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Tecnologia Assistiva para pais com deficiência visual Relato de Pesquisa

Validação de Tecnologia Assistiva para Mães e Pais com Deficiência


Visual: Enfoque na Introdução Alimentar do Lactente1
Validation of Assistive Technology for Mothers and Fathers with Visual
Impairment: Focus on Infant Feeding Introduction
Kariane Gomes Cezario ROSCOCHE2
Paula Marciana Pinheiro de OLIVEIRA3
Monaliza Ribeiro Mariano GRIMALDI4
Adriana Sousa Carvalho de AGUIAR5

RESUMO: Mães e pais com deficiência visual podem ter dificuldades na introdução alimentar de seus filhos. Desse modo, foi
desenvolvida uma Tecnologia Assistiva (TA) sobre essa temática. Objetivou-se, assim, validar a TA sobre introdução alimentar do
lactente. Trata-se de um estudo metodológico conforme adaptação do modelo de Pasquali (2010). A TA foi previamente construída
e avaliada por especialistas e por um teste piloto com a população meta. O presente estudo contemplou o polo empírico, por meio
do qual a TA foi avaliada por um novo e amplo grupo de mães e pais. Todos responderam a um instrumento em formato de escala
do tipo Lickert a respeito do conteúdo, dos aspectos pedagógicos e da acessibilidade da TA. Outrossim, o estudo contemplou o
polo analítico por meio da análise estatística dos dados. Respeitaram-se os aspectos éticos de pesquisas envolvendo seres humanos.
Participaram 89 mães e pais, principalmente mulheres (53,9%), com deficiência visual congênita (55,1%), com idade média de
37,91 anos, não casados (52,8%), com ensino médio (60,7%) e exercendo atividade remunerada (56,2%). Dentre os tópicos
da tecnologia, todos apresentaram médias favoráveis, sendo melhor avaliado o conteúdo (91,1±11,7), seguido de acesso online
(84,4±18,9) e aspectos pedagógicos (82,9±15,9). A TA é meio válido de disseminação de informações a mães e pais com deficiência
visual.
PALAVRAS-CHAVE: Deficiência visual. Cuidados parentais. Tecnologia Assistiva.

ABSTRACT: Mothers and fathers with visual impairments may have difficulty introducing their children to food. In this way, an
Assistive Technology (AT) was developed on this topic. The objective, therefore, was to validate the AT on infant food introduction.
This is a methodological study according to the adaptation of the Pasquali’s (2010) model. The AT was previously constructed
and evaluated by experts and through a pilot testing with the target population. The present study considered the empirical pole,
through which the AT was assessed by a new and broad group of mothers and fathers. Everyone responded to an instrument in
a Lickert scale format regarding the content, pedagogical aspects and accessibility of AT. Furthermore, the study also included
an analytical pole through statistical analysis of the data. The ethical aspects of research involving human beings were respected.
Eighty-nine mothers and fathers participated, mainly women (53.9%), with congenital visual impairment (55.1%), with average
age of 37.91 years old, not married (52.8%), with secondary education (60.7% ) and carrying out paid work (56.2%). Among
the technology topics, all presented favorable averages, with content being best evaluated (91.1±11.7), followed by online access
(84.4±18.9) and pedagogical aspects (82.9±15.9). The AT is a valid means of disseminating information to mothers and fathers
with visual impairments.
KEYWORDS: Visual impairment. Parental care. Assistive technology.

1
[Link]
2
Professora Adjunta. Universidade Federal do Paraná (UFPR). Enfermeira. Curitiba/Paraná/Brasil.
E-mail: karianeroscoche@[Link]. ORCID: [Link]
3
Professora Adjunta. Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (Unilab). Enfermeira. Redenção/
Ceará/Brasil. E-mail: paulapinheiro@[Link]. ORCID: [Link]
4
Professora Adjunta. Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (Unilab). Enfermeira. Redenção/
Ceará/Brasil. E-mail: monalizamariano@[Link]. ORCID: [Link]
5
Professora. Universidade Estadual do Piauí (UESPI). Enfermeira. Doutoranda em Cuidados Clínicos em Enfermagem e Saúde
pela Universidade Estadual do Ceará (UECE). Teresina/Piauí/Brasil. E-mail: adrianasousa@[Link].
ORCID: [Link]

Rev. Bras. Ed. Esp., Corumbá, v30, e0998, p.1-18, 2024 1


ROSCOCHE, K. G. C., et al.

1 Introdução
A promoção da saúde de pessoas com deficiência visual pode ser viabilizada por meio
do desenvolvimento de Tecnologia Assistiva (TA), uma vez que esse tipo de tecnologia com-
preende recursos, serviços, estratégias e práticas que auxiliam no desempenho das atividades de
vida diária de pessoas com deficiência ou idosos.
O conceito e a finalidade de uma TA, contudo, não se restringem ao desenvolvi-
mento de materiais duros e equipamentos, nem visam exclusivamente uma compensação da
deficiência, mas possui como objetivo promover uma melhor qualidade de vida e autonomia
no desempenho das atividades diárias (Cook & Polgar, 2019). A TA possibilita ao indivíduo
com deficiência a realização de atividades dificultadas ou impedidas pela sua limitação, propor-
cionando, assim, o seu desenvolvimento global (Bersch, 2017).
Desse modo, o desenvolvimento de TA em saúde para pessoas com deficiência visual
torna-se relevante. Seu objetivo, além dos já expressos, está relacionado também à integração
desse público em contextos diferenciados, o que lhes propiciará a inclusão e a autonomia, com
consequente diminuição do isolamento social, muitas vezes imposto às pessoas com deficiên-
cia, promovendo uma comunicação efetiva (Stasolla et al., 2013). Nesse prisma, as TAs que
ampliam o acesso à informação de pessoas com deficiência visual com o ambiente ao seu redor
tem sido viabilizado especialmente por meio dos mecanismos de acessibilidade virtual, como
softwares sintetizadores de voz e leitores de tela (Hakobyan et al., 2013).
Concernente às questões relacionadas à introdução alimentar de seus filhos lacten-
tes, mães e pais com deficiência visual relataram ter recebido orientações precárias por parte
dos profissionais de saúde acerca do aleitamento materno; consequentemente, ocorreram o
desmame precoce e a inadequada introdução e preparo da introdução alimentar (Cezario et
al., 2016). Nesse contexto, consoante se observa, são extremamente críticas as lacunas relativas
à alimentação complementar dos seus filhos. De modo geral, os pais com deficiência visual
sentem dificuldades semelhantes às dos pais videntes, acrescidas da insegurança de realizar cui-
dados desprovidos do sentido da visão e da precariedade da rede social de apoio em orientá-los
devidamente (Bezerra et al., 2020).
Entretanto, segundo se verifica, muitas vezes os constituintes da rede social de apoio,
representados por familiares, vizinhos e profissionais de saúde, têm dificuldades de repassar in-
formações sobre o cuidado em saúde da criança, talvez pela falta de experiência em acessibilizar
orientações para uma pessoa com deficiência. Acresce-se o fato de as informações prestadas não
considerarem as características da pessoa com deficiência visual necessárias ao desempenho das
atividades adequadamente, tais como o estímulo ao uso do tato e do olfato, que são os sentidos
remanescentes mais frequentemente utilizados, e a necessidade de uma orientação espacial dos
objetos.
Diante do exposto, e em virtude de mulheres e homens com deficiência visual vi-
venciarem a experiência de ter e cuidar de seus filhos, embora muitas vezes lhes falte suporte
acessível à execução desse cuidado, evidenciou-se a necessidade de desenvolvimento de TA
para promover orientações adequadas para facilitar o cuidado dos seus filhos lactentes, pois
essa fase contempla diversas experiências e adaptações na vida da criança. Em acréscimo a essas
considerações, constata-se que a opção de usar o meio virtual para a inserção de uma TA se

2 Rev. Bras. Ed. Esp., Corumbá, v30, e0998, p.1-18, 2024


Tecnologia Assistiva para pais com deficiência visual Relato de Pesquisa

dá em face de a oferta de informações pelo acesso online propiciar a oportunidade de acessar e


compartilhar conteúdo, conforme a conveniência de quem acessa, ultrapassando barreiras de
tempo e espaço. Tal afirmação se justifica, pois uma parcela da população, e aqui se enfatiza a
clientela com deficiência visual, não dispõe de acesso à educação em saúde em suas instituições
de ensino/trabalho, tampouco os serviços de saúde possuem material acessível para atender a
esse tipo de demanda.
Nesse contexto, desenvolveu-se uma TA denominada “Cuidando da alimentação do
bebê”, a qual aborda temáticas significativas relacionadas à introdução alimentar (principais
alimentos para o bebê; refeições diárias da criança; como preparar os alimentos; como oferecer
os alimentos; higiene da criança; cuidado geral com os alimentos), associando ao conteúdo
orientações voltadas a mães e pais com deficiência visual, como, por exemplo: na temática
“Como preparar os alimentos”, a identificação das frutas maduras por meio da palpação da
textura de sua casca e percepção de sua polpa; identificação do cozimento dos alimentos salga-
dos (carnes, legumes, hortaliças) por meio da percepção da textura e maciez com o uso de um
garfo; sugestão de uso de copos ou recipientes de medida única de 30 ml ou uso de velcro ou
outra textura para marcação de dosagem dos copos na oferta de água ou leite artificial; em rela-
ção ao conteúdo sobre “Como oferecer os alimentos”, orientações sobre as cores dos alimentos
(com descrição nominal das cores dos principais alimentos a serem ofertados) e a importância
da sua variedade e da sua combinação no estímulo visual de lactentes videntes; posicionar-se
sentado(a) no chão de pernas cruzadas e colocar o bebê sentado ou semi-sentado no colo ao
oferecer o alimento; permitir que o bebê se posicione de modo a olhar o rosto do pai ou mãe
ao se alimentar; tocar o rosto da criança para perceber seu processo de mastigação do alimento
bem como para ajudar na oferta do alimento por colher.
Esse conteúdo foi desenvolvido e alojado em página da web desenvolvida com meca-
nismo de acessibilidade à pessoa com deficiência visual, tais como: conteúdo também em formato
TxT/Word para as mães e os pais que optassem pela impressão em Braille e leitura do conteúdo,
contraste de cores, ampliação de tela e sintetizador de voz (Dosvox). A tecnologia passou por ava-
liação de especialistas em saúde da criança, aspectos pedagógicos da pessoa com deficiência visual
e acesso online, bem como por teste piloto com mães e pais com deficiência visual. A sua adequa-
ção de conteúdo e de acessibilidade, indicada pelos especialistas e corroborada no teste piloto com
representantes da população-meta descrita, ensejou um processo de validação com grupo amplo
de potenciais usuários (Oliveira et al., 2012; Rebouças et al., 2012).
Objetivou-se, assim, validar uma TA desenvolvida para mães e pais com deficiência
visual sobre introdução alimentar, disponibilizada por meio de acesso online.

2 Método
Trata-se de um estudo de validação de TA conforme o modelo de Pasquali (2010), o
qual foi adaptado ao percurso metodológico de desenvolvimento da TA, executando os polos
empírico e analítico. O polo teórico construiu a TA e a avaliou por nove especialistas, sendo
três em saúde da criança, três em aspectos pedagógicos da pessoa com deficiência visual e três
em acesso online. Além disso, desenvolveu um teste piloto com um grupo de dez mães e pais
cegos. Ambos os grupos de avaliadores consideraram a TA um meio viável de disseminação de

Rev. Bras. Ed. Esp., Corumbá, v30, e0998, p.1-18, 2024 3


ROSCOCHE, K. G. C., et al.

informações sobre introdução alimentar do lactente para pais com deficiência visual (Cezario
et al., 2012).
A partir das etapas precedentes, relatadas acima, desenvolveu-se o polo empírico do
estudo. O polo empírico contou com a participação de mulheres e homens com deficiência
visual, com idade igual ou superior a 18 anos, que vivenciaram a experiência da paternidade ou
da maternidade, seja biológica ou por adoção.
Para operacionalização dessa etapa, a qual demandava um número amplo de mães e
pais com deficiência visual, empreendeu-se a divulgação do estudo para a formulação de convi-
te a possíveis participantes. Inicialmente, solicitou-se à instituição que congrega em sua página
web os contatos das associações de cegos de todo o país, via correio eletrônico, uma lista com o
endereço e contato de todas as suas filiadas. Além disso, identificaram-se, em páginas de busca,
outras associações não cadastradas nessa instituição. Essas pesquisas totalizaram aproximada-
mente 100 instituições identificadas.
Em seguida, fez-se contato por meio de mensagem eletrônica com as referidas insti-
tuições, no intuito de promover a pesquisa, seus objetivos e sua relevância, e solicitar a divul-
gação entre os associados. Após várias rodadas de divulgação, obteve-se retorno de instituições
dos estados do Maranhão, Paraná, Pernambuco e Piauí. Delimitaram-se, assim, os indivíduos
que compuseram a amostra pelo tempo proposto para coleta. Em virtude da dificuldade de
acesso a essa clientela por meio probabilístico, o número de mães e pais com deficiência visual
avaliadores foi limitado ao quantitativo de sujeitos que se dispuseram a avaliar a TA dentro do
prazo estabelecido.
Após o aceite de participação no estudo, os participantes receberam orientações via
correio eletrônico e telefone sobre como participar da pesquisa acessando a TA na página vir-
tual na qual estava alojada. Os participantes acessavam a página, que foi desenvolvida com
recursos de acessibilidade, e, após esse passo, e de maneira sucessiva, seguiam ao sítio onde se
encontrava o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Os recursos de acessibi-
lidade disponíveis eram: conteúdo também em formato TxT/Word para as mães e os pais que
optassem pela impressão em Braille e leitura do conteúdo, contraste de cores, ampliação de tela
e sintetizador de voz (Dosvox). Somente concluído esse passo obrigatório, os participantes ti-
nham acesso ao conteúdo da tecnologia. Encerrada essa etapa, eles respondiam ao instrumento
de avaliação; em seguida, clicavam na opção “enviar”, encerrando sua participação no estudo.
O instrumento de avaliação preenchido compunha-se de dados sociodemográficos,
identificação da causa da deficiência visual, além de três tópicos que mesclavam os aspectos já
avaliados pelos especialistas e participantes do teste piloto: Conteúdo, Aspectos pedagógicos e
Acesso online. Em relação ao conteúdo, as mães e os pais com deficiência visual respondiam se
ele ressaltava a importância da família nos cuidados com a introdução alimentar, se era reflexi-
vo, se trazia conteúdo que motivava o diálogo, se esclarecia dúvidas sobre introdução alimentar
e se trazia novos conhecimentos sobre o tema.
Concernentes aos aspectos pedagógicos, os participantes avaliavam se a TA possuía
formato interessante e atraente para uma pessoa com deficiência visual, se promovia a auto-
nomia, se estimulava a mudança de atitude e comportamento, se os tópicos tinham sequência

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Tecnologia Assistiva para pais com deficiência visual Relato de Pesquisa

lógica, se os recursos de acessibilidade estavam adequados e se correspondiam ao nível de co-


nhecimento dos participantes. Finalmente, no acesso online, avaliavam se o tom do texto da TA
era amigável, se a tecnologia era interessante para acessar pela internet, se seu acesso era prático
e fácil, se estimulava a privacidade e autonomia do leitor, se o acesso online era um meio viável
de promoção da saúde e se a tecnologia estava em página acessível.
O instrumento de avaliação era constituído por afirmativas, às quais deveriam atri-
buir nota de um a cinco, sendo um a menor nota e cinco a maior. Ademais, o instrumento
também possuía espaço para críticas e sugestões. A análise dos dados da avaliação dessa etapa
considerou como adequados os itens que receberam notas cinco e quatro da maioria das mães
e dos pais.
A última etapa do estudo, o polo analítico, contemplou a análise estatística dos da-
dos. Ela foi processada no software Statistical Product and Service Solutions (SPSS), versão 18.0.
As respostas das mães e dos pais com deficiência visual foram organizadas em tabelas e a média e
o desvio padrão das variáveis quantitativas foram calculadas. Por sua vez, a análise das associações
entre as variáveis categóricas se deu pelos testes de qui-quadrado e de razão de verossimilhança.
Para comparação das médias dos tópicos, foram utilizados os testes t de Student para dados in-
dependentes ou F de Snedecor (ANOVA). Consideraram-se como estatisticamente significantes
as análises estatísticas inferenciais quando p<0,05.
O projeto foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) e aprovado.
Cumpriram-se as orientações para a pesquisa envolvendo seres humanos.

3 Resultados
Participaram do estudo 89 mães e pais com deficiência visual, com discreta predo-
minância do sexo feminino (53,9%) e deficiência visual congênita (55,1%). A faixa etária mais
relevante se situou entre os 30 e 39 anos (46,6%), com média de 37,91 ± 11,41 anos; pequena
predominância de não casados (52,8%), com ensino médio (60,7%), renda familiar de um
salário-mínimo (43,8%), sujeitos exercendo atividade remunerada (56,2%). O maior quantita-
tivo de participantes advinha dos estados de Pernambuco (51,6%) e Piauí (41,6%). Na Tabela
1, seguem as demais informações.

Tabela 1
Distribuição do número de mães e pais com deficiência visual segundo características sociodemográficas

Característica N % Média ± DP
Faixa etária (anos) 37,91 ± 11,41
18 – 29 16 18,2
30 – 39 41 46,6
40 – 49 19 21,6
50 – 72 12 13,6

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ROSCOCHE, K. G. C., et al.

Característica N % Média ± DP
Sexo
Masculino 41 46,1
Feminino 48 53,9
Estado civil
Casado/União consen-
42 47,2
sual
Não casado 47 52,8
Grau de escolaridade
Ensino Fundamental 24 27,0
Ensino Médio 54 60,7
Ensino Superior 11 31,0
Renda familiar* 1,93 ± 0,9
1,0 39 43,8
1,1 – 2,1 17 19,1
2,2 – 6,0 33 37,1
Trabalha
Sim 50 56,2
Não 39 43,8
Estado do Brasil
Paraná 1 1,1
Pernambuco 46 51,6
Maranhão 5 5,6
Piauí 37 41,6
Causa da deficiência
Congênita 49 55,1
Adquirida 40 44,9
Nota. *Valor em salários-mínimos.

De acordo com o observado, a avaliação do tópico “Conteúdo” apresentou dados


estatisticamente significantes em quase todas as características dos participantes (p<0,05), exce-
to em relação ao sexo (p=0,366). Os sujeitos que atribuíram nota cinco à TA possuíam como
perfil: deficiência visual congênita (89,9%), faixa etária entre 30 e 39 anos (92,7%), casados
(95,2%), com ensino médio (90,7%), exercendo atividade remunerada (98%) e renda familiar
de 2,2 a seis salários-mínimos (90,9%), conforme mostra a Tabela 2.

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Tecnologia Assistiva para pais com deficiência visual Relato de Pesquisa

Tabela 2
Distribuição do número de mães e pais com deficiência visual segundo o tópico “Conteúdo” e
características*

3 4 5 p
Características
N % N % N %
Faixa etária (anos) 0,024
18 – 29 - - 6 37,5 10 62,5
30 – 39 1 2,4 2 4,9 38 92,7
40 – 49 - - 4 21,1 15 78,9
50 – 72 - - 5 41,7 7 58,3
Sexo 0,361
Masculino 1 2,4 9 22,0 31 75,6
Feminino - - 8 16,7 40 83,3
Estado civil 0,001
Casado/União consensual - - 2 4,8 40 95,2
Não casado 1 2,1 15 31,9 31 66,0
Grau de escolaridade 0,008
Ensino Fundamental 1 4,2 10 41,7 13 54,3
Ensino Médio - - 5 9,3 49 90,7
Ensino Superior - - 2 18,2 9 81,8
Renda familiar** 0,001
1,0 1 2,6 14 35,9 24 61,5
1,1 – 2,1 - - - - 17 100,0
2,2 – 6,0 - - 3 9,1 30 90,9
Trabalha p<0,0001
Sim - - 1 2,0 49 98,0
Não 1 2,6 16 41,0 22 56,4
Causa da deficiência 0,008
Congênita 1 2,0 4 8,2 44 89,9
Adquirida - - 13 32,5 27 67,5
Nota. * Escala cuja valoração varia de 1 a 5, sendo 1 a menor nota atribuída e 5 maior; ** Valor em salários-míni-
mos; p de razão de verossimilhança.

Concernente ao tópico “Aspectos pedagógicos”, houve relação estatisticamente sig-


nificante quanto às características dos sujeitos, com exceção do sexo (p= 0,638). As mães e os
pais que atribuíram nota cinco na avaliação da tecnologia tinham deficiência visual congênita
(83,7%), faixa etária de 30 a 39 anos (82,9%), casados (92,9%), com ensino médio (83,3%),
exerciam atividade remunerada (93%), renda familiar de 2,2 a seis salários-mínimos (81,8%).
As demais informações se encontram na Tabela 3.

Rev. Bras. Ed. Esp., Corumbá, v30, e0998, p.1-18, 2024 7


ROSCOCHE, K. G. C., et al.

Tabela 3
Distribuição do número de pais cegos segundo o tópico “Aspectos pedagógicos” e características*
2 3 4 5 p
Características
N % N % N % N %
Faixa etária (anos) 0,002
18 - 29 - - 1 6,3 10 62,5 5 31,5
30 – 39 - - 3 7,3 4 9,8 34 82,9
40 – 49 - - 3 15,8 3 15,8 13 68,4
50 – 72 1 1,1 9 10,2 22 25,0 56 63,6
Sexo 0,638
Masculino - - 4 9,8 9 22,0 28 68,3
Feminino 1 2,1 5 10,4 13 27,1 29 60,4
Estado civil p<0,0001
Casado/União consensual - - - - 3 7,1 39 92,9
Não casado 1 2,1 9 19,1 19 40,4 18 38,3
Grau de escolaridade p<0,0001
Ensino Fundamental 1 4,2 8 33,3 11 45,8 4 16,7
Ensino Médio - - 1 1,9 8 14,8 45 83,3
Ensino Superior - - - - 3 27,3 8 72,7
Renda familiar** p<0,0001
1,0 1 2,6 9 23,1 16 41,0 13 33,3
1,1 – 2,1 - - - - - - 17 100,0
2,2 – 6,0 - - - - 6 18,2 27 81,8
Trabalha
p<0,0001
Sim - - - - 3 6,0 47 93,0
Não 1 2,6 9 23,1 19 48,7 10 25,6
Causa da deficiência p<0,0001
Congênita 1 2,0 2 4,1 5 10,2 41 83,7
Adquirida - - 7 17,5 17 42,5 16 40,0
Nota. * Escala cuja valoração varia de 1 a 5, sendo 1 a menor nota atribuída e 5 maior; ** Valor em salários-míni-
mos; p de razão de verossimilhança.

Conforme evidenciado, a avaliação do tópico “Acesso online” apontou para relação


estatisticamente significante quanto às características das mães e dos pais com deficiência visual.
Como mostra a Tabela 4, o perfil dos sujeitos que atribuíram a nota máxima tinha deficiên-

8 Rev. Bras. Ed. Esp., Corumbá, v30, e0998, p.1-18, 2024


Tecnologia Assistiva para pais com deficiência visual Relato de Pesquisa

cia visual congênita (83,7%), com faixa etária entre 30 e 39 anos (85,4%), casados (92,9%),
ensino médio (85,2%), trabalhando (96%), com renda familiar de 2,2 a seis salários-mínimos
(87,9%).
Tabela 4
Distribuição do número de mães e pais com deficiência visual segundo o tópico “Acesso online” e
características*

2 3 4 5 p
Características
N % N % N % N %
Faixa etária (anos) 0,001
18 - 29 - - 1 6,3 9 56,3 6 37,5
30 – 39 - - 3 7,3 3 7,3 35 85,4
40 – 49 - - 1 15,8 5 26,3 11 57,9
50 – 72 1 8,3 5 41,7 2 16,7 4 33,3
Sexo 0,317
Masculino 1 2,4 4 9,8 11 26,8 25 61,0
Feminino - - 8 16,7 8 16,7 32 66,7
Estado civil p<0,0001
Casado/União consensual - - 2 4,8 1 2,4 39 92,9
Não casado 1 2,1 10 21,3 18 38,3 18 38,3
Grau de escolaridade p<0,0001
Ensino Fundamental 1 4,2 11 45,8 11 45,8 1 4,2
Ensino Médio - - 1 1,9 7 13,0 46 85,2
Ensino Superior - - - - 1 9,1 10 90,9
Renda familiar** p<0,0001
1,0 1 2,6 12 30,8 15 38,5 11 28,2
1,1 – 2,1 - - - - - - 17 100,0
2,2 – 6,0 - - - - 4 12,1 29 87,9
Trabalha p<0,0001
Sim - - - - 2 4,0 48 96,0
Não 1 2,6 12 30,8 17 43,6 9 23,1
Causa da deficiência p<0,0001
Congênita - - 5 10,2 3 6,1 41 83,7
Adquirida 1 2,5 7 17,5 16 40,0 16 40,0
* Escala cuja valoração varia de 1 a 5, sendo 1 a menor nota atribuída e 5 a maior; ** Valor em salários-mínimos; p
de razão de verossimilhança.

Na comparação direta das médias obtidas entre os três tópicos, verifica-se que somen-
te a variável sexo obteve médias semelhantes (p: 0,431, p: 0,765 e p: 0,837, respectivamente).
Consoante se conclui, homens e mulheres avaliaram a TA de maneira parecida e, embora não

Rev. Bras. Ed. Esp., Corumbá, v30, e0998, p.1-18, 2024 9


ROSCOCHE, K. G. C., et al.

haja significância estatística, as mulheres apontaram melhores médias em relação ao conteúdo


e ao acesso online (91,9 e 84,8, respectivamente).
Concernente à variável faixa etária, a melhor avaliação se deu entre os 30-49 anos, com
médias: conteúdo (95,3), aspectos pedagógicos (89,5) e acesso online (92,2), com p<0,0001,
exceto em relação ao conteúdo (p: 0,003). No tocante à escolaridade, houve diferença estatísti-
ca entre as médias (p<0,0001), sendo os participantes com ensino médio os responsáveis pelas
melhores pontuações (conteúdo: 95,7; aspectos pedagógicos: 90,2; acesso online: 93,6).
Quanto ao estado civil, apesar de se constituírem em discreta minoria, os participan-
tes casados/união estável atribuíram pontuação diferenciada (p<0,0001) e melhor advinda dos
não casados (conteúdo: 97,6; aspectos pedagógicos: 92,8; acesso online: 94,8). Participantes
com renda familiar entre 1,1 e dois salários-mínimos mensais também avaliaram com melhores
médias os tópicos (p<0,0001), sendo conteúdo: 100,0; aspectos pedagógicos: 94,3; e acesso
online: 98,3. Além disso, mães e pais que trabalhavam avaliaram melhor (p<0,0001) compa-
rativamente aos que não trabalhavam, com médias de conteúdo (98,5), aspectos pedagógicos
(93,2) e acesso online (97,1) superiores.
Participantes com deficiência congênita julgaram os tópicos de maneira distinta da-
queles com deficiência adquirida (p<0,0001), com médias de conteúdo (96,3), aspectos pe-
dagógicos (90,1) e acesso online (91,5). Mais detalhes das médias e suas comparações estão
expostos na Tabela 5.
Tabela 5
Comparação das médias dos tópicos “Conteúdo”, “Aspectos pedagógicos” e “Acesso online” segundo o
perfil das mães e dos pais com deficiência visual
Conteúdo Aspectos pedagógicos Acesso online
Variáveis
média ± DP média ± DP média ± DP
Faixa Etária
18 – 29 85,5 ± 11,4ª 75,8 ± 12,9a 79,2 ± 13,3ª
30 – 39 95,3 ± 9,1 b
89,5 ± 13,2b 92,2 ± 15,6b
40 – 49 90,1 ± 13,1a;b;c 82,7 ± 16,4ª;b;c 83,5 ± 18,6ª;b
50 – 72 84,1 ± 13,1ª ;b;c
69,9 ± 17,2ª ;c
64,8 ± 21,2ª;b;c
p (1) 0,003 <0,0001 <0,0001
Sexo
Masculino 89,9 ± 12,4 83,5 ± 15,4 83,9 ± 19,3
Feminino 91,9 ± 11,2 82,5 ± 16,4 84,8 ± 18,7
p (2)
0,431 0,765 0,837
Grau de Escolaridade
Ensino Fundamental 81,1 ± 11,8a 65,3 ± 14,3ª 60,9 ± 15,1ª
Ensino Médio 95,7 ± 9,1 b
90,2 ± 10,6 b
93,6 ± 11,1b
Ensino Superior 89,4 ± 10,0 a;b
85,7 ± 10,3 b
90,3 ± 11,6b
p (1) <0,0001 <0,0001 <0,0001
Estado Civil

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Tecnologia Assistiva para pais com deficiência visual Relato de Pesquisa

Conteúdo Aspectos pedagógicos Acesso online


Variáveis
média ± DP média ± DP média ± DP
Casado/União estável 97,6 ± 6,6 92,8 ± 8,4 94,8 ± 12,2
Não casado 85,1 ± 12,3 74,1 ± 15,9 75,1 ± 19,0
p (2)
<0,0001 <0,0001 <0,0001
Renda Familiar
Até 1,0 82,8 ± 11,7ª 70,7 ± 14,7ª 69,3 ± 18,5ª
1,1 – 2,1 100,0 ± 0,0b 94,3 ± 3,1b 98,3 ± 2,2b
2,2 – 6,0 96,0 ± 8,2c 91,5 ± 10,3b 95,0 ± 8,8b
p (1) <0,0001 <0,0001 <0,0001
Trabalho
Não 81,3 ± 10,4 69,8 ± 13,7 68,1 ± 17,2
Sim 98,5 ± 5,6 93,2 ± 8,1 97,1 ± 6,0
p (2)
<0,0001 <0,0001 <0,0001
Tipo de Deficiência
Congênita 96,3 ± 9,7 90,1 ± 13,8 91,5 ± 17,0
Adquirida 84,4 ± 10,7 74,1 ± 13,8 75,7 ± 17,5
p (2)
<0,0001 <0,0001 <0,0001
Nota. (1) p de ANOVA; pelo teste de Games-Howell, letras iguais, médias iguais e letras diferentes, médias dife-
rentes; (2) teste t de Student.

Na Tabela 6, evidencia-se a avaliação dos tópicos constituintes da tecnologia, com


médias favoráveis nos três tópicos. Contudo, o tópico “Conteúdo” recebeu avaliação distinta
dos demais e melhor média segundo os participantes (p <0,0001), enquanto o tópico com me-
nor avaliação foi o referente aos aspectos pedagógicos (M: 82,9; DP: ± 15,9).
Tabela 6
Avaliação dos tópicos “Conteúdo”, “Aspectos pedagógicos” e “Acesso online”
Tópicos Média ± desvio padrão (DP)
Conteúdo 91,1 ± 11,7a
Aspectos pedagógicos 82,9 ± 15,9b
Acesso online 84,4 ± 18,9b

Nota. (1) p de ANOVA <0,0001; pelo teste de Games-Howell, letras iguais, médias iguais e letras diferentes,
médias diferentes.

Ao compararem-se as médias dos tópicos em escala de grandeza de 0 a 5, todos os


itens receberam notas entre 4,18 e 4,79, com exceção de item do tópico “Aspectos pedagógi-
cos”. Concernente ao conteúdo, o item melhor avaliado foi “Aborda a importância da família
na saúde da criança” (M: 4,79) e o que recebeu menor avaliação “O tema retrata aspectos-chave
importantes” (M: 4,56).

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O segundo tópico teve como melhor item avaliado “Os recursos de acessibilidade es-
tão adequados” (M: 4,44) e o pior “O tempo de apreciação está adequado” (3,93). Finalmente
o tópico “Aspectos online” teve como melhor avaliação o item “O áudio está adequado” (M:
4,63) de mais baixa avaliação “O acesso à tecnologia é prático e fácil” (M: 4,22). Seguem os
detalhes na Tabela 7.
Tabela 7
Média e mediana dos tópicos “Conteúdo”, “Aspectos pedagógicos” e “Acesso online”

Tópicos Média Mediana

Conteúdo
Aborda a importância da família na saúde da criança. 4,79 5,00
Conteúdo é reflexivo. 4,58 5,00
Traz conteúdo que motiva o diálogo.
4,62 5,00
Aborda aspectos variados sobre introdução alimentar. 4,57 5,00
Ajudou a esclarecer alguma dúvida. 4,63 5,00
Tema retrata aspectos-chave importantes. 4,56 5,00
Trouxe novos conhecimentos sobre o assunto. 4,64 5,00
Aborda assuntos necessários para os pais. 4,73 5,00
Aspectos Pedagógicos
Tecnologia tem formato interessante. 4,39 5,00
Incentiva a sua independência. 4,36 5,00
Estimula a mudança de atitude e comportamento. 4,60 5,00
Tempo de apreciação está adequado. 3,93 4,00
Tópicos têm sequência lógica 4,34 5,00
Corresponde ao seu nível de conhecimento. 4,18 5,00
Recursos de acessibilidade estão adequados. 4,44 5,00
Acesso online
Áudio está em estilo adequado. 4,63 5,00
Tom é amigável e interessante. 4,37 5,00
TA é interessante para ser consultada na internet. 4,37 5,00
Acesso à tecnologia é prático e fácil. 4,22 5,00
Acesso online favorece a privacidade. 4,30 5,00
Acesso online favorece a autonomia. 4,29 5,00
Acesso online é viável para promover saúde. 4,49 5,00
Página que aloja a tecnologia está acessível. 4,34 5,00

4 Discussões
A diversidade de aspectos que envolvem o cuidado da introdução alimentar dos lac-
tentes, reforçada pela vigência da deficiência visual em seus pais, permite concluir que a divul-
gação de informações sobre esse assunto é essencial na atenção integral em saúde desse estrato

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Tecnologia Assistiva para pais com deficiência visual Relato de Pesquisa

da população. Segundo a Política Nacional de Saúde da Pessoa com Deficiência (2010), dentre
as suas diretrizes está a melhoria dos mecanismos de informação, relacionados à criação, à pro-
dução e à distribuição de material educativo em saúde acessível.
Como se depreende, e conforme o conceito de tecnologia assistiva adotado, a TA
“Cuidando da alimentação do bebê” também é um mecanismo de informação em saúde e, uma
vez utilizado em meio de divulgação ampla, como o caso da web, permite maior disseminação
entre as pessoas com deficiência, especialmente entre pessoas com deficiência visual. Dessa for-
ma, promove-se não somente mais qualidade de vida, mas também inclusão.
Estudos envolvendo a experiência da maternidade/paternidade entre pessoas com de-
ficiência enfatizam o despreparo constante de profissionais da saúde para compreender e cuidar
de forma acessível dessa clientela nessa etapa do seu ciclo vital. São constantes os relatos de falta
de apoio profissional, conhecimento sobre as necessidades oriundas das distintas deficiências,
aceitação da sexualidade dessas mães e desses pais e, especialmente, tecnologias assistivas viáveis
a esse público (Carty et al., 1990; Conley-Jung & Olkin, 2001; Walsh-Gallagher et al., 2012).
Conforme observado nos resultados, os participantes atribuíram majoritariamente
nota cinco aos itens do instrumento, e a avaliação estatística dos seus dados apontou para mé-
dias favoráveis a essa conclusão, majoritariamente acima de 80,0. O perfil dessas mães e desses
pais denotou discreta predominância do sexo feminino, de não casados, com idade sobretudo
entre os 30 a 39 anos e renda média de um salário-mínimo. E, ainda: o tipo de deficiência visual,
congênita, o grau de escolaridade, ensino médio, e o fato de exercerem atividade remunerada.
Ao considerar-se o perfil de mães e pais que atribuíram melhores médias aos tó-
picos “Conteúdo”, “Aspectos pedagógicos” e “Acesso online”, obteve-se como resultado, res-
pectivamente: pessoas com deficiência congênita (96,3; 90,1; 91,5), na faixa etária de 30 a
39 anos (95,3; 89,5; 92,2) e casadas (97,6; 92,8; 94,8). Em relação à renda familiar, o tópi-
co “Conteúdo” foi melhor avaliado por pessoas que recebem de 2,2 a seis salários-mínimos
(100,0); já os tópicos “Aspectos pedagógicos” e “Acesso online” melhor foram avaliados por
mães e pais com renda de 1,1 a 2,1 salários (94,3; 98,3).
Segundo se evidenciou, homens e mulheres avaliaram a tecnologia de maneira se-
melhante, embora as mulheres tenham atribuído melhores médias ao conteúdo e acesso online
(91,9; 84,8, respectivamente). Existe tendência constante das mulheres em procurar mais os
serviços de saúde, em seguir o conselho dos profissionais e buscar mecanismos diversificados de
informação em comparação ao comportamento masculino (Pinheiro et al., 2002).
Ademais, consoante apontaram as experiências de mães com deficiência visual norte-
-americanas no cuidado dos seus filhos, relatadas por Conley-Jung e Olkin (2001), o estado
civil predominante entre as 47 entrevistadas foi casado (80,9%) e o tipo de deficiência visual, a
congênita (88,1%). De acordo com entrevistas com 17 mulheres irlandesas com tipos variados
de deficiências, sobre a experiência da gestação, nascimento e maternidade, dez dessas mulheres
eram casadas ou viviam em união estável e 15 do total exerciam atividade remunerada (Walsh-
Gallagher et al., 2012). Finalmente, em artigo cuja autora é uma mãe cega que reflete sobre sua
própria experiência durante a gravidez, parto e criação do seu filho, era casada e desempenhava
atividade remunerada (Kent, 2002).

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ROSCOCHE, K. G. C., et al.

Aspecto relevante a ser destacado é a diferença de avaliação da TA em relação às faixas


etárias dos participantes: todos os grupos avaliaram de maneira distinta, mas as maiores médias
(95,3; 89,5; 92,2) advieram do grupo situado entre 30 e 39 anos e as menores (84,1; 69,9;
64,8) do grupo mais velho, entre 50 e 72 anos. Desse modo, entre participantes mais novos,
a TA foi melhor aceita em comparação ao grupo no qual se inserem idosos, por exemplo, que
apresentou piores notas quanto aos aspectos pedagógicos e acesso online.
Como identificados, os participantes apresentaram como escolaridade predominante
o ensino médio. Tal aspecto se destaca porquanto no Brasil 51,3% das pessoas com deficiência
têm até três anos de estudo. Aspecto relevante no presente estudo é que mães e pais com ensino
médio avaliaram melhor a TA (M: 95,7; 90,2; 93,6) em relação aos com ensino superior (M:
89,4; 85,7; 90,3) demonstrando ser a TA viável para diversificados níveis de escolaridade.
Embora haja tendência de a pessoa com deficiência adquirida, sobretudo a partir
da adolescência, ter melhor adequabilidade no tocante aos recursos educacionais adaptados, a
demanda por informações demonstrou ser aspecto independente a essa condição, porquanto
os pais com deficiência visual congênita avaliaram melhor a tecnologia assistiva (M: 96,3). Essa
evidência aponta uma viabilidade na utilização do acesso online entre pessoas com deficiência
visual, independentemente da sua etiologia. Nesse caso, importa, principalmente, a demanda
por informações em saúde. A TA desenvolvida e ora validada foi desenvolvida considerando
orientações pertinentes à deficiência visual independentemente de sua origem, visto que as
orientações de seu conteúdo são adequadas aos distintos graus de deficiência visual.
No tocante à avaliação dos itens da tecnologia, o tópico com melhores médias foi
conteúdo (91,1), seguido do acesso online (84,4) e aspectos pedagógicos (82,9). Concernente
ao conteúdo, os itens melhores avaliados pelos participantes foram: “Aborda a importância
da família na saúde da criança” (M: 4,79) e “Aborda assuntos necessários aos pais” (M: 4,73).
Como, em geral, são as mães e os pais que executam os cuidados básicos de saúde dos seus filhos
lactentes, com destaque para a nutrição, chama atenção o fato de considerarem a tecnologia
avaliada como promotora desses aspectos.
A ênfase maior nesses itens remete ao fato de constantemente mães e pais com de-
ficiência visual demandarem o auxílio da sua rede de apoio social para suporte a situações no
cuidado da criança cuja resolutividade por eles próprios fica limitada em face da própria defici-
ência. Enfatizar a importância da família nesse contexto de desafios aponta para um desejo de
autonomia e até mesmo de autoeficácia materna/paterna no cuidado da saúde das suas crianças.
Comumente, mães e pais sentem ansiedade diante da oferta dos novos alimentos aos
seus filhos lactentes, sobretudo quando são mães e pais pela primeira vez. Há uma tendência
de esses homens e essas mulheres procurarem informações sobre essa temática não somente na
rede social de apoio, mas também em livros e em meios virtuais. Logo, atribui-se como uma
das responsabilidades dos profissionais de saúde evidenciar quais entre esses meios são mais
fidedignos e podem ser melhor explorados (Allcut & Sweeney, 2010).
Mães e pais com deficiência visual, cearenses, mencionaram como maiores desafios
no processo de nutrição dos seus filhos lactentes a falta de encorajamento da manutenção do
aleitamento materno exclusivo, o medo de acidentes durante a oferta dos alimentos sólidos da

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Tecnologia Assistiva para pais com deficiência visual Relato de Pesquisa

introdução alimentar e as dúvidas não esclarecidas ante esses dois processos. Em acréscimo,
conforme relataram, o despreparo dos profissionais de saúde para lhes dar suporte nesse mo-
mento da vida dos seus filhos gerou desencorajamento e até mesmo questionamentos sobre a
capacidade de cuidar (Cezario et al., 2016).
Estudo fenomenológico com 17 mães irlandesas com diferentes tipos de necessidades
especiais (visual, intelectual, espinha bífida, esclerose múltipla, entre outros) gerou relatos ines-
perados. Exemplo deles é o fato de que, para muitos dos profissionais de saúde que detectaram
suas respectivas gestações, tal situação foi vista como chocante, pois as consideraram incapazes
de cuidar dos filhos. Assim, propuseram em dois casos o abortamento dos bebês. Houve rela-
tos também de despreparo por parte dos enfermeiros que as assistiam e sentimento de solidão
durante o pós-parto (Walsh-Gallagher et al., 2012).
A experiência de Kent (2002) durante o período de pós-parto também foi negativa, pois,
consoante relatou, a enfermeira do alojamento conjunto no qual estava internada quis retirá-la deste
setor por julgá-la incapaz de cuidar e até mesmo de encontrar o berço do seu bebê, situado ao lado
do seu leito. Ademais, segundo Conley-Jung e Olkin (2001) várias mães cegas mudaram o pediatra
dos seus bebês em virtude de o médico as considerar incapazes de cuidar dos seus filhos.
Os relatos comumente identificados nesses estudos direcionam, conforme mencio-
nado, para um constante questionamento da autoeficácia dessas mães e desses pais no cuidado
independente dos seus filhos. Compreendida como a crença de um indivíduo sobre a própria
capacidade de realizar determinadas ações e a sua possível influência sobre suas vidas, a autoe-
ficácia se aplica no contexto da promoção da saúde por compreender também a resiliência dos
indivíduos perante os obstáculos com os quais tem de se defrontar, sendo essa situação uma
constante na vida de mães e pais com deficiência (Malagris et al., 2020).
Dessa forma, independentemente ou não de deficiência paterna e/ou materna, a
família tem sua relevância no cuidado da criança em suas diversas necessidades. Esse processo
se torna ainda mais efetivo quando há um estímulo da potencialização da capacidade de cuidar
por parte dos pais, que inclusive precisam passar por diversos ajustes em seus papéis ante as
demandas variadas da vida (Hockenberry & Wilson, 2023).
No estudo, o item “O tema retrata aspectos-chave importantes” obteve a menor pon-
tuação entre os pais cegos avaliadores. Essa negativa desperta atenção porquanto a totalidade
do conteúdo foi avaliada pelas especialistas em saúde da criança e o conteúdo da tecnologia foi
suscitado mediante extensa consulta à literatura na área, utilizando método de revisão integra-
tiva. Além disso, a vivência das pesquisadoras com mães e pais com deficiência visual também
norteou o desenvolvimento de seu conteúdo.
Concernente aos aspectos pedagógicos, o item melhor avaliado, “Estimula a mudança
de atitude e comportamento” (M: 4,60), denota a relevância da presente TA para aquisição de
novas habilidades no cuidado da alimentação complementar da criança. Embora a “mudança
de atitude e comportamento” não tenha sido mensurada metodologicamente, o fato de ter sido
apontada como aspecto mais relevante na TA a direciona para a sua finalidade central: a promo-
ção da saúde de mães e pais com deficiência visual. O segundo aspecto melhor avaliado, “Os

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ROSCOCHE, K. G. C., et al.

recursos de acessibilidade estão adequados” (M: 4,44), evidencia a adequabilidade da tecnologia


aos aspectos a serem considerados no acesso à internet por parte de pessoas com deficiência visual.
Por tratar-se de um conceito amplo e holístico, a promoção da saúde envolve praticamen-
te todos os aspectos de vida de dada população: compreende a assistência em saúde nos seus mais
variados níveis de complexidade e engloba a educação em saúde, qualidade de vida e prevenção.
Contudo, não são somente estes os objetos de ação da promoção da saúde. Incluem-se também o
empoderamento da clientela, a construção de parcerias, a centralização no cliente e a colaboração.
Especificamente para a promoção da saúde das pessoas com deficiência, exige-se conheci-
mento adequado sobre a comunicação com essa clientela, além de competência, habilidade e estra-
tégias favoráveis à inclusão e à acessibilidade dessas pessoas à saúde. Ao longo das décadas, conforme
se tem percebido, apesar de alguns avanços quanto aos amparos legais sobre a inclusão desse público
na sociedade, princípios fundamentais da promoção da saúde como autonomia, empoderamento e
participação social ainda não são plenamente respeitados (Roscoche et al., 2018).
A TA “Cuidando da alimentação do bebê” tentou se enquadrar nessa proposta de
empoderamento de mães e pais com deficiência visual, pois sua finalidade essencial é transmitir
informações a esse público que, em inúmeros relatos, afirma negligência em relação às suas
necessidades. Cabe, portanto, a essas mães e a esses pais a decisão de adotar ou não as práticas
recomendadas na TA.
Cabe ressaltar que o item “Tempo de apreciação está adequado” (M: 3,93) recebeu a
menor pontuação por parte dos participantes. Ao se questionar acerca desse tópico, o objetivo
foi verificar se o tempo despendido para a leitura ao se navegar pelas páginas que compõem a
TA era suficiente para apreciação. Como se pode inferir pela média e mediana mais baixas nesse
tópico, as mães e os pais cegas/os consideraram o material extenso para leitura.
Contudo, em relação a esse resultado, pode-se deduzir que se trata da necessidade
de inclusão das diversas temáticas abordadas na TA (tipos de alimentos, como ofertar os ali-
mentos, como preparar os alimentos, entre outros) como aspectos relevantes a serem tratados,
que não podem ser excluídos desse processo. Ademais, recomendou-se, durante o processo de
validação da tecnologia, que se apreciassem todos os seus aspectos, embora não necessariamente
as mães e os pais terão dúvidas sobre todos eles, mas, sim, optarão apenas pelo item no qual
buscam esclarecimentos sobre a temática.
Concernente aos aspectos de acessibilidade, o item “O acesso online é viável para
promover saúde” (M: 4,49) foi o segundo melhor avaliado pelas mães e pelos pais cegas/os.
Conforme essas mães e esses pais, elas/es frequentemente recorrem a grupos de discussão virtu-
ais, web sites e conferências para esclarecer dúvidas sobre os cuidados dos seus filhos e das suas
filhas; no entanto, há uma demanda de identificação desse tipo de material que seja acessível e
focado nas necessidades de mães e pais com deficiência visual (Rosenblum et al., 2009).
De modo geral, independentemente da existência da experiência da maternidade/
paternidade, as/os deficientes visuais buscam suporte social e apoio nas relações mediadas pelo
acesso online (Gold et al., 2010). Esse aspecto se torna ainda mais significativo diante das difi-
culdades vivenciadas no processo de criação dos/as filhos/as. Complementa-se essa constatação

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Tecnologia Assistiva para pais com deficiência visual Relato de Pesquisa

na vigência de mães e pais com outros tipos de deficiência e até mesmo quando essa situação
ocorre com suas crianças e não com elas/es próprias/os.

5 Conclusões
Os resultados expostos apontam para a viabilidade da TA no fornecimento de in-
formações sobre introdução alimentar para mães e pais com deficiência visual, e esse aspecto
se confirma pela atribuição de pontuação máxima entre os itens avaliados pelos participantes.
Todavia, apesar desses resultados, houve limitações no desenvolvimento do estu-
do. Conforme mencionado, foram diversas as dificuldades vivenciadas no convite aos parti-
cipantes. Isso culminou na delimitação deles a praticamente o Nordeste do Brasil, sobretudo
Pernambuco e Piauí. Sugere-se, então, a realização do mesmo processo de validação entre mães
e pais de outras regiões do Brasil.
Outro ponto significativo, que é ao mesmo tempo limitação do estudo e relevância
a ser discutida, é o acesso online como meio viável à promoção da saúde, e aqui se enfatiza a
pessoa com deficiência visual. Embora seja notório haver menos acesso dessa clientela ao uso
de computadores e à internet do que do público vidente em geral, percebe-se uma inserção
crescente deles a esse meio, e se este pode ser utilizado para estudos, trabalhos, lazer, interação
social, por que não como fonte de informações em saúde? O presente estudo responde: é viável.

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Recebido em: 08/09/2023


Reformulado em: 30/10/2023
Aprovado em: 20/11/2023

18 Rev. Bras. Ed. Esp., Corumbá, v30, e0998, p.1-18, 2024

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