A IMPORTÂNCIA DO GERENCIAMENTO DA PELE NA HARMONIZAÇÃO FACIAL:
a ciência por trás dos cuidados com a pele
1. INTRODUÇÃO
2. DESENVOLVIMENTO
2.1. Fisiologia Cutânea
A pele é um órgão complexo que reveste toda a superfície do corpo, sendo assim o
maior órgão do nosso corpo, representando cerca de 15% do peso corporal total do
adulto. Ela exerce diversas funções vitais. Nos protege contra a radiação através dos
melanócitos. Tem ação antimicrobiana, pois existe uma microbiota residente no nosso
manto hidrolipídico que luta contra os microrganismos oportunistas. Proteção da perda
de água transepidérmica, a barreira impede a perda de água excessiva. É uma barreira
antioxidante, na nossa pele temos vitamina C, E e A. E também tem a função de
barreira mecânica, protege nossos tecidos mais internos de atritos e tração
(KANITAKS, 2002).
Figura 1. Funções da pele.
Nosso tecido cutâneo é dividido em 3 camadas, de dentro para fora temos a
hipoderme, a derme e a epiderme. A hipoderme é um tecido adiposo que forma uma
camada protetora de gordura. A derme é um tecido conjuntivo de sustentação e
nutrição, ela é dividida em duas camadas, sendo a camada papilar a mais superficial e
a camada reticular a mais profunda (KANITAKS, 2002).
A derme é constituída principalmente por fibroblastos, que são as células responsável
por produzir colágeno e elastina, que são proteínas responsáveis pela sustentação,
firmeza e elasticidade da pele (KANITAKS, 2002).
A epiderme é dividida em 5 camadas, de dentro para fora temos a camada basal,
camada espinhosa, camada granulosa, camada lúcida (palma das mãos e planta dos
pés), e camada córnea. Essas camadas vão sendo formadas a partir do processo de
mitose das células da camada basal, depois essas células vão caminhando para a
superfície, o que chamamos de processo de queratinização (Oktay et al, 2014).
A epiderme é uma camada que se renova continuamente, as células basais sofrem
ciclos de proliferação que proporcionam a renovação da epiderme externa. Ela é um
tecido dinâmico no qual as células estão constantemente em movimento dinâmico,
subindo a superfície (Oktay et al, 2014).
Figura 2. Anatomia da Epiderme.
A camada basal, é uma mistura de células, das quais algumas se dividem e se
diferenciam, enquanto outras funcionam como âncoras, nessa camada está o
melanócito, que produz a melanina e vai corar o queratinócito (HARRIS, 2016).
Na camada granulosa é onde temos o maior número de sínteses, nesta camada ocorre
um depósito de material lipídico, que funciona como barreira e protege o nosso
organismo da perda de água, evitando a desidratação da pele. Produção de filagrinas,
que vão ser posteriormente degradadas, formando o PCA e o UCA, que fazem parte do
nosso manto hídrico, que é nosso fator natural de hidratação. (HARRIS, 2016).
Na camada córnea as células não possuem mais núcleo, nesta camada os
queratinócitos são chamados de corneócitos, lembrando que eles não são células
mortas, elas ainda têm atividade bioquímica e metabólica, só que reduzida. Ela é
constituída de uma parte dura com 15 a 20 camadas de células e se unem através dos
corneossomas. A camada córnea está diretamente se relacionando com o meio
ambiente, ela quem sofre toda a agressão do meio ambiente. Segundo Kanitaks (2002)
ela é uma linha de defesa importantes (HARRIS, 2016; KANITAKS, 2002).
2.2. Barreira da Pele
Manto Hidrolipídico.
Nosso manto hidrolipídico é formado pelas substâncias da degradação das filagrinas,
dos lipídios da camada lamelar e das glândulas sebáceas e oligoelementos da glândula
sudorípara (HARRIS-TRYON, 2022).
Na composição lipídica temos ácidos graxos livres, ceramidas, colesterol e
triglicerídeos. Também temos substâncias minerais como Na+, K+, Ca, Mg e cobre.
Substâncias orgânicas como ureia, aminoácidos, ácido lático, ácido pirúvico, e
urocânico. Substâncias exógenas, e 99% de água. (HARRIS-TRYON, 2022).
O pH dele é levemente ácido (4,5 a 5,5 em geral), a maior parte dos microrganismos
vivos vivem muito bem nesse pH. Em várias dermatites, podemos observar um pH
mais alcalino (PETER, 2017).
Se nós não estivermos produzindo os lipídeos de forma adequada na camada lamelar,
vamos ter uma diminuição lipídica no nosso manto. Nesse momento quem começa
produzir mais óleo para tentar repor esses lipídios é a glândula sebácea, porém esses
lipídios não tem a mesma quantidade e nem a qualidade dos lipídios da camada
lamelar, e eles acabam se tornando agentes irritantes para o nosso tecido gerando
processo inflamatório. Com isso, temos uma modificação da microbiota, a camada
córnea fica mais permeável, e podemos ter a entrada de microrganismos que não são
residentes, e ter o aparecimento, por exemplo, da acne (DENDA, 1998).
Figura 3. Fatores que influenciam a colonização microbiana da pele.
Fatores que influenciam o pH da pele.
O uso de água alcalina na pele, tem regiões que a água tem excesso de cálcio e
magnésio (água dura). Sabonetes em barra (saponificados) e produtos de pH mais
alcalino alteram o pH da pele em até 6 horas. O fototipo (pigmentação da pele), peles
mais pigmentadas (fototipos IV–V) apresentam pH inferior a peles menos pigmentadas
(fototipos I-II). Determinadas doenças cutâneas como dermatites e psoríase tem
mudanças significativas no pH, que se encontra mais alcalinizado (BLAAK, 2018).
2.3. Processo de Hidratação da Pele
Segundo Amaral et al (2019) um bom resultado de procedimento estético, depende de
alguns fatores relevantes, sendo um deles, a atenção do profissional aos níveis de
hidratação cutânea, uma vez que é a partir do mecanismo de hidratação da pele que
poderá obter resultados satisfatórios. Além disso, a pele permanecera macia, com
flexibilidade, elasticidade e saudável (AMARAL et al, 2019).
Na medida que vamos envelhecendo nossa pele vai deixando de se hidratar sozinha. A
hidratação acontece na camada granulosa dentro do queratinócito. O conteúdo
intracelular dos queratinócitos, as queratinas e outras proteínas como profilaggrin,
keratohyalin e loricrin, sofrem degradação, e dão origem ao NMF (fatores hidratantes
naturais), como ácido lático, ácido pirrolidona carboxílico e vários aminoácidos com alta
capacidade de retenção de água. Para funcionar perfeitamente, todas essas atividades
enzimáticas requerem a presença de um elemento-chave que é a água livre. A água
livre circula de célula em célula através das aquaporinas. Além de sua importância para
as atividades enzimáticas mencionadas, a água também fornece controle rigoroso de
dois fatores principais, a manutenção de um gradiente de cálcio na epiderme e no
estrato córneo e o pH ácido, ambos importantes na multiplicação e diferenciação dos
queratinócitos (POPKIN et al ,2010; MEDLIJ, 2010; MOJUMDAR, 2017).
Segundo Melo e Campos (2016) se a produção de lipídeos intracelulares e o fator de
hidratação natural estiverem com uma produção fisiológica limitada é importante à
manutenção da hidratação através dos hidratantes tópicos. Temos três mecanismos de
hidratação, a hidratação ativa que promove a hidratação dentro das células através de
ativos higroscópicos, aumentando a comunicação entre as células para a reposição de
água. Isto ocorre por meio dos canais de aquaporina, através de ativos como
aquasense e hidroviton. Outro mecanismo é a umectação, onde utilizamos ativos que
possuem afinidade por água, esses ativos são capazes de absorver esta água do meio
ambiente e da derme, tornando a epiderme mais hidratada. Alguns dos ativos com
propriedades umectantes são: o ácido carboxipirrolidônico (PCA), os lactatos, o
colágeno, o glicerol, o propilenoglicol, pantenol, entre outros. Para finalizar temos a
oclusão, que é feita com óleos ou cremes evitando a evaporação de água, por serem
produtos mais densos eles evitam que as moléculas de água consigam sair, entre os
produtos que podem ser utilizados temos o óleo de semente de uva, manteiga de
karité, óleo mineral (DRAELOS, 2018; MELO et al, 2016; AMARAL et al, 2019).
O ácido hialurônico (AH) é um dos ativos mais utilizados em formulações cosméticas.
Ele tem a capacidade de aumentar o nível de hidratação da pele e acelerar a
regeneração, tendo também um papel importante no rejuvenescimento. O AH tem uma
capacidade única de ligar e reter moléculas de água, segundo Juncan et al (2021) ele
tem a capacidade de reter água até 1000 vezes o seu volume, mantendo a hidratação
e a elasticidade da pele, e também ajuda a preencher o espaço entre as células da
pele, dando uma aparência mais preenchida e firme. HA tem uma ampla gama de
pesos moleculares variando de 2 × 105, e atualmente através da biotecnologia, temos
cosméticos com AH em vários pesos moleculares, que conseguem hidratar várias
camadas da epiderme. O AH de alto peso molecular forma um filme hidratante na
epiderme que ajuda a compensar a perda de água e melhora a condição da pele,
enquanto o AH de baixo peso molecular, aumenta e melhora as condições de produção
de fibroblastos, influenciando na produção de colágeno. O AH é um ativo compatível
com a pele, ele está presente no corpo inteiro, em um indivíduo de 70 kg existem 15 g
de ácido hialurônico, dos quais 5 g são substituídos diariamente. Sua renovação tende
a diminuir com a idade e as agressões externas, por isso é importante começar a repor
desde cedo, para manter a pele hidratada e prevenir os sinais de envelhecimento
(JUNCAN et al, 2021; ALVES et al, 2023; WITTING et al, 2015).
Figura 4. Atividade do ácido hialurônico.
2.4. Permeabilidade Cutânea
A pele é um órgão de proteção e com isso a entrada de princípios ativos acaba se
tornando complexa. Se entendermos os fatores que facilitam e dificultam a
permeabilidade cutânea, podemos utilizar isso como estratégia para permear produtos
ou mantê-los na superfície, de acordo com a necessidade de cada situação
(LEONARDI, 2008).
Dentre os fatores que facilitam temos a biodisponibilidade, que é quando o ativo
apresenta compatibilidade com a pele, como por exemplo o ácido hialurônico, que é
uma substância que já existe na nossa pele. O peso molecular do ativo também
influencia, quanto menor a partícula mais ela vai permear. Outro fator é o pH, como
falamos anteriormente, o pH da nossa pele faz parte da barreira de proteção e ele é
levemente ácido, então se a pele estiver com o pH alcalino, significa que ela está
menos protegida e mais permeável. As doenças de pele comuns, incluindo eczema
(dermatite), ictiose, psoríase e acne vulgar comprometem a função de barreira e
influem na permeabilidade. Regiões com muitos anexos cutâneos, como a região
central do rosto que tem muito mais presença de glândula sebácea, logo é uma região
que tem maior penetrabilidade. Outro ponto é o fluxo sanguíneo, se eu tenho um maior
fluxo sanguíneo, ocorre uma vasodilatação e tenho maior penetração (BENSON, 2012;
ALEXANDER et al, 2012; MARTINS et al, 2002).
Aumentar a hidratação do estrato córneo aumenta a permeabilidade da pele, a
hidratação promove uma dilatação no estrato córneo e isso diminui a adesão entre as
células, ela também aumenta a solubilidade da substância. Segundo o estudo realizado
por Wilhelm et al (1991) o envelhecimento intrínseco aumenta a perda transepidérmica
de água. De modo que a pele de indivíduos idosos pode apresentar um tecido mais
compacto e dificultar a permeação de ativos. Peles muito espessas e regiões pouco
vascularizadas também dificultam a penetração de ativos. (AMARAL, 2019; BENSON,
2012; WILHELM et al, 1991).
A partir do momento que o cosmecêutico entra em contato com a pele ele pode ser
absorvido por três vias. Vias transanexiais que se divide em glândula sebácea,
glândula sudorípara e via folicular. Há também a via intracelular e intercelular. Quando
os ativos entram por uma das vias, observaremos onde o princípio ativo atingirá, em
qual camada tecidual da pele. Assim quando um princípio ativo permanece na
epiderme, este princípio ativo permeou a pele. Já quando o princípio ativo atinge a
derme, afirmaremos que esse princípio ativo penetrou. Por fim, quando um princípio
ativo adentra a circulação sanguínea, afirmaremos que ele foi absorvido, é importante
destacar que quando um princípio ativo é absorvido, ele será classificado como
medicamento e não mais como cosmético (RAFEIRO, 2013; MARTINS et al, 2002;
ALEXANDER et al, 2012).
Figura 5. Caminhos de penetração.
2.5. Cosmecêuticos
Com o crescimento da nossa fonte de conhecimentos em relação a fisiologia cutânea e
às múltiplas matérias primas novas, que podem alterar a estrutura e a função da pele
(DRAELOS, 2005, p. 11). Os cosméticos, deixaram de ser apenas produtos de
embelezamento, e evoluíram para produtos com benefícios terapêutico farmacêutico.
Os cosmecêuticos são produtos que tem funções mais complexas e funcionais, suas
formulações atuam beneficamente sobre o organismo, causando impactos positivos na
saúde da pele (PANDEY, 2023).
Segundo Kligman (1998) tudo altera a pele, até a água. Por exemplo, a pele exposta à
água por 48 horas demonstra liberação de citocinas, produzindo uma condição
conhecida como dermatite de hidratação. Observando isso, surgiu a necessidade de
criar esse termo cosmecêuticos, que é um produto que fica entre os cosméticos e os
remédios. Porém, apesar do seu domínio no mercado, os cosmecêuticos ainda não são
reconhecidos oficialmente como categoria pelo ponto de vista regulador. (DRAELOS,
2005; Kligman, 1998).
Na Anvisa, esses produtos são registrados como cosméticos de grau de risco 2, que
são produtos cuja característica precisa de comprovação de segurança e eficácia, é um
produto que promete alguma coisa e precisa cumprir.
2.6. Nanocosméticos.
Para ter resultados mais eficazes nos tratamentos precisamos de produtos que
consigam entregar a matéria prima na célula alvo, por este motivo a indústria dos
cosméticos tem investido cada vez mais na nanotecnologia. Cada ativo possui um peso
molecular, que se refere ao tamanho da sua partícula, por exemplo, proteínas possuem
peso molecular superior aos aminoácidos e com isso, as proteínas possuem maior
dificuldade de permearem a pele através de suas camadas, ficando na superfície
cutânea. Essas partículas podem ser compactadas e reduzidas quando associadas a
esferas nanotecnológicas, com o objetivo de aumentar a entrada do ativo através da
pele. Embora a nanotecnologia seja constantemente definida como uma tecnologia que
aumenta a permeabilidade cutânea, outros benefícios são existentes e dependem de
qual nanopartícula estamos falando (SHOKRI, 2017; MUDSHINGE et al, 2011;
ARMELINI, 2015).
Figura 6. Benefícios da nanotecnologia nos cosméticos.
As nanopartículas são divididas em alguns tipos, sendo eles: Lipossomas, Nanoesferas
e Nanocápsulas. Os lipossomas são vesículas lipídicas que possuem centro aquoso.
Não conseguem selecionar a célula que receberá os ativos. Dissolve-se sendo
absorvido pela célula. As nanoesferas são capsulas porosas e inertes que levam ativos
na sua superfície ou no seu interior e que são absorvidos pelas células e liberam esses
ativos gradativamente. Podemos observar essa tecnologia em cosméticos que
prometem fazer efeito por um determinado tempo, por exemplo, um produto que
oferece hidratação por 12 horas, esse processo de hidratação acontece mediante a
essa tecnologia que vai liberando gradativamente. Essa liberação gradativa ela é
interessante também para reduzir o risco de alergias, porque disponibiliza o princípio
ativo aos poucos, e consequentemente tenho menos chance do meu sistema
imunológico reagir agredindo a pele (ELIPECHUK et al, 2014; RAJ et al, 2011; GUPTA
et al, 2022).
As nanocápsulas feita de silanóis possuem grande afinidade com a pele e facilidade de
penetração e absorção, suas camadas envolvem o ativo silício orgânico. O silício
orgânico é muito importante para nossa pele. O colágeno é hidrofílico, ele segura
moléculas de água, entre o colágeno e a molécula de água existe um conector que é
feito de silício orgânico, então o silício orgânico é muito importante para que aconteça
essa ligação. Essa tecnologia é superior as outras pois além de entregar o ativo,
também entrega o silício orgânico, que contribui para que nosso colágeno esteja
funcional. (GUPTA et al, 2022; ROSA, 2020; VERHAEGEN et al, 2011).