Oportunismo e Revolução no Brasil
Oportunismo e Revolução no Brasil
anos
1920-2020
O OPORTUNISMO
E A REVOLUÇÃO
ALFREDO DE J. FLORES E WAGNER FELONIUK (ORGS)
ALFREDO DE J. FLORES
WAGNER FELONIUK
(ORGANIZADORES)
O OPORTUNISMO
EA REVOLUÇÃO
Organizadores: Alfredo de J. Flores e Wagner Feloniuk
Conselho Editorial: Alfredo de Jesus Dal Molin Flores (UFRGS), Antonio
Carlos Hohlfeldt (PUCRS), Eduardo Santos Neumann (UFRGS), Ezequiel
Abásolo (UCA), Fábio Kuhn (UFRGS), Gustavo Buzai (UNLu), Gustavo
Silveira Siqueira (UERJ), Heinrich Hasenack (UFRGS), Luis Cavalcanti
Bahiana (UFRJ), Ricardo Marcelo Fonseca (UFPR)
Editoração: Priscila Pereira Pinto
Capa: Priscila Pereira Pinto
Ilustração da Capa: Folha de rosto de “O Opportunismo e a Revolução”
de Assis Brasil, Tipografia A. L. Garraux & Comp, São Paulo, 1880.
CDU 32(81)
REFERÊNCIAS
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Casa de Rui Barbosa, 1989.
______. O opporturnismo e a revolução. Conferências
publica do “Club Republicano Academico” realizada no
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Número 37. Brasília: Associação dos Consultores Legis-
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OSÓRIO, Luís Joaquim. Partidos Políticos no Rio Grande do
Sul. Porto Alegre: Assembléia Legislativa do Rio Grande
do Sul: 1992.
Sumário
Encerramento.................................................................................................89
12
Alem d’isso, quasi todos os pontos d’este discurso ja
foram desenvolvidos com mais amplitude na «Evolução»,
por mim e pelos meus dois valentes companheiros na re-
dacção d’aquelle periodico, os Snrs. Pereira da Costa e Julio
de Castilhos, especialmente por este ultimo, cujas idéas se
encontrarão aqui em muitos logares.
Não concluirei sem deixar aqui um voto de profun-
da gratidão aos meus distinctos correligionarios, amigos
e comprovincianos E. Fernandes Lima, J. de Barros Cassal
e Argemiro Galvão, pelo obzequio generoso que me pres-
taram tomando as notas tachygraphicas ás quaes devo o
poder hoje publicar este obscuro discurso.
A. B.
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13
O OPPORTUNISMO E A REVOLUÇÃO
14
se sabe si existe, de um Deus talvez por elles creado, - e
que apresentaram certos homens como representantes da
vontade divina; triumphou - mostrando que tal soberania
por si mesma se destróe, mostrando que o que está acima
dos dados do nosso conhecimento, acima do nosso crite-
rio, nunca servirá de dado, de criterio para a demonstração
de uma verdade qualquer, mostrando que similhante sobe-
rania se traduz em uma Providencia irrisoriamente con-
tradictoria, todos os dias vencida pela inflexibilidade das
inabalaveis leis que governam o mundo.
Triumphou ainda dos que, batidos ‘neste terreno, se
levantaram pela soberania da Razão, em nôme da qual pro-
clamaram que ao Povo, essencialmente fraco e ignorante,
não compete a soberania, que os verdadeiros directores da
sociedade são aquelles que a razão, localisada nos capazes,
para esse fim determinar. D’estes triumphou a causa re-
publicana demonstrando que, dado mesmo o caso de ser
exacta a existencia de tal razão, não haveria um criterio
para determinar quaes os que a possuiam, que essa razão
social havia de ser necessariamente formada da somma das
razões individuaes, e, por consequencia, tão fraca, tão falli-
vel como a de cada um dos indivíduos.
Finalmente, Cidadãos, o resultado de tão asperas
batalhas foi chegar-se a esta verdade suprema: - acima da
vontade nacional nada existe, pelo menos que se conhe-
ça; nada ha conhecido acima do homem; e, portanto, to-
dos os homens são eguaes e livres. As sociedades, pois, não
encontram diante de si, para dirigir seus passos, poder de
qualidade alguma; dirigem-se por si mesmas. A esta supre-
ma faculdade chamou-se - soberania nacional ou sobera-
nia do Povo, segundo uma linguagem mais antiga e menos
scientifica. Traduzindo-se ‘numa forma politica, esta sobe-
rania produz o que se chama - Republica. (Muito bem.)
Foi então que os nossos adversarios, que sempre vi-
veram de subtilezas e de embustes, foram buscar um novo
argumento, uma nova arma de ataque. Disseram: «Pois que a
soberania pertence á nação, quando essa nação disser que tal
forma de governo (a Monarchia, por exemplo) lhe agrada,
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essa forma de governo será legitima.» Sophisma grossei-
ro foi esse, Cidadãos, que, como todo o sophisma, cahi-
rá por terra com duas palavras. A Humanidade, perpétua
em si, extingue-se por partes; as gerações renovam-se; os
homens atravessam a superficie da terra para sumirem-se
na morte, não deixando mesmo muitas vezes o vestigio da
passagem; dentro de meio seculo uma geração tem sido
completamente substituida. Ora, estabelecer a geração de
hontem o que deve fazer a de hoje, determinar a geração
de hoje o que deve adoptar a de amanhã - é simplesmente a
geração de hontem quebrar a liberdade da geração de hoje,
como esta anullar a da geração de amanhã. Ora, todas as
monarchias, desde o mais torpe absolutismo até a monar-
chia constitucional representativa, arrogam-se o titulo de
perpétuas. Mas as gerações não são perpétuas, não podem
estatuir sinão para o que lhes pertence, para o que lhes é
actual, nada podem estabelecer com caracter de perpetui-
dade. Logo não podem estabelecer a Monarchia.
Hoje, Cidadãos, esta grande evidencia penetrou vic-
toriosa no animo de todos os monarchistas brazileiros, ou
da maior parte d’elles. Batidos assim, levados de derrota
em derrota, sempre infelizes nos subterfugios que buscam,
voltam novamente os seus exercitos contra nós, e fazem
um ultimo appello, o appello dos desesperados, o appello
do naufrago, que lança mão da primeira taboa. «E› verdade»,
dizem elles, «é verdade que a Republica é o mais legiti-
mo governo, a mais legitima forma política, a unica forma
scientifica, dignada nossa Patria, como de toda a Humani-
dade; mas o que é tambem certo é que, no Brazil, a Repu-
blica não é opportuna». Foi assim que entre nós appareceu a
doutrina chamada do opportunismo.
Ei-nos chegados ao amago da questão: trata-se de
saber si esta forma de governo tão alevantada, ultimo re-
sultado das derradeiras conclusões scientificas, que vae
dia por dia assombrosamente engrossando seus aguerri-
dos exercitos, é ou não opportuna para nós.
Não passemos, entretanto, adiante sem notar que
esta doutrina do opportunismo é nova no Brazil: veio-nos
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de uma imitação franceza. Vêde, Cidadãos, a coherencia
dos nossos adversários: accusam-nos de imitadores in-
conscientes dos Estados-Unidos, da propria França; mas
não sabem olhar para si, não sabem ver que são elles os
verdadeiros imitadores, que este ultimo obstaculo que le-
vantam á liberdade da Patria é uma baixa, uma servil imi-
tação.
Mas, vejamos o que é o opportunismo, vejamos em
que se funda elle no Brazil.
E’ verdade que as nações, que a Humanidade não
marcham aos saltos, que tudo está subjeito a leis rigoro-
sas. A sciencia, de degrau em degrau, por uma penosa e
longa elaboração, penetrou em tudo; passou do mundo
inorganico ao mundo organico e d’este ao superorganico,
da pedra bruta ao craneo que pensa e raciocina; a sciencia
mostrou luminosamente que a Humanidade está subjeita
a grandes leis de imprescriptivel rigor mathmatico. Insen-
satez temeraria seria pretender romper os élos d’aço d’es-
sa fortíssima cadêa. Assim sendo, é claro que cada cousa,
cada instituição politica ou social tem, pra concretisar-se,
seu período proprio, sua epocha exacta. Fazer cada cousa
a seu tempo, acompanhar scientificamente este desdobra-
mento progressivo, nada fazer de encontro ás suas impe-
riosas exigencias - eis no que consiste o legitimo opportu-
nismo. Mas ¿porventura, é neste solido fundamento que se
apoiam os nossos monarchistas?
Cidadãos, evidentemente estes adversarios batem-
-se com armas desleaes, batem-se com subterfugios. Eu
apresentarei desde ja a primeira e a mais formidavel brecha
d’este argumento capcioso: - dizem que a Republica não
póde ser applicada ao Brazil, porque não é opportuna; mas,
Cidadãos, provado, como deixei, e como elles, monarchis-
tas, não contestam, que a Republica é a unica forma racio-
nal de governo, a unica forma digna da nobreza humana,
- claro está que a questão versa unicamente, que toda a
questão versa justamente, exclusivamente sobre saberse si
ella é ou não opportuna. Mas os monarchistas combatem a
opportunidade da Republica ¡dizendo que ella nao é oppor-
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tuna! ¿O que é isto sinão cahir em um grosseiro circulo
vicioso? (Apoiados, muito bem.)
Eis ahi as armas de combate dos monarchistas de
todos os matizes, armas tão fracas quanto pretenciosas. Eu
os persiguirei ‘neste terreno falso onde se collocaram. Es-
pero deixar hoje esta questão perfeitamente liquidada.
Quando, entretanto, se vêm oppressos pela inflexi-
bilidade de nossa logica, não raro vemol-os appellar dog-
maticamente para um sem numero de argumentos, no
sentido de demonstrar a inopportunidade da Republica,
argumentos que sobresahem todos pela falta de solidez.
Eu procurarei synthetisar essas falsas objecções, buscando
traduzir, em poucas palavras, o melhor que me fôr possível,
o pensamento infenso á Democracia. A Republica no Brazil
não é opportuna, dizem os seus contrarios:
1.º Porque a Republica exige, como governo sabio que
é, instrucção bastante da parte de seus membros, - e o nosso
Povo não tem instrucçao;
2.º Porque a Republica é o governo da opinião, - e no
Brazil não ha opinião publica;
3.º Porque a Republica precisa de cidadãos illustres
que a dirijam e desenvolvam, - e nós não temos homens em
taes condições;
4.º Porque o Povo ignorante precipitar-se-á necessa-
riamente na anarchia, e, como a anarchia provoca a reac-
ção, estes dous flagellos cahirão sobre a Patria;
5.º Porque devemos acceitar as severas licções da ex-
periencia, - e as Republicas hispano-americanas são um
exemplo vivo para fazer-nos recuar diante da idéa de tal go-
verno;
6.º Porque não devemos ser ingratos para com a Mo-
narchia, que nos tem dado com mão larga todas as liberda-
des de que gosam os povos livres.
Tudo isto é affirmado com um ar de dogmatismo
que espanta.
Eu tomarei todos estes argumentos, cada um de per
si, e, sem presumpção o digo, Cidadãos, hei de reduzil-os
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ás suas verdadeiras proporções, isto é, - a nada.
Ninguem nega, nós, republicanos, nunca negámos
que o povo brazileiro não dispõe de uma instrucção corno
fôra para desejar-se. Direi melhor, - os factos mais irrecu-
saveis demonstram que é assombroso o estado actual de
ignorancia que se observa ‘neste paiz. Mas, ¿o que prova
isto? Prova que o governo que ha mais de meio seculo diri-
ge os nossos destinos, que tem sido o unico arbitro do nos-
so desenvolvimento, anullando a acção individual por uma
centralisação terrível, que tem disposto de todos as forças
nacionaes sem o minimo obstaculo, prova unicamente que
este governo é incapaz, completamente incapaz de for-
necer a instrucção de cuja falta o povo se resente; prova
que a causa unica do nosso atrazo é essa Monarchia gasta
e corruptora, que absorve a poderosa seiva da nação, que
derrama rios de dinheiro no sustento de familias vadias,
na practica dos maiores escandalos, e tem sempre as cos-
tas voltadas para essa pobre besta de carga que se cha-
ma Povo, que não lhe implora, entretanto, mais do que um
pouco de luz, em troca do suor e do sangue que por ella
derrama. (Applausos.)
Si quereis, portanto, que a instrucção se divulgue, si
quereis arrancar da noite da ignorancia esses milhares de
concidadãos nossos que ‘nella jazem tristemente, si que-
reis transformar os escravos inconscientes em cidadãos
liberrimos, - sêde logicos - combatei o effeito destruindo a
causa, combatei a Monarchia, esmagai o throno, e a luz ha
de cahir abundante sobre as cabeças dos nossos compa-
triotas, acurvadas hoje ao peso do jugo monarchico. (Gran-
des applausos.)
Mas, Cidadãos, esta questão de instrucção é, como
todas as que levantam os nossos pseudo-opportunistas,
uma questão puramente social; vós deveis saber, quasi
ninguem ignora hoje, depois de mil fecundas experien-
cias historicas, depois principalmente que appareceram as
grandes obras de Comte, do chileno Lastarria e de muitos
outros pensadores modernos, que as reformas sociaes não
se podem operar no seio da sociedade sinão em um regimen po-
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litico adquado, accommodado á amplitude das exigencias
dessa reforma que se pretende plantar. A organisação polí-
tica precede a social (Apoiados). Que o nosso estado politico
não comporta o desenvolvimento da instrucção não é necessario
demonstrar especialmente; nada fala tão eloquentemente
como os factos que todos podem verificar. Neste systhe-
ma, todas as forças do governo, em eterna lucta contra os
esforços populares, absorvem-se nos cuidados da propria
conservação; a complicadissima, a pesada machina gover-
nativa exhaure toda a actividade das classes dirigentes. E’
por isso que esta Monarchia anomala não póde trabalhar
efficazmente pela instrucção; separa-se do Povo, reprime,
aperta, nullifica, esmaga todas as tendencias da socieda-
de (Muito bem, muito bem.) Não é necessario accrescentar
que só o governo republicano será capaz de realisar essa
aspiração.
Cidadãos, um outro motivo ha que me faz crer que
a Monarchia nunca dará instrucção ao Povo; motivo de
um grandíssimo alcance pratico: é que - a Monarchia não
tem dinheiro (Riso). As importantes fontes de renda d’es-
te paiz tão rico como nenhum outro, esgotam-se pelo escoadouro
de pesados e vexatorios impostos, empregados em todas as
extravagancias imaginaveis, menos em accudir á nossa pri-
meira e mais urgente necessidade, a instrucção, para a qual
destina-se uma verba magra, risível em todos os orçamen-
tos. Este mal não póde ser remediado com a actual forma
de governo; porque todas essas despezas são imprescindi-
veis na Monarchia. A todo o momento se estão fechando
escolas; mas ninguém sonha em restringir as despezas su-
perfluas, as despezas de luxo, que faz principalmente cer-
ta familia vadia, indispensavel na Monarchia. Tenho aqui, a
este respeito, uns apontamentos interessantes, extrahidos
de um inventario da Monarchia, publicado pelo excellente
orgam republicano - a Republica, que apparecia na Côrte, e
mais tarde augmentados e enriquecidos pelo illustre tribu-
no republicano, o sr. dr. Martinho Prado Junior. Por esses
apontamentos se vê que só a familia imperial tem esbanja-
do a somma consideravel de 234,000 contos de réis. Esta
quantia era sufficiente (não contando-se ja os juros) para se
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edificarem 23,400 escolas publicas, pelo exagerado preço
de 10 contos de réis cada uma. E esta, si bem que seja a
mais immoral, não é comtudo a maior sangria monétaria a
que a Monarchia nos obriga. Todos conhecem a sua indole
esbanjadoura; eu não me demorarei ‘nestes factos.
Por tudo isto, vê-se que a causa principal, a causa,
pode-se dizer, unica do nosso atraso em matería de ins-
trucção popular é a propria Monarchia. ¿Como é, pois, que
se diz todos os dias, com uma arrogancia que revolta, que
não podemos ser republicanos, porque o nosso Povo não
está instruido? Não; o unico impecílio que a instrucção en-
contra é o governo monarchico; a vida da instrucção de-
pende do estabelecimento da Republica, é um facto que
torna ainda o seu advento mais urgente, mais necessario.
Fica assim voltado contra os proprios monarchistas o gol-
pe que nos atiram e que não nos póde attingir.
A 2.ª objecção imprudentemente atirada ao campo
republicano, fundada na falta de opinião publica, é questão
que se resolve de modo identico; não offerece maior soli-
dez do que as outras. Em um poncto estou de pleno accor-
do com os adversarios: - o estado actual do paiz é o mais
desolador possível. Nem se póde mesmo suppor maior
prostração cívica do que essa a que chegou este Povo infe-
liz, docil á vontade de todos os governos, escravo submisso
das imposições que descem do alto.
Tudo isto foi obra exclusiva da dictadura monarchi-
ca. Todos sabem que nos primeiros tempos de nossa inde-
pendencia, logo que nos libertámos de Portugal, quando
muito mais ignorante ainda era o Povo, quando a nação
estava no berço e quando tambem, por conseguinte, o vi-
rus monarchico não lhe tinha ainda invadido o coração, - eram
muito mais frequentes esses levantamentos que accusam a
existencia de uma consciencia nacional; o Povo por muitas
vezes resistio á vontade despotica dos mandões; os patrio-
tas mineiros nobremente repelliram as imposições do pri-
meiro imperador, cuja arrogancia, mais tarde, quebrou-se
de todo aos pés da soberania popular, no dia de mais legí-
timas glorias d’este paiz, no 7 de Abril. Depois, dia por dia,
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se foi estancando no amplo coração popular esse nobre
sentimento de resistencia; a Monarchia foi pouco a pou-
co narcotisando, abastardando, corrompendo, anullando
a consciencia nacional, - até que chegámos a este esta-
do desesperador, degradante, em que tudo rasteja, todos
os homens afogam-se no lodo, para só elevar-se sobre os
destroços dos nossos brios a detestavel estatua de uma
tyrannia mascarada e arrogante. (Grandes applausos). Foi
ella que produzio toda esta miseria.
¡Não temos opinião publica! Mas, senhores monar-
chistas, ¿como quereis que tenha opinião um Povo a quem
se arrancam os mais inviolaveis direitos; um Povo que está
privado do direito de suffragio, do direito de eleger o seu
primeiro representante; que está subjeito a vêr a sua re-
presentação enxotada vergonhosamente por uma vontade
extranha á sua; um Povo que tem sobre o dorso, perpetu-
amante, como um phantasma, a garra do fisco, arracando-
-lhe avidamente o fructo do trabalho honrado? (Applausos).
¿Como quereis que tenha opinião aquelle cuja bocca jaz
amordaçada, cujos braços jazem amarrados em um suppli-
cio degradante, o rebanho faminto, hypocritamente ex-
plorado pelo intruzo importuno que empunha o cajado do
mundo? (Grandes applausos). ¿Como quereis opinião sem
liberdade, como quereis opinião na Monarchia? (Estrepito-
sos e prolongados applausos).
Derribai esse padrão de vergonhas, desthronisai o
despotismo, entregai ao Povo o seu proprio governo, pro-
clamai, emfim, a Republica, - e tereis a opinião que tanto
desejais, e tereis a felicidade da Patria. (Muito bem, muito
bem).
Como a da opinião publica, a questão da falta de ho-
mens, a que se refere a 3.ª objecção formulada pelos nossos
inimigos, tem uma solução muito diversa da que elles apre-
sentam. «Não temos homens, dizem elles, « Como, pois,
quereis proclamar a Republica? ¿Quem ha de sustental-a
e servil-a dignamente?» E’ verdade que muito poucos ho-
mens de bem, de reconhecida reputação, no seio da pe-
quena parte do paiz que pensa, que muito poucos appare-
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cem ainda á tona d’essa grande mediocridade que rasteja.
Um jornalista distincto aqui, um parlamentar illustre acolá
e um ou outro que vegeta na sombra do lar, sem conseguir
erguer-se, peado pela athmosphera pesada que a Monar-
chia creou - são estes os poucos. Mas, ¡vede a profunda
ignorancia das que fazem d’isto um argumento contra a
Republica, vede como elles não medem o alcance das palavras
que proferem, ou, então, como argumentam de má fé! ¡Sim! de
má fé; porque é impossivel que qualquer homem que sinta
o peso das licções da historia atire proposições d’esta or-
dem. ¡Pois que! Cidadãos, ¿haverá quem ignore hoje que os
grandes homens não rebentam espontaneamente do seio
da terra? ¿Quem não sabe que os homens são grandes ou
pequenos, heroes ou imbecis, segundo a natureza do meio
que os cerca, segundo a força da seiva que os alimenta, se-
gundo a epocha em que vivem? Ninguem ignora que, antes
da grande Revolução de 89, apenas uma phalange de pyg-
meus arrastava-se no solo captivo da França; mas quando
rebentou a rugidoura tempestade que abalou e desfez em
pedaços o throno do despotismo, - então, apoz o estampi-
do da liberdade, as consciencias embriagaram-se de luz, os
grandes homens brotaram de todos os lados, appareceram
aquelles gigantes phantasticos, que assommavam na tribu-
na, como genios desconhecidos, agitando e revolvendo, ao
sopro eloquentíssimo do verbo da redempção, o tormen-
toso mar dos corações populares. (Applausos). Os grandes
princípios fizeram os grandes homens; a liberdade fez os
seus soldados; porque os homens são filhos das circums-
tancias; assumem as proporções do seu tempo.
Agora, ¿quereis saber o que é verdade de tudo isto,
com relação ao nosso paiz? O que é verdade é que, ‘neste
meio corrupto ‘neste meio apodrecido pela acção malefica
do absolutismo de facto, raros, raríssimos serão os que se
levantem acima da atonia geral; só podem crescer anões,
não podem crescer gigantes (Applausos), e os anões fer-
vem de todos os lados; porque, Cidadãos, é uma verdade
que quanto mais immundo é o terreno tanto mais vicejam
os cogumellos. (Grandes applausos). E’ por isso que vemos
agitar-se na lama esse ridiculo exercito de ratos (Riso) que
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róe o pedestal da Monarchia, quando pensa consolidal-o,
Os homens, portanto, pelos quaes suspiram os nos-
sos pseudo-opportunistas, não apparecem - não porque não
existam - mas porque falta-lhes o meio, porque este meio
actual os amesquinha e suffoca. Si quereis que appareçam
homens, si quereis que appareçam ‘nesta terra americana
verdadeiros colossos que saibam e possam sustentar nos
hombros a arca sancta da Patria, por tanto tempo esmaga-
da pelos pés de uma tyrannia mascarada e tôrpe, - abalai o
throno, abatei a Monarchia, - e vel-os-eis surgir do cora-
ção do povo, dignos filhos d’esta suberba terra brazileira.
(Applausos.)
Como 4.º argumento contra o advento immediato da
forma republicana, os nossos adversarios lembram o temor
que todos devemos ter de provocar essa situação terrível,
na qual os governos constituídos abatem-se no mesmo dia
em que se levantam, na qual as mais sagradas prescripções
da lei são calcadas pela espada do primeiro ambicioso vul-
gar que apparece; situação que tem o nome de anarchia.
Cidadãos, a anarchia, como todo o mundo sabe,
como a historia demonstra, como a sciencia ensina, - não é
um estado normal da natureza humana; nem as nações se
podem perpetuar em tal estado. Dá-se ás vezes um como
desmoronamento no proprio seio do universo, como no
seio das sociedades. Este facto succede sempre ás infrac-
ções que se dão na grande lei que governa todas as cousas;
mas apoz o rompimento, a lei tende de novo a adquir o
seu imperio, tudo se restabelece, entra no movimento nor-
mal, e a quadra da perturbação não fica sendo mais do que
um momento na perpetuidade dos tempos. A desordem,
a anarchia é essencialmente transitoria; temer que ella se
perpetue é fazer profissão de ignorancia.
Bem conheço que, depois desta profunda desmo-
ralisação, que só a Monarchia teve a rara gloria de infun-
dir em um paiz americano, bem vejo que, depois d’este
apodrecimento geral, - é bem possível que os primeiros
dias da Republica não sejam dias de paz para todos. Po-
rem, dado mesmo o caso que isto aconteça, ¿poderá, por
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ventura, ser duravel essa desordem? Nunca houve maior
possibilidade de perpetuar-se a anarchia do que depois da
revolução franceza, que foi chamada a eliminar brusca e
radilcamente uma ordem social accumulada pela acção de
muitos seculos; entrentanto, o estado de anarchia foi ra-
pido, foi um apice, comparado com a enorme porção de
seculos de atrazo que se oppunham á nova ordem. Entre
nós a questão é exclusivamente política; não temos uma
pesada e resistente ordem social para combater e destruir;
muito menos, portanto, devemos temer a anarchia.
Em tudo isto eu só descubro um perigo serio, sem
applicação, todavia, ao Brazil, como mostrarei: é o perigo da
reacção, de que os adversarios nos apontam um exemplo
na França. Passado o primeiro ímpeto da Revolução, Bo-
naparte soube suffocal-a em meio, fazendo pesar a lamina
ensanguentada de sua espada na balança das liberdades
francezas. Este grande despota conseguio anullar as ga-
rantias que o povo francez tinha conquistado pelo preço
do proprio sangue, quebrar a altivez de uma nação valente
e levantar acima de toda a França a sua estatura de guer-
reiro, que, ainda que fosse grande, desapparecia, comtu-
do, perto da que diante d’elle se erguia. Foi um a reação, a
reacção da monarchia, a reacção do despotismo. A ella se
prendem todas as outras que, mais tarde, assolaram a Fran-
ça. Mas, pergunto eu: ¿No Brazil será isso possivel? Não. A
reacção trazida por um ambicioso não é possível aqui, pelo
proprio caracter do Povo brazileiro, Povo essencialmente
manso, essencialmente pacifico, incapaz de seguir fasci-
nado o rastro de sangue de um bandido feliz. Si mesmo na
França, cujo espírito fogoso, educado nas casernas da eda-
de media, facilmente se deslumbra diante do brilho de uma
espada conquistadora, si mesmo na França Napoleão não
conseguio sustentar-se por largo tempo sobre o throno
usurpado á boa fé dos compatriotas, - ¿quem o consegui-
rá entre nós, onde os factos consummados têm uma grande
força, onde os interesses individuaes falam de perto a todos
os homens? São os proprios monarchistas que falam-nos
todos os dias da indole pacifica do nosso Povo.
25
Demais as reacções têm tambem existencia transito-
ria. Ahi está para proval-o, o exemplo que acabo de apon-
tar, o exemplo de Bonaparte, cujo olhar d’aguia domava os
mais temerosos adversarios; si mesmo este gigante vio-se
em breve obrigado a rolar do throno que para si levantá-
ra, muito menos, aqui, um bandido medíocre, sahido da
sombra e da lama das revoluções, poderá no seio da livre
America levantar a espada victoriosa. E, si esse bandido
apparecer, será sumir-se no dia seguinte. Mostrar-lhe-e-
mos o exemplo de Rosas, enxotado do seio generoso da
Republica Argentina, pela vontade energica de um Povo li-
vre; mostrar-lhe-emos o exemplo de Maximiliano, que não
conseguio tisnar a bandeira immortal da Republica mexi-
cana, e cujo cadaver foi cahir ensanguentado e frio da jo-
ven America na velha Europa, sobre os degraus do throno
do grosseiro despota que o havia enviado para essa ma-
chinação infame. (Muito bem). Nós não temos raças dym-
nasticas, não temos tradições monarchicas; podemos ter
quaesquer tradições; monarchicas não. ¿Quem, pois, será
o aventureiro? Crede, Cidadãos: a anarchia e reacção são
impossíveis aqui; mas, quando mesmo ellas sobreviessem,
eu ja mostrei que são passageiras, que são transitorias, que
extinguir-se-iam immediatamente, que não podem, por-
tanto, constituir um obstaculo para impedir que nós cami-
nhemos para a liberdade. Ha, porem, uma outra anarchia
de que ninguem se apercebe, mas que todos sentem; é a
anarchia tacita, encoberta, que surdamente róe o coração
da sociedade; é a anarchia creada pela indefferença que a
centralisação monarchica infundio em todos os espiritos.
Essa é a mais perigosa e terrivel, a que mais dura, a que as-
soberba actualmente a sociedade brazileira. Quebremol-a
pela base; estabeleçamos pela Republica a actividade e o
accordo de todos os espíritos.
E’ ainda por este infundado temor de uma anarchia
que não comprehendem que os monarchistas apresentam-
-nos constantemente, com embaraço ás nossas generosas
aspirações, o exemplo das Republicas hispano-america-
nas. Esta questão das republicas hispano-americanas tem
sido sempre o cavallo de batalha dos monarchistas enra-
26
gés. Para mim, Cidadãos, nunca houve lembrança tão in-
feliz como a dos que foram achar tal argumento: 1.º - por-
que essas Republicas conseguiram estabelecer a forma de
governo por que se regem com um estado de instrucção
muito inferior ao nosso actual, o que prova que para nós
muito mais facil seria assental-a hoje; 2.º - porque a causa
unica das perturbações por ellas soffridas é a natureza do
genio espanhol, que não foi a tempo refreado, como prova
a propria Hespanha que tem soffrido peiores commoções,
sendo monarchia; 3.º - por que apparece tão grande, tão
nitida, tão clara, com esta confrontação, a superioridade
do governo republicano sobre o monarchico, que os pseu-
do-opportunistas deviam recuar diante de tal exemplo. De
facto, Cidadãos, é tão superior ao nosso governo d’aquellas
Republicas, que mesmo nadando ellas em sangue, sempre
presas de correrias, de sedições muitas vezes injustifica-
veis, debatendo-se no mar das mil commoções políticas
que ali todos os dias se manifestam, - o progresso fluctua
á tona das revoluções, animado pelas instituições livres. O
Estado Oriental do Uruguay e a Confederação Argentina,
as duas mais accusadas, ( 1* ) possuem uma somma de ins-
trucção popular espantosamente superior á nossa; ( 2* ) têm
os seus pampas cobertos de vias ferreas, como nós esta-
mos longe de possuir; têm o correio gratis para os jornaes
e obras impressas; os direitos de alfandega são insignifi-
cantes, os impostos limitadissimos, porque o Estado tem
muito pouco para despender, e muito menos terá ainda
quando em sua vida politica serenar de todo, quando des-
pedir o exercito, porque a liberdade não precisa de força
28
Muito longe eu iria si quizesse mostrar tudo o que as leis
escriptas dizem contra a liberdade. Eu mesmo, que prégo
‘neste momento a grandeza da Democracia, que defendo-a
dos injustificaveis ataques de inimigos desleaes, - si fossem
cumpridos certos artigos do Codigo Criminal, - teria de
descer d’esta tribuna pelo braço d’um esbirro. Si o gover-
no não manda executar essas disposições terminantes e claras,
nós não temos a culpa d›isso: mostra simplesmente que é fraco, que
é inepto, que não tem força para fazer valer a lei, que não
é digno de respeito, que não é digno d’esta grande terra;
(Applausos) ou, então, o governo trata-nos com o mais re-
pugnante dos artificios: combate-nos com o silencio, com
a indefferença cynicamente estudada, a peior de todas
as armas, nas mãos de um inimigo perverso. Esta ultima
hypothese é, com certeza, a verdadeira: a Monarchia muito
de proposito não põe em pratica as disposições “tyranni-
cas de suas leis. Ella teme provocar essa lucta desespera-
da, a que recorrem todos os desprotegidos da justiça; ella
sabe que a perseguição apressa a victoria da idéa, sabe que
o martyrio retempera a força e o valor dos apostholos de
uma grande causa. Não; essa tolerancia embusteira não nos
convem, a nós republicanos. E’ minha convicção profun-
da, Cidadãos, que no dia em que nos arrebatassem estas
minguadas liberdades, no dia em que os nossos irmãos de
combate fossem arrastados ao calabouço, á proscripção,
ao degredo, no dia em que o despotismo emboscado, que
hoje zomba de nós, se resolvesse a mostrar abertamente
as afiadas garras que possúe, -’nesse dia havia de accor-
dar finalmente a consciencia adormecida e enregelada no
seio dos opprimidos, e d’esta Monarchia torpe e insolente
não ficaria restando mais do que a vergonhosa lembran-
ça, como um borrão eterno nas paginas da nossa historia.
(Grandes e prolongados applausos).
¡E dizem ainda que devemos ser gratos á Monarchia! Não
conheço maior insensatez do que a dos que affirmam que
a ella devemos os fóros de liberdade que possuímos hoje,
que a ella devemos o proprio direito de accusal-a e com-
batel-a. Os direitos do Povo não são presente de ninguem;
são legitima e gloriosa conquista sua, conquista obtida
29
em combates sangrentos contra os despotas de todos os
tempos, a custa dos mais heroicos sacrificios, dos mais
cruentos martyrios. ¡Não! a Monarchia nunca nos deu liberdade;
quando nossos avós quizeram a liberdade, arrancaram-na á
força de suas garras assassinas; quando a Monarchia teve o
poder nas mãos, nunca nos deu liberdades; deu nos ferros
e grilhões para tolherem-nos os pulsos, deu-nos a morda-
ça infamante, que nos fazia morrer nos labios o grito da re-
volta. (Grandes Applausos). Ahi tendes o que nós devemos
á Monarchia.
Cidadãos, parece-me que tenho respondido a to-
das as objecções, a todos os argumentos levantados con-
tra aquelles, em cujo numero eu estou, que entendem que
deve estabelecer-se ja, imediatamente no Brazil a forma
republicana. Vós pudestes apreciar o fundo e a solidez
d’essas pobres objecções. Appello agora para vossas cons-
ciencias: Por estes motivos, por estes argumentos, que eu
acabo de destruir diante de vós, ¿poder-se-á, porventura,
oppor um obstaculo sério à Republica? Não; tudo isto tem
effeito muito diverso: tudo isto prova contra a Monarchia.
Vós devieis ter notado, Cidadãos, que todos esses ataques
inconsiderados que com tão grande arrogancia nos são di-
rigidos, voltam-se justamente contra os que nol-os diri-
gem; o seu espírito é um só: o de provar que a Monarchia
é a causa unica de todos os atrazos, de todas as miserias
que soffremos, que o seu tempo acabou-se, que tornou-se
inopportuna, - que chegou, por consequencia, a urgente
opportunidade da Republica (Muito bem.)
Somos nós, republicanos, por conseguinte, os ver-
dadeiros, os legítimos opportunistas, porque sentimos,
palpamos as necessidades da Patria e applicamos-lhe
prompto remedio; inopportunistas são essês que resistem
a uma lei imperiosa, por todos sentida; são esses que; pre-
tendem em vão amparar nos braços frageis um ruinoso
edificio, que se vai todos os dias esboroando, sem corres-
ponder aos interesses que se tranformam, ás necessidades
surgem; são os monarchistas.
E, entretanto, Cidadãos, ainda ha quem tenha [Link]-
30
rojo de chamar-nos utopistas e sonhadores. ¡Utopistas nós,
que discutimos, sem recuar uma linha, no terreno severo da pratica,
no campo exacto e positivo da sciencia! ¡Sonhadores nós,
que observamos attentamente o passado, que compulsa-
mos o presente e propomos as urgentes medidas que elle
reclama! Dizem que nós queremos arrastar paro o presen-
te uma ordem de cousas que está no futuro, que sonhamos
um estado inopportuno para nossa Patria. Admittamos que
isso seja exacto. Agora pergunto eu: quaes são os maio-
res sonhadores: ¿os que querem a todo o transe susten-
tar e perpetuar um presente imprestavel, que foge conti-
nuamente, - ou os que tractam de destruil-o? ¿Os que se
levantam para desenterrar um passado morto e apodre-
cido na poeira dos tempos, - ou os que pensam no futu-
ro, que, ao menos, será um dia uma luminosa realidade?
¿Os monarchistas ou os republicanos? (Muito bem, muito
bem.) Neste grande seculo, que abateu definitivamente as
soberanias de facto, para elevar as soberanias de direito,
‘nesta grande, ‘nesta vasta, ‘nesta bellissima e joven Ame-
rica, destinada a ser o refugio e o mais alevantado altar da
liberdade, - os sonhadores, os unicos sonhadores são os
monarchistas. (Applausos).
E esta faculdade de sonhar ingenuamente, esta pro-
pensão para viver em um sonho eterno tem produzido
varios effeitos singulares no modo de pensar dos nossos
inimigos. O principal d’elles e o mais notavel consiste em
acreditarem na chamada regeneração da Monarchia, em
acreditarem que se possa um dia concertar esta machi-
na desmantelada ja pela logica fatal das coisas. E’ partin-
do d’este descommunal absurdo que os monarchistas nos
querem convencer de que apropria Monarchia nos ha de
um dia fornecer os meios de fundar pacificamente a Repu-
blica, para a qual, dizem elles, ainda não chegou o tempo.
Dizem até mesmo, Cidadãos, que a Carta Constitucional,
que as leis organicas abrirão naturalmente passagem para
o definitivo assentamento da forma republicana. Isto, para
mim, não é mais do que um sophisma protelatorio, ou um
erro funesto, infelizmente alimentado ainda por muitos
correligionarios meus; erro que eu espero, entretanto, ver
31
muito breve abandonado por todos.
E’ para mim uma convicção profundíssima, filha de
largo estudo, e não dos ímpetos fogosos da mocidade, -
que, no estado actual das cousas, os meios puramente pa-
cificos, os meios legaes - nunca darão vida á Republica no
Brazil, e tenho, para pensar assim, os mais fortes motivos.
A propria índole do governo monarchico é, antes
de tudo, o primeiro obstaculo que empedirá sempre o ad-
vento normal de toda e qualquer instituição que lhe fira
os interesses, e principalmente da Republica. A Monarchia,
como ja vos disse, tem a velleidade de suppôr-se perpétua;
passar d’ella para a Republica é abater-lhe esta pretenção;
a Monarchia, por conseguinte, resistirá á Republica com o
desespero de quem defende sua propria vida.
Todas as instituições monarchicas, que poderosa-
mente influem na marcha da civilisação brazileira, parti-
cipam necessariamente d’essa indole malefica. Composto
de velhos, que dispõe de poderes vitalícios, e, alem de vi-
talicios, - irresponsaveis, surdos a todos os reclamos do
presente, e a todas as previsões do futuro, impressionados
fortemente pelas tradições do remoto passado que lhes foi
berço, - o Senado, que está, por um vicio fatal da Carta
Constitucional, armado do formidavel gladio reaccionario,
com o qual corta a cabeça a toda a reforma generosa que
se levanta no seio da Patria, o Senado, Cidadãos, será, um
inimigo perpétuo, uma perpétua muralha, de encontro á
qual se irá despedaçar toda a tentativa de reforma pacifica
radical.
O poder moderador é, segundo a linguagem servil
da Carta Constitucional, a chave de todos os outros poderes,
o primus inter pares. Este poder terrível é exercido priva-
tivamente pelo imperador; ora, a Republica é a morte, é o
desmoronamento do throno em que se assenta o impera-
dor; por conseguinte, o imperador, a menos que não queira
buscar o proprio suicidio, a menos que não seja inepto, -
resistirá sempre á Republica, armado da lei.
UMA VOZ: - O povo o obrigará.
O ORADOR: - E’ onde eu quero chegar.
32
Ha, Cidadãos, um quarto motivo ainda, que me
faz desesperar completamente de se poder jamais, pelos
meios pacificos, pelos meios legaes, dar entrada á Republica
em nossa Patria: entendo que as reformas de que depen-
de qualquer progresso para a liberdade, a reforma de que
depende a mudança da forma de governo, que é o mais
essencial de todos os progressos, as reformas chamadas
constitucionaes - não se podem realisar, segundo a lettra
expressa da Carta, sem a intervenção do Senado e do im-
perador (Sussurro).
Esta opinião tem sido asperamente combatida por
muitos homens bem intencionados, no louvavel proposito
de arrancar ás mãos do rei parte do seu poder absoluto de fac-
to; a verdade entretanto apparecerá em toda a sua nudez
desde que compulsemos a lettra da lei. Para mim é questão
vencida. Diz a Carta Constitucional que, tractando-se de
uma reforma ‘nestas condicções e sendo acceita a necessi-
dade de tal reforma (lê): «Art. 177. - Na seguinte legislatura,
e na primeira sessão, será a materia proposta e discutida,
e o que se vencer prevalecerá para a mudança ou addição
á lei fundamental, e, juntando-se á Constituição, será so-
lemnemente promulgada.» Cidadãos, eu não quero nem posso
demorar-me ‘nestas considerações; quero apenas constatar
este facto, que considero importantíssimo. Serei breve. (lê)
.... na seguinte legislatura .... na primeira sessão .... Pergunto
eu: ¿O que é uma legislatura? ¿O que é uma sessão? Res-
ponda o artigo 17: (lê) «Cada legislatura durará quatro an-
nos; cada sessão annual quatro mezes.» A reunião, pois, da
assembléa geral durante quatro mezes é uma sessão; con-
siste a legislatura nos trabalhos durante quatro annos da
mesma assembléa geral. A assembléa geral consta das duas
camaras, da dos deputados e da dos senadores, segundo o
artigo 14. Ora, si a reforma de que tracta o artigo 177 deve
ser discutida na seguinte legislatura e na primeira sessão;
si estas palavras, legislatura e sessão, referem-se ás duas
camaras simultaneamente; segue-se que as duas camaras
intervirão na reforma; mas o Senado é uma d›estas duas ca-
maras; logo o Senado intervirá. Mas - dizem os que comba-
tem esta conclusão tão logica e tão clara - a Constituição
33
positivamente declara que os eleitores conferirão poderes
especiaes aos deputados, poderes que não conferem aos
senadores. Nada mais facil de responder: E’ porque a Carta
entende que os senadores não precisam de taes poderes
especiaes, ou, então, que ja os têm implicitos no manda-
to vitalicio. Demais, segundo a doutrina constitucional,
não ha lei sem a approvação das duas camaras e a sanção
do imperador: (lê) Art. 13. - «O poder legislativo é delegado a
assembléa geral, com a sancção do imperador. » Em parte al-
guma a Carta faz excepção a esta regra; pôr conseguin-
te, as reformas constitucionaes tambem estão subjeitas a
ella. Diz ainda o artigo 177 que, depois de approvada a lei,
será solemnemente promulgada. A forma da promulgação
solemne aqui está no artigo 69 (lê): «Art. 69. Dom (N), por
graça de Deus.... etc. fazemos saber.... etc. que a assem-
bléa geral decretou e nós queremos a lei seguinte.... etc. »
A assembléa geral, repito, compõe-se das duas camaras: o
imperador declara que sancciona; logo - o Senado e o im-
perador entram na formação das leis constitucionaes.
Eis ahi a verdade, Cidadãos. A verdade é que toda a
reforma que ‘nesta terra tentar levantar um padrão de li-
berdade, toda a reforma radical terá forçosamente de pas-
sar pela guerra do Senado e do rei, terá de ser mutilada e
abatida.
Supponhamos, entretanto, que toda esta argumen-
tação seja falsa; supponhamos que o rei e o Senado não te-
nham de intervir nas reformas constitucionaes, e que estas
devam ser feitas apenas pela camara dos deputados. Vós
sabeis que esta camara é feita pelas bayonetas de um mi-
nisterio pratocinado pelo imperador que pode isemptal-o
de qualquer responsabilidade; este ministerio é livremen-
te escolhido pela vontade do imperador; o ministerio faz a
camara; a camara faz lei; esta, filha da subserviencia, não
póde traduzir-se em uma reforma no sentido de estabe-
lecer a liberdade. Supponhamos, porem, ainda que a ca-
mara fosse bastante independente e os ministros bastante
honestos para não soffrerem a pressão do mandão. Ainda
assim, o imperador, com um unico traço de penna, sem
34
prestar contas a ninguem, - ¡póde enxotar o ministerio e
despedir a camara! Ora, uma camara dissolvida não faz lei;
portanto esta será feita por outra camara eleita ao sabor
do imperador, ou, melhor - o imperador é quem faz a lei.
Tudo isto encontra-se (mostrando a Constituição) ‘beste
papel sujo que chamam - Constituição brazileira. (Palmas:
prolongados applausos).
Cidadãos, á vista d’estes factos irrecusaveis, á vista
d’esta demonstração talvez fastidiosa, (Não apoiados) mas
certamente muito exacta, argumentação, que não deixa
rhombo por onde possa penetrar o inimigo, me parece que
a triste verdade, que a tristíssima consequencia é que os
meios brandos, que a vontade mansamente manifestada do
Povo, que é o unico soberano legitimo, - não são capazes
de fazer nada digno da liberdade, ‘neste pobre paiz. Ou nós
seremos perpetuamente ingenuos, ou havemos de appellar
para o unico meio que nos resta; tomar pela carreira unica
que temos diante de nossos passos; onde não nos poderão
impedir os raios que suspende na dextra o tonante; deve-
mos seguir pela carreira que se abre toda a vez que se le-
vanta o vulcão da consciencia nacional no seio oppresso do
Povo; onde as forças dos despotas se abatem; porta unica
aberta aos soldados da liberdade; devemos tomar pela car-
reira da Revolução (Calorosos applausos).
Cidadãos, ainda quando a Revolução fosse tão bar-
bara, tão feroz, como a pintam os seus inimigos, - ella não
deixaria por isso de ser o ultimo recurso, o recurso extre-
mo d’aquelles que desesperam da justiça estabelecida; nem
ha injustiça, toda a vez, que se tracta de firmar apropria
justiça. Accusam-nos de querermos a guerra, e dizem que a
guerra é contraria á Democracia. ¡Sim! queremos a guerra,
mas a guerra que extingue a guerra, a guerra que consolida
a paz.
Dizem que a Revolução, que o emprego da força é
incompativel com a Republica, incompatível mesmo com
as prescripções da sciencia. Entendamo-nos, Cidadãos.
Esta palavra Revolução é tomada em dois sentidos, em duas
accepções diversas. Segundo cada uma d’estas accepções
35
o seu fim é diverso tambem. Uma é injusta, outra é justa;
uma é perturbadora, outra é humanitaria; uma é arbitraria,
outra é scientifica. A Revolução ou se manifesta como uma
doutrina social, ou como um facto.
Como doutrina, ella consiste (eu serei breve, esta-
belecendo esta distincção) consiste em crear na phantasia
enferma uma chimera qualquer e querer, por força, accom-
modar a ordem real das cousas a essa chimera phantastica.
Os sectarios d’esta doutrina não compulsam os factos, não
medem a distancia que vai do real ao ideal, não palpam as
necessidades sociaes, rebellam-se com a maior insensatez
contra as mais intransgressiveis leis da evolução da socie-
dade. A profunda anarchia que caracterisa o estado actual
do mundo civilisado é producto exclusivo d’elles. São elles
que têm dado em terra com as liberdades publicas nas na-
ções em que ellas mais fortes se ostentavam. São elles que
têm aberto as mais dolorosas feridas por onde ainda hoje
sangra o peito da Humanidade. (Muito bem).
E’ cousa muito diversa a Revolução considerada
como facto. Eu chamal-a-ia de preferencia - Revolta, por-
que este termo me parece exprimir melhor a idéa, que a
ella se liga. E’ o exercício de um direito, a reivindicação, a
reacção da liberdade usurpada, a manifestação da vonta-
de soberana. O facto Revolução, a Revolta funda-se ‘nesta
verdade incontrastavel: - todo o direito tem de ser reco-
nhecido e garantido a todo o transe; quando os que têm o
dever de reconhecel-o não se submettem espontaneamen-
te, devem ser obrigados a curvar-se a elle. Uma idéa levan-
ta-se no seio de um paiz qualquer, lança fundas raízes em
todas as consciencias, torna-se uma aspiração nacional; o
governo, entretanto, d’esse paiz obstina-se em repellil-a,
contra a vontade geral do Povo; ‘neste conflicto, pergunto
eu, ¿quem deve ser o vencedor - o mandatario ou o man-
dante, o governo ou o Povo? Certamente deve vencer o
Povo, deve triumphar a nação, deve triumphar a soberania.
No facto de tornar effectivo este sagrado direito, contra a
vontade resistente dos despotas, é que consiste a revolta.
Vêde agora si têm razão aquelles que nos accusam
36
de rebeldes ás prescripções da sciencia, ( 3* ) de inimigos dos
sentimentos humanitarios, supremo ideal da Democracia.
A Revolução, assim comprehendida, é um facto naturalís-
simo, um poderoso auxilio do progresso, uma necessidade
fatal d’estes tempos, em que ha ainda infelizmente cegos
insensatos que pretendem travar as rodas ao carro da li-
berdade.
E’ a Revolução, a sim comprehendida, que tem pro-
movido os maiores beneficios para a Humanidade, esma-
gando os despotas de todos os tempos; é ella que tem ale-
vantado a consciencia de todos os povos que mais altos
se ostentam hoje; é ella o ultimo appello dos que se vêm
perseguidos pela lei, mas amparados pelo direito; será ella
tambem, amanhã, o acto solemne da redempção d’este
grande Povo brazileiro, por tanto tempo amesquinhado,
esmagado ás plantas de uma tyrannia çovarde. (Applausos).
Eu tenho fé, Cidadãos, que esta nossa bellissima; que esta
nossa estremecida Patria ha de um dia fatigar-se de soffrer
sobre a candida serviz, o jugo aspero da escravidão. No dia
em que apparecer a descoberto o vulto hediondo do des-
potismo, que se occulta hoje nos antros da hypocrisia; no
dia em que na porta d’esse parlamento, onde parece estar
gravado o sombrio verso do Damte
Per me si va tra la perduta gente,
FIM
4 *
O Orador não ouvio este aparte.
38
O sistema político castilhista-
borgista na Primeira República
gaúcha
René E. Gertz1
40
que eu incluo na minha chapa de candidatos a deputado,
por exemplo, e nós vamos conviver”. Por isso, até o final da
Primeira República, em 1930, vamos ter uma “ala católica”
dentro do Partido Republicano Riograndense – Englert e
Kroeff são dois sobrenomes bastante conhecidos de depu-
tados estaduais representativos dela.
Esta aliança se fortaleceu a partir de 1912, quando
Dom João Becker assumiu o arcebispado de Porto Alegre.
Um ex-colega meu da PUCRS, Artur Cesar Isaía, escreveu
um livro, anos atrás, Catolicismo e autoritarismo no Rio
Grande do Sul, onde descreve este processo de aprofun-
damento da aliança, agora não mais sob a batuta de Júlio
de Castilhos, mas de Borges de Medeiros. Na interpretação
dele, essa aproximação se deu, basicamente, por afinida-
des ideológicas e programáticas. Mesmo que, oficial e en-
faticamente, o positivismo fosse a ideologia que orientava
o castilhismo-borgismo, e apresentasse aspectos que não
se coadunavam muito com o pensamento católico, de fato
se registrou uma convivência muito estreita, até o fim do
período indicado. Inclusive, em 1928, em um famoso episó-
dio sobre o qual escrevi em um livro chamado O aviador e o
carroceiro, registrou-se uma disputa muito acirrada entre
os “republicanos” municipais para a indicação de candida-
to à eleição a intendente (prefeito) de Montenegro. Bor-
ges de Medeiros, que ainda era o chefe do partido, apesar
de Getúlio Vargas já ser o governador do estado, decidiu,
em comum acordo com este, colocar como candidato al-
ternativo uma pessoa de fora do município, para terminar
com a dissenção partidária local, e escolheu para isso Egy-
dio Hervé, engenheiro, professor na Escola da Engenha-
ria, hoje da UFRGS, e também funcionário da prefeitura de
Porto Alegre.
Acontece que ele tinha dado uma trombada com Al-
berto Bins, militante católico, que então era o prefeito da
Capital, e foi demitido. Hervé, portanto, estava desempre-
gado. Borges e Getúlio decidiram que ele seria o candidato
do partido em Montenegro. Acontece que Egydio Hervé
era um muito conhecido líder espírita, e opositor declara-
41
do da Igreja Católica. Isso gerou grandes dificuldades em
Montenegro.
Havia, inclusive uma questão formal a atormentar
a consciência dos cristãos católicos de Montenegro. Em
1915, os bispos do Brasil meridional haviam lançado uma
Carta Pastoral Coletiva, na qual, no item 1476, diziam o se-
guinte: “eleitores que sufragarem candidatos inimigos de-
clarados da Igreja, não podem escusar de pecado grave”. E
este era o problema do eleitorado católico de Montenegro.
Dom João Becker, não lembro os detalhes, mas – se estou
correto – recorrendo ao Corpus Iuris Canonici, encontrou
uma brecha para o caso, e a manutenção da amizade com
Borges de Medeiros e a aliança com o mundo político “re-
publicano”, decretando que não era pecado votar em Egy-
dio Hervé, em Montenegro. E ele acabou sendo eleito.
Em 1929, já no contexto da preparação da eleição
presidencial de 1930, com Getúlio Vargas como candida-
to, Dom João Becker colocou na lista de candidatos a de-
putado do Partido Republicano Riograndense o conhecido
monsenhor Nicolau Marx, o qual, inclusive, patrocinou um
famoso incidente em Aparecida. O clero católico nacional
tinha muito receio em relação a Getúlio Vargas, um ateu
que tinha dado o nome Lutero ao filho mais velho. Monse-
nhor Marx saiu em defesa enfática do governador gaúcho,
insistindo que era um ótimo cristão católico.
Essa prolongada digressão sobre os “católicos”
teve como objetivo mostrar como o castilhismo-borgismo
se consolidou na condição de dominante na política sul-
-rio-grandense, durante os 40 anos iniciais da República,
incluindo o estabelecimento de uma sólida e duradoura
aliança com aqueles que, em tese, deveriam ter sido seus
inimigos natos.
E é sobre este regime, tão consolidado, tão duradou-
ro, que vou fazer agora uma rápida resenha historiográfica.
Quando falo em historiografia, não falo só da historiogra-
fia acadêmica. Gosto muito da expressão de um amigo da
Universidade de Passo Fundo, Astor Diehl, “cultura histo-
riográfica”. Ou seja, não se trata só daquilo que historia-
42
dores profissionais disseram ou escreveram, mas também
daquilo está na mentalidade de outras pessoas “comuns”
sobre a História, de como ela transcorreu. E a importância
de tudo isso está no fato de que essas concepções e for-
mas de enxergar têm efeitos sobre a prática, não só sobre
a avaliação normativa das pessoas, mas sobre suas opções
políticas, aqui e agora.
A primeira referência historiográfica que faço é em
relação a Décio Freitas, um historiador não profissional
(era jurista), mas uma pessoa que produziu bastante coisa
sobre História. E ele escreveu um livro chamado O homem
que inventou a ditadura, que é uma condenação de Júlio de
Castilhos e do sistema castilhista-borgista.
Uma outra linha historiográfica diz algo diferente,
sem necessariamente fazer uma avaliação sobre “bom” ou
“mau”, mas destacando o caráter sui generis do castilhis-
mo-borgismo. Trata-se, de novo, de um jurista, Sérgio da
Costa Franco. Em um artigo famoso, de 1967, escreveu mais
ou menos o seguinte: “no Rio Grande do Sul foi diferente
que no restante do país, uma coisa tão marcante da política
nacional durante a Primeira República (1889-1930) quanto
o coronelismo aqui não pegou chão”. Essa ideia de que o
Rio Grande do Sul foi diferente, sobretudo naquilo que tan-
ge ao “coronelismo”, foi duramente criticada por dois co-
legas historiadores acadêmicos, Loiva Otero Félix e Gunter
Axt, dizendo, que essa classificação de “diferente” não faz
qualquer sentido, que é uma forma de engodo, que, na ver-
dade, a situação no estado é igual ao restante do país, e
assim por diante.
Em uma próxima etapa, uma pessoa que, na época,
trabalhava na Fundação de Economia e Estatística (FEE),
Luiz Roberto Targa, recuperou um autor que escreveu um
livro na década de 1970 chamado São Paulo e o Estado Na-
cional, Simon Schwartzman, cientista político. Schwartz-
man fez uma divisão política do Brasil em quatro regiões.
O Rio Grande do Sul seria uma delas, e apresentaria ca-
racterísticas muito específicas, que, sim, seria “diferente”.
Simplificando ao máximo, no estado sulino, a política não
43
seria simples reflexo das condições do mercado, ou seja, o
poder político não corresponderia puro e simplesmente ao
poder econômico, gozaria de considerável autonomia em
relação a ele – pensando um pouco mais adiante, o Estado
exerceria algum grau de soberania em relação à “sociedade
civil”, deixando de ser uma pura “representação” dela, ou,
numa outra perspectiva, o Estado aqui exerceria uma “co-
optação” sobre ela; quem estivesse inspirado numa visão
marxista poderia dizer que no Rio Grande do Sul o Estado
não exerceria uma simples função de “comitê executivo da
burguesia”. Mas que ninguém se engane, esta situação não
recebe uma avaliação positiva de Schwartzman. Para ele, a
ausência – ou ao menos a fragilidade – da “representação”,
e o predomínio da “cooptação”, constituem um empecilho
para o desenvolvimento de um sistema político moderno.
É interessante observar aquilo que Targa – autor de
uma tese de doutorado sobre este tema, na França – fez
com a afirmação de Schwartzman. Ele diz mais ou menos o
seguinte: “Sim, o Simon Schwartzman diz que o Rio Gran-
de do Sul é diferente, só que dá uma conotação negativa a
essa diferença”. De fato, segundo Schwartzman, São Paulo
– daí o título do livro: São Paulo e o Estado Nacional – é o
estado mais moderno da federação brasileira, mas foi sub-
jugado, em 1930, por Getúlio Vargas, na verdade, pelo Rio
Grande do Sul, e São Paulo está lá em baixo até hoje. São
Paulo nunca mais conseguiu se recuperar, nunca conse-
guiu fazer-se presente no cenário nacional, na proporção
de sua importância socioeconômica. São Paulo foi invadido
em 1930, em 1932 recebeu uma nova pancada, e nunca mais
se recuperou, nunca mais conseguiu fazer um presiden-
te da República (o livro é da metade da década de 1970).
Portanto, em 1930, o sistema castilhista-borgista gaúcho
conseguiu impor-se ao Brasil todo, e lá está, com seus es-
tragos, agora não mais restritos ao estado de origem, o Rio
Grande do Sul, mas afetando o país como um todo.
Outro “intérprete do Brasil”, mais um jurista, apre-
senta claras afinidades eletivas com a visão de Schwartz-
man. Trata-se de Raymundo Faoro, em Os donos do poder,
44
famoso livro no qual, interessantemente, a Primeira Re-
pública, no Brasil em geral, não é vista necessariamente
como momento negativo de nossa história nacional, com
seu suposto abominável domínio oligárquico. Para Faoro, a
Primeira República abriu a possibilidade da construção de
uma “sociedade civil”, da configuração de classes sociais,
em confronto, fato que, provavelmente, teria levado, mais
adiante, à instauração de um Estado moderno no país, para
acabar com o Estado patrimonial, uma das principais cau-
sas de nosso subdesenvolvimento. Neste sentido, é muito
sintomático o título do capítulo final deste extenso livro
(mais de 1.000 páginas), “a viagem redonda”. Ele deriva da
convicção de Faoro de que o Estado patrimonial é um de-
feito que esteve presente durante todo o período colonial e
imperial, mas, em nível federal, começou a ser desmontado
durante os primeiros 40 anos da República. Infelizmente, o
gérmen desse mal teria sobrevivido no Rio Grande do Sul,
de onde foi reinstaurado no restante do país, com a Revo-
lução de 1930 – e voltamos à estaca zero!
Aqui entram agora as considerações de Targa. Ele, ao
contrário das posições críticas de Faoro e de Schwartzman,
diz que nós devemos recuperar a diferença que o Simon
Schwartzman apresenta como negativa, para transformá-
-la em uma coisa muito positiva, até salvífica para o país.
Vou citar só um pequeno trecho: “é evidente para qualquer
pessoa de bom senso, seja ela um sul rio-grandense, seja
um outro brasileiro, que o mundo do sul, mesmo hoje em
dia, continua sendo muito distinto dos demais mundos
brasileiros e muito mais do que eles estão entre si. Porque
é no Rio Grande do Sul que surge uma ideologia e uma
forma de governar, que depois se transfere para o Brasil
como um todo, com Getúlio Vargas, a partir de 30”.
Mas não é tanto Targa que eu critico na minha ci-
tada resenha, e, sim, um colega alemão que se chama Jens
Hentschke. Recupero uma questão comparando Alemanha
e Rio Grande do Sul. Na historiografia alemã, está muito
presente a famosa palavra Sonderweg, que utilizo no tí-
tulo de minha resenha, isto é, um caminho (uma maneira)
45
peculiar da constituição do Estado alemão. Na historio-
grafia e na ciência política brasileiras, é mais conhecida a
expressão “via prussiana”.
Para uma intelectualidade alemã crítica, o conceito
e a realidade ligada ao Sonderweg constituem um pesade-
lo, pois esta realidade não só teria dificultado a instaura-
ção de uma democracia liberal na Alemanha, como teria
aberto o caminho para o nazismo. Um conhecido historia-
dor alemão, Jürgen Kocka, escreveu, quando caiu o muro
de Berlim, no jornal Zeit, um semanário muito importante
na Alemanha, algo como: “não me venham com um novo
Sonderweg”, com um novo caminho peculiar, após a reu-
nificação, após a queda do muro, “nós somos ocidentais e
queremos ser ocidentais e, portanto, nós não queremos ter
nenhum padrão especial”.
Minha estranheza com o Jens Hentschke é que ele,
como historiador alemão, escreveu um livro enorme, de
723 páginas, sobre o Estado Novo no Brasil (1937 a 1945),
onde diz mais ou menos o seguinte: “glorioso o Brasil pela
existência do Rio Grande do Sul, porque tudo começou lá”,
é lá que surgiu e de lá se espalhou para todo o Brasil a es-
tatolatria que domina amplos setores da população bra-
sileira. A PUCRS publicou, em 2015, a tradução de outro
livro dele, Positivismo ao estilo gaúcho: a ditadura de Júlio
de Castilhos e seu impacto sobre a construção do Estado e da
Nação no Brasil de Getúlio Vargas, ou seja, a glorificação do
Sonderweg, do caminho peculiar do Rio Grande do Sul. Na
opinião de Hentschke, uma situação que deve ser festejada
– uma afirmação que, em meu modo de ver, infelizmente,
está muito presente na atual historiografia brasileira do-
minante.
Nós temos, por exemplo, um historiador chamado
Jorge Ferreira, que é um pesquisador importante sobre o
período republicano brasileiro, e que retoma isso. Refe-
rindo ao grande discípulo de Júlio de Castilhos chamado
Getúlio Vargas, escreveu, em um livro intitulado Trabalha-
dores do Brasil: o imaginário popular (1930-1945): “Não há
propaganda que transforme um personagem em líder polí-
46
tico, em figura lendária, sem realizações que afetam a vida
material e simbólica dos homens e mulheres que o reve-
renciaram. O reconhecimento político e a valorização sim-
bólica que os trabalhadores dedicaram a Getúlio Vargas,
bem como a permanência de seus efeitos e realizações na
memória popular por tanto tempo, não podem ser apenas
reduzidos a uma eficiente máquina de fabricar mitos”. O
problema que enxergo nesta afirmação é que não encon-
tro argumento racional para não aplicá-la também a Adolf
Hitler.
Para terminar, eu diria que essa questão ainda fica
mais problemática na medida em que há uma convergência
pela direita e pela esquerda em relação a essa avaliação. Eu
não vou avançar, aqui e agora. Em minha resenha, avancei
até Luiz Inácio Lula da Silva, quando ele, em determinado
momento, disse: “o último, antes de mim, que fez a coisa
certa se chamou Ernesto Geisel” – ou seja, mesmo que Gei-
sel, eventualmente, tenha mandado prender o metalúrgico
Lula, ele foi bom por ter turbinado o “Estado forte”.
Sem aprofundar situações de um passado mais re-
cente, refiro aqui apenas uma situação, um pouco mais re-
cuada, da década de 1950. Neste momento, se criou uma
escola de esquerda para pensar o Brasil, o Instituto Supe-
rior de Estudos Brasileiros (ISEB). Já havia, desde o final da
década de 1940, a ESG, a famosa Escola Superior de Guer-
ra, considerada um local de elaboração de um pensamento
claramente conservador, de direita. E o ISEB tentou reunir
justamente a esquerda, a esquerda em um sentido amplo,
desde Cândido Mendes, digamos assim, um cristão pro-
gressista, até um marxista ortodoxo como Nelson Werneck
Sodré.
De todos eles, eu só quero pinçar uma pessoa que se
chamava Alberto Guerreiro Ramos. Ele, em 1961, publicou
um livro chamado A crise do poder no Brasil, que, na pri-
meira parte, reúne artigos que já tinha publicado em outro
lugar, e, na outra parte, basicamente textos sobre a elei-
ção de Jânio Quadros. Na primeira parte, republicou um
artigo sobre o pensamento político-social brasileiro, tra-
47
tando, sobretudo, das décadas de 1920 e 1930, isto é, do
entorno da Revolução de 1930. Ali interessa aquela parte
do texto que trata daquilo que Bolivar Lamounier, num ca-
pítulo clássico do volume IX da História geral da civilização
brasileira, editada por Sérgio Buarque de Holanda, chamou
de “ideologia de Estado”. A trindade famosa representati-
va desta ideologia é composta por Oliveira Viana, Azevedo
Amaral e Francisco Campos.
Interessante é que o esquerdista Guerreiro Ramos
escreveu que, ao ler os trabalhos de Azevedo Amaral, um
daqueles ideólogos muitas vezes classificados de “proto-
fascistas”, defensores da ditadura do Estado Novo brasi-
leiro, ninguém pode negar que ele foi um dos mais lúcidos
analistas a destacar que o Brasil só teria conserto com um
“Estado forte” a comandar o processo, pois sua “sociedade
civil” seria, por razões históricas, invertebrada, “ameboide”
(esta última expressão não é de Azevedo Amaral nem de
Guerreiro Ramos, mas de Bolivar Lamounier). O esquerdis-
ta Guerreiro Ramos, portanto, dá aval e valoriza um pensa-
mento claramente de direita, antiliberal.
Luiz Roberto Targa certamente também não se con-
sidera de direita, mas igualmente glorifica Júlio de Casti-
lhos e seus sucessores pelo “Estado forte” implantado e
consolidado no Rio Grande do Sul. Neste caso, inclusive, a
violência praticada durante a Revolução Federalista (1893-
1895) foi expressamente endossada, até festejada, porque,
supostamente, garantiu a sobrevivência deste projeto sal-
vífico, e sua posterior expansão para todo o país. O autor
foi claro: “a ditadura [então] instalada pelos positivistas
possui[u] a função necessária de afastar a oligarquia tradi-
cional do poder regional”.
Conforme prometido, não fiz nenhuma única afir-
mação sobre Assis Brasil, mas tentei delinear algumas con-
sequências de sua derrota, quando o projeto de seu cunha-
do Júlio de Castilhos saiu vitorioso, e ele teve de passar
para a oposição.
Agradeço pela atenção com que me ouviram.
48
Desembargador Gerson Fishmann: Queria agrade-
cer e cumprimentar o professor pela brilhante exposição.
Recebemos a virtude da Universidade Federal do Rio Gran-
de do Sul em um momento importante da nação, e como
esses fatos pretéritos estão muito próximos, presentes,
para nós avaliarmos o contexto.
49
Da propaganda republicana à
dissidência: redes de solidariedade
e estratégias de inserção sócio-
política a partir da trajetória de
J. F. de Assis Brasil
Tassiana Saccol1
54
mou o seguinte:
60
Desembargador Gerson Fishmann - Queria agrade-
cer à professora Tassiana, que traz elementos interessan-
tes, como o trabalho intelectual daquela época era também
artesanal, o ponto da importância da própria tipografia e o
peso das relações. De imediato, então, e para concluir essa
nossa primeira mesa, vou passar a palavra para o professor
Paulo Visentini e o tema será O Rio Grande do Sul, a políti-
ca nacional e Joaquim Francisco de Assis Brasil
61
O Rio Grande do Sul, a política
nacional e Joaquim Francisco de
Assis Brasil: ascensão e queda do
liberalismo regenerador
Paulo Visentini1
63
tempo de convívio prático da política para que ele se sepa-
rasse desse grupo e fizesse oposição, a partir de uma das
coisas que eu mais respeito nele, a possibilidade de ficar
sozinho, contra tudo e contra todos, defendendo, com co-
erência, as suas opiniões. Eu acho esse um traço humano
pessoal da mais alta relevância e que nos dias de hoje faz
muita falta, infelizmente.
A colega já se referiu a um afastamento do grupo do
PRR logo no início da República. O Rio Grande do Sul tinha
algumas características próprias. Nós estávamos passando
por uma grande transformação socioeconômica, porque
até então o estado tinha, exatamente na região deprimida
de hoje, que é a metade sul, a região mais próspera, mais
rica, onde estava a pecuária e o poderoso Partido Liberal.
Ele foi muito forte ao longo do século XIX, e que ainda teria
muita força como oposição na República.
O Rio Grande do Sul teve uma implantação da Repú-
blica absolutamente peculiar. Primeiro, pela existência de
um partido dominante, que tinha uma doutrina absoluta-
mente diferente da que existia antes, e um partido que de-
tinha traços “leninista”, que não aceitava adesão de pessoas
que há três meses antes estava defendendo o Império. Era
muito intransigente o grupo do de Castilho e os demais
republicanos positivistas. E por outro lado, além de termos
uma constituição diferente das demais, nós tivemos na-
quele momento uma oposição que era ainda a mais rica, a
mais poderosa, mas que não foi incluída no sistema políti-
co, foi completamente excluída. E houve então uma guerra
civil sangrenta aqui no estado, a revolução de 1893 a 1895.
E não encontramos paralelo a isso em termos de uma re-
alidade estadual na qual uma república, que era absoluta-
mente federal, no sentido mais estrito do termo na época.
Os estados tinham grande autonomia, e não houve outro
caso assim na implantação republicana brasileira.
Como foi lembrado também pela colega que me an-
tecedeu, Assis Brasil teve, durante esse período de desgos-
to com a vida política, a oportunidade de prestar um gran-
de serviço ao país como diplomata. Eu recordo bem, no
64
Castelo de Peras Altas, os inúmeros objetos trazidos desses
países onde ele serviu e teve missões diplomáticas. Além
de ter algo absolutamente encantador, que é uma bibliote-
ca fantástica, com livros inclusive da renascença em edição
original, livros do século XV, XVI, verdadeiras raridades, li-
vros de anatomia do século XIX, que tinham uma capa de
madeira e cadeado com chave para que alguém menor de
idade, não pudesse olhar umas imagens como aquelas que
havia dentro. Tudo era mágico e encantador para um jo-
vem historiador.
Por volta de 1907 Assis Brasil retornou. Vai construir
o Castelo de Pedras Altas e retorna à vida política apoian-
do Fernando Abott contra o grupo borgista, que preten-
dia mais um mandato. Evidentemente que não conseguiu,
existia uma máquina política oficialista que funcionava
muito bem. E essa situação só vai se alterar com o final
da Primeira Guerra Mundial. A grande demanda que hou-
ve por produtos agropecuários exigiu investimentos muito
grandes dos produtores. E quando a guerra acabou estava
começando o período de amortização desses investimen-
tos e era o período em que a demanda por esses produtos,
principalmente a carne frigorificada, caiu muito. E a atitu-
de que o governo do estado tinha, por razão doutrinária,
era não auxiliar um setor específico.
De fato, isso criou uma situação muito difícil no es-
tado, que já existia no país também, e no mundo. O mun-
do havia mudado, havia acontecido a matança da Primeira
Guerra, a desestruturação da ordem mundial e inclusive
a revolução soviética. Não posso deixar de traçar alguns
paralelos. Mas entre a posição que Assis Brasil tinha, com
a posição de Rui Barbosa, embora de uma outra geração,
tinha também. Rui Barbosa chegou dizer nessa época, no
início dos anos 1920, que ele como liberal se sentia mui-
to mal, porque o seu objetivo liberal era fazer críticas aos
sistemas autoritários que existiam. Mas agora, se ele fosse
criticar demais o sistema que existia, ele podia estar con-
tribuindo para um sistema pior ainda, que era o comunis-
mo; é a chamada “angústia liberal” de Rui Barbosa.
65
Talvez Assis Brasil operasse de uma forma muito
mais pragmática e ligada à sua realidade naquela época.
Essa situação se agravou porque Borges de Medeiros não
apoiou a candidatura oficialista de Arthur Bernardes à pre-
sidência da República. Apoiou Nilo Peçanha, o que poderia
levar à possibilidade de o Rio Grande do Sul ser castigado,
justamente porque havia o reconhecimento dos deputados
eleitos pelo Congresso, onde poderia haver o “processo
de degola”. Os partidos dos estados que apoiaram candi-
dato de oposição corriam o risco de a comissão eleitoral
invalidar a bancada inteira, argumentando que seus votos
eram nulos e outros deputados eram convocados. Havia
essa possibilidade, mas o Rio Grande do Sul era um estado
poderoso, bem armado e muito bem visto pelos militares e
não seria algo tão fácil de fazer.
Mas isso permitiu que os antigos liberais do Impé-
rio, articulados agora como Partido Federalista, pudes-
sem se unir a esses dissidentes republicanos. A máquina
autoritária e centralizada do governo do PRR foi produzin-
do dissidências ao longo do tempo. Desde uma dissidência
mais ideológica, de princípios, como a de Assis Brasil, lá
no início, como outras dissidências que se deram simples-
mente porque, como dizia César, “cada vez que eu apon-
to uma pessoa para um cargo, eu crio nove inimigos e um
ingrato”. Ou seja, havia muitos que, simplesmente por não
terem conseguido lugar na máquina, ficavam ressentidos e
partiam para a oposição. É muito comum isso, até os dias
de hoje e assim será no futuro.
De fato, foi apresentada uma candidatura em 1922,
que coincidia exatamente com a candidatura liderada por
Assis Brasil, que conseguiu reunir em uma frente esses
dois grupos para apoiá-lo contra o Borges. Isso coincidia
com uma situação de crise socioeconômica, como vimos,
de continuísmos já sem muita criatividade, por parte do
regime e uma crise nacional muito grande. O ano de 1922
viria a ser o ano do primeiro levante tenentista, da Semana
de Arte Moderna, da fundação do Partido Comunista e o
ano em que os católicos vão começar a se reorganizar no
66
centro Dom Vital, que vai ser uma força importante. Há um
conjunto de fatos que marcam muito aquele ano e o gover-
no de Arthur Bernardes vai começar instaurando o estado
de sítio, que vai perdurar por quase todo o seu mandato.
As eleições mais uma vez confirmaram Borges de
Medeiros, embora tenha havido um incidente, porque os
flashes da foto que ia ser tirada na cerimônia de posse do
eleito explodiram e incendiou uma cortina do Palácio. O
fogo foi debelado rapidamente, mas foi dado como sinal de
mau agouro. De fato, no fim da cerimônia já corria a notícia
de que os maragatos, como haviam sido chamados, haviam
se rebelado em armas contra o governo.
Segue-se a revolução de 1923, Assis Brasil vai para
o Rio de Janeiro, não só para fugir dos combates, pois ele
estava lá juntamente para exercer algum tipo de atividade
política junto ao governo federal, para que fizesse uma in-
tervenção no Rio Grande do Sul. Ou seja, aquilo que talvez
por meios ordinários o presidente não pudesse fazer com
relação ao Rio Grande do Sul, por ser um estado que tinha
um capital político muito mais forte que outros menores,
ele poderia talvez fazer em um processo de mediação ou
até de intervenção no estado por causa da sua guerra civil.
E, de fato, o resultado da guerra civil, com o Acordo de Pe-
dras Altas, que foi assinado em dezembro de 1923, colocou
alguns limites ao poder em termos do que então existia.
Como vai ter pessoas que vão falar especificamente
sobre aspectos políticos eleitorais, as formulações jurídi-
cas que ele fez, o que eu mencionei aqui estava lá entre
os papéis de Assis Brasil, que pesquisei. A Justiça Federal
existira durante um tempo e depois fora extinta e naque-
la época não tinha um grande arquivo. Quando terminava
o processo, as partes levavam o processo embora. Então,
eu coloquei como anexo do meu livro, infelizmente, não
tínhamos na época scanner, uma cópia do processo que o
Assis Brasil moveu na Justiça Federal contra o Borges de
Medeiros em relação ao processo eleitoral, isso estava em
um dos tais baús no porão do Castelo de Pedras Altas.
Assis Brasil, voltando, vai criar e consolidar uma
67
frente oposicionista através da sua transformação, em 1924,
a Aliança Libertadora. Mas a situação política não estava
pacificada, pois o Rio Grande do Sul teve novos levantes.
Em 1924 houve a revolta tenentista e levantes remanescen-
tes em 1925, que acabaram contribuindo para a formação
da Coluna Prestes. Mas é interessante que nesses levantes
estavam elementos militares dissidentes e representantes
dessa oligarquia pecuarista da fronteira, de inspiração li-
beral.
Aqui há um ponto interessante, porque em 1927 foi
criado o Partido Democrático, em São Paulo, um partido de
oposição, um partido agrarista e com um programa muito
semelhante ao da Aliança Libertadora do Rio Grande do
Sul. Na criação desse outro partido Assis Brasil teve uma
atuação muito intensa. Na sequência, foi criado em 1928 o
Partido Democrático Nacional, que era, basicamente, uma
federação de partidos, principalmente dos libertadores do
Rio Grande do Sul e dos democratas de São Paulo. E, na
maioria dos estados, nos grandes centros urbanos, havia
núcleos de liberais que faziam oposição e que agora encon-
travam um canal de expressão. Assis Brasil foi presidente
desse partido. Ele aproveitou para transformar a Aliança
Libertadora no Partido Libertador, fazendo com que efe-
tivamente os maragatos históricos se fundissem com os
democratas e criassem um grupo coeso e articulado no Rio
Grande do Sul. E não por nada o lema de todas essas forças
era “Representação e Justiça”.
Só que em 1928 Getúlio Vargas, um homem amado
e odiado, mas jamais ignorado, assumiu o estado do Rio
Grande do Sul depois de já ter tido algumas experiências
no governo federal como Ministro da Fazenda. Vargas
promoveu uma pacificação política do Rio Grande do Sul,
criando espaço para atuação dessa oposição, acabando
com as perseguições e criando um programa econômico
na base dos sindicatos patronais que contentavam, como
classe, esses elementos da oposição. Ele conseguiu, de al-
guma maneira, reunir essas forças políticas com foco em
um projeto nacional adiante. De fato, o Assis Brasil que em
68
1922 queria usar o governo federal para alterar a situação
política no Rio Grande do Sul, no final da década já estava
trabalhando em uma direção completamente oposta. Ou
seja, ele estava aproveitando a unificação política do Rio
Grande do Sul, ou pelo menos o fim da oposição sistemáti-
ca, para alterar a situação no plano federal.
Talvez o que ele não tenha percebido era o “prag-
matismo” de Getúlio Vargas, que vai abraçar, inclusive,
essas bandeiras, que eram bandeiras muito atrativas, de
regeneração da República. O lema, “Representação e Justi-
ça”, ecoava com muita força na opinião pública, as palavras
certas que se queria ouvir, em uma época que não existia
marketing político. O que ele não percebeu, talvez, foi que
Getúlio, apesar de ser de São Borja, onde não há muitas
ondas, era um bom “surfista” da política, e ele vai surfar
nessa onda liberal, que era o que se queria ouvir. Inclusive
na sua campanha ele vai criar a Aliança Liberal para fazer
frente à candidatura de Júlio Prestes, candidato situacio-
nista. Mas os arranjos políticos de Vargas eram táticos, pois
ele possuía, desde o início, um projeto de desenvolvimento
e modernização. No PRR ele reverenciava Augusto Comte,
mas em sua biblioteca ele lia Saint-Simon, como constatou
Décio Freitas, quando jovem jornalista.
Agora, é importante dizer que esse liberalismo é um
liberalismo que vai estar fora de um foco temporal adequa-
do. Isso porque o Brasil caminhava, já havia muitos indícios
disso, para uma economia cada vez mais diversificada e te-
ria que ter industrialização. Já estava havendo uma certa
urbanização, e obviamente o espaço para que o país fosse
governado por coronéis estaduais já não tinha mais tanto
espaço. Ou seja, para fazer frente a isso, não esqueçamos
que estamos falando de um momento em que eclodiu a
crise de 1929 em Nova Iorque, a qual atingiu o Brasil. As
pessoas com que pude conversar na juventude, que eram
vivas e atuantes naquele momento, diziam assim, “a gente
até plantava, tinha animais, mas não se conseguia vender
nada porque ninguém tinha dinheiro”. Estamos falando de
um momento que vai requerer uma resposta forte porque
69
na Europa está o fascismo se radicalizando, a ascensão do
nazismo, a União Soviética se industrializando; havia uma
série de indicadores que viria alguma forma de centraliza-
ção política.
Mas o que toda a opinião pública tinha naquele mo-
mento era o foco em acabar com a manipulação e com a
corrupção de uma República que se dizia liberal, mas que
era, essencialmente, oligarca nos seus meios e fins como
era a República Velha. Então esses liberais tinham um pro-
grama que era essencialmente agrarista. A ideia de que ele
tinha um programa do ponto de vista social e econômico,
um programa completamente renovador, não era um pro-
grama que queria respeitar aquilo que eles chamavam de
a verdadeira vocação do Brasil, a vocação agrária. Getú-
lio sabia que essas eram as forças mais poderosas naquele
momento, mas ele sabia que isso não ia durar para sempre,
alguém teria que ser o criador de uma estrutura que vies-
se em direção ao futuro, que seria um futuro que estava
caminhando para a centralização, para o desenvolvimento
social, econômico, e para uma forma autoritária de gerir
esse período de transição.
Eu termino dizendo um bom adágio gauchesco: “os
liberais naquele momento esquentaram a água para os ou-
tros tomarem o mate”.
70
Assis Brasil a elaboração do
Código Eleitoral e o voto feminino -
um estudo de caso
Mônica Karawejczyk1
72
as mulheres.
Um outro fator a ser destacado é que durante as
discussões para a feitura da nossa primeira Constituição
republicana, que ocorreram entre os meses de novembro
de 1890 e fevereiro de 1891, foram apresentadas algumas
emendas que versavam sobre essa possibilidade de se es-
tender o sufrágio para algumas brasileiras que pudessem
comprovar ter renda própria ou que tivessem posse de di-
ploma universitário. Mas é bom destacar também que, nes-
se momento, em nenhum lugar no mundo, fosse ele regido
pelo sistema republicano ou pelo sistema monárquico, era
permitido o voto para as mulheres. Somente em 1893 que
a Nova Zelândia aprova, pela primeira vez, o voto para as
mulheres no mundo.
Mas mesmo que tais propostas na constituinte não
tenham sido aprovadas, o simples fato delas terem sido
apresentadas, no meu ver, já mostra que havia alguns po-
líticos que estavam dispostos a repensar o papel femini-
no nessa questão. O artigo que acabou sendo aprovado na
Constituição de 1891, o de número 70, acabou por estabele-
cer que fossem eleitores no Brasil os cidadãos maiores de 21
anos. De modo que até a dissolução dessa Constituição em
1930, o artigo 70 passou a ser questionado pelos que eram
favoráveis a inserção das mulheres no mundo político, pois
ele não vetou expressamente a participação feminina nas
lides eleitorais. A grande questão passou a ser, a brasilei-
ra deveria, ou poderia, ser considerada cidadã? Essa foi a
grande questão a partir de então.
Também um dos argumentos mais propalados con-
tra o voto feminino, durante todo esse período, era de que
o exercício de voto por parte das mulheres ia trazer con-
flito para os lares, desviando as funções de que eram ditas
“naturais”, ou ainda que uma pretensa natureza feminina as
tornavam incapazes de escolher racionalmente.
Esse movimento em prol do voto feminino no Brasil
pode ser observado desde o período anterior, da procla-
mação da República. Ele aderiu ao movimento igualitário,
buscando o reconhecimento como cidadãs pelo caminho
73
legal. Então, as feministas brasileiras exigiam o reconhe-
cimento do seu direito de participar dessa vida pública e
política do país, mas elas também garantiam que esse novo
papel em nada ia afetar a sua feminilidade e as suas tarefas
domésticas e maternas, procurando destacar que não iam
competir com os homens, mas que se colocariam ao lado
deles como companheiras, lutando assim pelo direito ao
sufrágio pela via legal.
Entre os constituintes que estavam lá, em 1891, esta-
va Assis Brasil, que, na ocasião, elaborou arrazoado negan-
do o direito de voto para as mulheres, publicado em 1893,
no livro Democracia Representativa. Assis Brasil, como ou-
tros políticos da época, comungava da ideia de que a mu-
lher não teria direito de participar do mundo político por
incapacidade. Para ele, o problema estaria, eu vou citar:
“não tanto na falta de cultura intelectual, como na índole
da educação em vigor”. Ele conclui que no Brasil do final do
século dezenove, cito novamente: “a mulher ainda não tem
competência para imiscuir-se em eleições. O sufrágio deve
ser realmente universal, mas ...só para os homens”. Era uni-
versal, pero no mucho.
Então, devido a essa publicação, Assis Brasil tem sido
acusado, até hoje, de ser antifeminista convicto e contrário
ao voto feminino, tal como faz a professora Teresa Mar-
ques, da Universidade de Brasília em suas publicações. De
forma que um dos objetivos da minha fala de hoje também
é verificar se ela está correta ou não ao fazer essa afirma-
ção tão convicta. Para tanto, eu percorri todas as edições
de dois jornais que foram publicados no Distrito Federal, o
matutino Correio da Manhã e o vespertino A Noite em bus-
ca da evidência desse debate do Código Eleitoral.
Uma das primeiras providências de Getúlio Vargas,
quando assumiu o governo provisório, em 1930, foi de so-
licitar a implantação de uma comissão legislativa para ela-
borar projetos de revisão ou reforma da legislação civil do
Brasil, colocado em prática com publicação do Decreto
19.459, de 6 de dezembro de 1930. Essa comissão foi dividia
em 19 subcomissões compostas, cada uma delas, de três
74
membros, e cuja nomeação foi em fevereiro de 1931. Para
a subcomissão da legislação eleitoral, lei e processo, foram
nomeados Assis Brasil, do Rio Grande do Sul; João da Ro-
cha Cabral, do Rio de Janeiro; e Mário Pinto Serva, de São
Paulo.
Logo após ser nomeado presidente da subcomissão
eleitoral, Assis Brasil, que na ocasião também era Minis-
tro da Agricultura, foi enviado para Buenos Aires, em mis-
são especial, no mês de março, para resolver a questão do
mate, lá permanecendo até julho. O que fez, então, com
que esses membros da subcomissão elaborassem cada um
as suas próprias considerações sobre as mudanças da lei
eleitoral, e eles se correspondiam via carta para trocar
ideias. Mário Pinto Serva pouco participou, alegou que es-
tava enfermo, não poderia participar e pediu desligamento
da tarefa. Mas nem Assis Brasil, nem João Cabral aceitaram
tal desligamento.
Saliento também que pouco tempo antes da partida
de Assis Brasil para a Argentina, uma comissão de uma das
associações femininas mais atuantes da época, a Federa-
ção Brasileira pelo Progresso Feminino, fez uma visita para
o casal Assis Brasil para solicitar-lhes apoio para a causa
do voto feminino. Na ocasião, Lídia, a segunda esposa de
Assis Brasil, foi descrita, por um jornal, vou citar: “como en-
tusiasta das reivindicações feministas, que teve o ensejo de
acompanhar com simpatia no Brasil e no estrangeiro, pro-
metendo o seu apoio moral à Federação”. Nessa mesma oca-
sião, é relatado que Assis Brasil teria conversado largamen-
te com essa comissão de feministas, vou citar: “deixando-a
esperançosa de que o voto feminino será brevemente uma
realidade no Brasil” (A Noite, [Link]ço.1931).
Até o retorno de Assis Brasil ao Rio de Janeiro, que
aconteceu nos finais de julho de 1931, o que mais aparece
na imprensa é, realmente, a pressão que os grupos femi-
ninos da época, tal como a Federação Brasileira pelo Pro-
gresso Feminino e a Aliança Nacional de Mulheres, esta-
vam fazendo para que o voto feminino fosse considerado
pelos membros da subcomissão eleitoral. As deliberações
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da subcomissão estavam quase todas sendo feitas em sigi-
lo, e era uma das únicas subcomissões que ninguém sabia
sobre o que estava tratando, o que acabou dando ensejo
a muitas especulações e muitos boatos na imprensa. Um
desses boatos era de que o voto feminino e o voto secreto
estavam sendo cogitados nessa reforma das leis eleitorais.
Em agosto, Assis Brasil já se encontra na capital fe-
deral e passa a se reunir novamente, a portas fechadas,
com João Cabral para dar os últimos retoques na lei eleito-
ral. Em entrevistas concedidas para os jornais, ambos ale-
gam que havia algumas controvérsias a serem resolvidas
e, entre elas, estavam as referentes ao voto feminino, des-
tacando que eles não eram desfavoráveis ao fato, mas que
havia, sim, correntes no governo que acreditavam que ele
não deveria ser concedido imediatamente, ou só ser com
grandes restrições, por entender-se que a mulher no Brasil
não estava ainda preparada para o exercício desse direito.
Em setembro, ocorre a publicação da parte do alis-
tamento do anteprojeto eleitoral, no qual é mantida a mes-
ma redação da Constituição de 1891, mas com o acrésci-
mo do alistamento feminino. Mas somente para mulheres
que pudessem comprovar - é uma lista imensa, dei uma
reduzida - terem renda própria, sendo que as casadas que
não trabalhavam estavam fora dessa proposta. O antepro-
jeto, ele apresenta, assim, um tipo de sufrágio restritivo
para as mulheres, baseado em partes no Código Civil que
considerava a mulher casada incapaz perante a Justiça.
Assis Brasil, nesse sentido, quando reeditou a sua
obra Democracia Representativa, em dezembro de 1931,
aproveita para inserir um capítulo a mais para esclarecer
que ele não elaborou essas restrições para o voto feminino
no anteprojeto eleitoral, que elas haviam sido todas feitas
por João Cabral. Segundo ele, apesar de ter votado contra
o sufrágio feminino na Constituinte de 1891, havia mudado
de opinião e considerava que o momento para se reconhe-
cer o direito de voto para as mulheres brasileiras havia re-
almente chegado.
De modo que ele discordava da elaboração que foi
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feita por Cabral, mas como o anteprojeto tinha sido ela-
borado para servir de base para discussão do público e do
governo sobre aquela temática, antes de realmente ser ela-
borado o projeto final, acrescenta que achou melhor não
opinar sobre a questão. Mas que, para ele, a melhor reda-
ção do artigo seria, cito: “a que reconhecesse na mulher
as mesmas possibilidades de exercício do sufrágio que se
atribuem aos homens. Bastaria escrever no sito oportuno
a advertência que tornasse claro tratar-se de ambos os
sexos, na expressão Cidadãos brasileiros” (ASSIS BRASIL,
1931).
A consulta popular foi aberta com a publicação do
anteprojeto da lei eleitoral, tendo recebido as opiniões do
público até o final de novembro. A maior crítica que eu en-
contrei sobre essa redação do anteprojeto, referente ao
alistamento feminino, foi a questão de não reconhecer o
voto para as mulheres casadas que não trabalhavam fora
de casa, não tinham um emprego remunerado. As associa-
ções femininas da época também publicitam a sua opinião
de que o voto deveria ser reconhecido nas mesmas con-
dições para homens e mulheres, solicitando que as restri-
ções às mulheres casadas fossem retiradas do projeto final
em elaboração.
No começo de dezembro de 1931, Assis Brasil retor-
na para o Rio Grande do Sul para passar uma temporada
em sua estância de Pedras Altas e para participar de confe-
rências na cidade de Pelotas com políticos rio-grandenses.
Na mesma época, Maurício Cardoso é empossado como
novo Ministro da Justiça em lugar de Osvaldo Aranha. Na
ocasião, a imprensa relata que Assis Brasil havia levado
para o sul o projeto de reforma eleitoral para terminá-lo.
Contudo, em 23 de dezembro, é noticiado modificações
que foram introduzidas na subcomissão eleitoral, que seria
a partir de então presidida pelo novo Ministro da Justiça,
sendo que sete novos membros são nomeados para agilizar
a feitura da lei. Juiz Otavio Kelly, Dr. Sergio de Oliveira e
dr. Adhemar de Farias, do Distrito Federal; Prof. Sampaio
Doria, de São Paulo; Prof. Mario de Castro, de Pernambu-
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co; Prof. Juscelino Barbosa, de Minas Gerais e dr. Bruno de
Mendonça Lima, do Rio Grande do Sul. Foi mantido apenas
João Cabral como um dos membros dessa nova comissão
revisora.
Assis Brasil, em um telegrama que enviou para o
João Cabral, em janeiro de 1932, deixa entrever que ele
havia escolhido e convidado esses novos membros da co-
missão. Essa comissão revisora, reunindo-se diariamente,
passou a trabalhar de forma acelerada para dar fim ao pro-
jeto de reforma eleitoral. Na questão do alistamento femi-
nino, a comissão retirou todas as restrições apresentadas
e, curiosamente, decidiu pela redação que foi proposta
por Assis Brasil, sendo assim redigida - são eleitores os
cidadãos “sem distinção de sexo”, maiores de 21 anos e com
a ressalva de que o alistamento feminino seria facultativo.
Em 24 de fevereiro de 1932, a nova lei eleitoral é
publicada, e o alistamento feminino é reconhecido nas
mesmas condições que o masculino. Eu destaco que no
caso específico do voto feminino, essa parece ter sido uma
das raras ocasiões em que Assis Brasil mudou de opinião,
talvez influenciado pela esposa Lídia, pois como ele mes-
mo destacou em uma entrevista concedida para o jornal A
Noite, em julho de 1931, vou citar, ele falou assim: “sou um
homem que raramente muda de opiniões, as minhas ideias
sobre a reforma eleitoral estão publicada em volume, são
mais velhas que vocês, tem uns 40 anos”, referindo-se aqui
ao livro que publicou em 1893, Democracia Representativa,
no qual ele afirmava que era contra o voto feminino.
Através da análise do que foi publicado nos jornais
da época, foi possível acompanhar os debates e as revira-
voltas que ocorreram no interior dessa subcomissão elei-
toral e que determinaram que, de uma proposta inicial que
restringia o acesso feminino ao alistamento eleitoral, fosse
decretado o amplo acesso das brasileiras no quesito elei-
tor. Nesse sentido, Assis Brasil, desde o início do período
em que a mudança da lei eleitoral foi cogitada, em finais de
1930, 1931, sempre que era procurado pela imprensa, asse-
gurava que o voto feminino iria fazer parte da nova lei. O
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que se provou verdadeiro, mesmo com as mudanças que
ocorreram nessa subcomissão eleitoral, que resultaram na
revisão do projeto elaborado por Assis Brasil e por João Ca-
bral.
A proposta da minha fala, hoje, foi no sentido de re-
cuperar as evidências do debate que levaram à incorpora-
ção das brasileiras ao mundo político. De forma especial,
procurei destacar a influência de Assis Brasil na elaboração
final da lei que acabou por reconhecer o alistamento femi-
nino nas mesmas condições que o masculino em 1932.
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O sistema eleitoral
de Assis Brasil
Wagner Feloniuk1
81
dezembro de 31, ele dá um novo impulso e, em alguns me-
ses de trabalho, toda a conjuntura do novo código eleitoral
se forma. E, por fim, Getúlio Vargas, de fato converteria o
projeto apresentado em lei.
Agora entramos no sistema eleitoral de Assis Brasil.
O principal elemento eleitoral é chamado, por ele, sistema
proporcional. Era um contraponto ao que? Era um contra-
ponto ao sistema que estava sendo testado e estava sendo
melhorado desde o segundo Império e que era marcado,
então, por distritos eleitorais pequenos. Por certo tempo,
um só eleito por distrito. E, depois, por diversas leis que se
sucedem, especialmente na metade final do segundo Im-
pério, com distritos maiores, de três ou de cinco, e diversas
formas de tentar organizar os distritos. Às vezes, um terço
deveria ser ocupado pela minoria, e as formas de votação
variavam bastante.
Apesar dos graves problemas na votação do segun-
do Império, as tentativas de melhoria foram constantes. A
crítica era de que o sistema como um todo devia ser subs-
tituído. Então, se afasta a ideia de sistema eleitoral próxi-
mo da comunidade local, se tenta dificultar que haja influ-
ência de pessoas com poder local sobre eleitores e se tenta
partir para um sistema de distritos maiores - distritos bem
maiores.
Por que Assis Brasil propõe isso? Uma parte prin-
cipal dessa proposta é que esse voto traria um resultado
mais fidedigno da sociedade que estivesse votando. Por-
que haveria mais pluralidade de opiniões. No sistema ante-
rior, e ainda mais quando os candidatos tinham acesso aos
eleitores (nem sempre no bom sentido), havia tendência
de formarem-se maiorias ou até unanimidades nas elei-
ções, cada distrito elegendo as pessoas do mesmo partido.
Tendo um distrito grande, as minorias conseguiriam afluir
mais e serem mais representativas, mesmo que uma maio-
ria continuasse se formando. E também para dificultar to-
das as formas de fraudes eleitorais que o Brasil tinha até
aquele momento, ver a tese do Victor Nunes Leal.
Então, ele defende esse sistema eleitoral como uma
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nova forma de haver democracia, de defender minorias e
também de ter partidos nacionalizados mais fortes, que
iam disputar por estados, seriam partidos nacionais dis-
putando em cada um deles. Como foi isso prática? O que
aparece no projeto de Assis Brasil e, depois, o que aparece
no próprio Código Eleitoral? Os dois, com uma diferença
bem pequena, são sistemas parecidos. Ele cria um sistema
proporcional misto. A grande inovação foi trazida de ma-
neira pura? Não. Ele cria um sistema proporcional e une
com um sistema majoritário.
O sistema se materializava em três fases, em um
turno com duas fases e um turno com apenas uma. Primei-
ro, algo que ele chamava de primeiro turno simultâneo, no
qual se elegiam candidatos de partidos “sozinhos”, apenas
pelo quociente eleitoral e, em segunda fase, as vagas res-
tantes seriam decididas pela quota do partido (estabele-
cida pelo quociente partidário). Os mais votados que não
alcançassem votos para se eleger apenas pelo quociente
eleitoral seriam eleitos pelo partidário caso houvesse mais
vagas para a legenda pelo quociente partidário, assim até
se completarem as vagas para o partido. Dois conceitos
utilizadas por ele que continuariam na nossa tradição elei-
toral para frente. Em segundo momento, todos os cargos
que não fossem ocupados pelo primeiro turno seriam elei-
tos no segundo, também realizado por meio do mesmo
voto, também simultâneo. Ou seja, na mesma votação se
decidiria o pleito. Mas essa segunda fase seria majoritária,
os mais votados, inclusive candidatos sem partido, assu-
miriam os cargos no segundo momento - mas no segundo
turno só restavam para ocupar aquelas vagas que não fos-
sem ocupadas no primeiro, seriam muito poucas.
E quem podia ser votado? Primeiro e principal, os
partidos apresentavam uma lista de candidatos. Havia po-
sicionamento em listas: primeiro, segundo, terceiro can-
didatos. Os partidos também poderiam se unir em coli-
gações. Igualmente, foi estabelecido que um grupo de, ao
menos, 100 eleitores podiam apresentar uma lista de can-
didatos. E, por fim, muito interessante, candidatos avulsos
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poderiam se apresentar até cinco dias antes da eleição e,
sem nenhuma participação dentro de partidos, tentar se
eleger.
Fazemos abaixo a descrição da cédula eleitoral. Al-
gumas ideias narradas no livro de Assis Brasil foram leva-
das para a legislação e outras só aparecem no livro. Por
exemplo, essa linha no meio da cédula é descrita no livro
com grande cuidado e depois no sistema eleitoral, não.
Essa imagem razoavelmente forma a cédula do Assis Brasil.
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esses escolhendo os deputados. Houve o breve momento
de quatro graus de eleição em 1821. Tudo vai ser organiza-
do por votação direta, algo que se mantém até hoje.
Depois, Assis Brasil propõe que não haja mais voto
censitário, também em continuação ao que existia ante-
riormente. A queda do voto censitário se deu havia quaren-
ta anos, em 1891, e a relevância do voto censitário já estava
decaindo mesmo no Império, enquanto ele era previsto.
Os valores necessários para votar não tinham sido muito
atualizados e uma parcela cada vez maior da população es-
tava incluída. Estima-se, às vezes, que em certa altura do
Império, algo nas voltas de 20% da população poderia estar
apta a votar, o que era muito mais do que os votantes nas
primeiras décadas da República.
Próximo ponto, analfabetos. Outro grande ponto do
sistema eleitoral: continuou proibido o voto dos analfabe-
tos no Brasil (assim como mendigos e praças). No entan-
to, estávamos em um período em que o analfabetismo era
muito grande. Como narra José Murilo de Carvalho, nesse
ponto, a última votação antes de haver votos apenas para
alfabetizados tinha sido no Império e quase 14% da popu-
lação brasileira votou. Depois que tiraram todo o critério
censitário, mas fora proibido o voto dos analfabetos, a taxa
de votantes na população caiu para menos de um 1%. E ao
longo das próximas décadas, ela vai subindo de 1,5% para
2%, ela vai chegar novamente no seu pico de 13,5% e au-
mentar mais apenas depois da época de Assis Brasil. Em
1930, 5% da população votou, ou seja, em 1930, um terço
do que votava no final do Império com voto censitário - a
proibição do voto dos analfabetos foi mantido no código.
O voto era secreto, nesse ponto uma defesa pessoal
dele, e ele cita fraudes eleitorais abertamente no livro.
Uma questão interessante, o voto obrigatório. É co-
mum ler nos livros que 1932 foi o momento em que surgiu
o voto obrigatório no Brasil, e o interessante é que apa-
rentemente, não. O Assis Brasil disse que o voto não era
obrigatório, ele defende com veemência que várias pes-
soas podiam não querer votar. Algumas por questões de
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pensamento defendiam não votar e ele era a favor dessa
posição. Comentadores e juristas de Direito Eleitoral, na
época, diziam que não era obrigatório. Talvez, a doutrina
eleitoral atual tenha entendido mal. O que havia eram al-
gumas proibições para pessoas que não fizessem o alista-
mento, e poucos anos depois, então, surgiram proibições
para quem não votasse, mas o Código de 1932, em seu tex-
to, não impõe nenhum problema por não votar. Assis Brasil
sugeria diminuir impostos para quem vota, dar incentivos
para votar, o que só demonstra que provavelmente não era
obrigatório, pois se fosse, se não iriam propor incentivos
desse gênero.
Depois, o voto feminino. Vou resumir por tempo
e porque tivemos uma excelente palestra a esse respei-
to. Inicio com “democracia no Brasil”: não há que se falar
em democracia no conceito atual antes do voto feminino.
Podemos falar em vários outros sentidos, mas uma demo-
cracia formal que começa excluindo metade da população
não seria aceitável com o conceito aceito agora. Em algum
sentido, esse sistema anterior era viável ao redor do mun-
do, podia buscar a democracia em outros aspectos, mas
não haveria democracia como entendida hoje sem voto fe-
minino. Assim, é neste momento que temos sufrágio uni-
versal chegando. Incrível que Assis Brasil se sente tão mal
de chamar o sufrágio sem mulheres de “universal”, ele usa
reticências no livro. Porque, de fato, era um universal pou-
co universal.
Sobre alistamento obrigatório. Não havia punição
explícita na lei para o alistamento, para quem não o fizes-
se; mas havia limitação de ocupar cargos, de ingressar em
cargos, então havia sanções.
Depois, breves comentários sobre a Justiça Eleito-
ral. Temos um lado bem conhecido, nesse momento surge
a Justiça Eleitoral no Brasil, já com uma estrutura em graus.
Importante citar que o surgimento da Justiça Eleitoral pa-
rece o ápice de um movimento histórico. Quando juízes
passaram a contar votos ou ser presidentes das sessões de
votação no Brasil? Isso data de 1600 e 1700, as ordenações
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portuguesas previam, vários regramentos, leis especificas
que os reis portugueses enviavam ao Brasil para organizar
as eleições, todos repetiam: o juiz vai ser o responsável por
alistar, fazer cadastro, colar nas portas quem podia votar.
Então, chegamos ao ápice e nele continuamos, o ápice é a
inserção da Justiça Eleitoral na nossa história institucional,
algo que se solidificou após a pausa de 1937.
Para falar em efeitos desse Código eleitoral. Inicial-
mente, um dos efeitos mais desejados por Assis Brasil veio
a se realizar. Se olhamos a proporção de eleitos de parti-
dos minoritários no Brasil vemos um salto muito grande,
variou de 20%, 30%, às vezes chegando a 40% de eleitos
que não eram a posição, nem o grupo ou o clã, dominante
nos estados. Também se narra que as primeiras eleições
ocorridas, em 1933, uma para Assembleia Constituinte, e
em 34, uma eleição geral, foram particularmente limpas e
uma melhoria muito grande em relação ao sistema ante-
rior, isso foi atribuído ao novo Código.
Para encerrar, os efeitos, o legado de longo prazo.
Esse quociente eleitoral, esse quociente partidário, em
parte, vigem até hoje no Brasil. A Justiça Eleitoral é uma
instituição consolidada. Assis Brasil trouxe um sistema que
se mostraria muito longevo. Então, não apenas um pen-
sador respeitado até o final da sua vida, ministro plenipo-
tenciário em Washington, um diplomata importante para
diversas negociações. Ele teve a capacidade de trazer um
sistema que seria tão compatível com nossa sociedade que
não foi mudado profundamente até hoje, em contraponto
a todas as experiências do segundo Império.
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Encerramento
Professor Alfredo J. Flores - Meus caros e minhas
caras, estamos bem adiantados no tempo, será um pou-
co difícil falarmos em debates nesse momento. Na condi-
ção que fiquei aqui, de conduzir esse final da mesa, queria
agradecer imensamente à Escola, ao Judiciário Eleitoral,
à presidência do TRE-RS, agradecer a presença de todos
os expositores e a todos vocês que estão aqui presentes,
aqueles que nos acompanham de forma telemática, digital.
Terminaríamos com uma proposta de continuar, se o TRE-
-RS aceitar, esses eventos. O professor Boeira vai, talvez,
falar em outro momento, com mais tempo. Queria agrade-
cer a todos os palestrantes, todos eles que engrandeceram
esse trabalho, que, como disse, permite pensar em um pri-
meiro momento um diálogo com a Escola, que eu vejo que
não só a Escola eleitoral, mas as escolas essas de Estado
que estão se articulando para ter uma comunicação com a
universidade, isso é um ganho que a universidade vai ter e
deve retribuir para a sociedade.
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A FALÊNCIA DO RACIONALISMO.......................................................83
Diário de Notícias, Porto Alegre, 13/09/1928
Alberto Pasqualini
RACIONALISMO E CATOLICISMO......................................................89
Diário de Notícias, Porto Alegre, 15/09/1928
Ruy Cirne Lima