Teologia
Teologia
GOIÂNIA
2024
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WASHINGTON DA SILVA LEITE
GOIÂNIA
2024
1
AGRADECIMENTOS
Agradeço a Deus por ter criado e, ainda mais, salvado a todos nós por seu Filho Jesus
Cristo, Nosso Senhor, a quem dedico este trabalho, para que o Único e Eterno Sacerdote
abençoe a todos seus filhos.
Agradeço à minha família, em especial meus pais, que sempre me apoiaram e fizeram
que o caminho se tornasse mais fácil, com sua presença amorosa, firme e constante em minha
vida.
Agradeço à Igreja, onde encontrei amigos e pessoas que me fazem caminhar nas
pegadas de Jesus, que me oferece os sacramentos que nos salvam e fazem que sejamos
melhores. À Igreja também agradeço a oportunidade dos estudos teológicos e do
aprofundamento na fé que estes me proporcionaram.
Agradeço, enfim, todos os meus amigos, de longe e de perto, que com suas orações,
sua paciência, suas palavras de encorajamento e carinho fizeram que eu conseguisse chegar até
aqui. A todos, meus mais sinceros agradecimentos.
2
“Vós sereis para mim um reino de sacerdotes, uma nação santa”
(Êxodo 19,6)
“Convinha [...] que em tudo se tornasse semelhante aos irmãos, para ser, em relação
a Deus, Sumo Sacerdote misericordioso e fiel, para expiar assim os pecados do povo”
(Hebreus 2,17)
“Mas vós sois uma raça eleita, um sacerdócio real, uma nação santa,
o povo de sua particular propriedade, a fim de que proclameis as excelências
daquele que vos chamou das trevas para sua luz maravilhosa”
(I Pedro 2,9)
3
RESUMO
Na Igreja, cremos que há um sacerdote misericordioso e fiel que está junto de Deus
intercedendo por nós. Oferecendo um sacrifício único pelos pecados da humanidade, Cristo
alcançou-nos a vida e nos comunica a sua graça pelo sacramento do batismo. Pelo batismo,
entramos no Corpo Místico de Cristo e nos tornamos um com ele, neste aspecto, participamos
de seu único sacerdócio. O sacerdócio de Cristo, no entanto, para os batizados pode ser
participado de duas formas diferentes, pelo sacerdócio comum de todos os batizados e pelo
sacerdócio ministerial daqueles que recebem o sacramento da ordem. Nosso foco neste trabalho
é investigar o sacerdócio tal como era concebido em Israel, nos escritos do Antigo Testamento,
depois como chegamos à conclusão de que Cristo é sacerdote, analisando a Carta aos Hebreus,
até analisarmos os escritos da Primeira Carta de Pedro e do Apocalipse, que tratam do
sacerdócio participado pelos fiéis batizados. Através da análise bíblica, alcançamos uma clareza
teológica acerca do sacerdócio de Cristo, ao qual se associam todos os batizados, seja como
fiéis leigos ou ordenados, cada qual com sua especificidade.
4
RIASSUNTO
Nella Chiesa crediamo che ci sia un sacerdote misericordioso e fedele che è presso Dio e
intercede per noi. Offrendo un unico sacrificio per i peccati dell'umanità, Cristo ha raggiunto
per noi e ci comunica la sua grazia attraverso il sacramento del battesimo. Attraverso il
battesimo entriamo nel Corpo mistico di Cristo e diventiamo una cosa sola con Lui, in questo
partecipiamo al suo unico sacerdozio. Il sacerdozio di Cristo, però, per i battezzati può essere
partecipato in due modi diversi, attraverso il sacerdozio comune di tutti i battezzati e attraverso
il sacerdozio ministeriale di coloro che ricevono il sacramento dell'ordine. Il nostro obiettivo in
questo lavoro è indagare il sacerdozio così come è stato concepito in Israele, negli scritti
dell'Antico Testamento, poi come siamo arrivati alla conclusione che Cristo è sacerdote,
analizzando la Lettera agli Ebrei, fino ad analizzare gli scritti della Prima Lettera di Pietro e
dell'Apocalisse, che trattano del sacerdozio partecipato dai fedeli battezzati. Attraverso l'analisi
biblica raggiungiamo la chiarezza teologica sul sacerdozio di Cristo, al quale sono associati tutti
i battezzati, sia come laici che come ministri ordinati, ciascuno con la propria specificità.
5
SIGLÁRIO
6
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ........................................................................................................................ 8
1. OS SACERDOTES NO ANTIGO TESTAMENTO ....................................................... 11
1.1 DEFINIÇÃO E ATRIBUIÇÕES DO SACERDÓCIO ANTIGO ....................................... 12
1.2 FUNCIONAMENTO DO CULTO SACERDOTAL ANTIGO .......................................... 15
1.3 OS SACRIFÍCIOS NO CULTO SACERDOTAL ANTIGO .............................................. 17
1.4 O SACERDÓCIO ANTIGO NO TEMPO DE JESUS ....................................................... 19
1.5 A APARENTE AUSÊNCIA DO SACERDÓCIO EM JESUS ........................................... 22
2. O NOVO SACERDOTE: JESUS CRISTO...................................................................... 26
2.1 QUESTÕES DE VOCABULÁRIO: O TEMA SACERDOTAL NO NOVO
TESTAMENTO ........................................................................................................................ 26
2.2 A EPÍSTOLA AOS HEBREUS: AUTORIA, DATA, TEMA E ESTRUTURA ................. 27
2.3 JESUS CRISTO COMO SUMO SACERDOTE E A CATEQUESE CRISTÃ PRIMITIVA
.................................................................................................................................................. 30
2.4 CARACTERÍSTICAS DO SACERDÓCIO DE CRISTO ................................................. 33
2.4.1 Autoridade de Cristo como sacerdote .............................................................................. 34
2.4.2 Misericórdia e sacerdócio em Cristo ............................................................................... 37
2.4.3 A solidariedade no sacerdócio de Cristo .......................................................................... 38
2.4.4 O sacerdócio de Cristo é eterno ....................................................................................... 39
2.5 COMO CRISTO TORNOU-SE SUMO SACERDOTE? ANÁLISE DE Hb 5,5-10 ......... 40
2.6 SACERDOTE “SEGUNDO A ORDEM DE MELQUISEDEC” (Hb 7,11) ...................... 43
2.7 A CONSAGRAÇÃO DE CRISTO ..................................................................................... 47
3. IGREJA: POVO SACERDOTAL ..................................................................................... 52
3.1. UM POVO SACERDOTAL: I Pd 2,1-10 .......................................................................... 52
3.1.1 Reminiscência do Antigo Testamento: Êxodo 19,6 ......................................................... 53
3.1.2 Comparação entre Êxodo 19,6 e I Pedro 2,9 ................................................................... 54
3.1.3 O sacerdócio cristão sob a ótica de I Pedro ..................................................................... 54
3.2 UM SACERDÓCIO REAL: O LIVRO DO APOCALIPSE .............................................. 57
3.2.1 Jesus Cristo no Apocalipse: figura sacerdotal?................................................................ 57
3.2.2 O sacerdócio real dos cristãos ......................................................................................... 58
3.2.3 O reino sacerdotal dos cristãos ........................................................................................ 59
3.3 SACERDÓCIO COMUM E SACERDÓCIO MINISTERIAL ......................................... 61
3.3.1 Único sacerdócio participado .......................................................................................... 62
3.3.2 Sacerdócio comum e ministerial: Diferenças e aproximações ........................................ 63
3.3.3 Sacerdócio cristão: mistério de comunhão ...................................................................... 66
CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................. 68
7
INTRODUÇÃO
Ao longo de toda a história o homem se perguntou sobre diversas coisas: Quem criou
o mundo? Quem somos? O que devemos fazer? São tantas perguntas que nos interpelam
constantemente e para as quais procuramos respostas desde o início dos tempos, mas existe um
anseio do coração humano que só pode ser saciado de uma maneira. Temos sede do infinito, do
eterno, de Deus, neste sentido podemos perceber que as várias religiões buscam uma forma de
conectar o homem à divindade para aplacar essa necessidade constante. O que percebemos, no
entanto, é que a ligação entre o homem e Deus não pode ser imediata, já que existem muitas
realidades que separam o Deus infinito, perfeito, santo, dos homens, finitos, imperfeitos e
pecadores.
Para transpor esta distância natural entre realidades de naturezas diferentes, tais como
o homem e Deus, o primeiro criou uma série de soluções que visam atenuar a distância entre a
humanidade e a divindade. Uma dessas soluções, das mais antigas, é o sacerdócio e o culto tal
como aparece nos relatos históricos de civilizações antigas, como a egípcia e a mesopotâmica.
Interessa-nos, sobremaneira, a solução ritual usada pelos israelitas para ultrapassar a barreira
que existia entre eles e Deus, a saber, o sacerdócio cultual com seus sacrifícios.
Antes, porém, de tratar do sacerdócio em Israel, é preciso dizer que na fé monoteísta
israelita não foi o povo que primeiro procurou ao Senhor, mas a iniciativa foi do próprio Deus.
É Deus quem faz Aliança com o povo, Ele quem os protege com sua mão forte e cuida deles
mesmo quando não são fiéis como deveriam, pois seu amor é incondicional. No Monte Sinai
faz Aliança com seu povo, por meio de seu servo Moisés, lhes entrega as Tábuas da Lei com os
Dez Mandamentos, pedindo que sejam fiéis às suas prescrições. Também nesta Aliança, institui
sacerdotes que deveriam cumprir afazeres rituais para que o povo de Israel tivesse comunhão
com seu Senhor.
Os sacerdotes não eram uma realidade única e exclusiva de Israel, existiam outros em
civilizações outras, mas em Israel constituíram-se pela vontade expressa do Senhor. O Deus de
Israel, Iahweh, é o Três vezes Santo, com nome impronunciável, perfeito, que só falou face a
face com Moisés, em todo o Antigo Testamento. Diante de tal divindade, como ficaria o povo
de Israel? Qual a possibilidade deles se unirem a tão grande Senhor? Os israelitas se uniriam a
Deus pela mediação dos sacerdotes, que, oferecendo sacrifícios pelos seus pecados e pelos do
povo, aplacariam o Senhor e restaurariam a comunhão perdida.
8
Todo o aparato sacerdotal de Israel se sustentava nessa fé de que os sacerdotes eram
os homens consagrados ao Senhor, que ensinavam sua Lei e ofereciam seus sacrifícios, com as
finalidades mais variadas possíveis, conforme veremos ao longo deste trabalho. Importante
salientar, contudo, que não poderia ser qualquer homem um sacerdote, era necessário que fosse
da Tribo de Levi, era a tribo consagrada ao Senhor, separada para seu serviço em tempo integral,
devotada ao Templo e aos sacrifícios. Também este ponto merece nossa atenção, já que a essa
altura da história da salvação, somente se podia ser sacerdote se assim o fosse hereditariamente,
ou seja, se tivesse nascido na tribo levítica.
O sacerdote existia para oferecer os sacrifícios que colocariam o povo em comunhão
com Deus novamente, diminuindo a distância existente entre a divindade e a humanidade. Essa
capacidade de oferecimento dos sacrifícios não vinha de qualquer maneira, mas era fruto de
uma série de separações rituais entre os que seriam consagrados sacerdotes e o povo como um
todo, pois, para que fossem capazes de se apresentar diante de Deus teriam que se guardar de
todo contato com o pecado, com a morte, com aquilo que não faz parte da realidade divina.
Veremos ao longo deste trabalho como as separações rituais eram o caminho para a consagração
dos sacerdotes israelitas.
O traço característico do sacerdócio em Israel era estas separações para que se tornasse
sacerdote e este é também o ponto de inflexão na mudança para o novo sacerdócio vivido e
instituído por Jesus Cristo. Em primeiro lugar, pelo mistério da Encarnação do Verbo, o Senhor
mesmo se tornou um de nós, vivendo nossa vida, sofrendo nossas dores, experimentando nossas
alegrias e tristezas, enfim, numa compaixão que fez que o Filho Eterno se tornasse um homem
em Belém da Judéia. Por este mistério se operou a conexão maior já imaginada entre o homem
e Deus, a divindade que antes se imaginava tão longe, torna-se um de nós, por amor, um amor
incondicional. As barreiras que existiam entre Deus e os homens foram transpostas pelo próprio
Senhor.
Duas realidades impulsionaram Jesus Cristo em sua vida terrena, até o cumprimento
total de sua missão ao entregar sua vida na cruz para a salvação de todo o gênero humano. O
amor filial e obediente ao Pai e a solidariedade e amor para com os homens foram estas duas
realidades, pois, até sua entrega na cruz, Cristo jamais se esqueceu destes dois pontos. A
consagração sacerdotal de Cristo acontece no altar da cruz, quando entrega sua vida por todos
os homens ele expira e oferece o único e supremo sacrifício, é ao mesmo tempo vítima, porque
é o Cordeiro, e sacerdote, porque se oferece a si mesmo, ninguém tira sua vida, ele a dá por si
mesmo. Sua vida é marcada por essa entrega que culmina no altar da cruz.
9
O tema sacerdotal é muito relevante para pesquisa porque a Igreja é um povo
sacerdotal, recebemos a fé de nossos antepassados israelitas, acolhemos a revelação de Jesus
como sacerdote, altar e vítima, e mais ainda, compreendemos teologicamente que toda a Igreja
é composta de sacerdotes. Compreender o tema do sacerdócio no hoje da Igreja é compreender
um pouco mais sobre nossa vivência de fé, sobre ser comunhão com os irmãos, estar unidos,
superando o individualismo e a opinião próprias. Toda a vida cristã é a busca pela santidade e
essa busca passa pela vivência correta do ser sacerdote, seja pelo batismo seja pela ordem, pois,
como veremos, ambos são participação no único sacerdócio de Cristo, de cujo Corpo místico
participamos.
A pergunta que nos guia ao longo de todo este estudo, com foco bíblico, é: “Qual a
diferença entre o sacerdócio antigo e o novo sacerdócio instituído por Cristo?”. Parece muito
limitada, mas os desdobramentos desta pergunta alcançam a toda a Igreja, pois, o sacerdócio
que Cristo institui atinge todos os batizados, Ele é a fonte deste sacerdócio e compreender as
diferenças e semelhanças entre o sacerdócio antigo e o novo fazem-nos viver mais corretamente
a vocação cristã.
O método utilizado no presente trabalho é hipotético-dedutivo, isto é, utilizando-nos
do material bíblico-teológico à nossa disposição sobre o tema, apresentaremos pontos de vista
embasados que nos ajudarão a ter clareza sobre os variados temas que nos serão apresentados.
Utilizaremos textos bíblicos que serão analisados à luz de diversos autores, sendo o principal
deles Cardeal Albert Vanhoye, que escreveu uma obra toda dedicada à questão do sacerdócio
no Antigo e no Novo Testamentos, bem como artigos e livros de outros autores.
Nosso trabalho começa pela pesquisa bíblica sobre o sacerdócio enquanto realidade no
Antigo Testamento, veremos qual a definição e as atribuições dos sacerdotes israelitas, como
funcionava o culto, com seus sacrifícios, como este sacerdócio se apresentava no tempo de
Cristo e como há uma aparente ausência do tema sacerdotal em Jesus. No segundo capítulo,
trataremos de forma sistemática o tema sacerdotal tal como aparece na Carta aos Hebreus que
fala do sacerdócio de Cristo, apresentaremos as características básicas do seu sacerdócio, como
foi a consagração de Jesus e as diferenças em relação ao sacerdócio antigo. No terceiro capítulo,
finalmente, abordaremos o tema sacerdotal aplicado aos fiéis cristãos, analisando textos da
Primeira Carta de Pedro e do Apocalipse, que nos dão ocasião de pensar o sacerdócio de Cristo
participado como sacerdócio comum e ministerial, veremos qual a diferença dos dois tipos e
como isso influencia a vida cristã de cada crente.
10
1. OS SACERDOTES NO ANTIGO TESTAMENTO
1
“Ordinariamente, per prete si intende colui che è especializzato nel compimento delle funzioni rituali o cultuali”
(tradução nossa) GALOT, Jean. Teologia del sacerdozio. Librera Editrice Fiorentina: Firenze, 1981. (Nuova
Collana di Teologia Cattolica, v. 14), p. 04.
2
Cf. GALOT, 1981, p. 04-05.
11
1.1 DEFINIÇÃO E ATRIBUIÇÕES DO SACERDÓCIO ANTIGO
3
Cf. VANHOYE, Albert. Sacerdoti Antichi e Nuovo Sacerdote: Secondo il Nuovo Testamento. Editrice Elle di
Ci: Leumann (Torino), 1990, p. 23.
4
Cf. VANHOYE, 1990, p. 23-24.
5
Ao que parece, o Urim e o Tummim eram dois objetos usados como instrumentos oraculares pelos quais se
buscava saber a vontade de Deus por meio de sorteio, onde a resposta a determinada questão seria “sim” ou
“não”. Diz-se que os sacerdotes carregavam essas pedras em seu peitoral e quando necessário, usavam para fazer
esse sorteio. Cf. McKENZIE, John L. Dicionário bíblico. Trad. Álvaro Cunha [Link]. São Paulo: Paulus, 1983.
Coleção Dicionários. p. 873.
12
Deus, a existência humana não podia encontrar a sua justa orientação” (tradução nossa)6. Mas
para além do Urim e Tumim em Dt 33,9b-10 vemos um desenvolvimento da função de
transmitir a vontade de Deus, não mais mediante instrumentos de sorte, mas pelo ensinamento
da Palavra de Deus, para guardar a Aliança.7
A segunda atribuição do sacerdote era de ser ligado ao santuário, pois ele é escolhido
e estabelecido para servir no santuário e a nenhum outro era permitido tal ação8. Em Nm 3,389
“Finalmente, acampavam ao oriente, diante da Habitação, diante da Tenda da Reunião, Moisés,
Aarão e seus filhos, que tinham o encargo do santuário em nome dos israelitas. Todo estranho
que se aproximasse devia ser punido com a morte”, vemos que a separação entre sacerdotes e
outras pessoas quanto ao santuário fica bem evidente, ninguém deve se aproximar da Tenda,
onde estão as Tábuas10, sinais da presença de Deus entre o povo. Em Israel havia muitos
santuários, em diferentes cidades, mas ao longo do tempo, com o reinado unificado, ficou cada
vez mais claro que Jerusalém seria a cidade onde se unificaria todo o reino, tanto do ponto de
vista do governo quanto do culto, até que se fez o Santuário em Jerusalém que se tornou o único
oficial, unificando também os sacerdotes em torno ao Templo. É preciso mencionar que em Dt
12,13-14 se especifica que os sacrifícios devem ser oferecidos no lugar que o Senhor escolheu,
num único lugar, “[...] assim se fez depois do Exílio. A unicidade do santuário se tornou uma
profunda exigência do sentimento religioso. Era conveniente que o Deus único tivesse um único
santuário”11.
A terceira atribuição dos sacerdotes israelitas era a de oferecer os sacrifícios a Deus. A
princípio, o direito de oferecer sacrifícios não era privilégio dos sacerdotes, senão que também
Abraão (Cf. Gn 22,13), Jacó (Cf. Gn 28,18;31,54), até mesmo Davi e Salomão (Cf. II Sm
6,13.17s;24,25; I Rs 3,4.15) ofereceram sacrifícios a Deus. Aos poucos, no entanto, esta oferta
de sacrifícios ficou reservada aos sacerdotes, de tal forma que o rei Ozias foi punido por Deus
por ter ousado se apresentar diante do altar sem ser um sacerdote (Cf. II Cr 26,16-20). Essa
exclusividade dos sacerdotes em oferecer os sacrifícios não existia por uma questão de
organização das tarefas, mas pela concepção da santidade de Deus, que exige que os que se
6
VANHOYE, 1990, p. 25.
7
VANHOYE, 1990, p. 25.
8
VANHOYE, 1990, p. 26.
9
BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2013. Daqui em diante, todas as citações bíblicas serão
retiradas desta edição.
10
Trata-se das Duas Tábuas que continham a Lei de Deus, seus mandamentos, segundo a tradição, foram escritas
pelo dedo do próprio Deus e eram um sinal claro da presença do Senhor em Israel, daí serem guardadas na Arca
da Aliança, dentro do Templo do Senhor em Jerusalém. Cf. Êx 24,12; McKENZIE, 1983, p. 63-64.
11
VANHOYE, 1990, p. 27.
13
apresentam diante do Senhor sejam consagrados para esta tarefa sublime12. Outro aspecto que
merece ser mencionado é o fato de que os sacrifícios de expiação pelos pecados cometidos
foram ganhando cada vez mais importância13.
A quarta atribuição dos sacerdotes a que nos referimos é a de vigiar sobre a “pureza
ritual”. Ora, se os sacerdotes deveriam se consagrar para serem capazes de oferecer sacrifícios
a Deus, também o povo deveria ser purificado para cultuar o Senhor, essa era uma preocupação
intensa dos sacerdotes, segundo a prescrição bíblica de Lv 15,31: “Advertireis os israelitas a
respeito de suas impurezas, para que não morram por causa delas, contaminando a minha
Habitação que se encontra no meio deles”.
A quinta atribuição do sacerdócio antigo era a de “abençoar”. O sacerdote era o homem
responsável por abençoar o povo em Nome de Deus, pronunciando o Nome revelado (Cf. Eclo
45,15-19). A respeito da importância da bênção sacerdotal é interessante mencionar o que
Vanhoye sublinha:
Pôr sobre qualquer um o nome de Deus é estabelecer uma relação pessoal entre Deus
e ele. A bênção não é outra coisa, de fato, que um pôr em relação vivificante com
Deus. O povo de Israel compreendia que a bênção divina é a condição fundamental
da qual depende o verdadeiro sucesso da existência. Sem uma relação harmoniosa
com Deus, a vida humana não pode encontrar o seu justo sentido nem alcançar a sua
plena realização. Ao contrário, a bênção divina traz paz e fecundidade a todos os
lugares, porque a relação com Deus é o elemento mais decisivo em toda situação e em
toda realidade. (tradução nossa) 14
Essas são algumas das atribuições que recaíam sobre os sacerdotes de Israel,
características que, se bem entendidas, poderemos oportunamente aplicar ao novo sacerdócio
proposto nos escritos neotestamentários e vivido hoje na Igreja. Para o momento, basta-nos
mencionar que os sacerdotes eram muito importantes no culto a Deus no Antigo Testamento,
eles cumpriam uma função que cada vez mais era exclusiva e entendendo essa dinâmica
podemos compreender a realidade do sacerdócio antigo na época de Jesus. Mas antes de pensar
sobre o sacerdócio antigo no tempo de Cristo, é interessante pensar na sua dinâmica interna,
isto é, como se organizava o culto sacerdotal em Israel.
12
VANHOYE, 1990, p. 27.
13
VANHOYE, 1990, p. 28.
14
VANHOYE, 1990, p. 29.
14
1.2 FUNCIONAMENTO DO CULTO SACERDOTAL ANTIGO
15
VANHOYE, 1990, p. 29.
16
VANHOYE, 1990, p. 30.
17
VANHOYE, 1990, p. 31.
15
do que se chama profano. Mas a consagração final do sacerdote se dá quando ele oferece o
sacrifício, “etapa final da separação do mundo profano” (tradução nossa)18. Ainda que passe
por todos os ritos que mencionamos anteriormente, o sacerdote permanecia um homem
terrestre, mas precisava fazer a passagem para o mundo celeste, o que é feito ao passar pela
experiência da morte. Ora, já que o sacerdote não poderia fazer isso por si mesmo, ele
sacrificava um animal que, consumido pelo fogo sagrado, se tornará uma oferenda agradável a
Deus e finalizará a consagração daquele que oferece o sacrifício, tornando-o capaz de estar
diante do altar do Senhor.
A dinâmica do culto sacerdotal antigo pode ser entendida utilizando-se de uma imagem
mencionada pelo nosso autor e explicada de forma breve e clara, conforme transcrevemos a
seguir:
O culto antigo constituía, pois, um sistema de santificação baseado sob uma série de
separações rituais. Para elevar-se até o Deus três vezes santo, se edificava uma espécie
de pirâmide que, partindo da multidão das nações e em graus sucessivos era escolhido
um povo à parte, uma tribo escolhida, uma família privilegiada, chegava finalmente a
um homem consagrado, o sacerdote, e, acima dele, a um animal oferecido em
sacrifício. Depois deste movimento ascendente de separação, se esperava
evidentemente um movimento descendente de bênção. (tradução nossa)19
18
VANHOYE, 1990, p. 32.
19
VANHOYE, 1990, p. 32.
20
Cf. VANHOYE, 1990, p. 32-33.
21
VANHOYE, 1990, p. 35.
16
Colocar os homens em comunhão com Deus por meio da mediação sacrificial, eis a tarefa
sublime do sacerdote antigo.
Como dissemos, os sacrifícios eram o estágio final de uma série de separações rituais
e tinham como primeiro objetivo fazer que o sacerdote passasse do mundo terrestre ao mundo
celeste pela passagem que o animal faria em seu lugar22. Importa, pois, entender do que se trata
o “sacrifício”, quais os principais tipos de sacrifício que existiam no Antigo Testamento e como
eram compreendidos ao interno do culto sacerdotal do povo hebreu.
A palavra sacrifício pode ser entendida, em sentido religioso, como aquilo que é
oferecido à divindade, bem como a ação mesma de oferecer23. Se tomamos a palavra em sua
raiz latina, percebemos que a palavra sacrifício se compõe de duas outras, a saber, sacrum e
facere, significando que seria o ato de fazer algo se tornar sagrado, santo 24. Existem muitos
elementos que estão presentes nas noções de sacrifício nas religiões antigas, como por exemplo:
1) um dom do homem para a divindade, 2) uma homenagem do súdito para seu senhor, 3) a
expiação da ofensa cometida, 4) a comunhão com a divindade no banquete do sacrifício, 5) a
vida que é subtraída da vítima, oferecida à divindade para que seja devolvida aos adoradores.25
Todos esses elementos apresentados são simbólicos dos sacrifícios, indicam o que eles
significam na mentalidade dos crentes, mas há um elemento simbólico comum a todos os
sacrifícios do Antigo Testamento, que é nosso tópico, para tanto citamos McKenzie:
Como nossa pesquisa até o momento se atém ao Antigo Testamento, que foi escrito na
língua hebraica, precisamos notar que nesta língua não temos um único termo que signifique
22
Cf. VANHOYE, 1990, p. 32.
23
Cf. WILLI-PLEIN, Ina. Sacrifício e Culto no Israel do Antigo Testamento. Trad.: Antonius Fredericus Stein.
São Paulo: Edições Loyola, 2001, p. 25.
24
Cf. VANHOYE, 1990, p. 32.
25
Cf. McKENZIE, 1983, p. 748-749.
26
McKENZIE, 1983, p. 749.
17
“sacrifício” e sim uma série de termos que significam um tipo de sacrifício específico 27.
Podemos separar três grupos de sacrifícios que poderiam ser unificados: 1) aqueles que podem
ser definidos pelo rito como tal, p. ex. zebah (abate de um animal), minha (oferenda de
alimentos), olâ (sacrifício pelo fogo, holocausto); 2) Conceito abrangente que alcança outras
ações, mas que significa que a oferenda levada ao santuário está apta para o contato com o
sagrado, isto é, o qorban (oferenda); e 3) Sacrifícios definidos pela sua finalidade, função, p.
ex. toda (sacrifício em ação de graças), hattat (sacrifício pelo pecado), asam (sacrifício pela
culpa).28
Profundamente ligado à noção veterotestamentária de sacrifício está o entendimento
do respectivo culto, ou seja, o culto que se faz por meio destes sacrifícios. Tendo em vista alguns
pares de opostos, podemos nos aproximar de um entendimento, isto é, investigando a oposição
já mencionada anteriormente entre “santo” e “não-santo”/“profano”, ou a oposição entre
“pecado-falta” e “irrepreensibilidade-ordem”29. O culto também está ligado a locais tidos como
sagrados e tempos determinados. Com tudo isso e tendo em vista o que já dissemos sobre o
sacrifício ser a forma de manter a relação dos homens com Deus percebemos que os sacrifícios
são uma forma de culto que vem para atenuar as divisões que existem entre o divino e o humano,
por meio de uma oferta do homem a Deus, feita pelo sacerdote. Esse poderia ser o entendimento
geral do tema que ora tratamos.
Ainda que não seja nosso foco o problema do entendimento sobre o sacrifício, este nos
toca de forma especial devido ao fato de que o ministro que o oferece é o sacerdote, nosso tema
de investigação. Para finalizar uma abordagem deste tópico interessante e iluminador, podemos
elencar três modelos de entendimento sobre o sacrifício que oferecem chaves de leitura para o
tema. O sacrifício como dom, o sacrifício como alimento e o sacrifício como representação da
realidade.
O sacrifício como dom pode ser feito na esperança de receber algo em troca ou ser
realizado como renúncia, num sentido de submissão, homenagem ou mesmo ação de graças a
Deus. O sacrifício pode ser entendido como alimento, ou seja, um banquete divino, sendo Deus
o anfitrião e o homem o hóspede, ou vice-versa, ou mesmo no sentido de que os homens comem
na presença de Deus, ou que é Deus mesmo quem serve os alimentos a nós. Por fim, o sacrifício
27
Ainda que nossa autora informe que qorban seria um conceito abrangente que alcança diversos tipos de
sacrifícios, por significar o “aproximar-se” do sagrado, pode ser um conceito usado também para ritos que não
são sacrifícios tais como entendemos, por isso não seria uma tradução única para a palavra sacrifício no hebraico.
Cf. WILLI-PLEIN, 2001, p. 26.
28
Cf. WILLI-PLEIN, 2001, p. 26.
29
Cf. WILLI-PLEIN, 2001, p. 27.
18
pode ser compreendido como representação da realidade, isto é, como ela é ou deveria ser, uma
imagem do mundo ordenado perfeitamente, tal como deveria ser, não fossem nossas faltas que
perturbam a ordem colocada pelo Criador.30
O sacrifício, portanto, é uma forma de culto que era praticada em Israel, com
finalidades diferentes, a depender do tipo de sacrifício feito. Fundamentalmente, porém, o culto
sacerdotal antigo se servia dos sacrifícios para operar a união do divino e do humano,
intermediando a relação entre o terrestre e o celeste, mantendo a ordem da realidade e cultuando
a Deus por meio das renúncias e trabalhos humanos, fazendo ações tidas como sagradas,
sacrifícios – sacrum facere.
30
Cf. WILLI-PLEIN, 2001, p. 28.
31
“O Exílio indica o período que vai da destruição de Jerusalém pelos babilônios, em 587 a.C., à reconstrução de
Jerusalém, sob o domínio persa, iniciada em 537 a.C. [...] A importância religiosa do exílio consiste não somente
na sobrevivência da consciência religiosa e nacional, mas também [...] em uma profunda obra realizada no campo
dos livros sagrados e da tradição de Israel. [...] Também se considera que foi durante o exílio que teve pelo menos
o seu início a codificação da Lei hebraica na forma como hoje a encontramos no Pentateuco” (McKENZIE, 1983,
p. 297-298)
32
Cf. VANHOYE, 1990, p. 37.
33
Cf. VANHOYE, 1990, p. 38.
19
sobressaiu tanto que “a dinastia sacerdotal dos Asmoneus se mantém no poder, através de várias
peripécias, até o tempo de Herodes, cujo reino começou em 37 a.C.” (tradução nossa)34. Esta
mesma estrutura de autoridade religiosa e poder político estava entrelaçada até o tempo de
Jesus, o que complicava muito a relação dos primeiros cristãos com o sacerdócio antigo, tal
como era compreendido.
O que não podemos esquecer é que o sacerdócio é uma instituição querida por Deus,
fundada pela sua Palavra, não por vontade humana, e que seu primeiro papel era o religioso.
Essa fé era alimentada no coração de Israel, o que podemos chamar de uma “espera de um
sumo-sacerdote dos tempos messiânicos”. São muitas as passagens dos profetas que alimentam
a esperança no sacerdócio messiânico, das quais citaremos apenas algumas.
Em Is 2,1-5, vemos que virão dias em que o Monte do Senhor se alçará acima de todos
os outros montes e todos virão ao seu encontro, é uma promessa de que a casa do Senhor será
aberta a todos. Já em Mq 4,1-3 a mesma promessa é apresentada, de que o Monte do Senhor
será elevado acima das colinas e a ele acorrerão todos os povos. Para além das promessas sobre
a Casa do Senhor, importa-nos citar textualmente a promessa do Senhor contida em I Sam 2,35:
“Farei surgir um sacerdote fiel, que procederá conforme o meu coração e o meu desejo, e lhe
construirei uma casa estável, e ele andará sempre na presença do meu ungido”.
Com os profetas, vemos que havia uma promessa de renovação do sacerdócio,
purificação e espera de um novo sacerdócio conforme os anseios messiânicos. Escritos judaicos
do tempo de Cristo nos apontam para essa espera de um messias-sacerdote35, como, por
exemplo, nos manuscritos de Qunram36. Esperava-se um profeta que fosse o ungido de Aarão,
aquele que sucederia este, o messias sacerdotal, também o “Documento de Damasco”37 anuncia
o messias de Aarão e de Israel, um único personagem que deveria receber ao mesmo tempo a
unção sacerdotal e a realeza sagrada. Também o “Testamento dos Doze Patriarcas”38, datado do
I séc. a.C., fala de um messianismo dando preferência à tribo de Levi, e não à de Judá 39. O
segundo desses testamentos, aquele de Simeão, traz uma passagem interessante, testemunhando
essa espera pelo messias sacerdote: “Por que o Senhor suscitará de Levi um sumo sacerdote e
34
VANHOYE, 1990, p. 39.
35
Cf. VANHOYE, 1990, p. 40.
36
Manuscritos descobertos na região de Qunram em 1947, por dois pastores da tribo beduína Ta’amireh, depois
as ânforas onde estavam os manuscritos foram levadas para estudos e consideradas manuscritos antigos e
autênticos. Os manuscritos foram todos escritos em hebraico, com exceção de um e contém trechos de Isaías,
Habacuc, além de alguns apócrifos, dentre outros. Cf. McKENZIE, 1983, p. 697.
37
O documento de Damasco é um dos manuscritos que foram encontrados em Qunram, no ano de 1947.
38
Outro manuscrito que foi encontrado em Qunram, no ano de 1947, conforme mencionamos anteriormente.
39
Cf. VANHOYE, 1990, p. 41-42.
20
de Judá um rei, Deus e homem, que salvará todas as nações e a estirpe de Israel” (tradução
nossa)40.
Também alguns movimentos que existiam no seio do judaísmo do tempo de Jesus
apontam para essa espera do messias sacerdote. O movimento dos essênios esperava dois
Messias – um da estirpe de Davi como libertador político e outro da descendência de Aarão
como restaurador do sacerdócio verdadeiro. Os fariseus também demonstram uma busca pela
santidade – algo ligado sobretudo aos sacerdotes, pois lidavam com a santidade divina no
Templo – com suas 613 leis, sua tradição oral e cuidado com cada preceito sobre todas as
circunstâncias da vida, buscavam o ideal de santidade. Buscava-se assim, de diversas formas,
aquele ideal sacerdotal que não tinha outra razão senão a de colocar o povo em relação com
Deus.41
É preciso dizer que no período em que Jesus se encarnou se esperava um novo
sacerdócio que cumprisse as expectativas colocadas sobre o sacerdote no Antigo Testamento.
“Se desejava um novo Moisés que fosse rei e legislador, sacerdote e profeta, quer dizer, um
intercessor eficaz. Este pensamento está presente nos escritos de Fílon de Alexandria” (tradução
nossa) 42. Na literatura da época se dá grande importância à figura de Melquisedec, mencionado
anteriormente, como modelo do sacerdócio esperado, figura a que voltaremos adiante quando
tratarmos do sacerdócio de Jesus Cristo.
Mas, para além dessa espera no seio do judaísmo do tempo de Jesus, como o próprio
Cristo lidou com a realidade do sacerdócio antigo? Ainda que Cristo confrontasse com certa
frequência os sacerdotes, ele respeitava a instituição sacerdotal enquanto divinamente
instaurada dentro da Lei divina43. Na Parábola do Bom Samaritano (Lc 10,29-37) fica clara a
reprovação de Jesus do comportamento do sacerdote levita que passa adiante ao ver o seu
próximo ferido, necessitando de ajuda, demonstrando que um traço do verdadeiro sacerdócio é
a caridade44.
A relação entre Cristo e os sacerdotes judaicos não era simplesmente de um confronto
sem motivação, mas era a instauração de um novo sacerdócio, de um novo templo, de um novo
culto.
40
VANHOYE, 1990, p. 43.
41
Cf. El sacerdocio en la Sagrada Escritura. (Tradução nossa). Disponível em:
<[Link] Acesso em: 01 de abril de 2023, p. 05.
42
El sacerdocio en la Sagrada Escritura, p. 06.
43
Cf. GALOT, 1981, p. 21.
44
Cf. GALOT, 1981, p. 21-22.
21
A posição de Jesus frente ao sacerdócio judaico, essencialmente unido ao culto do
templo, aparece na declaração: “Aqui está algo maior do que o templo” (Mt 12,6). Isto
significa que nele existe um templo superior àquele de Jerusalém. A sua intenção não
é de abolir o culto com sacerdócio, mas de assegurar, em um nível mais alto, o culto
e a função sacerdotal. A diferença de nível é aquela que resulta da Encarnação; Jesus
é maior que o templo, porque nele a presença divina é doada à maneira mais direta e
mais concreta; é a presença de uma pessoa divina. Esta grandeza da pessoa divina
caracteriza o culto e o sacerdócio que são inaugurados com a presença de Jesus sobre
a terra. (tradução nossa) 45
Sabemos assim que o confronto entre Jesus e os sacerdotes judeus se dava pela
compreensão de culto e sacerdócio que eram diferentes. Os judeus eram ligados a um templo
material, enquanto Jesus falava de um templo espiritual, que estaria no coração de cada um que
tem fé e é batizado, pois, nessa dinâmica cada um dos cristãos participa da morte e ressurreição
de seu Salvador, Jesus Cristo.46 Mas, ainda que tenhamos falado da compreensão de Jesus sobre
o sacerdócio verdadeiro e comentamos que ele veio instaurar um novo sacerdócio, há uma
aparente ausência do elemento sacerdotal em Jesus, tema que nos chama a atenção e exige um
aprofundamento maior.
45
GALOT, 1981, p. 22-23.
46
Cf. GALOT, 1981, p. 24.
47
Cf. GALOT, 1981, p. 18.
48
GALOT, 1981, p. 19.
22
sacerdotal. Segundo a Lei, o sacerdócio era passado hereditariamente, por esse motivo não se
podia entrever em Jesus o sacerdócio, segundo a Lei do Antigo Testamento, como de fato nem
ele mesmo se manifestou como sendo sacerdote.49
Em segundo lugar, além de não pertencer à família sacerdotal, os atos de Jesus o
apresentam muito mais como um profeta, advertindo os sacerdotes de seu tempo contra o
formalismo cultual50. A santificação que Jesus propunha não se conseguia separando-se dos
outros, mas acolhendo, cuidando, estando próximo do mais próximo, conforme aprendemos no
Evaneglho: “[...] amar o próximo como a si mesmo é mais do que todos os holocaustos e todos
os sacrifícios” (Mc 12,33). Sua advertência aos sacerdotes era dura, ele queria resguardar o
Templo do Senhor para o verdadeiro culto, não simplesmente um formalismo, neste sentido
entendemos o cuidado de Jesus com o Templo, atualizando a profecia de Malaquias que diz:
“Então, de repente, entrará em seu Templo o Senhor que vós procurais [...] ele é como o fogo
do fundidor [...] ele purificará os filhos de Levi” (Ml 3,1-4).
Um terceiro ponto a se considerar é que durante toda a vida de Jesus, seus atos e
palavras foram vistos sob a ótica do “messianismo real”, o sucessor do rei Davi que viria para
instaurar o reino de Deus neste mundo, libertando Israel51. Outro aspecto que chama a atenção
é a morte de Jesus, pois, não poderia esse evento ser lido sob o prisma do sacerdócio? Àquela
altura a resposta é “não, não poderia”, pois, sua morte não parecia em nada com um sacrifício
antigo que precisava ser feito por um sacerdote, com ritos, num lugar santo. A morte de Jesus,
sob o ponto de vista do culto antigo, era apenas a execução de um condenado que não era
gloriosa, mas infame, ao contrário dos sacrifícios52.
Com tudo o que dissemos, pode-se compreender o fato de que quando os primeiros
cristãos vão falar de Jesus nunca usam um vocabulário sacerdotal. Ainda que se fale que Ele
morreu por nós (Cf. I Ts 5,10; I Cor 15,3), a compreensão é de uma doação extrema, não de um
sacrifício sacerdotal. Todos os termos usados para os discípulos também não são de cunho
sacerdotal, mas designam serviços na comunidade, como por exemplo: epíscopos, epíscopo,
traduzido como bispo, aquele que vigia, ou diákonos, diácono, aquele que serve53.
O fato de Jesus não dizer nunca ser um sacerdote nem atribuir tal título aos seus
discípulos deve apontar pelo menos um ponto crucial, a saber, “que não se atribuía um
49
Cf. VANHOYE, 1990, p. 44.
50
Cf. VANHOYE, 1990, p.44-45.
51
Cf. VANHOYE, 1990, p. 45.
52
Cf. VANHOYE, 1990, p. 46.
53
Cf. VANHOYE, 1990, p. 47.
23
sacerdócio similar àquele judaico de sua época” (tradução nossa) 54. Jesus realmente não queria
ser sacerdote à maneira antiga, pelas razões aduzidas acima, nem que sua comunidade, ora
fundada, tivesse sacerdotes como os judaicos55.
Para além das distâncias, existiam alguns pontos de contato entre o sacerdócio antigo
e o messias Jesus. Podemos notar uma ligação forte entre o Templo e o Messias, pois, na
tradição do messianismo real, havia uma profecia que o filho de Davi construiria a casa de Deus
(Cf. II Sm 7,1-5.13). Os evangelistas, muitas vezes, sublinham a ligação de Jesus com o Templo.
Jesus afirma que este será destruído e em três dias ele o reconstruirá. A destruição do Templo
antigo é fruto da recusa de Israel em ouvir Cristo e marca o fim do sacerdócio judaico. Quando
Jesus ressuscita é aí que reconstrói o Templo, o seu Corpo. Confirma-se assim a tradição do
messianismo real: O Filho de Davi construirá a casa de Deus.56
Outra aproximação entre Cristo e o sacerdócio pode ser feita tendo em vista o relato
da última Ceia. Jesus diz que oferece seu Corpo e seu Sangue, o que não passaria de uma doação
heroica se ele não tivesse invocado a palavra “aliança”. Ele diz que é o sangue da nova aliança
e isso lembra o sacrifício feito por Moisés no Sinai quando da Antiga Aliança: “Moisés tomou
do sangue e o aspergiu sobre o povo, e disse: ‘Este é o sangue da aliança que Iahweh fez
convosco, através de todas essas clausulas’’’ (Êx 24,8). Soma-se a isso o fato de estar na Páscoa,
o que nos lembra do cordeiro pascal que sempre deveria ser ofertado a Deus, sendo assim Jesus
apresentado como o cordeiro pascal.57
Finalizando este capítulo da pesquisa, podemos concluir que a essa altura não
encontramos evidências nos escritos sagrados já investigados que nos mostrem que havia uma
dimensão sacerdotal em Cristo. Se temos como base a compreensão veterotestamentária sobre
o sacerdócio não encontraremos, em Cristo ou em seus discípulos, verdadeiros sacerdotes, à
maneira judaica. A este respeito, uma citação do professor García-Moreno é esclarecedora:
Os outros escritos do Novo Testamento [menos a carta aos Hebreus] jamais falam do
sacerdócio de Jesus Cristo. É, sem dúvida, um silêncio chamativo que muitos trataram
de explicar. No fundo, todos concordam que o sacerdócio de Jesus Cristo era tão
distinto e original que a terminologia vigente não servia em absoluto para expressar
aquela realidade tão nova e tão profunda. Como ocorreu com outros temas, foi preciso
cunhar uma terminologia nova, ou usar a existente com significados diversos. Este
último não se fez no caso do sacerdócio, para evitar equívocos, ao menos na primeira
época.58
54
GALOT, 1981, p. 19.
55
Cf. GALOT, 1981 p. 20.
56
Cf. VANHOYE, 1990, p. 48.
57
Cf. VANHOYE, 1990, p. 48-49.
58
GARCÍA-MORENO, Antonio. Teología bíblica del sacerdocio. Aspectos Joanneos. In MATEO-SECO y otros
(eds), La formación de los sacerdotes en las circunstancias actuales. Pamplona, 1990. pp. 293-299.
24
De tudo que dissemos até aqui, concluímos que não encontramos nos Evangelhos
nenhuma indicação de Jesus como sacerdote, nem ele falando de si mesmo nesse sentido, nem
outros lhe atribuindo tal título. O que podemos perceber é que existem algumas aproximações
entre Jesus e uma dimensão sacerdotal, mas não propriamente aquela compreensão do Antigo
Testamento. Cristo instaura um novo sacerdócio que será compreendido somente ao longo da
história do cristianismo, pensado e apresentado como uma teologia robusta, uma cristologia
sacerdotal, na carta aos Hebreus, único escrito neotestamentário que apresenta Jesus como
Sumo-sacerdote, e que será investigado em nosso próximo passo dessa análise teológica.
25
2. O NOVO SACERDOTE: JESUS CRISTO
Como já tivemos ocasião de notar no primeiro capítulo deste trabalho, jamais nos
Evangelhos o termo “sacerdote” é usado como uma forma de caracterizar Jesus Cristo ou seus
discípulos. Convém, no entanto, mencionarmos uma parte interessante neste estudo de
vocabulário que nos mostra que as palavras gregas, que se referem ao sacerdócio de alguma
maneira, aparecem algumas vezes no Novo Testamento e com nuances diferentes.
A palavra “sacerdote” (hiereús) aparece 11 vezes somando-se os quatro evangelhos,
mas jamais se referindo a Jesus, sempre referindo-se aos sacerdotes judeus, contudo, na carta
aos Hebreus esta palavra aparece 14 vezes e no Apocalipse é usada 3 vezes. Já o vocábulo
“sumo sacerdote” (archiereús) aparece 25 vezes em Mateus, 22 no evangelho segundo Marcos,
15 em Lucas, 21 no Evangelho segundo São João e mais 22 vezes nos Atos, além de 17 usos
deste vocábulo na Epístola aos Hebreus, totalizando 122 vezes que essa palavra é utilizada no
26
Novo Testamento. Vocábulos relacionados ao sacerdote, como “sacerdócio” (hierosýne ou
hieráteuma) aparecem também algumas vezes ao longo de todo o Novo Testamento.59
Destes dados já colocados, percebemos que nos escritos paulinos 60 há uma ausência
quase completa do tema e a Carta aos Hebreus menciona mais vezes o tema, que também
aparece na Primeira Carta de Pedro e no Apocalipse. Se nossa pesquisa se aprofunda, nesse
sentido, e colocamos um filtro nessas menções a termos “sacerdotais”, buscando apenas as
ocasiões em que o vocabulário sacerdotal foi aplicado a Cristo ou aos cristãos temos um novo
quadro de dados.
A palavra “sacerdote” (hiereús) não aparece atribuída a Cristo, ou a seus discípulos,
nenhuma vez nos Evangelhos, nem nos Atos, mas é usada 7 vezes na Carta aos Hebreus, nesse
sentido, e 3 vezes no Apocalipse. Já a palavra sumo sacerdote (archiereús) é usada 10 vezes na
carta aos Hebreus indicando Cristo. Palavras relacionadas, tais como, sacerdócio (hierosýne e
hieráteuma) aparecem respectivamente 1 vez na carta aos Hebreus e 2 vezes na Primeira Carta
de Pedro.61 Logo, destas informações, temos que somente a Carta aos Hebreus aplica a Cristo
o título de sacerdote ou sumo sacerdote e a Primeira Carta de Pedro e o Apocalipse mencionam
o sacerdócio ligado aos fiéis cristãos.
Poderíamos pensar que como é um tema pouco mencionado e totalmente ausente em
tantos livros do Novo Testamento, poderia se dizer que havia uma compreensão que Jesus não
era sacerdote, não tinha nenhuma ligação com essa realidade. Essa posição, contudo, não é
formulada em nenhuma parte do Novo Testamento e a ausência de uma negativa sobre o
sacerdócio de Cristo é importante, pois demonstra que não havia contrários a esse
entendimento, ainda que ninguém tenha feito uma formulação teológica, tal como fez o autor
da carta aos Hebreus, que ora analisaremos.62
A Epístola aos Hebreus traz muitas questões para os exegetas, devido à sua
originalidade frente a outros escritos neotestamentários. Uma dessas questões é quanto à autoria
do texto da carta, pois, “a Igreja do Ocidente, até o fim do séc. IV, recusou-se a atribuí-la a São
59
Cf. VANHOYE, 1990, p. 55.
60
Cartas escritas por São Paulo: Primeira e Segunda Cartas aos Tessalonicenses, Primeira e Segunda Cartas aos
Coríntios, Carta aos Gálatas, Carta aos Romanos, Carta aos Filipenses, Carta aos Efésios, Carta aos Colossenses,
Primeira e Segunda Cartas a Timóteo, Carta a Tito e Carta a Filêmon. Cf. Introdução às Epístolas de São Paulo,
Bíblia de Jerusalém, p. 1956-1964.
61
Cf. VANHOYE, 1990, p. 56.
62
Cf. VANHOYE, 1990, p. 57.
27
Paulo; e se a do Oriente aceitou esta atribuição, não foi sem fazer às vezes certas reservas no
tocante à sua forma literária (Clemente de Alexandria, Orígenes)”63. Contudo, Scott Hahn,
teólogo americano, comenta que houve um caminho de atribuição ou não da autoria a São
Paulo, pois, se no século IV santos como Agostinho e Jerônimo aceitavam tal ideia e no período
de Santo Tomás de Aquino ficou amplamente aceita tal teoria, no século XVI, Martinho Lutero
contestou a autoria paulina da Carta aos Hebreus, atribuindo a Apolo de Alexandria a redação.
No Concílio de Trento a carta aos Hebreus foi listada como carta de São Paulo, mas hoje “a
maioria dos estudiosos rejeita uma visão estrita da autoria paulina da carta aos Hebreus”64.
Existem aproximações entre o texto da carta aos Hebreus e outros escritos que constam
no corpus paulinum65. Temas como a Lei antiga dada por meio dos anjos que aparece em Hb
2,2 e em Gl 3,19; Abraão que aparece como exemplo da fé em Hb 6,12-15 e em 11,19, tal como
em Rm 4,17-21; e a Aliança do Sinai que é colocada em oposição à Nova Jerusalém em Hb
12,18-24 e em Gl 4,24-26. Além dos temas, também o fato de citar Timóteo em 13,23 e a
linguagem faz lembrar das cartas que Paulo escreveu as cartas pastorais e as do cativeiro.66
A respeito da autoria da carta, podemos afirmar com razoável certeza, em nossos
tempos que não houve uma autoria direta de São Paulo, isto é, este texto não saiu de sua pena,
mas pode ter sido escrita por um discípulo seu ou naquele ambiente. A este propósito, como
fechamento do tema da autoria, citamos a reflexão a seguir:
63
Introdução à Epístola aos Hebreus in Bíblia de Jerusalém, p. 1083.
64
HAHN, Scott; MITCH, Curtis; WALTERS, Dennis. A carta aos hebreus: cadernos de estudo bíblico. Trad.
Rafael Tavares. Campinas: Ecclesiae, 2020, p. 19.
65
Termo usado para se referir ao conjunto dos escritos de São Paulo, apóstolo.
66
Introdução à Epístola aos Hebreus in Bíblia de Jerusalém, p. 1083.
67
HAHN; MITCH; WALTERS, 2020, p. 20.
28
sendo feitos. Outro ponto é que em 8, 13 dá-se a ideia de que a Antiga Lei ainda não tinha
desaparecido, mas que estava prestes a acontecer, da qual o Templo é imagem simbólica. Além
disso, o fato de que o autor jamais fala da destruição do Templo como fato consumado faz
pensar que ele está datado de antes do ano 70 d.C. quando o Templo de Jerusalém foi destruído.
Esse silêncio é também emblemático, já que seria um argumento factual para demonstrar que a
Antiga Aliança foi sucedida pela Nova. A partir desses pontos, podemos datar a carta aos
Hebreus como sendo da década de 60 d.C.68
Quanto ao tema da carta aos Hebreus já mencionamos que ela trata bem
profundamente sobre o sacerdócio de Jesus Cristo, aliás, é a única carta que trata deste tema em
todo o Novo Testamento. Também há uma teologia da Aliança muito bem refletida neste texto,
mas que só nos tocará de maneira a elucidar melhor o primeiro tema a que aludimos, o
sacerdócio de Cristo. A propósito do tema sacerdotal citamos uma apresentação sumária da
Epístola sob essa ótica:
A carta aos Hebreus descreve Jesus Cristo como o sumo sacerdote do céu (4,14), que
ofereceu o seu sangue de uma vez por todas para a nossa redenção (9,11-14) e agora
intercede junto do Pai em nosso favor (7,25). O seu ministério no santuário celestial
(8,1-6) foi feito possível pela sua ressurreição para uma vida imortal (7,16) e pela sua
ascensão junto à presença de Deus (9,24). Ele é “Aquele que vem” segundo a
descrição do sacerdote eterno do Sl 110,4, entronizado como rei junto ao Senhor e
ordenado como sacerdote à semelhança de Melquisedec (Hb 7,1-19). Este sacerdócio
“melquidedequiano” de Cristo é em tudo superior ao sacerdócio de Aarão e seus
descendentes estabelecido sob Moisés. Entre as deficiências da ordem de Aarão,
podem-se elencar: seus ministros oficiam na terra (8,4); estão marcados pelo pecado
(5,3); são continuamente substituídos por seus sucessores por causa da morte (7,23);
o seu ofício não é dado sob juramento (7,21); e os seus sacrifícios são incapazes de
tirar o pecado (7,27; 10,1-4). Cristo, ao contrário, ministra no santuário do céu (8,1-
2); é completamente sem pecado (4,15); a sua imortalidade elimina a necessidade de
sucessores (7,24); o seu sacerdócio é estabelecido sob juramento divino (7,20-21); e
o seu único sacrifício é o meio definitivo para a expiação dos pecados (10,5-18).69
Assim, investigamos qual foi o autor da Carta aos Hebreus, sua datação e um de seus
temas principais, que nos interessa, o sacerdócio de Cristo. Agora, cabe-nos apresentar uma
estrutura, um esquema em que a carta pode se dividir, até porque isto nos ajudará em nossa
investigação conduzida no presente capítulo. Ainda que se possa dividir a Carta aos Hebreus
em esquemas diferentes, a depender da ótica pela qual se visualiza, a nós interessa a divisão em
torno do tema “sacerdócio de Cristo”, por isto, podemos entrever a seguinte estrutura no texto70.
68
HAHN; MITCH; WALTERS, 2020, p. 20.
69
HAHN; MITCH; WALTERS, 2020, p. 21-22.
70
Cf. VANHOYE, 1990, p. 79-80.
29
I. Exposição geral de Cristologia 1,5 – 2,18
1. Cristo, Filho de Deus 1,5-14
– Exortação 2,1-4
2. Cristo, irmão dos homens 2,5-18
II. Primeira exposição sobre o sacerdócio de Cristo (aspectos fundamentais) 3,1 – 5,10
1. Sumo sacerdote digno de fé, porque Filho de Deus 3,1-6
– Alerta contra a falta de fé 3,7 – 4,14
2. Sumo sacerdote misericordioso, porque solidário com os homens 4,15 – 5,10
III. Segunda exposição sobre o sacerdócio de Cristo (aspectos específicos) 5,11 – 10,39
– Chamada de atenção 5,11 – 6,20
1. Nova ordem sacerdotal 7,1-28
2. Nova realização sacerdotal 8,1 – 9,28
3. Definitiva eficácia sacerdotal 10,1-18
– Consequências para a vida cristã 10,19-39
Agora com o esquema bem definido temos o caminho aberto para investigar alguns
aspectos do tema sacerdotal na Epístola, não esgotando o tema, mas mencionando seus pontos
principais.
Vimos que a carta aos Hebreus foi escrita por volta do ano 60 d.C., ora, temos então
um hiato considerável entre o período que Jesus morre, ressuscita, sobe aos céus e a Igreja está
iniciando até a escrita da carta que ora estudamos, esse período é de pelo menos mais de 20
anos. Mas a Igreja não ficou sem uma doutrina nesse período e uma catequese já era dada aos
fiéis sobre o mistério de Cristo. Convém analisarmos qual a relação que pode haver entre a
catequese cristã primitiva e o tema do sacerdócio em Jesus Cristo.
A princípio, é preciso mencionar que nenhum outro texto antes da carta aos Hebreus
havia usado tantos termos cultuais ligados ao Antigo Testamento levando a perceber em Cristo
o sacerdócio. O texto mais antigo que assimila Cristo ao sacrifício pascal é I Cor 5,7: “[...] nossa
Páscoa, Cristo, foi imolado”. Também Rm 3,25 (Deus o expôs como instrumento de
propiciação, por seu próprio sangue, mediante a fé), I Jo 2,2 (Ele é a vítima de expiação pelos
30
nossos pecados. E não somente pelos nossos, mas pelos de todo o mundo) e I Jo 4,10 (Nisto
consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele quem nos amou e enviou-nos
seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados) aproximam Jesus de termos cultuais,
mas jamais chamam-no de sacerdote. Em I Pe 1,18-19 se chama Cristo de “cordeiro sem
defeito” e em Ef 5,2 diz-se que Cristo “ofereceu-se” em sacrifício. Na última menção, Cristo
aparece como aquele que se ofereceu, isto é, ele não sofre a ação, ao contrário, ele a pratica, é
ele quem dá a sua vida. Mas poderíamos afirmar que ele é sacerdote com base nisso? O autor
da Carta aos Hebreus faz exatamente esse caminho, partindo dessa ideia já presente na
catequese cristã primitiva.
A Epístola aos Hebreus não chama Jesus de sacerdote desde o início, ela só o faz pela
primeira vez em 2,17, onde podemos notar uma dupla inovação: tanto em relação à ideia antiga
de sacerdócio quanto em relação à catequese cristã primitiva. Aqui a condição para ser sumo
sacerdote é que Jesus se tornasse em tudo semelhante aos irmãos: “Convinha, por isso, que em
tudo se tornasse semelhante aos irmãos, para ser, em relação a Deus, Sumo Sacerdote
misericordioso e fiel, para expiar assim os pecados do povo” (Hb 2,17). Ao contrário do
sacerdócio antigo, onde era preciso fazer ritos de separação, para o sacerdócio de Cristo é
necessário que ele se torne em tudo semelhante aos irmãos. Enquanto o sacerdócio judaico
exigia ausência de defeito físico e nenhum contato com a morte, Jesus se tornou sumo sacerdote
porque assume nossa carne, participa de nossos sofrimentos e até mesmo de nossa morte71.
A catequese cristã primitiva tratava o mistério de Cristo em termos não cultuais ou
sacerdotais, mas é possível perceber relações que existem entre as formas de apresentar a
mesma realidade, Jesus. Há uma correspondência entre Lc 24,26 e Hb 2,17, por exemplo,
vejamos esquematicamente:
“Não era preciso que o Cristo sofresse tudo “Convinha [...] que em tudo se tornasse
isso e entrasse em sua glória?” (Lc 24,26) semelhante aos irmãos, para ser [...] Sumo
Sacerdote” (Hb 2,17)
À pergunta “não era preciso?” feita no Evangelho a Carta responde que “Ele devia”.
À expressão “que o Cristo sofresse” a Carta menciona “que em tudo se tornasse semelhante aos
irmãos” e à “glória” mencionada por São Lucas corresponde o “tornar-se Sumo sacerdote”. O
que podemos notar é uma transposição da linguagem evangélica para uma linguagem
71
Cf. VANHOYE, 1990, p. 62-63.
31
sacerdotal. A paixão de Cristo se torna consagração e sua glória é tornar-se sumo sacerdote. Hb
2,17 é resultado de um caminho de raciocínio que trata das duas fases de Cristo: sofrimento e
glória. A paixão é o caminho para alcançar a glória, que consiste em ser Sumo sacerdote72.
Em Hb 1,5-14, Cristo é apresentado glorioso e em Hb 2,5-18 se conta como Cristo
chegou à glória, ou seja, em retrospectiva, tal como era na catequese cristã primitiva (cf. At
2,36). No primeiro capítulo da carta aos Hebreus (1,5-14), usa-se muitas profecias do Antigo
Testamento que eram comuns para os cristãos e em Hb 2,5-18 o autor continua usando essas
citações conhecidas dos primeiros cristãos. Ora, desse ensinamento que já era tradicional para
os cristãos, o autor passa a uma linguagem sacerdotal fundada no fato de que Jesus é o messias
sentado à direita do Pai, conseguiu a glória morrendo na cruz e tornou-se perfeito mediador
entre Deus e os homens, em outras palavras, sumo sacerdote.73
Como a linguagem para se falar do mistério de Cristo muda, o messianismo real dá
lugar à linguagem sacerdotal. Ao invés de falar de uma “morte” por nós, fala-se da “purificação”
dos pecados. O amor de Cristo pela justiça o leva ao sacrifício que realiza esta purificação. Em
Hb 2,9 faz-se a relação de causalidade entre a Paixão e a Glória. Mas de que glória podemos
dizer que uma pessoa consegue ao sofrer? Seria essa uma glória da realeza? A nós parece
estranho tal relação de causa e efeito, mas o autor da Carta aos Hebreus faz um aprofundamento
na tese apresentada.74
Jesus em sua morte é glorificado como Sumo sacerdote por dois aspectos
complementares, onde um causa o outro: obediência filial a Deus e solidariedade fraterna com
os homens. Jesus tem a glória real e sacerdotal, ele alcança essa glória por ter sofrido a morte.
A solidariedade de Cristo com os homens foi total, pois, ele não rejeitou nenhuma das condições
humanas e sua solidariedade é universal, ele morreu por todos. Jesus assume nossa condição
para abrir-nos um caminho de salvação, nossa existência provada e dolorosa, uma vez assumida
por Cristo, torna-se caminho de libertação. Cristo alcança a glória por meio do sofrimento e
comunica ao homem sua glória. Jesus morre como homem para ressuscitar e abrir um caminho
de salvação para o homem.75
O autor da carta aos Hebreus inova ao fazer notar que a posição que Cristo assume é
aquela que se esperava de um sumo sacerdote: ser mediador. Em Hb 2,10 usa-se um verbo grego
72
Cf. VANHOYE, 1990, p. 64-65.
73
Cf. VANHOYE, 1990, p. 66-68.
74
Cf. VANHOYE, 1990, p. 68-69.
75
Cf. VANHOYE, 1990, p. 69-71.
32
que está presente na Septuaginta76 sempre que se fala da consagração dos sacerdotes, a saber, o
verbo teleiun, que significa, “tornar perfeito, levar à perfeição”. Na passagem que ora
mencionamos, se diz que “convinha, de fato, que aquele por quem e para quem todas as coisas
existem, querendo conduzir muitos filhos à glória, levasse à perfeição (teleiun), por meio de
sofrimentos, o Autor da salvação deles” (Hb 2,10). Levando-se em consideração que esse termo
era usado para se referir à consagração dos sacerdotes no Antigo Testamento, podemos entender
que o autor da carta aos Hebreus quer levar-nos à compreensão que a Paixão foi a consagração
de Cristo, o que será tema para nosso estudo mais adiante.77
Pelo imenso amor que Cristo tem pelo Pai e pela solidariedade sem limites que Ele
tem pelos homens, Cristo é intimamente unido a Deus na glória celeste e continua unido a nós:
é o mediador perfeito. O autor reconhece na passagem que citamos que eram necessários os
meios empregados para alcançar-nos a salvação. O autor não fala do aspecto ritual do
sacerdócio, mas do que é essencial, do principal, isso é um fato notável, daí a insistência em
falar do amor a Deus e aos homens em Jesus, isso é o essencial no sacerdócio cristão.78
No Antigo Testamento não se insistia tanto sobre a solidariedade entre o sacerdote e o
povo porque se tinha muito medo que o sacerdote se tornasse indigno de apresentar-se diante
de Deus. Já com Cristo era evidente que, sendo Filho de Deus, o que se precisava esclarecer era
sua ligação conosco, pois, Ele devia participar de toda a nossa realidade para alcançar-nos a
salvação.79 A fé na filiação divina era evidente para os primeiros cristãos, o que se precisava
esclarecer é que Jesus era verdadeiro homem, assumindo nossa condição, numa solidariedade
total, seguindo a máxima teológica de São Gregório de Nissa: “O que não foi assumido, não
pode ser redimido”80.
Todos esses pontos vão nos fazendo adentrar no pensamento que coloca Cristo como
sacerdote, mas não nos explica pormenorizadamente como era esse sacerdócio, quais suas
características, seus atributos, assuntos de nosso próximo ponto de reflexão.
76
Tradução grega do Antigo Testamento, segundo a tradição, feita por 70 rabinos, daí seu nome remeter ao número
setenta.
77
Cf. VANHOYE, 1990, p. 72.
78
Cf. VANHOYE, 1990, p. 72.
79
Cf. VANHOYE, 1990, p. 73.
80
Cf. BENTO XVI, Audiência Geral, 22 de agosto de 2007. Acesso em: 15 de maio 2024. Disponível em:
<[Link]/content/benedictxvi/pt/audiências/2007>.
33
A epístola aos Hebreus esboça uma teologia do sacerdócio de Cristo, ou poderíamos
dizer, uma cristologia sacerdotal, pois entende o mistério de Cristo a partir de seu sacerdócio.
O versículo 17 do capítulo 2 da carta menciona que Cristo se tornou um “sumo sacerdote
misericordioso e fiel”, são dois termos bem importantes para a cristologia sacerdotal, pois são
pontos chave para entender o novo sacerdócio, sob uma nova perspectiva.
Neste ponto de nosso estudo vamos investigar as características do sacerdócio de
Cristo conforme é apresentado na carta aos Hebreus, a saber, sua (1) autoridade, (2)
misericórdia, (3) solidariedade, e (4) eternidade. Não são as únicas características, é verdade,
mas podem ser enumeradas como as principais, dado que nosso estudo precisa focar no
essencial a respeito do tema.
81
Cf. VANHOYE, 1990, p. 81.
34
da carta aos Hebreus quer mostrar que Cristo é o sumo sacerdote que transmite a Palavra
definitiva de Deus e que tem direito a uma adesão sem reservas.82
Em Hb 3,1 fala-se de Cristo como sumo sacerdote da fé que professamos, o que faz-
nos pensar em uma função ativa desse sacerdócio, qual seja, a de proclamar a Palavra para ser
crida. Isso fica claro no uso do termo apóstolo que remete ao uso do mesmo termo em Malaquias
(Cf. Ml 2,7). Ao usar o título de apóstolo o autor põe em evidência no sacerdócio de Cristo o
aspecto de transmissão da Palavra de Deus e o aspecto de autoridade. Sobre esse tema, vale a
pena citar a síntese feita por Vanhoye:
Outro elemento que demonstra a autoridade de Jesus como sacerdote é sua relação
com a “casa de Deus”. A palavra oikós palavra grega que significa casa, aparece seis vezes em
Hb 3,1-6 e isso aponta para o nível da relação de Jesus com Deus, o quanto tem autoridade. Em
Hb 3,2 se fala da “casa”, mas “casa” de quem? Pode ser a casa de Moisés, conforme apontamos
a relação entre Cristo e Moisés (Nm 12,1-8), pode ser também a casa Jesus ou daquele que
constituiu Jesus. Comparando com Nm 12,1-8 sabemos que não é a casa de Moisés, pois, lá se
fala da casa de Deus, pois Ele mesmo diz: “minha casa”. Resta dois sentidos possíveis: Casa de
Cristo ou Casa do Senhor. Não nos parece que seja uma ou outra opção, mas a união das duas,
pois, para o autor da carta aos Hebreus, claramente se trata da casa de Deus, mas ela é, além
disso, a casa de Cristo, ambos estão unidos.84
A análise agora busca o sentido da palavra “casa” nas Sagradas Escrituras e porque ela
traz tanta autoridade ao se dizer que a casa de Cristo é a casa de Deus. No Antigo Testamento
usa-se o termo casa sempre para se designar o santuário. O Targum de Onkelos fala do povo e
de outras realidades como “casa de Deus”, mas sempre ligados ao santuário, pois, não somente
o santuário, bem como os objetos e todas as pessoas que estão ligadas a ele são também casa
de Deus. Citando Hb 3,3 (“Ele foi, de fato, considerado digno de maior honra do que Moisés.
82
Cf. VANHOYE, 1990, p. 82.
83
VANHOYE, 1990, p. 84.
84
Cf. VANHOYE, 1990, p. 84.
35
Pois o arquiteto tem maior honra do que a própria casa”), Jesus é comparado a Moisés, mas se
evidencia sua autoridade superior. Enquanto Moisés gozava de grande autoridade, mas
permanecia sendo “parte da casa de Deus”, Cristo é o arquiteto, o construtor desta casa e,
naturalmente, o construtor é superior à casa que ele constrói. A autoridade de Cristo é de um
nível diferente.85
O tema da casa de Deus como símbolo da autoridade de Cristo é importante devido à
retomada que o autor da carta aos Hebreus faz da promessa que o Senhor fez de que o Filho de
Davi, seu descendente, construiria a casa de Deus, como vemos em I Cr 17,13, que enfatiza os
traços messiânicos desse filho de Davi. Tratando-se do texto de I Cr 17,13 em grego, vemos
que Deus promete que manterá o filho de Davi digno de fé (pistós) na sua casa (oikós), o que
nos remonta ao tema que já tratamos. É a base escriturística que sustenta a cristologia sacerdotal
ligada à doutrina tradicional do messianismo davídico, pois, o descendente de Davi que era
esperado é esse sacerdote digno de fé que construiu a casa de Deus.86
O autor da carta aos Hebreus faz então uma analogia entre um construtor e o Criador,
dizendo que ambos têm uma glória. O construtor tem uma glória semelhante à do Criador,
porque ele também é superior à casa que construiu. Para além das analogias, voltando ao tema
que tratávamos, sobre a casa de Deus construída por Jesus, esta não deve ser imaginada como
parte da criação, portanto, inferior. Ela é uma nova criação que não acabará como este mundo.
Moisés era servidor do Senhor para ser testemunha do que deveria ser dito, já Jesus é o Filho e
sua autoridade é superior, exigindo ainda mais solicitude.87
Em Hb 3,6b o autor passa à concepção cristã do santuário ao afirmar que “esta casa
somos nós”, isto é, tornamo-nos casa de Deus ao sermos casa de Cristo. Para isto “é suficiente
[...] ser dócil à voz do Cristo que lhe chama à esperança e manter a sua adesão a ele” e nos
tornando partícipes de Cristo, os cristãos formam uma comunidade que é “habitação de Deus a
muito melhor título que qualquer edifício material” (tradução nossa)88. Há, portanto, duas
dimensões inseparáveis: o crente está numa relação pessoal com Deus pela mediação de Cristo,
mas vive a fé numa “casa”, numa comunidade.
Por fim, a respeito deste tema da autoridade de Cristo, é interessante mencionar porque
a figura de Moisés apareceu algumas vezes em nossa reflexão. Na primeira seção (Hb 3,1-4,14)
não se fala tanto de Jesus como sumo sacerdote, o que se explica pelo fato de ser Moisés a
85
Cf. VANHOYE, 1990, p. 85.
86
Cf. VANHOYE, 1990, p. 85-86.
87
Cf. VANHOYE, 1990, p. 86-87.
88
VANHOYE, 1990, p. 88.
36
figura de comparação e nunca ser dito que este foi sacerdote. O autor da carta aos Hebreus quis
falar primeiro de Moisés em relação a Cristo para tratar da autoridade que vem da Palavra de
Deus e que tem ligação com o sacerdócio, o que o torna digno de fé, porque é o portador da
Palavra. Para tanto, foi proposital que se comparasse Cristo com a maior autoridade do Antigo
Testamento no que se refere à Palavra de Deus, demonstrando a superioridade de Jesus.89
89
Cf. VANHOYE, 1990, p. 89-90.
90
Cf. VANHOYE, 1990, p. 91.
91
Cf. VANHOYE, 1990, p. 91-93.
37
relação entre o sacerdote e Deus92. “Contemplando Jesus na sua paixão, o autor formou uma
imagem nova do sacerdócio, e foi conduzido a colocar em primeiro plano um aspecto que, até
agora, não tinha chamado muito a atenção” (tradução nossa) 93
, a saber, a compaixão e a
solidariedade sacerdotal, tema de nosso próximo ponto de reflexão, de certa forma ligado à
misericórdia sacerdotal.
Porquanto todo Sumo Sacerdote, tirado do meio dos homens é constituído em favor
dos homens em suas relações com Deus. Sua função é oferecer dons e sacrifícios pelos
pecados. É capaz de ter compreensão por aqueles que ignoram e erram, porque ele
mesmo está cercado de fraqueza. Pelo que deve oferecer sacrifícios tanto pelos
pecados do povo quanto pelos seus próprios. Ninguém, pois, se atribua esta honra,
senão o que foi chamado por Deus, como Aarão!
Em primeiro lugar, o sumo sacerdote aparece ligado aos homens, tanto na origem
quanto na destinação, é sacerdote para os homens. Para oferecer dons e sacrifícios de expiação
pelos pecados do povo, mas não especifica o que deve ser ofertado, não fala da casa de Deus.
O foco do autor é a situação concreta humana que necessita de expiação, pois estamos cheios
de debilidade e malícia, daí a necessidade do sacerdote e essa necessidade é expressa pela
primeira vez na carta, usando um vocabulário técnico ritual.94
O sacerdote, desde o Antigo Testamento, tem pecados e precisa oferecer sacrifícios
também pelos seus pecados. Ainda assim, por vezes diz-se do sumo sacerdote como de
extraordinária dignidade. A carta aos Hebreus fixa seu olhar sobre um traço fundamental do
sacerdócio, sua solidariedade com os homens pecadores. A solidariedade nada mais é que a
participação na sorte dos que padecem algo, a compreensão e mais que isso, assumir o
sofrimento do outro. Cristo, nesse sentido, é sacerdote porque é capaz de ter compreensão pois
sofreu nossas dores e se compadece dos que ignoram e erram95.
92
A esse respeito, conferir Ex 32,26 e Nm 25,11.
93
VANHOYE, 1990, p. 95.
94
Cf. VANHOYE, 1990, p. 95-96.
95
Termo usado no Antigo Testamento para atenuar a culpa, em contraposição àqueles que cometiam os pecados
com “a mão levantada”. (Cf. VANHOYE, 1990, p. 97)
38
Um outro aspecto que fica evidente no trecho que ora estudamos (5,1-4) é a humildade
necessária ao sacerdote. Como Aarão, só é sacerdote quem é chamado. “A solidariedade com
os homens miseráveis conduz à humildade diante de Deus” (tradução nossa) 96
. Essa
solidariedade que é vista também sob o prisma da humildade, podemos sintetizar da seguinte
maneira: “[...] em vez de separação ritual, encontramos solidariedade existencial; em vez de
exaltação, encontramos extrema humilhação, em vez de proibição de contato com a morte,
encontramos a exigência de aceitar o sofrimento e a morte” (tradução nossa)97.
Neste sentido é que Jesus se tornou a garantia de uma aliança melhor. E além do mais,
os outros tornaram-se sacerdotes em grande número, porque a morte os impedia de
permanecer. Ele, porém, visto que permanece para a eternidade, possui sacerdócio
imutável. Por isso é capaz de salvar totalmente aqueles que por meio dele, se
aproximam de Deus, visto que ele vive para sempre para interceder por eles (Hb 7,22-
25).
Adiante trataremos do tema da eternidade de seu sacerdócio sob a ótica dos textos que
mencionam Melquisedec. Tendo claras algumas características do sacerdócio de Cristo, agora
refletiremos sobre como a carta aos Hebreus explica o fato de Jesus ter se tornado sacerdote.
96
VANHOYE, 1990, p. 98.
97
VANHOYE, Albert. La novedad del sacerdócio de Cristo. Disponível em:
<[Link] Acesso em: 01 de abril de 2023.
39
2.5 COMO CRISTO TORNOU-SE SUMO SACERDOTE? ANÁLISE DE HB 5,5-10
Deste modo, também Cristo não se atribui a glória de tornar-se Sumo Sacerdote. Ele,
porém, a recebeu daquele que lhe disse: Tu és meu Filho, hoje te gerei... Conforme
diz ainda, em outra passagem: Tu és sacerdote para o éon, segundo a ordem de
Melquisedec. É ele que, nos dias de sua vida terrestre, apresentou pedidos e súplicas,
com veemente clamor e lágrimas, àquele que o podia salvar da morte; e foi atendido,
por causa da sua submissão. E embora fosse Filho, aprendeu, contudo, a obediência
pelo sofrimento; e, levado à perfeição, se tornou para todos os que lhe obedecem
princípio de salvação eterna, tendo recebido de Deus o título de Sumo Sacerdote,
segundo a ordem de Melquisedec. (Hb 5,5-10)
Deste trecho, podemos distinguir três partes: a) Como se tornou sacerdote (5,5-6); b)
A oferta dramática (5,7-8); e c) Resultado dessa oferta (5,9-10). Comparando 5,5 e 5,4 notamos
um paralelismo, pois, Cristo não se atribuiu esta honra mas a recebeu do Pai. Em 5,5-6 é
colocada ênfase no fato da humildade de Cristo que escolheu humilhar-se, fazer-se pequeno,
igual a nós em tudo, exceto no pecado. No versículo 5 o autor faz uma citação do Salmo 2,
demonstrando que é Deus quem fala sobre Jesus e no versículo 6 menciona o salmo 109 para
nomear Cristo como sacerdote com base escriturística.98
A respeito de Hb 5,8 o autor faz notar que existem duas perspectivas diferentes sobre
a oferta de Cristo que se complementam: na primeira, Deus faz a vontade de Cristo ao escutar
suas orações e na segunda, Cristo se submete dolorosamente à vontade de Deus. As duas
perspectivas, na verdade, se complementam e são características da condição humana, o que
demonstra até que ponto Cristo se tornou um de nós. Ao tratar dos “dias de sua vida terrestre”,
o foco está em falar da humanidade de Cristo, sua mortalidade.99
98
Cf. VANHOYE, 1990, p. 99-100.
99
Cf. VANHOYE, 1990, p. 101.
40
O autor apresenta Jesus em 5,7 como aquele que rezou e chorou a Deus, evocando toda
sua vida, seus sofrimentos, mas sobretudo a Paixão. Ele apresenta a Paixão como uma oração
que é oferta. Ao evocarmos Hb 5,1 e lembrarmos que a função do sacerdote é oferecer
sacrifícios, aqui em 5,7 vemos uma indicação clara que a Paixão é a oferta sacerdotal de Jesus.
A respeito do fato de Jesus rezar e ser ouvido, sendo liberado da morte, os exegetas têm diversas
opiniões. Harnack pensa que um copista apagou o “não foi ouvido” do texto original, já
Jeremias diz que Cristo foi ouvido no sentido de que morre, mas ressuscita. Já nosso autor,
Vanhoye, pensa que é melhor manter a imprecisão da resposta à pergunta, para que as diversas
possibilidades sejam respeitadas, já que assim se manifesta o dinamismo próprio da mensagem
divina.100
Há quem diga que “foi ouvido” porque Cristo perdeu o medo da morte, mas não parece
que essa ideia se sustente na língua grega, em que foi escrita a carta. Outros dizem que Cristo
foi ouvido após a angústia. O que importa é que o termo eulabeia usado no texto nos aponta
para o “temor religioso”, “respeito”, “piedade”, razão pela qual Cristo foi ouvido. O dinamismo
interno de todo esse trecho é mostrar que na oração verdadeira não importa tanto o objeto da
oração, mas a relação com Deus e a união das duas vontades no amor.101
A esse respeito, citamos textualmente um trecho da obra que nos ajuda a entender
profundamente como foi essa oração de Cristo antes de sua oferta:
Adiante, no trecho que citamos da carta aos Hebreus, o autor menciona que Cristo
aprendeu a obediência pelo sofrimento. É uma experiência universal que o sofrimento leva ao
aprendizado. Na Bíblia, o sofrimento aparece como um momento de relação pessoal com Deus,
onde Ele se mostra ao homem e o transforma, o faz dócil. Sofrendo, aprendemos a obediência
que nos une a Deus. Cristo não precisava sofrer para aprender a obediência, mas isso nos mostra,
mais uma vez, a radicalidade da encarnação, pois nós precisávamos sofrer, não éramos dóceis.
100
Cf. VANHOYE, 1990, p. 102-103.
101
Cf. VANHOYE, 1990, p. 103-104.
102
VANHOYE, 1990, p. 104.
41
Em Cristo foi feito um novo homem, uma nova criação, por isso se diz que Ele é o construtor
da casa de Deus, da nova casa de Deus, que é o coração do homem unido ao coração de Cristo,
aí Deus habita, porque é recriado. A ação de Cristo consiste em invocar a ação de Deus na
oração e acolhê-la na obediência, num sofrimento educativo. Isso nos mostra o valor da
obediência para a vida espiritual.103
Por fim, a terceira parte do trecho que ora estudamos, Hb 5,9-10 pode ser dividida em
três partes: a) levado à perfeição; b) tornou-se causa de salvação; e c) sendo proclamado sumo
sacerdote. A transformação de Cristo (a) e a proclamação de seu sacerdócio (c) parecem
convergir para colocá-lo em grau de oferecer a todos a salvação (b).104
O ponto decisivo é a transformação. No grego, o verbo está no passado, indicando um
fato acabado, completo. Como essa parte é continuação da anterior, podemos entender que
Cristo aprendeu a obediência pelo sofrimento e foi levado à perfeição. A transformação que
aqui se fala, em grego chamada teleiosis, acontece pela oração e acolhida dócil da vontade de
Deus, gerando uma renovação radical da natureza humana, que se torna apta à perfeita
comunhão com Deus. Rezando por si, Cristo rezava por nós, pois ele era um de nós e “a
transformação efetuada nele não é a transformação individual de um homem isolado, é a
transformação do homem, comunicável a todo homem” (tradução nossa)105.
Em 5,10 é proclamado que Cristo é Sumo Sacerdote, tendo em vista o que vem antes,
podemos afirmar que seu sacerdócio é o modo pelo qual alcançará a salvação para os seus. Há
uma relação profunda entre Hb 2,17 e 5,10, porém, entre uma e outra passagem há um
desenvolvimento. Em 5,10, Cristo “levado à perfeição” tem dois aspectos: Cristo assemelhou-
se ao homem e o homem foi elevado, em Cristo, à perfeição. O paradoxo é que a perfeição
(elevação) vem pela assimilação (abaixamento). A chave desse movimento está nas disposições
interiores de Cristo, que, precisamente por serem interiores e não exteriores, que vem e vão,
eram duradouras, quais sejam, (1) sua total docilidade a Deus e (2) seu amor fraterno pelos
homens.106
Esta transformação se torna, para Cristo, uma consagração sacerdotal. O verbo teleiun
usado em 5,9 é o mesmo que no Pentateuco significa a consagração sacerdotal. É um uso técnico
e o autor da carta aos Hebreus parece saber, dado seu conhecimento do Antigo Testamento. O
autor aproxima então a consagração de Cristo e a consagração dos sacerdotes judeus, fazendo
103
Cf. VANHOYE, 1990, p. 105-106.
104
Cf. VANHOYE, 1990, p. 106.
105
VANHOYE, 1990, p. 107.
106
Cf. VANHOYE, 1990, p. 107-108.
42
notar que há continuidade entre o sacerdócio antigo e Cristo quando, ao falar em Aarão (5,4)
diz que, do mesmo modo, Cristo foi chamado por Deus (5,5). É próprio da segunda parte da
carta demonstrar esta continuidade e semelhança, primeiro em relação a Moisés (3,2) e agora
Aarão (5,4-6).107
De tudo o que dissemos neste tópico, podemos entender como Cristo se tornou Sumo
Sacerdote, a saber, porque o Pai o instituiu assim, porque ele foi obediente e submisso à vontade
do Pai e ofereceu preces, súplicas e o perfeito sacrifício. Cristo era verdadeiramente homem e
verdadeiramente Deus, e sendo plenamente das duas naturezas, operou a união delas,
alcançando para nós a glória de Deus, pelo seu abaixamento. O sacerdócio de Cristo, tal como
vimos, tem muitas características e uma delas é a eternidade, pois, depois de chegar à perfeição,
Cristo foi consagrado, sendo portador de um sacerdócio eterno. Sobre a eternidade do seu
sacerdócio, temos agora ocasião de analisar em relação à figura de Melquisedec.
107
Cf. VANHOYE, 1990, p. 107-108.
108
Cf. HAHN; MITCH; WALTERS, 2020, p. 42.
109
Cf. Nota de rodapé (b) em Gn 14, 18, Bíblia de Jerusalém.
43
humano, pois, do segundo não temos uma genealogia, não se diz quem são seus pais, nem sobre
seu nascimento nem sobre sua morte, Melquisedec aparece nas Sagradas Escrituras e
desaparece misteriosamente. Diferente do sacerdócio levítico-aarônico, Cristo é sacerdote por
ordem divina, não pela descendência carnal. Além disso, “Abraão, irmão mais velho de Aarão,
reconheceu o sacerdócio de Melquisedec, dando-lhe o dízimo e recebendo sua bênção; por isso,
o sacerdócio que descendia de Abraão devia esperar por aquele sacerdócio maior”110,
sacerdócio este que já tinha sido reconhecido por ele, qual seja, o sacerdócio de Cristo.
Abordaremos agora a relação entre o personagem bíblico Melquisedec e o sacerdócio
de Jesus Cristo, demonstrando que o sacerdócio deste existe sob uma nova forma, que não
aquela dos levitas. Trata-se de uma investigação que se volta agora para o capítulo 7 da carta
aos Hebreus. Enquanto em textos anteriores, o autor havia demonstrado a continuidade e
semelhanças que haviam entre o sacerdócio de Cristo e os sacerdotes antigos111, agora passamos
a traços específicos do novo sacerdócio, preservando o essencial, ocorrem mudanças e o
cumprimento dos desígnios de Deus.112
De Hb 5,11 a 6,20 o autor faz uma exortação e somente em 7,1-28 ele trata
efetivamente do que falava em 5,10, portanto, podemos considerar 7,1 como continuação direta
de 5,10, sobretudo para fins da nossa pesquisa. Podemos entrever aqui três partes da estrutura
que apresentamos anteriormente, apresentando os traços específicos do sacerdócio de Cristo,
na seguinte ordem: a) A posição pessoal do sacerdote (7,1-28); b) A atividade sacrifical do
sacerdote; e c) Os frutos desta atividade (10,1-18).113
Em 6,20 o autor retoma o versículo que será explicado ao longo do próximo capítulo
da carta, isto é, que Cristo foi feito sacerdote “segundo a ordem de Melquisedec”. Em 7,28 o
autor retoma o tema de 5,9, sobre Cristo “ter sido levado à perfeição” e que será explicado em
8,1-9,28. Em 9,28, o autor da carta retoma o tema de 5,9b ao tratar da salvação, que será
explicada em 10,1-18.114
A respeito de Cristo como sumo sacerdote segundo a ordem de Melquisedec, o
pensamento do autor parte de Cristo contemplado como Sumo Sacerdote, como cumprimento
do Sl 110,4 que diz que “Iahweh jurou e jamais desmentirá: ‘Tu és sacerdote para sempre,
segundo a ordem de Melquisedec”. Depois disso, o autor da carta aos Hebreus chega à figura
110
McKENZIE, 1983, p. 549.
111
Isso foi feito quando tratamos do capítulo 5 da carta aos Hebreus, que do versículo 1 a 4 fala dos sacerdotes
antigos e do versículo 5 a 10 trata de Cristo como sacerdote, mas sempre fazendo uma relação entre eles, como
por exemplo, ao dizer que Aarão foi chamado por Deus, bem como Jesus que recebeu o sacerdócio do Pai.
112
Cf. VANHOYE, 1990, p. 117.
113
Cf. VANHOYE, 1990, p. 118-120.
114
Cf. VANHOYE, 1990, p. 119.
44
de Melquisedec, mas não simplesmente fazendo uma menção a Gn 14,18-20. Em Hb 6,20 resta
evidente que o ponto de partida é Cristo glorificado e Melquisedec aparece como um
precursor115, como uma prefiguração deste mesmo Cristo glorificado que é sacerdote para a
eternidade, sem início e sem fim.116
Podemos fazer um paralelo entre Hb 6,20 e 7,3, onde se diz que Jesus tem um
sacerdócio que “permanece para a eternidade” e Melquisedec é sacerdote “perpétuo”. Vanhoye
explica que em relação a este último trata-se de um sacerdócio sem interrupção, como
prefiguração do sacerdote que permanece para a eternidade, o verdadeiro sacerdote, o Filho de
Deus. O autor colhe das etapas da Revelação o sentido do sacerdócio, ao notar que Jesus
glorificado é o cumprimento do Sl 110 e a realização do que era prefigurado em Melquisedec,
apresentado em Gn 14,18-20.117
Melquisedec pode ser entendido como prefiguração de Cristo por diversos motivos,
dos quais apontamos alguns. O próprio nome “Melquisedec” pode significar “rei de justiça” e
“rei de paz”, os dons que se esperava do rei-messias. Depois, diz-se que ele era rei de Salém e
sacerdote do Deus Altíssimo, o que une a autoridade real e sacerdócio. Sobre Gn 14, notamos
que o silêncio da Escritura é importante. Sempre era apresentada a genealogia dos sacerdotes e
sobre Melquisedec nada se é dito, demonstrando-se tratar de um sacerdócio todo particular, sem
início nem fim.118
Em Hb 7,3 se diz que Melquisedec “se assemelha ao Filho de Deus”, pois não tem
genealogia humana nem limitação no tempo. Mas existem possibilidades para essa semelhança,
seria na preexistência eterna do Filho de Deus, na sua existência humana ou na glória. Não pode
ser na preexistência eterna, porque o Filho sempre foi Filho mas nem sempre foi sacerdote, pois
já vimos que a própria carta aos Hebreus afirma que ele “tornou-se sacerdote”. Também não
pode ser em sua existência humana, pois, Cristo tinha uma mãe, tinha uma genealogia, sua vida
teve início e fim, diferentemente de Melquisedec.119
A semelhança entre Cristo e Melquisedec, sob o ponto de vista da filiação divina, vem
então na glória. É sobre Cristo glorificado que se aplica o texto, pois, no ressuscitado não se
tem pai nem mãe, nem genealogia, já que ele é o primogênito da nova Criação, é este o sacerdote
que Melquisedec prefigurava. Para o autor da carta não era suficiente que Cristo fosse Filho de
Deus para ser “sacerdote”, Ele precisava de uma “consagração” para levar à plenitude os dois
115
Cf. HAHN; MITCH; WALTERS, 2020, p. 42.
116
Cf. VANHOYE, 1990, p. 121.
117
Cf. VANHOYE, 1990, p. 122.
118
Cf. VANHOYE, 1990, p. 122-123.
119
Cf. VANHOYE, 1990, p. 123-124.
45
lados da mediação sacerdotal, isto é, elevar o homem a Deus e trazer Deus aos homens. O foco
na filiação divina é importante porque nesta posição não há ninguém que se compare a Jesus,
essa é a ligação mais estreita que um sacerdote pode ter com Deus e é uma realidade na vida de
Cristo.120
Comentando Hb 7,4-10, percebemos que o autor da carta apresenta as diferenças entre
o sacerdócio levítico e o de Melquisedec, sendo este último considerado superior. Retomando
o encontro de Melquisedec e Abraão, o autor diz que este pagou o dízimo ao primeiro.121 Ora,
os levitas recolhiam o dízimo dos israelitas, todos descendentes de Abraão, mas, este devolveu
o dízimo a um sacerdote sem genealogia, deixando clara a existência deste sacerdócio e que
seria de uma ordem superior, até porque anterior à própria tribo de Levi, sendo “a forma original
e pré-levítica de sacerdócio exercido durante o longo intervalo da história pré-mosaica” 122.
Melquisedec abençoa Abraão e sempre quem abençoa é superior. A bênção é sempre
descendente, vem de Deus (Cf. Jo 1,17) ou de alguém autorizado por Ele. Depois, em 7,8 o
autor evidencia a ausência de limites temporais na existência de Melquisedec em comparação
com Aarão e os outros levitas que morrem. Tudo isso aponta para as diferenças entre os dois
sacerdócios.123
Já tratando-se de Hb 7,11-28, o autor da carta desenvolve essas diferenças já apontadas,
bem como advoga a superioridade do sacerdócio melquisedequiano em relação ao levítico. De
7,11 a 7,19 podemos mencionar o primeiro traço característico do novo sacerdócio, isto é, não
vem pelo sangue, mas é classificado pelo chamado que Deus faz, não é pela descendência, mas
“segundo a ordem de Melquisedec”. Um segundo traço é que o novo sacerdócio é “para
sempre”. Não bastava a ausência de genealogia para garantir essa estabilidade, mas, pela força
da ressurreição de Cristo que temos um sacerdote eterno, com uma vida indestrutível.124
O autor da carta aos Hebreus critica o sacerdócio levítico e demonstra a superioridade
do novo sacerdócio, com a consequente supressão do antigo. Tomando em consideração o
oráculo do Senhor no Sl 110 e relendo os acontecimentos da Paixão e Ressurreição sob essa
ótica, o sacerdócio novo é estável eternamente acima do antigo. Um elemento imprescindível
no antigo sacerdócio é a Lei, ambos com a finalidade de unir os homens a Deus, a Lei cumpre
papel de destaque e ela tutelava até mesmo o próprio sacerdócio. A essa altura, o autor usa o
termo teleiosis perguntando-se se isso acontecia com o sacerdócio levítico. O autor toma o
120
Cf. VANHOYE, 1990, p. 125-126.
121
Cf. VANHOYE, 1990, p. 126.
122
HAHN; MITCH; WALTERS, 2020, p. 43.
123
Cf. VANHOYE, 1990, p. 127.
124
Cf. VANHOYE, 1990, p. 128-129.
46
termo nos dois sentidos possíveis: “ação de tornar perfeito” ou “sacrifício de consagração
sacerdotal”. Ora, uma consagração realmente torna perfeito o sacerdote para aproximar-se de
Deus, por isso o uso desse termo sempre para se referir à consagração sacerdotal.125
O ritual de consagração sacerdotal do Antigo Testamento, no entanto, não operava a
transformação interior necessária para que o sacerdote pudesse se apresentar diante de Deus
com um coração transformado. Eram ritos exteriores que não efetuavam o que simbolizavam,
daí a necessidade de um sacerdócio diferente. Foi na Paixão e Ressurreição de Cristo que foi
operada uma transformação na humanidade de Cristo. Em Hb 7,28 temos a conclusão de tudo
o que foi dito. Os sacerdotes antigos estavam sob a Lei, mas não eram transformados, enquanto
Cristo se tornou perfeito conforme a palavra do juramento (Sl 110,4) e capaz de ligar o homem
a Deus porque recriou a humanidade. O homem Jesus foi consagrado sacerdote e por ser Filho
de Deus é proclamado sacerdote eternamente, conforme o oráculo, e sendo assim o sacerdócio
antigo foi abolido, não tem mais razão de existir.126
Hb 8,3-9,28
125
Cf. VANHOYE, 1990, p. 130-132.
126
Cf. VANHOYE, 1990, p. 133-134.
127
Cf. VANHOYE, 1990, p. 138-139.
47
A estrutura acima nos ajudará a entender a dinâmica do texto que ora analisamos. O
tema central de todo esse trecho é o ato da oferta de Cristo. Sobre o trecho percebemos que B
fala da Aliança antiga e de uma nova Aliança já anunciada por Jeremias e cumprida em Cristo
em B’. Enquanto C se ocupa em descrever o culto antigo, o texto de C’ apresenta Cristo numa
nova liturgia. Já A foca em falar do culto antigo que aparece como terrestre e figurativo,
enquanto A’ apresenta o culto de Cristo que é celeste e autêntico, por isso, definitivo.128
A estrutura aqui é concêntrica, pois o principal está no centro, a ação sacrificial de
Cristo. Apesar do autor sempre retornar ao culto antigo em seus termos, o convite que ele faz é
de avançar. Apesar dos ritos serem parte da religiosidade natural, o ritualismo não pode se tornar
uma forma de fugir da realidade. O sacerdócio de Cristo não é terrestre (8,4) porque ele não
tem genealogia, exigida pela Lei, mas os sacerdotes segundo a Lei eram terrestres, seus
sacrifícios eram impotentes, porque sombras do sacerdócio real. A ação sacerdotal de Cristo
não significa que há uma cerimônia no céu, mas que os acontecimentos o levaram ao céu e ao
cumprimento existencial da consagração. O aspecto cerimonial fica para o culto terrestre,
enquanto sombra do verdadeiro culto celeste, como argumento o autor utiliza o texto de Ex
25,40.129
O autor da carta aos Hebreus reconhece um duplo valor no culto antigo, quais sejam,
que ele é uma imitação humana de um modelo divino e que tem uma função profética de
prefigurar o desígnio de Deus. Em 8,6 se demonstra o papel de mediador de Cristo para uma
nova Aliança. Ora, qualquer aliança entre homem e Deus precisa de um ato de culto com
mediação que supere os obstáculos para unir as partes. Se a Aliança substituiu a antiga é porque
esta não era suficiente, segundo o autor a Aliança antiga foi ab-rogada porque imperfeita e
provisória, esse é o aspecto de ruptura. Em relação ao local, em 9,1 o autor qualifica o culto
antigo como terrestre e lembra que o lugar santo era terrestre, o que não é a melhor qualidade
para o que se pretendia ser o santuário de Deus. O Templo, como também as tendas, eram todas
construções humanas, sendo a verdadeira tenda o Céu. Todas as ofertas segundo os ritos antigos
fazem parte do tempo presente, enquanto Cristo inaugura tempos futuros, nova Criação.130
O autor da carta aos Hebreus menciona que o sacrifício transforma a consciência e
todos os sacrifícios antigos não serviam senão como ritos exteriores, “tornavam perfeitas as
mãos”, não a consciência. Em 9,8 é usada uma linguagem de espaço e movimento, em 9,9 uma
linguagem de transformação pessoal e em 9,11-14 vemos Cristo como a verdadeira via. O nível
128
Cf. VANHOYE, 1990, p. 139-140.
129
Cf. VANHOYE, 1990, p. 140-142.
130
Cf. VANHOYE, 1990, p. 143-147.
48
do culto antigo era terrestre e figurativo, a Aliança era imperfeita e provisória, o lugar santo
inautêntico e os ritos privados de eficácia.131
A análise de Hb 9,11-12 nos oferece a clareza de uma estrutura concêntrica. No início,
Cristo com seu título de Sumo Sacerdote e no final sua entrada no santuário, obtendo uma
redenção eterna. No centro da frase estão os elementos mais importantes: a tenda (o caminho)
e o sangue (o meio). O sangue oferecido é o do próprio Cristo e a tenda nos faz lembrar que
Cristo sentou-se à direita de Deus, Ele reconstruiria o Templo e isso está muito claro na
catequese primitiva, onde Ele é compreendido como o Templo verdadeiro.132
Sobre a Tenda, apresentada no Antigo Testamento, agora é edificada uma nova tenda,
mais perfeita, o próprio Corpo de Cristo glorificado, nova criação. Quando Cristo morre e
ressuscita, ele nos liberou o acesso à tenda verdadeira, capaz de nos colocar em comunhão com
o Senhor. A ressurreição de Cristo não é um retorno à vida simplesmente, mas a transformação
que muda a situação existencial de todos os homens. É uma “tenda maior” porque o Corpo de
Cristo não está limitado como a antiga tenda, Ele tem a capacidade de acolher a todos que
aderirem a ele pela fé. 133
Em Hb 9,14 fala-se que Cristo ofereceu-se a si mesmo, esta é uma linguagem ritual,
Cristo é apresentado como vítima sacrifical e adere voluntariamente à Paixão. Ao aceitar e
abraçar a Paixão, Cristo transforma toda a humanidade, porque transforma o coração do
homem. Jesus é ao mesmo tempo sacerdote e vítima. Podia ser vítima porque não tinha pecados,
era imaculado, e era capaz de oferecer o sacrifício perfeito porque possuía o Espírito eterno,
que cumpre o papel do fogo nos sacrifícios, consumindo a oferta. A força do Espírito Santo
inflama o coração de Jesus inspirando uma adesão perfeita à vontade de Deus e levando a
solidariedade fraterna até a morte.134
Esse sacrifício é cruento, com derramamento de sangue, pois era uma ideia do Antigo
Testamento que uma aliança entre os homens e Deus se funda sobre um sacrifício dessa forma,
nesse sentido, a Nova Aliança cumpre o requisito e é superior à Antiga. Concretamente, o
evento da Paixão é uma morte, não tratada do ponto de vista ritual, mas existencial. A palavra
diatheké pode significar também testamento e todo testamento tem um fundamento, sendo que
o testamento divino, superior, funda-se sobre o único evento irreversível: a morte. O homem
131
Cf. VANHOYE, 1990, p. 148.
132
Cf. VANHOYE, 1990, p. 150-152.
133
Cf. VANHOYE, 1990, p. 153-155.
134
Cf. VANHOYE, 1990, p. 155-157.
49
precisava de uma purificação desde dentro que só poderia ser causado pela morte, para que os
pecados fossem purificados.135
A morte de Cristo é apresentada sob três aspectos: 1) pena expiatória; 2) sacrifício de
Aliança; e 3) condição para entrada em vigor do testamento. A morte de Cristo tirou o obstáculo
do pecado que se opunha à existência de uma verdadeira Aliança e o fez de forma definitiva,
não sendo necessário que se repita, porque alcançou a salvação de uma vez por todas. O
sacrifício de Cristo é eficaz porque é oferta pessoal de obediência, de acordo com a vontade do
Pai (Hb 10,5-7). 136
Até aqui falamos da teleiosis de Cristo, isto é, da consagração e transformação dele,
mas em Hb 10,14 há o anúncio de que Cristo transformou os seus irmãos, levou-nos à perfeição,
tal como Ele, fez-nos participar de sua consagração. Ao contrário do Antigo Testamento, não
somente Cristo pode aproximar do Pai, mas todos os que passarem pela teleiosis. O sacrifício
de Cristo tem como motivação o amor a Deus e aos irmãos, por isso estes mesmos “irmãos” de
Jesus podem se associar à sua consagração, mediante a adesão pela fé.137
Era preciso uma transformação do coração, como Jr 31,33 já anunciava. A nova
Aliança seria marcada no coração. Nas Sagradas Escrituras, o coração é o mais profundo do
homem, seu ser. Para que a Lei fosse escrita no coração era preciso mais que uma emoção e sim
uma luta, uma agonia. Somente Cristo era capaz de passar por essa provação e ter seu coração
marcado por Deus, com a Lei inscrita no profundo de seu coração. A fé é o que nos torna
participantes desta nova vida, em comunhão com Deus, ainda que o sacerdócio enquanto
mediação seja único e exercido somente por Cristo, eis uma novidade cristã que abordaremos
pormenorizadamente no próximo capítulo, o único sacerdócio de Cristo.138
Em Hb 10,19 vemos que as barreiras foram eliminadas e todos podem aproximar-se
de Deus, aderindo a Cristo pela fé. Com a oferta de si mesmo e a assimilação total aos homens,
Cristo nos fez novos homens, capazes de Deus. Outro aspecto é que nos tornamos capazes de
oferecer sacrifícios, mas o maior deles é “a transformação da nossa vida pela caridade divina”
(tradução nossa) 139
, unindo o amor a Deus e aos irmãos, fazendo a vontade de Deus, como
Cristo fez. Jesus é a via, é o mediador de quem recebemos o Espírito Santo e é por Ele que
entramos no Santuário.140
135
Cf. VANHOYE, 1990, p. 160-161.
136
Cf. VANHOYE, 1990, p. 161-169.
137
Cf. VANHOYE, 1990, p. 171-172.
138
Cf. VANHOYE, 1990, p. 173-174.
139
VANHOYE, 1990, p. 176.
140
Cf. VANHOYE, 1990, p. 175-177.
50
Três atitudes marcam o cristão, como vemos em Hb 10,22-25. Primeiro, a fé em Jesus
como mediador, esse é o passo fundamental antes de qualquer lei. Depois, a esperança, porque
colocamos nossa fé no Senhor e esperamos o cumprimento. A terceira atitude é a caridade, pois,
não há espaço para individualismo, os cristãos se ajudam. Também pelos sacramentos a
mediação de Cristo se manifesta, como por exemplo, no Batismo e na Eucaristia. Também os
dirigentes da comunidade cristã são figuras da mediação de Cristo, que nos coloca em
comunhão com o Pai.141
O sacerdócio de Cristo é único, mas não é fechado, pois, todos os batizados participam
de seu sacerdócio. Ele oferece a verdadeira via para alcançar Deus. Ainda que seja-nos dado
participar do sacerdócio de Cristo, é preciso lembrar que ele tem dois aspectos: oferta e
mediação. A nós é dada a participação em poder fazer ofertas, mas a mediação é somente Cristo
quem faz, como por exemplo nos sacramentos.142 Poderíamos resumir da seguinte maneira tudo
o que dissemos sobre o sacerdócio de Cristo, com o que nos afirma Vanhoye:
141
Cf. VANHOYE, 1990, p. 178-183.
142
Cf. VANHOYE, 1990, p. 184.
143
VANHOYE, 1990, p. 183.
51
3. IGREJA: POVO SACERDOTAL
O povo da Nova Aliança selada no altar da cruz por Cristo é um povo sacerdotal,
herdeiro das promessas endereçadas ao povo de Israel. Neste sentido, São Pedro retoma uma
passagem do Antigo Testamento contendo uma promessa para o povo e desenvolve o tema
aplicando a mesma promessa aos cristãos. O versículo que nos será oportuno estudar é o
seguinte: “Mas vós sois uma raça eleita, um sacerdócio real, uma nação santa, o povo de sua
particular propriedade, a fim de que proclameis as excelências daquele que vos chamou das
trevas para sua luz maravilhosa” (I Pd 2,9). Tal promessa está contida em um texto
veterotestamentário que analisaremos adiante.
52
Outro aspecto importante do texto de I Pd 2,1-10 é que nele temos a afirmação do
sacerdócio de todos os fieis. O texto parece tratar-se de uma catequese batismal e isso se torna
ainda mais claro quando menciona o ato de depor os velhos hábitos, lembrando as duas
dimensões do batismo: ruptura e adesão. Ruptura com o mal, com o antigo homem e adesão a
Cristo, com o que a nova vida proporciona e requer. Podemos dividir o texto do segundo
capítulo de I Pd em pelo menos três partes, sendo a primeira de I Pd 2,1-3, com um tom de
catequese batismal, depois de 4-5, apresentando a adesão do cristão ao mistério de Cristo e o
que daí resulta, seguido em 6-10, da prova escriturística da doutrina anunciada.144
Todo esse trecho que ora comentamos está fundado sobre a passagem de Êx 19,6, na
qual vemos Deus chamando seu povo de sacerdotes e que será objeto de nossa investigação a
seguir. O texto diz: “Vós sereis para mim um reino de sacerdotes, uma nação santa”. Sobre essa
promessa, Pedro escreve sobre os cristãos serem sacerdotes.
O texto de Êxodo 19,5-6 está no contexto da Antiga Aliança e nele aparece a promessa
de Deus em eleger Israel para ser uma nação santa, um reino de sacerdotes. Aqui, aparece
claramente a eleição de Israel frente aos outros povos, sua predileção da parte de Deus.
Afirmando que o povo de Israel era um reino de sacerdotes não se está querendo explicar a
organização interna do povo, ou seja, que sacerdotes deveriam estar no governo ou qualquer
outro tipo de organização, senão que o povo de Israel possui uma ligação com Deus superior
aos outros povos, porque todo ele é sacerdotal.145
Desde o início, o sacerdócio aparece como uma instituição divina em Israel, querida
pelo Senhor para manter a relação com Ele. É preciso se precaver de uma interpretação muito
abrangente do sacerdócio, pois, era muito claro para Israel que existiam os sacerdotes
especializados e que a eles competia o contato mais próximo com o Senhor, do qual o episódio
envolvendo Coré é emblemático146. Todo o povo é sacerdotal, mas existem sacerdotes que são
instituídos por Deus para o serviço do altar.
Como sabemos, o Antigo Testamento foi escrito em hebraico, mas traduzido para o
grego, segundo a tradição, por 70 rabinos, daí o nome dado à tradução de Septuaginta. A carta
144
Cf. VANHOYE, 1990, p. 189-190.
145
Cf. VANHOYE, 1990, p. 191-192.
146
“Quando Coré suscita um movimento de contestação contra o privilégio dos sacerdotes e declara: ‘Toda a
comunidade, todos os seus membros são consagrados’, a sua reivindicação se vê rejeitada no modo mais
enérgico, com uma intervenção divina fulgurante” (VANHOYE, 1990, p. 193, tradução nossa).
53
de Pedro usa esta tradução grega para citar Êx 19,6 mas substitui a palavra hiereis por
hieráteuma. A palavra hiereis corresponde a sacerdotes no plural, enquanto a palavra
hieráteuma é uma criação dos tradutores. Esta palavra tem uma tríplice conotação: a) se aplica
a pessoas; b) considerada enquanto grupo; e c) enquanto se caracterizam com uma função
específica. A palavra hieráteuma, portanto, se refere a algo concreto, em resumo, com um
sentido “pessoal-corporativo-funcional”, poderíamos dizer: um organismo sacerdotal e/ou
funcionamento sacerdotal.147
147
Cf. VANHOYE, 1990, p. 194-195.
148
Cf. VANHOYE, 1990, p. 198.
54
explica em versículos precedentes como a condição de “sacerdócio santo” foi conquistada para
todos os que creem em Cristo e são batizados.
O trecho de I Pe 2,4-5 diz o seguinte:
Chegai-vos a ele, a pedra viva, rejeitada, é verdade, pelos homens, mas diante de Deus
eleita e preciosa. Do mesmo modo, também vós, como pedras vivas, prestai-vos à
construção de um edifício espiritual, para um sacerdócio santo, a fim de oferecerdes
sacrifícios espirituais aceitáveis a Deus por Jesus Cristo.
149
Cf. VANHOYE, 1990, p. 200.
150
Cf. VANHOYE, 1990, p. 201-202.
151
Cf. VANHOYE, 1990, p. 203-204.
55
primeiros séculos da Igreja. A metáfora da “casa” faz-nos perceber que cada um tem uma
função, há uma hierarquia, assim como na casa cada pedra cumpre seu papel. A respeito da casa
e de todos os cristãos serem edifícios espirituais em Cristo podemos também citar Ef 2,19-22 e
o texto de Rm 12,1-8 que demonstram que sendo membros do Corpo de Cristo, fazemos parte
desta Casa e cada um tem seu lugar, fazemos parte do todo.152
Não há uma abertura para se falar em igualdade em matéria de sacerdócio. Pedro não
se exclui, negando o sacerdócio ministerial, ele inclui todos os fiéis como um corpo, um
organismo sacerdotal, com funções diferentes para cada membro. Sobre a palavra “presbítero”,
por exemplo, ainda que nos Evangelhos o sentido desta palavra esteja ligado à compreensão
judaica, aqui em I Pe não é assim, pois os presbíteros são aqueles que estão à frente das
comunidades. Em Atos e outras 6 epístolas, o termo presbítero aparece com a conotação cristã
e ao longo dos séculos assume cada vez mais um caráter sacerdotal. A ausência do termo
“presbítero” em I Pe 2,4-5, que ora comentamos, nos faz entender ao menos que o fundamento
do sacerdócio cristão não são presbíteros, mas Cristo, morto e ressuscitado.153
Tanto I Pe 2,4-5 quanto 5,1-5 começam falando da morte e ressurreição de Cristo, ou
seja, o fundamento é o mesmo. A estrutura do edifício espiritual (2,4-10) que era mencionada é
agora apresentada sob outra forma, como “rebanho de Deus” (5,1-5). No primeiro trecho estava
implícita a estrutura necessária, enquanto no segundo trecho fica explícita, ou seja, existem os
que estão à frente, colocados como pastores do povo de Deus, como aqueles que guardam este
edifício espiritual, unidos a Cristo.154
Quanto à ligação entre o sacerdócio e o apostolado, o anúncio do Evangelho, é
importante mencionar o que é dito na Carta aos Romanos: “de ser ministro (leiturgós) de Cristo
Jesus junto às nações, a serviço do Evangelho de Deus, a fim de que as nações se tornem oferta
agradável, santificada pelo Espírito Santo” (Rm 15,16). A palavra ministro, leiturgós, usada
aqui tem um tom fortemente cultual, apesar de não ser unicamente reservada ao culto, é uma
palavra que remete a este tema, ainda mais pelo contexto aqui colocado. O sacerdócio de Paulo
não se dá como o antigo sacerdócio, mas por meio da evangelização, onde o fogo do Espírito
Santo pode ser colocado nos corações, não pela morte de animais.155
Em I Pe 2,5 fala-se de “sacrifícios espirituais”, em oposição aos sacrifícios do Antigo
Testamento. Pedro não fala em sacrifícios espirituais como se fosse um termo filosófico,
152
Cf. VANHOYE, 1990, p. 205.
153
Cf. VANHOYE, 1990, p. 206-208.
154
Cf. VANHOYE, 1990, p. 209.
155
Cf. VANHOYE, 1990, p. 210-211.
56
abstrato, mas como um sacrifício feito pelo poder do Espírito Santo. Para o texto que ora
comentamos, não parece haver de um lado o sacrifício da Eucaristia e do outro as pequenas
ofertas da vida, pois, na realidade as duas se unificam. Para um cristão, o sacrifício é existencial,
porque é submeter-se à vontade de Deus e a Eucaristia é o caminho para unir-se ao sacrifício
de Cristo.156
O contexto geral da Primeira Carta de São Pedro sugere colocar em estreita relação os
sacrifícios espirituais dos cristãos e a imitação de Cristo sofredor. Toda a existência do cristão
deve ser transformada em sacrifício espiritual. A celebração eucarística aparece como o
momento da união com o sacrifício de Cristo. Além disso, o testemunho cristão das maravilhas
de Deus aparece como uma obra de caridade profundamente sacerdotal, difunde a fé e o
dinamismo do amor.157
Enquanto a Primeira Carta de São Pedro mencionava o sacerdócio dos cristãos sob a
ótica do povo sacerdotal, São João, autor do livro de Apocalipse, enfatiza a realeza e o
sacerdócio dos cristãos. Além da citação de Ap 1,6, também o tema “sacerdócio” é mencionado
em 5,10 e 20,6, sempre sob a perspectiva do sacerdócio e da realeza. No livro de Apocalipse, o
tema da dignidade real e dignidade sacerdotal estão intimamente ligados.158
No Apocalipse, por vezes Jesus é chamado de Rei, mas nunca de sacerdote. O texto de
Ap 1,13 faz muitos pensarem se tratar de algo sacerdotal, vejamos o texto: “e, no meio dos
candelabros, alguém semelhante a um Filho de Homem, vestido com uma túnica longa e cingido
à altura do peito com um cinto de ouro”. Alguns pensam se tratar de vestes sacerdotais, mas
não se trata disto e sim de vestes reais.159
Outro texto que muito nos faz pensar é Ap 5,6, onde Cristo é apresentado como o
cordeiro: “Com efeito, entre o trono com os quatro Viventes e os Anciãos, vi um Cordeiro de
pé, como que imolado [...]”. Se prestarmos atenção ao contexto, podemos reconhecer uma
156
Cf. VANHOYE, 1990, p. 211-212.
157
Cf. VANHOYE, 1990, p. 213.
158
Cf. VANHOYE, 1990, p. 215.
159
Cf. VANHOYE, 1990, p. 216.
57
estrutura sacrifical, pois, o cordeiro imolado está no trono (fase ascendente) de onde virá em
socorro dos homens (descendente). 160
Quando São João coloca a expressão “como que
imolado”, faz-nos pensar em termos rituais sacrificiais, neste sentido ele expressou o paradoxo
cristão: “uma morte que nada tinha de ritual foi transformada em sacrifício perfeito, e é assim
o evento decisivo da história humana” (tradução nossa)161.
160
Cf. VANHOYE, 1990, p. 217.
161
VANHOYE, 1990, p. 218.
162
Cf. VANHOYE, 1990, p. 218-219.
163
Cf. VANHOYE, 1990, p. 219-220.
164
VANHOYE, 1990, p. 220.
58
ainda que cada um seja sacerdote, é um dom a ser exercitado na comunidade. É verdade que
em Ap 1,20 há a indicação que os dirigentes da Igreja são sacerdotes a título particular, mas
todos exercem seu sacerdócio de maneiras diferentes. Ainda que essa leitura de Ap 1,20 não
goze de certeza entre os estudiosos, é uma maneira honesta de ler o texto.165
165
Cf. VANHOYE, 1990, p. 221-223.
166
Cf. VANHOYE, 1990, p. 224.
167
Cf. VANHOYE, 1990, p. 226.
168
VANHOYE, 1990, p. 227.
59
Pelo sacerdócio somos capazes de nos aproximar de Deus. O tema da realeza está
estreitamente unido ao do sacerdócio, pois, é na relação dos cristãos com Deus que a história
será conduzida por aqueles que são sacerdotes. A forma como os cristãos exercitam este
sacerdócio é que agora podem entrar no santuário e realizar seu culto de adoração, pois lhes é
assegurada uma proteção especial. Sobre o reinado dos cristãos, este não comporta ausência de
dificuldades, pois as tribulações estão presentes, mas a capacidade de suportar vem de Deus. A
vitória dos cristãos está baseada na Paixão vitoriosa de Cristo, pois é no sangue de Cristo que
vencemos, depois, imitando Cristo que se entregou, damos testemunho do mesmo Jesus. 169
O último texto de Apocalipse que menciona o tema sacerdotal está quase no final do
livro, cujo trecho transcrevemos: “Feliz e santo aquele que participa da primeira ressurreição!
Sobre estes a segunda morte não tem poder; eles serão sacerdotes de Deus e de Cristo, e com
ele reinarão durante mil anos.” (Ap 20,6). Há neste texto uma esperança, que contém três
aspectos: a) negativo, já que sobre os cristãos não tem poder a segunda morte; b) positivo, o ser
sacerdote; e c) positivo, o ser rei. Não terá poder sobre os cristãos a segunda morte, ou seja, tal
como Jesus que ressuscitou, também os cristãos revividos serão capazes de cultuar a Deus.
Neste sacerdócio celeste a relação com Deus é muito mais estreita, ainda mais se for um
mártir.170
Vimos que é dito que os cristãos são “sacerdotes de Deus e de Cristo”, o que é
importante, já que Cristo aparece como a fonte desse sacerdócio, pois, pela sua obra que fomos
feitos sacerdotes, mas é também o fim do nosso culto, Cristo e o Pai. Sobre os “mil anos” que
os cristãos reinariam, há interpretações diversas, mas o que nos interessa é o sentido profundo
do termo, a saber, que vivendo com Cristo os mártires e santos morreram com Ele e também
com Ele estão na glória, exercitando o sacerdócio e a realeza, daí o fundamento do culto e
intercessão dos santos.171
O sacerdócio existe para colocar os homens em relação com Deus e podemos fazer
uma comparação clara entre o sumo sacerdócio no Antigo Testamento e o modo como o
Apocalipse apresenta os fiéis uma vez elevados à glória de Deus.
À semelhança do sumo sacerdote, que levava sobre a fronte um diadema de ouro com
a inscrição “Consagrado a Iahweh” os eleitos terão “o nome de Deus sob suas frontes”,
mas a sua intimidade com Deus superará, sem confronto, tudo aquilo ao qual podia
aspirar o sumo sacerdote. Essa realizará em plenitude o ardente desejo que se exprimia
no culto antigo, mas que não era possível satisfazer, nem mesmo na liturgia do grande
169
Cf. VANHOYE, 1990, p. 228-230.
170
Cf. VANHOYE, 1990, p. 231-232.
171
Cf. VANHOYE, 1990, p. 233-235.
60
dia da Expiação. Admitidos à presença de Deus, seus servidores “verão a sua face”. A
este cumprimento perfeito do sacerdócio, o Apocalipse não deixa de unir o
cumprimento do reino, adicionando como últimas palavras desta última visão: “E
reinarão pelos séculos dos séculos” (Ap 22,5) (tradução nossa).172
Fica claro em toda nossa explanação sobre o Apocalipse, visto sob a ótica do tema
sacerdotal, que aqui se faz uma ligação muito forte entre sacerdócio e realeza. Apresenta o tema
sempre dentro de cantos de louvor ou doxologias, algo glorioso, e não usa termos cultuais, tal
como na Carta aos Hebreus. São João, no Apocalipse, apesar de por vezes apresentar imagens
que nos levam a pensar num culto, não usa a linguagem ritual, não fala de Cristo que se ofereceu
a si mesmo, e assim também apresenta o sacerdócio dos cristãos em termos que exprimem sua
grandeza, sua eleição, mas em termos próximos à concretude da existência.
O contexto em que escreveu o livro era de perseguição aos cristãos e São João quer
recordar a grande dignidade que todos os cristãos têm pelo que Deus fez em nosso favor. “Para
explicar de que modo se exercita o sacerdócio dos cristãos, o Apocalipse não usa o vocabulário
sacrifical. [...] Prefere o vocabulário realístico, que fala de constância e de fidelidade, de
tribulação, de abate e de decapitação, sobretudo de vitória” (tradução nossa)173. Com o que
dissemos sobre a Primeira Carta de Pedro e o Apocalipse, temos ocasião de investigar o
sacerdócio de Cristo tal como é apresentado no Magistério da Igreja e vivido pelos fiéis,
conforme a todo nosso estudo bíblico precedente.
Ao longo de nosso trabalho, desde o primeiro capítulo vimos que o sacerdócio sempre
esteve presente, desde o Antigo Testamento até o Novo Testamento, em Jesus Cristo e nos seus
discípulos. Em nosso último passo da pesquisa, abordaremos o tema do único sacerdócio de
Cristo, agora com uma atenção especial também ao que o Magistério da Igreja nos ensina, e
veremos como deste sacerdócio todos os fieis participam, de duas formas diferentes: comum e
ministerial. Veremos as diferenças e aproximações entre os dois tipos de participação no
sacerdócio de Cristo, para que fique clara a atualidade do trabalho que ora nos ocupa.
172
VANHOYE, 1990, p. 236.
173
VANHOYE, 1990, p. 237.
61
3.3.1 Único sacerdócio participado
174
Cf. GALOT, 1981, p. 12-13.
175
Cf. GALOT, 1981, p. 38-42.
176
Cf. DOCUMENTOS DO CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II. Constituição Lumen Gentium. São
Paulo: Paulus, 1997. (Documentos da Igreja), n. 10.
62
unicidade do sacerdócio de Cristo: «por isso, somente Cristo é verdadeiro sacerdote,
sendo os outros seus ministros» (17). (CEC, § 1544-1545)177
O Catecismo da Igreja Católica nos diz claramente que o único sacerdócio de Cristo é
participado de formas diversas pelos fiéis cristãos. As duas formas são: sacerdócio comum e
sacerdócio ministerial. Pelo batismo, todos os cristãos participam do sacerdócio comum, ou
também chamado, batismal. Pelo sacramento da Ordem, alguns homens dentre os batizados são
consagrados para um sacerdócio chamado ministerial ou hierárquico. Entre os dois tipos de
sacerdócio existem aproximações e diferenças, importantes para nossa pesquisa.
No parágrafo 1547 do Catecismo da Igreja Católica fica muito clara a distinção entre
os dois tipos de participação no único sacerdócio de Cristo, por essa razão citamos o texto na
íntegra e depois comentamos com detalhes os aspectos teológicos de tal diferenciação.
177
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. Congregação Para a Doutrina da Fé. 19. Ed. São Paulo: Edições
Loyola, 2017.
178
Cf. CEC, § 1546.
63
«ordenados um para o outro» (21). Em que sentido? Enquanto o sacerdócio comum
dos fiéis se realiza no desenvolvimento da graça batismal – vida de fé, esperança e
caridade, vida segundo o Espírito – o sacerdócio ministerial está ao serviço do
sacerdócio comum, ordena-se ao desenvolvimento da graça batismal de todos os
cristãos. É um dos meios pelos quais Cristo não cessa de construir e de conduzir a sua
igreja. E é por isso que é transmitido por um sacramento próprio, que é o sacramento
da Ordem.179
179
CEC, § 1547.
180
Cf. VANHOYE, Albert. Sacerdoce commun et sacerdoce ministériel. Distinction et rapport. Nouvelle Revue
Théologique. 97, n. 03, 1975, p. 193-207.
181
Cf. VANHOYE, 1975.
64
também ao povo, já que em Hb 10,14 – “Cristo tornou perfeito” – se usa o mesmo verbo de
forma ativa, isto é, Cristo consagrou aqueles que nele creem. Isto aconteceu porque a
consagração de Cristo foi uma transformação do homem, não de um homem, mas de todos os
homens, exceto aqueles que se fechem a este ato.182
O fundamento do sacerdócio comum dos fiéis aparece, pois, em I Pe 2,5 quando se usa
a palavra hieráteuma, com um significado concreto para o sacerdócio, não individual, mas
comum, sacerdócio exercido por todo o Corpo de Cristo unido. Isso é o mais importante, a
relação dos membros com Cristo, pois, todos os sacrifícios só podem ser oferecidos por Jesus
Cristo, Ele é o mediador. Neste sentido, diferenciamos dois aspectos do seu sacerdócio: o
aspecto do culto e o da mediação.
O aspecto do culto o entendemos como a capacidade que Cristo dá a todos os fieis
serem admitidos ao contato com Deus e poder oferecer seus sacrifícios, abrindo sua existência
concreta à transformação que Deus quer operar em suas vidas. O aspecto da mediação é próprio
e exclusivo de Cristo, tal como vemos em I Tm 2,5 – “Pois há um só Deus, e um só mediador
entre Deus e os homens, um homem, Cristo Jesus”. Ora, o primeiro aspecto depende do
segundo, ou seja, só podemos cultuar a Deus por meio de Cristo, contando com sua mediação
sacerdotal.183
Por causa da relação que existe entre o duplo aspecto do sacerdócio de Cristo é que
temos também dois tipos, entre os quais o sacerdócio ministerial. Este é a manifestação objetiva
da mediação de Cristo em nossa vida, a função do sacerdócio ministerial é manifestar a presença
de Cristo como mediador, atualizando sua presença através dos tempos e lugares. Recebem a
autoridade de Cristo para serem seus ministros, celebrando seus mistérios, são servos de
Cristo.184
O sacerdócio ministerial é secundário e essencial. Parece contraditório, mas não o é,
pois, é secundário ou subordinado porque não é fim em si mesmo, mas é o meio de relação
entre Cristo e os fiéis, está ao serviço do sacerdócio comum. O sacerdócio ministerial existe
para fazer que o sacerdócio comum alcance seu objetivo, isto é, entregar a existência a Jesus,
numa oferenda concreta, agradável a Deus. O sacerdócio ministerial é também essencial,
porque sem ele a existência dos cristãos e seu culto não teriam a atuação da necessária mediação
de Cristo, por isso não seria eficaz. A mediação sacramental que só se manifesta pelo sacerdócio
ministerial é que garante que todos os fiéis alcançam a Deus com seus sacrifícios, negar esta
182
Cf. VANHOYE, 1975.
183
Cf. VANHOYE, 1975.
184
Cf. VANHOYE, 1975; GALOT, 1981, p. 125.
65
mediação seria recusar a atuação de Cristo e retornar ao subjetivismo e individualismo religioso,
o que não está de acordo com a Encarnação do Verbo e o entendimento da Igreja como Corpo
de Cristo.185
Se não o exercessem, a sua união com Cristo não seria real, pessoal, existencial. Na
verdade, o próprio sacerdócio ministerial inclui um apelo para exercer o sacerdócio
real, ou seja, para se unir ao sacrifício de Cristo pela oferta de toda a sua vida. Os
relatos evangélicos de vocação não separam os dois aspectos: Cristo chama seus
apóstolos para um compromisso pessoal e, por outro lado, lhes dá poderes que não
são humanos. (Tradução nossa) 187
185
Cf. VANHOYE, 1975, p. 06-07; GALOT, 1981, p. 124.
186
Cf. VANHOYE, 1975., p. 07.
187
VANHOYE, 1975, p. 204-205.
66
A comunhão a que nos referimos é também manifestada neste compromisso que todos
os cristãos têm diante de Deus, isto é, viver seu sacerdócio contínuo e verdadeiro, em palavras
e ações, oferecendo sacrifícios reais, pessoais, que sejam agradáveis ao Senhor. Desde os leigos
aos ministros da Igreja, padres e bispos. Ao celebrar uma missa, o padre é sinal e instrumento
de Cristo mediador que se oferece ao Pai e une os crentes à sua oferta. Quando o padre
pronuncia as palavras da consagração, ele age na pessoa de Cristo – in persona Christi – mas
ao celebrar este mistério, o padre mesmo é chamado a aderir a este mistério. Ele pode celebrar
a missa vivendo a entrega a Cristo que o sacerdócio comum pede, ou pode celebrar com uma
“vontade mortal de vingança contra uma pessoa que o ofendeu. A missa não será inválida: os
fiéis poderão unir-se a ela no sacrifício de Cristo. O padre terá exercido seu sacerdócio
ministerial enquanto se recusou a exercer o sacerdócio comum”.188
De tudo o que dissemos, parece-nos claro que tanto o sacerdócio ministerial quanto o
comum provêm da mesma fonte, Jesus Cristo, mas são diferentes ontologicamente, isto é,
essencialmente e não somente acidentalmente. Do sacerdócio comum participam todos os
batizados, todos chamados a oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus, uma vida santa,
na procura da verdade e do bem, vivida na caridade. Do sacerdócio ministerial participam
alguns que assim foram chamados a exercer a função de sinal da mediação sacramental de
Cristo no hoje da Igreja, pelos sacramentos, pela pregação e pelo governo da Igreja.
Não são sacerdócios em oposição, mas instrumentos para a comunhão, no culto cristão
autêntico, cujo fim último é sempre “transformar o mundo por meio da caridade divina”
(Tradução nossa) 189. No mistério do sacerdócio de Cristo encontramos uma síntese para a vida
cristã: o amor filial e obediente a Deus e solidariedade extrema com os irmãos, este é o caminho
para o fiel cristão, a caridade verdadeira.
188
Cf. VANHOYE, 1975, p. 09; GALOT, 1981, p. 120-122.
189
VANHOYE, 1990, p. 243.
67
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao longo de todo o trabalho que ora concluímos, vimos que existem diferenças e
aproximações entre as várias concepções teológicas e bíblicas sobre os temas que tratamos. O
sacerdócio, por exemplo, existe para sanar uma situação real, concreta, a saber, a distância que
existe entre o homem e Deus. Toda a finalidade do sacerdote é transpor esta distância, esta
separação, seja no Antigo Testamento que no Novo Testamento. Resta-nos claro que o
sacerdócio é uma realidade instituída e querida por Deus, tanto na Antiga quanto na Nova
Aliança, vivido de diversas maneiras, mas tendo como fonte, o único e mesmo Senhor.
O sacerdócio antigo respondeu a uma necessidade do povo de Israel, respondeu a uma
instituição feita pelo próprio Senhor. A distância entre o povo e Deus existia e precisava ser
atenuada, por isso foram consagrados homens para o serviço do sacrifício, homens que se
dedicariam em tempo integral para o serviço sacrificial. Essa consagração acontecia por
numerosas separações rituais, desde a eleição de um povo, até a eleição de uma tribo, escolha
de uma família específica e finalmente a morte de um animal para realizar a passagem do mundo
humano para o mundo divino, no lugar do sacerdote que oferecia. Essas separações eram
necessárias para o culto do Antigo Testamento e era guardada com muito zelo pelos israelitas.
Ao longo do tempo, o sacerdócio foi adquirindo prestígio e autoridade cada vez
maiores. Não somente poder religioso, isto é, de culto, mas também poder de governo, pois os
sumos sacerdotes começaram a exercer influência nas decisões. Sumo Sacerdote era sinal de
autoridade religiosa e de governo, tanto assim que no tempo de Jesus o sumo sacerdote, junto
com o Sinédrio, é que decidiu pela condenação de Cristo, pois sua condenação foi religiosa.
Cristo veio trazer o verdadeiro sacerdócio, atacava a deturpação do sacerdócio querido pelo Pai,
que se tornou apenas uma forma de angariar poder, seja civil ou religioso. Jesus criticava
duramente os sacerdotes que faziam todos os rituais prescritos, porém, não tinham um coração
transformado pelo amor a Deus e aos irmãos, que é o resumo de toda a Lei.
As tensões entre Cristo e o sistema sacerdotal de Israel eram muito grandes, até
culminar com sua morte. A morte de Jesus na cruz nada teve de ritual, não poderia ser assim,
pois aconteceu fora dos muros de Jerusalém, não tinha animais, não tinha sacerdote, porém, foi
o único e supremo sacrifício. Este paradoxo é um dos muitos paradoxos cristãos, e como vimos
ao longo de todo o segundo capítulo de nosso trabalho, Cristo é verdadeiramente sacerdote e
vítima, não como o Antigo Testamento instituiu, mas sob uma nova ótica, aquela do verdadeiro
sacerdócio. Nos Evangelhos e nas cartas de Paulo jamais se encontrará página onde Jesus seja
68
chamado de “sacerdote” ou “sumo sacerdote”, pois, para os primeiros cristãos era muito difícil
conceituá-lo assim. O arcabouço bíblico para o termo sacerdote exigia uma série de realidades
que não se aplicavam a Cristo, sendo a primeira e mais evidente a questão hereditária, pois
Cristo era da tribo de Judá, não de Levi, sendo assim jamais seria sacerdote aos moldes do
Antigo Testamento.
O único escrito do Novo Testamento que aplica a Cristo o título de sacerdote é a Carta
aos Hebreus que faz uma cristologia sacerdotal muito profunda, retomando temas do Antigo
Testamento e confrontando à revelação de Cristo. O autor da Carta aos Hebreus leva-nos a
perceber que ainda que a catequese cristã primitiva não nomeie Jesus como sacerdote, jamais o
nega, fazia parte da revelação, mas não tinham ainda os elementos suficientes para esclarecer
todo este tema. Na carta aos Hebreus fica evidenciado que Jesus Cristo é sacerdote, com
características que são apresentadas ao longo de toda a Carta.
Jesus Cristo tem um sacerdócio com autoridade, pois é “digno de fé”, assim como
Moisés era digno de fé em toda a casa de Israel, também Cristo é digno de fé em toda a Casa
de Deus, pois cumpre em tudo a vontade do Pai. Cristo é apresentado como o construtor da casa
de Deus, em contraposição a Moisés que fazia parte da casa de Deus, ora, o construtor é superior
à casa, assim Cristo é superior a Moisés, demonstrando que a autoridade de Jesus é superior à
mosaica. Enquanto Moisés falava face a face com Deus, Jesus Cristo é o próprio Deus falando
com a humanidade, é a Encarnação de Deus. O sacerdócio de Cristo é misericordioso, pois, se
faz em tudo semelhante a seus irmãos, sofre nossa morte para que possamos experimentar a sua
vida. Repleto de solidariedade, Cristo se faz igual a nós, algo inimaginável para o sacerdócio
antigo, que queria se diferenciar o máximo possível de seus irmãos. Seu sacerdócio, afinal, é
eterno, não será necessário que tenha outros sacrifícios nem que o sacerdócio seja passado de
geração em geração, como na tribo de Levi, pois que uma vez entronizado no Céu como Sumo
sacerdote, Jesus continua sendo sacerdote mediador junto a seu Pai por todos nós.
Cristo foi chamado ao sacerdócio tal como Aarão o foi, conduzido ao sacrifício e
entregou-se a si mesmo, não por coação, mas por sua vontade e obediência filial ao Pai que fez
que sua oferenda fosse agradável. Após o sacrifício de Cristo nenhum outro é necessário, pois
este é suficiente. O sacerdócio de Cristo é segundo a ordem de Melquisedec, não segundo a
ordem levítica, isto significa que é de uma natureza outra que foi prefigurada apenas nas duas
passagens (Gn 14,18-20 e Sl 110) em que se menciona o personagem Melquisedec. Ele não tem
genealogia, não se fala de nascimento nem de morte, é sacerdote do Deus altíssimo e recebe o
69
dízimo do próprio Abraão, assim também Cristo tem um sacerdócio que é eterno, sem fim, que
não vem hereditariamente, mas pela consagração do próprio Deus.
Podemos dizer, portanto, que houve uma consagração de Cristo no altar da cruz, ali
entregando sua vida ao Pai, foi consagrado sacerdote e ao mesmo tempo foi vítima, morreu e
ressuscitou, foi glorificado e está junto do Pai, nos céus intercedendo pelos homens. A glória
de Cristo é a glória que cada cristão busca em sua vida de fé, a vitória sobre a morte que vem
pela fé em Jesus. À promessa feita ao povo de Israel, no Antigo Testamento, temos uma
reminiscência no Novo Testamento, tanto na carta de São Pedro quanto no Apocalipse,
apresentando os fiéis cristãos como sacerdotes, um povo sacerdotal. Das condições impostas
para Israel temos agora somente a fé como condição fundamental para que se viva o verdadeiro
sacerdócio cristão, crer em Jesus e ser batizado, este é o essencial.
O povo cristão é apresentado, seja na Primeira Carta de São Pedro, seja no Apocalipse,
como um povo sacerdotal, consagrado pelo próprio Cristo, pois, a transformação que ocorreu
no coração do homem Jesus alcança a todos os homens que participam do Corpo de Cristo, a
Igreja. Essa participação vem pelo batismo, sacramento da entrada na vida cristã. Por ele, todos
somos sacerdotes, profetas e reis, tal como Cristo. Do Batismo nos advém o chamado
sacerdócio comum, aquele que é partilhado por todos batizados, e que nos faz capaz de oferecer
sacrifícios a Deus, não rituais, mas existenciais, reais, concretos. Oferecer a vida a Deus, com
as labutas e alegrias de cada dia, este é um diferencial cristão, mas só o podemos fazer porque
temos Cristo como mediador da Nova Aliança, Ele é o único e eterno sacerdote.
Ainda que o sacerdócio comum seja real, não significa que o sacerdócio ministerial
seja menos importante, pois, na economia da salvação, o sacerdócio ministerial é a presença
atual do Cristo no meio de seu povo, da mediação sacramental de Jesus que comunica sua graça
e faz que o sacerdócio comum alcance sua meta, a santidade dos batizados. Todos esses pontos
nos fazem refletir sobre o sacerdócio de cada um que faz parte deste “povo sacerdotal”. O
sacerdócio cristão é o amor de Deus que se comunica a nós e nos faz capazes de alcançá-lo,
sacerdócio comum e ministerial são duas formas de participação no único sacerdócio de Cristo.
Sacerdócio ministerial é grande e humilde, pois é Cristo que age na pessoa do sacerdote e por
isso mesmo este não pode se atribuir a glória, pois é tudo de Deus. Sacerdócio comum é grande
e humilde, pois é um culto autêntico, uma oferta de vida, mas deve reconhecer que não é
autossuficiente, precisa da mediação do sacerdote. Tudo isso pode ajudar os cristãos a viverem
melhor sua fé, num culto autêntico e sincero a Deus.
70
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Coleção Dicionários.
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