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Ética Profissional

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1

2
O autor e a disciplina

Olá estudantes. Sou o professor Regys Rodrigues da Mota. Sou Bacharel (2007) e
licenciado (2008) em Ciências Sociais e mestre em Sociologia (2011) pela Universidade
Federal de Goiás. Durante os próximos meses estaremos juntos realizando uma série de
atividades acadêmicas para que possamos aprofundar o conhecimento sobre alguns dos
temas abordados pela disciplina de Ética Profissional.

Vamos iniciar a disciplina. Acompanhe cada unidade e leia com atenção todos os materiais.
A interação e a troca de experiências são muito importantes para a consolidação do
conhecimento, sendo assim participe de forma intensiva dos Fóruns propostos.

É muito importante que você dedique à leitura, às atividades e se comprometa em realizar os


exercícios propostos. Lembre-se de trocar informações com o tutor(a) e com os colegas do
curso.

Tenho certeza que juntos vamos alcançar o sucesso!

Bons estudos!

Profº Me. Regys Rodrigues da Mota

3
FACULDADE ARAGUAIA - FARA
1º Edição - 2018

É proibida a reprodução total ou parcial desta obra, por qualquer meio e para qualquer
fim. Obra protegida pela Lei de Direitos Autorais

DIRETORIA GERAL
Professor Mestre Arnaldo Cardoso Freire
DIRETORIA FINANCEIRA
Professora Adriana Cardoso Freire
DIRETORIA ACADÊMICA
Professora Ana Angélica Cardoso Freire
DIRETORIA ADMINISTRATIVA
Professor Hernalde Menezes
DIRETORIA PEDAGÓGICA:
Professora Mestra Rita de Cássia Rodrigues Del Bianco
VICE-DIRETORIA PEDAGÓGICA
Professor Mestre Hamilcar Pereira e Costa
COORDENAÇÃO GERAL DO NÚCLEO DE TECNOLOGIA EM EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA
Professor Mestre Leandro Vasconcelos Baptista
COORDENAÇÃO GERAL DOS CURSOS TÉCNICOS
Professor Doutor Ronaldo Rosa Júnior
REVISÃO E APROVAÇÃO DE CONTEÚDO
Professora Mestra Rita de Cássia Rodrigues Del Bianco
COORDENAÇÃO E REVISÃO TÉCNICA DE PRODUÇÃO DE CONTEÚDO EM VÍDEO E WEB
Professora Doutora Tatiana Carilly Oliveira Andrade
DESIGN GRÁFICO E EDITORIAL
Bruno Adan Vieira Haringl

FACULDADE ARAGUAIA
Unidade Centro – Polo de Apoio Presencial
Endereço: Rua 18 nº 81 - Centro - Goiânia-GO, CEP: 74.030.040
Fone: (62) 3224-8829
Unidade Bueno
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Unidade Passeio das Águas
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Fone: (62) (62) 3604-9500
Site Institucional
www.faculdadearaguaia.edu.br

NÚCLEO DE TECNOLOGIA EM EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA


Polo Goiânia: Unidade Centro
Correio eletrônico: [email protected]

4
SUMÁRIO

Apresentação ............................................................................................................. 6

UNIDADE 1: ÉTICA
1.1 Ética e moral ........................................................................................................ 7
1.2 Código de Ética Profissional ................................................................................ 16
1.3 A importância da ética na educação a partir dos os Parâmetros Curriculares
Nacionais (PCNs) ...................................................................................................... 17
Atividades ................................................................................................................ 20
BIBLIOGRAFIA BÁSICA .......................................................................................... 22
BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR ......................................................................... 22

UNIDADE 2: A ÉTICA NA HISTÓRIA


2.1 A ética para os sofistas ....................................................................................... 23
2.2 A educação e a ética para os sofistas ................................................................. 27
2.3 Contribuições da ética pregada pela escola sofística na atualidade ................... 28
2.4 A ética socrática e o ensino na atualidade .......................................................... 31
Atividades ................................................................................................................ 36
BIBLIOGRAFIA BÁSICA .......................................................................................... 37
BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR ......................................................................... 37

UNIDADE 3: ÉTICA, LEI E LIBERDADE


3.1 O princípio ético de que os fins justificam os meios ............................................ 38
3.2 A função social e a função remunerativa do profissional da educação tendo por
base o princípio ético de que os fins justificam os meios .......................................... 40
3.3 A ética como resultado do caráter imperativo da lei ............................................ 43
3.4 Pensando na ética aplicada ao diretor, ao coordenador pedagógico, ao professor,
ao aluno e aos funcionários da instituição escolar a partir da perspectiva de
Hobbes ...................................................................................................................... 44
3.5 Investir em educação para estimular o agir ético ................................................ 46
3.6 A Ética na educação em liberdade ...................................................................... 48
Atividades ................................................................................................................ 54
BIBLIOGRAFIA BÁSICA .......................................................................................... 56
BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR ......................................................................... 56

UNIDADE 4: RESPONSABILIDADE MORAL E PEDAGOGIA ÉTICA


4.1 Responsabilidade moral .............................................................................. 61
4.2 Pedagogia Ética .......................................................................................... 66
Atividades ................................................................................................................ 70
BIBLIOGRAFIA BÁSICA .......................................................................................... 72
BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR ......................................................................... 72

5
APRESENTAÇÃO

A ética está presente em discussões a respeito do comportamento humano e o


seu estudo é sempre necessário diante da necessidade de as pessoas orientarem seu
comportamento de acordo com a moral da vida social. Assim, a ética deve figurar
como um dos grandes eixos de preocupação e discussão entre as pessoas, de
reflexões sobre o bem e o mal, a justiça e a injustiça, o que é certo e errado.
Deve figurar também no campo pedagógico. A educação se utiliza de livros didáticos,
de métodos de avaliação do conhecimento e do comportamento dos alunos, mas não
trata de modo explícito da ética e sua importância social, cultural, política, econômica
e profissional.
Ela merece receber tratamento constante sendo assunto de reflexão da escola
como um todo, e não apenas de cada professor. Tampouco não deve estar a cargo
de ser discutida por uma matéria específica por um professor específico e sim deveria
ser abordada em todas as áreas do conhecimento.
Dessa forma, o objetivo da Unidade 1 dessa disciplina é apontar de uma maneira geral
as diferenças entre moral, ética, lei e justiça, abordando ainda a função do Código de
Ética Profissional e a importância de se tratar dessa temática segundo os Parâmetros
Curriculares Nacionais (PCNs).
Na Unidade 2 o objetivo é fazer um resgaste histórico das visões da Grécia
Antiga (por volta de 500 a.C.) a respeito da ética fazendo uma contextualização com
a ética na educação e nas profissões da atualidade.
Por sua vez, buscamos na unidade 3 analisar o valor social e o valor remunerativo da
profissão de educador a partir do princípio ético que de os fins justificam os meios.
Buscamos comparar também a perspectiva ética de Thomas Hobbes (somente com
punições e recompensas é possível fazer com que as pessoas se comportem
eticamente) com as perspectivas de John Locke e Jean-Jacques Rousseau (somente
pela educação é possível transformar o mudo em busca da ética em liberdade).
Por fim, o objetivo principal na Unidade 4 foi de analisar a ética a partir da
comparação das entre as perspectivas de Émile Durkheim e Karl Marx, apontando os
elementos para a configuração de uma pedagogia ética na contemporaneidade.

6
UNIDADE 1: ÉTICA

1.1 Ética e Moral

Ética é um tema de interesse social a medida que afeta diferentes setores


sociais. No entanto, para falar a respeito é necessário conceituar também o que é
moral. A palavra moral tem origem no termo latino “morales” que significa “relativo aos
costumes”. É o conjunto de regras aplicadas no cotidiano e usadas continuamente por
cada cidadão. Tais regras orientam cada indivíduo, norteando suas ações e os seus
julgamentos sobre o que é certo ou errado, bom ou mau.
Quem cria a moral? Cada sociedade possui uma cultura, uma lógica interna
que justifica e atribui significados para os costumes e práticas que nela estão vigentes.
Mudando a cultura, mudam-se os costumes, os valores de certo e de errado, os
significados, a lógica interna e, consequentemente, aquilo que é tido como moral.

Segundo Durkheim, a sociedade é um ser vivo com consciência própria


(consciente coletivo). A sociedade nasce dos indivíduos, mas a partir do momento que
nasce começa a pensar por si mesma. Essa consciência própria é produto do que
está nos inconscientes geral das pessoas de uma maneira geral (ARON, 2002).
Um exemplo prático seria fazer o seguinte questionamento a um grupo de
pessoas: A sociedade brasileira é racista? Muitos dirão que sim. Depois faça o
seguinte questionamento individualmente: Você não gosta de negro? Muitos dirão que
não têm nada contra o negro, que considera brancos e negros como iguais. Então
como explicar que a sociedade brasileira é racista? Tendo a perspectiva de Durkheim
por base, a explicação seria que conscientemente até podemos acreditar realmente
7
que não somos racistas, mas o consciente coletivo da sociedade revela o que está
nos inconscientes das pessoas e que por uma série de fatores históricos, econômicos,
sociais, políticos e culturais nós não olhamos brancos e negros da mesma forma (os
brancos não olham os negros da mesma forma e vice-versa).
Isso explicaria a crença da maioria que diz não ser machista mas vive em um
país machista e a crença que a maioria possui de não ser homofóbica, mas vive em
uma país classificado como homofóbico. Se a coletividade possui uma característica
marcante é porque a maioria dos seus membros possui tal característica sem se dar
conta disso (ou até mesmo se dando conta disso). E a medida que a sociedade nasce
com o perfil racista, machista e homofóbica por sermos assim, ela contribui para que
assim continue educando as próximas gerações através da cultura, de filmes, novelas,
discursos sobre ideais de família tradicional, religião e comportamento considerados
corretos que devem ser seguidos por todos.
A visão estabelecida por Durkheim será mais detalhada na Unidade 4 dessa
disciplina. O que deve ser compreendido agora é a concepção de que a sociedade é
uma espécie de indivíduo que pensa por si próprio. Não veja a sociedade como um
conjunto de pessoas e sim pense na coletividade como um ser que raciocina e
caminha por conta própria, independentemente das pessoas que lhe deram origem,
ou melhor dizendo, independentemente do que as pessoas que lhe deram origem
“acham que pensam” (ARON, 2002). 1
Então quem cria a moral? A moral é criada por essa espécie de consciente
coletivo que estabelece regras que influenciam a maneira de pensar, de agir, dão
forma a costumes e ditam como devemos classificar uns aos outros na lógica do “certo
e errado”. A sociedade (entendida como um ser com pensamento próprio que
independe do que as pessoas acham que pensam) estabelece convenções, atribuem
a essas convenções o valor de verdades absolutas e a maioria das pessoas passa
pela vida reproduzindo-as sem necessariamente questionar os motivos que levam a
essa mera reprodução. Aquilo que se adequa ao que coletivamente é entendido como
certo é moral e aquilo que contraria o que coletivamente é entendido como certo é

1
Segundo Durkheim, para você entender os motivos que levam a acontecer algo na sociedade, você não deve
perguntar os motivos para as pessoas, pois o que elas te dirão serão coisas que elas foram educadas a
acreditarem e que nem sempre correspondem a realidade. Para entender algo você deve observar o
funcionamento da coletividade e procurar os motivos no consciente coletivo.
8
imoral. A pessoa que não tem senso do que seja moral (de certo e errado) é amoral
(VÁZQUEZ, 2003).

Princípios como a honestidade, a bondade, o respeito, a virtude, etc., que


acreditamos serem individuais são na verdade moldados pela coletividade, tanto é
que se você mudar de contexto sociocultural, a percepção do que é ser bom pode
mudar, por exemplo.
A religião predominante é um setor da sociedade que interfere muito na
construção de tais princípios, pois é ela que estabelece a lógica de certo e errado na
vida mundana e na vida espiritual. Analisemos o ideal de justiça. Em países em que a
religião predominante prega o perdão, o “dar a outra face”, o ideal de justiça não segue
uma lógica de vingança e sim o de punição de acordo com o tipo de crime, mas com
brechas para o arrependimento daquele que comete o crime e a possibilidade de
ressocialização, sendo novamente acolhido pela sociedade (ou pelo menos espera-
se que assim seja). Em culturas em que a religião predominante segue mais
diretamente a Lei de Talião (olho por olho e dente por dente), se torna muito mais
presente uma regra de proporcionalidade/reciprocidade entre crime e punição,
havendo muito mais um sentido de vingança do que propriamente visando criar
espaços para o arrependimento e ressocialização daquele que cometeu o crime
(VÁZQUEZ, 2003).
Assim sendo, moral é o conjunto de regras aplicadas no cotidiano de uma
determinada coletividade e nesse cotidiano o indivíduo pensa e se comporta ora de
acordo com essas regras ora fora dessas regras, se tonando moral ou imoral
respectivamente, mas sempre tendo esses códigos como um norte. Importante
ressaltar que não são regras propriamente racionais e sim são convenções, valores,
9
princípios criados pela coletividade que nem sempre obedecem uma lógica totalmente
racional (LOPES DE SÁ, 2005).

E o que seria ética? A palavra ética, por sua vez, vem do grego “ethos” que
significa “modo de ser” ou “caráter”. Ela está associada ao estudo fundamentado dos
valores morais que orientam o comportamento humano em sociedade. Ela é o aspecto
racional, a reflexão a respeito das atitudes humanas. Ela é produto ao mesmo tempo
que é produtora de leis que regulam profissões, cargos políticos, comportamentos
dentro de uma empresa, etc. Remete ao seguinte raciocínio: “Se a moral do lugar que
eu vivo diz que o certo é isso, o que devo fazer para me adequar a isso? ”. Aquilo que
contribui para essa adequação é o ético. Aquilo que rompe com essa adequação é o
antiético (VÁZQUEZ, 2003).
Assim, ética é um conjunto de conhecimentos extraídos da investigação do
comportamento humano ao tentar explicar as regras morais de forma racional,
científica e teórica, ou seja, é uma reflexão sobre a moral criando caminhos racionais

10
que permitam o bem comum no seu mais amplo sentido, conciliando os interesses
individuais com os interesses sociais.
No sentido prático, a finalidade da ética e da moral é muito semelhante, pois
ambas são responsáveis por construir as bases que vão guiar a conduta do ser
humano em coletividade, determinando o seu caráter, altruísmo e virtudes, além de
ensinar a melhor forma de agir e de se comportar em sociedade.
A ética nasce da moral? Sim. Ética é refletir a respeito do comportamento
humano que vai sendo classificado como certo ou errado de acordo com os valores
da moral presente na coletividade (LOPES DE SÁ, 2005). Ética e moral estão
sempre de acordo? Nem sempre. Analisemos o seguinte exemplo: A moral de uma
determinada coletividade prega que aquele que comete um crime deve ser punido,
pois fere-se o bem-estar da comunidade. A ética resultante de tal raciocínio estará
presente na criação de uma lei que puna aquele que comete crime. No entanto, a ética
também estará presente na concepção de que todo mundo é inocente até que se
prove o contrário e dessa forma, todos possuem direito à ampla defesa para que o
crime seja investigado ao máximo e inocentes não sejam injustamente punidos. Só
que se o indivíduo já é coletivamente considerado culpado, a moral se orienta pelo
princípio de que “é culpado até que se prove o contrário” e o indivíduo é condenado
previamente pela comunidade que vê como algo negativo alguém que defenda o
“bandidinho”.
O mesmo se aplica ao ato de salvar vidas. Um médico atua para salvar vidas
independente de quem seja. Essa é a ética da sua profissão, orientada pela moral de
que uma vida humana é indispensável. No entanto, a coletividade se orienta muitas
vezes pela percepção de que um bandido ferido no ato do assalto não deve ser salvo
pelo médico, pois assim ele vai voltar a cometer crimes. Novamente ocorre o choque
entre a ética no âmbito profissional com a moral da comunidade em que a profissão
está inserida. Percebe-se também um choque entre a própria moral ao defender ao
mesmo tempo que toda vida humana é sagrada e que um bandido não merece ser
salvo.
Em uma situação hipotética em que moral e ética não estão de acordo, o
indivíduo que se orienta exclusivamente pela moral estará se orientando mais
pela razão ou pela emoção/sentimento? E aquele que se orienta exclusivamente
pela ética? Aquele que se orienta pela moral está muito mais próximo da

11
emoção/sentimento, pois está seguindo os valores determinados pela coletividade
perdendo assim sua própria individualidade. Aquele que busca seguir a ética está
buscando seguir a razão no sentindo de seguir aquilo que está previsto em lei, lei esta
que foi estabelecida para que haja o equilíbrio e bom funcionamento da coletividade
(LOPES DE SÁ, 2005).

As duas partes nem sempre estão de acordo, pois inúmeros fatores


interferem na moral. Em uma mesma sociedade grupos de origens diferentes,
pessoas com histórias de vidas diferentes, níveis de escolaridade, de renda, de
violência em camadas sociais diferentes, eventos que geram comoção social,
períodos históricos diferentes geram valores que muitas vezes são divergentes, geram
maneiras de sentir e enxergar as coisas que muitas das vezes são antagônicas,
variando o que pode ser questionado como moral e imoral. Já a ética é guiada pela
racionalidade (VÁZQUEZ, 2003).
Moral é algo estático ou dinâmico? Dinâmico. Se você observar uma mesma
sociedade em diferentes períodos históricos vai observar que valores mudam. Se você
observar sociedades e culturas diferentes vai observar também que os valores não
são os mesmos. Em outros tempos, o negro era considerado escravo, a mulher não
podia votar ou trabalhar fora de casa e a homossexualidade era considerada doença?
Tais situações mudaram, por mais que a sociedade brasileira seja considerada
racista, machista e homofóbica (LOPES DE SÁ, 2005).
Ética é algo estático ou dinâmico? Por mais que a ética se paute na
racionalidade ela também é dinâmica. Se a noção de certo e errado varia com o
tempo, de acordo com o lugar e pela influência de inúmeros outros fatores, o que é
12
racional ou irracional muda, influenciando no que é ético ou antiético. Determinadas
práticas vistas como erradas, quando se repetem constantemente e são aceitas pela
coletividade podem gerar mudanças nas leis, por exemplo (LOPES DE SÁ, 2005).
Importante perceber que ética e lei não são as mesmas coisas. Embora ambas
remetam a ideia de justiça social, enquanto ética é o processo racional a respeito do
comportamento humano, a lei é produto desse processo.
Vamos resumir tudo que foi exposto até aqui. Da moral nascem os valores
de certo e errado. O indivíduo que segue esses valores é um ser moral, enquanto
que aquele que não segue é o imoral. Aquele que não possui senso de certo e
errado é o ser amoral. Desses valores nasce a ética, que é a reflexão do
comportamento humano orientado pela visão de certo e errado da coletividade.
Ao fazer essa reflexão normas/leis são produzidas para se preservar o equilíbrio
e o bem-estar da coletividade. Aquele que segue a lei é ético e aquele que não
segue é o antiético. Quando seguir a lei nem sempre é bem visto pela
coletividade existe uma divergência entre a ética e a moral.
A frase “nem tudo que é legal é moral e nem tudo que é moral é legal”
sintetiza bem algumas divergências. Analisemos em um exemplo hipotético a primeira
parte da frase (nem tudo que é legal é moral). Por lei, um servidor público que ganha
mais de R$20.000 pode ganhar auxílio moradia quando o trabalho for exercido na
localidade em que não houver residência oficial do servidor. A razão que justifica esse
auxilio é a lógica de compensar os gastos desse servidor ao ter que procurar uma
outra residência que não a sua para o exercício da sua profissão. No entanto isso é
moralmente aceito pela sociedade? Muitas pessoas condenam essa situação, visto
que a média do salário da maioria dos brasileiros é muito inferior aos salários dos
pequenos grupos que fazem parte dos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário e
nem por isso contam com algum tipo de auxilio além da sua própria remuneração 2.
Agora analisemos a segunda parte da frase (nem tudo que é moral é legal).
Pedofilia é algo moralmente muito condenado na sociedade brasileira. Quando um
caso de pedofilia acontece pode acontecer que a população não se sinta satisfeita

2
FERNANDES, Adriana; OTA, Lu Aiko. Servidor público ganha 67% a mais que o privado no Brasil,
diz Banco Mundial. O Estado de São Paulo, 21 de Novembro de 2017. Disponível em:
<https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,servidor-publico-ganha-67-a-mais-que-o-privado-no-
brasil-diz-banco-mundial,70002091605>. Acessado em: 11/08/2018.
13
somente com a prisão daquele que cometeu o crime 3. Um suspeito é apontado como
o autor do crime e a comunidade, movida pela emoção/sentimento parte para cima do
suspeito visando seu linchamento. Esse movimento está pretensamente justificado
por uma moral que busca a justiça, mas é algo que vai contra a lei, pois todos são
inocentes até que se prove o contrário e todos possuem direito à ampla defesa para
que o caso seja julgado até em última instância e não hajam dúvidas da inocência ou
da culpa daquele que até então era meramente um suspeito.

Querer justiça é o mesmo que se fazer cumprir a lei? Depende de qual


referencial está sendo adotado. Como ressaltado no exemplo acima existem
diferentes perspectivas do que é justiça. Enquanto a ideia de justiça movida
exclusivamente pela moral nem sempre se aproxima do que é racional, a justiça
movida pela lei visa teoricamente seguir aquilo que é racional, visando estabelecer o
bem comum seguindo processos imparciais e éticos de julgamento de conflitos. Como
dito anteriormente, as vezes o cumprimento da lei nem sempre atende o pretenso
desejo da coletividade por “justiça” e nem sempre ao se atender o desejo da
coletividade está de acordo com o previsto em lei (VÁZQUEZ, 2003).
A ideia de justiça social emanada da ética é o mesmo que buscar tratar de
forma igual todas as pessoas? Não. Os conflitos entre as pessoas devem ser
resolvidos de forma imparcial perante a lei, mas socialmente falando a ideia de justiça
reside em tratar quem é diferente de forma diferente como forma de igualdade. Se

3
G1. Idoso é preso por suspeita de pedofilia após sofrer tentativa de linchamento em Salvador. G1,
24/11/2017. Disponível em: <https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/idoso-e-preso-por-suspeita-de-
pedofilia-apos-sofrer-tentativa-de-linchamento-em-salvador.ghtml>. Acessado em 09/08/2018.
14
pessoas com necessidades, capacidades e origens diferentes forem tratadas da
mesma forma injustiças serão cometidas. Dessa forma deve-se buscar uma
discriminação positiva com vistas de diminuir as diferenças entre as pessoas para
conseguir estimular a igualdade (VÁZQUEZ, 2003).

De forma resumida a respeito de tudo que foi visto até aqui, é como se a moral
criada pela coletividade estabelecesse os valores de certo e errado em determinado
contexto sociocultural, mas a moral nem sempre obedece uma lógica, uma coerência
entre esses valores que são afetados por inúmeras variáveis (passagem do tempo
culminando com mudanças de paradigmas, diferentes perfis de grupos sociais, perfil
da sociedade que também muda com a passagem do tempo, eventos que geram
comoções, diferentes níveis de escolaridade em diferentes camadas sociais
interferindo na maneira como essas camadas encaram as coisas, etc.). A ética

15
aparece como um processo que analisa e confere racionalidade ao comportamento
humano filtrando os valores morais em cada coletividade.

1.2 Código de Ética Profissional

A profissão é uma atividade especializada dentro da sociedade, sendo


que algumas dessas atividades exigem estudos de um dado conhecimento e/ou
possuir determinadas habilidades práticas. Consiste em uma ocupação
produtiva para com a comunidade onde se está inserido (LOPES DE SÁ, 2005).
Algumas dessas ocupações possuem corpo consultivo e deliberativo que
habilita e fiscaliza o exercício da atividade. Ao se propor exercer uma profissão você
está se propondo a seguir um conjunto de regras de condutas denominado de Código
de Ética Profissional. Desenvolvido por instituições públicas ou privadas (empresas,
órgãos públicos, Organizações Não-Governamentais, partidos políticos, categorias
profissionais, e outras) esse código consiste em uma espécie de acordo que
estabelece os direitos e deveres de funcionários no exercício de suas funções
profissionais.
Postura profissional, postura perante a sociedade no exercício da atividade,
postura perante a classe de profissionais, marketing pessoal, marketing da
empresa/instituição, política de preços dos serviços prestados, fatores que impedem
o exercício da profissão, relações no ambiente do trabalho, tipos de serviços
16
prestados, qualidade dos serviços prestados e a forma como se relacionar com o
cliente/consumidor são alguns pontos que podem estar presentes nesse acordo
previamente estabelecido (BARROS, 1997).
Apesar da variedade de instituições que podem estabelecer esse tipo de acordo
regulatório, os diferentes tipos de Códigos de Ética devem seguir princípios morais
comuns ao contexto sociocultural no qual se encontram inseridos. Cada grupo pode
possuir suas próprias políticas e práticas, porém, existem alguns princípios básicos
que estão presentes em quase todos os códigos, como: a proteção do patrimônio da
empresa, a necessidade da transparência nas comunicações internas e externas,
proibição do assédio sexual ou profissional, respeito entre chefes e subordinados e a
denúncia da prática do suborno ou corrupção (LOPES DE SÁ, 2005).
Importante lembrar que essa é uma perspectiva tendo por base os valores
compartilhados na cultura ocidental. Na Unidade 4 será abordado que ao se mudar o
contexto sociocultural, mudam-se os valores e costumes (moral), mudando
consequentemente o que é considerado ético e antiético, as leis e os valores
compartilhados nos Códigos de Ética (BARROS, 1997).
As normas estabelecidas no código podem (ou não) estar atreladas às normas
civis. Neste caso, o descumprimento de alguns pontos cruciais do código pode ser
motivo para punição perante leis previstas nas legislações penais e trabalhistas
(LOPES DE SÁ, 2005).
Em razão de moral e da ética serem dinâmicos, os Códigos de Ética das
diversas profissões também podem sofrer alterações mediante a persistência de
determinados comportamentos aceitos pela sociedade ou mesmo em razão de
mudanças de paradigmas sociais (LOPES DE SÁ, 2005).

1.3 A importância da ética na educação a partir dos Parâmetros Curriculares


Nacionais (PCNs)

Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) (BRASIL, 2001) a ética


deve ser trazida ao ambiente escolar e esse movimento significa inserir em cada uma
das áreas do conhecimento uma contínua atitude crítica. Para tanto, o educador deve
contar com condições para o desenvolvimento de sua autonomia sendo a ele
permitido se posicionar em sala de aula diante da realidade, fazendo escolhas,

17
manifestando opiniões, estabelecendo critérios de ensino e avaliações, debatendo
criticamente a realidade que o cerca sempre movido pelo foco principal da ética
profissional: o respeito.
Existindo respeito com competência profissional, com constante atualização do
domínio dos conteúdos, com honestidade de propósitos para com a educação, com
avaliação eficiente e eficaz dos alunos e com ensino eficiente e eficaz, educar se torna
uma atividade ética.
Educar exige ética, pois assim como ter ética é um compromisso social e
político, educar também é um compromisso social e político. O educador de qualquer
área do conhecimento é aquele que movido pelo respeito, pelo estímulo a liberdade
de pensamento e pela transmissão de conteúdos deve respeito às normas e regras
em geral ao mesmo tempo que deve ter autonomia para se posicionar de maneira
crítica em sala de aula a respeito da realidade em que a escola está inserida (BRASIL,
1997).
A escola deve ser um lugar em que o aluno encontre a possibilidade de se
instrumentalizar para a realização de seus projetos sendo necessário para isso o
emprego de uma alta qualidade de ensino para a sua formação moral. Ao mesmo
tempo o convício dentro da escola deve ser organizado de maneira que conceitos
como o de justiça, de respeito e de solidariedade sejam compreendidos por todos
como condicionantes para se alcançar a felicidade (BRASIL, 2001).
Segundo os PCNs (BRASIL, 2001) a reflexão ética discute de maneira
crítica a legitimidade de práticas e valores instituídos pela tradição e pelos
costumes. Dessa forma abrange a crítica das relações entre diferentes grupos e as
ações individuais.
Liberdade de escolha não é pretensamente estabelecer uma educação
chamada de neutra. Ela deve ser crítica atuando na formação da mente e do coração
dos educandos, refletindo sobre tradições e costumes de maneira crítica, visando a
construção de caminhos racionais que primem pelo bem comum. Ao final da Unidade
4 serão apontados alguns pontos que constituem uma verdadeira pedagogia ética.

18
Síntese da Unidade

Moral é o conjunto de regras aplicadas no cotidiano e usadas continuamente


por cada cidadão. Tais regras orientam cada indivíduo, norteando suas ações e os
seus julgamentos sobre o que é certo ou errado, bom ou mau. Ela é criada por uma
espécie de consciente coletivo que estabelece regras que influenciam a maneira de
pensar, de agir, dão forma a costumes e ditam como devemos classificar uns aos
outros na lógica do “certo e errado”. Aquilo que se adequa ao que coletivamente é
entendido como certo é moral e aquilo que contraria o que coletivamente é entendido
como certo é imoral. A pessoa que não tem senso do que seja moral (de certo e
errado) é amoral.
A religião predominante é um setor da sociedade que interfere muito na
construção de tais princípios, pois é ela que estabelece a lógica de certo e errado na
vida mundana e na vida espiritual.
A palavra ética, por sua vez, está associada ao estudo fundamentado dos
valores morais que orientam o comportamento humano em sociedade. Ela é o aspecto
racional, a reflexão a respeito das atitudes humanas. Ela é produto ao mesmo tempo
que é produtora de leis que regulam profissões, cargos políticos, comportamentos
dentro de uma empresa, etc. Remete ao seguinte raciocínio: “Se a moral do lugar que
eu vivo diz que o certo é isso, o que devo fazer para me adequar a isso? ”. Aquilo que
contribui para essa adequação é o ético. Aquilo que rompe com essa adequação é o
antiético.
A ética nasce da moral já que é da moral que são estabelecidos os valores,
mas as duas partes nem sempre estão de acordo. Isso acontece, pois, a moral não
segue uma racionalidade e pode ser afetada por inúmeros fatores como
acontecimentos que levam a comoção social, passagem de tempo, pessoas e grupos
de diferentes origens e histórias de vida que enxergam a realidade a sua volta de
maneiras antagônicas, dentre outros.
Pela moral não ser orientado pela racionalidade, enquanto a ética e a lei são,
nem tudo que é moral é legal e nem tudo que é legal é moral. Essa divergência afeta
também a noção de justiça, pois enquanto o ideal de justiça remete a imparcialidade
e da coletividade pode remeter muito mais a ideia de vingança.

19
Já a ideia de justiça social emanada pela ética é diferente da ideia de igualdade,
pois tratar da mesma maneira pessoas de origens, histórias de vida e capacidades
diferentes da mesma forma leva a uma série de injustiças. O caminho a ser buscado
é o da realização de uma discriminação positiva, em que pessoas diferentes devem
ser tratadas de maneiras diferentes como mecanismo de busca da real igualdade.
Moral e ética possuem ainda a característica de dinamicidade. A noção de certo
e errado varia com o tempo, de acordo com o lugar e pela influência de inúmeros
outros fatores e o mesmo acontece com o que é racional ou irracional, influenciando
no que é ético ou antiético. Determinadas práticas vistas como erradas, quando se
repetem constantemente e são aceitas pela coletividade podem gerar mudanças nas
leis, por exemplo.
Toda profissão está inserida em uma configuração coletiva de moral e é regida
por um Código de Ética. A profissão é uma atividade especializada dentro da
sociedade, sendo que algumas dessas atividades exigem estudos de um dado
conhecimento e/ou possuir determinadas habilidades práticas. Consiste em uma
ocupação produtiva para com a comunidade onde se está inserido. Por sua vez, o
código consiste em uma espécie de acordo que estabelece os direitos e deveres de
funcionários no exercício de suas funções profissionais.
Toda essa importância da moral e da ética reflete também na educação que
segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) deve ser uma educação
pautada por uma contínua atitude crítica a respeito da realidade, com o educador
tendo que respeitar as normas e regras em geral ao mesmo tempo que deve ter
autonomia para se posicionar de maneira crítica em sala de aula a respeito da
realidade em que a escola está inserida.

Atividades (questões)

Questão 1- A vida humana é conduzida por uma série de valores compartilhados pela
maioria das pessoas quando estas pessoas vivem em sociedade. Em determinados
momentos da vida as nossas ações estão de acordo com tais valores e em outros
não. Tais valores são conjugados no que chamamos de moral. São características da
moral as informações presentes na alternativa:

20
A) Moral é algo estático, não variando de sociedade para sociedade, de cultura
para cultura e nem em diferentes períodos históricos.
B) A moral é baseada na racionalidade e essa racionalidade se traduz na
condução lógica das ações humanas.
C) A moral é construída pelo que Durkheim chama de consciente coletivo e ela
possui em si uma dimensão de coerção, conduzindo assim as ações humanas.
D) O que é moral sempre é legal e o que é legal sempre é moral.
E) A ideia de justiça emanada pela moralidade é uma justiça racional e imparcial.

Questão 2- A ética é um assunto que se faz presente ao discutirmos política, leis,


profissões e educação, dentre diversos outros temas. Segundo os Parâmetros
Curriculares Nacionais (PCNs) a ética deve estar inserida no ambiente escolar.
Segundo os PCNs, a ética no ambiente escolar deve:
A) Afastar a atitude critica dos professores, coordenadores e alunos.
B) Tirar a autonomia do educador não sendo a ele permitido se posicionar em sala
de aula diante da realidade.
C) Apontar previamente os caminhos que o aluno deve obrigatoriamente seguir
na condução de sua vida.
D) Aceitar as relações entre diferentes grupos e as ações individuais como estão,
mesmo que marcadas por injustiças sociais.
E) Discutir de maneira crítica a legitimidade de práticas e valores instituídos pela
tradição e pelos costumes.

21
BIBLIOGRAFIA BÁSICA

BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares


Nacionais: Apresentação dos temas transversais. Brasília, 1997. Disponível em:
<http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/livro081.pdf>. Acesso em: 13/08/2018.

BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: Temas Transversais - Ética. Brasília:


MEC/SEF, 2001. Disponível em:
<http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/livro082.pdf>. Acesso em 13/08/2018.

LOPES DE SÁ, Antonio. Ética Profissional. 6ª Edição. São Paulo: Editora Ática,
2005.

VÁZQUEZ, Adolfo Sánchez. Ética. 24ª edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
2003.

BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR

ARON, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. São Paulo: Editora


Fontes, 2002.

BARROS, Sebastião Amoedo de. Ética do Trabalho na Era Pós-Qualidade. São


Paulo: Quality Mark, 1997.

FERNANDES, Adriana; OTA, Lu Aiko. Servidor público ganha 67% a mais que o
privado no Brasil, diz Banco Mundial. O Estado de São Paulo, 21 de Novembro de
2017. Disponível em: <https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,servidor-
publico-ganha-67-a-mais-que-o-privado-no-brasil-diz-banco-mundial,70002091605>.
Acessado em: 11/08/2018.

G1. Idoso é preso por suspeita de pedofilia após sofrer tentativa de linchamento em
Salvador. G1, 24/11/2017. Disponível em:
<https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/idoso-e-preso-por-suspeita-de-pedofilia-apos-
sofrer-tentativa-de-linchamento-em-salvador.ghtml>. Acessado em 09/08/2018.

22
UNIDADE 2: A ÉTICA NA HISTÓRIA

Apesar de ética ser de uma maneira geral a busca por compreender de forma
racional o comportamento humano seguindo valores estabelecidos pela moralidade
do contexto sociocultural em que esse comportamento está inserido, ao longo da
história vários pensadores estabeleceram algumas interpretações diferentes sobre
essa temática.

Para entender algumas perspectivas a respeito da ética é interessante


compreender essa evolução história contextualizando com a realidade na atualidade.
As discussões a respeito dessas diferentes interpretações remontam a perspectivas
filosóficas do período clássico da Grécia Antiga (séculos VI a IV a.C.).

2.1 A ética para os Sofistas

A Grécia Antiga (século VI e IV a.C.) era constituída por uma série de cidades
independentes, com governos próprios e autônomos (cidades-Estados). A cidade-
Estado de Atenas foi governada por aristocracias4 até o século V a.C.. Com o declínio
desse regime político, desenvolveu-se a democracia5 (LAKATOS E MARCONI, 1999).

4
Forma de governo no qual o poder político é dominado por grupo elitista.
5
Governo do povo e para o povo.
23
No entanto, enquanto na aristocracia a elite governante era composta por
famílias tradicionais que se mantinham no centro do poder, na democracia a elite
governante era formada pelos cidadãos. Era considerado cidadão a pessoa do sexo
masculino, livre, alfabetizada, maior de idade, nascida em Atenas e com pais
atenienses. Assim sendo, a vida política ainda permanecia nas mãos de um grupo
restrito de pessoas, mesmo que o conceito de democracia indicasse uma maior
participação popular (LAKATOS E MARCONI, 1999).
A mudança mais relevante, na realidade, foi na forma de se fazer política. Com
o desenvolvimento do novo regime, a vida da cidade-Estado passou a ser decidida
em espaços públicos, onde o cidadão discursava sobre diversos assuntos do
interesse geral da comunidade. Após os discursos aqueles que tinham o perfil de
cidadão votavam sobre os temas abordados e a coletividade seguia o que foi decidido
em votação (LAKATOS E MARCONI, 1999).

A democratização da vida política, a criação de novas instituições eletivas, e o


desenvolvimento de uma intensa vida pública originaram uma filosofia política e moral
(VÁZQUEZ, 2003). Desenvolveu-se a Escola Sofística com uma visão particular a
respeito da ética e de como deveria ser ministrado o ensino aos jovens.

24
Os sofistas eram mestres que viajavam e faziam aparições públicas com a
intenção de atraírem jovens para lhes oferecerem educação mediante cobrança de
taxas. A base dessa educação era o discurso, com foco em estratégias de
argumentação. Se a vida política da cidade era decidida mediante discurso e debate,
nada mais natural na visão desses mestres, do que ensinar às pessoas de um modo
geral e aos jovens em específico, a arte de saber falar em público (RODRIGUES,
2000).
Segundo a Escola Sofística, a virtude é algo que não necessariamente nasce
com o indivíduo e sim pode ser apreendida com o decorrer da vida, isso porque
virtude é o saber discursar em público. Debate não é necessariamente uma
forma de se produzir conhecimento e sim é uma guerra em que vence aquele
que faz prevalecer seu ponto de vista (LAKATOS E MARCONI, 1999).
O conhecimento em si era algo irrelevante nessa perspectiva, pois o
importante não é apreender sobre algo e sim desenvolver a habilidade de se
falar sobre esse algo (RODRIGUES, 2000).

25
A frase “o homem é a medida de todas as coisas” surgiu dos ensinamentos
sofistas. De acordo com esses ensinamentos, deve-se questionar a sabedoria
recebida dos deuses pois as práticas culturais existem em função de convenções e o
que é moral ou imoral só pode ser julgado como tal no contexto cultural em que
acontece. O que é considerado certo ou errado, verdadeiro ou falso, só faz sentido no
contexto em que ocorre. Iam mais além ao afirmarem que o moral e o imoral
depende até mesmo da subjetividade de cada um, pois por meio da
argumentação pode-se convencer o outro de que um determinado ponto de
vista, por mais absurdo que seja, é o certo (LAKATOS E MARCONI, 1999).
A partir da concepção da Escola Sofística de que verdade consiste em algo
relativo, é possível questionar a existência do certo e do errado, do ético e do antiético
(LAKATOS E MARCONI, 1999).
Cada contexto sociocultural apresenta uma lógica interna, um padrão particular
de comportamentos, uma gama de valores específicos e, consequentemente, um
padrão moral próprio. Se em uma determinada sociedade, ensina-se desde cedo que
todos os problemas devem ser resolvidos na base da violência, provavelmente será
criado um código moral que abarque esse tipo situação como algo característico
dessa configuração social (VÁZQUEZ, 2003).
Isso resultará na formação de valores éticos que seguem essa lógica
culminando com a criação de leis de acordo com essa linha de raciocínio. Para uma
sociedade cristã que segue valores morais próximos da concepção religiosa de que o
perdão e o pacifismo devem ser praticados, perdoar e buscar a paz determinam se
uma pessoa é ou não ética e moral (lembrando que nem sempre ser ético significa
seguir a moral e vice-versa). Já no exemplo de uma cultura que prega que todos os
problemas devem ser resolvidos com base na violência os valores serão outros e ser
classificado como moral ou imoral e ético ou antiético irá adotar critérios diferentes.
Dessa forma, cada cultura cria uma lógica interna que justifica e atribui
significados para os costumes e práticas. Mudando a cultura, mudam-se os costumes,
os valores, os significados, a lógica interna e, consequentemente, aquilo que é tido
como moral. E mesmo que costumes sejam iguais em diferentes culturas os
significados atribuídos às práticas podem ser diferentes (MELLO, 2003).

26
2.2 A educação e a ética para os Sofistas

Uma das mais importantes doutrinas do pensamento sofista é a teoria da


contra-argumentação. Essa teoria estabelece que todo e qualquer argumento pode
ser refutado por outro argumento, pois o que importa é a verossimilhança, ou seja,
não importa se o que está sendo dito é verdadeiro ou não e sim que tenha a aparência
de verdadeiro (LAKATOS E MARCONI, 1999).
Dessa forma não importa se existe a aprendizagem, se o indivíduo adquire
conhecimento ou não em um sistema de ensino bem estabelecido. O importante é a
capacidade de oratória, de retórica, o poder do convencimento e da manipulação por
meio do discurso e da argumentação.

A imagem também é um fator importante. Em uma situação de debate, não é


nem mesmo necessário que se tenha um mínimo de conhecimento sobre o que se
está sendo discutido, pois a discussão pode ser vencida ao ser ter uma boa imagem
e ao atacar a imagem do adversário. Ao se atacar a pessoa ao invés das ideias, ataca-
se a credibilidade, delegando para segundo plano o conteúdo do debate. Assim
27
sendo, é necessário também se preocupar com a própria imagem a fim de passar
autoridade para o público (LAKATOS E MARCONI, 1999).
Como as pessoas se orientam majoritariamente pelo que estão vendo e
escutando é necessário se adequar tanto em aparência quanto noz dizeres ao que a
sociedade espera de você. Em outras palavras, para se destacar
profissionalmente, politicamente, economicamente, educacionalmente e
socialmente o indivíduo deve se comportar, se vestir e falar aquilo que os outros
querem ver e ouvir.
Deve existir, portanto, o predomínio de um relativismo prático. O único bem é o
próprio prazer, a única regra de conduta é o interesse particular, o que importa é
vencer os adversários e se a causa é justa ou não pouco importa (LOPES DE SÁ,
2005).
Essa perspectiva revela que a moral não é uma lei universal para o agir
humano e sim um empecilho que deve ser superado. Consequentemente, a
educação deve ser voltada para a formação de pessoas articuladas, práticas, que
saibam se sair bem de diferentes situações mesmo que não tenham o conhecimento
adequado para isso, usando da manipulação por meio da fala e da imagem.
Importante frisar que não é essa a visão defendida na atualidade. Na atualidade
a educação deve sim preparar o indivíduo para o mercado de trabalho, para se
destacar em qualquer área que queira atuar e que tenha boa oralidade, mas tudo isso
a partir de apreensão de conteúdos do enriquecimento do conhecimento e não
meramente pelo aprendizado de técnicas de manipulação pela fala.

2.3 Contribuições da ética pregada pela Escola Sofística na atualidade

Por mais que os preceitos defendidos pela Escola Sofística possam parecer
estranhos aos padrões estabelecidos na atualidade, eles ainda se encontram
presentes de maneira negativa na nossa sociedade e cultura. Política e religião são
os setores em podemos encontrar exemplos dessa presença. Todo discurso vazio de
conteúdo dito meramente buscando o convencimento dos outros é um exemplo de
manifestação do pensamento sofista. No entanto, essa escola do pensamento
também foi importante para a consolidação de algumas perspectivas.

28
Os sofistas eram mestres que cobravam taxas para educar a população. São
considerados os primeiros advogados do mundo em decorrência do alto poder de
argumentação e muitas das prerrogativas defendidas pela Escola Sofística ainda hoje
são apreendidas em cursos como de Direito frente a necessidade da interpretação de
leis e da importância da oratória na atividade profissional.
O poder atribuído a oratória e retórica ainda hoje é preponderante, por exemplo,
na vida política, ao passo que os políticos buscam convencer o eleitorado de que são
os melhores candidatos aos postos de governantes e que apresentam as melhores
propostas para o futuro do país. Não tem nenhum problema nessa busca pelo
convencimento. A crítica que se faz é quando esse movimento ocorre de maneira
vazia, sem conteúdo, visando apenas a manipulação do eleitorado
A preocupação com a imagem ainda hoje se faz presente na sociedade a
medida em que muitas profissões mantêm padrões estéticos que as diferenciam umas
das outras. O uso de terno por advogados, do jaleco branco por médicos e dentistas,
e até mesmo o uso de uniformes são fatores de diferenciação que buscam agregar a
cada profissão certa credibilidade no imaginário popular. Novamente não existe
nenhum problema nisso se ele não ocorre apenas para esconder uma falta de
conteúdo.

Outra contribuição dos sofistas refere-se ao desenvolvimento da própria


democracia ao considerarem o relativismo do que é ou não verdade. A democracia
contemporânea é baseada, em parte, na possibilidade de se expressar diferentes
ideias, diferentes opiniões sobre os mais diversos assuntos. Seu alicerce, pelo menos

29
na teoria, é o da liberdade de discussão, mesmo que as ideias apresentadas sejam
antagônicas. E uma verdade somente permanece verdade enquanto resiste a
questionamentos e a outros pontos de vistas (LAKATOS E MARCONI, 1999).
Durante a Idade Média trabalhou-se com a existência de verdades absolutas
sob a ótica do dogmatismo religioso. No período pós-Renascimento esse dogmatismo
esteve presente na ótica de que tudo seria explicado pela ciência. Atualmente, essa
questão foi parcialmente superada a medida que a ciência trabalha com a ideia de
verdade contextualizada, ou seja, aquilo que é tido como verdadeiro hoje pode assim
não ser amanhã frente a mudanças de paradigmas e a luz de novas descobertas
(LAKATOS E MARCONI, 1999).
A própria Sociologia, ao lado da Filosofia e da Antropologia, trabalha com a
ideia do relativismo ao considerar que uma prática sociocultural só faz sentido no
contexto sociocultural onde foi observada, não existindo o certo ou o errado e sim
apenas o diferente.
É claro que não se defende o relativismo absoluto onde um argumento deva
cair para outro argumento desde que esse segundo aparente ser mais verdadeiro,
como proposto pelos sofistas. Acredita-se na livre discussão, mas com conteúdo, no
confronto de ideias com embasamento e na possibilidade de mudanças de
perspectivas em contextos diferentes.
Por fim, uma última contribuição estaria relacionada a oralidade do
conhecimento. Ao se educar o indivíduo espera-se que o conhecimento adquirido
retorne de alguma maneira para a sociedade. Por essa razão, o conhecimento não
pode ficar restrito apenas a mente daquele que o detém e sim deve ser compartilhado
(RODRIGUES, 2000). A utilização de seminários, conferências, simpósios são meios
de promover esse compartilhamento. Pensando no ambiente escolar a realização de
seminários por parte dos alunos visa estimular a oralidade. Ao final de um curso de
graduação o estudante deve realizar um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) e
concluído a produção escrita esse estudante deve expor esse material em um ritual
de apresentação que geralmente é aberto para a presença de toda a comunidade
acadêmica e sociedade.

30
2.4 A ética socrática e o ensino na atualidade

Sócrates é contemporâneo dos sofistas, mas seu posicionamento a respeito da


ética e da educação se contrapõem ao pensamento sofista. Ele propôs uma outra
forma de enxergar o ser humano e uma outra maneira de definir os padrões éticos e
educacionais. Suas proposições ainda hoje se fazem presentes no mundo Ocidental
ao encarar o ser humano como um ser do conhecimento que deve ser educado de tal
maneira que permita a reflexão.
Para Sócrates o saber fundamental é o saber a respeito do próprio ser humano
(conhecer a ti mesmo). Esse conhecimento é um conhecimento moral, ou seja, é
pensar o ser humano inserido no convívio em comunidade (os valores do indivíduo
frente aos valores morais de sua comunidade). É também ético, ou seja, busca
analisar racionalmente as atitudes do ser humano convivendo em comunidade. Por
fim é um conhecimento prático, ou seja, deve-se conhecer para em seguida agir
corretamente (VÁZQUEZ, 2003).
Dessa forma, a ética socrática é racionalista, em que a concepção do bem
remete a felicidade da alma e do bom refere-se àquilo que é útil para a felicidade.
A virtude é a busca pelo conhecimento e o vício é a ignorância (VÁZQUEZ, 2003).
O que Sócrates quer dizer com o vício é a ignorância? Para ele quem age
mal é porque ignora o bem. Em outras palavras não tem conhecimento da felicidade
da alma e, portanto, não faz o mal voluntariamente. Nessa perspectiva, bondade,
felicidade e conhecimento andam juntos e o ser humano que possui essa
compreensão age corretamente. Por outro lado, aquele que não é educado a buscar
o conhecimento, não compreende a busca pela felicidade da alma e
consequentemente age mal, mas não de forma voluntária e sim por ser um ignorante
(VÁZQUEZ, 2003)6.
Qual a solução então para estimular o agir ético em diferentes setores
sociais? Estimular a busca pelo conhecimento. Diferentemente do que propunham
os sofistas, as escolas e universidades configuram atualmente espaços mais próximos
da visão de Sócrates frente a possibilidade de aprofundar o conhecimento em diversas
áreas. Mesmo no ensino superior, onde o estudo é mais direcionado para áreas

6
A ignorância exime de responsabilidade moral. Tal preceito será abordado na Unidade 4 dessa
disciplina.
31
específicas de acordo com cada curso, a busca por se aprofundar o conhecimento
continua. Assim sendo, não há espaço (ou pelo menos não deveria ter) para a
tentativa de apenas desenvolver a fala em detrimento do conteúdo.
No pensamento socrático, para estimular o agir ético cada indivíduo deveria:
- Buscar constantemente o conhecimento;
- Buscar conhecer a si mesmo (conhece-te a ti mesmo);
- Ter em mente que nunca terá o conhecimento pleno de nada dessa vida,
inclusive de si mesmo, fazendo assim que você nunca se torne uma pessoa,
um profissional, um cidadão acomodado (só sei que nada sei);
- Parar de acumular bens materiais e buscar o crescimento particular;
- Buscar o amor e a amizade;
- Buscar o sentimento de pertencimento a algo e a algum lugar (LAKATOS e
MARKONI, 1999).

No entanto, os ambientes escolares e universitários também são espaços para


desenvolver no aluno a capacidade discursiva. Rousseau afirma que é durante a
infância e a adolescência que o aparato cognitivo do indivíduo se forma e por essa
razão deve ser estimulado por meio de uma educação natural. Durkheim afirma que
a escola é uma instituição de socialização que contribui para a formação de cidadãos
que possam contribuir para a harmonia social 7. Ambas perspectivas revelam a
amplitude que a educação possui para a formação do ser humano e da sociedade.
Assim sendo, a reflexão caminha junto com a vivência social, com a liberdade
de expressão, com o debate e com a “troca de ideias”. Como proposto pelos sofistas
e como é previsto em um ambiente democrático, deve sempre existir espaço para o
debate, mas na perspectiva de Sócrates esse debate deve ser pautado em conteúdos
e não meramente na oralidade.

7
O modelo de educação natural proposto por Rousseau será abordado na Unidade 3 dessa disciplina
e as proposições estabelecidas por Durkheim a respeito da educação como fonte de socialização serão
abordados na Unidade 4.
32
Sócrates tinha como método de ensino/aprendizagem no caminho de busca da
felicidade (ética) a maiêutica. A palavra em si significa “dar à luz”, o que leva a
interpretação que esse método parte do princípio de que a verdade está latente em
todo ser humano, e deve ser aflorada mediante questionamentos. Na prática, Sócrates
lançava temas para que seus discípulos discutissem e manifestassem opiniões a
respeito. Na sequência o mestre levava por meio de ironias e perguntas simples cada
discípulo a duvidar do seu próprio pensamento, estimulando assim que cada um
identificasse em seu próprio pensamento a presença de “pré-conceitos” sociais e
valorativos. Por fim o mestre apresentava novos conceitos, novas opiniões sobre o
tema abordado, estimulando assim cada discípulo a pensar por si próprio, mas com
um horizonte mais ampliado (RODRIGUES, 2000).
Em outras palavras o professor deve buscar constantemente expandir o
horizonte dos alunos, se posicionando sempre de maneira contrária a opinião aceita
pela maioria que conta com a presença de “pré-conceitos”, apresentando novas
opiniões e conceitos, estimulando assim a reflexão.
Da maiêutica socrática nasceu o conceito de dialética. Vários pensadores
desenvolveram interpretações próprias, mas de uma maneira geral dialética consiste
no confronto de ideias visando produzir um conhecimento mais sólido, que será
novamente confrontado por outras ideias e assim produzindo conhecimentos cada vez
mais sólidos (RODRIGUES, 2000).
Assim, a forma de se expressar é importante em um debate, mas na visão
socrática, o conteúdo possui papel de destaque. Além do mais, é esperado que o
indivíduo, ao se formar no ensino superior, tenha o domínio do conteúdo apreendido
33
durante os anos de estudos, sendo um profissional articulado e um cidadão atuante
na sociedade. Como ressaltado anteriormente, em muitas Universidades no Brasil, o
aluno encerra sua participação no curso superior apresentando um Trabalho de
Conclusão de Curso (TCC), onde o trabalho escrito e a apresentação são avaliados.
Trata-se de um processo avaliativo que funciona também como um ritual de passagem
onde o domínio da escrita e da fala se fazem importantes.

Síntese da Unidade

Os sofistas eram mestres que viajavam e faziam aparições públicas com a


intenção de atraírem jovens para lhes oferecerem educação mediante cobrança de
taxas. A base dessa educação era o discurso, com foco em estratégias de
argumentação. Se a vida política da cidade era decidida mediante discurso e debate,
nada mais natural na visão desses mestres, do que ensinar às pessoas de um modo
geral e aos jovens em específico, a arte de saber falar em público.
Segundo a Escola Sofística, a virtude é algo que não necessariamente nasce
com o indivíduo e sim pode ser apreendida com o decorrer da vida, isso porque virtude
é o saber discursar em público.
O conhecimento em si era algo irrelevante nessa perspectiva, pois o importante
não é apreender sobre algo e sim desenvolver a habilidade de se falar sobre esse
algo.
Afirmavam ainda que o moral e o imoral dependem até mesmo da subjetividade
de cada um, pois por meio da argumentação pode-se convencer o outro de que um
determinado ponto de vista, por mais absurdo que seja, é o certo.
A partir da concepção da Escola Sofística de que verdade consiste em algo
relativo, é possível questionar a existência do certo e do errado, do ético e do antiético.
Assim sendo, uma das mais importantes doutrinas do pensamento sofista é a
teoria da contra argumentação. Essa teoria estabelece que todo e qualquer argumento
pode ser refutado por outro argumento, pois o que importa é a verossimilhança, ou
seja, não importa se o que está sendo dito é verdadeiro ou não e sim que tenha a
aparência de verdadeiro.
A imagem também é um fator importante. Em uma situação de debate, não é
nem mesmo necessário que se tenha um mínimo de conhecimento sobre o que se

34
está sendo discutido, pois a discussão pode ser vencida ao ser ter uma boa imagem
e ao atacar a imagem do adversário.
Para se destacar profissionalmente, politicamente, economicamente,
educacionalmente e socialmente o indivíduo deve se comportar, se vestir e falar aquilo
que os outros querem ver e ouvir. A moral aparece dessa forma não é uma lei
universal para o agir humano e sim como uma convenção a ser superada.
Por mais que os preceitos defendidos pela Escola Sofística possam parecer
estranhos aos padrões estabelecidos na atualidade, eles ainda se encontram
presentes de maneira negativa na nossa sociedade e cultura. Todo discurso vazio de
conteúdo dito meramente buscando o convencimento dos outros é um exemplo de
manifestação do pensamento sofista. No entanto, essa escola do pensamento
também foi importante para a consolidação de algumas perspectivas como o
relativismo da verdade na democracia (não existem verdades absolutas e tudo deve
ser discutido) e a oralidade no conhecimento na educação.
Já para Sócrates o saber fundamental é o saber a respeito do próprio ser
humano (conhecer a ti mesmo). Esse conhecimento é um conhecimento moral, ou
seja, é pensar o ser humano inserido no convívio em comunidade (os valores do
indivíduo frente aos valores morais de sua comunidade). É também ético, ou seja,
busca analisar racionalmente as atitudes do ser humano convivendo em comunidade.
Por fim é um conhecimento prático, ou seja, deve-se conhecer para em seguida agir
corretamente.
Dessa forma, a ética socrática é racionalista, em que a concepção do bem
remete a felicidade da alma e do bom refere-se àquilo que é útil para a felicidade. A
virtude é a busca pelo conhecimento e o vício é a ignorância, pois aquele que age mal
assim o faz por não ter conhecimento da felicidade da alma e, portanto, não faz o mal
voluntariamente. A ignorância vem da falta do conhecimento e para estimular que as
pessoas se comportem eticamente na busca pela felicidade deve-se estimular a busca
pelo conhecimento.
Sócrates tinha como método de busca do conhecimento a maiêutica que
consistia no princípio de que o professor sempre deve se posicionar da maneira
contrária ao pensamento da maioria dos seus alunos para mostrar as contradições
nos pensamentos dessa maioria produzindo um conhecimento mais robusto. Da
maiêutica nasceu a dialética como um processo em que ideias devem ser

35
confrontadas visando produzir um novo conhecimento que será confrontado por
outras ideias, produzindo outro conhecimento e assim por diante.

Atividades (Questões)

Questão 1- A escola de pensamento sofistas nasceu a partir de mudanças políticas


ocorridas em Atenas, por volta de 500 a.C, saindo de um regime aristocrático para um
regime democrático. A partir da nova forma de se fazer política na democracia, os
sofistas estabeleceram novos critérios para definirem o que é moral, ética e como
deveria ser a educação. Sobre esses elementos é correto afirmar que:
A) Moral e ética sãos valores universais que devem ser seguidos por todos.
B) O importante para o sucesso na vida educacional, profissional, social, política
ou em quaisquer outras instâncias passa por falar e fazer o que as outras
pessoas querem escutar e ver.
C) Educar não reside apenas em ensinar a ter boa oratória e sim passa por
transmitir conteúdos sólidos que respaldem argumentos verdadeiros.
D) A verdade é algo absoluto que não depende da maneira como se fala.
E) O conhecimento é algo fundamental para se participar do debate.

Questão 2- Sócrates foi contemporâneo aos sofistas, mas sua maneira de encarar a
ética, o conhecimento e a educação era diferente dos demais. Para Sócrates ética é:
A) A ignorância que faz com não se tenha conhecimento das mazelas da vida
preservando assim a felicidade da alma.
B) Sentimentalista, fazendo com que o sujeito transite entre o amor e o ódio.
C) Espiritual, importante apenas o pós-morte.
D) A busca pela felicidade da alma, sendo que essa felicidade reside na busca
pelo conhecimento.
E) Algo irreal e impossível de ser seguido.

36
BIBLIOGRAFIA BÁSICA

LOPES DE SÁ, Antonio. Ética Profissional. 6ª Edição. São Paulo: Editora Ática,
2005.

VÁZQUEZ, Adolfo Sánchez. Ética. 24ª edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
2003.

BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR

LAKATOS, Eva Maria; MARCONI, Marina de Andrade. Sociologia Geral. São Paulo:
Editora Atlas, 1999.

MELLO, Luiz Gonzaga. Antropologia Cultural: iniciação, teoria e temas. Petrópolis:


Editora Vozes, 2003.

RODRIGUES, Alberto T. Sociologia da Educação. Rio de Janeiro: Ed. DP & A, 2000.

37
UNIDADE 3: ÉTICA, LEI E LIBERDADE

3.1 O princípio ético de que os fins justificam os meios

Nicolau Maquiavel (1469 a 1527) foi historiador, poeta, diplomata e músico


italiano do Renascimento, reconhecido como fundador da Ciências Política. Sua obra
“O Príncipe” é tratada como um manual onde se analisa a natureza humana, além de
estabelecer prerrogativas para se chegar e se manter no poder.
As ideias defendidas pelo autor aproximam-se muito do ideal sofista de que na
vida deve-se ser prático e que cada um deve fazer o que for necessário para conseguir
os seus próprios objetivos.
Considera que a natureza humana é predominantemente ruim a medida
que as pessoas sempre fazem o mínimo de esforço para conseguirem o maior
ganho possível, além de só fazerem o bem se forem obrigadas. Maquiavel
acredita ainda que o ser humano é ingrato e por isso se um governante for fazer algo
de bom para a população, deve fazer a conta gotas. Quando se faz algo de bom a
alguém, esse alguém vai sempre querer mais e mais, não se contentando com menos
do que já recebeu (ARON, 2002)

38
Essa natureza é imutável e por isso nada pode ser feito para mudar a
humanidade. Pensar em uma sociedade melhor e em uma moral voltada para o
bem social são esforços inúteis. Consequentemente, estabelecer um sistema de
ensino voltado para o conhecimento e a reflexão em nada contribui para lidar com os
obstáculos da vida, pois na vida o que predomina é o princípio ético de que os fins
justificam os meios (ARON, 2002)
Para lidar com esse princípio ético imutável que orienta as relações entre as
pessoas, é necessário que o indivíduo tenha virtu e fortuna. Fortuna refere-se a sorte
enquanto que virtu refere-se a virtudes, qualidades. Não adianta a pessoa ter as
maiores qualidades do mundo se não está na hora certa e no local certo para usufruir
delas, ao passo que também não adianta ter sorte se não se tem o material adequado
para aproveitar do bom momento (ARON, 2002)
A maior virtude de todas é a adaptação. Ao tratar da política, Maquiavel
afirma que dentre as causas que levam o governante a perder o poder está a
possibilidade de se perder a fortuna e, nesse caso, dificilmente há o que fazer. No
entanto, pode acontecer também de a situação política mudar exigindo que o
governante apresente novas qualidades. Nessa última situação, a comodidade da
natureza humana faz com que o indivíduo não se adapte. Assim, o que antes era visto
pela população como qualidade passa a ser visto como falta de virtude,
comprometendo a continuidade do governante no poder.
O que predomina na perspectiva maquiavélica é a necessidade de ser
pragmático em detrimento do idealismo. Partindo dessa perspectiva é possível
chegar a conclusão de que o ideal de educação voltado para a reflexão pode ser visto
como irrelevante para a vida humana (ARON, 2002)
Como o ser humano quer o máximo de ganhos a partir do menor esforço e só
faz o bem se for forçado, cabe ao Estado zelar pelo bem comum. É claro que o Estado
é composto por pessoas e essas pessoas apresentam a mesma natureza que os
demais. Porém, os bons governantes possuem a capacidade da razão e usam da
virtu para se manterem no poder. Devido a essa capacidade, sabem que se não
zelarem pelo bem comum podem perder o poder.

39
No entanto, o governante não tem que se preocupar em agradar os
governados. Em razão dos fins justificarem os meios, cabe ao Estado fazer o que
for necessário para manter a ordem, mesmo que isso signifique agir com
violência contra a população. Não importa como as ações da máquina
governamental se apresentam e sim os resultados dessas ações (ARON, 2002).
Cabe a história julgar se as medidas adotadas foram corretas ou não. A
população, sujeita as consequências das medidas adotas pelo Estado, não é imparcial
no julgamento. Assim, apenas a história avaliará com a imparcialidade necessária
(ARON, 2002).

3.2 A função social e a função remunerativa do profissional da educação tendo


por base o princípio ético de que os fins justificam os meios

A perspectiva ética de Maquiavel o aproxima muito da perspectiva ética dos


sofistas. Se ele não fala diretamente na importância de se aprender a oratória, a
retórica e a imagem, Maquiavel fala que a maior virtude de todas é a adaptação.
Aquele que se adapta ao que a situação pede sempre vai conseguir se destacar na
profissão, na política, na sociedade e até mesmo na educação.
Se adaptar pede por fazer o que for necessário para se atingir suas metas.
Dessa forma é possível chegar à conclusão que assim como os sofistas pregavam, o
40
moral e o imoral, o ético e o antiético na perspectiva de Maquiavel são encarados
como convenções sociais que devem ser superados pela pessoa que almeja atingir o
objetivo.
É possível chegar a conclusão também que a manipulação dos outros é uma
importante habilidade para se conseguir destaque, implicando assim em saber utilizar
da oratória, da retórica e da imagem.
Adaptação não necessariamente é se adequar àquilo que a sociedade
considera como bons valores e sim fazer o que for necessário para se sobressair em
uma comunidade composta por pessoas com natureza ruim, pois essas pessoas farão
o mesmo na primeira oportunidade. Se a situação pede por ter conhecimento, busque
o conhecimento, mas se a situação aceita apenas parecer que tem conhecimento
então busque essa aparência. Se para atingir suas metas nem é necessário se ter
conhecimento então não se preocupe com isso.
Lembrando que Maquiavel não propõe posturas semelhantes apenas porque
ele é uma pessoa ruim. Para ele, após fazer uma leitura da humanidade ao longo da
história ele simplesmente chegou a conclusão que o ser humano possui uma natureza
negativa. Então o que ele estabelece são apenas atitudes lógicas (na sua perspectiva)
para lidar com tal natureza. Dessa forma não é Maquiavel que está dizendo para você
ser pragmático. Você é pragmático como todos os outros e por isso age por essa
lógica.
O referido pensador afirmou uma vez que seu interesse seria o de escrever
coisas úteis para aqueles que se interessam, e por isso pareceu para ele mais correto
escrever sobre os efeitos das coisas do que propriamente escrever sobre como essas
coisas deveriam ser. O que ele quis dizer é que o importante é analisar como as coisas
realmente são e não como elas deveriam ser, pois elas não serão.
Tendo esse pensamento por base é possível fazer uma análise da ética na
educação e na profissão. Nessa perspectiva infelizmente ou felizmente a vida é
pragmatismo, então tratar do que é moral ou imoral, do que é ético ou antiético pouco
importa, pois, o comportamento humano é simplesmente orientado pelo princípio ético
de que fins justificam os meios e não cabe fazer juízo de valor, pois as coisas são
assim.
Falar de educação como um processo de internalização das regras sociais
(perspectiva de Émile Durkheim) ou como um processo de modificação das regras

41
sociais (perspectiva marxista) não importa, pois, a educação é o que é. Nessa
perspectiva a proposta apresentada no final da Unidade 1 de que educar exige ética
torna-se irrelevante, pois o importante não é discutir a respeito de valores de certo ou
errado, da busca pelo bem coletivo e sim os interesses individuais, pois a realidade é
assim.
Profissionalmente se aplicaria a mesma lógica. Se preocupar com a empresa
contratante, com a classe profissional, com a sociedade de uma maneira geral seria
uma perda de tempo, pois aqueles que estão a sua volta não estão se orientando por
essas preocupações e sim estão fazendo o necessário para atingirem seus interesses
particulares.
Em outras palavras não faria sentido pensar em função social da profissão.
Toda profissão possui uma função na sociedade no sentido de retribuir algo de bom
para a comunidade. Na profissão do educador isso é mais claro. Educar pode
representar o ato de preparar a nova geração para mudar as injustiças de um país,
ensinar a ter uma visão mais crítica, ensinar o respeito ao próximo, o respeito à
diversidade, além de diversas outras representações. No entanto, tendo o princípio
ético de que os fins justificam os meios, o que pode acontecer na realidade é o
predomínio apenas do valor remunerativo da profissão (o que irei ganhar ao
desempenhar essa atividade) (VÁZQUES, 2003).
Talvez as pessoas estão muito mais preocupadas com o quanto ganham do
que propriamente em cumprir a função social da profissão que exercem. O educador
pode estar muito mais preocupado em fazer o mínimo em sala de aula, minimizar
conflitos que possam surgir com um debate a respeito de um tema polêmico em sala
de aula, transmitir um conteúdo sem conectar com exemplos da realidade para
garantir o salário ao final do mês do que propriamente estabelecer uma visão crítica
que vise criar caminhos para o bem da coletividade, como é a proposta presente nos
PCNs a respeito da construção de uma educação ética nas diversas áreas do
conhecimento.
Caso isso se confirme a educação perde seu sentido social e torna-se
meramente um meio para que os profissionais ganhem seu ordenado no mês,
fortalecendo as coisas como elas são e nos distanciando de como as coisas deveriam
ser.

42
3.3 A ética como resultado do caráter imperativo da lei

Segundo Thomas Hobbes (1588 a 1679), o homem é o lobo do próprio homem.


Considera que o ser humano possui uma primeira natureza onde goza de plena
liberdade. Como qualquer animal, o indivíduo é livre para correr atrás de tudo aquilo
que ele quer e precisa. Assim sendo, nesse estado, não existem regras e a
humanidade vive em constante guerra de todos contra todos, pois as coisas na vida
são escassas. No entanto, a disputa generalizada não chega as vias de fato, pois as
pessoas têm medo umas das outras por serem diferentes em força física e em
inteligência (ARON, 2002).
Essa perspectiva estabelecida por Hobbes refere-se ao ser humano vivendo
antes da configuração de uma sociedade, imperando a lei do mais forte/inteligente. A
liberdade é encarada, portanto, como algo ruim. Nenhuma pessoa quer de fato ser
livre, pois liberdade plena significa guerra e medo. As pessoas se sentem protegidas
quando suas ações e as ações dos demais são orientadas por leis. É justamente por
não querer passar por uma vida de medo e guerra que cada um abre mão da liberdade
de si governar e assina um contrato social, atribuindo a outros a responsabilidade
de liderar, originando a sociedade e o Estado (LOPES DE SÁ, 2005).
No entanto, não basta colocar todo mundo junto e dar a essa união o nome de
sociedade. É preciso se estabelecer leis e um sistema de punição e recompensas
para que as cumpram. Dessa forma, as pessoas assinam o contrato a partir do
momento que entendem as leis como estão colocadas e aceitam viver sobre essas
diretrizes (LOPES DE SÁ, 2005).

43
Obedecidas essas condições o ser humano adquire uma segunda natureza,
sendo ela positiva a medida que é pautada no respeito a um padrão moral
estabelecido a partir de códigos e da configuração de um sistema de recompensas e
punições. A partir dessa perspectiva, entende-se que a educação deve ser aplicada
no sentido de ensinar o indivíduo a compreender e respeitar as diretrizes sociais,
desenvolvendo em si um código ético baseado na moral da coletividade (LOPES DE
SÁ, 2005).

3.4 Pensando na ética aplicada ao diretor, ao coordenador pedagógico, ao


professor, ao aluno e aos funcionários da instituição escolar a partir da
perspectiva de Hobbes.

Segundo Hobbes o ser humano só adquiri o agir ético caso exista um corpo de
leis com regras bem estabelecidas e um sistema de punição e recompensa que o
obrigue a seguir tal corpo de regras. A fixação de normas sociais e o respeito a essas
normas cria um código moral compartilhado entre as pessoas vivendo em sociedade,
possibilitando assim a manutenção da ordem.
No entanto, se não existir a possibilidade de recompensa ou o medo da
punição, o indivíduo não adotará o código moral e, consequentemente, não
apresentará o agir ético.
O Estado, forte e centralizado, dotado de armas punitivas, aparece como a
figura que estabelece a ordem social, fortalecendo a moral vigente. Onde o Estado
não alcança, a ordem pode ser mantida pela concepção de certo e errado proveniente
da religião. O medo da vida após a morte, do pecado, a necessidade de se fazer o
bem em busca da salvação da alma, aparecem como fontes que ditam regras a serem
seguidas.
O que fica evidente na perspectiva de Hobbes é que é impossível se falar no
agir ético e na conduta moral sem a existência de regras que governem a todos.
Partindo do mesmo princípio de Maquiavel de que o ser humano possui uma natureza
negativa, mas por motivos diferentes, Hobbes defende o autoritarismo como forma de
superação e desenvolvimento de uma segunda natureza com características
positivas.

44
Dessa forma é possível pensar nessa lógica aplicada no âmbito profissional.
Para Hobbes o poder deve estar centralizado nas mãos de uma única pessoa.
Pensando em uma empresa ou uma instituição pública o mesmo se faria necessário.
Deve-se ainda estabelecer um sistema hierárquico rígido, com um sistema de punição
e recompensa claro. O funcionário deve saber o que lhe espera caso se comporte de
acordo com as regras e caso existam infrações (TAILLE, 2005).
A punição deve funcionar para a adequação desse funcionário às regras e não
pode deixar de ser aplicada, pois ela funciona também para que os outros aprendam.
O mesmo ocorre com a recompensa, fazendo assim com que as pessoas cumpram
suas obrigações como devem ser cumpridas.
Não existe diálogo, pois existem aqueles que devem obedecer e aquele que
manda em última instância. Liberdade levaria a guerra de todos contra todos já que o
ser humano possui uma natureza negativa.
O mesmo se aplicaria ao educador em sala de aula. Na aula o professor deve
ser a autoridade máxima buscando ensinar deixando claro as regras, as punições e
as recompensas, estimulando assim o bom comportamento dos alunos. Deve existir
uma distância entre as partes para que posições não sejam confundidas. O diálogo
em sala de aula não é necessário, pois o importante é o cumprimento da função: um
lado deve transmitir o conteúdo e o outro deve compreender tal conteúdo (TAILLE,
2005).
Liberdade no sentido de maior diálogo, proximidade entre professor e aluno,
frouxidão nas regras, nas punições e nas recompensas levariam a guerra de todos
contra todos.
A mesma lógica se aplicaria aos cargos diretivos de uma escola. Enquanto o
professor é a autoridade máxima pensando exclusivamente em sala de aula,
pensando na escola como um todo deve existir um sistema de hierarquias rígido
culminando com uma figura central que estabelece e faz cumprir as regras. Sem essa
figura, os próprios professores sairiam da linha. Novamente o sistema de punição e
recompensa se faz necessário (SANTOS, 2004).

3.5 Investir em educação para estimular o agir ético

45
John Locke (1632 a 1704) e Jean-Jacques Rousseau (1712 a 1778)
apresentam um contraponto às visões de Maquiavel e Hobbes a respeito da ética.
Enquanto para Maquiavel e Hobbes o ser humano possui uma natureza negativa, para
Locke a natureza é neutra e para Rousseau a natureza é boa.
Então, tanto Locke quanto Rousseau não acreditam que o estímulo para o agir
ético passam pelo imperativo das leis, pela necessidade de existir um sistema de
punições e recompensas, pois esse sistema trata apenas das consequências e não
das causas que levam as pessoas a serem antiéticas e/ou imorais. Ambos acreditam
que a correção vem por meio da educação.
Segundo Locke, a mente humana é uma tábula rasa. Ao afirmar isso, refere-
se ao fato da mente humana ser uma tela em branco onde qualquer coisa pode ser
escrita. As pessoas são boas ou más graças a educação que recebem e as
experiências de vida. O aprendizado depende primordialmente das informações e
vivências as quais a criança é submetida. É, assim, um aprendizado de fora para
dentro (LOPES DE SÁ, 2005).
Locke não acreditava na existência de ideias inatas, ou seja, os passos
humanos não são orientados por um código moral e uma noção de Deus previamente
estabelecidos. Na sua perspectiva, apenas por meio da razão se desenvolve a noção
de Deus e a base moral necessária para a vida (VÁZQUEZ, 2003).
Acredita que a criança vem ao mundo sem nenhuma base de conhecimento,
carregando consigo apenas inclinações e determinados traços de temperamento, mas
que poderiam ser moldados frente a um determinado sistema de ensino. Se a criança
não é educada devidamente, ela se encontra desprovida de matéria prima para o
raciocínio, não aprenderá a lei da natureza (meu direito vai até onde começa o
seu) e com isso se tornará um degenerado moralmente, egocêntrico e que
compromete a vida harmoniosa entre os seres humanos colocando em risco os
direitos naturais dos demais (ARON, 2002).
Graças àqueles que não foram educados de forma correta que não é possível
viver de outra forma que não seja em sociedade e mesmo em sociedade, esses
degenerados moralmente podem colocar tudo a perder.
No entanto, o ser humano não possui uma predisposição a buscar o
conhecimento não tendo uma motivação natural para o aprendizado. Dessa forma, a
educação oferecida a ele deve ser convidativa. É necessário levar a criança a pensar

46
para que elas não se tornem dependentes apenas dos sentidos. O castigo como forma
de estímulo ao aprendizado só deve ser um recurso a ser utilizado em última instância
para não gerar adultos frágeis e medrosos.
Para se estabelecer um processo de aprendizagem atrativo, as figuras
centrais são os pais e os educadores, cabendo a eles dar os exemplos de como se
pensar e se comportar, treinando as crianças intelectual e moralmente. Esse processo
de aprendizado acontece pelo hábito. Locke acreditava em uma educação ministrada
em casa por um preceptor que aplicaria atividades que promovessem a repetição, o
endurecimento físico, a conduta ética, as boas maneiras, a autodisciplina e o domínio
das paixões. A repetição leva ao hábito e com o passar do tempo, pelo hábito, o
indivíduo compreende o que está fazendo (ARON, 2002).
No entanto, não há um método geral para o ensino. Como a criança não
apresenta previamente nenhum conhecimento, carregando consigo somente
inclinações e alguma forma de temperamento, compete ao educador constatar as
características emocionais do aluno e desenvolver métodos específicos de ensino.

Uma boa educação cria empatia entre as pessoas por meio do aprendizado da
lei da natureza (a lei da razão que ensina que o ser humano é livre para lutar
pelos seus direitos desde que não interfira nos direitos naturais de outras). Da
educação decorre a propagação da moral vigente e a criança passa a compreender
que seus direitos naturais vão até onde começam os direitos naturais dos outros. Do
aprendizado de tal lei decorre a prática da tolerância e o respeito para com o próximo
(RODRIGUES, 2000).

47
Locke defende a prática do ensino dentro de casa, mas de um modo geral,
considera que o sistema educacional deve ser incentivado, pois um ensino de
qualidade ruim irá gerar pessoas degeneradas moralmente que só pensarão em sanar
seus desejos e interesses próprios (RODRIGUES, 2000).

3.6 A Ética na educação em liberdade.

Rousseau apresenta uma proposta de educação que valoriza a liberdade, bem


como o desenvolvimento das faculdades da criança. Rousseau quer que o ser
humano seja educado para si mesmo não no sentido de só correr atrás dos próprios
interesses e sim no sentido que leve a compreensão de que ao correr atrás do bem
da coletividade estará no final das contas defendendo seus próprios interesses.
Em outras palavras, se eu consigo o que quero agora em detrimento dos outros
isso não significa que amanhã conseguirei novamente. Então quando luto apenas
pelos meus objetivos estou lutando contra mim mesmo. Agora se luto pelo bem
coletivo (vontade geral) estou lutando pelos meus próprios interesses já que se a
coletividade vai bem significa que eu também vou bem (ARON, 2002).
Assim é necessário repensar a educação, considerando para tanto uma nova
forma de compreender a infância, a adolescência e a fase adulta. A partir disso chega-
se aos diferentes modos de educar segundo as diferentes etapas de formação
humana.
A primeira dessas etapas é a infância que é o período no qual acontece o
desenvolvimento físico do ser humano. Assim sendo, é nesse período em que as
faculdades naturais do indivíduo se desenvolvem, constituindo-se, pois, a sua primeira
formação (RODRIGUES, 2000).
A criança precisa de liberdade para viver e aproveitar cada fase da sua vida
em seu devido tempo e não ser considerada um adulto em miniatura. A infância é um
período muito curto da vida e que não volta mais. Passada essa fase, o indivíduo se
depara com muitos problemas e com desejos irrelevantes que apenas trazem tristeza,
já que nem todos podem satisfazer todos os desejos particulares. Assim, é indicado
que se permita que a criança brinque bastante, goze desse tempo valioso, siga seus
instintos e seu mundo sensorial, não devendo se impor a ela as vontades do universo
adulto (RODRIGUES, 2000).

48
Analisando a atualidade constata-se que o que ocorre é o contrário do que
defendia Rousseau, sendo a criança educada para decidir logo o seu destino para o
ingresso no ensino superior com o intuito de possuir uma carreira rentável e que
garanta o futuro. Desde cedo, bombardeia-se o indivíduo com uma carga enorme de
informações das mais diversas disciplinas, coloca-se a criança para fazer as mais
diversas atividades e cursos, havendo sempre uma cobrança muito intensa por nota
e avanços no campo do conhecimento.
Rousseau considera que é preciso pensar seriamente no significado da
infância de uma forma que acabe essa imposição dos saberes dos adultos à criança.
A educação deve ser assim natural e não artificial. Não se pode deixar de viver o
presente em busca de um futuro incerto, conduzido por desejos supérfluos,
necessidades imaginárias que farão o ser humano infeliz, não mantendo o equilíbrio
entre os seus desejos e suas capacidades de realizá-los (ARON, 2002).
Comprar o carro do ano, uma grande casa, aparelhos celulares de última
geração, roupas de marca ou perseguir pela vida toda uma condição social/econômica
cada vez melhor para garantir um futuro que nunca chega, não são coisas relevantes
para a vida, mas que acabam sendo colocadas como metas imprescindíveis. Quanto
mais metas são colocadas para serem alcançadas, mais obstáculos devem ser
superados e é impossível que todos alcancem os mesmos objetivos, pois as coisas
na vida são escassas e mesmo que existissem em abundância, nem todos possuem
as mesmas capacidades para alcançá-las.

49
A felicidade consiste no uso da liberdade e será feliz quanto mais puder
fazer o que necessita, não adquirindo excesso de desejos sobre as próprias
faculdades (ARON, 2002). Ou seja, quanto mais o ser humano permanece perto da
sua condição natural mais se distancia dos desejos supérfluos que os tornam infeliz,
por causar um desequilíbrio entre potência e a vontade. A felicidade reside em coisas
simples da vida (comer, dormir, transar, beijar na boca, conversar, viajar, aprender
algo novo, etc.) e não em coisas materiais que são impostas desde cedo pelas
gerações já adultas. Essas coisas simples também não precisam (ou não deveriam
precisar) necessariamente de muito dinheiro como fazemos depender. O amor não
deveria depender de quando a outra pessoa ganha. Educar uma criança não deveria
depender de obrigá-la a passar de ano em uma escola pensando em não ter que
pagar uma mensalidade cara por mais um ano. Viajar não deveria depender de ter
dinheiro já que pessoas conhecem o mundo como mochileiros8.
É indispensável conversar com a criança ao máximo evitando os vícios e os
erros para que, ao chegar aos 12 anos, o entendimento em relação a razão seja sem
preconceitos e sem vícios. Assim o seu caráter se desenvolve em liberdade,
aproveitando cada minuto desse tempo valiosíssimo (RODRIGUES, 2000).
O ser humano verdadeiramente livre só quer o que pode e faz o que lhe agrada.
Um homem livre é aquele que tem autonomia de suas decisões e não necessita de
outras pessoas para fazer as coisas no seu lugar. Assim aprende pelos próprios atos
e não porque alguém obriga a fazer. Por isso deve-se tornar a criança mais livre e
menos dependente dos adultos. Assim, elas acostumam desde cedo a por sob a
própria dependência seus desejos e suas forças.
E para educar, os atos contribuem mais do que as palavras, não sendo
recomentado a aplicação de castigos, pois o castigo torna o ser humano fraco e
medroso. Deve-se fazer com que a criança sinta as consequências naturais da sua
má ação, ou seja, a punição deve deixar claro ser uma consequência da má conduta
e deve levar a reflexão dos atos (RODRIGUES, 2000).
Outro benefício da educação natural é a preservação das inclinações naturais
que variam de pessoa para pessoa. Ao se impor uma educação de adultos para as

8
KOSONISCS, Rafael. O que é ser mochileiro? Seu Mochilão. 26/08/2013. Disponível em:
<https://www.seumochilao.com.br/o-que-e-ser-mochileiro/>. Acesso em 01/08/2018.
50
crianças, perdem-se as inclinações naturais igualando todos a uma mesma condição
que não corresponde à realidade das potências individuais (ARON, 2002).
Preservando as inclinações, pavimenta-se o caminho para a adolescência, que
consiste em um segundo nascimento, onde se conclui a formação física e moral,
passando a adquirir as qualidades que permitem a inserção na sociedade, abrindo
espaço para a construção da cidadania.
A adolescência, é um período de modificações, um novo nascimento que
remete o indivíduo a um processo de aprendizagem em direção a autonomia da vida
adulta.
De um modo geral, caso ocorra na infância a educação natural, as forças
(potência) passam a se desenvolverem de forma mais rápida que as necessidades na
adolescência. No período que vai dos doze aos treze anos, a criança não tem todas
as suas necessidades desenvolvidas, desejando apenas as coisas simples e
importantes da vida. Por isso, as suas forças são superiores. Podendo mais do que
deseja, o indivíduo será um adulto mais forte.
Diminuindo os desejos, tem-se capacidade suficiente para conseguir aquilo
que é realmente necessário e, consequentemente, chega-se a felicidade. São as
necessidades imaginárias que tornam a todos infelizes e são elas que devem ser
abandonadas.

A adolescência (dos 15 aos 20 anos) é o período em que se educa o coração


para a vida em comum e para as relações sociais. Deve-se fornecer ao indivíduo os

51
meios para satisfazer as suas necessidades, ou seja, deve-se ensinar o conceito de
“utilidade”. O professor deve buscar colocar ao alcance do adolescente os meios úteis
para ele atender suas necessidades. Isso contribuirá para que o adolescente venha a
se tornar um adulto que não procurará satisfazer outras pessoas, não terá os desejos
que outros lhe impõem, buscará apenas o que é realmente importante, terá opinião
própria e sempre estará tentando conhecer a ele mesmo (RODRIGUES, 2000).
Na fase adulta se efetiva a educação moral, sendo ela voltada para a
formação intelectual, estética e moral. No entanto, é necessário preservar nela os
bons hábitos da infância. Ao se esquecer a infância, acaba-se por esquecer também
as coisas que realmente importam na vida (TAILLE, 2005).

A educação elimina dessa forma o supérfluo, a luta constante pelo irrelevante,


e gera uma coletividade mais homogênea, mais justa e igualitária, onde cada um corre
atrás apenas das coisas que realmente acham importantes na vida, sem esquecer da
existência do outro, ou seja, da humanidade. O sujeito se torna politizado,
característica este importante que o faz correr atrás para garantir o bem da
coletividade (RODRIGUES, 2000).
Todo esse processo mostra que o ser humano não precisa de punições e
recompensas para agir certo, como acreditava Hobbes. Para Rousseau, o ser humano
não precisa naturalmente de autoritarismo para agir de maneira ética. Punir e
52
recompensar representam apenas gastos para o Estado que terá que usar
constantemente desses artifícios para fazer com que as pessoas sigam as regras. Se
o indivíduo for educado em liberdade saberá usufruir de tal liberdade e saberá que
agir de maneira correta é o melhor para ele mesmo por compreender que o bem
coletivo representa também o bem das individualidades. Eu devo estudar não porque
vou ganhar nota por isso e sim porque vou enriquecer meu conhecimento junto com
outros. Eu tenho que limpar o quarto e jogar o lixo fora de casa não porque vou ganhar
uma mesada e sim porque é bom para mim e para quem mora comigo ter o lugar onde
moramos limpo. Devo obedecer a lei não porque vou ser recompensado ou punido
caso não obedeça e sim porque se eu obedecer, se você obedecer, se todos nós
obedecermos todos sairemos ganhando. Aquele que recebe uma educação autoritária
e materialista não compreende essas coisas e se torna um adulto fraco e dependente
do autoritarismo constante.

Síntese da Unidade

Maquiavel Considera que a natureza humana é predominantemente ruim a


medida que as pessoas sempre fazem o mínimo de esforço para conseguirem o maior
ganho possível, além de só fazerem o bem se forem obrigadas. Por essa natureza ser
imutável, pensar em uma sociedade melhor e em uma moral voltada para o bem social
são esforços inúteis, pois o princípio ético que rege a vida é o de que os fins justificam
os meios.
Dessa forma a maior virtude de todas é a adaptação, sendo necessário ser
pragmático em detrimento do idealismo. Tendo esse pensamento por base é possível
fazer uma análise da ética na educação e na profissão. Considerar que educar exige
ética torna-se irrelevante, pois o importante não é discutir a respeito de valores de
certo ou errado, da busca pelo bem coletivo e sim os interesses individuais, pois a
realidade é assim. Se preocupar com a empresa contratante, com a classe
profissional, com a sociedade de uma maneira geral seria uma perda de tempo, pois
aqueles que estão a sua volta não estão se orientando por essas preocupações e sim
estão fazendo o necessário para atingirem seus interesses particulares.
Toda profissão possui uma função social (retribuição a sociedade) e um valor
remunerativo (o ganho a partir do desempenho da atividade). Ao se adotar o princípio

53
ético de que os fins justificam os meios privilegia-se apenas a remuneração e não a
função social da profissão. Isso pode acontecer na profissão de educar quando aquele
que deveria zelar pelo ensino daqueles que irão conduzir futuramente a humanidade
está preocupado apenas em garantir os ganhos do final do mês.
Por sua vez, Hobbes considera que as pessoas só irão agir eticamente a partir
do medo de ser punido e enxergar a possibilidade de ser recompensado. Isso poderia
ser aplicado também na educação em que deve prevalecer regras bem estabelecidas,
um sistema hierárquico claro e um sistema de punições e recompensas rígido. Em
outras palavras, considera que a ética exige autoritarismo.
Locke e Rousseau se posicionam de maneira contrária ao pensamento de
Hobbes. Para Locke o ser humano nasce neutro e se comporta errado por sofrer
experiências ruins e/ou receber uma educação de má qualidade (ou não receber
educação). Dessa forma a educação seria a fonte de transformação do mundo,
cabendo ao professor despertar nas pessoas o interesse pelo aprendizado, sendo
importante o educador se adaptar às necessidades dos alunos. Para facilitar essa
adaptação seria importante cada professor cuidar do aprendizado de poucos alunos,
sendo indicado até mesmo o ensino domiciliar.
Por sua vez, Rousseau considera que as crianças devem ser educadas nos
seus primeiros anos de vida em liberdade de maneira desvinculada do materialismo,
contribuindo para a construção de adultos mais independentes, menos materialistas,
consequentemente menos preconceituosos e politizados lutando por uma moral que
privilegia o coletivo ao compreender que se o coletivo vai bem os indivíduos também
estarão bem.

Atividade (Fórum de Discussão)

Durkheim considera que internalizamos desde cedo um código moral a partir das
regras impostas pelo consciente coletivo. Hobbes considera que esse código moral
deve ser constantemente imposto por leis claras, rígidas e um sistema de punição e
recompensa. Locke considera que devesse criar um ambiente com boas experiências
e fornecer boa educação para que as pessoas desenvolvam uma natureza positiva e
se comportem corretamente. Rousseau acredita que ao se educar desde cedo as
crianças em liberdade, valorizando os desejos do corpo e sendo menos materialistas

54
criará um ambiente com menores desigualdades, menos necessidades supérfluas,
pessoas politizadas e que lutarão pelo bem coletivo, não existindo a necessidade de
impor constantemente punições e recompensas, já que as pessoas seguirão a lei, pois
terão consciência de que se o coletivo vai bem os indivíduos também irão bem. Você
acredita que o estímulo para que as novas gerações sejam mais éticas passa pelo
imperativo da lei sendo necessário o autoritarismo presente em um sistema de
punições e recompensas ou o futuro reside ne educação em liberdade, permitindo que
as pessoas aprendam a utilizar a liberdade para o bem coletivo e não para ganhos
particulares? (Máximo de 25 linhas)

55
BIBLIOGRAFIA BÁSICA

LOPES DE SÁ, Antonio. Ética Profissional. 6ª Edição. São Paulo: Editora Ática,
2005.

VÁZQUEZ, Adolfo Sánchez. Ética. 24ª edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
2003.

BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR

ARON, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. São Paulo: Editora


Fontes, 2002.

KOSONISCS, Rafael. O que é ser mochileiro? Seu Mochilão. 26/08/2013. Disponível


em: <https://www.seumochilao.com.br/o-que-e-ser-mochileiro/>. Acesso em
01/08/2018.

RODRIGUES, Alberto T. Sociologia da Educação. Rio de Janeiro: Ed. DP & A, 2000.

SANTOS, Clóvis Roberto dos. Ética, Moral e Competência dos Profissionais da


Educação. São Paulo: Avercamp, 2004

TAILLE, Yves de La e outros. Indisciplina/disciplina: ética, moral e ação do


professor. Porto Alegre: Mediação, 2005.

56
UNIDADE 4: RESPONSABILIDADE MORAL E PEDAGOGIA ÉTICA

Émile Durkheim (1858 a 1917), acredita que nossa liberdade vai até onde a
sociedade permite que ela vá. O ser humano acredita ser completamente livre, mas
só age até onde a sociedade permite. Aquilo que foge desse limite é punido de tal
forma que se adequa novamente ao padrão considerado normal. Se não se adequar,
o sujeito é eliminado do convívio social.
O referido autor considera que as sociedades complexas são marcadas pela
alta divisão do trabalho social (profissões, atividades, instituições privadas, instituições
públicas, instituições que estabelecem os significados do mundo como a religião,
família, política, educação, etc.). Dessa forma essas sociedades são grandes
organismos vivos em que essas instituições geradas pela divisão do trabalho social
são “órgãos” diferentes entre si, mas que dependem uns dos outros para o bom
funcionamento do ser vivo chamado de coletividade Assim sendo, a crescente divisão
do trabalho faz aumentar o grau de interdependência entre as pessoas (ARON, 2002)
Como ninguém consegue sobreviver sozinho gera-se uma espécie de
solidariedade orgânica decorrente do fato que para sobreviver o indivíduo passa a
depender do que o outro produz, de uma instituição para ser educado, de outra para
ser empregado, de uma terceira que lhe vende o alimento, e assim por diante.
Assim sendo a coesão social não está assentada somente em crenças e
valores ou nos costumes compartilhados (moral), estando assentada também na
interdependência humana, resultando em códigos e regras de conduta (ética) que
estabelecem direitos e deveres e se expressam em normas jurídicas, ou seja, no
Direito (ARON, 2002).

57
Embora todos possuam sua “consciência individual”, seu modo próprio de se
comportar e interpretar a vida, pode-se notar, no interior de qualquer grupo ou
sociedade, formas padronizadas de conduta e pensamento. O conjunto de crenças e
sentimentos comuns à média dos membros de uma mesma sociedade forma um
sistema determinado com vida própria, ou seja, a sociedade possui uma consciência
própria. Essa é a moral que se encontra presente no que Durkheim chama de
consciente coletivo (ARON, 2002).
Essa consciência não se baseia nas consciências dos indivíduos ou mesmo de
grupos específicos e sim o inverso. Achamos que temos liberdade total de escolha,
mas nós só podemos escolher entre aquilo que a sociedade permite que escolhamos.
Ao nascer, o ser humano encontra-se inserido em um ambiente cujas as regras já
estão estabelecidas e por meio das instituições sociais como a escola, a família e as
religiões, o indivíduo interioriza estas regras e as segue pelo resto da vida achando
que tem uma liberdade total de escolha. A religião aparece como um forte
instrumento a favor dessa internalização a medida que atua determinando os
valores de certo e errado na vida mundana e na vida espiritual.
As maneiras de se vestir, de se comportar, de falar variam entre o que é
socialmente permitido. O estilo de vida, as religiões que se seguem, rituais como o
casamento são socialmente e culturalmente preestabelecidos. Isso pode ser
observado quando se adota um idioma. Ninguém nasce sabendo uma língua, ou como
se comportar diante de uma situação X ou situação Y.
Ao nascermos, as regras, a moral e a ética já estão colocadas e à medida que
nos relacionamos com outras pessoas incorporamos as regras e as perpetuamos para
as próximas gerações. O agir humano só ocorre entre aquilo que a sociedade permite,
mas pensamos que agimos de forma racional tendo sempre infinitas possibilidades de
escolhas.
Segundo Durkheim, a sociedade, como todo organismo vivo, apresenta
estados normais e patológicos, isto é, saudáveis e doentios. Aquilo que foge do
consciente coletivo, do que é moralmente estabelecido como o correto, é tomado
como um erro, uma doença que afeta a saúde do ser vivo chamado sociedade. E o
que afeta o consenso social é tido como patológico (VÁZQUEZ, 2003).
Quando um organismo vivo está doente, libera-se anticorpos para restituir a
condição de saudável. Para Durkheim, em relação a sociedade, o processo de

58
restituição à condição de saudável ocorre por meio de sansões legais, espontâneas e
por outros tipos de mecanismos de controle social.
As sanções legais são aquelas prescritas em forma de leis, nas quais se
estabelece a infração e a penalidade subsequente. Espontâneas são aquelas que
afloram como decorrência de uma conduta não adaptada à estrutura do grupo ou da
sociedade à qual o indivíduo pertence. Para exemplificar essa segunda forma de
sanção, Durkheim estabelece como exemplo um industrial que opta por trabalhar
utilizando processos e técnicas do século passado. Nada o proíbe de assim proceder,
mas ao agir dessa maneira irá encontrar como resultado inevitável a ruina já que terá
um gasto maior para produzir, perderá muito tempo no ato da produção, não produzirá
peças suficientes para atender a demanda de mercado e para competir com a
concorrência, dentre outras formas de prejuízo (VÁZQUEZ, 2003).
Os mecanismos de controle social agem, por sua vez, confrontando o
comportamento tomado como estranho. Uma pessoa que se veste de uma forma que
confronte o que está moralmente estabelecido, que confronte o consenso social
presente no consciente coletivo, por exemplo, estará sujeita a ser ridicularizada ou
mesmo excluída enquanto assim permanecer. O ato de ridicularizar, de diminuir
alguém perante outros, de excluir e de delegar ao ostracismo são formas que o
consciente coletivo encontra de fazer com que as pessoas se adequem ao que
é consenso social.
É claro que a sociedade também abarca mudanças. Se uma determinada forma
de comportamento que foge do “normal” perdura pelo tempo pode acontecer do
consciente coletivo incorporar tal prática ao consenso geral. A partir desse momento,
essa prática entra naquele limite do socialmente permitido e as gerações seguintes a
recebem como algo natural (ARON, 2002).

A educação e a ética a partir da perspectiva de Durkheim

Durkheim não desenvolveu métodos pedagógicos, mas suas ideias ajudaram a


compreender o significado social do trabalho do professor. Segundo Durkheim, além
de contribuir para o desenvolvimento individual do aluno, o papel da ação educativa é
formar um cidadão que tome parte do espaço público. A educação tem o objetivo de

59
suscitar e desenvolver na criança estados físicos e morais requisitados pela
sociedade.
Tais exigências estão relacionadas à religião, às normas e sanções, à ação
política, ao grau de desenvolvimento das ciências e até mesmo ao estado de
progresso industrial local. Se a educação for desligada das causas históricas, ela se
torna apenas exercício da vontade do desenvolvimento individual, o que para
Durkheim era incompreensível.
Como ressaltado anteriormente, a sociedade apresenta um consciente coletivo
que estabelece a existência de um código a ser seguido. O comportamento humano
que foge completamente do que o consciente coletivo considera como normal passa
a ser classificado como patológico. A sociedade, diante do patológico, usa de
mecanismos para adequar o comportamento humano, reestabelecendo o equilíbrio
social.
O código estabelecido pelo consciente coletivo refere-se as regras sociais,
passadas de gerações a gerações. Quando o indivíduo nasce, as regras já estão
colocadas. Instituições sociais como a família, a religião e a própria escola funcionam
como instrumentos para que se possa interiorizar tais regras.
Assim, Durkheim aproxima-se da concepção de Locke de que a mente humana
é uma tábula rasa e a educação é o melhor instrumento para preenchê-la. Por meio
da escola, grande parte dos seres humanos interioriza as percepções do que é certo
e errado e dos costumes culturais, por exemplo. Uma vez interiorizadas as regras, o
indivíduo as toma como a priori, ou seja, considera que partiram de sua consciência
individual, tornando ainda mais fácil a perpetuação das diretrizes coletivas para a
geração seguinte (RODRIGUES, 2000).
Durkheim sugere que a ação educativa funcione de forma normativa. A criança
deve estar pronta para assimilar conhecimentos e o professor bem preparado,
dominando as circunstâncias. O professor, como parte responsável pelo
desenvolvimento de cada ser humano, tem um papel determinante e delicado a
medida que devem transmitir os conhecimentos adquiridos, com cuidado para não
tirar a autonomia e pensamentos dos jovens (RODRIGUES, 2000).

60
4.1 Responsabilidade moral

Durkheim considera que internalizamos desde cedo um código moral a


partir das regras impostas pelo consciente coletivo. Hobbes considera que esse
código moral deve ser constantemente imposto por leis claras, rígidas e um
sistema de punição e recompensa. Locke considera que devesse criar um
ambiente com boas experiências e fornecer boa educação para que as pessoas
desenvolvam uma natureza positiva e se comportem corretamente. Rousseau
acredita que ao se educar desde cedo as crianças em liberdade, valorizando os
desejos do corpo e sendo menos materialistas criará um ambiente com menores
desigualdades, menos necessidades supérfluas, pessoas politizadas e que
lutarão pelo bem coletivo, não existindo a necessidade de impor
constantemente punições e recompensas, já que as pessoas seguirão a lei, pois
terão consciência de que se o coletivo vai bem os indivíduos também irão bem.
Algumas dessas perspectivas ainda são atuais enquanto outras são
questionáveis. Ainda hoje acredita-se que existe um processo de internalização da
moral social como teorizou Durkheim. Isso acontece constantemente pela educação
da geração mais nova pela antiga, pela religião, por meio de filmes, etc.
A necessidade de leis, punições e recompensas ainda se faz presente, mas
essa necessidade não é uma condicionante para a existência da responsabilidade
moral. Responsabilidade moral é a percepção dos indivíduos e grupos a respeito
dos seus próprios atos para com o ambiente a sua volta. Só é possível
classificar um ato como moral ou imoral quando podemos atribuir ao agente a
responsabilidade pelo que ele se propôs a realizar e pelas consequências de
suas ações (VÁZQUEZ, 2003).
No entanto, como responsabilizar se não existe liberdade de escolhas? A
responsabilização pede por liberdade. O indivíduo deve ser agente de suas próprias
escolhas. E como responsabilizar se o indivíduo não teve consciência do que
fez? A pessoa deve também ter consciência dos próprios atos e das consequências
desses atos. Só podemos responsabilizar o sujeito que escolhe, decide e age
conscientemente. Aquele que não tem consciência daquilo que faz (ignora as
circunstâncias, a natureza ou as consequências da sua ação) é eximido de

61
responsabilidade moral. Dessa forma só é possível responsabilizar aquele que
escolhe, decide e age conscientemente e livremente (VÁZQUEZ, 2003).

A ignorância então exime o sujeito da responsabilidade moral? Nem


sempre. Quando o sujeito é responsável pela sua própria ignorância ele não é eximido
da responsabilidade. Pense em uma pessoa que bate o carro em outro por conta de
um problema nos freios causado por falta de revisão do carro. A pessoa que bateu o
carro poderia alegar que não sabia que os freios estavam com problemas (ignorância),
mas seria sua responsabilidade fazer a revisão para evitar esse tipo de coisa. A
conclusão é de que ignorância exime de responsabilidade quando o indivíduo não é
responsável pela sua própria ignorância (VÁZQUEZ, 2003).
Então fatores históricos, sociais, econômicos, culturais e políticos podem
interferir na possibilidade de se responsabilizar alguém moralmente? Sim, pois
esses fatores podem levar a ignorância.
Karl Marx (1818 a 1883) adota uma perspectiva semelhante com Durkheim ao
concordar que há a reprodução de valores sociais, mas não enxerga isso com bons
olhos, pois considera que toda a estrutura da sociedade contribui para perpetuar as
relações econômicas de exploração.
62
O capitalismo, como qualquer outro sistema econômico, é marcado pela
existência da propriedade privada. Nele, poucos detém os meios de produção e
exploram a maioria que não possui nenhum outro meio a não ser a sua própria força
de trabalho. Essa segunda classe social configura a parcela denominada de
operariado ou de proletariado (LAKATOS e MARCONI, 1999).
A grande arma do capitalismo é perpetuar entre as pessoas o ideal de que com
trabalho duro, todos podem mudar de vida. Assim sendo, as pessoas passam a vida
trabalhando, sendo exploradas por uma minoria, mas não percebem que assim o são.
Mesmo quando percebem não chegam a se revoltarem, pois consideram ser esse o
único sistema possível. Acreditam que esse sistema pelo menos possibilita que alguns
poucos mudem de vida por meio do esforço particular (ARON, 2002).
O que não percebem é que as pessoas não possuem as mesmas condições de
vida, não possuem o mesmo nível de estudo, a mesma estrutura social, o mesmo
gênero, a mesma cor e, consequentemente, não possuem as mesmas oportunidades.
Além das possíveis “limitações naturais” que cada um carrega em si, a vida em
sociedade no sistema capitalista coloca uma série de limitações não naturais que
privilegiam a poucos e excluem muitos.
Em uma sociedade predominantemente machista, homem e mulher não
possuem as mesmas condições e oportunidades de ingresso no mercado de trabalho.
Algumas profissões são fechadas a entrada de mulheres. Quando não são totalmente
fechadas, oferecem uma série de obstáculos a serem superados para o ingresso do
gênero. Quando esses obstáculos não são institucionalizados, estão permeados na
teia social em forma de preconceito, descrédito, humilhação e até de assédio sexual.
Em uma sociedade em que até hoje se divide a humanidade pela raça, o branco
e o negro não possuem as mesmas condições de acesso nem mesmo a serviços
básicos, como saúde e educação. Isso reflete no desenvolvimento de formas
diferentes de ver a vida, de acesso a determinados lugares e oportunidades.
Em uma sociedade com fortes desigualdades econômicas, as pessoas que
compõem as classes com mais baixo poder aquisitivo não conseguem competir em
diferentes áreas da vida com aquelas que estão nas classes mais altas. Uma pessoa
com remuneração baixa que passa em um curso de medicina em uma universidade,
por exemplo, pode se deparar com altas taxas de mensalidade e com a necessidade

63
de adquirir livros caríssimos. O baixo salário, no entanto, pode comprometer a
continuidade dessa pessoa no ensino superior.
Além das diferenças de condições não naturais que são impostas pela sociedade
orientada pelo sistema capitalista, há ainda a própria escassez de oportunidades. Não
há emprego com alto salário para todos, não há saúde pública de qualidade a todos,
não há vagas suficientes no ensino superior para todos sendo necessário, nesse
último caso, implantar um sistema de vestibular para afunilar o número de ingressos
nas Universidades.
A força do capitalismo é tão intensa que as pessoas não percebem que não
almejam as mesmas coisas e que é isso que sustenta o sistema como está. Se todos
quisessem ganhar altos salários de fato e não aceitassem menos que isso, o sistema
quebraria por não conseguir suportar essa nova condição (ARON, 2002).
A pessoas não percebem ainda que o estilo de vida que possuem resiste pois
há sempre uma classe sendo explorada na base. Dessa forma, permanecem
alienadas achando não ter nada a ver com a desigualdade e pobreza que se perpetua
pela vida. O ingresso no ensino superior público só é possível, por exemplo, porque
muitas pessoas ficam de fora, porque outros lutam apenas para completar o ensino
médio, outros param no ensino fundamental e porque para muitos outros é relegada
a chance de alfabetização (ARON, 2002).
A alienação a que estamos sujeitos leva a uma ausência de percepção das
injustiças que marcam a realidade, estimulando a falta de cidadania. A alienação leva
a ignorância em relação a muitos temas que exigem profunda reflexão, torna o sujeito
ignorante da sua própria situação no mundo, o que justificaria em muitos casos se
eximir de responsabilidade moral (VÁZQUEZ, 2003).

64
A educação e a ética a partir de perspectiva marxista

Como abordado anteriormente, a vida social, política, artística, cultural, jurídica,


legislativa é determinada pela vida material, ou seja, pela vida econômica. As relações
antagônicas entre proprietários e não proprietários é reproduzida por toda a estrutura
social.
Para Marx religião, profissões, leis, etc. são configuradas de maneira a perpetuar
aqueles que já estão no poder econômico (consequentemente no poder político e
social). A educação como ela se apresente, não foge dessa regra, reproduzindo a
ideologia capitalista. A prática do ensino mediante a cobrança de taxas revela a
influência do econômico na organização social.
No entanto, a educação também tem uma força de transformação quando busca
trabalhar em conjunto o intelecto, o físico e o aspecto técnico, se desvinculando do
ideal de reprodução de ideologias. O ensino pode combater a alienação e a
desumanização.

O que acontece no capitalismo é uma separação entre o trabalho intelectual (a


concepção) e o trabalho manual (a realização). Muitas vezes, se concebe a atividade,
mais não a realiza, enquanto que em outras vezes busca-se realizar as atividades
65
pensadas por outras pessoas. Nesse último caso, é um incentivo a perpetuação da
alienação, à medida que o operário apenas reproduz o que o sistema lhe manda fazer.
O trabalho torna-se dignificante quando concepção e realização caminham juntos
(RODRIGUES, 2000).
Com a educação acontece um processo semelhante. O ensino ministrado deve
contemplar diferentes aspectos do humano. Não pode ser um mero aprendizado
profissionalizante, pois, como ressaltado anteriormente, seria ensinar o estudante a
apenas reproduzir o que o modo de produção econômico lhe ordena. Tampouco pode
ser um trabalho meramente intelectual, que não se encontra vinculado com a vivência
do dia a dia.
O sistema de ensino deve unir instrução intelectual, exercício físico e treino
politécnico, levando a união entre reflexão e realização. Trabalho e estudo devem
levar a reflexão do que está sendo realizado, afastando o operariado da alienação
presente na mera reprodução de atividades que o sistema capitalista ordena
(SEVERINO, ALMEIDA E LORIERI, 2011).

4.2 A pedagogia ética

A partir da perspectiva de Durkheim é possível concluir que o ser humano é um


ser moldado pela sociedade. A partir da perspectiva de Marx é possível concluir que

66
o ser humano é um ser social que molda ao mesmo tempo que é moldado pela
sociedade. No entanto, se ele é capaz de moldar o meio a sua volta, ele precisa tomar
consciência disso saindo da condição de alienação, e para tanto é necessário elaborar
uma ética a partir do próprio sujeito. Em outras palavras, não deve existir a pretensão
de modelar o educando e sim de fornecer elementos para que ele mesmo encontre o
caminho da convivência na liberdade.
Alguns pontos devem ser levados em consideração para a configuração de
uma pedagogia ética que leve a fornecer tais elemento. O primeiro seria discutir a
relação entre religião e ética. Quando Durkheim afirma que internalizamos as regras
do consciente coletivo (a moral), a religião tem papel influente nessa internalização
já que é ela que estabelece os valores de certo e errado. Por meio da fé, regras
de conduta são estabelecidas e adotas pelas pessoas nas conduções de suas vidas.
Então pensar em ética e educação passa em se refletir a respeito da religião, das
práticas religiosas, das instituições religiosas e dos valores religiosos predominantes
em determinados contextos socioculturais (SANTOS, 2004).
Outro ponto seria se pensar em ética a partir do ser humano concreto. Como
retratado anteriormente, se o indivíduo não tem consciência de seus atos (ignorância)
não existe responsabilidade moral, determinados fatores sociais, culturais, históricos,
econômicos e políticos levam a diversas formas de ignorâncias. Portanto, é
necessário buscar conhecer os fatores que condicionam a maneira de pensar a vida
humana pela juventude de hoje, buscando assim uma ética para o nosso tempo. Não
adianta falar em certo e errado se não existe uma preocupação em pensar em como
a pobreza leva a violência, como a falta de escolaridade leva a ignorância. Não adianta
falar em certo e errado ao não se colocar no lugar do outro e compreender que
pessoas com histórias de vidas diferentes compreendem as coisas de formas
diferentes, possuem valores diferentes e agem de diversas maneiras (SEVERINO,
ALMEIDA E LORIERI, 2011).
Ao se pensar nos valores religiosos predominantes em determinado contexto e
no ser humano concreto inserido em tal contexto deve-se pensar em quais condições
e por quais caminhos se pode elaborar a ética, lembrando que contribuições de
filósofos da antiguidade não deixaram de ser atuais, despertando perspectivas
renovadas para embasar descobertas e decisões quanto ao sentido da vida em nossa
sociedade.

67
No Brasil da atualidade, muitos falam da necessidade de se combater a
corrupção por meio das punições. Tal perspectiva se assemelha àquela defendida por
Thomas Hobbes de que o ser humano só age de maneira correta se tiver medo de ser
punido ou enxergar a possibilidade de ser recompensado. Outros acreditam que
manter a ordem apenas com punições e recompensas somente trata das
consequências e não das causas que levam as pessoas a agirem de maneira imoral
e antiética. Seria muito mais correto investir em educação que leve a criar nas pessoas
responsabilidade moral para que a longa prazo não se precise gastar com punições e
recompensas constante. Essa perspectiva se aproxima mais das concepções de
Locke e de Rousseau de que apenas por meio da educação e da liberdade se
consegue transformar o mundo9. Recentemente no Brasil existe uma discussão a
respeito se crianças podem ser educadas em casa 10. Locke acreditava nesse
processo de ensino como maneira de tornar mais fácil o professor se adequar às
necessidades do aluno em um ensino moral e político.
Dessa forma, analisando a perspectiva de vários pensadores é possível
constatar que o ser humano possui duas dimensões, sendo elas a transcendental e
a material. Consequentemente, a pedagogia ética deve tratar o ser humano a partir
da sua vida concreta, ou seja, deve enxergá-lo como ser histórico que se constrói e
é construído no tempo e no espaço, sendo afetado por inúmeros fatores (influenciado
eticamente pelo local de nascença, pela origem familiar, pela origem social, pela
religiosidade, pela renda familiar, pelo status social, pela cor de pele, pela história de
vida, etc.). Esse tipo de pedagogia deve entender que comunidade humana é o
educador ético por excelência (SEVERINO, ALMEIDA E LORIERI, 2011).
Por outro lado a pedagogia ética deve compreender que o ser humano concreto
só se torna efetivamente humano quando voltado para a transcendência, ou seja, não
adianta nada tratar da vida material do indivíduo como apontava Marx se não se levar
em consideração que os valores desse indivíduo são moldados socialmente e muito

9
GARCIA, Euclides Lucas; GONÇALVES, André. 10 ideias para combater a corrupção. Gazeta do
Povo, 07/03/2009. Disponível em: <https://www.gazetadopovo.com.br/politica/republica/10-ideias-
para-combater-a-corrupcao-bgnowijtfwi5vmgdxn5k2cdvy>. Acesso em 20/07/2018.
10
CALGARO, Fernanda; MODZELESKI, Alessandra; RAMALHO, Renan. Supremo Tribunal Federal vai
decidir se crianças podem ser educadas em cada: ação opõe pais e órgãos públicos. G1, 12/08/2018.
Disponível em: <https://g1.globo.com/politica/noticia/2018/08/12/acao-no-stf-sobre-possibilidade-de-
criancas-serem-educadas-em-casa-opoe-pais-e-orgaos-publicos.ghtml>. Acesso em 12/08/2018.
68
influenciados pela religião predominante do lugar, o que faz com que toda pedagogia
ética se encontre também em uma pedagogia religiosa11,
Levando-se em consideração tais pontos, o objetivo da pedagogia ética
seria o de criar nas pessoas uma autoeducação autônoma, em que o próprio
educando vá construindo seu caminho, para se tornar plenamente o que é
chamado a ser e se realizar como ser humano na comunidade em que vive e em
que é chamado a ser feliz12. Cada ser humano deve ser consciente e livre
buscando o que há de melhor para os demais seres concretos, históricos e
orientados por valores morais determinados socialmente e influenciados pela
religiosidade.
Síntese da Unidade

Para Durkheim, cada sociedade representa um organismo vivo com


consciência própria chamada de consciente coletivo. Essa consciência influencia
como as pessoas pensam e agem (a moral). Aquele que se comporta de acordo com
a moral pode ser considerado como normal, enquanto que aquele que se comporta
de maneira diferente é considerado patológico.
O patológico sofre a ação dos mecanismos de controle social (sanções legais,
sanções espontâneas e outros tipos de mecanismos) para se adequarem a moral. Se
mesmo assim o comportamento desviante continuar ocorrerá em última instancia a
eliminação do convívio social.
Instituições como a família, a escola e a religião, dentre outras, atuam
internalizando nas pessoas as regras sociais e os valores de certo e de errado. A
religião aparece como um forte instrumento a favor dessa internalização a medida que
atua determinando os valores de certo e de errado na vida mundana e na vida
espiritual.
Durkheim sugere ainda que a ação educativa funcione de forma normativa. A
criança deve estar pronta para assimilar conhecimentos e o professor bem preparado,

11
ZACHARIAS, Vera Lúcia C. F. A Pedagogia Ética. Portal Educação, 2018. Disponível em:
<https://www.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/idiomas/a-pedagogia-etica/1083>. Acesso em
10/08/2018.

12
ZACHARIAS, Vera Lúcia C. F. A Pedagogia Ética. Portal Educação, 2018. Disponível em:
<https://www.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/idiomas/a-pedagogia-etica/1083>. Acesso em
10/08/2018.
69
dominando as circunstâncias. O professor, como parte responsável pelo
desenvolvimento de cada ser humano, tem um papel determinante e delicado a
medida que devem transmitir os conhecimentos adquiridos, com cuidado para não
tirar a autonomia e pensamentos dos jovens.
Sendo moldados pelo consciente coletivo o ser humano pode desenvolver uma
responsabilidade moral. Responsabilidade moral é a percepção dos indivíduos e
grupos a respeito dos seus próprios atos para com o ambiente a sua volta. Só é
possível classificar um ato como moral ou imoral quando podemos atribuir ao agente
a responsabilidade pelo que ele se propôs a realizar e pelas consequências de suas
ações.
Para responsabilizar deve existir liberdade de escolha e consciência das
escolhas e das possíveis consequências. No entanto, essa consciência pode não
acontecer influenciada por fatores históricos, sociais, econômicos, culturais e políticos.
Marx considera que no capitalismo, espalha-se um falso discurso de que se todo
mundo quiser e se esforçar vai vencer na vida. As relações de exploração entre as
classes estimulam a alienação fazendo com que as pessoas não percebam as
condições de exploração da vida, levando a ignorância e consequentemente tornando
difícil a responsabilização moral. O sujeito não percebe que é um ser social que apesar
de ser construído pela sociedade também pode modificar tal sociedade.
A pedagogia ética possui em si elementos tanto da perspectiva de Durkheim
quanto de Marx ao considerar que é necessário criar nas pessoas uma autoeducação
autônoma em que o próprio educando vá construindo seu caminho, para se tornar
plenamente o que é chamado a ser e se realizar como ser humano na comunidade
em que vive e em que é chamado a ser feliz. O aluno deve ser considerado como um
ser concreto (influenciado eticamente pela origem social, pela cor de pele, pela renda
familiar, pela região de nascença, dentre outros fatores) ao mesmo tempo que deve
ser considerado pela sua transcendência já que muitos valores morais são
influenciados por valores religiosos predominantes.

Atividade (Fórum de Discussão)

A pedagogia ética passa pela compreensão de que o ser humano possui duas
dimensões, sendo elas a concreta e a transcendental. Concretamente o indivíduo é

70
afetado eticamente por diversos fatores (sua história de vida, origem social, educação
recebida, dentre outros fatores). Seus valores morais, por sua vez, também são
afetados pela coletividade existindo uma forte influência da religiosidade. Você
acredita que a religião predominante de um lugar afeta realmente a maneira como as
pessoas enxergam a realidade a sua volta e que a pedagogia crítica deve abordar
também essa dimensão? (máximo de 25 linhas)

71
BIBLIOGRAFIA BÁSICA

VÁZQUEZ, Adolfo Sánchez. Ética. 24ª edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
2003.

BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR

ARON, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. São Paulo: Editora


Fontes, 2002.

CALGARO, Fernanda; MODZELESKI, Alessandra; RAMALHO, Renan. Supremo


Tribunal Federal vai decidir se crianças podem ser educadas em cada: ação opõe pais
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