era óbvio que não estava bem. — Provavelmente é o
efeito da faculdade.
— Você acabou de dormir. — Retrucou como se não fosse
nada e aquilo me irritou. Ele devia muito bem saber que era sua
culpa, mas se fez de desentendido.
— Pode ir para o seu trabalho. Você está bem pra se esforçar
tanto?
— Eu já passei por isso antes. — Se levantou quase sem tocar
nos pães e café. — Vamos, eu te levo pra o seu apartamento.
— Eu não vou, obrigado.
— Tem planos para hoje, Parker? — Questionou e senti uma
ponta de nervosismo em sua voz.
— Tenho, mas você não precisa se preocupar, já que vai
trabalhar em um Domingo. Não é nada de importante e não quero te
atrasar.
Ele suspirou, mas como sempre me deixou de lado. Ele veio
até mim, me beijou e depois sua mãe e saiu. Simples assim.
Tentava muito não me importar. Ele era meu namorado, mas eu não
sentia como se fosse. Me sentia a pessoa mais amada e feliz com
ele, porém também usado de certa forma. Não queria ser aquele
que ele voltava para ver, mas sim quem o fazia pensar duas vezes
antes de sequer sair de perto.
Celeste segurou minha mão como se entendesse o que eu
estava sentindo. Sempre sonhava em ter meu namorado e que ele
fosse carinhoso e passasse tempo comigo. Era pedir demais?
Lembrei de Calisto e Jared e em como eram lindos juntos. Eu
queria algo similar. Eles não tinham problema nenhum em
demonstrar seu amor. Não que Vincent não me amasse, eu sabia
que sim, do jeito dele, mas faltava algo, pois tudo de relevante que
fizemos juntos foi dormir e transar. Talvez fosse por conta de seu
antigo relacionamento que não demonstrasse tanta afeição, mas
não queria ser feliz somente dentro das paredes de sua casa ou
meu apartamento. Eu queria ir no cinema ou jantar fora.
Aqueles pensamentos me causaram tanto mal-estar que tudo
o que quis fazer era ficar sozinho. Fui até o quarto pegar meu
celular e quando cheguei vi a aliança de Vincent perto do relógio.
Ele não estava usando o símbolo do compromisso que fez comigo
na noite passada. E aquilo foi a última pedra que jogaram na minha
parede de vidro.
O que eu devia pensar? Que ele provavelmente não andaria
por aí com uma aliança no dedo dizendo que era comprometido?
Que estava com vergonha de dizer que namorava um homem? Ou
que tinha vergonha de dizer que era eu? Eu seria muito imaturo
para que assumisse um relacionamento as claras comigo?
Me despedi de minha sogra que não tentou me impedir de sair
daquele jeito. Ela sabia como estava me sentindo e aquilo me fazia
pior ainda. Assim que saí pela porta e a escutei se fechando, um
soluço veio e logo em seguida uma enxurrada de lágrimas.
Chamei um táxi e assim que entrei nele afundei ainda mais
naquela melancolia. Estava sentindo meu coração bater dentro de
meus ouvidos e tudo parecia abafado. Meu corpo grudava no tecido
de minha roupa e o ar parecia pesado. O motorista me perguntou se
eu estava bem, o que respondi com um sim fraco e aéreo. Não sei
quanto tempo fiquei naquela viagem, mas assim que parou em
frente ao prédio entrei correndo no elevador. Na cozinha tomei
quase uma garrafa inteira de água, pois minha língua queimava.
Finalmente a crise de ansiedade venceu e sabia que o motivo
dela era o meu mais novo namorado, ou melhor dizendo, a falta de
meu mais novo namorado. As dúvidas atacavam meus
pensamentos e tudo o que queria era me sentir seguro envolto em
minhas cobertas. Fui para o quarto levando meus dois filhinhos
comigo. Meu coração ainda batia rápido, mas à medida que minha
respiração diminuía, o mesmo também.
Mandy não estava lá e não poderia pedir para que deixasse de
viver a sua vida, mesmo que com meu irmão, para vir até mim.
Sabia que Harvey era uma pessoa boa, mas que também era um
safado de primeira. Só esperava que minha amiga fosse forte o
suficiente para lidar quando tudo aquilo acabasse e visse como meu
irmão era em relação a sua vida amorosa. Me culpei por pensar
aquilo dele, e gritei no travesseiro por toda a negatividade que me
atingia.
Me forcei a dormir, ficando imóvel até que consegui. Mas não
deveria, pois tive um pesadelo onde estava preso em uma sala sem
portas e janelas e tudo o que eu conseguia fazer era arfar pela falta
de ar. Descobri que o motivo daquilo era a minha gata dormindo em
meu rosto, me impossibilitando de respirar direito. Olhei no relógio e
já se passavam das duas horas da manhã. Havia dormido por mais
de dezesseis horas seguidas e não vi as dezenas de ligações de
meu pai.
Saí de meu quarto morrendo de sede e fui até a cozinha
totalmente no escuro. Já tinha decorado o caminho e mesmo não
conseguindo enxergar nada, fui com facilidade até a geladeira. A luz
que saía dela iluminou por um momento todo o ambiente e até um
pouco da sala. Foi impossível não me lembrar de quando Vincent
esteve lá da primeira vez que nos vimos. Ele fora tão bruto e sedutor
naquele dia, tão mandão e altivo. Era o tipo de homem que me
irritava, e mesmo sendo completamente idiota, me excitava. Ele
tinha tanta atitude que me fez acreditar que seria alguém pra me
proteger.
Encostado no balcão vi que não havia me ligado ou mandado
mensagem. Justo no dia seguinte de ter me pedido em namoro.
Rodei a aliança no dedo e tive vontade de arrancá-la. Eu merecia
carinho e consideração.
Afastei aqueles pensamentos e voltei pelo mesmo corredor,
passando no quarto de Mandy e a vendo dormir tranquilamente.
Voltei para minha cama e a dormir, só que daquela vez deixei minha
gata aos meus pés.

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Acordei com uma ligação de Vincent, mas ele somente disse


que estaria ocupado no trabalho aquela semana e que me ligaria
assim que tivesse tempo, não me permitindo protestar e nem se
desculpando por me deixar sem saber dele um dia inteiro.
Não me dei ao trabalho de ligar novamente ou tentar saber o
motivo da ausência como sempre fazia. Aquele idiota não tinha
nenhuma consideração pelo que eu sentia ou o que significava para
ele. Se significasse alguma coisa.
Encarando meu notebook aberto decidi que se ele não faria
nada pelo nosso relacionamento, eu faria. Comecei a procurar por
alguns restaurantes para fazer uma reserva e usaria aquilo como
um ultimato ou prova real de sua consideração por mim. Se ele
realmente desse valor para tudo o que tínhamos, aceitaria jantar
comigo e não me deixaria de escanteio em sua vida.
Precisava daquilo para tirar tudo o que estava me magoando.
Para que não seguisse minha segunda mente me dizendo para
desistir de tudo e seguir meu plano inicial quando me mudei para
Bisera, que era focar somente em mim e em minha carreira,
deixando todas as pessoas que me machucaram ou viriam a me
machucar fora de minha vida. Precisava da confiança que tive
quando tomei aquela decisão. Então respirando fundo ajeitei todos
os detalhes, porém quando fui clicar em Agendar meu pai me ligou.
— O que estava fazendo? Não atendeu nenhuma das minhas
ligações, filho. Aconteceu alguma coisa? — Era até engraçada sua
preocupação.
— Está tudo bem. Só tive algumas coisas na cabeça que me
deixaram esgotado demais. Não aconteceu nada de ruim.
— Então está tudo certo... com a gente?
— Está sim... pai. — Escutei seu riso ao chamá-lo daquela
forma.
— Você não sabe o quanto me faz feliz em escutar isso.
— Eu também quero que dê certo. Eu estou cansado de me
sentir desse jeito. — Minha voz ficou embargada.
— Você está bem mesmo, filho? Eu vou até você agora
mesmo se...
— Não precisa, pai. Só estou com vontade de espirrar por
causa do perfume.
— Sua mãe e eu estávamos pensando em ter um jantar em
família. Eu quero que a gente volte a ser uma de novo. Se quiser,
pode até convidar o Vincent. Seu irmão vai levar a Mandy. — Falou
e como uma obra do destino uma mensagem de Celeste apareceu,
me perguntando se estava bem. Aquilo me fez ter uma ideia.
— Vou falar com ele, mas acho que vou levar também a
Celeste, a mãe dele. Vai ser bom para todos nos conhecermos. Só
espero que ele não ache isso invasivo demais.
— Se achar não é o homem certo para você, filho. Quem não
tem coragem para te assumir não tem o direito de ficar do seu lado.
— Deu uma pausa. — Eu, infelizmente, te deixei por muito tempo,
mas uma coisa que sempre tive orgulho foi de falar que você é o
meu filho. Se ele for um homem esperto, vai sentir a mesma coisa.
— Obrigado...
— É a verdade, Parker.
— Eu vou falar com eles hoje mesmo e podemos marcar o
jantar para amanhã, o que acha?
— Sua mãe vai estar aqui amanhã para uma conferência de
arquitetura, então acho que tudo está caminhando para isso.
— Vocês estão se falando?
— Sei que estamos separados e que você não quer tocar
nesse assunto, mas o seu avô deixou coisas no nome dela também.
— Aquele velho parecia ter mudado realmente. — Sei que não quer
nada dele, mas ele conversou comigo sobre você. Ele vai deixar
coisas no seu nome...
— Eu já disse que não quero nada dele.
— Mas como você não quer isso, ficarei responsável por esse
dinheiro. Seu avô está morrendo, filho. E mesmo que não tenha sido
bom para você, agora, depois de todo esse tempo, está tentando
fazer a coisa certa. Tente pensar por esse lado.
— É quase impossível.
— Mas eu peço que tente. Não precisa ser hoje e nem
amanhã, mas pense sobre o assunto.
— Eu tenho que ir agora.
— Tudo bem. Vou ficar no aguardo do horário para o jantar.
— Te mando assim que agendar.
— Filho?
— Sim.
— Eu te amo.
— Eu... Eu também, pai.
Encerrei a ligação antes que aquilo se tornasse algo
desconfortável para nós dois. Apesar de amá-lo, ainda não me
sentia seguro o suficiente para pronunciar aquelas palavras em voz
alta e muito menos para ele. Parecia que tudo iria pelo ralo caso
algo de bom acontecesse, da mesma forma que meu namoro com
Vincent parecia estar logo após de se tornar algo “real”.
E eu poderia estar sendo dramático com todo aquele assunto?
Sim, poderia. Porém tinha minhas razões e motivos. Qualquer
pessoa que estivesse no meu lugar não suportaria aquela distância
e partiria para outros ares. No entanto, tinha comigo que aquele
homem grosso e distante era o amor da minha vida. Ele não me
tratava “mal” e muitas das vezes eu me sentia ofendido sem motivo.
Ele também poderia facilitar tudo sendo mais atencioso e gentil. Se
já havia sofrido em sua vida em um relacionamento, minha família
também havia me prejudicado naquele quesito. Confiar meus
sentimentos reais a alguém não era uma tarefa fácil para
mim.
Terminei de reservar o restaurante e a mesa para todos nós, e
assim que tudo estava pronto me arrumei para me encontrar com
Vincent. Não sabia como ele estaria, mas a primeira coisa que
olharia era se a aliança estava em sua mão. Aquele seria um sinal
de que algo estava acontecendo, ou se o que sentia por mim não
era tão importante assim para ser exposto para quem quisesse ver.
No caminho do Orleans mandei todos os convites para meu
pai, Mandy e os outros, e a primeira a resposta foi de Celeste.
Mandei também uma mensagem para London quando cheguei no
restaurante e me disse que não estava na cidade por estar
acompanhando Jackson em um evento de luta.
Me sentei em uma das mesas e faltavam sete minutos para o
meio-dia. Aproveitei aquele tempo para pedir um suco ao garçom e
a torta de frango preferida do bruto que me encontraria. Até mesmo
cumprimentei a Sra. Orleans, mãe de Jackson e dona de tudo
aquilo. Ela me reconheceu de quando estava com meu amigo dias
atrás. Novamente desejei ter sua postura, pois me parecia uma
mulher confiante e dona de si mesma.
E sem se atrasar nem por um minuto sequer, aquele homem
que mexia com todo o meu ser passou pela porta. Vincent atraía os
olhares para si à medida que caminhava entre as mesas. Até
mesmo vi alguns sorrisinhos assanhados aqui e ali. Eu seria uma
daquelas pessoas se a ocasião fosse outra.
Assim que me viu, suspirou. No entanto, não soube dizer se
estava mais relaxado ou se estressando antecipadamente. Seu
celular tocou em seu bolso e estava pronto para me sentir
abandonado novamente. Porém ele atendeu o mesmo e logo
encerrou a chamada. Quando chegou perto o suficiente de mim,
segurou meu rosto, o erguendo um pouco, e me beijou rudemente
como adorava. Desconfiava que fazia aquilo de propósito para ver
como meus lábios ficavam vermelhos depois.
— Você não devia estar na faculdade?
— Tirei o dia de folga para lidar com algumas coisas pessoais.
— Que são...? — Ele olhava o cardápio.
— Já pedi sua torta. Só tem que decidir o suco.
— Não vou beber suco.
— Você está dirigindo?
— É claro. Como acha que cheguei aqui?
— Então vai beber suco. E para de ser um grosso comigo. Não
está com tantos pontos assim. — Olhei sua mão e a aliança não
estava lá. Meu coração falhou e doeu em meu peito.
— Quais são os seus problemas pessoais, Parker?
— Problemas com as pessoas da minha vida, Vincent.
— Estou incluso nisso?
— Você acha que está incluso? — O garçom trouxe nossos
pedidos e agradeci.
— Não começa com esses seus joguinhos, garoto.
— Não vou começar, senhor. — Cortei com força o pedaço de
frango completamente suave. Escutei Vincent suspirar, mas não o
encarei. Olhei para todos os lados, menos para ele durante quase
dois minutos. — Você está se sentindo melhor? Tomou o seu
remédio hoje?
— Sim.
— Os dois?
— Sim, os dois.
— Não bebeu nada alcóolico, não é?
— Não.
— Não minta para mim.
— Não bebi, Parker.
— Ótimo! Vou precisar que fique com Benj e Jasmin por uns
dias, pois tenho um trabalho que Calisto me indicou. — Suspirei,
tomando mais um gole do suco. Tomando coragem para fazer o
convite que ele teria obrigação de ir. — Amanhã você tem um jantar.
Vai ser às sete e vou te passar o endereço por mensagem.
— Eu não...
— Eu não quero saber, Vincent. Você tem que arrumar tempo
para mim, então vai desmarcar tudo o que tem para fazer, pois o
seu trabalho amanhã é ser o meu namorado. Sua mãe já confirmou
e meus pais também estarão lá.
— Pensei que você não estava se dando bem com o seu pai.
— Pois estou. Se você tivesse tempo para mim, teríamos
conversado sobre isso.
— Eu estou aqui, não estou?
— Hoje você está, e me surpreende o seu celular não estar
tocando agora.
— Parker, você sabe que meu trabalho não é...
— Eu sei que você não é um policial comum e você estar
como está me deixa ainda mais com medo do que faz.
— Não me aconteceu nada.
— Aconteceu, sim! Você levou um tiro e se não estivesse com
o colete...
— Se acalma, garoto. — Segurou minha mão por cima da
mesa. Não ver a aliança me indignou, então a recolhi.
— Você tem que ir no jantar, Vincent. Você me deve isso, me
entendeu?
— Eu vou fazer o possível para ir.
— Você vai ir! Eu preciso disso e que você... — Seu celular
tocou.
— Eu tenho que atender.
— Se eu pedisse para não atender, adiantaria alguma coisa?
— Parker... — Fiz menção com o dedo para ele se afastar,
mas o meu tocou também.
Era um número desconhecido e fiquei com medo de ser
Gortan novamente tentando se aproximar de mim. Não aguentaria
lidar com sua tentativa de aproximação naquele momento e seria
bem capaz de xingá-lo de todos os nomes possíveis. No entanto,
uma voz bem mais jovial soou do outro lado da linha.
— Olá, Parker. Eu sou o Perry Klen. Calisto me indicou você.
— Ah sim! Ele comentou comigo também. É um prazer.
— Digo o mesmo. Está ocupado no momento? — Olhei o
homem rude e suspirador um pouco mais afastado.
— Estou livre agora.
— Isso é ótimo. Estou correndo um pouco por conta de um
evento que tenho presença marcada, mas gostaria de me encontrar
com você agora se possível. Está na faculdade?
— Não estou. Posso ir até você. — Chamei o garçom.
— Vou te mandar o endereço do meu escritório.
— Certo. Até daqui a pouco, Perry. — Desliguei a chamada e
logo recebi sua mensagem.
Pedi um carro para me levar e somente quando o mesmo já
estava perto o suficiente para Vincent não tentar me impedir que me
levantei. Deixei o garçom ciente de que ele pagaria por tudo. Seu
olhar foi de encontro ao meu e por um momento ficou confuso,
pedindo um momento para a pessoa que falava.
— Aonde você vai?
— Recebi uma ligação de trabalho. Tenho que ir.
— Como assim? Você não trabalha, Parker.
— Eu sou ator, Vincent. Posso não ser tão ocupado e
importante como você, mas eu tenho sim um trabalho. — O beijei,
mesmo ele não merecendo. — Você tem um compromisso comigo
amanhã, Vincent. Por favor, não me decepcione.
O deixei para trás e logo entrei no táxi, sentindo seus olhos me
perfurarem. Sabia que ele tentaria me ligar assim que encerrasse
sua ligação e me preparei para lhe responder o mínimo possível. O
deixaria irritado da mesma forma que havia me deixado. Aquele
almoço não tinha ido como planejara e esperava que sua presença
no dia seguinte resolvesse tudo.
Conversei com ele depois de alguns minutos e lhe neguei ir me
ver no meu apartamento com a desculpa de que não saberia que
horas chegaria. Não queria dar a chance de recusar ir ao jantar com
nossas famílias.
Quando cheguei no escritório de Perry, tudo o que pude notar
era em como ele era alguém influente. Em sua parede havia várias
fotos com várias celebridades. Será que eu seria uma delas?
Esperava que sim. Se uma coisa eu havia notado em Calisto, era o
fato de ser alguém influente em todos os campos possíveis.
O agente tinha os cabelos platinados e olhos claros, o que o
deixava com uma aparência vampiresca. Porém o seu sorriso
amenizava tudo e me deixou mais confortável de me aproximar sem
o medo de receber uma mordida na jugular.
— É um prazer te conhecer pessoalmente, Parker. —
Apertamos as mãos. — Calisto só me contou coisas ótimas sobre
você. Me mostrou alguns vídeos que fizeram dos ensaios também e
fiquei surpreso em como é bonito e talentoso. Tem o rosto de uma
estrela, sabia? Nem todos tem isso.
— Obrigado, Perry. Gosto de pensar que tenho sim algo que
se destaque, mas tento manter a minha humildade.
— Isso é ótimo! — Sorrimos e ele me indicou a cadeira para
que me sentasse de frente a ele. — Como pode ver, agencio várias
das celebridades do momento e algumas já consolidadas. Minha
empresa, mesmo tendo começado como uma revista virtual, ou um
blog, como quiser chamar, ganhou influência nesse mundo e meu
trabalho também. Quando Calisto e Kyle me contaram sobre você
soube que tinha algo.
— Obrigado. Eles foram muito gentis em me indicar.
— Você tem um brilho nos olhos e eu sei reconhecer que tipo
é. O seu me mostra que tem capacidade de ir longe. — Ele me
entregou alguns papéis me mostrando o seu portifólio. Havia até
uma foto com London, que lhe questionei sobre. — Ele está
agenciando o Jackson no momento, e não aceitou estagiar comigo.
Uma pena, mas ele ainda está começando nesse mundo.
— E como isso funcionaria, Perry?
Ele acabou por me explicar tudo em todos os detalhes e fez
questão de ler o contrato linha por linha para nada ficar
subentendido. Foi completamente sincero sobre o trabalho que
faríamos juntos e me informou sobre o teste que faria em alguns
dias. Senti uma cumplicidade enorme com ele e lhe contei sobre
alguns de meus planos e ambições, e que foi ótimo para termos
noção de que tipo de pessoa éramos.
Perry foi tudo o que eu precisava naquele momento
profissional, e mesmo sendo arriscado, escolhi confiar na indicação
de Calisto e iniciar o contrato com aquele agente. Ele me passou
outros detalhes e marcamos também mais reuniões durante a
semana para que acertássemos todos nossos outros compromissos
e planos, como marcar presença em alguns eventos para aumentar
minha visibilidade e afins.
Até mesmo me apresentou um de seus sócios, Hailan Naike.
Era o diretor chefe de toda a revista e empresa. O mesmo também
estava de saída para lidar com alguma coisa preocupante, mas não
deixou de ser completamente gentil e adorável comigo. Saí de lá
respirando mais aliviado sobre um aspecto de minha vida, e pude
me preparar para o jantar.
No outro dia, fiquei a todo tempo atualizando minha caixa de
mensagens do e-mail, esperando que alguma notificação chegasse
cancelando minha reserva, mas aquilo não ocorreu. Nem mesmo
Mandy escapou de toda a minha ansiedade e passamos o dia inteiro
procurando uma roupa adequada para que fôssemos ao jantar.
Ela também estava nervosa, pois seria a primeira vez que
conheceria minha mãe. E não querendo lhe dar mais medo, lhe
contei que Harvey era o filho preferido dela e que não ligasse para o
jeito debochado e prepotente de Harper Hayes. Afinal, minha amiga
estaria namorando quem ela sempre protegeu com unhas e dentes.
Falei com Vincent somente pela manhã, quando lhe mandei
uma mensagem o mandando não se atrasar, pois não havia
aceitado minhas ligações. Esperava que nada atrapalhasse aquela
noite, pois precisava daquilo para me sentir bem novamente. Meu
relacionamento precisava começar com o pé direito, e não com um
tiro no peito que aquele suspirador já havia levado.
E quando a noite chegou, fiquei a todo momento conferindo as
horas até chegar no restaurante. Confirmei que tudo estava pronto
para ser servido assim que chegassem e me sentei com Mandy
tentando me acalmar. Meu pai, mãe e Harvey chegaram juntos e
meu irmão, sem cerimônia nenhuma, beijou minha amiga. Uma
ótima forma de se apresentar a sogra.
— Como está, filho? — Yorick me abraçou apertado. Ele
estava feliz por estar lá e seu sorriso transmitia aquilo.
— Estou bem. Só um pouco ansioso para que conheçam
Vincent e Celeste.
— Boa noite, Parker. — Minha mãe me beijou o rosto. —
Parece que escolheu um bom lugar para jantarmos. Tinha outra
coisa em mente, mas...
— Harper, o lugar é ótimo.
— Eu tô morrendo de fome, Raposinha. Aquele lá vai demorar
para chegar? A minha namorada já tá aqui. — Harvey tinha as mãos
na cintura de Mandy, que não encarava de forma alguma minha
mãe.
— Ele deve estar chegando. Quando está no trabalho é muito
difícil falar com ele. — Nos sentamos e o garçom nos trouxe alguns
aperitivos.
— Então isso é sério?
— É sim, mãe. Ele me pediu em namoro dois dias atrás.
— O mínimo que podia fazer, já que estava aparecendo no
apartamento toda hora.
— Isso não é verdade, Harvey — Retruquei, mas minha mãe
ainda não tinha terminado. Sabia que teria que lidar com seu gênio
controlador e autoritário.
— Espero que isso não venha a atrapalhar sua faculdade ou
seus planos aqui. Não veio para ficar curtindo a vida
irresponsavelmente.
— Eu nunca fui irresponsável, mãe.
— Já o seu irmão sempre foi um problema. Não sei quantas
vezes tive que conversar com Harper para que falasse com ele. —
Yorick brincou, mas não amenizou meu temperamento.
— Então vocês conversavam sobre o Harvey?
— Ele sempre foi o mais difícil.
— Harvey sempre foi diferente, Yorick. Desde cedo sabia que
estava fadado a coisas grandes. E olha só onde ele está.
— Mãe, não precisa falar isso... — Eles começaram a
conversar e sorrir como uma família unida, e pela primeira vez
naquela noite, depois de muito tempo, me senti horrível. A distância
não fora um problema para que cuidassem de meu querido irmão,
mas nunca haviam tido aquele carinho por mim. Eu era um intruso
entre eles e cada vez mais aquilo se tornava evidente.
— Me desculpem o atraso. — Celeste parou em nossa frente e
só então deixei de encarar os talheres na mesa. Mandy me olhava
triste pela conversa que rolava, e sorriu ternamente. Me levantei
para cumprimentar minha sogra e a apresentei a todos. — É muito
bom conhecer a família de Parker. Vocês têm um filho maravilhoso.
— Ele é mesmo! — Yorick concordou, mas não consegui
retribuir a gentileza.
— Vincent te ligou, Celeste?
— Não consegui falar com ele, querido, mas ele não se
esqueceria de um compromisso como esse.
— Seu namorado não vem, Parker?
— Como eu disse antes, mãe, ele trabalha muito. Deve estar
atrasado, só isso.
— E não o questionou sobre quando poderia marcar o jantar?
— Eu falei com ele ontem em um almoço.
— Seu irmão também tinha um compromisso hoje e teve que
desmarcar para vir aqui. Eu também cheguei de viagem e estou um
pouco indisposta. — Ela comentou e tudo o que eu queria era falar
para ela engolir o Harvey e ir embora. Senti a mão de Mandy apertar
a minha.
— Parker se dedicou muito por esse jantar. Ele não parou de
confirmar as coisas desde que chegamos para que tudo ficasse
perfeito.
— É claro que sim. Você como amiga dele deve saber que ele
tem um jeito um pouco impulsivo de ser. Falo isso, porque pode ter
cometido um engano nesse jantar.
— Harper, nosso filho nunca foi motivo para nos
preocuparmos.
— Isso porque sempre o mantive na linha, Yorick.
— Você fala como se eu tivesse feito algo para te envergonhar,
mãe.
— Não fez, porque não deixei.
— Não fiz, porque eu nunca faria algo assim! — Senti meus
olhos arderem. Aquela situação estava se tornando insuportável e
me sentia extremamente envergonhado por Celeste.
— Você sempre foi impulsivo, Raposinha.
— Falou quem sempre arruma brigas em bares e tem o corpo
coberto de cicatrizes.
— Celeste, vejo que tem um anel de zircônia. É enfermeira? —
Meu pai perguntou, tentando desviar a atenção.
— Estou aposentada, mas trabalhei muitos anos no hospital
principal de Bisera.
— Com licença. Vou ligar para Vincent. — Me levantei e
ignorei o olhar depreciativo de minha mãe.
Me afastei e tentei ligar para ele, mas nem mesmo estava
chamando. Mandei mensagens, porém as mesmas não chegavam.
Um aperto tomou meu coração e minha garganta começou a arder.
Ele não poderia me deixar daquele jeito. Ele tinha a obrigação de
me dar o mínimo de atenção possível em nosso relacionamento.
Não queria acreditar que seria negligenciado de novo de sua
atenção.
Me lembrei do número de Gary e logo o procurei em meus
contatos. Havia pegado quando ficara como meu segurança
“secreto” quando Vincent estava em viagem. Fiquei alguns minutos
esperando que me atendesse, e quando tentei pela segunda vez,
escutei sua voz misturada com a de várias outras pessoas.
— Oi, Gary.
— Chefinho? Aconteceu alguma coisa?
— Eu preciso que me diga uma coisa sobre Vincent.
— Por que não ligou para ele?
— Porque eu estou ligando para você, seu estúpido. Está
aprendendo direitinho com o idiota do seu chefe, não é?
— Desculpa, Chefinho. É que aqui tá uma loucura. O pessoal
está comemorando um caso que acabou.
— Comemorando?
— Sim. O chefe prendeu mais um safado e...
— O Vincent já saiu daí?
— Isso vai me dar problema? Porque eu não quero problemas
com o chefe.
— Só responda a minha pergunta! O Vincent está muito
ocupado? — Meu coração batia rapidamente e não queria escutar a
resposta que meu sabotador interior insinuava.
— Olha, aqui está bem calmo, na verdade. E o chefe até
conseguiu sair mais cedo.
— Ele saiu mais cedo hoje?
— Saiu... — De repente o aperto deixou meu peito.
Provavelmente estava a caminho, o que explicava o celular
desligado.
— Parker? Parker, você ainda está aí?
— Sim, estou. Obrigado, Gary
— Não tem de quê... Espera, ele voltou. Você quer falar com o
chefe? — Perguntou, mas antes que eu pudesse falar qualquer
coisa, alguém no fundo mencionou o nome do Vincent.
— Gary, eu preciso confirmar o jantar do chefe hoje com Karen
Amaya. — A pessoa falou e de repente a ligação foi encerrada.
Um jantar com Karen Amaya? A mesma mulher que falei no
dia em que me pediu em namoro e que discutiu sobre esquecê-lo?
Gary tentou me ligar, mas recusei. Depois de uns três minutos
o nome daquele mentiroso apareceu, mas esperei a chamada cair
na caixa postal. Não o atenderia para deixá-lo dar uma desculpa
esfarrapada. Era certo que Gary havia contado que eu havia ligado
e escutado sobre o jantar especial.
Senti as lágrimas descerem o meu rosto e as enxuguei,
respirando fundo para controlar meu corpo que começara a tremer.
Vincent não poderia ter feito aquilo comigo! Ele não tinha aquele
direito! Não depois de me sensibilizar a ponto de assumir um
compromisso com ele, que significaria que algo mais sério havia
entre nós. Precisava dele comigo naquele jantar com nossa família,
para ter a prova de que eu era mais que um mero objeto de
conforto. No entanto tudo havia resultado na pior situação possível e
eu precisava sair de lá.
— Meu filho, o que foi? — Yorick se levantou.
— Ele não pôde vir... Ele... — Solucei e mais lágrimas
desceram.
— Você realmente falou com ele antes de reservar esse
jantar?
— Sim, mãe! — Falei mais alto que devia. — Me desculpe,
Celeste, eu...
— Deve se desculpar mesmo. Pensei que teria mais
responsabilidade nessa ocasião.
— Harper...
— Não venha tentar amenizar a situação, Yorick. Eu poderia
estar descansando para minha conferência e Harvey poderia estar
na reunião da empresa. Ele é um homem ocupado... — Eu não
conseguia escutar mais nada. Todas as palavras que minha mãe
dizia, me menosprezando e colocando meu irmão em um altar, me
irritavam insuportavelmente. Eu estava quebrado e ela não tinha a
menor consideração por mim! Na verdade, nenhum deles tinha! Eu
não existia para eles e nunca fui nada além de um estorvo!
— ... se eu soubesse que seria assim, nunca teria te deixado
vir para cá para me dar mais despesas!
— Eu nunca pedi sua ajuda! — Gritei, a interrompendo.
— Parker... — Mandy tentou segurar minha mão, mas eu já
estava farto daquilo.
— Não! Eu odeio vocês! Eu odeio como vocês me fizeram
sentir durante toda a minha vida! Eu sempre me culpei por vocês
terem se separado! Eu me culpava todos os dias, porque eu
acreditava que tudo era minha culpa, mas não era! Nunca foi!
— Abaixa esse tom, menino!
— Eu não vou abaixar esse tom, mãe! Na verdade, você nunca
foi uma mãe para mim e eu preferia ter morrido com a minha avó
naquele acidente de carro do que passar por isso!
— Filho...
— Não me chama de filho! Você não é meu pai! Você me
abandonou por oito anos! Oito anos! Um pai nunca faria isso com o
filho, independente do que estivesse acontecendo! Você pode voltar
aqui e tentar se aproximar de mim novamente, mas isso não vai
adiantar! Nunca! Você perdeu a chance de ser meu pai quando me
deixou sozinho, sem me dizer adeus! Você destruiu tudo o que eu
acreditava e tudo o que eu acreditava era você! Era com você que
eu queria conversar sobre a minha vida, mas você não estava lá!
— Olhe a vergonha que você está nos fazendo passar, Parker!
Abaixe esse tom!
— Você me dá vergonha! Você é uma mãe horrível e uma
mulher amargurada que negou o próprio filho! É bom que todos
vejam o que vocês me causaram! Vocês me destruíram durante
todos esses anos, pouco a pouco! Vocês me fizeram chorar e pedir
para morrer, porque eu achava que tudo era minha culpa, mas na
verdade vocês eram os monstros! E eu queria saber de tudo antes
pra ao invés de pedir para me aproximar de vocês de novo, pedir
para que todos vocês nunca mais chegassem perto de mim!
— Filho, eu sei que errei, mas não fala assim. — Yorick estava
chorando, e aquilo me fez sentir ainda mais raiva e tristeza.
— Eu nunca mais quero olhar para a sua cara na minha vida!
Então aproveitem o jantar, porque já está tudo pago com o dinheiro
que eu ganhei como ator! Não foi como um homem de negócios
como o Harvey, mas sim com a profissão que vocês desmerecem,
da mesma forma que fazem comigo. — Limpei meus olhos. — Me
desculpa por isso, Celeste. Eu não queria que isso acabasse desse
jeito.
— Você não vai embora assim, Parker! Não vai sair daqui e...
— Eu peguei a taça de vinho em cima da mesa e joguei em seu
rosto, manchando parte do vestido que usava.
— Você não tinha tanto medo de que eu te envergonhasse na
frente de todos, mãe? Bom, me desculpa.
Saí com Mandy atrás de mim e pegamos um táxi direto para o
apartamento. E se eles pensavam que eu sairia de lá estavam muito
enganados. Se antes eu não queria nada deles, a partir daquele
momento eu pegaria tudo o que era meu por direito. Os ignoraria da
mesma forma que fizeram comigo... como Vincent repetidas vezes
fizera comigo.
Quando chegamos apaguei todas as luzes e liguei para a
portaria do prédio informando que se aquele safado aparecesse,
que o avisasse que não estava.
— Me dá o seu celular. — Mandy me entregou e tratei de
colocá-lo em modo silencioso como o meu. — Se aquele mentiroso
te ligar, não atende!
— O que aconteceu? Vocês brigaram? — Contei sobre a
ligação que fiz e a escolha dele de jantar com Karen Amaya ao
invés de mim. — Eu tenho certeza de que tem uma explicação pra
isso, Parker.
— E tem! A de que eu sou como um garoto de programa para
ele. Enquanto ele tem uma relação maravilhosa com a Karen
Amaya, eu fico aqui só esperando ele chegar pra me usar e depois
voltar pra vida perfeita. — Me sentei no sofá sentindo todo o meu
corpo tremer. Mandy foi até a cozinha e me trouxe água.
— Parker, ele trabalha com ela e ela pode estar em cima dele.
— Eu tenho certeza de que ela está em cima dele, Mandy. E
eles até vão jantar hoje pra comemorar isso. Como eu pude ser tão
idiota? Onde um homem como ele teria uma relação comigo? Eu fui
um palhaço! — Reclamei limpando as lágrimas que surgiram em
meu rosto. O celular de minha amiga se iluminou.
— É ele. — Me mostrou. Ficamos encarando a tela até se
apagar. — Você devia conversar com ele.
— Não devia e não vou! Acabou tudo o que nem começou.
Sabe o que é engraçado? Se isso fosse um casamento ele nem
teria se consumado ainda. Mandy, como ele não tem consideração
por mim? Ele me pediu em namoro, o que significaria que me ama,
mas ele não fica comigo! E então eu descubro que ele vai jantar
com a ex? Não! Não tem nada para conversar!
O porteiro me ligou, pois pedi para que me avisasse quando
ele viesse e fosse embora. Esperei a primeira chamada cair na
caixa postal e depois liguei de volta.
— Ele já foi?
— Sr. Parker, ele está subindo. — Escutei a voz assustada do
Sr. Simas.
— O que?
— Ele passou direto aqui e me ameaçou se não deixasse ele
subir. Me desculpa, senhor.
— Parker, abre essa porta! — A voz grave e rouca surgiu junto
de batidas fortes. Benj foi até ela e começou a latir abanando o
rabinho, reconhecendo seu “pai”. Desliguei o celular e não dissemos
nada. — Eu sei que você está aí. Abre agora, Parker!
— Mandy! Volta aqui! — Pedi sussurrando para a minha
amiga. Mas ela não me ouviu e acendeu a luz do cômodo, abrindo a
porta. A expulsaria assim que colocasse aquele safado pra fora.
— Obrigado, Mandy. Alguém aqui tem que ter um pouco de
sensatez. — Disse para minha amiga que me pediu desculpas e foi
para o seu quarto. — E o que você tem na cabeça para não me
atender e ainda tentar me impedir de subir até aqui?
— Eu só estava te ajudando a não se atrasar para o seu jantar
com a Karen. — Foi impossível evitar o sorriso cínico. — Pode ir,
que eu vou estar aberto aqui te esperando depois que você voltar.
— Eu já mandei você parar de falar desse jeito. E eu não vou
repetir! — Sua mandíbula ficou marcada com a tensão.
— Eu falo do jeito que eu quiser! — Peguei a aliança e joguei
nele. Ele viu o ato e me olhou incrédulo. — Aproveita e dá esse anel
para a sua futura esposa. Ela vai adorar.
— O que é isso, Parker? O que você tem na porra da sua
cabeça? — Veio até mim, mas me afastei. — Você está com medo
de mim? Eu nunca te machucaria.
— Mas você fez! Você me deixou te esperando como um
idiota! Eu te pedi para não me decepcionar e você fez exatamente
isso. — Gritei. — Eu não conheço você, Vincent, mas eu sei que é
um egoísta insensível. Você não tem consideração nenhuma por
mim! Eu fui muito idiota em achar que você realmente me amava!
— Do que você está falando, Parker? Eu te pedi em namoro e
você conheceu minha mãe! A minha família! De onde você tirou
isso?
— Você não se esforça pra nada nessa relação, seja lá qual
for. — Limpei as idiotas lágrimas teimosas. — Você me diz que eu
sou importante e depois some. Depois volta, me come como se eu
fosse um prostituto, dorme na minha cama e depois some de novo e
coloca a culpa no seu trabalho. Gary me disse que tudo estava
calmo. Você ia para onde? Me diz! Pra sua futura esposa, enquanto
eu fico aqui igual uma besta esperando a sua atenção, pra te dar
carinho, como um romântico idiota e sem valor?
— Isso tudo é por causa do jantar? Você está carente demais
e criando um monte de besteira sem sentido.
— Sim, Vincent! Eu estou carente e esperava que o meu
namorado ficasse comigo pelo menos uma vez. Eu quero me sentir
amado pelo menos uma vez na minha vida! — Gritei.
— O que você está falando é uma besteira idiotice, Parker.
Parece um adolescente mimado. — Retrucou e quis socar seu
rosto.
— Some daqui! — Aquilo era demais! Ele estava
negligenciando meus sentimentos. Não dava a mínima para o que
eu sentia e era orgulhoso demais para admitir que era culpado.
— Você quer mesmo que eu vá? — Perguntou seriamente.
— Some daqui, Vincent! Sai do meu apartamento e leva essa
aliança idiota com você! — Senti minha garganta se fechar e minhas
próximas palavras saíram abafadas. — Eu não mereço isso! Você
me fez odiar tudo o que eu sinto por você.
Ele se abaixou e pegou a aliança do chão. Olhou para mim e vi
que estava nervoso, mas não sabia o que fazer. Quando falaria algo
seu celular tocou no bolso e pela sua cara era do seu trabalho. O
encarei sorrindo explicitamente como se provasse tudo o que falei.
Ele suspirou e deu um passo em minha direção, mas recuei. Ele
xingou e passou a mão nos cabelos fortemente. Estava tenso, pois
sua camisa apertava seus músculos rígidos. Vincent me olhou mais
uma vez e foi até a porta atendendo o celular. Ele foi grosseiro com
Gary quando esse o lembrou de seu compromisso.
— Eu vou deixar você pensar no que disse e depois eu venho
te ver. — Eu estava inconformado e com raiva, pois não queria que
saísse daquele jeito.
— Não tenha pressa. — Falei antes de ele fechar a porta.
— Parker... — Mandy me chamou, mas olhei feio para ela.
— Não fala comigo! Eu deixei bem claro que não queria falar
com ele. Me deixa em paz!
— Me desculpa, eu...
— Me deixa em paz, Mandy! — Repeti e passei por ela,
ignorando sua tentativa de me tocar.
Era o fim! Eu não tinha mais um namorado e tudo não durou
mais do que um mês. Como eu pude me deixar levar assim?
Alguém que desde o início disse que não seria como um daqueles
adolescentes apaixonados não ligaria para os meus sentimentos.
Ele não se deu nem ao trabalho de me fazer mudar de ideia,
somente tentou me culpar por aquela discussão.
Mas era melhor daquele jeito. Eu nunca seria amado e não
adiantava tentar. Estava melhor sozinho e era daquela forma que
ficaria. Parei em frente do espelho e vi meu reflexo, e imediatamente
comecei a listar todos os defeitos. Desde as olheiras que
começavam a aparecer, até meus lábios rachados. Eu estava
acabado e tudo o que queria fazer era ficar naquele quarto dormindo
para sempre.
Será que ela era melhor que eu? Que o tratava melhor ou se o
amava melhor que eu? Por que ele não queria ficar comigo mesmo
eu fazendo de tudo para ele? Parecia que preferiria ficar longe a me
dar um pouco de atenção. Entendia muito bem que era um homem
ocupado e o chefe de sei lá o que, mas era impossível não poder
passar um dia comigo, mesmo que seja um só. Desde que nos
conhecemos Vincent não tinha me reservado seu precioso tempo e
só me via quando voltava do trabalho, mas nem aquilo era válido.
Me arrependi por ter jogado o anel nele, mas, ao mesmo
tempo, o queria fazer se sentir mal como eu me sentia. Achei que
estava acostumado com a carência e com a solidão vivendo todos
esses anos com minha mãe, mas a diferença era que pela primeira
vez eu realmente entendia o amor pela pessoa que me
negligenciava.
Ele estava me tratando como mais um de seus casos...
CAPÍTULO 14 - O Fim do Túnel

Vincent não tinha ideia de como a distância o afetaria e em


como ela doeria depois de tudo o que havia acontecido entre ele e
aquele garoto que o tirava do sério. Uma coisa era ficar longe por
dias sabendo que teria aqueles braços gentis, mas espertos,
quando voltasse. Outra bem diferente era ter a certeza infeliz de que
nada daquilo voltaria a acontecer. E tudo por culpa de sua
dedicação ao trabalho e sua convicção idiota de que nada abalaria o
que os dois tinham.
Ele se culpava por tanto trabalhar e não ter dado a atenção
que ele sabia que Parker precisava, ainda mais pois haviam
acabado de iniciar aquele namoro. Fora uma decisão de Vincent,
porque sabia que o garoto ficaria feliz com o pedido. Ele não era um
homem romântico e nem dado a tais atitudes, mas por aquele
demoniozinho se sentira, mesmo lutando com a vergonha, bem ao
se “declarar”.
E estava feliz por aquilo. Aliviado seria a palavra correta. Em
sua última viagem havia encarregado Gary de vigiar e cuidar da
segurança de Parker. Se sentia melhor daquela forma, mesmo
sabendo que tal atitude era um pouco abusiva. Com tudo o que
acontecia a sua volta, e pelas coisas que já vira e escutara, o
mundo não era somente feito de rosas, pois elas também eram
acompanhadas de espinhos.
Ele achara que seu fim era certo quando recebeu o tiro,
mesmo que o colete o houvesse protegido do ataque fatal. Ele sabia
que se não fosse pela péssima mira do idiota que traficava garotas
menores de idade, estaria morto. E se culpava ainda mais por ter se
deixado afetar por aquilo. Ele colocara a vida de inocentes em risco,
e o que mais lhe preocupava, a vida de Parker, pois além de sofrer
pela hipotética fatalidade, sabia que sofreria por conta de sua
família.
Mesmo que o menor não lhe contasse sobre os seus
problemas familiares, Vincent estava ciente de tudo o que envolvia
seus laços de sangue. A relação conturbada com seu pai e mãe,
seu irmão intrometido e espaçoso, e seu avô que não estava tão
morto assim. Queria pessoalmente lidar com aquelas questões, mas
decidira respeitar o espaço daquele que amava. E sim, ele amava
Parker.
E talvez por aquele motivo tenha sido tão difícil escolher ficar
naquela comemoração, quando desejava estar com ele no jantar
que havia preparado para suas famílias. Ainda se lembrava da
forma que conversaram no almoço e de como algo já estava
acontecendo no que sentiam. Principalmente da parte do mais novo
que de alguma forma estava magoado. No entanto, teimoso como
era, não teve a maturidade de se sentar e conversar.
Quando ele viu a aliança ser jogada no chão, escutou as
palavras magoadas e percebeu que era sua culpa a forma que
Parker estava, a ira o tomou. E ele quis segurar aquele garoto pelos
braços e o sacodir pelas besteiras que dizia, mas não o fez. Talvez
aquela fosse a melhor saída e estivessem juntos, mas deixara
respingar palavras que desestabilizaram ainda mais o emocional do
outro.
E com aquilo guardado foi para o trabalho, segurando tão forte
o anel de pedra azul e ouro que por alguns minutos o formato
redondo ficou marcado em sua pele. Ele entrou querendo socar
quem estivesse em sua frente, mas ainda mais queria se socar, pois
ao ver o sorriso cínico de Karen em sua direção desejou não ter
ficado para agradar seu único superior, o homem que havia lhe dado
a chance de ter tudo o que tinha.
Ele entrou em sua sala, ignorando seus agentes chamando o
seu nome para dividir algo. Com ódio ele socou o grande saco de
pancadas e com uma força descomunal o chutou, fazendo com que
alguns dos pregos soltassem do teto, deixando o equipamento
pendurado desforme e a ponto de cair. O que também não melhorou
sua situação foi a dor insuportável que se abateu em seu peito
devido ao tiro. Com dificuldade se sentou na cadeira e estava
prestes a socar a mesa quando viu os benditos quadros.
Primeiro viu os olhos claros de Parker sorrindo enquanto
abraçava Benj e Jasmin. Sua mãe o pegara olhando a foto uma vez.
Ela havia sugerido fazer um quadro, pois era bonita demais para
ficar no celular. E ela tinha razão. Ele sempre se pegava admirando
a feição leve, mas astuta do garoto e aquilo de certa forma o
instigava a sempre querer mais e mais a aceitar seus sentimentos.
E como um combo perfeito para lhe fazer repensar em suas
atitudes, viu seu pai e mãe abraçados com ele ainda criança.
Vincent se sentiu cansado e especialmente fraco naquele momento,
pois não conseguira controlar sua vida e ações como sempre
prometera fazer. Estava sozinho e abandonado pela pessoa que o
amava.
Seu pai sempre o ensinara a ser um homem respeitoso e
digno dos que estavam a sua volta. Nunca, mesmo trabalhando
muito, deixou de estar presente quando sua mãe precisava de ajuda
ou quando ele mesmo queria conversar sobre algo que acontecia
em seu crescimento. Se espelhava tanto no progenitor que quando
ele infelizmente os deixou, assumiu o papel de homem da casa e
prometeu não deixar nada faltar a sua mãe.
Jurou também ser aquele quem estaria sempre lá por seu filho
quando o tivesse. Porém, até mesmo aquilo lhe foi tirado em seu
antigo relacionamento com Karen. Vincent não se orgulhava de
como havia lidado com seus sentimentos e menos ainda da forma
como a deixou conduzir tudo.
— Chefe?
— O que você quer, Richards?
— O Diretor Hoss quer falar com o senhor. — Ele abriu a porta
e Vincent se arrumou com um suspiro devido a dor. — O senhor
está bem?
— Só o mande entrar.
— Certo. — Concordou e logo o senhor de cabelos brancos e
um sorriso discreto entrou na sala. Logo de cara reparou no saco de
pancada pendurado precariamente.
— Vejo que não está tudo bem com você, Vincent.
— Com todo o respeito, isso não é da conta de ninguém.
— Diz respeito se meu agente recebe um tiro de um traficante.
— Se sentou na cadeira em sua frente.
— Foi uma casualidade que não vai mais acontecer.
— Ela não deveria ter acontecido em primeiro lugar. — O mais
velho encarou o suspirador e adquiriu um tom mais ameno e
familiar. — O que está acontecendo com você, Vincent?
— Nate, eu...
— Quero a verdade. Preciso de uma resposta para ter certeza
de que está apto para continuar nesse cargo, ou se devo te mandar
em umas férias para espairecer.
— Não preciso espairecer.
— A sua resposta vai me dizer. Sou eu que tomo a decisão
aqui. — Vincent apertou a aliança de Parker que ainda estava em
sua mão.
— São problemas pessoais.
— Envolvendo alguém que gosta?
— Sim. Mas é um pouco mais complicado que isso. —
Suspirou e deixou a aliança na mesa para que o superior visse. —
Eu estou com alguém.
— Parker Hayes.
— Sim.
— Soube pela Karen, que soube pelo irmão fofoqueiro dela.
Tem que dar um jeito nele. Não que ele vá ser um traidor no futuro,
mas mais pelo que conta para irmã.
— Eu me entendo com ele depois.
— Karen ainda está no seu pé?
— Não, mas não perde a chance de ser uma puta curiosa.
— Modos, Vincent. As paredes têm ouvidos. — Nate se
arrumou na cadeira. — Me conte sobre o que aconteceu. Se a
aliança dele está aqui, seu relacionamento não está bem.
— Eu sou o culpado por ele ter agido do jeito que agiu.
— Tudo acabou?
— Não! Isso vai se acertar. Parker me ama demais para não
reconsiderar!
— Você sempre foi um homem digno e correto. Nunca tive um
problema desde que te dei a chance de trabalhar para mim com a
exceção de um fator.
— Eu nunca falhei com você, Nate.
— Você é muito fechado com o que tem dentro de você. — Se
encostou na cadeira. — Como alguém mais experiente, sei que o
ambiente onde trabalhamos pode ser difícil. E não estou me
referindo quanto a quem cada um se relaciona, apesar de alguns
terem um preconceito escondido. Me refiro a sobre demonstrar os
sentimentos. Aprendemos a esconder o que sentimos e isso acaba
invadindo as nossas casas. Digo, porque quase perdi meu
casamento e minha filha numa tacada só. Você se lembra, não é?
— Sim.
— Pois bem, com isso em mente, não cometa os mesmos
erros que eu, filho. — Ele se levantou e olhou pela janela, em
direção aos prédios iluminados em meio a noite de Bisera. — Sua
mãe me fez prometer que eu cuidaria de você depois que seu pai
morreu. Tanto da sua “mente, corpo e coração”. Ela falou desse jeito
mesmo. Celeste é uma mulher perigosa, Vincent.
— Eu sei que é. — Encarou o quadro da senhora em sua
mesa. Ainda não havia falado com ela, e não sabia o que esperar da
conversa.
— Não sei o que te aconteceu no passado, pois sei que ele
tem algo com tudo isso. Mas como um amigo, quero que aceite o
meu conselho. — Nate o encarou. — Ficar com raiva da pessoa que
ama não é a saída. Nós já nascemos e morremos sozinhos, não
ande por aí arrependido por não ter lutado, pedido desculpas ou
abaixado a cabeça quando estiver errado. Se você o machucou,
assuma que errou e não tente justificar o seu erro apontando o dedo
para ele.
Ambos ficaram em silêncio por um momento. Vincent
assimilando tudo o que havia escutado e Nate esperando que o
mais novo entendesse sua ordem velada. Ele se aproximou da
mesa e arrumou o quadro do ator e seus dois animais de estimação.
— Ele é um homem bonito, Vincent. Se não tomar cuidado e
se tudo der certo para a carreira dele, não vai ter outra chance. Ele
é um ator, não é?
— Sim. Tem uma predisposição para o drama.
— Vá para a casa, tudo bem? Tenha uma boa noite de sono,
descanse desse tiro infeliz e pense no que fazer a seguir. Eu me
resolvo por aqui.
Vincent não discutiu com o chefe, pois ele não conseguiria se
concentrar no relatório que lhe pediram para fazer sobre o que havia
acontecido na missão. Confiava em Nate o suficiente para ter se
aberto daquela forma. Afinal, tudo pelo que estava passando o
mesmo também já havia enfrentado antes.
Ele saiu sem falar com ninguém, nem mesmo Gary, seu
agente de mais tempo e com quem tinha mais intimidade. Foi direto
para o seu carro e ficou um bom tempo dentro dele, no escuro,
somente observando as árvores balançando. Ali, pensando em
Parker e no medo de o perder, se permitiu derramar algumas
lágrimas. Ele o amava e mesmo com sua armadura o impedindo
sempre de demonstrar facilmente seus sentimentos, desejou poder
voltar para o mais novo e sentir suas mãos acariciarem sua barba, e
até mesmo o provocar pelo seu macarrão.
No caminho ele passou pelo apartamento, mas não havia
nenhuma luz acesa. Também não se atreveu a incomodá-lo, pois
ambos ainda estavam com a briga recente em suas mentes. Então
dirigiu para casa e assim que chegou seu celular apitou. Por um
momento ficou feliz, pois era o alarme que Parker havia programado
para que ele se lembrasse de tomar os remédios.
Ele foi até a cozinha e antes de pegar a cerveja imaginou a
bronca que receberia do amado e pegou a garrafa de água. Pelo
reflexo da janela da cozinha, ainda notava alguns sinais de seu
momento sensível no carro, pois seus olhos ainda estavam um
pouco vermelhos.
— Eu não sei como você vai fazer para reconquistar o Parker
de volta, meu filho, mas você pode começar me explicando o motivo
de não ter ido no jantar que ele organizou. — Se virou lentamente e
viu sua mãe vestida de um roupão, no entanto, assim que ela viu os
olhos vermelhos dele desistiu da bronca que lhe daria. — Você está
bem, Vincent?
— Sim, mãe. Deve ser o cansaço e estou com um pouco de
dor também. Espero que o remédio ajude.
— Você quer que eu veja...
— Está tudo bem. — A interrompeu de dar uma de enfermeira.
Suspirou, pois não queria entrar naquele assunto, mas tinha que
saber o que havia acontecido. — O que aconteceu com ele, mãe?
Ele não parecia bem quando o vi.
— Eu sinto por ele, filho. Você me contou do que havia
acontecido, mas eu vi a profundidade disso. E tenho que te dizer
que entendo o motivo de ele ter agido como agiu.
— O que aconteceu?
— A mãe dele... — Celeste revirou os olhos e pegou um copo
para tomar um gole de água, e enquanto falava, encarou o rosto do
filho, procurando algum sinal de que não estava se sentindo bem. —
Nunca vi uma mãe tão sem sentimentos como ela. Foi bem
perceptível a adoração que tinha pelo Harvey e a indiferença por
Parker. Ele foi criado por ela?
— Sim. Quando os pais se separaram ela ficou com a guarda
dele.
— Não consigo imaginar ele convivendo com alguém daquele
jeito. E o pai dele, que ficou oito anos sem ver o filho! Como isso é
possível?
— Também não sei o que se passou na cabeça dele. Só de
imaginar quero quebrar a cara do desgraçado.
— Não, Vincent. Por favor, não é necessário tanto. — Celeste
o acalmou. — Eu senti que, mesmo com todo esse tempo
separados, ele ainda ama o filho. Ele está machucado também. Não
sei do passado, mas Yorick realmente está triste. Mas o Parker...
Vincent, por que não fez um esforço e foi para o jantar? Ele
precisava tanto de você.
— Eu quero dizer que foi o trabalho, mas foi mais minha culpa.
— Ele pensou no que Nate lhe dissera sobre priorizar o trabalho e
esconder seus sentimentos de quem amava. — Eu não sei nem
mesmo como me desculpar com ele.
— Ele estava arrasado, filho. Tudo o que estava entalado no
coração dele, ele despejou na mãe. E acredita que ela ainda tentou
minimizar a dor dele? Não sei o que se passa na cabeça daquela
mulher. Talvez ela também tenha sofrido por conta da separação,
mas não sei se isso justifica a forma que ela trata o próprio filho.
— Eu fui um idiota com ele também.
— Você foi vê-lo? — Vincent tirou a aliança do bolso e
entregou para a mãe, que o olhou entristecida. — Vocês
terminaram?
— Ele terminou.
— Mas vocês se amam tanto. Eu consigo enxergar esse amor
nele e em você, filho. Eu não te via feliz desse jeito desde que
aquela vaca saiu da sua vida.
— Eu vou falar com ele ainda. Não vou deixar isso dessa
forma. Ele estava nervoso hoje, mas vou falar com ele.
— Me deixe ir antes, tudo bem? Talvez consiga arrumar essa
bagunça que vocês se meteram. — Ela acariciou o rosto dele e
passou os dedos gentilmente abaixo de seus olhos. — Você esteve
chorando, não esteve, Vincent?
— Eu...
— Não minta para mim, menino. Não sei o que você tem nessa
sua cabeça para pensar que pode esconder alguma coisa de mim,
mas esqueça. Eu sou sua mãe e você me deve isso. Aguentei muita
gente difícil na vida e não quero isso com o meu próprio filho. Se
quiser, posso falar com Nate para te dar férias de todo esse
estresse...
— Não precisa disso, mãe. Ele conversou comigo também.
— E você contou para ele tudo o que não está querendo me
contar, presumo?
— Eu precisei contar. Era isso ou ficar afastado do trabalho.
— Talvez não devesse ter contado.
— Não implica com o meu trabalho de novo, mãe. Não hoje.
— Mas eu quero saber se você esteve chorando ou não,
Vincent. Eu conheço você, mas eu quero escutar você falar. Mostra
pra sua mãe que tem um ser humano debaixo dessa casca que
você se colocou dentro.
— Não foi nada,mas, sim, eu chorei.
— Não diminua o que você sente, filho. Guardar seus
sentimentos não é uma coisa saudável a se fazer. As pessoas
tendem a esconder a tristeza dentro delas mesmas e acabam
ficando tristes para sempre. Não quero que isso aconteça com você.
— Eu só estou cansado. Só isso. — Suspirou e deixou o copo
de água na pia. Observou Lena deitada do lado de fora, olhando
diretamente em seus olhos, até que abaixou as orelhas e voltou a
deitar. — Mas eu vou agradecer se puder me ajudar com o Parker.
Não quero ficar sem ele.
— É claro que vou te ajudar, Vincent. — Ela o abraçou e ele a
retribuiu, mesmo sentindo um pouco de dor por conta do aperto.

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E depois daquela noite, mesmo com a tentativa de sua mãe


para amaciar o temperamento de Parker, não conseguiu falar com
ele em nenhuma das vezes que tentara lhe ligar. Por um aviso de
Celeste não foi até o apartamento, pois além do menor estar lidando
com a separação deles, enfrentava os problemas em sua família. E
aquilo fez com que Vincent quisesse ir até a casa de Yorick para lhe
cobrar alguma satisfação. Só de pensar que ele era um dos motivos
para aquela situação estar insuportável, queria arrumar alguém para
descarregar toda a sua frustração. Além de seus agentes,
obviamente.
Ele havia se tornado ainda mais exigente com tudo o que
faziam e com o comportamento de cada um dentro e fora da
empresa, nas missões e também na vida pessoal. Esse último
aspecto se referindo somente a Gary. Vincent o havia ajudado, da
mesma forma que Nate fizera com ele anos atrás.
Richards era um bom homem e estava desesperado
procurando um emprego, pois além de lidar com as despesas da
casa, tinha que lidar com o tratamento de câncer da mãe. Havia o
encontrado entregando currículos quando saía do Orleans, depois
de um almoço desnecessário com Karen e outros agentes. E depois
de uma entrevista um dia depois, já estava o treinando para o
trabalho.
O que não esperava era que também estaria se
comprometendo a ajudar sua vida pessoal. Vincent não era um
homem ruim ou indiferente as dores dos outros, mas sim seletivo.
Não ajudaria ninguém que tivesse condições de lidar com seus
próprios problemas, pois acreditava que tais situações moldavam o
caráter necessário para se viver naquele mundo. No entanto, era
impossível virar as costas para alguém sofrendo de uma doença tão
horrível quanto o câncer.
E por conta daquela proximidade, mesmo sendo
extremamente profissional no ambiente de trabalho e em quase
todos os aspectos daquela amizade, se via indo em ocasiões
especiais para a casa animada de Gary em almoços feitos por sua
mãe. Ela sempre lhe dizia que Deus lhe pagaria com o amor mais
puro do mundo algum dia. E talvez ele já estivesse recebendo sua
recompensa pelo ato bondoso.
Parker o estava evitando, mas como o homem territorialista e
possessivo que era, sabia de todos os lugares que o seu namorado
frequentava e que estava trabalhando como ator, indo a eventos
com Perry Klen, seu agente e modelo. Esse sendo o tema da
conversa entre ele e Gary, Vincent se lembrou de que precisava
passar em seu apartamento para pegar Benj e Jasmin, devido a
uma viagem de Parker no final de semana.
— ...e esse Perry parece estar ajudando mesmo. Vai
acompanhar o Parker no trabalho que ele tem agora. Ele parece um
vampiro, né?
— Sem brincadeira, Richards. O que mais?
— Ele é sozinho, esse tal de Perry. Tem uma medida protetiva
contra um namorado que o agrediu. O que dá na cabeça desses
caras para baterem nos namorados? Quero arrebentar a cara de
todos.
— Se pudesse todos estariam mortos. — Suspirou, apoiando o
rosto nas mãos. — Mais alguma coisa.
— Só isso mesmo.
— Obrigado, pode ir.
— Chefe, eu estava falando com os caras e estavam
pensando se não quer ir com a gente jogar bola essa noite?
— Não me atrapalha para isso, Richards. Não tem relatórios o
suficiente?
— Tenho sim! Até demais...
— O que?
— Nada, chefe! — Garry se recompôs. — Só tô falando que o
senhor tá ficando muito tempo aqui. A gente tá preocupado depois
do senhor e do...
— Eu não acredito no que estou ouvindo.
— Chefe, se o senhor quiser eu posso falar com o Chefinho e
tentar...
— De novo esse apelido? — Gary coçou a cabeça, se sentindo
perdido no que queria falar. Vincent ele estava ciente de que
precisaria de ajuda para lidar com Parker se o quisesse ter de volta.
— Se for para parar com essas fofoquinhas aqui dentro e sobre a
minha vida, que não é da conta de nenhum aqui, eu vou nesse jogo.
Só tenho que passar para buscar Benj e Jasmin antes.
— Eles são muito fofinhos, né? Eu vejo as fotos que ele posta
no Instagram. — Ele pigarreou vendo o olhar insatisfeito do chefe.
— O senhor vai ver o Chef... Parker, hoje?
— Sim.
— O senhor quer que eu vá?
— Preciso de uma babá agora, Richards?
— Não, senhor.
— Então não se ofereça pra inutilidades.
— Mas se o senhor quiser ajuda para falar com ele...
— Tem alguma coisa de importante para falar, Richards?
— Licença. Um tal de Yorick Ivanov está querendo falar com o
senhor. — Um agente apareceu pela porta.
— Yorick? Ele disse o que quer?
— Disse que precisa falar com o senhor sobre o... — O agente
encarou Gary, mas esse virou o rosto olhando para qualquer coisa.
— Mandem o trazer aqui.
— Sim, senhor.
O que Yorick queria falar com ele? Ainda mais sobre Parker? A
situação de ambos não estava boa com o ator em formação, mas
admitiu estar curioso em saber o que o russo diria. Não se
conheceram em uma situação muito boa e estava disposto a
oportunidade de colocar tudo em panos limpos. E lhe cobrar alguma
explicação sobre o motivo de o jantar que não comparecera ter
resultado naquele desastre que respingara sobre ele.
Não demorou mais que cinco minutos para que o homem
entrasse pela porta do escritório e os dois se encarassem, como
dois estranhos prontos para uma luta a qualquer sinal de ameaça.
Porém nada aconteceu e Yorick caminhou lentamente até ele e lhe
estendeu a mão em um cumprimento. Um simples sinal de trégua
entre os dois homens.
— Como eu posso te ajudar, Yorick?
— Vim aqui para te pedir ajuda como um pai.
— Como um pai? Então isso tem a ver com Parker?
— Sim. Estou tentando falar com ele a dias, mas ele não
atende minhas ligações ou me recebe no apartamento. Não quero
forçar nada com ele e nem prejudicar o que já consegui até agora, o
que não foi muito.
— E como eu posso ajudar? — Vincent até mesmo se sentia
um pouco feliz em vê-lo daquela forma. Não gostava de Yorick pelo
que havia feito ou deixado de fazer. Não havia agido como um pai.
— Como ele não está falando comigo, quis vir pessoalmente
falar com você para que me ajude a conquistar a confiança dele.
— E por que eu te ajudaria? Não sei se confio em você
também. Pelas coisas que escutei sobre você e a mãe do Parker,
não sei se são uma boa influência na vida dele. — O russo parecia
não saber da real situação entre ele e o namorado, já que estava ali.
— Vincent, eu não sou um homem de pedir ajuda para
ninguém e muito menos de quem não conheço. — Se arrumou na
cadeira. — Você pode não confiar em mim, mas eu confio em você.
Gostar já é outra coisa, mas eu sei que meu filho te ama. Quero
fazer parte da vida de Parker e depois de ver como ele se sentia em
relação a tudo, tenho mais vontade ainda.
— Vocês não fizeram nada por ele além de o deixarem sozinho
durante esse tempo todo. Por que eu ajudaria você?
— Porque eu sou pai, Vincent. Não sei se você entende como
é perder um filho e não poder... não conseguir fazer tudo por ele da
forma que quer. — Vincent se mexeu na cadeira, não gostando do
que Yorick disse e muito menos do sentimento que havia lhe
causado.
— E por que você o deixou?
— Eu errei. Pensei que estava fazendo o certo para todos.
Achei que ganhando o dinheiro suficiente para dar uma boa vida
para o meu filho fosse minha prioridade. Esses oito malditos anos
em que eu não falei com ele foi por conta de...
— Estou ouvindo.
— Depois da minha separação, eu não sabia o que era de
início e pela minha criação nem dava a devida importância, mas eu
desenvolvi uma depressão profunda. Acredito que Harper também,
mas a sua forma de agir foi focar no trabalho. Tanto que
negligenciou nosso filho mesmo vivendo sob o mesmo teto. — Ele
apertou os olhos, segurando as lágrimas. — Nós dois erramos com
o Parker. E eu peço a sua ajuda para que eu possa me redimir das
minhas falhas como pai.
Vincent escutava aquelas palavras e se questionava se
realmente deveria tentar intervir por Yorick. A situação dele não
estava a das melhores com Parker e lhe irritava ter deixado tudo
chegar àquele ponto, mas ele sabia que não tinha outra escolha a
não ser correr atrás do prejuízo. No entanto, arriscaria sua chance
de reatar com o garoto para tentar ajudar o homem a sua frente?
Sabia que a situação daqueles dois era complicada demais e
tudo o que queria era deixar seu amado fora de toda aquela
bagunça, Porém era impossível quando todas as lembranças de seu
passado eram vividas a todo momento pela presença de seus
atores. Era uma batalha constante controlar o seu impulso de
dominar a vida do menor, mas precisava, pois sabia que tendo a
alma livre e atiçada que tinha, Parker não o deixaria tocar nele
novamente se tentasse dar um passo além do permitido.
— Vou falar com ele, mas não lhe prometo nada. O que ele
escolher vou apoiar. E vai ser a primeira e última vez que vou
intervir a seu favor. Parker pode ser impulsivo, mas não é idiota. Ele
vai saber o que é melhor para ele. — E esperava que soubesse que
Vincent era uma das melhores escolhas.
— Entendo. Não vou tomar mais do seu tempo. Pelo que vi,
tem muito o que administrar. — Yorick se levantou, mas antes de
sair olhou para o agente. — Eu posso não gostar de você, Vincent,
mas reconheço o bem que faz para meu filho e que o ama de
verdade. Mas mesmo assim, se o fizer mal, eu vou saber.
— Da mesma forma que eu saberei, Yorick.
Após aquela ameaça mútua chamou Gary para levá-lo a saída.
Vincent se encostou na cadeira por alguns minutos, encarando o
retrato de seu pai e se perguntando o que ele faria naquela
situação, porém ele já tinha a resposta. Mandou uma mensagem
para Parker, mesmo sabendo que não obteria resposta, e o avisou
de que passaria em torno de uma hora para pegar Benj e Jasmin. E
riu consigo, pois pareciam dois pais separados dividindo a tutela dos
filhos.
As horas se passaram até que saiu de sua sala. Ele nem
mesmo havia almoçado, mas a ansiedade o estava consumindo
para que pudesse ver seu garoto novamente. Dirigia pelas ruas com
habilidade, velocidade, mas acima de tudo cuidado, pois não queria
que lhe acontecesse nada antes de conversarem. Sentia falta das
provocações, discussões e o jeito manhoso e dramático daquele
que lhe tirava a paciência.
Quando chegou em frente ao prédio de Parker e passou pela
recepção, pela primeira vez fora paciente e esperou o novo
recepcionista, que havia sido contratado alguns dias atrás, pois ele
sabia da rotina de todos a volta do garoto, liberar sua entrada após
ligar para o dono do apartamento. Se fosse em qualquer outra
situação ele estaria calmo, como se não tivesse o que temer, mas
naquele momento se lembrava vividamente da discussão que
ambos tiveram.
Antes mesmo de chegar na porta escutou os latidos de Benj.
Seu cachorrinho, pois o havia adotado como seu e se apegado.
Vincent tocou a campainha e esperou a alguns segundos até a porta
se abrir. E assim que escutou a voz do mais novo, não pode deixar
de sorrir e sentir ainda mais saudade de sua vida ao seu lado.
— Você está horrível, Vincent.
— Boa tarde pra você também, Parker. — Passou pela porta
assim que lhe fora dada a passagem, e como costume se virou para
a poltrona perto da sala, pois como sempre fazia, Jasmin vinha em
sua direção depois de saltar. Ele a pegou no colo e sentiu a mordida
em sua mão em um sinal de carinho. Acariciou a cabeça de Benj,
que pulava em sua perna. — Eles cresceram bastante.
— Não faz tanto tempo assim que não os vê.
— Mesmo assim eles cresceram.
— Animais são assim mesmo. Eles crescem e mudam como
todo mundo.
Foi impossível não admirar o quanto aquele demoniozinho que
atormentava seu coração era o homem mais lindo que havia visto.
Ele vestia um daquele suéteres de gola longa, mas que acomodava
perfeitamente seu corpo, assim como uma calça da mesma
tonalidade e com a exceção de um tênis branco. E o que dava o
toque especial era o aroma de morangos de sua pele. Adorava
deixá-lo mexer em sua barba, pois ela sempre absorvia o cheiro
delicioso.
— Eu separei tudo o que eles gostam e dentro da mala tem um
pote da ração deles. Ela vai dar para o final de semana e mais
ainda. Se você for sair para trabalhar deixa a comida da Jasmin no
alto, porque o Benj come. — O viu caminhar pelo apartamento,
pegando uma camisa azul escura. Era sua e ele não se lembrava de
tê-la deixado lá. Parker corou ao voltar a falar. — Jasmin se
acostumou a dormir em cima.
— Do mesmo jeito que você gosta.
— Não começa, Vincent. — Ele respirou fundo.
— Parker...
— Mesmo você não gostando dela, ela gosta de você.
— Quem disse que eu não gosto dela?
— Você só dá atenção para o Benj...
— Isso não é verdade. — Vincent estava com a gata
empoleirada em seus braços. — O Benj só fica mais em cima de
mim.
— Sei... — Se encararam por alguns segundos e viu o exato
momento em que Parker se lembrou de respirar. — Bom, eu acho
que tudo o que você precisa pra cuidar deles está na mala. Só não
se esqueça de fechar as portas e janelas, porque eles nunca foram
para sua casa ou para a rua e podem se perder.
— Vou tomar cuidado com eles, Parker. Não se preocupe. —
Suspirou, deixando a gata no chão e dando um passo na direção do
garoto. — Eu queria conversar com você sobre a gente.
— Mas eu não quero. — Respondeu decidido, mas Vincent
também era.
— Parker, admita que você sente a minha falta. Eu sinto a sua
e não quero continuar assim.
— Eu já disse que não quero conversar sobre isso, Vincent. —
Viu seus olhos lacrimejarem. — Isso ainda me machuca e eu não
preciso ficar com isso na cabeça agora. Tenho que me concentrar
no meu trabalho.
— Para onde você vai?
— Como se você não fosse o intrometido territorialista e não
soubesse.
— Parker...
— Vincent, por favor, para de ficar me rodeando como se você
ainda fosse o meu...
— Namorado, Parker. É isso que eu “ainda” sou pra você.
— Não...
— Eu não vou desistir de você, me entendeu, garoto? Você
pode fazer a birra que for, mas você é meu namorado e eu não vou
te deixar, porque eu sei que você não quer que eu faça isso. —
Vincent se aproximou e gentilmente tocou os braços dele. — Eu vou
te dar o espaço que for, mas eu não vou deixar de cuidar de você.
— Eu não quero mais...
— O que, Parker? — O coração de Vincent se apertou com a
frase que possivelmente sairia da boca do outro.
— Eu... — O garoto, mesmo relutando, se apoiou no corpo do
maior. — Você me machucou, Vincent. Eu aguento ser
menosprezado por qualquer um, mas com você doeu demais. Eu
não quero me sentir assim de novo.
— Parker, eu sei que eu errei...
— Sim, você errou! — Ele se afastou e Vincent sentiu falta do
calor dos dois corpos. O menor limpou os olhos e pegou o celular
que havia apitado, digitando algo. — Eu tenho que ir. Já estão me
esperando lá embaixo. Eu volto no domingo mesmo, se tudo der
certo.
— Eu quero você na minha vida, Parker. — Vincent tirou uma
pequena joia do bolso, como um brinco e a colocou na mão do
outro. — Eu não vou colocar ninguém para te vigiar, mas eu quero
que ande com isso. Vai me deixar menos preocupado.
— O que é?
— É um rastreador.
— Eu não devia andar com isso, porque a gente não tem mais
nada, mas sei como você é e o seu trabalho. — Ele colocou o
dispositivo no bolso da calça. — Eu tenho que ir agora.
— Quero te pedir uma última coisa e que pense bem no que
vai fazer.
— O que foi?
— Seu pai foi me ver...
— O que? Por que...? Na verdade, eu não quero saber. Não
me interessa saber dele e...
— Ele é um bom homem, Parker. E um bom pai também.
Ainda não gosto dele totalmente, mas reconheço que ele se
preocupa mesmo com você.
— Você...
— Eu sei ler as pessoas e seu pai, quando o assunto é você,
não esconde o que sente. E você sabe disso, não sabe? — Vincent
o viu cruzar os braços e se lembrou de como adorava vê-lo
emburrado. Ele poderia não gostar de todo o drama em sua vida,
mas amava ver o dramático em sua frente. — Dá uma chance pra
entender o lado do seu pai. Se não fizer isso por mim ou por ele,
faça isso por você. Sei que ainda está machucado por toda essa
história e não precisa ser forte comigo. Eu te conheço e sei o que
tem por detrás desse demoniozinho que você mostra pra todo
mundo.
— Ridículo... — Pela primeira vez em muito tempo viu o sorriso
lindo dele. Quis sentir aqueles lábios macios nos seus e o tomar
como sempre fazia. Adorava vê-lo vermelho depois da carícia, pois
via o quanto ele se tornava frágil e dependente em seus braços. —
Eu preciso mesmo ir agora, Vincent.
Eles prenderam os dois animaizinhos nas coleiras e saíram do
apartamento. Ficaram em silêncio dentro do elevador, com exceção
dos pedidos para que Benj parasse de se enrolar com a coleira por
entre suas pernas. Um homem de cabelos platinados e olhos azuis
estava esperando por Parker na recepção. Era Perry, o agente.
— É um prazer te conhecer, Vincent. Parker comentou de você
uma vez.
— Não comentei não! —
— Posso confiar em você, Perry? — O agente questionou.
— Como assim?
— Não quero que nada aconteça com Parker.
— É claro que pode confiar em mim, Vincent. Parker é minha
futura estrela nesse mundo. Ele tem uma carreira linda como ator
pela frente. — O platinado sorriu. — Mas agora precisamos mesmo
ir, senão perderemos o voo. Novamente, foi um prazer te conhecer,
Vincent. Te espero no carro, Park.
— Toma cuidado, não confie em ninguém, vigie sempre sua
bebida e...
— Eu sei muito bem de todas essas coisas, Vincent. Não
precisa se preo...
— Eu sempre vou me preocupar com você! — Respondeu,
deixando o menor envergonhado. Ele pegou a chave do
apartamento e colocou na mão de Vincent.
— Não sei quando Mandy volta, mas essa é a chave do
apartamento. Se precisar de mais ração ou algo deles pode entrar.
Já deixei autorizada a sua entrada.
— Eu sei que errei com você, Parker. E nós vamos conversar
quando você voltar de viagem.
— Vincent...
— Não adianta fingir, Demoniozinho. Se você não quiser mais
tentar me diz agora. Me diz que não quer tentar consertar tudo isso
e que você não sente a minha falta. Você realmente não quer
consertar isso? — Tudo o que houve foi o silêncio. — Você vai voltar
pra mim da mesma forma que eu sempre voltei pra você. Eu não
quero e não vou ficar sem você.
— Isso foi até que bonitinho. Não sabia que era capaz de se
humilhar. — O garoto comentou e ambos sorriram.
— É o que eu mais estou fazendo por você.
— Eu vou pensar sobre isso.
— Vou te esperar quando voltar. — Se encaram por um longo
e delicado momento.
— Tenta não trabalhar demais.
Assim que o viu entrar no carro preto e partir para cuidar de
sua vida, Vincent se viu querendo segui-lo e voltar atrás com sua
decisão de não colocar alguém para vigiá-lo. Pelo menos aquela
conversa entre eles não havia acabado em mais uma discussão
para adiar ainda mais retomarem seu relacionamento.
Em seu carro, acomodou as duas bolas de pelo e dirigiu para
sua casa. Ele arrumou tudo para que não houvesse perigo nenhum
para os dois fugirem. E talvez querendo ter mais do garoto,
escolheu não ir jogar futebol com Gary e os outros para ficar com os
animaizinhos. Benj corria por todo o lado explorando a nova casa,
enquanto Jasmin ficou sentada no sofá, olhando tudo a sua volta.
Ele se sentia bem com os dois ali e mesmo que não fossem
realmente seres humanos eram ainda mais especiais, pois estavam
presentes desde a primeira vez que Parker e ele se encontraram.
Eram o sinal de que algo realmente existia e possível de se
recuperar. Sabia que não seria uma tarefa fácil, mas nada em sua
vida era. Por que daquela vez seria diferente?
Foi tomar banho e quando tirou sua camisa sentiu o cheiro do
creme de morango. Queria estar abraçado com seu garoto, com ele
onde podia ver, tocar e “tentar” controlar. Ficar tão longe fazia o
agente se preocupar com seu bem-estar, e sabia que aquilo era sua
possessividade. No entanto, nunca usaria aquela característica de
uma forma negativa.
Ele passou a noite toda revirando na cama depois de jantar
qualquer coisa, pois não estava com paciência para cozinhar, até
que sentiu Benj e Jasmin subirem em sua cama. E com a gata em
cima de seu corpo e o cachorro deitado no travesseiro ao lado,
dormiu.
Na manhã seguinte quando olhou seu celular, viu que nem
tudo estava perdido em seu relacionamento, pois havia uma
mensagem de Parker dizendo que estava tudo bem. Assim como
havia recebido uma foto dele e de Perry enviada por Gary, dizendo
que suspeitava que Parker estava se reunindo com alguns atores
que sua namorada gostava por conta de uma futura série.
Ele se sentiu orgulhoso, mas somente respondeu a mensagem
do garoto lhe desejando um bom dia e pedindo novamente para
tomar cuidado. E aquilo, somado ao fato de que parecia haver uma
luz no fim do túnel devido seu encontro antes da viagem, o fez
perceber que não havia chance de não viver ao lado de Parker.
Ainda havia questões que precisava trabalhar de seu passado, mas
da mesma forma que o garoto estava superando as dele, Vincent
faria o mesmo.
CAPÍTULO 15 – Sinceridade

Minha viagem fora a melhor possível. Depois de me reunir com


todas aquelas pessoas importantes vi que meu futuro era mais
brilhante do que eu sonhava. A ajuda de Perry e Calisto havia sido
fundamental e seria eternamente grato aos dois. No entanto, em
meu caminho de volta para casa, me perguntava se Vincent estava
bem e se havia cuidado de nossos... de Benj e Jasmin. Sabia que
ele era um homem responsável, mas exatamente por conta do seu
trabalho tinha o receio.
Nossa situação não estava resolvida e mesmo querendo muito
que num passe de mágica tudo o que acontecera fosse apagado,
era impossível. Só de pensar em voltar para aquele relacionamento
e me sentir sozinho de novo me causava uma angústia terrível. Não
queria me sentir incapaz e temer por sua segurança toda vez que
me informava sobre suas missões supersecretas de um Policial-
Não-Tão-Comum.
Mas sentia tanta falta de seus suspiros após minhas
provocações. Queria irritá-lo de propósito para que me tratasse
daquela forma bruta e ao mesmo tempo carinhosa e cheia de paixão
e desejo. Eu amava Vincent com toda a certeza do mundo, porém
tinha medo de nosso relacionamento me trazer ainda mais mágoas.
Já carregava uma bagagem mais que suficiente de traumas
familiares que supriam todos os aspectos negativos da minha vida.
O que mais me instigou com toda aquela situação era a minha
dependência emocional por aquele homem rude, grosso, e muitas
vezes dominador e possessivo. Vincent tinha uma forma de agir tão
desrespeitosamente respeitosa que tornava difícil não o enxergar
como um cavalheiro, mesmo que fosse ele que desse o coice de um
cavalo.
Durante a semana e dias que ficamos separados, sem
conversar ou discutirmos por qualquer coisinha besta, me senti
horrível e machucado. Obviamente meu jantar com meus pais havia
sido um desastre e destruído todas as chances de sermos uma
família unida e feliz novamente, como todos os cartazes de
autoajuda e propagandas na internet. No entanto, nada me fazia me
sentir tão pra baixo quanto a minha relação com aquele homem
rígido e workaholic.
Parecia que todos os meus dias eram tomados por uma
constante vontade de pensar em Vincent, amar Vincent, querer
Vincent e depois odiar Vincent por tudo o que havia feito, ou melhor,
deixado de fazer comigo. Já tinha ciência de que nossa relação não
seria comum como as de meus colegas da universidade, ou até
mesmo de Mandy e Harvey, que iam jantar ou saiam para qualquer
outro lugar. Aquele suspirador nem esteve presente na maior parte
do tempo, e ele mesmo havia dito que não tinha paciência para lidar
com aquelas situações de início de namoro.
Mas, mesmo assim, mesmo recebendo o que seriam as
migalhas de um relacionamento, ainda conseguia encontrar em toda
parte do meu ser o desejo de tê-lo ao meu lado. E por aquela razão,
que antes da minha viagem com Perry, havia fraquejado em minha
postura e o deixado se aproximar ao ponto de não resistir à vontade
avassaladora de estar em seus braços mais uma vez. Era como um
vício que não havia tratamento.
Foi por causa de tais sentimentos que também aceitei
conversar com meu pai depois de tudo. Me sentia culpado, pois
sabia que ele realmente estava tentando se aproximar de mim,
mesmo depois de todas as minhas recusas a sua presença. No
jantar, infelizmente, me deixara sentir somente o desprezo pelas
atitudes de minha mãe e acabei confundindo meu ressentimento por
ela me tratar daquela forma na frente de todos, pela tristeza de ter
sido abandonado no passado.
Não sabia se falaria com Harper Hayes novamente, e nem
queria pensar naquela possibilidade. Mas falar com Yorick era uma
das minhas preocupações. Não tinha ideia de como me trataria.
Talvez me julgasse como imaturo pela forma que havia agido ou até
mesmo me maltratasse, desistindo de vez de tentar uma
reconciliação.
No entanto saber que ele havia ido ao escritório de Vincent
pedir sua ajuda, era algo completamente incongruente com meus
pensamentos negativos, pois se somente quisesse me destratar não
precisaria da ajuda do suspirador grosso. E no meu interior,
seguindo a intuição que nos ajudava em momentos tensos, respirei
fundo antes de me despedir de Perry.
— Você está bem, Parker? Ficou quieto do aeroporto para cá.
— Eu tenho um assunto bem delicado para resolver agora,
Perry, mas espero que termine tudo bem. — Encarei o homem de
olhos azuis. — Obrigado por tudo o que está fazendo por mim. Se
não fosse por você e Calisto não sei nem se teria uma chance como
essa algum dia.
— Você tem talento e todos tivemos a sorte do destino cruzar
os nossos caminhos. — Recebeu uma ligação. — Mas agora que
voltamos paras nossas vidas, tenho que tomar cuidado para não
deixar de cuidar de mim também.
— Claro. — Nos despedimos com um beijo no rosto. — Tenha
uma boa volta para casa.
— Se precisar de mim basta me ligar, tudo bem?
— Obrigado, Perry. Você é maravilhoso.
— Estou tentando e conseguindo ser, pelo que parece. —
Sorrimos e logo entrei no edifício.
Encontrei meu pai sentado em um dos sofás da recepção, e
assim que me viu se levantou. Ele estava sério, mas conseguia ver
a ansiedade refletida em seus gestos, como limpar as mãos suadas
em seu paletó. Caminhei lentamente até ele, tomando todo o tempo
possível antes de trocarmos qualquer palavra.
Não via nenhum sinal de agressividade, somente se soubesse
esconder bem seus sentimentos, o que eu não duvidava, já que
havia crescido com aquele homem “difícil” de lidar que por um acaso
era meu avô. Yorick sorriu para mim, vencendo mais alguns passos
a distância entre nós dois. Ele estendeu sua mão com certa dúvida,
mas eu tratei de a apertar.
— Teve uma boa viagem, filho? — Escutá-lo me chamar
daquela forma fez uma chave girar uma vez dentro de mim,
destrancando uma das travas para meus sentimentos.
— Sim. Estou um pouco cansado, mas foi muito boa para mim.
Vamos subir. — Entramos no elevador em silêncio até estarmos em
meu apartamento. Deixei minhas malas perto do sofá e fui buscar
água.
— Onde estão Benj e Jasmin?
— Estão com Vincent. Já que Mandy está namorando com
Harvey, estão aproveitando o comecinho do relacionamento. Quer
alguma coisa para beber? Na verdade, só tenho água aqui.
— Está ótimo para mim. — Bebi o líquido gelado e o senti
passar por todo o meu corpo. — Vincent é um bom homem para
você, meu filho. Mesmo eu não gostando muito dele ainda, tenho
que admitir isso.
— É engraçado dizer isso, porque ele me falou algo parecido
quando veio aqui tentar me convencer a falar com o senhor.
— Eu não quis ser invasivo com a sua vida, mas eu não sabia
a quem pedir ajuda. — Deixou o copo no balcão e se sentou ao meu
lado em uma das cadeiras. — Eu não sei mais o que te falar, Parker.
Sei que todos esses anos não vão se apagar do nada e queria muito
mesmo mudar o passado, mas não consigo.
— Eu agi errado com o senhor naquela noite.
— Você estava irritado com sua mãe e triste por conta de
Vincent. Eu entendo isso e nem imagino por quanto tempo estava
guardando esses sentimentos dentro de você.
— Tempo demais. Mas mesmo assim, não foi certo falar o que
falei. Não para você. — Encarei seus olhos. — Eu não te odeio,
Yorick. Eu só queria te machucar de alguma forma quando disse
aquilo. Pra falar a verdade eu acho que nunca cheguei a te odiar,
mas sim tentar te esquecer. Sentir qualquer coisa por você enquanto
estava longe me doía demais.
— Sobre isso, eu preciso te confessar que... Durante todos
esses oito anos eu sofri com uma depressão e ansiedade. Me viciei
no álcool e sofri de quedas no meu caminho e até mesmo coloquei a
vida de Harvey em perigo. Da última vez ele ficou com uma cicatriz
e até mesmo teve que fazer uma tatuagem por cima. Ele me disse
que não foi nada, mas eu sei que errei com ele. — Ele deixou
algumas lágrimas caírem pelo seu rosto. — Eu falhei com meus dois
filhos durante esses oito anos. Com você, estando afastado de sua
vida, e com Harvey sendo um estorvo.
— Pai...
— Todas as vezes que eu pensava em você um sentimento
horrível tomava conta de mim. Me sentia envergonhado de ser o seu
pai e ter sido fraco em te abandonar daquela forma. — Segurou
minhas mãos. — E não quero dizer que isso foi culpa sua, porque
não foi. Eu que sou o culpado por tudo, por te machucar por dentro
e ferir seu irmão por fora, mesmo que sem querer. E foi somente
quando vi a tatuagem que fez, de uma raposa branca, o seu apelido,
que me dei conta do que estava fazendo com a minha vida e que
tinha que mudar.
— Harvey me mostrou a tatuagem, mas só tinha dito que foi
por conta de uma briga de bar.
— Ele estava me defendendo, porque eu havia arrumado uma
confusão com quem não devia. Estava fora de mim e peço
desculpas para o seu irmão até hoje. Sei que ele brinca o tempo
todo para mascarar tudo o que sente, mas ele também sofreu.
Harvey, me arrisco dizer, é o mais mole de todos nós aqui. Por isso
que ele fez de tudo para te levar para o “funeral” do seu avô.
— Eu acredito em você... — Respirei e apertei sua mão entre
as minhas. — Eu não quero dizer que vou esquecer tudo o que me
aconteceu, porque eu não tenho certeza de mais nada na minha
vida. Mas eu... sinto muito por tudo o que você passou... pai. Espero
que esteja melhor agora e me desculpe se fiz algo que possa ter
feito sua condição...
— Eu é quem tenho que me desculpar com você, não o
contrário. Foi por minha causa que tudo isso ocorreu em primeiro
lugar. — Se aproximou mais com a cadeira. — Eu te amo, meu filho.
Eu sempre te amei e sempre vou te amar. Eu prometi a mim mesmo
que ficaria bem para poder ficar ao seu lado e te dar o apoio que
não te dei quando precisou.
— Eu... — Mais uma chave virou e com elas todas as minhas
travas emocionais se foram. Eu estava tão cansado de todo aquele
peso emocional e negativo. Tudo em minha vida parecia andar
como se estivesse com chumbo amarrados aos pés. Talvez até
mesma a minha forma de lidar com meu relacionamento com
Vincent era uma consequência inconsciente do que havia ocorrido
em minha família. — Eu quero poder te amar, pai. Eu realmente
quero e estou cansado de tudo isso. Não aguento mais lidar com
tanta coisa e não quero ter que enfrentar tudo isso sozinho.
— Você não vai precisar a partir de hoje, Parker. Eu vou estar
aqui por você e te prometo que não terá nada que eu não farei pra
te ver feliz. Vou honrar meu papel como o seu pai e como um pai
deve ser. — Me levantou e beijou minha testa antes de me abraçar.
Pela primeira vez depois de oito anos abracei meu pai sem nenhum
receio.
Nós dois nos permitimos nos abrir completamente um para o
outro ali. Todos os nossos ferimentos emocionais foram expostos e
mesmo que demorassem a cicatrizar, agora não estavam sendo
constantemente abertos por agressões veladas ou não. Teríamos
que nos acostumar com tudo o que nos acompanhava, mas
sabendo que haveria um futuro para tudo o que viveríamos dali em
diante.
Saber que ele havia passado por tudo aquilo, pela depressão e
ansiedade, me fizeram entender o motivo da distância e toda a
ausência. Aquelas doenças não eram fáceis de lidar e nem
conseguia imaginar ele, um homem já adulto e responsável por uma
empresa e consequentemente várias outras vidas, enfrentando tudo
sem se abalar. A pressão imensa que deveria estar em suas
costas...
Talvez algo mudasse realmente em nossa convivência, e não
só entre nós, mas com todos, incluindo Harvey e até minha mãe.
Nada justificaria a forma como havia me tratado, mas conversar com
meu pai sobre o que ele estava passando me fizera questionar se
Harper Hayes, a arquiteta bem-sucedida, estivesse ou estava
lidando com conflitos internos. No entanto, falar com ela não era
uma tarefa fácil, e até fosse melhor deixar do jeito que estava e
esperar algum milagre. Talvez o deus dos relacionamentos, se
existisse um, jogasse suas bençãos em nós.
Mas algo que também tinha que resolver era minha relação
com Vincent, e aproveitei que buscaria Benj e Jasmin para
colocarmos um ponto final naquele capítulo ou não. Então tudo que
fiz foi aceitar a carona de meu pai até sua casa.
Ele ainda estava receoso em falar comigo, mas mais aberto
para comentar sobre sua vida. Entendi implicitamente que ele
conversaria com minha mãe sobre tudo o que havia ocorrido e até
mesmo senti que tinha algo mais acontecendo, pois não havia certo
estranhamento entre eles, o que era de se esperar de um casal que
havia se separado a muito tempo. No entanto, não cabia a mim
decidir sobre sua vida e com quem se relacionar. Era um homem
adulto e alguém que aprendera a tomar decisões.
Paramos em frente à casa de Vincent e vi um outro carro além
do seu. Não o reconhecia de jeito nenhum, mas me indicava que ele
não estaria sozinho. Antes de sair aproveitei para conversar sobre
um outro assunto envolvendo aquele condomínio.
— Eu não quero a casa que você disse para Harvey que
queria comprar.
— Eu imaginei.
— Estou falando sério, pai. Não quero que gaste seu dinheiro
comigo. Tudo bem que o apartamento que estou morando também
não é meu, mas não quero nada desse tipo. É muito dinheiro e não
quero nem pensar em ter algum tipo de dívida com o senhor.
— Sabe que não te cobraria por ela. Seria um presente meu
para sua nova vida aqui.
— Sei que suas intenções eram boas, mas respeite a minha
vontade. Não quero ter que repetir isso. Quero conquistar minhas
coisas daqui para frente.
— Entendo, filho. — O encarei assim que segurou minha mão.
— Você me dá orgulho quando vejo o homem que se tornou. Não
duvide disso.
— Eu... Obrigado, pai. — Escutei os latidos de Benj do lado de
dentro da casa e algumas risadas. — Eu tenho que entrar agora,
mas obrigado pela carona.
— Se quiser eu posso te levar de volta para o apartamento.
— Não precisa. Eu já agendei um taxi específico pra isso. —
Ele concordou em silêncio, mas apertei sua mão em um gesto
fraterno. — Obrigado por ter voltado para minha vida, pai. A gente
vai aos poucos sabendo como lidar com tudo isso.
Seu sorriso foi melhor que qualquer resposta falada e me
despedi. Ele ainda me esperou por alguns segundos antes de ir,
mas logo me deixou para enfrentar o outro homem que mexia com
meu emocional. Toquei a campainha e por um momento todas as
conversas diminuíram do lado de dentro.
Escutei os latidos de Benj bem perto e assim que a porta se
abriu me abaixei para pegá-lo no colo. Ele começou a me lamber e
tentar morder meus dedos, coisa que não fazia antes. Ele tinha um
cheiro de sabonete, o que indicava que havia tomado banho
recentemente. Foi então que olhei para Vincent.
Usava um shorts preto e uma camisa da mesma cor, mas era
notável que estava suado. Conhecia muito bem o cheiro de seu
corpo e era uma das melhores coisas para se apreciar. Seus braços
brilhavam e seu cabelo estava um pouco molhado, o tornando a
coisa mais excitante e luxuosa do mundo a meu ver. Será que ele
sabia de tudo o que causava em mim por simplesmente existir?
Queria me matar por me sentir daquela forma justo quando não
estávamos em nosso melhor momento. E não sabia se voltaríamos
a ter um.
— Oi, Vincent, bom dia.
— Entra. — Me deu passagem. Na sala estavam Gary e mais
alguns outros colegas seus. Me senti completamente deslocado,
pois aquele era o meu pior pesadelo durante o ensino médio: ficar
no meio de um monte de “machos esportistas”, para não falar nada
ofensivo. Eles me olharam como se já me conhecessem. Jasmin
brincava com um peixe de pelúcia que se debatia em seu colo. —
Essa é minha equipe do trabalho.
— É um prazer. — Cumprimentei a todos de longe. Minha
gata, assim que finalmente me notou, pulou por entre eles e veio até
mim, miando com saudade. A peguei no colo e sorri com meus dois
filhinhos no colo. Notei um sorriso discreto no rosto deles, mas
ficaram sérios quando senti a presença de Vincent atrás de mim.
— Chefinho! Quanto tempo! — Gary veio até mim, mas antes
que pudesse me abraçar o impedi com a mão estendida.
— Sinta saudades de longe. Você está suado. Aliás, essa casa
toda está fedendo a suor.
— A gente acabou de jogar bola no campo aqui perto. Você
devia ir uma vez.
— Sério, Gary? Olha pra mim e olha pra vocês. Nada contra, é
claro, mas não é meu tipo de esporte.
— Você parece mais calminho mesmo. — Escutei a risada de
Vincent atrás de mim e me virei para encará-lo, mas ele não baixou
o olhar diante do meu, o que me fez sentir o que não devia por ele.
— Eu vi que você vai atuar com todos aqueles atores famosinhos,
né?
— Espero que sim. Por enquanto só fiz um teste.
— Eu tenho certeza de que vai. O chefe mostrou um vídeo de
você ensaiando com a aquele loirinho que namora o dono do The
Dead Jaguar.
— Você conhece o Calisto?
— Não. A gente conhece o irmão dele por conta...
— Chega de conversa. — Vincent o cortou e colocou a mão
em minhas costas, me conduzindo para o andar de cima, para seu
quarto, mesmo eu dizendo que já iria embora. Ele fechou a porta
atrás de nós e o encarei com as duas bolinhas de pelo em meus
braços.
Ficamos em silêncio, mas eu conseguia sentir sua respiração
como se o oxigênio que respirasse fluísse dentro de mim. O seu
corpo aquecia o meu e sua presença dominante me fazia querer
desistir de qualquer relutância em me entregar aos sentimentos e
sensações que poderia me causar. Ele era um opressor, mas um
que não me causaria mal.
— Por quanto tempo a gente vai continuar assim, Parker?
— Continuar o que, Vincent? Não tem mais nada entre a
gente.
— Parker, por favor, entenda de uma vez por todas que eu não
vou te deixar, mas tudo tem limite. Até quando vai ficar me
rejeitando?
— Vincent, você me rejeitou para fazer o seu trabalho. Só
estou fazendo o mesmo pra cuidar de mim.
— Se eu pudesse voltar no tempo eu voltaria, mas não posso.
O que nós dois podemos fazer é olhar pra frente e seguir daqui.
— E que garantia eu teria de que você não faria tudo de novo?
Não estou dizendo que você não sentia minha falta durante as suas
viagens, porque se é tão insistente querendo voltar comigo deve
sentir algo, mesmo que seja uma obsessão. Mas enquanto você
tinha o meu apartamento para voltar depois de algum momento
difícil, eu nunca tive você.
— Isso não é verdade. Eu estava lá por você quando voltou da
sua viagem com os seus pais.
— E depois disso?
— Eu não sei. Não me lembro de nada do tipo agora...
— Exatamente o ponto que eu queria chegar! Nós nunca
fizemos nada como namorados, Vincent. Nunca jantamos juntos,
fomos ao cinema ou ficamos de bobeira em uma tarde qualquer. Sei
que você falou que não faz essas coisas, porque está velho demais,
o que eu concordo, mas eu preciso disso pra me sentir bem.
Entendeu? — Ele suspirou, passando a mão nos cabelos. — Eu
nunca tive isso na minha vida, e o que eu esperava de você era um
pouco de consideração e esforço em me fazer feliz.
— Por que a gente só briga?
— Talvez seja porque não devemos ficar juntos.
— Essa não é a resposta e nunca vai ser. — Deu um passo
em minha direção. — Eu te quero do meu lado, Demoniozinho. E
falar essas coisas, me sentir desse jeito, parece que tudo vai
desmoronar.
— Quem sabe é isso que você precisa pra descer desse seu
pedestal?
Vincent ficou em silêncio depois de respirar profundamente.
Ele foi até a gaveta da cômoda ao lado da cama e tirou a minha
aliança.
— Eu comprei isso aqui para você e eu nunca fiz isso por
ninguém, Parker. Quando eu digo que não tenho tempo pra fazer
todas as suas vontades é porque eu não tenho. Não sei o que vai
me acontecer da próxima vez que receber uma ligação do trabalho.
Eu tenho a vida de todos aqueles caras lá embaixo nas minhas
costas, mas mesmo assim eu penso em você todo santo dia. Eu sou
homem pra admitir os meus erros e não posso prometer que tudo
vai mudar e ser as mil maravilhas, mas vou fazer o meu melhor por
você. Mas você vai fazer o mesmo por mim? — Se aproximou,
tirando Benj e Jasmin de meu colo. — Não tenho família além da
minha mãe. Não tenho ninguém com quem contar se ela morrer e
não precisava de ninguém até te conhecer. Quero poder voltar
daquele inferno e ter você quando chegar em casa, porque mesmo
sendo esse demônio que é, eu já perdi as forças pra tentar negar
que eu quero você na minha vida! Não sei o que vai me acontecer...
— Não começa com esse assunto mórbido! — O cortei,
sentindo meu coração bater rapidamente.
— Você e essas duas pestinhas aqui são minha família. —
Engoli em seco com aquela declaração, mas um dos agentes o
chamou, o que me salvou.
— Acho melhor eu ir.
— Eu quero que você seja sincero comigo agora, Parker.
— Não adianta me colocar contra o muro, Vincent. Eu não
tenho nada para...
— O que você sente por mim?
— Eu...
— Só quero saber disso para poder dormir em paz hoje.
— Eu te amo, Vincent. Mas eu tenho medo de tudo o que você
pode me causar! Não consigo nem mais chorar por você sem me
sentir horrível por isso. Eu preciso de tempo pra pensar em tudo...
— Eu vou te dar um tempo, mas não pra sempre. Eu vou atrás
de você, Parker. — Ele segurou meu rosto, o levantando, e me
beijou inesperadamente. Meu corpo reagiu aquilo, fazendo com que
tudo em mim entrasse em um estado de euforia, prazer e surpresa,
mas completamente delicioso. Sentir sua barba arranhar minha
boca novamente foi indescritível!
— Não tinha o direito de fazer isso...
— Eu tenho todo o direito do mundo, porque você é meu,
Demoniozinho. Eu assinei o contrato da minha alma por você.
— Isso é bem frase de filme dos filmes “idiotas” ao seu ver.
— Se isso funcionar pra te ter de volta.
— Fazer isso comigo não é suficiente.
— Você não tem ideia do que eu quero fazer com você.
CAPÍTULO 16 – Herói

— Eu sei que não comecei com o pé direito nesse quesito,


mas você e aquele policial não estão mais juntos mesmo? — Meu
pai perguntou enquanto comia a torrada com queijo que Vincent
tanto gostava.
— Ele tem nome, pai. Mas não... Não estamos juntos. —
Respondi. Mandy evitava me olhar e eu a estava ignorando desde a
briga.
— Olha, se não quiser falar comigo sobre isso, tudo bem, mas
se o seu pai pode te dar algum conselho, devia dar uma chance
dele se explicar.
— Você só está falando isso porque ele falou comigo pra te
ajudar. E quando eu começar a levar em consideração alguém que
também me deixou sozinho, eu falo.
— Parker! Olha o jeito que fala com o pai. — Harvey me
repreendeu. — Ele só está tentando te ajudar.
— Deixa ele, Harvey. A gente fala coisas ruins para quem não
merece pra tentar se sentir melhor. — Yorick falou me encarando e
aquilo foi como um tapa na cara.
— Desculpa... É só que esse assunto está acabando com a
minha sanidade. Eu não sei o que fazer em relação a ele e, com
todo o respeito, não era nem pra falar sobre ele com você. —
Segurou minha mão e no meio daquela barba cheia vi seu sorriso.
— Não vale a pena ficar com raiva de quem a gente ama.
E foi com aquele pensamento que fui para a aula. Se Vincent
me ligasse eu atenderia, pois por mais orgulhoso que eu fosse,
sentia a falta de seu toque em minha pele e seu abraço. Eu adorava
sentir seus braços me apertarem em si. E depois de me roubar um
beijo em sua casa uma semana atrás, estava mais atiçado que
nunca sobre meus sentimentos por ele.
Decidi sair mais cedo da faculdade, pois estava me sentindo
muito desanimado. O sol ainda brilhava imponente no céu. No fim
da grande calçada um homem estava parado me esperando, e eu
conhecia muito bem aquela cabeça raspada e o rosto de menino no
corpo musculoso. Assim que me viu, veio em minha direção.
— O que você quer, Gary? Veio tentar ajudar o abusado do
seu chefe?
— Você precisa ir comigo até a agência. Ele tá passando dos
limites! Tá tratando todo mundo mal e isso é culpa sua.
— Minha? — O olhei com raiva. — Eu não tenho culpa de
nada.
— É culpa sua, sim! Tudo porque fica rejeitando o homem. Aí o
que ele faz? Desconta tudo na gente. Depois que você foi na casa
dele semana passada tudo ficou pior. Não sei o que aconteceu, mas
parece que ele comeu o pão que você amassou.
— Está insinuando que eu sou o “Diabo”, Gary?
— Eu o escutei te chamando de “Demoniozinho” uma vez,
então não tá longe disso.
— A culpa é toda dele. Se ele fosse homem o suficiente não
teria feito o que fez comigo.
— Ele tentou de tudo e você tratou ele igual um... nem sei a
palavra, mas não atende as ligações também. Ele não sabe o que
fazer com você, então fica irritado, vai embora tarde, enche a gente
de trabalho e quem sofre? Eu! — Reclamou inconformado. — Sabe
quanto tempo eu não transo, Parker? Desde o dia que a gente se
encontrou na casa dele. O estresse não tá fazendo meu pau subir!
— Eu não tenho nada a ver com isso! — Comecei a andar,
mas Gary parou em minha frente. — Eu não vou lá pra ele me tratar
mal e fazer como se a culpa de tudo fosse minha.
— Você tem que ir, irmão. — Ele juntou as mãos como se
tentasse explicar algo para alguém muito difícil de lidar. — Ele
sempre foi chato, muito mesmo, mas depois que ele te conheceu ele
mudou pra melhor. Voltou a malhar com o pessoal e a tomar cerveja
depois do trabalho pra relaxar. Tudo melhorou e ele só ficou tanto
tempo fora pra resolver tudo e poder tirar uns dias de folga. E eu
tenho certeza de que era pra ficar com você.
Saber daquelas coisas me fez sentir um arrependimento
horrível por tê-lo tratado e ignorado daquele jeito. Pensando bem eu
realmente estava escolhendo ignorar suas justificativas e sendo
egoísta. Somente despejei tudo o que estava entalado na minha
garganta e não lhe dei atenção devida. Vincent poderia ser qualquer
coisa, mas nunca me senti traído realmente. Só havia falado
aquelas coisas para machucá-lo, mas na verdade quem acabara se
machucando fui eu.
— O que ele foi fazer com a tal de Karen naquele jantar? Isso
ele não me contou. — Perguntei e Gary coçou a cabeça ponderando
se falaria ou não. — Se você não me contar a verdade pode
esquecer a minha ajuda com aquele estúpido. E não me venha com
a desculpa de que não pode falar, porque é alguma coisa secreta de
vocês!
— Tá bom, tá bom! — Bufou e se encostou no carro. — Ele
não foi jantar com ela nesse sentido que você está pensando. É que
ela é a parceira dele, só que de outro departamento. Não vou falar
que ela não fica se jogando pra cima dele, porque ela fica. Ainda
mais depois que descobriu que ele estava namorando com você.
Mas o chefe nunca mais chegou perto dela e evita sempre que
pode. Você tem que entender que ele só pensa e fala de você. Ele
tá completamente caidinho por você, irmão.
— Primeiro não me chama de irmão, isso é muito hétero. —
Ele sorriu. — Segundo, se eu for para lá, não vai ter nenhum
problema? Eu não vou ter que usar um saco preto na cabeça pra
não saber o caminho?
— Você tá assistindo muitos filmes. — Riu. — Então, você vai?
— Eu… — Se eu fosse para lá enfrentaria o temperamento
bruto de Vincent ou será que ele estaria mais manso comigo?
Estava muito inclinado para recusar e evitar qualquer tipo de
confronto, mas também estava morrendo de vontade de ver
novamente aquele homem. — Eu vou! Mas se eu receber um
xingamento sequer, eu o deixo mais nervoso do que já está e vocês
que se virem.
— Sem problema, maninho. — O olhei por conta do apelido. —
Esse até que é bonitinho, vai!
— Prefiro que me chame de “chefinho”.
— Entra aí e vamos logo! Ele deve estar na sala dele e sem
comer.
— Já são duas horas da tarde. Ele está ficando sem comer?
— Não, porque a gente leva pra ele, mas se deixar fica o
tempo todo até a hora de ir embora.
— Vamos passar no Orleans e pegar alguma coisa para
aquele homem.
E assim fizemos. Quando estávamos saindo, de um carro
grande saiu London, seguido de uma garota ruiva e Jackson
Orleans. Os dois primeiros pareciam rir de algo enquanto o lutador
estava irritado.
Peguei meu celular e mandei uma mensagem para ele dizendo
que precisávamos conversar, e pouco tempo depois ele me
respondeu para combinarmos um horário. Ele era um ótimo amigo e
durante as semanas que fiquei afastado do mundo e de todos,
sempre me mandava mensagens de bom dia e perguntava se
precisava de alguma coisa. Até se oferecer para cozinhar para mim
se ofereceu, mas recusei educadamente.
Passamos por vários prédios altos no caminho até que fomos
para uma área mais industrial e afastada da cidade. Estava
começando a ficar enjoado por aquele tempo no carro quando
paramos em uma passagem bloqueada por guardas. Era ali que
Vincent trabalhava? Se fosse ele tinha mentido sobre meu
apartamento ser no caminho de seu trabalho. Na verdade, era muito
contramão.
Ele escolhia me deixar e buscar por pura vontade. Sorri com
aquele fato e tinha que me lembrar de que apesar de tudo, ele se
importava comigo.
Gary se identificou na portaria e logo fiz o mesmo, mas já tinha
a impressão de que me conheciam, pois escutei um “ainda bem que
veio”, em vez de um “pode seguir”. Olhei para o agente e ele deu de
ombros. O lugar era enorme e nunca havia visto algo do tipo.
Existiam vários restaurantes por lá, mas me convenci de que
nenhum tinha a torta de frango e salada do Orleans, coisa que
aquele suspirador amava.
Várias pessoas vestidas socialmente passavam por lá.
Paramos em frente a um prédio de fachada de vidro e no térreo
várias pessoas transitavam, algumas com ternos e outras com
uniformes pretos. Segui Gary para dentro do edifício. À medida que
dava cada passo meu coração batia mais rápido e tinha vontade de
voltar. E se ele estivesse com raiva de mim e me humilhasse na
frente de todos? Não aguentaria e choraria, pois ele tinha a
capacidade de me desestabilizar emocionalmente completamente
do nada.
Existiam muitos seguranças em todo lugar, mas, na verdade
todos pareciam seguranças lá. Nunca havia visto tantos homens
musculosos e mulheres impecáveis por metro quadrado. O elevador
se abriu e de longe vi uma sala com a porta fechada e soube que
era lá que ele estaria. Todos estavam trabalhando, mas assim que o
primeiro viu Gary de volta e também a mim, respiraram aliviados.
Aquilo seria cômico se eu não estivesse morrendo de ansiedade, e
pedi aos céus que não ficasse gaguejando ou tremendo. Estava
parado até escutar a voz alta de Vincent em sua sala, repreendendo
um dos funcionários.
Antes de entrar meu celular vibrou em meu bolso. Era uma
mensagem de Perry:
“Queria te contar isso pessoalmente, mas estou atolado de
coisas. Mas não podia te deixar saber por ninguém além de mim, já
que daqui a pouco todos vão divulgar. Então vou escrever em letras
maiúsculas que VOCÊ PASSOU NA AUDIÇÃO, PARKER! VOCÊ
VAI SER UM DOS PROTAGONISTAS DA SÉRIE QUE TANTO
LUTAMOS PARA VOCÊ ESTAR! PARABÉNS, MINHA ESTRELA!
Vai dar tudo certo e eu vou me certificar disso!
Me desculpe novamente por mandar uma mensagem, mas não
consigo te ligar do avião. Espero que a mensagem chegue logo!
Espero que esteja bem e mil beijos!”

— Ai, meu Deus!


— É a sua hora! Salva o pobre do Murphy! Vai! — Gary disse e
me empurrou.
Parecia ir para o meu último suspiro no corredor da morte, e
me questionei se ninguém naquele escritório era capaz de enfrentar
o chefe e dizer que estava passando dos limites? Mas logo percebi
que nem eu mesmo faria aquilo na situação deles. Vincent não era
uma pessoa fácil de se lidar, principalmente em relação ao trabalho.
E juntando tudo com o temperamento que devia estar, era o mesmo
que dar murro em ponta de faca.
Tomei coragem assim que parei em frente à sua porta e
segurei o embrulho com a comida que comprei para ele. Assim que
a abri, passei rapidamente meus olhos e vi a grande janela com
vista para a cidade e a mesa no canto.
— Parker? O que você está fazendo aqui? — Vincent se
levantou, surpreso e confuso pela minha presença. Já o homem em
sua frente me olhava como se fosse seu salvador e o reconheci
como um dos que estavam em sua casa. — Murphy, pode sair.
— Obrigado, chefe. — Ele se levantou rapidamente e segurou
a minha mão me agradecendo também. Tudo que fiz foi sorrir e
encarar Vincent quando a porta foi fechada atrás de mim. Ele me
olhava coçando a barba e com uma mão na cintura.
Como sempre, estava vestido socialmente, porém com um
paletó azul muito diferente do que o via. Me aproximei de sua mesa
deixando minha bolsa na cadeira e o pacote em cima de sua mesa.
Percebi naquele momento que tinha sido um idiota em não
conversarmos decentemente quando nos vimos pela última vez. Me
sentia na obrigação de lhe dar uma explicação sobre meu
comportamento.
— Então você está tratando seus funcionários mal, Sr. Policial-
Não-Tão-Comum? — Comecei a passar os dedos pelas coisas que
estavam em cima de sua mesa e a tensão que existia entre nós era
quase palpável. Me controlava para não ser desastrado e manter o
personagem confiante que tinha criado.
— O que…? Gary! — Suspirou. — Ele está ficando igualzinho
a namorada.
— Não é culpa dele. Se você não fosse tão exigente, ele não
teria me procurado. — Parei perto dele, mas olhei os dois quadros
na mesa. Era uma foto minha com Benj e Jasmin, onde eu sorria
com eles em meu rosto, e outra de sua mãe e um senhor de cabelos
grisalhos ao lado dele quando criança.
— Foi ideia da minha mãe. — Se apressou em dizer e pela
primeira vez o vi corar.
— Então você não gosta de mim o bastante pra colocar uma
foto minha na sua mesa? — Fingi estar triste e ele suspirou.
— Você está distorcendo minhas palavras de novo... — Ele
continuaria, mas parou. Sabia que mencionaria o nosso último
encontro ou nossa briga, e sentia que estava receoso quanto a
como me tratar.
— Me desculpa. — Pedi, me sentando no móvel e olhando
minhas mãos apertarem a madeira. Então o encarei. — Eu fui muito
impulsivo naquela noite e todas as vezes que nos encontramos
depois. Só para deixar claro, eu estava no meu direito de me sentir
daquela forma e não tenta dizer o contrário. Você errou sim comigo,
mas eu também errei com você. Estava me sentindo rejeitado…
como sempre fui.
— Parker, você sabe que eu não queria te deixar nenhuma das
vezes que tive que trabalhar. Tudo o que eu mais queria era ficar
com você!
— Eu sei, Vincent! Mas tudo o que eu conseguia pensar era
em como tudo estava se repetindo... — Respirei fundo, olhando
para o lado de fora. — O que eu passei na minha vida parece ter me
condicionado a reagir dessa forma. Parecem me assombrar em tudo
o que eu faço.
— E você acha que eu não entendo isso, garoto? Mas olha pra
mim. — O obedeci e ele tinha um sorriso discreto. — Eu estou aqui
agora.
— Eu só queria que tudo fosse lindo assim...
— O que você quer dizer com isso? — Colocou as mãos em
meu rosto, me fazendo olhá-lo novamente.
— É besteira da minha cabeça!
— Eu sei que errei em não te dar a atenção que merece. — Se
colocou entre as minhas pernas. — Fiquei tão focado no trabalho,
querendo resolver tudo o quanto antes pra poder ficar mais tempo
com você, que esqueci de que precisava ficar com você no agora.
— Ficar mais tempo comigo? — Segurei em seus braços, pois
ele se inclinava cada vez mais em mim.
— Isso, garoto. — Senti o calor de seu corpo no meu. — Hoje
é meu último dia antes das minhas férias. Depois de hoje eu
passaria no seu apartamento e não teria ninguém que me tirasse de
perto de você!
— Isso foi muito possessivo, Vincent. Devo me preocupar?
— Eu te respeitaria pra te deixar em paz, mas eu sei que você
não quer isso, quer? — Apertou minhas bochechas fazendo um
biquinho se formar, mas antes de poder me beijar, desviei meu
rosto. Ele então beijou meu pescoço, me causando arrepios e
cócegas por causa de sua barba.
— Você é muito convencido, sabia? — Controlei minha
vontade de abraçá-lo, no entanto me doía demais o negar qualquer
carícia.
— Eu só sei o que eu quero! E no momento, o que eu quero é
você. — Avançou novamente, mas desviei. Estava começando a
tremer de desejo por ele.
— “No momento”? Então quer dizer que vai querer outra
pessoa futuramente? — Estava, de repente, com medo de beijá-lo.
Ele suspirou nervoso. Então me puxou para a ponta da mesa,
fazendo sua ereção encontrar a minha. Com o gesto caí deitado e
derrubei algumas coisas, e logo seu corpo estava por cima do meu.
— Para com isso, Demoniozinho! — Mandou e apertou minha
cintura. Ele me sentou em seu colo quando me puxou para se
sentar na cadeira. — Não é de mim ser romântico, carinhoso ou
essas coisas. É difícil, mas por você eu deixo o orgulho de lado e
tento. E não tinha percebido o quanto você está na minha cabeça
até não te ter nas minhas mãos. Fiquei com tanta raiva de você por
não me deixar explicar tudo, mas fiquei com mais raiva de mim,
então te obedeci. E aquela foi a última vez que algo assim
aconteceu.
Levei minhas mãos até seu rosto e o acariciei. Sentir sua
barba arranhar meus dedos era uma das melhores sensações que
podia me lembrar, mas saber que ele realmente tinha sentimentos
por mim superava qualquer outra. Lá estava aquele homem, com
toda a sua prepotência e orgulho, confessando seus sentimentos.
Mesmo que não fosse um "Te Amo", era um sinônimo.
— Você pode achar que dou mais importância para o trabalho
ou que eu esteja tendo um caso com Karen, mas isso é tudo coisa
da sua cabeça. Tudo que eu fiz até hoje foi pra adiantar minhas
responsabilidades e não deixar minha equipe na mão. Porque eu só
quero me irritar em te dar toda a atenção que quer. Mesmo você
ficando bravo, ainda é um daqueles adolescentes dramáticos dos
filmes que gosta.
— Idiota! — Belisquei seu rosto e ele riu. Estava convencido
de que aquela briga tinha ocorrido pela minha falta de paciência e
os errinhos dele. No entanto, precisava perguntar. — Vincent, sua
mãe me contou sobre Karen e que vocês quase se casaram. E isso
é uma decisão importante e você não é alguém impulsivo. Não faria
nada que não quisesse fazer. E Gary me disse que vocês são
parceiros...
— Você quer saber se eu ainda gosto dela?
— Você, enquanto esteve comigo, ficou com ela?
— É claro que não.
— Você ainda a ama?
— Eu nunca a amei.
— Você me… — Comecei, mas ele se levantou e se colocou
entre minhas pernas, novamente me colocando sentado em sua
mesa.
— Eu amo, se é isso que você quer saber! — Segurou meu
rosto com força e me beijou, fazendo com que meu corpo parasse
de funcionar direito. Sentia saudade do seu toque bruto e carinhoso
ao mesmo tempo. — Eu não vou te fazer uma declaração nem nada
do tipo, garoto! Já esgotou minha cota de romantismo.
— Eu sei! — Respondi ainda com seus lábios grudados nos
meus. — Consegui um papel principal em uma série, já que
estamos confessando as coisas.
— Você duvidava que conseguiria? Eu não. — Cheirou meu
pescoço. — Queria que tivesse me contado sobre seus planos.
Quero que divida tudo comigo e não me deixe no escuro, me
entendeu?
— Tudo aconteceu como mágica. Bom, de agora em diante
espero que nós dois sejamos mais confidentes um do outro.
— Eu vou ser mais presente.
— Isso é uma promessa?
— É sim. — Me beijou mais uma vez e então suspirou
negando com a cabeça quando os homens do escritório vibraram
em comemoração. — Gary....
— Não briga com ele. Eu sei que o que ele mais quer é o seu
bem. Ele que veio até mim e se não fosse por essa insistência, não
estaríamos desse jeito. — Então me lembrei de onde estávamos e o
olhei irritado. — Você disse que seu trabalho era perto do meu
apartamento e mentiu.
— Eu não menti. — Respondeu sorrindo. — Você também faz
parte do meu trabalho. Um que não abro mão. Não depois de saber
que vai ficar famoso e ter muitos olhares em cima de você.
— Está com ciúmes, Sr. Policial-Não-Tão-Comum? — Passei a
mão pela parte aberta de sua camisa.
— Não preciso disso.
— Muito confiante... — Acariciei sua barba e ele fechou os
olhos aproveitando. — Aonde vai todo arrumado desse jeito?
— Aonde nós vamos, você quis dizer.
— Como assim?
— Hoje é o jantar de comemoração de um caso que
encerramos. Um que um soldado ajudou bastante. E como eu já
havia dito, se surgisse a ocasião de você me acompanhar em algum
evento eu não teria problema nenhum em te levar, e é isso que eu
vou fazer hoje. Então, você vai para o seu apartamento, vai colocar
uma roupa bonita e me esperar comportado. Me entendeu? —
Segurou meus lábios, porém quando tentou me beijar, me esquivei,
saindo de sua mesa e pegando sua carteira no paletó.
— E se eu não tivesse te perdoado?
— Você perdoaria, Parker.
— Você é confiante demais se acha que me tem nas mãos,
Vincent.
— Se isso te faz sentir melhor, tudo bem pra mim,
Demoniozinho.
— Bom, se me quer com você nessa sua festa quem vai pagar
o meu táxi até o shopping e a roupa vai ser você! — Peguei seu
cartão de crédito. Enquanto fazia aquilo, se aproximou, passando
sua ereção em meu abdômen.
— Você me desafiando só me faz querer te jogar em cima da
mesa agora.
— É uma pena não poder fazer isso, pois o meu carro já está
chegando. — Beijei rapidamente seus lábios. — Até mais tarde,
senhor.
E assim que sai de sua sala todos os outros agentes estavam
me olhando com sorrisos enormes
— De nada! — Falei alto antes de sair.
Gary me acompanhou até a saída, pois por conta de toda a
segurança não poderia andar sem supervisão. Como se eu fosse
explodir uma bomba ou algo do tipo. Quando estava quase entrando
no táxi uma curiosidade foi atiçada.
— Gary, me responde uma coisa.
— Manda!
— Eu sei que Vincent é bissexual, e você e todos sabem disso.
E ele obviamente não está escondendo de ninguém que estav...
está em um relacionamento comigo.
— Você quer saber se todo mundo aceita numa boa? — Ele
sorriu.
— É isso mesmo que quero saber.
— Olha, isso pode até parecer estranho, mas a gente
enfrentou cada coisa, salvamos a pele um do outro em situações de
vida ou morte, e quem mais se sacrificou por isso foi o chefe. —
Olhou em direção a sala de Vincent e tinha certeza de que nos
olhava, mesmo não conseguindo o ver. — Eu posso nunca dizer
isso para ele, mas ele é como um pai para mim. Quando comecei
aqui eu era ninguém. Não tinha noção do que fazer da minha vida,
mas ele me ajudou. Ajudou no tratamento de câncer da minha mãe,
pagou pelos estudos da minha irmã e ainda me fez ser um homem.
Então a resposta para a sua pergunta é: Não. A gente não dá a
mínima para quem o chefe gosta, desde que ele possa viver como
sempre se esforçou para que o resto de nós vive.
— “Vivêssemos”. Você conjugou o verbo errado.
— Ih, vai dar uma de professor agora? — Me empurrou em
direção ao táxi. — E pode ter certeza, Chefinho, de que se alguém
se meter com ele a gente desce o cacete. E você também tá
embaixo da asa de todo mundo aqui. É da família agora!
— Isso é muito lindo, sabia? — Saber daquelas coisas sobre o
homem que eu amava só me fazia ter mais certeza de que era
incrível. Nunca pensei que encontraria tanto respeito no meio
daqueles com quem sempre tive receio de me aproximar. — Fico
feliz que ele tenha vocês na vida dele.
— Pode ficar tranquilo. — Deu uns tapinhas no meu braço. —
Agora eu preciso voltar. E Chefinho, nas férias do chefe vou pedir
para ele te levar lá em casa, minha mãe vai te adorar. Parabéns
pelo papel na série! Vi a mensagem no seu celular.
— Curioso! Mas obrigado! Já está aceito o convite. — Entrei
no carro. — Até mais tarde!
— Até!
O táxi começou a andar e tudo o que conseguia pensar era em
como não conhecia o homem que eu deixara entrar na minha vida e
tomar todo o controle dos meus pensamentos. Vincent era muito
mais do que eu poderia imaginar, e não me cansava de me
surpreender pelo ser humano que era. Ele disse que me amava e só
então havia me dado conta daquilo. Quando fui colocar o celular no
bolso, senti algo nele. Era nossa aliança.
A pus em meu dedo e acariciei a superfície lisa enquanto
sorria. Nunca mais deixaria meus receios e inseguranças tomarem
conta das minhas ações. Ou pelo menos tentaria.
CAPÍTULO 17 - O Resultado

Com toda a animação do mundo por ter reatado com aquele


bruto liguei para Mandy e pedi que me encontrasse no shopping da
cidade, para que pudéssemos comprar uma roupa mais elegante
para mim. Estava com o cartão de crédito de Vincent disponível
para uso e ele saberia o custo de me ter de volta em sua vida.
Minha amiga não demorou a responder dizendo que estava a
caminho, porém também me respondeu que não tinha ideia de
como comprar um terno bonito ou aonde ir. Ou seja, estava perdido
e ainda por cima malvestido. Mesmo que eu sempre tivesse tudo o
que queria devido a condição de meus pais, não tinha o costume de
ir às compras. Sempre quando havia algum evento onde era
obrigado a participar, era vestido pela equipe de imagem de minha
mãe. Então decidi ligar para a única pessoa que conhecia que
saberia como se portar naqueles tipos de eventos.
— London? É o Parker, tudo bem?
— Oi, tudo sim e você? — Respondeu meio afoito. Podia
escutar o barulho de várias pessoas falando ao redor dele.
— Bem também. Você pode falar? Parece que está ocupado.
— Desculpa por isso. Eu tive que vir no centro por conta de
uma festa que o Jackson vai. Eu descobri que além de agente virei
Personal Stylist daquele grosso. E adivinha? Ele só veste
Dolce&Gabbana pra cima.
— Isso é perfeito! Me espera aí, porque você vai me ajudar a
me vestir também.
Encerrei a chamada sem dar tempo de ele dar uma desculpa e
pedi que o motorista mudasse o caminho. Também avisei minha
amiga. London seria a minha solução. Ele tinha um senso
maravilhoso para se vestir e era visível em todas as vezes que o
encontrara. E também, trabalhando com alguém famoso, querendo
ou não, você também era pego pelos flashes e ninguém queria
parecer um desleixado.
Não demorou muito e vi a loja. Meu amigo mexia no celular
freneticamente. Paguei o táxi e assim que cheguei perto dele, vi seu
sorriso. Já estava com algumas sacolas e pelo visto não tinha
gastado pouco com os luxos do lutador gostosão.
— Meu Deus, London! Quanto custou tudo isso?
— Eu não sei e não quero saber. — Suspirou. — Quentin, o
meu "chefe", me deu o cartão de crédito e falou para eu comprar o
que aquele grosso quisesse, então é isso o que estou fazendo. Mas
me diz, pra quê você precisa da minha ajuda?
— Bom, eu acabei de vir do escritório do Vincent. — Disse
com um pouco de charme e meu amigo me olhou surpreso.
— Vocês voltaram? — Fiz que sim com a cabeça e ele deu um
pulinho alegre, sacudindo todas as sacolas. — Eu não acredito! E
está tudo bem agora entre vocês? Eu lembro que tinha uma tal de
Karen envolvida na história.
— Está tudo bem e ela não passa de uma pedrinha que já
deixei para trás. — Acenei para Mandy que havia acabado de
chegar. Nos cumprimentamos e logo entramos na loja. — Antes que
pergunte, Mandy, eu já me entendi com o Vincent, e como um
presente por tudo, ele me deu o cartão dele para fazer compras.
— Ele te deu? O mesmo Vincent que eu conheço? — Ela
parou para ver os modelos de vestidos disponíveis.
— Ok, eu peguei dele. — Revirei os olhos. — Mas ele me
deve. Ele precisa me bajular.
— Meu Deus! — London riu arrumando as sacolas nos braços.
— Mas me diz, aonde vão? Preciso saber para te orientar.
— Eu não sei muito bem, mas é uma festa que vão dar para a
equipe dele e um soldado ou algo assim. — Disse olhando um terno
muito preto. Muito mesmo!
— Espera, o nome do soldado é Markus?
— Eu não tenho ideia de quem ele seja, só sei que alugaram
um salão enorme, “Mandarin” é o nome, eu acho. — Peguei meu
celular para ver a mensagem que Vincent havia mandado. — Isso
mesmo, Mandarin Oriental. Acabaram de abrir um deles aqui em
Bisera.
— Parker, esse é o mesmo lugar que o Jackson vai hoje. E
esse soldado que vai ser homenageado é o Markus, amigo de
infância dele. Eu não acredito numa coisa dessas. É muita
coincidência! — Comentou, me empurrando para um homem mais
velho que sorria para nós. — Boa tarde, Sr. Riggins, eu queria saber
se pode ajudar meu amigo com ajustes para um traje. Eu estava
pensando naquele terno todo preto com uma camisa vermelha. O
tecido pode ser o Mulberry, acho que ele vai ficar bem sem gravata.
Os sapatos acompanham o mesmo tom do paletó, tamanho trinta e
nove, e eu acho que é só isso.
— Certo, Sr. Anchon. — O senhor respondeu e estendeu o
braço, como se me indicasse a direção. — Por favor, me
acompanhe, Sr...?
— Parker. — Respondi sorrindo para London. — Parker
Hayes.
— Muito bem. Me acompanhe, Sr. Hayes.
— Vamos te esperar aqui. — Mandy disse um pouco receosa,
pois ainda não havíamos conversado sobre nossa situação. London
me encorajou com a cabeça, mas logo atendeu o celular, deixando
as compras em um sofá mais caro que minha vida.
Acompanhei o alfaiate para uma sala privativa onde havia um
pequeno altar no meio, para que quem fosse tirar as medidas, como
eu, pudesse se sentir como alguém importante. Pelo menos foi
assim que me senti quando me pediu para subir. Nunca tinha
passado por uma experiência daquelas e estava muito feliz por
Vincent me proporcionar aquilo, mesmo que indiretamente.
O Sr. Riggins era muito simpático e a todo momento me dizia
sobre formas de me comportar com aquele tipo de roupa, como
desabotoar o paletó todas as vezes que me sentasse e o abotoar ao
me levantar. E o que me deixou mais à vontade foi quando me disse
para comer o que servissem, pois passar fome e desmaiar faria com
que o trabalho dele naquela peça de roupa não servisse de nada.
Tinha que me comportar como o dono do mundo e comer como um.
Quando estava me vestindo com minhas próprias roupas,
recebi uma mensagem de meu pai me perguntando onde estava.
Mandei uma foto minha naquela sala e logo em seguida se ofereceu
para pagar o que eu estivesse comprando. Recusei dizendo que já
estava pago e que tinha sido um presente, mas encerrei a conversa,
o impedindo de me perguntar quem era o responsável. Ele sabia
quem era e por causa de seu conselho estávamos juntos. O
agradeceria eternamente por ter insistido em me reconquistar.
Depois de uns trinta minutos de espera, onde ficamos tomando
champagne e jogando conversa fora, descobri que Jackson havia
confessado gostar de London, mas isso quando estava bêbado.
Fiquei chocado com aquilo, pois nunca pensaria que um lutador de
MMA fosse gay ou até bissexual. Não um assumido. Ele aparecia
como um machão a todo momento, sempre rodeado de mulheres e
aquilo nunca passaria pela minha cabeça. Aconselhei meu amigo a
não dar mole e que se o famosinho quisesse mesmo ficar com ele,
que se fizesse de difícil. Mas nada superou quando Mandy me
contou que antes dela, Harvey estava ficando com Pamela e que as
duas não se falavam mais. Quis bater no meu irmão por ter omitido
várias coisas de mim, mas, ao mesmo tempo, estava feliz por ele
dar certo com minha amiga.
O alfaiate voltou com minhas roupas e London o agradeceu
por fazer aquilo de última hora. Porém na hora de passar o cartão
me questionei se Vincent ficaria nervoso. No entanto, só a imagem
dele suspirando ao olhar a fatura me dava uma satisfação imensa.
— Prontinho, meu querido. — Meu amigo disse do lado de fora
da loja. — Está todo vestido para o evento de hoje e espero te
encontrar lá. Vai me salvar de ficar de babá daquele idiota.
— Pode deixar. — O abracei. — E mais uma vez, obrigado. Se
não fosse você me vestiria como um palhaço.
— Eu não sou nenhum expert nisso, mas foi divertido. E
obrigado pelo conselho. — Sorriu, mas se virou antes de entrar no
carro onde um homem todo de preto, provavelmente seu segurança,
o aguardava com a porta aberta. — Estou ansioso para conhecer o
seu Vincent. Tchau, Mandy.
Nos despedimos e logo pegamos o nosso táxi, pois precisava
me arrumar para o evento e só faltavam em torno de duas horas.
Quando cheguei no apartamento corri para o chuveiro e tomei o
banho mais minucioso do mundo, para que nenhuma parte do meu
corpo ficasse intocada. Assim que saí do quarto, decidi que era hora
de usar novamente o hidratante de morango que havia me privado
enquanto não estava bem com Vincent. Tudo porque me lembrava
como o adorava.
Mandy veio até meu quarto e percebi que também estava toda
arrumada, o que indicava que não ficaria sozinha aquela noite. Ela
me ajudou a me vestir, tomando todo o cuidado do mundo para não
amassar aquele terno caríssimo. Queria estar impecável quando
Vincent chegasse para me buscar. Não sabia se ele havia visto o
quanto gastei naquela roupa, e não sabia como reagiria quando
soubesse.
— Por que você está sorrindo? — Ela perguntou, também com
um sorriso.
— Estava pensando no que Vincent vai fazer quando ver o
quanto gastei nisso.
— Eu acho que ele vai ficar bravo de início, então seja
bonzinho com ele.
— Vou tentar, Mandy, eu prometo. Mas é tão divertido vê-lo se
irritar.
— Ele vai rasgar esse terno se você ficar provocando o
coitado. — Deu um tapinha no meu ombro indicando que tinha
terminado de arrumar meu cabelo.
— É bem capaz dele fazer isso mesmo. — Olhei para ela
maliciosamente. — Eu até que gostaria que fizesse isso.
— Você é um safado, Parker — Se sentou na cama, me
encarando por alguns segundos. — Me desculpa por tudo. Eu só
abri a porta, porque achei que era a melhor coisa para vocês.
— Eu... Sei que não fez por mal, Mandy. Eu também errei na
forma que te tratei e a todo mundo. Eu tive todos os motivos para
agir daquele jeito, mas poderia ter feito tudo de uma forma mais
civilizada.
— Eu te amo, amigo. Você é minha família aqui. Não quero te
ver triste e estou muito feliz que tenham reatado.
— Eu também te amo e estou feliz agora. E eu sei que você
está tentando ser da minha família, sua safada. Vai sair com meu
irmão?
— Vou. — Respondeu se deitando de braços abertos. — Ele
me convidou para jantar hoje.
— Tão romântico. — Me sentei ao seu lado e encarei seu rosto
portando um riso tímido. — Eu não quero ser um estraga prazeres,
mas eu tenho que te falar uma coisa, porque você é minha melhor
amiga.
— Diga.
— Eu conheço o meu irmão e sei que ele pode ser a melhor
pessoa do mundo. E ele é, de certo modo. Mas o que eu quero dizer
é que eu não me lembro de Harvey ter uma namorada. E com toda
a certeza ele é um sem-vergonha. Não quero acabar com o clima da
noite, mas eu sinto que devia te contar isso.
— Eu sei que ele não é o príncipe encantado que eu sonhava
quando era criança. Mas ele está me fazendo descobrir mais sobre
mim mesma, sabe? Tudo o que eu achava feio em mim, as minhas
sardas, as pequenas manchinhas de sol e tudo mais, ele não acha.
Ele foi o primeiro homem a dizer o quanto eu sou bonita e me fazer
acreditar. Eu sei que isso pode ser uma diversão para ele, e eu
entendo completamente se ele não quiser nada sério. Eu também
não sei se eu quero.
— Que bom que pensa assim, Mandy. Tenho que me lembrar
de ameaçar meu irmão mais vezes.
— Eu realmente espero que tudo dê certo para gente. E quero
que aproveite a noite com o seu agente secreto.
— Eu também espero. — Olhei pela janela. — Ele vai tirar
férias do trabalho e me disse que vai fazer isso para passar mais
tempo comigo. Até me senti importante. Eu nunca me senti amado
durante todos esses anos, Mandy. Não até encontrar você, o
Vincent, os meus filhinhos. Mas agora, depois de tudo, até meu avô
fez algo de bom, que foi me fazer voltar a falar com meu pai.
— Eu me sinto a pessoa mais abençoada por ter você
também, Parker. E... — Me abraçou forte.
Ela ia dizer mais alguma coisa, mas Benj começou a latir como
se tivesse se assustado com algo e foi correndo para a porta, se
colocando na nossa frente. Tomei um susto com aquilo, assim como
minha amiga. Porém não era nada a se preocupar, pois quem
estava lá era seu pai. Então o pequeno cachorrinho correu até ele
balançando o rabinho e pedindo para subir no colo, o que teve
sucesso.
— Espero não atrapalhar nada. — Vincent disse com sua voz
grave.
— Você quase mata a gente de susto! Não sabe tocar a
campainha? — Reclamei me recuperando.
— E você não sabe economizar? — Retrucou. Se virou
rapidamente para Jasmin que pulou em sua direção. Ela passou o
rosto na barba dele, da mesma forma que eu queria, mas logo foi
para o chão.
— E essa é minha deixa. — Mandy brincou, apertando o braço
do suspirador em um cumprimento tímido. — É bom te ver de novo,
Vincent. Boa festa pra vocês. Tchauzinho!
— O que você está olhando? — Perguntei me sentindo
desconfortável.
— Você! — respondeu colocando Benj no chão e me puxando
pela cintura. — Estou admirando o quanto os vinte e dois mil dólares
te deixam bonito.
— Se você converter para o real fica muito mais caro.
— Não está se ajudando.
— Só estou voltando a te provocar do jeito que merece!
— Você vai me recompensar muito bem por esse dinheiro,
está me ouvindo, Demoniozinho?
— Você quem me deu o seu cartão. — Passei meus braços
pelos seus ombros, acariciando seu cabelo.
— Eu não me lembro de ter sido isso que aconteceu. — Senti
seu nariz no meu pescoço e afundou o rosto ali. — Eu amo o seu
cheiro.
— Então a idade está chegando mais rápido do que você
pensava. — Senti uma mordida na minha bochecha.
— Você vai ver o velho! — Me empurrou na cama, ficando em
cima de mim e sentindo mais uma vez o aroma em minha pele. —
Quero que você use esse perfume sempre. Fica uma delícia em
você.
— É um hidratante corporal. — O corrigi.
— É a mesma coisa. — Resmungou enquanto beijava meu
pescoço e subia para a minha boca. Ele soltou seu peso sobre mim,
não totalmente, mas o suficiente para eu sentir seus músculos.
Começou a passar a mão pela minha camisa, tentando chegar a
minha pele, mas o empurrei.
— Não podemos. — Saí debaixo dele com muito esforço. —
Depois da festa você vai estar de férias e eu posso faltar uns dias
na faculdade pra aproveitar mais, mas agora você vai se controlar e
vamos para o nosso compromisso de casal. E eu tenho que ajudar
London.
— London é o seu amigo publicitário? — Perguntou arrumando
seu membro na calça.
— Não lembro se te falei dele, mas é um amigo meu que
trabalha para aquele lutador, o Jackson Orleans. Ele vai estar lá, e
London, como seu agente ou babá, vai estar também. Pediu minha
ajuda para passar a noite. O que vai ser ótimo para nós dois, já que
tenho certeza de que vai me abandonar para ficar com seus amigos
importantes.
— Não vou te deixar sozinho.
— Sei... — Passou por mim segurando minha mão e me
arrastou para fora do quarto. Pedi para que colocasse comida para
Benj e Jasmin e foi ótimo me sentir bem com ele novamente. Ele
estava calmo e a vontade, assim como eu, se não considerasse
meu coração batendo como tambor no peito.
Me perguntei como seria se morássemos juntos em uma casa
só nossa e com nossos animais. Será que Vincent seria um bom
marido? E se decidíssemos ter filhos? Via como cuidava e brincava
com nosso cachorrinho, e sabia que eram situações completamente
diferentes, mas ele era carinhoso com aquela bolinha de pelos.
Seria também com a nossa criança? Por que estava pensando
aquelas coisas? Ele só era meu namorado e mesmo que sentisse
que não queria viver longe dele, não podia criar esperanças, pois
poderia quebrar a cara de novo.
— O que está pensando, Parker? — Me encarou com a porta
aberta, me esperando.
— Nada. — Desconversei. Não contaria de jeito nenhum sobre
a nossa vida em família e todas as memórias inexistentes que criei
naquele minuto. — Só estou ansioso para a festa.
— Pois não fique. — Me guiou pelo corredor com as mãos em
minhas costas. — Elas são insuportáveis, e que ele nunca me
escute falando isso, mas eu as suporto pois Gary é um pouco
engraçado. Ele fica provocando a equipe a noite inteira.
— Ele vai adorar saber disso. — O desafiei e vi um lado
totalmente diferente de Vincent. Um que era calmo e descontraído.
— Você não vai contar nada.
— Mas ele vai adorar, Vincent! Aposto que não vai te deixar
em paz. — O provoquei ainda mais passando a mão pelo seu peito.
Ele me olhou e suspirou irritado. Eu adorava aquilo! Beijei seu
queixo sentindo a sua barba espetar minha boca.
— Eu vou arrancar a sua roupa agora mesmo se não parar
com isso, Demoniozinho. — Avisou, mas passei a língua em seu
pomo de adão. Com aquilo ele avançou em mim rapidamente, me
fazendo soltar um grito involuntário.
— Ok! Eu parei! Eu parei! — O empurrava sem sucesso. — Eu
parei, Vincent!
— Você me tira do sério, garoto! Mas eu só consigo pensar em
você! — Passou as mãos pelo cabelo, os penteando para trás.
Segurou minha mão quando o elevador abriu e me puxou para fora
do prédio. Um segurança abriu a porta de um carro totalmente
diferente do que tinha, e entrei vendo que o automóvel era ainda
maior do lado de dentro.
— Você tem seguranças agora?
— Somente hoje, pois é uma situação fora do comum.
— Igualzinho você, Sr. Policial-Não-Tão-Comum.
— Exatamente, Parker. — Se acomodou, deixando sua mão
em minha perna enquanto olhava o lado de fora, onde tudo
começava a se mover. — Nada pode acontecer com você.
— Comigo? Como assim?
— Você a partir de hoje estará ligado a mim. Então de agora
em diante vai andar com seguranças para te proteger. — Deu um
aperto na minha coxa que me fez rir, mas logo assimilei o que disse.
— Vincent, isso é sério?
— Nada vai te acontecer. Eu te prometo isso. Você nem vai
perceber eles. — Segurou meu rosto e me beijou. — Confia em
mim?
— É claro que confio. — Falei ainda de olhos fechados,
aproveitando a sensação maravilhosa que havia me causado. —
Vincent?
— Sim, Parker?
— Obrigado.
— Pelo que exatamente?
— Por tudo isso que você fez. Tirar as férias para ficar...
comigo. — Fiquei envergonhado por dizer aquilo, mas eu realmente
me sentia agradecido. — Eu sei o quanto o seu trabalho é
importante para você.
— Você é importante para mim. Demorei tempo demais para
focar nisso. — Suspirou e sorriu como se não acreditasse no que
fosse dizer. — Nessas semanas longe de você eu percebi que
preciso te ver todo santo dia pra não enlouquecer. Preciso saber
que está bem pra poder trabalhar em paz. Mesmo você me
provocando com essa teimosia.
— Eu não sou teimoso!
— Você quer mesmo negar isso? — Apertou minha perna, me
fazendo cócegas e me impedindo de me afastar.
— Eu odeio quando você faz isso. — Resmunguei. Na
verdade, eu adorava.
— É uma pena, porque eu adoro te ter nas minhas mãos. —
Senti seus lábios no canto da minha boca. — Eu te quero na minha
vida, garoto.
— Eu também te quero. — Confessei, me aconchegando em
seu corpo.

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Não demorou muito para chegarmos até o grande salão com a


vista para o parque da cidade. Algumas celebridades estavam no
local e tiravam fotos para as revistas, dando pequenas entrevistas.
Alguns até tiraram algumas fotos de Vincent enquanto o mesmo
tinha uma cara fechada. Seu chefe pediu para que ele a sua equipe
posasse para que os colunistas escrevessem sobre o grande feito
de prender um criminoso e salvar reféns. E aquilo se intensificou
mais ainda quando o soldado apareceu, Markus Breed. Estava
acompanhado de alguns outros seguranças, mas nada que o
impedisse de andar livremente. Era notável que estava cansado de
tudo aquilo, pois sua feição, mesmo ostentando um sorriso, parecia
pesada ou até… triste. O que só piorou quando um garoto
apareceu. Ele estava acompanhado de uma senhora com joias tão
lindas que fiquei com vontade de ver de perto. Era possível ver a
tensão entre os dois, principalmente quando a avó do garoto se
aproximou do maior e pediu uma foto juntos. Eles não se tocaram e
forçaram um sorriso para as câmeras, mas o menor logo saiu,
seguindo para dentro do salão. O soldado soltou a respiração na
direção do outro, como se se arrependesse de algo. Algo que havia
acontecido entre eles.
Eu caminhava por entre todas aquelas pessoas junto de
Vincent, com ele segurando a minha mão, sem medo ou vergonha
de ninguém. Ele me indicava quem eram seus colegas de trabalho,
mas tudo de longe. Pelo jeito queria que ficassem daquela forma,
longe, pois resmungava toda vez antes de falar com um conhecido,
o que me fazia rir de seu jeito e como consequência me cutucava a
cintura.
Estávamos no enorme hall de entrada do prédio, antes de
entrarmos em um dos vários e elegantes elevadores, quando um
homem mais velho e com cabelos brancos se aproximou. Vincent
soltou minha mão para cumprimentá-lo, mas logo a colocou em
minhas costas, como se para me incluir na conversa. De perto,
percebi que o desconhecido tinha bastante músculos.
— Boa noite, Vincent. Devo assumir que esse é o seu
companheiro? — Indagou me olhando e estendeu a sua mão. — É
um prazer, menino. Eu sou Nate Hoss, o chefe desse cara ao seu
lado.
— Eu sou mais novo que o senhor, obviamente, mas já sou
maior. — Respondi, me irritando ao me chamar de “menino”. O
homem sorriu e senti o braço de Vincent apertar minha cintura um
pouco mais.
— Ele não tem papas na língua, senhor. — Meu namorado
disse como desculpa.
— Não há problema. Só queria provocar um pouco e
comprovar o que me disse dele ser dessa forma. — Ele me deu
passagem para um dos elevadores. — É um prazer conhecer quem
mudou Vincent de dentro pra fora.
Apesar da provocação inicial, Nate se mostrou um excelente
companheiro e tinha que admitir que era muito galanteador. A todo
momento conversava comigo ou me perguntava se precisava de
algo. Se não amasse Vincent, com certeza ficaria inclinado a tentar
algo com aquele homem, independentemente da idade.
Em um determinado momento vi London entrar atrás do
lutador e um outro cara forte, mas que conversava algo com meu
amigo o deixando completamente desconfortável, então decidi que
era hora de cumprir a promessa que havia feito a ele na loja. Pedi
licença para os dois e fui em direção ao garoto.
Ele vestia um terno preto com uma camisa roxa que o deixava
mais branco do que já era, mas que também fazia com que seus
olhos azuis ganhassem um destaque muito lindo. Assim que me viu
sorriu e me abraçou. Senti o olhar do lutador, curioso com a minha
aproximação. Ele nos apresentou e quando viu que eu não era
nenhum tipo de ameaça relaxou. Existia algo ali e tinha quase
certeza de que eram ciúmes.
— Você vai me deixar sozinho no meio de todas as pessoas?
— Jackson perguntou se aproximando de London. Eu ficaria
intimidado se um homem daquele ficasse tão perto de mim, mas
meu amigo nem se moveu. Estava com um sorriso vitorioso no
rosto.
— Você conhece o Markus e pelo que eu vejo ele precisa de
um ombro amigo, já que acabou de levar novamente um fora do
Christopher.
— Mas eu só conheço ele aqui. — Segurou no pulso de meu
amigo e achei aquele toque um tanto abusivo, mas parecia que o
garoto de olhos azuis estava acostumado com aquilo. — Você não
pode me deixar aqui. Eu estou te pagando para me ajudar nessas
coisas.
— Não venha com isso pra cima de mim, Jackson. — Me
amigo beliscou seu braço e se soltou. — Quem me paga agora é a
sua mãe e eu somente respondo a ela. Se você não se lembra eu
tenho condições para te aturar, e você me tocar não faz parte delas.
Agora, boa sorte. Vamos, Parker.
Fui arrastado de lá atônito com toda a discussão. Não sabia o
que havia acontecido, mas devia ter sido uma coisa muito chata,
pois assim que o garçom passou perto de nós, London pegou duas
taças de champagne e as tomou de uma vez. Fomos para perto da
grande parede de vidro que dava vista a grande cidade e seus
prédios iluminados. Ficamos lá até ele me olhar e começar a
reclamar sobre o lutador, enquanto bebia taça atrás de taça. Não
entendi muitas das coisas que disse, mas por cima escutei que ele
tinha ameaçado se demitir pela segunda vez, mas que a mãe de
Jackson o pediu pra continuar e o deu mais liberdade, pois o filho
precisava dele.
— Ele me irrita tanto, Parker! Eu me mato todos os dias para
conseguir as coisas para ele, aguento as pessoas me olhando torto
naquela academia onde ele treina, faço o melhor e impossível para
organizar a vida desse safado, pra no final eu ser tratado de
qualquer forma! Ele é um idiota! Um briguento ridículo!
— Amigo, eu não sei o que te falar, mas pelo que acabou de
me dizer, você pode se impor mais com ele. — Tomei um gole do
champagne. — Mostra pra ele quem você é e se ele realmente te
quiser…
— “Realmente me quiser”, Parker? — Apontou o dedo na
minha cara. — O que você quer dizer com isso? Ele não passa de
um intrometido safado. Acredita que ele me mostrou o pau enorme
dele quando a gente estava em Las Vegas, no evento idiota de luta
dele?
— Não sabia que ele te mostrou o pau enorme dele, London.
— Ri de como ele estava indignado.
— Não temos nada e nunca vamos ter!
— Não está mais aqui quem disse.
— Eu preciso de mais bebida! — Parou um garçom.
— Eu também preciso. — O mesmo garoto que tirou a foto
com o soldado pegou uma taça. — Desculpe minha falta de
educação. Eu sou Christopher. É um prazer te ver de novo, London.
— Vocês se conhecem?
— Sim. Lembra que eu te disse que Jackson é o melhor amigo
do Markus? — Concordei com London. — Então, o Christopher é o
namo… Ex-namorado, talvez? Desculpa, eu realmente não sei em
que pé vocês estão.
— Nunca fomos namorados, London. Não pelo sentido próprio
da palavra. — O loiro respondeu, olhando o soldado de longe que
parecia procurar por alguém. — Ele está mais para um covarde.
Salva pessoas, mas não teve coragem de assumir o que sentia.
— Vocês tinham alguma coisa então. — Questionei curioso.
— Tivemos por algum tempo, mas ele nunca quis categorizar o
que tínhamos. Para todos eu era o namorado rico, mas para ele....
— O garoto ficou com os olhos marejados.
— Se não quiser contar não precisa. — Toquei seu ombro em
sinal de apoio.
— Tá tudo bem, se eu não contar eu não tenho como
melhorar. Aminha terapeuta me aconselhou. Ele escolheu a guerra
em vez de mim. Ele preferiu lutar a guerra dos outros do que a sua
própria. — Christopher desviou o olhar por um momento para
alguém andando e fez uma cara de nojo. Uma mulher estava com
um vestido com uma fenda enorme na perna esquerda, porém ao
invés de deixá-la sensual, a deixava muito vulgar. O decote estava
imenso e tinha certeza de que era possível ver a calcinha que usava
se olhassem de cima. A vi caminhar na direção de Vincent, Nate e
alguns outros homens, e quando o alcançou se jogou em seus
braços.
— Parkerzinho, eu acho que tem alguém roubando o que é
seu. — London brincou e começou a rir. Ele já falava embolado pela
bebida.
— Eu não tenho nada contra mulheres, a não ser o fato de não
querer namorar uma, mas essa daí me faz ter certeza de que sou
gay. — Chris afirmou.
— Essa deve ser a tal da Karen. — Expliquei com os ciúmes
me fervendo por dentro. — Ela foi uma das pretendentes do Vincent.
— Ela vai é tomar o seu lugar, amiguinho. — London falou
arrastado. Tirei a taça da mão dele quando tomaria mais um gole, e
acabei virando o líquido todo. A “vagabunda” estava próxima demais
de Vincent e aquele agente safado não fazia nada.
— Pra mim deu. — Falei quase quebrando o cristal em uma
mesa perto de nós. — Eu quero ir embora daqui e quero agora!
— Vamos, amiguinho! — London grudou em meus braços. —
Vamos no McDonald's? Eu estou morrendo de vontade de comer
um Big Mac.
— Se vocês não se importarem, eu vou junto. — Chris nos
acompanhou até o elevador, olhando em direção ao soldado.
— Sua avó não vai ficar preocupada?
— Ela está conversando com o governador, London. Duvido
que vá se importar comigo agora.
— Então, vamos! — Apertei o botão e logo estávamos saindo
daquele prédio.
Não podia acreditar naquilo. Em uma hora Vincent me dizia
que era meu namorado e me apresentava para o seu chefe, e na
outra se deixava abraçar por aquela mulher. E se ele viesse me
dizer o contrário bateria na cara dele, pois tinha visto com meus
próprios olhos que não havia recusado.
Com meu amigo nos braços pegamos um táxi e fomos até o
Fast-Food. Coloquei o celular no silencioso e minha única
preocupação foi saborear meu lanche e cuidar para que London não
se engasgasse enquanto dava risada das histórias que Christopher
contava de quando estava no Egito. Fiquei morrendo de vontade de
fazer um depois que ele me contou sobre sua experiência. Seria
uma ótima oportunidade de relaxar e imediatamente pensei em meu
pai. Seria bom reviver algo do passado. No entanto, meu celular
vibrou na mesa em uma ligação de Vincent.
— Onde você está? Estou te procurando como um louco! —
Ele estava nervoso, pois sua voz estava mais grossa que o normal.
— Eu saí.
— Você "saiu"? Como assim você saiu, Parker? Onde você
está?
— London estava com fome e as comidas que estavam
servindo aí não eram nada gostosas.
— Onde você está? — Repetiu.
— Eu saí. Já disse! — Me irritei com ele. — Você não tem que
fazer um discurso ou algo do tipo? Vai se preparar.
— Parker, não me provoca. Quando eu... — Ele começou, mas
tirei o celular do ouvido e deixei na mesa, sem encerrar a chamada.
Conseguia escutá-lo falando alto.
— Você vai deixá-lo falando sozinho? — O loiro perguntou
encarando o aparelho.
— Vou sim. Ele só escuta o que ele quer, então vou deixar o
dono da razão dar o discurso dele. — Cruzei os braços, me
encostando no banco. — Ele é um idiota mentiroso mesmo. Eu que
não vou ficar escutando os absurdos dele.
— Você sabe que ele consegue escutar tudo o que a gente
fala, não é? — London questionou, se apoiando perto do telefone e
falando bem baixinho. — Oi, Vincent. Você foi um namoradinho
muito malzinho com o meu amiguinho...
— Misericórdia, London! — Peguei o celular e coloquei no
ouvido. Christopher ria, enquanto meu amigo deitava a cabeça na
mesa como se fosse tirar um cochilo. Escutava a respiração do
suspirador.
— Parker, me fala onde você está.
— Você não tem o direito de exigir nada, sabia? Você pode
continuar abraçando aquela "vagabunda". — A xinguei em
português, pois sentia que os palavrões eram mais fortes.
— Então é por isso. — Riu.
— Você está brincando comigo, Vincent? Eu sou algum tipo de
idiota pra você?
— Você é o meu namorado. E quando eu te pegar vai
aprender a me respeitar! — Afirmou em um tom grave e rouco.
Engoli em seco, pois havia me excitado na hora.
— Você... você é quem não me respeita! — London me olhou
assustado e depois olhou para Christopher, que vinha trazendo um
sorvete. Ele apontou para a porta, e como se fosse a cena de um
filme romântico, estavam Jackson, Markus e Vincent entrando. Não
tive reação para o que aconteceu em seguida. Chris jogou o potinho
cheio de sorvete de baunilha na direção do soldado, atingindo em
cheio o peito dele e manchando a camisa preta. Ele olhou o homem
com raiva.
— Meu Deus. — Meu amigo começou a rir do meu lado,
cortando o silêncio
— London, fica quieto! — Pedi, com medo de me mexer.
Markus olhou para Christopher como se estivesse sofrendo por
aquela situação. Fez menção de falar algo, mas se virou passando
pelos dois homens com quem tinha vindo. Mas meu mais novo
amigo o olhou com lágrimas e raiva nos olhos.
— Sai daqui mesmo, seu covarde! — Gritou, fazendo o
soldado parar e o encarar nervoso. — Foge de tudo como sempre
faz!
Ele começou a chorar e fomos até ele. Markus se aproximou, e
como se pedisse permissão nos encarou para que conversasse com
o garoto. Não sabia o que fazer, se o deixava ou não nas mãos
daquele homem, mas Vincent me encarava e eu tinha que resolver
algumas coisas com ele também.
Encarei London andando devagar enquanto mexia nos cabelos
de forma relaxada, até passar por Jackson, que o segurou logo em
seguida quando tropeçou. Meu amigo apontou o dedo para a cara
do lutador falando algo que não escutei e esse o levou para fora de
lá quase em seu colo. Fui até Vincent e passei o dedo no respingo
de sorvete que havia caído em sua camisa e o levei até minha boca.
— Eu não te entendo, sabia? — Falei assim que o encarei. —
Uma hora você me apresenta como seu namorado e na outra está
abraçando a sua ex-quase-esposa.
— E você decidiu sair antes de me deixar explicar. — Segurou
meu rosto.
— Aliás, como você me encontrou?
— Você realmente me perguntou isso? Eu sempre sei onde
você está, garoto. — Ele puxou o pequeno brinco preso na cola de
minha camisa.
— Quando você prendeu em mim? Isso parece coisa que um
louco psicótico abusivo faria. Você é louco e fica perseguindo os
outros igual à sua ex-quase-esposa?
— Não aconteceu nada demais e se você tivesse me deixado
falar…
— Eu estou deixando você falar agora, não estou?! — Tirei a
sua mão de meu rosto.
— Ela me abraçou, garoto. Mas se você tivesse ficado teria
visto que te procurei para falar a todos que era meu namorado. —
Suspirou, se aproximando de mim.
— Hum… — Passei por ele e fui para a noite fria que fazia. Vi
as copas das árvores balançando no escuro e de repente me senti
tão pequeno, mas tão em casa. O vi sair, e quando Christopher
segurou a camisa de Markus ainda em uma discussão. Esperava
que ficassem bem. — Eu acho que te devo desculpas então.
— Tudo o que eu estou fazendo é para que eu não me sinta
um idiota por não te dar a devida atenção. — Entrelaçou nossas
mãos e sorriu. — Eu não sou exatamente um cara romântico,
Parker. Eu gosto demais de você. Demais para o meu próprio bem.
— Só gosta? — Queria que dissesse uma coisa diferente, mas
não o obrigaria. Vincent sorriu mais uma vez.
— Você quer que eu diga que te amo? — Encarei sua mão
grande com algumas cicatrizes antigas.
— Você quer dizer que me ama?
— Eu sei que é isso o que você quer.
— O que você sente por mim, Vincent? Porque eu não só
gosto de você, e se você não se sentir confortável sabendo disso e
achar que não é para você, tudo bem. Eu vou entender, mas eu
acho que te amo... Eu acho não, eu realmente te amo.
— Ama? — Sorriu com certa malícia nos olhos.
— Vincent, não é hora para brincar comigo. E esse seu olhar
me deixa desconfortável.
— Eu te amo, garoto. É isso que você quer escutar? — Passou
o polegar em meus lábios. — Eu amo o jeito que você fica atiçado e
fácil perto de mim.
— Eu não sou fácil! — Ele então me beijou, e por alguns
breves segundos demorei para abrir os olhos, pois sua barba tinha
causado uma sensação maravilhosa ao arranhar meu rosto.
— Não é? — Sussurrou no meu ouvido.
— Para com isso, Vincent. — Ri ainda de olhos fechados. Mas
encontrei os seus assim que os abri. — Você tem que voltar para
aquela festa?
— Infelizmente. — Me deu um beijo na testa. — E aquele ali
também. Eu já volto.
Vincent foi até os dois e pelo jeito Christopher não estava nada
contente com o rumo que a conversa havia levado, pois passou por
mim sem nem ao menos me olhar, somente apertou meu braço
gentilmente e foi até o carro de Vincent que estava parado mais à
frente. Os dois conversaram e o tempo todo o soldado estava com
as mãos nos bolsos. Parecia contrariado por algo que havia
escutado, porém seguiu meu namorado até o lado de fora. O olhei
feio e os segui até todos estarmos acomodados e a caminho do
evento novamente.
O clima estava pesado e ninguém disse nada durante o trajeto,
nem mesmo tive coragem de colocar uma música para tocar com
medo de que tudo explodisse. Porém não me preocupei muito com
os outros dois, pois assim que chegamos Chris foi para perto de sua
avó, sendo acolhido por ela. Markus ficou conosco se preparando
para o discurso. Uma mulher dava as orientações e junto dela
estava Karen, que me olhava de forma desafiadora. Em um acesso
de ciúmes puxei Vincent pela gravata e o beijei.
Se ela não tinha provas suficientes para acreditar de que
aquele homem não estava mais disponível, esperava que eu o
agarrar em sua frente servisse. Não deixaria que interferisse
novamente em meu relacionamento. Mas eu tinha que agradecê-la,
pois ver meu namorado vestido daquela forma o deixava mais
atraente que nunca, e somente eu teria o prazer de tirar toda a sua
roupa.
— Vincent, quando estiver lá em cima eu quero que lembre de
uma coisa. — O puxei assim que nos deixaram sozinhos. Passei
minhas mãos pelo contorno no meio de suas pernas. — Eu estou
louco pra sentir você dentro de mim.
— Parker... — Suspirou.
— Vai logo. Eu vou estar sentadinho te esperando terminar.
— Você é um demônio, garoto!
— Eu me sinto ofendido quando fala isso de mim. — Fingi
timidez.
— Sr. Salas, estão prontos pra você. — Uma garota com um
ponto no ouvido avisou.
— Vai, Sr. Salas. — Arrumei sua gravata.
— Se você correr vai ser pior. — Me deu um último aviso antes
de sair da sala reservada.
Fui até o grande salão e me acomodei ao lado de Nate, e
observei meu namorado discursar. A todo momento ele me
encarava e fazia questão de morder e passar a língua em meus
lábios. Ele se mantinha sério mascarando os seus pensamentos,
mas sabia o que se passava dentro de sua cabeça e de sua calça.
Quando um garçom passou oferecendo uma taça de
champagne, a peguei e comecei a passar meu indicador pela sua
borda, finalmente tomando o líquido e o sentindo queimar meu
interior. Eu não aguentava mais! Um calor parecia incendiar meu
corpo e fazer com que quisesse ser dominado. Havia negado seu
toque por tanto tempo que naquele momento toda a excitação me
fez querer ser tomado por ele.
Me levantei pedindo licença para Nate, e encarei Vincent que
entendeu exatamente o que faria. Fui em direção ao elevador
tirando o paletó e por um momento o discurso parou. Porém não me
virei e entrei. Fui em direção ao carro e o mesmo segurança de
antes abriu a porta para mim, mas estranhou a falta de seu chefe.
— Vamos para o meu apartamento. — Falei assim que ele
entrou no carro.
— Mas e o Sr. Salas?
— Ele vai depois. Agora só me leve pra lá.
— As ordens.
Eu estava com uma excitação enorme e tudo o que mais
desejava era que aquele suspirador fosse até mim com toda a força
e brutalidade que tinha, pois queria, além de ser amado, ser
dominado por ele. Me sentir do jeito que somente ele conseguia me
fazer sentir. Acho que era o efeito do álcool em meu corpo me
fazendo ter pensamentos e vontades daquele tipo, mas o que eu
poderia fazer? Só estava colocando para fora toda a luxúria que
neguei a mim mesmo por Vincent estar longe de mim.
O celular tocou em meu bolso indicando que me ligava, porém
para provocá-lo não atendi. Sabia como aquilo o irritava e tudo o
que mais queria era deixá-lo nervoso, que não me tratasse com
cuidado, mas sim com desejo.
Cheguei em meu apartamento e encontrei todas as luzes
apagadas, e para me certificar de que ninguém me atrapalharia,
mandei uma mensagem para Mandy pedindo para que não voltasse,
o que ela prontamente concordou, me desejando sorte e cuidado.
Como se eu precisasse daquilo com aquele homem. Estava tirando
o restante de minhas roupas enquanto chegava no quarto quando
senti que algo se aproximava rapidamente pelas minhas costas. Me
virei e pelo baque de seu corpo no meu, gemi alto, pois minha pele
de repente estava sensível demais.
Senti sua barba arranhar meu pescoço enquanto sua boca me
beijava a região, me causando arrepios intensos. As borboletas em
meu estômago se acalmaram quando ele me apertou a cintura e me
carregou até nossa cama. Suas mãos passaram por debaixo do
tecido o tirando de mim com certa força, mas não tive como
reclamar, pois seus lábios trancaram os meus. Me apertava onde
tocava e tudo o que eu queria era que invadisse o meu íntimo
Sua camisa estava um pouco aberta, deixando parte de seu
peito desnudo. Não perdi tempo e o beijei ali, imediatamente
sentindo como estava quente. Saboreei o gosto leve de seu suor e
foi a coisa mais deliciosa que havia provado em muito tempo.
Desabotoei a peça de roupa, mas não a tirei, deixando parte de seu
corpo coberto em um jogo de sedução. Aquele homem era a coisa
mais perfeita que poderia imaginar, e naquele momento e como em
muitos outros, o idolatrei. Seus músculos protuberantes e fortes
estavam todos nos lugares certos, o que me fazia ter uma vontade
enorme de os arranhar. Seu pescoço com seu pomo de adão era
como um alvo. O beijei, sentindo uns fios de sua barba grossa me
pinicarem. Sua respiração quente atingiu meu rosto e subi para seu
queixo, deixando uma mordida leve. Com minha língua tracei os
seus lábios lentamente, mas quando ele a tentou sugar com sua
boca, me afastei. Um tapa foi dado em minha nádega esquerda, me
fazendo sorrir.
— Você está me provocando, Parker. — Reclamou,
acariciando a região que agredira.
— Sabe uma coisa que descobri? — Tirei a parte de cima de
seu traje, deixando seu torso nu brilhando com a luz ambiente. —
Que o que você disse para mim era verdade.
— Do que você está falando, Demoniozinho? — Perguntou
com o rosto enfiado no meu pescoço.
— Eu sou um garoto de programa. — Afirmei e ele parou de
me beijar para encarar meu rosto. Sua ereção cutucava meu
abdômen. — Mas só pra você!
— É bom mesmo.
Vincent me sentou na cama ficando em pé em minha frente, e
sem cerimônia alguma tirou sua calça, fazendo com que seu
membro balançasse no ar e encostasse em minha bochecha, o
fazendo molhar minha pele devido seu pré-sêmen. Não me fiz de
rogado e segurei em sua base, sentindo a pele macia e quente em
meus dedos. Ele gemeu ao meu toque e agarrou meus cabelos
fazendo aquele pedaço de carne deslizar pela minha boca.
Não havia pudores naquele momento e tudo o que fazíamos
era proporcionar prazer um ao outro. Eu sugava cada vez mais
forte, fazendo com que ele estocasse com cada vez mais vontade.
Até que me pegou, e beijando minha boca me deixou de costas. Ele
passou seu dedo por minha nuca e coluna, até chegar em meu
íntimo. Ele me penetrou e arfei. Havia muito tempo que não sentia
aquilo. Ele me abria cada vez mais, me preparando para abrigar
algo maior e mais quente.
— Vincent, anda logo! Eu te quero tanto... Ai, meu Deus! —
Segurei nos lençóis quando me invadiu rápida e intensamente.
— Como eu senti saudade do jeito que você é quente.
— Então não para com isso. Eu quero te sentir cada vez mais.
— Seu peito molhado de suor encostou em minhas costas.
— Você é tudo o que eu quero!
— Eu sei! — Sorri.
Ele aumentou a velocidade de seus movimentos, fazendo com
que suas coxas deslizassem pelas minhas. Seu braço estava ao
lado de minha cabeça e seus músculos brilhavam como se fossem
feitos de ouro. Os beijei sentindo seu gosto maravilhoso, assim
como a luxúria e o prazer aumentarem quando passou a entrar e
sair devagar, como um embalo, me fazendo ir para frente e para
trás, atingindo o ponto certo dentro de mim e tirando minha visão
devido ao prazer. Ele definitivamente sabia o que estava fazendo, e
o mais importante era o fato de que estava fazendo comigo. Ele
estava me amando ao mesmo tempo que descarregava toda a
tensão sexual acumulada durante os dias que ficamos afastados.
Ele me colocou em seu colo, me fazendo cavalgar em seu
pênis que agora não tinha nenhum impedimento para se mover.
Suas mãos fortes seguravam a minha cintura, ditando a velocidade
de meu corpo, e eu não poderia me sentir melhor, mais amado e
protegido que ali, olhando nos olhos daquele homem que chamava
de "meu". Não demorou muito para que ele novamente começasse
a bombar dentro de mim e finalmente despejasse seu esperma em
meu interior, como se me marcasse como seu. E eu era! Completa e
inteiramente seu!
Me puxou fazendo com que me deitasse em seu peito,
enquanto me abraçava com força. Ele me impedia de me mover e
com os movimentos de seu abdômen de encontro com o meu pênis
e sua mão, me derramei entre nós dois. Ele sorriu ao ver que eu
havia atingido meu limite e segurou meu maxilar, lambendo meus
lábios.
— Você é o meu delírio, Parker! E eu não poderia estar mais
viciado em você. — Me puxou para perto de seu rosto, mordendo
meu ombro e suspirando.
— Quem diria que aquele homem bruto que invadiu meu
apartamento estaria deitado na minha cama? — Acariciei seu rosto
enquanto ele passava as mãos em minhas costas. — Eu te amo,
Vincent. E eu não preciso viver ao seu lado por anos para saber que
eu te quero pra sempre. Ou além do sempre.
— Casa comigo?
CAPÍTULO 18 – Atlântida

— Eu já disse pra você parar de ficar me tratando desse jeito,


Vincent. Eu não sou de vidro.
— Se você parar de dar uma de alpinista e ficar se pendurando
na estante, eu paro! — Respondeu, segurando meu rosto e vendo o
vermelho que se formou. — Se isso ficar roxo você vai ver!
— Eu não faria isso se você parasse de esconder as coisas de
mim! — O abracei, sentindo o quanto estava maior devido aos seus
treinos com Gary. — E uma base esconde isso rapidinho.
— Isso me lembra de uma outra coisa que eu quero que pare.
Não quero mais que fique falando sobre você nas redes sociais.
Nem que fique falando sobre onde vai. Já...
— “Já disse que é perigoso!” Será que dá pra você só dizer
que estava com saudades? Ficou dias longe de mim e nem falou
comigo direito. Fiquei sozinho nessa casa enorme.
— Você sabe que eu senti sua falta. — Retrucou naquele tom
bruto.
— Mas seria ótimo se o meu futuro marido dissesse isso de
vez em quando. É bom demonstrar carinho e eu gosto!
— Eu sei que você gosta. — Beijou meu pescoço, me fazendo
rir devido a sua barba.
— Faz dois meses que me fez o pedido e quero ver que não
foi da boca pra fora.
— Eu senti sua falta.
— Eu sei. — Segurei seu rosto e senti seu beijo bruto. Adorava
aquilo e ainda mais a forma que minha pele ficava quente depois. —
Eu te amo.
— Eu sei.
— Nossa! — O soltei, indignado. — Você nem diz “eu
também”. Você é horrível como um namorado e noivo. Como marido
então... deve ser o fim!
Ele suspirou e adorei ver aquele gesto. O amava realmente, e
principalmente depois de suas férias onde passamos exatos vinte
dias juntos, tive certeza de que não conseguiria esperar para ser
dele para sempre. E ainda bem que não conseguia ler meus
pensamentos, pois uma coisa que descobri era o fato de amar me
gabar muito sobre o ter. Claro que não em sua frente.
O servindo do café, me lembrei da primeira vez que nos
conhecemos. Aquela noite em que minha vida mudou
completamente. Tudo o que acreditava foi jogado ao vento assim
que coloquei meus olhos naquele homem, e acredito que o mesmo
aconteceu com ele. Eu estava melhor por sua causa e ele também.
Vincent, mesmo ainda tendo aquele jeito rude, quando se tratava de
mim era um pouco mais passível. Como quando pedi que me
levasse no parque de diversão só para andar na roda gigante. Eu
morria de medo, mas sempre quis fazer aquilo com um namorado.
Não poderia pedir um amor melhor que aquele. Ele me
completava de uma forma que não sabia descrever. O amava tanto
que só de pensar que não poderia tê-lo por perto meu coração doía.
Estava completamente perdido de amores por aquele bruto. Ainda
não entendia muito bem o que fazia, pois era literalmente um
segredo de Estado, no entanto saber que Gary estava perto me
fazia temer muito menos por sua segurança. E falando nele, vi
quando entrou.
— Bom dia, bom dia! — Andou até nós com um pacote nas
mãos e logo o peguei. — Bom dia, Chefinho.
— Bom dia, Gary. Como você está? — Senti o cheiro dos
sonhos quentinhos que me trouxera. — Eu te amo, sabia? Só você
parece cuidar das minhas vontades aqui.
— Ainda bem que você não engravida, se não o... — Ele
pigarreou vendo a carranca de Vincent. — É... bom, que bom que
você gostou!
— O que veio fazer aqui, Richards? É a sua folga.
— Vim buscar o Parker.
— E para quê? — Vincent me encarou e tirou o pacote das
minhas mãos enquanto eu comia. — Você não me contou nada
sobre sair hoje.
— Você não me conta nada sobre quando você sai. — Limpei
os dedos no papel toalha.
— É diferente.
— Diferente como? — Me apoiei em seu ombro, o encarando
bem de perto.
— Eu tenho uma arma. — Respondeu me fazendo rir.
— Eu sei que tem. O Gary também tem uma e isso não me
impediu de deixá-lo nas minhas mãos quando você o colocou pra
me seguir.
— E como eu estava. Ainda dói só de lembrar. — Gary fez
uma careta.
— Como assim?
— Nada! — O beijei rapidamente e me afastei puxando seu
colega de trabalho comigo. — Eu vou ajudar ele com uma coisa
pessoal e depois vou para o meu apartamento. Me encontra lá de
tarde se não estiver ocupado, amorzinho.
— Parker...
— Tchau! — Fechei a porta atrás de mim.
— Você dobra ele certinho. — Gary riu.
— Eu sei! E se ele te escutar falando isso, é ele quem vai te
dobrar. — Entrei em seu carro. — Agora anda que eu vou te ajudar
a preparar seu almoço e da Paola. Eu ainda não acredito que
finalmente vai pedir a mão dela.
— Nem eu, mas o Chefe ter pedido a sua e ver vocês
enfrentarem todo mundo me deu coragem.
— Oh, Gary! — Apertei seu braço. — Essa é a coisa mais fofa
que você já disse. Vou te ensinar a fazer tudo perfeito.
— Valeu, maninho. — Revirei os olhos por causa do apelido e
ele riu.
Havia me aproximado muito dele e o fato de trabalhar com
Vincent fazia com que nos víssemos com bastante frequência. Ele
me ajudava a saber sobre meu futuro marido e em troca o ajudava
com o seu relacionamento, já que dizia que Paola, sua futura noiva,
era uma versão mais calma de mim. Encarava aquilo como um
elogio para não discutir com ele.
Minha manhã foi dividida entre responder as mensagens de
Mandy e ensinar Gary a cozinhar. Minha amiga me dizia o quanto
estava feliz em conhecer a Rússia junto do meu irmão e me
mandava fotos a todo tempo sobre as coisas que via. Estavam
juntos desde que ele se mudara para Bisera, e decidiram assumir
um relacionamento sério. Confesso que não tinha muitas
esperanças de que aquilo daria em algo, mais pela índole de
Harvey, que era um safado sem vergonha. Porém os dois estavam
bem. Finalmente parecia que meu irmão tinha dado um jeito na vida.
Meu pai era um assunto muito delicado, pois eu, a todo
momento, pensava que me deixaria como fizera anteriormente. Um
medo besta e sem sentido. E como me havia prometido se tornara
presente. Nunca deixei de amá-lo e durante todo o nosso
afastamento realmente tentei odiá-lo, mas o que eu realmente fazia
era tentar, inutilmente, me esquecer que ele existia.
Após a sua mudança sempre almoçávamos, jantávamos ou
passávamos a tarde assistindo algum filme e conversando em sua
casa. Era como se aos poucos tudo estivesse voltando para o lugar.
Vincent e ele começaram a se dar bem em um desses
almoços, apesar das desavenças iniciais. Ambos tinham
personalidades fortes, mas eu preferia acreditar que o amor que
sentiam por mim era o que os ligava. Afinal, eu era tudo de bom. Um
ótimo filho e um ótimo noivo!
E um ótimo ator também! Depois de meu primeiro trabalho
com Calisto, meu diretor, e tudo o que aconteceu envolvendo sua
vida, minha carreira deslanchou. Consegui um ótimo contrato em
uma série de televisão e Perry nunca deixava a minha imagem se
apagar. Ainda estudava e faltavam três anos para ter meu diploma,
mas conciliava aquilo com algumas participações aqui e ali, e a
gravação de meu primeiro filme. Estava tão animado quando
descobri que até relevei os ciúmes de Vincent. Tudo estava mais
que perfeito!

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Com tudo pronto desejei boa sorte para Gary e voltei para meu
apartamento. E para minha surpresa encontrei meu pai. Ele estava
cuidando de Benj e Jasmin, colocando ração enquanto o cachorro,
já enorme, latia para minha gatinha deitada perto do sofá. Eles eram
um lembrete constante de que Vincent estava em minha vida, pois
ele cuidava dos dois como se fossem bebês. Nem eu era tão
mimado.
— Oi, filho. — Me abraçou forte, enquanto Benj pulava em
mim.
— Oi, pai. Não esperava o senhor aqui hoje. A gente combinou
alguma coisa e me esqueci?
— Não é bem comigo que eu queria que você conversasse,
filho. — Disfarçou seu desconforto com um sorriso. — Nos últimos
meses, eu estava pensando se tudo...
— Por favor, Yorick. Você sempre enrola pra falar qualquer
coisa. — Escutei aquela voz calma e elegante. E assim que me virei
confirmei que minha mãe estava lá. Vindo do quarto, completamente
arrumada.
— O que você está fazendo aqui? — Perguntei surpreso.
— Você realmente pensou em não me contar sobre o seu
casamento daqui a um mês? — Segurou minha mão e me abraçou.
— O que... O que você está fazendo? — Aquilo estava muito
estranho.
Depois de nossa discussão no jantar fracassado que havia
organizado, nossa convivência que já era quase inexistente ficou
ainda mais escassa. De início não queria deixá-la fazer parte da
minha vida e recusava todas as suas investidas de tentar se
aproximar. Ela nunca fora carinhosa enquanto eu crescia e depois
de maior aquilo deixou de ser uma possibilidade.
— Desculpa, seu pai insistiu nesse abraço. — Encarou o
barbudo, mas sorriu. — É bom te ver depois de tudo.
— Isso realmente não combina com você. — Encarei meu pai
que fingia não escutar nada da cozinha. — O que veio fazer aqui?
— Eu resolvi tirar uns dias de folga e passar mais tempo com o
seu pai. Nós voltamos a nos ver.
— Droga! — Yorick pegou o pano para se secar e encarou
minha mãe. — Caramba, Harper. Você tinha que contar assim pra
ele?
— Ele já é adulto o suficiente pra entender as coisas. —
Ignorou a reclamação. — Se ele já é adulto para se casar, é também
pra saber que estamos tentando reatar.
— Eu... — Estava completamente atônito. — Eu bem que
suspeitei que ele estava saindo com alguém, mas nunca pensei que
seria você. Mesmo...
— Muito menos eu, Parker. — Ela se sentou no sofá e
acariciou Jasmin que subiu em seu colo. Estava pronto para ela
jogar minha gata no chão por deixar pelos em sua roupa, mas nada
aconteceu. Aquilo parecia alguma peça em mal funcionamento da
minha cabeça. Devia estar alucinando.
— Isso é muito esquisito. O que aconteceu com você?
— Acho que ficar sozinha por tanto tempo me fez ficar carente
igual a você.
— Ela está fazendo terapia, filho.
— Isso foi mais para aguentar você, Yorick. — Ela retrucou,
mas sorriu para mim.
— Isso foi uma piada? Você fez uma piada, mãe?
— Por favor, Parker, deixe disso! Agora sente e me fale de
Vincent e o casamento. Seu irmão e Mandy me contaram um pouco
sobre ele, mas quero saber por você.
— Não me leve a mal, mas está tudo bem entre a gente? Você
não me disse coisas agradáveis e eu fiz o mesmo.
— Eu errei quando falei com você daquele jeito. Fui impulsiva
e não medi minhas palavras. Toda a situação dessa família não me
fez bem como também não fez para você.
— Os dois não são tão diferentes em reagir as coisas. —
Yorick comentou, mas foi para a cozinha novamente.
— Eu não fui uma boa mãe para você e eu reconheço isso.
Usei você como o foco de tudo de ruim que estava sentindo e isso
foi completamente horrível de se fazer.
— Então isso quer dizer que você...
— Eu quero fazer parte da sua vida. Mesmo antes, quando
morávamos só nós dois, eu gostava da sua companhia, mesmo que
cada um em seu lado. E te ver vencendo na vida, como está
fazendo agora, me fez perceber que se eu não tentar melhorar
nossa relação vou ser vista como uma interesseira lá na frente. E
não é como quero ser caracterizada.
— Acho que nós nunca conversamos dessa forma.
— Nós nuca conversamos mesmo, Parker. — Segurou minha
mão. — Quero mudar isso. Você pode achar que não, mas eu me
importo. É meu filho e eu sei que errei com você. E por isso eu peço
que me desculpe.
A encarei não acreditando naquilo, mas ela não me deixou
falar mais nada encarando meu silêncio como uma resposta
positiva, e logo começou a me interrogar sobre Vincent.
Conversando com ela percebi o quanto os dois se pareciam.
Desde o jeito sério de lidar com as coisas, até a forma que me
faziam parecer um garoto imaturo. Se tivesse bom senso e um
pouco de juízo os manteria afastados o máximo possível, pois se
ambos se gostassem minha vida seria um inferno.
A todo momento percebia os olhares de meu pai quando o
nome de meu futuro marido era citado. Uma coisa que havia
esquecido sobre ele, era que se tratava de um homem muito
protetor e carente de atenção. E era a coisa que eu mais admirava
nele. Acredito que todo o meu drama e a forma que era com Vincent
resultaram de sua personalidade em mim.
— Eu acho que você deveria chamá-lo para um jantar. E dessa
vez faremos dar certo.
— O que está planejando, mãe?
— Só quero conhecer minha mais nova família e tirar a
péssima impressão que ficaram de mim. Isso é algum crime?
— Você está muito interessada na minha vida e eu não sei se
isso é uma coisa boa.
— Vamos dizer que toda essa situação está amolecendo o
meu coração. — Se levantou. — Mas não se esqueça de que eu
sou sua mãe e te conheço. Sendo o dramático e teimoso que é, é
bem capaz de ter um ataque do coração se não deixar alguém
responsável cuidar de todos os preparativos do casamento.
— Eu não sou teimoso.
— Eu não vou discutir isso com você. Fale você com o Vincent
ou falo eu.
— Eu preferia quando você era distante. — Resmunguei.
— Eu escutei.
O que eu faria? Aquele jantar tinha a possibilidade de dar
errado novamente? Conseguia ver meu pai e Vincent tendo um
desentendimento, minha mãe e ele se juntando para controlar a
minha vida... Só queria que tudo fosse um pouco mais simples.
Ainda estava proibido de usar o meu cartão de crédito, pois Vincent
o tomou logo que comecei a desenvolver uma mania horrível de
comprar utensílios para casa. Achei aquilo um absurdo obviamente,
mas no final acabei entendendo. Tinha sérios problemas quando se
tratava de comprar cremes de morango e copos exóticos.
Fui para o meu quarto e me tranquei para tomar meu banho.
Enchi a banheira e coloquei vários sais e perfumes na água para
que ficasse o mais relaxado possível. Precisava muito de um tempo
para mim. Peguei meu celular e tirei uma foto minha rodeado de
espumas e mandei para Vincent. Ele não me respondeu, o que já
era esperado, mas eu adorava mandar mensagens e fingir me irritar
pela falta de resposta.
Terminei meu banho e logo desci para almoçar e jantar com
meus pais. E aquela foi a experiência mais esquisita em toda a
minha vida. Nunca pensei que veria os dois juntos novamente, ainda
mais como um casal. Fiquei em silêncio o tempo todo e só
respondia o necessário, ou para me defender quando minha mãe
insistia em falar algo para me criticar ou para impedir meu pai de se
intrometer demais em questões pessoais.
Voltei para o meu quarto e dormi sozinho, como sempre fazia
quando tinha visitas no apartamento. Jasmin não desgrudava de
minha mãe e Benj do meu pai. Era incrível como eram oferecidos.
Somente vieram até mim quando foram embora para não sei onde e
fazer não sei o que.

Era uma manhã calma e os raios de sol entravam pela janela,


refletindo no pequeno espelho d’água tornando meu quarto uma
espécie de paraíso aquático. Não sabia de onde Mandy tirava
aquelas ideias, mas agradecia por ter uma amiga doidinha por
esses livros de fantasia que tanto lia. Fiquei admirando tudo aquilo e
o silêncio que estava no apartamento. Jasmin dormia na pequena
poltrona e me lembrei de todas as vezes que acordava e via aquele
suspirador me encarando.
Não conseguia pensar nele sem sentir meu corpo inteiro
borbulhar de desejo em querer estar em seus braços. Tudo o que eu
fazia, acabava uma hora ou outra refletido em sua vida, e o mesmo
acontecia com suas decisões. A única diferença era que eu
conseguia convencê-lo das minhas vontades. Vincent poderia ser o
mandão que fosse no seu trabalho, mas sabia que eu tinha o
controle da nossa relação. Ou melhor, o prazer, carinho, amor, e
todos os pontos positivos de nosso namoro e noivado.
Escutei a porta de meu apartamento bater e Benj, desajeitado
do jeito que era, quase levou meu edredom quando saiu correndo.
Ele latia alto e com o tempo começou a ser meu aviso todas as
vezes que seu pai chato e de cara fechada chegava. E lá estava ele,
como se fosse o dono do mundo deixando a chave do carro em
minha cômoda. Jasmin se aprontou na poltrona e deu um salto em
sua direção, sendo pega no ar logo em seguida.
— Um dia eu ainda vou te enganar, pestinha. Não vai perder
essa mania nunca, não é? — A colocou em seus ombros. Sua voz
me fez suspirar. Estava pegando seu costume. Ele olhou para o teto
do quarto, observando os reflexos da água. — Quem fez isso?
— Mandy. E não, Jasmin nunca vai perder essa mania, porque
você sempre a pega. — Ele se deitou em cima de mim e passei
meus dedos pelo seu rosto. — Seu cabelo está grandinho de novo.
— Eu vou cortar. Fiquei sem tempo esses dias com um garoto
que não me deixava em paz. — Beijou meu pescoço, me fazendo
rir.
— Não corta. Pelo menos, deixa ele desse tamanho. Esse
garoto lindo que não te deixou em paz gosta de fazer carinho. — Se
deitou em meu peito e comecei um cafuné, penteando seus fios. —
Você está bem?
— Com você estou.
— O que aconteceu com você? Não brigou comigo por nada
ainda e estou usando aquele pijama velho que você não gosta.
— Eu não gosto que use quando tem alguém no apartamento.
— Passou a mão por debaixo do edredom e beliscou minha pele,
subindo até minha cintura. — Mas quando está aqui trancado não
tem problema.
— Possessivo.
— Cuidadoso.
— Eu te amo. — Acariciei sua barba e ele só resmungou, mas
assim que puxei um fio dela, riu. — Você é um insensível, sabia?
— Eu te amo também, Demoniozinho. — Vincent se apoiou
nos braços ficando em cima de mim. Ele me beijou, fazendo minha
manhã ser a melhor do mundo. Benj se enfiou entre nós, lambendo
meu rosto e se virando de barriga pra cima para receber carinho.
— Minha mãe está com o meu pai novamente e ela quer
conhecer você.
— Quando? — Ainda me encarava e me sentia sempre nu
diante dele.
— O mais rápido possível ela disse, se não ela mesmo te
convida.
— A gente pode ir naquele restaurante japonês que você
queria ir, o que acha?
— Assim, tão fácil? Você não está nervoso por finalmente
conhecer minha mãe?
— O mais difícil eu já consegui, que é ficar com você. Ninguém
te tira de mim, Parker. Nem que sua mãe me odeie. — Deitou-se ao
meu lado me puxando para si.
— Falando nisso, parece que nos acertamos.
— Isso é bom. Você não precisa de mais nenhuma
preocupação.
— Quem você é e o que fez com o Vincent que eu conheço?
Está doente?
— Eu só estou feliz hoje. — Encarou o teto. — Hoje seria o
aniversário de casamento dos meus pais
— Eu sinto muito, amor. — O abracei e ele sorriu.
— Ele adoraria ter te conhecido. Provavelmente te mimaria e
te estragaria ainda mais.
— Eu não sou estragado. Eu sou um amor e super centrado.
— Não é isso que eu vejo.
— Acho que você não puxou tanto o seu pai assim. Ele me
mimaria, porque saberia o quanto eu sou importante e especial.
— Eu também sei disso. — Vincent deixou uma lágrima cair,
mas logo suspirou, sorrindo de novo. — Ele sempre quis que eu
arrumasse alguém pra levar pra casa... E eu finalmente arrumei.
— Vincent… — Já estava me desmanchando.
— Você não sabe o quanto me mudou, Parker. Minha mãe
adora falar sobre você e eu não consigo não querer que ela
continue. Eu estou de joelhos pra você!
— Para com isso! — Me sentei, começando a soluçar. Todas
aquelas palavras estavam me afetando e não conseguia controlar
todo o meu amor por ele. Aquele homem era o meu mundo e não
me cansava de admitir. Tudo o que eu pudesse fazer para que ele
fosse feliz ao meu lado, eu faria.
Saber sobre seu pai e sobre como se sentia quanto ao nosso
relacionamento era uma das coisas mais lindas que já havia me
dito. Era um momento íntimo e ele havia aberto seu coração para
mim. Sabia o quanto era reservado com o que sentia, pois tinha em
sua cabeça que deveria ser forte o tempo todo para mim e para
todas as pessoas que dependiam de seu controle.
Os reflexos do espelho d’água dançavam pelo quarto e pelo
seu rosto. Vincent era lindo, perfeito e o homem dos meus sonhos.
Sentia meu coração apertar de saudade mesmo que estivesse ali.
Me agarrei em seu corpo, sentindo seus braços me apertarem e não
quis que me soltasse.
— Seria ótimo poder ter conhecido ele, mas eu sei que ele foi
um bom pai. Vejo o quanto você herdou dele. — Suspirou. — Você
está bem mesmo? Tem algo a ver com o casamento?
— Por que não estaria? — Mexi em sua camisa.
— Não sei. Você está trabalhando demais esses dias e quando
eu falo sobre alguma coisa você sempre parece desinteressado.
Mas ao mesmo tempo tem esses momentos fofinhos.
— Eu acabei de falar uma coisa bonita pra você e você me
vem com essa?
— Eu só perguntei, seu grosso. — Me levantei indo em direção
ao banheiro, mas ele continuou deitado olhando os reflexos de luz
no teto do quarto. — Quando a gente se casar vamos morar onde?
— Eu quero mudar da minha casa e fazer minha mãe se
mudar pra ela. Não gosto dela morando tão longe no interior. Mas
ainda não sei onde vamos morar. Você escolhe talvez.
— Como assim, Vincent? Eu não vou morar na casa sozinho.
— Comecei a escovar os dentes, já me irritando com sua mania de
não se envolver naqueles assuntos. Ele sempre dava a desculpa
que não tinha paciência, mas daquela vez não.
— Você quem vai passar mais tempo lá mesmo.
— “Eu vou ser a dona de casa”, isso que você quer dizer? —
Cuspi a pasta e tirei minha roupa para tomar banho. Senti seus
olhos em mim e logo se levantou vindo para o banheiro.
— Você sabe muito bem que não foi isso que eu quis dizer,
garoto. — Parou na porta, olhando meu corpo. Ele tentou me puxar,
mas não deixei.
— Nada disso! Se você se esqueceu, eu tenho que me
arrumar, porque a gente tem o almoço na casa do Gary hoje.
— Eu não esqueci e ainda é cedo. — Andou até mim e notei
sua excitação.
— Se você chegar perto de mim, Vincent… — Apontei o dedo
em sua direção e fechei o box do banheiro, mas não antes de vê-lo
suspirar.
— Você está me negando e faz semanas que eu não te vejo,
Parker. — Abriu a porta do box deixando o vapor sair.
— E vou continuar até você ser mais gentil e prometer que vai
comigo escolher a casa que vamos morar.
— Não vou!
— Então eu não vou deixar você encostar o seu pênis em mim.
Se quiser pode tomar um banho frio depois que eu terminar. Agora,
fecha a porta.
— Você me deixa louco!
— Eu sei.
Estava mesmo fazendo greve de sexo, pois ele precisava
entender que eu queria ser um casal com ele, e queria que ele fosse
comigo decidir onde seria nosso lar. Queria que visse onde
construiríamos nossa vida e nossa… família. Me perguntava sempre
se desejaria ter filhos ou se a ideia nem passava por sua cabeça?
Assim que voltei para o quarto ele estava vendo algo em seu
celular, mas logo começou a observar cada movimento meu,
principalmente quando comecei a passar o creme corporal de
morango que ele tanto gostava. Como sempre fazia, se colocou
atrás de mim, me fazendo sentir o quanto me queria. Seu nariz
passou pelos meus ombros até o meu pescoço e ele me ajudou a
espalhar o creme por meu abdômen e torso.
— Por que você me tortura assim?
— Por que você me nega sua companhia? — Encarei seu
reflexo. Era tão difícil pra mim quanto para ele. Eu ascendia ao seu
toque. Ele beijou meu pescoço demoradamente e um arrepio subiu
por todo meu corpo. — Vincent, você pensa em…
— Em que?
— Você pensa em ter uma família comigo? Pensa em ser pai?
— Por que está me perguntando isso agora?
— Nós vamos nos casar e é natural pensar nisso. — Mordi
meu lábio e comecei a me vestir enquanto ele me analisava. Odiava
quando fazia aquilo, pois parecia expor todas as minhas
inseguranças. Me sentia um bobo todas as vezes. — Eu quero
saber, porque eu não posso gerar um filho seu.
— Eu prefiro não falar sobre isso agora, Parker. — Se afastou
e me arrependi imediatamente de tocar naquele assunto. Já havia
conversado com Celeste sobre os desejos do filho. Das raras vezes
em que ele se abria com ela, a confidenciou aquilo, mas eu não
estive tão inserido em sua vida, mas sim... Karen.
— Tudo bem. — Me olhei no espelho e me virei pra ele,
procurando sua aprovação.
— Está lindo, como sempre.
Seu celular tocou e saiu para atender, mas sabia que aquele
assunto havia mexido com ele. Me encarei novamente e me senti
horrível por não poder dar uma das coisas que ele mais queria na
vida. Para mim, adotar uma criança não era problema nenhum. Ter
um laço sanguíneo não era sinônimo de apreço e amor, e minha
família era o exemplo perfeito. Porém para Vincent, que sempre
teve os pais perfeitos, talvez fosse. Sabia que ele era adotado, e em
sua cabeça possivelmente tinha a necessidade de ter aquele filho
“dele mesmo”.
Ele conversava com alguém e pela sua cara não estava sendo
agradável. Fui até a cozinha colocar comida para meus bichinhos,
mas já estavam de tigela cheia, provavelmente ele tinha enchido.
Peguei algumas uvas e comecei a comer, enquanto ocorria uma
discussão calorosa alguns metros de mim.
A porta se abriu e Mandy apareceu com meu irmão atrás dela,
carregando suas malas junto com um dos porteiros do prédio. A
abracei forte, querendo que o sorriso que carregava fosse meu. Ela
me encarou sabendo que eu não estava tão feliz e era aquilo que eu
mais gostava em nossa amizade. Tínhamos uma capacidade
incrível de saber quando algo incomodava o outro somente com o
olhar. Fui arrastado para o quarto, sem nem mesmo poder abraçar
meu irmão, e sob o olhar atento de meu futuro marido.
— Conta agora o que está acontecendo! — Me sentou na
cama e ficou em pé na minha frente. — Seu casamento é daqui um
mês e era para você estar pulando de alegria.
— Eu sou gay.
— Isso eu sei e isso nunca te deixou triste.
— E eu não posso gerar um filho.
— Oh... — Ela parou de se mexer, pensando no que diria a
seguir. — Ele te falou algo sobre esse tópico ou...
— Eu perguntei se ele tinha vontade de ter uma família
comigo, filhos, no caso.
— E o que ele disse?
— Que não queria falar e encerrou o assunto. Do jeito que
sempre faz quando não quer falar sobre alguma coisa.
— Ele vai conversar com você cedo ou tarde, Park. Formar
uma família não é somente ter um filho de sangue.
— Eu sei disso e tenho o mesmo pensamento, mas será que
ele tem? A gente pensa assim por que nossos pais foram horríveis
na nossa infância.
— Nossa, não é pra tanto. — Levantei uma sobrancelha. — Tá
foi isso mesmo, mas os seus estão tomando jeito.
— Você por um acaso sabia que eles estavam juntos? Porque
eu sei que conversa com a minha mãe sobre a minha vida,
fofoqueira.
— Eu não queria contar nada, mas você conhece a sua mãe,
Parker. Ela parece uma torturadora. — Aquilo me fez rir.
— É verdade, mas deixa o meu problema para lá e me conta
como foi sua viagem com o safado do meu irmão.
Ficamos trocando memórias por quase uma hora até Vincent
bater à porta para irmos à casa de Gary. Nosso amigo estava muito
ansioso para que conhecêssemos sua família, pois praticamente
nos considerava parte dela, e porque seria a primeira vez que eu
iria.
Abracei meu irmão vendo que estava com uma nova tatuagem
em seu braço, uma orquídea. Era a flor favorita de Mandy. Aquilo
era um sinal positivo para o relacionamento dos dois, e notava a
forma respeitosa e carinhosa que se tratavam. Era realmente uma
mudança naquele homem que sempre ficava pulando de saia em
saia.
Entramos no carro em silêncio, e antes de sair me curvei sobre
o colo de Vincent colocando seu cinto de segurança, que sempre se
recusava, mas cobrava para que eu colocasse. Não conseguia dizer
uma palavra sem lembrar de nossa conversa mais cedo. O medo de
que aquilo fosse usado como um motivo para acabar com a nossa
relação me matava a cada minuto.
Seguimos pelas ruas e me concentrava em tudo, menos no
homem grande ao meu lado, que sempre que o sinal se tornava
vermelho me olhava tentando me decifrar. Ele colocou a mão em
minha perna e a segurei, sentindo uma vontade imensa de me
aninhar em seu colo e chorar pedindo desculpa por ter feito algo de
errado.
— Olha pra mim. — Pediu, mas demorei a fazer. Tinha receio
de descobrir qual era sua intenção. — Eu quero você, mas não é o
momento pra pensar nisso.
— Só estava querendo saber uma coisa simples, Vincent.
Qualquer casal conversa sobre isso, ainda mais quando vão dar um
passo grande como a gente vai dar. — O sinal abriu e ele voltou sua
atenção a rua a frente. — A não ser que você...
— Nem termine essa frase, Parker. Não fala besteira. — Me
interrompeu e senti a dureza em sua voz. Eu estava o irritando e
nunca o tinha visto a ponto de perder o controle. — É melhor
pararmos com isso.
— Claro que é. — Retruquei com todo o cinismo possível. Era
sempre do jeito dele. — Eu nunca vou te desafiar em nada. Não
precisa se preocupar!
— O que está insinuando?
— Nada. Quis dizer exatamente o que eu te disse.

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Paramos em frente à casa de Gary e coloquei meu melhor


sorriso. Ser ator era uma excelente profissão para se lidar com
outras pessoas e esconder tudo da sua vida.
Saí do carro sem nem ao menos esperar Vincent e me
encaminhei pra porta, mas antes de bater, meu amigo apareceu
com um sorriso enorme. Ele estava feliz por seu chefe estar lá e era
notável a admiração que tinha por ele. Gary devia grande parte do
que tinha e do que era por conta de Vincent.
— Espero que goste da minha família. Eles já conhecem você
da sua série, então se prepara pra minha mãe e a Paola em cima de
você, Chefinho. — Me abraçou e senti o cheiro de seu perfume e de
carvão.
— Pode deixar que eu vou ser a melhor pessoa daqui.
— Eu sei que vai, Chefinho. — Beijei seu rosto e entrei na
casa, sendo imediatamente puxado por sua mãe, Carolina, e Paola,
sua noiva. Elas estavam deslumbrantes e eu notava os olhos
castanhos de Gary em sua progenitora.
— É finalmente tão bom te conhecer. Tenho tantas coisas pra
conversar com você. De tanto meu filho falar já sinto que conheço
você desde pequeno. — Me abraçou. — Onde está Vincent?
— Estava fechando o carro... Lá está ele. — Apontei para
porta e o vi suspirar. Os dois agentes olharam em minha direção.
— Ele é lindo, meu angelo. — A mais velha disse dando uns
tapinhas em meu braço.
— Vocês formam um casal lindo, Parker. — Paola comentou
enquanto os dois se aproximavam. Elas o cumprimentaram, mas a
grávida levou a mão a boca quando um suco de abacaxi foi
oferecido. Gary foi até o seu lado e acariciou sua barriga. Aquilo foi
como um tapa na minha cara sem intenção
— Você não me contou que ela estava grávida, Gary. —
Abracei a futura mamãe. — Eu desejo tudo do mais lindo pra vocês
três.
— Obrigada, Parker. A gente descobriu faz pouco tempo. Só
achei que estava ganhando uns quilinhos, mas no fim, era uma
surpresinha melhor. E vou poder dizer que minha filha tem um tio
famoso.
— Tio não, vai ser o tutor! — Gary disse, me deixando
surpreso.
— Gary, eu... — Olhei Vincent e ele estava sério.
Provavelmente já sabendo daquela vontade.
— Já tá tudo resolvido. Meu irmão e a irmã de Paola vão ser
os padrinhos na igreja, mas vocês vão ser os tutores. Eu só confio
em vocês pra cuidarem do meu meninão que está vindo.
— Ou menina. — Paola corrigiu.
— É... — Ele não deu muita bola e logo recebeu um tapa de
sua noiva. — Se alguma coisa acontecer com a gente, sei que
vocês vão ser a melhor escolha. Vocês aceitam, não é?
— Gary, isso é muito lindo, mas...
— É claro que aceitamos. — Vincent foi puxado por um abraço
pelo amigo e logo foi a minha vez de ser espremido. Eu não
conseguia olhar para meu noivo e não sabia o que se passava em
sua cabeça.
— Parker... — Ele tentou segurar meu braço, mas me
aproximei de Carolina.
— Me mostra onde é o banheiro, por favor? Acho que tem
alguma coisa no meu olho.
— É claro, meu amor.
Me afastei de Vincent e fiquei por vários minutos trancado,
somente me olhando e tentando encontrar uma saída daquela
situação. Eu não conseguiria encará-lo! Me irritava ao saber o
quanto aquilo era um assunto delicado para nós, mas para os outros
não tinha problema em assumir um compromisso em nosso nome.
Não que eu não estivesse de acordo, pois eu cuidaria da criança
sem pensar duas vezes. No entanto era horrível não ter a
sinceridade ou a decência de uma conversa sobre a nossa própria
família.
Quando voltei ele estava sentado ao lado de vários outros
homens e mulheres, que eu reconheci de sua equipe. Eles tomavam
cervejas e riam de algo, e mesmo em um ambiente totalmente
descontraído era possível ver o respeito que tinham ao se referir ao
chefe. Ele era uma figura de autoridade mesmo que não estivesse
em local de trabalho.
Quando seus olhos encontraram os meus foi como se
afundasse no chão, como Atlântida, a cidade mitológica que
desapareceu no mar com todos os segredos e sonhos das vidas
que se perderam na tragédia. Eu não pude respirar por um
momento, pois ele parecia controlar meu corpo a distância, e só
quando seu peito subiu e desceu que me senti livre para fazer o
mesmo.
Não me aproximei deles, mas notei o olhar de Gary em minha
direção como se perguntasse o motivo daquele climão. Ignorei
ambos e voltei para dentro de casa. O quintal estava cheio de gente
conversando animadamente que me senti um miserável. Se eu
fizesse alguma cara feia seria o suficiente pra alguém perceber e
acabar com toda a comemoração.
Eu precisava aguentar todos aqueles sentimentos dentro de
mim, pois eram só meus. Não acabaria com o momento de meus
amigos ainda mais com a vida deles sendo a mais perfeita que eu
poderia sonhar. Logo seriam três, e ter uma criança, mesmo nunca
tendo pensado a fundo no assunto, se tornara meu sonho, mas
também meu maior medo. Ela poderia vir para acrescentar em
nossas vidas ou ser completamente o oposto, sendo a faísca para
queimar a corda que me mantinha preso a Vincent.
Procurei qualquer coisa para me distrair do que acontecia e
encontrei crianças brincando em todos os lados e seus pais pedindo
para que tomassem cuidado. Será que todo mundo havia decidido
ter filhos? Em todo lugar que olhava havia aquele sinal do meu
problema. Fui para a cozinha, pegando alguns salgados que
estavam dispostos na mesa, e comecei a me empanturrar.
— O que está acontecendo com vocês dois? — Carolina me
perguntou e quase me engasguei. — Meu filho sempre me diz como
é engraçado ver você provocando Vincent e controlando o gênio
dele, mas não estou vendo isso. Só que estão passando por algum
problema.
— Está tão na cara assim? — Limpei a boca e me apoiei no
balcão. — Me desculpa, eu não queria trazer esse clima para o seu
almoço.
— Sem problemas. Já lidei com brigas em relacionamentos de
mais pessoas que eu posso contar. Já vi coisas absurdas nas
sessões e os motivos mais fúteis possíveis.
— Sessões?
— Terapia, meu querido. Eu sou psicóloga. — Ela apontou
para os vários diplomas postos na parede.
— Eu não sabia que era. Gary não me disse nada sobre isso.
— Me formei junto com minha filha, mas ela não pode vir hoje.
No entanto o assunto aqui é você e aquele grandão que te encara
do lado de fora.
— Nós vamos casar mês que vem, como você sabe, e
perguntei pra ele sobre ter um filho. Mas como resposta ele me
disse que aquele não era um assunto que queria discutir.
— Ele te deu algum indício de que não queria ter um?
— Não, mas também nunca falamos sobre isso. Eu sei que ele
sempre quis ter um ou estava em seus planos enquanto namorava
com Karen, a ex-namorada dele. E ela pode gerar um filho e eu não.
— Dê tempo ao tempo e não force no momento. Talvez tenha
acontecido algo na vida dele e a falta do pai pode ter criado algo
trauma
— Eu não vou mais falar sobre isso, mas… Eu não consigo
parar de pensar que estraguei tudo. Ele já negou conversar sobre
isso duas vezes só hoje, e eu estou lutando muito para não chorar
de frustração.
— Pode chorar se quiser, meu querido.
— Eu não posso. Ele vai saber que algo está errado e ele não
pensa direito quando me vê assim.
— Mas é isso mesmo que você tem que fazer. Ele tem que
saber como você se sente. De que adianta casar se não podem ser
sinceros um com o outro?
— Nossa, Carolina. — Senti como se alguém tivesse me
estapeado no rosto com todos os meus erros. — Quanto eu te pago
pra falar com ele?
— Isso eu deixo com você.
— Por isso que eu não faço terapia. A gente paga uma fortuna
e jogam tudo no nosso colo. — Brinquei e ela me apertou as
bochechas.
Fomos para o lado de fora e nos sentamos a mesa com todos
os parentes e amigos de Gary conversando. Vincent estava em pé,
bebendo com eles, e estava tão lindo. Sempre era hipnotizado por
tudo o que fazia, e o simples movimento de colocar a garrafa na
boca e seu pomo de adão subir e descer ao engolir o líquido me
fazia querer beijá-lo.
Enfim, o almoço começou a ser servido e um dos tios da
família Richards começou a passar oferecendo carne. Peguei
alguns pedaços e fiz um prato para mim e para Vincent, que depois
de o encarar se sentou ao meu lado. Se aproximou de mim com a
cadeira, de forma que eu ficasse entre suas pernas.
— Você está chateado comigo. — Sua voz reverberou dentro
de mim.
— Estou triste porque você não quer conversar. — Encarei seu
rosto e tirei uma sujeira de sua barba. — Você sabe tudo de mim,
Vincent, e eu nunca fiz questão de esconder nada de você, porque
confio em você mais do que em mim mesmo. Mas eu sinto que me
deixa de fora da sua vida.
— Você sabe que tem certas coisas que eu não posso te
contar. — Suspirou.
— Eu sei e não me importo com o seu trabalho, mas você não
querer conversar comigo sobre formarmos uma família… Sua mãe
me disse que sempre quis ser pai, então não entendo o motivo de
não falar sobre isso.
— Esse é um assunto complicado, Parker. E eu não estou
pronto pra falar com você.
— Então quando, Vincent? — Indaguei, frustrado demais pra
tentar conter as lágrimas. Não queria atrair a atenção, mas alguns
convidados já estavam olhando. Então me levantei e entrei na casa
até encontrar um quarto onde pudesse ficar trancado.
Ele não veio atrás de mim, não tentou me segurar ou me
manter perto de si. Somente me deixou sair, como se estivesse
cansado de lidar com os meus chiliques. Eu o amava tanto que
chegava a doer dentro. Não era para me sentir daquela forma e não
devíamos discutir por aquilo que era parte da vida de todos os
futuros casais.
Queria que me contasse o que havia dentro de si, e me
deixasse ajudá-lo a lidar com o que havia lhe machucado. Se fosse
algum problema que estivesse enfrentando eu faria de tudo para
poder resolver.
Não aguentava ficar mais naquela casa. Precisava ficar
realmente sozinho para deixar tudo o que estava dentro de mim sair.
Chorar me fazia bem e queria poder fazer aquilo sem correr o risco
de várias pessoas estarem do lado de fora, curiosas para saber o
que acontecia. A verdade era que necessitava ficar longe de
conhecidos para colocar a cabeça no lugar.
Me forcei a mascarar meus sentimentos e esperei o carro do
aplicativo parar em frente da casa. Disse que estava a caminho e
saí para me despedir. Vincent me encarou e fui até ele, lutando
contra todos os meus impulsos de me jogar em seus braços e pedir
que não me deixasse de fora da sua vida.
— Mandy precisa de mim. — Expliquei. Ele tentou se levantar,
mas fui mais rápido. Não queria que me levasse, pois não estava
pronto para ficar sozinho com ele. Então disse alto. — Não precisa
me levar, meu amor. Gary, cuide dele pra mim, tudo bem? Carolina,
aconteceu uma emergência com a minha amiga e eu preciso ir.
Prometo que volto outro dia. Me desculpe.
— Vai cuidar dela e de seu coração. — Sorriu, sabendo muito
bem que estava mentindo.
— Eu falo com você depois. — Beijei Vincent rapidamente,
acariciando seu rosto. Eu estava afundando cada vez mais dentro
daquela tristeza. E o mito de Atlântida novamente veio para ser a
referência do meu emocional. Estava inundando todo o meu corpo
com a insegurança.
Me afastei e assim que não havia mais ninguém na minha
frente, chorei. Pedi para que o motorista seguisse caminho, me
afastando do homem que eu amava, mesmo que temporariamente.
CAPÍTULO 19 - Informações
Proibidas

Não poderia ir para meu apartamento pois seria o primeiro


lugar que me procuraria assim que saísse nervoso do almoço, e
pelas mensagens me perguntando onde estava ou para onde ia,
fiquei ainda mais inseguro. Sendo assim, fui para o parque de
diversões mais próximo e paguei minha entrada, me misturando
com todas aquelas pessoas. Talvez o clima de lá fosse melhor que
ficar sozinho.
Era um final de semana, então todos aproveitaram para curtir o
dia ensolarado com a família. Para todo lugar que olhava via seus
sorrisos e tudo o que não estava sentindo no momento: felicidade.
Vincent tinha um poder tão grande de influenciar minhas
emoções e tudo parecia tão natural que eu não me questionava,
mas naquele momento, naquele mais simples motivo, ele não me
fez bem. Fui em direção a roda gigante e agradeci por sempre ser o
brinquedo mais vazio, pois não tive que esperar para entrar em uma
cabine, e enquanto ficava sozinho com os meus pensamentos, pude
chorar como uma criança.
Por que ele se recusava a conversar comigo? Não conseguia
entender. E não sabia de nenhum trauma que havia lhe acontecido.
Provavelmente, aquele segredo ele mantinha a sete chaves até de
sua própria mãe.
Me perguntei se havia algo relacionado ao seu envolvimento
com Karen, mas decidi não seguir por aquele caminho. Vincent
também não poderia ter um filho escondido, pois era correto e
cuidadoso demais para cometer um deslize. Ter uma criança, pelo
que tinha de motivos até o momento, não fazia parte de seus
planos.
Lá do alto pude ver grande parte da cidade e me perguntei se
em algum lugar, em um mundo diferente, eu estaria daquele jeito se
houvesse investido em algum outro homem?
Havia saído de um país onde poderia ter continuado minha
vida pacata com minha mãe, relevando toda sua ausência e nunca
ter me arriscado em meu sonho. Mas não! Era incrível pensar que
tudo o que fiz me fez estar naquele apartamento, naquela noite,
para que pudéssemos nos encontrar. Quantas coisas haviam se
alinhado, tanto boas quanto ruins, para que nós cruzássemos o
caminho um do outro?
Não sabia quantas voltas o brinquedo deu, mas um dos
trabalhadores do lugar me parou, assim que cheguei ao térreo mais
uma vez, me perguntando se eu estava bem ou se precisava de
algo. Ri e respondi que tudo estava bem. Ele me reconheceu do
papel que fiz no curta de Calisto e pela série de TV e me pediu um
autógrafo, o que dei com prazer. Eu não era tão conhecido assim, o
que me fazia conseguir andar tranquilamente pelas ruas ou por
lugares movimentados sem sofrer alguma perseguição maluca.
Meu celular vibrava em meu bolso a cada chamada e
mensagem, e tudo o que eu fazia era ignorá-lo. Não queria e não
falaria com Vincent. Eu precisava recuperar meu gênio. Aquele que
me fizera vir sozinho para aquele país e perseguir meus objetivos.
Precisava voltar a ser aquele jovem homem de personalidade forte
que era antes dele, e por quem se apaixonara em primeiro lugar.
Quando me senti bem o suficiente, deixei o brinquedo e no
caminho para o restaurante do parque tirei algumas fotos com
alguns fãs. Tirei uma para mandar para Mandy e a avisei onde
estava, pedindo para que não dissesse nada para o suspirador.
Estava entretido lendo as ameaças de Vincent quando me
encontrasse, que não percebi quando alguém se aproximou,
somente quando se sentou ao meu lado que vi de quem se tratava.
E não o via a mais de dois meses por conta de nossas matérias
diferentes na faculdade e projetos individuais.
— Que surpresa boa te encontrar aqui, Parker. — Frederick
me cumprimentou. Ele estava lindo e dizer o contrário seria um
crime. Sabia muito bem apreciar a beleza masculina sem segundas
intenções.
— Quanto tempo. — O abracei amigavelmente, e senti que me
segurou um pouco mais que o necessário.
— Eu voltei agora de Londres. Fui passar um tempo na casa
de meus pais.
— Espero que tenha aproveitado.
— Gostei bastante, mas é bom estar aqui. — Me encarou e
tomei um gole do meu suco. Ele encarou minha boca e aquilo me
deixou sem graça.
— Você ainda está com aquela loirinha? — Perguntei para que
se tocasse.
— Não! Tô solteiro e livre. E querendo achar alguém especial
agora. — Se aproximou mais de mim. — E você, está solteiro?
Terminou o relacionamento com o seu namorado misterioso?
— Ele não é misterioso.
— Você nunca o levou pra nenhum dos eventos da faculdade.
Nem assistir uma peça sua ele assistiu.
— Ele trabalha demais. — Retruquei não gostando do que
falou. — Mas sempre está comigo, Frederick.
— Não está aqui agora. Vocês brigaram ou algo do tipo?
— Isso não é da sua conta, sabia? — Me levantei, terminando
meu suco. — Foi um prazer te ver. Até a faculdade.
— Espera! Desculpa! Não falei por mal.
— Mesmo assim falou. E eu tenho que ir. Já passei tempo
demais por aqui.
— Eu pensei que a gente podia sair e conversar...
— Eu realmente tenho que ir, Frederick. E já te falo que o que
você quer de mim, eu realmente não posso retribuir. Nunca irei.
— Você nunca me deu uma chance.
— Eu sinto muito, mas não vai acontecer.
— Eu posso pelo menos te dar um abraço? — Pediu e respirei
fundo, mas aceitei. Eu realmente sentia muito por ele e queria que
não gostasse de mim do jeito que gostava. A pior coisa era não ter
seu amor correspondido.
— Eu preciso ir. — Segurei em seus ombros e sorri
discretamente. — Até mais.
— Até, Parker.
Chamei um novo táxi pelo aplicativo e me preparei para o que
pudesse acontecer. Eu teria uma discussão com Vincent,
provavelmente teria que brigar com minha mãe, pois obviamente ele
deveria ter avisado a todos de meu sumiço, pois havia ligações de
seu número, e também de meu pai e Harvey.
Pedi ao motorista para passar pelo parque central de Bisera e
fazer o caminho mais longo. Não estava com a mínima pressa e
quem pagaria a corrida seria eu mesmo. Estava com um aperto no
peito e ele aumentava todas as vezes que pensava em entrar por
aquele apartamento.
Quando estava há uns seis quarteirões havia uma
aglomeração, mas não vi uma pessoa caída no chão, mas sim um
animal. Um cachorro preto que respirava rapidamente e com uma
coleira dourada… A minha coleira dourada.
— Para o carro! Agora! — Gritei e corri em direção a ele.
Empurrei todos até chegar ao corpo do meu cachorro. Gritei pelo
seu nome e ele gemeu me reconhecendo e tentando se levantar.
Olhei para cada um deles procurando o culpado e um homem
estava com uma chave na mão, do carro que estava parado.
— Me desculpa! Ele veio correndo do nada e eu nem…
— Cala a boca e me ajuda. — Um flash indicou que alguém
havia tirado uma foto minha, mas não consegui ver quem, pois
vários deles estavam com suas câmeras apontadas para mim e
cochichando meu nome. — Anda logo!
O homem se aproximou e me ajudou a carregar Benj, que
gemia de dor. Ele era grande e eu sentia o sangue escorrer de sua
pata. O osso de sua perna estava um pouco para fora, e aquilo só
serviu pra me deixar ainda mais desesperado. Eu não pensei muito
e dei o endereço do veterinário que sempre cuidava dele.
Chegamos com ele no colo e assim que me viram, devido a
me conhecer e ao estado desesperado em que estava, vieram até
mim e logo colocaram meu filhinho em uma pequena maca, o
levando para a cirurgia. As garotas da recepção vieram até mim
com um copo de água, mas recusei. Não tinha ideia do que
acontecia comigo, porém de repente uma calma enorme tomou
conta do meu corpo. Meu desespero sumiu, como se estivesse em
um lugar completamente silencioso, porém ainda sentia a raiva
aflorar a cada segundo.
O desconhecido que havia atropelado meu cachorro se sentou
do meu lado, tentando se explicar e contar o que havia acontecido.
Só conseguia olhar para a cara dele e pensar em como o meu
cachorro tinha pegado um elevador ou aberto a porta de emergência
do prédio e descido oito andares.
— … mesmo. Ele apareceu do nada e… — Escutei sua voz,
mas fiz um sinal com a mão para parar. As pessoas haviam tirado
fotos de mim e como estava “desaparecido”, Vincent provavelmente
havia colocado alguém para me rastrear, mesmo tendo negado a
necessidade. Ele amava nosso cachorro, até mais que eu, e se
visse aquele homem seria um encontro horrível.
— Vá embora, por favor.
— Mas eu quero pagar por isso. Foi minha culpa.
— Eu falei pra você ir embora. Não precisa se preocupar, só
vai embora. Vai ser melhor pra você. Dinheiro vai ser a menor das
suas preocupações se ficar. — Ele foi até a recepção e anotou seu
número e endereço em um papel, me entregando em seguida.
— Me liga pra me informar…
— Sai daqui, por favor. — Me olhou preocupado, mas
respeitou minha vontade.
Via os olhares das recepcionistas para mim. Talvez estivessem
acostumadas com as reações mais tristes, mas eu não conseguia
derramar uma lágrima. Acho que por conta de tantas coisas ruins
que aquele dia estava me trazendo, houve algum tipo de curto-
circuito no meu sistema emocional, me impedindo de ter reações
extremas.
Não sei quantos minutos se passaram, mas Vincent entrou
como um touro. Ele respirava rápido em um misto de raiva e medo.
Ele caminhou até mim e apontou o dedo em meu rosto, sem dizer
uma palavra, mas logo passou a mão em seu cabelo andando de
um lado para o outro. Viu minha camiseta manchada e por um
segundo se controlou.
— Esse sangue é seu?
— Não. É do Benj. Ele está em cirurgia, eu acho. Ninguém me
falou nada ainda. — Minha voz estava tão calma que o fez olhar
para mim como se estivesse falando outra língua.
— Parker, eu… Quem deixou ele sair? Você não estava em
casa quando eu liguei. Ninguém estava. Por que você não atendeu
a droga do seu celular?
— Você sabe muito bem o motivo.
— O que você tem na cabeça? — Estava em pé, mas não me
movi para ver como me olhava. — Você é tão irresponsável assim
pra sair sozinho e não me avisar... não avisar ninguém? E se algo
tivesse acontecido com você? Eu quase bato o carro quando vi uma
foto sua no chão da rua segurando o Benj. Por um momento eu
pensei que tinha sido você… Quem fez isso com ele? Quem foi o
desgraçado que fez isso?
— Eu o mandei embora. Ele não tinha culpa de nada.
— Como assim mandou ele embora? — Se agachou, deixando
seu rosto próximo do meu. — Eu vou achar esse merda e ele vai
pagar...
— A culpa não foi dele, Vincent. A culpa foi de quem estava no
meu apartamento na hora. Benj não estaria na rua se alguém não
tivesse posto ele pra fora! — Abracei meus braços e aquilo o fez se
lembrar de algo.
— Eu não sei o que estava fazendo naquele parque ou
abraçado com aquele cara, mas você vai me explicar direitinho
quando chegarmos em casa.
— Você não vai me cobrar nada, porque não fiz nada de
errado. E eu não estou gostando nada do seu tom.
— Do meu tom? A gente vai se casar, Parker. O que você acha
que eu vou pensar quando ver uma foto do meu noivo abraçando
um outro homem?
— Eu nunca dei motivo nenhum pra você duvidar de mim!
Você sabe que eu sempre te respeitei e sempre vou te respeitar.
Sabe muito bem que só tenho olhos pra você e tudo o que faço
sempre penso antes se você vai gostar ou não! — Senti minhas
lágrimas descerem. Ele tentou encostar em mim, mas tirei sua mão,
o que o fez levantar e me encarar de cima.
Eu estava machucado com todas aquelas acusações sobre
traí-lo com Frederick e foi naquele momento que odiei seguir aquela
profissão e tudo o que trazia. Por causa da foto idiota que alguém
havia tirado de mim, teria mais uma coisa para que Vincent me
atormentasse.
Um dos veterinários saiu pela porta e chamou por Benj. Nos
levou para sua sala para que conversássemos com mais
privacidade. Assim que nos sentamos em frente ao profissional,
senti como se algo estivesse preso em minha garganta. Ele estava
em silêncio digitando algo em seu computador, mas logo se voltou a
nós. Vincent estava em pé atrás de mim e com uma expressão tão
fechada que me senti mal pelo doutor. Não queria ter que lidar com
aquele temperamento e muito menos com as consequências dele se
falasse algo rude. Meu querido suspirador tinha a péssima mania de
agredir com palavras.
— A situação do Benj é complicada. Ele acabou de passar por
uma cirurgia por conta da fratura e está descansando, mas assim
que melhorar realizaremos outra devido a uma correção que precisa
ser feita.
— Faça o que precisar, mas, por favor, salva o Benj.
— O custo do procedimento…
— Não importa o custo, cara! Que tipo de pergunta é essa? —
A voz grave de Vincent fez meu corpo tremer.
— Eu tenho que avisar, Sr. Salas. Esse tipo de procedimento é
inva...
— Já está avisado! Só cuida do nosso cachorro!
— Ele vai ficar bem? — Perguntei e o mesmo concordou.
— Nós faremos tudo o que for possível, Sr. Salas.
— É Hayes. Não somos casados. — O corrigi e escutei o riso
irritado de Vincent.
— Me desculpe. Vocês podem ir para casa. Ele vai passar a
noite em observação, mas assim que tivermos notícias pedirei para
uma das recepcionistas ligarem. Cuidaremos bem do Benj.
Agradecemos pelas outras orientações, na verdade, eu
agradeci, pois Vincent estava com a cara fechada e agindo como
um grosso estúpido com todo mundo, inclusive comigo. Quando
tentei dar meu cartão para o pagamento ele o tirou de minha mão
resmungando. Algumas pessoas comentaram quando eu passei, me
reconhecendo, e aquilo só serviu para ele ficar ainda mais
possesso.
Quando entramos no carro ele não ligou ou deu partida.
Escutava sua respiração forte e notava o quanto tentava se
controlar. Nunca havia visto seu lado “bravo”. Não um que fosse
completamente tomado do sentimento, pois ele era irritadiço
normalmente.
— Por que você saiu, Parker? Mandy não precisava da sua
ajuda de jeito nenhum.
— Eu não estava aguentando olhar pra sua cara sem ficar
imaginando um monte de motivos pra você não querer formar uma
família comigo. Ou pra me esconder coisas sobre você.
— De novo? — Passou as mãos no cabelo. — Por que você
ficou com isso na cabeça e por que agora? Você nunca teve essa
ideia e hoje não para de querer falar sobre filhos.
— De novo, sim! Eu quero entender o motivo! Você sempre
quis ser pai e agora não quer mais. Algo aconteceu e isso está me
enlouquecendo. Por que você queria ter um filho quando estava
com a Karen e agora não quer mais?
— O que você está inventando agora, Parker? O que a Karen
tem com isso?
— Eu não sei. Me diz você se eu estou inventando alguma
coisa. Se você não quer ter um filho comigo, porque ele não vai ser
feito da forma convencional, eu posso deixar você livre pra escolher
uma qualquer por aí, o que acha? É isso que você quer?
— Você percebe a idiotice que está falando?
— Não, Vincent! Eu não percebo! — Gritei, sentindo todo o
meu corpo vibrar. Eu nunca havia me sentido daquela forma. A ira
me contaminava. Parecia que estava prestes a perdê-lo, como
quando discutimos em meu apartamento antes de nos separarmos.
Mas eu nada podia fazer a não ser gritar para que me entendesse.
— Eu só quero entender o motivo. Você vai ser o meu marido e eu
sinto que não vou poder conversar com você sobre nada!
— Mas que porra! — Ele respirou fundo. Meu celular apitou
com uma mensagem de Mandy. Era uma foto onde existiam um
monte de fotógrafos na frente do apartamento. Eu olhava para
aquilo e só queria surtar. Vincent pegou o celular, pois também
recebeu a mesma foto. — Agora me vem essa!
— Vai me culpar por isso também?
— Eu não vou mais discutir com você. Chega!
— É claro que não…
— Eu disse chega, Parker! — Foi sua vez de gritar. A veia em
seu pescoço estava saltada e sua mandíbula inquieta. — Eu odeio
isso em você! Para de ficar querendo atacar quando não consegue
o que quer. Para de fugir e ser tão...
— Tão o que?
— Emocionado, sensível, sei lá o que! Merda! Para de achar
que isso é um problema seu. Isso é algo que eu tenho que resolver.
— Eu tenho o direito de saber sobre a sua vida e te ajudar se
puder.
— Você não tem que fazer nada!
— Eu tenho sim, Vincent! Você se intromete na minha vida e
tenta tomar conta de tudo o que pode me prejudicar. Por que eu não
posso fazer o mesmo por você?
— Por que eu não preciso de ninguém para me ajudar.
— Da mesma forma de quando levou um tiro?
— Parker, se eu te falei que eu não quero falar com você sobre
esse assunto, eu não vou falar com você sobre esse assunto e
ponto final!
— Você nunca quer falar comigo sobre nada...
— Eu disse chega! Cala essa boca, Parker! Só fica quieto!
Meu Deus!
— Você não me manda calar a boca, Vincent! Nem meu pai
tem direito de me mandar calar a boca! Eu não aceito isso!
— Você é impossível!
— Eu sou até fácil demais quando o assunto é você! —
Respirei fundo.
Eu não sabia o que dizer a ele, e não queria dizer o que
pensava. Ele nunca havia me tratado com tanta severidade. Eu
parecia o errado na história e aquele que não respeitava seus
sentimentos, mas a verdade era que só queria poder ajudá-lo com o
que quer que houvesse acontecido em seu passado. No entanto ele
estava se esquivando da pior forma possível!
— O que você ganha sendo tão inatingível emocionalmente?
Acha que vai conseguir lidar com tudo sozinho como o homem forte
e machão que é?
— Você não tem ideia...
— Quer saber? Vai se foder! Me leva pra o meu apartamento!
— Me virei para a janela. Seus olhos estavam em mim e podia sentir
suas intenções.
Eu era mimado, aquilo era um fato, mas também não era
nenhum sem noção. Porém se ele quisesse manter segredos de
mim não forçaria mais nada. Não seria eu quem tocaria no assunto,
mas sim aquele que não falaria mais sobre ele. Se ele queria me
manter fora de sua vida e segredos entre nós... tudo bem. Que
assim fosse!
O caminho foi feito em silêncio e comecei a olhar meu celular,
buscando o motivo para ter aquela multidão em minha porta. Em
meio as várias mensagens, vi que Perry havia tentado falar comigo
e por fim deixado um recado. Era um link.
Alguns dias atrás tivemos uma reunião com os diretores da
série que estava estreando, da qual havia grandes nomes no
elenco. Me preparei como um louco para que na hora soubesse
exatamente o que queriam. E aquilo havia dado frutos, pois fora
anunciado uma substituição na história e meu personagem seria um
dos pilares do roteiro. Haviam divulgado uma nova abertura e lá
estava meu personagem e nome em destaque.
A música começou a tocar baixinha e a luz iluminou todo o
carro que estava escuro. Quase não conseguia ver o rosto de
Vincent, mas ele tentava prestar atenção na rua e no que eu
assistia. Não consegui me animar com aquilo, pois sentia minha
vida uma bagunça. Meu relacionamento estava ruim, meu cachorro
internado e toda a confiança que tinha sobre meu futuro estava
derretendo como o sorvete que tinha na mão no vídeo.
— O que é isso?
— É uma prévia do meu personagem. Ganhei um papel como
um dos principais.
— Você não me contou nada sobre isso.
— Você estava estressado demais por causa do trabalho e
sabia que ia me encher de perguntas e acabaríamos discutindo.
— Eu gostaria que tivesse me contado. Eu não concordo com
essa exibição toda, mas eu te apoio no que precisar.
— Não queria arriscar, mas agora você já sabe. — Desliguei o
celular e tudo ficou escuro novamente, a não ser o painel indicando
as informações do carro.
Vincent respirava fundo e conseguia escutar muito bem. Ele
passou a língua nos lábios e por instinto peguei o pacote de balas
de menta e levei até sua boca. Não sei por que fiz aquilo, pois
queria ficar afastado dele por pura birra. Queria que me pedisse
desculpas, mas não seria tão fácil assim.
Finalmente chegamos na rua de meu apartamento e
encontramos a multidão. Eles estavam atrás de alguns homens e
reconheci como os que trabalhavam para Vincent. Assim que nos
viram, afastaram ainda mais os fotógrafos para que eu saísse. E
quando aquilo aconteceu meu nome se tornou a pior palavra do
mundo. Sorri e acenei, enquanto me perguntavam várias coisas da
série.
— Como você está se sentindo agora que faz parte do elenco
de peso? — Uma mulher colocou um microfone no meu rosto.
— Eu estou tão animado quanto você por conta da notícia,
mas vou esperar o momento certo para comemorar. Quando a
minha família estiver reunida, é claro.
— Nós sentimos muito pelo que aconteceu com Benj. Espero
que ele fique bem. — Um outro homem disse. — Nós adoramos as
suas fotos com ele e Jasmin.
— Obrigado. — Vincent parou atrás de mim, colocando a mão
em minhas costas. Sabia que ele não gostava e preferia não ser
visto comigo. Não por minha causa, mas sim pela minha segurança
devido ao que ele trabalhava. As pessoas somente o conheciam
pelo seu emprego para o governo, mas o que fazia estava guardado
a sete chaves.
— Nós escutamos rumores sobre um possível casamento. Isso
é verdade? — Outra mulher questionou e me deixou preocupado.
Quem havia vazado aquela informação? Só pessoas dentro do meu
círculo de amizades sabiam sobre aquilo.
— Eu não quero comentar e espero que entendam a minha
privacidade. — Falei e me afastei, sendo bombardeado por várias
outras perguntas e gritos de parabenização.
— Eu não sabia que sua vida estava tão exposta assim. —
Vincent ironizou assim que entramos no elevador.
— Eu não sei quem contou sobre o nosso casamento. Você
sabe muito bem, porque estava presente quando pedimos para
ninguém comentar dele.
— Isso está saindo do controle.
— Eu não sei o que você quer que eu diga, Vincent!
Meu irmão estava na porta de meu apartamento com uma cara
de culpado, e eu soube naquele momento que ele havia sido o
responsável pelo acidente de Benj. Não sabia como, mas tinha
culpa.
— Raposinha, eu sinto muito. Eu saí com ele pra correr, mas
quando deixei ele rapidinho preso na recepção pra pegar as suas
cartas, ele se soltou da guia e saiu correndo. Eu não vi...
— Harvey, eu não quero falar sobre isso. Eu só espero que o
pior não aconteça.
— Mas, Park…
— Agora não, Harvey! Eu quero ficar sozinho e pensar no que
minha vida idiota está se tornando. — Fui direto para meu quarto e
ignorei seu olhar, assim como o de Mandy.
Fui até o banheiro e liguei o chuveiro. Tudo o que eu queria
era me lavar de toda aquela carga pesada que parecia estar em
meu corpo. Me esfreguei com a bucha até fazer o sabão me cobrir,
e depois senti minha pele esquentar em contato com a água quente.
O cheiro da essência forte assumiu o ambiente e tudo em poucos
minutos parecia uma sauna coberto pelo vapor. A porta foi aberta e
Vincent entrou, me abraçando.
Sentir seus músculos por debaixo da pele macia me causou
um sentimento de culpa tão intenso que tudo o que fiz foi abraçá-lo.
Não queria ficar em maus panos com ele. Não quando toda a nossa
vida mudaria a partir do momento que disséssemos o Sim. Nós
prometemos um ao outro depois de nossa briga logo após ele me
pedir em namoro, de nunca irmos dormir separados caso
voltássemos a nos desentender.
Vincent sempre dizia que eu era o responsável por suas noites
calmas, e por ter motivos para voltar para casa. Mesmo sendo
aquele homem grosso na maior parte do tempo, era ele quem me
fazia sentir a pessoa mais amada no mundo. Ele se esforçava tanto
para que nada me atingisse...
— Eu não quero brigar com você, Parker. — Ele disse
descendo as mãos até o limite de minhas costas. — Você não sabe
o quanto me deixa desesperado e explodindo de raiva quando age
assim.
— Eu só quero fazer parte da sua vida, Vincent. — Segurei
seu rosto e acariciei sua barba vendo seus olhos fecharem, como
sempre fazia ao receber meu toque.
— Você é a minha vida, garoto! Quando vai entender isso? Eu
não paro de me preocupar com você um segundo.
Nada respondi sobre aquilo, somente permaneci em seus
braços até terminarmos o banho. Não saí do quarto nem para jantar.
Todo aquele dia havia levado minha fome embora. Porém, aquilo
não impediu Vincent de me trazer um prato de algo que Mandy
havia cozinhado, o que quase nos fez discutir novamente, devido a
sua mania de achar que não me alimentava direito só por não comer
a panela inteira como ele fazia.
Era estranho não ter Benj conosco, pois naqueles momentos
estaria de barriga para cima no meio de nós buscando carinho. Até
Jasmin estava sentida e por um tempo ficou procurando uma
posição para dormir, já que sempre ficava encostada no irmão.
Nossa pequena família estava triste com a falta de um membro.
— Eu posso te fazer uma pergunta e somente essa? — Passei
a mão nos pelos que havia em seu peito, que subia e descia em um
suspiro. Mas como se lesse minha mente, sua resposta tirou uma de
minhas inseguranças
— Eu quero ter filhos com você, Parker. Quero ter uma família,
mas vamos…. Vamos dar um passo de cada vez, tudo bem?
— Certo.
Um silêncio pairou enquanto sentia suas mãos em minhas
costas.
— Sua mão está mais macia.
— É aquele creme que você me deu.
— Finalmente está se cuidando mais.
— Não me importo com isso. Só passo porque ele tem o seu
cheiro. — Segurou meu rosto e me beijou de forma bruta e
possessiva, mas não durou muito, pois meu sorriso estava refletindo
a felicidade de sua declaração.
— Sabia que eu passava várias horas na biblioteca quando
estava morando com a minha mãe? — Ele permaneceu quieto e de
olhos fechados. Beijei o seu pomo de Adão rapidamente. — Você
está acordado?
— Estou, só não entendo como você consegue ser tão
aleatório.
— Isso tem tudo a ver com o assunto.
— Então para de enrolar.
— Grosso. — Me apoiei nele e comecei a acariciar sua barba,
traçando linhas ao redor de sua boca. — Eu passava muito tempo
lendo, e sempre gostei de cremes e artigos de higiene. Então, em
uma loucura acabei rasgando uma página de um livro da biblioteca
e levei pra casa.
— Não era mais fácil você pegar emprestado?
— Eu estava brigado com a minha mãe e para fazer o cartão
de lá precisaria de um responsável. Foi a coisa mais fácil.
— Foi a coisa errada.
— O que de ruim tem nisso?
— Causar problemas pra você e sua mãe? Foi irresponsável.
— O belisquei na costela, o que o fez abrir os olhos e me dar um
tapa na coxa. — Já falei pra parar de fazer isso.
— É só você parar de me ofender.
— Eu não te ofendi dizendo a verdade… Olha, garoto! —
Segurou minha mão quando ameacei beliscá-lo mais uma vez. —
Termina logo essa história.
— Agora eu não quero mais! — Me virei na cama, ele respirou
alto e se colocou inteiro sobre o meu corpo, deixando seu peso todo
em cima de mim. Senti como estava excitado.
— Termina essa história ou eu vou te arrancar o que queria me
falar de outro jeito.
— Você se aproveita de mim só porque é mais forte. —
Reclamei em um gemido quando passou a barba com força em meu
pescoço.
— Fala!
— Tá bom! Essa essência que você gosta fui eu que inventei.
Aprendi a fazer por conta da página que roubei do livro. Esse cheiro
só eu mesmo tenho, porque eu fiz.
— Você é único mesmo. — Me beijou e logo em seguida me
puxou, encostando seu peito em minhas costas, assumindo uma
posição possessiva.
— Você me perdoa por cometer esse crime?
— Talvez. — Inspirou fundo.
— Se serve de consolo, eu comprei o livro da biblioteca. O
garoto da recepção até me agradeceu. Disse que me via com o livro
e sempre quis falar comigo. Foi até gentil em me ajudar a colar a
página de volta e sempre conversávamos...
— Não vou entrar no seu jogo.
— Eu não estou fazendo nada. — Me irritei, pois adorava
quando ficava com ciúmes.
— Devia ter buscado um livro sobre como mentir melhor. —
Tentei tirar seus braços de mim, mas ele me apertou ainda mais. —
Eu te amo, Parker. Pode não acreditar, mas não sabe o quanto me
faz feliz!
CAPÍTULO 20 - Você Realmente
Sente Minha Falta?

Dias se passaram e finalmente Benj pôde voltar para casa, o


que me fez ser um pai muito mais presente em sua vida devido a
todos os cuidados especiais que precisaria. Era horrível vê-lo sofrer
por conta da dor, mesmo com os remédios. Era como ter um bebê
de quinze quilos e conciliar toda aquela situação com a volta as
aulas. E as gravações do seriado não estavam sendo uma coisa
fácil.
Praticamente tudo havia voltado para seu devido lugar, o que
significava que todos haviam parado de frequentar meu
apartamento. Somente Mandy estava lá, pois vivia comigo. Aquela
paz me dava muito mais tempo para pensar em minhas escolhas e
focar em algo que não fosse o rosto de Vincent ou assuntos em
relação ao casamento.
E falando naquilo, Perry havia me contado que fora o
responsável. Havia recebido um repórter para entrevistá-lo sobre
mim e nosso trabalho em conjunto e esse “profissional” havia se
aproveitado de sua boa vontade.
Minha relação com Vincent estava, no mínimo, por um fio.
Toda aquela atenção que eu recebia por estar sempre ao redor das
tão visadas celebridades estava começando afetar minha
anonimidade. Evitava frequentar as lanchonetes ou restaurante
perto da faculdade, pois haveria sempre alguém me pedindo um
autógrafo ou sendo mais invasivo. Sabia como ele odiava ter
pessoas perto de mim ou a sensação de que eu não era respeitado.
— Eu não sei por que você sempre fica insistindo em comprar
esses copos coloridos sendo que acaba usando a mesma xícara pra
beber tudo. — Mandy pegou um deles para tomar água.
— Eu compro, porque fica bonito no armário.
— Na verdade, eu sei o motivo. Compra para irritar o Vincent
toda vez que ele vem aqui, porque odeia coisas coloridas.
— Isso é uma completa mentira. — Respondi enquanto
tomava meu chocolate. — Eu nem penso nele quando faço isso.
Faço isso por mim e porque gosto. Você e ele tem que parar de ficar
achando que meus pensamentos são condicionados para ele.
— Não vou dizer que todos são, mas a maioria sim. Mas vou
fingir que acredito. Pra um ator, você está mentindo muito mal.
— Eu interpreto, sua ridícula.
— É a mesma coisa.
— Igual as suas histórias para crianças.
— Eu não acho que crianças gostem de sangue jorrando de
pescoços mutilados.
— Só as perturbadas igual você e meu irmão. — Me levantei,
dando a volta no balcão e parando em sua frente. — Vocês estão
bem sérios pelo que estou percebendo. Estou quase acreditando
que estarão juntos para o meu casamento.
— Credo, Parker! Isso foi horrível até pra você. Seu irmão e eu
estamos bem. — Se afastou, deixando o copo na pia e logo abriu a
porta para sairmos. — Você está mais amargo que antes. O que
aconteceu?
— Nada. Só estou com inveja do tanto que estão apaixonados
e não brigam por nada. Vincent e eu parecemos dois estranhos
quando estamos com alguém e ele fica ainda pior quando estamos
sozinhos. Nem parece que me ama.
— Você disse que ele está trabalhando demais esses dias, não
é? Talvez seja isso. — Entramos no elevador e logo me lembrei
dele, pois o silêncio reinava e não mais as músicas idiotas, como ele
mesmo se referia. — Vocês já se resolveram por conta daquele
assunto? Conversaram sobre filhos?
— Eu ainda sei que ele esconde coisas de mim, mas não vou
ficar insistindo. Eu me senti horrível por isso e não vou falar sobre
esse tópico se ele não quiser. Não quero ser xingado ou passar por
todo aquele estresse de novo.
— Te entendo.
— Você acha que eu estou me precipitando em me casar com
ele?
— O que quer dizer com isso?
— Acha que estou me precipitando? Será que...
— Não deixa esse tipo de pensamento te cegar para a
verdade. Vocês dois se amam como ninguém. Não conheço um
casal tão intenso quanto os dois.
— Mas não paramos de nos desentender. Fico me
perguntando se esse relacionamento não é abusivo.
— Não acredito nisso, Parker! — Me empurrou. — Apesar do
Vincent sempre ser tão protetor, isso é por conta do trabalho dele.
Não se esqueça que ele se afastou depois que brigaram antes. Se
realmente fosse um péssimo homem, não teria te deixado nem um
momento em paz.
— O amo tanto, Mandy. Mas tenho medo de que esse amor
me cegue...
— Parker, você está sendo dramático demais! Para e pense
bem em tudo o que aconteceu. Vocês dois tem culpa no cartório por
todos os desentendimentos. O que tem que fazer é trabalharem na
relação ou fazerem algum tipo de intensivo terapêutico em algum
desses retiros.
— Já vem você com esses papos de escritora. — Saímos do
elevador. — Duvido que Vincent aceitasse ir para um lugar assim.
Era capaz do lugar ser fechado por ordem maior ou as pessoas
fugirem da energia negativa que tomaria conta dele.
— Eu ainda tenho medo quando ele fica de cara feia... — Ela
apertou meu braço, parando na recepção assim que viu algo. — Oi,
Vincent! Como você está? Estávamos falando agora mesmo sobre
você.
— Bom dia, Mandy. E o que estavam falando?
— É... — Ela ficou travada em sua própria desculpa.
— Comentei que você não sabe dormir sem me tocar e ela me
disse que Harvey é o completo oposto. São conversinhas bestas de
apaixonados que vivem num mundo cor de rosa. Você não
entenderia. — Segurei seu rosto e lhe beijei.
— Vim levar os dois para faculdade.
— Isso é ótimo! Fiquei a noite inteira escrevendo.
— Você escreve correndo por acaso para estar cansada?
— Eu... Você não escreve, então não sabe. — Ela me olhou
com um sorriso amarelo e eu só cruzei os braços.
Vincent me encarava e já o conhecia o suficiente para
identificar o olhar que tinha, e ele sabia que eu sabia que o que
queria falar comigo era algo que não queria acreditar estar
acontecendo novamente.
Entramos no carro e não consegui controlar minha cara
fechada. Não dei um pio sequer e muito menos ele. Olhei para
minha amiga no retrovisor e ela parecia uma criança com medo de
apanhar dos pais. Eu riria se não estivesse prestes a receber uma
notícia que acabaria com a minha manhã.
Ele comandava todos de seu departamento, e assumira ainda
mais responsabilidades depois que Karen, por algum motivo, se
mudou para um lugar que eu não me importava. Até mesmo longe
ela arrumava um jeito de atrapalhar minha vida. Ele quase não
parava mais em casa e tudo o que fazia era ficar de cara naquele
computador e celular, delegando todo mundo o tempo todo.
Assim que paramos em frente a faculdade, Mandy nem
precisou de uma deixa para sair do carro. Se despediu de Vincent
rapidamente e me deixou com a fera.
— Pode ir pra onde quiser.
— Você nem sabe o que eu vou falar.
— Vincent, assim você me ofende. — O encarei, quase
sorrindo. — Eu conheço esse seu olhar de quem está prestes a me
deixar. Por quanto tempo dessa vez? Uma semana ou um mês?
Você volta para o seu casamento ou prefere que a gente remarque?
Ele ficou quieto, fazendo com que o olhasse surpreso, com um
sorriso de descrença e minha irritação veio com toda potência.
— Eu não acredito! Você vai fazer isso mesmo?! Parabéns,
Vincent!
— Você sabe como funciona o meu trabalho, Parker.
— Tem razão. Eu sei como funciona o seu trabalho. O que eu
não sei como funciona é o nosso relacionamento! — Ele suspirou.
Como tinha a coragem de fazer aquilo? Eu não conseguia entender
o motivo de continuar com tudo, sendo que ele estava disposto a
adiar o momento mais importante de nossas vidas. Pelo visto, o
momento mais importante da minha.
— Nós só vamos adiar a data.
— Só? — Peguei minha bolsa, mas ele trancou a porta. — Me
deixa sair, Vincent.
— Não até a gente conversar sobre isso.
— E você escolhe justo de manhã, antes da minha aula pra
falar sobre isso? Que ótima maneira de me contar que vai voltar
com as palhaçadas de viajar a trabalho e adiar a data do nosso
casamento. Porque eu não sei se você sabe, mas vou casar com
você.
— É o único momento em que você está sozinho e não
correndo pra lá e pra cá com o seu trabalho.
— Eu não acredito que você está com raiva do meu trabalho.
Hipócrita! Eu sempre fui compreensivo com o seu, mesmo quando
você me deixava sozinho no meio da noite pra resolver a droga de
um problema que os inúteis que trabalham com você não
conseguem.
— Cuidado com o que vai falar...
— Se não o que? Me fala, Vincent! Eu estou aqui, preso dentro
do seu carro, contra a minha vontade, pra escutar você falar que vai
adiar o nosso casamento por conta do seu trabalho ridículo. Se
formos colocar na balança, eu passei mais tempo chorando e
sofrendo por você do que apreciando sua deliciosa e estimada
companhia. Acho que na verdade me apaixonei pelo sofrimento que
você me causa e não pelo amor. Eu devia fazer terapia, porque tem
alguma coisa errada comigo.
— Eu vou fingir que não ouvi o que disse.
— Eu posso repetir pra você quantas vezes quiser. — Apertei
meus olhos tentando impedir o choro idiota. — Na verdade, eu acho
melhor mesmo você ir. Aproveita e pensa seriamente sobre o que
quer para sua vida. Eu cansei de me doar para você e só receber as
migalhas da sua atenção.
— Eu não estou…
— Me deixa sair desse carro agora!
— Não terminei de falar com você.
— Eu não me importo! Eu quero sair desse carro agora,
Vincent. Abre essa porta!
— Será que dá para você ser um pouco mais maduro?
Lá vinha ele novamente me fazendo parecer um impulsivo. Eu
rodei a aliança em meu dedo, me lembrando de como me senti feliz
quando me pediu em casamento. Respirei fundo e tentei me
acalmar.
— Não temos mais nada pra conversar. Você já disse para o
que veio, agora pode ir para o seu trabalho. Eu quero ficar sozinho
pra não ser imaturo como você diz e fazer algo imaturamente
imaturo.
— Eu não queria ir, Parker. Sabe que não! Não queria adiar o
nosso casamento, mas ninguém mais pode fazer isso.
— Você realmente acredita que isso seja verdade? — O
encarei, sentindo meu corpo queimar de irritação. — Você tem medo
do que, Vincent? Você realmente quer se casar comigo?
— Parker…
— Eu preciso ir para a aula. Eu tenho compromissos e procuro
honrá-los. — Me virei ao escutar seu celular tocar. — Você também
tem e são sua total prioridade.
— Não…
— Abre a porta! Depois a gente conversa. Eu preciso estudar e
você carregar todo mundo nas costas. — Ele desligou o celular e
me encarou mais uma vez. — Eu só queria que você se dedicasse a
mim como é com o seu trabalho.
— Eu faço tudo por você.
— Você tem um senso distorcido sobre o que é se doar em um
relacionamento. — Seu celular tocou novamente e ele xingou. —
Abre essa porta e vai embora. Eu não aguento mais isso.
— Quando eu voltar, vamos conversar. — Ele destravou a
porta e tentou me beijar, mas desviei seu rosto com minha mão.
Mas na verdade queria lhe estapear milhares de vezes.
— Tudo o que você quiser.
Fechei a porta com todo o cuidado e não olhei para trás até
entrar no edifício. Esperei seu carro sair e fiquei alguns minutos me
certificando de que não voltaria. O que era quase certo, já que eu
sempre era sua segunda opção. Não fui para a aula, pelo contrário,
peguei um taxi direto para o parque no centro da cidade. E fiquei lá
ignorando tudo.
Minha vida era uma droga mesmo. O que eu tinha na cabeça?
Queria me bater por ainda me iludir com Vincent. Todas as coisas
que me dizia quando estávamos juntos só serviam para que me
domasse como um carneiro e o deixasse no seu rebanho. E como a
besta que eu era, caía direitinho em sua lábia.
Depois de caminhar até o shopping acabei encontrando Calisto
e Jared, e novamente senti inveja de tudo o que viviam. Nos últimos
meses passaram por alguns problemas envolvendo o passado dele,
e Vincent os ajudou a lidar com o maior, já que de alguma forma, o
homem que procuravam estava em sua “lista” de procurados.
Fiquei os encarando de longe e admirei a maneira que meu
amigo era tratado pelo seu marido. Ele era o centro do mundo para
Jared e eu queria que meu futuro marido me tratasse daquele jeito.
Não tinha que ser aquele monte de pedra sem sentimentos e
completamente cheio de ignorância. Eu passaria despercebido se
não fosse por uma garota que me reconheceu e atraiu o olhar de
meu amigo.
— Parker, que bom te ver! — Me abraçou e forcei meu melhor
sorriso.
— E aí, Atorzinho? Vi o seu vídeo na TV. Tava bonito, hein? —
Jared me abraçou e senti minhas costas estalarem. Me assustei
com aquilo.
— Ignora isso. Esse louco está com mania de ficar estalando
as costas de todo mundo. Ele aprendeu num curso de Quiropraxia
que fez.
— Mas e aí? Está se sentindo melhor? — O maior sorria com
antecipação e fiz que sim. Ele deu um aperto na cintura de Calisto.
— Tá vendo, Flor? Eu sei o que eu faço.
— Aí, tá bom, Jared. Mas o que você está fazendo aqui,
Parker? Pensei que estaria na faculdade.
— Eu não estava com cabeça hoje. — Mordi a parte interna da
boca.
— Isso tem algo com Vincent?
— Sim.
— Sai daqui, Jared! — Calisto empurrou o barbudo, que me
olhava curioso.
— Sair por quê?
— Porque você é amigo do Vincent e vai sair fofocando. E se
você contar para ele que Parker está aqui, eu faço um inferno na
sua vida.
— Tá achando que eu sou o que, uma tia fofoqueira?
— Exatamente! — O loiro pegou o celular do maior do bolso e
o mandou comprar alguma coisa. Jared ficou com cara feia
enquanto saía e pude me sentar para contar tudo o que tinha
acontecido. Desde a minha discussão por conta do assunto Filhos,
até a notícia de hoje de manhã. — Eu não sei nem o que te dizer.
Por um lado, eu tento entender Vincent, mas pelo outro, enxergo o
seu. E pra falar a verdade, eu acho isso de adiar o casamento uma
boa ideia. Talvez vocês precisem mesmo desse tempo pra pensar
bem nas coisas.
— Não acredito que você está do lado dele?!
— Eu não estou, Parker. Sabe que eu não suporto o jeito do
seu futuro marido. É um prepotente metido a besta. Mas dessa vez
tenho que concordar, mesmo que um pouquinho, com ele.
— Todo esse problema é por causa da distância. — Olhei as
pessoas andando felizes e por todo o lugar havia casais curtindo a
manhã. — Queria que ele fosse um pouco mais parecido com Jared.
— Jared é uma coisa bem fora desse mundo. — Sorriu
olhando seu marido caminhando até nós, equilibrando quatro
sorvetes na mão. — Tive sorte de encontrá-lo, e acho que Vincent
se sente da mesma forma em relação a você. Ele só... tem
dificuldade para demonstrar. Dá para ver que ele é bem reservado.
— Reservado demais para o meu gosto. — Apoiei meus
braços na mesa e abaixei a cabeça. — Ao mesmo tempo que eu
quero que ele fique perto de mim, quero que ele fique longe.
— O amor é assim. Eu sinto as mesmas coisas pelo Jared,
mas sempre querer ter ele por perto ganha em disparada. Não sei o
que eu faria sem ele nesses últimos meses.
— Trouxe uns sorvetinhos. — O barbudo se sentou na cadeira
vazia.
— Eu já falei que não é para ficar comendo tanto doce, Jared.
— Calisto brigou.
— Mas esse não é para mim, é pra ele. — Ele apontou com a
cabeça para o meu lado, mas não entendi nada, até ver ele se
aproximar.
— O que você está fazendo aqui, Vincent? Devia estar
trabalhando.
— E você na faculdade. — Ele pegou o sorvete na mesa.
— Eu não fiz nada, Flor. — Jared se defendeu do olhar de
Calisto. — Eu não falei que ele estava aqui.
— Você deixou alguém me seguindo? — Perguntei o
encarando, enquanto os outros dois discutiam em meio a
brincadeiras com sorvete.
— Eu sempre estou de olho em você, mas dessa vez fui eu
quem te seguiu. Não estava bem pra trabalhar sendo que não
estava bem com você.
— Não devia se preocupar comigo. — Limpei sua barba de um
pouco de sorvete que havia caído.
— Mas me preocupo e sempre vou. Você é tudo para mim e eu
não sei o que faria se algo nos separasse.
— Isso não vai acontecer!
— Mesmo assim me incomoda. — Suspirou e vi seu peito subir
e descer. — Você não tem ideia do quanto me tem nas mãos,
Demoniozinho.
O abracei, acomodando meu rosto em seu pescoço. Ele era
tão quente e ficar tão próximo de seu corpo fazia com que todos os
meus problemas desaparecessem, mesmo que ele fosse um deles
naquele momento. O que havia me dito martelou em minha cabeça
e tudo o que quis fazer foi pedir desculpas por ser aquele menino
imaturo, que mesmo eu não admitindo, eu era. O orgulho me
tomava e torcia meu nariz sempre que a verdade era jogada em
minha cara.
Era completamente egoísta quando se tratava da atenção de
Vincent, e aquilo era um fato. Não queria ter que o dividir com mais
ninguém, nem mesmo com o seu trabalho, mas sabia que era
impossível. Ele era um homem importante e eu sabia o quão pesado
era o fardo de carregar vidas em suas costas. A pressão de
comandar uma divisão enorme como aquela, onde crimes eram
cometidos, e lidar com as cobranças para que as pessoas fossem
presas, devia ser esmagadora.
Respirei fundo o perfume que quase não passava, pois
adorava sentir o cheiro de sua pele. Tantas coisas que ele abdicou
por mim, só pra me ver feliz ou para me agradar
momentaneamente. Ele ainda era o homem bruto por quem eu me
apaixonara, no entanto, comigo, havia aprendido a ser um pouco
mais brando em suas atitudes, e não o agradecia o suficiente por
aquilo.
Vincent me fazia ter tantos sentimentos conflitantes quanto a
nossa relação, mas não me via sem ele ou mesmo vivendo um
“amor” com outro homem. Ele fora feito para mim e eu para ele.
Nada mudaria aquilo!
— Me desculpa pelo que falei no carro. — O encarei, ainda
assimilando. — Eu fiquei nervoso e acabei descontando em você.
— Eu também tenho que me desculpar por isso.
— Quero que entenda que meu trabalho, tudo o que eu faço,
não é por mim. Você é quem está na minha cabeça a todo
momento. Toda santa coisa que eu faço você está lá, como se fosse
uma das condições pra eu tomar cada decisão.
— Então acho que você entende como me sinto. Isso pode
não ser saudável para nenhum dos dois, mas eu não consigo deixar
de me sentir assim. — Toquei seu peito, desabotoando uns dois
botões de sua camisa. — Você vai mesmo continuar com a viagem?
— Não... — Suspirou. — Eu vou arrumar um jeito. Eles vão ter
que entender.
— Vincent, se isso te colocar em algum tipo de problema, eu
não...
— Eu não vou adiar o nosso casamento, Parker. Nate já me
avisou sobre essas situações, mas eu não sei por que fico
cometendo os mesmos erros.
— Você conversa com ele sobre nós?
— Ele é meu chefe. É a responsabilidade dele saber se eu
estou bem ou não pra comandar a equipe. Da mesma forma que eu
tenho que ficar de olho no Gary e nos outros.
— E o que você fala de mim?
— Vou te levar pra um lugar. — Ele me segurou pela mão e me
levantou com ele, ignorando minha pergunta. — Obrigado pelo
sorvete, Jared.
— Disponha.
— Tchau, Cali. — Me despedi e ele me mandou um beijo.
— Cuida bem do meu ator favorito, Vincent.
— Acha que eu faço o que, Calisto?
— Você tá vendo como ele me responde? — Escutei Calisto
reclamar, e sorri para Jared que abraçou o amado, se divertindo
com a birra que ele tinha com Vincent.
Saímos de mãos dadas pelos corredores do shopping e aquilo
me fez sorrir, ao pensar em nós dois como um casal sem
preocupações além de fazermos um ao outro feliz. As pessoas nos
olhavam, na verdade, olhavam para Vincent e até podia ler suas
mentes ao se perguntarem o que um homem daquele estava
fazendo ao meu lado. Eu tinha minha beleza e ela era notável, mas
meu futuro marido sempre seria o sinônimo de masculinidade e
desejo. Aquelas pessoas deviam morrer de inveja.
Esse pensamento me fez rir e ele me olhou em dúvida, mas o
acalmei dizendo que não era nada. Até tentei perguntar onde estava
me levando, mas foi inútil. Nenhuma palavra saiu de sua boca.
Algo nele estava diferente de quando nos despedimos de
manhã. Estava mais calmo e até pensativo. Era quase possível ver
as palavras se formando em sua mente em alguma linguagem que
eu não conseguia entender. Levei minha mão até a sua e a segurei.
Era um gesto que ele tinha o costume de fazer, como para me
mostrar que estava do meu lado, e decidi fazer o mesmo.
Poucas pessoas tinham liberdade para conhecer quem ele era
realmente. Mas era evidente de que algumas coisas somente ele
sabia sobre sua vida.
— Onde estamos, Vincent? — Olhava admirado por todas as
árvores ao meu redor. Parecia um santuário da natureza, com todas
aquelas flores e espécies de plantas que eu nem sabia nomear.
Tínhamos nos afastado do centro da cidade e ele havia dirigido por
longos minutos até lá.
— Encontrei esse lugar quando procurava uma casa com a
minha mãe.
— Você disse que queria ela mais perto, mas pensei que ela
ficaria na sua casa.
— Eu queria um lugar que lembrasse onde ela morou na
infância. Ela sempre me contava com saudade sobre a fazenda, das
flores e essas coisas. Ela gosta da calma, assim como você. — Ele
seguiu por um caminho asfaltado, mas completamente protegido
pelas copas das árvores. Ele parou em frente a um grande portão e
com um botão em uma chave o abriu, revelando um jardim enorme.
Havia uma casa enorme no topo do terreno e várias árvores
estavam em volta — Eu encontrei essa casa pra ela e quando eu
mostrei sabe o que ela me disse? Que você ia adorar esse lugar.
— Ela tem razão. Mesmo daqui dá pra ver que é uma casa dos
sonhos.
— E o melhor é que é nosso. — Ele apertou um botão em um
controle e o portão se abriu.
— Vincent, você não fez isso!
À medida que ele seguia pelo terreno, via a extensão de tudo.
Era um grande paraíso! Se eu pudesse descrever o lugar seria: A
Morada De Anjos. Descemos em frente a construção de dois
andares e ele me deu a chave.
Fui na frente e não conseguia parar de tremer. Moraríamos lá e
seria nosso lar assim que nos casássemos. O interior era a coisa
mais linda que poderia imaginar. A iluminação por conta das janelas
parecia vir do próprio paraíso, dando um ar etéreo e milagroso.
Subimos as escadas e ele me guiou até nosso quarto.
As cortinas estavam fechadas, mas quando as abriu reflexos
do espelho d’água tomaram conta de tudo, em uma versão muito
mais bem planejada do meu quarto. Ele havia pensado em tudo o
que me agradava. Fui até a varanda e bem abaixo de nós estava
um lago rodeado de pedras, como o que existia em sua casa.
— Vincent, eu não acredito que você fez... — Não consegui
impedir meus olhos de lacrimejarem. Ele veio por trás, me
abraçando. Senti seu peito encostar em minhas costas, fazendo
tudo parecer um sonho. — Por que você mentiu para mim quando
disse que não me ajudaria a comprar nossa casa?
— Queria fazer uma surpresa para você, mas estava difícil
encontrar o momento certo pra te mostrar. E quando eu não faço o
que quer, você faz birra e desiste.
— Assim eu me sinto um monstro por brigar com você.
— Tudo eu fiz pensando em você e no que vamos construir
daqui pra frente. Não penso em mais nada a não ser em como você
está, como vai estar daqui a cinco minutos e em qualquer hora. Te
fazer feliz é a primeira coisa que vem na minha cabeça quando eu
acordo e a última antes de dormir.
— Eu ainda não acredito que você foi capaz disso.
— Sou capaz de qualquer coisa pra te fazer feliz. Você não
sabe como eu sinto a sua falta mesmo você estando aqui. — Beijou
meu pescoço causando uma imensidade de reações que deixaram
meu corpo mole. — Gosto quando você fica assim para mim.
— Você realmente sente minha falta?
— Você é o ar que eu respiro. — Me virou em seus braços.
— Isso foi bem romântico pra alguém que diz não ser um. —
Sorri me enchendo de amor. — Eu te amo mais que tudo, Vincent.
Sinto muito por brigar tanto com você e ficar tocando em assuntos
que...
— Eu quero ter filhos com você, Parker. Quero ter minha vida
ligada à sua dessa forma.
— Não precisa falar sobre isso agora, Vincent. Eu não quero te
pressionar a nada.
— Eu aprendi minha lição depois daquele almoço. — Seus
dedos acariciaram meu rosto, me forçando a fechar os olhos e
aproveitar aquele momento. Nunca o vira daquela forma. Conseguia
sentir, mesmo por fora ainda sendo o homem grosseiro, uma parte
macia e machucada em seu interior. Era como se pela primeira vez
estivesse em presença de sua alma.
— Eu estou pronto para o que quiser me contar, Vincent.
— Meu relacionamento com Karen, mesmo não dando certo
no final, sempre foi razoável no máximo. Eu poderia muito bem
continuar com aquela vida se ela não fosse tão nojenta como um ser
humano. Ela me escondeu quem era por todo o tempo e eu descobri
da pior maneira.
Ele se sentou no pequeno sofá que havia na sacada de nosso
quarto e me colocou em seu colo, acariciando minha barriga com o
que parecia ser uma devoção por algo que em sua cabeça poderia
estar lá.
— Nós estávamos prestes a nos separar, porque estava
insustentável manter o nosso convívio. Minha mãe sempre me falou
sobre não gostar dela, mas eu achava que era ciúmes e não dei
atenção. Até o dia em que eu terminaria tudo e ela me contou que
estava grávida. — Ele me olhou com um sorriso que somente
transpareceu a tristeza. — Eu sempre quis um filho pra ser
exatamente o homem que meu pai foi pra mim.
— O que aconteceu?
— Eu coloquei na minha cabeça que devia dar mais uma
chance para nós dois, mas ela não queria mais alguém entre a
gente... nem mesmo o nosso filho, porque ele atrapalharia suas
chances de conseguir a promoção que tanto queria no nosso
trabalho. Ela precisava que eu ficasse do lado dela para passar
credibilidade e confiança, mas assim que conseguiu o que queria,
tudo acabou. No dia em que eu voltava do trabalho, quando cheguei
em casa pronto pra perguntar se queria viver comigo, a encontrei
com um papel na mão.
— Vincent, eu...
— Ela me usou para chegar aonde queria. Mas o que mais me
machucou como homem foi ela ter usado nosso filho... Ela abortou o
bebê como se fosse nada. — O abracei, o sentindo apertar minha
perna, como se aquilo fosse evitar o choro. — Ela disse que não
queria arruinar a vida dela com uma criança. Que tipo de pessoa faz
isso?
— Eu sinto muito, meu amor.
— Isso ficou enraizado em mim. E quando tocou nesse
assunto tudo o que vinha em minha cabeça era como você em
algum momento desistiria da ideia, e mais uma vez meu sonho seria
jogado fora.
— Eu nunca faria isso, Vincent! Ter uma família com você é
tudo o que eu mais quero. E mesmo que eu não possa gerar um
filho, mesmo que ele seja adotado, ele seria nosso! Eu nunca faria
algo assim com você.
— Eu sei disso, mas minha cabeça ficou tão fodida que não
parei para pensar com quem eu estou prestes a casar. — Ele
segurou minha mão. — Eu fico falando que você é um demônio na
minha vida, mas a verdade é que é o meu anjo.
— Eu te amo, Vincent. Me sinto tão dependente de tudo o que
você é, mas não me importo com mais nada quando estou com
você. Eu quero passar o resto da minha vida do seu lado.
— E eu sou o homem mais feliz do mundo por isso.
O beijei, sentindo sua barba arrepiar meu corpo inteiro, assim
como suas mãos ao descerem e subirem pelas minhas costas,
tirando minha camisa da forma mais habilidosa possível. Seus olhos
brilhavam assim como os meus, enquanto admirávamos um ao
outro naquele momento em que não só nossos corpos estavam
despidos, mas também nossas almas.
Me levou até nossa cama, se colocando em cima de mim, me
cobrindo de tudo o que poderia me afetar e me fez seu. Ele
completou meu interior da forma mais intensa possível. Não
consegui controlar meus impulsos ao chorar de felicidade e o beijar,
transferindo todo o amor que eu sentia para ele.
Aquele momento era o marco do início de nossa história, em
nossa nova casa, em nosso novo caminho e em nosso novo
paraíso. Não conseguia tirar minhas mãos dele e enquanto o sol se
punha no horizonte, indicando o quanto nos amávamos, o que fazia
era pedir para que tudo fosse perfeito.
Nossas carícias eram sinceras e não havia espaço para
dúvidas ao dizermos e expressarmos o nosso amor. Eu queria tirar
aquela lembrança horrível dele e teria sucesso. Daria a ele a família
que tanto quis e a chance de cuidar de nossos filhos da forma que
tanto desejava.
— Você me faz completo, Parker.
— Eu sempre sentia falta de algo durante toda a minha vida e
agora eu sei que essa coisa era você. — Beijei seu peito enquanto
olhava para o lado de fora, onde as estrelas davam os sinais de que
brilhariam perfeitamente ao lado da lua. — Eu vou te dar a família e
os filhos que tanto pediu, pra você ser o pai maravilhoso que
sempre quis ser. Mas saiba que eu vou ser o pai bonzinho. Você
combina mais com o pai chato e exigente.
— Eu não tenho problema com isso.
— O seu pai se orgulharia do homem que é, Vincent. Eu posso
não o ter conhecido, mas sei de que tudo o que você lutou e tudo o
que você teve que passar, somente serviu para que todos o
tivessem como um exemplo e te admirassem. Digo isso porque eu
te admiro.
— Eu só preciso de você na minha vida. Só preciso saber que
você confia em mim e que está do meu lado. — Acariciou meu
rosto, deixando um beijo sincero e sereno em meus lábios. — Saber
que você me olha com orgulho é o suficiente.
— Eu sei que não sou o exemplo de alguém saudável em um
relacionamento, e minhas atitudes podem não ser as mais corretas,
mas eu vou tentar mudar por você. Sei que não é do seu feitio fazer
essas coisas, mas eu vejo que se esforça, mesmo ainda sendo um
grosso, para me entender. — Senti um beliscão seu em minha
perna. — Prometo que vou fazer de tudo para cuidar de você da
mesma forma que cuida de mim.
— Eu te amo, Demoniozinho.
— Eu também te amo, Sr. Policial-Não-Tão-Comum.
CAPÍTULO 21 – Mergulhando

Dormir com Vincent em nossa nova casa foi uma das coisas
mais incríveis que poderiam ter acontecido. Não foi pelo fato de
termos feito amor depois de tanto negar os desejos de nossos
corpos, mas sim pelo motivo de que estávamos dentro do lugar
onde nossa vida seria construída dia após dia, mesmo com todos os
obstáculos que pudessem aparecer. Tinha plena certeza de que
mesmo com todas as nossas birras, mais de minha parte, tudo
entraria no seu eixo.
O ponto negativo de se morar um pouco longe da cidade seria
a lidar com a demora com a entrega de coisas simples com uma
pizza. Um de nós teria que aprender a cozinhar, e conhecendo o
homem com quem me casaria, eu teria de desenvolver minhas
habilidades culinárias para ninguém morrer de fome.
Por incrível que pareça, ou por alguma obra divina, ninguém
ligou para ele no meio da noite e nem resolveram atrapalhar com
mensagens. Talvez tivessem a consciência de que precisávamos de
um momento a sós e aproveitar a companhia um do outro sem nos
preocuparmos com mais nada.
A sensação de paz que sentia ao lado dele, especialmente
naquele momento, onde dormia tranquilamente, completamente
vulnerável e suscetível ao meu toque, me fazia perceber que ele
precisava de mim tanto quanto eu precisava dele. Vincent era uma
parte especial de minha vida e eu não abriria mão. Principalmente
depois de saber pelo que havia passado quando se relacionava com
aquele monstro em forma de mulher. Eu entendia que era o corpo
dela e apoiava totalmente a escolha de não ter um filho, mas não
conseguia deixar de achá-la egoísta, pois o motivo fora
completamente ridículo.
Mesmo que não pudesse gerar uma vida, faria de tudo para
que pudesse ter uma família. Adotaria uma criança ou iríamos atrás
de uma barriga de aluguel. Não tinha certeza se ele queria um filho
de seu próprio sangue ou não, mas aquele era um assunto para um
outro momento. Naquela manhã seríamos somente ele e eu,
aproveitando nosso novo lar.
Vincent era o homem para mim e não me referia apenas a sua
aparência. Era óbvio que eu apreciava e muito todo o seu físico.
Poderia passar a eternidade abrigado em seus braços e sentindo
seus músculos me apertarem. No entanto era quem ele era por
dentro que fazia tudo se tornar ainda mais real e poderoso. Sua
confiança e atitude forte sempre iam de encontro com a minha
capacidade de ser teimoso e indeciso. Era meu oposto, e mesmo
com todas as brigas que tínhamos, era por aquilo e uma série de
outros motivos que não nos separávamos.
— Vai ficar me encarando por quanto tempo?
— Que susto, Vincent! — Senti meu corpo sacudir
involuntariamente. — Qual é o seu problema? Eu ainda vou morrer
assim.
— Isso é como uma vingança por todas as vezes que você me
belisca de manhã. — Me puxou para seus braços, deixando nossos
rostos próximos o suficiente para ele cheirar minha pele. Enfiei
minha mão em seus cabelos, fazendo um cafuné que o fez fechar
os olhos novamente.
— Eu estou adorando o seu cabelo grandinho.
— Eu vou deixá-lo assim então. — Nos encaramos por longos
minutos. Massageei seu peito nu e me deixei admirar pelo quanto
aquele homem era perfeito. A sua barba tinha alguns fios brancos, o
que me atraiam até receber meus carinhos. — Dormiu bem?
— Foi uma das melhores noites da minha vida.
— Que bom. — Me colocou embaixo de seu corpo, fazendo
com que eu praticamente sumisse devido ao seu tamanho. Era
como ser envolvido pelo próprio prazer. — Eu quero ter você pra
sempre, garoto. Não vamos adiar o casamento e me perdoa por ter
pensado em fazer isso.
— Vincent, eu não quero te causar nenhum problema. —
Tentei ser compreensivo em meu tom, mas por dentro estava
gritando de alegria.
— O problema que teria com você se viajasse seria muito pior.
Eu te conheço.
— Eu não sou tão ruim assim.
— Com os outros não é mesmo. Eles se enganam com esse
rostinho inocente. — Segurou minha bochecha formando um bico
em minha boca. Logo senti sua língua aquecer meus lábios e uma
mordida deixá-los ardendo. — Eu te amo, Demoniozinho. Não vou
ficar repetindo isso, mas tenho sorte por te ter do meu lado. Meu pai
teria orgulho de mim por ter te conquistado.
— Ele já tem. Você é um homem incrível, Vincent. Qualquer
um percebe isso! E sim, ele ficaria muito orgulhoso por estarmos
juntos, mas não foi você que me conquistou. Eu quem te deixei
completamente apaixonado por mim.
— Foi sim, Parker... Foi exatamente isso que aconteceu. — Me
cobriu novamente em seus beijos.

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Os dias se passaram e novamente estávamos presos em


nossas rotinas, ele com seu trabalho e eu com as filmagens da
série. Benj também estava tomando bastante de nosso tempo, mas
nossa sorte era que Mandy era uma ótima cuidadora, e enquanto eu
estava fora ela fazia o papel de madrinha.
No entanto, uma coisa que sempre voltava para me atormentar
era a proximidade de minha mãe e esse envolvimento novamente
com meu pai. Eles estarem juntos nem era a coisa mais absurda
que eu poderia pensar, mas sim ela estar tão interessada em fazer
parte de minha vida. Aquilo nunca havia acontecido e não sabia o
que dizer ou como me comportar todas as vezes que ela aparecia
de noite me cobrando do jantar, ou me posicionando sobre os
preparativos da festa que ela e Celeste estavam organizando. Até
tentei ser mais presente, mas era a mesma coisa que querer
derrubar uma montanha com socos. Era tratado como um frágil
noivo e elas eram controladoras demais.
— Eu estou muito confiante que essa série vai ser um
sucesso, Parker. Sua carreira vai ir as alturas quando ela for ao ar.
— Perry disse com um sorriso, e falando mais coisas do que eu
conseguia entender. Ele era um ótimo profissional. — Ela e o seu
casamento vão colocar você na boca de todo mundo. Todos os
entrevistadores vão querer falar com a mais nova estrela de Bisera.
— Eu também estou ansioso, mas vamos com calma, tá bom?
Eu ainda estou receoso por conta do meu casamento ter sido
exposto. Se ele souber que foi você, mesmo que sem querer, vai
querer ir atrás dessa pessoa que foi te entrevistar e já era tudo isso.
Então tenta controlar esse alvoroço, okay?
— Nunca vou poder me desculpar por isso, Parker. Eu sinto
muito.
— Eu sei que sente. — Apertei seu ombro e vi Gary abrir a
porta do escritório. Ele me daria carona para o jantar. — Eu preciso
ir agora. Tenho uma prova de fogo agora, mas nos falamos depois.
— E aí, Vampirinho?
— Eu já disse para não me chamar assim, Gary.
— Sem essa! Você é a cara de um! Até me dá um pouco de
medo. — O agente brincou. – Mas sei que não vai me fazer mal,
né?
— Sabe o que me dá medo? Você forçar essa amizade entre a
gente e agir desse jeito.
— Tá irritado? Olha lá, Chefinho. Eu não forço a amizade com
ninguém. Sou amigo de todo mundo e ponto final!
— Eu...
— E vai arrumar um pescocinho pra morder, porque seu mal é
fome.
— Você é uma criança, sabia? É muito bem feito todo o
sofrimento que passa trabalhando para o Vincent. — Perry revirou
os olhos.
— Sei que não pensa isso de mim, Vampirinho. Você gosta, só
não quer admitir. Eu deixo seu dia mais feliz.
— Você não é engraçado e suas piadas são horríveis. Só
tenho pena da sua esposa e do seu filho que vão ter que te aturar
todo dia.
— As minhas piadas são ótimas! O Chefinho adora.
— Eu sou ator, Gary.
— Eu sei.
— Você não entendeu, não é?
— Entendi o que?
— O que esperar de você, não é, Gary? — Perry riu e eu
também.
— O que foi?
— Nada, Gary! Vamos logo! Tchau, Perry.
— Por que estavam rindo?
— Nada, amigo. Só me leva para o jantar.
Me despedi e meu segurança e amigo me levou às pressas
para o restaurante. Me preparei para todas as críticas que receberia
de minha mãe. Ela cobrava pontualidade como se fosse o governo
cobrando os impostos das pessoas. Era uma coisa muito chata de
se lidar e havia me esquecido depois de tanto tempo longe dela.
A cidade estava caótica naquela sexta-feira e o trânsito
levando todas as pessoas para lá e para cá só serviam para me
irritar ainda mais. Adolescentes estavam atravessando as ruas
todos arrumados para aproveitar a juventude, e parando para
pensar eu nunca havia ido para uma balada, como faria qualquer
estudante estrangeiro em uma cidade nova. Logo em minhas
primeiras semanas conheci Vincent e ele havia mudado minha vida
em todos os sentidos. Foi o responsável por tirar todo o meu
interesse em curtir minha solteirice.
Parei em frente ao grande restaurante e fui em direção ao
elevador olhando meu reflexo no celular, e nem me dei conta de que
estava indo direto para a porta fechada. Bateria meu rosto na frente
de todos se não fosse por um garoto de olhos incrivelmente claros.
Ele parecia um modelo, mas com uma sensualidade natural e até
provocativa no olhar.
— Você tem alguma habilidade especial? Passar por paredes,
por exemplo? — Ele sorria, e por um momento fiquei hipnotizado em
como seu rosto era perfeito. Não havia nenhum desejo de minha
parte, pois ele não era meu tipo, mas era impossível não o admirar.
— Obrigado. Estou atrasado e tentando controlar meu cabelo
que não vi que estava fechado.
— Somos dois atrasados então. — Ele encarou os números
diminuindo.
— Com todo o respeito, mas você é muito lindo. — Vi seu
sorriso novamente, mas não foi tão sincero.
— Obrigado.
— Você é o único que reage dessa forma quando te elogiam.
Não gosta muito?
— Não é isso. É que essa palavra perdeu o significado pra
mim. Já escutei tantas vezes e em certos momentos não foram da
melhor forma. Vamos. — A porta se abriu e entramos sozinhos. Ele
apertou o botão da cobertura e íamos para o mesmo lugar. — Meu
nome é Evan. E é muito bom conhecer um ator famoso.
— Você me conhece? — Fiquei surpreso com aquilo.
— Minha amiga é apaixonada pelo curta que fez e está louca
para ver a série que vai participar. Ela adorou seu personagem e em
como você era frágil e doce. — Evan imitou a voz que
provavelmente era de sua amiga. — Ela é uma fã. Posso aproveitar
e tirar uma foto pra mandar pra ela? Ela vai surtar!
— É claro. — Concordei e sorri para seu celular.
— Ela vai me encher de perguntas depois desse jantar. — A
porta se abriu e algumas pessoas entraram. — Ela já me encheu o
saco pra vir aqui hoje.
— Está em algum tipo de encontro as cegas?
— Não. Sei muito bem com quem eu estou me encontrando.
— Balançou a cabeça como se achasse a ideia uma brincadeira. —
Eu definitivamente estou indo para o encontro da minha vida. E
você?
— Vou jantar com meu noivo e nossas famílias.
— Acho que estamos no mesmo barco. Tirando a parte do
casamento, é claro. Parabéns, Parker. Te desejo tudo de bom. Eu
daria tudo pra ir em um casamento de gente rica. A decoração deve
ser incrível.
— Considere-se convidado.
— Você nem me conhece. Não posso aceitar.
— Todo mundo fala que eu sou impulsivo mesmo eu não
sendo. Então agora eu vou agir como um. Você não me deixou bater
a cara no elevador e me parece uma boa pessoa. Me passa seu
número que te mando o convite. Quem sabe você não leva a
pessoa com quem vai se encontrar hoje?
— Ele não é do tipo que vai querer ir em algum lugar com
alguém como eu.
— “Alguém como você”?
— Esquece o que eu disse. Não é nada demais. — Suspirou
quando chegamos em nosso andar. Assim que saímos, ao longe vi
um homem cheio de músculos. Seus olhos puxados indicavam que
era de algum país asiático ou tinha descendência.
— É ele? — Evan concordou. — Que gostoso!
— Deixa seu futuro marido escutar isso. — Rimos assim que
entreguei seu celular, logo após salvar meu contato.
— Ele nunca vai saber. E eu sei muito bem apreciar as coisas,
com todo o respeito possível, okay? Bom jantar. — O abracei.
Vincent me olhava curioso, e vi meu pai e minha mãe, assim como
Celeste, Harvey e Mandy. Realmente estávamos em família.
— Está atrasado, Parker. — Minha mãe disse assim que
cheguei. Cumprimentei a todos com um beijo no rosto, e
involuntariamente fiz o mesmo com meus pais. Parei por um
instante, me tocando do que havia feito, mas foi o suficiente para
deixar Yorick com um sorriso enorme.
— Deixa ele, Harper! Nosso filho é um ator famoso agora.
— É, mamãe! O Raposinha vai levar todo mundo pra andar no
tapete vermelho daqui a pouco.
— Você eu deixo no carro, Harvey. Vai me fazer passar
vergonha como sempre. — Me sentei entre Vincent e Celeste, e de
frente para meus pais. Mandy me olhou e eu sabia que estava com
vergonha. Provavelmente meu pai e irmão a tinham arrastado pra lá.
— Quem estava com você no elevador? — Vincent perguntou
enquanto olhava o cardápio de bebidas, mas logo mudei, a
contragosto da parte dele, para a parte de sucos.
— Evan. Acabei de conhecer. Me salvou de bater a cara no
elevador. — Virei seu rosto para mim e o beijei. Era impossível não
sorrir por seu ciúme.
— Só isso? — Colocou o braço atrás de minha cadeira.
— Está com medinho de me perder, Vincent? Se estiver, não
precisa. Ele não faz o meu tipo, mas você sim!
— Então vão se casar em menos de um mês. — Minha mãe
chamou nossa atenção. Ela bebia algo em uma taça. Provavelmente
uma das bebidas que eu nem sabia pronunciar e que tinha um gosto
ainda mais estranho. — Pelo que Celeste me contou já compraram
uma casa, mas ainda estou em dúvidas sobre o que vai sair disso.
Quero dizer, um casamento não é um simples namoro. Existem
responsabilidades um com um outro, sem falar sobre os bens de
cada um.
— Mãe?! O que é isso? Pra que falar dessas coisas? — Olhei
para Vincent e Celeste, mas ambos estavam portando sorrisos
discretos, como se esperassem aquele assunto.
— E por que não falar?
— Porque nós nem casamos ainda e você já está pensando
em nos separar.
— Eu não tenho a menor intenção de me separar de Parker,
Harper. Tal coisa não irá acontecer. — Vincent a encarou, e se
passasse uma faca sentiria a força de seus olhares. — Mas caso
isso aconteça não vou tirar nada dele. Farei questão de dar uma
parte do que tenho. Porém, novamente, isso não vai acontecer.
— O que você está dizendo? — O indaguei. — Eu não quero
nada disso!
— Você deve entender minha preocupação. Nós temos muito
dinheiro e não falo isso para parecer soberba, mas sim cuidadosa.
Meu filho está progredindo na carreira dele e isso vai trazer ainda
mais frutos no futuro. Quero me assegurar de que você não vai
tentar acabar com isso. Ele é muito fraco emocionalmente e ainda
mais impulsivo. E isso não é um ataque ao seu esforço, Parker.
Somente para deixar isso bem claro.
— Obrigado por esclarecer isso na frente de todo mundo, mãe.
— Eu tenho que concordar com você nesse ponto. — O idiota
suspirador acrescentou e o olhei incrédulo.
— Vincent?! É melhor você tomar cuidado com o que for falar,
porque seu não gostar não vai ter nem casamento pra lidarmos com
separação de bens.
— Cuidado que ele vai jogar alguma coisa na sua cara, igual
ele fez com a nossa mãe!
— Cala a boca, Harvey!
Chamei o garçom. Meu pai e Harvey estavam rindo
discretamente, e minha mãe continuava com sua expressão séria e
fria. A mesma de quando falava de negócios.
— Será que dá pra gente conversar sobre uma coisa mais
leve? — Meu pai falou e agradeci aos céus por alguém ter juízo. —
Estamos aqui pra nos conhecer melhor e ter uma noite agradável.
Essas coisas são do próprio casal pra se preocupar, Harper. Vincent
é um homem inteligente. E sabe que uma arma pode matar.
— O que? — Arregalei os olhos e Mandy começou a tossir,
engasgada com o suco que tomava. — Chega disso! Celeste, me
desculpa. Não era isso que eu tinha em mente.
— Não se preocupe, meu anjo. Está muito melhor que o último
jantar. — A senhora disse docemente, enquanto acariciava as
costas de minha amiga. Eu queria me enfiar debaixo da mesa. —
Mas concordo com Yorick, vamos mudar de assunto.
— Vão fazer uma despedida de solteiros? — Harvey sorria
maliciosamente. — Conheço o lugar certo para levar o Raposinha.
— Parker não vai para lugar nenhum desse tipo. Não
precisamos disso.
— Está com ciúmes, cunhado? Não confia no próprio taco?
— Não é o Parker que tem a insegurança de uma traição. —
Mandy voltou a se engasgar.
— Eu nunca trairia minha princesinha. — Harvey passou os
braços nos ombros da namorada.
— Onde pretendem passar a Lua de Mel? — Minha amiga
perguntou e encarou Vincent em uma súplica, para que não a
envolvesse.
— Ainda não pensamos nisso, mas estava querendo algum
lugar com praia. Bisera está muito fria. Estava pensando nas
Maldivas ou Bahamas. Mas quero mais as Maldivas, mesmo que
seja muito clichê.
— Podemos ir pra qualquer lugar que queira. — Vincent
entrelaçou sua mão na minha.
— Finalmente chegou! — Harvey destacou o hashi e deu
espaço para os dois garçons colocarem as barcas e organizarem a
mesa com a comida japonesa.
Começamos a comer e o assunto se tornou mais leve. Meu pai
estava feliz pelo noivado e ainda mais por poder estar junto de
minha mãe. Celeste nos dava alguns detalhes sobre o casamento e
que estavam o organizando em um campo, como um parque, onde
um de seus amigos trabalhava, e estava tão animada quanto eu.
A ficha ainda estava demorando a cair. Logo minha vida
mudaria, mas será que eu também? Nunca havia convivido com
Vincent há longo prazo devido nossas vidas, mas assim que
disséssemos o tão esperado Sim, ele seria a primeira pessoa que
eu veria antes de dormir e a primeira ao acordar.
— Mas então, vocês já estão pensando em ter filhos? Eu sei
que o meu irmãozinho não tem como engravidar, mesmo eu
sabendo que vocês não param de tentar. — Harvey disse do nada,
me fazendo desmanchar o pequeno sushi de tanta força que o
apertei.
— Harvey, eu vou te matar! — Me irritei ainda mais pelo sorriso
que deu. Ele tinha muito bem noção das palavras e falou aquilo de
propósito. Havia visto como eu ficara depois de minha discussão
com Vincent pelo mesmo assunto tempos atrás. Meu pai fez
menção de dizer alguma coisa, mas meu futuro marido foi mais
rápido.
— Esse é um assunto que vamos tratar entre nós, Harvey. Mas
caso a oportunidade apareça e realmente adotarmos uma criança,
acredito que temos a responsabilidade pra isso. Agora tenho que
pensar se vou deixar meu filho com você, já que pelo seu descuido
Benj foi atropelado e quase morreu. — Vincent tomou um gole da
bebida e voltou a comer despreocupado. — Mas como eu disse,
isso é uma coisa que vou conversar com Parker futuramente.
Um sorriso brotou no rosto de minha mãe, aprovando a atitude.
Meu irmão ficou de cara feia por um tempo depois daquilo, mas logo
voltou ao seu temperamento normal.
Ao longe vi Evan se levantar e ir em direção ao banheiro. O
homem com quem estava em um encontro se levantou também,
mas seus pais, acreditava, o impediram de ir atrás dele. Não
conseguia escutar sobre o que falavam, mas sabia decifrar que o
musculoso estava um pouco alterado. Meu mais novo amigo estava
sozinho e não sabia se precisava de ajuda, no entanto minha alma
bondosa e curiosa me fez ir até ele com a desculpa de que ia ao
banheiro.
Quando abri a porta o encontrei jogando água no rosto. Ele me
olhou, dando um sorriso sem graça antes de se secar. Não disse
nada por alguns segundos, somente se encarava, como se
estivesse analisando todos os seus traços e se criticando. Eu sabia
muito bem sobre aquilo, pois fazia a mesma coisa quando tinha
dúvidas sobre minha capacidade.
— Está indo tudo bem no seu jantar? — Evan perguntou.
— Estou em altos e baixos até o momento. E o seu?
— Eu acho que só nos baixos. Alto mesmo só o andar que
estou. — Ele soltou a respiração junto de um sorriso curto. — Eu
sabia que não deveria ter vindo até aqui, mas eu tinha que dar uma
chance para o destino me deixar ainda pior, não é?
— Nossa, Evan, está tão ruim assim? — Me aproximei.
— Não, eu é que estou aumentando. Tenho essa mania de
fazer tudo se tornar uma catástrofe. Minha relação com Alexander
não está no melhor momento... se é que eu posso chamar o que
temos de relação. É mais como uma troca de favores.
— Não entendi.
— Ele transa comigo, mas não aceita o que eu faço. Eu sou
massagista e ele acha que isso não é uma profissão digna. Eu sou
formado, tenho meu diploma e ganho meu próprio dinheiro, mas
tudo o que ele consegue ter na cabeça é de quando eu trabalhava
em uma casa noturna.
— Você era… — Fiquei receoso em usar a palavra garoto de
programa, mas ele não. Ele já devia estar acostumado a ser
comparado àquilo.
— Não! Eu, ainda bem, nunca precisei fazer algo assim.
Trabalhava no bar, servindo e preparando bebidas, mas justo no dia
que nos conhecemos eu estava dançando e cantando, pois era
minha última noite lá. Os homens sempre gostaram de me ver no
palco, mesmo os héteros. Talvez seja algum fetiche que tenham
quando estão longe da “sociedade”. Principalmente os mais
machões. Alexander se encaixa nesse tipo.
— Eu imagino. — Fui até ele e segurei seu rosto. — Olha, eu
sei que isso pode não significar nada, mas você realmente é lindo. E
não merece sofrer por ninguém! Coloca na balança o que ele te
causa e veja se vale a pena. Se você está aqui hoje, jantando com
ele e com os pais dele... são os pais dele, não é?
— Sim.
— Então, isso deve significar alguma coisa.
— Os pais deles são pessoas ótimas. Quando contei sobre
mim para eles, quando contei para o pai dele, que foi um dos meus
primeiros clientes da minha clínica, ele foi muito gentil e
compreensivo, depois até trouxe a esposa. Eu não faço nada de
promíscuo, mas o filho deles acha que sim. Tudo porque eu fiz a
besteira de fazer algo do tipo com ele.
— Talvez ele ainda esteja em aceitação.
— É vergonha, Parker! Ele tem vergonha de mim e eu sei. —
Pegou o celular e viu as horas. — Bom, já são quase dez da noite.
Vou dar uma desculpa e ir embora pra me jogar em um pote de
sorvete e batata frita.
— Se eu pudesse, iria com você. — Sorri e me despedi, o
vendo sair pela porta. Harvey entrou logo em seguida e foi até o
mictório. Não sei como conseguia usar aquela coisa. Era tão…
vulgar.
— Se não conhecesse você e o tipo dos caras que gosta,
acharia que estava traindo o Vincent com esse daí que saiu.
— Se eu não te conhecesse acharia que devo satisfações do
que eu faço pra você, mas olha só, eu te conheço e não devo
explicações. — Ele sorriu e veio até o meu lado, lavando as mãos.
— Me desculpa pelo que aconteceu com o Benj, Raposinha.
Eu sei que a gente não conversou sobre isso, mas eu sinto muito
mesmo.
— Eu sei que você não fez por mal, Harvey. Foi um acidente e
poderia acontecer com qualquer um. Não fica na cabeça o que o
Vincent te disse, mas saiba que você mereceu tudo o que ele falou,
seu idiota! De onde você tirou a ideia de fazer uma pergunta
daquelas?
— É que me veio do nada você como pai e cuidando de um
monte de criança catarrenta.
— Igual você era? — Me abraçou e passou a mão molhada de
água no meu rosto.
— Você adorava ter o seu irmãozão catarrento.
— Essa adoração diminuiu com o tempo, mas ainda tem um
pouquinho. — Beijei seu rosto. — Você acha que vai dar tudo certo?
Entre o Vincent e eu? Nossos pais? Nossa família?
— Eu quero acreditar que sim, Raposinha. Vamos ter um
pouquinho de fé que isso vai acontecer.
— Eu te amo, Harvey. Obrigado mesmo por ter ficado do meu
lado todo esse tempo.
— Você é minha responsabilidade nesse mundo, Raposinha. É
minha obrigação de irmão mais velho cuidar de você
— Me sinto muito mais seguro agora, meu guarda costas!
— Cala a boca e vamos voltar para aquela prova de
resistência. — Passou o braço em meus ombros. — Se a mãe
continuar com aquele interrogatório com o Vincent acho que vou ter
um troço e cair duro hoje mesmo.
A noite seguiu sem surpresas e sem nem uma palavra feita
para me causar um ataque cardíaco devido a vergonha. Naquela
noite eu realmente senti que tinha uma família, que tinha pais de
verdade e que realmente se preocupavam comigo. Era estranho ter
aquela reação quanto a eles.
Não fui para meu apartamento naquela noite e sim para casa
de Vincent, no mesmo condomínio de meu pai. Harvey havia
preparado uma noite especial para Mandy e aquilo não me incluía.
— Sua mãe é uma mulher muito forte, Parker. Ela já tinha me
mostrado que era da primeira vez que nos encontramos, mas hoje
pareceu muito mais uma mãe para você. — Celeste disse assim que
estávamos na estrada. O carro de meu pai estava um pouco mais a
frente, e apostaria de que se eu fizesse algum comentário sobre
Harper Hayes ela sairia correndo para me corrigir.
— Ela é sim, Celeste. Nesse último mês tem se aproximado
bastante de mim. Parece que algo mudou nela, mas ainda estou me
acostumando com essa mulher. Não sei como Vincent ficou tão
tranquilo.
— É porque nós dois sabemos o que queremos.
— E isso seria o que, Sr. Salas? — Encarei seu perfil. Adorava
vê-lo dirigir e se não fosse por minha sogra, ignoraria todos os
crimes e me sentaria em seu colo, realizando todos os meus
desejos nada inocentes.
— Que você fique bem, Parker. Já que você não consegue se
cuidar... Porra! — Xingou assim que belisquei sua costela. — Estou
dirigindo, não está vendo?
— É claro que sim! Só acho que devia tomar cuidado com o
que fala pra mim também. — Me virei sorrindo para a janela. — Mas
não pense que você vai ser o único que se preocupa nesse
casamento. Se eu vir algo que não goste, vou cuidar de você. Não
adianta se fazer de forte, porque você não é de ferro.
Ele não disse nada, mas seu sorriso convencido foi o suficiente
para encerrar aquela conversa da melhor forma possível. Ele
segurava minha mão enquanto conduzia o automóvel, somente a
soltando para trocar a marcha. Eu estava feliz ao seu lado e notei
que aquele seria um padrão em nossa vida juntos.

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Os dias se passaram e cada vez mais sentia o nervosismo


tomar conta de mim até que finalmente o momento havia chegado.
Era uma manhã de sábado e o que conseguia pensar era em como
tudo tinha que ser perfeito, pois em minha cabeça se algo desse
errado Vincent sumiria no ar como uma bolha de sabão.
Levantei direto para o banheiro e tratei de tomar meu banho
esfregando todo o meu corpo, e tirando qualquer resquício de
sujeira que existia. Mas acabei passando tanto creme que me enjoei
e consequentemente tomei outro banho para diminuir a essência.
Não sabia o que aconteceria, mas tinha noção de que minha mãe e
Celeste haviam aprontado tudo. Na noite passada fomos para um
barzinho, beber, jogar conversa fora e aproveitar as minhas últimas
horas como solteiro. Um programa light que ocorrera devido aos
ciúmes de Vincent. Ele só não precisava saber dos homens de
sunga e sarados que nos entregavam as bebidas. E o mesmo
aconteceu com ele. Meu pai, Harvey, Gary e os outros agentes o
levaram para um lugar que eu não sabia qual e preferia não saber.
Assim que terminei de me vestir, minha amiga entrou no quarto
com uma capa de proteção para roupas. Era um terno lindo de cor
vinho e camisa branca. Eu mesmo havia escolhido junto de London
e ele logo estava passando pela porta também.
— Ansioso para o seu grande dia? Desculpa não ter ido
comemorar com vocês ontem. Jackson está me deixando doido com
todas essas lutas.
— Não se preocupa, LonLon. — O abracei e vi como estava
mais feliz e com um sorriso no rosto quando falava do lutador. — E
sim, a ansiedade está me matando, mas estou tentando não pensar
muito nisso. Se eu ficar nervoso demais vou acabar vomitando.
— Eu já estaria presa no banheiro. — Mandy olhava o anel
que Vincent me dera quando me pediu em namoro. — O que você
vai fazer com ele?
— Acho que vou guardar de recordação, não sei ainda. Por
quê?
— Quando eu for mãe, vou dar meu anel de namoro para os
meus filhos.
— De onde você tirou isso? — London se sentou na cama e
começou a acariciar Jasmin.
— Eu não sei. Essas coisas devem ser como heranças de
família, sabe? Eu vi em um filme também.
— Se depender disso, não vou precisar me preocupar por um
bom tempo. Depois do fiasco que foi pra conseguir que Vincent me
falasse o porquê não queria falar sobre filhos, ele vai ter que me
implorar pra ter.
— Pronto para o seu dia? O carro já está aí na porta e vamos
aproveitar um pequeno spa antes da sua cerimônia. Sua pele vai
ficar macia como um pêssego. — Meu amigo mexeu no celular e
logo o guardou se levantando.
— Odeio pêssegos. — Fingi indignação.
— Para de graça, seu atorzinho podre. Você é meu amigo e
não caio nos seus joguinhos. Anda logo! — Peguei minhas coisas e
quando passamos pelo corredor a porta se abriu. — Ai, meu Deus!
Vincent entrou, se abaixando pra fazer carinho em Benj. Ele
estava sem camisa e a mesma estava em sua mão, ensopada de
suor. Sua pele brilhava e de onde estava conseguia sentir o calor de
seu corpo, e admirar cada detalhe de seus músculos se movendo.
Ele era perfeito como se fosse esculpido em próprio mármore.
— Por que você está todo suado e sem camisa?
— Eu estava correndo com Gary. Te avisei hoje de manhã.
— E veio até aqui sem camisa?
— Sim.
— Vincent...
— Não precisa ficar assim, Demoniozinho.
— Eu amo esse apelido. — London comentou com Mandy,
mas quando o encarei ficou sério.
— Não vou me estressar. Não vou me estressar! — Repeti
para mim mesmo, controlando minha respiração.
— Não vai?
— O que você está fazendo aqui? — Fui até ele, que me
puxou rapidamente fazendo meu coração pular. Espalmei minhas
mãos em seu peito, o apertando, mas fingindo indignação. — Você
está todo suado, Vincent. Vai me sujar.
— Eu não ligo e você também não. — Sussurrou em meu
ouvido e deu um beijo em meu rosto me fazendo arfar, pois queria
que seus lábios tomassem os meus e tirassem todo o oxigênio de
meus pulmões como sempre fazia.
— Vamos logo! Oi, Vincent! Tchau Vincent! — London me
puxou e a última coisa que ouvi foi o riso curto do homem que seria
meu marido dentro de algumas horas.
— Ninguém falou que os noivos não podem se ver no dia do
casamento? — Mandy apontou o dedo na cara do suspirador, que
só riu, fazendo sua barba me hipnotizar.
— Esse homem… Nossa! — London se abanou assim que
entramos no elevador. — Com todo o respeito, amigo, mas... que...
gostoso! Você tirou a sorte grande com esse daí!
— Eu sei. — Não contive o sorriso bobo.
O carro nos levou para um lugar afastado e tudo o que eu
conseguia fazer era bater meus pés uns nos outros até que senti a
mão firme de Mandy segurar minha perna, e sussurrar para que eu
ficasse calmo. Finalmente a antecipação estava vencendo todas as
minhas barreiras e me fazendo ser um daqueles loucos
apaixonados.
London não poderia ter escolhido um spa melhor para que eu
passasse as poucas horas antes do meu casamento. A forma como
eu estava sendo tratado me fazia parecer um rei mimado das
épocas medievais. Todo tratamento em minha pele fez parecer que
quando a tocava era uma pluma.
Queria que Vincent a tocasse. Até podia ver seu rosto e a
admiração que nele estaria, caso estivesse comigo.
Será que os amigos dele estariam o cercando da mesma
forma que os meus estavam fazendo comigo? Ou estava sozinho
em meu quarto se arrumando? Ele estaria nervoso? De manhã
parecia feliz e nenhum pouco ansioso. Muito pelo contrário, pois sua
forma de agir assim que me viu transpareceu ainda mais confiança.
Meu celular começou a apitar por conta de várias mensagens,
o que fez a manicure parar de mexer em uma de minhas mãos.
Notícias sobre o meu casamento estavam circulando e Perry me
mandava mensagens dizendo que estava cuidando delas, mas era
impossível, pois assim que uma era tirada do ar outras milhares
apareciam, como a cabeça de uma hidra.
Escolhi deixar aquilo de lado e aproveitar meu dia. Já estava
ciente de que aquilo aconteceria e deixei Vincent preparado também
para o que viesse. Sabia como a exposição o afetava e aquilo criou
uma ponta de preocupação, sendo o suficiente para minha
expressão mudar e London perceber.
— Parker, para com isso. Ele não vai te largar no altar igual
aconteceu com a Carrie em Sex And The City.
— Eu sei. — Encostei minha cabeça e fechei os olhos
respirando fundo várias vezes.
— Ele te ama e eu nunca vi alguém cuidar de quem ama como
ele cuida de você.
— Eu vejo isso com você e Jackson.
— Isso não vem ao caso. Jackson é um idiota convencido e
Vincent é um cavalheiro. — Ele virou o rosto.
— Eu tenho certeza de que ele não vai te abandonar. Não
abandonou quando te conheceu, nem quando te pediu em namoro e
nem quando te perguntou se queria casar com você. — Mandy
acrescentou.
— O Jackson também não te abandonou depois de você dar
um vexame bêbado no McDonald's, London e nem quando você
teve diarreia na casa do meu pai, Mandy. — Ri e eles reviraram os
olhos.
— Você tem que esquecer essa história. Eu precisava beber
para relaxar.
— E eu não sabia que era alérgica a camarão.
— Mas nunca que eu vou esquecer! Foram dois dos melhores
dias da minha vida.
— Que seja! — London tentou segurar o sorriso, mas não
conseguiu. Me olhou carinhosamente logo em seguida. — Eu estou
tão feliz por você, Parker. É como uma brisa no fim de tarde saber
que existem pessoas que se amam como vocês dois.
— Eu não vejo a hora de te ver lá na frente, amigo. — Mandy
disse apertando meu braço, enquanto uma mulher arrumava seu
cabelo.
— Nem eu, Mandy… Nem eu.

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O céu estava em um tom rosado, enquanto as copas das


árvores balançavam com as correntes frescas de ar que passavam
entre elas. Eu podia ver algumas folhas caindo no espaço
organizado. As faixas brancas se conectavam umas nas outras
mostrando um caminho até o altar. Me sentia em um vale de fadas e
poderia jurar que algumas delas dançavam em alegria sabendo o
que se concretizaria em alguns minutos.
Alguns convidados já haviam chegado e eram servidos com
taças de champagne, ou como Mandy dizia: a bebida de um anjo.
Eles conversavam animadamente, vi alguns amigos da faculdade e
também do trabalho de Vincent.
Era quase inimaginável que todas as minhas decisões haviam
me feito chegar até aquele momento. Nunca me pensei tendo uma
família com alguém, pelo menos não como uma coisa que
realmente aconteceria, e sim como um sonho que tinha vez ou outra
quando assistia algum romance na televisão. Porém lá estava eu,
Parker Hayes Ivanov, prestes a adicionar o Salas ao meu
sobrenome.
— Você está lindo, Parker. — Escutei a voz harmoniosa de
Evan e me virei para encará-lo. Ele estava com um homem que não
reconheci, e obviamente não era o asiático musculoso que estava
com ele no restaurante, mas era tão lindo quanto.
— Que bom que veio, Evan. Fico feliz por ter aceitado meu
convite. — O abracei e também seu amigo, que pelo que vi pela
camisa aberta era coberto por tatuagens. — Parker, é um prazer.
— Te conheço da TV. Nem acreditei quando o Rouxinol me
falou que um famosinho tinha convidado ele pra um casamento de
um ator.
— Rouxinol?
— É um apelido besta que ele me deu, Parker.
— Besta nada! Você canta bem pra caramba! — O tatuado
retrucou.
— Tá bom. — Evan mudou de assunto. — Espero que não se
incomode de eu ter trazido alguém.
— É claro que não! Se divirtam. E eu quero escutar você
cantar futuramente, quem sabe…
— Será que eu posso ter o meu filho um pouco para mim? —
Meu pai apareceu pela porta e assim que me viu seu sorriso se
tornou ainda maior. Apresentei a todos e os dois me deixaram com
Yorick, que estava com lágrimas evidentes.
— Eu não acredito que você está chorando, pai?! — Segurei
seus ombros e ele me puxou para si, me dando um beijo no rosto e
se afastando para me encarar novamente. — Você está me
deixando sem graça. E eu não sou nenhum noivo manhoso.
— Me desculpa, filho. Eu só estou feliz porque vou ser eu
quem vai te levar até o altar.
— Eu ainda não concordo com isso. — Aquela ideia havia
saído de London. — Não precisava de nada assim.
— Mas eu vou entregar meu filho nas mãos de outro homem.
Vai ser minha última vez de ameaçar ele para te deixar embaixo da
minha asa.
— Meu Deus, Yorick! — Minha mãe disse nos afastando e
arrumando nossas roupas, demorando ainda mais na barba de meu
pai. — Você sempre é um garoto em corpo de homem, igualzinho
Harvey. Mandy está arrumando o terno dele, porque ele inventou de
jogar bola com as crianças lá fora.
— Hoje é o casamento do nosso filho. — Ela revirou os olhos
para a fala do ex-marido e atual “namorado”.
— Eu te amo, Parker, e estou feliz por você. — Acariciou meu
rosto e me abraçou, o que me deixou um pouco sem reação antes
de retribuir. Me encarou por uns segundos com um sorriso. — Agora
vamos! Uma vez na vida você tem que ser pontual.
Ela não me deixou tentar falar que a amava, o que até que foi
bom. Talvez no futuro eu tivesse realmente propriedade e certeza de
que o sentimento voltara a existir. Ela começou com uma série de
outros preparativos até que ficasse satisfeita. Meu coração parecia
pular em meu peito. Eu não havia visto Vincent em nenhum
momento, mesmo ficando em frente a janela o tempo todo.
Fui até o térreo com o meu pai de um lado. Senti suas mãos
geladas e se mexia como se estivesse mais nervoso que eu. Lhe dei
o braço e ele sorriu para mim tentando parecer forte e destemido. O
que já havia percebido não combinar com seu jeito. Ele era um
ótimo pai e mesmo com toda a distância que se fez entre nós
durante muito tempo, finalmente consegui perceber que sim, ele
sentia minha falta. E mesmo estando tão preso aos seus problemas
e influências, sempre pensou em mim.
— Obrigado, pai. — Deitei minha cabeça em seu ombro,
recebendo seu carinho.
— Eu que tenho que te agradecer por me deixar entrar na sua
vida, meu filho. Tudo o que eu quero é que seja feliz. — Beijou o
topo de minha cabeça e uma lembrança me veio, de quando
estávamos em nosso chalé e o mesmo gesto havia sido feito por ele
em frente a janela, enquanto a neve caía.
Todos os convidados estavam do lado de fora, e podia vê-los
sentados em apreensão pelo que estava prestes a acontecer. Eu
estava nervoso e até com certa vergonha por ter a atenção de todos
em mim. Uma coisa era estar em frentes aos olhares de todos
profissionalmente. No entanto, lá estava eu, permitindo todos
presenciarem a felicidade de minha alma. Por um momento tive que
me lembrar de como era andar para não parecer um bebê
desengonçado.
De onde estava não conseguia ver Vincent, mas sabia que
estava a poucos metros, pois meu corpo reconhecia o seu. Meus
sentidos funcionavam como uma bússola, sempre apontando em
sua direção, como se fosse ele a quem eu devesse seguir. Aquele
suspirador era meu caminho e não tinha o menor problema em
admitir minha devoção por ele, pois era o que o amor significava
para mim. Era o que ele passou a significar depois que o conheci.
As portas se abriram e senti meu braço esquerdo ser puxado
levemente. Era minha mãe, altiva e poderosa como a mulher que
era. Meus pais, depois de anos, estavam do meu lado e me
apoiando verdadeiramente.
O caminho se estendeu até o homem da minha vida, parado
com seu terno perfeitamente alinhado. Assim que meus olhos
encontraram os dele tudo se tornou um local silencioso e pude,
mesmo com a distância, escutar sua respiração. Era como se de
repente tudo se tornasse ainda mais nítido para mim. Alguns fios
grisalhos em sua barba, o brilho de seu olhar e o sorriso discreto
que lançou para mim me inundaram da mais perfeita alegria.
Ele segurava suas mãos e arrumou sua posição. Estava
ansioso. Até mais que eu, arriscaria dizer. E tudo por mim! Sorri
abertamente para ele e não pude controlar minhas emoções ao
derramar lágrimas. Um impulso fez tudo transbordar e o que eu quis
foi correr para os seus braços e lhe prometer o amor eterno.
Vi o rosto de meus amigos, Mandy, Gary, Perry, Evan, Calisto e
Jared e todos os outros. Tudo o que pude sentir foi orgulho por ter
sido capaz de ter uma nova vida e mudar completamente o que
acreditava. Minhas expectativas não chegaram nem aos pés de
todos os planos que fiz.
— Cuide bem do meu filho, Vincent. — Minha mãe disse ao
cumprimentá-lo.
— A ameaça que te fiz ainda está de pé. Não se esqueça! —
Meu pai comentou e sorri ainda mais quando se abraçaram.
— Isso não vai ser necessário, Yorick. Seu filho é a minha
vida. — Senti sua mão envolver a minha e tudo o que fiz foi me
colocar ao seu lado.
— Tenho certeza de que os dois serão perfeitos um para o
outro. — Celeste disse me abraçando e ao filho, e depois se colocou
em seu lugar.
Não posso dizer como tudo estava perfeito, pois me faltariam
palavras. No entanto uma se destacava: Desejo. Não sabia em que
momento havia esfregado a lâmpada mágica de um gênio ou minha
fada madrinha havia estalado os dedos e me abençoado com um
final feliz, mas era grato por ambos terem me proporcionado o que
meu coração sempre pediu.
— Vincent Salas, você aceita Parker Hayes Ivanov como seu
marido?
— Sim.
— Parker Hayes Ivanov, você aceita Vincent Salas como seu
marido?
— Aceito. — Meu coração deu um salto.
— Então pelo poder investido a mim pela lei, declaro vocês
dois casados. Podem se beijar.
Senti os braços de Vincent rodearem minha cintura e tudo
novamente se tornou silencioso. Talvez fosse minha mente tão
extasiada pelo prazer, mas vi pequenas criaturinhas brilhantes
estalando os dedos e lançando estrelas ao céu.
— Você é o meu mundo, Parker! Eu sei que não fui o melhor
dos namorados para você e que precisava que eu fosse mais
atencioso, mas eu te prometo, tentar, vamos deixar isso bem claro,
ser um dos mocinhos dos seus filmes adolescentes.
— Você não precisa tentar ser ninguém, Vincent. Eu te amo do
jeito que você é e não mudaria nada, porque foi por ser desse jeito
que me apaixonei por você. — Sorri, o beijando mais uma vez. —
Mas não vou reclamar de poder caminhar com você algumas vezes
no meu mundo cor de rosa.
— Eu faço esse sacrifício por você!
— Então, a partir de hoje, cuide muito bem de mim, Sr. Policial-
Não-Tão-Comum.
— Será meu trabalho até o fim da minha vida.
E quando seus lábios selaram os meus o céu se iluminou
acima de nossas cabeças, como o início de nosso “Felizes Para
Sempre”!
Agradecimentos:
Espero que tenham Delirado com Antes De Tudo: É Meu
Delírio e se apaixonado por esse casal que mexe com o meu
emocional de um jeito que eu não consigo explicar.
Eu dedico esse livro para todos os meus leitores, mas quero
deixar um agradecimento e carinho explícito para Wanderson,
Deivide, Caio e Larissa. Vocês sempre estiveram comigo,
conversando e me motivando a sempre continuar escrevendo e me
deixando muito mais feliz nesse processo. Obrigado de coração!
Amor é a principal razão para todos os meus livros e também o
foco de todas as minhas tramas.

Convido vocês a conhecerem meu outro livro da série Antes


De Tudo que se chama Antes De Tudo: Eu Te Odeio.

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