O Humor - Kuperman
O Humor - Kuperman
Daniel Kupermann2
para a era da evitação, e do culto da glória para a revalorização do covardes” (op. cit., p. 16). Trata-se
agora de evitar qualquer litígio, em nome do bem-estar definido por uma cultura na qual a adaptação e
o sucesso pessoal são os alvos almejados – a depressão sendo o seu negativo, a contraface da moeda do
culto ao eu. No imaginário vigente na sociedade depressiva, o conflito caducou, o sofrimento psíquico
passa a ser entendido como tendo uma causalidade orgânica, e a psicanálise e sua busca de sentido para
o mal-estar revelado através do sintoma, é acusada de ter criado mofo.
Ora, a “sociedade humorística” descrita por Lipovetsky apresenta a mesma tônica: ausência de
conflitos; impossibilidade de revolta; descrença. “O humor fun e descontraído passa a dominar (...)
quando já ninguém, no fundo, acredita na importância das coisas” (1989, p.149). O humor vigente é
acrítico e gratuito, “humor de massa” próprio de uma sociedade hedonista na qual é o instrumento
privilegiado para a promoção de uma proximidade cordial e de uma atmosfera de comunhão liberta de
tensões. O humor pós-moderno é, assim, uma espécie de lubrificante social. Mas a descontração
generalizada é proporcional à falência de projetos comuns e ao desinvestimento das possibilidades de
transformação social. “A descrença pós-moderna, o neo-nihilismo que ganha corpo”, escreve
Lipovetsky (ibid., p.128), “não é nem ateu nem mortífero, mas doravante humorístico”.
Decerto não é esse o humor descrito por Freud, inicialmente no último capítulo de “Os chistes e
sua relação com o inconsciente” (1905), e retomado em 1927 em “O humor”. Ao contrário, o humor
freudiano, dotado de uma dignidade particular, sobretudo “não é resignado, mas rebelde” (ibid., p.191,
grifo nosso). Longe de ser descrente e niilista, é a afirmação radical do sujeito frente à adversidade,
representada, no exemplo preferido de Freud, pela figura inexorável da morte. A anedota é conhecida,
contada e recontada. Um criminoso que estava sendo levado à forca em uma segunda-feira comenta:
“É, a semana está começando otimamente”. Humor triunfal, jubilatório e alegre, é também levemente
triste em sua lucidez e tragicidade, o que em nada o aproxima do cinismo e da depressão francamente
masoquistas indicados por Lipovetsky e Roudinesco. O humor freudiano, em sua associação íntima
com a morte, é tragicômico.
Alguns episódios biográficos, especialmente do período final da sua vida, quando lutava já há
bastante tempo contra um sofrido câncer e assistia ao advento do nazismo, ilustram o valor do humor
como virtude combativa, e revelam a tonalidade de desafio sublime que detinha para Freud. É
inesquecível sua “tirada” ao saber que seus livros estavam incluídos nas queimas realizadas nas praças
públicas das cidades e centros universitários alemães, em 10 de maio de 1933: “Que progressos
estamos fazendo. Na Idade Média, teriam queimado a mim; hoje em dia, eles se contentam em queimar
meus livros” (Gay, 1989, p.536). Às vezes, o humor pode ser também profético.
Esse humor espirituoso, tem suas raízes no Witz (“espírito”) que mereceu o elogio dos filósofos
e escritores vinculados ao Romantismo, cujo centro irradiador foi a cultura alemã. Nesse contexto,
herdado por Freud, o humor era verdadeiramente investido como um instrumento de emancipação
intelectual e política. No início do século XIX, Jean Paul, pensador influente no movimento, citado por
Freud em seu livro sobre os chistes, elogiava a força criadora do humor e, frente a constatação de uma
inércia psíquica da mentalidade alemã, apostava em “cultura chistosa” (witzige Kultur) de modo a que
as antigas idéias pudessem ser transformadas, produzindo o novo na Alemanha. Ao estabelecer uma
analogia entre o movimento do pensamento e a decomposição no campo da química, Jean Paul termina
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por aproximar a sua concepção do poder do chiste em produzir novas idéias da concepção freudiana de
interpretação: “A novas idéias pertencem [idéias] inteiramente livres; a essas, novamente [idéias]
iguais, e só o chiste nos dá liberdade, na medida em que, de antemão, ele dá igualdade; ele é, para o
espírito, aquilo que, para a química, são o fogo e a água; Chemica non agunt nisi soluta (só o líquido dá
a liberdade para nova formação – ou: só corpos desmembrados produzem novos)” (apud Alberti, 1999,
p.171).
Mary Lee Townsend (1997) demonstra ainda a importância do humor na constituição de uma
esfera pública durante as transformações políticas e sociais que ocorreram na Alemanha do século XIX,
quando havia uma espécie de orgulho nacional em torno do “espírito” berlinense (Berliner Witz) e
Berlim era saudada pelos guias como “cidade-mãe da graça”. A repercussão do Witz em Viena estava,
de resto, afinada à cultura germânica, e Simon-Daniel Kipman (1994, p.62) ressalta que “na época de
Freud, nesta Viena magnífica e decadente, o dito espirituoso está na moda e os grandes humoristas são
famosos. O humor que apaixona é ao mesmo tempo leve e cínico; faz rir e demole os próprios
fundamentos de uma sociedade que se arruina”.
A leveza e o cinismo crítico próprios do humor que fazia rir nos cafés da Viena imperial estão
bem distantes do cinismo desencantado da pós-modernidade, no qual vigora a dessubstancialização e a
banalização esterilizante. “O humor aqui já nada tem a ver com o espírito”, ressalta Lipovetsky (1989,
p.131), “como se tudo o que tivesse uma certa profundidade pusesse em perigo o ambiente de
proximidade e de comunhão. O humor, doravante, é aquilo que seduz e aproxima os indivíduos”. O
homem individualista produzido na pós-modernidade apresenta, cada vez mais, “dificuldade em
‘rebentar’ de riso, em sair de si, em sentir entusiasmo, em entregar-se à jovialidade” (ibid., p.137). O
humor de massa contemporâneo seria, assim, a pálida atualização do riso contagiante que, da
Antiguidade ao Renascimento, acompanhou as festividades populares, e no qual o Romantismo buscou
inspiração para a libertação do espírito. Teríamos nós, de fato, como sentenciou Nietzsche,
desaprendido a rir?
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Retomando o exemplo do condenado, Freud (1905) ressalta que uma reflexão de cunho
filosófico sobre a grandeza dos interesses do universo comparada à própria pequenez, com vistas a
descartar os afetos dolorosos, certamente não conseguirá obter o prazer humorístico. O “conteúdo” do
dito humorístico “é, a semana está começando otimamente” poderia ser enunciado “filosoficamente” da
seguinte forma, imagina Freud (1927, p.190): “Isso não me preocupa. Que importância tem, afinal de
contas, que um sujeito como eu seja enforcado? O mundo não vai acabar por causa disso”. Esse
discurso, apesar de apresentar “a mesma magnífica superioridade sobre a situação real” presente no
humor5, não tem a menor graça, ou seja, não produz prazer nem movimento psíquico. Assim, o sentido
e a eficácia do dito humorístico não podem ser reduzidos a nenhum significado ou “conteúdo” suposto,
dependendo de uma determinada forma de dizer que configura a sua dimensão estética, componente
essencial e indissociável do procedimento humorístico e de sua transgressão. A palavra humorística,
como a poética, é encantada e encantadora, e, assim, termina por eliminar as fronteiras
tradicionalmente estabelecidas entre forma e conteúdo, bem como entre palavra e ato (e mesmo entre
sujeito e objeto, como se verá adiante). Por isso, pode-se falar em dito humorístico ou em ato
humorístico indiferenciadamente. Nesse sentido, não é difícil vislumbrar o quanto uma elucidação
maior do fenômeno do humor poderia enriquecer a concepção de interpretação e de ato analítico, uma
vez que, no contexto da transferência no qual opera, a palavra do analista 6 torna-se, sem dúvida, uma
palavra encantada; como queria Freud (1905a), uma palavra “mágica”.
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Nesse ponto, é preciso discordar de Freud, uma vez que o comentário “filosófico”, aqui, se aproxima
mais da mortificação melancólica e da resignação do que da “magnífica superioridade sobre a situação
real” encontrada no humor.
6
Com isso não se pretende, é óbvio, atribuir uma principalidade à palavra do analista no processo
psicanalítico. É verdade que a criação da psicanálise se deve a ruptura de Freud com o procedimento da
sugestão hipnótica, na qual a palavra portadora de verdade era a palavra do terapeuta, e à conseqüente
invenção da escuta da associação livre do paciente, na qual a verdade residiria então no discurso do
analisando. Mas isso decerto não isenta o analista – sua palavra e seu ato - da sua função na direção da
cura. De todo modo, veremos que a emergência do humor na clínica se dá em um espaço entre analista
e analisando, como de resto a maior parte do produto criativo de uma análise.
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e condensação presentes nos sonhos são comuns aos chistes, e dessa forma ambos se relacionam, uma
vez que um e outro revelam o inconsciente recalcado. No que se refere a “O humor”, tratar-se-ia de
repensar as vicissitudes do prazer no contexto das inovações metapsicológicas, considerando as
formulações sobre o narcisismo e a segunda tópica. Assim, se o chiste é a contribuição feita ao cômico
pelo inconsciente, o humor seria a contribuição feita ao cômico pela intervenção do superego 7.
Uma outra via, no entanto, para se tentar compreender o interesse de Freud pelo cômico,
passaria pela investigação de algumas características da comicidade indicadas em “Os chistes...”. Uma
delas, sobretudo, chama a atenção. Trata-se de uma formulação de Fischer, autor de um livro sobre o
Witz datado de 1899, na qual aproxima a piada e o cômico, da caricatura. “A comicidade interessa-se
pelo que é feio”, escreve Freud, “em qualquer uma de suas manifestações”. E, citando Fischer: “Se [o
que é feio] for ocultado, deve ser descoberto à luz da maneira cômica de olhar as coisas; se é pouco
notado, escassamente notado afinal, deve ser apresentado e tornado óbvio, de modo que permaneça
claro, aberto à luz do dia (...) Desta maneira nasce a caricatura” (apud Freud, 1905, p.22, grifo nosso).
Se é assim, também a psicanálise, ao interessar-se pelo cômico e suas manifestações, estaria interessada
na feiúra expressa pela caricatura. Mas de que modo?
A partir do século XVIII, a reflexão artística vinculada ao Romantismo volta suas atenções para
a caricatura, até então considerada uma brincadeira gratuita, e passa a tematizá-la como princípio de
uma nova estética. No projeto estético do Romantismo, a arte tinha o papel de resgatar a potência do
humano encoberta pela influência do Iluminismo. As luzes da razão iluminista teriam criado uma
sombra sobre a dimensão não-racional da existência, promovendo, no campo das artes, um retorno ao
ideal de beleza cultuado na Antiguidade Clássica. A caricatura 8, com o recurso ao disforme, a
intensificação das desproporções e dos exageros e a livre utilização da imaginação fantástica, que a
permitia expressar uma mistura sobrenatural das formas do mundo, possibilitava a reflexão sobre uma
arte cujo princípio não fosse o da reprodução da bela natureza, sua “elevação idealizante” (Kayser,
1986, p.30). Assim, a arte inspirada pelo Romantismo inaugura uma apresentação do feio caricatural
subordinado a uma categoria estética mais ampla: o grotesco.
Apenas no final do século XV o termo “grotesco” passa a ser utilizado para definir um estilo
artístico, tendo como referência um tipo de pintura ornamental descoberto nos subterrâneos das termas
de Tito, em Roma, chamado grottesca (derivado de grotta, “gruta” em italiano). A característica mais
marcante e surpreendente dessas figurações era a ousada mistura das formas humanas, animais e
vegetais, que esmaecia as fronteiras do mundo natural habitualmente representadas nas artes plásticas.
Além disso, o grotesco promovia uma apresentação do universo na qual a mobilidade, as
transformações impostas pelo tempo e o inacabamento se chocavam com as representações de um
mundo cuja essência residiria na estabilidade e na perfeição. Segundo Bakhtin (1996), seria preciso
esperar até a segunda metade do século XVIII para que o grotesco merecesse uma compreensão mais
ampla e mais profunda e passasse a ser efetivamente concebido como reação à estética clássica antiga
7
Não se pode esquecer também que, se os sonhos são uma produção essencialmente singular e
individual, os chistes, bem como o humor, são antes de tudo processos sociais, o que ainda não foi
suficientemente explorado nos estudos sobre psicanálise e cultura.
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A noção de caricatura aqui utilizada está mais referida aos seus atributos do que a uma forma única de
expressão artística. Assim, teríamos “caricaturas” tanto na pintura (Peter Brughel), como no teatro
(commedia dell`arte) e na literatura (E.T.A. Hoffmann).
7
e, finalmente, à estética do belo forjada na modernidade. É nesse sentido que Schneegans, em 1894,
define o grotesco como uma espécie de caricatura “acentuada até o impossível” (apud Kayser, [Link].,
p.94). Tratava-se, com o grotesco, não tanto de uma exploração do feio, já necessariamente definido em
relação ao ideal de beleza vigente, mas de direcionar os holofotes para as dimensões da vida às quais a
arte idealizante insistia em manter ocultas. Assim, o corpo inacabado, a morte e a vida em sucessão, as
paixões desmedidas e incontroláveis e o tempo como devir transformador, são alguns dos temas
privilegiados. No entanto, pode-se encontrar nos dois maiores intérpretes da nossa época, Wolfgang
Kayser e Mikhail Bakhtin, concepções bem distintas do sentido do grotesco. É preciso ao menos
indicá-las para compreender o interesse do cômico e, mais especificamente, do humor, para Freud.
Em O grotesco, Wolfgang Kayser (1986) nos oferece uma detalhada história do grotesco
moderno, do movimento pré-romântico do Sturm und Drang ao surrealismo contemporâneo. Sua
ambição, porém, é a de encontrar uma estrutura comum, presente tanto em obras da literatura quanto da
pintura, que pudesse mapear com precisão o campo do grotesco. A riqueza e a abrangência das análises
torna obrigatória a sua leitura, mas pode-se, grosso modo, definir o grotesco em Kayser como a
expressão mista de surpresa e de angústia diante da desagregação do mundo própria da modernidade,
um mundo que é o nosso mundo sendo, ao mesmo tempo, alheio a nós. Nesse sentido, tomando como
exemplo a pintura, os seres imaginários de Peter Brueghel expressariam melhor o espírito do grotesco
do que as criaturas de Hieronymus Bosch, uma vez que em Bosch há ainda uma ordenação divina
(paraíso/inferno) à qual os entes estão referidos, enquanto que em Brueghel o abismal irrompe no
mundo cotidiano, colocando-o fora dos eixos9. “O horror, mesclado ao sorriso”, escreve Kayser (ibid.,
p.40, grifo nosso) referindo-se aos afetos suscitados pelo grotesco, “tem seu fundamento justamente na
experiência de que nosso mundo confiável e aparentemente arrimado numa ordem bem firme, se alheia
sob a irrupção de poderes abismais, se desarticula nas juntas e nas formas e se dissolve em suas
ordenações”.
Na literatura, E.T.A. Hoffmannn é considerado um dos principais representantes do grotesco no
Romantismo, especialmente suas Peças noturnas (Nachtstücke), onde aparece o conto “O homem de
areia” analisado por Freud (1919) em “O estranho” (Das Unheimlich). De fato, o tema do Unheimlich
está intimamente vinculado ao grotesco. Na definição mais precisa de Kayser (1986, p.159), “o
grotesco é o mundo alheado (tornado estranho)”. Apesar de indicar um caráter tragicômico próprio ao
grotesco, no qual o terror apareceria mesclado ao riso, a ênfase de Kayser recai principalmente sobre a
dimensão do horror vivido pelo homem moderno ao assistir a desagregação do mundo, que perde seus
fundamentos – “o horror de que Deus não existe” (ibid., p.59) -, e da consciência, assaltada por forças
ocultas que fazem do sujeito seu fantoche. Percebe-se, assim, que as duas figuras maiores do grotesco
“negativo” de Kayser – a automatização e a desagregação – indicadas por Iehl (1997), estão presentes
também no estranho de Freud, associadas à compulsão à repetição e à angústia de castração.
No entanto, o incômodo problema da proximidade entre o estranho e o cômico persiste também
na análise de Freud acerca do Unheimlich, isto é, os mesmos elementos explorados na literatura do
Romantismo de modo a remeter o leitor à experiência do estranho, podem também fazer rir. É o que
9
De Brueghel, Kayser faz referências diretas a dois quadros: “Os provérbios holandeses” e “Gret, a
louca”. De Bosch, a referência é conhecido tríptico “O império milenar”, que inclui “O jardim das
delícias”.
8
ilustram as situações carregadas de comicidade criadas por Mark Twain, nas quais algo se repete
sucessiva e involuntariamente. O argumento freudiano de que rimos apenas quando o terror suscitado
pelo estranho é vivido pelos outros, como no caso de uma peça à qual assistimos, e de que não riríamos
se a experiência fosse própria, é insatisfatório. Não responde nem às evidências da emergência do riso
na clínica, nem ao enigma proposto uma década depois em “O humor”, onde a morte iminente merece
um sorriso.
A clássica definição de Schelling, “Unheimlich é tudo o que deveria ter permanecido secreto e
oculto mas veio à luz”, evocada por Freud, pode oferecer uma nova pista para a solução do problema,
se contrastada com o que, como vimos, caracteriza o cômico em Fischer: apresentar e tornar óbvio
aquilo que é “feio”, de modo que permaneça claro, aberto à luz do dia. Assim, o trabalho do cômico
(do grotesco, em sentido ampliado) parece ser exatamente o contrário do trabalho das forças
idealizantes que nutrem o processo de recalcamento, e que fazem das experiências de destituição
egóica relatadas em “O estranho” experiências essencialmente Unheimlich. O que no grotesco é
positivado, “claro e aberto à luz do dia”, de modo a suscitar o riso alegre, aparece em sua faceta
negativa, com a emergência da angústia de castração, no estranho analisado por Freud.
O recurso ao minucioso trabalho de Mikhail Bakhtin (1996), A cultura popular na Idade Média
e no Renascimento: o contexto de François Rabelais, permite avançar na questão. Seu livro tornou-se
obra de referência para os estudos acerca da cultura popular e, também, do riso em suas várias
manifestações. Peter Burke (1997) considera, inclusive, que no projeto de Bakhtin havia a intenção de
oferecer uma alternativa à concepção freudiana do riso como expressão de angústia, referindo-se à
idéia de que nos chistes o riso procederia de uma economia na despesa com a inibição, e no humor de
uma economia na despesa com o sentimento aflitivo (cf. Freud, 1905, p.265).
Bakhtin define o riso carnavalesco como o que havia de mais próprio nas manifestações da
cultura popular na Idade Média e no Renascimento, quando as festividades chegavam a durar até três
meses por ano. A cultura cômica popular, bem com a arte nela inspirada (sendo a obra de Rabelais o
exemplo paradigmático), encontram sua expressão no “realismo grotesco”, no qual predomina a
percepção carnavalesca do mundo e o princípio do rebaixamento. O mundo carnavalizado das festas e
da arte popular é um mundo no qual as misturas, os excessos e o rebaixamento de todas as formas no
sentido da vida material e corporal celebram o “tempo alegre”, o tempo da transformação e da
metamorfose, responsável pela degradação e morte de tudo o que existe de antigo, e pelo renascimento
daquilo que é novo. “Rebaixar consiste em aproximar da terra”, diz Bakhtin (1996, p.19), a terra
representando o princípio de absorção e de nascimento, de morte e semeadura. O corpo humano
inacabado e em contínua troca com o mundo é também o corpo rebaixado, o corpo dos excessos, dos
orifícios e dos excrementos, e ainda do sexo e da gestação da vida. A figura freqüente da “velha
grávida” funciona, assim, como uma espécie de emblema do realismo grotesco e de sua franca
oposição ao modelo clássico de representação do mundo, uma vez que não há nada estável ou perfeito
nesse corpo de mulher que é, efetivamente, “a quintessência da incompletude” (ibid., p.23), ao anunciar
a proximidade da morte ao mesmo tempo em que carrega uma nova vida.
No que se refere ao riso, onipresente nas manifestações da cultura popular medieval e
renascentista, Bakhtin indica que se trata, em primeiro lugar, de um riso “festivo”, não-individual; além
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disso, o riso é “universal”, atinge a todas as coisas e pessoas, todos riem e todos são alvos em potencial
do riso, e o mundo é apresentado em seu “alegre relativismo”; e sobretudo, o riso próprio ao realismo
grotesco é “ambivalente”, isto é, “alegre e cheio de alvoroço, mas ao mesmo tempo burlador e
sarcástico, nega e afirma, amortalha e ressuscita simultaneamente” (ibid., p.10). No realismo grotesco,
não há vestígio de medo, a alegria é soberana, e tudo o que é amedrontador e terrível é representado na
forma de “espantalhos cômicos” e vencido pelo riso ambivalente, sendo que, assim, o terrível adquire
sempre um tom de “bobagem alegre” (ibid., p.34). Uma primeira aproximação é possível, aqui, no
sentido de situar o humor freudiano na filiação do realismo grotesco. Afinal, é no humor, e apenas nele,
que Freud (1927, p.194) concebe um superego condescendente, capaz de “bondosas palavras de
conforto ao ego intimidado” frente às situações de ameaça, como se dissesse, efetivamente, que tudo
não passa de uma alegre bobagem: “Olhem! Aqui está o mundo, que parece tão perigoso! Não passa de
um jogo de crianças, digno de que sobre ele se faça uma pilhéria”.
É esse espírito alegre e jocoso que o Romantismo quer resgatar com a atualização dos elementos
próprios ao realismo grotesco, concebidos agora como um recurso estético capaz de fazer frente à
seriedade e à perfeição unilaterais impostas pelos cânones da arte de orientação iluminista. No entanto,
o “neo” grotesco do século XVIII não dispõe mais do carnaval popular como seu referente, deixando
assim de ser a “sensação carnavalesca do mundo”, a sensação corporalmente vivida, ressalta Bakhtin
(1996, p.33), “da unidade e do caráter inesgotável da existência”. Tudo agora é íntimo, subjetivo e
individual. O riso se atenua, toma outras formas, como as da ironia, do sarcasmo e de um certo tipo de
humor; não mais se “explode” de rir. O grotesco romântico é assim, na sugestiva metáfora de Bakhtin
(idem), um “grotesco de câmara”, uma espécie de carnaval solitário vivido pelo indivíduo no contexto
do seu irredutível isolamento.
Com isso, no grotesco romântico, os mesmos motivos que antes eram habituais, reconhecidos e
festejados por todos como “espantalhos cômicos” - como as máscaras, a figura do diabo, o sexo, a
loucura e, sobretudo, a morte - tornam-se alheios e hostis ao homem, o que é facilmente visível na
literatura de Hoffmann, e são empregados justamente para aterrorizar o leitor, remetendo-o a um
mundo que lhe é exterior, que já não é mais o seu. Os autômatos monstruosos tomam o lugar dos
divertidos bonecos do teatro popular, e remetem às forças ocultas que governam o homem à sua
revelia. As luzes e o brilho próprios do carnaval dão lugar às sombras, e o “noturno” passa a ser
tematizado. Assim, o que no realismo grotesco era claro, aberto à luz do dia, e provocava o riso, no
grotesco romântico veio à luz, mas deveria ter permanecido secreto e oculto, tornando-se, portanto,
Unheimlich; o que deflagrava o riso ambivalente, no contexto do Romantismo passa a ser apreciado
como “feiúra”, ou “deformação”, ainda que positivadas como próprias da realidade humana. O estranho
é, nesse sentido, o grotesco despojado de sua plena potência e do riso regenerador. “Glorifica-se a sua
força libertadora”, indica Bakhtin (1996, p.34), “mas não se alude à sua força regeneradora, e por
causa disso [o riso] perde seu tom jocoso e alegre”.
Convém ressaltar, no entanto, que na leitura de Bakhtin, a expressão do grotesco está sempre
atrelada à alegria, ainda que a sua potência possa ficar obscurecida, como no caso do Unheimlich. “Ao
morrer, o mundo dá à luz. No mundo grotesco, a relatividade de tudo o que existe é sempre alegre, o
10
grotesco está impregnado da alegria da mudança e das transformações, mesmo que em alguns casos
essa alegria se reduza ao mínimo, como no Romantismo”, escreve Bakhtin (ibid., p.42).
Portanto, se Freud sofre a influência da época em que vivia cedendo um lugar de destaque à
experiência do estranho, não deixamos, por isso, de encontrar em sua obra a dimensão de júbilo e de
celebração do tempo alegre próprias ao espírito do grotesco, seja nas considerações acerca do lúdico
infantil, bem como nas formulações acerca da criação sublimatória e, finalmente, no papel enigmático
atribuído ao humor no final do seu percurso. Portanto, a experiência unilateral do estranho não é
própria do homem, mas característica de uma das facetas do homem moderno, aquela que é assaltada
pela angústia de castração frente a evidência de que o eu não é senhor da sua própria casa. Ou seja, se
é verdade que desaprendemos a rir, a clínica psicanalítica, ao provocar simultaneamente efeitos de
estranheza e a possibilidade de se encontrar algo de familiar nessa experiência, sugere que não o
desaprendemos de todo. A emergência do humor e da graça (Witz) entre analista e analisando indica
que, ao sair de si, também o homem moderno pode transpor as fronteiras impostas pelo mundo
utilitário ao seu eu, resgatando o processo introjetivo de erotização da existência.
11
Ver, por exemplo, o Livro sobre nada (Barros, 1996), no qual a proposta é “fazer brinquedos com as
palavras”.
12
“símbolo” propriamente dito. Em Ferenczi (1913a, p.107), o símbolo é sempre “símbolo do termo
recalcado”.
A partir de então, o olho pode ser efetivamente símbolo do pênis, a cegueira produto da culpa
derivada angústia de castração e assim por diante. Não é difícil perceber que nesse processo,
simultaneamente, a corporalidade é recalcada, as atividades psíquicas “superiores” são valorizadas 12, e
o universo é deserotizado, o que termina por promover efetivamente um alheamento do mundo, uma
alienação entre sujeito e objeto. A experiência erótica torna-se, desse modo, uma experiência estranha e
angustiante, uma ameaça à integridade do eu narcísico assim constituído, ao remeter o sujeito ao
espaço “intermediário” (Zwischending) entre sujeito e objeto, no qual ambos são recriados
permanentemente (Ferenczi, 1928, p.7). Pode-se, inclusive, não mais suportar o reflexo do “baixo
corporal” no espelho, na tentativa de reduzir a corporalidade como um todo à uma mísera cabeça. Não
seria preciso, no percurso de uma análise, poder “perder a cabeça” e reconciliar-se com o “baixo
corporal”? Talvez seja esse o sentido grotesco do humor do condenado a caminho do patíbulo, ao qual
se refere Freud.
A clínica psicanalítica tem como visada uma reativação do processo de sexualização do
universo indicado por Ferenczi, no qual o movimento introjetivo do aparelho psíquico pode persistir
em seu trabalho de expansão erótica do sujeito. Mas, para isso, é preciso que a palavra que circula em
análise seja um veículo efetivo para a expressão do sujeito e a afetação do outro. Com a
problematização das palavras obscenas em análise, é justamente à dimensão expressiva da linguagem
que Ferenczi está se referindo. Se “toda fala tem sua origem numa ação que não ocorreu”, escreve
(1911, p.114), tanto a palavra obscena como o gracejo indecente, tratado por Freud no livro sobre o
chistes, dão “a nítida impressão de cometer uma ação”. Ferenczi quer sublinhar que a palavra do
analista é de fato uma palavra mágica, traz em si o poder de afetação do outro, e sua reflexão ganha
assim o estatuto de um questionamento decisivo sobre o ato analítico. A conclusão (ibid., p.119) de que
“o afeto recorre involuntariamente aos termos obscenos (...) em virtude de sua riqueza emotiva e sua
potência motora” indica, portanto, que a linguagem própria da cena analítica é uma linguagem efetiva,
teatral, como indica Schneider (1994), na qual a palavra se associa intimamente ao gesto e ao ato.
O mesmo se dá com o humor, palavra contagiante repleta de espírito. Quando o humor e o riso
grotescos podem emergir entre analista e analisando, é sinal de que houve uma reativação do espaço
intermediário no qual a criação sublimatória tem lugar. Resgatar o humor no campo psicanalítico é,
portanto, apostar na possibilidade de que aquilo que é experimentado como estranho e temido, possa
ser afirmado e vivido em sua plena potência como grotesco. É necessário poder-se rir na clínica
psicanalítica, ainda que o saber produzido traga consigo alguma dor.
Referências bibliográficas
ALBERTI, Verena. O riso e o risível na história do pensamento, Rio de Janeiro, Jorge
Zahar/Fundação Getúlio Vargas, 1999.
12
Daí a confusão que se encontra entre sublimação e recalque no início da obra de Freud, a sublimação
entendida como desvio do alvo da pulsão para fins socialmente valorizados. Ver, por exemplo, a leitura
freudiana acerca do interesse (compulsivo) de Leonardo da Vinci pelo vôo dos pássaros (cf. Freud,
1910) e do fazer científico de modo geral.
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