UNIVERSIDADE ESTADUAL DO MARANHÃO
Departamento de Letras
Leitura e Produção Textual
Profa. Ivonete Lopes Alunos:
Variações Linguísticas
O termo variação linguística se refere às modificações que uma língua apresenta
segundo as condições sociais, situacionais, regionais e históricas em que é utilizada.
Sabemos que a língua portuguesa é dinâmica.
Assim também como podemos interagir e nos comunicar com outras pessoas por
meio de diversos níveis de linguagem: padrão, coloquial, gírias, regionalismos e
linguagem vulgar.
Existem diferentes variações ocorridas na língua, entre elas estão:
1. Variação Histórica (temporal ou diacrônica) - Aquela que sofre
transformações ao longo do tempo por meio de sucessivas gerações de falantes.
Como por exemplo, a palavra “Você”, que antes era vosmecê e que agora, diante
da linguagem reduzida no meio eletrônico, é apenas VC. O mesmo acontece
com as palavras escritas com PH, como era o caso de pharmácia, agora,
farmácia. Ex: Vossa mercê – Vosmecê – Mecê – Você – Ocê – Cê – VC
(linguagem digital).
Ex: Antigamente
Antigamente, as moças chamavam-se mademoiselles
e eram todas mimosas e muito prendadas.
Não faziam anos: completavam primaveras, em geral dezoito.
Os janotas, mesmo sendo rapagões, faziam-lhes pé-de-alferes,
arrastando a asa, mas ficavam longos meses debaixo do balaio.
Carlos Drummond de Andrade
Ao travarmos contato com o fragmento ora exposto, percebemos que nele existem
certas expressões que já se encontram em desuso, tais como: Mademoiselles, prendadas,
janotas, pé-de-alferes, balaio.
Caso fôssemos adequá-las ao vocabulário atual, como ficaria?
Restringindo-se a uma linguagem mais coloquial, os termos em destaque seriam
substituídos por “mina”, “gatinha”, “maravilhosas”, “saradas”, “da hora”, “Os
manos”, “A galera”, “Davam uma cantada”, e assim por diante.
Perceberam que a língua é dinâmica? Ela sofre transformações com o passar do
tempo em virtude de vários fatores advindos da própria sociedade, que também é
totalmente mutável.
Outro exemplo são as estruturas que caíram em desuso ao longo do tempo e hoje
se relacionam ao português mais arcaico, como o uso do pronome "vós" e da mesóclise.
Ex: “Correr-te-ia para os seus braços de tanta saudade!”
Desmanchar-me-ia em lágrimas, se você não viesse.
Orgulhar-me-ei dos meus alunos. Orgulhar-me-ia dos meus alunos.
“Se isto vos parecer enfático, desgraçado leitor, é que nunca penteastes uma pequena
[…]” D. Casmurro (Machado de Assis)
Vejamos a tirinha a seguir:
2. Variação Regional ou diatópica (os chamados dialetos) - são as variações
ocorridas de acordo com a cultura de uma determinada região. Tomamos como
exemplo a palavra mandioca, que em certas regiões é tratada por macaxeira; e
abóbora, que é conhecida como jerimum.
1. Bruguelo / bebê
2. Cabreiro / desconfiado
3. Coberta / lençol
4. Goiaba / araçá
5. Abóbora / jerimum
6. Almôndega / porpeta
7. Bergamota / tangerina / mexerica
8. Biscoito / bolacha / galheta
Outro exemplo clássico é o português falado no Brasil e em Portugal que são
diferenças entre as regiões geográficas. Identificamos variações de sotaque, vocabulário
e até mesmo estruturas gramaticais.
3. Variação Social (ou diastrática)
A variação linguística social, ou diastrática, resulta das diferenças entre grupos
sociais, que podem ter relação com a classe social ou a faixa etária das pessoas. Essas
diferenças são evidentes em vocabulários, pronúncias e até mesmo gírias as quais
pertencem a grupos de surfistas, tatuadores, entre outros. Além disso, as profissões
também influenciam bastante nas variações linguísticas sociais por meio de termos
técnicos (jargões), que pertencem a uma classe profissional mais específica, como é o
caso dos médicos, profissionais da informática, dentre outros.
• Variedades sociais (diastráticas)
• Fonológicos
• “prantar” no lugar de “plantar”;
• “estrupo” no lugar de “estupro”; “
• “pobrema” no lugar de “problema”;
• “beneficiente” no lugar de “beneficente”;
• “ triologia” no lugar de “trilogia”.
• Morfossintáticos
• “vinte real” no lugar de “vinte reais”;
• “eu vi ele” no lugar de “eu o vi”;
• “nós vai” no lugar de “ nós vamos”;
• “a gente fumo” no lugar de “nós fomos”.
Vejamos a tirinha abaixo:
[Link]/variacao-linguistica.
Destaca-se também o caso do dialeto caipira, o qual pertence àquelas pessoas
que não tiveram a oportunidade de ter uma educação formal, e em função disso, não
conhecem a linguagem “culta”.
Observe o exemplo no poema de Zé da Luz, texto literário que ilustra de maneira
artística (alguns exageros comuns aos recursos expressivos podem ser notados)
características de um dialeto encontrado na região Nordeste do país:
Ai se sêsse
Se um dia nóis se gostasse
Se um dia nóis se queresse
Se nóis dois se empareasse
Se juntim nóis dois vivesse
Se juntim nóis dois morasse
Se juntim nóis dois drumisse
Se juntim nóis dois morresse
Se pro céu nóis assubisse
Mas porém acontecesse de São Pedro não abrisse
a porta do céu e fosse te dizer qualquer tulice
E se eu me arriminasse
E cum tu eu insistisse pra que eu me arresolvesse
E a minha faca puxasse
E o bucho do céu furasse
Tarvês que nóis dois ficasse
Vejamos a seguir um exemplo típico de variação social, nas palavras do poeta Oswald
de Andrade:
Vício na fala
Para dizerem milho dizem mio
Para melhor dizem mió
Para pior pió
Para telha dizem teia
Para telhado dizem teiado
E vão fazendo telhados.
Oswald de Andrade
A interação verbal entre os sujeitos é possível por meio das palavras e pode ser
realizada por meio da fala e/ou da escrita. Dependendo da situação comunicativa, os
usuários das línguas podem eleger qualquer um dos diferentes níveis de linguagem para
interagir verbalmente com os outros. Isso significa que existem linguagens diferentes
para ocasiões distintas, ou seja, em toda situação comunicativa, os falantes elegem o
nível de linguagem mais adequado para que tanto o emissor quanto o receptor das
mensagens possam compreender e ser compreendidos.
Variação linguística situacional (ou diafásica)
A variação linguística situacional (estilística ou diafásica) tem a ver com
o contexto de uso da língua. Em diferentes situações de comunicação, a linguagem
pode ser mais formal ou informal, e isso afeta o vocabulário, a estrutura das frases e até
a entonação.
Por exemplo, em um ambiente acadêmico, é comum usar linguagem mais
formal, enquanto em uma conversa entre amigos, a fala tende a ser mais informal.
Observe no exemplo abaixo um emprego da norma culta em contexto inadequado:
Níveis de linguagem
Veja:
1. Nível 1: Norma culta/padrão
Como sabemos, cada língua possui sua estrutura e muitas delas possuem um
conjunto de regras responsável pelo funcionamento dos elementos linguísticos. Esse
conjunto de regras é conhecido como gramática normativa. Nela, os usuários da língua
encontram a norma-padrão de funcionamento da língua chamada de “padrão ou culta”, a
qual deve, ou pelo menos deveria ser de conhecimento e acessível a todos os falantes da
mesma comunidade linguística.
Utilizar a norma culta da língua portuguesa, por exemplo, não significa
comunicar-se de maneira difícil e rebuscada. Embora à língua padrão seja atribuído
certo prestigio cultural e status social, o uso da linguagem culta está menos relacionado
à questão estética e muito mais associado à sua democratização, já que esse é o nível de
linguagem ensinado nas escolas, nos manuais didáticos, cartilhas e dicionários das
línguas etc.
Dessa forma, a linguagem culta ou formal é aquela em que as pessoas falam de
acordo com as regras gramaticais. Também chamada de norma padrão, nela se escolhe
com mais cuidado o vocabulário utilizado na comunicação.
É a linguagem usada na escrita e que aprendemos na escola.
Não precisamos ir muito longe para entender o conceito. Basta não concordarmos
sujeito com verbo e já temos aí uma transgressão gramatical.
Por exemplo: “A gente avisamos para ele se afastar.”. A gente somos inútil.
Ex: Ele nunca obedece ao pai. Nós assistimos ao jogo de futebol juntos.
Devemos obedecer aos nossos avós. Sempre assistiu pessoas mais velhas. Assisto em
São Luís desde que nasci.
Frases em linguagem culta
Considero viável começar por este projeto.
Estava muito abatido hoje.
Tenho comigo o resultado dos exames.
Agradeço que conversem mais baixo.
Nível 2: Linguagem coloquial/informal/popular
A linguagem coloquial ou informal é aquela utilizada de forma mais
descontraída, mais espontânea e corriqueira pelos falantes. Esse nível de linguagem não
segue a rigor todas as regras da gramática normativa e com as palavras do discurso, pois
está mais preocupado com a função da linguagem do que com a forma. Ao utilizar a
linguagem coloquial, o falante está mais preocupado em transmitir o conteúdo da
mensagem do que como esse conteúdo vai ser estruturado.
De maneira geral, os falantes utilizam a linguagem coloquial nas situações
comunicativas mais informais, isto é, nos diálogos entre amigos, familiares etc. A
linguagem informal não é incorreta, motivo pelo qual ela não pode ser caracterizada
como inculta, afinal, qualquer pessoa a usa num ambiente descontraído. No entanto, a
descontração pode dar abertura a algumas transgressões gramaticais, de onde podem
surgir as variantes linguísticas e, em alguns casos, até pode surgir a linguagem vulgar.
Frases em linguagem coloquial
Acho que a gente tem que começar por aqui.
Tava super derrubado hoje.
Olha o resultado dos exames que você pediu.
Cala a boca.
Nível 3: Gírias
A gíria é um estilo associado à linguagem coloquial/popular como meio de
expressão cotidiana. Ela está relacionada ao cotidiano de certos grupos sociais como
(jovens, surfistas, adolescentes, policiais) e podem ser incorporadas ao léxico de uma
língua conforme sua intensidade e frequência de uso pelos falantes, mas, de maneira
geral, as palavras ou expressões provenientes das gírias são utilizadas durante um tempo
por certo grupo de usuários e depois são substituídas por outras por outros usuários de
outras gerações.
É o caso, por exemplo, de uma gíria bastante utilizada pelos falantes nas décadas
de 80 e 90: “chuchu, beleza”, mas que, atualmente, está quase obsoleta.
Ex: Ele estava malocado no mato.
4 Regionalismos
Os regionalismos consistem em vocabulário e formas de expressão que são
influenciadas pelo local onde a língua é falada, como podemos notar nas diferenças da
língua portuguesa entre os falantes das regiões brasileiras.
Por exemplo: "Não se avexe." e "Não precisa ficar sem graça.", ambos com o
mesmo significado (não ter vergonha), são as formas utilizadas no nordeste e no sul do
Brasil.
Faça maranhense: mermã, cheguei atrasada.......
Nível 5: Linguagem vulgar
A linguagem vulgar é exatamente oposta à linguagem culta/padrão. As estruturas
gramaticais não seguem regras ou normas de funcionamento. O mais interessante é que,
mesmo de maneira bem rudimentar, os falantes conseguem compreender a mensagem e
seus efeitos de sentido nas trocas de mensagens.
Ex:
“Nóis vai”
“Pra mim ir”
“Vamo ir”
“Nós fumo”
Variações linguísticas que existem no Brasil
Por se tratar de um país com grande proporção territorial, o Brasil é bastante
diverso, com muitas expressões e variações linguísticas, que vão desde o sotaque até a
construção de jargões. No entanto, nem mesmo os próprios brasileiros conhecem todas
elas. Pensando nisso, separamos as expressões mais populares em todas as regiões do
país.
Variações linguísticas no Norte
As variações linguísticas mais usadas na região Norte são:
Moleque doido, que significa pessoa maluca;
Moscô, quer dizer que a pessoa foi pega em flagrante;
Égua, usado para indicar espanto ou admiração;
Borogodó, quando uma pessoa entende ou é especialista em determinado
assunto.
Variações linguísticas no Nordeste
O sotaque nordestino é a variante mais utilizada nos estados do Nordeste brasileiro,
entretanto, quando o assunto são expressões e gírias, cada região tem a sua própria.
Canhenga, usado para caracterizar uma pessoa que não gosta de gastar dinheiro;
Ligeiro, significa rápido;
Encabulado, quer dizer algo vergonhoso;
Rangar, significa comer;
Oxê ou Oxente são expressões de surpresa, espanto;
Mainha/Painho, são mãe e pai.
Variações linguísticas no Sudeste
As variações linguísticas da região sudeste predominam o jeito caipira no sotaque do
interior de São Paulo, mas o Sudeste não se resume apenas a isso, mas também com as
mais diversas gírias em outros estados, como o Rio de Janeiro.
Bolado, quer dizer estar preocupado com algo;
Da hora, significa legal;
É fria, quer dizer perigoso;
Larica, expressão usada para dizer que está com fome;
Quebrado, significa estar sem dinheiro.
Variações linguísticas no Sul
Já as variações linguísticas na região Sul são caracterizadas pela harmonia e redução
na voz. Em alguns locais, por exemplo, é comum que os falantes pronunciam a letra “e”
em palavras cujo a sílaba final possui a vogal, enquanto em outras regiões do país
pronuncia-se como “i”. Conheça algumas expressões da região Sul.
Alçar a perna, quer dizer monta a cavalo;
Cacetinho, o pão francês que mencionamos no início desse artigo;
Embretar-se, entrar ou se meter em apuros;
Guri, significa menino;
Lindeiro, quer dizer vizinho;
Solito, uma pessoa sozinha, isolada.
Variações linguísticas no Centro-Oeste
As variações linguísticas e o sotaque da região Centro-Oeste são bastante marcados
pelo contato do português colonizado com as línguas indígenas da região. Por exemplo,
no estado do Mato Grosso, os falantes não falam chuva com o som de chu, mas
sim tchuva, mesma coisa com a palavra peixe, a pronúncia é petche. Vale ressaltar que
esse dialeto é típico dessa região, não só ele, como os jargões a seguir.
Arruinou, quer dizer que está ruim de saúde;
Carreta, significa carro;
Dormir no macio, quer dizer viver folgado;
Empatar, quer dizer atrapalhar.