Suturas: entenda os tipos,
indicações, técnicas e mais
Índice
1.
Para que servem as suturas?
2.
Quando as suturas estão indicadas quando não são?
3.
Antes da sutura, o que fazer?
4.
Instrumentais e material necessário para uma sutura: o que usar?
5.
Fios cirúrgicos: qual escolher para a sua sutura?
6.
Como escolher o tipo de sutura?
7.
Quais são as suturas com pontos descontínuos?
8.
Suturas com pontos contínuos
9.
Que tipo de sutura e qual fio escolher?
10.
Profilaxia antitetânica: prevenindo uma má resposta à sutura
11.
Aprenda a suturar com a ajuda do SanarFlix!
12.
Sugestão de leitura complementar
13.
Perguntas frequentes
14.
Referências
Índice
Aprenda os principais tipos de suturas, seus princípios básicos,
quando usá-los e os tipos de fios ideais para cada tecido e
objetivos. Bons estudos!
Os conhecimentos em suturas, bem como a indicação do seu
uso é indispensável a qualquer médico(a) generalista. Para isso,
é necessário entender as técnicas e suas indicações, bem como
os fios de escolha para a sua realização.
Para que servem as suturas?
As suturas são um conjunto de manobras realizadas para unir
tecidos com a finalidade de restituir a anatomia funcional.
Isso significa que o sucesso de uma sutura envolve não apenas o
aspecto estético visual, mas a funcionalidade preservada ou
devolvida ao tecido suturado. Com isso, a sutura auxilia no
processo de cicatrização, sendo ela a síntese definitiva, um
processo biológico.
Assim sendo, para atingir esses objetivos, a aproximação das
estruturas teciduais através da disposição ordenada nós
cirúrgicos exige conhecimentos especiais. Eles se abrangem
desde a técnica, fios à aplicações em cada tipo de tecido.
Os 4 objetivos básicos de uma sutura são:
1. Evitar infecção da ferida;
2. Promover a hemostasia;
3. Diminuir o tempo de cicatrização;
4. Favorecer um resultado estético.
Quando as suturas estão indicadas quando não
são?
Um pensamento de senso comum, a melhor opção para restaurar
a continuidade anatômica e funcional de um tecido é através da
sutura. No entanto, existem situações específicas em que as
suturas estão indicadas e contraindicadas.
De maneira geral, as suturas estão indicadas para ferimentos
limpos, sem sinais de infecção vigente ou de fatores que
possam levar a uma evolução desfavorável. Esses fatores podem
incluir sujidade, tecidos desvitalizados ou corpos estranhos.
Além disso, as feridas costumam ser sintetizadas por suturas em
um prazo máximo de 18 horas, desde que não havendo sinais de
infecção. Apesar de essa ser uma recomendação geral, esse
prazo pode variar, a depender do local. Em face, por exemplo,
costuma-se tolerar um prazo de 24 horas. Ainda, em casos mais
específicos, até mesmo de 48h-72h, respeitando a não infecção.
Por outro lado, ferimentos contaminados, sangrantes ou muito
superficiais não costumam indicar a realização de suturas.
Ainda, quando e entende que o resultado estético não será
positivo para o paciente, a escolha é não realizar o procedimento.
Em casos de pacientes com comorbidades, as orientações
também variam. Comorbidades como diabetes, doença arterial
periférica e feridas crônicas prejudicam a formação de tecido
de granulação. Por isso, esses pacientes não devem ser
suturados com mais de 6 horas em extremidades (menor
perfusão), ou mesmo não serem suturados a depender do local.
Antes da sutura, o que fazer?
A sutura ideal busca promover o melhor aspecto funcional e
estético possível. Para isso, algumas recomendações básicas
são necessárias:
Assepsia adequada: infecções podem fazer deiscência de
sutura, por que enfraquecem e destroem os tecidos;
Bordas regulares: facilita a exposição das suturas e sua
execução;
Boa captação das bordas: bordas bem alinhadas e
coaptadas facilitam o processo de cicatrização, reduz
formação de queloides e contribui para uma melhor
estética;
Hemostasia: hematomas dificultam a cicatrização e
favorece infecções (meio de cultura para os
microrganismos). Cuidado! Excesso de hemostasia pode
fazer isquemia e promover necrose tecidual;
Evitar espaço morto: pode haver acúmulo de líquidos e
afastar os tecidos;
Realizar por planos: promove bom confrontamento das
bordas e evita o espaço morto;
Realizar a técnica adequadamente: adequar a sutura ao
tecido, com relação a tensão, tipo de fio e espaçamento
correto entre os pontos;
Evitar isquemia e corpos estranhos;
Utilizar material apropriado.
Além disso, em casos de pacientes que foram mordidos ou
sofreram ferimentos com material metálico, deve-se orientá-lo
para a profilaxia contra raiva e tétano.
Instrumentais e material necessário para uma
sutura: o que usar?
Para uma sutura bem feita não é necessário apenas técnica, mas
instrumentais de boa qualidade e coerentes com a finalidade do
procedimento.
Entre eles, temos as pinças de dissecção. Elas são
instrumentos de apreensão dos tecidos, favorecendo sua
manipulação. Podem ser atraumáticas (anatômica) ou
traumáticas com “dente de rato”, que são usadas na confecção
de pontos na pele.
Em geral, após o paciente estar anestesiado, as pinças de
dissecção traumática também são usadas para atestar a
anestesia. Para isso, pergunte ao paciente: “senhor(a), está
sentindo alguma dor?”. É importante que a pergunta se refira
à dor, uma vez que a anestesia não suprime a sensibilidade
completa.
Os porta agulhas são usados para a condução da agulha
curva. Esse instrumental é um dos protagonistas do seu
procedimento, funtamental para a manipulação adequada do fio
agulhado.
As agulhas podem ser curvas (mais usadas) ou retas. Ainda,
podem ser traumáticas, quando o fio não vem montado e há um
orifício para sua colocação ou atraumáticas, ou seja, já
montadas com o fio.
Sutura em cavidade. Na mão
direita, porta-agulha com fio agulhado. Na mão esquerda, pinça
de dissecção.
Fios cirúrgicos: qual escolher para a sua sutura?
Os fios cirúrgicos possuem uma variedade considerável. Essa
variação se deve aos diferentes tipos de tecidos a serem
suturados, bem como a permanência ou não desse material.
Com isso, os fios podem ser de
origem sintética ou orgânica e monofilamentares (levam à
menor reação inflamatória) ou multifilamentares. Se fossemos
pensar em fio ideal, ele deveria ter as seguintes características:
ter a resistência tênsil igual a dos tecidos, ser fino, regular,
flexível, ter pouca reação tecidual e baixo custo.
Os fios ainda podem ser classificados em absorvíveis e não
absorvíveis:
Fios Absorvíveis:
o Origem animal: Catgut simples e cromado
o Origem sintética: Vycril, Dexon, Monocryl, Vycril Rapid
e PDS II
Fios Não absorvíveis:
o Animal: seda
o Vegetal: Linho e Algodão
o Sintética: Mononylon (poliamida), Prolene
(polipropileno), Mersilene, Polycot, Aciflex
Os fios não absorvíveis, na maioria das vezes, não precisam ser
retirados e levam à menor reação inflamatória.
O calibre dos fios varia de nº 0 até nº 12.0. Quanto menor o
número de zeros, maior é o calibre do fio, portanto, um fio 2.0
(dois zeros) é mais calibroso que o fio 4.0 (quatro zeros).Isso é
importante por que cada calibre do fio exerce uma tensão na
sutura, sendo necessária a escolha do calibre adequado.
Além disso, cada calibre tem sua aplicação: oftalmologia e
microcirurgia (7.0 – 12.0); face e vasos (6.0); face, pescoço e
vasos (5.0); mucosa, tendão e pele- abdome e tronco (4.0); pele-
extremidades e intestino (3.0); pele- extremidades-, fáscia e
vísceras (2.0); parede abdominal, fáscia e ortopedia (0-3)
Como escolher o tipo de sutura?
Aa suturas pode ser contínua ou descontínua, possuindo
diferenças significativas entre seus objetivos
Na sutura descontínua os fios são fixados separadamente,
podendo variar a tensão de acordo com a necessidade em cada
ponto. É considerada mais segura, já que o rompimento de um
ponto não inviabiliza a sutura toda.
É menos isquemiante, confere maior permeabilidade à ferida e
consegue força tensil maior e de modo mais rápido. Como
desvantagens, possui uma elaboração mais lenta e trabalhosa.
Na sutura contínua, o fio é passado do início ao fim sem
interrupções. É uma sutura de execução mais rápida que a
descontínua. É mais hemostática, tendo a mesma tensão em
todo percurso da sutura.
Como desvantagens, pode ser estenosante e impermeável e o
rompimento de um ponto pode comprometer toda a sutura. Além
disso, a sutura contínua tem uma tendência a reduzir a
microcirculação das bordas da ferida, prolongando a fase
destrutiva da cicatrização e aumentando formação de edema.
Geralmente usa-se fios absorvíveis nas suturas contínuas.
Quais são as suturas com pontos descontínuos?
Como comentamos, os pontos descontínuos promovem menos
tensão. Além disso, é uma técnica que permite a drenagem de
fluidos da cavidade, podendo ser positiva a depender do
prognóstico.
Ponto simples
A técnica de ponto simples é relativamente simples e envolve
passar a agulha através de uma borda da pele, depois através da
outra borda, formando uma espécie de laço que é puxado
suavemente para aproximar as bordas da ferida.
Em seguida, o fio é amarrado para manter as bordas unidas.
Esse processo é repetido ao longo da ferida até que todas as
áreas que precisam ser fechadas estejam devidamente
suturadas.
Ponto simples invertido
Variação do ponto simples, onde o nó fica oculto dentro do tecido.
É um ponto de sustentação permanente que tem a finalidade de
reduzir a tensão na linha de sutura.
Ponto simples invertido.
Donatti ou U vertical
É a associação de dois pontos simples. Cada lado da borda é
perfurado duas vezes. A primeira transfixação ocorre há até
10mm da borda e inclui pele e camada superior do subcutâneo. A
segunda perfuração é trans-epidérmica, há cerca de 2mm da
borda. Esse ponto é também conhecido como “longe-longe,
perto-perto”, apenas para fins didáticos.
É um ponto que promove boa hemostasia, sendo mais utilizado
quando há hemorragia subdérmica e dérmica. Reduz tensão e
promove boa coaptação das bordas, evitando sua invaginação,
entretanto, o resultado estético é inferior.
Ponto U vertical ou Donatti.
Ponto em U horizontal ou Colchoeiro
É semelhante ao Donatti, diferindo na posição horizontal das
alças. É usado para produzir hemostasia e em suturas com
alguma tensão (como cirurgia de hérnias, suturas de
aponeurose), que impede a coaptação perfeita das bordas.
Ponto em X
Executado para que fique duas alças cruzadas. Esse ponto
aumenta a superfície de apoio de uma sutura para hemostasia ou
aproximação.
É usado em fechamento de paredes e suturas de aponeurose,
músculos, e até em couro cabeludo.
Fonte: APOSTILA DE
TÉCNICA CIRÚRGICA. BRASÍLIA: UNB, 2005
Suturas com pontos contínuos
Por outro lado, os pontos contínuos fornecem uma tensão maior.
Embora a hemostasia e junção das bordas seja maior, bem como
a hemostasia, o rompimento de um dos pontos (deiscência),
compromete toda a sutura.
Chuleio simples
É o tipo de sutura de mais rápida e fácil execução e pode ser
aplicada em qualquer tecido com bordas não muito espessas.
É muito usada em suturas de vasos, por que faz boa hemostasia
e pode ser usada também em peritônio, músculos aponeurose e
tela subcutânea.
Chuleio simples.
Chuleio ancorado
É uma variação do chuleio simples. Aqui o fio passa
externamente por dentro da alça anterior, fazendo uma âncora,
antes de ser tracionado.
É mais hemostática que a anterior e por isso mais isquemiante.
Atualmente é pouco utilizada.
Chuleio ancorado. Fonte: APOSTILA
DE TÉCNICA CIRÚRGICA. BRASÍLIA: UNB, 2005
Intradérmica
É um tipo de sutura que tem um ótimo resultado estético. Nessa
técnica a agulha passa horizontalmente através da derme
superficial, paralelo à superfície da pele, aproximando as bordas.
Por isso não deixa impressões de sutura no tecido externo.
Deve ser usado em feridas com pouca tensão.
Sutura intradérmica.
Que tipo de sutura e qual fio escolher?
A sutura de boa qualidade, que garante hemostasia e evita uma
resposta tecidual exacerbada precisa de boa técnica. Parte dela é
saber escolher o fio “ideal” para cada tipo de pele.
Abaixo, temos alguns exemplos de tecidos orgânicos suturados
mais costumeiramente, com a recomendação do tipo de fio a se
usar, bem como a sutura.
Tecido Sutura mais recomendada Fio de escolha Calibre
Descontínuos: simples ou Donetti
Pele Não absorvível em tempo médio ou longo 4-0 ou 5-0
Contínuos: intradérmico
Subcutâneo Nenhuma, pontos simples ou chuleio Absorvível em tempo curto ou médio 3-0 a 5-0
Pontos simples, em U ou X sem
Musculatura Absorvível em tempo médio ou longo 2-0 ou 3-0
apertar
Não absorvível ou absorvível em tempo
Aponeurose Pontos simples ou chuleio 0 ou 1
longo
Tabela de Tipos de Suturas por Tecido, Fios e Calibres
Profilaxia antitetânica: prevenindo uma má
resposta à sutura
A profilaxia do tétano acidental é extremamente importante, por
isso devemos ficar atentos à situação vacinal de cada paciente
que chega com um ferimento e ao tipo de ferida.
Profilaxia contra o tétano. Fonte: Ministério da Saúde
Ferimentos com baixo risco: Ferimentos superficiais,
limpos, sem corpos estranhos ou tecidos desvitalizados
Ferimentos com alto risco: Ferimentos profundos ou
superficiais sujos; com corpos estranhos ou tecidos
desvitalizados; queimaduras; feridas puntiformes ou por
armas brancas e de fogo; mordeduras; politraumatismos e
fraturas expostas.
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Perguntas frequentes
1. Qual é o objetivo das suturas?
As suturas objetivam garantir uma continuidade anatômica
e funcional dos tecidos lesados.
2. Com qual grupo de pacientes devemos tomar mais
cuidado ao realizar as suturas?
Com pacientes com comorbidades, como diabetes e
doença arterial periférica.
3. Em que situações principais cuidamos da profilaxia do
paciente?
Especialmente em casos de mordedura, com profilaxia para
raiva e lesões com materiais enferrujados, com profilaxia
para tétano.
Referências
1. GOFFI, F. S.; TOLOSA, E. M. D. C. Técnica
cirúrgica: bases anatômicas, fisiopatológicas e técnicas da
cirurgia. 4. Ed. São Paulo: Atheneu, v. único, 1997.
2. MARQUES, R. G. Técnica Operatória e Cirurgia
Experimental. 1 ed. São Paulo. Guanabara Koogan, v.
único, 2005
3. MAGALHÃES, R. G. Técnica Cirúrgica e Cirurgia
Experimental. São Paulo: Sarvier, 1996
4. Mélega JM. Cirurgia Plástica Fundamentos e Arte;
Princípios Gerais. Rio de Janeiro: Médisi; 2002.
5. Raiva Humana. Ministério da Saúde.