As Bem-Aventuranças em Mateus 5.
1-12
Sermão Pregado na Igreja Batista do Calvário
Clinton Ramachotte
INTRODUÇÃO
Do capítulo 5 ao 7, Jesus começa seu sermão conhecido como "Sermão do
Monte" ou "Sermão da Montanha". O nome desse sermão se dá pela
descrição logo no primeiro versículo, onde é dito que Ele "subiu ao monte e
se assentou".
Nesse contexto, temos Jesus assentado sobre um monte diante dos seus
discípulos. O Mestre e seus alunos. Sua intenção aqui não era ensinar, por
exemplo, como funciona a mecânica da salvação, nem revelar os decretos
de Deus (como faz em outros momentos). Seu objetivo era descrever os
salvos e a sua maneira de viver, seu estilo de vida. A descrição desse
sermão, até o final do seu capítulo, visa ensinar e orientar os verdadeiros
crentes a andar de acordo com Jesus, que é o Mestre e padrão a ser seguido.
Temos no total nove (9) bem-aventuranças, das quais podemos extrair uma
série de ensinos práticos, facilmente aplicáveis em nossas vidas e no nosso
cotidiano.
IMPORTANTE: Todas as bem-aventuranças estão interligadas. Ou
seja, não há sequer a possibilidade de sermos bem-aventurados em
umas, e não em outras. É semelhante ao fruto do Espírito: se temos
uma das características apresentadas ali, temos todas. A grande
questão é que precisamos sempre desenvolver essas características. É
impossível que tenhamos fome e sede de justiça sem que antes sejamos
pobres de espírito, por exemplo. É importante entendermos que as
bem-aventuranças estão intimamente ligadas.
Comecemos.
1ª BEM-AVENTURANÇA: Pobres de espírito (v. 3)
- Antes de qualquer coisa, é necessário entendermos o que é "pobreza"
segundo o contexto em que Jesus estava. Atualmente, ser pobre não é só
não ter dinheiro, mas também não ter dinheiro o suficiente para comprar
um carro zero, um celular de última geração, roupas de marcas e etc.
- A ideia de Jesus aqui é ligar a pobreza à humildade. Quando se refere aos
pobres de espírito, está ensinando sobre um coração contente e grato.
- Jesus está ensinando o princípio da caminhada cristã, o básico do básico.
Como disse Spurgeon: *"Nosso Instrutor Divino começa pelo princípio,
com o próprio ABC da experiência, e desta forma permite que os bebês na
graça aprendam Dele."*
- Ainda que em nossos dias faça-se muita apologia à pobreza ou até mesmo
a uma certa "teologia da miséria", a chamada dessa bem-aventurança é
clara: Cristo nos diz que é muito feliz aqueles que possuem humildade. Não
por se fazerem de "coitadinhos", mas porque entenderam que nada
possuem, que nada tem e que nada é capaz de mudar o status humano
diante de Deus.
- Como bem observa Thomas Watson: *“quão pobres são aqueles que se
consideram ricos! Quão ricos são aqueles que se veem pobres! Eu a chamo
a joia da pobreza. Existem alguns paradoxos na religião que o mundo não
pode entender: que um homem se torne um néscio para ser sábio, que salve
sua vida perdendo-a, e que seja rico sendo pobre. No entanto, deve se
procurar esta pobreza mais que as riquezas; debaixo destes trapos está
oculto um manto de ouro, e deste esqueleto flui mel.”
2ª BEM-AVENTURANÇA: Os que choram (v. 4)
- No que diz respeito a essa bem-aventurança, parecem se encontrar pior do
que os pobres de espírito, pois "choram". Esse choro não é de desespero,
não é de raiva, não é de tormento... é um choro de profunda satisfação em
Deus. Spurgeon diz sobre os que choram: *"Esses homens se doem pelo
pecado, e são provados pelos males dos tempos: porém, para eles é
providenciado um futuro de descanso e alegria."*
- Os que choram, choram prostrados diante de Deus. Choram clamando por
socorro ao Único capaz de socorrer e salvar. Novamente, Spurgeon diz:
*"Que grande bênção é a aflição, pois concede espaço para que o Senhor
administre o consolo! Nossas aflições são abençoadas, pois são nossos
pontos de contato com o Consolador divino. A Bem-Aventurança é lida
como um paradoxo, mas é verdadeira, como muitos de nós podemos
testificar. Nossas horas de lamentação nos proporcionaram mais consolo
que nossos dias de júbilo."*
- Já há algum tempo, chorar tem significado um sinal de fraqueza, mas não
há problema que seja. É bom que pensem isso, porque temos o exemplo de
um dos maiores líderes do cristianismo orando a Deus por três vezes,
clamando que lhe fosse retirado um espinho em sua carne. A resposta de
Deus para ele foi clara: a minha graça te basta. Paulo estava rendido,
prostrado. Não enxergava força alguma em seus braços. Não via nenhum
artifício humano que lhe pudesse ajudar. Só via o Senhor.
Mas Ele (Deus) me disse: "Minha graça é suficiente para você, pois o meu
poder se aperfeiçoa na fraqueza". Portanto (diz Paulo), eu me gloriarei
ainda mais alegremente em minhas fraquezas, para que o poder de Cristo
repouse em mim. Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas,
nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois,
quando sou fraco é que sou forte. -- [2 Coríntios 12.9-10]
3ª BEM-AVENTURANÇA: Os mansos (v.5)
- A mansidão, muito diferente do entendimento comum dos nossos dias,
não tem a ver com calmaria, tranquilidade... não tem ligação alguma com
alguém que é quieto, calado, que aceita os desaforos da vida em silêncio,
abaixa a cabeça e vai embora. Não tem nada a ver com ser o contrário de
reativo, ser alguém que não é enérgico. Ser manso é ter uma mente humilde
e amável diante de Deus e diante dos homens.
- Thomas Watson coloca os mansos como sendo aqueles que são submissos
a vontade de Deus e flexíveis à Palavra de Deus. Ou seja, entendem qual a
vontade de Deus e se submetem a ela e se adaptam, sempre, ao que diz a
Sua Palavra.
- A mansidão, portanto, tem uma ideia muito mais de obediência a Deus do
que de calmaria e tranquilidade. Como disse Spurgeon sobre os mansos:
"Tudo o que Deus quer, eles querem". Os mansos não disputam com Deus,
não querem que a própria vontade seja feita em detrimento à vontade de
Deus. Não falam como se tivessem nascido em época errada, em um lugar
errado... mas confiam plenamente no Senhor e desejam a Sua vontade, são
obedientes.
"Quando são golpeados pela vara de Deus, os mansos não se rebelam
contra Ele, nem lhe chamam de um Senhor duro; permanecem mais mudos
e em silêncio, e não abrem sua boca porque Deus fez tal coisa, ou se
chegam a falar, é para pedir graça para que a prova que estão suportando
seja santificada para eles, ou para que possam elevar-se tão alto na graça
como para gloriar-se nas debilidades, para que o poder de Cristo descanse
sobre eles." (Charles Spurgeon)
- Os mansos são também flexíveis à Palavra de Deus; se realmente são
mansos, eles sempre estão dispostos a se curvar a ela. Eles não imaginam o
que deveria ser a verdade, para logo ir a Bíblia em busca dos textos que
demonstrem que o aquilo que eles pensam está ali; antes, eles recorrem ao
Livro inspirado com uma mente branca, e oram com o Salmista: “Abre
meus olhos, para que eu possa contemplar as maravilhas da tua lei”.
- Os mansos herdarão da terra porque souberam aguardar pacientemente as
promessas de Deus. Existe certa confiança naqueles que de fato são
mansos, porque conhecem a vontade de Deus e estão submissos ao que diz
a Sua Palavra. São herdeiros, porque entenderam o lugar em que se
encontram diante do Seu Deus.
- O manso é completamente diferente do resmungão. Ele entende e é grato
pelo que tem, pois vive o contentamento cristão.
“Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o
segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem
alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade.
Tudo posso naquele que me fortalece.” [Filipenses 4:12-13]
4ª BEM-AVENTURANÇA: Os que tem fome e sede de justiça
(v. 6)
- Fome e sede são necessidades básicas que o nosso corpo tem. Todo ser
que respira, em algum momento, sem fome ou sede. É uma condição
natural de cada um de nós, enquanto seres humanos. Uma frase antiga diz
que "o melhor tempero para a comida é a fome" - e é verdade. A comida
fica muito mais gostosa quando estamos com aquela fome. Mas não
somente isso, também quando praticamos algum exercício e, bem
cansados, bebemos uma garrafa de água. A impressão que se tem é que a
água (que não tem gosto) ficou até mais gostosa, não é mesmo?
- Jesus faz uso da fome e da sede e aplica esse conceito à justiça. Mas
justiça, nesse contexto, e vindo da boca de Jesus, não tem a ver com o STF
ou com qualquer lei humana. Em Romanos 12.19 e Hebreus 10.30 temos
uma citação direta de Deuteronômio 32.35, afirmando que a vingança
pertence a Deus. Claro, porque nosso senso de justiça é distorcido, é
deturpado. Quando queremos "vingança com as próprias mãos", estamos
dispostos até a agirmos com injustiça, se for o caso. Mas com Deus não é
assim. Há no Senhor esse atributo: justiça. É uma justiça santa, pura e,
claro, justa. Não há erros, nem falhas, nem parcialidade. Salmos 7.11 vai
dizer que Deus é um juiz justo - bem diferente dos juízes que conhecemos
aqui no nosso Brasil.
- Essa bem-aventurança diz respeito aos que têm fome e sede de justiça,
mas não é a justiça humana aqui citada. Os bem-aventurados desejam a
justiça de Deus, mesmo que essa justiça seja diferente do senso de justiça
própria, mesmo que essa justiça não esteja de acordo com a vontade caída.
- Ter fome e sede de justiça é fruto de um coração manso, que chora e que
é pobre de espírito.
- O bem-aventurado em questão, afirma Spurgeon, é aquele que "desejaria
que todos os homens fizessem com os demais o que eles gostariam que
fosse feito com eles; e intenta, por meio de seu próprio exemplo, ensinar
aos demais a fazer isso. Desejaria que não houvesse fraudes, nem falsos
testemunhos, nem perjúrio, nem roubos, nem concupiscências. Desejaria
que a retidão governasse o mundo inteiro; considera que seria um dia
muito feliz quando cada pessoa pudesse ser bem-aventurada, e quando não
houvesse necessidade de castigo pelas ofensas porque estas já haveriam
cessado. Anela ouvir que a opressão chegou ao seu término; quer ver um
governo justo em cada nação. Anela que as guerras acabem, e que as
regras e os princípios da justiça sejam os que governem a toda
humanidade em vez da força e do fio da espada. Sua oração diária é
“Senhor, que venha Teu reino, pois Teu reino é justiça e paz”. Quando vê
que se comete mal, se aflige por isso. Se não pode alterá-lo, se aflige ainda
mais; e faz tudo o que está ao seu alcance para protestar contra o mal de
qualquer classe."
- O bem-aventurado que tem fome e sede de justiça, não tem fome e sede
que seu próprio partido político suba ao poder, mas sim tem fome e sede de
que a justiça de Deus seja feita na terra. Não tem fome e sede de que suas
próprias opiniões pessoais prevaleçam, e de que seu próprio grupo ou
denominação aumente seu número e influência, mas deseja efetivamente
que a justiça de Deus assuma sua primazia.
- Este mundo há de nos decepcionar. Injustiças acontecerão, desde a mais
alta cúpula de um país até as sarjetas imundas da cidade. Em tudo isso,
haverá em nós uma grande indignação. Nosso desejo será de, com as
próprias mãos, fazer alguma coisa. Spurgeon diz: "A fome e a sede,
suportados até certos graus, envolvem as mais agudas dores; e um homem
que está buscando a justiça de Cristo está cheio de indizível angústia
enquanto não a encontra; e o cristão em guerra contra suas corrupções é
conduzido a clamar: “Miserável de mim!”, até que percebe que Cristo
ganhou a vitória por ele."
- Embora esse mundo seja injusto em diversas vezes, podemos confiar que
Deus é justo. Nisto reside a nossa fome a nossa sede de justiça. Seremos
saciados TÃO SOMENTE SE a nossa fome e a nossa sede estiverem na
justiça de Deus.
A 5ª BEM-AVENTURANÇA: os misericordiosos (v. 7)
- Misericórdia é um tema abrangente em toda a Escritura. Desde o início da
criação, logo que Adão e Eva pecam, Deus olha para o primeiro casal com
misericórdia. O que mereciam pela desobediência? Condenação é a
resposta. Mas Deus não os condena. Ele os poupa da condenação eterna
naquele momento, e age com misericórdia para com eles.
- Joel Beeke afirma que "A misericórdia de Deus é a Sua bondade ou
benevolência para com uma pessoa em miséria", e faz menção ao paralítico
que Jesus curou em Mateus 9.27. Por merecimento, não somente aquele
paralítico, mas todos nós merecíamos a condenação eterna. Deus não nos
condena, mesmo com merecimento - isso é misericórdia.
- Os misericordiosos mencionados aqui por Jesus são aqueles mesmos que,
na primeira bem-aventurança, entenderam a importância e a necessidade de
serem pobres de espírito e também já choraram com os que choram. São
aqueles que entenderam a própria miséria e sabem que nada merecem. Se
nada merecem e estão em estado de miséria tanto quanto os demais, por
que iria se vangloriar? Se exaltaria por ser "menos miserável" do que o
adúltero? Se coloca em uma posição superior aos mentirosos? De modo
nenhum. Os misericordiosos entenderam o tamanho da misericórdia que
receberam e, por conta disso é que são misericordiosos. Aquele que é
riquíssimo em misericórdia ensina todos os seus filhos a serem tão
misericordioso quanto Ele.
- Spurgeon diz: "As pessoas de quem fala nosso texto eram pessoas que já
haviam alcançado misericórdia, que já eram troféus singulares de
misericórdia; e o fato de que mostravam misericórdia a outros era o
resultado inevitável do que o sempre bendito Espírito de Deus havia feito a
favor deles e havia operado neles."
Eles não eram misericordiosos porque tiveram por natureza um coração
terno, mas eram misericordiosos porque Deus os havia feito pobres em
espírito.
Não eram misericordiosos porque tiveram ancestrais generosos, mas eram
misericordiosos porque eles mesmos haviam chorado e haviam recebido
consolação.
Não eram misericordiosos porque buscaram a estima de seus semelhantes,
mas porque eles mesmos eram mansos e humildes e estavam herdando a
terra, e desejavam que outros pudessem desfrutar, como eles, da bem-
aventurança do céu.
Não eram misericordiosos porque não poderiam evitar, sentindo-se
obrigados devido a alguma urgência da qual teriam escapado gostosamente
se tivessem chance, mas sim eram alegremente misericordiosos pois
haviam tido fome e sede de justiça, e foram saciados.
> "E, vendo a multidão, teve grande compaixão deles, porque andavam
desgarrados e errantes, como ovelhas que não têm pastor." (Jesus, em
Mateus 9.36)
> "Oh filhos de Deus, se alguma vez vocês são insensíveis com as pessoas
afligidas, vocês não são o que deveriam ser; não são como seu Senhor;
não são como seriam se estivessem em seu estado reto; pois quando estão
na condição correta, vocês são ternos, piedosos e compassivos, e cheios de
compaixão, pois aprenderam do Senhor que os misericordiosos são bem-
aventurados, e que alcançarão misericórdia!" (Spurgeon)
- Devemos fugir do discurso vitimista dos movimentos ideológicos que
tentam colocar Jesus como sendo parte "das minorias". Nosso Senhor
esteve junto de prostitutas, publicanos e de adúlteros, mas em momento
algum compactuou com seus pecados. Ele olhou com misericórdia para
estes e os chamou ao arrependimento: é isso que a misericórdia faz, nos
torna compassivos dos que estão no fracasso, mas na mesma medida
mostra-lhes um caminho diferente, um caminho melhor, o caminho da
salvação.
- Um cristão opina coisas mais duras do pecado, mais do que o fazem os
mundanos. Julga o pecado com uma regra mais severa do que os demais
fazem, mas ele sempre pensa com benevolência do pecador; e se ele
pudesse, entregaria sua vida para recuperar o pecador, igual como o fez
seu Senhor antes dele. Não diz: “permaneça aí; não chegue perto de mim,
pois eu sou mais santo que você”, mas antes considera que seu principal
dever sobre a terra é clamar aos pecadores: “Eis o Cordeiro de Deus que
tira o pecado do mundo. De tal maneira que, de fato, o cristão
misericordioso não é alguém que feche a porta a alguém, não é alguém
que considere a ninguém indigno de sua atenção; o cristão misericordioso
se alegra se ele pode levar a Jesus aos mais caídos e aos mais
depravados;" (Spurgeon)
- Que Deus nos faça mais misericordiosos. Ele é o nosso padrão, é o nosso
alvo. Imitemos ao Senhor!
A 6ª BEM-AVENTURANÇA: Os limpos de coração (v. 8)
- É importante começarmos essa bem-aventurança ressaltando que não há
ninguém no mundo que seja, por si só, "limpo de coração". A Bíblia afirma
categoricamente que não há ninguém no mundo que tenha um bom coração
- a menos que Cristo tenha regenerado o coração do homem, é impossível
que haja qualquer tipo de bondade no coração humano.
- Ser "limpo de coração" pressupõe um coração sem sujeira - e podemos
entender que a sujeira está associada ao pecado. O pecado é tratado na
Escritura como sujeira (a pior das sujeiras).
- Essa bem-aventurança diz respeito aos que foram purificados pelo sangue
de Jesus. No que diz respeito à sujeira do pecado, somente o sangue de
Jesus é capaz de limpar, de tornar as vestes brancas novamente. Spurgeon
diz: "Outros mestres têm se contentado com uma reforma moral externa,
mas Cristo buscou a fonte de toda maldade para limpar o manancial de
onde procedem todos os pensamentos, as palavras e as ações pecaminosas."
- Spurgeon diz: "As pessoas de coração mais limpo de coração que já
viveram são aquelas que têm se regozijado ao ver a justiça de Deus
vindicada e engrandecida pela morte de Cristo na cruz como o Substituto
por todos os que creem nEle, de tal forma que até enquanto a misericórdia
de Deus é exibida em incomparável majestade, sente a mais intensa
satisfação de que possa existir um caminho de reconciliação por meio da
qual cada atributo de Deus derive honra e glória, e , contudo, os pobres
pecadores perdidos possam ser içados a elevados a honorável posição de
filhos de Deus".
- No que diz respeito a "ver a Deus", é claro que a fala aqui não é literal. A
Escritura fala que "ninguém jamais viu a Deus" (João 1.18), mas através
dos olhos da fé não apenas é possível ver a Deus, como o enxergamos
verdadeiramente. Um exemplo claro é o justo Jó, homem que no início do
seu livro recebe da parte de Deus o testemunho de que era um homem reto
e íntegro, mas que no final (Capítulo 42), é dito: "Eu te conhecia só de
ouvir, mas agora os meus olhos te veem" (Jó 42.5).
A 7ª BEM-AVENTURANÇA: os pacificadores (v. 9)
- Antes de tudo, os pacificadores não devem nunca ser confundidos com
pacifistas. Os dicionários definem pacifistas como "uma filosofia de
oposição à guerra". Ou seja, é um movimento humano, que pretende pela
própria força instaurar a paz no mundo. Os pacificadores são
completamente diferentes dos pacifistas.
- Pacificadores, em primeiro lugar, receberam a paz que vem de Cristo.
Não é a paz do mundo, que só existe na ausência das guerras ou das
adversidades da vida.
- Ser pacificador está completamente atrelado ao fato de abraçar a bem-
aventurança anterior, ser limpo de coração, lavado e purificado pelo sangue
de Jesus. Movidos por um coração agora limpo, onde o pecado não mais é
senhor, o pacificador leva adiante não apenas o seu testemunho de fé, mas a
mensagem de salvação que o atraiu até Jesus.
- Spurgeon diz: “o pacificador pensa que a guerra é monstruosa, que no
melhor dos casos é cruel, e que é o pior de todos os açoites; e considera os
soldados como os gravetos vermelhos de uma vara sangrenta, e roga a
Deus que não fira a nação culpada dessa maneira, mas que guardemos a
espada por algum tempo, para que não nos vejamos atolados em
problemas, sobrecarregados de aflição, e expostos a crueldade que pode
levar milhares à tumba e multidões à pobreza. Assim age o pacificador; e
sente que enquanto age assim, sua consciência o justifica, e é bem-
aventurado, e os homens reconhecerão um dia que ele era um dos filhos de
Deus."
- O pacificador busca aquilo que é vontade de Deus revelada na Escritura,
ainda que seus ânimos estejam acalorados e seu coração esteja quente.
- São chamados filhos de Deus porque, diferente dos pacifistas os
pacificadores receberam o ministério da reconciliação:
(17) Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas
antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas!
(18) Tudo isso provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por
meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação,
(19) ou seja, que Deus em Cristo estava reconciliando consigo o mundo,
não levando em conta os pecados dos homens, e nos confiou a
mensagem da reconciliação.
- Os pacificadores receberam o ministério da reconciliação e, agora, sua
missão é levar a mensagem do evangelho para que haja reconciliação entre
Deus e os homens. Por entender que sem a salvação, o homem é inimigo de
Deus (Romanos 5.1; Tiago 4.4), entendem também que a única forma de
viver em paz estando nesse mundo, é tendo Cristo como Senhor e Salvador.
- Por fim, Spurgeon diz: O pacificador diz: “Segui a paz com todos”.
Especialmente ora para que o Espírito de Deus, que é o Espírito de paz,
descanse sobre a Igreja em todo momento, fazendo um de todos crentes, pa
ra que sendo um em Cristo, o mundo saiba que o Pai enviou seu Filho ao
mundo; pois Sua missão foi anunciada com um cântico angélico: “Glória a
Deus nas alturas, e paz na terra, boa vontade para com os homens”.
A 8ª e a 9ª BEM-AVENTURANÇA: Os que sofrem
perseguição por causa da justiça (v. 10) [...] quando por
minha causa os insultarem, perseguirem e levantarem todo
tipo de calúnia contra vocês” (v. 11).
- Essa bem-aventurança será abraçada de maneira fiel somente por aqueles
que abraçaram também as anteriores. É impossível ser bem-aventurado ao
sofrer perseguição por causa da justiça sem antes ser pobre de espírito, ser
manso, ter fome e sede de justiça, ser misericordioso e ser pacificador.
- Embora muitos pregadores modernos dizem "Venha para Jesus e pare de
sofrer", temos na Escritura a promessa de que "todos quantos querem viver
piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos" (2 Timóteo 3.12). É uma
grande mentira tal afirmação, pois mais adiante veremos que o próprio
mestre passou por isso - por que nós, seus servos, não padeceriam
perseguições também?
- Essa perseguição é "por causa da justiça" - é importante ressaltar esse
ponto pois muitos "cristãos" são perseguidos em nossos dias não porque
são fiéis ao Evangelho, mas porque são realmente intolerantes, chatos e
nada misericordiosos.
- Spurgeon assim diz: “Essa é a benção peculiar dos eleitos de Deus, e
ocupa um lugar muito alto na lista de honra. A única homenagem que
a impiedade pode render à justiça é perseguir ela. Aqueles que na
primeira bem–aventurança eram pobres em espírito, são desprezados
aqui, ou mesmo que golpeados pela pobreza; e nisso eles alcançam um
novo privilégio real que pela segunda vez garante aos homens “o reino
dos céus”. Sim, eles possuem o reino agora: é seu em possessão
presente. Não devido a alguma falta pessoal, mas simplesmente devido
a seu caráter piedoso, os “Danieis” do Senhor são odiados: mas eles são
abençoados por aquilo que parecia uma maldição. Ismael zomba de
Isaque, no entanto, Isaque tem a herança, e Ismael é lançado forma. É
um dom de Deus que se lhe permite a alguém sofrer por Seu nome.
Que sejamos assim ajudados a nos regozijarmos na cruz quando
sejamos honrados ao ser ultrajados por causa de Seu nome.”
Aplicações finais – versículos 11 e 12:
1. As bem-aventuranças são desafios lançados a todo cristão. Os ímpios
jamais praticarão da forma que se deve, agradando a Deus e
exaltando a Sua glória. É responsabilidade do cristão olhar para todas
as bem-aventuranças e fazer de cada uma delas o seu objetivo diário.
Se possível for, devemos coloca-las em um quadro, em todos os
cômodos de nossas casas, a fim de que se torne realmente o nosso
alvo.
2. As bem-aventuranças fazem parte da ética do reino de Deus. O
mundo é completamente diferente. Suas “benevolências” são
distorcidas e sempre com fins próprios, agradando o próprio ego e
sendo egoístas. No reino de Deus, a ética é diferente. Nós andamos,
de fato, na contramão do mundo. Nosso objetivo é agradar ao Senhor
que temos e somente a Ele.
3. O Senhor Jesus foi quem pregou esse sermão, portanto, Ele é a
autoridade que coloca sobre nossa vida todos os desafios aqui
lançados. Ele mesmo foi perseguido, sofreu e padeceu perseguições.
Nós também seremos perseguidos. É um desafio, mas somos
chamados a imitar Jesus em toda a Sua vida.
4. Seguir a Jesus tem um preço. Quando entregamos nossa vida ao
Senhor, abrimos mão de qualquer justiça própria, de qualquer
vontade que seja nossa. Tudo o que nos importa é o que Deus pensa,
o que Deus acha e o que Deus quer, ainda que isso custe a nossa
pele.
Que o bom Deus nos ajude e nos assista em nossas dificuldades.
Que as bem-aventuranças se tornem um estilo de vida em nosso dia a
dia.
Que Cristo, o nosso Senhor, seja glorificado em todas as coisas: nos
nossos atos de obediência, sempre, inclusive quando padecermos
perseguição.
Soli Deo Glória!
12/02/2023.