UNIVERSIDADE ABERTA DE PORTUGAL
DOUTORAMENTO EM SUSTENTABILIDADE SOCIAL E DESENVOLVIMENTO
SEMINÁRIO DE APROFUNDAMENTO METODOLÓGICO 1
TÓPICO 3 - AVALIAÇÃO 2
LUCIANO TEIXEIRA ROCHA
BALELA1
Pensei em muitos títulos para o meu texto. Títulos que pudessem expressar de
maneira bem clara como eu penso as questões relacionadas à responsabilidade social das
empresas. Títulos que não deixassem dúvidas que para mim não é possível pensarmos em
sustentabilidade se não promovermos mudanças radicais transformadoras nos nossos modos
de vida. O que nunca faremos.
Quem de nós não comemorou o Natal? Por que tivemos o recesso de fim de ano?
AXIOMAS E RESPONSABILIDADE SOCIAL DAS EMPRESAS (RSE)
Nós todos que estamos envolvidos nesse curso de doutoramento nascemos e vamos
morrer inseridos no modo de vida capitalista - insustentável e socialmente irresponsável.
Apenas pelo fato do capitalismo, ser um sistema que se baseia na exploração do homem pelo,
“por meio do qual aqueles que possuem meios de produção exploram a força de trabalho
1
Balela é uma expressão da cultura brasileira que quer dizer, grosso modo, mentira, falácia. Algo que
alguém está dizendo que vai fazer, mas, que na verdade, não vai. Algo que eu poderia associar à
prática de greenwashing que algumas empresas capitalistas utilizam como forma de afirmarem à
sociedade que são socialmente responsáveis e sustentáveis (Silva & Silva, 2022).
daqueles que não têm propriedade, a fim de acumular lucro (Marx [1867] 1990)” (Sandoval,
2015), já nos permite afirmar que se trata de um sistema não sustentável, pois onde há
desigualdade não há sustentabilidade. Se considerarmos ainda os males que esse sistema
produz - “o desemprego, a exploração da força de trabalho, a desigualdade económica, a
usurpação do tempo livre pelo trabalho, a degradação ambiental sistemática, a falta de
democracia económica e a produção mais para o lucro do que para a necessidade”
(Saad-Filho 2003: 21), concluímos sem a menor dúvida que se somos capitalistas não somos
socialmente responsáveis e muito menos sustentáveis. Talvez nos discursos midiáticos, talvez
nos relatórios corporativos (Ihlen & Roper, 2014), talvez até nas letras das leis 2, mas nunca
de fato, pois, assim como Sandoval (2015), penso que se a RSE for entendida e praticada de
forma reducionista, projecionista ou dualista pelos investigadores da sustentabilidade uma
das principais causas dos nossos problemas sociais e ambientais que é busca incessante pela
acumulação de capital e do lucro não vai se considerada como uma solução para os conflitos
entre os interesses corporativos e os sociais.
Dito isso, não resta-me a menor dúvida de que a forma que penso a RES é a forma
dialética. Uma forma que visa a necessidade de criticarmos a motivação do lucro, os macro
processos sistêmicos, o papel das empresas, a irresponsabilidade corporativa. Não no intuito
de tentar destruir o capitalismo - que para tanto seria necessário destruirmos o homem. O que
2
Em entrevista à página sobre Determinantes Sociais e Saúde da Fiocruz, Romulo Paes de Sousa, o
diretor do Centro Mundial para o Desenvolvimento Sustentável (Centro RIO+),fala sobre a prática de
greenwashing que ocorre no nordeste brasileiro em detrimento do avanço econômico da região. “O
modelo tradicional de crescimento econômico não enfatiza variáveis como bem-estar e tampouco
prioriza custos ambientais diretos ou indiretos (também conhecidas como externalidades). Em que
pese o Brasil possuir uma legislação considerada por muitos como moderna, ela é regularmente
ignorada ou desrespeitada, principalmente longe dos grandes centros, onde a capacidade
governamental de monitoramento é reduzida. Vale destacar que a culpa não recai unicamente sobre o
produtor ou investidor, como muito se acredita, pois em diversos casos existe envolvimento de
membros do governo (executivo e legislativo) praticando atividades em discordância com a
legislação.” Disponível em
https://dssbr.ensp.fiocruz.br/reducao-da-desigualdade-so-e-possivel-com-a-sustentabilidade-orientand
o-o-desenvolvimento/.
seria impossível. Tampouco para promover uma mudança radical, como propõe Sandoval
(2015), colocando de ponta a cabeça o conceito de RSE, onde as empresas capitalistas seriam
socializadas e a riqueza privada se transformaria em riqueza comum. Mas para pensarmos em
estratégias e ferramentas contra capitalistas que fossem capazes de preservar as sociedade não
capitalistas que coabitam conosco o planeta Terra - seus modos de vida, suas visões de
mundo, seus saberes ancestrais, suas ações de sustentabilidade social e ambiental.
ENQUADRAMENTO DOS TEXTOS DA SEMANA 3 E FILOSOFIAS DA RSE
Os dois textos da semana 3 nos apresentam estudos realizados com comunidades
indígenas que estiveram em luta contra grandes empresas que em nome da modernidade e do
progresso econômico queriam destruir seus territórios, seus modos de viver e ver o mundo,
suas identidades, suas linguagens, suas religiosidades, seus povos, enfim suas culturas. Um
projeto “neocolonialista” que ainda se perpetua no nosso mundo e que conseguirá alcançar o
seu maior objetivo, a exclusão do diferente e a globalização de um modo de vida capitalista.
Tanto Banerjee et al. (2023) quanto Maher et al. (2022), cada qual a sua maneira,
enfatizam “o papel da linguagem e das relações de poder, procurando questionar formas de
pensar aceites e dar voz a visões alternativas marginalizadas” (Saunders et al., 2016),
princípios estruturantes das pesquisas de filosofia pós-modernista.
Um detalhe que me chamou a atenção foi o estilo do texto que denuncia as
atrocidades que o governo do Chile, juntamente com as empresas multinacionais de energia
Endesa e Enel vieram ao longo de 25 anos causando na comunidade indígena Pehuenche -
um ensaio publicado em uma revista científica. Tal estilo de publicação, que num primeiro
momento nos faz questionar se esse estilo de texto se enquadra ou não no método científico,
me levou ao ano de 2016 quando estava terminando o mestrado em Saúde Coletiva pelo
Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro no Brasil quando
tivemos essa discussão e fomos apresentados ao texto “O Ensaio como (Re)Forma: Manifesto
Anti-Paperialista” escrito por André Luis de Oliveira Mendonça3, um dos professores do
instituto, que foi “dedicado aos mestrandos e doutorandos da saúde coletiva que quiserem
ousar escrever de uma forma que possam transformar a realidade de modo criativo, libertário
e compromissado”. Um grata supresa!
PROBLEMA DE PESQUISA
O meu problema de pesquisa está inserido dentro do escopo teórico da Gestão do
Conhecimento. Mais especificamente busco encontrar maneiras, metodologias e tecnologias
que sejam capazes de sistematizar, reter e transferir o conhecimento tácito adquirido pelos
auditores do Sistema Nacional de Auditoria (SNA) do Sistema Único de Saúde do Brasil
(SUS) durante a fase operacional de auditoria - ou fase in loco - que acontece quando os
auditores vão ao campo analisar documentos, realizar observação direta e fazer entrevistas
em profundidade tanto com os auditados (gestores, empresas, profissionais) quanto com a
população local usuária do sistema.
Tal proposição de pesquisa se faz necessária e urgente visto que esses conhecimentos
tácitos não estão presentes na literatura da ciência auditoria, nas diretrizes internacionais em
curso e nos protocolos procedimentais em vigência e tampouco são ensinados nos cursos de
formação, pós graduação e aprimoramento em saúde e auditoria em saúde em curso no Brasil
3
Link para o currículo lattes do Professor Dr. André Luis de Oliveira Mendonça:
http://lattes.cnpq.br/9099355484592679
na atualidade. Conhecimentos que são imprescindíveis no desenvolvimento das auditorias
realizadas pelo SNA do SUS e que se perdem quando seus detentores deixam de fazer parte
da comunidade de prática desse sistema ou por aposentadoria ou por exoneração ou por
falecimento. Um conhecimento que se perde e que tem que ser construído novamente do
zero. Uma prática cultural capitalista insustentável, pois individualiza e privatiza o
conhecimento sobre a cultura de saúde de uma sociedade local e das possíveis estratégias que
tanto o governo quanto a população podem implementar para a melhoria das suas condições
de saúde e para o pleno exercício dos direitos humanos e constitucionais.
FILOSOFIA(S) DE INVESTIGAÇÃO E O MEU PROBLEMA DE PESQUISA
Quando apliquei no início do módulo 3 da disciplina Seminário de Aprofundamento
Metodológico 1 (SAM 1) o questionário HARP, uma ferramenta que foi desenvolvida por
Bristow e Saunders e cujo objetivo é nos ajudar, enquanto pesquisadores, a pensar “sobre
seus valores e crenças em relação à pesquisa” (Saunders et al., 2016) percebi que minha
maneira de ver o mundo e a ciência se aproximava muito mais da filosofia pós-moderna que
das outras quatro: positivista, pragmatista, realista crítica e interpretativista, apesar desta
última não estar muito distante daquela que eu mais pontuei, como é possível observarmos no
gráfico abaixo.
Autor: o próprio.
Fonte: desenvolvido a partir da ferramenta HARP de Bristow e Saunders (Saunders et al.,
2016, pp. 154.156).
Tal resultado, mesmo após a leitura dos textos das semanas 2 e 3 do SAM 1, no meu
entendimento, não se alteraria, pois de fato sou uma pessoa que tanto na trajetória
profissional quanto acadêmica tenho a tendência em desenvolver trabalhos e pesquisas que
valorizam mais o papel da linguagem tendencio escolher e desenvolver trabalhos e pesquisas
que valorizam o “papel da linguagem” (Saunders et al., 2016) e o discurso do outro refutando
quaisquer ideias realistas e fixas das coisas do mundo. Na saúde, e mais especificamente no
SUS, vivemos um eterno conflito. De um lado, os valores impostos pelas instituições
hegemônicas de poder (a Ciência, o Governo, o Mercado) e do outro o homem e suas
idiossincrasias e incomensurabilidades. O que é saúde e necessidade de saúde para um
indígena habitante da Floresta Amazônica, um quilombola da caatinga nordestina e uma
mulher preta, pobre e favelada no Complexo da Maré da cidade do Rio de Janeiro não é o
mesmo para um pensador, um gestor e um político branco ocidental capitalista. É necessário
ouvirmos os excluídos.
No SNA do SUS temos um organograma piramidal típico das concepções
empresariais que vêm se infiltrando nas instituições do governo brasileiro desde os anos 1990
a partir das ideais neoliberais. Isso não se tornaria um problema desde que essas formas de
pensar o mundo organizacional do SNA como sendo “constituído por coisas e entidades tais
como ‘gestão’, ‘desempenho’ e ‘recursos’” (Saunders et al., 2016) não fossem “moldadas
pelas relações de poder e pelas ideologias que dominam contextos particulares” (Foucault,
1991 APUD Saunders et al., 2016), suprimindo outras perspectivas “potencialmente
igualmente valiosas” com “poder de criar mundos e verdades alternativas” (Saunders et al.,
2016).
Paulatinamente, nós, técnicos e técnicas da SNA, somos apresentados e obrigados a
estudar, aprender e aplicar novas diretrizes internacionais de auditoria - teorias e
metodologias desenvolvidas em contextos diferentes do braisleiro. Somos um país de
extensão continental e que oferece um sistema de saúde totalmente gratuito, integral e de
qualidade a quem quer que esteja no seu território, trabalhadores e desempregados, nativos e
imigrantes. Muito diferente dos sistemas privatistas e excludentes da maioria dos países do
Norte Global, de onde vêm os conhecimentos que nos enfiam goela a baixo. Um
conhecimento que além de não ter sido construído desenvolvido pelos atores sociais do SUS
objetiva o lucro, o recurso, o investimento e não o direito constitucional à saúde. O SNA do
SUS tem como objetivo garantir esse direito através dos princípios da Lei 8080, 1990 (Brasil,
1990)4.
Esse descompasso entre a ciência e a vida impõe aos técnicos e às técnicas do SNA,
quando esses vão ao campo, o desafio de em um período de até 10 dias construir
conhecimentos, habilidades e atitudes que dêem conta: (i) da compreensão da identidade da
cultura local; (ii) da identificação e adequação das semelhanças e diferenças entre os modos
de pensar a Saúde da sociedade visitada e das normativas orientadoras utilizadas no processo
de auditoria; (iii) da interpretação dos dados coletados através de múltiplas fontes -
documentos, observação direta, entrevistas; (iv) da produção de um relatório que na maioria
das vezes é desenhado de forma que visões críticas sobre o exercício pleno do direito
constitucional à saúde e formas alternativas que a população local encontrou para dar conta
do que o Estado não dá não podem ser inseridas tampouco os conhecimentos tácitos que
foram forjados pelos técnicos e técnicas do próprio sistema.
Pretendo trabalhar com os técnicos e as técnicas do SNA que já estão em processos de
abono permanência e pré abono permanência, pois são sujeitos que estão há tempos dentro do
sistema, período em que o Brasil passou por complexas transformações sociais,
governamentais, políticas e econômicas. Quantos mandos e desmandos, quantos avanços e
retrocessos, quantas lutas e resistências, quantas vidas e mortes?
Pretendo realizar abordagens a esses técnicos e essas técnicas do SNA através de
questionários digitais, chats, visitas aos seus locais de trabalho e de moradia com vistas a
desenvolver excelentes entrevistas em profundidade, imersivas observações participantes,
4
Sugiro a leitura dos artigos 5º, 6º e 7º. Disponível em
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L8080.htm.
amplas análises documentais. O que eles e elas sabem que temos que saber? E como é que a
gente consegue fazer isso hoje com os recursos que temos?
Pretendo conseguir um informante qualificado em cada um dos 27 serviços estaduais
do SNA do SUS. Se impossível devido a limitações de tempo e de recursos financeiros à
minha pesquisa, que pelo menos eu consiga um sujeito de cada região geográfica do país.
Menos que isso, penso, minha pesquisa não teria a representatividade mínima da diversidade
das perspectivas sobre a auditoria do SUS.
REFERÊNCIAS:
Banerjee, et al (2023). Resistance is fertile: Toward a political ecology of translocal
resistance. Organization, 30(2), 264-287.
Brasil (1990). Lei Orgânica da Saúde. Disponível
em:https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L8080.htm.
Ihlen, Ø.; Roper, J. (2014). Corporate Reports on Sustainability and Sustainable
Development: ‘We Have Arrived’. Sust. Dev., 22: 42-51.
Maher, R. et al (2022). The tragic failings of political CSR: A damning verdict from the
Indigenous Pehuenche highlands in Chile. Journal of Management Studies, 59(4), 1088-1097.
Saad-Filho, A., ed. 2003 Anticapitalismo: Uma introdução marxista. Londres: Plutão Press.
Sandoval, M. (2015). From CSR to RSC: a contribution to the critique of the political
economy of corporate social responsibility. Review of Radical Political Economics, 47(4),
608-624.
Silva, R. & Nascimento e Silva, D. (2023). A prática do greenwashing no contexto do
desenvolvimento sustentável e da responsabilidade social corporativa.
Saunders, M.; Lewis P. & Thornhill A. (2016). Research Methods for Business Students, 7ª
edição, Pearson Education.