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UNIVERSIDADE DO ESTADO DO PARÁ

CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS E EDUCAÇÃO


CURSO DE LICENCIATURA PLENA EM LETRAS LÍNGUA PORTUGUESA

GABRIELA LIMA DA CUNHA

POÉTICAS DA ORALIDADE
Fichamento do capítulo II :Câmara Cascudo

BELÉM - PA
2024
1. Elementos e Temas
A Literatura Oral é composta por narrativas e expressões culturais transmitidas de
geração em geração por meio da fala, sem registro escrito. Essas histórias incluem contos,
anedotas, cantigas e fábulas, e sua estrutura é formada pela justaposição de elementos
tradicionais que, embora comuns a diversas culturas, assumem características próprias em
cada região. Como aponta o autor, "cada uma anedota ou estória, cantiga de ronda infantil ou
adivinha, é constituída pelos elementos justapostos, encadeados, formando o enredo, o
assunto, o conteúdo" (CASCUDO, 2012, p. 25).
Um dos aspectos mais relevantes da Literatura Oral é a tensão entre universalidade e
regionalidade. Embora as narrativas populares sejam frequentemente vistas como
representações culturais locais, muitas delas têm origens que ultrapassam fronteiras, sendo
variações de temas universais. Essas histórias, independentemente de onde são contadas,
compartilham elementos comuns que as tornam reconhecíveis em diferentes partes do mundo.
O autor observa que "as estórias mais populares no Brasil não são as mais regionais ou
julgadamente nascidas no país, mas aquelas de caráter universal, antigas, seculares,
espalhadas por quase toda a superfície da terra" (CASCUDO, 2012, p. 25).
As variantes dessas histórias surgem conforme elas se adaptam a diferentes contextos
culturais, geográficos e temporais. Pequenas mudanças no enredo, na linguagem ou nos
costumes refletem as particularidades de cada região, mas o núcleo da história permanece o
mesmo. Conforme o autor explica, "o grau de aproximação, numa escala de parentesco entre
os vários contos, resultante da maior ou menor coincidência do enredo geral ou de um e mais
elementos formadores, vai batizando as variantes" (CASCUDO, 2012, p. 25).
A fábula é um exemplo clássico de narrativa oral que se utiliza de elementos
universais, empregando animais como personagens para transmitir lições morais. Esse tipo de
história tem uma forte função didática, ajudando a ensinar valores sociais e morais,
especialmente para crianças e públicos não letrados. Cascudo aponta que "foram as fábulas,
intervindo animais com mentalidade humana, representando classes sociais, vícios para
corrigir e virtudes premiáveis" (CASCUDO, 2012, p. 26), evidenciando o caráter pedagógico
desse gênero narrativo.
Outro ponto de destaque no estudo da Literatura Oral é a participação do auditório nas
narrativas. Em muitas culturas, os ouvintes não são apenas receptores passivos das histórias;
eles interagem ativamente com as narrativas, fazendo julgamentos morais sobre as ações dos
personagens e sugerindo punições ou recompensas. Essa participação coletiva reflete a
solidariedade do grupo e reforça os valores sociais compartilhados. O autor menciona que "o
interesse se expressa pela participação crítica e apreciação espontânea da matéria moral,
gratidão, ingratidão, inveja, calúnia, traição, mentira" (CASCUDO, 2012, p. 27).

2. Canto, Dança, Auto Popular, Dança Dramática

O brasileiro, com sua herança cultural de raças cantadeiras e dançarinas, demonstra


um vínculo instintivo com o canto e a dança, que são expressões naturais de sua alegria e
comunicação. O ritmo das canções e danças se espalha rapidamente pelo país, refletindo uma
unicidade que é difícil de alcançar em outras nações. Como observa Cascudo, "difícil é que
uma canção se popularize no norte e no sul dos Estados Unidos com a mesma intensidade"
(CASCUDO, 2012, p. 28). No Brasil, o canto e a dança mantêm um caráter primitivo e
inseparável, onde todos participam ativamente, uma tradição herdada dos portugueses,
africanos e indígenas. Segundo o autor, "os portugueses, africanos e indígenas tiveram danças
cantadas e coletivas" (CASCUDO, 2012, p. 29).
Os portugueses, com sua tradição de dançar e cantar, influenciaram significativamente
a cultura musical brasileira, uma vez que as danças e cantos tradicionais portugueses
trouxeram formas e instrumentos que se integraram à cultura brasileira, como o violão e o
cavaquinho. No entanto, Cascudo destaca que "os portugueses fixaram o tonalismo
harmônico, deram a quadratura estrófica, provavelmente a síncopa" (CASCUDO, 2012, p.
33). Mas para além disso, os africanos também contribuíram com uma rica herança rítmica e
melódica, que se reflete na música popular brasileira. A influência africana é evidente na
ritmicidade dos cânticos e nas danças, como o samba e o maxixe, que têm raízes profundas
nas tradições africanas. Cascudo ressalta que "do africano tivemos a valorização da nossa
rítmica, vocábulos, flexões de sintaxe e dicção" (CASCUDO, 2012, p. 34).
Ademais, a influência indígena também é notável na música e dança brasileira. O
indígena contribuiu com elementos como o refrão curto, que moldou o canto popular do
Brasil. Cascudo aponta que "o indígena doou o macará, o refrão curto, dando uma especial
conformação ao canto popular brasileiro" (CASCUDO, 2012, p. 32). As danças e ritmos
indígenas, como os "Cabocolinhos" e "Caiapós", permanecem como vestígios visíveis dessa
contribuição.
Mário de Andrade também identificou que a música popular brasileira é resultado de
uma complexa mistura de influências culturais. Cascudo conclui que "foi de uma complexa
mistura de elementos estranhos que se formou a nossa música popular" (CASCUDO, 2012, p.
33). A integração desses elementos diversos criou uma rica tapeçaria musical que é
exclusivamente brasileira.
As cantigas de São João são amplamente conhecidas e tradicionais no Brasil devido à
sua popularidade e transmissão oral. Elas se propagam sem que haja a necessidade de alguém
encarregado de ensiná-las, adaptando-se de ano em ano. Segundo Luís da Câmara Cascudo, os
versos antigos ou relativamente modernos dessas canções referem-se aos louvores do santo,
enquanto o refrão revela a antiguidade da devoção: "O refrão revelava a velhice da oblação"
(CASCUDO, 2012, p. 35).
Já em sua análise sobre a música e a influência africana, Cascudo destaca que a música
popular brasileira, ao ser examinada, revela um processo de interdependência e influência
mútua. Ele afirma que "não se conversa sobre a estrutura melódica porque seria rever toda a
musicologia, evidenciando interdependência e influência infindáveis, de todos os horizontes"
(CASCUDO, 2012, p. 37). Essa característica é evidenciada tanto na repetição de palavras,
um processo tipicamente africano, como também nas formas melódicas que permeiam a
cultura musical do Brasil e de outros países.
Cascudo também observa que a supremacia do ritmo sobre a melodia é uma
característica central da música brasileira de origem africana, onde o ritmo domina a
composição. Ele cita Melville J. Herskovits para reforçar essa ideia: "O que há de incalculável
e poderoso na música brasileira, recebida de mão africana, é a valorização do ritmo, o ritmo
antes de tudo, absorvente, sobrenatural, dominador" (CASCUDO, 2012, p. 38).
Ainda, em suas considerações sobre a diversidade rítmica e melódica da música
brasileira, Cascudo comenta que a música popular nacional reflete uma "despersonalização
racial" em que vários elementos culturais são assimilados sem a predominância de um único
estilo. Ele conclui que "a nossa Literatura Oral participa dessa despersonalização racial,
recebendo, com indiferença democrática, os elementos vários, mental, racial, cultural,
ambiental, rítmico" (CASCUDO, 2012, p. 38).
Ao abordar as danças populares no Brasil, destaca a diversidade rítmica e de
nomenclaturas que marcam essas expressões culturais, afirmando que “Minas Gerais, Goiás,
Mato Grosso, Amazonas, Pará, Bahia terão mais danças que produtos exportáveis nas pautas
da alfândega” (CASCUDO, 2012, p. 39). Ele ressalta como elementos de diferentes tradições
se misturam, resultando em uma multiplicidade de estilos. As contradanças europeias, por
exemplo, diluíram-se no Brasil, perdendo a característica de canto e colaborando para a
formação de novas danças populares.
Cascudo também apresenta os elementos característicos das danças brasileiras, como o
canto e a figura coreográfica, além da flexibilidade dessas expressões, onde um dançarino
pode introduzir novos passos ou reviver antigos Ele menciona que danças circulares, de
origem africana, são predominantes no Brasil, sendo o samba rural paulista uma rara exceção,
que adota a formação em filas (p. 152). Outro ponto enfatizado é a influência mínima da
dança portuguesa nas manifestações populares brasileiras, excetuando a estrofe poética e a
melodia quadrada (p. 157).
Vale destacar também que a importância das danças dramáticas e dos autos populares,
como o Fandango, a Chegança e o Bumba meu boi, nascidos do ciclo das festas religiosas
católicas, mas recriados no Brasil com forte influência indígena e africana (p. 159). Essas
danças, mesmo com o passar do tempo e as pressões sociais, mantêm-se vivas, resistindo às
tentativas de erradicação e ganhando novos significados conforme o contexto em que são
praticadas (p. 160)
Cabe ressaltar que os elementos característicos das danças brasileiras, como o canto e
a figura coreográfica, além da flexibilidade dessas expressões, onde um dançarino pode
introduzir novos passos ou reviver antigos. Segundo ele, "posições típicas de uma dança
passam para outra, levadas por um dançarino mais entusiasta ou pelo esquecimento de regras
do baile em questão" (CASCUDO, 2012, p. 40). Ademais, é mencionado que danças
circulares, de origem africana, são predominantes no Brasil, sendo o samba rural paulista uma
rara exceção, que adota a formação em filas. Outro ponto enfatizado é a influência mínima da
dança portuguesa nas manifestações populares brasileiras, excetuando a estrofe poética e a
melodia quadrada (CASCUDO, 2012, p. 42).
A importância das danças dramáticas e dos autos populares, como o Fandango, a
Chegança e o Bumba meu boi, nascidos do ciclo das festas religiosas católicas, mas recriados
no Brasil com forte influência indígena e africana. Cascudo aponta que "houve uma
convergência de fatores nativos e pretos, determinando uma recriação" (CASCUDO, 2012, p.
42) dessas danças no Brasil, uma construção feita com elementos portugueses, mas sem
modelo europeu . Essas danças, mesmo com o passar do tempo e as pressões sociais,
mantêm-se vivas, resistindo às tentativas de erradicação e ganhando novos significados
conforme o contexto em que são praticadas.

3. Mito, Lenda, Fábula, Tradição, Conto.


As poéticas orais não dependem de um lugar fixo para existir, Eles circulam por
diferentes regiões, adaptando-se à imaginação coletiva de cada povo. No entanto, a lenda
fixa-se em um lugar específico, explicando práticas locais ou religiosas, atribuindo valor a
eventos e marcos regionais. Mesmo que a história oficial não comprove esses fatos, a tradição
popular se encarrega de recriá-los, apontando locais exatos como testemunhas de eventos
míticos.
O mito é maleável e muda conforme o ambiente onde é contado. A figura mítica pode
manter traços reconhecíveis, mas seus comportamentos e características variam de acordo
com o contexto cultural. Por exemplo, o lobisomem ou o Saci-Pererê não são descritos da
mesma forma em diferentes regiões do Brasil. A tradição, por sua vez, reúne elementos de
histórias populares, anedotas reais e imaginárias, misturando lendas, superstições e fatos. Ela
age como uma forma de preservar o conhecimento antigo, sendo transmitida com expressões
como "os antigos diziam", conectando o presente a uma herança do passado coletivo
(CASCUDO, 2012, p. 46).

4. Vitalidade, presença popular

O interesse pedagógico pelo passatempo infantil, como brincadeiras que servem como
ginástica, educação e crítica, é valioso para etnógrafos e antropólogos, pois oferece "um
documento de valor psicológico insubstituível e uma informação antropológica, prestante e
real" (CASCUDO, 2012, p. 46). As brincadeiras, muitas vezes universais, encontram
paralelos históricos, desde jogos na Roma Imperial até adaptações ibéricas.
Bonecas de pano e brinquedos de barro refletem estéticas e valores culturais de cada
povoação: "É possível calcular, aproximativamente, os valores da estética popular, função das
cores, predileção antropológica, confissão pelos tipos ideais, cabelo, olhos, pele, elegância na
indumentária, persistência em determinados modelos" (CASCUDO, 2012, p. 46).
Embora a nomenclatura dos passatempos infantis seja confusa, o foco aqui é a
literatura tradicional transmitida oralmente através das brincadeiras. Jogos como o pião de
madeira, presentes na "Odisseia" de Homero, e brincadeiras de roda, como "sur le pont
d’Avignon", mostram a influência cultural e a permanência dessas tradições (CASCUDO,
2012, p. 47).
Brincadeiras como esconde-esconde e cabra-cega têm variações regionais que se
mantêm ao longo dos séculos, destacando a importância da oralidade e da tradição popular:
"As centenas de rondas, cantadas pelas crianças brasileiras, pediriam um comentário, a
publicação das músicas, confrontos de textos, marcação coreográfica" (CASCUDO, 2012, p.
51).
As cantigas são parte essencial da infância e marcam uma fase especial aos oito anos,
conhecida como a entrada romântica. Jogos mais complexos perdem espaço, enquanto
brinquedos tradicionais, transmitidos de geração em geração, continuam populares. Esses
brinquedos, geralmente gratuitos, incluem músicas ou ritmos que tornam as brincadeiras
memoráveis e encantadoras (CASCUDO, 2012, p. 51-52).

5. Adivinhas

As adivinhas têm uma longa história e importância cultural em várias sociedades, sendo um
passatempo apreciado por diversos povos. Apesar disso, no Brasil, o estudo e a sistematização
das adivinhas não receberam tanta atenção. Elas são valorizadas por sua capacidade de
proporcionar insights psicológicos e culturais, sendo um verdadeiro teste coletivo amado
globalmente: "Nem precisamos evocar a velhice desse passatempo e sua importância como
documentação psicológica, verdadeiro teste coletivo amado por todos os povos da terra"
(CASCUDO, 2012, p. 51).
No Brasil, Sílvio Romero, precursor dos estudos sociais, publicou apenas três
adivinhas, apesar de sua vasta coleta de contos e cantos. "Nas adivinhas é que vamos
encontrar o mecanismo da formação das ideias e dos conceitos formulados por analogia,
antinomia ou assimilação, evidenciando o formidável poder de descrição ou definição que
possui o nosso povo" (CASCUDO, 2012, p. 61). As adivinhas são divididas em várias
categorias, como biomórfico, antropomórfico, descritivo e narrativo.
O estudo das adivinhas abrange suas origens, influências religiosas ou eruditas e
reminiscências culturais, sendo um campo apaixonante para os estudiosos do folclore. Elas
são vistas como pequenas obras-primas de síntese, originalidade e sabedoria: "Não há gênero,
na Literatura Oral, que apresente maior número de obras-primas de síntese, de originalidade e
de sabedoria, de graça, de ironia" (CASCUDO, 2012, p. 61-62).
No Brasil, as adivinhas foram populares nas festas da pequena sociedade brasileira,
propondo enigmas e perguntas a prêmio: "O gênero, estudado com decisão e segurança,
merece um exame mais amplo no Brasil" (CASCUDO, 2012, p. 69).

6. Anedotas

Na Literatura Oral, o gênero da anedota destaca-se pela sua vasta expressão


psicológica. Além de conter fórmulas, trocadilhos e respostas tradicionais, as anedotas são
vistas como "uma pintura mural de costumes, refletindo as tendências e orientações da
sociedade que as aplaude e faz circular velozmente" (CASCUDO, 2012, p. 69). Elas são uma
forma de sátira política, transmitida de forma clandestina e irreprimível, mudando de alvo
conforme o contexto. Cascudo observa que "raramente uma anedota é moderna" e que muitas
têm raízes em antigas narrativas, refletindo valores e críticas da sociedade ao longo do tempo
(CASCUDO, 2012, p. 70).
As anedotas possuem um valor de crítica social e são menos suscetíveis a
desfigurações do que os contos tradicionais. "Todas resumem a mentalidade social da época, a
crítica, a visão, a ironia que todos entendem imediata e rapidamente" (CASCUDO, 2012, p.
70). Elas abordam questões sociais e culturais de forma humorística, sendo pequenas
obras-primas de síntese, originalidade e sabedoria.
Cascudo também menciona que as anedotas eróticas destacam características sexuais e
psicológicas dos personagens, refletindo o desenvolvimento material e cultural de uma
sociedade. "Uma anedota 'desinteressada', para rir, com o ridículo ou raridade da situação
psicológica, é um dado que afirma 'civilização', no plano geral do vocábulo" (CASCUDO,
2012, p. 70). Apesar da riqueza das anedotas, os anedotários brasileiros são limitados,
indicando a necessidade de mais estudos nesse campo
7. Outras espécies na Literatura Oral

Os provérbios, ditados, máximas e outras frases-feitas constituem uma parte


importante da literatura oral, conhecida como a sabedoria popular ou "gaya scienza"
(CASCUDO, 2012, p. 73).
“A forma letrada dos adágios e provérbios, em sua maioria absoluta feitos em
setissílabos, diz a origem erudita, sua aplicação educacional, indicações de higiene e medicina
preventiva, cortesania, leis sociais, rituais domésticos" (CASCUDO, 2012, p. 75).

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