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Cinema e Política Externa de Portugal

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AVANCA | CINEMA 2021

Cinema as a Potency in Portugal Foreign Policy


Cinema como Potência na Política Externa de Portugal
Rui Manuel Martins de Sousa Torres
Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra -CIES20,
Portugal

Abstract O objetivo da comunicação é demonstrar a


razoabilidade desta urgência e necessidade, e
The time we live in is that of the eruption of millions of também convocar os atores políticos e os fazedores
subjectivities, of territorially diffuse affective communities, dos cinemas para esta realidade.
geographies of affections and identity belongings Num mundo de interdependências crescentes,
that go beyond the countries’ geographical boders. para pequenos Estados como Portugal, a atividade
The continous flows of information and communication, cinematográfica cujo poder de influência dentro
the transition to the digital economy accelerated by the e fora dos territórios de origem é inegável, não é
pandemic context, transformed people’s daily lives into possível desprezar.
permanent daily contact with mobile and fixed screens, A abordagem proposta acompanha as corrente
at work, in the public and in the private spaces. From the pós-positivista e do pós-estruturalismo, assumindo
cinema room to the cell phone, the cinema language is a produção do discurso e o exercício da vontade
appropriated by the disciplines of marketing, advertising como condição da ação do homem no mundo social.
business communication and organizations, media, Entende-se que estruturas de significação só são
politics and artistic practices, building appeals, standards, igualmente válidas para todos aqueles que tem acesso
disputing, fragmenting and uniting communities of a um mesmo contexto cultural, social, económico,
belonging and affections. Cinema, man’s unique look político, etc. No entanto, o cinema, arte popular,
at the world constitutes itself as Elian Kazan affirmed “the semiótica da vida, tem a capacidade de comunicar
dialogue of the world” ,[1]. Modern activity, art and industry, com comunidades e indivíduos simultaneamente em
from an early age this artistic pratice contaminated and lugares distantes ou próximos.
was contaminated,produced behaviors,attitudes, in a Para o estruturalismo filosófico, a categoria ou
double movement of appropiation and recreation of ideia de fundo não é o ser, não é a substância,
the appropriate. It is from this empirical a priori that mas a relação; não é o sujeito, mas a estrutura. De
recognizes the contamination of the real by cinema forma menos radical acompanhamos as correntes
that this article is written, which seeks to identify the pós-estruturalistas que sem negar a dimensão
place of cinema, as an actor, in the construction of estrutura, se afirma a construção do discurso ( texto,
the image of Portugal in the contemporary world. Is imagem, som) significantes semiológicos com que o
there any articulation between cinema produced with sujeito age sobre o real. Tal como o herói relutante
funds to support portuguese cinema and public cultural que habita o cinema contemporâneo, a abordagem
policies and between these and Portugal’s external pós-positivista e pós-estruturalista afasta-se de
communication? forma decida da linha imediatista e determinista da
causa-efeito. No caminhar humano há sempre um fim,
Keywords: Soft power e cinema, Cinema Português, mesmo que do domínio do inconsciente psicanalítico,
Políticas do Cinema, Construções Identitárias, que é motiva para o deambular tantas vezes errático
Lusofonia e Pós-Renascimento. do não-herói contemporâneo. Uma causa pode gerar
múltiplos e diferentes efeitos.
Introdução Um filme é sempre um produtor de sentido ou
sentidos. Um produtor do simbólico. Cassirer1
Delimitação do campo de análise e objecto. identifica o simbólico como a “ linguagem, a religião,
o mito, a ciência, a arte, tudo aquilo que condiciona
O estudo do cinema nas relações externas dos o olhar sobre a realidade em determinado tempo ou
estados não é uma originalidade. Nos estudos fílmicos lugar. As formas simbólicas estruturam a leitura de
aplicados em cinema português, no entanto, são mundo, criam uma rede de significados e organizam
escassos os estudos que tem o foco nesta temática. a experiência.”2
Num país em estado de anemia quanto à atividade As estruturas são, diz-nos (LÉVI-STRAUSS, 1955;
cinematográfica, estado anémico que se tem ALTHUSSER, 1998; FOUCAULT, 2012) , o corpo
prolongado ano após ano durante toda a III República, de leis que instituem e configuram a forma como se
e que em razão dessa anemia, dificilmente encontra compreende a realidade.
outras fontes de financiamento que não as que
resultam das políticas públicas de apoio ao cinema, Para o estruturalismo filosófico, a categoria ou ideia de
investigar qual o lugar possível e desejável do cinema fundo não é o ser, não é a substância, mas a relação;
português na comunicação externa de Portugal é não é o sujeito, mas a estrutura. Assim, contra o
historicismo diltheyniano, não é o sujeito que conduz
urgente e necessário.
o curso da história; contra o idealismo hegeliano, não

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Capítulo II – Cinema – Cinema

existe uma lógica da história, pois não há ideia de Neste tempo de tensão e redefinição geopolítica,
progresso e/ou continuidade na sucessão dos fatos em que a China tornou evidente a sua capacidade,
históricos, por estes serem contingentes, aleatórios; e vontade de, na hierarquia das grandes potências,
contra o empirismo, o sujeito não condiciona, vir a substituir o lugar que os EUA tem ocupado nos
por si só, suas condições de possibilidade do últimos 100 anos, pensar o cinema português nesta
conhecimento; contra o existencialismo de Sartre,
dimensão de soft power, é tarefa urgente. Olhar o
Heidegger ou Merleau-Ponty, o homem não é senhor
de sua essência, não se projeta no mundo como desenvolvimento da atividade como parte da ação
lhe aprouver mas é condicionado por estruturas instrumental na afirmação Portugal e projeção dos
a priori de compreensão.... Uma leitura detida, seus interesses estratégicos no quadro de Europa,
principalmente de Arqueologia do Saber, segundo ela mesma em redefinição, e sobretudo da presença
Rabinow e Dreyfus (1983) impossibilita enquadrar de Portugal na Lusofonia e na Ásia e no Mundo, uma
Foucault como teórico estruturalista, justamente oportunidade para o desenvolvimento da atividade
por este se recusar a pensar em estruturas a cinematográfica, e uma necessidade. Seguimos
priori de compreensão. O que Foucault chama FOUCAULT, 2010) quando afirma
de estruturas epistêmicas nada mais seriam que
regimes de verdade que se manifestam no discurso, Em toda sociedade a produção do discurso é ao
no aqui e agora e, por isso, não se mostram a mesmo tempo controlada, selecionada, organizada
priori. Os epistema são formações discursivas que, e redistribuída por certo número de procedimentos
construídas sobre determinado tema, tenderiam a que têm por função conjurar seus poderes e perigos,
formar um escudo frente a determinadas ideologias, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua
ao mesmo tempo em que protege outras. O ponto pesada e temível materialidade.
chave na teoria de Foucault que permitiria tratá-lo
como filósofo pós-estruturalista é então o conceito
de formação discursiva , ideia que será retomada e O cinema é a expressão, a indústria arte, que de
reproposta por analistas do discurso. Uma formação forma mais eficaz permite esse trabalho sobre e
discursiva é aquela que estabelece o que pode ou no discurso, não o fosse e o mundo da publicidade
não ser dito em determinado contexto ideológico. Por não teria como central na sua operacionalidade a
exemplo, em uma formação discursiva republicana, gramática cinema.
não se concebe a defesa de privilégios hereditários

no governo.3
Desenvolvimento
A indústria cinematográfica e o filme enquanto
construtores de poder simbólico não podem, nem Cinema português, relações internacionais
devem, ser ignorados. A realidade demonstra que os e geopolítica
quotidianos domésticos, mas também as relações
internacionais, são em muito o resultado das A construção do Biopolítico
percepções, das opiniões públicas quotidianamente
disputadas pelos diferentes poderes em presença O último ano e meio da vida política veio confirmar
nas sociedades de fluxo contínuo de informação e a aceleração patrocinada pelos governos dos estados,
comunicação. O filme e a atividade cinematográfica em particular na União Europeia e sociedades do
é, nesta abordagem, um poder brando, da categoria capitalismo desenvolvido, na construção das sociedade
do soft power, é território de persuasão e sedução, do biopolítico. O biopolítico caracteriza a dimensão
dispositivo estético expressivo que dá visibilidade à e a forma do exercício do poder nas sociedades da
voz singular de um determinado discurso de um país informação, quando os media chegam a todos os
ou conjunto de países nas relações externas. espaços da vida humana, públicos ou privados.
No mundo contemporâneo de extrema complexidade
e num país como Portugal, de recursos financeiros Foucault permite-nos reconhecer a natureza
escassos, em que a atividade cinematográfica é biopolítica do novo paradigma do poder. O bio poder
inexistente sem os fundos públicos que resultam de é uma forma de poder que rege e regulamenta do
decisões de política cultural, e com estes escassa, interior a vida social, seguindo-a, interpretando-a,
assimilando-a e reformulando-a. O poder não pode
torna-se urgente a articulação da atividade cinema
conseguir um domínio efetivo sobre toda a da
com estratégias políticas no que se refere ao poder de
população a não ser transformando-se numa função
influencia desejável e possível na afirmação externa do integrante e vital que cada indivíduo adopta e reativa
país. Consideramos relevante para o desenvolvimento inteiramente por sua conta…a vida tornou-se agora…
do cinema português, entender a atividade como um objecto de poder. A mais alta função deste poder
fator de grande potencia, na afirmação continuada da é investir a vida de extremo a extremo, e a sua tarefa
presença de Portugal no mundo global e em particular é administrá-la. O bio poder refere-se assim a uma
no mundo da lusofonia. situação em que, para o poder, o que está diretamente
O património cultural material e imaterial português é em jogo é a produção e a reprodução da própria vida…
civilizacional e universalista. A atividade cinematográfica, quando o poder se torna inteiramente biopolítico, o
na sua materialidade, é uma ferramenta de soft power, conjunto do corpo social é abrangido pela máquina
do poder e desenvolvido na sua virtualidade. Trata-se
dado que cria narrativas, projeta valores, discursos
de uma relação aberta, qualitativa e afectiva…o poder
de cultura, identidade, facilmente vividos pelos
exprime-se assim como um controlo que invade o
expectadores quando da fruição das obras.

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AVANCA | CINEMA 2021

fundo das consciências e dos corpos da população Torna-se claro, pelos temas abordados no cinema
- e que se estende, ao mesmo tempo, através da produzido em português; Fado, Touros, Império,
totalidade das relações sociais.4 Ribatejo, Canções Populares, mas também autores
como Camões, Frei Luís de Sousa ou Júlio Dinis,
Esta caracterização do bio poder contem as que o cinema sob o Estado Novo, e em particular
dimensões mais significativas, damos nota de duas; durante o mandato de António Ferro, serviu um
o seu carácter interior e a sua relação contaminada esforço de legitimação e construção de uma ideia
na dimensão e exercício enquanto produto e produtor de nação trabalhada também, e simultaneamente,
da cosmo visão do indivíduo. Não se trata mais de através dos meios de comunicação de massa, a rádio,
temer o aparelho repressivo do Estado. A decisão dos Emissora Nacional e posteriormente a RTP. Ontem
Tribunais ou a intervenção das Polícias, a subjugação como hoje, instalam-se comissões e ministérios para
a leituras hegemónicas por parte da escola ou da legitimação do regime. Veja-se o caso atualíssimo das
igreja, mas de, no processo de socialização mediado anunciadas comemorações dos 50 anos do regime da
pela comunicação e informação, o individuo, não pela III República. É ainda no Estado Novo, acompanhado
força, mas por desejo e vontade própria, se apropriar e a cinematografia europeia, em particular o cinema
integrar na visão de si próprio e do mundo as dimensões em França, que o cinema novo começa em Portugal,
visíveis e invisíveis do poder. Tornar-se ele mesmo um cinema movido por outras ambições de natureza
expressão do poder. mais subjetiva e libertária, liberto de missões e ideias
Não que o poder coercivo, as forças bélicas, de Estado. Um cinema de “ literatura de gare”, como
tenham deixado de ter função e presença nas ações afirmou Jean-Luc Godard, para se fazer um filme
dos Estados, a realidade mostra de forma também basta um crime, uma pistola e uma mulher. Num breve
claramente visível que assim não é. Veja-se o conflito momento ainda anterior ao movimento do cinema novo
entre Israel e a Palestina, ou a O Poder bélico militar português, foram realizadas obras cinematográficas
continua e continuará a ter dimensão determinante que expressaram o movimento do neo-realismo
nas decisões e alinhamentos da geopolítica dos em Portugal.
blocos e dos Estados. No entanto o biopolítico tem
como resultado alterações qualitativas na dimensão Todavia não é fácil opor cinema convencional e
clássica do controle e vigilância dos Estados sobre as cinema de resistência; eles não são campos opostos;
populações e sobre a forma de dimensão e controlo ao contrário, são focos diferentes dirigidos sobre a
e papel da opinião(s) pública(s). Não basta o poder sociedade, pontos de vista e estéticas diferenciadas,
mas não são essencialmente distintos na descrição
bélico, é necessário , mais até do que a legitimação
do mundo que constroem enquanto representação
pelas fontes do direito internacional, o uso fático do
social 6
poder bélico ser legitimado pelas populações. Ou
seja, num mundo com um fluxo constante de notícias, A denominada “escola Portuguesa”, tem
muitas das quais sem possibilidade de controlo na sua movimento embrionário na geração do cinema
produção, é decisiva a opinião pública internacional novo, em particular com António da Cunha Telles,
e doméstica favorável ao “ combate impiedoso ao Paulo Rocha, Fernando Lopes, Manuel de Oliveira.
inimigo” Neste sentido, e por esta razão, o cinema Diretores que afirmaram em Portugal o movimento
enquanto lugar de alteridade, de aproximação de do cinema europeu independente próximo da política
povos e culturas é um instrumento para a paz ao de autores e que, no caso particularmente relevante
serviço dos estados. Sem paz não há comércio, não da cinematografia de Manuel de Oliveira, afirmaram
há harmonia, não há vida digna. A lei do mais forte é a memória de um país que se conheceu a si mesmo
um caminho largo para a barbárie. em outros espaços territoriais distantes do seu lugar
periférico no mapa europeu, ( mas central na tempo e
Escola Portuguesa movimento do Renascimento europeu) como matéria
do cinema. João Maria Mendes 7, sobre a escola
Coincidente ou não com uma percepção do portuguesa, escreve:
imaginário colectivo, o cinema português desde
sempre teve relação próxima com ideias, realidades, O conceito de “escola portuguesa”, frequentemente
dinâmicas sociais e culturais ao longo do séc. XX e usado para definir o que caracteriza o cinema de
tem mantido essa relação neste inicio do séc. XXI. autor feito em Portugal, é uma expressão heurística
Olhar o cinema no tempo histórico em que é que alude a obras cinematográficas e aos modos
de as realizar sem definir com rigor o que lhes dá
produzido é ver as representações culturais de
características idiossincráticas. Está associado à
uma sociedade. É neste sentido que o cinema é
simpatia ou empatia de uma fileira da recepção
arquivo, uma dimensão não menos relevante da internacional com “um certo cinema português” e
atividade fílmica. Todo o filme enforma, consciente ou esboçou-se entre scholars e no discurso crítico
inconscientemente, valores estético-ideológicos. dos media a partir dos anos 80 do séc. XX, que
assistiram à consagração internacional de cineastas
As nossas construções não são diferentes como Manoel de Oliveira e António Reis e a uma
interpretações ou explicações de um mundo menorização “política” de outros que defendiam um
pré-existente e independente delas... construções e cinema mais comercial e feito para o entertainment de
mundo são uma e mesma coisa 5 públicos mais vastos. A ideia de “escola portuguesa”

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Capítulo II – Cinema – Cinema

não é pacifica nem tem igual entendimento nos Também este ponto, agora que nos aproximamos
diferentes atores do cinema em Portugal, e continua dos 50 anos do regime da III República, em modelo
a merecer debate aberto sobre qual a prioridade, a democrático, e perante um sistema discursivo que
existir, do cinema produzido com fundos públicos, ou tem vindo a instalar o passado dos descobrimentos e
seja quase a totalidade dos filmes com capacidade de expansão portuguesa como status de violência e crime, e
existir no mercado dos festivais e salas, produzidos
verificando a problemática concreta no desenvolvimento
em Portugal. A expressão socializou-se sobretudo a
partir da publicação de Histórias do Cinema, de João dos países que antes eram territórios sob administração
Bénard da Costa, em 1991. Paulo Rochacostumava portuguesa, as crises migratórias, o desentendimento
dizer que existe um partido filo-português na crítica europeu do seu lugar no mundo e também a situação
cinematográfica internacional, constituído por uma de grande fragilidade institucional, económica, que se
“elite” de cinéfilos atenta aos filmes de autor teme a curto prazo social, no território nacional, um
feitos em Portugal e que vê neles a persistência de olhar renovado e sem pré-conceito, necessariamente
uma “escola”. De que ideia de cinema é esse reflexivo e transdisciplinar sobre a história recente de
interesse sintoma? A que “procura” ou a que “falta” Portugal torna-se a cada dia mais urgente e necessário,
respondem, nas cinematografias atuais, os filmes e nenhuma disciplina está em melhor condição para o
portugueses valorizados por tais críticos? fazer, que o cinema. Tanto pela gramática do cinema,
Foi Jacques Lemière quem caracterizou de forma
como pelo carácter híbrido, reflexivo, capacidade
mais objectiva a “escola portuguesa”, sugerindo que
é identificável por três tópicos:
de síntese e citação/arquivo, que são elementos
1. Invenção formal e inscrição do cinema numa nova constituintes da cinematografia contemporânea, como
etapa da modernidade cinematográfica pela capacidade dos novos públicos e suas vontades
2. Afirmação da liberdade do cineasta e procura enquanto espectador participante.
constante dos meios dessa liberdade contra toda a
norma industrial Cinema e cultura nas relações externas no
3. Primado da reflexão da questão nacional”. O espaço da lusofonia
primeiro tópico de Lemière remete para 1967 e para
o “novo cinema”, quando 15 realizadores portugueses A 5 de janeiro de 2015, o Instituto Camões
levaram à Fundação Calouste Gulbenkian, então organizou um Seminário de Ação Cultural Externa
percepcionada como Ministério da Cultura alternativo,
- Portugal no Mundo, Carla Figueiredo 9 na sua
o documento “O ofício do cinema em Portugal”, 8 que
estará na origem, dois anos mais tarde, da cooperativa
comunicação afirmou
Centro Português de Cinema, financiada pela
fundação. O segundo tópico remete para a recorrente Num mundo em mudança é necessário que os
defesa cultural e política da arte cinematográfica e do Estados encontrarem novas abordagens para
cinema de autor contra as normalizações de formatos, o desenvolvimento das suas relações culturais
géneros e gostos promovidos pelo financiamento, internacionais. Estas incluem a concepção da
produção, distribuição e exibição de inspiração diplomacia, e da diplomacia cultural, não como
industrial/comercial. apenas uma parte do aparelho e da ação estatal, mas
sim uma estrutura e abordagem integrante de ‘todo’
do governo, e o diplomata, ou o detentor de um cargo
Este segundo ponto alimentou a discussão “ público, como um facilitador de ligações entre
Bragança-Paris” é, no tempo presente em nosso diferentes contextos e atores. Especificamente na
entendimento discussão estéril e ultrapassada. área da ação cultural externa, poder-se-ia aplicar
Veja-se o exemplo o filme “Parasite” vencedor do como objectivos de uma nova abordagem, uma
Oscar 2020, uma produção sul-coreana em que os tipologia simplificada que indica que as relações
atores não usam a língua inglesa, o que demonstra culturais devem evoluir no sentido de apostar mais
que a “nova Hollywood” até na abordagem conceptual em projetos do que em eventos; mais no multilateral
e da promoção da indústria há muito abandonou o do que no bilateral; mais em coproduções do que
em apresentações; mais nos processos do que
modelo de produção estúdio. A anterior contradição
nos produtos; mais em trocas mútuas do que num
assente na dicotomia cinema indústria-cinema arte,
sentido único; mais em ouvir do que em dizer; mais
não tem hoje adesão à realidade. na promoção de valores do que na autopromoção...
na minha análise, uma estratégia coerente do todo
O terceiro tópico refere-se à persistência da reflexão da cultura nas relações externas ainda não existe
poético/ideológica sobre “o problema português” em Portugal... É importante que a ação cultural
ou da “sobrevivência nacional” nos realizadores e externa seja guiada por uma estratégia coerente,
seus filmes. Discussão de equívocos no imaginário com objectivos e metas claras, devidamente
histórico do país, sua fantasmática pobre mas avaliada e implementada com responsabilidade
imperial, herança complexa da vocação marítima, na prestação de contas e transparência nos
da longa síndrome salazarista e da guerra colonial, processos... No entanto, a avaliação dessas ações
mescla de leituras da abertura gerada pelo é simultaneamente extremamente importante e
pronunciamento militar de 25 de Abril de 1974 e pelo difícil pois requere a conversão de elementos muitas
processo revolucionário a que ele deu origem, bem vezes intangíveis em tangíveis. 10
como da normalização política que levou à adesão
de Portugal à CEE em 1985. São temas abordados A autora destaca por um lado o carácter transversal
ora em evocações históricas, ora em alegorias estratégico da diplomacia a todo o corpo da ação
poéticas, ora, mais raramente, em filmes-ensaio. governativa, e por outro a sistematização estrutural

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AVANCA | CINEMA 2021

de ações concretas, o que em nosso entender pode António Ferro conseguia fazer aprovar a primeira lei
e deve ter formulação concreta em, linhas de apoio geral de cinema em Portugal, a Lei 2.027, de 18 de
à produção de filmes e festivais, desenhados com Fevereiro de 1948.
objectivos concretos e articulados com objetivos e A primeira versão da “lei de proteção ao cinema
missões estratégicas da diplomacia portuguesa, a nacional“ foi publicada a 24 de Dezembro de 1946,
sob a forma de decreto n.º 36.058, beneficiando
curto, médio e longo prazo. A visão proposta está em
claramente o sector da produção e “trincava forte
linha com o entendimento da cultura, no caso que nos nos distribuidores e exibidores.“ Mas, segundo
ocupa, a conceptualização, produção distribuição e João Bénard da Costa (1998: 54), apenas três
exibição cinematográfica integrada nas estratégias de dias depois, a 27 de Dezembro, “depois de os
soft power. É sempre de fazer notar que a afirmação americanos ameaçarem com boicote“, “Salazar
de Portugal no contexto internacional advém da em pessoa mudou o decreto“ e, no início de 1947,
dimensão simbólica, imaterial, resultado de nossa “recambiou-o para a Assembleia Nacional para os
existência histórica com momentos de liderança global deputados da nação o discutirem.“ Reforçando a
e pensamento universalista ocidental num passado ideia generalizada da importância da legislação para
relativamente recente. O Momento do Renascimento o futuro do cinema português, “o ano foi escaldante,
que antecedeu a Idade Moderna. Importa tornar claro com cada um a mexer os cordelinhos que podia”
Depois de os deputados rejeitarem a “versão soft
que entender o cinema como fonte de influência,
emendada pelo Chefe”, o processo regressou à
num momento em Portugal aposta na transição para Câmara Corporativa para novo parecer e, finalmente,
as economias do digital permite olhar de outra forma a 18 de Fevereiro de 1948, a Lei 2.027 era publicada
a necessidade, os montantes, e as políticas públicas e seria regulamentada em 1949 (Ibidem). Do ponto
para o sector da atividade cinematográfica. A dimensão de vista meramente teórico, a polémica legislação
poder de influência do cinema de produção nacional parecia beneficiar sobretudo o sector da produção,
nas relações externas de Portugal; comunicação, nomeadamente com a criação do Fundo do cinema
diplomacia cultural, no Sudoeste Asiático, em África, nacional (FCN): “Artigo 1.º A fim de proteger,
nas Américas, é ativo potencial de enorme relevância, coordenar e estimular a produção do cinema
e um dos meios possíveis e desejáveis, isto é, ao nacional, e tendo em atenção a sua função social e
alcance das capacidades da cinematografia nacional e educativa, assim como os seus aspectos artístico e
cultural, é criado o Fundo do cinema nacional.“
transnacional , no regime da co-produção. A co-produção
Na prática, de todas as finalidades do FCN,
é uma formas de organizar e viabilizar produções de sobressaia a “concessão às entidades produtoras de
cinema que mais importa desenvolver para uma efetiva filmes portugueses de subsídios destinados a cobrir
afirmação e presença da cinematografia de Portugal no parte do custo desses filmes“ (Art. 7.º, 1.º).
mundo, e no mundo de expressão portuguesa. Para além de eventuais dotações extraordinárias por
É claro que toda esta dimensão pressupõe parte do Estado, a principal forma de financiamento
soberania nas decisões das relações externas. do FCN seriam as receitas resultantes das taxas
O que não é inteiramente claro, não tanto pelo de licença de exibição, que incidia, acima de
fundamentação do direito nacional e internacional, tudo, sobre os filmes estrangeiros. O que também
mas pelas práticas políticas efetivas. No momento desagradou aos sectores da distribuição e da
em que o poder político considere relevante cinema exibição foi a criação de um “contingente de filmes
portugueses“: “Artigo 17.º Todos os cinemas são
nas relações internacionais podemos afirmar que a
obrigados a exibir filmes portugueses de grande
cinematografia nacional tem condições conceptuais e
metragem, na proporção mínima de uma semana
técnicas assumir esse de papel ativo com estrondoso de cinema nacional por cada cinco semanas de
sucesso. Sucesso que terá também tradução cinema estrangeiro independentemente do número
numa maior vitalidade nas dinâmicas económicas, de espetáculos semanais.“ Como filme português,
territoriais, sociais do território. de acordo com o artigo 11.º, considerava-se os
A narrativa cinematográfica é por definição filmes que cumprissem três condições: “ser falado
um lugar de encontros; encontro com o outro, ou em língua portuguesa“, ser produzido em estúdios
outros. O olhar empírico e a investigação académica e laboratórios portugueses e “ser representativo do
confirma o cinema como território de alteridade. As espírito português, quer traduza a psicologia, os
cinematografias nacionais permitem aos pequenos costumes, as tradições, a história, a alma colectiva
do povo, quer se inspire nos grande temas da vida e
estados comunicar e exercer o poder de influencia
da cultura universais.“
em territórios e comunidades muito para além das
Inequivocamente, a terceira das condições
fronteiras domésticas. considerada na nova legislação para definir — e,
A tese de doutoramento em 2014 de Paulo Manuel consequentemente, financiar — o filme português
Ferreira da Cunha “ O Novo Cinema Português. ia ao encontro dos “caminhos seguros“, sugeridos
Políticas Públicas e Modos de Produção (1949-1980)” pelo próprio Ferro no discurso “O Estado e o
, dá conta da percepção clara da relevância do Cinema“ acima referido, para a afirmação do cinema
cinema para estado português durante o Estado português: os filmes históricos, os documentários
Novo, na tentativa por parte de António Ferro de um e os “filmes de natureza poética“ (Ferro 1950:
cinema português com visibilidade internacional. 64-65). Segundo Ferro, fora dos apoios deveriam
Viviam-se tempos de total domínio dos mercados pela ficar também outros filmes tidos como responsáveis
pela crise criativa do cinema português: “filmes
cinematografia das grandes companhias americanas e
regionais ou folclóricos“, os “filmes extraídos de
a oposição foi radical.

438
Capítulo II – Cinema – Cinema

romances ou de peças teatrais“, os filmes policiais aspects of culture among nations and their peoples in
e, principalmente, os filmes cómicos. Baseados order to foster mutual understandings”.
em fórmulas simples e repetitivas, e explorando
os “chavões“, estes géneros fílmicos representam No ambiente relacional globalizante do início
“o que há de mais inferior na nossa mentalidade“. do século XXI, a CPLP afirma-se como uma
Os filmes regionais e folclóricos, com o “bailaricos“ comunidade plural, enriquecida pela diversidade,
e cantigas “nitidamente metidos a martelo“, unida em torno do factor linguístico e cultural
reproduzem visões estilizadas e depreciativas do comum, funcionando como matriz de potenciação
regionalismo e folclore portugueses. 11 das cultura irmanadas lusofonia. Ao mesmo tempo,
a CPLP constitui a expressão institucionalizada do
Setenta e dois anos depois da primeira lei do mundo lusófono convencionalmente formalizada, no
cinema em Portugal, quanta desta discussão ecoa plano político-diplomático, pelos respectivos estados
fragmentada na discussão ainda hoje produzida sobre membros, afirmando-se a par das numerosas
o que é, e o que deve ser, a política pública para o comunidades de luso-falantes espalhadas pelo
cinema português. mundo, indiferentes às fronteiras territoriais
Ontem como hoje a questão da política pública para
cinema em Portugal no contexto das relações do país Interessa manter uma diplomacia ativa, mas
com as outras nações no mundo, atendendo às dinâmicas também desenvolver relações informais de forma
sociais, culturais, económicas contemporâneas, é de continuada e estrategicamente operante. E também
particular relevância, e ainda mais neste momento de aqui, o cinema aprofunda o uso da língua portuguesa
redefinição de blocos e zonas de influência. como factor estratégico. Diz Moreira
Nesta segunda metade do séc. XXI que se chega
em velocidade acelerada a Lusofonia é espaço As teorias políticas do poder, em oposição às teorias
estratégico, necessário, à afirmação de Portugal. normativas que examinam o fenómeno em termos
Realidade adormecida mas sempre emergente. O de sistema de direitos e obrigações legais, procuram
jornal Observador, em artigo publicado a 29 de avaliar o facto central do grau de controlo da
população dentro do território e da medida em que
Julho de 2019, dava notícia de números vinculados
os comportamentos são influência de outros poderes
pelo secretário de Estado da Comunidades, José
exteriores. Não é que os cientistas distingam entre
Luís Carneiro, quanto aos falantes de português poder e influência, sendo a primeira expressão
nestes termos reservada para as relações de completo controlo,
mas é difícil estabelecer uma fronteira entre as
a língua portuguesa é um dos principais ativos duas realidades 13 Não é certo que antiga política
estratégicos do Estado português, esperando-se da canhoeira Não certo que a antiga política da
que até ao final do século XXI sejam 500 milhões canhoeira tenha dado inteiramente lugar à política da
os falantes espalhados pelo mundo. Há estimativas negociação e do tolerável. Em todo caso, a primeira
que apontam para que até 2060 a língua portuguesa das legitimações fora da esfera dos tratados, é da
possa vir a ser falada por 380 milhões de pessoas... opinião pública internacional, uma variável disputada
como exemplo há três anos havia três universidades pelas potências e pequenos estados. Continuando
na China a ensinar língua portuguesa. Atualmente com Moreira, Adriano, (1922).
são mais de quarenta... É na América Latina onde o
português é mais falado, mas as estimativas apontam a internacionalização acelerada que marca o
para que, no fim do século, a língua portuguesa ambiente e as dependências de todos os agentes
venha a ser a mais falada no continente africano, soberanos e não-soberanos, e que acentua
devido ao crescimento demográfico espectável para progressivamente a condição exógena de grande
países como Angola ou Moçambique. 12 número de pequenos países a tenderem para
exíguos, confere indiscutível carácter de urgência
Para uma país com uma população de 10,28 e prioridade à temática das relações internacionais,
milhões em território doméstico, fica impossível um facto evidente no que respeita à conjuntura
negar a dimensão extraordinária do capital cultural, portuguesa... como doutrinou insistentemente Martin
Wight, as ideias, as crenças, as afirmações, são
simbólico, relacional, histórico, que é a identidade
mais do que elementos de uma imagem desejada
deste país na sua relação com o mundo. Esta
e manejada pelo Estado espetáculo que está em
singularidade é de primeira importância para a circulação, porque muitas vezes condicionam,
criação e internacionalização da produção cultural, e influenciam, e aceleram a competição internacional.
na atividade cinematográfica em particular, pelo que ... A segunda Guerra Mundial destruiu o sistema
é urgente pensar de forma sistematizada a produção euro-mundista e, com ele, os pressupostos
cinematográfica nesta sua dimensão estratégica, a da soberania absoluta e suficiente. Ainda que
curto, médio e longo prazo. Os estudos centrados sem plano, os grandes espaços multiplicam-se,
na diplomacia cultural são relativamente recentes, alterando completamente a primeira e essencial
diz (Bondam 2013) “ It is only within recent years that referência da soberania e da cidadania, que é a
cultural relations have entered the stage of political fronteira, sagrada pela escala de valores históricos
e patrióticos. Portugal tem disso uma experiência
science”. Aceitamos a definição operativa para
sem equivalente... a das fronteiras imperiais que,
diplomacia cultural formulada por Cummings, Milton
até à década de sessenta, eram todas soberanias
( Cummings, 2003, apud Schneider, 2006, pág. 191) ocidentais, com exceção do então irrelevante caso
“ ... the exchange of ideas, information, art and other

439
AVANCA | CINEMA 2021

de Macau; depois a descolonização deu-lhe por de uma abordagem estratégica em função dos
fronteiras novos países vizinhança; finalmente, realinhamentos em curso nas lideranças geopolíticas.
depois de 1974, ficou com uma só fronteira Nem, neste tempo mais próximo, qual a relação do
geográfica, esta europeia. Mas aconteceu-lhe que controlo biopolítico em nome da saúde pública que os
a fronteira ao mesmo tempo de foi multiplicando, estados ocidentais estão a exercer nas populações
num processo sustentado que vinha de antes, e que
com as redefinições das lideranças geopolíticas.
teve a ver com os grandes espaços. Deste modo, a
fronteira de segurança passou a não coincidir com Neste mundo com 192 países em estados de
a geográfica, porque é a da NATO em lonjuras mal desenvolvimento desiguais, as dinâmicas de poder
sabidas pelo contingente de conscritos; a fronteira no combate pela supremacia geopolítica, entre a
económica transferiu-se para as comunidades República Popular da China e os Estudos Unidos da
europeias, submetendo a economia interna a América, evocando razões de natureza imperativa
constrangimentos que não controla; a nova fronteira sanitária “congelam” relações sociais e económicas
política anda a ser redefinida ... e a fronteira em grande parte dos países União Europeia, dando
cultural teve um primeiro ensaio de fixação com o curso a uma guerra biopolítica em que a construção
Tratado que instituiu a Comunidade de Estados de das percepções das opiniões públicas é uma variável
Língua Portuguesa... que todos querem controlar.
O conceito de cidadania europeia, antes de ter
Quando as elites políticas da EU e dos EUA afirmam
expressão normativa moldada em função do
institucionalismo da União, é uma versão da
as suas decisões de classificar a RPC como inimigo
cidadania mundial, uma regionalização apropriada estratégico alicerçadas em argumentos construídos
da Declaração Universal dos Direitos do Homem, com base na racionalidade, teme-se, e igualmente
uma participação ativa na sociedade civil com forte probabilidade racional, Assistir aos
internacionalizada, algumas vezes surpreendida telejornais diários é constatar o exercício de tentativa
por uma política furtiva dos executivos. .. a livre controlo das opiniões públicas. Não será acaso que
circulação pelo mundo, no exercício do direito durante meses o Presidente dos EUA falou do vírus
básico de estar, de andar, e de ir de um lugar para Chinês, mesmo sabendo-se que a regra da dominação
o outro, multiplicou as minorias étnico-culturais, ao definida em sede da Organização Mundial de Saúde ,
mesmo tempo que o avanço na concepção das prescreve intencionalmente, com vista a não fomentar
várias cidadanias vai derrogando antigos conceitos
descriminações, esse tipo de nomenclatura.
excludentes, defensores do jus saguinis, por vezes
nacionalistas, algumas vezes xenófobos e violentos.
As categorias estão em mudança, e recentemente Escreve Mahbbani
Thomas Hammar falou no denizen type como
realidade situada entre o cidadão e o estrangeiro, um Para um observador externo, é manifestamente
compromisso que vai correspondendo às chamadas claro que a postura dos EUA face à ascensão
colónias interiores que as imigrações vão criando, da China também é influenciada por profundas
sobretudo por causado mercado de trabalho... As reações emocionais. Tal como os seres humanos
responsabilidades do aparelho educativo são hoje individuais têm dificuldade em desenterrar os
desafiadas não por uma ordem mundial estabilizada, motivos inconscientes que impulsionam o seu
... antes acontece que da Nova Ordem apenas se comportamento, também os países e as civilizações
sabe que acabou a antiga, do Estado soberano têm dificuldade em desenterrar os seus impulsos
tem notícia que está em crise, do globalismo vai inconscientes.
recebendo manifestações desintegradas, das É um facto que o perigo amarelo tem permanecido
dependências e interdependências mundiais sabe enterrado na civilização ocidental há séculos.
que foram desencadeadas mas não as sistematiza.”14 Napoleão referia-se a ele quando disse: “ Deixem a
China dormir; quando acordar o mundo16
Conclusão
O facto contemporâneo é que a China, um dos cinco
As emoções desempenham um papel tão importante membros permanentes do Conselho de Segurança
como a razão nas relações internacionais. Teria sido das Nações Unidas, é o único país que desde a
mais fácil para os Estados Unidos aceitar ascensão Segunda Guerra Mundial não participou em guerras
da China enquanto potencia se esta fosse uma no estrangeiro longe das suas fronteiras.
potência democrática ocidental, em particular uma
camarada anglo-saxónica 15
Também é preciso esforço para negar Portugal
enquanto país charneira no Renascimento. Com a
O ano de 2020 e o que já foi vivido e é previsível expansão marítima foi o país da proto-globalização.
viver em 2021, demonstra um mundo em crise Portugal é a matriz civilizacional de que resulta a
acentuada, muito em particular, no caso da UE e dos comunidade Lusófona.
EUA, com a China e a Rússia. Vivem-se convulsões Radical e infrutífero esforço será igualmente
sociais, alterações na cartografia do mapa político, e necessário para negar o cinema enquanto dispositivo
até nas convenções e alianças entre estados, como técnico expressivo construtor de mundo-visões com
desde o fim da Guerra Fria, e em vários aspectos capacidade de sedução e influência nos diferentes
do fim da tragédia da II Guerra mundial não se públicos, nacionais e internacionais.
tinha conhecimento. Não saberemos tão cedo até Parece pois de simplificada clareza, que a linha de
que ponto a saída da Inglaterra da EU não resulta estudos culturais aplicados em cinema que convoca

440
Capítulo II – Cinema – Cinema

as relações internacionais, é em Portugal um caminho por parte de um ator social, da finalidade da ação
e uma necessidade. Esta linha de investigação tem praticada por esse ator. Também proponho que,
como missão inicial produzir conhecimento que para a maioria dos atores na sociedade em rede, ...o
alavanque criticamente as decisões do poder político significado organiza-se em redor de uma identidade
quanto às linhas de apoio ao desenvolvimento da primária (uma identidade que estrutura as demais)
auto sustentável ao longo do tempo e do espaço.18
cinematografia portuguesa.
Num momento em que a espuma dos dias e a
cultura do híper individualismo, num processo de Reconhecida a especificidade do filme em chegar
auto flagelação com dimensão de uma investida a diferentes públicos sem surpresa se entende o
psicanalítica colectiva, tende a olhar o facto histórico seu papel, importância e articulação com a presença
da expansão marítima e do império como processo externa de Portugal. O lugar simbólico e imaterial que
catártico, e atendo à afirmação de Portugal no quadro Portugal transporta não é do domínio do arqueológico,
da Lusofonia, torna-se urgente e necessário trabalhar mas um gigantesco acervo patrimonial identitário vivo,
como matéria cinematográfica esse período único da atado por uma língua falada por mais de duzentos e
nação portuguesa, a relevância da expansão marítima vinte milhões de pessoas.
portuguesa, e o papel charneira de Portugal no que foi Não se trata, nem nunca se tratou de unicidade
o Renascimento Europeu. cultural mas sim pluralidade e plasticidade gerada
A expansão portuguesa foi e é determinante para a numa matriz comum.
percepção da identidade construída. No entanto, olhando as políticas públicas concretas
A Era Gâmica 17 resulta de decisão política e para a nossa cinematografia o lugar atribuído ao
administrativa, foram decisões em sede da coroa cinema nas relações de externas de Portugal é
soberana que abriram novas rotas e um novos diminuto, para não dizer quase inexistente. Se
conhecimentos do mundo. é verdade que nos sucessivos enquadramentos
Portugal construiu e constrói a sua identidade no conceptuais que configuram o espírito e corpo material
quadro da relação com os outros povos e geografias das sucessivas leis do cinema surgem sempre como
e é nessa relação de aventura, comércio, religião, princípios e objetivos a
cultura, na relação com a alteridade que Portugal
se olha e descobre a si próprio. Não é irrelevante o afirmação da identidade nacional, promoção
facto, que tende a ser esquecido, de que nenhum da língua e valorização da imagem de Portugal
outro estado europeu deslocou a sua capital política no mundo, em especial no que respeita ao
e administrativa até ao hemisfério Sul, até ao então aprofundamento das relações com os países de
língua oficial portuguesa19
denominado Novo Mundo. A capital do Império
Português também foi a cidade do Rio de Janeiro.
Torna-se impossível negar especificidade do lugar na sua operacionalização, quando dos
que Portugal ocupa, ou pode ocupar, no conjunto dos regulamentos específicos, como é o caso subprograma
190 países com assento na Assembleia Geral das de apoio à coprodução com países de língua
Nações Unidas no mundo contemporâneo, imanada portuguesa, verificamos o oposto. Neste regulamento
desta construção de identidade material e simbólica, os realizadores portugueses estão impedidos de
com início ainda antes do Renascimento, ainda que, participar, e se verificarmos os montantes disponíveis
seja nesse tempo de redefinição social, cultural, exíguos, constata-se que da manifestação da vontade
política, que a especificidade da nação portuguesa à sua concretização, a distância é imensa. Em 2020
se afirma e nos transporta até à Idade Moderna e este o orçamento para o Coprodução com países de
tempo, de fim de ciclo da pós-modernidade. Desse língua portuguesa teve o montante de € 500 000. E o
longo percurso de mais de meio milénio resulta um montante para a Coprodução Internacional Minoritária
monumental acervo cultural próprio e comum, com Portuguesa atribuído foi de € 1 200.00. Orçamentos
países e povos na Ásia, em África e na América do Sul. e disposições legislativas incapazes de promover o
que a lei geral indica como prioridade.
É Castells quem escreve: É objectivo desta comunicação chamar, uma vez mais,
a atenção para esta realidade, que também atende,
No que diz respeito aos atores sociais, entendo por às dinâmicas de mercados em crescimento como é
identidade o processo de construção do significado o caso do mercado dos 1,4 mil milhões de potenciais
com base num atributo cultural, ou ainda um consumidores na CHINA. Ou em números globais os
conjunto de atributos culturais inter-relacionados, 270 milhões de falantes da língua portuguesa, a língua
o(s) qual (ais) prevalecem sobre outras formas
mais falada no hemisfério sul.
de significado. ... as identidades são fontes mais
importantes de significados do que os papéis ( pai,
O que faz o Estado Português perante as dinâmicas
professor, militante de esquerda ou direita, jogador institucionais que a nova rota da seda oferece, ou pode
de futebol, estudante universitário, etc) , por causa oferecer, à coprodução cinematográfica transnacional
do processo de autoconstrução e individualização de matriz portuguesa? Perante o imobilismo a que
que envolvem. Em termos genéricos pode dizer-se ano a pós ano se assiste fica a pergunta; é Portugal
que as identidades organizam os significados, soberano nas suas decisões de acordos e parcerias
enquanto os papéis organizam as funções. institucionais internacionais bilaterais - acordos
Defino significado como a identificação simbólica, de coprodução?

441
AVANCA | CINEMA 2021

Se sim, a que se deve a falta de ação efetiva por enquanto potencia líder global se tornou verificável,
parte do IPC ? ainda que o “agenda setting”, como atrás referido,
Para um cinema português, a viver continuadamente que ocupa em permanência as televisões do mundo
em estado de sobrevivência, a abertura dos mercados Ocidental, e em particular a Europa e os EUA,
do Sudoeste Asiático - através da República Popular insistam na defesa do status quo ante, mobilizando as
da China, Macau, e zonas de influencia - não é opiniões públicas contra o “perigo chinês”.
relevante? Caso essa orientação política de apoio à Para Portugal, o país que na europa há mais tempo e
nossa cinematografia fosse implementada através de forma continuada tem relações com a China, não
dos protocolos entre estados como é prática corrente, parece ser do nosso interesse estratégico enquanto
integrando a visão estratégica já desenhada pela país, uma relação de tensão, que não favoreça a
RPC com a Rota da Seda, só esse ato administrativo amizade e o comércio. A entrada na terceira década
permitiria um salto gigante na atividade cinematográfica do século XXI evidencia aos olhos do mundo, o
nacional. É fácil perceber que qualquer margem desenvolvimento económico, político, demográfico,
mínima de sucesso à escala da China representa um e também militar, que a República Popular da China
mega sucesso à escala nacional. São centenas, ou tem vindo a operar desde os anos 70 do século XX. É
os canais de televisão local com audiências próximas impossível pensar o mundo sem a República Popular
da totalidade da população portuguesa. Neste sentido da China enquanto potencia influente e decisiva na
fica uma pergunta, qual a racionalidade para, 17 anos nova geopolítica. As tensões sociais e políticas no
depois das determinações do governo central da mundo contemporâneo são enormes e os equilíbrios
República Popular da China que constituíram Macau instáveis. Desde 1944, e do equilíbrio de forças da
como plataforma para os negócios com a mundo da “guerra fria”, que o mundo não vive igual estado de
lusofonia, através da criação do Fórum Económico e fragilidade institucional internacional e doméstica. As
Comercial de Macau, e depois de visitas a Lisboa e movimentações sociais nos EUA com a população
a Pequim ao mais alto nível, Portugal não ter ainda em fúria nas ruas das cidades, em Espanha o caso
acordado um protocolo de coprodução com a China? da autonomia de Barcelona, as movimentações
sociais dos “gilets jeunes” em França, os sucessivos
Notas finais pedidos de “ impeachement “ a presidentes no Brasil,
as agitadas e já referidas movimentações sociais
Para um pequeno Estado como Portugal o cinema em Hong - Kong, os surtos migratórios sul-norte a
é um instrumento de diplomacia cultural, um ativo atravessar o mediterrâneo, o elevado abstencionismo
importante na dimensão “Soft Power” 20, acresce que nos atos eleitorais na Europa, são indicadores
além de dispositivo estético expressivo, de massa e sérios da enorme a fragilidade social e política em
de nicho, com capacidade de influência, necessário diferentes zonas do globo. A ONU reconhece não
ao sucesso da diplomacia económica, é o próprio conseguir levar a cabo com eficácia os programas do
cinema em condições especificas, ele próprio um PNUD desenvolvimento e erradicação da pobreza do
ativo económico. Para Portugal país em processo mundo). UE viu a saída da Grã- Bretanha. O mundo
de transição para as economias digitais, o sector está em mudança.
cinematográfico é “naturalmente” um alargado espaço Para um país como Portugal, e para a atividade
económico com público potencial na ordem dos do cinema, a explosão das audiências em
milhões. Ter políticas ativas assertivas e potenciadoras plataformas digitais é uma oportunidade, se assim
da atividade, é não só uma necessidade como as políticas públicas para o sector o entenderem.
um imperativo. É esse o caso que se esperaria do O género cinematográfico filmes históricos, ficção,
cinema no desenvolvimento das relações de Portugal documentário, ou híbrido, com elevadas taxas de
com a Região Administrativa Especial de Macau - acolhimento em todos os grupos etários, e classes
República Popular da China. O caso concreto sociais, e com espaço de exibição nas novas
das correlações cinema - relações internacionais plataformas de exibição, continua uma área temática
Portugal - Macau - República Popular da China, cinematografia adormecida, quando não expulsa logo
pouco estudado, parece levantar particulares em sede de secretaria nos concursos públicos no ICA.
dificuldades neste tempo de transição de centros Sem estímulos concretos e sólidos nos programas
de poder, como os desenvolvimentos recentes - pós existentes para apoio cinema em Portugal, apesar do
inicio da pandemia Covid 19 - tem vindo a demonstrar. campo cada vez mais alargado de públicos possíveis,
No entanto a situação é anterior e não se encontram nacionais e internacionais, e da relevância da atividade,
motivos de racionalidade económica ou simbólica. para coesão, construção da identidade da sociedade
Não é seguramente de forma inocente que a portuguesa, e possível capacidade económica, e
opinião pública é confrontada com uma visão em que a vitalidade e resiliência do sector crescente na
a RPC é a perigosa ditadura que recusa as virtudes da sua potencia, a atividade cinematográfica não vai
democracia a Hong-Kong. Ou um país perigoso por conseguir ultrapassar os constrangimentos impostos.
não querer alienar a sua legitimidade territorial ao mar Todos os anos centenas de novos profissionais
da china. chegam a um mercado fragilizado ou inexistente, com
O ano de 2020 tem forte probabilidade de ficar na formação superior em cinema e audiovisual. Potencia
história deste século XXI como o ano em que - por que não é transformada em realidade. O fim desta
razão de um surto pandémico - o declínio dos EUA segunda década do século XXI tem vivido momentos

442
Capítulo II – Cinema – Cinema

de explosões e conflitos sociais quase sempre 7


João Maria Mendes é ex-Presidente da Escola Superior
justificados com questões identitárias que remetem ao de Teatro e Cinema e professor coordenador no seu
Departamento de Cinema. Leccionou no Doutoramento em
domínio do “homem branco” e da Europa eurocêntrica
Artes Performativas e das Imagens em Movimento criado em
e colonial, a um tempo que nas suas estruturas parceria pela Universidade de Lisboa e pelo Instituto Politécnico
de domínio hegemónico económicas e sociais é já de Lisboa. Foi co-fundador e é investigador integrado do Centro
distante do contemporâneo, mas que é trazido para de Investigação em Artes e Comunicação (CIAC), criado em
as dinâmicas sócio-identitárias nas grandes urbes 2008 pela ESTC e a Universidade do Algarve.
contemporâneas, em Londres, Washington ou Lisboa,
8
Nota do autor ; o título remete para o documentário de Carl
Theodor Dreyer “ O Meu Ofício”
como atual. Veja-se em 2020 a vandalização no 9
Docente e investigadora no Instituto for Creative and
largo do Trindade em Lisboa da estátua do escritor, Cultural Entrepreneursship, Goldsmiths, University of London.
diplomata, padre da Companhia de Jesus, António 10
http://d3f5055r2rwsy1.cloudfront.net/images/images_divul
Vieira ( 1608-1697)21, ou quando em a Câmara gacao/carlafigueira_ul.pdf
Municipal de Lisboa, na praça do Império em frente do
11
Tese de doutoramento“ O Novo Cinema Português.
Políticas Públicas e Modos de Produção (1949-1980)” , Cunha,
Mosteiro dos Jerónimos, decidiu apagar os brasões
Paulo Manuel Ferreira da - Universidade de Coimbra , 2014
símbolos da expansão e presença de Portugal mundo, 12
Jornal Observador, 29 de Julho de 2019
o que levou a uma petição pública assinado por 13
Moreira, Adriano, Teoria das Relações Internacionais - 7ª
desconhecidos, ex-presidentes da República, e SAR edição ( Manuais Universitários) pág. 444, ISBN 978-972-40-
D. Duarte, com mais de 13 000 assinaturas. Este 4660-0 , Coimbra, Novembro de 2011.
realidade, só por si, demonstra a contemporaneidade
14
Moreira, Adriano, Teoria das Relações Internacionais - 7ª
edição ( Manuais Universitários) pág. 13, 230,231,232, ISBN
e até a urgência e a apetência de diversos públicos 978-972-40-4660-0 , Coimbra, Novembro de 2011.
para um cinema de temática histórica cruzando 15
Mahbbani, Kishore, A China Já Ganhou ? 1ª edição,
acontecimentos, geografias, culturas, narrativas, que Bertrand Editora, pág. 309 ISBN 978-972-25-4090-2, Lisboa,
em muito constituem a identidade de Portugal. Num Novembro de 2020
tempo em que largos sectores da opinião publicada tem
16
Mahbbani, Kishore, A China Já Ganhou ? 1ª edição,
Bertrand Editora, pág. 309,310 ISBN 978-972-25-4090-2,
como programa a saída do Estado de vários sectores
Lisboa, Novembro de 2020
de atividade, e em que as subvenções públicas ao 17
Expressão cunhada pelo historiador Arnold Toynbee, que
cinema são vistas como despesa, e onde o cinema considera a chegada de Vasco da Gama à praia de Kappad,
é olhado como atividade parasitária e sem relevância Índia, em maio de 1498, o início da globalização.
para o desenvolvimento do país, é necessário 18
Castells, Manuel (Coord.) 1997,2001, The Power of
fundamentar os argumentos que tornam evidentes Identity, pág.3 edição Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa
2007, ISBN 978-972-31-1194-1
não só a razoabilidade, mas também a necessidade, 19
Lei n.º 55/2012, Artigo 3º Princípios e objectivos 1. a)
da atividade cinematográfica na afirmação de Portugal Diário da República , 1ª série - Nº 173 de 6 de setembro de 2012
no mundo contemporâneo. É necessário enquadrar o 20
Ver Joseph Nye “Soft Power: The Means to Success in
sector enquanto atividade relevante para o exercício World Politics” 2004
diplomacia cultural, braço necessário à diplomacia
21
Ver “ Palavra e Utopia” 130 minutos, realização de Manuel
de Oliveira , prémio especial do júri no festival de Veneza, e
económica.Considerando a potencialidade de
nomeado para o Leão de Ouro, produção Gémini Films e RTP,
crescimento que o sector cinematográfico português coprodução Portugal, Brasil, França, Espanha, Itália, ano de
continuamente manifesta, é espectável, num horizonte lançamento , 2000 .
de médio prazo, a atividade ter retorno verificável
nos mapas excel dos dados contabilísticos. Por outro Bibliografia
lado, importa continuar a referir que o valor intangível
e simbólico do cinema com capacidade de circulação Areal, Leonor , Cinema Português, um país imaginado
internacional num país de pequena dimensão como Vol. 1 e Vol. 2, 2011, edições 70
Portugal, mas com fronteiras culturais em todos os Deleuze, Gilles , A Imagem - Movimento Cinema 1,
continentes, é não só elevado como necessário. 2004 Assírio&Alvim
Deleuze, Gilees, A Imagem -Tempo Cinema 2 , 2015,
Notas Documenta
Lipovestsky, Gilles, Serroy, Jean , O Ecrã Global, 2010,
1
CASSIRER, Ernst. 1998 Filosofia de las Formas Edições 70
Simbólicas. Tradução de Armando Morones. México: Fundo de Grilo, João Mário, O Homem Imaginado , cinema, ação,
Cultura Económica,. pensamento, 2006 Livros Horizonte
2
Santos, Frederico Rios C. 2019 .Cinema, Discurso e Moreira, Adriano, Teoria das Relações Internacionais ,
Relações Internacionais. São Paulo/pimenta cultural 2011 , 7ª edição Almedina
3
idem McQuail, Denis, Teoria da Comunicação de Massas,
4
Ver Michel Foucault, The History of Sexuality. Para outras 2003 , Fundação Calouste Gulbenkian
abordagens do conceito do biopolítico na obra do Foucault ver “ Rancière, Jaques, Os Intervalos do Cinema, 2012,
the Politics of Health in the Eighteenth Century” e “ Naisssance Orfeu Negro
de la biopolitique”, in Dits et écrits, vol.3, pp 818-825 Paris- Rancière, Jaques, Nas Margens do Político, 2014,
Gallimard, 1994
KKYM
5
Nelson Goodman, Modos de Fazer Mundos, pág. 5 –
prefácio de Carmo D’Orey, Porto, ASA 1995
6
Leonor Areal, Cinema Português Um País Imaginado Vol.
1 –Antes de 1974, Edições 70, pág. 17 ( edição com o apoio
da FCT)

443

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