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01/05/2023, 17:46 UNINTER

FILOSOFIA
AULA 5

Prof. Paulo Niccoli Ramirez

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CONVERSA INICIAL

É importante destacar que há uma diferença entre as áreas de estudos da História e da Filosofia

no que diz respeito à origem do que se entende como sendo o contemporâneo. Enquanto a

historiografia tem a tendência de abordar o início do período contemporâneo com a Revolução


Francesa em 1789, o pensamento filosófico indica que ele foi inaugurado com o filósofo alemão

Nietzsche (1844 –1900), responsável por uma severa crítica ao pensamento antigo e moderno.
Veremos no primeiro tema a oposição de Nietzsche ao desenvolvimento do uso da razão na cultura

ocidental que, desde o início com o pensamento socrático até o pensamento moderno se revelou a

partir do emprego de princípios morais e de culpa contra os instintos, às paixões e sensibilidade.


Nietzsche é considerado o primeiro filósofo contemporâneo porque realizou a crítica à modernidade,

inspirando o que designa como crise da razão.

O tema 2 dedica-se ao estudo da crítica do sociólogo alemão Max Weber (1864-1920) ao

processo de racionalização da cultura ocidental desde à ascensão da modernidade no século XVII. O

pensador observa que o desenvolvimento da ciência moderna e do capitalismo vieram


acompanhados por um processo que torna as relações sociais cada vez mais tomadas por relações

burocráticas, tendendo a inibir a criatividade e liberdade dos indivíduos. Weber define esse

movimento como jaula de ferro.

O terceiro tema dedica-se à investigação do pensamento da Escola de Frankfurt e de seus

pensadores: Adorno (1903-1969), Horkheimer (1895-1973), Marcuse (1898-1979) e Walter Benjamin

(1892-1940). Inspirados no pensamento de Marx, Nietzsche, Freud e Weber, impactados pelas duas

Guerras Mundiais e o papel massificador dos meios de comunicação, estes filósofos realizaram entre

as décadas de 1920 a 1970 a crítica ao pensamento moderno e Iluminista, considerando que a


racionalidade ao invés de emancipar a humanidade voltou-se contra ela.

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No tema 4 será abordada a análise crítica da filósofa alemã Hannah Arendt (1906-1975), seu

conceito de banalidade do mal e a crítica aos regimes totalitários no século XX. Segundo a

pensadora, os campos de concentração e a barbárie contemporânea foram o resultado do


desvirtuamento do uso da racionalidade. O tema 5 investigará as críticas mais contemporâneas de
Bauman (1925-2017) ao projeto da modernidade por meio do estudo da sociedade globalizada com

a passagem dos séculos XX e XXI. Bauman verifica o desenvolvimento contraditório da racionalidade


presente com os recentes avanços tecnológicos.

TEMA 1 – O PENSAMENTO DE NIETZSCHE

Nietzsche no livro Crepúsculo do Ídolos (2006) publicado em 1889 considerava realizar filosofia a

marteladas. Isto significa dizer que em sua crítica ao desenvolvimento da razão na cultura ocidental
não sobraria pedra sobre pedra no que diz respeito ao pensamento de praticamente todos seus

antecessores. Nietzsche possui dois grandes “fronts” de batalha em torno do par moralidade-

racionalidade: o primeiro front se volta conta o pensamento clássico grego, elegendo Sócrates e
Platão como maiores adversários; e o segundo, o pensamento moderno caracterizado pelo otimismo

do progresso da ciência e dos princípios liberais, sintetizados no Iluminismo, positivismo e na


Alemanha com o idealismo alemão de Kant e Hegel.

1.1 A CRÍTICA À MORAL

Nietzsche em suas obras fez uma série de reflexões que afirmavam o valor da vida e denunciava

como elementos hostis a ela a negação dos sentidos e das paixões feitas pelas “virtudes platônicas” e

“cristãs” desde a Antiguidade. A ética altruísta (amor gratuito ao próximo), a política democrática
moderna e a tentativa da ciência alcançar a mais plena verdade e felicidade seriam meros juízos de

valor e não fatos.

Nos livros Além do bem e do mal (1992) e Genealogia da Moral (1998), respectivamente

publicados em 1886 e 1887, o filósofo mostra em um primeiro plano a necessidade de desconstruir a

moralidade ocidental. Para tanto, analisa e critica a historiografia da moral ocidental, ou seja, percebe
que a narrativa filosófica esteve pautada em valores morais como bem e mal; justo e injusto; vício e

virtude; pecado e salvação; mentira e verdade enaltecendo a culpa e o pecado (este elemento

desenvolvido com maior vigor pelo pensamento cristão). Questiona o uso da moral e das crenças,

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pois essas estabelecem valores falsos e ofuscam a realidade. Demonstra que por trás dos valores
construídos, tais como a justiça, liberdade, igualdade, esconde-se uma falsa moral e falsas virtudes.

Os indivíduos construíram a história, a moral e as virtudes como se existissem fenômenos


verdadeiros. Nietzsche nos adverte que o que existe são as interpretações morais dos fenômenos.

Ao interpretar, os humanos necessariamente estabelecem um valor que é dado pela sua


perspectiva. O perspectivismo é subjetivo, e, nesse caso, falta ao conceito a realidade, uma vez que

não há nada que justifique o imaginário. Para Nietzsche não existe verdade, pois ela é relativa, é uma
construção histórica e cultural, ou seja, varia de tempos em tempos e de sociedade para sociedade
ou mesmo de indivíduo para indivíduo. Nessa direção, o pensamento nietzscheano assume a postura

niilista (em latim, nihil significa nada), de modo que o niilismo é um “nadismo”, isto é, promove a
suspensão dos julgamentos morais e considera infundados os juízos de valor e crenças baseadas na

moralidade. Não existem verdadeiramente o bem e o mal, nem a virtude ou o vício. Tudo isto é uma

invenção de nossa imaginação, não são a realidade, representam o pecado original do pensamento
filosófico, o de crer ter encontrado a verdade.

No livro O nascimento da tragédia (2007), publicado em 1872, Nietzsche descobriu que na Grécia
Antiga, antes de Platão e Sócrates, dois princípios de vida baseados nos deuses Apolo e Dionísio,

opunham-se ao mesmo tempo que se complementavam, compondo o que Nietzsche designava


como “vida trágica”.

Figura 1 – Apolo, deus grego que representa a beleza, a disciplina e a vida harmoniosa. Fazia os
homens conscientes de seus vícios e era o agente de sua purificação; presidia sobre as leis da

Religião e sobre as constituições das cidades, era o símbolo da inspiração profética e de uma vida

virtuosa e racional

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Créditos: Svitlana Belinska/Adobe Stock.

Figura 2 – Dionísio, deus grego da desmedida, que representa as paixões e sentimentos selvagens ou

irracionais. Os romanos o chamavam de Baco, é o deus do vinho, das festas, do lazer, do prazer,

enfim, dos excessos da carne e dos sentimentos. Isto significa que é um deus que representa as
paixões ou os sentidos humanos e até mesmo os vícios

Créditos: Ruslan Gilmanshin/Adobe Stock.

Por vida trágica, afirma ser um modo de vida ou existência que une a razão e os sentidos, Apolo

e Dionísio, capazes de tornar a vida como arte, repleta de paixões e sentidos, sem que se negue a

razão. A vida trágica é a noção de que a existência consiste em altos e baixos, sofrimentos e alegrias,
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prazeres e derrotas, devendo haver o Amor fati, expressão latina que representa o 'amor ao destino’
ou 'amor ao fado’, de modo que devemos aceitar (fugindo do determinismo) e superar o destino

humano, ainda que repleto de percalços. Nietzsche aprende com o espírito trágico grego que, antes
mesmo de poder considerar os humanos como seres racionais, devemos caracterizá-los por serem

animais estéticos.

No entanto, Sócrates e Platão realizaram na Antiguidade, na visão de Nietzsche, a primeira

transvaloração, ou seja, inversão de valores, ao supervalorizarem a racionalidade (aspecto apolíneo) e


menosprezaram os sentidos (aspecto dionisíaco, ligado ao corpo, paixões e desmedidas). Para
Nietzsche essa é a origem da decadência da cultura ocidental com o fim da concepção de vida

trágica, anterior à filosofia de Sócrates e Platão. O problema identificado é que depois desses dois
filósofos e com o cristianismo, a filosofia começa um ataque aos sentidos e paixões e apenas

promove a valorização da razão. Platão e Sócrates fundaram a ruptura entre o mythos (sensibilidade)

e o logos (racionalidade), pondo fim à vida trágica. Ou seja, o aspecto dionisíaco da vida foi negado e
Sócrates, Platão e o cristianismo passam a defender o lado racional e contemplativo da existência,

negando a materialidade. A partir desse momento a filosofia inspirou-se em meras análises morais de
cunho apolíneo, subordinando os indivíduos ao que Nietzsche denominou como moral das ovelhas

(ou moral dos rebanhos ou moral dos escravos), responsável por criar a obediência dos indivíduos

aos valores morais manipulados e operados por terceiros, sejam filósofos ou lideranças religiosas e
políticas.

1.2 NIETZSCHE, CRÍTICO DA MODERNIDADE

Na obra A Gaia Ciência (2002), publicada em 1882, Nietzsche inicia a sua crítica à razão

empregada na modernidade. No célebre fragmento 125 dessa mesma obra, Nietzsche anuncia a

morte de Deus. Na realidade, essa alegoria sobre a morte de Deus revela que com a ascensão da

ciência moderna a partir do século XVII, do Iluminismo (século XVIII) e do positivismo (século XIX) o
pensamento racional e científico acabou por destronar Deus como fonte de verdade e solução de

todos os problemas humanos, conforme era concebido sobretudo durante o período medieval

anterior.

Nietzsche não se opõe aos procedimentos científicos, como a experimentação, matematização

ou observação, senão à moralidade contida nos discursos modernos. Sua crítica gira em torno de
uma espécie de apolinização da ciência e de todas as concepções morais, éticas e políticas criadas
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desde à modernidade, como se estivessem criando um paraíso na Terra, substituindo as promessas

religiosas cristãs pelos progressos tecnológicos. A ciência moderna foi influenciada pela filosofia de
Descartes com a ideia de que a razão e a ciência dominariam a natureza e produziriam o bem-estar.
A modernidade deu as bases para os pensamentos Iluminista e liberal. Kant afirma que após a

Revoluções Científica e Francesa a humanidade alcançaria a “Paz Perpétua”. Hegel considera que
após a Revolução Francesa e com o conhecimento científico nossa espécie seria conduzida ao “Fim
da história”. Comte concebia a ideia de “ordem e progresso”. Todas estas visões são formas morais de
enaltecimento da razão moderna.

A morte de Deus revela o eterno retorno, ou seja, em todas as épocas as diferentes morais e
deuses morrem, sendo substituídos por outros e novas formas de moral. Na modernidade, Deus foi

substituído moralmente pela ciência e racionalidade. Esse otimismo moral em torno da racionalidade

moderna fez com que Nietzsche no livro Assim Falava Zaratustra (2000), publicado em 1883,

denominasse criticamente os indivíduos seduzidos pela moral moderna como último homem. No
próximo tópico vamos abordar com mais detalhes o conteúdo dessa obra e da crítica de Nietzsche

ao último homem.

1.3 ZARATUSTRA E O SUPER-HOMEM

Nos livros Humano, demasiado humano (2005), publicado em 1878 e a Genealogia da Moral
(1998), Nietzsche se dá conta de que é impossível viver sem a moral, levando-o à superação do seu
niilismo. Somos os únicos animais que vivem em função da moral. Predomina, conforme vimos, o

eterno retorno, ciclo que se dá entre a morte de Deus ou outros deuses e a origem de novas

construções morais. A impossibilidade de vivermos sem qualquer moral é acompanhada pela ideia na

qual todas os valores morais e todos os deuses surgem, se desenvolvem, morrem ou desaparecem.

O filósofo afirma ter sido o primeiro pensador a superar o niilismo. Depois de descobrir que a
moral é invenção sem valor universal ou verdadeiro e que é impossível viver sem nenhum valor

moral, Nietzsche irá procurar criar uma nova moral, mas agora diretamente ligada à vida e à natureza

espontânea, não mais aos valores que imaginamos serem verdadeiros ou que tenha origem em

religiões, filósofos ou modelos políticos, ou seja, forças externas ou alheias a cada indivíduo e de

caráter apolíneo.

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Nietzsche passa a defender o resgate da vida trágica grega para a nossa vida contemporânea, de

modo a conciliar as simbologias de Apolo e Dionísio. Por isto, Nietzsche toma para si o personagem
Zaratustra (ou Zoroastro), primeiro entre os profetas, nascido na Pérsia no século VII a.C. e fundador
da primeira religião monoteísta que se tem conhecimento. Nietzsche, ao escrever Assim falava

Zaratustra (2000), procura ser ironicamente o último profeta de nossa civilização e tem como objetivo
criar uma nova moral distante das virtudes platônicas e cristãs, já que aposta no resgate da vida
trágica grega. Nessa obra, Zaratustra, agora profeta que encarna as ideias do pensador alemão, opõe
o Super-Homem ao Último Homem. Vejamos no que consiste esta oposição de conceito.

O último homem é uma alegoria da moralidade moderna, conforme vimos no item anterior.
Nietzsche critica sua conduta, pois suas principais características são a busca reduzida a argumentos

morais falaciosos pelo bem-estar e conforto por meio da ciência e da noção de progresso; representa

um indivíduo medíocre, acomodado, apático e com falta de interesse pela vida, uma vez que se

submete mais aos valores morais modernos do que nas suas efetivas contribuições à humanidade. O
último homem possui uma visão apolínea de mundo, uma vez que acredita que todos os problemas

humanos serão solucionados pela técnica e racionalidade. É o conceito que dará origem à noção de
Cultura de Massas para Escola de Frankfurt no século XX, relacionado também à noção de moral dos

rebanhos, escravos ou ovelhas.

No lugar do último homem, Zaratustra de Nietzsche apresenta o que concebe como Super-

homem ou Além Homem, sendo ele uma crítica à herança apolínea na modernidade. Trata-se de
resgatar o equilíbrio da vida trágica grega (Nietzsche realiza uma nova transvaloração) na

modernidade, colocando lado a lado os aspectos apolíneos e dionisíacos. Representa o amor à vida,

considerando suas oscilações e tragédias, além de afirmar um profundo individualismo, pois

Nietzsche deseja que a moral seja uma invenção de cada indivíduo, podendo ser ela alterada

conforme o seu interesse. A nova moral apresentada por Zaratustra revela que ela é uma construção
individual, varia, portanto, de indivíduo para indivíduo, é espontânea e liberta da noção de culpa,

podendo ser reelaborada a cada instante.

TEMA 2 – MAX WEBER: BUROCRACIA E A JAULA DE FERRO

Investigaremos no segundo tema a crítica do sociólogo alemão Max Weber ao processo de

racionalização moderna. Em duas importantes obras, A ética protestante e o espírito do capitalismo

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(2003) e o livro póstumo Economia e Sociedade (2009), publicados respectivamente em 1905 e 1922,

Weber apresenta indícios dos riscos do processo de ascensão e controle da razão sobre todos os
comportamentos humanos modernos. Esse fenômeno, na visão do sociólogo, torna-se mais evidente
com o processo de constituição da racionalidade econômica capitalista e cuja origem é identificada a

partir da ética protestante. O protestantismo, a partir do século XVII, permitiu a elaboração do que
Weber denomina como ética do trabalho, conduta de vida econômica voltada aos negócios, ao
caráter metódico das práticas comerciais e resumida no princípio de que o trabalho dignifica.

Segundo a leitura de Weber a partir de sua Ética protestante e o espírito do capitalismo (2003), a
ética do trabalho deu origem à burocracia moderna e reforçou o desencantamento do mundo. No que
diz respeito ao desencantamento do mundo protestante, o conceito refere-se a uma forma racional

de organizar o trabalho e a perspectiva sobre o mundo, apostando numa conduta mais científica e

pragmática, jamais fundamentada em crendices e superstições. Exemplos disso são os metodistas,

que receberam este nome porque possuíam como livro de cabeceira o Discurso do Método de
Descartes. Tal postura influenciou a construção da modernidade em torno de uma perspectiva

científica da realidade e o trabalho fundamentado na racionalidade econômica. Dessa organização


racional do trabalho surgirá a burocracia moderna.

Weber possui uma visão ambígua sobre a burocracia. Considera a maior invenção da
modernidade. No entanto, pode se tornar o maior malefício contra a nossa civilização. Burocracia não

deve ser compreendida de forma pejorativa como um serviço público lento e de má qualidade. Na
realidade, a burocracia é um sistema de relações sociais racional estabelecida por meio de contratos,

leis, legislações, decretos, constituições, documentos etc., que tem como objetivo garantir a

segurança, estabilidade, controle, durabilidade, confiança e previsibilidade do convívio social. O que

define a burocracia moderna é o fato de ela estar presente em praticamente em todas as relações

sociais (relações econômicas, políticas, matrimoniais e de filiação; educação, moradia etc.).

No entanto, quanto maior for a sua presença numa sociedade, Weber alerta que a burocracia

pode se transformar ou se converter numa jaula de ferro (ou de aço), de modo que inibe a liberdade,

a criatividade e espontaneidade dos sujeitos, tornando a relação entre as pessoas meramente

mecânica, vazia e sem reflexão. Com a concepção de jaula de ferro, Weber é avaliado pelos seus

intérpretes como pessimista em relação ao capitalismo e à modernidade.

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TEMA 3 – A CRISE DA MODERNIDADE NO PENSAMENTO DA


ESCOLA DE FRANKFURT

No tema 3 estudaremos a crise da razão sob a perspectiva da Escola de Frankfurt. Essa escola de

pensamento surgiu na década de 1920 e foi impactada pelas duas Guerras Mundiais, ascensão do
nazismo ao lado do emprego dos meios de comunicação para fins políticos e comerciais. Todas estas
experiências conduziram autores como Adorno, Horkheimer, Walter Benjamin e Marcuse a realizarem
críticas nas quais se evidencia o modo como o uso da racionalidade pode se voltar dialeticamente
contra a humanidade, conforme veremos nos tópicos abaixo.

É importante destacar primeiro que o pensamento da Escola de Frankfurt teve quatro principais

fontes teóricas que a influenciaram. A noção de desencantamento do mundo e jaula de ferro de Max
Weber nutriu as reflexões que apresentavam as ambiguidades do uso da racionalidade moderna. A

dialética de Marx e os conceitos de alienação e ideologia contribuíram igualmente com os

frankfurtianos para ilustrar as contradições do capitalismo, a perda de consciência de classe entre os


trabalhadores, reveladas no consumo desenfreado e aceitação passiva das massas diante das

informações transmitidas pelas propagandas política e comercial disseminadas por governos e


empresas. Além disso, as concepções nietzscheanas de último homem e moral das ovelhas

converteram-se nas mãos dos frankfurtianos no conceito de cultura de massas, conceito que veremos

mais adiante. Outra fundamental influência sobre essa escola é o pensamento de Freud (1856-1939)
no que diz respeito à avaliação do papel do inconsciente, das repressões libidinais, da sublimação e
canalizações que foram relacionadas, sobretudo por Marcuse, com a cultura do consumo presente no

capitalismo.

3.1 RAZÃO INSTRUMENTAL VERSUS RAZÃO REFLEXIVA

Adorno e Horkheimer perceberão que o desenvolvimento técnico, científico e racional

promovido desde a Ciência Moderna e Iluminismo podem ter se convertido no que definem como
sendo dialética negativa. Os meios de comunicação, como o rádio e o cinema, resultado dos avanços

dessa racionalidade, deram origem à sociedade de massas e tornaram possível o nazismo. Na

primeira metade do século XX, o progresso contraditoriamente evidenciava sua relação com a

barbárie, andavam lado a lado com a indústria bélica, responsável por milhares de mortes e técnicas

sofisticadas de extermínio. Em obras importantes como Dialética do Esclarecimento (Adorno;


Horkheimer, 2006, lançada em 1944), O eclipse da Razão (Horkheimer, 2015), A Indústria Cultural
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(Adorno; 2002) e Dialética Negativa (Adorno, 2009), publicadas respectivamente em 1946, 1963 1967

os dois pensadores demonstrarão que o desenvolvimento racional da cultura ocidental foi dialético,
portanto, repleto de paradoxos. Por um lado, grandes progressos técnicos e materiais à nossa
civilização, por outro, a técnica e a ciência serviram como instrumentos de dominação e destruição.

Nessa direção, definem a existência de duas formas distintas de racionalidade, sintetizadas nos
conceitos de razão instrumental e razão reflexiva (traduzida também como razão crítica ou cognitiva).

Razão Instrumental – representa um tipo de racionalidade ou uso da razão sem fins


humanistas. Pode estar relacionada à barbárie ou formas autoritárias e alienantes. Envolve o
desenvolvimento e progresso da ciência, da tecnologia e da indústria com objetivos de dominação
ou contra a humanidade. Temos como exemplos armas nucleares, o uso da propaganda política feita

pelos nazistas ou mesmo propagandas comerciais que massificam o comportamento dos

consumidores. Relaciona-se à Indústria Cultural e Cultura de Massas, conforme veremos mais adiante.

Razão reflexiva – ocorre quando a razão, a ciência e as tecnologias de informação enriquecem a

cultura, o conhecimento, o senso-crítico e o engajamento político. Promove um tipo de racionalidade

favorável à humanidade e às relações sociais. Está presente na cultura erudita e na cultura popular.
Músicas, filmes, folclores, canções populares, conhecimentos tradicionais e livros com conteúdo

reflexivo ou crítico são alguns exemplos, além de avanços científicos que promovam o bem-estar de
forma democrática e universal.

A razão instrumental permite que tecnologias de informação (rádio, TV, jornais e revistas)

possam estar a serviço da barbárie, do fascismo e modelos políticos retrógrados. O paradoxo

consiste no fato de que o Iluminismo, a indústria e a ciência moderna objetivavam livrar a

humanidade dos mitos e da ignorância e fazer do homem o senhor da natureza (era o que afirma

Descartes no século XVII). No entanto, ocorre na modernidade e no capitalismo uma reviravolta (por

isso, o caráter dialético do Iluminismo ou Esclarecimento), na qual a natureza e a tecnologia parecem


se voltar contra a humanidade, tornam-se uma espécie mito, é o que ocorre com a Indústria cultural

ao iludir os indivíduos, criando um cenário do fetichismo, do consumo e a bajulação às figuras

autoritárias ou fúteis. Na visão de Adorno e Horkheimer, isto explica por que as pessoas se

submetem aos produtos e ao consumo massificado. Trata-se de uma interpretação pessimista que

não somente demonstra a crise da racionalidade na cultura ocidental, como também a forma
dialética como esta razão volta-se contra à civilidade, torna-se meramente instrumental.

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[...] a indústria cultural reflete a irracionalidade objetiva da sociedade capitalista tardia, como

racionalidade da manipulação de massas. A indústria cultural obscurece por razões objetivas,


aparecendo como uma função pública da apropriação privada do trabalho social. Na continuidade

de seu próprio desenvolvimento, o esclarecimento se inverte em obscurantismo e ocultamento.


Para Adorno, a indústria cultural corresponde à continuidade histórica de condições sociais

objetivas que formam a antecâmara de Auschwitz, a racionalização da linha de produção industrial

– seja fordista, seja flexível – do terror e da morte. (Gomes, 2010, p.21-22)

Um exemplo recente do resultado da aplicação da razão instrumental na sociedade moderna são

os problemas ambientais. Até meados da década de 1970 a consciência e responsabilidade ambiental


não eram temas disseminados na sociedade. Durante o século XIX até a década de 1970 eram
praticamente nulos os debates sobre as consequências do progresso industrial e científico sobre o

meio ambiente. Porém, o movimento ambientalista (Greenpeace + WWF) inicia na década de 1970 a
problematização a respeito do fato de que desenvolvimento industrial e científico contraditoriamente

deram origem à extinção de animais, destruição de florestas, mudanças climáticas e ameaças

também à vida humana. Como vemos, a razão instrumental tem uma tendência predatória e de
promoção da barbárie, como é o caso da Indústria Cultural.

3.2 A INDÚSTRIA CULTURAL E A CULTURA DE MASSAS

O que é a indústria cultural e o que a diferencia da cultura popular? O que seria a cultura

erudita?

Cultura popular, para Adorno e Horkheimer representa manifestações de tradições e história de


um povo; é espontânea, tem caráter único emprega elementos artesanais de uma cultura (como é o

caso da oralidade, lendas, enfim, o passado histórico que é transmitido de geração para geração). Ela

é heterogênea e não se presta ao consumo, mas sim à atividade lúdica e original à medida que

reproduz a vida cultural. Ela existe ou existiu principalmente em sociedades pré-capitalistas ou

distantes do atual regime econômico, ou seja, onde o consumo massificado ainda não atingiu seu
apogeu, como é o caso de sociedades indígenas, rurais ou até mesmo alguns poucos locais na área

urbana. A Cultura Erudita, considerada nobre e clássica, diz respeito ao que é contemplado por

poucos ou um pequeno número de indivíduos. Não representa a cultura industrial e massificada,

tampouco a cultura popular, embora se aproxime mais dessa última, pois expressa a reflexão, a

história e uma objetividade que não é mercadológica. A cultura erudita é verificada nos museus,

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conservatórios de música clássica e nas universidades. Culturas Erudita e Popular tem em comum o

fato de representarem a razão reflexiva.

A Cultura de Massas está relacionada à Indústria cultural. É a forma pela qual a produção artística

e cultural está organizada no interior no sistema de produção capitalista, lançada no mercado e por
este consumida. Está igualmente presente com o emprego dos meios de comunicação em regimes
políticos autoritários. A grande questão é que, em seu domínio, a arte deixa de ter o caráter único,

singular, deixa de ser a representação da genialidade, ou da angústia, da dor ou das grandes


reflexões de um artista, poeta, escritor. A Indústria cultural transforma as expressões artísticas em
mercadorias, que passam a ser um bem de consumo coletivo, destinado desde o início à venda,
avaliado segundo sua lucratividade ou aceitação de mercado e não pelo seu valor estético, filosófico,
literário intrínseco. A obra adquire caráter homogêneo e massificado, não produz ou permite

reflexão, não reproduz nada que diga respeito à história ou tradições. A cultura de massas expressa o

contexto fútil, burguês e descartável. Costuma ser repetitiva e sempre impõe a novidade. A indústria
cultural enquanto manifestação da razão instrumental ameaça de forma permanente as culturas

popular e erudita, à medida que ela pode incorporar e transformá-las em mercadorias.

Walter Benjamin (1989), no ensaio A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica escrito na

década de 1920 buscou opor os conceitos de politização da arte e estetização da política. Entende-se
como politização da arte as produções culturais, ainda que no interior do capitalismo, que produzem

senso-crítico e reflexão. É interessante notar que o conceito de politização da arte de Benjamin se

aproxima da noção de razão reflexiva de Adorno e Horkheimer. A experiência desse tipo de


manifestação foi verificada por Benjamin ao analisar o cinema de Charles Chaplin, por exemplo.

Quanto à estetização da política, ela diz respeito às manifestações estéticas ou culturais voltadas

à massificação, ao fascismo e nazismo, à alienação e consumo esvaziado de sentido. Dessa forma, a

concepção de estetização da política se aproxima do conceito de razão instrumental.

Na obra Eros e Civilização (1968), publicada em 1955, Marcuse avalia a possibilidade de uma

civilização não-repressiva. Parte do princípio de Freud, segundo o qual a história da civilização e o

progresso da humanidade estão relacionados à repressão.

Figura 3 – Eros é deus grego que representa o desejo e o erotismo

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Créditos: Mistervlad/Adobe Stock.

Esta repressão é verificada nitidamente por meio da filosofia ocidental que enfatizou a razão e
atacou os sentidos, paixões e instintos, entre eles a sensualidade. Embora haja repressão, Marcuse

concorda com Freud ao avaliar que há sempre a volta do reprimido. No interior da psicanálise de

Freud, os impulsos presentes no Id (isso) devem ser processados pelo Ego (eu) devido às repressões
do Superego (supereu) para que se adapte à realidade, de forma a promover a passagem do princípio

do prazer para o princípio de realidade (racionalidade), portanto um conteúdo reacionário. Promove-

se assim a sublimação.

Em Eros e Civilização (1968), Marcuse entende que na sociedade capitalista o princípio de

realidade é designado como princípio de desempenho, uma forma de domínio sobre a vida. O

princípio de desempenho é repressor da vida instintiva (sobretudo a sexualidade) e se verifica com a


divisão hierárquica do trabalho, a empresa, a fábrica, a escola, entre outras certas exigências sociais,

como o controle público da existência privada. Segundo Marcuse, a repressão foi necessária à

formação da civilização e para que ela se libertasse da escassez. Com a sociedade capitalista, há

condições de eliminação da escassez, porém predomina o interesse na dominação pela dominação.

A partir da leitura que Marcuse realizada do pensamento de Freud, o filósofo avalia que a
"sublimação” diz respeito ao processo psíquico no qual as pulsões sexuais são convertidas em

satisfação com objetos não sexuais (leitura, viagens, passeios, consumo etc.), conduzindo à

“dessexualização”, pois, representa a inibição da satisfação pulsional em nome de outras formas de


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prazer. Sem a sublimação não seriam possíveis as relações sociais (família, trabalho, a amizade etc.).

Marcuse se dá conta de que o desenvolvimento do capitalismo e as possibilidades de superação da


escassez por meio do consumo e da propaganda deram origem ao que designou como
dessublimação repressiva. Esse conceito está relacionado ao fato de que a sociedade contemporânea

permite maior liberdade e satisfação das necessidades por meio da superabundância da produção de

bens de consumo.

No entanto, essa liberdade dialeticamente (ou contraditoriamente) produziu mais repressão,


dessensibilização e perda mesmo do erotismo por meio da indústria cultural, produzindo dessa
forma mais repressão. Trata-se da deserotização do corpo, ou seja, quando o corpo e o trabalho são
instrumentos de exploração econômica, verificada com a indústria cultural (o sexo tornou-se
vendável com filmes, peças teatrais, revistas etc.). A leitura de Marcuse é a de que a aparente

satisfação tornou-se em mais dominação, perda do desejo e dessublimação.

TEMA 4 – HANNAH ARENDT E A BANALIDADE DO MAL

No tema quatro vamos investigar a concepção de banalidade do mal estabelecido por Hannah

Arendt, que foi uma teórica política alemã de origem judaica. Atuou também como jornalista e
professora universitária. Considerada uma das intelectuais mais importantes e influentes do século

XX, escapou do nazismo em 1933 e viveu em Paris até 1941. Depois viveu nos Estados Unidos até sua
morte em 1975. Foi uma grande crítica do totalitarismo e do fascismo. No livro Eichmann em

Jerusalém (1999), publicado em 1963, o pensamento da filósofa ressalta a crise da razão e da ética
moderna por meio do estudo do julgamento de um oficial nazista após à Segunda Guerra Mundial.

Adolf Eichmann foi um oficial da Gestapo nazista responsabilizado pela logística de extermínio de

milhões de pessoas. Foi capturado com documentos falsos na Argentina e julgado em Jerusalém no

ano de1961. Hannah Arendt foi enviada como correspondente pela revista The New Yorker para

cobrir as sessões do julgamento tornadas públicas pelo governo israelense.

O ponto central do livro é a maneira como a filósofa interpreta o comportamento de Eichmann,

pois além de cobrir todo o processo do julgamento, ela ainda o entrevistou. Segundo Arendt,

Eichmann não era um monstro, alguém com um espírito demoníaco e antissemita. Ela o identificou

como um burocrata, um sujeito medíocre, que de certa forma renunciou a pensar nas consequências

que os seus atos poderiam ter ao obedecer às regras e leis consideradas por ele racionais. Trata-se

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também de uma crítica às concepções éticas de Kant, fundamentadas na deontologia, isto é, um

dever moral considerado racional que deve ser realizado a todo custo.

É nesse contexto que Arendt define o conceito de banalidade do mal. Representa o fenômeno da

recusa do caráter humano, alicerçado na recusa da reflexão e na tendência de não responsabilidade


frente aos atos bárbaros praticados. O indivíduo se afasta da responsabilidade e do domínio de suas
atitudes, pensamentos e comportamentos, desconectando-se do sentido do que é ser humano.

Partindo desse pressuposto, é possível compreender como a sociedade consegue se manter apática
mesmo diante de situações anti civilizatórias, como foi o nazismo, as grandes guerras e, atualmente,
a desigualdade social. A banalidade do mal, portanto, é fruto de uma sociedade inspirada num grau e
defesa da racionalidade, seja ela moral ou jurídica, sem que se faça reflexões ou críticas contra suas
consequências. Era o caso de Eichmann.

TEMA 5 – BAUMAN E A CRISE DA MODERNIDADE

Em duas de suas obras, Modernidade e Ambivalência (1999) e Modernidade Líquida (2001),

publicadas respectivamente em 1991 e 1999, Bauman apresenta sua visão crítica sobre o processo de

racionalização na cultura ocidental. Bauman faz uma interpretação que expressa contradições a partir
da formação da modernidade e de seu projeto fundamentado no progresso material, promovido por

meio da razão, da ciência e das revoluções tecnologias e industriais.

Bauman concentra seus estudos na análise do período contemporâneo relativo à transição dos
séculos XX e XXI. É tido como um herdeiro das teorias frankfurtianas, sobretudo por criticar o que foi

denominado como razão instrumental. Enquanto os frankfurtianos se concentraram no estudo da

cultura de massas entre as décadas de 1930 a 1970 (época de predomínio de direitos trabalhistas e

existência de meios de comunicação tradicionais como a rádio, TV, cinema, revistas), Bauman atualiza

a análise para o cenário da cultura de massas mais recente, com o fenômeno da Globalização, e

diante das novas tecnologias de informação, como a internet. Interessa a Bauman estudar o consumo
e mundo do trabalho mediados e conectados por novas tecnologias de informação, redes sociais e

consumo direcionado ao caráter descartável efêmero.

Segundo Bauman (1999;2001), desde a criação do conceito de razão (logos) entre os gregos, mas

principalmente durante o seu desenvolvimento na modernidade (nas mãos da ciência moderna,


contratualistas, iluministas, positivistas e marxistas), sua intenção e objetivo no Ocidente foram

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classificar o mundo, livrar a humanidade de equívocos, desvios e exceções e promover a verdade,

garantir a previsibilidade e controle da humanidade sobre o mundo ou a natureza. Portanto, o


objetivo maior da razão foi o de eliminar a ambivalência, a possibilidade de dupla interpretação de
um fato, de maneiras diferentes de se pensar e agir sobre o mundo e, sobretudo, abolir o risco, o

irracional, a imprevisibilidade, o descontrole e a instabilidade.

Bauman indica que até a 2ª Guerra Mundial a cultura ocidental nutria ainda grande confiança na

razão. Supunha-se que a razão, a técnica e a ciência trariam a solução a todos os problemas da
humanidade. No entanto, a experiência das duas guerras mundiais, da indústria cultural e após a
década de 1960 com a expansão das tecnologias de informação e produção, além dos problemas
ambientais, todos estes eventos modificaram a sensação de confiança na razão. A globalização, o
neoliberalismo e o Toyotismo expandiram, popularizam e introduziram no cotidiano o uso da

racionalidade, das tecnologias e ciência, conduzindo à sensação e à percepção de risco, descarte,

fluidez, efemeridade e descontrole em nossa civilização.

O mundo pós-guerras e o final da Guerra Fria, além das novas tecnologias levaram ao

desmoronamento das verdades, muitas delas construídas por toda a modernidade (a chamada
modernidade sólida). É nesse cenário que o conceito de ambivalência se faz mais evidente e notório.

O que caracteriza a ambivalência na modernidade líquida é o fato de termos amplos processos de


aprimoramento e a popularização (uso cotidiano) de instrumentos projetados pela razão, tecnologia

e ciência que visam produzir soluções aos problemas humanos. No entanto, quanto mais surgem

soluções racionais a estes problemas, de modo imprevisível emergem novos problemas, como efeitos
colaterais, exigindo de nossa cultura novas e sucessivas invenções e desenvolvimento racional. Trata-

se de um movimento incessante, como quem tampa um buraco abrindo outro, e assim

sucessivamente. Na ambivalência há a busca da ordem almejada pela razão, mas que produz a

desordem como consequência imprevista. A ambivalência para Bauman pode ser entendida como o
reverso da ordem, um incômodo causado pela multiplicidade presente no mundo, pela incerteza,

cuja origem está no próprio processo de racionalização. Trata-se de um sentimento de profundo

desconforto com a impossibilidade de regrar o mundo racionalmente.

As consequências do processo de modernização trazem consigo ambivalências. No campo

político, a concentração dos meios de poder fundados no princípio da racionalidade calculadora deu
origem a um dos mais efetivos meios de controle social. A tarefa da razão foi a de buscar livrar o

mundo ordenado das ambivalências, incertezas e contingências que poderiam assolar a humanidade.

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Porém, a razão cria o “mito do progresso infindável”, que afirma que a solução dos problemas que

vivemos está sempre à frente, será resolvida cedo ou tarde, a partir de nossos recursos científicos e
técnicos. Essa solução faria parte de um rol de novidades salvacionistas sempre evocado e criado
dentro da noção de progresso. Alguns exemplos atuais seriam: a propagação de notícias falsas com o

uso de novas tecnologias de informação; os problemas ambientais causados pelo progresso da

indústria; o cenário permanente de risco econômico, entre outros.

NA PRÁTICA

Elabore uma pesquisa em jornais, revistas ou documentários em que seja possível verificar o
caráter contraditório da noção de progresso e desenvolvimento da racionalidade técnica e científica

em nossa sociedade. Relacione o seu material de pesquisa com alguns dos conceitos estudamos na
aula, entre eles a razão instrumental, razão reflexiva, jaula de ferro, banalidade do mal, ambivalência,

entre outros de sua escolha. Em seguida, debata a sua pesquisa em grupos e reflita a respeito dos

paradoxos identificados em torno do progresso da racionalidade.

FINALIZANDO

No tema 1 investigamos o pensamento de Nietzsche, considerado grande crítico da

modernidade e das concepções morais otimistas em torno da sociedade do século XIX que iniciava

seu processo de massificação. O segundo tema analisou as contradições observadas por Max Weber
em torno do desenvolvimento da racionalidade e da burocracia na modernidade. O tema 3 dedicou-

se à análise do pensamento da Escola de Frankfurt em torno das contradições promovidas pelas

ideias Iluministas e Modernas, verificadas com as duas Guerras Mundiais do século passado e da

cultura de massas. O quarto tema promoveu a interpretação do pensamento de Hannah Arendt


sobre o conceito de banalidade do mal, um desvio do emprego ético da razão moderna. O último

tema abordou as análises de Bauman sobre a razão em meio ao mundo atual e globalizado, por meio

dos conceitos de modernidade líquida e ambivalência.

REFERÊNCIAS

ADORNO; H. Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 2006.

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­_____. Dialética negativa. Rio de Janeiro. Jorge Zahar, 2009.

_____. Indústria cultural e sociedade. São Paulo: Paz e Terra, 2002.

ARENDT, H. Eichmann em Jerusalém. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

BAUMAN. Modernidade e ambivalência. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.

_____. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

BENJAMIN, W. A obra de Arte na era da reprodutibilidade técnica. In: Obras Escolhidas I. São
Paulo, Brasiliense, 1989.

GOMES. Teoria crítica, educação e política, in: PUCCI, B., ZUIN, A. S.; LASTÓRIA, L. A. C. N. (orgs).
Teoria crítica e inconformismo: novas perspectivas de pesquisa. Campinas: Autores Associados,

2010.

HORKHEIMER, M. Eclipse da Razão. São Paulo, Editora Unesp, 2015.

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NIETZSCHE. A gaia ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

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_____. Assim falou Zaratustra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

_____. Crepúsculo dos ídolos. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

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_____. O nascimento da tragédia. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

WEBER, M. A Ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Companhia das letras,

2003.

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