Drenthe e o Cão de Guerra: Espionagem e Arte
Drenthe e o Cão de Guerra: Espionagem e Arte
EXEMPLAR
por Alex Irvine
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Ottmar Drenthe estava vendo críticas de seu último projeto, espumando de raiva com a idiotice das
elites culturais da Supremacia, quando seu agente entrou em contato e sugeriu que talvez ele precisasse
de algo diferente.
— Diferente como? — replicou Drenthe. — Eu sou Drenthe. Eu faço os holovídeos que Drenthe faz.
— Sim, sem dúvida — disse o agente —, mas eu tenho uma oferta aqui que talvez você queira ver.
Um valor apareceu na tela debaixo do rosto gordo e avarento de seu agente. Era o suficiente para
levar Drenthe a fazer a próxima pergunta. — O que é que esse cliente quer de Drenthe?
— É um industrial, mas não desligue. Você vai encenar uma batalha para a Armamentos Axioma.
Eles construíram um novo andarilho de combate e querem algo impactante para tentar vendê-lo ao
— Bom, tem outra coisa — disse o agente. — Um probleminha com o financiamento do Heróis da
periferia. — Era o próximo holovídeo que Drenthe queria dirigir, um grande épico de guerra sobre uma
fantasma amargurada e seu inesperado amor por um templário protoss, sob ameaça de uma nova
— Um problema?
— Tipo, não conseguimos juntar créditos suficientes. Mas se fizer esse trabalho para a Axioma, você
Drenthe suspirou. Aquele era o perene fardo do autor. — Drenthe vai dirigir o filme desse industrial
se você jurar que Heróis da periferia será o próximo projeto — disse ele, sem sequer tentar disfarçar o
desdém.
— Ótimo. Eu vou enviar o contrato para você, mas você tem que partir para Bukari V amanhã de
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manhã. O prazo é apertado. A AxA quer tentar vender a unidade em duas semanas.
— Não se preocupe com isso — disse o agente. — Apenas esteja no estaleiro sideral.
Menos de oito horas depois de o transporte ter deixado Korhal, Drenthe foi abordado por um
estranho enquanto tomava um brandy brontesiano no bar. — Ottmar Drenthe — disse o estranho. — É
uma honra e um raro prazer encontrar um artista tão importante em uma viagem ao sistema Bukari.
— Infelizmente Drenthe acha que isso vai continuar assim. Drenthe foi humilhado, tem que se
rebaixar a fazer filmes para empresas. Propagandas. — Ele estava um pouco bêbado e bastante triste.
— Lamentavelmente, sim.
O estranho estendeu a mão. Drenthe a apertou. — Pode me chamar de Eli. Eu tenho uma pequena
Drenthe havia muito já se cansara de propostas feitas por estranhos em bares, mas ele não tinha
— Você vai fazer uma peça de propaganda para o novo andarilho pesado da Axioma, o Cão de
Cão de Guerra, pensou Drenthe. Era a primeira vez que ouvia o nome da máquina. — Como você
sabe disso?
— Eu trabalho para a Axioma. Mas também para outras pessoas. Eu ouço coisas. Eu sei das coisas.
— Mas o que acontece é o seguinte — disse Eli. — Algumas pessoas querem que o Cão de Guerra
entre em produção e algumas, não. Ofereceram uma certa quantia para você ajudar a Axioma. E se eu
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oferecesse a você o dobro para fazer um projeto muito mais interessante?
Os olhos de Drenthe se estreitaram. Ele deu um gole do brandy. — Como assim "interessante"?
— Pense nisso como um exercício formal. Será que você pode dirigir um holovídeo que pareça
louvar as qualidades do Cão de Guerra enquanto na verdade aponta suas fraquezas? Eu tenho alguns
amigos que pagariam muito bem por um projeto assim. Mas só se for feito por Drenthe.
— Tudo bem. Olha só: — disse Eli — pagamento à parte, você sabe que a AxA não passa de um
bando de assassinos selvagens e gananciosos que vai usar esse novo Cão de Guerra para esmagar
— É, vai acreditando nisso... Se os Cães de Guerra algum dia forem usados contra os zergs, será
apenas se houver sobrado o suficiente deles depois de todas as operações antirrevolta que eles vão
combater por todo o setor. Você não viu o protótipo. Foi projetado para uso de perto, é antiblindados,
antiveículo e tem um pouco de capacidade antiárea. Não é nem um pouco prático para combater os
zergs. Quem diabos inventaria uma unidade para combater zergs que primeiro tem que se meter lá no
meio deles?
Drenthe pensou a respeito. Ele não era um estrategista, nem sabia nada a respeito da manufatura
de equipamento bélico. Será que Eli podia mesmo ter tanta certeza do que os Cães de Guerra fariam
depois de ser produzidos? Eli era persuasivo, de fato. E havia a questão do dinheiro. Mas ele havia
assinado um contrato.
Mas será que poderiam processá-lo por quebra de contrato se seu holovídeo fosse usado para fins
contrários aos que ele imaginava? Drenthe não era um estudioso da ética. Era um diretor de excelentes
De fato, compreendeu Drenthe, estavam lhe pedindo para criar uma peça de propaganda dentro de
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outra peça de propaganda, um holovídeo que diria A, mas faria B. Um documentário de propaganda que
faria de si mesmo ficção. Quando percebeu aquilo, seu interesse foi despertado. Aquilo era arte. E ele
era um artista.
E havia a questão do pagamento. O dobro do que a Axioma oferecia? Sem comissão de agente?
— Olha só — disse ele, imitando deliberadamente a frase de Eli: — Drenthe vai aceitar.
Aquilo tornou-se um jogo para Drenthe. Ele iria brincar de dirigir um holovídeo que satisfaria seus
dois empregadores e, além disso, ainda estaria metido num esquema de espionagem! Já estava
montando uma nova história em sua mente, seu próximo projeto após Heróis da periferia. Nessa
— Fico feliz — disse Eli. Ele sacou uma maquininha e mostrou um número a Drenthe na tela. —
Drenthe ergueu a taça. — Permita que Drenthe lhe pague uma bebida.
Eles chegaram à órbita de Bukari V pouco depois de Drenthe conseguir achar sua cabine e cair em
um sono potencializado pelo álcool, interrompido por visões dos holovídeos que ainda filmaria. Acordou
quando a I.A. de bordo avisou que o desembarque ia começar e o último táxi orbital até a superfície de
Bukari V partiria em uma hora. Drenthe quase não conseguiu chegar a tempo. Uma hora depois, ele se
encontrou com Dario Cerulli, seu contato e agente de Relações Públicas da Axioma. Cerulli levou
Drenthe até sua sala dentro do vasto complexo executivo e de manufatura que a AxA construíra em
Bukari V, um mundo apagadiço cuja única importância derivava de enormes depósitos de vespeno e
outras matérias-primas.
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— Permita que eu apresente o lugar — disse Dario, depois que Drenthe já tinha deixado suas coisas
no quarto. Ele conduziu Drenthe em uma visita entediante e perfunctória ao complexo. Quem dera
As coisas ficaram um pouco mais interessantes quando saíram do complexo. A tarde era árida, de
vento forte. O sol pairava vermelho e gordo no céu; uma das quatro luas de Bukari V pendia à frente do
astro como uma verruga no rosto de um deus. E uma lua crescente descia no horizonte leste. Drenthe
— Aqui vai ser o campo de testes. Quer dizer, é o campo de testes, mas vai ser sua locação principal
— disse Dario, gesticulando para o amplo espaço de chão rochoso e seco, ladeado por cercas pesadas.
— Também vamos precisar de tomadas das instalações de produção, e vamos ter que entrevistar os
operários. Acho que nós selecionamos alguns que se encaixarão bem no projeto.
Aquele sujeito já estava começando a irritar Drenthe. Eu decido o que vou filmar e com quem falar,
— Ótimo — disse Dario. Eles caminharam pelos limites do campo de testes. — Sei que você vai
querer dar uma volta pelo local para escolher os pontos onde colocar as holocâmeras. Assim que nós...
Eles tinham chegado a uma pequena elevação do terreno, com a vastidão da fábrica à esquerda e o
campo de testes à direita e atrás deles. À frente, havia um aglomerado de edifícios que talvez, pensou
Drenthe, pudesse ser chamado de cidade. Era incolor e esquálida, e ao longo da estrada que perfazia o
meio quilômetro entre ela e a fábrica, várias dezenas de pessoas gritavam e sacudiam placas. No centro
do grupo estava uma linda mulher, cujos longos cabelos ruivos refletiam a luz do Sol. Ela animava os
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resultavam em grandes imagens.
— Ali ficam os alojamentos de alguns de nossos operários. Não precisamos ir lá. E se nós... — Dario
direção dos operários manifestantes. Pouco depois, tudo degringolava em caos. Drenthe viu o pessoal
de segurança da AxA usando longos bastões elétricos e dispositivos sônicos de controle de multidão.
Apareceram ambulâncias. O barulho que chegava até eles consistia basicamente em gritos e berros. A
mulher que comandava os manifestantes estava no centro, de braços erguidos, cantando algo que
Não só espionagem, mas lutas operárias! Drenthe estava conseguindo mais material naquela viagem
do que esperava. Um dos guardas bateu na cabeça da mulher com um bastão, e ela desapareceu no
tumulto.
— Isso é inaceitável — disse Dario. Ele abriu o comunicador e ligou para alguém. — Riley, eu estou
— Não, não é isso que estou dizendo. Eu não fui consultado. Timing, Riley. Timing. Falamos nisso
depois. Agora eu quero que você os chame de volta, e é para já! Não é para prender ninguém. Tire todos
eles daqui.
Dario fechou o comunicador e disse: — Desculpe. Você sabe como são as pessoas. Os operários
sempre acham que nós estamos sentados em uma pilha de dinheiro que deveria ser deles.
estrada ou perto dela. Drenthe não podia ver se estavam vivos ou mortos. As ambulâncias também
partiram. Outros operários se dirigiam até os companheiros feridos e os arrastavam até a cidade da
empresa. A mulher que Drenthe vira agora dirigia os esforços de retirada, apesar da cascata de sangue
que lhe descia pelo rosto. Era um espécime notável, forte e com o porte elegante de uma estátua.
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Selvageria, pensou Drenthe — e ficou satisfeito por ter conseguido filmar um pouco sem o
conhecimento de Dario. Ele era Drenthe. Ele não ia a parte alguma sem seus gravadores absorvendo o
ambiente. Suas camisas e cintos eram feitos especialmente para incorporar microgravadores em botões
e fivelas. O anel que usava na mão direita continha uma pequena lente. Quando não estava contando
outras histórias, contava a história de si mesmo. Uma história sem fim, claro, pois Drenthe não
— Isso foi extremamente irregular — disse Dario. Ele olhou para Drenthe, que viu linhas tensas ao
redor dos seus olhos e boca. O local de trabalho da AxA era mais interessante do que Drenthe tinha
imaginado — e muito mais interessante do que queria que fosse. Drenthe adorava ver o que não era
para seus olhos. — A Axioma faz questão de manter boas relações com sua força de trabalho.
— É claro — disse Drenthe. Ele se perguntava qual seria o nome da ruiva e se ela poderia ser
— Bom. Então. Você já viu o lugar. Você não quer descansar um pouco agora? Vamos precisar que
você comece a filmar assim que seus gravadores estiverem prontos. Tempo é dinheiro.
executivo, que ficava separado da fábrica e bem longe da cidade, eles encontraram Eli, que, pelo jeito,
estivera esperando por eles. — Dario — disse. — Vejo que você apresentou Drenthe ao lugar.
Dario deu de ombros. — Somos todos adultos. Os operários nunca estão satisfeitos, e quando essa
insatisfação se torna balbúrdia, a Axioma tem o dever de manter um ambiente de trabalho seguro para
a vasta maioria dos funcionários que apreciam tudo o que a Axioma faz por eles. Acontece de vez em
quando. É desagradável, claro, mas a Axioma faz questão de responder sempre de maneira humana e
dentro da lei. Bom, já que vocês não foram apresentados:Eli, Drenthe. Drenthe, Eli.
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— Nós já nos conhecemos — disse Eli, mas apertou a mão de Drenthe novamente.
Eli piscou para Drenthe. — Nós conversamos durante a viagem. Foi um prazer enorme conhecer um
Cedo no dia seguinte, Drenthe encontrou-se com Eli novamente enquanto inspecionava o terreno
ermo em busca de pontos para instalar gravadores fixos. A maior parte das cenas de ação seria filmada
com lentes móveis, mas Drenthe acreditava que contar holo-histórias às vezes dependia de um ponto de
vista fixo. Talvez fosse algo fora de moda. Mas ele era Drenthe.
— Tem uma coisa que você tem que saber — disse Eli. — Para não acabar se machucando por aí.
— Como é que eu posso me machucar? Pensei que você tinha dito que esses Cães de Guerra eram
— Você é um artista, Drenthe. Você entende que um pouco de exagero passa a mensagem melhor,
não é?
— Eu preferia saber dos riscos a que estarei exposto — disse Drenthe, usando a primeira pessoa, o
Drenthe não estava com paciência para sutilezas. — Seja direto — exigiu.
— A armadura cenográfica não vai combater como uma armadura cenográfica — explicou Eli. —
Nós decidimos tomar medidas para garantir que você filme a história que nós dois queremos que você
filme.
— Os Cães de Guerra vão fazer feio, é isso que estou dizendo — disse Eli. — Estou dizendo isso não
só pela sua segurança, mas para você saber quando começar a dirigir. Coloque as coisas de holocaptura
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no lugar certo para filmar vários Cães de Guerra indo pelos ares, entendeu? — Ele terminou a bebida e
Ele retornou para o compartimento de passageiros e Drenthe ficou sozinho, considerando suas
opções.
Dario queria confirmar as datas de filmagem, e por isso Drenthe foi encontrá-lo cedo na manhã
requerimentos de Drenthe, que incluíam pontos para montar pelo menos dez holocâmeras remotas no
próprio campo de teste e uma plataforma de diretor que recebesse o input de todas elas, além de uma
cadeira que Drenthe trouxera de Korhal. Ela sempre o acompanhava nos sets. — Quando estiver tudo
— Sem problema — respondeu Dario. — Vou mandar iniciar a construção agora mesmo. — Ele
deixou Drenthe sozinho no escritório por um minuto. Drenthe aproveitou para filmar o escritório inteiro
e a vista da janela, de onde podia ver desde a fábrica até a cidade dos trabalhadores. A fábrica era
magnífica, à maneira das fábricas: uma imensa área repleta de chaminés e guindastes que carregavam
metralhadoras e tornos guinchavam. Quase nunca chovia naquela parte de Bukari V; a maior parte do
Em um terreno murado nos limites do complexo estavam protótipos finalizados do Cão de Guerra;
Drenthe contou quarenta e sete. Tinham sete metros de altura e duas pernas articuladas que se moviam
rapidamente sobre terreno irregular. Racks de mísseis foram montados no que seriam seus ombros se
fossem humanos, e seus braços terminavam em canhões múltiplos. Drenthe se lembrou do comentário
de Eli sobre os VCEs. Era verdade: o chassi do Cão de Guerra era parecido com o da unidade pau-pra-
toda-obra. Mas o Cão de Guerra era muito maior. O operador de um VCE enfiava os braços e pernas no
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exoesqueleto da unidade; o operador de um Cão de Guerra ficava protegido dentro do torso da
unidade, com interfaces neurais paralelas gigantescas controlando os membros e sistemas de armas.
Drenthe percebeu que estava ansioso por ver os Cães de Guerra em ação.
Também dava para ver o campo de testes, que Drenthe observou bem. Ele gostou daquele ângulo,
absorvendo tudo por detrás do vidro escurecido dos escritórios executivos. Seria um bom contraste com
Dario retornou. — Sua plataforma será construída até o fim do dia — disse. — Monitores e tudo. Eu
tomei a liberdade de pedir que alguém trouxesse sua cadeira da sua cabine.
Drenthe ficou irritado ao perceber que sua privacidade podia ser tão displicentemente invadida,
Dario riu. — Parecem sim, é verdade. Mas há um motivo. O primeiro ancestral do que viria a se
tornar nosso modelo de Cão de Guerra foi um VCE. Pertencia a um engenheiro chamado Yakov Iliev, que
trabalhava para uma pequena empresa de mineração em algum planeta obscuro num cafundó
— Você está vendo alguma holocâmera aqui? Quando Drenthe holofilma, o mundo inteiro sabe.
— Certo. Bom, Iliev trabalhava numa mina que estava tendo problemas com alguns bandidos da
área. Ele reconfigurou alguns VCEs com arma, e quando os bandidos apareceram de novo, tiveram uma
surpresa. A direção da empresa não gostou, pois já haviam contratado um serviço de segurança e aquilo
queimava o filme deles. Então, justo quando, iam demitir Iliev — dá pra acreditar? —, a Axioma
comprou a empresa. Eu ainda não trabalhava aqui, mas, pelo que ouvi contarem, o projeto e os
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Drenthe decidiu que gostaria de conhecer o tal Yakov Iliev. — Onde está esse engenheiro agora? —
perguntou.
— Não faço ideia. Acho que se aposentou e foi para algum lugar calmo. Não dá para negar que ele
era talentoso. Mas não tinha a personalidade necessária para trabalhar em um ambiente corporativo
Lendo nas entrelinhas, Drenthe imaginou que Iliev fora demitido, perdendo os direitos sobre o
projeto por conta de alguma infração de letra miúda no contrato de compra. Uma velha história. Havia
Mas Iliev, o personagem, o interessava. Drenthe o encontraria. Havia muita coisa acontecendo sob a
fachada que Dario construíra para a Axioma, muito mais do que Drenthe havia esperado. Interessante.
Em suas mãos, aquele seria um filme muito melhor do que a Axioma merecia.
Suas únicas preocupações àquela altura diziam respeito ao que Eli lhe dissera na noite anterior.
Abordando o assunto, Drenthe dissera: — Eu preferia poder dirigir as ações individuais dos Cães de
Guerra.
— Infelizmente não será possível. Nós teremos operadores dentro deles. É uma das poucas coisas
para que ainda usamos pessoas. Elas são escolhidas a dedo das nossas equipes de montagem.
Drenthe sentiu um calafrio. Os operadores... se a I.A. tivesse sido corrompida, eles morreriam. Pela
imediatamente resolveu não tomar parte naquilo, sabendo que não permitiria que operários inocentes
fossem feitos em pedaços por tanques e vikings. Não, ele não era um especialista em ética, mas também
não era homem de ficar parado enquanto atrocidades eram cometidas na sua frente.
Acima de tudo, ele era um artista. Um contador de histórias. E em meio à sua reação inicial à
revelação de que Eli planejava chacinar duas dúzias de operadores de Cão de Guerra, Drenthe já
começava a transformar aquela situação em uma história. Que começava com Yakov Iliev sendo
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alienado de seus direitos de inventor e terminava... como? Isso ele ainda não sabia. Mas não era um
correspondente de guerra para ficar assistindo humanos morrendo sem fazer nada.
Drenthe percebeu que Eli o estava manipulando, exatamente como a Axioma manipulara Iliev.
Estava se tornando um testa-de-ferro, alguém cuja arte e talento seriam roubados e empregados para
Ele os combateria com as armas que lhe eram naturais: seu olho de diretor e suas holocâmeras.
— Você pode passar instruções aos operadores se quiser — disse Dario. — Posso reuni-los pela
manhã. Há algumas manobras específicas que precisamos que eles façam para os clientes, mas, tirando
— Não. Se não posso dirigi-los, então não vou falar nada. Meias-medidas resultam em uma história
mal contada.
De fato, pensou Drenthe. Um terceiro projeto começou a se delinear em sua mente, incorporando e
superando tanto o trabalho inicial quando a subversão que concordara em dirigir. Havia um
documentário real ali, sobre trabalhadores oprimidos sendo sacrificados em uma peça de propaganda.
(E ele fora subornado para ajudar!) E se em vez disso criasse uma peça de propaganda sobre
trabalhadores oprimidos que descobrem que estão prestes a ser sacrificados e viram a mesa?
Mais à noite, Drenthe saiu do seu quarto e deixou o complexo executivo. — Eu sou Drenthe — disse
ao guarda. Mostrou uma holocâmera. — Estou dirigindo um holovídeo. Quero conseguir algumas
O guarda foi verificar e viu que Drenthe estava listado como contratado em visita com privilégios
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VIP. Ele fez um sinal para que Drenthe passasse sem falar mais nada. Drenthe passou, aborrecido, pois o
guarda não fez menção de conhecer nenhum dos seus trabalhos. O que as pessoas dali faziam para se
cultivar?
Ao se afastar do guarda do portão, ele percebeu que ninguém mais o observava. Caminhou ao longo
dos limites da fábrica e circundou o campo de prova, carregando duas holocâmeras portáteis que ele
poderia deixar ao largo da estrada, onde não chamariam a atenção em meio ao resto dos detritos e lixo
industrial. Ou, pensou Drenthe, poderia dá-las a alguém. Ao chegar à estrada, viu que o portão da
fábrica estava protegido, mas o caminho até a cidade estava liberado. Parecia que a Axioma não se
importava com o que os operários faziam contanto que os bens da companhia estivessem protegidos.
Sem dúvida a Axioma tinha espiões e informantes entre os operários para descobrir os rebeldes mais
recalcitrantes.
Drenthe olhou para o céu e fez o que dissera ao guarda que faria. Filmou tomadas iniciais da fábrica,
da paisagem e do céu noturno de Bukari V. Havia três luas visíveis, e uma delas passava à frente de
outra. Drenthe jamais vira algo assim. Ele gastou vários minutos filmando aquilo, considerando a ideia
aos poucos, fascinado com as visões que o universo tinha a oferecer. E então era hora de voltar ao
A cidade da companhia era sombria e miserável. Havia uma única rua principal ladeada por prédios
pré-fabricados de dois e três andares. Havia vários bares e um único holocinema exibindo um lixo de
quinta, um filme de um diretor que Drenthe considerava um imitador imbecil de imitadores imbecis. As
pessoas olhavam para Drenthe quando ele passava, mas não o interpelavam, o que sinalizava
imediatamente seu status de intruso. O medo e a hostilidade delas eram palpáveis. Por um momento,
Drenthe temeu por sua segurança, mas sua curiosidade pôde mais. Suas holocâmeras miniaturizadas
captaram tudo.
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Drenthe viu pobreza pelas ruas transversais. O lixo se acumulava em pilhas diante de prédios
dilapidados e pobres. Os tetos cediam, as janelas estavam quebradas. Drenthe filmou tudo. Ele
caminhou pela rua principal e encontrou dois homens saindo de um bar. Imaginou reconhecer um deles
da manifestação — um sujeito alto, calvo e com cicatrizes, como se tivesse estado em combate. O outro
futucava um dente frouxo com o indicador e o polegar. — Com licença. Eu sou Drenthe. Eu vi o conflito.
Os homens pararam e olharam para Drenthe com atenção. — Você é o holodiretor — disse o careca.
— Drenthe.
— Nós ouvimos falar de você. Você está dirigindo um holovídeo sobre o teste do Cão de Guerra. A
— É — disse o homem com o dente frouxo. — Foi por isso que fizemos a manifestação. Achei que a
Vocês não sabem quão pior poderia ter sido, pensou Drenthe.
— Você quer falar com Ayla? — perguntou o homem calvo. — Difícil. Ela não vai falar com um lacaio
da Axioma.
— Vai sim — respondeu Drenthe. — Tem uma coisa que ela precisa saber.
— Olha só — disse o calvo. — Eu vou levar você até ela, mas, na hora em que você disser alguma
coisa que me desagradar, vou chutar sua bunda daqui até Korhal. Eu já estive na prisão. Vi a guerra.
A ruiva estava perto dali, em outro bar, cercada por correligionários que olharam para Drenthe
como se ele fosse alguma coisa contagiosa. — Eu vi você no conflito ontem — disse ele, aproximando-se
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dela.
— E daí?
— Ayla.
— Ayla. Eu sou Drenthe. — Ele esperou que ela reconhecesse seu nome. Ela não o fez, e Drenthe
Contou-lhe a história — tanto quanto ele sabia —, mas não mencionou que estava recebendo
dinheiro tanto da AxA quando do espião infiltrado na empresa. — Você conhece alguém da equipe
técnica dentro da firma que seja, digamos, simpatizante da causa? Não quero saber do nome, claro.
— E se eu conhecer?
— Então talvez você queira dizer a essa pessoa que vão tentar corromper o sistema de controle
amanhã. Os Cães de Guerra, pelo que sei, enfrentarão muito mais dificuldades do que vocês foram
levados a acreditar.
— Praga dos infernos — disse Ayla, articulando bem cada sílaba. — Estão armando um massacre
para a gente. Eli. Nada é baixo demais para esse cara. A morte dele faria do universo um lugar melhor...
entende?
puder ser impedida... um esquadrão de Cães de Guerra pode ser bem eficiente como instrumento de
negociações trabalhistas.
Drenthe já estava com os gravadores no lugar, e havia entregado as duas câmeras portáteis a Ayla. Ao
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sair de Bukari V, ele teria uma história que não havia esperado. Nas últimas horas, essa história fizera
até mesmo Heróis da periferia parecer menos importante. Todo o seu ser estava centrado no aqui e no
O campo de provas tinha quinhentos metros de largura e era mais ou menos circular. Era cercado
por protrusões rochosas que lhe conferiam o formato de uma tigela rasa, com seu solo partido por
outras formações rochosas. Nos limites do campo, estavam algumas divisões de tanques de cerco.
Alinhados perto dos limites ao norte, havia aglomerados de velhos golias e híbridos viking ar-e-terra.
Drenthe subiu para o guindaste e observou a cena. Ele tinha um conjunto de monitores instalados
em arco ao redor de sua cadeira de diretor, cada qual transmitindo as imagens de uma das holocâmeras
remotas instaladas pelo campo de provas. Viu que horas eram e falou com Dario. — Drenthe está
pronto.
Do outro lado, na fábrica, duas pesadas portas que davam para a área de carga e descarga se
abriram. De cada uma saiu uma coluna de doze Cães de Guerra. Drenthe sabia, pelo material de
instruções que recebera, que haveria uma série de demonstrações ensaiadas, mas também sabia que, se
Ayla conseguisse impedir a corrupção da I.A., não haveria como saber o que aconteceria. Quando a
filmagem começasse, seria necessário estar pronto para qualquer coisa. Ele depôs as notas em um
monitor próximo e observou as imagens dos gravadores que filmavam a marcha dos Cães de Guerra em
Dario também lhe fornecera uma narração que louvava as virtudes do Cão de Guerra. Drenthe
decidira reproduzir a narração pela primeira vez por cima das gravações não editadas no instante em
que as recebia, para dar ao material inicial a impressão tanto de espontaneidade quanto de preparo
prévio.
Ayla apareceu em uma das imagens das câmeras portáteis. — Funcionou — disse ela. — A I.A. vai
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funcionar como deveria. Mas o seu amigo Eli era um dos caras que estavam tentando corromper a I.A.
Ele deu o fora rapidinho quando viu a gente. É melhor você ficar de olho nele.
Ele vai me procurar, pensou Drenthe. Drenthe se tornara um personagem na história que Drenthe
Ele disse: — A gente pensa nisso depois. — Ele estava empolgado, como sempre ficava no início de
um projeto, quando não sabia como o trabalho terminaria. E aquele trabalho era um dos mais incertos.
Drenthe chamou Dario, que estava mais atrás, perto da entrada da fábrica, observando um monitor.
Oi, meu nome é Dario Cerulli, sou da Axioma Armamentos e estou aqui para falar do Cão de Guerra.
Os dois grupos de Cães de Guerra entraram no campo de prova. O primeiro avançou para enfrentar
os tanques, com o segundo bem perto para dar apoio aéreo. Aquilo estava de acordo com o roteiro que
Drenthe recebera de Dario. Bem no horário, um grupo de robôs autônomos de ataque aéreo apareceu
O Cão de Guerra vem armado com baterias de mísseis antiaéreos Ciclone de alcance médio, que se
dos gravadores de Drenthe. Lindo, pensou ele. No comunicador, Dario disse: — Isso tá lindo, você tá
gravando, Drenthe?
— É claro que Drenthe está gravando. — Como se Drenthe não soubesse "gravar", pensou Drenthe.
Em outro canal, Eli disse: — Drenthe. O que diabo está acontecendo? Nós tínhamos um acordo!
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— O acordo não tinha cláusula nenhuma estipulando que Drenthe tomaria parte em assassinato em
massa, Eli.
— Você aceitou o dinheiro. — Outra salva de mísseis destruiu um viking pilotado remotamente que
pairava no fim do campo de prova, no ponto de onde as outras aeronaves tinham vindo. A fumaça se
evolava no ar, atravessada pela luz do sol. O visual era impressionante. Emoção por meio de fumaça e
— E você mentiu a respeito do propósito da coisa toda — disse Drenthe. — De onde Drenthe está, é
— Sabe qual não era o propósito da coisa toda? Não era pra começar uma porra de um golpe! Não
era esse o propósito da coisa toda! Nem me botar na alça de mira de um bando de malucos sindicalistas.
O grupo líder de Cães de Guerra alcançara os tanques de cerco, os quais disparavam tiros que
quicavam na blindagem dos Cães de Guerra sem explodir. — A I.A. teria armado os detonadores das
cápsulas se você não tivesse nos alertado, Drenthe — disse Ayla. — Pode contar quantas vidas você
salvou hoje.
Para missões antiveículo de combate próximo, o sistema de armas primário do Cão de Guerra é um
canhão elétrico equipado com as novas balas PDC (Plasma Direcionado de Campo Energizado) da
Axioma. Esse armamento emprega uma bala pesada, acelerada a uma velocidade de saída de três mil
metros por segundo. A bala é energizada com plasma que se dispersa em um cone estreito a partir do
ponto de impacto. A PDC penetra blindagem de forma mais rápida e eficiente que armas tipo gauss, e
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Em formação cerrada, os Cães de Guerra cercaram os tanques de cerco. Descargas azuis de plasma
jorraram dos canos dos sistemas PDC e dos próprios tanques. Um a um eles explodiram, e só foram
precisos poucos segundos para que se desintegrassem queimando. Atrás deles, metade dos Cães de
Guerra encarou os vikings, que tinham ordens de atacar quando o primeiro grupo de Cães de Guerra
enfrentasse os tanques de cerco. Alguns vikings queimaram e derreteram onde estavam. Três
conseguiram executar a transição para o modo aéreo e foram recebidos pelos Cães de Guerra com
salvas de mísseis vindos de três direções. Drenthe assistia a tudo de uma dúzia de ângulos ao mesmo
tempo, sentindo a empolgação aumentar ao ver o desenrolar da ação. O que aconteceria em seguida?
Não sabia.
O Cão de Guerra é capaz de mudar quase instantaneamente dos sistemas PDC para os sistemas de
A voz de Ayla veio de uma das caixas de som acopladas aos monitores de Drenthe. — Eli está indo
É claro, pensou Drenthe. Um alarme soou dos alto-falantes montados sobre a cerca da fábrica. A
princípio Drenthe pensou que fosse apenas composição de cena, um pequeno improviso de Dario. Ele
incorporaria aquilo. Percebeu que algo completamente diferente estava acontecendo quando ouviu a
voz de Eli nas caixas. — Aqui é Eli Balfour. Houve uma quebra de segurança nos sistemas de informação
da Axioma. Ottmar Drenthe deve ser detido imediatamente. Todos os técnicos que estão operando Cães
de Guerra precisam parar suas ações imediatamente. O teste do Cão de Guerra terminou. Repetindo, o
— Porra nenhuma — disse a voz de Ayla, saída da caixa de som diante de Drenthe.
Drenthe viu Eli dobrando a esquina da fábrica com um tipo de rifle nas mãos. Drenthe não era perito
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em armamentos. Eli disparou um tiro de aviso no guindaste onde Drenthe estava e apontou. —
Drenthe começou a se preocupar. Ele não tinha experiência em ser detido e não pretendia ter.
— Drenthe, a situação está sob controle — disse Ayla. — Não vai amarelar agora.
Para Drenthe, a situação parecia tudo, menos "sob controle". Outro tiro de aviso zuniu sobre sua
cabeça, mas ele continuou gravando. Os Cães de Guerra estavam causando destruição calamitosa pelo
explodiu em colunas de chamas, e o clarão azulado das PDCs ainda ressoava entre os destroços.
Espalhados em arco sobre o campo de prova, seis Espectros saíram da camuflagem e foram derrubados
por uma salva de mísseis. Os sons de lançamento e impacto quase chegavam ao limite do que o
equipamento de Drenthe suportava. — TRANQUEM A FÁBRICA! — A voz de Eli ribombou nos alto-
falantes. Veículos de segurança saíram dos portões que ficavam diante da cidade da companhia e
avançaram na direção do campo de prova. Os operários que assistiam atiraram pedras neles e foram
ignorados... por algum tempo; Drenthe tinha a sensação incômoda de que sua presença não garantiria
mais a segurança dos trabalhadores. Torcia para que Ayla estivesse preparada para aquela
eventualidade.
Parte de Drenthe exultava com o caos. Outra parte considerava a possibilidade de ele ter se metido
Um dos Cães de Guerra mais perto do guindaste de Drenthe dobrou para o lado e se postou no
acostamento nos limites do campo de prova, bloqueando a passagem de Eli. Este ergueu a mão, dando
um aviso: — Mais um passo e você vai se arrepender de ter nascido, seu torce-porca. Esse homem é um
O Cão de Guerra parou. Eli subiu a escada que dava na plataforma de Drenthe e apontou o rifle para
ele. O Cão de Guerra pairava sobre a plataforma, à direita de Drenthe. — Você tá morto, Drenthe —
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disse Eli. — Espionagem industrial é um crime capital.
Mesmo tendo sido projetado para uso antiveículo, o Cão de Guerra está mais do que preparado para
lidar com a infantaria inimiga. Não usar blindagem não protegerá você das PDCs.
O Cão de Guerra disparou uma rajada de PDC a menos de cinco metros de distância, e o corpo de Eli
derreteu, queimou e se despedaçou simultaneamente. Drenthe se abaixou para evitar a onda de calor,
som e pedaços de Eli. Cobriu a cabeça e não se moveu até perceber que Ayla estava dizendo algo no
alto-falante. Depois de um momento, ele entendeu. — Falou e disse, Eli. Espionagem industrial é um
crime capital. Desculpe por não termos tido tempo de arranjar um julgamento formal.
Ocorreu a Drenthe que Eli não iria pedir reembolso dos créditos pagos em adiantamento. Já os
— Agora, Cães de Guerra — disse Ayla. Drenthe percebeu que não era o único a monitorar a
situação.
Todos os Cães de Guerra se voltaram e saíram rugindo do campo de prova, iluminados pelos
tanques e vikings em chamas atrás deles. A demonstração saíra perfeitamente, com a emoção extra de
Eli sendo obliterado inesperadamente e da atualização de status de Drenthe para "ameaça criminosa".
Drenthe jamais vira algo parecido. O poder de fogo! As traições! Ele se sentia feliz por fazer parte
daquilo.
A Axioma Armamentos venderia um monte de Cães de Guerra. Mas também ia se meter em muitos
problemas.
usaram as PDCs contra os veículos de segurança. Drenthe contou oito veículos em chamas e viu o resto
dos guardas saltando dos caminhões e correndo desesperados de volta para dentro da fábrica. Drenthe
notou que nenhum deles fez qualquer gesto para defender o complexo executivo.
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Em situações nas quais é necessário atacar estruturas inimigas, os sistemas PDC do Cão de Guerra
Os Cães de Guerra derrubaram a cerca, arrancando os postes de aço com gestos quase displicentes
dos braços mecânicos. Drenthe viu Ayla sair da fábrica liderando um grupo de técnicos, que pareciam ao
mesmo tempo pessimistas empolgados. Verificando os monitores, Drenthe viu que Ayla estava
gravando tudo e enviando para ele. Drenthe quase bateu palmas de alegria.
— Nós travamos a A.I. — disse ela do áudio do monitor. — Nenhuma das contramedidas de defesa
de civis vai funcionar, e os capangas da AxA não vão sair pra enfrentar os Cães de Guerra. As coisas aqui
vão mudar de agora em diante. A Axioma acaba de passar para uma nova administração.
ocupantes saíram correndo e foram recebidos pelos operários da mesma forma que os operários foram
recebidos pela equipe de segurança da AxA dois dias antes. Drenthe começou a dizer algo sobre
moderação. Então se lembrou de que ao menos alguns daqueles gerentes e executivos tinham
participado de um complô que resultaria na morte de alguns trabalhadores. Com isso em mente, ele
— Então é melhor que Drenthe dê o fora daqui — respondeu Ayla. — O táxi orbital de que falamos
— Bem rápido — disse Drenthe. Ele reuniu suas gravações e deixou o equipamento lá mesmo.
Seu único arrependimento foi ter abandonado sua cadeira. Ela o tinha acompanhado por vários
sistemas estelares, em todos os sets onde ele trabalhara, desde o holovídeo que o revelara para o
mundo, O voo da mutalisca. Mas fatalmente chegava o momento de se desapegar das coisas. E talvez
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esse momento fosse agora, quando Drenthe tinha a chance de evitar se envolver em uma pequena
revolução que já se tornara bastante violenta. Drenthe tinha material para fazer um holovídeo incrível.
Talvez a perda da cadeira fosse o preço a ser pago. — Drenthe lhe dá adeus — disse à cadeira. Então
desceu da plataforma, evitando como pôde os restos de Eli, e atravessou o terreno acidentado, indo até
onde Ayla estava, ao pé do portão do complexo executivo. Como sempre, seus microgravadores
registravam tudo.
Havia uma última coisa que ele queria. — Ayla. Venha comigo para Korhal. Você pode virar uma
— Você está dando uma de olheiro? Você me descobriu, Drenthe? — disse ela com um sorrisinho
sacana.
— Estou. Bilhões de pessoas conhecerão você. Elas vão amar você. Sua ousadia, seu carisma.
— Hm-hm. Vamos fazer um trato. Encontre Yakov Iliev e diga a ele que a Axioma quer contratá-lo.
— Seus princípios. Elas vão amar seus princípios — disse Drenthe. Ele estava fascinado, como os
Ao entrar no táxi orbital, o piloto disse: — Nós estamos te devendo. Essa história vai sair mesmo?
— Se você conseguir que Drenthe saia daqui, Drenthe vai conseguir que essa história saia.
— Fechado — respondeu o piloto. A nave decolou. Drenthe olhou para baixo, para a fábrica e o
complexo executivo em chamas. Ele gravou tudo enquanto a nave se afastava; o cenário se distanciou e
desapareceu sob uma camada de nuvens. Três dias. Tudo acontecera em três dias. No entanto, outra
versão da história lhe ocorreu. Ayla, pensou. Ela liderara a rebelião contra a opressão da Axioma
Armamentos. Ele tinha hologravações dela em quantidade suficiente para que a história funcionasse. E
se ele conseguisse encontrar Yakov Iliev... não importava. De qualquer maneira, tentaria transformar
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Ayla em uma estrela, a destemida e magnífica líder de Bukari V. Ela logo seria uma das pessoas mais
famosas da Supremacia, e sua fama nascera na desolação da cidade da companhia, no caos esfumaçado
Não era a história que ele imaginara dirigir. Não era nem a história que imaginara quando os testes
do Cão de Guerra estavam começando. Mas era a história que queria contar. Havia verdade nela,
mesmo que não fosse a reprodução fiel do que tinha se passado realmente. Da matéria-prima da
realidade, era possível criar uma verdade mais verdadeira que a própria realidade.
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