0% acharam este documento útil (0 voto)
47 visualizações4 páginas

Metrópole Corporativa Fragmentada:: O Caso de São Paulo Milton Santos

Enviado por

llaysfraga
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
47 visualizações4 páginas

Metrópole Corporativa Fragmentada:: O Caso de São Paulo Milton Santos

Enviado por

llaysfraga
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

View metadata, citation and similar papers at core.ac.

uk brought to you by CORE


provided by Universidade Salvador: Portal de Periódicos UNIFACS

METRÓPOLE CORPORATIVA FRAGMENTADA:


O Caso de São Paulo

de Milton Santos

Coleção Milton Santos


ISBN 10: 85-314-1159-9
isb 13: 978-85-314-1159-5
Formato: 14x21 cm
Nº de Páginas: 136 pp.
Peso: 180 g

1
DENISE SILVA MAGALHÃES
“[...] o urbano tanto pode ser mais, como pode ser menos
que a cidade; e que, sem o entendimento desta, consi-
derada em uníssono como corpo e ação, a interpretação
do urbano é frequentemente acanhada e insuficiente.”
(SANTOS, 1990, p. 11, grifos do autor).

A cidade paulistana como materialidade, e que se Denise Elias, Cilene Gomes, Sérgio Certel e Wilson dos
impõe na frente da cena como um dado dinâmico sem Santos que contribuíram para o desenvolvimento da
a qual a vida social não poderia ser entendida, é o que pesquisa.
Milton Santos busca valorizar neste ensaio. No Brasil, o Estado de São Paulo e a metrópole
Editado pela Livraria Nobel e coeditado pela Secreta- paulistana tiveram destaque particular nos estudos de
ria de Estado da Cultura de São Paulo que o patrocinou, Milton Santos. A obra resenhada foi complementada
o livro “Metrópole Corporativa Fragmentada: o caso de São posteriormente, em 1994, com “Por uma Economia Política
Paulo” foi reeditado, recentemente, por iniciativa da da Cidade”. Essa fase do autor, bastante frutífera pelas
Editora da Universidade de São Paulo (Edusp). Resulta pesquisas com seus principais interlocutores e orientan-
de um relatório de pesquisa de Milton Santos, parcial- dos, resulta na publicação “A Urbanização Brasileira”, em
mente redigido durante seu estágio de pós-doutorado 1993. Essas obras, apesar de separadas, guardam uma
em Paris, ambos financiados pela Fundação de Amparo coerência entre si. Apresentam uma discussão teórico-
à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), mas o texto metodológica, método e metodologia, para pensar o
não é exclusivo da pesquisa. Para essa, reconhece Milton processo de urbanização e morfologia da metrópole
Santos, primeiramente, o apoio da Fapesp, bem como da
1
Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e do Conselho Doutoranda em Geografia pela Universidade Federal da Bahia
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (UFBA); mestre em Análise Regional pela Universidade Salvador
(CNPq). No plano pessoal destaca a colaboração re- (UNIFACS); especialista em Cartografia pela Inter American
Geodetic Survey (IAGS) – Panamá; geógrafa pela Universida-
cebida da esposa Marie-Hélène Tiercelin, o apoio dos de Federal da Bahia (UFBA); professora do Departamento de
colegas, como Armen Mamigonian, com quem discutiu Geografia do Instituto de Geociências da Universidade Federal
o trabalho e de alunos orientandos da pós-graduação: da Bahia (UFBA).

RDE - REVISTA DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO Ano XIII Nº 24 Dezembro de 2011 Salvador, BA 155
paulistana, em particular, e do país como um todo. diante da reação anti-quantitativista dos pesquisadores
Milton Santos introduz a “Metrópole corporativa frag- em plena época da Geografia Crítica.
mentada: o caso da São Paulo”, cujo estudo é sustentado Preliminarmente aos cinco capítulos e seções que se
no método geográfico da formação socioeconômica e seguem, aponta Milton Santos a extensão desmesurada
territorial – do mundo e lugar – sob o ponto de vista da cidade e os vazios especulativos como causa do seu
da economia política, através da qual, aliando teoria à crescimento periférico, fenômenos esses que trabalham
prática, busca analisar aspectos da aglomeração paulis- em conjunto, influenciando-se mutuamente e agravan-
tana, realçando variáveis: o papel do Estado no processo do a problemática urbana e as dificuldades de vida do
de urbanização; a distribuição de renda e os contrastes cidadão da Grande São Paulo.
entre riqueza e pobreza; crescimento e crise econômica Ao longo do primeiro capítulo, o autor desenvolve
influenciando na vida social; o tamanho da cidade re- uma periodização, de 1881 a 1983, para comparar a
percutindo na economia e sociedade; a metrópole cor- expansão da mancha urbana da cidade de São Paulo,
porativa; especulação e vazios urbanos; o problema do contrariamente ao citado município no título do mapa.
gasto público e sua seletividade social e espacial, além De forma que, efetivamente, verifica seu crescimento
das tendências da realidade atual. territorial comparando-o ao que pode ser observado
“Trata-se do entendimento de um sistema, o que na Europa. Entre outras comparações, constata ser o
supõe sua historicidade, da qual lhe advém sua singu- fenômeno comum às cidades brasileiras e, igualmente,
laridade” (SANTOS, p. 10). Com essa citação, o autor a outras cidades de países subdesenvolvidos, embora
expõe sua filiação ideológica à dialética-marxista na obra consideradas as especificidades das cidades.
em análise, permitindo compreender a forma de sua No caso de São Paulo, aliadas às causas gerais da
organização e a lógica utilizada na sua argumentação. história da urbanização no Terceiro Mundo, as razões
Assim, Milton Santos apresenta São Paulo, notando, em mais particulares, a história do país, da região e do lugar
incisivo diagnóstico, que a região paulistana praticamen- caracterizam os traços predominantes da geografia pau-
te nasce moderna pelo lado da produção e do consumo, listana: a enorme extensão da cidade, tanto em relação ao
isso graças à importação, pelos imigrantes, de hábitos e ritmo de crescimento demográfico e de atividades, como
aspirações e pelo meio ambiente construído de forma em relação à capacidade do poder público em promover
propícia a transformações. os investimentos necessários aos serviços públicos.
Segundo o autor, é na interlândia da cidade que a Ainda nesse capítulo, o autor analisa os vazios urba-
mecanização do espaço geográfico se dá com maior força nos e especulação fundiária do município e da Grande
no país, criando condições de uma expansão sustenta- São Paulo cuja expressão numérica é significativa, mas
da, constatando que, “a cada movimento renovador da sujeita a controvérsias, segundo estudos dos autores que
civilização material nos países centrais, São Paulo e o trabalham o tema. O fenômeno é reconhecido (embora
seu retropaís reagem afirmativamente, adotando o novo singular) em outras capitais do Terceiro Mundo, com-
com presteza e assim, reciprocamente, gerando cresci- parado ao da grande metrópole do Rio de Janeiro e em
mento” (SANTOS, p. 13). São Paulo cidade, segundo estudos recentes de Maurício Nogueira2, em “A questão
Santos, é o melhor exemplo de um país subdesenvolvido fundiária urbana”. Nesse segmento, segundo Santos, o
industrializado do Terceiro Mundo, de uma situação de modelo Banco Nacional de Habitação (BNH), criticado
modernidade incompleta, visto que nela se justapõem e sob muitos pontos de vista, vem desarticular as cidades,
sobrepõem traços de opulência, sinais de desfalecimento deixando espaços vazios entre as extensões de áreas
(estruturas sociais e políticas atrasadas), de seletividade, periféricas e o centro. Ou seja, a cidade se expande, in-
de extremas disparidades socioeconômicas e nela se corpora novas áreas e segrega seus moradores de acordo
exibem contrastes chocantes entre a riqueza de alguns com a estratificação social, sendo os pobres as grandes
e a pobreza de muitos. vítimas do processo.
Na obra, para dar subsídio à pesquisa, são utilizados No capítulo que vem a seguir, o autor aborda o
dados – qualitativos e quantitativos – de instituições e problema habitacional na Grande São Paulo, revelador
autores que trabalham a temática e também dados de
fontes primárias, a maioria dos quais representados em
tabelas, quadros, gráficos e mapas. A crítica que se pode 2
As densas referências, citadas como Bibliografia
fazer em relação a tais instrumentos é que os três primei- na obra, contemplam importantes autores que a
ros nem sempre registram as fontes dos dados, embora subsidiaram, a exemplo da tese de doutoramento
permitam ao leitor a análise precisa do fenômeno. Os
de Ana Fani Alessandri Carlos (1986). Entretanto,
mapas, em consonância com a época de elaboração,
são representados em preto e branco, sendo utilizados muitos autores, como Mauricio Nogueira (s/d),
métodos variáveis e modos distintos de implantação; no não são citados, entre estes, Alcântara Machado
entanto, indicando que sofreram redução para a impres- (1943), Osuna (1983), Mohamed A. B. El-Fadly
são, não permitem a leitura e interpretação do leitor e, (1984), Ignácio Rangel (s/d), Nadia Somelkh (1986),
consequentemente, não representam os fenômenos que Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque (1985),
Milton Santos procura elucidar. Mas isso não lhe tira o Olavo Setúbal (1978), Henrique Rattner (1975), J.
mérito, pois, neste sentido, releva-se o seu pioneirismo Beaujeu-Garnier (1973) e F. W. Boal (1970).

156 Ano XIII Nº 24 Dezembro de 2011 Salvador, BA RDE - REVISTA DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO
da profunda crise em que vive a sociedade urbana, cuja que seu salário. Esta situação se agrava pela expansão
paisagem reflete “uma estrutura socioeconômica fla- da cidade e fixação da população nas periferias, onde o
grantemente inegalitária” (SANTOS, p. 37). Os muitos indivíduo perde de três a quatro horas diárias nos trans-
dados referentes à região metropolitana, muito aquém da portes coletivos, pressupondo um “prolongamento” da
importância do problema, levam os autores, de acordo sua jornada de trabalho.
com Santos, a privilegiarem o município e, desta forma, Por um lado, parte da população da periferia da
são analisados na obra: a distribuição e localização de Grande São Paulo se move para o trabalho no centro da
domicílios; distribuição de favelas e números de fave- cidade para compras ou para utilizar serviços, quando
lados; número de unidades habitacionais construídas; há possibilidade e meios; os idosos e os pobres são
relação entre renda familiar e distância a partir do centro prisioneiros do espaço local; de outro lado, a maior mo-
da cidade de São Paulo; distribuição de hospitais e leitos bilidade é obtida pelos que andam a pé para o trabalho,
segundo zonas; entre outros indicadores sociais. de bicicleta, motocicleta, ou em automóveis privados
Em linhas gerais, os dados refletem: o número cres- ou táxis. É o que Santos considera como imobilidade
cente de famílias que vivem em casa própria, mas entre relativa de uma grande parcela da população periférica
essas se incluem as favelas e as autoconstruções; a po- paulistana, ocasionada pelo seu baixo poder aquisitivo.
pulação que vive em domicílios exíguos, densificada, em Desta forma, segundo o autor “[...] a imobilidade de tão
clara situação de amontoamento; os déficits habitacionais grande número de pessoas leva a cidade a se tornar um
nas periferias, apesar dos esforços do poder público; conjunto de guetos e transforma sua fragmentação em
os chamados loteamentos “clandestinos”, irregulares desintegração” (SANTOS, p. 89-90).
ou ilegais, sem a menor condição de habitabilidade; a A partir da tese desenvolvida na obra, Santos inicia o
aglomeração dos pobres na periferia e os contrastes com quarto capítulo, onde define a cidade de São Paulo como
o centro, onde os recursos sociais e em infraestrutura a “Metrópole Corporativa Fragmentada”.
são evidentemente concentrados; a dependência dos No país, cita o autor (p. 93) “[...] esse esquema geral
pobres da periferia com as áreas centrais, para o trabalho ganha tonalidades ainda mais fortes, graças à forma
genuinamente brasileira de ação do Estado sobre o
e serviços especializados; e os cortiços, antiga presença
desenvolvimento urbano, após 1964”, quando o BNH
na paisagem paulistana, demonstrando condições subu-
vai ter um papel decisivo na conformação da metrópole
manas de moradia da população, cujos dados, apesar das
corporativa. Aliada à industrialização que se desenvol-
contradições e incongruências, revelam a rapidez com
ve, a modernização da cidade se impõe, os habitantes
que se acelera o fenômeno.
urbanos reclamam serviços, os negócios e as atividades
No terceiro capítulo, o autor descreve o princípio da
econômicas necessitam dos meios gerais de produção e
fragmentação do espaço na Grande São Paulo, eviden-
a ideologia do desenvolvimento e crescimento reinantes,
ciado pela capacidade de mobilidade da população nas
respectivamente nos anos 50 e fins dos anos 60, ajudam
questões de transportes e de moradia. No primeiro caso, a criar a metrópole corporativa “[...] muito mais preocu-
Santos analisa dados sobre o sistema metropolitano de pada com a eliminação das [...] deseconomias urbanas do
transportes públicos e particulares, evidenciando a pre- que com a produção de serviços sociais e com o bem-estar
ferência (forçada) dos usuários pelo transporte coletivo coletivo (SANTOS, p. 94).
sobre pneus e a importância considerável do transporte Dentro dos contrastes observáveis nas paisagens vi-
individual3 que tende a crescer em países subdesenvol- síveis e invisíveis, a cidade continua a crescer, ampliada
vidos, agravar a carga do tráfego sobre as vias urbanas, pela especulação e pelo consumo; uma metrópole corpo-
exigindo mais vias e consumindo mais combustível que rativa, cujo poder público é chamado a exercer um papel
os ônibus ou trens e metrôs. Constata que, de 1970 a 1985, ativo na produção da cidade, beneficiando a população,
o número de carros da Grande São Paulo multiplicou- mas, principalmente, as empresas hegemônicas, obede-
se por mais de cinco, o que respalda sua tese de que “o cendo à mais restrita racionalidade capitalista.
automóvel é o maior consumidor de espaço público e Os números dos gastos públicos destinados a enfren-
pessoal já criado pelo homem” (SANTOS, p. 82). tar a problemática urbana na Grande São Paulo ganham
Observa o autor, como a cidade capitalista graças à significado, sobretudo a rubrica transportes; entretanto,
respectiva distribuição dos usos do solo e localização quando se fala de crise fiscal da cidade relativa à falta
anárquica das atividades e residências, agrava a proble- de recursos para obras sociais é porque, segundo Santos,
mática das populações mais pobres, dependentes dos esses são encaminhados para obras de caráter econômico,
transportes coletivos para se deslocarem para o trabalho. selecionando-se os gastos públicos.
Os dados indicam como são numerosos os movimentos Qual a tendência futura dos grandes problemas que
diários de pessoas na aglomeração paulistana. afligem a Grande São Paulo? A questão é abordada no
Ainda segundo Santos, a relação é inequívoca entre
nível de renda e meios de transporte, ou seja, quanto
mais pobre o indivíduo, mais dependente ele é dos trans-
3
Neste âmbito, Santos demonstra a situação flagran-
portes coletivos, frequentemente precários e pelos quais temente diversa nos países desenvolvidos, com o
paga uma parcela significativa dos seus ganhos, haja predomínio do transporte público como meio de
vista que o aumento do custo dos transportes é maior deslocamento.

RDE - REVISTA DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO Ano XIII Nº 24 Dezembro de 2011 Salvador, BA 157
último capítulo quando Milton Santos busca compre- contradições desse processo. Entretanto, esses caminhos
ender a situação da época, analisando os dados com o metodológicos apontados por Santos dão suporte a es-
objetivo de encontrar as tendências e onde estas se en- tudos de metrópoles dos países subdesenvolvidos, haja
contram, para chegar às raízes dos problemas. A partir vista que o modelo corporativo de cidade, no que diz
daí, numa visão socioeconômica global, aponta: zonas respeito ao Brasil, passou a ser a realidade da maioria
favorecidas onde moram os ricos e os de classe média; das metrópoles. De forma que reconhecemos a fecun-
áreas de residência de operários, as quais apresentam didade do trabalho, pois sugere campos de pesquisa
índices positivos; disparidades intramunicipais, munici- ao estudioso das cidades, e daí sua utilidade e leitura
pais e sub-regionais no tocante aos gastos por habitante; obrigatória.
o papel de São Paulo como lugar central de trabalho Neste âmbito, releva-se o clássico Centro da cidade do
dos moradores das periferias e lugar de importância Salvador: estudo de geografia urbana, do mesmo autor,
das relações mantidas entre os núcleos periféricos; o em 19595, na qual Milton Santos elabora uma análise de
isolamento dos lugares periféricos e seus habitantes, caráter eminentemente histórico-geográfico que apre-
quanto à distribuição das linhas de ônibus; e a evolução ende o dinamismo da cidade do Salvador, ao final da
favorável da região do ABC e em outros municípios do década de 50. Na época de elaboração da obra, falta em
sudeste, onde o investimento social é mais elevado do Santos a sistematização teórico-metodológica, apresen-
que na Região Metropolitana. tada, posteriormente, em outras obras de sua autoria,
Dando seguimento à sua análise, Santos aponta três como na “Metrópole corporativa fragmentada: o caso de São
tendências. A primeira indica certo influxo dos transpor- Paulo”, o que vem a acentuar o seu mérito.
tes coletivos, favorecido por programas de ampliação da Na obra resenhada, Milton Santos revela, de forma
frota de ônibus e melhoria de corredores de tráfego. Nes- geral, que a estruturação do espaço urbano paulistano
se âmbito, observa Santos a displicência das metrópoles reflete a maneira pela qual o poder público realiza o
diante de graves problemas emergentes, tarefa assumida seu trabalho de gestão, sempre vinculado a atender
por instituições extra-regionais ou internacionais, como às exigências do capital privado, transformando São
o Banco Mundial; a segunda tendência assinala a “for- Paulo numa cidade corporativa que se fragmenta em
tificação” - também chamada pelo autor de guetos às várias partes desarticuladas, tanto social como econo-
avessas - dos bairros de classes médias e dos segmentos micamente.
mais afastados da população, motivada, principalmente, Dessa maneira, nos transportamos ao presente dessa
pela violência urbana; como última tendência, a criação megalópolis paulistana, com sua constelação de cidades
de uma vida local regional em certos setores da periferia, de grande porte, ocupação de áreas cada vez mais dis-
ressaltando o autor a importância do fato, pois que “[...] tantes dos centros urbanizados, verticalização em ritmo
a densidade da população e dos trabalhadores junto a or- vertiginoso, massificação e a cosmopolitização dos cos-
ganizações sociais oferece a possibilidade de transformar tumes e mentalidades e que continua a gerar estímulos
quantidade em qualidade”. (SANTOS, p. 108). a estudiosos do seu processo de urbanização. Inevitável,
Segundo o autor estudado, se não se mudarem as pois que os conceitos e formulações teóricas elaboradas
condições estruturais da Grande São Paulo, os proble- no passado sejam reiterpretados e imbuídos de novos
mas relacionados à pobreza tendem a reproduzir-se e a sentidos analíticos.
aumentar, mas, concluindo o capítulo, defende a posição Fica, no entanto a questão: mais de vinte anos pas-
de que a solução durável está no “[...] reconhecimento sados da “Metrópole corporativa fragmentada”, o quanto
dos valores humanos que devem inspirar a elaboração São Paulo mudou?
de uma política fundada na justiça social e não em con-
siderações de lucro” (SANTOS, p. 112). REFERÊNCIAS
Sob a luz de que “o mundo e o lugar, intermediados
pela formação socioeconômica e territorial” é um princí- SANTOS, Milton. Metrópole corporativa fragmentada: o
pio de método a adotar para se apreender o significado caso da São Paulo. São Paulo: Nobel: Secretaria de Estado
de cada caso particular, Santos analisa, na obra, aspectos da Cultura, 1990. 116 p. il.
da aglomeração paulistana e, com a criatividade que lhe
é peculiar, apresenta conceitos, categorias e noções tais ________. O centro da cidade do Salvador: estudo de geo-
como, globalização, metrópole corporativa, fragmenta- grafia urbana. 2 ed. São Paulo: Editora da Universidade
ção, planejamento da cidade, seletividade, conflitos e de São Paulo; Salvador: Edufba, 2008. 208 p. il. (Coleção
realidades, que permitiram uma análise aprofundada Milton Santos; 13).
da organização espacial e processos sociais da Grande
São Paulo no contexto intra-urbano, urbano, urbano VASCONCELOS, Pedro de Almeida. Salvador: trans-
paulistano, e em outros níveis escalares (regional, na- formações e permanências (1549-1999). Ilhéus: Editus,
cional e global). 2002. 456 p. il.
Tônica maior da sua contribuição à análise espacial,
Santos apresenta uma sistematização teórica-metodoló-
gica, como citado, ao estudo do processo de urbanização
da metrópole paulistana, que, como o autor sugere, é o
exemplo que deixa mais claras, pela sua expressão, as 4
Foi consultada a segunda edição, em 2008.

158 Ano XIII Nº 24 Dezembro de 2011 Salvador, BA RDE - REVISTA DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO

Você também pode gostar