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Drenthe e o Cão de Guerra: Espionagem e Arte

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Prim von Atland
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ATUAÇÃO

EXEMPLAR
por Alex Irvine

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Ottmar Drenthe estava vendo críticas de seu último projeto, espumando de raiva com a idiotice das

elites culturais da Supremacia, quando seu agente entrou em contato e sugeriu que talvez ele precisasse

de algo diferente.

— Diferente como? — replicou Drenthe. — Eu sou Drenthe. Eu faço os holovídeos que Drenthe faz.

— Sim, sem dúvida — disse o agente —, mas eu tenho uma oferta aqui que talvez você queira ver.

Duas semanas de trabalho no máximo. E olhe só o pagamento.

Um valor apareceu na tela debaixo do rosto gordo e avarento de seu agente. Era o suficiente para

levar Drenthe a fazer a próxima pergunta. — O que é que esse cliente quer de Drenthe?

— É um industrial, mas não desligue. Você vai encenar uma batalha para a Armamentos Axioma.

Eles construíram um novo andarilho de combate e querem algo impactante para tentar vendê-lo ao

pessoal de compras da Supremacia. Eles são muito fãs seus, Drenthe.

Aquilo já os diferenciava da maioria dos holocríticos. — Um industrial — debicou. — Isso é baixo

demais para Drenthe.

— Bom, tem outra coisa — disse o agente. — Um probleminha com o financiamento do Heróis da

periferia. — Era o próximo holovídeo que Drenthe queria dirigir, um grande épico de guerra sobre uma

fantasma amargurada e seu inesperado amor por um templário protoss, sob ameaça de uma nova

invasão zerg. Já vinha trabalhando na ideia fazia anos.

— Um problema?

— Tipo, não conseguimos juntar créditos suficientes. Mas se fizer esse trabalho para a Axioma, você

vai ficar bem mais perto de filmar o Heróis. Está me entendendo?

Drenthe suspirou. Aquele era o perene fardo do autor. — Drenthe vai dirigir o filme desse industrial

se você jurar que Heróis da periferia será o próximo projeto — disse ele, sem sequer tentar disfarçar o

desdém.

— Ótimo. Eu vou enviar o contrato para você, mas você tem que partir para Bukari V amanhã de

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manhã. O prazo é apertado. A AxA quer tentar vender a unidade em duas semanas.

— Bukari V? — Drenthe sequer sabia onde ficava aquilo.

— Não se preocupe com isso — disse o agente. — Apenas esteja no estaleiro sideral.

Menos de oito horas depois de o transporte ter deixado Korhal, Drenthe foi abordado por um

estranho enquanto tomava um brandy brontesiano no bar. — Ottmar Drenthe — disse o estranho. — É

uma honra e um raro prazer encontrar um artista tão importante em uma viagem ao sistema Bukari.

Não há muita arte por lá.

— Infelizmente Drenthe acha que isso vai continuar assim. Drenthe foi humilhado, tem que se

rebaixar a fazer filmes para empresas. Propagandas. — Ele estava um pouco bêbado e bastante triste.

— Ah, é? Para a Axioma?

— Lamentavelmente, sim.

O estranho estendeu a mão. Drenthe a apertou. — Pode me chamar de Eli. Eu tenho uma pequena

proposta para você.

Drenthe havia muito já se cansara de propostas feitas por estranhos em bares, mas ele não tinha

mais nada para fazer, tinha? — Que proposta?

— Você vai fazer uma peça de propaganda para o novo andarilho pesado da Axioma, o Cão de

Guerra. — Eli disse aquilo como se recitasse de cabeça.

Cão de Guerra, pensou Drenthe. Era a primeira vez que ouvia o nome da máquina. — Como você

sabe disso?

— Eu trabalho para a Axioma. Mas também para outras pessoas. Eu ouço coisas. Eu sei das coisas.

Drenthe achou aquilo suspeito.

— Mas o que acontece é o seguinte — disse Eli. — Algumas pessoas querem que o Cão de Guerra

entre em produção e algumas, não. Ofereceram uma certa quantia para você ajudar a Axioma. E se eu

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oferecesse a você o dobro para fazer um projeto muito mais interessante?

Os olhos de Drenthe se estreitaram. Ele deu um gole do brandy. — Como assim "interessante"?

— Pense nisso como um exercício formal. Será que você pode dirigir um holovídeo que pareça

louvar as qualidades do Cão de Guerra enquanto na verdade aponta suas fraquezas? Eu tenho alguns

amigos que pagariam muito bem por um projeto assim. Mas só se for feito por Drenthe.

— Sua lisonja é pouco sutil — disse Drenthe.

— Tudo bem. Olha só: — disse Eli — pagamento à parte, você sabe que a AxA não passa de um

bando de assassinos selvagens e gananciosos que vai usar esse novo Cão de Guerra para esmagar

rebeliões legítimas por todo o setor.

— Ou talvez combatam os zergs com ele — disse Drenthe.

— É, vai acreditando nisso... Se os Cães de Guerra algum dia forem usados contra os zergs, será

apenas se houver sobrado o suficiente deles depois de todas as operações antirrevolta que eles vão

combater por todo o setor. Você não viu o protótipo. Foi projetado para uso de perto, é antiblindados,

antiveículo e tem um pouco de capacidade antiárea. Não é nem um pouco prático para combater os

zergs. Quem diabos inventaria uma unidade para combater zergs que primeiro tem que se meter lá no

meio deles?

Drenthe pensou a respeito. Ele não era um estrategista, nem sabia nada a respeito da manufatura

de equipamento bélico. Será que Eli podia mesmo ter tanta certeza do que os Cães de Guerra fariam

depois de ser produzidos? Eli era persuasivo, de fato. E havia a questão do dinheiro. Mas ele havia

assinado um contrato.

Mas será que poderiam processá-lo por quebra de contrato se seu holovídeo fosse usado para fins

contrários aos que ele imaginava? Drenthe não era um estudioso da ética. Era um diretor de excelentes

holovídeos, reduzido a se vender por dinheiro.

De fato, compreendeu Drenthe, estavam lhe pedindo para criar uma peça de propaganda dentro de

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outra peça de propaganda, um holovídeo que diria A, mas faria B. Um documentário de propaganda que

faria de si mesmo ficção. Quando percebeu aquilo, seu interesse foi despertado. Aquilo era arte. E ele

era um artista.

E havia a questão do pagamento. O dobro do que a Axioma oferecia? Sem comissão de agente?

Imagens do primeiro dia de produção de Heróis da periferia dançaram na mente de Drenthe.

— Olha só — disse ele, imitando deliberadamente a frase de Eli: — Drenthe vai aceitar.

Ele pouco se importava com a Axioma.

Aquilo tornou-se um jogo para Drenthe. Ele iria brincar de dirigir um holovídeo que satisfaria seus

dois empregadores e, além disso, ainda estaria metido num esquema de espionagem! Já estava

montando uma nova história em sua mente, seu próximo projeto após Heróis da periferia. Nessa

história, um diretor de holovídeos incompreendido se via envolvido em espionagem industrial, com o

destino de sistemas estelares inteiros em jogo...

— Fico feliz — disse Eli. Ele sacou uma maquininha e mostrou um número a Drenthe na tela. —

Metade agora, metade quando você terminar o produto.

Drenthe ergueu a taça. — Permita que Drenthe lhe pague uma bebida.

Eles chegaram à órbita de Bukari V pouco depois de Drenthe conseguir achar sua cabine e cair em

um sono potencializado pelo álcool, interrompido por visões dos holovídeos que ainda filmaria. Acordou

quando a I.A. de bordo avisou que o desembarque ia começar e o último táxi orbital até a superfície de

Bukari V partiria em uma hora. Drenthe quase não conseguiu chegar a tempo. Uma hora depois, ele se

encontrou com Dario Cerulli, seu contato e agente de Relações Públicas da Axioma. Cerulli levou

Drenthe até sua sala dentro do vasto complexo executivo e de manufatura que a AxA construíra em

Bukari V, um mundo apagadiço cuja única importância derivava de enormes depósitos de vespeno e

outras matérias-primas.

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— Permita que eu apresente o lugar — disse Dario, depois que Drenthe já tinha deixado suas coisas

no quarto. Ele conduziu Drenthe em uma visita entediante e perfunctória ao complexo. Quem dera

Drenthe tivesse uma bebida.

As coisas ficaram um pouco mais interessantes quando saíram do complexo. A tarde era árida, de

vento forte. O sol pairava vermelho e gordo no céu; uma das quatro luas de Bukari V pendia à frente do

astro como uma verruga no rosto de um deus. E uma lua crescente descia no horizonte leste. Drenthe

não gostava do calor. Ele começou a suar.

— Aqui vai ser o campo de testes. Quer dizer, é o campo de testes, mas vai ser sua locação principal

— disse Dario, gesticulando para o amplo espaço de chão rochoso e seco, ladeado por cercas pesadas.

— Também vamos precisar de tomadas das instalações de produção, e vamos ter que entrevistar os

operários. Acho que nós selecionamos alguns que se encaixarão bem no projeto.

Aquele sujeito já estava começando a irritar Drenthe. Eu decido o que vou filmar e com quem falar,

pensou. Não um lacaio de fabricante de armas. Eu sou Drenthe.

Mas o que ele disse foi: — Sim.

— Ótimo — disse Dario. Eles caminharam pelos limites do campo de testes. — Sei que você vai

querer dar uma volta pelo local para escolher os pontos onde colocar as holocâmeras. Assim que nós...

ah, mas que pena.

Eles tinham chegado a uma pequena elevação do terreno, com a vastidão da fábrica à esquerda e o

campo de testes à direita e atrás deles. À frente, havia um aglomerado de edifícios que talvez, pensou

Drenthe, pudesse ser chamado de cidade. Era incolor e esquálida, e ao longo da estrada que perfazia o

meio quilômetro entre ela e a fábrica, várias dezenas de pessoas gritavam e sacudiam placas. No centro

do grupo estava uma linda mulher, cujos longos cabelos ruivos refletiam a luz do Sol. Ela animava os

operários e puxava as palavras de ordem que eles gritavam.

— O que é aquilo? — perguntou Drenthe. Revoltas de todo tipo o interessavam. Frequentemente

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resultavam em grandes imagens.

— Ali ficam os alojamentos de alguns de nossos operários. Não precisamos ir lá. E se nós... — Dario

se interrompeu quando quatro veículos emergiram do complexo de fábricas e avançaram rugindo na

direção dos operários manifestantes. Pouco depois, tudo degringolava em caos. Drenthe viu o pessoal

de segurança da AxA usando longos bastões elétricos e dispositivos sônicos de controle de multidão.

Apareceram ambulâncias. O barulho que chegava até eles consistia basicamente em gritos e berros. A

mulher que comandava os manifestantes estava no centro, de braços erguidos, cantando algo que

Drenthe não conseguiu discernir.

Não só espionagem, mas lutas operárias! Drenthe estava conseguindo mais material naquela viagem

do que esperava. Um dos guardas bateu na cabeça da mulher com um bastão, e ela desapareceu no

tumulto.

— Isso é inaceitável — disse Dario. Ele abriu o comunicador e ligou para alguém. — Riley, eu estou

mostrando o lugar para Drenthe. Era necessário fazer isso agora?

Drenthe não conseguiu ouvir a resposta.

— Não, não é isso que estou dizendo. Eu não fui consultado. Timing, Riley. Timing. Falamos nisso

depois. Agora eu quero que você os chame de volta, e é para já! Não é para prender ninguém. Tire todos

eles daqui.

Dario fechou o comunicador e disse: — Desculpe. Você sabe como são as pessoas. Os operários

sempre acham que nós estamos sentados em uma pilha de dinheiro que deveria ser deles.

O caos já amainava quando as forças de segurança se retiraram. Vários manifestantes jaziam na

estrada ou perto dela. Drenthe não podia ver se estavam vivos ou mortos. As ambulâncias também

partiram. Outros operários se dirigiam até os companheiros feridos e os arrastavam até a cidade da

empresa. A mulher que Drenthe vira agora dirigia os esforços de retirada, apesar da cascata de sangue

que lhe descia pelo rosto. Era um espécime notável, forte e com o porte elegante de uma estátua.

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Selvageria, pensou Drenthe — e ficou satisfeito por ter conseguido filmar um pouco sem o

conhecimento de Dario. Ele era Drenthe. Ele não ia a parte alguma sem seus gravadores absorvendo o

ambiente. Suas camisas e cintos eram feitos especialmente para incorporar microgravadores em botões

e fivelas. O anel que usava na mão direita continha uma pequena lente. Quando não estava contando

outras histórias, contava a história de si mesmo. Uma história sem fim, claro, pois Drenthe não

conseguia imaginar a própria morte.

— Isso foi extremamente irregular — disse Dario. Ele olhou para Drenthe, que viu linhas tensas ao

redor dos seus olhos e boca. O local de trabalho da AxA era mais interessante do que Drenthe tinha

imaginado — e muito mais interessante do que queria que fosse. Drenthe adorava ver o que não era

para seus olhos. — A Axioma faz questão de manter boas relações com sua força de trabalho.

— É claro — disse Drenthe. Ele se perguntava qual seria o nome da ruiva e se ela poderia ser

entrevistada. Dario, é claro, não permitiria, mas não haveria maneiras...?

— Bom. Então. Você já viu o lugar. Você não quer descansar um pouco agora? Vamos precisar que

você comece a filmar assim que seus gravadores estiverem prontos. Tempo é dinheiro.

Pensando em Heróis da periferia, Drenthe concordou. No caminho de volta até o complexo

executivo, que ficava separado da fábrica e bem longe da cidade, eles encontraram Eli, que, pelo jeito,

estivera esperando por eles. — Dario — disse. — Vejo que você apresentou Drenthe ao lugar.

— Ele viu até mais do que esperávamos — respondeu Dario.

— Foi o que ouvi dizer. Que lástima.

Dario deu de ombros. — Somos todos adultos. Os operários nunca estão satisfeitos, e quando essa

insatisfação se torna balbúrdia, a Axioma tem o dever de manter um ambiente de trabalho seguro para

a vasta maioria dos funcionários que apreciam tudo o que a Axioma faz por eles. Acontece de vez em

quando. É desagradável, claro, mas a Axioma faz questão de responder sempre de maneira humana e

dentro da lei. Bom, já que vocês não foram apresentados:Eli, Drenthe. Drenthe, Eli.

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— Nós já nos conhecemos — disse Eli, mas apertou a mão de Drenthe novamente.

— Ah, claro. Na nave. Eli é um dos nossos consultores.

Eli piscou para Drenthe. — Nós conversamos durante a viagem. Foi um prazer enorme conhecer um

artista tão famoso.

Cedo no dia seguinte, Drenthe encontrou-se com Eli novamente enquanto inspecionava o terreno

ermo em busca de pontos para instalar gravadores fixos. A maior parte das cenas de ação seria filmada

com lentes móveis, mas Drenthe acreditava que contar holo-histórias às vezes dependia de um ponto de

vista fixo. Talvez fosse algo fora de moda. Mas ele era Drenthe.

— Tem uma coisa que você tem que saber — disse Eli. — Para não acabar se machucando por aí.

— Como é que eu posso me machucar? Pensei que você tinha dito que esses Cães de Guerra eram

só uns VCEs com soldas maiores.

— Você é um artista, Drenthe. Você entende que um pouco de exagero passa a mensagem melhor,

não é?

— Eu preferia saber dos riscos a que estarei exposto — disse Drenthe, usando a primeira pessoa, o

que era uma raridade. Ele achava de mau gosto.

— O sistema de controle para a demonstração. Pode ser vulnerável.

Drenthe não estava com paciência para sutilezas. — Seja direto — exigiu.

— A armadura cenográfica não vai combater como uma armadura cenográfica — explicou Eli. —

Nós decidimos tomar medidas para garantir que você filme a história que nós dois queremos que você

filme.

Nós dois, pensou Drenthe. — É mesmo? — perguntou.

— Os Cães de Guerra vão fazer feio, é isso que estou dizendo — disse Eli. — Estou dizendo isso não

só pela sua segurança, mas para você saber quando começar a dirigir. Coloque as coisas de holocaptura

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no lugar certo para filmar vários Cães de Guerra indo pelos ares, entendeu? — Ele terminou a bebida e

se levantou. — Foi bom ver você. Amanhã é um grande dia.

Ele retornou para o compartimento de passageiros e Drenthe ficou sozinho, considerando suas

opções.

Dario queria confirmar as datas de filmagem, e por isso Drenthe foi encontrá-lo cedo na manhã

seguinte, no complexo executivo próximo às instalações da fábrica da AxA. Eles repassaram os

requerimentos de Drenthe, que incluíam pontos para montar pelo menos dez holocâmeras remotas no

próprio campo de teste e uma plataforma de diretor que recebesse o input de todas elas, além de uma

cadeira que Drenthe trouxera de Korhal. Ela sempre o acompanhava nos sets. — Quando estiver tudo

montado e as holocâmeras estiverem em posição, estaremos prontos para prosseguir — disse.

— Sem problema — respondeu Dario. — Vou mandar iniciar a construção agora mesmo. — Ele

deixou Drenthe sozinho no escritório por um minuto. Drenthe aproveitou para filmar o escritório inteiro

e a vista da janela, de onde podia ver desde a fábrica até a cidade dos trabalhadores. A fábrica era

magnífica, à maneira das fábricas: uma imensa área repleta de chaminés e guindastes que carregavam

toneladas de matéria-prima para as bocas incandescentes de fornalhas; rebitadeiras chacoalhavam feito

metralhadoras e tornos guinchavam. Quase nunca chovia naquela parte de Bukari V; a maior parte do

trabalho era realizada ao ar livre. Drenthe ficou maravilhado.

Em um terreno murado nos limites do complexo estavam protótipos finalizados do Cão de Guerra;

Drenthe contou quarenta e sete. Tinham sete metros de altura e duas pernas articuladas que se moviam

rapidamente sobre terreno irregular. Racks de mísseis foram montados no que seriam seus ombros se

fossem humanos, e seus braços terminavam em canhões múltiplos. Drenthe se lembrou do comentário

de Eli sobre os VCEs. Era verdade: o chassi do Cão de Guerra era parecido com o da unidade pau-pra-

toda-obra. Mas o Cão de Guerra era muito maior. O operador de um VCE enfiava os braços e pernas no

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exoesqueleto da unidade; o operador de um Cão de Guerra ficava protegido dentro do torso da

unidade, com interfaces neurais paralelas gigantescas controlando os membros e sistemas de armas.

Drenthe percebeu que estava ansioso por ver os Cães de Guerra em ação.

Também dava para ver o campo de testes, que Drenthe observou bem. Ele gostou daquele ângulo,

absorvendo tudo por detrás do vidro escurecido dos escritórios executivos. Seria um bom contraste com

a filmagem do próprio teste.

Dario retornou. — Sua plataforma será construída até o fim do dia — disse. — Monitores e tudo. Eu

tomei a liberdade de pedir que alguém trouxesse sua cadeira da sua cabine.

Drenthe ficou irritado ao perceber que sua privacidade podia ser tão displicentemente invadida,

mas não disse nada. Arrogância filmava bem.

— Eu estava vendo os protótipos daqui da janela. Parecem VCEs, não é?

Dario riu. — Parecem sim, é verdade. Mas há um motivo. O primeiro ancestral do que viria a se

tornar nosso modelo de Cão de Guerra foi um VCE. Pertencia a um engenheiro chamado Yakov Iliev, que

trabalhava para uma pequena empresa de mineração em algum planeta obscuro num cafundó

qualquer. Eu esqueci o nome, mas posso procurar para você.

— Não, por favor, continue.

— Você está gravando?

— Você está vendo alguma holocâmera aqui? Quando Drenthe holofilma, o mundo inteiro sabe.

— Certo. Bom, Iliev trabalhava numa mina que estava tendo problemas com alguns bandidos da

área. Ele reconfigurou alguns VCEs com arma, e quando os bandidos apareceram de novo, tiveram uma

surpresa. A direção da empresa não gostou, pois já haviam contratado um serviço de segurança e aquilo

queimava o filme deles. Então, justo quando, iam demitir Iliev — dá pra acreditar? —, a Axioma

comprou a empresa. Eu ainda não trabalhava aqui, mas, pelo que ouvi contarem, o projeto e os

desenhos de Iliev foram junto.

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Drenthe decidiu que gostaria de conhecer o tal Yakov Iliev. — Onde está esse engenheiro agora? —

perguntou.

— Não faço ideia. Acho que se aposentou e foi para algum lugar calmo. Não dá para negar que ele

era talentoso. Mas não tinha a personalidade necessária para trabalhar em um ambiente corporativo

grande. Era um faz-tudo, um tanto solitário. Antissocial, até.

Lendo nas entrelinhas, Drenthe imaginou que Iliev fora demitido, perdendo os direitos sobre o

projeto por conta de alguma infração de letra miúda no contrato de compra. Uma velha história. Havia

exemplos daquilo por toda a história da humanidade. Não o interessava.

Mas Iliev, o personagem, o interessava. Drenthe o encontraria. Havia muita coisa acontecendo sob a

fachada que Dario construíra para a Axioma, muito mais do que Drenthe havia esperado. Interessante.

Em suas mãos, aquele seria um filme muito melhor do que a Axioma merecia.

Suas únicas preocupações àquela altura diziam respeito ao que Eli lhe dissera na noite anterior.

Abordando o assunto, Drenthe dissera: — Eu preferia poder dirigir as ações individuais dos Cães de

Guerra.

— Infelizmente não será possível. Nós teremos operadores dentro deles. É uma das poucas coisas

para que ainda usamos pessoas. Elas são escolhidas a dedo das nossas equipes de montagem.

Drenthe sentiu um calafrio. Os operadores... se a I.A. tivesse sido corrompida, eles morreriam. Pela

primeira vez, Drenthe compreendeu as consequências daquilo em que tinha se envolvido. E

imediatamente resolveu não tomar parte naquilo, sabendo que não permitiria que operários inocentes

fossem feitos em pedaços por tanques e vikings. Não, ele não era um especialista em ética, mas também

não era homem de ficar parado enquanto atrocidades eram cometidas na sua frente.

Acima de tudo, ele era um artista. Um contador de histórias. E em meio à sua reação inicial à

revelação de que Eli planejava chacinar duas dúzias de operadores de Cão de Guerra, Drenthe já

começava a transformar aquela situação em uma história. Que começava com Yakov Iliev sendo

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alienado de seus direitos de inventor e terminava... como? Isso ele ainda não sabia. Mas não era um

correspondente de guerra para ficar assistindo humanos morrendo sem fazer nada.

Drenthe percebeu que Eli o estava manipulando, exatamente como a Axioma manipulara Iliev.

Estava se tornando um testa-de-ferro, alguém cuja arte e talento seriam roubados e empregados para

fins que ele considerava repelentes. Drenthe tinha inimigos em Bukari V.

Ele os combateria com as armas que lhe eram naturais: seu olho de diretor e suas holocâmeras.

Drenthe sentiu o sangue bombeando mais rápido ao pensar naquilo.

— Você pode passar instruções aos operadores se quiser — disse Dario. — Posso reuni-los pela

manhã. Há algumas manobras específicas que precisamos que eles façam para os clientes, mas, tirando

isso, a Axioma vai fazer de tudo para facilitar o seu trabalho.

— Não. Se não posso dirigi-los, então não vou falar nada. Meias-medidas resultam em uma história

mal contada.

— Você é o artista — respondeu Dario.

De fato, pensou Drenthe. Um terceiro projeto começou a se delinear em sua mente, incorporando e

superando tanto o trabalho inicial quando a subversão que concordara em dirigir. Havia um

documentário real ali, sobre trabalhadores oprimidos sendo sacrificados em uma peça de propaganda.

(E ele fora subornado para ajudar!) E se em vez disso criasse uma peça de propaganda sobre

trabalhadores oprimidos que descobrem que estão prestes a ser sacrificados e viram a mesa?

O que ele podia fazer para tornar aquilo realidade?

Mais à noite, Drenthe saiu do seu quarto e deixou o complexo executivo. — Eu sou Drenthe — disse

ao guarda. Mostrou uma holocâmera. — Estou dirigindo um holovídeo. Quero conseguir algumas

imagens do complexo e do campo de testes à noite.

O guarda foi verificar e viu que Drenthe estava listado como contratado em visita com privilégios

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VIP. Ele fez um sinal para que Drenthe passasse sem falar mais nada. Drenthe passou, aborrecido, pois o

guarda não fez menção de conhecer nenhum dos seus trabalhos. O que as pessoas dali faziam para se

cultivar?

Ao se afastar do guarda do portão, ele percebeu que ninguém mais o observava. Caminhou ao longo

dos limites da fábrica e circundou o campo de prova, carregando duas holocâmeras portáteis que ele

poderia deixar ao largo da estrada, onde não chamariam a atenção em meio ao resto dos detritos e lixo

industrial. Ou, pensou Drenthe, poderia dá-las a alguém. Ao chegar à estrada, viu que o portão da

fábrica estava protegido, mas o caminho até a cidade estava liberado. Parecia que a Axioma não se

importava com o que os operários faziam contanto que os bens da companhia estivessem protegidos.

Sem dúvida a Axioma tinha espiões e informantes entre os operários para descobrir os rebeldes mais

recalcitrantes.

Drenthe olhou para o céu e fez o que dissera ao guarda que faria. Filmou tomadas iniciais da fábrica,

da paisagem e do céu noturno de Bukari V. Havia três luas visíveis, e uma delas passava à frente de

outra. Drenthe jamais vira algo assim. Ele gastou vários minutos filmando aquilo, considerando a ideia

do eclipse, do ocultamento, do desaparecimento e da renovação. Observou as duas luas se afastando

aos poucos, fascinado com as visões que o universo tinha a oferecer. E então era hora de voltar ao

trabalho. Ele tinha um holofilme para holofilmar.

A cidade da companhia era sombria e miserável. Havia uma única rua principal ladeada por prédios

pré-fabricados de dois e três andares. Havia vários bares e um único holocinema exibindo um lixo de

quinta, um filme de um diretor que Drenthe considerava um imitador imbecil de imitadores imbecis. As

pessoas olhavam para Drenthe quando ele passava, mas não o interpelavam, o que sinalizava

imediatamente seu status de intruso. O medo e a hostilidade delas eram palpáveis. Por um momento,

Drenthe temeu por sua segurança, mas sua curiosidade pôde mais. Suas holocâmeras miniaturizadas

captaram tudo.

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Drenthe viu pobreza pelas ruas transversais. O lixo se acumulava em pilhas diante de prédios

dilapidados e pobres. Os tetos cediam, as janelas estavam quebradas. Drenthe filmou tudo. Ele

caminhou pela rua principal e encontrou dois homens saindo de um bar. Imaginou reconhecer um deles

da manifestação — um sujeito alto, calvo e com cicatrizes, como se tivesse estado em combate. O outro

futucava um dente frouxo com o indicador e o polegar. — Com licença. Eu sou Drenthe. Eu vi o conflito.

— Vai se danar — disse o homem com o dente frouxo.

— Vi uma mulher ruiva. Muito bonita.

Os homens pararam e olharam para Drenthe com atenção. — Você é o holodiretor — disse o careca.

— Drenthe.

— Sim, sou — respondeu Drenthe, feliz por ser reconhecido.

— Nós ouvimos falar de você. Você está dirigindo um holovídeo sobre o teste do Cão de Guerra. A

RP da AxA só fala nisso.

— É — disse o homem com o dente frouxo. — Foi por isso que fizemos a manifestação. Achei que a

AxA não faria nada com você assistindo. Até parece...

Vocês não sabem quão pior poderia ter sido, pensou Drenthe.

— Você quer falar com Ayla? — perguntou o homem calvo. — Difícil. Ela não vai falar com um lacaio

da Axioma.

— Vai sim — respondeu Drenthe. — Tem uma coisa que ela precisa saber.

— Olha só — disse o calvo. — Eu vou levar você até ela, mas, na hora em que você disser alguma

coisa que me desagradar, vou chutar sua bunda daqui até Korhal. Eu já estive na prisão. Vi a guerra.

Comi um zerg uma vez quando perdi o café da manhã. Tá me entendendo?

— Entendido — concordou Drenthe. — Onde está ela?

A ruiva estava perto dali, em outro bar, cercada por correligionários que olharam para Drenthe

como se ele fosse alguma coisa contagiosa. — Eu vi você no conflito ontem — disse ele, aproximando-se

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dela.

— E daí?

— Como você se chama?

— Ayla.

— Ayla. Eu sou Drenthe. — Ele esperou que ela reconhecesse seu nome. Ela não o fez, e Drenthe

conteve sua irritação e continuou. — É melhor falarmos francamente.

Contou-lhe a história — tanto quanto ele sabia —, mas não mencionou que estava recebendo

dinheiro tanto da AxA quando do espião infiltrado na empresa. — Você conhece alguém da equipe

técnica dentro da firma que seja, digamos, simpatizante da causa? Não quero saber do nome, claro.

— E se eu conhecer?

— Então talvez você queira dizer a essa pessoa que vão tentar corromper o sistema de controle

amanhã. Os Cães de Guerra, pelo que sei, enfrentarão muito mais dificuldades do que vocês foram

levados a acreditar.

— Praga dos infernos — disse Ayla, articulando bem cada sílaba. — Estão armando um massacre

para a gente. Eli. Nada é baixo demais para esse cara. A morte dele faria do universo um lugar melhor...

entende?

— De fato — disse Drenthe.

— Por que você está me dizendo isso? Só por pura bondade?

— Os motivos de Drenthe só interessam a Drenthe. E há outro fato a considerar. Se essa sabotagem

puder ser impedida... um esquadrão de Cães de Guerra pode ser bem eficiente como instrumento de

negociações trabalhistas.

Na manhã seguinte, a força de trabalho da Axioma se reuniu para presenciar a demonstração.

Drenthe já estava com os gravadores no lugar, e havia entregado as duas câmeras portáteis a Ayla. Ao

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sair de Bukari V, ele teria uma história que não havia esperado. Nas últimas horas, essa história fizera

até mesmo Heróis da periferia parecer menos importante. Todo o seu ser estava centrado no aqui e no

agora. Ele se sentia vivo.

O campo de provas tinha quinhentos metros de largura e era mais ou menos circular. Era cercado

por protrusões rochosas que lhe conferiam o formato de uma tigela rasa, com seu solo partido por

outras formações rochosas. Nos limites do campo, estavam algumas divisões de tanques de cerco.

Alinhados perto dos limites ao norte, havia aglomerados de velhos golias e híbridos viking ar-e-terra.

Drenthe subiu para o guindaste e observou a cena. Ele tinha um conjunto de monitores instalados

em arco ao redor de sua cadeira de diretor, cada qual transmitindo as imagens de uma das holocâmeras

remotas instaladas pelo campo de provas. Viu que horas eram e falou com Dario. — Drenthe está

pronto.

— Ótimo — disse Dario.

Do outro lado, na fábrica, duas pesadas portas que davam para a área de carga e descarga se

abriram. De cada uma saiu uma coluna de doze Cães de Guerra. Drenthe sabia, pelo material de

instruções que recebera, que haveria uma série de demonstrações ensaiadas, mas também sabia que, se

Ayla conseguisse impedir a corrupção da I.A., não haveria como saber o que aconteceria. Quando a

filmagem começasse, seria necessário estar pronto para qualquer coisa. Ele depôs as notas em um

monitor próximo e observou as imagens dos gravadores que filmavam a marcha dos Cães de Guerra em

direção ao campo de prova.

Dario também lhe fornecera uma narração que louvava as virtudes do Cão de Guerra. Drenthe

decidira reproduzir a narração pela primeira vez por cima das gravações não editadas no instante em

que as recebia, para dar ao material inicial a impressão tanto de espontaneidade quanto de preparo

prévio.

Ayla apareceu em uma das imagens das câmeras portáteis. — Funcionou — disse ela. — A I.A. vai

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funcionar como deveria. Mas o seu amigo Eli era um dos caras que estavam tentando corromper a I.A.

Ele deu o fora rapidinho quando viu a gente. É melhor você ficar de olho nele.

Ele vai me procurar, pensou Drenthe. Drenthe se tornara um personagem na história que Drenthe

tentava contar. Poderia ser de outra forma?

Ele disse: — A gente pensa nisso depois. — Ele estava empolgado, como sempre ficava no início de

um projeto, quando não sabia como o trabalho terminaria. E aquele trabalho era um dos mais incertos.

— Agora chegou a hora de dirigir um holovídeo.

Drenthe chamou Dario, que estava mais atrás, perto da entrada da fábrica, observando um monitor.

— Está tudo pronto? — perguntou Drenthe.

— Estamos prontos, quando quiser.

Drenthe começou a rodar a narração e disse: — Ação.

Oi, meu nome é Dario Cerulli, sou da Axioma Armamentos e estou aqui para falar do Cão de Guerra.

Os dois grupos de Cães de Guerra entraram no campo de prova. O primeiro avançou para enfrentar

os tanques, com o segundo bem perto para dar apoio aéreo. Aquilo estava de acordo com o roteiro que

Drenthe recebera de Dario. Bem no horário, um grupo de robôs autônomos de ataque aéreo apareceu

sobre o campo de prova, pintado para parecer mutaliscas.

O Cão de Guerra vem armado com baterias de mísseis antiaéreos Ciclone de alcance médio, que se

ativam automaticamente ao detectarem unidades aéreas inimigas mecânicas ou orgânicas.

Os andarilhos dispararam mísseis contra os robôs e os explodiram. Os destroços caíram perto de um

dos gravadores de Drenthe. Lindo, pensou ele. No comunicador, Dario disse: — Isso tá lindo, você tá

gravando, Drenthe?

— É claro que Drenthe está gravando. — Como se Drenthe não soubesse "gravar", pensou Drenthe.

Em outro canal, Eli disse: — Drenthe. O que diabo está acontecendo? Nós tínhamos um acordo!

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— O acordo não tinha cláusula nenhuma estipulando que Drenthe tomaria parte em assassinato em

massa, Eli.

— Você aceitou o dinheiro. — Outra salva de mísseis destruiu um viking pilotado remotamente que

pairava no fim do campo de prova, no ponto de onde as outras aeronaves tinham vindo. A fumaça se

evolava no ar, atravessada pela luz do sol. O visual era impressionante. Emoção por meio de fumaça e

luz. Drenthe estava amando.

— E você mentiu a respeito do propósito da coisa toda — disse Drenthe. — De onde Drenthe está, é

difícil discernir quem está com a razão.

— Sabe qual não era o propósito da coisa toda? Não era pra começar uma porra de um golpe! Não

era esse o propósito da coisa toda! Nem me botar na alça de mira de um bando de malucos sindicalistas.

Eu podia ter morrido nessa, seu filho da puta!

— Drenthe está ocupado, Eli.

— Drenthe vai é acabar bem morto, porra! — Eli desligou, furioso.

O grupo líder de Cães de Guerra alcançara os tanques de cerco, os quais disparavam tiros que

quicavam na blindagem dos Cães de Guerra sem explodir. — A I.A. teria armado os detonadores das

cápsulas se você não tivesse nos alertado, Drenthe — disse Ayla. — Pode contar quantas vidas você

salvou hoje.

Drenthe não estava interessado naquilo. Ele estava dirigindo um holovídeo.

Para missões antiveículo de combate próximo, o sistema de armas primário do Cão de Guerra é um

canhão elétrico equipado com as novas balas PDC (Plasma Direcionado de Campo Energizado) da

Axioma. Esse armamento emprega uma bala pesada, acelerada a uma velocidade de saída de três mil

metros por segundo. A bala é energizada com plasma que se dispersa em um cone estreito a partir do

ponto de impacto. A PDC penetra blindagem de forma mais rápida e eficiente que armas tipo gauss, e

sem a ameaça de dano colateral das munições explosivas.

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Em formação cerrada, os Cães de Guerra cercaram os tanques de cerco. Descargas azuis de plasma

jorraram dos canos dos sistemas PDC e dos próprios tanques. Um a um eles explodiram, e só foram

precisos poucos segundos para que se desintegrassem queimando. Atrás deles, metade dos Cães de

Guerra encarou os vikings, que tinham ordens de atacar quando o primeiro grupo de Cães de Guerra

enfrentasse os tanques de cerco. Alguns vikings queimaram e derreteram onde estavam. Três

conseguiram executar a transição para o modo aéreo e foram recebidos pelos Cães de Guerra com

salvas de mísseis vindos de três direções. Drenthe assistia a tudo de uma dúzia de ângulos ao mesmo

tempo, sentindo a empolgação aumentar ao ver o desenrolar da ação. O que aconteceria em seguida?

Não sabia.

O Cão de Guerra é capaz de mudar quase instantaneamente dos sistemas PDC para os sistemas de

artilharia antiaérea, de forma a responder rapidamente a novas ameaças em situações de combate.

A voz de Ayla veio de uma das caixas de som acopladas aos monitores de Drenthe. — Eli está indo

para aí. Ele está armado.

— Drenthe está desarmado — disse Drenthe.

— Está tudo sob controle. Continue filmando.

É claro, pensou Drenthe. Um alarme soou dos alto-falantes montados sobre a cerca da fábrica. A

princípio Drenthe pensou que fosse apenas composição de cena, um pequeno improviso de Dario. Ele

incorporaria aquilo. Percebeu que algo completamente diferente estava acontecendo quando ouviu a

voz de Eli nas caixas. — Aqui é Eli Balfour. Houve uma quebra de segurança nos sistemas de informação

da Axioma. Ottmar Drenthe deve ser detido imediatamente. Todos os técnicos que estão operando Cães

de Guerra precisam parar suas ações imediatamente. O teste do Cão de Guerra terminou. Repetindo, o

teste do Cão de Guerra terminou.

— Porra nenhuma — disse a voz de Ayla, saída da caixa de som diante de Drenthe.

Drenthe viu Eli dobrando a esquina da fábrica com um tipo de rifle nas mãos. Drenthe não era perito

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em armamentos. Eli disparou um tiro de aviso no guindaste onde Drenthe estava e apontou. —

Detenham-no! O teste acabou! Tranquem a fábrica toda agora!

Drenthe começou a se preocupar. Ele não tinha experiência em ser detido e não pretendia ter.

— Drenthe, a situação está sob controle — disse Ayla. — Não vai amarelar agora.

Para Drenthe, a situação parecia tudo, menos "sob controle". Outro tiro de aviso zuniu sobre sua

cabeça, mas ele continuou gravando. Os Cães de Guerra estavam causando destruição calamitosa pelo

campo de prova, destruindo veículos pilotados remotamente e aeronaves. Um par de endiabrados

explodiu em colunas de chamas, e o clarão azulado das PDCs ainda ressoava entre os destroços.

Espalhados em arco sobre o campo de prova, seis Espectros saíram da camuflagem e foram derrubados

por uma salva de mísseis. Os sons de lançamento e impacto quase chegavam ao limite do que o

equipamento de Drenthe suportava. — TRANQUEM A FÁBRICA! — A voz de Eli ribombou nos alto-

falantes. Veículos de segurança saíram dos portões que ficavam diante da cidade da companhia e

avançaram na direção do campo de prova. Os operários que assistiam atiraram pedras neles e foram

ignorados... por algum tempo; Drenthe tinha a sensação incômoda de que sua presença não garantiria

mais a segurança dos trabalhadores. Torcia para que Ayla estivesse preparada para aquela

eventualidade.

Parte de Drenthe exultava com o caos. Outra parte considerava a possibilidade de ele ter se metido

em algo além de suas capacidades.

Um dos Cães de Guerra mais perto do guindaste de Drenthe dobrou para o lado e se postou no

acostamento nos limites do campo de prova, bloqueando a passagem de Eli. Este ergueu a mão, dando

um aviso: — Mais um passo e você vai se arrepender de ter nascido, seu torce-porca. Esse homem é um

criminoso e uma ameaça à segurança.

O Cão de Guerra parou. Eli subiu a escada que dava na plataforma de Drenthe e apontou o rifle para

ele. O Cão de Guerra pairava sobre a plataforma, à direita de Drenthe. — Você tá morto, Drenthe —

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disse Eli. — Espionagem industrial é um crime capital.

— Eu sou um diretor de holovídeos. E estou trabalhando. — A narração de Dario continuava:

Mesmo tendo sido projetado para uso antiveículo, o Cão de Guerra está mais do que preparado para

lidar com a infantaria inimiga. Não usar blindagem não protegerá você das PDCs.

O Cão de Guerra disparou uma rajada de PDC a menos de cinco metros de distância, e o corpo de Eli

derreteu, queimou e se despedaçou simultaneamente. Drenthe se abaixou para evitar a onda de calor,

som e pedaços de Eli. Cobriu a cabeça e não se moveu até perceber que Ayla estava dizendo algo no

alto-falante. Depois de um momento, ele entendeu. — Falou e disse, Eli. Espionagem industrial é um

crime capital. Desculpe por não termos tido tempo de arranjar um julgamento formal.

Ocorreu a Drenthe que Eli não iria pedir reembolso dos créditos pagos em adiantamento. Já os

empregadores de Eli... mas aquele era um problema para outra hora.

— Agora, Cães de Guerra — disse Ayla. Drenthe percebeu que não era o único a monitorar a

situação.

Todos os Cães de Guerra se voltaram e saíram rugindo do campo de prova, iluminados pelos

tanques e vikings em chamas atrás deles. A demonstração saíra perfeitamente, com a emoção extra de

Eli sendo obliterado inesperadamente e da atualização de status de Drenthe para "ameaça criminosa".

Drenthe jamais vira algo parecido. O poder de fogo! As traições! Ele se sentia feliz por fazer parte

daquilo.

A Axioma Armamentos venderia um monte de Cães de Guerra. Mas também ia se meter em muitos

problemas.

A formação de Cães de Guerra chegou ao perímetro do complexo executivo. No caminho, eles

usaram as PDCs contra os veículos de segurança. Drenthe contou oito veículos em chamas e viu o resto

dos guardas saltando dos caminhões e correndo desesperados de volta para dentro da fábrica. Drenthe

notou que nenhum deles fez qualquer gesto para defender o complexo executivo.

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Em situações nas quais é necessário atacar estruturas inimigas, os sistemas PDC do Cão de Guerra

também são bastante eficientes.

Os Cães de Guerra derrubaram a cerca, arrancando os postes de aço com gestos quase displicentes

dos braços mecânicos. Drenthe viu Ayla sair da fábrica liderando um grupo de técnicos, que pareciam ao

mesmo tempo pessimistas empolgados. Verificando os monitores, Drenthe viu que Ayla estava

gravando tudo e enviando para ele. Drenthe quase bateu palmas de alegria.

— Nós travamos a A.I. — disse ela do áudio do monitor. — Nenhuma das contramedidas de defesa

de civis vai funcionar, e os capangas da AxA não vão sair pra enfrentar os Cães de Guerra. As coisas aqui

vão mudar de agora em diante. A Axioma acaba de passar para uma nova administração.

Os Cães de Guerra estavam destruindo metodicamente os prédios do complexo executivo. Os

ocupantes saíram correndo e foram recebidos pelos operários da mesma forma que os operários foram

recebidos pela equipe de segurança da AxA dois dias antes. Drenthe começou a dizer algo sobre

moderação. Então se lembrou de que ao menos alguns daqueles gerentes e executivos tinham

participado de um complô que resultaria na morte de alguns trabalhadores. Com isso em mente, ele

mesmo resolveu se moderar.

— Bom trabalho, Drenthe — disse Ayla. — Você conseguiu seu holovídeo?

— Drenthe tem o que Drenthe precisa.

— Então é melhor que Drenthe dê o fora daqui — respondeu Ayla. — O táxi orbital de que falamos

está esperando na base de lançamento. Você consegue chegar lá rápido?

— Bem rápido — disse Drenthe. Ele reuniu suas gravações e deixou o equipamento lá mesmo.

Hologravadores eram baratos. Drenthe não era.

Seu único arrependimento foi ter abandonado sua cadeira. Ela o tinha acompanhado por vários

sistemas estelares, em todos os sets onde ele trabalhara, desde o holovídeo que o revelara para o

mundo, O voo da mutalisca. Mas fatalmente chegava o momento de se desapegar das coisas. E talvez

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esse momento fosse agora, quando Drenthe tinha a chance de evitar se envolver em uma pequena

revolução que já se tornara bastante violenta. Drenthe tinha material para fazer um holovídeo incrível.

Talvez a perda da cadeira fosse o preço a ser pago. — Drenthe lhe dá adeus — disse à cadeira. Então

desceu da plataforma, evitando como pôde os restos de Eli, e atravessou o terreno acidentado, indo até

onde Ayla estava, ao pé do portão do complexo executivo. Como sempre, seus microgravadores

registravam tudo.

Havia uma última coisa que ele queria. — Ayla. Venha comigo para Korhal. Você pode virar uma

grande estrela de holovídeos.

— Você está dando uma de olheiro? Você me descobriu, Drenthe? — disse ela com um sorrisinho

sacana.

— Estou. Bilhões de pessoas conhecerão você. Elas vão amar você. Sua ousadia, seu carisma.

— Hm-hm. Vamos fazer um trato. Encontre Yakov Iliev e diga a ele que a Axioma quer contratá-lo.

Faça isso e talvez eu vá visitar Korhal.

— Seus princípios. Elas vão amar seus princípios — disse Drenthe. Ele estava fascinado, como os

bons diretores ficavam diante do talento natural da estrela.

— Dê o fora daqui, Drenthe.

Ao entrar no táxi orbital, o piloto disse: — Nós estamos te devendo. Essa história vai sair mesmo?

— Se você conseguir que Drenthe saia daqui, Drenthe vai conseguir que essa história saia.

— Fechado — respondeu o piloto. A nave decolou. Drenthe olhou para baixo, para a fábrica e o

complexo executivo em chamas. Ele gravou tudo enquanto a nave se afastava; o cenário se distanciou e

desapareceu sob uma camada de nuvens. Três dias. Tudo acontecera em três dias. No entanto, outra

versão da história lhe ocorreu. Ayla, pensou. Ela liderara a rebelião contra a opressão da Axioma

Armamentos. Ele tinha hologravações dela em quantidade suficiente para que a história funcionasse. E

se ele conseguisse encontrar Yakov Iliev... não importava. De qualquer maneira, tentaria transformar

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Ayla em uma estrela, a destemida e magnífica líder de Bukari V. Ela logo seria uma das pessoas mais

famosas da Supremacia, e sua fama nascera na desolação da cidade da companhia, no caos esfumaçado

da fábrica, na corajosa derrocada da traiçoeira Axioma. Sim!

Não era a história que ele imaginara dirigir. Não era nem a história que imaginara quando os testes

do Cão de Guerra estavam começando. Mas era a história que queria contar. Havia verdade nela,

mesmo que não fosse a reprodução fiel do que tinha se passado realmente. Da matéria-prima da

realidade, era possível criar uma verdade mais verdadeira que a própria realidade.

Eu dirijo esta realidade, pensou. Eu sou Drenthe.

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