Cabeca e Pescoco
Cabeca e Pescoco
Volume 1
A Cirurgia
Plástica
em capítulos
Ricardo Boggio
Dênis Calazans
Cabeça e Pescoço
Volume 1
A Cirurgia
Plástica
em capítulos
Ricardo Boggio
Dênis Calazans
RJ Estrada do Bananal, 56 - Jacarepaguá - Rio de Janeiro - RJ - (21) 2425-8878
SP (11) 97269-9516
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CEO
Renato Gregório
Gerente geral
Sâmya Nascimento
Gerentes editoriais
Marcello Manes e Thamires Cardoso
Gerente de novos negócios
Thaís Novais
Gerente de projetos especiais
Bruno Aires
Coordenador médico
Guilherme Sargentelli (CRM: 541480-RJ)
Coordenadora de Pró-DOC
Alice Selles
Revisores
Camila Morais, Everson Ferreira e Paloma Sousa
Designers gráficos
Douglas Almeida, Ivo Nunes, Mariana Matos, Monica Mendes e Tatiana Couto
Ilustrações
Fransuá de Lima
Gerentes de relacionamento
Fabiana Costa, Karina Maganhini e Thiago Garcia
Assistentes comerciais
Heryka Nascimento e Jessica Oliveira
Produção gráfica
Abraão Araújo e Viviane Telles
A Cirurgia Plástica em Capítulos - Cabeça e Pescoço/Boggio, Ricardo; Calazans, Denis - Rio de Janeiro: DOC, 2021.
1. A Cirurgia Plástica em Capítulos - Cabeça e Pescoço. I. Boggio, Ricardo (ed.); II. Calazans, Denis (ed.).
CDD-617
Reservados todos os direitos. É proibida a reprodução ou duplicação deste volume, no todo ou em parte, sob quaisquer formas ou por quaisquer
meios (eletrônico, mecânico, gravação, fotocópia ou outros), sem permissão expressa do autor. Direitos reservados ao autor.
Agradecimento
Gratidão é o sentimento que me inunda ao final da gestão 2020/2021
da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP). Embora gratidão seja
sentimento que não precise de plateia, de aplauso ou de reconhecimento,
posto que é por si só uma recompensa que alimenta o espírito de quem a
possui. Tenho que expressar aqui esse meu sentimento a pessoas sem as
quais este projeto jamais teria sido concluído:
• Dr. Antonio Carlos Vieira, Dr. Leandro Pereira e Dr. Ricardo Boggio, leais e
dedicados amigos;
• Todos os reconhecidos profissionais que aceitaram o convite a dedicarem
seu tempo na elaboração dos temas deste livro e, sobretudo, os regentes
de Capítulos desta gestão;
• Ao competente corpo de colaboradores da SBCP, em especial: Susana,
Ednéia, Ana Paula, Lucianne, Felipe, Sérgio, João, Rômulo, Diego e Beth.
Dênis Calazans
Dedicatória
Este livro foi idealizado e construído durante a pandemia de Covid-19.
Lançado no 57º Congresso Brasileiro de Cirurgia Plástica, em Maceió (AL),
realizado de 3 a 7 de novembro de 2021, ainda sob os cuidados sanitários
que a pandemia nos impôs. Já se vão dois anos de assombro, tensão e an-
gústia impostos por esse vírus que mudou a humanidade.
Esta obra é dedicada à memória das 607 mil vidas brasileiras ceifadas
pela Covid-19, e entre elas os tantos médicos e profissionais da saúde que
faleceram no exercício de suas atividades lutando por outras vidas. Em es-
pecial, aos membros da SBCP que não tiveram a mesma sorte de tantos
que, por força da Ciência e da vacina, venceram a Covid.
Apresentação
O conhecimento é um legado que deve ser transmitido de forma ética,
transparente e irrestrita. Hoje, como coordenador dos Capítulos da Sociedade
Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), tenho a grande honra de estar à frente
deste descomunal projeto, intitulado Cirurgia Plástica em capítulos.
Ao assumirmos nossas funções, no início do mandato da atual diretoria
(biênio 2020-2021), criamos um projeto de valorização dos Capítulos, ten-
do como um dos principais objetivos a criação de um livro digital, atualizá-
vel, com total lastro científico e que pudesse democratizar o conhecimento,
se tornando, assim, na maior referência literária da nossa especialidade.
O envolvimento direto e o apoio incondicional de nosso presidente, Dr.
Dênis Calazans, o qual, inclusive, idealizou o escopo inicial da presente obra,
motivou cada um dos chefes de Capítulos, que não mediram esforços para
fazer deste um projeto realmente único.
Cada chefe de Capítulo, em sua área de atuação, iniciou, assim, a busca
pelos maiores nomes de nossa especialidade, que prontamente nos atende-
ram e cordialmente transformaram em palavras todo o conhecimento e as
experiências acumuladas ao longo de suas trajetórias profissionais.
A cada texto recebido e a cada ilustração enviada, crescia a nossa im-
pressão sobre a magnitude e a importância da obra. O esforço e a dedi-
cação de cada um dos envolvidos culminou na compilação de tamanho
conhecimento, que em muito suplantou nossas expectativas. Hoje, temos
em nossas mãos um material de valor inigualável e que certamente será
eternizado pela SBCP.
Tendo alcançado o status de “obra máxima”, decidimos pela edição e
pela publicação do material em volumes seriados, fazendo parte do primei-
ro volume os assuntos relacionados à cirurgia do tronco e à da região cer-
vicofacial. Ao entregarmos o projeto concluído, transferimos às próximas
diretorias o compromisso de fazer desta uma obra cada vez maior, capaz
de alicerçar as carreiras das futuras gerações de cirurgiões plásticos.
Finalizo agradecendo nominalmente cada um dos chefes de Capítulos,
sem os quais essa experiência nunca poderia ter sido vivida:
Vera Lucia Nocchi Cardim e Endrigo Bastos – Capítulo de Cirurgia Crânio Facial
Sergio da Fonseca Lessa – Capítulo de Cirurgia Órbito-Palpebral
Daniel Vasconcellos Regazzini – Capítulo de Pós-Emagrecimento Acentuado
Hugo Alberto Nakamoto – Capítulo de Cirurgia da Mão
Cleyton Dias Souza – Capítulo de Microcirurgia
Eduard Rene Brechtbuh – Capítulo de Oncologia Cutânea e Hemangiomas
Luiz Philippe Molina Vana – Capítulo de Queimaduras
Fernando Teixeira Basto Junior – Capítulo de Restauração Capilar
Fernando Nakamura – Capítulo de Rinologia
Paulo Rogerio Quieregatto do Espírito Santo – Capítulo de Mamoplastia
Felipe Massignan e Filipe Fusinato – Capítulo de Cirurgia do Contorno Corporal
Luiz Charles Araújo de Sá – Capítulo de Célula-Tronco e Biotecnologia Tecidual
Helena Regina De Brito Lima Boechat – Capítulo de Revitalização Cutânea
e Tecnologias
Marcelo Rodrigues da Cunha Araújo – Capítulo de Face
David Sena – Capítulo de Gestão e Planejamento de Carreira
Matheus Manica – Capítulo de Cirurgia do Transgênero
Celso Buzzo – Capítulo de Fissuras Lábio-Palatinas
Luiz Felipe Vieira – Capítulo de Feridas e Curativos
Péricles Vitorio Serafim Filho – Capítulo de Reconstrução Mamária
Anne Karoline Groth – Capítulo de Biomateriais e Próteses
Juarez Moraes Avelar – Capítulo de Cirurgia e Reconstrução da Orelha
Priscila Arruda Bruno – Capítulo de Cosmiatria
Fernando Gomes de Andrade – Capítulo da História da SBCP
André Auersvald – Capítulo de Anatomia Aplicada
Boa leitura!
Rolf Gemperli
Mensagem do
Presidente
“Sonhar o sonho impossível,
Sofrer a angústia implacável,
Pisar onde os bravos não ousam,
Reparar o mal irreparável,
Amar um amor casto à distância,
Enfrentar o inimigo invencível,
Tentar quando as forças se esvaem,
Alcançar a estrela inatingível:
Essa é a minha busca”.
Dom Quixote
Minha primeira grande atração pela Cirurgia Pástica veio ao folhear um li-
vro que estampava na capa esta especialidade, assinada por Jorge Fonseca
Ely. Às duras penas e moedas que nunca alcançavam o valor desse livro,
que mudava de preço a cada hora, afinal era o ano de 1987 e a inflação
beirava 180% ao mês, eu, ainda acadêmico na Faculdade de Medicina de
Vassouras, finalmente consegui economizar o suficiente para ter meu pri-
meiro livro de Cirurgia Plástica. A arte me encantou ali, e daí em diante só
me fez cada dia mais fascinado.
Quando eu poderia sonhar, naquela época, que chegaria aonde estou?
Presidir a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), editar um livro
digital up-to-date e, por um capricho da vida, ter o filho daquele autor que
tanto me inspirou como meu vice-presidente.
O mundo mudou, a Medicina evoluiu e a Cirurgia Plástica avançou a passos
largos, sobretudo no Brasil. Tornamo-nos um celeiro científico para o mundo,
graças à responsabilidade e à dedicação de muitos cirurgiões. A história da
Cirurgia Plástica brasileira se mistura com a da SBCP. Tudo que é notável e
grandioso tem luz e brilho próprio – e merece o reconhecimento.
Havia, até então, um vazio bibliográfico nacionalista. Sem desmereci-
mento dos valiosos tratados da literatura internacional, mas precisamos
valorizar e enaltecer o que é genuinamente nosso. Veio daqui o desejo
de termos nosso tratado de Cirurgia Plástica: A Cirurgia Plástica brasi-
leira em capítulos.
Um livro digital, permanentemente atualizável, redigido por autores bra-
sileiros, e franqueado a todos os membros da SBCP. Oxalá seja em curto
tempo a referência bibliográfica para o concurso de obtenção do título de
especialista e uma fonte de estudos e de atualização a todos os cirurgiões
plásticos brasileiros e estrangeiros.
O desejo e a determinação foram maiores que as dificuldades de toda a
sorte que enfrentamos nessa pandemia. Este livro é um troféu a ser dividi-
do com todos os membros da SBCP. Na esteira de Dom Quixote, lembre-
mos: “Tentar quando as forças se esvaem; alcançar a estrela inatingível; essa
é a minha busca.” Busca impossível se não fosse a dedicação de Ricardo
Boggio, todos os regentes de Capítulos e dos autores que tão gentilmente
ajudaram construir esta obra de elevado quilate científico.
Fica em mim o orgulho de saber que fui instrumento para deixar este
legado para as novas gerações. Lembro, ainda, de Nelson Mandella: “É a
diferença que fazemos nas vidas dos outros que determinará a importância
da vida que levamos”.
Dênis Calazans
Presidente da SBCP (biênio 2020-2021)
Editores
Dênis Calazans
Presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) (2020-
2021); secretário geral da SBCP (2012-2013 e 2018-2019); primeiro-vice-
-Presidente da SBCP (2016-2017); segundo-vice-presidente da SBCP
(2014-2015); diretor do Departamento de Defesa Profissional (Depro)
da SBCP (2006-2011); professor visitante da Faculdade de Medicina da
Universidade de Vassouras - RJ; membro da Câmara Técnica de Cirurgia
Plástica do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo
(Cremesp); membro da Câmara Técnica de Cirurgia Plástica do Conselho
Federal de Medicina (CFM); membro titular da SBCP
Ricardo Boggio
Membro especialista e titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica
(SBCP); membro ativo da International Society of Aesthetic Plastic
Surgery; membro da American Society of Plastic Surgeons; doutor em
Ciências pela Universidade de São Paulo (USP); regente do Capitulo de
Cosmiatria da SBCP (2018-2019); atual coordenador dos Capítulos da
SBCP; diretor científico do Instituto Boggio
Coordenadores
ANATOMIA APLICADA
Andre Auersvald
Membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP); regente do Capítulo de Anatomia Aplicada
da SBCP; diretor científico do curso Full Face and Neck Surgical Anatomy
CIRURGIA ÓRBITO-PALPEBRAL
Sergio da Fonseca Lessa
Cirurgião plástico egresso da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) – Serviço do
Professor Ivo Pitanguy), em que atuou como professor assistente por mais de 40 anos, chefiando o setor
de Cirurgia Órbito-Palpebral; doutor em Ciências pelo Programa de Pós-Graduação em Fisiopatologia
e Ciências Cirúrgicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj); professor do curso de Pós-
Graduação em Cirurgia Órbito-Palpebral da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj); membro
emérito do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (CBC) e da Sociedade Brasileira de Laser em Medicina e
Cirurgia (SBLMC); membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP); membro honorário
da Sociedade Brasileira de Oftalmologia (SBO); membro da International Society of Aesthetic Plastic
Surgery (ISAPS) e da American Society for Aesthetic Plastic Surgery (ASAPS)
CIRURGIA DA ORELHA
Juarez Moraes Avelar
Graduação em Medicina pela Universidade da Guanabara (UEG), atual Universidade do Estado do Rio
de Janeiro (Uerj); residência e pós-graduação em Cirurgia Plástica na Santa Casa da Misericórdia do
Rio de Janeiro e na Clínica Ivo Pitanguy; estágios em diversos centros de Cirurgia Plástica, como na
Universidade de Miami, na Universidade de Nova Iorque, na Universidade de Berlim e na Universidade de
Glasgow, na Escócia; criou em Londres o Instituto Científico Brasileiro de Cirurgia Plástica e Reparadora
e, mais tarde, o Instituto da Orelha Professor Juarez Avelar; presidente da Sociedade Brasileira de
Cirurgia Plástica – regional São Paulo (SBCP-SP) (1982-1983); secretário-geral da SBCP (1984-1985);
presidente SBCP por duas gestões (1986-1987 e 1990-1991); cirurgião plástico voluntário no Hospital
Estadual Darcy Vargas
RINOLOGIA
Fernando Nakamura
Membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP); regente do Capítulo de Rinologia da
SBCP; membro efetivo da Associação dos Ex-alunos do Professor Ivo Pitanguy (AEXPI)
FACE
Marcelo Rodrigues da Cunha Araújo
Possui graduação na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, pela Universidade de São Paulo (USP); es-
pecialização em Cirurgia Plástica – Serviço do Professor Ivo Pitanguy pela Pontifícia Universidade Católica
do Rio de Janeiro (PUC-Rio); residência em Cirurgia Plástica pela USP; aperfeiçoamento em Cirurgia
Plástica pela West Virginia Medical University
CIRURGIA CRANIOFACIAL
Vera Lúcia Nocchi Cardim
Membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) e da Associação Brasileira de Cirurgia
Crânio-Maxilo-Facial (ABCCMF); regente do Capítulo de Cirurgia Craniofacial da SBCP; doutora em
Cirurgia Geral pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo
FISSURAS
Celso Luiz Buzzo
Graduação em Medicina pela Faculdade de Medicina de Jundiaí; mestrado em Cirurgia pela Universidade
Estadual de Campinas (Unicamp); atualmente, é funcionário da Sociedade Brasileira de Pesquisa e
Assistência Para Reabilitação Craniofacial (Sobrapar), do Hospital e Maternidade Jundiaí e do Hospital
Municipal São Vicente de Paulo
RESTAURAÇÃO CAPILAR
Fernando Teixeira Basto Junior
Graduação em Medicina pela Universidade de Pernambuco (UPE); pós-graduação em Cirurgia Plástica
pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) no Serviço do Professor Perseu Lemos; estágio em
Cirurgia Plástica na qualidade de fellow no Serviço do Professor Ivo Pitanguy; estágio em Cirurgia de
Restauração Capilar com o professor Munir Curi, em São Paulo; estágio na Clínica Júri de Cirugía Plástica
y Fundación, na Argentina; especialista internacional diplomado pelo American Board of Hair Restoration
Surgery (ABHRS); membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP); membro fellow
da International Society of Hair Restoration Surgery (ISHRS); membro fundador da Associação Brasileira
de Cirurgia de Restauração Capilar (ABCRC); membro da Sociedade Brasileira de Laser em Medicina e
Cirurgia (SBLMC); membro da European Society of Hair Restoration Surgery (ESHRS); cirurgião consultor
e convidado da La Prairie – Clínica e SPA, na Suíça
Sumário
CAPÍTULO 1
20
ANATOMIA CERVICAL
21
1.1. Anatomia Cervical
53
1.2. Anatomia da testa
64
1.3. Pálpebra, nariz e orelha
113
1.4. Anatomia da face
CAPÍTULO 2
159
CIRURGIA ORBITOPALPEBRAL
160
2.1. O ligamento orbitomalar e sua importância
nas cirurgias palpebrais
177
2.2. Anatomia orbitopalpebral
222
2.3. Elevação direta
centro-lateral da sobrancelha
233
2.4. Ptose palpebral
CAPÍTULO 3
253
ORELHA
254
3.1 Anatomia do pavilhão auricular
276
3.2. Otoplastia
305
3.3. Reconstrução da orelha nas
deformidades causadas por piercing
322
3.4. Classificação de Avelar das
malformações de orelha
343
3.5. Modelagem do arcabouço auricular
nas reconstruções de orelha
364
3.6. Laboratório virtual da modelagem
do arcabouço auricular
383
3.7. Reconstrução auricular nas malformações
406
3.8. Conduta imediata nos traumatismos de orelha
417
3.9. Reconstrução parcial da orelha
431
3.10. Reconstrução total da orelha
após amputação traumática
452
3.11. Resultados, complicações e
perspectivas futuras
CAPÍTULO 4
478
NARIZ
479
4.1. Anatomia nasal
501
4.2. Fisiologia nasal aplicada à rinoplastia
540
4.3. Rinoplastia preservadora
551
4.4. Rinoplastia preservadora
push down cartilaginoso
563
4.5 Rinoplastia estruturada primária
582
4.6. Rinoplastia secundária
624
4.7. Cirurgia da Base Alar
634
4.8. Reconstrução nasal
673
4.9. Nariz de fissurado
696
4.10. Rinoplastia não cirúrgica:
preenchimento nasal avançado
CAPÍTULO 5
708
FACE
709
5.1. Tratamento do terço inferior da face
729
5.2. Tratamento da região fronto-orbitopalpebral – conceitos e técnicas
780
5.3. Procedimentos ancilares na cirurgia de face
801
5.4. Cervicoplastia estruturada
CAPÍTULO 6
821
CIRURGIA CRANIOFACIAL
822
6.1. Atendimento inicial ao trauma de face
842
6.2. Fraturas de mandíbula
861
6.3. Fraturas de maxila
867
6.4. Fraturas panfaciais
876
6.5. Fratura facial em crianças
892
6.6. Fraturas do complexo zigomático-orbitário
918
6.7. Fraturas do seio frontal
937
6.8. Fraturas Nasais
945
6.9. Fraturas naso-orbitoetmoidais
952
6.10. Reconstrução craniana após
craniectomia descompressiva
973
6.11. Craniossinostoses -
etiopatogenia e diagnóstico
983
6.12. Craniossinostoses sindrômicas
995
6.13. Craniossinostoses não sindrômicas
1019
6.14. Princípios de tratamento das craniossinostoses
não sindrômicas com osteotomias dinâmicas
1031
6.15. Atrofia hemifacial
1040
6.16. Tratamento cirúrgico do exoftalmo endócrino
1062
6.17. Sequência de Pierre Robin
1089
6.18. Osteotomias em cirurgia ortognática
1108
6.19. Fissuras craniofaciais raras
1146
6.20 Microssomia craniofacial
1160
6.21. Hiperteleorbitismo
1174
6.22. Hiperteleorbitismo - opções
complementares de tratamento
CAPÍTULO 7
1190
FISSURAS LABIOPALATINAS
1191
7.1. Cirurgia ortognática em pacientes portadores de fissura labiopalatina
1204
7.2. Palatoplastia
1229
7.3. Insuficiência velofaríngea
1240
7.4. Fissura labial unilateral
1268
7.5 Enxerto ósseo alveolar
CAPÍTULO 8
1283
RESTAURAÇÃO CAPILAR
1284
8.1. Cabelo
1290
8.2. Tratamento clínico na alopecia androgenética
1292
8.3. Calvície Feminina
1317
8.4. Anestesia segura para o transplante capilar
1332
8.5. Técnicas para obtenção das unidades foliculares (UFs)
1353
8.6. Abordagem eclética da área doadora - técnica multicombinada
1370
8.7. Evolução técnica no transplante de barba
1387
8.8. Megassessões com body hair
CAPÍTULO 1
ANATOMIA
CERVICAL
19
1.1. Anatomia Cervical
ANDRÉ AUERSVALD
LUIZ AUGUSTO AUERSVALD
1. Introdução
O pescoço tem grande contribuição no contexto do envelhecimento
facial e consequentemente na escolha das técnicas para rejuvenescimen-
to. Neste sentido, o entendimento da anatomia cervical é fundamental
para determinar quais estruturas devem ser tratadas e de que modo isto
deve ser feito.
O músculo platisma é considerado por muitos como o elemento mais
importante a ser tratado na cirurgia de rejuvenescimento cervical. Neste
capítulo, o pescoço será analisado de maneira mais ampla, com foco
também nas estruturas e planos supra e subplatismais, explorando as di-
ferentes camadas e estruturas de interesse cirúrgico. O objetivo aqui é
apresentar ao leitor as estruturas anatômicas mais importantes neste tipo
específico de cirurgia.
20
Figura 1. Desenho esquemático demonstrando os critérios de Ellenbongen
para o pescoço jovial
a
ian
Linha submenton
no
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1
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21
3. Triângulos cervicais
Os triângulos cervicais são unidades estéticas utilizadas para descrever
o conteúdo do pescoço (figura 2 e figura 3).
O triângulo submentoniano é composto lateralmente pelos ventres an-
teriores do músculo digástrico e pelo osso hioide na porção inferior. Ele é
preenchido pela gordura subplatismal e pelos linfonodos cervicais. O asso-
alho desse triângulo é o músculo milo-hióideo.
Já o triângulo submandibular é estabelecido pelos ventres anterior e
posterior do músculo digástrico e pela margem inferior do corpo da man-
díbula. Nesse espaço encontram-se alojados a glândula submandibular, a
artéria e a veia faciais.
O triângulo posterior ou occipital é delimitado pelos músculos esterno-
cleidomastóideo e trapézio, além do ventre inferior do músculo omo-hióideo.
Nessa área encontram-se o nervo acessório, o nervo frênico, o nervo auri-
cular maior, a artéria subclávia, a veia jugular externa e, por fim, ramos do
plexo braquial.
Por sua vez, o triângulo carotídeo é definido pelo ventre posterior do
músculo digástrico, pelo músculo esternocleidomastóideo e pelo ventre su-
perior do músculo omo-hióideo. Seu principal conteúdo é a artéria carótida
comum, que se bifurca dentro do triângulo, além da veia jugular interna e
dos nervos hipoglosso e vago.
Por fim, o triângulo músculo-mandibular é estabelecido pela margem
posterior do ramo da mandíbula e pela margem anterior do músculo es-
ternocleidomastóideo, tendo seu vértice na base da orelha. É um triângulo
anatômico que, quando bem delineado, confere uma característica de jo-
vialidade ao indivíduo.
Os demais triângulos extrapolam o escopo deste capítulo por terem me-
nor significância anatômica para a cirurgia do rejuvenescimento cervical.
22
Figura 2. Triângulos cervicais (designados em verde)
Digástrico posterior
Milo-hióideo
Submandibular
Digástrico anterior
Músculo mandibular
Submentoniano
Carotídeo
Posterior
Esternocleidomastóideo
Omo-hióideo superior
Omo-hióideo inferior
Omotraqueal
Supraclavicular
Digástrico anterior
Submandibular
Digástrico posterior
Submentoniano
Milo-hióideo
Carotídeo
Omo-hióideo superior
Omotraqueal
Esternocleidomastóideo
Posterior
Supraclavicular
Omo-hióideo inferior
23
4. Pele
A pele da região cervical (figura 4) está sujeita à movimentação intensa
por esta ser uma região articular. Sendo assim, essa pele apresenta menor
quantidade de ligamentos de fixação da derme aos músculos ou aos ossos.
Por ser uma área com maior mobilidade, há nessa região mais condições
para formação de flacidez e pregas cutâneas, especialmente se comparada
a outras áreas da face.
Figura 4. Pele (1) e tecido celular subcutâneo (2) como apresentado em uma
dissecção cadavérica. Durante uma cirurgia de rejuvenescimento facial, a li-
beração até a última prega cutânea na porção inferior do pescoço auxilia na
adequada acomodação da pele cervical
24
5. Tecido celular subcutâneo
O tecido celular subcutâneo (figura 5) é uma camada de tecido adi-
poso que está localizada entre a derme e a fáscia cervical superficial, co-
brindo o músculo platisma. Há uma variação em espessura dessa camada
de acordo com a constituição genética e o peso corporal. Além disso, a
gordura localizada nessa região é menos conectiva e menos fibrosa.
Com frequência, essa gordura é removida cirurgicamente para fins de
definição do contorno cervical. É importante salientar, no entanto, que ela
também ajuda a atenuar a visibilidade de estruturas subplatismais que
eventualmente possam estar hipertrofiadas. Uma vez retirada essa gordura,
o músculo platisma ficará mais exposto, assim como eventualmente pode-
rão ficar mais perceptíveis as estruturas que estão abaixo dele, como por
exemplo a glândula submandibular. Portanto, é prudente um diagnóstico
adequado dos elementos profundos do pescoço antes de decidir pela re-
moção da gordura subcutânea.
25
6. Músculo platisma
O músculo platisma é uma denominação para dois músculos simétricos
localizados abaixo da gordura subcutânea e acima da gordura subplatismal
(figura 6). É um músculo plano de espessura habitualmente fina – podendo
em alguns casos ser mais espesso. Essa estrutura tem uma constituição
variável, por vezes apresentando-se com um aspecto mais fibrótico, espe-
cialmente nos pacientes mais idosos.
26
Figura 7. O músculo platisma descolado, apresentando as estruturas profundas
a ele, especialmente as glândulas submandibulares e os músculos digástricos
27
Figura 8. Músculo platisma tipo 1
28
Figura 10. Músculo platisma tipo 3
29
Figura 11. Nervo occipital menor (1), nervo auricular maior (2) e veia jugular
externa (3)
2
3
7. Osso hioide
O osso hioide é um osso em forma curva que se localiza na parte anterior
do pescoço e participa de várias funções, dentre elas a deglutição, a fala,
a mastigação e a respiração, além de contribuir com a definição do ângulo
cérvico-mandibular (figura 12). Ele não se articula com outros ossos e está
suspenso por ligamentos, fáscias e músculos.
O osso hioide é uma âncora móvel para muitos músculos e estruturas
de partes moles na cabeça e pescoço, fazendo uma interface entre três
compartimentos: o assoalho da cavidade oral, a laringe e a faringe. Dessa
forma, ele sustenta a musculatura da base da língua.
30
O osso hioide tem conexões com os músculos infrahióideos, com os mús-
culos da laringe e da faringe, com os músculos posturais do pescoço e com
as fáscias cervicais.
Figura 12. Osso hioide (1), músculo digástrico, ventre anterior (2), cartilagem
tireoide (3)
8. Gordura subplatismal
Além da gordura subcutânea descrita acima, há outra gordura de inte-
resse para o contorno cervical: a gordura subplatismal (figura 13).
31
A gordura subplatismal encontra-se abaixo do músculo platisma, em
plano profundo à fáscia cervical superficial e acima da camada superficial
da fáscia cervical profunda, cobrindo as estruturas musculares e viscerais
do pescoço como o músculo digástrico, o músculo milo-hióideo, a glân-
dula submandibular, os vasos sanguíneos e os vasos linfáticos. A gordura
subplatismal está presente em três camadas distintas: a gordura interdigás-
trica, a gordura interplatismal e a gordura subplatismal propriamente dita.
A chamada gordura interplatismal é a que se situa entre as duas margens
do músculo platisma. Ela se encontra abaixo da fáscia cervical superficial
e é, portanto, um pouco mais profunda em relação à gordura subcutânea.
Por sua vez, a gordura interdigástrica está logo abaixo da gordura inter-
platismal e se localiza entre os dois ventres do músculo digástrico.
Já a gordura subplatismal propriamente dita está localizada lateralmente
ao músculo digástrico e preenche o triângulo submentoniano, onde tam-
bém está localizada a glândula submandibular.
32
A característica física das gorduras inter e subplatismal varia conforme
a sua localização. Ela é distinta da gordura subcutânea na sua textura. As
gorduras interplatismal e interdigástricas têm uma consistência mais fibro-
sa, endurecida e menos elástica, sendo mais difícil removê-las. A gordura
subplatismal propriamente dita é menos fibrosa e densa, sendo mais friável
e móvel, semelhante à gordura da bola de Bichat. A quantidade de gordura
varia consideravelmente entre os indivíduos e de maneira geral e se corre-
laciona diretamente com o índice de massa corpórea.
Adjacentes à gordura subplatismal e no meio da mesma encontram-se
vasos e nervos importantes da região cervical, como o nervo mandibular
marginal, as veias jugulares anteriores e externas e a artéria facial.
O ligamento hióideo é uma estrutura presente junto à gordura subpla-
tismal medial. Trata-se de um tecido fibroso que une firmemente a gordura
ao osso hioide, à fáscia peri-hióidea, e à cápsula da glândula submandibular
junto ao ventre anterior do músculo digástrico. O ligamento hióideo une to-
dos estes tecidos e é um importante marco para a localização da glândula
submandibular.
9. Fáscias do pescoço
As fáscias cervicais podem ser divididas em duas: a fáscia cervical super-
ficial e a fáscia cervical profunda.
33
Figura 14. Fáscia cervical superficial (linha em cor preta)
34
Figura 15. Fáscia cervical profunda, camada superficial (linhas em cor preta)
35
Figura 16. Fáscia cervical profunda, camada média (linhas em cor preta)
36
O ventre anterior tem sua inserção de origem na fossa digástrica da
mandíbula. Sua vascularização é provida pelos vasos submentonianos, ra-
mos dos vasos faciais. A inervação é dada pelo nervo milo-hióideo, ramo
do nervo alveolar inferior, que por sua vez é ramo do nervo mandibular. As
principais funções são o abaixamento da mandíbula (abertura da boca) e a
elevação do osso hioide para frente.
O ventre posterior do músculo digástrico insere-se na incisura mastóidea.
Sua inervação é dada por ramos do nervo facial. Já a sua função é o abaixa-
mento da mandíbula (abertura da boca) e elevação do osso hioide para trás.
Os dois ventres do músculo digástrico unem-se em uma estrutura tendi-
nosa em forma anelar inserida na porção superior do corpo do osso hioide.
Comumente chamada de polia do músculo digástrico, essa estrutura na
verdade não tem uma função de deslizamento, mas de inserção propria-
mente dita.
O ventre anterior do músculo digástrico contribui para a definição do
contorno cervical, tendo em vista sua proximidade com o músculo platis-
ma (figura 17). Variações de calibre e de volume dessa porção do músculo
digástrico podem ser percebidas especialmente quando da flexão do pes-
coço. Músculos mais calibrosos contribuem para a perda da definição do
ângulo cérvico-mandibular.
37
O músculo milo-hióideo repousa sobre o músculo digástrico. Existem
adesões entre estes dois músculos que lembram um ligamento. Labbé
descreveu essas adesões e sua aplicação prática no rejuvenescimento cer-
vical (figura 18).
Em alguns pacientes o músculo milo-hióideo encontra-se frouxo e proje-
tado inferiormente. A aproximação dos dois ventres do músculo digástrico
medialmente, por meio de uma plicatura com pontos, possibilita não só o
reposicionamento deste músculo, como também do músculo milo-hióideo.
Isso ocorre justamente por conta dessas adesões existentes entre eles.
38
11. Músculo milo-hióideo
O músculo milo-hióideo insere-se na linha milo-hioidea na face interna
da mandíbula - longitudinalmente a esta - e no osso hioide (figura 19). É
um músculo duplo que se une numa rafe mediana, sendo plano, fino e re-
lativamente frágil. Ele tem uma margem posterior que é livre de inserções.
Em sua parte superior está em contato com o músculo genio-hióideo, cujos
dois ventres são paralelos ao músculo digástrico. O músculo milo-hióideo
se encontra em uma posição aproximadamente paralela ao músculo pla-
tisma, e é considerado o assoalho da boca, isso porque é semelhante a um
diafragma que suporta o peso acima dele - especialmente a língua.
I
III
II
39
frente da glândula submandibular. O músculo milo-hióideo é inervado pelo
nervo milo-hióideo e é vascularizado pela artéria submentoniana. A princi-
pal função do mesmo é elevar o osso hioide e o assoalho da boca durante
a deglutição e a fala.
Esse músculo tem pouca força tensil e pode estar abaulado, projetando
um volume na região do submento, especialmente quando as estruturas da
língua e da base da língua estão hipertrofiadas.
A plicatura do músculo milo-hióideo é pouco eficiente por ser um mús-
culo friável e fino. Porém, a plicatura do músculo digástrico, como descrito
acima, pode trazê-lo para uma posição superior e esteticamente desejável.
Figura 20. Glândula submandibular (1), músculo digástrico, ventre anterior (2),
músculo estilo-hióideo (3), osso hioide (4)
2
1
3 4
40
Essa glândula está alojada em uma cápsula formada pela fáscia cervi-
cal profunda. Essa fáscia, por sua vez, divide-se em duas folhas de forma
a envolver a glândula e, posteriormente, une-se novamente tanto medial
como lateralmente. Essa mesma fáscia que cobre a glândula submandibu-
lar também se divide em duas folhas para cobrir a glândula parótida da
mesma forma.
A glândula submandibular tem um formato curvo sobre o músculo milo-
-hióideo, sendo anatomicamente dividida em porção profunda e superficial.
A porção profunda é a que está posterior ao músculo milo-hióideo, enquan-
to a superficial é a que está anterior a esse músculo. Numa ressecção par-
cial da glândula, o músculo milo-hióideo é uma referência anatômica para
uma cirurgia segura.
A parte profunda da glândula está envolta em um tecido conectivo frou-
xo, enquanto a porção superficial está mais próxima a estruturas firmes
como o osso hioide e o músculo digástrico.
A inervação da glândula submandibular é dada pelo nervo lingual (quin-
to par craniano) e pelo nervo corda timpânico, ramo do nervo facial (séti-
mo par craniano). Fibras secretórias parassimpáticas desses nervos fazem
sinapse no gânglio submandibular para então lançar a inervação sobre a
glândula. O aumento da atividade parassimpática promove salivação. A uti-
lização da toxina botulínica no tratamento de fístulas salivares tem seu fun-
damento no bloqueio colinérgico, agindo na redução na produção de saliva.
A inervação simpática se origina no gânglio cervical superior e é realiza-
da por meio de fibras que trafegam junto à artéria facial e chegam à glân-
dula para promover a diminuição do volume salivar.
Singer e Sullivan descreveram, em estudo de cadáveres, a irrigação da
glândula submandibular com um enfoque cirúrgico. Segundo o trabalho
dos autores, entre um e três (média de dois) ramos do território da arté-
ria tireóidea superior entram na porção medial da cápsula para irrigar os
lóbulos superficial e profundo. A artéria facial emerge da artéria carótida
externa após a artéria lingual e corre posteriormente ao ventre posterior do
músculo digástrico. Já a artéria facial, e alternativamente a artéria lingual,
dão origem a uma perfurante profunda que trafega centralmente no lóbulo
profundo para então entrar no lóbulo superficial na sua porção posterior. É
esse vaso que habitualmente sangra mais intensamente durante a ressecção
parcial da glândula e, portanto, deve ser cuidadosamente hemostasiado.
A veia facial drena o sangue da glândula submandibular. Ela tem um tra-
jeto independente, porém muito próximo ao da artéria facial, encontrando-
-se habitualmente entre os lóbulos profundo e superficial na porção lateral
da cápsula. Na região submentoniana, a veia facial recebe anastomoses da
veia submandibular e da veia jugular externa. Singer e Sullivan identificaram
também uma variação em dissecção de cadáveres, com a veia correndo
superficial ou lateralmente ao lóbulo superficial.
O ducto de Wharton drena a saliva produzida pela glândula submandibular
para o assoalho da língua. Seu trajeto origina-se na porção posterosuperior
41
da glândula para deslocar-se anteriormente até a emergência bilateral ao
frênulo lingual (figura 21).
42
dos indivíduos. Em 40% dos casos ele se apresenta em tronco único, e em
10% deles, apresenta-se como múltiplos ramos. Eventualmente, o ramo
superior do nervo mandibular marginal pode inervar a porção modiolar
do platisma, enquanto o ramo inferior pode inervar a porção labial do
músculo platisma.
O nervo mandibular marginal emerge da parótida entre 0,5cm a 1,5cm
anteriormente à margem posterior da mandíbula, e a 1,5cm acima do ân-
gulo da mandíbula (figura 22). No seu trajeto para a região mentoniana,
ele se encontra até 2cm acima ou 2cm abaixo da margem inferior do cor-
po da mandíbula.
0.5cm-1.5cm
2cm
1.5cm
2cm
43
A proximidade do nervo mandibular marginal com a glândula subman-
dibular junto à margem inferior do corpo da mandíbula é de relevância
cirúrgica quando se pretende ressecar parcialmente a porção superficial
da glândula. O nervo transita externamente à cápsula da glândula e, por-
tanto, uma dissecção cuidadosa intracapsular garante um plano seguro de
manipulação.
Outro ponto de referência para localização do nervo mandibular margi-
nal é o ligamento mandibular, pois o nervo corre em direção ao ligamento,
podendo passar por dentro de suas fibras ou posteriormente a ele.
No seu trajeto, na altura da margem mandibular, o nervo mandibular
marginal cruza a artéria facial anteriormente a ela (figura 23).
Artéria facial
1
3
8 Tendão do músculo
Ângulo da mandíbula digástrico
Glândula submandibular
7 refletida
Artéria tireóidea
6 superior
5
Nervo laríngeo
superior
4
44
Em 60% dos indivíduos há comunicação entre o nervo mandibular mar-
ginal e o ramo bucal do nervo facial.
O ramo cervical do nervo facial emerge da parótida na sua porção infe-
rior, posteriormente ao ramo da mandíbula e junto à veia jugular externa.
O ramo superior corre logo abaixo do platisma, paralela e inferiormente ao
corpo da mandíbula, e inerva a porção superior do platisma. O ramo inferior
corre abaixo da fáscia cervical profunda por aproximadamente 4cm, parale-
lo à margem anterior do músculo esternocleidomastóideo. Esse ramo corre
então paralelamente à margem inferior do corpo da mandíbula para inervar
a porção inferior do platisma.
O nervo auricular maior é puramente sensitivo e é o maior nervo do plexo
sensitivo cervical, dando sensibilidade à metade inferior do pavilhão auricular
e à região periauricular (figura 24). É o nervo mais frequentemente lesado na
cirurgia plástica facial.
Figura 24. Área de sensibilidade do nervo occipital menor (1); área de inerva-
ção do nervo auricular maior (2)
45
Esse nervo emerge na margem posterior do músculo esternocleidomas-
tóideo para então transitar sobre ele em direção superior ao lóbulo da ore-
lha, onde se ramifica para inervar o pavilhão e a pele em volta dele.
McKinney et al. descreveram uma forma de se localizar o nervo auricu-
lar maior. Com a cabeça virada para o lado oposto, marca-se um ponto
6,5cm (± 2mm) abaixo da margem inferior do meato acústico externo,
sobre a porção média do corpo do músculo esternocleidomastóideo.
Neste local estará o nervo transitando sobre o músculo, sendo o ponto
em que o nervo é mais frequentemente lesado. Isso é explicado pelo fato
de haver ligamentos músculo-cutâneos que se aderem firmemente ao
longo do músculo esternocleidomastóideo e dificultam o descolamento
do retalho cutâneo, podendo o nervo estar abaixo ou acima da fáscia do
músculo esternocleidomastóideo. Nessa última situação, o nervo encon-
tra-se mais superficial, no subcutâneo, tornando-o mais exposto a lesões
durante o descolamento cirúrgico. Acima do ponto de McKinney o nervo
mergulha na fáscia de Lore ou fáscia tímpano-parotídea, tornando-se
mais protegido.
Aboudib e Cardoso de Castro descreveram a relação entre o nervo au-
ricular maior e a veia jugular externa e concluíram que o nervo está sempre
posterior à veia, podendo variar entre posição junto à veia ou até 2cm ou 3cm
posterior a ela. Essa descrição é muito útil numa cirurgia cervical, pois a veia
frequentemente é observada por meio do exame físico, e a sua marcação
antecipada pode orientar a posição do nervo.
Outra relação importante do nervo auricular maior é com o nervo acessó-
rio (ou XI par craniano). O nervo auricular maior emerge 1cm abaixo do nervo
acessório, que transita por trás da margem posterior do músculo esternoclei-
domastóideo (figura 25).
46
Figura 25. Nervo occipital menor (1), nervo auricular maior (2), veia jugular ex-
terna (3), nervo acessório (4)
2
3
47
Ele emerge na margem posterior do músculo esternocleidomastóideo,
acima da emergência do nervo auricular maior e da área de trânsito do
nervo acessório. Por sua posição superficial no subcutâneo, ele é vulnerável
durante o descolamento do retalho retroauricular em uma ritidoplastia.
Segundo Dash et al., o ponto de emergência do nervo occipital menor
na margem posterior do músculo esternocleidomastóideo está localizado
aproximadamente na convergência de uma linha horizontal a 6,5cm da linha
média posterior e de uma linha vertical a 5,3cm abaixo de uma linha trans-
versal que conecta os pontos mais baixos dos canais auditivos externos.
O nervo acessório (XI par craniano) é responsável pela inervação do
músculo trapézio. Sua lesão pode gerar a síndrome do ombro caído, com
dificuldade funcional e dor. A lesão do nervo pode ocorrer tendo em vista a
eventual necessidade de estender-se a dissecção no triângulo posterior em
uma cirurgia de rejuvenescimento cervical. Como o trajeto do nervo entre o
músculo esternocleidomastóideo e o músculo trapézio é superficial, é pru-
dente uma dissecção cuidadosa nesta região. Uma forma de identificar-se
a posição do nervo foi dada por Kierner e colaboradores em estudo de 46
cadáveres. Eles observaram que o nervo emerge em posição posterior ao
músculo esternocleidomastóideo em média a 8,2cm +/- 1,01cm cranialmen-
te à clavícula.
48
Figura 26. Veias com relevância cirúrgica no pescoço: veia submentoniana (1),
veia facial (2), veia retromandibular (3), veia jugular interna (4), veia jugular
externa (5), veia comunicante (6) e veia jugular anterior (7)
1 2 3
49
Figura 27. Veias com relevância cirúrgica no pescoço: veia facial (2), veia retro-
mandibular (3), veia jugular interna (4), veia jugular externa (5), veia comuni-
cante (6) e veia jugular anterior (7)
2
3
5 7
50
Há variações no número de veias jugulares anteriores - podendo ser úni-
ca ou bilateral - e no seu calibre. Além disso, também podem ocorrer veias
comunicantes entre a veia jugular anterior e a veia jugular interna.
Bibliografia consultada
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51
1.2. Anatomia da testa
GISELA HOBSON PONTES
FERNANDO SÉRGIO MENDES CARNEIRO FILHO
1. Lifting frontal
Um dos grandes desafios da cirurgia estética é o tratamento do processo
de envelhecimento facial. A compreensão da fisiologia do envelhecimento,
que inclui as variações anatômicas sofridas no transcorrer do tempo, cons-
titui pré-requisito importante para o planejamento de um bom procedimen-
to cirúrgico. Além disso, o repertório técnico do cirurgião é fundamental
para o resultado exitoso da ritidoplastia.
O envelhecimento facial é complexo e tridimensional e se apresenta des-
de o arcabouço ósseo, com reabsorção óssea observada principalmente
nos rebordos orbitais e região malar, ao nível alveolar, estendendo-se aos
planos mais superficiais com envolvimento dos tecidos ligamentares, mus-
culoaponeurótico, subcutâneo e de pele.
Fatores intrínsecos (determinados pela genética do indivíduo) e extrín-
secos (como tabagismo, exposição solar, radiações ionizantes, poluição, ál-
cool, dentre outros) determinam a intensidade das alterações envolvidas no
envelhecimento facial.
2. Breve histórico
Hunt em 1926 reportou uma incisão anterior na linha de implantação ca-
pilar com retirada de pele para corrigir rugas na testa. Em 1961, Pangman &
Wallace utilizaram a mesma abordagem para a remoção de rugas na testa
e correção de ptose da sobrancelha. Em 1965, Uchida publicou a utilização
de abordagem anterior na linha do cabelo, com isolamento galeal e sub-
cutâneo do músculo frontal. A porção superior com pele foi ressecada e a
porção inferior do músculo frontal, suturada na borda cutânea. Connell et
al., em 1989, advogaram a incisão anterior quebrada na linha capilar, com
dissecção subgaleal.
Até o início da década de 90, a ritidoplastia frontal era descrita com
incisão coronal e plano de dissecção subgaleal ou subcutânea. Durante as
décadas de 1980 e 1990, as inovações em abordagens endoscópicas, que
revolucionaram a ortopedia, a cirurgia geral e a ginecologia, alcançaram a
cirurgia plástica, principalmente no tratamento da região frontal.
No entanto, as incisões coronais ou as técnicas endoscópicas eventual-
mente podem elevar a linha anterior capilar, sendo, em parte, necessário ha-
ver seleção criteriosa dos pacientes que são candidatos a essa abordagem.
52
3. Indicações
A principal indicação é a queda do supercílio. As demais indicações são
o tratamento ou suavização das rugas frontais e glabelares e o tratamento
da musculatura da região glabelar e redução da região frontal.
O plano de dissecção independe da incisão escolhida: é sempre subga-
leal e suprapereosteal para que haja uma boa vascularização do couro ca-
beludo e para que não ocorra alopecia. A alopecia no pós-operatório pode
ocorrer nos casos de tração excessiva do retalho, descolamento superficial
deste ou por má sutura.
4. Variantes
Incisão coronal
Incisão frontal pré-intracapilar
Incisão frontal transversa
Incisão frontal reversa
53
4.1. Incisão coronal
A mais tradicional se entende de uma raiz da hélice a outra, como um
arco. Essa distando cerca de 6cm a 7cm posterior à linha de implantação
do capilar na linha sagital (ponto A). A distância do início da implantação
capilar à linha de incisão aumenta na região temporal para cerca de 8cm,
sendo porém variável em decorrência da característica de cada paciente
(figuras 1 - linha rosa - 2 e 3).
54
Figura 3. (A e B) desenho típico da incisão coronal. Distância A-B medindo
entre 6cm e 7cm e distância C-D medindo entre 7cm a 8cm
55
Por meio da incisão coronal, o retalho, quando inteiramente dissecado,
possibilita:
• Completa exposição de todo o complexo neuromuscular da região frontal;
• Tratamento da musculatura frontal, interciliar e glabelar;
• Acesso ao teto da órbita;
• Acesso à fáscia do músculo temporal.
Com o advento da toxina botulínica, a indicação cirúrgica para o trata-
mento da musculatura da região frontal, interciliar e glabelar ficou restrita
às situações de queda do supercílio, flacidez da região glabelar e resistên-
cia à toxina botulínica. A musculatura é divulsionada sobre visão direta,
preservando os nervos supratrocleares e supraorbitais que são facilmente
identificados. O tratamento do músculo frontal se dá por meio de incisões
escalonadas, objetivando o enfraquecimento da sua ação na região frontal.
• Tração e ressecção
A ressecção do couro cabeludo é habitualmente menor na linha média,
evitando-se a elevação excessiva da cabeça do supercílio, sendo mais alar-
gada na região lateral para que dessa forma se obtenha uma elevação mais
acentuada da cauda do supercílio.
56
Figura 4. Visão lateral da incisão frontal reversa
57
4.3. Incisão frontal transversa
A incisão frontal transversa possui uma indicação extremamente res-
trita. Aplica-se aos casos que cumpram a reunião das seguintes caracte-
rísticas: paciente masculino, calvo, com acentuada ptose dos supercílios
e áreas subjacentes, além de forte motivação de melhorar o aspecto do
terço superior da face, mesmo com uma cicatriz aparente (figuras 1 - linha
amarela - e 6).
É de suma importância que os pacientes candidatos a esse tipo de pro-
cedimento sejam extremamente esclarecidos quanto à amplitude da cirur-
gia, a posição e a qualidade das cicatrizes. Com uma boa técnica de sutura
e findas as etapas do processo cicatricial, as cicatrizes tornam-se discretas
- porém elas sempre existirão.
58
4.4. Incisão frontal pré-intracapilar
Essa incisão é indicada para pacientes com implantação capilar alta, em
casos primários ou secundários, podendo ser utilizada em ambos os sexos.
Na maioria das vezes a cicatriz se torna inconspícua com o passar do tem-
po, porém tanto nos pacientes do sexo masculino quanto nas pacientes do
sexo feminino é ressaltada a importância do uso de franja ou outro pen-
teado que oculte a cicatriz, no caso de hipocromia cicatricial ou qualquer
processo cicatricial indesejado.
A incisão em zigue-zague deve ser irregular, biselada e pré-intracapilar
(sendo realizada uma mínima tricotomia para que a cicatriz fique localizada
dentro do cabelo). Essa tática cirúrgica da incisão é primordial para uma
obtenção de um bom processo cicatricial, resultando em uma cicatriz pra-
ticamente inaparente (figuras 1 - linha amarela - e 7).
59
O tratamento da musculatura frontal e glabelar é o mesmo realizado por
meio da incisão coronal, podendo também corrigir a ptose dos supercílios
e diminuir a amplitude da testa, tornando-a mais harmônica com os terços
médios e inferiores da face.
5. Plano de dissecção
O plano de dissecção independe da incisão escolhida e é sempre subga-
leal e suprapereosteal, de forma que haja uma boa vascularização do couro
cabeludo e para que não ocorra alopecia (figura 8). A alopecia no pós-ope-
ratório pode ocorrer nos casos de má sutura, tração excessiva do retalho ou
descolamento superficial do mesmo.
60
6. Tratamento da musculatura da região frontal
61
6.2. Músculos glabelares
É realizada a divulsão dos músculos próceros, corrugadores do supercí-
lio (ventre transversal e ventre oblíquo), deixando o músculo depressor do
supercílio intacto.
A miotomia completa do próceros acarreta inevitavelmente a elevação
da cabeça do supercílio, mesmo que não tenha sido realizado ressecção de
couro cabeludo na região central, devendo portanto ser evitada.
7. Conclusão
Especialmente nas ritidoplastias, é preciso que se tenha pleno conheci-
mento de todas as técnicas cirúrgicas aplicáveis, uma vez que a varieda-
de de características faciais e a customização da cirurgia demandam tal
expertise.
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Viterbo F, Auersvald A. Glinding brow lifting. Plast Reconstr Surg Glob Open. 2017;5(9 Suppl):186-7.
62
1.3. Pálpebra, nariz e orelha
GISELA HOBSON PONTES
FERNANDO SÉRGIO MENDES CARNEIRO FILHO
1. Anatomia orbitopalpebral
A cavidade orbital tem a função de alojar o globo ocular e, juntamente
com as pálpebras, fazer a sua proteção. O conhecimento da anatomia or-
bitopalpebral é fundamental para os bons resultados da cirurgia estética
e reparadora. As alterações percebidas nesta área podem, na verdade, ser
decorrentes de problemas de regiões anatômicas adjacentes. Por isso, sua
avaliação não deve ser feita de forma isolada.
Incisura supraorbital
Frontal
Incisura nuclear
Forame orbital
Etmoide
Lacrimal
Fissuras orbitais superior
e inferior
Palatino
Sulco infraorbital
Zigomático
Sutura
zigomaticomaxilar
Maxilar
Forame infraorbital
63
A porção superior da órbita é formada pela face inferior da asa menor do
esfenoide e pelo processo orbital do osso frontal. É o pavimento da fossa
cerebral anterior, tendo a conformação de um triângulo com a base ante-
rior. A cerca de 2,5cm lateralmente à linha média é encontrada a incisura
frontal, que em 25% dos casos é um forame. Esse acidente ósseo pode ser
palpado facilmente e por ele passam a artéria e o nervo supraorbital.
Na região medial temos o processo frontal do osso maxilar, a porção lateral
do corpo do esfenoide, do lacrimal e da porção lateral do etmoide. O saco
nasolacrimal está situado numa depressão chamada de fossa lacrimal, forma-
da pelos ossos maxilar e lacrimal que fazem parte da borda ínfero-medial. A
região lateral, de forma triangular, com base anterior, é composta pelas asas
maior e menor do esfenoide, pelo osso zigomático e pela porção do frontal.
A face inferior da órbita apresenta-se delgada e côncava, sendo formada
pelas placas orbitais dos ossos maxilar, zigomático e palatino. A cerca de
1cm abaixo da margem orbital inferior e 2,5cm da linha média está o forame
infraorbitário, por onde emergem os nervos e veia infraorbitários.
64
Tabela 2. Ossos que formam a margem orbital
Frontal
Zigomático
Maxila
Maxila
Inferior Zigomático
Palatino (processo orbital)
Zigomático
Lateral
Asa maior do esfenoide
2. Inervação da pálpebra
65
Figura 2. Inervação motora dos músculos da pálpebra. Observar que na pál-
pebra superior as fibras nervosas cursam paralelamente às fibras musculares,
já na inferior elas cursam perpendicularmente a elas
Músculo
corrugado do
supercílio
Ramo bucal
superficial
Ramo bucal
profundo
Ramo zigomático
Ramos bucais
66
O nervo frontal se dirige anteriormente entre o músculo levantador da
pálpebra superior e o periósteo da concavidade orbital superior, se dividin-
do - aproximadamente na metade do trajeto da órbita - nos ramos supra-
troclear e supraorbitário.
O nervo supraorbitário emerge da órbita pela incisura supraorbital junto
da artéria homônima, a qual está em posição medial. Ele se ramifica e inerva
a pálpebra superior, a conjuntiva, a região frontal e o couro cabeludo até o
vértice. O nervo supratroclear inerva a área medial da pálpebra, a conjuntiva
e a pele da região frontal. Ele ascende sobre a rima orbital medial com a
artéria de mesmo nome.
O nervo nasociliar, juntamente com a artéria oftálmica, cruza o nervo óp-
tico, dividindo-se em vários ramos menores e, posteriormente, dando ori-
gem aos nervos etmoidal anterior e infratroclear. O nervo etmoidal anterior
se torna nervo nasal para inervar a ponta do nariz. O nervo infratroclear
estende-se inferiormente à tróclea em direção ao ângulo medial do olho,
inervando região medial das pálpebras, a conjuntiva, as estruturas lacrimais
e o topo do nariz.
O nervo infraorbital é a continuação do segmento maxilar, ramo do ner-
vo trigêmeo. Ele emerge pelo forame infraorbital para chegar à face, onde
ramifica-se para inervar a pele e a conjuntiva da pálpebra inferior, dorso e
asa do nariz e a pele do lábio superior (figuras 3 e 4).
Nervo supraorbital
Nervo
Nervo lacrimal supratroclear
Nervo
Nervo infratroclear
zigomaticotemporal
Nervo
infraorbital
Nervo
zigomaticofacial
67
Figura 4. Áreas de abrangência dos nervos sensitivos
Nervo
Nervo supraorbital
lacrimal
Nervo
zigomático
temporal Nervo
supratroclear
Nervo
infratroclear
Nervo
infraorbital
Nervo
zigomático
facial
68
Tabela 4. Inervação sensitiva da região orbital
Nervo Origem Trajeto
O menor ramo da divisão oftálmica do nervo trigêmeo
Estende-se anteriormente para entrar na órbita pela fissura orbital
superior
Na órbita, estende-se na margem superior do músculo reto lateral com
a artéria lacrimal
Lacrimal
Antes de chegar à glândula lacrimal, comunica-se com o ramo zigomá-
Divisão tico da divisão maxilar do nervo trigêmeo para receber fibras nervosas
oftálmica autônomas
do nervo Entra na glândula lacrimal inervando a mesma e a túnica conjuntiva antes
trigêmeo de perfurar o septo orbital para inervar a pele da pálpebra superior
69
3. Vascularização da pálpebra
70
Figura 5. Irrigação arterial da órbita
3
6
10
1 Artéria supratroclear
2 Artéria dorsal do nariz
3 Ramo meníngeo anterior
4 Artéria etmoidal anterior
5 Artéria carótida interna
6 Artéria supraorbital
7 Artérias ciliares posteriores
8 Artéria lacrimal
9 Artéria central da retina (parte extraocular)
10 Artéria oftálmica
71
Figura 6. Vista anterior e perfil do suprimento arterial da pálpebra
Artéria
supraorbital
Artéria
supratroclear
Artéria dorsal
do nariz
Artéria angular
Ramo nasal
externo
Músculo
nasal (parte
transversal)
Artéria e nervo
infraorbitais
Ramo nasal
lateral
Artéria dorsal
Ramo frontal da do nariz
artéria temporal
superficial
Artéria palpebral
média superior
Artéria palpebral
lateral superior
Artéria angular
Artéria palpebral
Artéria palpebral média inferior
lateral inferior
Artéria facial
zigomática
Arco arterial
palpebral superior
e inferior
Artéria facial
transversa
Artéria infraorbital
Artéria facial
72
Tabela 5. Suprimento arterial da órbita
Artéria Origem Trajeto
Segue com o nervo pelo canal etmoidal anterior para inervar as cé-
lulas etmoidais anteriores e médias
Etmoidal Continua para originar um ramo meníngeo e ramos nasais que irri-
anterior gam a parede lateral e o septo nasal
Em seguida, emite o ramo nasal externo (terminal) que irriga a re-
gião externa do nariz
Estende-se pelo canal etmoidal posterior para irrigar as células et-
Etmoidal moidais posteriores
posterior Dá origem aos ramos meníngeo e nasal que se anastomosam com
os ramos da esfenopalatina
Ramo terminal
Ramo nasal Irriga a região externa do nariz entre o osso nasal e a cartilagem
da artéria etmoi-
externo lateral superior
dal anterior
Dorsal Um dos ramos Deixa a órbita pelo ângulo superomedial junto com o nervo
do nariz terminais da ar- infratroclear
(infratroclear) téria oftálmica Irriga o dorso do nariz
Ramos muscu-
Ciliares Estendem-se anteriormente para a superfície anterior do bulbo do
lares da artéria
anteriores olho, acompanhando os tendões dos músculos extrínsecos
oftálmica
Uma vez que a artéria infraorbital emerge pelo forame infraorbital,
o ramo palpebral inferior irriga a pálpebra inferior
Infraorbital Artéria maxilar
Supre alguns músculos na parede inferior da órbita próximo ao ca-
nal infraorbital
73
3.2. Drenagem venosa
As veias das pálpebras têm sua localização predominante na região dos
fórnices e são tributárias da rede venosa do terço médio da face.
A veia angular é formada pela confluência das veias supraorbital e supra-
troclear próximo ao ângulo superomedial da órbita. Estende-se pela região
lateral do nariz para se tornar a veia facial.
A drenagem venosa da região orbitopalpebral também é realizada pela
veia oftálmica inferior (figura 7).
Veia supraocular
Veia frontal nasal
Veia supratrocular
Veia palpebral
superior Veia palpebral superior
Veia nasal
Veia superficial
temporal Veia palpebral inferior
Veia angular
Veia infraorbital
Veia supraorbital
Veia oftálmica
superior
Veia oftálmica
inferior
Veia angular
Plexo pterigódeo
74
Tabela 6. Drenagem venosa da região orbital: veias superficiais
Veia Trajeto
Veia Trajeto
75
Figura 8. Drenagem linfática da região periorbital
Linfonodo
pré-auricular
Linfonodo submandibular
76
Figura 9. Músculo orbicular oculi
Porção profunda da
região do músculo
orbicular do olho
Região orbital Região pré-septal
do músculo do músculo
orbicular do orbicular do olho
olho
Região pré-tarsal
do músculo
orbicular do olho
Região
pré-tarsal
do músculo
Região pré-tarsal
orbicular do
do músculo Porção profunda da
olho
orbicular do olho região pré-tarsal do
músculo orbicular do
olho (músculo de Horner)
77
Figura 10. Vista em perfil: tarso, músculo levantador da pálpebra superior, mús-
culo de Müller, ligamento de Whitnall e ligamento de Lockwood
Músculo elevador da
Gordura
pálpebra superior
orbicular
Aponeurose do
músculo elevador da
Músculo de pálpebra superior
Müller
Arca vascular
superior
Tarso
Arcada vascular
inferior
Ligamento de Whitnall
Músculo elevador da
Septo orbital
pálpebra superior
Tarso
Músculo orbicular
do olho
Septo orbital
78
Figura 11. Vista anterior: tarso, músculo levantador da pálpebra superior, mús-
culo de Müller, ligamento de Whitnall e ligamento de Lockwood
Músculo elevador
da pálpebra
Ligamento de
superior
Whitnall
Aponeurose do
Junção músculo eleva-
músculo dor da pálpebra
aponeurótica superior
Ligamento medial
Ligamento lateral do músculo
do músculo elevador da
elevador da pálpebra superior
pálpebra
superior
Tarso
Fáscia
capsulopalpebral
79
4.5. Tendão palpebral lateral
Os músculos pré-tarsais estão reunidos lateralmente e têm sua inserção
por meio de um tendão comum no tubérculo de Whitnall. A rafe lateral é
formada pela união lateral dos músculos pré-septais, que por sua vez está
ligada ao tendão subjacente. Nas camadas profundas, abaixo às inserções
musculares, um espessamento fibroso no formato de Y no septo orbital une
as extremidades laterais das placas tarsais ao tubérculo de Whitnall. Esse
conjunto de estruturas forma o tendão palpebral lateral.
O tendão palpebral lateral é mais frouxo que o medial, propiciando ptose
palpebral, lagoftalmo e até ectrópio, sendo necessária a realização da can-
topexia lateral para correção dessas alterações (figura 12).
Nota:
O tendão palpebral lateral, devido a sua conformação anatômica, é mais frágil
que o medial. Com o envelhecimento da face, sua frouxidão pode ocasionar mau
posicionamento palpebral como lagoftalmo e ectrópio, sendo necessária muitas
vezes a correção cirúrgica.
80
e na parede orbital medial, acima e abaixo do músculo de Horner. A con-
tração dessa porção faz a movimentação da fáscia lacrimal em direção
lateral (figura 12).
Nota:
O tendão palpebral medial é mais complexo que o lateral. O prolongamento do
músculo orbicular divide-se em uma parte mais superficial (ramo anterior) e em
outra mais profunda (ramo posterior). O saco lacrimal situa-se entre esses dois
ramos. O ramo anterior insere-se na crista lacrimal anterior e o posterior na crista
lacrimal posterior.
Tarso
Extensão
superior
superior
(10mm-12mm)
da reflexão
anterior
do tendão
palpebral
medial
Tendão
palpebral Reflexão
lateral anterior e
posterior
do tendão
palpebral
medial
Tarso inferior
(3mm-4mm)
81
4.7. Tarso
Os tarsos superiores e inferiores são constituídos por tecido fibroelástico
e formam o esqueleto palpebral.
O tarso superior, possui no centro uma altura de 10mm, enquanto no
tarso inferior essa altura é de 5mm. O comprimento do tarso é de cerca de
25mm a 30 mm, com 1mm de espessura. A superfície anterior do tarso é
convexa e frouxamente aderida ao músculo orbicular, enquanto a superfície
posterior é côncava e aderida firmemente à conjuntiva. Os tarsos são liga-
dos às margens palpebrais por ligamentos mediais e laterais.
Na borda superior do tarso superior se encontra inserido o músculo de
Müller, já na borda inferior do tarso inferior estão inseridos o músculo tarsal
inferior, o septo orbitário e a fáscia cápsulo-palpebral (figuras 10 e 11).
• Gordura orbital
As bolsas gordurosas palpebrais estão localizadas posteriormente ao
músculo orbicular e ao septo orbital e anteriormente aos músculos retra-
tores das pálpebras. A gordura é sustentada por uma complexa trama de
delicados septos de tecido conjuntivo.
Na pálpebra superior existem dois compartimentos gordurosos: a bolsa
central, que é a maior e pré-aponeurótica, e a bolsa nasal, que é medial e
menor. A glândula lacrimal está localizada em posição lateral à bolsa central.
Na pálpebra inferior também existem dois compartimentos adiposos: o
corpo adiposo medial, que é maior e subdividido por um septo em outras
duas porções menores: a bolsa nasal e a bolsa central. O corpo adiposo la-
teral, chamado de bolsa temporal, é menor e separado dos outros por uma
expansão do ligamento de Lockwood.
Os compartimentos de gordura nasais (bolsas nasais) são mais
esbranquiçados.
Na pálpebra inferior, o músculo oblíquo inferior encontra-se entre a bol-
sa nasal e a central. Durante uma blefaroplastia deve-se ter muita cautela
82
na ressecção dessas bolsas para evitar a lesão desse músculo, o que causa
diplopia no pós-operatório (figura 13).
Figura 13. As bolsas de gordura das pálpebras. Observar que na pálpebra su-
perior existem apenas duas bolsas (nasal e central), enquanto na inferior elas
são três (nasal, central e temporal). Importante ressaltar a posição do músculo
oblíquo inferior entre as bolsas nasal e central
Septo
interbolsas
Bolsa de gordura
preaponeurótica
Glândula
lacrimal Bolsas
gordurosas
nasais
Bolsa gordurosa
temporal
Bolsa
gordurosa
Expansão do central
ligamento de
Lockwood
Nota:
Na pálpebra superior existem duas bolsas de gordura: a nasal e a central. Na in-
ferior existem três bolsas de gordura: a nasal, a central e a temporal.
Nota:
Deve-se ter parcimônia durante a retirada da bolsa gordurosa central da pál-
pebra superior, pois a glândula lacrimal está lateral a ela e pode ser facilmente
confundida com o corpo adiposo, acarretando lesão.
83
Nota:
Durante a redução da bolsa nasal e central na blefaroplastia inferior, principal-
mente na abordagem transconjuntival, deve-se ter cuidado para não lesar o
músculo oblíquo inferior que se encontra entre elas, pois isso causa diplopia
pós-operatória.
5.1. Introdução
O conhecimento da anatomia nasal é imprescindível para que se obtenha
o melhor resultado estético e funcional na rinoplastia atual. É de extrema
importância o domínio das estruturas anatômicas nasais e das técnicas ci-
rúrgicas, além da compreensão da fisiologia nasal para uma cirurgia de boa
qualidade.
O nariz é uma estrutura constituída por ossos, cartilagens e músculos
unidos por ligamentos e tecido conectivo. Ela apresenta uma rica rede vas-
cular e inervação com algumas particularidades, podendo a anatomia nasal
ser dividida em externa e interna.
• Pele
Um dos fatores decisórios no desfecho favorável da rinoplastia é a qua-
lidade da pele da região nasal. Estudos anatômicos prévios concluíram que
o nariz possui camadas de tecidos distintas. As camadas encontradas no
nariz, no sentido mais superficial para o mais profundo, são: epiderme, der-
me, gordura subcutânea, camada músculoaponeurótica (músculo e fáscia),
tecido areolar, pericôndrio/cartilagem e periósteo/osso.
84
A pele é mais espessa na raiz que na porção central. Na região da co-
lumela e na área média da asa, a espessura da pele é radicalmente mais
fina e se espessa na área da base alar. Assim como a pele espessa pode
ser um problema para se conseguir uma definição nasal ideal, a pele fina
pode também afetar negativamente o resultado da rinoplastia ao revelar a
aspereza do esqueleto subjacente e quaisquer falhas existentes iatrogêni-
cas ou residuais mínimas, que não seriam perceptíveis em pacientes com
pele mais grossa.
No terço inferior do nariz, principalmente na área sobreponta, a pele se
torna mais espessa, mais aderente à estrutura subjacente e com maior quan-
tidade de glândulas sebáceas, que variam em atividade de acordo com a
idade e a raça. No sexo masculino, principalmente na adolescência, há uma
grande quantidade dessas glândulas na ponta nasal e na área sobreponta,
o que dificulta a obtenção de definição da ponta nasal no pós-operatório.
• Músculos nasais
Os músculos nasais são delicados e de difícil visualização, sendo um de-
safio conservá-los consistentemente. Todos esses músculos são inervados
pelo nervo facial (sétimo par craniano - VII). A tabela 5.8 descreve as ca-
racterísticas dos músculos do nariz e nas figuras 14 A e B pode-se observar
seu desenho esquemático.
85
Figuras 14 A e B. Músculos do nariz
A B
M. Prócero M. Prócero
M. Nasal
M. levantador
Parte do lábio
transversa superior e da
M. nasal asa do nariz
Parte alar
M. abaixador
M. abaixador do septo
do septo
Parte transversa
Parte Comprime a
do músculo nasal
transversa narina Facial: Variável e pode
Nasal Maxila do lado oposto
Ramo Bucal estar ausente
Parte alar Cartilagem nasal Dilata a narina
Traciona a
pele da região
glabelar, Pode ser
Osso nasal Facial:
abaixando seccionado
Cartilagens Pele entre os Ramos
a parte parcial ou
Prócero Laterais supercílios Temporal,
medial dos totalmente
Superiores (Glabela) Zigomático
supercílios e em uma
do Nariz e Bucal
produzindo ritidoplastia
as rugas
horizontais
Divide-se em
dois fascículos:
Algumas fibras
Processo um se insere
Facial: mesclam-se
Levantador do frontal na cartilagem Eleva o lábio
Ramos e dão origem
Lábio Superior e da maxila lateral inferior superior e di-
zigomático ao músculo
Asa do Nariz e região e na pele do lata a narina
e bucal orbicular da
infraorbital nariz e o outro
boca
se prolonga ao
lábio superior
86
6. Suprimento sanguíneo do nariz externo
A. oftálmica
A. supratroclear
A. dorsal do nariz
A. angular
A. nasal lateral
Ramos columelares
A. facial
87
Tabela 9. Irrigação arterial do nariz
Ramo do septo
Labial superior Irriga o septo nasal
nasal
88
6.3. Drenagem linfática
O sistema de drenagem linfática do nariz está localizado de forma su-
perficial à camada musculoaponeurótica. O sentido de drenagem linfática
é ao longo da região lateral do nariz, no sentido cefálico à crus lateral, em
direção à abertura piriforme e aos gânglios linfáticos da parótida. A região
columelar não apresenta drenagem linfática.
7. Inervação
A inervação sensitiva do nariz provém dos ramos maxilar e oftálmico do
nervo trigêmeo (quinto par craniano - V). Os ramos supraorbital e supratro-
clear do nervo oftálmico realizam a inervação sensitiva da parte cefálica do
nariz. O ramo nasal externo do nervo etmoide anterior fornece inervação
para a área média da abóboda e se estende até a ponta do nariz.
O nervo infraorbital é responsável pela inervação sensitiva do nariz em
sua parte posterior, da área alar e da porção caudal da columela.
8. O esqueleto nasal
O esqueleto do nariz é composto por dois componentes diferentes.
A porção cefálica nasal consiste no esqueleto ósseo e a porção caudal é
cartilaginosa.
89
Figuras 16 A e B. Esqueleto ósseo do nariz
Osso frontal A
Glabela
Sutura coronal
Face orbital
Osso esfenoide
Osso nasal
Asa menor
Osso temporal
Osso zigomático
Osso etmoide
Farome Lamina
zigomaticofacial perpendicular
Concha nasal
Maxilar média
Vômer
Face orbital
Mandíbula
Processo Forame
alveolar Espinha nasal Protuberância Tubérculo mandibular
anterior mentual mentual
90
B
Sutura
Maxila
lamdoidea
Osso zigomático
Osso occipital
Sutura
temporozigomática
Sutura occipitomastóidea
Mandíbula
A
Vista anterior
Osso nasal
Processo lateral da
cartilagem septal
Cartilagem lateral
superior
Cartilagem lateral
inferior
Tecido alar
fibroatiposo
Cartilagem septal
91
B
Osso nasal
Concha nasal
superior
Septo nasal
Concha nasal
média
Concha nasal
superior
C Vista medial
Osso nasal
Cartilagem septal
Cartilagem lateral
inferior
92
lateralmente pelos processos frontais da maxila e inferiormente pela borda
cefálica da cartilagem lateral inferior. A borda das conchas nasais inferiores,
juntamente com o ângulo 10 a 15 graus formado entre a borda caudal das
cartilagens laterais superiores e o septo, constituem a válvula nasal interna.
Cartilagens laterais inferiores: São formadas pelos componentes: crus me-
dial, crus média (domos) e a crus lateral (figura 19).
A crus medial tem dois segmentos distintos: o pé do ramo medial
(footplate) e a columela. A angulação lateral do pé do ramo medial go-
verna a largura da base da columela. Quanto mais longa for a porção co-
lumelar, mais longa a narina e, consequentemente, haverá uma projeção
nasal maior.
A crus média está entre a crus medial e a lateral e compõe o domos ana-
tômico. É a porção mais estreita e mais fina da cartilagem lateral inferior e
considerada a mais importante em relação à forma da ponta nasal.
As crus medial e média de um lado estão firmemente ligadas às do ou-
tro lado por bandas fibrosas, sendo a banda mais anterior denominada de
ligamento interdomal. Existem bandas (ligamentos) que se localizam mais
anteriormente e ligam os domos entre si e à derme suprajacente.
A crus lateral é o componente maior. Essa porção do lóbulo nasal é
estreita anteriormente, porém se alarga na parte média e se estreita no-
vamente lateralmente. Na parte medial, a crus lateral é contínua com o
segmento domal.
A porção anterior dessa cartilagem pode apresentar curvatura em diver-
sas direções e, assim, controlar a convexidade da asa. A junção da borda
cefálica da crus lateral e a borda caudal da cartilagem lateral superior é
referida como área de rolagem (scroll) (figuras 18 e 19).
Conexões
Ligamentos fibrogordurosas
suspensores
Pilar pinforme
Excesso
fibrogorduroso
sobre a ponta
e lobular
Fibras elásticas
Lâmina medial de tecido
adiposo crural
93
Figura 19. Porções das cartilagens laterais inferiores
CRUS LATERAL
CRUS MEDIAL:
Seguimento columelar e
seguimento footpiate
Joelho lateral
Incisura domal
Joelho medial
94
9.1. Septo nasal
É constituído de osso na sua porção cefálica e de cartilagem e membra-
na caudalmente. A parte óssea é formada pela placa perpendicular do osso
etmoide, o etmoide, o vômer e a crista pré-maxilar (espinha nasal anterior).
O terço superior do septo ósseo se origina da lâmina perpendicular e tem
continuidade com o osso frontal e com a placa cribriforme. A junção da
lâmina perpendicular e do septo cartilaginoso sobre o dorso do nariz é co-
nhecida como área fundamental ou K (Keystone) (figura 20).
A cartilagem do septo é plana e pode variar de tamanho e forma. Ela se
conecta posteriormente à lâmina perpendicular do etmoide e se funde com
o osso vômer e com as asas pré-maxilares. A junção entre as porções dorsal
e caudal dessa cartilagem é denominada de ângulo septal anterior.
95
9.2. Paredes laterais da cavidade nasal
Ao longo das paredes laterais da cavidade nasal existem três conchas
nasais: superior, média e inferior. Essas conchas estão recobertas por uma
mucosa que contém grande número de veias, o que permite que elas se
tornem ingurgitadas. Elas possuem a função de fazer o fluxo do ar inspirado
na mucosa superficial ser regular e constante.
Quando há desvio de septo, as conchas nasais inferior e média, princi-
palmente, têm uma tendência a sofrer hipertrofia compensatória e seguir o
septo. Portanto, quando há correção de desvio de septo, deve-se também
realizar uma redução da concha aumentada (figura 17).
Artéria carótida Emite dois ramos que irrigam a cavidade nasal: artéria
Oftálmica
interna etmoidal anterior e artéria etmoidal posterior
Continua
96
Artéria Origem Trajeto/Função
97
que se originam do nervo palatino maior à medida que descem pelo canal
palatino e fornecem sensibilidade para a porção inferior da parede lateral
do nariz, incluindo a concha nasal inferior.
O nervo nasociliar, primeira divisão do ramo oftálmico, também fornece
inervação sensitiva para o nariz. Um dos ramos terminais desse nervo é o
nervo etmoidal anterior, que sai do crânio através do forame etmoidal an-
terior, acompanhando a artéria etmoidal anterior e passando para o nariz
através da fenda etmoidal. Os nervos etmoidais laterais formam os ramos
nasais internos laterais e mediais. O ramo lateral tem a função de suprir a
área anterior da concha superior e acima da concha média, bem como a
extremidade anterior das conchas nasais média e inferior.
98
13. Cartilagens laterais superiores: par de cartilagens nasais superiores pa-
readas, que se estendem do septo dorsal lateralmente e que compõem as
paredes laterais do terço médio nasal (figura 18);
14. Cartilagens sesamoides: são pequenas cartilagens encontradas no es-
paço lateral entre as cartilagens laterais superiores e inferiores;
15. Columela: a coluna existente entre as narinas e a base do nariz, conec-
tando a ponta ao lábio superior;
16. Conchas: são três lâminas de ossos (superior, média e inferior) que se
projetam na parede lateral do nariz;
17. Crus medial: Um ramo da cartilagem lateral inferior que se estende pos-
teriormente até o lábio superior e anteriormente até o domos anatômico;
18. Crus média: um ramo da cartilagem lateral inferior que forma o domos
anatômico;
19. Crus lateral: um ramo da cartilagem lateral inferior que se estende me-
dialmente do domos anatômico até as cartilagens acessórias lateralmente;
20. Domos anatômico: é a crus média, ou seja, a junção das cruras mediais
e laterais das cartilagens laterais inferiores;
21. Domos clínico: parte anterior mais projetada da cartilagem lateral in-
ferior. A projeção externa do domos são os pontos de definição da ponta;
22. Dorso: é a superfície anterior do nariz, entre a ponta nasal e a raiz, onde as
superfícies laterais dos dois terços superiores do nariz se unem na linha média;
23. Incisão de hemitransfixação: uma incisão em um dos lados do septo
membranoso, através do tecido cutâneo neovestibular;
24. Incisão infracartilaginosa (ou marginal): uma incisão feita ao longo do
limite caudal (margem inferior) da cartilagem lateral inferior;
25. Incisão intercartilaginosa: uma incisão interna feita na junção da carti-
lagem lateral superior com a crus lateral (margem superior) da cartilagem
lateral inferior;
26. Incisão intracartilaginosa: uma incisão através da crus lateral no senti-
do medial para lateral, separando-a em uma parte superior e outra inferior;
27. Incisão transfixante: Uma incisão realizada no septo membranoso, entre
a borda inferior da cartilagem do septo e a columela;
28. Lóbulo infraponta nasal (infratip): porção da ponta nasal situada entre
os pontos de definição da ponta e a junção columelolobular;
29. Lóbulo nasal: a parte inferior do nariz delimitada posteriormente pela
borda da narina anterior, pela área da sobreponta superiormente e lateral-
mente pelos sulcos da asa do nariz;
30. Narinas: são os orifícios nasais;
31. Násio: depressão existente entre a junção do nariz com a região frontal;
32. Pirâmide nasal: parte do esqueleto do nariz, formado pelo osso nasal
dos dois lados e pelos processos frontais da maxila;
99
33. Plano facial horizontal natural: linha horizontal que se projeta através
do perfil da face lateral, com os olhos na direção reta e a cabeça em posição
relaxada e normal;
34. Plano facial vertical: linha perpendicular ao plano facial horizontal
natural;
35. Ponta nasal: o ponto mais anterior do lóbulo (ápice);
36. Pontos de definição da ponta nasal (PDP): área com maior projeção
em cada lado da ponta que, na incidência de uma luz externa, produz uma
reflexão dessa luz;
37. Prega supra-alar: o sulco imediatamente superior à prega alar;
38. Projeção da ponta: a distância existente entre a porção mais projetada
da ponta nasal e o ponto mais posterior da junção nariz-bochecha;
39. Raiz: junção entre osso frontal e o dorso nasal;
40. Rhinion: ponto localizado sobre o dorso do nariz, na junção
osteocartilaginosa;
41. Rotação da ponta: rotação da ponta, no sentido cefálico ou caudal, com
a base alar fixada;
42. Septo nasal: consiste em uma porção óssea (lâmina perpendicular do
etmoide, vômer e crista pré-maxilar), uma porção membranosa e uma por-
ção cartilaginosa (quadrangular), que divide a passagem nasal em duas
cavidades;
43. Subnasal: junção da columela com o lábio;
44. Sulco da asa nasal: depressão cutânea oblíqua externa entre a ponta
nasal e a asa do nariz;
45. Triângulo fraco (Converse): área imediatamente superior ao par de
domos;
46. Triângulo de tecido mole: dobra cutânea fina existente entre a porção
anterior da narina e a borda caudal do domos entre as crura lateral e medial;
47. Triângulo de Webster: projeção óssea, de aspecto triangular, presente
ao longo da abertura piriforme diretamente lateral ao aspecto anterior da
concha inferior. Essa estrutura é preservada durante as osteotomias laterais
com objetivo de evitar que a válvula nasal interna seja obstruída;
48. Válvula cartilaginosa inferior: terço inferior nasal constituído pelo par
de cartilagens laterais inferiores;
49. Válvula nasal externa: abertura externa da narina. É delimitada na mar-
gem medial pela columela, na porção anterior pelo triângulo de tecido mole,
na parte lateral pela borda da asa e posteriormente pelo lábio superior;
50. Válvula nasal interna: área de junção entre a borda caudal da cartila-
gem lateral superior e o septo nasal;
51. Válvula óssea: é o terço superior do nariz. Composto pelos ossos nasais,
processos frontais da maxila e processos nasais do osso frontal;
100
52. Vestíbulo nasal: junção da borda caudal do processo lateral da cartila-
gem lateral superior com a margem cefálica do ramo lateral da cartilagem
lateral inferior.
10.1. Introdução
A orelha é um órgão pareado do sistema auditivo responsável pela audi-
ção e equilíbrio. Sua principal função é a captação de som, mas sua posição
como limite lateral da face confere também a ela uma grande importância
estética.
A orelha pode ser dividida em orelha externa, orelha média e orelha inter-
na, todas interligadas. A orelha externa é a porção mais superficial e com-
preende o pavilhão auricular (orelha), o meato acústico externo (também
chamado de canal auditivo externo) e o tímpano, que é uma membrana
delgada que separa a orelha externa da média. A orelha média é a câmara
onde se situam três ossículos – martelo, estribo e bigorna, que são interli-
gados e servem como meio de ligação com a orelha interna. Nessa câmara,
onde se situam esses ossículos, existe um canal de ligação da orelha média
com a faringe denominado tuba auditiva (Trompa de Eustáquio). A orelha
interna é a parte mais especializada e, portanto, a mais delicada de toda a
orelha, onde estão os chamados canais semicirculares, a cóclea e o nervo
acústico, que liga todo o conjunto diretamente ao cérebro.
O objeto de estudo deste capítulo é a orelha externa (pavilhão auricular)
e por isso vamos nos ater aos seus detalhes.
101
10.3. Estrutura do pavilhão auricular
O pavilhão auricular é o apêndice que se situa lateralmente na cabeça e
circunda a abertura do meato acústico externo. Está localizado posterior-
mente à articulação temporomaxilar e anteriormente à apófise mastoide.
É uma estrutura de formato irregular composta por pele e cartilagem
elástica. Sua porção superior possui um esqueleto de cartilagem, já a por-
ção inferior, o lóbulo, não possui cartilagem.
102
10.4. Pele
A pele do pavilhão auricular é fina e delicada, cobrindo a cartilagem e
permitindo a observação clara de todas as suas curvas, depressões, saliên-
cias e irregularidades. Na porção inferior essa pele cobre somente o tecido
adiposo, formando o lóbulo que, por não possuir cartilagem, possui mais
mobilidade que o restante da orelha.
10.7. Ligamentos
Compostos por feixes de tecido conectivo que unem a cartilagem do
pavilhão auricular às estruturas vizinhas. São divididos em intrínsecos e
extrínsecos.
Intrínsecos
- Da eminência da fossa triangular à eminência da concha;
- Da eminência da fossa escafoide à eminência da concha;
- Do antitrágus à cauda da hélice;
- Da lâmina do trago ao ângulo que existe entre a parte inicial da hélice
e a concha.
Extrínsecos
- Anterior;
- Posterior.
103
elas possuam um sistema muscular. Esses músculos podem ser divididos
em extrínsecos e intrínsecos como mostrado na figura 22.
Músculos extrínsecos
- Músculo auricular anterior;
- Músculo auricular posterior;
- Músculo auricular superior.
Músculos intrínsecos
- Músculo maior da hélice;
- Músculo menor da hélice;
- Músculo do trágus;
- Músculo do antitrágus;
- Músculo transverso;
- Músculo oblíquo.
10.9. Vascularização
A irrigação arterial provém de ramos da artéria carótida externa, descri-
tas a seguir:
Artéria temporal superficial: ramo terminal da artéria carótida externa que
se origina dentro da glândula parótida. Emite ramos que irrigam a orelha e
o meato acústico externo;
Artéria auricular posterior: também originada da artéria carótida externa
dentro da parótida. Em seu trajeto sofre anastomose com as artérias tem-
poral superficial e occipital. Irriga a orelha e o meato acústico externo. A au-
ricular posterior dá origem a um ramo estilomastóideo que entra no forame
de mesmo nome para irrigar a face interna da membrana timpânica;
Artéria auricular profunda: ramo da artéria maxilar (um dos ramos termi-
nais da artéria carótida externa). Entra no meato acústico externo para irri-
gá-lo, em seguida irriga a face externa da membrana timpânica;
Artéria timpânica anterior: também ramo da artéria maxilar. Ajuda a irrigar
a face interna da membrana timpânica;
104
Figura 22. Músculos extrínsecos e intrínsecos da orelha
Cartilagem
Músculo
auricular
superior
Músculo
menor do
hélix
Músculo
oblíquo
Músculo
maior
do hélix
Músculo
auricular
anterior
Músculo
auricular
Músculo do posterior
trágus
Músculo do
antitrágus
105
Seio transverso: um dos seios venosos profundos que drenam o encéfalo.
Recebe parte do sangue da membrana timpânica.
10.10. Inervação
Os seguintes nervos são os responsáveis pela inervação sensitiva da ore-
lha externa:
Nervo auricular magno: divide-se em ramo anterior e posterior. O ramo
posterior inerva a pele acima do processo mastóideo, a parte posterior da
orelha, a concha e o lóbulo;
Nervo occipital menor: inerva a pele da região posterior à orelha;
Nervo auriculotemporal: inerva a pele na região do trago, do ramo da hé-
lice, da porção anterior do meato acústico externo e da face externa da
membrana timpânica;
Ramo auricular do vago: inerva a pele da superfície posterior da orelha e a
parte posterior do meato acústico externo;
Ramo timpânico do glossofaríngeo: emite fibras sensitivas para a cavidade
timpânica, incluindo a membrana timpânica e a tuba auditiva.
Nota:
Durante a cirurgia de facelift, o nervo auricular magno é frequentemente visua-
lizado e está sob risco de transecção durante a dissecção inicial, além de poder
também ser comprometido se incluído inadvertidamente na plicatura ou tração
posterior do platisma. O cirurgião deve manter em mente a sua localização du-
rante a dissecção retroauricular e cervical.
106
Figura 23. Inervação da orelha. Observar os nervos e sua área de abrangência
Nervo
Nervo occipital auriculotemporal
menor
Ramo mastoide
Ramo mastoide
107
10.11. Arquitetura da cartilagem auricular
O pavilhão auricular apresenta uma face lateral (ventral), uma medial
(dorsal) e uma margem. A face lateral é a mais visível e, portanto, possui
maior interesse.
A orelha é formada por uma série de depressões e relevos, a saber:
Concha: é a grande depressão central da face lateral da orelha. É de-
limitada posteriormente pela anti-hélice e anteriormente pelo trago.
Prolonga-se sem um limite preciso com o meato acústico externo. Ela é
dividida pela raiz da hélice em concha superior (cymba) e concha infe-
rior (cavum);
Hélice: borda curvada mais externa da orelha, prolonga-se anteriormente
para unir-se com a face na raiz da hélice. É dividida a partir da concha se-
guindo em sentindo anti-horário da seguinte forma: raiz da hélice (entre
a concha superior e inferior), porção ascendente, porção superior, porção
descendente e cauda da hélice;
Anti-hélice: é uma estrutura praticamente paralela e anterior à hélice. É
uma elevação localizada entre duas depressões: a escafa e a concha. Tem o
formato semelhante a um Y, possui um tronco que se divide em dois ramos
(crus): ramo superior (posterior) e ramo inferior (anterior);
Fossa triangular: depressão localizada entre os ramos da anti-hélice;
Tubérculo da orelha (de Darwin): pequena elevação na hélice;
Escafa: depressão entre a hélice e anti-hélice;
Trágus: é a elevação logo à frente do meato acústico externo e da concha.
Está entre a face e o restante da orelha;
Antitrágus: estende-se da porção inferior da anti-hélice até a concha e é
separado do trago pela incisura intertrágica;
Incisura intertrágica: porção que separa o trago do antítrago;
Meato acústico externo: canal que conecta a concha à membrana timpâni-
ca. Tem cerca de 2,5cm de comprimento;
Membrana timpânica: porção mais medial da orelha externa que a separa
da orelha média;
Lóbulo da orelha: porção mais inferior da orelha.
108
Figura 24. A arquitetura da orelha
Ramo inferior
da anti-hélice
Tubérculo da
Fossa triangular
orelha
Raiz da hélice
Escafa
Meato acústico
externo
Hélice
Trago
Anti-hélice Antitrago
Concha superior
Incisura intertágica
Concha inferior
Lóbulo
109
Figura 25. Referência das medidas “normais” da orelha
Inclinação
Altura de 5,5cm a 7,5cm
de 15o a 30o
110
Figura 26. Distâncias padrão entre o rebordo da hélice e o crânio (mastoide)
1,5cm a 2cm
2cm
2cm a 2,5cm
Bibliografia consultada
Codner MA, Jr CDM. Eyelid e periorbital surgery. Periorbital and eyelid anatomy. 2ª ed. Florida: CRC
press; 2016. p. 03-52
Guyuron B. Rinoplastia. Anatomia cirúrgica e fisiológica do nariz. 1ª ed. Elsevier; 2014. p. 01-26.
Moore KL, Agur AMR, Dalley AF. Fundamentos de anatomia clínica. 4ª ed. São Paulo: Guanabara
Koogan; 2013.
Netter FH. Atlas de anatomia humana. 6ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2015.
Norton NS (ed). Netter Atlas de Cabeça e Pescoço. 2ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2012.
Pontes, R. Atlas de rinoplastia. 1ª ed. Rio de Janeiro: Revinter; 2013.
Pontes, R. O universo da ritidoplastia. Anatomia da face. 1ª ed. Rio de Janeiro: Revinter; 2011.
Rohrich RJ, JR WPA, Ahmad J, et al. Rinoplastia: Cirurgia do nariz pelos mestres. Estudo avançado
de anatomia para rinoplastia. 3ª ed. Revinter; 2017. p. 09-20.
Rohrich RJ, JR WPA, Ahmad J, et al. Rinoplastia: Cirurgia do nariz pelos mestres. Termos anatômi-
cos preferidos para o uso em rinoplastia. 3ª ed. Revinter; 2017. p. 03-08.
Standring S. Gray´s Anatomia. A base anatômica da prática clínica. 40ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier 2011.
Taub PJ, Baker, SB. Rinoplastia: atlas de cirurgia plástica. 1ª ed. AMGH Editora Ltda; 2013. p. 02-25.
Tournieux AAB. Atualização em Cirurgia Plástica Estética. 1ª ed. São Paulo: Robe editorial; 1994.
Tyers AG, Collin JRO. Atlas colorido de cirurgia plástica oftalmológica. Anatomia. 2ª ed. Rio de
Janeiro: Dilivros; 2001. p. 01-20.
111
1.4. Anatomia da face
GISELA HOBSON PONTES
FERNANDO SÉRGIO MENDES CARNEIRO FILHO
1. Introdução
A segurança em cirurgia plástica é o que todos nós, cirurgiões, devemos
ter em mente na busca da excelência dos nossos resultados.
A compreensão da complexa anatomia facial é fundamental para o pla-
nejamento e execução das mais variadas técnicas, na prevenção de lesões
de estruturas importantes.
Cirurgicamente, a face é dividida em três segmentos:
Superior: dos supercílios até limite cranial indefinido, em torno de 6cm aci-
ma do implante capilar, contornando em uma linha curva até as orelhas;
Médio: entre os supercílios e a borda da mandíbula;
Inferior: região cervical.
A pele da face tem espessura semelhante em toda sua extensão, adel-
gaçando-se no nível das pálpebras. É nítida a diferença em relação ao
sexo, especialmente pela presença de barba nos homens. Além disso, é
ponto de inserção dos músculos da mímica facial. A testa é talvez a por-
ção com maior movimento da face, responsável por várias formas de co-
municação facial.
112
Figura 1. Músculos do terço superior da face
STL
CSM-O
FM
FM
CMS-T TM
OOM
FM: músculo frontal; PM: músculo prócero; DSM: músculo depressor do supercílio; TM: múscu-
lo temporal; MCT: ligamento cantal medial; CSM-O: músculo corrugador do supercílio – oblíquo;
CSM-T: músculo corrugador do supercílio – oblíquo; CSM-T: músculo corrugador do supercílio –
transverso; MOOM: cabeça medial da porção orbital do músculo orbicular oculi; OOOM: músculo
orbicular aculi
113
Tabela 1. Músculos do terço superior da face
114
Músculo Origem Inserção Ações Nervo Comentários
Dentro
da derme
Metade
abaixo da
superior de Elevação cefálica
sobrancelha.
cada par da da sobrancelha
Margem
musculatura em 2,5cm,
lateral-
frontal: origem produzindo rugas
medial a
no plano galeal transversas e A manipulação
linha superior Nervo facial:
Músculo profundo e profundas cirúrgica é
temporal do ramos
frontal interdigitates Levanta os importante na
crânio onde temporais
com a porção supercílios cirurgia estética
é aderido
orbital do Enruga a testa
ao plano
músculo Enruga a parte
profundo da
orbicularis oculi posterior da
gálea e sobre
Aponeurose cabeça
o periósteo
epicrânica
Aponeurose
epicrânica
Profundamente
à borda lateral
do músculo
prócero de
cada lado
Processo
frontal da Derme abaixo Nervo facial:
Músculo Deprime o
maxila a 2mm do terço ramos
depressor terço medial da
a 5mm abaixo medial da temporal e
do supercílio sobrancelha
da sutura sobrancelha zigomáticos
fronto-maxilar,
ligeiramente
posterior e
superior à
crista lacrimal
posterior
Nervos
temporais
Músculo da profundos,
mastigação ramos Mantém a
Processo
Músculo Eleva a mandíbula do nervo mandíbula em
Fossa temporal coronóide da
temporal Ajuda na mandibular posição de
mandíbula
lateralidade da e uma repouso
mandíbula divisão
do nervo
trigêmeo
Nota:
No planejamento cirúrgico é importante a avaliação dinâmica do paciente.
Nota:
Atenção!
A liberação inadvertida do músculo prócero pode levar à ascensão indesejada da
porção medial do supercílio, levando a um posicionamento inestético do mesmo.
115
3. Testa
A testa se estende da linha anterior da implantação do cabelo, incluindo
a sobrancelha. A altura da mesma é determinada pela distância da pupi-
la até a linha anterior da implantação capilar, e essa proporção não deve
ser alterada nas abordagens cirúrgicas dessa área. Uma testa muito ampla
pode acentuar os sinais de envelhecimento facial.
A inervação sensorial da testa se dá pelos nervos supratroclear e supra-
orbital. O nervo supratroclear é responsável pela parte central da testa, já
os ramos do nervo supratroclear normalmente passam entre a porção su-
perficial e profunda do músculo corrugador (figura 2).
Nervo
supratroclear
Nervo
supraorbitário
116
Figura 3. O ramo frontal do nervo facial emerge a 0,5cm abaixo do trágus
indo até 1,5cm acima da borda lateral do supercílio. O ramo temporal do nervo
facial, geralmente passa acima do arco zigomático com três a cinco ramifica-
ções, cursando o terço medial do arco zigomático
Ramo frontotemporal
1.5cm
0.5cm
117
Figura 4 - Ligamentos retentores da face
STS
Temporalis SLA
TLA
LBT
ITS
SV LOT
ZTN
PS
TFN
ZFN
118
1. Ligamentos osteocutâneos, que vão do periósteo à derme. São os liga-
mentos zigomáticos e os mandibulares (figura 5).
2. Ligamentos retentores formados pela junção da fáscia profunda e su-
perficial, formando conexões fibrosas que se expandem verticalmente
de estruturas profundas como glândula parótida e o músculo masseter
(figura 6).
Artéria e Nervo
Glandula parótida
Ligamento zigomático
Ligamentos retentores
zigomáticos Músculo
zigomático
maior
Nervo facial
Ligamentos
Ligamento platisma cutâneos
– auricular paratideos
Artérias e
Nervo auricular
nervos
magno
Ligamentos Ligamento
cutâneos mandibular
parotídeos
Ligamento
Músculo platisma
platisma
– cutâneo
anterior
119
Figura 6. Ligamentos retentores da face formados pela junção da fáscia pro-
funda e superficial
Plano subgaleal
Gálea
Aderência temporal
Ligamento zigomático
Ligamento massetérico
Pele
SMAS
Fáscia profunda
Ligamento mandibular
120
Figura 7. Zona segura: o descolamento da área demarcada é seguro desde que
seja mantido o plano na fáscia temporal profunda ou periósteo, a 2cm da mar-
gem lateral do rebordo orbitário ao longo do arco zigomático. Medialmente,
esta área se estende até a área de fusão superior temporal do crânio e inferior-
mente até o ligamento orbiculotemporal. Lateralmente à borda orbitária em
torno de 2cm de largura
STL
OTL
m
5c
2.
121
Figura 8. Corpo adiposo da bochecha
Músculo
bucinador
Ramo bucal do
nervo facial
Terceiro
molar Músculo masseter
Ducto parotídeo
Vaso facial
122
principal do corpo adiposo da bochecha para acentuar o contorno do terço
médio da face (figura 10).
Essa ressecção pode ser feita com acesso intraoral ou em acesso per-
cutâneo durante uma ritidoplastia, por exemplo.
123
6. SMAS
O SMAS (sistema musculoaponeurótico superficial) é uma camada fi-
bromuscular inelástica com a função de suportar as camadas profundas da
face. Foi descrito em 1976 por Mitz e Peyronie. Ele age como uma rede, dis-
tribuindo as contrações dos músculos faciais para pele. O SMAS representa
a extensão cefálica da fáscia cervical superficial em direção à face. Essa
fáscia superficial forma uma camada contínua através da face e pescoço, se
estendendo dentro da região temporal, testa, couro cabeludo, região malar,
nariz e lábio superior. Essa camada fascial tem orientação cefálica em dire-
ção ao arco zigomático (figura 11).
Essa camada apresenta mudanças de nomenclatura de acordo com a
sua localização, sendo que na região temporal é denominada de fáscia
temporoparietal e no couro cabeludo de gálea, tendo a característica de
ser espessa em ambas as localizações. Conforme o SMAS avança me-
dialmente, passando por cima do músculo masseter e do corpo adiposo
da bochecha, ele se torna mais fino e de difícil identificação. Na região
malar ele é muito fino e compromete o epimísio do músculo levantador
do lábio superior.
Ele é dividido em duas porções:
Móvel: anterior a glândula parótida;
Imóvel (fixa): acima da glândula parótida existem adesões firmes da fáscia
superficial e profunda, formando os ligamentos cutâneos parotídeos.
1
2
1. SMAS 3
2. Músculo platisma 4
3. Músculo zigomático maior 5
4. Ligamentos zigomáticos 6
5. Ligamentos massetéricos
6. Fáscia massetérica
124
Diversos tipos de incisões podem ser realizados no SMAS. Acreditamos
que o retalho do SMAS traçado cranialmente na altura do trágus, seguindo
a linha do arco zigomático, contornando a região pré-auricular e curvando-
-se até a borda posterior do platisma proporcione maior eficácia no trata-
mento da flacidez daquele.
A esse nível, o ramo frontal do nervo facial é profundo e, portanto, uma
área segura tanto para SMAS aberto como para realização de plicaturas
(figura 12).
Plicatura de SMAS
Plicatura de SMAS
125
Nota:
Para a tração e mobilização do SMAS serem eficazes deve-se atingir a parte móvel.
126
Figura 13. Linhas de tensão da pele (segundo Langer). As linhas de tensão
acompanham as rugas e nos mostram a melhor direção para a colocação de
incisões na pele. São perpendiculares aos músculos sobrejacentes
127
Nota:
As linhas de tensão na pele mostram o melhor posicionamento para as incisões
na pele. São perpendiculares aos músculos abaixo delas.
Nota:
• Não há fáscia profunda ao longo da face;
• A inervação motora dos músculos da face é feita pelo nervo facial e a sensitiva
pelo trigêmeo;
• Os músculos inserem-se à pele, possibilitando o movimento.
128
Figura 14. Músculos da face. As setas indicam o sentido do movimento de cada
um deles
129
Para facilitar seu estudo, podemos dividir os músculos da face nos se-
guintes grupos: oral, nasal, orbital, auricular, occipitofrontal e pescoço.
Gálea aponeurótico
(aponeurose epicrânica) Ventre frontal do
músculo epicrânio
Músculo prócero
Músculo corrugador do supercílio
Parte orbital do músculo
Parte palpebral orbicular do olho
Parte transversa
do músculo nasal
Parte alar
Músculo mento
Músculo platisma
130
Tabela 2 - Estudo sobre os músculos que movimentam os lábios
Músculo Origem Inserção Ações Nervo Comentários
Óssea: linha Age como
mediana anterior esfíncter da
Fecha a boca Facial: ramo
Orbicular da da maxila e Pele ao longo boca
Protusão dos lábios zigomático e
Boca mandíbula do lábio Comprime os
Dobra os lábios bucal
Muscular: ângulo lábios contra
da boca os dentes
Ângulo da boca
Fossa canina
Algumas fibras Eleva o ângulo da
Levantador da maxila
mesclam-se e boca Facial: ramo
do Ângulo (inferiormente
dão origem ao Acentua o sulco bucal
da Boca ao forame
músculo abai- nasolabial
infra-orbital)
xador da boca
Também cha-
Superfície malar
mado de “mús-
do osso zigomáti- Move o ângulo da Facial: ramo
Zigomático Ângulo da culo do riso”
co (anteriormente boca superiormente zigomático e
Maior boca É mais largo
à sutura temporo- e lateralmente bucal
que o zigomá-
zigomática)
tico menor
Lábio superior É um músculo
Superfície malar (entre o mús- cilíndrico e es-
Auxilia na elevação
do osso zigomáti- culo levantador Facial: ramos treito, situado
Zigomático do lábio superior
co (anteriormente do lábio supe- zigomático e lateralmente
Menor Acentua o sulco
ao músculo zigo- rior e o múscu- bucal ao músculo
nasolabial
mático maior) lo zigomático levantador do
maior) lábio superior
Se divide em
dois fascículos.
Algumas fibras
Um se insere
Levantador mesclam-se
Processo frontal na cartilagem Facial: ramos
do lábio su- Eleva o lábio supe- e dão origem
da maxila e região lateral inferior zigomático e
perior e asa rior e dilata a narina ao músculo
infra-orbital e na pele do bucal
do nariz orbicular da
nariz e o outro
boca
se prolonga ao
lábio superior
Margem inferior
Levantador da órbita acima Eleva o lábio supe-
Lábio superior Facial: ramo
do lábio do forame infra- rior e o empurra um
e asa do nariz bucal
superior -orbital, maxila e pouco para frente
zigomático
Comumente
Fáscia do Facial: ramo
Retrai o ângulo da chamado
Risório (ou Masseter, reco- Ângulo da marginal
boca lateralmente de músculo
de Santorini) brindo a glândula boca mandibular e
(sorriso forçado) do “sorriso
parótida bucal
sarcástico”
Auxilia na Cria a estrutura
Rafe mastigação da bochecha
Pterigomandibular Deprime e compri- Algumas fibras
Facial: ramo
Margens alveola- Ângulo da me as bochechas de mesclam-se
Bucinador zigomático e
res da maxila e da boca encontro a maxila e e dão origem
bucal
mandíbula mandíbula ao músculo
Importante para orbicular da
assobiar e soprar boca
Facial: ramo
Abaixador Traciona o lábio
Linha oblíqua da marginal Dá a expressão
do lábio Lábio inferior para baixo e
mandíbula mandibular e de ironia
inferior lateralmente
bucal
Continua
131
Músculo Origem Inserção Ações Nervo Comentários
Faz o “beici-
Facial: ramo
nho” (expres-
Fossa incisiva da Eleva e projeta para marginal da
Mentual Pele do mento são de dúvida)
mandíbula fora o lábio inferior mandíbula e
e ajuda a be-
bucal
ber líquidos
Linha mediana da Auxilia na depres-
Transverso Ângulo da Facial: ramo
mandíbula logo são do ângulo da
do mento boca bucal
abaixo do queixo boca
Facial: ramo
Abaixador Ãngulo da
Linha oblíqua da Abaixa e lateraliza o marginal da Faz a expressão
do ângulo da Boca e Lábio
Mandíbula ângulo da boca mandíbula e de tristeza
boca Inferior
bucal
Curiosidade:
Existe um músculo pouco conhecido chamado músculo malar. Este músculo é
superficial e pouco espesso, sendo inconsistente em caucasianos, porém po-
dendo ser bem observado em indivíduos de origem asiática e pessoas com a
bochecha mais proeminente. Estudos anatômicos recentes avaliam sua função
como elo entre os tecidos do terço superior com o terço médio e uma possível
ação de sustentação e antienvelhecimento. Pode desaparecer com a idade por
um processo de atrofia (figura 16).
132
Tabela 3. Grupo nasal dos músculos da face
133
7.4. Grupo auricular
A orelha possui músculos extrínsecos e intrínsecos, e seu estudo está
mais detalhado no capítulo específico sobre a orelha. Seus músculos são
citados na tabela 5.
134
8. Vascularização do terço médio e superior da face
8.1. Introdução
A face é ricamente vascularizada e isso traz algumas implicações clíni-
cas. O alto fluxo sanguíneo favorece uma cicatrização rápida e em geral de
boa qualidade, além de trazer segurança para procedimentos reparadores
como a rotação de grandes retalhos e cirurgias estéticas como o facelift.
Porém, essa rica rede de vasos traz um risco aumentado de grandes san-
gramentos por traumas ou procedimentos cirúrgicos, além de aumentar o
risco da ocorrência de hematomas no pós-operatório de cirurgias realiza-
das na face.
A maior parte da irrigação da face provém da artéria temporal superficial
e dos ramos faciais da artéria carótida externa. Na figura 17 observamos a
distribuição dos vasos provenientes das artérias carótida externa e interna
na irrigação da face.
O ramo maxilar da artéria carótida externa irriga a maior parte das re-
giões não irrigadas pelos ramos da artéria temporal superficial e da artéria
facial. A artéria carótida interna por sua vez irriga a parte anterior da fronte
e o dorso do nariz via ramos da artéria oftálmica.
Figura 17. Irrigação da face a partir das artérias carótida externa e interna
135
Figura 18. Vascularização da face: artérias e veias superficiais
26 25 24
27 23
28
22
1
21
2
3 20
5
19
6
7
8
18
17
10
16
15
14
13
11 12
9 Veia facial profunda (do plexo pterigoide) 22 Ramos da artéria e veia temporais superficiais
136
8.2. Irrigação pela artéria carótida externa
137
Figura 19. Vascularização periorbital. Observar os ramos da artéria carótida
interna e suas anastomoses com ramos da carótida externa
Artéria supraorbital
Artéria
supratroclear
Artéria
dorsal do
Ramo frontal da nariz
artéria temporal
superficial Artéria
angular
Artéria
zigomática
facial
Artéria facial
Artéria facial
transversa
Artéria
infraorbital
138
Tabela 9. Drenagem venosa superficial
Veias superficiais
Veia Trajeto
Tem seu início na região frontal onde possui anastomoses com a veia
Supraorbital temporal superficial. Segue em sentido inferior superficialmente ao
músculo frontal e une-se à veia supratroclear para formar a veia angular.
139
8.5. Drenagem linfática
A drenagem linfática é feita para três grupos: facial, cervical superficial
e cervical profundo. Na figura 20 encontra-se um esquema da drenagem
linfática da face.
Linfonodos cervicais
Porção occipital do couro
Occipital profundos (porção
cabeludo
superior)
Linfonodos cervicais
Superior Grupos facial e cervical superficial
profundos (porção inferior)
140
Figura 20. Drenagem linfática da face. Linfonodos dos 3 grupos: facial, cervical
superficial e cervical profundo
Linfonodos
parotídeos
Linfonodos
mastóideos
Linfonodos
faciais
Linfonodos
occipitais
Linfonodos
submentais
Linfonodos
Grupo cervical
submandibulares
profundo
141
Figura 21. Inervação sensitiva da face. Observar as três divisões do nervo trigê-
meo (quinto par craniano - V): nervo oftálmico, nervo maxilar e nervo mandi-
bular e seus ramos, bem como o plexo cervical e seus ramos
Da divisão oftálmica do
nervo trigêmeo (V1)
2
12
Ramos mediais
3 dos ramos
posteriores dos
nervos espinhais
4 cervicais
13
5
Da divisão 14
maxilar do nervo
trigêmeo (V2)
6
7 15
Ramos do plexo
8
cervical
16
Da divisão
mandibular do nervo
trigêmeo (V3) 17
9
10 18
11
19
142
Figura 22. Inervação sensitiva da pele da face dividida por áreas de acordo
com a abrangência de cada um dos três ramos do nervo trigêmeo (quinto par
craniano - V): nervo oftálmico, nervo maxilar e nervo mandibular
V1
Área de inervação
ramo oftálmico
V2
Área de inervação
ramo mandibular
V3
Área de inervação
ramo mandibular
143
10.1. Nervo frontal
O nervo frontal se divide em dois ramos terminais:
Nervo supraorbital: sai da órbita pelo forame localizado em uma linha ver-
tical que tangencia o limbo medial da córnea, alguns milímetros acima da
borda orbital (podendo chegar até 19mm), este ponto de emergência está
a cerca de 25-30mm da linha média. Inerva uma área maior do que o nervo
supratroclear e, portanto, sua lesão causa uma maior morbidade.
Divide-se, por sua vez, em outros dois ramos;
Ramo superficial (medial): inerva a pele da região anterolateral da fronte
até 2cm dentro do couro cabeludo passando superficialmente ao músculo
frontal;
Ramo profundo (lateral): é maior e mais propenso a lesão. Inerva o res-
tante do couro cabeludo até o vértice da cabeça. Cursa cefalicamente em
posição mais lateral e está localizado entre a gálea e o periósteo (profundo
ao músculo frontal);
Nervo supratroclear: é composto por vários ramos e emerge da órbita
medial acima da tróclea a cerca de 1cm da linha média. Inerva a pele e a
túnica conjuntiva da parte medial da pálpebra superior, raiz do nariz e a
pele sobre a parte inferior da fronte em sua região mais medial.
Nota:
Durante uma abordagem cirúrgica da região frontal, embora deva-se tentar evi-
tar a lesão de ambos, é importante ressaltar que a lesão do supraorbital é mais
grave e causa uma maior morbidade do que a do supratroclear (figuras 26 e 27).
144
10.3. Nervo lacrimal
O menor ramo do nervo oftálmico. Entra na órbita através da fissura or-
bital superior e segue pela órbita na margem superior do músculo reto late-
ral com a artéria lacrimal. Antes de chegar à glândula lacrimal, comunica-se
com o ramo zigomático da divisão maxilar do nervo trigêmeo para receber
fibras nervosas autônomas. Entra na glândula lacrimal para inervá-la e, além
disso, inerva as túnicas conjuntivas e, depois de penetrar no septo orbital, a
pele da pálpebra superior.
145
11.3. Infraorbital
É uma continuação direta do nervo maxilar. Atravessa a fissura orbital
inferior para entrar na órbita e, em seguida, estende-se anteriormente pelo
sulco e canal infraorbitais, para emergir na face pelo forame infraorbital.
O forame infraorbital está localizado cerca de 1cm abaixo da margem
inferior da órbita (Moore) e, segundo Kazkayazi, fica em média a 1,7cm
da borda nasal lateral da abertura piriforme e a cerca de 2,5cm da linha
média. Outro guia para um bloqueio desse nervo, por via oral, é que na
maioria dos casos ele fica em uma linha vertical com o primeiro dente
pré-molar.
No interior do canal infraorbital emite os seguintes ramos: nervo alveolar
superior anterior e o nervo alveolar superior médio.
Na face, após sair pelo forame infraorbital, divide-se em três ramos
terminais:
Nervo palpebral inferior: inerva a pele da pálpebra inferior;
Nervo nasal: inerva o dorso e a asa do nariz;
Nervo labial superior: inerva a pele do lábio superior
146
12.1. Nervo auriculotemporal
Cursa em sentido posterior, inferiormente ao músculo pterigóideo late-
ral, até a região medial ao colo da mandíbula. Curva-se em sentido superior
com os vasos temporais superficiais entre a orelha e a cabeça da mandíbula
na parte profunda da glândula parótida. Ao sair dessa glândula, passa sobre
o arco zigomático e divide-se nos ramos temporais superficiais.
Inerva a cápsula da articulação temporomandibular, pavilhão da orelha,
membrana timpânica, glândula parótida e couro cabeludo.
Nota:
Para a anestesia da região temporomandibular pode-se realizar o bloqueio do
nervo auriculotemporal no ponto localizado 10mm a 15mm anterior à origem
superior da hélice.
Nota:
Nas cirurgias com exposição da mandíbula deve-se tomar cuidado para não le-
sar o nervo mentual (figuras 26 e 27).
147
13. Plexo Cervical
Formado pelos ramos ventrais dos quatro nervos cervicais superiores (C1
a C4). Possui uma parte superficial constituída por fibras essencialmente
sensitivas, que vão inervar áreas da pele na cabeça, pescoço e tórax, e uma
parte profunda constituída por fibras motoras para músculos do pescoço e
diafragma.
Os nervos com maior interesse na inervação sensitiva da face são o ner-
vo auricular magno e o nervo cervical transverso, que por isso serão deta-
lhados a seguir (figura 21).
Nota:
Deve-se atentar para o nervo auricular magno durante a dissecção cirúrgica da
face e plicatura do SMAS-Platisma e retalhos locais de forma a não lesioná-lo.
148
estilomastóideo, no osso temporal e, logo após sua emersão, emite os ramos
auricular posterior e um ramo para o ventre posterior do músculo digástrico.
Ele penetra entre os lóbulos superficial e profundo da glândula parótida e, no
interior dela, o nervo facial se divide em dois troncos principais: o temporo-
facial e o cervicofacial. Esses dois troncos novamente se dividem nos cinco
ramos terminais. O tronco temporofacial se divide nos ramos temporal (tem-
porofrontal) e zigomático. O tronco cervicofacial se divide nos ramos bucal,
marginal da mandíbula e cervical. Esses ramos se tornam superficiais na bor-
da anterior da parótida, quando saem de dentro dessa glândula, porém estão
sempre localizados abaixo do SMAS (figuras 123 e 25).
Nota:
O nervo facial se divide em cinco ramos: temporal, zigomático, bucal, marginal
da mandíbula e cervical.
Nota:
A inervação motora dos músculos da face é feita pelo nervo facial e os músculos
recebem essa inervação por sua face profunda, excetuando-se apenas o bucina-
dor e o músculo mentual, que recebem pela face superficial.
Figura 23. Inervação motora da face pelo nervo facial (sétimo par craniano -
VII). Observar os cinco ramos deste nervo: temporal, zigomático, bucal, margi-
nal da mandíbula e cervical
Ramos temporais
Ramos zigomáticos
Divisão
zigomaticotemporal
Divisão cervicofacial
Glândula parótida
Ramos bucais
Ramos mandibulares
marginais
Ramo cervical
149
Figura 24. Trajeto do nervo facial (sétimo par craniano - VII) e sua divisão em
cinco ramos
Ramos temporais
Ramos zigomáticos
Ramos
bucais
l
ica
v
cer
mo
Ra
l da
ina
m arg ula
mo díb
Ra man
150
Figura 25. Observar o trajeto do nervo facial e de seus cinco ramos, bem como
a sua relação com a glândula parótida, ducto parotídeo, artéria e veia faciais e
músculos da face
Ramos temporais
Glândula parótida
Ramos zigomáticos
Nervo auricular
Ducto parotídeo posterior
Tronco principal
do nervo facial
emergindo
pelo forame
Ramos bucais estilomastóideo
Músculo pterigóideo
medial
Tronco principal
Ramo da mandíbula
do nervo facial
Músculo masseter
Processo mastoide
Glândula parótida
Tronco
Ramo temporal temporofacial
Ramos zigomáticos Nervo articular
posterior
Tronco principal do
nervo facial
Ramos bucais
Ramo para o
Ramo marginal da ventre posterior do
mandíbula músculo digástrico
e para o músculo
estilo-hióideo
Ramo da mandíbula
Tronco cervicofacial
151
14.1. Ramo temporal
O ramo temporal é composto por três a quatro segmentos que são res-
ponsáveis por inervar o músculo orbicular oculi, os músculos corrugadores,
o prócero e o músculo frontal. Seu trajeto é uma linha imaginária partindo
de 0,5cm abaixo do trágus indo até o ponto que dista 1,5cm acima e lateral
à borda lateral da sobrancelha (figuras 26 e 27).
Figura 26. Zonas de perigo na face. Observe juntamente com a Tabela 2.1 a
projeção na pele das zonas de perigo de cada nervo na face
7 3
1
152
Figura 27. Zonas de perigo na face. Detalhe das estruturas encontradas em
cada uma destas zonas de perigo
Temporofacial cervicofacial
2
Te
m
po
ra
l
6 Zigomático
Bucal
4
3
7
Cervical
153
Tabela 11. Zonas faciais de perigo (ver em conjunto com as figuras 26 e 27)
154
Nota:
O plano do tecido areolar frouxo com a sua pequena quantidade de gordura
pode estar muito reduzido em indivíduos emagrecidos ou em idosos, o que co-
loca em maior risco o ramo temporal durante uma dissecção a este nível.
Nota:
Na ritidoplastia a dissecção do terço médio da face é geralmente superficial ao
SMAS, protegendo o nervo facial que está em um plano mais profundo.
Nota:
A dissecção da região temporal deve ser feita no plano subcutâneo (acima do
ramo temporal) ou logo acima da fáscia temporal profunda (abaixo do plano do
ramo temporal).
Nota:
Devido às numerosas anastomoses entre os ramos zigomático e bucal, a lesão
de um deles tem um bom prognóstico de recuperação.
155
Nota:
Existe risco de lesão dos ramos zigomático e bucal durante a cirurgia de ressec-
ção do corpo adiposo da bochecha (bola gordurosa de Bichat).
Nota:
O nervo marginal da mandíbula corre abaixo da mandíbula até cruzar com os
vasos faciais, depois desse ponto localiza-se acima da borda da mandíbula.
Nota:
Deve-se ter cautela nas dissecções, lipoaspiração e cauterização de vasos na
borda mandibular para evitar a lesão do ramo marginal da mandíbula (figuras
26 e 27).
156
Nota:
O ramo cervical é o mais caudal dos ramos do nervo facial e ele inerva o músculo
platisma.
Nota:
A lesão do ramo cervical pode passar despercebida, porém pode causar fraque-
za no músculo abaixador do lábio inferior, sendo confundida com lesão do nervo
marginal da mandíbula devido a possíveis anastomoses.
Bibliografia consultada
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Tournieux AAB. Atualização em Cirurgia Plástica Estética. 1ª ed. São Paulo: Robe editorial; 1994.
157
CAPÍTULO 2
CIRURGIA
ORBITOPALPEBRAL
158
2.1. O ligamento orbitomalar
e sua importância nas
cirurgias palpebrais
SERGIO LESSA
JOÃO PONTELLO
DEILTON DUARTE
1. Introdução
O completo conhecimento anatômico dos ligamentos faciais e periorbi-
tários possibilitou uma revolução nos procedimentos cirúrgicos nessas áre-
as. O dicionário Oxford define um ligamento como “uma banda de tecido
fibroso ligando estruturas ósseas em posição”. Embora tradicionalmente
o termo ligamento descreva um tecido que conecta ossos, essa definição
foi alargada para incluir “ligamentos retentores cutâneos”. Essas fixações
fibrosas aderindo a pele à fáscia profunda ou periósteo têm sido descritas
em várias localizações, incluindo a face e mama.
Furnas introduziu o termo “ligamentos retentores” na face. Ele documen-
tou quatro ligamentos cutâneos na face, com as seguintes denominações:
zigomático, mandibular, platisma-auricular e platisma anterior.
Stuzin, Baker e Gordon elaboraram uma definição desses ligamentos,
dividindo-os em dois grupos: os verdadeiros ligamentos osteocutâneos e o
segundo grupo, que consiste numa coalescência entre a fáscia superficial
e a fáscia profunda da face. Knize recentemente sugeriu que um ligamento
retentor deveria apresentar uma inserção diretamente na derme.
Poucos artigos na literatura se dedicam ao estudo anatômico dos liga-
mentos periorbitários. Kikkawa, Lemke e Dortzbach foram os primeiros
autores que descreveram o ligamento orbitomalar e mostraram histologica-
mente uma estrutura lamelar em leque, que atravessa o músculo orbicular
e o SMAS, atingindo a derme reticular.
Muzaffar, Mendelson e Adams detalharam a anatomia do ligamento orbi-
tomalar, renomeando-o como ligamento retentor orbicular. Consideraram o
ligamento como uma estrutura que se origina no periósteo da margem or-
bitária óssea inferolateral, e se insere na face profunda do músculo orbicular.
Wong, Hsieh e Mendelson confirmaram a presença de uma estrutura
bem definida, a qual nomearam “ligamento tear trough” (TTL). Esse liga-
mento se origina no periósteo maxilar, imediatamente inferior à margem
159
orbitária inferior, localizado entre a porção palpebral e a porção orbitária
do músculo orbicular, como um “sandwich”. O ligamento retentor orbicu-
lar se prolonga lateralmente numa dimensão máxima de 20mm e termina
lateralmente numa área de espessamento fibroso lateral denominada “es-
pessamento orbitário lateral”, também conhecido como “ligamento central
lateral superficial”.
Ghavami, Pessa, Janis et al. confirmaram a natureza circunferencial do
ligamento retentor orbicular em torno da órbita.
160
Figura 2. O ligamento orbitomalar é um ligamento ósteocutâneo formado
por uma estrutura complexa que fixa o músculo orbicular na margem orbi-
tária. A fixação inferolateral é mais rígida e menos elástica. Dissecção em
cadáver fresco
161
Figura 4. Dissecção em cadáver fresco. A principal relação anatômica do liga-
mento orbitomalar é o nervo zigomático facial
162
A flacidez do ligamento orbitomalar cria a denominada deformidade de
um “V”.
A secção do ligamento orbitomalar medialmente é parte do tratamen-
to da depressão nasojugal, e a secção da porção mais densa e espessa
inferolateral, firmemente fixada no periósteo lateral da órbita, possibilita
a liberação e elevação dos tecidos palpebrais e tecidos moles do terço
médio da face, como uma única unidade (figuras 6A e 6B).
A B
3.1. Anestesia
A sedação por via venosa (Midazolan 2mg e Fentanil 50mcg) com moni-
toramento cuidadoso é bastante segura quando na presença de um aneste-
sista qualificado. Bloqueios regionais na região periorbitária são de grande
ajuda e empregados frequentemente em cirurgias faciais e palpebrais.
A técnica de bloqueio peribulbar também é empregada em larga es-
cala nas blefaroplastias inferiores e também em cirurgias do terço médio
da face. Palpa-se a margem orbitária inferior e é identificado o ponto A,
163
situado na junção dos dois terços mediais com o terço lateral da margem
orbitária inferior (figura 7).
164
Com a paciente na posição primária do olhar, uma cânula fixa e romba
de 35mm é introduzida por meio da pálpebra inferior, no ponto A (figura 9).
165
A cânula deve estar anterior ao gânglio estrelado, que se encontra den-
tro do cone muscular e lateral ao nervo ótico, medial ao músculo reto late-
ral e de 11mm a 23mm do forame ótico, dependendo da profundidade da
órbita. Uma aspiração suave deve ser feita para evitar injeção intravenosa
inadvertida. Compressão suave é aplicada ao bulbo e a solução anestésica
é injetada vagarosamente (figura 11).
Figura 11. A solução anestésica é injetada numa área de segurança para a anes-
tesia peribulbar
166
e a edemas devido ao sangramento. A radiofrequência e os eletrocautérios
monopolares podem ser usados com ponta fina (Colorado, Kalama, MI),
para precisa incisão e coagulação. O laser de CO2 pode ser empregado e
os cirurgiões devem compreender bem os princípios típicos, tais como a
energia em Joules e Watts em potência.
A fluência necessária para um laser de CO2 vaporizar tecidos é de ape-
nas 5 a 7J/cm2. Para uma incisão de pele ou de conjuntiva, a fluência de um
feixe de 0,2mm de diâmetro, com potência de 6W a uma distância de 1cm,
gera 300J/cm2 de energia. Um laser CO2 denominado Ultrapulse 5000C
(Coherent, Inc, Palo Alto, CA) tem uma ferramenta para dissecção na ponta
da sonda denominada “laser finger”. Quando a ponta estiver próxima ao
tecido e o feixe focado, cortes bastante precisos podem ser feitos. Para
a coagulação, afasta-se o instrumento, completando a hemostasia. Assim,
quando tocado, o laser corta e, quando desfocado, coagula.
Gotas de anestésico tópico (Tetracaína) podem ser usados para aneste-
siar a conjuntiva e córnea, para adaptação e tolerância da lente protetora.
Quando usamos o laser de CO2, empregamos lente metálica de aço, quan-
do usamos radiofrequência, empregamos lente protetora de plástico.
Um afastador Desmarres traciona a pálpebra inferior, expondo a área
conjuntival retrosseptal, isto é, incisão conjuntival baixa, distando 6,0mm
a 6,5mm do bordo inferior do tarso. A incisão compromete a conjuntiva e
os retratores palpebrais inferiores em toda a extensão palpebral (figura 12).
167
Após, é realizada a cantotomia (figura 13).
168
Com a ajuda de uma pequena pinça hemostática, justamente no ponto
de união das duas incisões, é dissecada a porção mais rígida do ligamento
orbitomalar na posição inferolateral da órbita (figura 15).
169
Figura 16. Secção do ligamento orbitomalar e de parte do espessamento orbi-
tário lateral
170
Como os tecidos palpebrais estão completamente liberados, pode-se
elevar a pálpebra e completar o procedimento cirúrgico com uma fixação
cantal, isto é, uma cantoplastia que pode ser do tipo retalho tarsal ou sus-
pensão tarsal sem retalho. A decisão do tipo de cantoplastia vai depender
diretamente da medida do comprimento horizontal da pálpebra inferior. As
fixações da extremidade no periósteo lateral são realizadas com fios de po-
lipropileno (Prolene) 5-0, como também o fechamento do ângulo externo
da fenda palpebral. A pequena ferida situada lateralmente ao ângulo exter-
no é suturada empregando pontos separados de seda 6-0.
4. Resultados
A secção do ligamento orbitomalar, seguida da cantoplastia, têm sido
usadas para tratamento das retrações palpebrais e dos ectrópios, onde a
perda da lamela anterior não seja severa. A secção do ligamento orbito-
malar propicia uma completa liberação dos tecidos palpebrais e do terço
médio da face.
A cirurgia é rápida, extremamente anatômica e o sangramento é mínimo.
A estabilidade da cantoplastia é evidente, pois os tecidos palpebrais não
mais estão sob tensão (figuras 18 A e B, 19 A e B, 20 A e B, 21 A e B).
Figura 18. (A) Paciente com 65 anos apresentando retração palpebral pós-b-
lefaroplastia. (B) Pós-operatório de seis meses, após a correção baseada na
secção do LOM e suspensão tarsal
171
Figura 19. (A) Paciente com 69 anos apresentando retração palpebral bilateral
pós-blefaroplastia. (B) Pós-operatório de seis meses, apresentando completa re-
cuperação. Secção do LOM e suspensão tarsal
172
Figura 20. (A) Paciente com 70 anos apresentando grave ectrópio palpebral
inferior bilateral pós-blefaroplastia. (B) Pós-operatório de oito meses. A secção
do LOM associada ao retalho tarsal corrigiram a deformidade, sem necessidade
de autoenxertia cutânea
Figura 21. (A) Paciente com 81 anos apresentando grave ectrópio inferior direi-
to e retração palpebral na pálpebra inferior direita pós-blefaroplastia. (B) Pós-
operatório de seis meses. Correção bilateral empregando a secção do LOM e
retalho tarsal bilateral
173
5. Conclusões
• O ligamento orbitomalar ou ligamento retentor orbicular é uma estrutura
laminar que fixa o músculo orbicular na margem orbitária óssea.
• A fixação do ligamento orbitomalar é mais densa e forte na área inferola-
teral do que na área central da pálpebra inferior.
• O espessamento orbitário lateral apresenta uma continuidade com o com-
ponente lateral do ligamento orbitomalar lateralmente.
• O espessamento orbitário lateral consiste em uma fusão fibrosa entre a
fáscia profunda do músculo orbicular na sua porção orbitária lateral e a es-
trutura facial profunda (periósteo e fáscia temporal profunda).
• A secção do ligamento orbitomalar por via conjuntival libera completa-
mente os tecidos palpebrais inferiores e partes moles do terço médio da
face, facilitando sua mobilização e fixação lateral por meio da cantoplastia.
• A cirurgia é relativamente rápida, extremamente anatômica e indicada
para o tratamento das frequentes complicações das blefaroplastias, como
retrações palpebrais e ectrópios laterais, nos quais não há grande compro-
metimento da lamela anterior.
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175
2.2. Anatomia
orbitopalpebral
SÉRGIO LESSA
1. Anatomia periorbital
Algumas relações anatômicas são importantes quando a região orbitária
é avaliada. A posição das sobrancelhas difere entre os sexos. No homem,
geralmente assume uma posição mais retificada sobre o rebordo orbitário
superior. Na mulher, as sobrancelhas idealmente descritas são mais encur-
vadas, acima do rebordo ósseo, tendo o ápice sobre o limbo lateral, descen-
do lateralmente ao nível do rebordo orbitário lateral.
O sulco palpebral superior é formado pela inserção das fibras aponeuró-
ticas do músculo levantador na pele. O sulco palpebral é situado em uma
posição que dista 8mm a 9mm do bordo ciliar no homem e 9mm a 12mm
na mulher (figura 1).
176
Figura 1. Medida da posição do sulco palpebral superior. A pálpebra é ligeira-
mente tracionada e o paciente olha para baixo. O sulco fica evidenciado
177
Figuras 2. (A e B) Sulco palpebral superior baixo. As fibras do levantador se
fixam na pele em posição baixa, isto é, abaixo da borda superior do tarso. (C e
D) Sulco palpebral superior alto. As fibras do levantador se fixam na pele em
posição alta, isto é, acima da borda superior do tarso. Geralmente estes sulcos
estão situados 12mm a 14mm do bordo ciliar
A B
C D
178
A fenda palpebral mede de 28mm a 30mm na medida horizontal e 8mm
a 11mm na medida vertical. O ângulo cantal lateral é observado 2mm acima
do ângulo cantal medial (figura 3).
Há casos em que o ângulo cantal lateral está em uma posição mais baixa
que o medial, formando a fenda palpebral antimongólica, que muitas vezes
deve ser corrigida na blefaroplastia primária (figuras 4A a 4F).
179
Figuras 4. (A e B) Fendas palpebrais mongólica e antimongólica. (C e D)
Pacientes apresentando fendas palpebrais mongólicas e antimongólicas. (E e
F) Fenda antimongólica corrigida na blefaroplastia
A B
C D
E F
180
A pálpebra superior cobre geralmente 2mm do limbo superior e a mar-
gem palpebral inferior toca o limbo inferior. A excursão palpebral superior é
de aproximadamente 15mm e a inferior de 4mm.
Existem graus diferentes relacionados com a proeminência do globo
ocular. Denomina-se vetor negativo quando a parte mais anterior daquele
se posiciona na frente da eminência malar. O vetor positivo é denominado
quando a eminência malar é mais projetada (figura 5).
Vetor negativo: quando a porção anterior do olho se situa adiante da eminência malar.
Vetor positivo: quando a porção anterior do olho se situa atrás da eminência malar.
2. Anatomia palpebral
2.1. Pele
A pele palpebral é a mais fina do corpo humano. O tecido adiposo subcutâ-
neo é escasso. As modificações estruturais causadas pelo envelhecimento e
pela exposição solar na área periorbital envolvem a diminuição da síntese do
colágeno tipo 1 e o aumento da atividade colagenase. Com o tempo, essas
alterações metabólicas conduzem ao afinamento da pele, formação de
dobras e rugas finas.
Entre os procedimentos modernos que complementam as blefaroplastias
encontram-se os tratamentos cutâneos com ácidos especiais ou com auxílio
de laser. A espessura palpebral é inferior a 1mm e o controle dos tratamentos
especiais determina o êxito dos procedimentos (figuras 6A a 6H e 7A a 7D).
181
Figuras 6. (A e B) Blefaroplastia empregando laser de CO2. Passagem inicial do
laser com vaporização dos tecidos cutâneos. (C e D) Remoção dos fragmentos
vaporizados e sutura final. (E-H) Evolução cicatricial
A B
C D
E F
G H
3ª semana 4ª semana
182
Figura 7. (A) Fotomicrografia de pele fina palpebral (PAS x 200). (B)
Fotomicrografia de pele fina palpebral (PAS x 200). Vaporização tecidual, pre-
servando os anexos dérmicos, importantes no nosso processo de cicatrização.
(C) Fotomicrografia – pele fina palpebral. Epitélio fino, aplainado com dege-
neração das fibras colágenas (HE x 20). (D) Fotomicrografia de pele fina pal-
pebral após um ano. Pele renovada e repolarização celular. Epidermia e derme
com larga banda de colágeno neoformado (HE x 20)
A B
C D
183
Figura 8. Músculo orbicular palpebral. Divide-se em três porções: pré-tarsal,
pré-septal e orbitária
PS
PT
O: orbitária
PT PS: pré-septal
PT: pré-tarsal
PS
Adaptado de: Zide BM. Surgical anatomy around the orbit: the system of zones. Philadelphia:
Lippincott Williams & Wilkins; 2006
184
Estudos neuroanatômicos conduzidos por Ramirez e Santamarina,
Hwang et al. e Lowe et al. estabeleceram um novo conceito de orientação
espacial da inervação motora do músculo orbicular palpebral inferior.
As lesões nas fibras musculares no nível pré-tarsal e pré-septal deixam
sequelas graves na massa muscular, podendo afetar a drenagem lacrimal e
produzir alterações na posição palpebral inferior, como retrações palpebrais
e ectrópios. Quando ocorre falha da bomba lacrimal, observa-se epífora
ou “olho molhado”, que constitui uma anomalia denominada de bloqueio
funcional.
185
Figura 10. Dissecção do septo orbitário palpebral inferior
Adaptado de: Zide BM. Surgical anatomy around the orbit: the system of zones. Philadelphia:
Lippincott Williams & Wilkins; 2006
186
Figura 11. Dissecção em cadáver fresco evidenciando o músculo levantador
(ML), o ligamento de Whitnall (LW), o músculo levantador na sua porção ten-
dinosa mais clara (ML) e a glândula lacrimal (GL), externamente observada
187
Figura 13. (A) Paciente apresentando ptose palpebral adquirida com desinser-
ção completa da aponeurose do músculo levantador. (B) Pós-operatório de
um ano. Simetria da pálpebra superior, boa posição das pálpebras superiores
e inferiores
188
2.5. Músculo de Müller
O delicado músculo tarsal de Müller se situa na face profunda do estria-
do levantador, cerca de 15mm acima do bordo superior do tarso. É firme-
mente ligado ao levantador (figura 14).
Adaptado de: Zide BM. Surgical anatomy around the orbit: the system of zones. Philadelphia:
Lippincott Williams & Wilkins; 2006.
189
Figura 15. (A) Paciente jovem apresentando síndrome de Horner com ptose de
2mm à direita. (B) Pós-operatório de seis meses. (C) Pré-operatório – infraver-
são de seis meses. (D) Pós-operatório – infraversão observando simetria palpe-
bral superior. (E) Pré-operatório – infraversão. (F) Pós-operatório de seis meses
observando melhora da excursão palpebral e simetria das pálpebras superiores
A B
C D
E F
190
Figura 16. Paciente apresentando retrações palpebrais superiores e inferiores
devido à oftalmopatia tireoidiana
191
O segmento fibroso do levantador se inicia ao nível do ligamento de
Whitnall e a sua extensão é de 14mm a 20mm, do ligamento a sua fixação
na porção anterior do tarso.
192
Nas blefaroplastias transconjuntivais, é importante a manutenção de
parte dos retratores, formando uma “ponte” responsável pela manutenção
de posição da pálpebra inferior; evitando, por exemplo, um entrópio palpe-
bral (figura 19).
193
Figuras 20. (A-C) O septo intermuscular mais anterior entre os músculos reto
inferior e oblíquo inferior forma o ligamento suspensório de Lockwood (setas)
194
Essa porção anterior do septo intermuscular é espessa, promovendo
uma barreira anatômica na frente da órbita, servindo como suporte do glo-
bo ocular. O ligamento de Lockwood também é um dos componentes do
retináculo lateral.
UCFP UMFP
Glândula lacrimal
O P
LLFP
E.
LCFP LMFP
Figura 22. Bolsa medial palpebral superior. A incisão septal deve ser realizada
o mais próximo possível da borda superior da ferida cutânea para evitar lesão
no tendão do músculo levantador
195
Bourguet e, mais tarde, Castañaes identificaram três distintos com-
partimentos na pálpebra inferior. Existem controvérsias em relação aos
compartimentos gordurosos; porém, as descrições clássicas mostram o
músculo oblíquo inferior separando a bolsa gordurosa nasal da central.
Os compartimentos gordurosos central e lateral também são separados
por um componente fibroso, uma expansão do oblíquo inferior (figuras
23A e 23B).
Figura 23. (A) Paciente em supraversão mostrando grande hipertrofia das bol-
sas adiposas palpebrais inferiores. (B) Dissecção em cadáver fresco mostrando
as bolsas palpebrais em compartimentos individualizados na pálpebra inferior
196
A dissecção durante a blefaroplastia inferior deve respeitar o músculo
oblíquo inferior (figura 24).
197
Figura 25. Dissecção anatômica mostrando o ligamento cantal lateral; estrutura
externamente fina
Adaptado de: Zide BM. Surgical anatomy around the orbit: the system of zones. Philadelphia:
Lippincott Williams & Wilkins; 2006
A B
198
Jelks et al. definem o canto lateral como o aspecto lateral das pál-
pebras – o termo mais apropriado é “retináculo lateral”. Esse complexo
anatômico fixa os tecidos moles laterais na órbita. O retináculo consiste
na fusão de inúmeras estruturas, como o prolongamento lateral do le-
vantador da pálpebra superior, prolongamento lateral do ligamento de
Whitnall e de Lockwood, extensões laterais do orbicular pré-septal e pré-
-tarsal (figura 27).
Adaptado de: Zide BM. Surgical anatomy around the orbit: the system of zones. Philadelphia:
Lippincott Williams & Wilkins; 2006
199
O ligamento cantal medial é observado mais proeminentemente por
meio da pele em indivíduos idosos (figura 28).
Figura 28. O ligamento cantal medial é uma estrutura mais rígida e complexa
200
Figuras 29. (A e B) Dissecção das estruturas palpebrais mostrando a placa
tarsal superior
201
2.13. Vascularização palpebral
As pálpebras recebem suprimento sanguíneo proveniente das artérias
carótidas interna e externa. Os ramos da carótida interna: oftálmica com
ramos supraorbitário, supratroclear e dorsal nasal, ramos da artéria lacrimal.
Os vasos marginais superiores e inferiores, situados a 4mm e 2mm das
margens palpebrais superiores e inferiores, compõem as arcadas marginais.
Os ramos da carótida externa facial, temporal superficial e infraorbitária for-
mam extensas anastomoses com os ramos da carótida interna (figura 30).
14
13
2 12
11
10
4
9
5 8
7
6
202
Os linfáticos da pálpebra superior e metade lateral da pálpebra inferior
drenam para os linfonodos pré-auriculares, e os linfáticos da porção medial
da pálpebra inferior drenam para os linfonodos submandibulares.
Recentes estudos cintilográficos mostram a predileção da drenagem lin-
fática palpebral para os linfonodos pré-auriculares (figura 31).
203
Figura 32. Inervação sensitiva das pálpebras
204
Figura 33. (A) Antigo conceito da inervação motora palpebral inferior. (B)
Moderno conceito espacial da inervação motora palpebral inferior
Adaptado de: Zide BM. Surgical anatomy around the orbit: the system of zones. Philadelphia:
Lippincott Williams & Wilkins; 2006
205
Figuras 34. (A e B) Dissecção em cadáver fresco, mostrando inúmeros ramos
terminais zigomáticos penetrando perpendicularmente em relação às fibras
do orbicular pré-tarsal
B
PT
PS
A B
206
Alguns autores dão importância aos ramos bucais que inervam o terço
medial da pálpebra inferior. O músculo de Müller apresenta inervação sim-
pática. A interrupção da cadeia simpática cervical resulta na síndrome de
Horner, caracterizada pela ptose palpebral de 2mm e uma pequena eleva-
ção palpebral inferior (figuras 15A a 15F).
207
O perfeito mecanismo da “bomba lacrimal”, fornecido pela higidez da
musculatura orbicular, é fundamental na drenagem lacrimal. A falha da
bomba lacrimal tem como consequência a epífora constante, ou “olho mo-
lhado” (figura 37).
208
O ROOF apresenta-se situado acima do rebordo orbitário e somente
alguns milímetros abaixo do rebordo. O comprimento do ROOF é de apro-
ximadamente 35mm e sua altura é de aproximadamente 11mm.
O ROOF contém mais tecido fibroadiposo do que tecido puramente adi-
poso, característica de adiposidade orbitária.
Em casos selecionados, a ressecção cirúrgica do ROOF permite a re-
modelação da projeção aumentada na região orbitária lateral superior
(figura 39).
2.17. SOOF
O SOOF (suborbicularis oculi fat) consiste em uma camada de tecido
fibroadiposo que se situa sobre o periósteo da maxila, imediatamente
abaixo do rebordo orbitário inferior, e se estende nos tecidos do terço
médio da face. Aiache e Ramirez foram os primeiros autores que des-
creveram as características anatômicas do SOOF. Esse complexo fibro-
adiposo facilita a mobilização do músculo orbicular da pálpebra inferior
sobre o periósteo. Eles realizaram estudos que confirmam a forma e as
dimensões do SOOF parecidas com o trabalho de Wang et al., com pe-
quenas variações. O SOOF tem a forma de um taco de hockey, cujo
componente vertical mede 26mm e seu componente horizontal 47mm,
em média (figuras 40A e 40B).
209
Figura 40. (A) Dimensões do SOOF – componente vertical e componente ho-
rizontal. (B) Dissecção em cadáver mostrando as dimensões do SOOF
Músculo orbicular
dos olhos
Músculo
levantador dos
26mm lábios alaeque nasi
Músculo levantador
SOOF
do lábio superior
47mm
Músculo zigomático
maior
210
Na metade cranial do componente horizontal é observada histologica-
mente a presença de tecido adiposo e tecido conjuntivo, formando verda-
deiros septos fibrosos. Na metade caudal do componente horizontal são
encontrados tecido adiposo, tecido conjuntivo abundante, fibras muscula-
res do levantador do canto da boca, do lábio superior, zigomático menor e
zigomático maior (figuras 41A e 41B).
211
Figura 42. (A) A liberação do ligamento retentor orbicular e do espessamento
orbitário lateral permite a mobilização do SOOF no tratamento da esqueleti-
zação orbitária. (B) Dissecção em cadáver fresco, mostrando a tração cranial
do SOOF
Músculo orbicular
dos olhos
Músculo levantador
do lábio e do nariz
Músculo levantador
do lábio superior
212
A mobilização do SOOF constitui um novo conceito em cirurgia periorbi-
tária e do terço da face, que se baseia na restauração do volume de tecido
adiposo perdido ou ptosado, que ocorre com a evolução do processo de
envelhecimento (figuras 43A e 43B).
213
Figura 44. O ligamento retentor orbicular ou ligamento orbitomalar se-
para o compartimento adiposo retrosseptal do compartimento adiposo
pré-zigomático
Septum
Orbitomalar ligament
SOOF
Prezygomatic space
Subzygomatic space
214
Figura 45. (A) Dissecção em cadáver fresco mostrando o ligamento retentor
orbicular. O segmento mais rígido e espessado é o inferolateral, indicado na
ponta da tesoura. (B) Existe uma íntima relação anatômica entre o segmento
espesso do ligamento retentor orbicular e o nervo zigomático facial. Dissecção
em cadáver fresco
215
Figuras 46. (A e B) A secção do segmento espessado do ligamento retentor
orbicular mobiliza cranialmente os tecidos pré-zigomáticos
216
Figura 47. (A) Dissecção do ligamento retentor orbicular por via conjuntival. (B)
Secção do ligamento retentor orbicular. (C) Liberação dos tecidos palpebrais
217
Figura 48. (A) Ectrópio palpebral pós-blefaroplastia. (B) Pós-operatório de
seis meses após acesso conjuntival, secção do ligamento retentor orbicular e
cantoplastia, corrigindo a posição palpebral
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220
2.3. Elevação direta
centro-lateral da sobrancelha
Uma variante da técnica clássica de Castañares
SERGIO LESSA
Introdução
A sobrancelha representa importante unidade estética na anatomia do
terço médio da face. Durante o processo de envelhecimento ocorre uma
série de alterações na área da sobrancelha, resultando em queda, principal-
mente na área da cauda (figura 1).
221
de debate entre cirurgiões cosméticos. Um conceito simples da posição
ideal da sobrancelha foi descrito por Westmore em 1974. Ele estabeleceu
dimensões ideais e enfatizou a posição mais alta da curva na direção do
limbo lateral. Os princípios anatômicos foram incorporados por Ellenbogen,
que também enfatizou a posição das sobrancelhas no sexo feminino acima
da margem orbitária superior. No sexo masculino, a posição é igualmente
situada ao longo da margem orbitária superior. McKinney et al. mostraram
que a mínima distância do centro pupilar até o topo da sobrancelha deve
medir 2,5cm. Caso a distância seja menor, está constatada a ptose da so-
brancelha. Uma observação clínica comum é caracterizada por excesso de
pele na pálpebra superior, atribuído parcialmente ou totalmente à ptose
da sobrancelha. Consequentemente, a correção da dermatocalaze deve ser
precedida da correção da posição da sobrancelha. Caso contrário, a ressec-
ção da pele palpebral superior pode abaixar a sobrancelha, produzindo um
inaceitável resultado estético.
Inúmeras opções cirúrgicas foram descritas para correção da ptose da
sobrancelha, incluindo: correção transpalpebral ou transblefaroplastia su-
perior, elevação direta da sobrancelha, acesso médio frontal onde é res-
secada uma faixa da área frontal, correção por meio da incisão coronal,
pré-pilosa ou pós-pilosa, além de técnicas endoscópicas para elevação da
sobrancelha.
A elevação direta da sobrancelha permite ao cirurgião um adequado
controle da quantidade de tecido ressecado e o grau de elevação obtido,
bem como efetuar um bom contorno da sobrancelha.
A elevação direta da sobrancelha descrita neste estudo é tipicamente
reservada aos pacientes com alterações discretas da posição da sobran-
celha, como queda da cauda, o que é observada em grande parte dos
casos. Também é indicada na correção de pequenas assimetrias da cauda
nos pacientes do sexo masculino que têm calvície e em casos da hemipa-
resia facial.
222
Figura 2. Marcação de posição de chanfradura supraorbitária e dos vasos e
nervos supraorbitários. Desenho da elipse cutânea
223
Uma pequena dissecção superior de 6mm a 8mm é realizada, expondo o
músculo frontal, justamente na área do pico da sobrancelha, isto é, nos dois
terços laterais da área. A hemostasia é realizada com um cautério de ponta
fina para evitar lesão dos bulbos pilosos (figuras 4A e 4B).
224
A seguir, um ou dois pontos de sutura são realizados, fixando a derme
profunda e o tecido subcutâneo da borda inferior da ferida no músculo
frontal (figura 5).
225
Figura 6. (A) Sutura criteriosa em dois planos, evertendo os bordos da ferida.
(B) Esquema da sutura para equilibrar as margens da ferida
3. Resultados
Nos casos revisados, a cicatriz final geralmente não é causa de queixa
dos pacientes. O fechamento cuidadoso da ferida por planos raramente
deixa cicatriz deprimida. A dissecção da elipse mais superficial e distando
3mm a 4mm da posição de chanfradura supraorbitária evita danos na iner-
vação e consequentes queixas de alteração de sensibilidade.
226
Outro ponto importante é a quantidade de tecido ressecado na área
onde é desejada a maior elevação da sobrancelha. Ao contrário do princípio
básico da técnica consagrada da Castañares, somente 6mm a 8mm de pele
são ressecados, pois a elevação da cauda de sobrancelha se baseia na fixa-
ção da derme da borda inferior da ferida no músculo frontal. Essa fixação
pode ser realizada empregando um ou dois pontos separados, sempre na
área de pico do arco da sobrancelha. Os resultados são extremamente favo-
ráveis e o aspecto final da elevação da cauda da sobrancelha é bem natural
(figuras 7A a 7D, 8A a 8D e 9A a 9D).
A B
C D
227
Figura 8. (A) Paciente de 54 anos apresentando típica queda da cauda. (B)
Pós-operatório de seis meses. (C e D) Pré-operatório
228
Figura 9. (A) Paciente de 47 anos apresentando queda da cauda da sobrance-
lha. (B) Pós-operatório de um ano. (C e D) Pré-operatório
229
4. Conclusões
Todas as técnicas de elevação da sobrancelha têm potenciais desvan-
tagens, nenhuma sem riscos de complicações. Todas as técnicas podem
falhar na busca de uma posição ideal das sobrancelhas. O emprego em
larga escala da técnica de elevação direta centro-lateral da sobrancelha
tem se mostrado eficaz e com altos níveis de satisfação dos pacientes. É
uma técnica simples e rápida de execução, não requer equipamento espe-
cializado nem extenso treinamento.
Alguns aspectos são importantes: a precisa indicação da elevação da
cauda da sobrancelha, a perfeita posição da marcação da elipse (pratica-
mente dentro da área pilosa da sobrancelha), a incisão angulada poupando
os bulbos pilosos, a cuidadosa dissecção, evitando proximidade do feixe
vásculo-nervoso supraorbitário e o meticuloso fechamento da ferida por
planos, evertendo os bordos cutâneos para evitar cicatrizes deprimidas.
Os candidatos ideais para esse procedimento são pacientes de meia-
-idade, com sobrancelhas relativamente grossas e com pelos espessos, de
alta densidade e com bom comprimento horizontal.
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231
2.4. Ptose palpebral
SERGIO LESSA
232
Figura 1.
MRD1
MRD2
Figura 2.
A B
233
Figura 3.
234
Figura 4.
235
2. Ptose congênita
A base patológica da ptose congênita consiste na deficiência das fibras
musculares estriadas e a severidade da ptose é proporcional ao grau de
deficiência dessas fibras. A diminuição do tamanho e do número das fi-
bras musculares causa deficiência de contração, suficiente para não elevar
a pálpebra superior normalmente. Cerca de 75% das ptoses congênitas
são unilaterais.
A idade mínima para o tratamento cirúrgico é geralmente de quatro anos
de idade, pois nessa fase o exame adequado da excursão palpebral e outras
medidas podem ser realizados, indicando o melhor procedimento cirúrgi-
co. A exceção ocorre quando o eixo pupilar está coberto pela pálpebra.
Nesses casos, a cirurgia imediata é indicada para evitar o desenvolvimento
de ambliopia.
Os pacientes e seus pais não devem considerar que o tratamento ci-
rúrgico leve a uma perfeita cura da ptose. Expectativas exageradas são
geralmente observadas e devem ser amplamente relatadas, principalmente
aos pais, pois a perfeita simetria palpebral não é uma garantia. Cirurgias
secundárias são ocasionalmente necessárias. Geralmente os resultados fun-
cionais são proporcionais à função do músculo levantador. Os melhores
resultados podem ser obtidos nos pacientes com ptoses discretas (2mm) e
com bom ou excelente excursão palpebral (10-13mm) e, consequentemen-
te, boa função.
236
3.2. Definição da função do levantador
Boa – quando a excursão da pálpebra é maior que 10mm;
Moderada – quando a excursão da pálpebra se situa entre 5mm e 7mm;
Ruim – quando a excursão da pálpebra é inferior a 4mm.
Figura 5.
237
Pontos de tração são colocados no músculo e a porção superior muscu-
lar é tracionada com pequenos ganchos para ajudar na separação dos pla-
nos cirúrgicos. Essa dissecção é praticamente realizada sem sangramento,
expondo inteiramente a aponeurose (figura 6).
Figura 6.
Figura 7.
238
As ressecções ou encurtamentos são realizados seguindo parâmetros
pré-determinados e a margem superior atinge o limbo superior. Ao fim do
procedimento, a irrigação copiosa é realizada e a lubrificação deve ser in-
tensa (figuras 8A, 8B, 9A, 9B e 9C).
Figura 8.
239
Figura 9.
240
Uma sutura de Frost pode ser realizada (figuras 10A e 10B).
Figura 10.
A B
241
Geralmente o emprego da fáscia lata autógena proporciona resultados
mais previsíveis e duradouros.
A correção cirúrgica da ptose unilateral severa é extremamente debatida
e existem muitas controvérsias. Pode ser realizada por elevação unilateral
frontal com fáscia lata ou elevação frontal bilateral com fáscia lata, com ou
sem excisão muscular do levantador no lado normal. A fáscia lata é consi-
derada o elemento de escolha para o tratamento da ptose severa.
Em 1965, Beard defendeu a ressecção do músculo levantador normal e a
suspensão frontal bilateral com fáscia lata de forma a criar um lagoftalmo
simétrico na infraversão. Em 1981, Callahan sugeriu suspensão frontal bila-
teral com o uso de fáscia lata, preservando o músculo levantador normal.
O piscamento lento e incompleto no lado previamente ptosado é quase
sempre presente em quase todas as técnicas empregadas.
O piscamento normal e espontâneo é substituído pela contração volun-
tária do músculo orbicular. Com o passar do tempo, esse piscamento anor-
mal se torna mais espontâneo.
A suspensão frontal unilateral com emprego de fáscia lata também ofe-
rece bons resultados. O lagoftalmo unilateral pode se tornar menos nítido
com o tempo.
Um resultado insignificante é possível de ser observado após qualquer
um dos procedimentos. É reconhecida a dificuldade de elevação da pálpe-
bra ptosada, na mesma posição do lado normal, em cirurgias que empre-
gam elevação frontal unilateral ou bilateral.
Em todos os métodos empregados, a posição é corrigida no “olhar nor-
mal” e na maioria dos casos em repouso. As anomalias de posição palpebral
somente são observadas durante o piscamento e na infraversão, onde o
lagoftalmo pode ser mais ou menos aparente.
Existem inúmeros procedimentos usando a fáscia lata como elemento
para tracionar a pálpebra ptosada. Sebastiá et al. empregam uma técnica
de suspensão frontal bilateral em que são empregadas duas finas faixas de
fáscia lata, em forma de “V”, fixadas em dois pontos tarsais e em três pontos
no músculo frontal, promovendo uma boa elevação e contorno palpebral.
242
a orientação dos pelos. A partir dessa etapa, a musculatura frontal é
exposta nessas três incisões. Com o auxílio de uma agulha fina e romba,
duas faixas são passadas em um plano submuscular orbicular e tracio-
nadas por meio da abertura central, onde as duas tiras de fáscia lata são
fixadas no músculo frontal. A posição ideal da margem palpebral supe-
rior é a que se aproxima do limbo superior.
Mesmo procedimento é realizado lateralmente e medialmente, dando
possibilidade de realizar um contorno palpebral adequado. As sobras de
fáscia lata são ressecadas e o fechamento das pequenas incisões é realiza-
do, assim como da ferida palpebral.
8. Ptose aponeurótica
É considerada a mais frequente forma de ptose adquirida. Essa condição
pode ocorrer como resultado de desinserção ou deiscência da aponeurose
da placa tarsal. As observações clínicas desse tipo de ptose incluem a boa
função do músculo levantador, o sulco palpebral superior alto ou ausente e
uma pálpebra superior extremamente fina, que em alguns casos possibilita
a observação do olho por transparência. Ocasionalmente as fibras do mús-
culo levantador podem ser substituídas por tecido adiposo, constituindo a
infiltração gordurosa do levantador.
Esse tipo de ptose é tipicamente encontrado em pacientes com idade
avançada. É importante a avaliação do campo visual. Os planos assisten-
ciais de saúde orientam a realização do exame para indicar a necessidade
da cirurgia.
243
9. Ptose miogênica
Ptose miogênica é frequentemente relacionada com etiologia neurogê-
nica. Na maioria dos casos a aponeurose do levantador está envolvida.
244
Distrofia óculo-faríngea é uma forma miopática de oftalmoplegia externa
crônica progressiva que afeta os indivíduos após os 40 anos, sendo observada
uma lenta e progressiva ptose palpebral com disfagia e disartria. A herança é
autossômica dominante e associada à descendência franco-canadense.
Devido à ausência do reflexo de Bell, o tratamento cirúrgico é discutível.
O emprego de óculos especiais (crutch glasses) com uma haste que se
encaixa no sulco palpebral e eleva a pálpebra pode minimizar o problema
e permitir a visão. O emprego desse tipo de óculos deve obedecer a regras
como o uso intermitente, para evitar ressecamento ocular. Outro procedi-
mento para tratamento é a suspensão frontal, com elevação mínima, acima
do nível pupilar, para evitar lagoftalmo importante e possibilitar a visão.
245
como resultado da diminuição da fenda palpebral. A ptose é causada pela
paralisia do músculo de Müller. A síndrome de Horner é causada por lesões
ao longo do curso da cadeia simpática. Pode ser situada ao longo do pri-
meiro neurônio intracraniano ou na porção cervical da medula. Também
pode haver envolvimento do segundo neurônio no tórax superior na porção
cervical da cadeia simpática ou no terceiro neurônio entrando na órbita. As
mais frequentes causas da síndrome são tumores, processos inflamatórios,
aneurismas e traumas, frequentemente cirúrgicos.
A ptose palpebral geralmente é de 2mm e pode ser tratada por via con-
juntival (tarso-müllerectomia) ou por via cutânea (plicatura do complexo
levantador).
246
boca ou move a mandíbula para os dois lados. Quando cada movimento é
realizado, a pálpebra ptosada se eleva, frequentemente a um nível acima da
posição normal. A ptose da síndrome de Marcus Gunn é geralmente unila-
teral e afeta mais a pálpebra esquerda.
Pode variar em grau, indo de uma mínima ptose até uma condição cos-
meticamente intolerável. A síndrome é causada por conexões aberrantes
entre a divisão motora do quinto nervo e o músculo levantador.
Segundo alguns pesquisadores, esse tipo de ptose tem a tendência de
aumentar com a idade.
Tratamento cirúrgico
Até o presente momento científico, o tratamento mais eficaz dessa
aberrante ptose consiste na ressecção bilateral do levantador e na suspen-
são frontal bilateral com fáscia lata. A fraqueza do músculo reto superior,
presente em aproximadamente 75% dos casos, deve ser tratada antes da
cirurgia palpebral.
247
elástica, junto com o músculo reto superior. Ambos podem ser identifica-
dos e fixados nos sítios anatômicos. Após a sutura do levantador, o músculo
orbicular e a pele devem ser fechados cuidadosamente. Não há necessi-
dade de sutura do septo orbitário. Grande parte dos pacientes é atendida
algumas semanas após o trauma apresentando ptose palpebral. É reco-
mendável aguardar o período de cicatrização adequado. Após o sexto mês,
o reparo cirúrgico pode ser iniciado. Muitas vezes não é possível conseguir
uma perfeita elevação palpebral devido à intensidade do traumatismo e à
presença de blocos cicatriciais.
248
14. Pseudoptose
Caracteriza-se por uma aparente ptose. Pode ser observada nos casos
de anoftalmia, microftalmia ou phthisis bulbi (atrofia do olho). Pode ser re-
solvida com a adaptação de uma prótese ocular. Caso ainda persista, pode
ser corrigida pelo encurtamento do complexo levantador por via cutânea
ou pelo procedimento de Fasanella-Servat. Estrabismo vertical causa pseu-
doptose. Knapp introduziu em 1969 um tratamento que envolvia correção
dos músculos extraoculares corrigindo a posição palpebral, isto é, a melho-
ra da aparente ptose pela elevação do olho.
O dermocalásio (pálpebra superior senil redundante) pode ser causa de
uma ptose palpebral aparente. A elevação do excesso de tecido palpebral
mostra que a pálpebra retorna a sua posição normal. O tratamento do der-
mocalásio consiste na ressecção adequada de tecido palpebral superior.
15. Conclusão
A correção da ptose palpebral é um dos mais desafiadores procedimen-
tos na cirurgia palpebral. A despeito dos avanços e aperfeiçoamentos das
técnicas cirúrgicas, muitos casos apresentam resultados desencorajadores.
É necessário enfatizar que não existe uma simples “fórmula” para correção
da ptose palpebral.
Caso a função do músculo levantador seja boa ou excelente, é grande
a chance de uma boa posição palpebral e uma boa função serem obtidas
cirurgicamente. A experiência do cirurgião e um perfeito conhecimento da
anatomia óculo-órbito-palpebral são fundamentais para o correto trata-
mento da ptose palpebral.
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251
CAPÍTULO 3
ORELHA
252
3.1 Anatomia do
pavilhão auricular
JUAREZ M. AVELAR
1. Introdução
As orelhas normalmente são pares, simétricas e situadas na superfície
lateral da cabeça em um eixo imaginário que passa pela parte central da
mesma. Cada orelha apresenta estruturas sofisticadas com arquitetura
peculiar, que consiste em uma fina lâmina de cartilagem com circunvo-
luções, saliências e reentrâncias revestidas por pele sutil e delicada em
95% da superfície.
São dois apêndices com importante papel estético para o contorno
facial, o que confere ao órgão aparência, configuração, localização e po-
sição únicas.
Apresentam duas superfícies: anterior e posterior, com características
histológicas bastante diferentes. A camada subcutânea da superfície poste-
rior é espessa com abundante tecido celular por meio da qual passam rica
rede vascular (arterial, venosa e linfática) e nervos. Já a camada subcutânea
na superfície anterior é muito reduzida e totalmente aderida ao pericôndrio
e ao relevo da cartilagem. Basicamente, são dois conjuntos de elementos
anatômicos com vascularização abundante de cada lado, sendo apenas
dois ou três os vasos que atravessam a cartilagem da superfície anterior
para a posterior.
A forma externa da orelha é oval, com o maior diâmetro vertical entre
5,6cm a 6,4cm e o horizontal de 2,7cm a 3,6cm. Existe uma grande va-
riedade de formas, tamanhos, posições e aspectos externos que devem
ser avaliadas ao examinar o pavilhão auricular (figuras 1 e 2). A posição
normal está em um ângulo de aproximadamente 20 a 30 graus da super-
fície da cabeça. O ângulo entre a mastoide e o plano da orelha é de cerca
de 20 a 30 graus, já o ângulo da concha com a mastoide é normalmente
de 90 graus.
253
Figura 1. Nomenclatura dos elementos anatômicos e estéticos da orelha. (A)
orelha direita de um paciente que era portador de microtia severa esquerda;
(B) microtia esquerda do mesmo paciente; (C) orelha esquerda do mesmo pa-
ciente após reconstrução auricular; (D) arcabouço auricular esculpido em um
arco costal com os elementos da orelha
A B
3
2 4
5
7 6 8
15
10 11
9
13
12
14
C D
1
1 2
3
3
5
5 2
4
6 4
8 6 8
7 7 1
15
11 9 11
10 15
12 10 9
12
13
13
14
14
254
Figura 2. Anatomia da cartilagem da orelha esquerda oriunda de dissecção
em cadáver, onde estão indicados os elementos estéticos do pavilhão au-
ricular correspondentes às indicações na figura 1. (A) face oblíqua poste-
rior; (B) face anterior; (C) face posterior, com seus elementos anatômicos
e estéticos
A 1 B
1
3 8
3
1
2 5
6 4 2
5 4
8
6
7 7
9 15
9
15
11
11 10
10
13 13
12 12
15
14
1
14
C 1 Hélice
1
2 Tubérculo auricular (Darwin)
8
3 3 Fosseta navicular
2
5 4 Ramo superior da antélice
4 6
7
5 Fosseta triangular
6 Ramos inferior da fosseta triangular
9
15 7 Cymbae conchoe
9
8 Raiz da hélice
11
9 Cavum Conchae
10
10 Conduto auditivo externo
12
13 11 Trágus
12 Fissura intertrágus
13 Antitrágus
14 14 Lóbulo
15 Antélice
255
vida intrauterina, qual seja, provém da circulação do cordão umbilical na
sua concavidade. O suprimento vascular da orelha ocorre através da parede
conchal, que é característica anatômica do princípio fundamental da técni-
ca que desenvolvi para reconstrução da orelha (figura 3).
A B
C D
256
As orelhas humanas apresentam características que são constante desa-
fio quando os cirurgiões tentam imitar a natureza, que é a única capaz de
criá-las com perfeita configuração. A audição pode ser prejudicada quando
um paciente não apresenta uma ou ambas as orelhas, demonstrando com-
prometimento de estruturas da função auditiva. Em anomalias congênitas,
cerca de 75% dos pacientes apresentam distúrbios funcionais associados
que nem sempre podem ser recuperados com a reconstrução da orelha,
mesmo com a criação do canal auditivo externo.
2. Método
A orelha humana é constituída basicamente por cinco estruturas
anatômicas:
a. Esqueleto cartilaginoso;
b. Revestimento cutâneo na superfície anterior e posterior;
c. Músculos intrínsecos e extrínsecos;
d. Vascularização;
e. Inervação.
257
Figura 4. Coleção de cartilagens ressecadas de algumas centenas de pacientes
com microtia severa que foram estudadas ao longo da carreira e são base ana-
tômica, embriológica, morfológica e técnica para a classificação das anomalias
congênitas
Acervo pessoal
258
O pericôndrio está firmemente aderido à cartilagem, mas em certas
áreas é ainda mais firme como na borda da hélice e nas suas dobras.
Isso pode ser visto na orelha humana de um adulto, demonstrando que
a cartilagem é responsável por sua forma e tamanho - exceto em seu
segmento inferior - onde o lóbulo está em continuidade com a estrutura
auricular. O esqueleto cartilaginoso encontra-se firmemente em todo o
canal do osso temporal para criar um túnel que é o canal auditivo ex-
terno (figuras 1 e 2). A cartilagem auricular é suportada por músculos
e ligamentos e é uma excelente área doadora de enxerto cartilaginoso.
Para remover essa cartilagem, o pericôndrio deve ser preservado para
não causar dano após ressecção.
Existem várias circunstâncias em que o enxerto de cartilagem auricular é
muito útil: rinoplastia, rinoplastia secundária, reconstrução parcial de nariz,
reconstrução parcial da orelha e reconstrução das pálpebras e do assoalho
orbital. É possivel realizar extenso enxerto composto (cartilagem, pericôn-
drio, tecido subcutâneo e pele) para reconstrução parcial do nariz e orelhas.
Esse tipo de transplante requer, no entanto, cuidados especiais pós-opera-
tórios para o sucesso cirúrgico.
A cartilagem auricular, além de criar a arquitetura da orelha, também é
elemento essencial na sustentação das demais estruturas, razão pela qual
Gillies em 1920 sugeriu recompor o arcabouço auricular nas reconstruções.
Essa conduta é importante para maioria dos pacientes com deformidades
adquiridas e anomalias congênitas (figuras 1 e 2)
259
é exsangue. É a pele mais fina e mais próxima à cartilagem em todo corpo
humano (figura 1).
O canal auditivo apresenta revestimento cutâneo com abundantes glân-
dulas sebáceas e poucos folículos pilosos (figura 1).
260
2.3. Lóbulo
O lóbulo auricular está normalmente presente no segmento inferior da
orelha, mas com composição especial. É macio, com cobertura de pele fina
nas superfícies anterior e posterior. Existe tecido adiposo típico com vas-
cularização própria entre as duas camadas de superfícies cutâneas, e ele
fornece irrigação para a parte inferior da orelha (figura 1). Embora não haja
cartilagem no lóbulo, nas reconstruções após amputação total da orelha
e também nos casos de anotia ele deve ser esculpido no mesmo bloco de
estrutura cartilaginosa de costela (vide capítulo 3.2. deste livro). Naqueles
casos (amputação traumática e anotia), a reconstrução do lóbulo usando
apenas retalhos cutâneos pode não ser bem sucedida devido à retração
cutânea pós-operatória.
2.4. Músculos
Existem dois grupos de músculos que podem ser utilizados para trata-
mento ou reparo de complicações pós-operatórias ou durante reconstru-
ção secundária da orelha:
1. músculos auriculares
2. músculos de regiões vizinhas
261
Figura 5. Representação esquemática dos músculos intrínsecos e extrínsecos
e ligamentos da orelha esquerda. (A) Músculos externos da orelha: músculo
auricular superior, músculo auricular anterior e músculo auricular posterior. (B)
Face posterior da cartilagem auricular da orelha esquerda. (C) Superfície pos-
terior da cartilagem auricular
B C
6
3 3
2 2
7
4
1
6 5
7 5
1 4
262
devem ser ressecados durante a primeira etapa da operação. De fato, esses
músculos e os ligamentos rudimentares estão firmemente inseridos ao pe-
riósteo das estruturas ósseas profundas onde o canal externo estaria loca-
lizado se a orelha tivesse se desenvolvida normalmente.
Os músculos extrínsecos da orelha se inserem na superfície posterior da
cartilagem da concha, criando um forte tendão (figura 5). Assim, a junção
da inserção inclui os ligamentos e as outras extremidades são anexadas a
outras estruturas do crânio e face. A localização, posição e ação servem
para ancorar e manter a orelha na posição correta. Embora eles sejam pla-
nos, curtos e rudimentares, oferecem às orelhas significativo reforço na
base. Como 95% da superfície externa da orelha é exposta, ela requer forte
fixação à sua base. Existem três músculos extrínsecos: superior, posterior e
anterior, inervados pelo nervo facial. Normalmente não há músculo extrín-
seco inferior (figura 5).
a. Músculo auricular superior – é o maior de todos, com fibras verticais
situadas para cima na face posterior da concha. A inserção inferior está
no tendão na superfície posterior da concha e a extremidade superior do
músculo está inserido às camadas profundas da fáscia temporal (figura 5).
b. Músculo auricular posterior – este músculo é menor que o superior. Suas
fibras se situam horizontalmente a partir do tendão atrás da cartilagem
conchal e a extremidade posterior está inserida à mastoide (figura 5).
c. Músculo auricular anterior – este músculo é o menor dos músculos
extrínsecos. Sua extremidade posterior se insere no tendão na parte pos-
terior da concha e sua extremidade anterior é inserida no arco zigomático
(figura 5).
2.5. Vascularização
A vascularização da orelha, assim como em todos os órgãos do corpo,
apresenta vascularização arterial, venosa e linfática.
a. Vascularização arterial – Existem dois tipos de vascularização arterial
para as orelhas e regiões vizinhas: a – vascularização superficial; b - vas-
cularização profunda.
b. Vascularização superficial – a vascularização arterial superficial é uma
rede importante que vem de três ramos da carótida externa e outros dire-
tamente da carótida externa, a saber:
• A artéria temporal superficial (ATS);
• A artéria auricular posterior (AAP);
• Artéria occipital (AO);
• Ramos diretos da artéria carótida externa (ACE).
A importante vascularização das orelhas e áreas vizinhas apresenta exce-
lentes condições para realizar vários tipos de retalhos cutâneos, bem como
263
para retalhos condrocutâneos. Essas artérias irrigam a superfície cutânea
da orelha e todas as regiões vizinhas (figuras 6, 7 e 8).
ATS
AO
AAP
264
Figura 7. Vascularização da orelha e regiões vizinhas
B
Art. auricular posterior
Art. carótida
comum
O autor agradece ao médico Dr. Edgar Bollanho, que forneceu estas fotos e autorizou a publicação.
265
Figura 8. Foto anatômica da parede lateral direita da face e do pescoço de-
monstrativa da rica vascularização da região
A
ATS
AAP
ATS
RAAAP
RMAAP
Esta foto foi tirada da página 81 do livro Atlas Fotográfico Colorido de Anatomia Humana. Ed.
Walter Thiel. Editora Thieme Revinter, 2004 (publicação autorizada). Deixamos registrados nossos
agradecimentos à Editora Revinter pela autorização
266
A ATS é a artéria mais importante que oferece irrigação para a meta-
de superior da orelha, para a superfície da região temporal e para a área
pré-auricular. Por sua vez, a AAP e AO são ramos da carótida externa, pro-
porcionando vascularização para a região posterior da orelha, o sulco retro
auricular, e região mastoidea (figuras 6, 7 e 8).
Essas três artérias principais (ATS, AAP e AO) subdividem-se em múlti-
plos ramos para fornecer uma rica rede vascular para a orelha, bem como
para as regiões mastoide, temporal, pré-auricular e inferior das regiões
auriculares. Nos estudos de anatomia em dissecções em cadáveres encon-
trei similitude com as descrições de Testut e Jacob (1975), ou seja, casos
em que as ATS e AAP apresentam ampla variedade de ramos vasculares
que são importantes recursos para a criação de retalhos cutâneos, con-
drocutâneos e as fáscias temporoparietais ou gálea.
267
todas as intervenções são realizadas com cuidado especial, de forma a
interpretar as complexas variações das estruturas anatômicas. No que diz
respeito à vascularização, é importante mencionar que ambos os ramos
arteriais provenientes da carótida externa podem estar presentes, mas
mostram peculiaridades na distribuição. Os ramos da artéria temporal su-
perficial que normalmente irrigam a pele pré-auricular, bem como a região
do couro cabeludo por vezes, podem ser bastante longos e em menor
número (figuras 7 e 8). A artéria auricular posterior igualmente apresenta
algumas variações que são específicas para cada caso. Entretanto, vale
mencionar que as estruturas auriculares remanescentes não recebem
suprimento sanguíneo da artéria auricular posterior. Basicamente, toda
vascularização do tecido cartilaginoso da anomalia vem do fundo da cavi-
dade da superfície óssea onde seria o conduto auditivo se a orelha tivesse
se desenvolvido (figura 7).
Através de um orifício na depressão óssea, há uma importante artéria
que emerge dos planos profundos para irrigar o tecido cartilaginoso rema-
nescente e a pele local. Durante a intervenção, o cirurgião deve estar atento
para identificar essa artéria. Portanto, as estruturas em paciente com mi-
crotia têm sua vascularização própria, independente das artérias temporal
superficial, auricular posterior e occipital (figuras 3, 7 e 8).
268
Figura 9. Pedículo vasculonervoso presente em todos tecidos vascularizados
no organismo
A – artéria
V – veia
N – nervo
L – vasos linfáticos
L
N
A V
2.6. Inervação
As orelhas e regiões vizinhas recebem inervação para desenvolver as
funções motora e de sensibilidade. Existem basicamente três principais
grupos de ramos que inervam os músculos das orelhas: grande auricular,
facial e auriculotemporal (figura 10).
269
Figura 10. Inervação sensitiva da orelha. (A) Superfície anterior. (B) Superfície
posterior
Nervo auriculotemporal
A
B
Nervo occipital menor
270
Assim que o nervo facial penetra na glândula parótida, ele apresenta
uma ampla área de fibras que podem ser divididas em cinco grupos. O
grupo posterossuperior de fibras é originário do nervo têmporo-facial, que
se torna mais superficial depois que emerge da glândula parótida, passan-
do a 5mm atrás da borda anterior da cartilagem do trágus, girando-se para
cima para suprir o músculo auricular anterior e alguns músculos intrínsecos.
As fibras superiores desse nervo continuam verticalmente para inervar a
parte superior e músculos auriculares posteriores.
A ação do nervo facial na orelha e regiões vizinhas é bem definida.
Igualmente, as funções vasomotor, simpático e secretória de fibras do ner-
vo trigêmeo na artéria e veias da região são similarmente bem definidas. No
entanto, a sensibilidade também é muito importante e precisa ser estudada
para realizar qualquer tipo de cirurgia na orelha. O nervo principal é o gran-
de auricular, que recebe fibras da segunda e terceira raízes do plexo cervical
(C2 e C3). Esse nervo pode ser visto durante dissecção da pele da parede
lateral do pescoço, quando se realiza ritidoplastia. Torna-se mais superficial
na borda posterior do músculo esternocleidomastóideo, seguindo trajeto
em ascensão entre a aponeurose e o músculo platisma ou fáscia cervical su-
perficial, que é o prolongamento da aponeurose do platisma (figura 10). O
nervo grande auricular sobe e avança, cruzando a veia jugular que se divide
em dois grupos de fibras: o anterior e os ramos posteriores. Os ramos ante-
riores vão direto para o lóbulo, subdividindo-se em vários menores para su-
prir a sensibilidade da metade inferior da parede lateral da orelha (figura 11).
Nervo auriculotemporal
Nervo temporal
Nervo auricular maior
271
Os ramos posteriores atingem a superfície da mastoide; portanto, qual-
quer trauma no nervo grande auricular pode comprometer a sensibilidade
na metade inferior da orelha. A sensibilidade das superfícies anterior e late-
ral da orelha é proveniente do nervo auriculotemporal. Esse nervo também
fornece sensibilidade à superfície anterolateral da orelha, assim como da
hélice anterior (figura 11). O canal auditivo é inervado pelo grande auricular
nas paredes anterior e superior, enquanto a parede posterior é inervada
pelo auriculotemporal.
3. Discussão e conclusões
O conhecimento da anatomia da orelha e das regiões vizinhas é de gran-
de importância para realizar qualquer tipo de reparação ou reconstrução
auricular. Não se pode dissociar os conhecimentos e descrições da anato-
mia cirúrgica da orelha sem incluir os das regiões vizinhas que abrangem
especificamente os elementos da arquitetura cartilaginosa auricular (figura
2), bem como a cobertura cutânea do órgão e a vascularização das áreas
próximas à orelha (figura 3).
A cartilagem exibe características peculiares por ser a única estrutura
que oferece configuração individual para o órgão, que é importante ele-
mento de identificação. Como a cartilagem é tecido sem vascularização,
realizar reparo de um defeito menor e reconstrução total da orelha com
total sucesso na cirurgia é um constante desafio, exigindo procedimentos
obrigatórios ao substituir o segmento ausente da orelha, como foi primeira-
mente relatado por Gillies (1920).
Devido à grande variedade de anomalias congênitas e deformidades
adquiridas, uma abordagem específica é necessária para obter resultados
satisfatórios. O conhecimento da vascularização da orelha é um fator fun-
damental durante a cirurgia. Três artérias principais fornecem suprimento
sanguíneo para o órgão e para todos os tecidos das regiões vizinhas: a ar-
téria temporal superficial, a artéria auricular posterior e a artéria occipital,
que são responsáveis por importante rede vascular superficial (figuras 6, 7
e 8). Além disso, descrevi que existe outra vascularização profunda, isto é,
uma importante rede vascular que chega à orelha passando entre a parede
da cartilagem conchal e a borda anterior do osso mastoide, que é útil na
reconstrução da orelha (figuras 3, 7 e 8).
Para criar o revestimento de pele, o descolamento cutâneo deve ser feito
com cuidado a fim de preservar a área central que será a cavidade conchal
do futuro órgão, ou seja, seu pedículo vascular.
O estudo da anatomia aqui descrito tem como objetivo apresentar in-
formações básicas sobre a possibilidade de criação de retalhos cutâneos
e condrocutâneos para a reparação de anomalias congênitas e deformi-
dades adquiridas da orelha. As artérias temporais, superficial, auricular
272
posterior e occipital fornecem rede vascular superficial que é muito im-
portante para suprir as áreas cutâneas da orelha, assim como das regi-
ões vizinhas (figura 6). Além disso, o suprimento vascular proveniente de
tecidos profundos passando na borda anterior do osso mastoide fornece
importante suporte vascular para criar o pedículo da futura orelha (fi-
guras 3 e 7). Quando a reconstrução da orelha é realizada nas deformi-
dades adquiridas, o pedículo da futura orelha é criado próximo ao canal
auditivo sem descolamento do tecido subcutâneo da borda posterior
do conduto auditivo externo. Para reconstrução da orelha nas anomalias
congênitas, o futuro pedículo está localizado no centro da projeção do
futuro órgão.
As descrições da inervação estão direcionadas para oferecer conheci-
mentos anatômicos de muita importância quando forem realizados proce-
dimentos cirúrgicos reconstrutivos e estéticos na orelha e regiões vizinhas.
O nervo grande auricular é o principal elementos que emerge na borda
posterior do músculo esternocleidomastóideo para oferecer inervação na
pele que reveste a mastoide, assim como o segmento interior da orelha
(figura 10).
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274
3.2. Otoplastia
JUAREZ M. AVELAR
1. Introdução
A chamada “orelha em abano” é a deformidade mais frequente de todas
as anomalias auriculares congênitas, com incidência de 5% na população
brasileira, sendo frequentemente perceptível desde tenra idade e podendo
exacerbar-se ou regredir espontaneamente com o crescimento e desenvol-
vimento da criança. Clinicamente pode apresentar uma ou várias alterações
das estruturas cartilaginosas do pavilhão auricular com desequilíbrio entre
os múltiplos segmentos anatômicos, tais como: apagamento ou inexistên-
cia do relevo da antélice, hipertrofia da cavidade conchal, aumento dos ân-
gulos escafo-conchal, céfalo-conchal e céfalo-auricular (figura 1).
A B
275
C D
E F
276
Figura 2. Desenhos em corte horizontal passando pela orelha direita que
mostra a posição das cartilagens auriculares e os ângulos escafoconchais.
(A) Ângulo normal de 90 graus. (B) Posição em abano com o ângulo maior
de 120 graus
277
O esqueleto auricular é formado por uma lâmina de cartilagem do
tipo elástica com fibras colágenas que a tornam flexível e dobrável, exi-
bindo caprichosas circunvoluções e reentrâncias que oferecem aspectos
individuais e, por isso, são considerados órgãos de identificação. Esse
esqueleto apresenta duas superfícies: anterior e posterior, que são re-
vestidas por fina camada de pericôndrio com importantes funções me-
tabólicas e devem ser preservadas nos procedimentos na orelha, que é
símbolo de cirurgia auricular. No entanto, o revestimento cutâneo exibe
características peculiares e diferentes entre as superfícies anterior e pos-
terior (figura 1).
2. Tratamento clínico
A correção de orelhas em abano requer procedimento cirúrgico na bus-
ca do equilíbrio entre os segmentos do órgão e em harmonia com a face.
Não obstante, há descrições de metodologia não cirúrgica para correção
de deformidades auriculares em recém-nascidos à custa de modelagem
da orelha com uso de fitas e moldes flexíveis, que são trocados semanal-
mente como tentativa para resolver o problema. Os procedimentos não
cirúrgicos podem ser empregados desde duas semanas após o nascimen-
to até dois ou três meses de idade com remodelagem da cartilagem auri-
cular. A metodologia não é recomendada para crianças em idade superior
a seis meses.
3. Fisioplatologia
O crescimento das orelhas atinge completo desenvolvimento até a idade
de seis ou sete anos. Eventuais alterações do tamanho da cartilagem au-
ricular depois dessa idade até adolescência podem ser consideradas des-
prezíveis. Após essa fase o crescimento é ínfimo, havendo alongamento
vertical da cartilagem auricular por força da gravidade ou, ainda mais inten-
so, pelo uso de adornos pesados.
Com o desenvolvimento, a criança inicia convivência com outras na
vida social e na escola. Assim, toda e qualquer alteração em uma ou
ambas as orelhas podem desencadear algum tipo de trauma psicoló-
gico por fazer a criança se sentir “diferente” das demais de sua faixa
etária. Na realidade, as crianças são curiosas e francas em tudo ao seu
redor e, sem hesitar, desprovidas de malícia ou maldade, denunciam o
que lhes é estranho. Com efeito, uma criança portadora de anomalias
auriculares pode ser susceptível às observações e comentários sobre
seu estado físico, gerando desconforto e trauma psicológico. Não im-
porta o tamanho e gravidade da imperfeição física, ela pode acabar por
278
promover alterações em seu estado interior, gerando maiores ou me-
nores repercussões psicológicas. Uma criança portadora de orelhas em
abano constitui importante alteração física com desdobramentos na es-
fera íntima, razão pela qual justifica a busca da solução do problema.
Consequentemente, o momento ideal para realizar a cirurgia varia de
uma criança para outra, dependendo do grau de repercussão dos aspec-
tos emocionais decorrente da consciência e preocupação com a defor-
midade. A indicação da cirurgia está diretamente relacionada à reação
de cada paciente em idade infantil ou adulta. Em crianças, a vontade e
ansiedade dos pais na correção cirúrgica não são fatores suficientes e
decisivos para indicação e realização, pois a preocupação e motivação
da criança são preponderantes.
4. Anamnese
Independentemente do quadro clínico, o cirurgião deve manter diá-
logo objetivo com o paciente para ouvir queixas relativas às alterações
das orelhas. Todas as informações devem ser minuciosamente avalia-
das e anotadas no prontuário com perguntas direcionadas à deformi-
dade. Mesmo em se tratando de paciente infantil, é imprescindível o
adequado entendimento para interpretar a extensão e profundidade da
imperfeição física.
279
Figura 3. Paciente apresentando acentuada assimetria entre as orelhas, sendo
a esquerda muito mais evidente e de implantação mais baixa. (A, C e E) pré-
-operatórias; (B, D e F) pós-operatórias, podendo-se observar natural relevo
da antélice e correção da implantação da orelha esquerda para alcançar equi-
líbrio com o lado oposto
A B
C D
E F
280
As dimensões das orelhas e os ângulos das cartilagens devem ser re-
gistrados durante essa fase para favorecer etapas posteriores. Os ângulos
céfalo-conchal, escafo-conchal e as dimensões da cavidade conchal são
fundamentais para o diagnóstico da deformidade (figura 2). Não raro, pa-
cientes podem apresentar aumento das dimensões das orelhas no que são
denominadas de macrotias (orelhas maiores que o normal), podendo cau-
sar desconforto. No entanto, a correção não é alcançada com as técnicas
de orelha em abano. Com efeito, o diagnóstico diferencial entre as duas
deformidades deve ser considerado antes de programar a intervenção. Há
casos nos quais a cavidade conchal pode apresentar acentuada hipertrofia
causando rotação lateral das orelhas e configurando o quadro de abano,
porém o paciente pode exibir bom esboço de antélice (figura 1). Tais de-
formidades são bastante frequentes demonstrando aumento excessivo de
cartilagem auricular no assoalho da concha (figura 3).
6. Indicação e contraindicação
A presença de deformidades auriculares que comprometem a forma,
posição e os ângulos naturais dos órgãos por si só não significa indicação
para cirurgia, pois a vontade do paciente é ponto fundamental. As altera-
ções anatômicas traduzem situações orgânicas passíveis de correções por
procedimentos cirúrgicos, desde que repercutam no bem estar íntimo dos
portadores. Quando um paciente não demonstra preocupação com as de-
formidades das orelhas, isso significa que a cirurgia não deve ser indicada
e consequentemente é motivo para contraindicar a intervenção. A vontade
isolada dos genitores não é motivo essencial para a indicação da correção
das orelhas em abano.
281
7. Demarcação prévia
Durante a avaliação clínica pré-operatória, com o paciente já internado,
além de exames clínicos e laboratoriais os aspectos psicológicos do pa-
ciente devem ser cuidadosamente analisados, levando-se em considera-
ção a idade, educação, motivação para a cirurgia, personalidade e todos
fatores pertinentes ao procedimento com segurança para o paciente e o
cirurgião. É recomendável realizar demarcação prévia para orientação do
ato cirúrgico, assim como para conhecimento do próprio paciente e de
seus familiares. O sulco retro auricular é marcado para ser utilizado como
parâmetro cirúrgico e valiosa referência para as definitivas marcações du-
rante a cirurgia. A futura antélice é demarcada para adequada orientação
do ato operatório. Para tal, o cirurgião apoia suavemente seus dedos so-
bre a orelha fazendo ligeira e delicada pressão para simular a posição e
localização da futura antélice que é assim demarcada com tinta. Como a
cartilagem auricular é bastante flexível, essa manobra é passível de ser re-
alizada mesmo em pacientes com instabilidade emocional. Vale ressaltar
que as demarcações prévias são importantes orientações para o cirurgião
completar o planejamento operatório conforme o elaborado durante as
consultas prévias (figura 4).
A B C
282
8. Tratamento cirúrgico
O tratamento da orelha proeminente parece ser um procedimento sim-
ples, mas não o é, pois podem surgir vários problemas quando a indicação
e a realização da cirurgia, assim como os cuidados pós-operatórios, não
seguem rigorosamente os princípios técnicos.
O planejamento cirúrgico é etapa essencial antes de todo procedimen-
to operatório. Contudo, antes de casos de correção cirúrgica de orelhas
em abano essa importância é ainda maior. Assim, todas as deformida-
des da orelha devem ser cuidadosamente avaliadas para elaborar o pro-
grama cirúrgico. Não se pode realizar cirurgia para correção de orelhas
em abano empregando a mesma técnica ou abordando apenas uma ou
outra alteração estrutural. Cada imperfeição requer enfoque adequado
para o seu tratamento.
283
Por esse motivo cada cirurgião deve conhecer várias técnicas e táticas
cirúrgicas para enriquecer seus conhecimentos, mas deve se familiarizar
com aquelas que se identificam com seu estilo pessoal para aplicar com
sedimentada competência no sentido de obter bons resultados.
Minha especialização foi na clínica do Professor Pitanguy, que empre-
gava sua técnica “em ilha”, quando constatava os bons resultados por
ele alcançados em seus pacientes. Após minha formação, fui fellow do
Professor Converse na New Yok University e do Professor Mustardé, na
Escócia (Cannisburn Hospital, em Glasgow), quando tive oportunidade
de assistir cirurgias realizadas por outras técnicas, sem seccionar a carti-
lagem para criar a antélice. Acrescentando ainda às numerosas técnicas
descritas, absorvi conhecimentos que foram base para desenvolver con-
ceitos próprios.
Basicamente pode-se reunir as deformidades auriculares em três grupos:
1) Ausência de antélice com acentuada projeção lateral da orelha;
2) Presença de antélice com pronunciada hipertrofia da concha com proje-
ção lateral da orelha;
3) Antélice presente com pouca hipertrofia da parede conchal.
284
Figura 5. Paciente apresentando evidente assimetria entre as orelhas, sendo a
esquerda muito mais acentuada
A B
C D
285
Figura 6. Fotos transoperatórias mostrando a liberação do pericôndrio da pa-
rede posterior da cartilagem da orelha esquerda para o enfraquecimento pela
raspagem. (A) incisão com bisturi somente do pericôndrio na parede posterior
da cartilagem; (B) afastamento do pericôndrio; (C) em seguida, realiza-se mo-
vimento de vai-e-vem com bisturi lâmina 15 até alcançar o enfraquecimento da
cartilagem, sem seccioná-la
B C
286
Frequentemente associo pontos de Mustardé modificados, que assegu-
ram boa projeção da antélice, para evitar superfície cortante à antélice e mi-
nimizar recidivas (figura 7).
B C
287
mas com muita projeção lateral há necessidade de reforçar as dimen-
sões da antélice de forma associada ao procedimento a ser realizado,
que consiste em ressecção de cartilagem da parede conchal (figuras 1 e
3). Nessa modalidade é importante associar pontos de Mustardé modi-
ficados para salientar a antélice e alcançar adequado equilíbrio entre os
segmentos da orelha.
A B
C D
288
9. Anestesia
A cirurgia pode ser realizada sob anestesia local combinada com seda-
ção endovenosa a cargo de anestesista ou sob anestesia geral. Pacientes
adultos são facilmente tratados com a primeira opção. No entanto, anes-
tesia geral deve ser indicada para crianças, que podem apresentar insta-
bilidade emocional e estarem hipersensíveis. Quando o paciente infantil
demonstra condições de colaborar e suportar o ato operatório pode-se
empregar sedação associada à anestesia local, mas sempre sob responsa-
bilidade de anestesista.
Vale enfatizar que os procedimentos devem ser realizados em ambiente
hospitalar ou em clínica com adequadas instalações, cuidados e equipa-
mentos no centro cirúrgico pré, per e pós-operatórios - sempre sob contro-
le de anestesista para maior segurança do ato operatório.
Independentemente se o procedimento é realizado sob anestesia geral
ou local associada com sedação endovenosa, é muito útil empregar infiltra-
ção local de solução anestésica associada com vaso constritor. A solução
para infiltração local pode ser preparada de lidocaína (0,4mg%), associa-
da a epinefrina (1/200.000). O preparo da solução deve ser realizado por
membros da equipe do cirurgião com adequado treinamento de forma a
evitar erros grosseiros que podem trazer graves complicações e conse-
quências desastrosas (figura 9).
Figura 9. Paciente de oito anos de idade que há 10 dias foi submetido a oto-
plastia em outro serviço, queixando-se de muita dor e com quadro de necrose
cutânea possivelmente causada por infiltração local de produto tóxico durante
a cirurgia. (A) Orelha direita. (B) Orelha esquerda
A B
289
A infiltração com solução é realizada em torno de toda a estrutura da
orelha, e profundamente entre a superfície do crânio e região auricular.
Uma manobra importante é fazer sutil pressão da orelha contra o crânio
para identificar e visualizar a área da antélice que se pretende criar, mar-
cando-a com azul de metileno (figura 4). Em etapa seguinte, com auxílio
de uma agulha reta, promove-se a transposição de pontos de referência da
face anterior para a face posterior da orelha, para tatuar a cartilagem nos
dois lados ao mesmo tempo (figura 10). Em seguida, demarca-se na face
anterior da orelha os locais dos pontos de Mustardé (figura 7).
A B
290
Depois disso, uma elipse cutânea poderá ser marcada na face posterior
da concha e no sulco retro auricular (figura 10). A pele na face posterior,
que foi marcada anteriormente, é incisada e, em seguida, este segmento
cutâneo fusiforme é ressecado com preservação da camada subcutânea.
A pele retro auricular é dissecada desde o limite da borda helicoidal até
atingir a tatuagem na cartilagem para expor o pericôndrio em toda exten-
são. Cuidadosa hemostasia é realizada e, em seguida, incisa-se suavemen-
te com bisturi (lâmina 15) somente a delgada camada do pericôndrio, sem
traumatizá-lo, para expor a superfície posterior da cartilagem auricular.
Valendo-se da mesma lâmina de bisturi, realiza-se raspagem com movi-
mentos suaves de vai-e-vem para alcançar o necessário enfraquecimento
da cartilagem ao longo da área demarcada (figura 6). Essa manobra é
realizada paulatina e progressivamente até alcançar o desejável adelga-
çamento da espessura da cartilagem, sem seccioná-la. A realização do
enfraquecimento da cartilagem na projeção da antélice correspondente é
tarefa delicada e inerente ao planejamento cirúrgico. Em fase subsequen-
te, as bordas do pericôndrio se mantêm intactas para serem suturadas
com pontos invertidos simples usando fio de material de longo tempo de
absorção (4-0 ou 5-0) (figura 11).
A B
291
Denomino essa manobra de pericondrioplastia para revestir e proteger a
parede posterior da cartilagem auricular na face posterior da antélice. Após
a sutura do pericôndrio, a dobra da antélice é suave e delicadamente proje-
tada para frente (figura 12).
A B
C D
292
Na fase seguinte, emprego pontos de Mustardé modificados utilizando
fios de longo tempo de absorção, ou mononylon incolor. A agulha é introdu-
zida na superfície posterior da cartilagem auricular da escafa até sua total
exteriorização na face anterior. Em seguida, a agulha penetra no mesmo ori-
fício de saída passando no delgado plano subcutâneo para exteriorizar na
escafa, onde a agulha é introduzida através do mesmo orifício cutâneo de
saída para transfixar toda espessura da parede da cartilagem e sair na área
cruenta onde iniciou o ponto (figura 7). Para completar o ponto, a agulha
é introduzida da face posterior para sair na parede anterior da concha, até
total exteriorização. Quando o ponto está completado em forma de “U”, o
nó então é apertado lenta e progressivamente pelo cirurgião para comple-
tar a forma de um círculo, até alcançar a desejada projeção da antélice. Essa
manobra deve ser sincronicamente acompanhada por pinçamento bidigital
do cirurgião-auxiliar, que mantém a aproximação das duas superfícies con-
dro-cutâneas para que o nó final seja posicionado dentro da área cruenta
na parede posterior da orelha. Histologicamente o ponto descrito engloba
o pericôndrio posterior, a cartilagem conchal e o pericôndrio anterior (figu-
ra 12). O Prof. Mustardé (1967) realizava seu ponto de uma única passagem
da agulha para aproximar as superfícies posterior da cartilagem da escafa
à parede conchal. Outros dois ou três pontos são aplicados, seguindo a
demarcação prévia e com a mesma sequência técnica, até harmonizar a
projeção da antélice.
293
Figura 13. Fotos transoperatórias mostrando o descolamento do pericôndrio
da parede posterior e anterior da concha da orelha esquerda. (A) Visão pano-
râmica do pericôndrio. (B) Após incisão somente do pericôndrio o instrumento
está introduzido entre o pericôndrio e a parede posterior da cartilagem. (C)
Incisão com bisturi somente da cartilagem da parede da concha para visualizar
o pericôndrio anterior da concavidade da concha. (D) O descolador está po-
sicionado entre a parede anterior da cartilagem conchal e o pericôndrio cor-
respondente. (E) Toda extensão do pericôndrio já está descolada, o que está
indicado pela seta. (F) A elipse de cartilagem já está ressecada de acordo com
a demarcação prévia e o pericôndrio preservado. (G) Cartilagens ressecadas
bilateralmente
A B
C D
E F G
294
Seguindo a demarcação prévia, incisa-se com bisturi lâmina 15 somen-
te a cartilagem, respeitando o pericôndrio da face anterior que é suave
e facilmente descolado no plano subpericondral, para que ele permaneça
aderido ao revestimento cutâneo. Com a cartilagem exposta, realiza-se a
ressecção de uma elipse previamente demarcada (figura 13). Assim, cria-se
retalho cutâneo na parede da concha, naturalmente aderido ao pericôndrio
na área correspondente à ressecção de cartilagem. Após a ressecção, as
bordas do pericôndrio posterior são suturadas suavemente no sentido de
revestir a parede posterior (pericondrioplastia) (figura 11). Em fase conclu-
siva, os pontos isolados são aplicados no plano subcutâneo e finalmente
sutura contínua dérmica para aproximação das bordas da ferida cirúrgica.
Finalmente aplica-se fita de micropore sobre a pele seguida de algodão
úmido em toda área retro auricular.
Vale ressaltar que pontos de Furnas (1968) nem sempre devem ser apli-
cados para aproximação da parede posterior da cartilagem conchal ao
plano ósseo da mastoide. Quando se aplica deve avaliar a necessidade de
realizar ressecção de cartilagem conchal para evitar estreitamento e até
obstrução do canal auditivo externo - que é uma temida complicação pós-
-operatória (figura 14).
A B
295
O mesmo procedimento é realizado na orelha contralateral, tomando os
necessários cuidados em proteger a orelha operada. É importante aplicar
algodão úmido para preencher todo interior da cavidade da concha assim
como acomodar a antélice e hélice.
11. Curativo
Como o curativo é com gesso, inicialmente é importante proteger o me-
ato auditivo externo com gaze ou algodão. Emprego curativo gessado na
face anterior da orelha valendo-se de pequenos fragmentos que são mo-
lhados em água e aplicados suavemente até preencher toda a cavidade
conchal, escafa e antélice (figura 15).
A B
C D
296
O curativo gessado penetra nas dobras naturais da orelha, aderindo-
-se e mantendo-se caprichosamente no local sem necessidade de fixa-
ção externa. Semelhante curativo é aplicado sobre o lado oposto para
em seguida colocar gaze algodoada ou mesmo algodão sobre a orelha
acompanhada de faixa de crepe envolvendo a cabeça, que é retirada no
dia seguinte sem danificar o curativo gessado que é mantido no interior
da orelha. A manutenção do gesso é recomendada durante duas semanas,
oferecendo bastante comodidade ao paciente. Há várias vantagens, como
por exemplo:
• O fato de imobilizar a pele da face anterior da concha e antélice na
posição almejada para dar condições de iniciar a neocondrogênese
a partir das camadas de pericôndrio preservadas durante a cirurgia,
portanto a neocondrogênese se desenvolve no espaço onde foi reti-
rada a cartilagem conchal, na forma, dimensões e posição adequadas;
(figura 16).
Figura 16. Paciente apresentando assimetria entre as orelhas, sendo a direita com
abano mais acentuado. (A, C e E) pré-operatórias. (B, D e F) pós-operatórias,
podendo observar suavidade do relevo da antélice
A B C
D E F
297
• Mesmo não realizando ressecção de cartilagem da parede conchal, o
gesso pode ser empregado;
• O gesso evita traumatismo local no pós-operatório, mas deve-se reco-
mendar não se expor a risco de trauma nem mesmo molhar durante o
banho (figura 17);
• Não há necessidade de manter a faixa envolvendo a cabeça;
• O curativo gessado é bastante confortável, indolor e não sai
espontaneamente;
• Durante o sono o gesso protege as orelhas, pois se o paciente deitar a
cabeça lateralmente a consistência firme do curativo causa desconforto
que instintivamente altera a posição da cabeça;
• A retirada do gesso só deve ocorrer após duas semanas da cirurgia e
em seguida aplicam-se finas camadas de micropore diretamente sobre a
pele na concha, antélice, hélice e parede posterior da orelha, que devem
ser mantidas durante mais duas semanas, quando é então liberado para
o paciente molhar o curativo (figura 17 e 18).
Figura 17. Paciente apresentando orelhas em abano com assimetria entre elas,
sendo a esquerda nitidamente mais acentuada. (A, B e C) pré-operatórias; (D,
E e F) pós-operatórias, podendo observar suavidade do relevo da antélice
A B C
D E F
298
Figura 18. (A e C) pré-operatórias; (B e D) pós-operatórias, podendo observar
suavidade do relevo da antélice com adequada aproximação da orelha ao pla-
no cefálico
A B
C D
299
Figura 19. Foto das orelhas esquerda e direita de uma paciente de 48 anos de
idade que foi submetida a otoplastia em outro serviço com resultado insatis-
fatório. (A) apagamento total da metade superior da hélice da orelha esquer-
da com área de necrose cutânea aderida ao plano cefálico. Foi recomendada
aguardar cicatrização da ferida; (B) Seis meses depois a paciente retornou
apresentando concluída cicatrização com firme aderência da orelha ao plano
cefálico. Elaborou-se então planejamento cirúrgico para criação de dois reta-
lhos condrocutâneos, conforme indicam as setas: um do lóbulo e extremidade
inferior da hélice com incisão somente na pele anterior e extremidade inferior da
cartilagem da hélice para tração por deslizamento para cima e outro retalho da
raiz da hélice para tração para cima e para trás até encontrar o outro retalho; (C)
resultado pós operatório, sendo que a parede posterior foi revestida somente
com retalhos cutâneos, sem necessidade de enxerto cutâneo; (D) orelha direita
apresentava um segmento de cartilagem costal enxertado abaixo da pele da
mastoide com sinais de necrose cutânea indicados pelas setas (que foi retirado)
e modelagem primária; (E) rotação de retalhos condrocutâneos como indicado
na foto (B) da orelha esquerda; (F) visão final após rotação dos retalhos
A B C
D E F
300
A demarcação preliminar antes da pré-medicação anestésica é uma im-
portante conduta. A cirurgia deve ser realizada em hospital ou em clíni-
ca adequadamente equipada, sob anestesia geral ou sedação endovenosa
sob cuidados de anestesiologista. A cirurgia está indicada para crianças
em idade superior aos seis ou sete anos, quando o paciente esteja sensível
às deformidades das orelhas, transmita motivação e aceite se submeter à
correção cirúrgica.
Há numerosas técnicas para correção, mas cada cirurgião deve indicar
conforme o quadro clínico e planejamento cirúrgico. A preservação do
pericôndrio assegura importantes condições para o metabolismo da car-
tilagem. Quando há indicação para ressecção de cartilagem conchal, re-
comendo preservação do pericôndrio nas faces anterior e posterior para
desenvolver neocondrogênese (figuras 1, 3 e 5). Denomino de pericon-
drioplastia que é fator essencial na neocondrogênese e para assegurar
regularidade na antélice criada durante a cirurgia. O curativo gessado per-
manece durante duas semanas para manter as camadas de pericôndrio
nas posições adequadas e para desenvolver a nova cartilagem (figuras 8,
16, 17 e 18).
Os cuidados pós-operatórios devem ser seguidos pelo paciente com
acompanhamento do cirurgião e sua equipe. Se surgir alguma alteração
na estrutura da orelha não se deve re-intervir antes da completa cicatriza-
ção dos tecidos manipulados durante a cirurgia, o que varia de seis meses
a um ano após a intervenção primária (figura 19). O tecido cicatricial que
se desenvolve no entorno das cartilagens após a cirurgia é de fundamen-
tal importância para a manutenção da completa integralidade da cartila-
gem. Aqui está o motivo principal que não se deve intervir intempestiva
e precocemente antes de completar a cicatrização após o procedimento
primário por mais descontente que o paciente esteja com o resultado:
diversas situações adversas ocorrem quando uma segunda intervenção é
realizada, causando ainda mais trauma tecidual e contribuindo para agra-
var o resultado estético.
É muito frequente assimetria entre as duas orelhas, o que deve ser iden-
tificado e informado ao paciente e seus familiares antes da cirurgia (figuras
3, 5 e 17). Pode existir diferença nas superfícies da orelha, na aparência
externa e também na espessura da lâmina de cartilagem. Tudo isso pode
interferir para não alcançar o resultado almejado pelo paciente e familiares.
Empregar raspa ou outro instrumento para reduzir a resistência na face
anterior da cartilagem conchal pode diminuir sua resistência, mas certa-
mente danifica o pericôndrio local. Tais procedimentos são de fácil aplica-
ção, mas alteram o pericôndrio correspondente.
De acordo com avaliação clínica inerente às várias deformidades das
orelhas, o planejamento cirúrgico deve ser elaborado na busca de so-
lucioná-los. Com efeito, ressecção de cartilagem da parede conchal,
aproximação desta ao plano ósseo, aplicação de pontos de Mustardé
modificados e ressecção de pele retro auricular são procedimentos que
301
só devem ser realizados em conformidade ao planejamento cirúrgico.
Portanto, não se deve tratar todos casos de orelha em abano com o mes-
mo procedimento cirúrgico.
Vale enfatizar que a vontade dos pais não pode ultrapassar ao desejo da
criança. Essa observação é da maior importância, pois se o paciente não se
preocupa com o problema, a cirurgia não deve ser realizada. A motivação
do paciente é fator determinante, pois é ele que irá se submeter à cirurgia,
aos curativos e conviver com o resultado possível de ser alcançado.
Com efeito, com a demarcação provisória, mais uma vez o cirurgião tem
oportunidade para esclarecer ao paciente e familiares importantes informa-
ções inerentes ao ato cirúrgico e ressaltar que a localização da única cicatriz
resultante será no sulco retro auricular.
O tratamento das deformidades das orelhas deve ser focado em corrigir
as alterações detectadas durante a consulta, no exame físico e no diagnós-
tico. O tratamento para orelha proeminente parece ser um procedimento
fácil, mas não o é, já que vários problemas podem surgir. Cabe ao cirurgião
em parceria com o anestesista avaliar as condições emocionais de cada
paciente antes de decidir pela modalidade de anestesia.
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303
3.3. Reconstrução da
orelha nas deformidades
causadas por piercing
JUAREZ M. AVELAR
1. Introdução
Durante os últimos cem anos, a reconstrução auricular vem apresentan-
do significativa evolução no que ainda é considerado um difícil campo da
cirurgia plástica. No entanto, recompor a forma e constituição de uma
orelha desfigurada por infecção pós piercing é desafio ainda maior. Além
da rigidez da fibrose tecidual causada pela infecção local com destrui-
ção da arquitetura cartilaginosa, o revestimento cutâneo torna-se inelás-
tico, requerendo tratamento específico para alcançar cobertura de pele na
face anterior e posterior da nova orelha.
O uso de piercing em diversas regiões do corpo é um adorno voluntário
destinado a realizar desejos pessoais na busca da beleza através da perfu-
ração cutânea em diversos segmentos do corpo humano para introduzir
um elemento metálico. O conceito de beleza não tem parâmetros rígidos
e varia de uma época para outra e dentro do mesmo período histórico
os padrões se modificam com os costumes e busca da eterna juventude.
Para os adolescentes, é uma maneira de expressar emoções, ansiedades
e outros estados íntimos, sempre visando a beleza, uma vez que não há
regras neste caso.
A interpretação da beleza não obedece aos aspectos predeterminados,
visto que varia com o tempo, e depende de aspectos étnicos, sociais, morais
e culturais. Por outro lado, a beleza é influenciada pelos meios de comuni-
cação, que indicam quais são as melhores abordagens físicas da sociedade
para supostamente atingir pontos harmoniosos e de equilíbrio.
O piercing se tornou uma prática muito comum, mas pode causar se-
veras consequências, especialmente nas orelhas, devido à infecção local,
às vezes com repercussões sistêmicas e emocionais. Assim, introduzir de-
liberadamente material inorgânico no próprio corpo é um gesto e decisão
pessoal na busca de preencher um vazio específico nas pessoas para re-
forçar a autoavaliação e para alcançar beleza. A pele é o maior órgão do
corpo humano e tal forma de adorno corporal pode ser feita em muitas
áreas: regiões orbitárias, palpebrais, ainda mais frequentemente no nariz
304
e orelhas além de outros segmentos da boca: lábios, gengivas e língua.
Ainda como preferência, muitos jovens introduzem piercing no umbigo,
nos mamilos e regiões genitais, que são locais escolhidos por jovens e
adultos de ambos os sexos em nativos, primitivos e de sociedades con-
temporâneos da Ásia à América do Sul.
Não se pode estimar a incidência de piercings na população em geral,
mas é conhecido que tais recursos são mais comuns em adolescentes e
em adultos jovens. É raro uma pessoa ter apenas um piercing. As principais
motivações variam de religião, rebelião, estética, misticismo e rituais de ini-
ciação ou passagem da adolescência para a idade adulta.
2. Quadro clínico
A busca de maior significado estético por piercing nas orelhas não é
isenta de riscos, pois podem ocorrer sérias infecções locais em adolescen-
tes, bem como em adultos. Os problemas mais complexos ocorrem imedia-
tamente após a perfuração e introdução do elemento metálico nas regiões
cartilaginosas da orelha, que é um órgão de pouca atenção higiênica, espe-
cialmente nas regiões da escafa e fosseta triangular. Complicações graves
podem surgir devido à infecção local seguida de destruição da cartilagem
por pericondrite (figuras 1 e 2).
A B
305
Figura 2. Tratamento na fase aguda da infecção. (A e B) de um paciente de 19
anos com emprego de drenos para facilitar o tratamento local
A B
306
Figura 3. Reconstrução do polo superior da orelha. (A) foto pré-operatória de
uma paciente de 22 anos de idade com destruição da cartilagem da hélice e
fosseta triangular; (B) resultado reconstrutivo com enxerto de cartilagem de
arco costal em um único tempo operatório
A B
307
às graves deformidades, o que é denominado de orelha em “couve-flor”.
Pericondrite é uma das complicações mais graves e hoje em dia é bastante
frequente, como descrito por Fernandez et al. (2008).
Os sintomas locais são: acentuado edema local, eritema e dor na orelha
(excluindo o lóbulo) devido à ausência de cartilagem (figura 1). Se houver
atraso no tratamento local devido à desatenção ou nenhuma suspeita de
infecção existente, pode atingir edema generalizado do pavilhão e a in-
fecção pode se espalhar até causar abscesso subpericondral com necrose
isquêmica da cartilagem (figura 1).
Devido ao abscesso com algum ponto flutuante, são recomendados:
drenagem cirúrgica com desbridamento de tecido necrótico, associado
à lavagem contínua sob irrigação com antibiótico combinado com anti-
bioticoterapia intravenosa (figura 2). A destruição da cartilagem auricular
em casos de evolução desfavorável, associada com as cicatrizes retráteis
e deformantes, torna ainda mais difícil alcançar sucesso na reconstrução
da orelha.
A B
308
Figura 5. Técnica para introdução do enxerto de cartilagem na hélice esculpido
em um arco de cartilagem costal. (A) delicada tunelização subcutânea na héli-
ce para criar o leito receptor; (B) instrumento reto-e-curvo com extremidades
serrilhadas, não cortantes; (C) o enxerto já esculpido conforme planejamento
cirúrgico; (D) introdução do arco de cartilagem esculpido; (E) o enxerto já in-
troduzido através do túnel subcutâneo para recriar a hélice
A B C
D E
309
Figura 6. Reconstrução da hélice da orelha direita. (A) foto pré-operatória de
um paciente de 26 anos de idade com destruição parcial da cartilagem da hé-
lice; (B) foto transoperatória mostrando o modelo elaborado no planejamento
cirúrgico e o segmento de arcabouço esculpido em cartilagem costal; (C) re-
sultado reconstrutivo com enxerto de cartilagem de arco costal em um único
tempo operatório
A B
310
Figura 7. Reconstrução da hélice da orelha esquerda pós destruição por
piercing. (A) pré-operatória com retração cutânea pela ausência de carti-
lagem. (B) foto transoperatória com a projeção do segmento a ser recons-
truído e o arco de cartilagem costal já posicionado sobre a hélice; (C) foto
pós-operatória com o resultado alcançado.
A B
311
Figura 8. Paciente com deformidade na orelha esquerda causada por piercing.
(A) pré-operatória com achatamento do polo superior pela infecção na fase
aguda; (B) após reconstrução; (C) foto do planejamento reconstrutivo onde se
vê o novo arcabouço já esculpido em cartilagem costal; (D) em close com o
defeito no polo superior; (E) resultado final com o arcabouço inserido no plano
subcutâneo do polo superior
A B
C D E
312
Figura 9. Reconstrução do polo superior da orelha direita após destruição por
piercing em uma paciente de 24 anos. (A) pré-operatória com retração cutâ-
nea pela ausência de cartilagem destruída pela infecção; (B) planejamento
reconstrutivo do polo superior e no alto o novo arcabouço já esculpido em
arco de cartilagem costal e posicionado para criar a hélice no primeiro tempo
reconstrutivo; (C) foto um ano após o primeiro estágio operatório, na qual se
observa o arcabouço bem posicionado; (D) resultado final seis meses após o
segundo estágio reconstrutivo
A B
C D
4. Planejamento reconstrutivo
Em todos os procedimentos cirúrgicos é imprescindível um adequado
planejamento operatório, mas nos casos de reconstrução de orelha essa
etapa é ainda mais importante. Não há um padrão pré-estabelecido para re-
construção nos casos de destruição por infecção por piercing, pois cada pa-
ciente apresenta peculiaridades próprias que devem ser meticulosamente
313
avaliadas antes de programar a cirurgia. Como são deformidades unilate-
rais, a orelha oposta é útil para ser modelo de tamanho, forma, posição e
localização. Com efeito, a primeira consulta já é o momento correto para
fazer cuidadosa avaliação de eventual revestimento cutâneo e remanescên-
cias de tecido cartilaginoso (figuras 3, 4 e 5).
O polo superior da orelha é o segmento mais frequentemente acometido
devido à agressividade da infecção pela falta de higiene local. Conforme
descrições de Converse (1958), Tanzer (1959) e Pitanguy (1967) a utiliza-
ção de um filme de raio-X é importante recurso para criar o molde ideal e
orientar a escultura do futuro arcabouço em reconstrução parcial e total
(figura 6). Assim, o tamanho e a forma da futura orelha são delineados no
filme, mas a localização e posição são favorecidos pelas referências do lado
oposto (figura 4). Não obstante, mutilações de menor extensão requerem
igualmente a modelagem do segmento ausente independente da dimen-
são. Quando o arco superior da hélice necessita ser criado e a pele local
exibe condições de distensibilidade, é viável esculpir o necessário segmen-
to com a respectiva curvatura (figuras 5, 6, 7 e 8). Vale enfatizar que o seg-
mento de cartilagem deve ter a curvatura, forma e dimensões definidos no
planejamento cirúrgico, ou seja, não se deve enxertar uma cartilagem reta
para forçá-la a fazer uma curvatura.
Para reconstruir uma orelha é necessário criar duas estruturas: o novo
arcabouço auricular e o respectivo revestimento cutâneo. Para recompor
o esqueleto auricular, a utilização de cartilagem costal é o material de pre-
ferência. Já para o revestimento cutâneo nos casos de deformidades por
piercing há duas possibilidades: a primeira é favorecida pela dobra cutânea
do polo superior, que pode exibir boas condições de extensão e consistên-
cia capaz de receber o segmento de cartilagem. Nesses casos há possibi-
lidade de reconstrução em um único tempo reconstrutivo (figuras 4, 5, 6,
7 e 8). Contudo, quando a pele remanescente da orelha foi destruída pela
infecção local deve-se recorrer à reconstrução em dois ou mais tempos
operatórios, valendo-se da pele da região mastoide que não é a ideal, mas
é a melhor disponível no corpo humano.
314
do futuro arcabouço auricular criado durante o planejamento operatório. O
molde é posicionado sobre a região da mastoide para estabelecer a pro-
jeção espacial da futura orelha. Duas incisões cutâneas são definidas fora
da área da futura orelha para que as respectivas cicatrizes resultantes não
se posicionem sobre a orelha reconstruída. Realiza-se infiltração local (li-
docaína 0,4mg%) associada à epinefrina (1/200.000mg), somente da área
correspondente à futura hélice e antélice (figuras 10 e 11).
315
Figura 11. Reconstrução total da orelha em complexa deformidade causada
por infecção pela aplicação de piercing. (A) Imagem da orelha direita destru-
ída de um paciente de 26 anos, onde se observa severa retração cicatricial;
(B) modelo do futuro arcabouço conforme planejamento pré-operatório; (C)
o esqueleto auricular esculpido em cartilagem costal está sendo introduzido
no tunel subcutâneo como indica a seta; (D) a nova estrutura cartilaginosa já
introduzida no leito previamente preparado
A B
C D
316
evitar sofrimento da pele, aguarda-se por cinco ou dez minutos e o balão
é outra vez insuflado (figura 10). Essa alternância de encher e esvaziar o
balão tem duração de duas horas e meia, que é o tempo mínimo para a
retirada do arco costal e a respectiva escavação escultural num único arco
costal. O novo arcabouço é então esculpido para criar hélice, antélice,
escafa, parede conchal, fosseta triangular, antitrágus e trágus (figura 11).