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RESUMO: Mães e pais com deficiência visual podem ter dificuldades na introdução alimentar de seus filhos. Desse modo, foi
desenvolvida uma Tecnologia Assistiva (TA) sobre essa temática. Objetivou-se, assim, validar a TA sobre introdução alimentar do
lactente. Trata-se de um estudo metodológico conforme adaptação do modelo de Pasquali (2010). A TA foi previamente construída
e avaliada por especialistas e por um teste piloto com a população meta. O presente estudo contemplou o polo empírico, por meio
do qual a TA foi avaliada por um novo e amplo grupo de mães e pais. Todos responderam a um instrumento em formato de escala
do tipo Lickert a respeito do conteúdo, dos aspectos pedagógicos e da acessibilidade da TA. Outrossim, o estudo contemplou o
polo analítico por meio da análise estatística dos dados. Respeitaram-se os aspectos éticos de pesquisas envolvendo seres humanos.
Participaram 89 mães e pais, principalmente mulheres (53,9%), com deficiência visual congênita (55,1%), com idade média de
37,91 anos, não casados (52,8%), com ensino médio (60,7%) e exercendo atividade remunerada (56,2%). Dentre os tópicos
da tecnologia, todos apresentaram médias favoráveis, sendo melhor avaliado o conteúdo (91,1±11,7), seguido de acesso online
(84,4±18,9) e aspectos pedagógicos (82,9±15,9). A TA é meio válido de disseminação de informações a mães e pais com deficiência
visual.
PALAVRAS-CHAVE: Deficiência visual. Cuidados parentais. Tecnologia Assistiva.
ABSTRACT: Mothers and fathers with visual impairments may have difficulty introducing their children to food. In this way, an
Assistive Technology (AT) was developed on this topic. The objective, therefore, was to validate the AT on infant food introduction.
This is a methodological study according to the adaptation of the Pasquali’s (2010) model. The AT was previously constructed
and evaluated by experts and through a pilot testing with the target population. The present study considered the empirical pole,
through which the AT was assessed by a new and broad group of mothers and fathers. Everyone responded to an instrument in
a Lickert scale format regarding the content, pedagogical aspects and accessibility of AT. Furthermore, the study also included
an analytical pole through statistical analysis of the data. The ethical aspects of research involving human beings were respected.
Eighty-nine mothers and fathers participated, mainly women (53.9%), with congenital visual impairment (55.1%), with average
age of 37.91 years old, not married (52.8%), with secondary education (60.7% ) and carrying out paid work (56.2%). Among
the technology topics, all presented favorable averages, with content being best evaluated (91.1±11.7), followed by online access
(84.4±18.9) and pedagogical aspects (82.9±15.9). The AT is a valid means of disseminating information to mothers and fathers
with visual impairments.
KEYWORDS: Visual impairment. Parental care. Assistive technology.
1
[Link]
2
Professora Adjunta. Universidade Federal do Paraná (UFPR). Enfermeira. Curitiba/Paraná/Brasil.
E-mail: karianeroscoche@[Link]. ORCID: [Link]
3
Professora Adjunta. Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (Unilab). Enfermeira. Redenção/
Ceará/Brasil. E-mail: paulapinheiro@[Link]. ORCID: [Link]
4
Professora Adjunta. Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (Unilab). Enfermeira. Redenção/
Ceará/Brasil. E-mail: monalizamariano@[Link]. ORCID: [Link]
5
Professora. Universidade Estadual do Piauí (UESPI). Enfermeira. Doutoranda em Cuidados Clínicos em Enfermagem e Saúde
pela Universidade Estadual do Ceará (UECE). Teresina/Piauí/Brasil. E-mail: adrianasousa@[Link].
ORCID: [Link]
1 Introdução
A promoção da saúde de pessoas com deficiência visual pode ser viabilizada por meio
do desenvolvimento de Tecnologia Assistiva (TA), uma vez que esse tipo de tecnologia com-
preende recursos, serviços, estratégias e práticas que auxiliam no desempenho das atividades de
vida diária de pessoas com deficiência ou idosos.
O conceito e a finalidade de uma TA, contudo, não se restringem ao desenvolvi-
mento de materiais duros e equipamentos, nem visam exclusivamente uma compensação da
deficiência, mas possui como objetivo promover uma melhor qualidade de vida e autonomia
no desempenho das atividades diárias (Cook & Polgar, 2019). A TA possibilita ao indivíduo
com deficiência a realização de atividades dificultadas ou impedidas pela sua limitação, propor-
cionando, assim, o seu desenvolvimento global (Bersch, 2017).
Desse modo, o desenvolvimento de TA em saúde para pessoas com deficiência visual
torna-se relevante. Seu objetivo, além dos já expressos, está relacionado também à integração
desse público em contextos diferenciados, o que lhes propiciará a inclusão e a autonomia, com
consequente diminuição do isolamento social, muitas vezes imposto às pessoas com deficiên-
cia, promovendo uma comunicação efetiva (Stasolla et al., 2013). Nesse prisma, as TAs que
ampliam o acesso à informação de pessoas com deficiência visual com o ambiente ao seu redor
tem sido viabilizado especialmente por meio dos mecanismos de acessibilidade virtual, como
softwares sintetizadores de voz e leitores de tela (Hakobyan et al., 2013).
Concernente às questões relacionadas à introdução alimentar de seus filhos lacten-
tes, mães e pais com deficiência visual relataram ter recebido orientações precárias por parte
dos profissionais de saúde acerca do aleitamento materno; consequentemente, ocorreram o
desmame precoce e a inadequada introdução e preparo da introdução alimentar (Cezario et
al., 2016). Nesse contexto, consoante se observa, são extremamente críticas as lacunas relativas
à alimentação complementar dos seus filhos. De modo geral, os pais com deficiência visual
sentem dificuldades semelhantes às dos pais videntes, acrescidas da insegurança de realizar cui-
dados desprovidos do sentido da visão e da precariedade da rede social de apoio em orientá-los
devidamente (Bezerra et al., 2020).
Entretanto, segundo se verifica, muitas vezes os constituintes da rede social de apoio,
representados por familiares, vizinhos e profissionais de saúde, têm dificuldades de repassar in-
formações sobre o cuidado em saúde da criança, talvez pela falta de experiência em acessibilizar
orientações para uma pessoa com deficiência. Acresce-se o fato de as informações prestadas não
considerarem as características da pessoa com deficiência visual necessárias ao desempenho das
atividades adequadamente, tais como o estímulo ao uso do tato e do olfato, que são os sentidos
remanescentes mais frequentemente utilizados, e a necessidade de uma orientação espacial dos
objetos.
Diante do exposto, e em virtude de mulheres e homens com deficiência visual vi-
venciarem a experiência de ter e cuidar de seus filhos, embora muitas vezes lhes falte suporte
acessível à execução desse cuidado, evidenciou-se a necessidade de desenvolvimento de TA
para promover orientações adequadas para facilitar o cuidado dos seus filhos lactentes, pois
essa fase contempla diversas experiências e adaptações na vida da criança. Em acréscimo a essas
considerações, constata-se que a opção de usar o meio virtual para a inserção de uma TA se
2 Método
Trata-se de um estudo de validação de TA conforme o modelo de Pasquali (2010), o
qual foi adaptado ao percurso metodológico de desenvolvimento da TA, executando os polos
empírico e analítico. O polo teórico construiu a TA e a avaliou por nove especialistas, sendo
três em saúde da criança, três em aspectos pedagógicos da pessoa com deficiência visual e três
em acesso online. Além disso, desenvolveu um teste piloto com um grupo de dez mães e pais
cegos. Ambos os grupos de avaliadores consideraram a TA um meio viável de disseminação de
informações sobre introdução alimentar do lactente para pais com deficiência visual (Cezario
et al., 2012).
A partir das etapas precedentes, relatadas acima, desenvolveu-se o polo empírico do
estudo. O polo empírico contou com a participação de mulheres e homens com deficiência
visual, com idade igual ou superior a 18 anos, que vivenciaram a experiência da paternidade ou
da maternidade, seja biológica ou por adoção.
Para operacionalização dessa etapa, a qual demandava um número amplo de mães e
pais com deficiência visual, empreendeu-se a divulgação do estudo para a formulação de convi-
te a possíveis participantes. Inicialmente, solicitou-se à instituição que congrega em sua página
web os contatos das associações de cegos de todo o país, via correio eletrônico, uma lista com o
endereço e contato de todas as suas filiadas. Além disso, identificaram-se, em páginas de busca,
outras associações não cadastradas nessa instituição. Essas pesquisas totalizaram aproximada-
mente 100 instituições identificadas.
Em seguida, fez-se contato por meio de mensagem eletrônica com as referidas insti-
tuições, no intuito de promover a pesquisa, seus objetivos e sua relevância, e solicitar a divul-
gação entre os associados. Após várias rodadas de divulgação, obteve-se retorno de instituições
dos estados do Maranhão, Paraná, Pernambuco e Piauí. Delimitaram-se, assim, os indivíduos
que compuseram a amostra pelo tempo proposto para coleta. Em virtude da dificuldade de
acesso a essa clientela por meio probabilístico, o número de mães e pais com deficiência visual
avaliadores foi limitado ao quantitativo de sujeitos que se dispuseram a avaliar a TA dentro do
prazo estabelecido.
Após o aceite de participação no estudo, os participantes receberam orientações via
correio eletrônico e telefone sobre como participar da pesquisa acessando a TA na página vir-
tual na qual estava alojada. Os participantes acessavam a página, que foi desenvolvida com
recursos de acessibilidade, e, após esse passo, e de maneira sucessiva, seguiam ao sítio onde se
encontrava o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Os recursos de acessibi-
lidade disponíveis eram: conteúdo também em formato TxT/Word para as mães e os pais que
optassem pela impressão em Braille e leitura do conteúdo, contraste de cores, ampliação de tela
e sintetizador de voz (Dosvox). Somente concluído esse passo obrigatório, os participantes ti-
nham acesso ao conteúdo da tecnologia. Encerrada essa etapa, eles respondiam ao instrumento
de avaliação; em seguida, clicavam na opção “enviar”, encerrando sua participação no estudo.
O instrumento de avaliação preenchido compunha-se de dados sociodemográficos,
identificação da causa da deficiência visual, além de três tópicos que mesclavam os aspectos já
avaliados pelos especialistas e participantes do teste piloto: Conteúdo, Aspectos pedagógicos e
Acesso online. Em relação ao conteúdo, as mães e os pais com deficiência visual respondiam se
ele ressaltava a importância da família nos cuidados com a introdução alimentar, se era reflexi-
vo, se trazia conteúdo que motivava o diálogo, se esclarecia dúvidas sobre introdução alimentar
e se trazia novos conhecimentos sobre o tema.
Concernentes aos aspectos pedagógicos, os participantes avaliavam se a TA possuía
formato interessante e atraente para uma pessoa com deficiência visual, se promovia a auto-
nomia, se estimulava a mudança de atitude e comportamento, se os tópicos tinham sequência
3 Resultados
Participaram do estudo 89 mães e pais com deficiência visual, com discreta predo-
minância do sexo feminino (53,9%) e deficiência visual congênita (55,1%). A faixa etária mais
relevante se situou entre os 30 e 39 anos (46,6%), com média de 37,91 ± 11,41 anos; pequena
predominância de não casados (52,8%), com ensino médio (60,7%), renda familiar de um
salário-mínimo (43,8%), sujeitos exercendo atividade remunerada (56,2%). O maior quantita-
tivo de participantes advinha dos estados de Pernambuco (51,6%) e Piauí (41,6%). Na Tabela
1, seguem as demais informações.
Tabela 1
Distribuição do número de mães e pais com deficiência visual segundo características sociodemográficas
Característica N % Média ± DP
Faixa etária (anos) 37,91 ± 11,41
18 – 29 16 18,2
30 – 39 41 46,6
40 – 49 19 21,6
50 – 72 12 13,6
Característica N % Média ± DP
Sexo
Masculino 41 46,1
Feminino 48 53,9
Estado civil
Casado/União consen-
42 47,2
sual
Não casado 47 52,8
Grau de escolaridade
Ensino Fundamental 24 27,0
Ensino Médio 54 60,7
Ensino Superior 11 31,0
Renda familiar* 1,93 ± 0,9
1,0 39 43,8
1,1 – 2,1 17 19,1
2,2 – 6,0 33 37,1
Trabalha
Sim 50 56,2
Não 39 43,8
Estado do Brasil
Paraná 1 1,1
Pernambuco 46 51,6
Maranhão 5 5,6
Piauí 37 41,6
Causa da deficiência
Congênita 49 55,1
Adquirida 40 44,9
Nota. *Valor em salários-mínimos.
Tabela 2
Distribuição do número de mães e pais com deficiência visual segundo o tópico “Conteúdo” e
características*
3 4 5 p
Características
N % N % N %
Faixa etária (anos) 0,024
18 – 29 - - 6 37,5 10 62,5
30 – 39 1 2,4 2 4,9 38 92,7
40 – 49 - - 4 21,1 15 78,9
50 – 72 - - 5 41,7 7 58,3
Sexo 0,361
Masculino 1 2,4 9 22,0 31 75,6
Feminino - - 8 16,7 40 83,3
Estado civil 0,001
Casado/União consensual - - 2 4,8 40 95,2
Não casado 1 2,1 15 31,9 31 66,0
Grau de escolaridade 0,008
Ensino Fundamental 1 4,2 10 41,7 13 54,3
Ensino Médio - - 5 9,3 49 90,7
Ensino Superior - - 2 18,2 9 81,8
Renda familiar** 0,001
1,0 1 2,6 14 35,9 24 61,5
1,1 – 2,1 - - - - 17 100,0
2,2 – 6,0 - - 3 9,1 30 90,9
Trabalha p<0,0001
Sim - - 1 2,0 49 98,0
Não 1 2,6 16 41,0 22 56,4
Causa da deficiência 0,008
Congênita 1 2,0 4 8,2 44 89,9
Adquirida - - 13 32,5 27 67,5
Nota. * Escala cuja valoração varia de 1 a 5, sendo 1 a menor nota atribuída e 5 maior; ** Valor em salários-míni-
mos; p de razão de verossimilhança.
Tabela 3
Distribuição do número de pais cegos segundo o tópico “Aspectos pedagógicos” e características*
2 3 4 5 p
Características
N % N % N % N %
Faixa etária (anos) 0,002
18 - 29 - - 1 6,3 10 62,5 5 31,5
30 – 39 - - 3 7,3 4 9,8 34 82,9
40 – 49 - - 3 15,8 3 15,8 13 68,4
50 – 72 1 1,1 9 10,2 22 25,0 56 63,6
Sexo 0,638
Masculino - - 4 9,8 9 22,0 28 68,3
Feminino 1 2,1 5 10,4 13 27,1 29 60,4
Estado civil p<0,0001
Casado/União consensual - - - - 3 7,1 39 92,9
Não casado 1 2,1 9 19,1 19 40,4 18 38,3
Grau de escolaridade p<0,0001
Ensino Fundamental 1 4,2 8 33,3 11 45,8 4 16,7
Ensino Médio - - 1 1,9 8 14,8 45 83,3
Ensino Superior - - - - 3 27,3 8 72,7
Renda familiar** p<0,0001
1,0 1 2,6 9 23,1 16 41,0 13 33,3
1,1 – 2,1 - - - - - - 17 100,0
2,2 – 6,0 - - - - 6 18,2 27 81,8
Trabalha
p<0,0001
Sim - - - - 3 6,0 47 93,0
Não 1 2,6 9 23,1 19 48,7 10 25,6
Causa da deficiência p<0,0001
Congênita 1 2,0 2 4,1 5 10,2 41 83,7
Adquirida - - 7 17,5 17 42,5 16 40,0
Nota. * Escala cuja valoração varia de 1 a 5, sendo 1 a menor nota atribuída e 5 maior; ** Valor em salários-míni-
mos; p de razão de verossimilhança.
cia visual congênita (83,7%), com faixa etária entre 30 e 39 anos (85,4%), casados (92,9%),
ensino médio (85,2%), trabalhando (96%), com renda familiar de 2,2 a seis salários-mínimos
(87,9%).
Tabela 4
Distribuição do número de mães e pais com deficiência visual segundo o tópico “Acesso online” e
características*
2 3 4 5 p
Características
N % N % N % N %
Faixa etária (anos) 0,001
18 - 29 - - 1 6,3 9 56,3 6 37,5
30 – 39 - - 3 7,3 3 7,3 35 85,4
40 – 49 - - 1 15,8 5 26,3 11 57,9
50 – 72 1 8,3 5 41,7 2 16,7 4 33,3
Sexo 0,317
Masculino 1 2,4 4 9,8 11 26,8 25 61,0
Feminino - - 8 16,7 8 16,7 32 66,7
Estado civil p<0,0001
Casado/União consensual - - 2 4,8 1 2,4 39 92,9
Não casado 1 2,1 10 21,3 18 38,3 18 38,3
Grau de escolaridade p<0,0001
Ensino Fundamental 1 4,2 11 45,8 11 45,8 1 4,2
Ensino Médio - - 1 1,9 7 13,0 46 85,2
Ensino Superior - - - - 1 9,1 10 90,9
Renda familiar** p<0,0001
1,0 1 2,6 12 30,8 15 38,5 11 28,2
1,1 – 2,1 - - - - - - 17 100,0
2,2 – 6,0 - - - - 4 12,1 29 87,9
Trabalha p<0,0001
Sim - - - - 2 4,0 48 96,0
Não 1 2,6 12 30,8 17 43,6 9 23,1
Causa da deficiência p<0,0001
Congênita - - 5 10,2 3 6,1 41 83,7
Adquirida 1 2,5 7 17,5 16 40,0 16 40,0
* Escala cuja valoração varia de 1 a 5, sendo 1 a menor nota atribuída e 5 a maior; ** Valor em salários-mínimos; p
de razão de verossimilhança.
Na comparação direta das médias obtidas entre os três tópicos, verifica-se que somen-
te a variável sexo obteve médias semelhantes (p: 0,431, p: 0,765 e p: 0,837, respectivamente).
Consoante se conclui, homens e mulheres avaliaram a TA de maneira parecida e, embora não
Nota. (1) p de ANOVA <0,0001; pelo teste de Games-Howell, letras iguais, médias iguais e letras diferentes,
médias diferentes.
O segundo tópico teve como melhor item avaliado “Os recursos de acessibilidade es-
tão adequados” (M: 4,44) e o pior “O tempo de apreciação está adequado” (3,93). Finalmente
o tópico “Aspectos online” teve como melhor avaliação o item “O áudio está adequado” (M:
4,63) de mais baixa avaliação “O acesso à tecnologia é prático e fácil” (M: 4,22). Seguem os
detalhes na Tabela 7.
Tabela 7
Média e mediana dos tópicos “Conteúdo”, “Aspectos pedagógicos” e “Acesso online”
Conteúdo
Aborda a importância da família na saúde da criança. 4,79 5,00
Conteúdo é reflexivo. 4,58 5,00
Traz conteúdo que motiva o diálogo.
4,62 5,00
Aborda aspectos variados sobre introdução alimentar. 4,57 5,00
Ajudou a esclarecer alguma dúvida. 4,63 5,00
Tema retrata aspectos-chave importantes. 4,56 5,00
Trouxe novos conhecimentos sobre o assunto. 4,64 5,00
Aborda assuntos necessários para os pais. 4,73 5,00
Aspectos Pedagógicos
Tecnologia tem formato interessante. 4,39 5,00
Incentiva a sua independência. 4,36 5,00
Estimula a mudança de atitude e comportamento. 4,60 5,00
Tempo de apreciação está adequado. 3,93 4,00
Tópicos têm sequência lógica 4,34 5,00
Corresponde ao seu nível de conhecimento. 4,18 5,00
Recursos de acessibilidade estão adequados. 4,44 5,00
Acesso online
Áudio está em estilo adequado. 4,63 5,00
Tom é amigável e interessante. 4,37 5,00
TA é interessante para ser consultada na internet. 4,37 5,00
Acesso à tecnologia é prático e fácil. 4,22 5,00
Acesso online favorece a privacidade. 4,30 5,00
Acesso online favorece a autonomia. 4,29 5,00
Acesso online é viável para promover saúde. 4,49 5,00
Página que aloja a tecnologia está acessível. 4,34 5,00
4 Discussões
A diversidade de aspectos que envolvem o cuidado da introdução alimentar dos lac-
tentes, reforçada pela vigência da deficiência visual em seus pais, permite concluir que a divul-
gação de informações sobre esse assunto é essencial na atenção integral em saúde desse estrato
da população. Segundo a Política Nacional de Saúde da Pessoa com Deficiência (2010), dentre
as suas diretrizes está a melhoria dos mecanismos de informação, relacionados à criação, à pro-
dução e à distribuição de material educativo em saúde acessível.
Como se depreende, e conforme o conceito de tecnologia assistiva adotado, a TA
“Cuidando da alimentação do bebê” também é um mecanismo de informação em saúde e, uma
vez utilizado em meio de divulgação ampla, como o caso da web, permite maior disseminação
entre as pessoas com deficiência, especialmente entre pessoas com deficiência visual. Dessa for-
ma, promove-se não somente mais qualidade de vida, mas também inclusão.
Estudos envolvendo a experiência da maternidade/paternidade entre pessoas com de-
ficiência enfatizam o despreparo constante de profissionais da saúde para compreender e cuidar
de forma acessível dessa clientela nessa etapa do seu ciclo vital. São constantes os relatos de falta
de apoio profissional, conhecimento sobre as necessidades oriundas das distintas deficiências,
aceitação da sexualidade dessas mães e desses pais e, especialmente, tecnologias assistivas viáveis
a esse público (Carty et al., 1990; Conley-Jung & Olkin, 2001; Walsh-Gallagher et al., 2012).
Conforme observado nos resultados, os participantes atribuíram majoritariamente
nota cinco aos itens do instrumento, e a avaliação estatística dos seus dados apontou para mé-
dias favoráveis a essa conclusão, majoritariamente acima de 80,0. O perfil dessas mães e desses
pais denotou discreta predominância do sexo feminino, de não casados, com idade sobretudo
entre os 30 a 39 anos e renda média de um salário-mínimo. E, ainda: o tipo de deficiência visual,
congênita, o grau de escolaridade, ensino médio, e o fato de exercerem atividade remunerada.
Ao considerar-se o perfil de mães e pais que atribuíram melhores médias aos tó-
picos “Conteúdo”, “Aspectos pedagógicos” e “Acesso online”, obteve-se como resultado, res-
pectivamente: pessoas com deficiência congênita (96,3; 90,1; 91,5), na faixa etária de 30 a
39 anos (95,3; 89,5; 92,2) e casadas (97,6; 92,8; 94,8). Em relação à renda familiar, o tópi-
co “Conteúdo” foi melhor avaliado por pessoas que recebem de 2,2 a seis salários-mínimos
(100,0); já os tópicos “Aspectos pedagógicos” e “Acesso online” melhor foram avaliados por
mães e pais com renda de 1,1 a 2,1 salários (94,3; 98,3).
Segundo se evidenciou, homens e mulheres avaliaram a tecnologia de maneira se-
melhante, embora as mulheres tenham atribuído melhores médias ao conteúdo e acesso online
(91,9; 84,8, respectivamente). Existe tendência constante das mulheres em procurar mais os
serviços de saúde, em seguir o conselho dos profissionais e buscar mecanismos diversificados de
informação em comparação ao comportamento masculino (Pinheiro et al., 2002).
Ademais, consoante apontaram as experiências de mães com deficiência visual norte-
-americanas no cuidado dos seus filhos, relatadas por Conley-Jung e Olkin (2001), o estado
civil predominante entre as 47 entrevistadas foi casado (80,9%) e o tipo de deficiência visual, a
congênita (88,1%). De acordo com entrevistas com 17 mulheres irlandesas com tipos variados
de deficiências, sobre a experiência da gestação, nascimento e maternidade, dez dessas mulheres
eram casadas ou viviam em união estável e 15 do total exerciam atividade remunerada (Walsh-
Gallagher et al., 2012). Finalmente, em artigo cuja autora é uma mãe cega que reflete sobre sua
própria experiência durante a gravidez, parto e criação do seu filho, era casada e desempenhava
atividade remunerada (Kent, 2002).
introdução alimentar e as dúvidas não esclarecidas ante esses dois processos. Em acréscimo,
conforme relataram, o despreparo dos profissionais de saúde para lhes dar suporte nesse mo-
mento da vida dos seus filhos gerou desencorajamento e até mesmo questionamentos sobre a
capacidade de cuidar (Cezario et al., 2016).
Estudo fenomenológico com 17 mães irlandesas com diferentes tipos de necessidades
especiais (visual, intelectual, espinha bífida, esclerose múltipla, entre outros) gerou relatos ines-
perados. Exemplo deles é o fato de que, para muitos dos profissionais de saúde que detectaram
suas respectivas gestações, tal situação foi vista como chocante, pois as consideraram incapazes
de cuidar dos filhos. Assim, propuseram em dois casos o abortamento dos bebês. Houve rela-
tos também de despreparo por parte dos enfermeiros que as assistiam e sentimento de solidão
durante o pós-parto (Walsh-Gallagher et al., 2012).
A experiência de Kent (2002) durante o período de pós-parto também foi negativa, pois,
consoante relatou, a enfermeira do alojamento conjunto no qual estava internada quis retirá-la deste
setor por julgá-la incapaz de cuidar e até mesmo de encontrar o berço do seu bebê, situado ao lado
do seu leito. Ademais, segundo Conley-Jung e Olkin (2001) várias mães cegas mudaram o pediatra
dos seus bebês em virtude de o médico as considerar incapazes de cuidar dos seus filhos.
Os relatos comumente identificados nesses estudos direcionam, conforme mencio-
nado, para um constante questionamento da autoeficácia dessas mães e desses pais no cuidado
independente dos seus filhos. Compreendida como a crença de um indivíduo sobre a própria
capacidade de realizar determinadas ações e a sua possível influência sobre suas vidas, a autoe-
ficácia se aplica no contexto da promoção da saúde por compreender também a resiliência dos
indivíduos perante os obstáculos com os quais tem de se defrontar, sendo essa situação uma
constante na vida de mães e pais com deficiência (Malagris et al., 2020).
Dessa forma, independentemente ou não de deficiência paterna e/ou materna, a
família tem sua relevância no cuidado da criança em suas diversas necessidades. Esse processo
se torna ainda mais efetivo quando há um estímulo da potencialização da capacidade de cuidar
por parte dos pais, que inclusive precisam passar por diversos ajustes em seus papéis ante as
demandas variadas da vida (Hockenberry & Wilson, 2023).
No estudo, o item “O tema retrata aspectos-chave importantes” obteve a menor pon-
tuação entre os pais cegos avaliadores. Essa negativa desperta atenção porquanto a totalidade
do conteúdo foi avaliada pelas especialistas em saúde da criança e o conteúdo da tecnologia foi
suscitado mediante extensa consulta à literatura na área, utilizando método de revisão integra-
tiva. Além disso, a vivência das pesquisadoras com mães e pais com deficiência visual também
norteou o desenvolvimento de seu conteúdo.
Concernente aos aspectos pedagógicos, o item melhor avaliado, “Estimula a mudança
de atitude e comportamento” (M: 4,60), denota a relevância da presente TA para aquisição de
novas habilidades no cuidado da alimentação complementar da criança. Embora a “mudança
de atitude e comportamento” não tenha sido mensurada metodologicamente, o fato de ter sido
apontada como aspecto mais relevante na TA a direciona para a sua finalidade central: a promo-
ção da saúde de mães e pais com deficiência visual. O segundo aspecto melhor avaliado, “Os
na vigência de mães e pais com outros tipos de deficiência e até mesmo quando essa situação
ocorre com suas crianças e não com elas/es próprias/os.
5 Conclusões
Os resultados expostos apontam para a viabilidade da TA no fornecimento de in-
formações sobre introdução alimentar para mães e pais com deficiência visual, e esse aspecto
se confirma pela atribuição de pontuação máxima entre os itens avaliados pelos participantes.
Todavia, apesar desses resultados, houve limitações no desenvolvimento do estu-
do. Conforme mencionado, foram diversas as dificuldades vivenciadas no convite aos parti-
cipantes. Isso culminou na delimitação deles a praticamente o Nordeste do Brasil, sobretudo
Pernambuco e Piauí. Sugere-se, então, a realização do mesmo processo de validação entre mães
e pais de outras regiões do Brasil.
Outro ponto significativo, que é ao mesmo tempo limitação do estudo e relevância
a ser discutida, é o acesso online como meio viável à promoção da saúde, e aqui se enfatiza a
pessoa com deficiência visual. Embora seja notório haver menos acesso dessa clientela ao uso
de computadores e à internet do que do público vidente em geral, percebe-se uma inserção
crescente deles a esse meio, e se este pode ser utilizado para estudos, trabalhos, lazer, interação
social, por que não como fonte de informações em saúde? O presente estudo responde: é viável.
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