FILOSOFIA DO CONHECIMENTO
Teorias explicativas do conhecimento (Epistemologia)
Epistemologia = É a área da filosofia que estuda a natureza, as fontes, o alcance e os limites do
conhecimento.
1- O problema da definição do conhecimento: Trata de compreender o significado do conceito
conhecimento e o que distingue conhecer algo de ter apenas uma opinião (ou crença) sobre algo.
Definição tripartida do conhecimento (CVJ) - Crença Verdadeira Justificada
- Crença: S acredita em P; É uma atitude proposicional, atitude de achar que uma dada proposição é
verdadeira (convicção).
- Verdadeira: P é verdadeira.
- Justificação: S tem uma justificação para acreditar em P. É necessário que essa crença se apoie em
boas razões.
2- O problema da possibilidade do conhecimento: Será o conhecimento possível?
Ceticismo: Os céticos defendem que não é possível conhecer, porque todas as nossas crenças se
justificam com base noutras crenças, chamamos de “Argumento cético da regressão infinita”
Fundacionalismo: Os fundacionalistas defendem que existe sim conhecimento, assim, rejeitam a
primeira premissa do argumento cético, que nos fala que todas as crenças são justificadas por
outras. Para isso, fazem uma distinção entre crenças básicas e crenças não-básicas.
- Crenças básicas: São auto evidentes, não precisam ser justificadas por outras crenças, pois
justificam-se a si mesmas.
- Crenças não-básicas: Não são auto evidentes, precisam de outras crenças para serem justificadas.
Resposta racionalista = René Descartes
É um dos mais famosos racionalistas de todos os tempos, o seu objetivo era encontrar um
fundamento seguro para o conhecimento, considera que a razão é a fonte principal do
conhecimento e que é um saber a priori, pois depende do pensamento. O método que utilizou
ficou conhecido como "dúvida metódica". → Consiste em rejeitar como falso tudo o que seja
meramente duvidoso até encontrar algo que seja absolutamente certo e indubitável, ou seja, que
resista a dúvida.
Dúvida metódica
• Não se trata de uma suspensão permanente do juízo, mas sim de uma decisão de considerar
provisoriamente falso tudo que seja minimamente duvidoso.
• É absolutamente universal, pois, à partida, aplica-se a tudo pelo menos até que se encontre algo que
seja absolutamente indubitável.
• É hiperbólica (ou exagerada), pois rejeita como falso tudo aquilo que seja meramente duvidoso.
Razões para duvidar
• A dúvida metódica não se aplica individualmente a cada uma das nossas crenças (tarefa que seria
interminável), mas sim às nossas principais fontes de crenças: os sentidos e as razões. Então,
Descartes vai verificar se temos boas razões para confiar nos nossos sentidos e raciocínio.
Para justificar a utilização desse método, temos as seguintes razões:
- Preconceitos e juízos que foram formulados na infância.
- Os sentidos, muitas vezes, enganam-nos. (As ilusões dos sentidos)
- Não temos nenhum critério que nos permita discernir o sonho da realidade. (Vigília e sono)
- Algumas pessoas enganaram-se em demonstrações matemáticas. (Erros de raciocínio)
- E a possível existência de um Deus enganador ou génio maligno que nos ilude a respeito da verdade.
(A hipótese do génio maligno)
O cogito: O método cartesiano faz surgir uma certeza indubitável sobre a dúvida, que é a existência do
sujeito que duvida. Pois nós duvidamos, e duvidar é uma forma de pensar, logo, nós existimos como
seres pensantes (“penso, logo existo”). É uma crença básica, é evidente, indubitável e fornece critério
de verdade: clareza e distinção= só podemos considerar verdadeiro aquilo que é semelhante ao cogito,
ou seja, absolutamente preciso, nítido, com toda clareza e distinção.
O cogito tem um dualismo, pois divide o corpo da mente, devido que não tem como assegurar de que
existe um corpo, nem da certeza das experiências perceptivas. Descartes conclui que é uma
substância pensante, uma mente ou algo imaterial que existe independentemente do corpo.
A ideia de DEUS: Para fugir da hipótese de um gênio maligno e também para termos certezas de
outras coisas além da nossa existência, Descartes vai optar por mostrar a existência de Deus, um ser
supremo e extremamente bom, que não vai nos enganar sobre a realidade ou qualquer outra coisa. Ele
chega a essa ideia com a distinção das ideias inatas, factícias e adventícias.
- Inatas: Todas as ideias que constituem da própria razão, princípios que nascem conosco (ex: a ideia
de Deus)
- Factícia: Todas as ideias que tem origem na nossa imaginação (ex: sereia)
- Adventícia: Todas as ideias que tem origem nos nossos sentidos (ex: a ideia de algum objeto)
Argumentos para provar a existência de Deus:
- Argumento ontológico: Afirma que como Deus é definido como o ser mais perfeito, e a existência é
uma perfeição, Deus necessariamente deve existir.
- Argumento da marca: Descartes admite que muitas vezes se engana e que, por isso, não é perfeito,
logo ao ter em mente a afirmação de imperfeição, traz a ideia de perfeição. Esta ideia só pode ter sido
colocada nele por um ser perfeito: Deus, pois a causa não pode ser inferior ao efeito.
- Argumento baseado na contingência do espírito: Tem que existir um ser que nos criou e criou a si
mesmo. Não poderia ser o ser humano, pois somos imperfeitos, logo, é Deus.
Importância de Deus:
- É um ser perfeito que não nos engana
- É a garantia da verdade objetiva das ideias claras e distintas
- É o criador das verdades eternas, a origem do ser e o fundamento da certeza
- Garante a adequação entre o pensamento evidente e a realidade
- Legitima o valor da ciência e confere objetividade ao conhecimento
- É infinito, a fonte do bem e da verdade
- É omnipotente, eterno e omnisciente
- Embora seja o criador do universo, não é o autor do mal
- É o princípio do ser e do conhecimento
- Permite superar os argumentos dos céticos radicais e provar a existência do mundo exterior
Com isso, podemos afirmar a existência do corpo e de todo o exterior, porque Deus não nos
engana.
Objeções:
- Círculo cartesiano: O fato de Deus ser um ser que não nos engana, garante as ideias claras e
distintas, mas são essas mesmas ideias que provam a existência de Deus, com isso, entramos no
círculo vicioso. (Petição de princípio)
A resposta empirista = David Hume
O seu objetivo é investigar os princípios que dão origem às nossas crenças. Apoia-se
exclusivamente naquilo que temos experiência (a posteriori), nas realidades empiricamente
observáveis, e essas são o conteúdo da mente.
- Para David Hume, não existem ideias inatas, pois todas as nossas ideias derivam na experiência.
- Ele não nega o conhecimento a priori, só acha que não nos diz nada sobre o mundo.
Perceções = os conteúdos da nossa mente
- Impressões (sentir): É mais vívida e intensa, pois é tudo o que sentimos no nosso presente. Inclui
tanto sensações externas, relativamente aos cinco sentidos, como sensações internas, que são os
nossos sentimentos, desejos…
- Ideias (pensar): É a representação de sensações ou imagens menos vívidas e intensas das
impressões, por exemplo, recordar de algo que já passou.
Princípio da cópia: Todas as ideias são cópias das impressões, sendo assim, pessoas que não tem a
impressão de algo, não poderá ter a ideia do mesmo. Então, o conhecimento acerca do mundo tem
origem na experiência.
- Argumento do cego de nascença: Esse argumento ajuda-nos a entender o princípio da cópia, pois um
cego de nascença nunca poderá ter ideia da cor verde, pois as ideias são cópias de impressões que já
tivemos.
Tipos de ideias:
- Simples: Deriva apenas da impressão
- Composta: É a junção de impressões, junto da imaginação
Tipos de conhecimentos:
- Relações de ideias: Conhecimento a priori que é uma verdade necessária, através da análise do
significado dos conceitos envolvidos numa proposição (ex. matemática).
- Questões de fato: Conhecimento a posteriori que é uma verdade obtida através da impressão, ou
seja, da experiência. É baseado nas relações de causa-efeito, sendo uma conexão necessária.
Problema da causalidade (conexão necessária) Qual a nossa origem de ideia de causalidade?
David Hume recorre a experiência mental do Adão inexperiente para responder o problema da
causalidade, que é o seguinte, podemos ser dotados de toda força e razão, assim como Adão, mas se
não tivermos nenhuma experiência sobre o mundo, então não podemos entender qualquer efeito.
Passado um tempo, adquirimos experiência sobre o mundo, então já podemos entender, pois essa
experiência iria nos mostrar que os acontecimentos estão constantemente conjugados, isto é, quando a
experiência de um surge constantemente após a experiência do outro. Temos a noção disso, através
dos nossos hábitos ou costumes, ou seja, na nossa experiência de certas repetições (ex.pôr do sol).
David Hume é um ceticista moderado, pois está ciente das limitações do conhecimento humano.
Porque acredita que tudo provém da experiência, e sem essa, não existe conhecimento.
Problema da indução (Partir de casos observados para chegar a uma conclusão) Será que podemos
justificadamente confiar nas nossas inferências indutivas? David responde que não temos forma
de justificar racionalmente a nossa confiança na indução, porque não podemos acreditar racionalmente
que aquela regularidade de conjunções constantes irá se manter no futuro.
Objeções:
- Problema da Indução: Hume argumenta que não podemos justificar a indução, o processo de inferir
verdades universais a partir de experiências particulares. No entanto, muitos filósofos argumentam que
a indução é uma parte essencial do raciocínio humano e que não podemos descartá-la tão facilmente.
- Conhecimento a priori: Hume argumenta que não há conhecimento a priori (conhecimento que não
depende da experiência). No entanto, muitos filósofos, especialmente os racionalistas, argumentam
que existem verdades que podemos conhecer independentemente da experiência, como as verdades
matemáticas.
- Relação Causal: Hume argumenta que não podemos ter certeza da existência de relações causais,
pois só podemos observar a sequência de eventos, não a conexão causal entre eles. Isso tem sido
criticado por ser muito cético e por ignorar a maneira como entendemos e interagimos com o mundo.